HOMENS MARINHOS, E MONSTROS DO MAR, DOS MARISCOS, DOS CARANGUEJOS – Fernão Cardim

HOMENS MARINHOS, E MONSTROS DO MAR, DOS MARISCOS, DOS CARANGUEJOS – Fernão Cardim

Fernão Cardim (1540? – 1625) – Tratados da Terra e Gente do Brasil

XVI

HOMENS MARINHOS, E MONSTROS DO MAR

Estes homens
marinhos se chamão na lingua Igpupiára; têm-lhe os naturaes tão grande medo que só de cuidarem nelle morrem muitos, e nenhum que o vê escapa; alguns
morrerão
já, e
perguntando-lhes a causa, dizião que tinhão visto este monstro; parecem-se com homens
propriamente de bôa estatura, mas têm os olhos muito encovados. As fêmeas parecem
mulheres, têm cabellos compridos, e são formosas; achão-se estes monstros nas barras dos rios doces. Em
Jagoarigpe sete ou oito léguas da Bahia se têm achado muitos; em o anno, de oitenta e dois indo hum índio pescar, foi
perseguido de hum, e acolhendo-se em sua jangada o contou ao senhor; o senhor
para animar o índio quiz ir ver o monstro, e estando descuidado por
huma mão
fora da canoa, pegou delle, e o levou sem mais apparecer, e no mesmo anno
morreu outro índio de Francisco Lourenço Caeiro. Em Porto-Seguro se vêem alguns, e já têm morte alguns índios. O modo que
têm
em matar he:abração-secoma pessoa tão fortemente beijando-a, e apertando-a comsigo que a
deixão
feita toda em pedaços, ficando inteira e como a sentem morta dão alguns gemidos
como de sentimento, e largando-a fogem: e se levão alguns comem-lhes somente os
olhos, narizes e pontas dos dedos dos pés e mão, e as genitalias, e assi os achão de ordinário pelas praias
com estes cousas menos.

XVII

DOS MARISCOS

Polvos O mar destas partes he muito abundante de polvos; tem
este marisco hum capello, sempre cheio de tinta muito preta; e esta he sua
defesa dos peixes maiores, porque quando vão para os apanhar, botão-lhes aquella tinta diante dos
olhos, e faz-se a água muito preta, então se acolhem. Tomão-se á frecha, e assovião-lhe primeiro; também se tomão com fachos de fogo de noite. Para se comerem os açoitão primeiro, e
quanto mais lhe derem então f icão mais molles e gostosos.

Azula — Este marisco he como hum canudo de cana; he raro,
come-se, e para o baoço bebido em pó e em jejum he único remédio.

Águas mortas — Destas águas mortas ha infinitas nestas partes e são grandes e são do tamanho de
hum barrete; têm muita dobras, com que tomão os peixes, que
parecem bolsos de atarrafa; não se comem, picando em alguma pessoa causam gran­des
dores, e fazem chorar, e assi dizia hum índio a quem huma mordeu que tinha recebido muitas
frechadas, e nunca chorara senão então. Não apparecem senão em águas mortas.

XVIII

DOS CARANGUEJOS

Uçá — Uçá he hum gênero de
caranguejos que se achão na lama, e são infini­tos, e o sustentamento de toda esta terra,
maximé
dos escravos de Guiné, e índios da terra; são muito gostosos, sobre elles he bôa água fria. Têm huma
particularidade de notar, que quando mudão a casca se mettem em suas covas, e ahi estão dous, três mezes, e
perdendo a casca, bocca, e pernas, saem assi muito molles, e tornão-lhe a nascer
como dantes.

Guanhumig — Este gênero de caranguejos são tão grandes que huma perna de hum
homem lhe cabe na bocca; são bons para comer; quando fazem trovões saem de suas
covas, e fazem tão grande matinada huns com os outros, que já ouve pessoas que
acudiram com suas armas, parecendo que erão inimigos; se comem huma certa erva, quem então os come morre.
Estes são da terra, mas vivem em buracos á borda do mar.

Aratú — Estes
caranguejos habitão nas tocas das arvores, que estão nos lama-rões do mar; quando
achão
algumas ameja tem a bocca aberta, buscam logo alguma pedrinha, e sutilmente dão com ela na
ameja; a ameja logo se fecha e não podendo fechar bem, por causa da pedrinha que tem
dentro, elles com suas mãos lhe tirão de dentro o miolo, e o comem.

Ha
dez ou doze espécies de caranguejos nesta terra, e como tenho dito, são tantos em
numero, e tão sadios que todos os comem, maximé os índios, &.

Ostras — As ostras são muitas, algumas dellas são muito grandes,
e têm
o miolo como huma palma da mão; nestas se achão algumas pérolas muito ricas; em outras mais pequenas também se achão pérolas mais finas.
Os índios
naturaes antigamente vinhão ao mar ás ostras, e tomavão tantas que deixavam serras de cascas, e os miolos
levavão
de moquem para comerem entre anno; sobre estas serras pelo discurso do tempo se
f izerão
grandes arvoredos muito espessos, e altos, e os portuguezes desco­brirão algumas, e cada
dia se vão achando outras de novo, e destas cascas fazem cal, e de hum só monte se fez
parte do Collegio da Bahia, os paços do Governador, e outros muitos edifícios, e ainda não he exgotado: a
cal he muito alva, boa para guarnecer, e caiar, se está á chuva faz preta,
e para vedar água em tanques não he tão se­gura, mas para o mais tão bôa como a de pedra
em Espanha.

Mexilhões — Não faltam mexilhões nesta terra; servem aos naturaes e portu guezes de
colheres, e facas; têm huma côr prateada graciosa, nelles se acha algum aljofre. Ha
um gênero
delles pequenos, de que as gaivotas se sustentao, e porque não o podem
quebrar, têm tal instinto natural que levando-o no bico ao ar o deixão cair tantas
vezes no chão até que o quebrão.

Berbigões — Os berbigões são gostosos e bons nesta terra, e nelles se achão aiguns grão de aljofre, e
assi dos berbigões, como dos mexilhões ha grande numero de muitas e varias espécies.

Búzios
Os maiores
que ha se chamao Guatapiggoaçú, se. búzio grande; são muito estimados dos naturaes, porque delles fazem
suas trombetas, jaezes, tontas, metaras, e arrecadadas, e luas6,
para os meninos, e são entre elles de tanjá estima que por hum dão huma pessoa das
que tem cativas; e os portuguezes davão antiga­mente hum cruzado por hum; são tão alvos como
marfins, e de largo muito delles têm dous palmos, e hum de comprimento.

Piriguay — Estes se comem também, e das cascas fazem sua contaria, e por tantas braças dão huma pessoa;
destes botas as vezes o mar fora serras, cousa muito para ver. De búzios e conchas ha
muita quantidade nesta terra, muito galantes, e pa­ra estimar, e de varias espécies.

Coral
branco
— Acha-se muita
pedra de coral branco debaixo do mar; nasce com as arvorezinhas toda em folhas
e canudos, como coral vermelho da índia, e se este também o fora, houvera grande riqueza nesta terra pela muita
abundância
que ha delle. He muito alvo, tira-se com diff iculdade, e também se faz cal
delle.

Lagostins
 Ha grande quantidade de lagostins, por esta costa estar quasi
toda cercada de arrecifes, e pedras; também se achão muitos ouriços e outros monstros, pelas concavidades das mesmas
pedras. . . 7 ou lagostas grandes, como as da Europa, parece que não ha por cá.

 

6 Gloues, em Purchas his Pilgrimes, vol. IV, p. 1.316. 7 Em Purchas his pilgrimes, vol. IV, p. 1.316, está: “. . . and Others Monsters found in he Concavities of the Rockes, great Cravesses or Crabbes like those of Europe. . .”
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