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Dos Normandos no século IX – VOLTAIRE – DO ENSAIO SOBRE OS COSTUMES E O ESPÍRITO DAS NAÇÕES


VOLTAIRE – DO ENSAIO SOBRE OS COSTUMES E O ESPÍRITO DAS NAÇÕES

CAPÍTULO XXV

Dos Normandos no século IX

Estando tudo dividido 1, tudo redundava em desgraça e fraqueza. Tal confusão abriu passagem aos povos da Escandinávia e aos habitantes das margens do mar Báltico. Esses bárbaros, bastante numerosos, não tendo para cultivar senão terras estéreis, não possuindo manufacturas e privados das artes, procuravam uma oportunidade para expandir-se longe da pátria. O banditismo e a pirataria lhes eram necessários, como a carnificina aos animais ferozes. Na Alemanha, chamavam-nos Normandos, homens do Norte, sem distinção, como dizemos ainda, generalizando, os corsários da Barbaria. Desde o século IV eles se misturavam às vagas dos outros bárbaros que levavam a desolação até Roma e a África. Vimos que, com os movimentos tolhidos e sob controle no reinado de Carlos Magno, temeram a escravidão. A partir da época de Luís, o Bonachão, puseram-se a deslocar-se e a incursionar pelas regiões vizinhas. As florestas que abundavam em suas terras forneceram-lhes madeira suficiente para a construção de barcos de remo e a duas velas, com capacidade para cem homens, com suas provisões de cerveja, biscoitos, queijo e carne defumada. Assim equipados, faziam-se ao mar, costeando as terras, desembarcando onde não encontravam nenhuma resistência e regressando com o fruto da pilhagem, que repartiam em seguida, de acordo com as leis do banditismo, tal como se pratica na Barbaria. No ano 843 penetraram na França pela embocadura do Sena e saquearam a cidade de Ruão. Outra frota entrou pelo Loire e devastou tudo até a Touraine. Levavam consigo os homens, para servirem de escravos, apoderando-se até das crianças, para ensinar-lhes a arte da pirataria. O gado, os móveis, tudo carregavam. Vendiam, às vezes, numa costa, o que haviam pilhado em outra. Seu bom êxito inicial excitou a cupidez dos seus compatriotas indigentes. Os habitantes das costas germânicas e gaulesas a eles se juntaram, do mesmo modo como tantos renegados da Provença e da Sicília tinham servido nos navios da Argélia.

1 O historiador vinha de mostrar, no capítulo precedente, o desmembramento do império de Carlos Magno sob os sucessores desse soberano.

Em 844, suas embarcações cobriam os mares. Foram vistos descendo, ao mesmo tempo, na Inglaterra, na França e na Espanha. Era preciso que os governos francês e inglês fossem mais destituídos de recursos do que o dos Maometanos na Espanha, para não terem tomado, como aconteceu, qualquer medida tendente a impedir essas incursões nos seus territórios. Na Espanha, os Árabes guardaram suas costas e repeliram, afinal, os piratas.

Em 845, os Normandos saquearam Hamburgo e espalharam-se pela Alemanha. Já não era, então, um simples bando de corsários sem ordem, mas uma frota de seiscentos navios, trazendo um formidável exército e tendo à frente um rei da Dinamarca, de nome Érico. Esse rei dos piratas ganhou duas batalhas antes de reembarcar, e depois de haver regressado à sua terra, com as presas feitas entre os Alemães, enviou à França um dos chefes de corsários, a quem os historiadores dão o nome de Régnier. Este subiu o Sena com cento e vinte navios à vela. Embora não haja indício de que essas cento e vinte embarcações levassem dez mil homens, e se presuma fosse o seu número bem inferior, o certo é que Régnier saqueou Ruão pela segunda vez e veio até Paris.

Em tais invasões, quando a fraqueza do governo impede-o de tomar qualquer medida de repressão, o terror do povo faz o perigo maior do que realmente é, e a maioria foge diante de uma minoria. Os Parisienses, que se tinham defendido em outros tempos com tanta coragem, abandonaram sua cidade aos invasores, que, não encontrando ali senão casas de madeira, atearam-lhes fogo. O infeliz rei Carlos, o Calvo, entrincheirado em Saint-Denis com um número reduzido de tropas, em lugar de opor-se aos bárbaros, pagou com dois mil marcos de prata a retirada que eles se dignaram realizar.. .

Carlos, o Calvo, comprando assim a paz, não fazia senão fornecer aos piratas novos meios de promover a guerra, enquanto se privava dos recursos para reprimi-la. Os Normandos serviram-se desse dinheiro para ir sitiar e saquear Bordéus. Por cúmulo da humilhação e do horror, um descendente de Carlos Magno, Pepino 2, rei da Aquitânia, não tendo podido resistir-lhes, a eles se uniu; e então a França, lá para o ano 858, viu-se inteiramente devastada. Os Normandos, fortalecidos pelos que às suas hostes iam aderindo, levaram, por muito tempo, a desolação e a ruína à Alemanha, Flandres e Inglaterra. Vimos, mais tarde, exércitos de cem mil homens conseguirem tomar apenas duas cidades, depois de vitórias assinaladas: tanto a arte de fortificar as praças e organizar os recursos se aperfeiçoara. Mas na época a que nos referimos, os bárbaros, combatendo outros bárbaros desunidos, não encontravam, após o primeiro sucesso, quase nada a impedir-lhes a marcha. Vencidos às vezes, reapareciam com novas forças.

Godofredo, príncipe da Dinamarca, a quem Carlos, o Gordo3 cedeu, enfim, uma parte da Holanda, em 882, penetra em Flandres pela Holanda; seus Normandos passam do Somme ao Oise, sem resistência, tomam e incendeiam Pontoise, e chegam por via fluvial e terrestre diante de Paris.

(885). Os Parisienses, que já aguardavam essa nova incursão dos bárbaros, não abandonaram, desta vez, a cidade. O conde de Paris, Odon — ou Eudes — depois elevado pelo seu próprio mérito ao trono da França, lançou na cidade uma proclamação que encheu a todos de ânimo e fez com que os defensores se mantivessem firmes nas torres e nas muralhas.

2 Pepino II, neto de Luís, o Bonachão.

3 Terceiro filho de Luís, o Germânico. Imperador em 881 e regente da França durante a menoridade de Carlos, o Simples, desonrou-se pela sua pusilanimidade ante os Normandos, sendo deposto em 887.

 

Segisfredo, chefe dos Normandos, lançou-se ao cerco com um furor demoníaco, mas não destituído de engenho. Os invasores serviram-se do aríete para derrubar as muralhas defensivas. Essa invenção era quase tão antiga quanto a das próprias muralhas, pois os homens são tão engenhosos para destruir quanto para construir. Afasto-me aqui, por um momento, do meu assunto, para observar que o cavalo de Tróia não passava de uma máquina semelhante a esse instrumento, na qual se adaptara uma cabeça de cavalo, feita de metal, depois substituída por uma cabeça de javali. É o que nos diz Pausânias em sua descrição da Grécia. Conseguindo abrir uma brecha, os Normandos realizaram três assaltos contra os defensores da praça. Os Parisienses resistiram com denodo e firmeza inabalável. Tinham à frente não só o conde Eudes mas ainda o bispo Goslin, que cada dia, depois de haver deitado bênção ao povo, postava-se na brecha, de capacete na cabeça, arnês nas costas, um machado à cinta e, fincando a cruz na barreira, combatia à vista do símbolo sagrado. É de presumir que o bispo gozava, na cidade, de tanta autoridade quanto o conde Eudes, pois foi a ele que Segisfredo se dirigiu, para entrar, afinal, com sua permissão, em Paris. Esse prelado morreu esgotado pelas fadigas suportadas em meio ao cerco, deixando uma memória respeitável e querida; armara-se com as mãos reservadas pela religião somente para o ministério do altar; e armara-se por esse mesmo altar, pelos seus concidadãos, pela causa mais justa e pela defesa mais necessária — primeira lei natural, sempre acima das leis convencionais.

Os Normandos mantiveram o cerco da cidade durante um ano e meio. Experimentaram os Parisienses todos os horrores acarretados por um longo sítio, a fome e a propagação de moléstias que daí derivaram, mas não cederam. Ao cabo desse tempo, o imperador Carlos, o Gordo surgiu, afinal, com socorros, no monte de Marte, hoje chamado Montmar tre; mas não ousou atacar os Normandos: viera apenas para negociar um armistício vergonhoso. Os bárbaros deixaram Paris, para irem sitiar Sens e saquear a Borgonha, enquanto o imperador se dirigia a Mogúncia, a fim de reunir o Parlamento, que lhe tirou um trono de que se mostrava indigno.

Os normandos continuaram suas devastações; mas, em-bora inimigos do nome cristão, jamais lhes veio à mente forçar alguém a renunciar ao Cristianismo. Eram mais ou menos como os Francos, os Godos, os Alanos, os Hunos, os Hérulos, que, buscando no século V novas terras, longe de impor uma religião aos Romanos, adaptaram-se facilmente a deles. Da mesma maneira, os Turcos, saqueando o império dos califas, submeteram-se à religião maometana.

Por fim, Rolão — ou Raul — o mais ilustre desses bandidos do Norte, tendo reunido na Escandinávia, depois de expulso da Dinamarca, todos os que quiseram ligar-se à sua fortuna, tentou novas aventuras, fundando sua esperança de grandeza na fraqueza da Europa. Aportou à Inglaterra, onde seus compatriotas já se haviam estabelecido; mas, depois de duas vitórias sem proveito, voltou-se para o lado da França, que os outros Normandos sabiam arruinar, mas não submeter Rolão foi o único desses bárbaros que deixou de merecer esse nome, procurando um local para fixar-se. Assenhoreando-se Ruão, sem dificuldade, em lugar de destruí-la man dou erguer ali muralhas e torres, tornando-a sua praça forte; e de lá atirava-se, ora sobre a Inglaterra, ora sobre a própria França, fazendo a guerra com tanta política quanto furor. A França estava agonizante sob o reinado de Carlos, o Simples, rei só de nome e cuja monarquia havia sido ainda mais. desmembrada pelos duques, condes e barões, seus súb ditos, do que pelos Normandos. Carlos, o Gordo dera apenas ouro aos bárbaros; Carlos, o Simples ofereceu a Rolão a filha e suas províncias.

Rolão pediu primeiramente a Normandia; e ficaram muito felizes em lha terem cedido. Exigiu, em seguida, a Bre tanha; disputaram-lha, mas foi preciso cedê-la, e ainda com cláusulas que o mais forte estabelece sempre a seu favor.

Assim, a Bretanha, até então um reino, tornava-se um feudo da Nêustria, e a Nêustria, a que se habituaram logo a denominar Normandia, pelo nome dos seus usurpadores, tornou-se um Estado separado, cujos duques rendiam simbólica homenagem à coroa da França.

O arcebispo de Ruão soube persuadir Rolão e converter-se ao cristianismo; e esse príncipe abraçou, de boa vontade, uma religião que lhe fortalecia o poder.

Os verdadeiros conquistadores são os que sabem fazer leis. Seu poder é estável; os outros são torrentes que passam. Rolão, pacificamente, foi o único legislador de seu tempo no continente cristão. É bem conhecida a inflexibilidade com que ele fazia justiça. Acabou com o roubo entre os Dinamarqueses, que até então só viviam de rapina. Muito tempo depois de haver deixado de existir, seu nome pronunciado era uma ordem para os oficiais de justiça correrem a reprimir a violência; e daí veio o uso de clamar haro ("venha aqui!", "socorro!") tão divulgado na Normandia. A fusão do sangue dos Dinamarqueses e dos Francos produziu nesses países os heróis que veremos conquistar a Inglaterra, Nápoles e a Sicília.

Fonte: Voltaire. Clássicos Jackson. Trad. Brito Broca.

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