Finalidade do Mundo – Farias Brito – vol. 2 (antologia)



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A FINALIDADE DO MUNDO

Raimundo de Farias Brito (1862-1917)

Fonte: Farias Brito
Uma antologia organizada por Gina Magnavita Galeffi. GRD-INL/MEC (1979)

2.° Volume

ESTUDOS DE FILOSOFIA E TELEOLOGIA NATURALISTA

O segundo volume, que corresponde à 2.a parte da Finalidade do Mundo, foi publicado no Ceará em 1899, isto é, quatro anos depois do primeiro, e tem como subtítulo "A Filosofia Moderna". Nele se revela quão profundo intérprete do pensamento filosófico moderno foi Farias Brito.

Na Introdução (Cap I I, II, III, IV) (II I, II, III, IV, V) A. B. C) ele aborda a crise pela qual passa a humanidade e aponta as tentativas de solução do problema social dadas pelos filósofos A. Comte, H. Spencer, K. Marx, mostrando sua ineficácia. Parte então para seu ponto de vista, dando-nos seu programa de reconstrução da sociedade. Ele nos diz que a questão social deve ser resolvida religiosamente em nome de uma idéia, de um grande princípio que só poderá ser encontrado na filosofia. Postas as bases deste seu ideal passa, no II Cap. da Introdução, a examinar os principais sistemas do pensamento moderno e contemporâneo, mostrando algumas curiosas tentativas feitas para resolver o problema do universo, tais como a frenólogía de Gáll, a psicologia matemática de Herbart, a psicologia etnográfica de Waitz, Lazarus, Steint-heil, a teoria psicofísica de Fechner. Deste capítulo nada apresentamos por se tratar de exposição de doutrinas alheias.

No primeiro livro intitulado "Filosofia Dogmática" examina as origens da filosofia moderna, que, na sua opinião, "começou dogmática". Considera portanto o pensamento de Bacon, Locke, Ber-keley, Hume, Descartes, Malebranche, Spinoza, Mill, Spencer. Mas é sobre Spinoza que mais medita e mais se detém, pois escrevendo a respeito dele quase oitenta páginas, revela sentir grande afinidade com o filósofo holandês. Farias Brito se inspira em algumas proposições da Ethica geométrico more demonstrada para formular o seu conceito da finalidade do mundo. Na pág. 274-78, com hábil desvio fala-nos do atraso da filosofia no Brasil, lamentando este fato. Retoma depois sua resenha histórica do pensamento examinando Spencer e o associacionismo e introduzindo o assunto da terceira parte de sua obra, Finalidade do Mundo.

 

 

PREFÁCIO

Só agora me foi possível publicar o segundo livro da série que sob o título geral de Finalidade do Mundo iniciei com o volume publicado em 1895 sobre a filosofia como atividade permanente do espírito humano. Daí para cá passou o plano primitivo do trabalho por uma ligeira modificação, ficando em definitiva a obra reduzida a três partes na seguinte ordem:

Primeira parte: A filosofia como atividade permanente do espírito humano.

Segunda parte: A filosofia moderna.

Terceira parte: Teoria da finalidade ou concepção teleológica do mundo.

Como se vê, pela simples disposição das matérias, obedece o trabalho a uma ordem lógica e necessária, sendo que cada uma de suas partes tem por objeto uma questão distinta, mas estão todas elas tão intimamente ligadas que cada uma pode ser considerada como a consequência imediata da precedente, e tcdas não formam senão aspectos diferentes de uma só e mesma questão fundamental .

Eis as questões da primeira e segunda parte*.

Primeira: O que é a filosofia?

Segunda: O que fez o pensamento humano pela filosofia na época que em geral se supõe ter sido a mais fecunda em civilização e cultura, isto é, durante o curso da história moderna?

Ê evidente que uma questão se prende necessariamente à outra, sendo que uma vez estabelecido o que é a filosofia em geral, o que cumpria, logo em seguida, era verificar o que por ela se tem feito. Daí a necessidade que havia de submeter a exame as produções mais notáveis, fazendo uma. como espécie de inventário da filosofia moderna. Tal é precisamente o objeto desta segunda parte.

. . . Agitando tão graves problemas, é desnecessário observar que tão somente me limito a levantar questões e sugerir idéias. Seria loucura se eu tivesse a pretensão de querer dar a solução definitiva sobre assuntos de tão elevada importância e que por tanto tempo, mas sempre sem resultado positivo, têm sido objeto da contínuas cogitações de tantos e tão valiosos pensadores.

Fortaleza, 1.° de maio de 1899

R. de Farias Brito.

 

 

Capítulo I (¹)

POSIÇÃO DO PROBLEMA I

A CRISE MODERNA

O estudo do universo apresenta-se sob a dupla consideração do mundo objetivo e do mundo subjetivo. O primeiro resolve-se em fenómenos físicos ou mecânicos: o segundo, em fenómenos psíquicos ou metafísicos: e todo aquele que quiser abraçar em suas investigações o conjunto da natureza, deve procurar uma explicação tanto para uma, como para outra destas duas ordens de fenómenos. Há quem já tenha procurado explicar o mundo objetivo em função do sujeito (idealismo), assim como há quem já tenha procurado explicar o mundo subjetivo em função do objeto (realismo, materialismo); e foram estas duas escolas opostas, que, entrando em múltiplas combinações, prevalecendo, ora um, ora outro dos dois pontos de vista, deram lugar à infinita variedade de sistemas em que esterilmente se divide e subdivide a atividade filosófica .

Esta variedade chegou a tornar-se pasmosa na época presente, e por isto extremamente confusa e incerta é a situação atual dos espíritos; mas, remontando a uma época mais remota, notar-se-á sem dificuldade que a intuição que chegou a prevalecer, e se organizou e generalizou em condições de exercer real influência sobre a sociedade, é a que se eleva à dupla concepção: — de Deus como causa primária do mundo ou explicação dos fenómenos físicos, ou melhor, do universo: — e da alma, como emanação de Deus e causa imediata dos fenómenos psíquicos.

(1) pp. 11-18

 

Há, pois, um princípio último que tudo explica, uma verdade suprema que tudo ilumina: esta verdade é o Deus vivo e real que mantém em equilíbrio o mecanismo do mundo. Mas para conhecê-lo não é necessário recorrer a processos estranhos à ordem da natureza: pelo contrário é observando a natureza que conhecemos Deus, é na natureza mesma que Deus se revela. E a alma? A alma é a consciência, isto é, a face interna da luz, uma revelação subjetiva da divindade, do mesmo modo que a natureza com todas as suas evoluções e mecanismos não é senão a sua revelação exterior.

Vê-se assim que o problema de Deus e o problema da alma não são propriamente duas questões distintas, mas apenas duas faces de uma só e mesma questão. É o que não tem deixado de ser pressentido, se bem que não se possa negar que resultam daí dois departamentos diversos para a atividade do espírito.

Antes de tudo o homem deve ter conhecido a si mesmo: na combinação do mundo exterior com o sujeito o que é imediato é o próprio sujeito, o resto vem depois. Quand a criança nasce, o que primeiro deve sentir e conhecer, é a própria existência, se é que já não tem esse sentimento e esse conhecimento no ventre materno. Com efeito, admita-se que uma coisa qualquer do mundo exterior chegue a ferir pela primeira vez e de certo modo a sensibilidade do homem. O que é que em primeiro lugar conhece o homem? Sem dúvida a sua própria sensibilidade: só depois é que pode estender o seu conhecimento aos objetos que estão fora de si: é a explicação que tem o célebre princípio cartesiano — cogito, ergo sum, como anterior a qualquer outro.

Tratando-se particularmente de Deus, é provável que a Concepção primitiva fosse a intuição natural segundo a qual Deus é a luz: e isto está de acordo com a significação etimológica da palavra Deus que, como se sabe, vem do sânscrito diaus, que quer dizer ar luminoso. É da mesma palavra que se origina o vocábulo dia. Isto pelo menos no grupo linguístico que se prende ao latim é ao grego.

Nas outras línguas é de crer que a palavra tivesse primitivamente a mesma significação. Mas esta tradição perdeu-se: e o homem, à força de querer tudo subtilizar e engrandecer, está dentro da luz, mas começou a procurar Deus nas trevas.

Mas de todo o modo, quer se considere Deus em face do mundo; quer se considere o homem em face de seus artefatos, o criador fica sempre de um lado, a criatura, do outro, inteiramente separados, essencialmente distintos.

Mas no caso do homem o criador é tudo, a criatura é nada. O que é vivo, o que é verdadeiro e real, é o homem mesmo. As criações a que dá, este, lugar, são apenas combinações artificiais a que são submetidas forças já existentes. O contrário sucede, tratando-se da criação universal. Aqui o que se impõe, o que é incontestável, verdadeiro, real, é a criação. O criador é uma vontade estranha à natureza, uma força de que o mundo depende, mas que é, de todo, sem ligação com o mundo, um nome apenas, uma idéia abstrata sem nenhuma significação objetiva; um princípio a que tudo se deve ligar, mas que é absolutamente inacessível ao nosso conhecimento.

E foi assim que, perdida a primitiva consciência divina, o homem começando por transportar Deus para fora do mundo, terminou por negá-lo. E em época alguma, cumpre notar, chegou esta negação a adquirir tão vasto domínio, como na época presente, em que não falta quem procure blasonar de ciência, fazendo ostentação de impiedade.

Mas negar Deus é negar a razão no mundo. Por isto desesperadoras, brutais haviam de ser as consequências que deveriam resultar do ateísmo moderno. E de fato, qual é o espetáculo que nos oferecem presentemente as lutas dos povos? Observai e vereis que é o mais desesperador e terrível, sendo que jamais passou a consciência humana por tão violentas agitações. Em primeiro lugar, debaixo de uma certa aparência de desenvolvimento e cultura, em realidade domina por toda a parte a injustiça.

Se, deixando de parte o testemunho individual dos pensadores, tratamos de considerar o organismo mesmo da sociedade e o ensino direto da história, veremos que não menos patente se torna a confusão que em tudo se observa. Com efeito, qual é a condição a que se acham presentemente reduzidos os diferentes povos do mundo civilizado, o que é que nos revela a história sobre a situação atual dos governos? Vejamos. O regímen social e político que nos foi legado pelo passado, após esse longo período da história a que se dá o nome de Idade Média, foi o absolutismo papal, sendo o Papa o verdadeiro representante de Deus sobre a terra, e devendo, portanto, todos os governos temporais, no que tem relação com a direção, não somente dos negócios que se referem a seus interesses particulares, como igualmente dos que dizem respeito aos interesses gerais da civilização, inspirar-se nas deliberações do Vaticano. Mas o absolutismo papal caiu com a Reforma. A Igreja fracionou-se e, com o fracionamento da Igreja, sucedeu ao absolutismo papal a monarquia absoluta. Já não havia nenhum intermediário entre Deus e os reis, sendo que, negada a autoridade do Papa, os reis mesmos é que são os representantes de Deus sobre a terra. Mas veio o livre pensamento e como repercussão do livre pensamento na história, a revolução. Esta explodiu, primeiro na Holanda, depois na Inglaterra, por último na França: e daí se transportou o movimento para todos os países da Europa, caindo afinal definitivamente a monarquia absoluta, para dar lugar à democracia moderna, tendo por lema fundamental a célebre fórmula revolucionária: — igualdade, liberdade, fraternidade.

Mas a democracia, por seu lado, fascinou por um momento os espíritos entusiastas, mas isto somente para dar, logo em seguida, de si mesma, a mais triste cópia.

Por isto não sem razão é que já por toda a parte se proclama a bancarrota das democracias. Deste modo, nem teocracia, nem monarquia, nem aristocracia, nem democracia. Ora, isto é confusão e desordem, isto é a mais desesperadora anarquia: e de fato anarquia é o que se vê por toda parte, em todas as manifestações da atividade mental, reinando na ordem política, como na ordem da evolução social, a mais profunda confusão, como a mais deplorável incerteza.

II (¹)

TENTATIVAS DE SOLUÇÃO

Todo o esforço do pensamento foi, pois, ao que parece, inútil, como estéreis foram todas as lutas da sociedade: e sobretudo de todo foi negativo o resultado geral da revolução francesa, sendo que totalmente em vão foi que esta produziu tanto sofrimento, como fez correr tanto sangue. Nestas condições novas são as soluções propostas, para o problema político, distinguindo-se entre as doutrinas mais importantes, três sistemas que são os que chamaram a si os espíritos mais eminentes. Tais são: a ditadura científica de Augusto Comte: o individualismo organicista de Herbert Spencer: e o socialismo coletivista de Marx: o primeiro nascido principalmente da inspiração das matemáticas: o segundo, do conhecimento das ciências naturais: o terceiro, da observação dos fatos económicos.

(1) p. 18.

 

III (¹)

INEFICÁCIA DESTAS TRÊS PRINCIPAIS TENTATIVAS DE SOLUÇÃO

Destas três tentativas de solução para o complicado problema da reorganização das sociedades, a mais ambiciosa é, sem dúvida, a de Augusto Comte. Basta saber que aí se pretende partir da ciência, ao mesmo tempo que só se pretende falar em nome da ciência. Ê a ciência que tudo deve regular: é, pois pela ciência que devem ser reorganizadas as sociedades. Isto é, de fato, decisivo: e posta assim a coisa em termos abstratos, não há objeção possível a fazer. Mas entremos um pouco no fundo da questão e logo veremos que tudo se desfaz como fumo.

Com efeito, o que vem a ser a ciência, segundo Augusto Comte? O positivismo. E o que vem a ser o positivismo? Uma concepção materialista do mundo, sendo aí: 1.°) negada a teologia: 2.°) suprimida a psicologia, que deverá ficar reduzida à condição de mero capítulo da fisiologia; 3.°) transformadas £s ciências sociais e políticas em sociologia, compreendendo não somente uma estática, como igualmente uma mecânica das sociedades. Como se vê, os termos da mecânica são empregados para a divisão fundamental da sociologia. É o materialismo fazendo invasão no mundo moral.

Augusto Comte nega Deus: é o que se deduz do conceito mesmo do positivismo, que é a negação da teologia. Augusto Comte nega a alma: é o que se deduz ainda do conceito do positivismo que é também a negação da metafísica. O regimen positivista é, pois, o mesmo regimen católico-feudal, menos as idéias.

(1) pp. 36-37

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