Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Finalidade do Mundo – Farias Brito – vol. 3 (antologia)



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A FINALIDADE DO MUNDO

Raimundo de Farias Brito (1862-1917)

Fonte: Farias Brito
Uma antologia organizada por Gina Magnavita Galeffi. GRD-INL/MEC (1979)

3.° Volume

ESTUDOS DE FILOSOFIA E TELEOLOGIA NATURALISTA

 

Esta terceira parte da Finalidade do Mundo intitulada "Evolução e Relatividade" é uma preciosa resenha da consciência filosófica contemporânea e viu a luz em Belém do Pará, para onde Farias Brito se transferira em 1902, seis anos depois da segunda. É apenas uma parte do que ele pretendia publicar, e disto ficamos sabendo pelo prefácio. "Força e pensamento ou solução do problema da existência pela concepção do mundo como atividade intelectual" ficou apenas uma promessa não mantida. No presente volume ele revela suas qualidades de crítico, unidas a uma cultura filosófica excepcional.

Começa com a consideração do estado atual do mundo exa~ minando as mais importantes correntes filosóficas da época moderna. Estas constribuiram para a dissolução da obra do passado. Positivismo e evolucionismo são criticados e atacados. Embora par* findo de pontos diferentes chegam à mesma conclusão: o . Comte e Spencer são reexaminados, comparados, vistos sob um novo prisma. Também Nietzsche volta a ser estudado e comparado com Spencer.

São apreciados Hartmarm, Noiré, Paulsen, Spinoza, Haeckel, um dos mais notáveis representantes do materialismo, Mill, Hamilton e outros.

No Cap. IX Farias Brito examina a filosofia crítica de Kant como forma subjetiva da teoria da relatividade e por mais de 80 páginas penetra na doutrina do grande pensador de Koenigsberg. No Cap. X é ainda Kant o centro das atenções do nosso filósofo, pois o criticismo kantiano nada mais é do que uma forma moderna de ceticismo.

À MEMÓRIA DE MEU PAI *

É de joelhos, meu pai, que faço à vossa memória para mim sagrada, o oferecimento deste livro. Possa esse fato servir como prova da sinceridade de meu pensamento, pois eu não vos poderia oferecer senão o que há de mais digno e mais alto em tudo o que porventura me seja possível aspirar e produzir.

i Marculino José de Brito, falecido em Fortaleza a 16 de agosto de 1901.

 

PREFÁCIO I

Ainda não termina com este volume a obra cuja publicação iniciei em 1895, sob o título geral de Finalidade do mundo, por ter tomado proporções maiores do que eu, de começo, imaginava, essa terceira parte que fui obrigado a dividir em dois livros de que só o primeiro é aqui dado à publicidade. O plano primitivo desta obra, já modificado na segunda parte, publicada em 1889, passou, ainda aqui, por algumas alterações; alterações, porém, que se entendem somente quanto ao método de exposição, não quanto ao fundo das idéias.

Tudo, porém, agora esta definitivamente assentado, compreendendo a Finalidade do Mundo três obras na seguinte ordem:

l.a) A filosofia como atividade permanente do espírito humano.

2.a) A filosofia moderna.

3.a) O mundo como atividade intelectual.

Esta última obra encerra os dois livros seguintes:

1.°) Evolução e relatividade: análise crítica da consciência filosófica contemporânea.

2.°) Força e pensamento ou solução do problema da existência pela concepção do mundo como atividade intelectual.

Sai neste volume o 1.° livro, e o segundo, ainda em preparação, será dado à publicidade, provavelmente, nestes dois anos.

 

II

A todos estes trabalhos ainda se segue mais outro, também em preparação, sob este título: A verdade como regra das ações. É o complemento prático da concepção do mundo como atividade intelectual.

Belém, 1905

R. Farias Brito

 

 

LIVRO I

EVOLUÇÃO E RELATIVIDADE

ANÁLISE CRÍTICA DA CONSCIÊNCIA FILOSÓFICA CONTEMPORÂNEA

Capítulo I (¹)

AS TEORIAS MODERNAS COMO DOUTRINAS DE DISSOLUÇÃO

Todos sentem, no estado presente do mundo, um mal-estar indefinível, uma agonia tremenda. Já não é somente nas camadas inferiores da sociedade que isto se nota. Também os chefes, também os que se acham à frente do movimento político dos povos, constantemente estão a se queixar. Nem é isto uma particularidade de nosso país. O mal é geral. É certo que sofremos; mas do mesmo modo sofrem todos os outros povos. E assim não é justo que atribuamos a causas locais a parte que nos cabe na crise. Não é justo, por exemplo, que atribuamos à mudança política operada com a queda do Império, a situação anormal a que nos achamos reduzidos. Pelo contrário, a República veio como uma consequência da crise geral que já poderosamente fazia sentir entre nós os seus efeitos; veio como uma aspiração de melhoramento, veio como um sonho de renovação. E se o mal, não obstante, perdura e, ao que parece, em condições mais agudas, é que a crise se faz cada vez mais intensa e há de seguir a sua evolução natural, não sendo possível desviar por meios artificiais os processos da história.

Sobre a crise por que no momento atual passa o mundo, fazendo-se sentir a mais profunda anarquia em todas as manifestações da vida social e moral, já tive de me ocupar longamente em outra parte.

(1) pp. 15; 21-24

 

Como se vê, nunca o espírito humano revelou uma tão extraordinária fecundidade. Chegam a causar espanto a variedade e riqueza da literatura moderna, já não falo das produções artísticas, do romance e da poesia, mas precisamente da literatura científica e filosófica. Os sistemas se sucedem numa fecundidade que quase posso dizer vertiginosa: e a esta poderosa e fecunda atividade intelectual corresponde na ordem material, com o desenvolvimento das ciências propriamente ditas, o mais largo desenvolvimento da indústria. Daí um certo entusiasmo febril da parte de muitos. Afigura-se-lhes como um fato incontestável a lei do progresso. Mas as consequências são desastradas, terríveis, na ordem moral. Em primeiro lugar, são todas as manifestações do pensamento, dominadas pelo espírito crítico, e a filosofia propriamente dita só tem concorrido para a dissolução da obra do passado. É assim aniquilado o velho dogmatismo; e no meio dessa geral demolição todo o mundo compreende e sente que a esfera da consciência humana se alarga, mas em vez de concorrer isto para assegurar o equilíbrio moral, ao contrário concorre para desfazer a harmonia da alma que fica vazia de ideal pela dissolução das crenças tradicionais. Depois, aniquilado o velho dogmatismo, só a concepção materialista se salva e está em condições de ser apresentada como dogma novo, propondo-se a fazer a dedução das leis da conduta. Ora, o materialismo é a afirmação da força e a negação da consciência. É, pois, evidentemente a negação da ordem moral, uma vez que não se pode conceber ordem moral sem consciência. E quando se queira interpretar a consciência debaixo do ponto de vista mecânico, explicando-a como um fenómeno material entre as outras manifestações da matéria, neste caso, como explicar a liberdade? Como explicar a vida moral e o princípio da responsabilidade em um mundo onde domina a necessidade mecânica?

O materialismo a nada disto responde; mas em se preocupar com as consequências, sem procurar ver até onde pode chegar, firma, não obstante, o seu dogma: a matéria é o princípio supremo. Ora, a matéria é a força inconsciente, e se a força é o único princípio a respeitar, a lei só pode ser esta: trate cada um de trabalhar pela maior expansão da força. Ser forte — eis a lei. Portanto, o que é preciso é dominar. Dominar sobre todos e sobre tudo — eis o ideal da conduta. É a moral de Nietzsche. Também Nietzsche tem sobre todos esses materialistas e positivistas que por aí pululam, míopes que visam ao escândalo e nem sequer compreendem a gravidade dcs princípios que defendem, — a superioridade incomparável da sinceridade, a audácia do convencido. É assim que partindo da força como princípio supremo, não vacila em admitir como instinto primordial e, -portanto, como fonte da vida moral, a vontade do poder. É assim que admitindo como aplicável também aos fenómenos de ordem social e moral, a concepção darwinica que dá como condição primordial do progresso o predomínio do mais forte, não vacila em estabelecer como lei a eliminação dos fracos, apregoando como virtude a crueldade; ao passo que a caridade, a compaixão, a piedade, são vícios, somente admissíveis como virtudes em uma moral de escravos. É assim que, adotando o princípio da relatividade do conhecimento, não vacila diante de nenhuma das consequências desse princípio, e aceita como regra de conduta para o homem verdadeiramente livre esta estranha divisa: "Nada é verdadeiro: tudo é permitido".

Não há espaço aqui para desenvolver a teoria de Nietzsche.

Também estas indicações são suficientes para dar uma idéia do caráter geral de seus princípios. E foi bom que a corrente da exposição me levasse a esse estranho moralista do super-homem. Nenhum autor melhor reflete o estado de anarquia a que se acha reduzido o espírito humano, e este exemplo por si só é bastante para mostrar até onde chegou na filosofia moderna a obra da dissolução. E este exemplo não é o único. Eu mesmo posso dar um testemunho decisivo dessa afirmação. Estando a preparar um trabalho de certa extensão, fiz aquisição de algumas das obras mais importantes que têm sido publicadas nestes últimos anos. Pois bem: posso assegurar que de todos os livros que me chegaram às mãos não encontrei um só que adiantasse uma linha para as questões de que trato. Continua ainda por toda a parte a demolição, nem foi até agora descoberta a chave para a solução dos grandes problemas, novamente propostos, de que dependem a felicidade do homem e o bem-estar e tranquilidade dos povos. Pode-se dizer que as últimas cogitações de muitos dos homens mais eminentes são uma verdadeira agonia, e alguns até parece que deliram. Já não me refiro a Schopenhauer e Hartmann: nestes a doutrina é apresentada em forma abstraía, e se bem que seja de natureza a impressionar, todavia não nos assusta. Mas em outros há sofrimento e revolta, parecendo que o coração estremece, como se se sentisse sob a pressão de horrível pesadelo. Há imprecações e lamentos. Há contorções e rugidos. Há gritos de estranho pavor. E uma doutrina aparece, ameaçadora, monstruosa, sombria, que tem por programa matar: — o anarquismo.

Daí a desordem profunda, a convulsão geral a que se acham reduzidas as sociedades modernas.

Só há um período na história, comparável à situação atual do mundo: foi a época que precedeu à dissolução do império romano. Também naquele tempo os grandes ideais haviam sido postos de lado. Em vão Tácito bradava com suas terríveis sentenças», contra a decadência do sentimento moral e a corrupção do Império. Já não se tinha mais fé na voz dos oráculos, nem sob qualquer pretexto, se podia fazer apelo ao patriotismo. Só havia um princípio capaz de se impor ao respeito dos homens: a força. Hoje, o fenómeno é o mesmo. Foram contestados e quase se pode dizer, de-truídos todos os grandes princípios que serviram de base à organização da sociedade, e estamos, por assim dizer, assistindo ao funeral dos nossos ideais mortos; e como na época da dissolução do império romano, só um princípio se impõe ao respeito dos homens: a força. Apenas uma diferença se nota: em Roma a força eram os exércitos; hoje a força é o dinheiro, sendo que em Roma eram os exércitos que ditavam a lei; hoje são os capitalistas e banqueiros que governam o mundo.

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