Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Finalidade do Mundo – Farias Brito – vol. 3 (antologia)



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Capítulo IV (¹)

 

A TEORIA DA EVOLUÇÃO E A IDÉIA DE "VOLTA ETERNA" DE NIETZSCHE

É curioso observar a afinidade que muitas vezes se nota entre certas doutrinas, em aparência, absolutamente inconciliáveis. Parece à primeira vista que nada se pode imaginar de comum entre Spencer e . Não faltará quem suponha que são dois pensadores que se prendem a tradições opostas: que falam duas línguas que não se entendem; que trabalham por ideais que se chocam. Entretanto todo esse antagonismo é mais aparente que real; e em verdade o ponto de partida é para ambos o mesmo: — a concepção darwinica; e o fim a que se dirigem é também o mesmo: — o estabelecimento, na ordem moral, como na ordem da natureza, de uma lei explicável somente por ação de forças puramente mecânicas. Não é, pois, para estranhar que a idéia essencial quanto à intuição geral da natureza, seja também para ambos, no fundo, exatamente a mesma.

(1) pp. 100; 101-102; 105; 106; 108; 109; 110; 112

Spencer não precisa a idéia de que as mesmas formas se hão de reproduzir, de que os mesmos tipos se repetirão. Apenas explica que à evolução sucede a dissolução, e que, por esta, os diferentes elementos do cosmos voltarão ao estado primitivo; mas não diz que a evolução seguirá a mesma marcha: que cada nebulosa formará o mesmo mundo. Antes parece mais em harmonia com seus princípios que a natureza se decomponha numa variedade infinita de mundos, podendo haver, nos mundos que se sucedem, todas as combinações imagináveis. É para supor que cada sistema, dissolvendo-se, entre em combinação com outros elementos espalhados no cosmos, ao mesmo tempo que grande parte de seus elementos próprios poderão entrar em combinação com sistemas estranhos, verificando-se assim uma espécie de circulação perpétua na substância cósmica em toda a extensão do espaço infinito. Deste modo não haverá repetição, mas reprodução de mundos que se sucederão indefinidamente, permanecendo no todo a mesma quantidade de força, mas desenvolvendo-se esta numa infinita variedade de combinações.

Nietzsche transportou a doutrina do domínio da pura especulação para o terreno da prática; nos fala, não propriamente como filósofo, mas com moralista; não se limita a contemplar imóvel o que se lhe afigura no horizonte do espírito, como a concepção da verdade; deduz desta concepção as leis da conduta. E como estas leis, pela forma por que as deduz, são terríveis, desesperadoras, cruéis, fácil é de compreender a revolução porque passou a sua alma. Ora, Nietzsche não pensa, sente o que diz: e como, durante toda a sua vida, foi um enfermo, sofrendo em alto grau, ao mesmo tempo na alma e no corpo, parecendo que todas as misérias da vida repercutiam com a maior intensidade no fundo de seu coração, daí resultou que toda a sua elaboração filosófica, que todo o seu esforço pela dedução de uma nova ordem moral, não foi senão um grito de angústia, grito de louco, poder-se-ia dizer: e o seu pensamento não foi, assim, uma meditação, mas um delírio.

Vejamos, porém, que significação tem a idéia da volta eterna nesta filosofia, que com justa razão se pode chamar patológica, do moralista, do super-homem. A coisa é simples. Nietzsche parte do princípio de que a quantidade de forças existentes na natureza é constante.

Ora, estas forças estão sempre em ação, reagindo umas sobre as outras, combinando-se umas com as outras, dando lugar a uma série indefinida de combinações;, por maneira que sempre que se dá uma combinação, esta produz a combinação seguinte, esta produz também a combinação seguinte, e assim sucessivamente, ad infinitum. Mas não poderá vir um dia em que estas forças sejam reduzidas ao estado de equilíbrio? Não; porque, sendo o tempo infinito, a todo o instante já se passou um tempo infinito, e portanto esse estado de equilíbrio já devia necessariamente ter chegado, e assim c mundo estaria para sempre imóvel.

Eu não entrarei, por enquanto, na apreciação do valor moral desta doutrina, nem tampouco me ocuparei em fazer a sua crítica. Nem isto, em rigor, é necessário, sendo certo que, para mostrar a improcedência de certas teorias, basta, algumas vezes, expô-las com fidelidade, pois a razão, por instinto natural, está logo vendo onde estão a verdade e o erro.

Nietzsche não deixou da teoria da volta eterna uma exposição sistemática.

Todavia é certo que o pensamento da volta eterna transparece em todas as suas obras, constitui a essência de sua teoria moral, e é a idéia que o domina mais a fundo.

Ora, com tal doutrina não há esperança para os que sofrem; não há salvação para os desgraçados. Não é, pois, de estranhar que o próprio Nietzsche, dirigindo-se aos enfermos, aos pessimistas, aos leprosos, aos degenerados de toda a sorte, se tenha manifestado por esta forma: — Que morram, que eles mesmos se matem, ou que alguém os mate, a estes infelizes, antes que tenham podido medir toda a profundeza do abismo de dores em que estão mergulhados, antes que tenham podido compreender o destino monstruoso que os condena a arrastar eternamente a sua cruz sem redenção possível.

Esta idéia da volta eterna segundo Nietzsche, ou da sucessão indefinida dos mundos segundo Spencer, Blanqui e Gustavo le Bon, não é senão a noção da imortalidade na teoria da evolução, ou mais precisamente, a noção da imortalidade na concepção materialista do mundo. Ainda bem que a necessidade fundamental do espírito., ainda bem que a aspiração n&tural da alma termina triunfando sempre, a despeito dos desvarios do cepticismo revolucionário e da crítica demolidora; e é do seio mesmo do materialismo que parte o grito: somos imortais: continuaremos a existir apesar das inúmeras transformações a que estamos sujeitos, nem pela morte cessaremos de ser, porque na evolução universal tudo se renova, tudo se repete e nada se perde.

Isto consola, a despeito de tudo, e por mais dolorosas que sejam as provações por que tenhamos de passar; em todo o caso uma idéia se impõe; é que fazemos parte do infinito e por conseguinte, como o infinito, não temos limites, nem no espaço, nem no tempo. Eu me convenci de nossa imortalidade em um dos momentos mais solenes, mais graves de minha vida: quando assisti à morte de meu pai. Creio que não me levarão a mal fazer aqui uma ligeira referência a este fato que é muito particular, que é muito privado; mas que é, em todo o caso, de uma significação elevada e profunda, e teve para mim o valor de uma revelação. Eu costumo assistir impassível à morte. Acho que a morte é natural, acho que a morte não é um mal, porém um bem. Apesar disto a morte de meu pai me doeu e ainda me dói; mas a minha dor, por mais profunda que tenha sido, teve, não obstante, o seu efeito benéfico. Todo o parto é doloroso; e assim também no domínio da vida espiritual se observa que é no momento da dor mais acerba que a verdade se revela. Meu pai me deixou por seu exemplo, o caráter; por seu amor, a convicção de que a vida não é sem justificação; e mesmo por sua morte, poderosa influência exerceu sobre o curso de minhas idéias.

Voltemos, porém, a Spencer. Está terminada a exposição geral. Vimos como os seus princípios coincidem nas conclusões gerais cem a mais estranha das doutrinas: a de Nietzsche. Este, de fato, pode ser considerado como o representante moral de todas estas idéias, ou mais precisamente, como o moralista da teoria da evolução. Mas tão desesperadora, tão monstruosa é sua intuição moral que, em rigor, pode ser indicada como uma demonstração por absurdo da falsidade desta filosofia, pelo menos considerada no sentido puramente mecânico, como é corrente. Resta agora examinar a questão em seu conjunto, e mostrar, pela análise direta dos princípios, a improcedência radical desta tão apregoada teoria da evolução; o que equivale a dizer: a improcedência radical do sistema materialista. Mas antes de entrar assim na parte crítica deste estudo, cumpre examinar a figura de Haeckel, isto é, cumpre estudar a teoria da evolução e a concepção monística do mundo. Será o objeto do capítulo seguinte.

 

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