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As Flores – A Tulipa – A Rosa.


A flor

linda rosa

Despontou o botão! cresceu! entreabriu! corou! desapertou-se! desdobrou-se de todo— eis a flor! Nunca a planta pareceu tão maravilhosa! sobretudo, nunca se mostrou assim amável! As co­res, o cheiro, as formas encantadoras desta efêmera *) maravilha, apelidada flor, namoram até aos espíritos mais rústicos, mais igno­rantes ou menos reflexivos. O. camponês se detêm para a consi­derar; o menino que ainda não fala, a pede por acenos; a formosa a cubiça, para se alindar; mil insetos e vermes folgam de se ir em­balar nela aos zéfiros [1]), a ave a espreita do seu ninho; a abelha lhe vai pedir mel; os olhos do velho, uma saudade; o pintor se apressa de a retratar; a floreira de a esculpir; o destilador de -lhe recolher o espírito em cristais; o sábio de a descrever, estudá-la, enquanto o poeta lhe deve e lhe consagra um canto íntimo; e o religioso extrai dela uma das suas orações mais fervorosas.

A. F. de Castilho.

A tulipa

floricultura, jardinagem

Entre as flores é a tulipa uma das que todos admiram, pela foi ma e elegância, pela variedade e brilho das cores, e combinação da lua e das sombras. Não há estofos, por mais finos e preciosos que sejam, que com ela rivalizem.

E contudo florescem todos os anos milhões de tulipas, que tô- das diferem umas das outras, e cujas proporções e belezas va­riam infinitamente. Seria possível que uma obra tão prima fôsse mera produção do cego acaso, sem intervenção de uma causa inteligente? Õ exame das formo- suras da natureza encaminha à contemplação da sabedoria incom­preensível, que tão pasmosos ob­jetos delineou com sublimada per­feição. (Idem)

A rosa

Ê a rosa a rainha das flores; distingüe-se pela forma graciosa, pela distribuição e abundância das fôlhas, pela ordem e harmonia do seu todo: o aroma, as côres lhe dão realce; mas ah! quanto é

transitório e frágil entre as suas companheiras; cedo perde os atra­tivos que a glorificam! De tão linda obra da criação em breve só ficará uma pequena hástea árida e talvez morta: duraram um ins­tante a sua vida e gentileza; as fôlhas desfalecem, as côres amor­tecem: e a flor, que ainda há pouco era comparada à virgem gra­ciosa no viço da mocidade, jaz con­vertida, como à donzela acontecerá um dia, em espectro do que foi, em esqueleto disforme.

Louçã [2]) e fogosa juventude, considerai nas flores a imagem do destino que vos aguarda; parecei-

vos com elas na formosura, com elas vos pareceis na brevidade, na duração. Pensai, mancebos, na sorte que vos ameaça, não vos jac­teis de dotes corpóreos. E vós, sexo delicado, que as sedutoras gra­ças adornam a quem os regozijos e passatempos circundam, e que com a vossa risonha presença os sítios mais melancólicos amenizais, não confieis em transitórios atrativos, que pelo mais leve e impre­visto acaso se perdem; não vos ensoberbeçais com a frescura da juvenil idade. Vêde quanto duram as lindas rosas! Como e dis­sipou a fragrância tão grata que exalavam! (Idem)

__________________ a menina e a flor

As flores

Que estranha magia devia possuir neste momento a lingua­gem humana para guindar a frase à altura da magnificência dêste certame, a que a natureza pródiga emprestou, na pompa radiosa desta primavera doirada, tôda a essência sutil da sua própria alma!

E que palavra, por mais ungida que seja de requintado liris­mo, por mais nimbada que seja de angelical meiguice, poderá ce­lebrar, com sejgurança de expressão, tôda a poesia infinita que vem de ti, ó flor, que és na missa da natureza, mal levanta a ma­nhã, a hóstia perfumada que a terra agradecida eleva em oferen­da ao sol!

Companheira inefável do homem, expressão da sua ternura, celebradora dos seus ritos, mensageira do seu amor, canto ‘da sua alegria, sêlo. do seu afeto, tu és a simbolização da própria vida, presente sempre, com a tua fragrância e a tua graça, a tua irisação de felicidade ou a tristeza do teu destino, a tôda a nossa exis­tência tumultuária, desde as primeiras rosas, alfinetadas com cari­nho ao cortinado de um berço, até as derradeiras dálias, espargidas com saudade sôbre os mármores tumulares.

Há sempre em ti, rosa de raça ou malmequer agreste, há sempre em ti uma espiritualidade encantadora, que exalta e como­ve, que inebria e enternece: e nem fio d’ouro, nem trama de bron­ze, nem faceta de diamante poderão jamais exprimir, em alta glória ou em requintada graça, em riso ou em lágrima, tôda a severa no­breza ou tôda a delicada ternura do pensamento humano.

És tu que traduzes, mais que o próprio verbo, incolor e inane, tôda a vibração dos nossos sentimentos, tôda a exaltação e tôda a angústia, ora\iercando, com o resplendor jias tuas rosas, a fron­te de um deus oil a cabeça de um mártir; ora mussitando , entre as pétalas de um) ramalhete humilde, a mais perfumada das preees ou a mais enternecida das súplicas.

Em que criação da natureza pode o homem buscar maior poe­sia? Que pedaço do céu ou mar encerra em si, por mais fulgente que seja a estrêla ou por mais doce que seja a onda, a fascinação inebriante de um renque de orquídeas raras ou a majestade soberba de uma paineira toucada ou a lindeza romântica de um cercado gracil, todo coroado de rosas?

Que poema ‘ imortal se cantou até hoje, em lira d’ouro, em cujas estrofes tu não resplandeças? Que amor sorriu no mundo, desde as idades pagãs, que não apertasse no seio um ramo de vio­letas, que não despertasse malmequeres e que, por fim, não des- ‘folhasse saudades ?. ..

[1]mussitando = murmurar, recitar em voz baixa.

É que toda a expressão espiritual cla vida, no que eia tem de mais delicado, de mais meigo e de mais puro, nasce da tua be­leza, emana do teu aroma, irradia da tua graça.

E’ porque tu derramas na nossa existência agreste todo êsse eflúvio sutil de poesia, é que conosco perenemente convives, em todas as nossas horas tristes e luminosas.

Que alegria pode sorrir sem a tua fragrância? Que triunfo se pode celebrar sem as tuas guirlandas? Que cerimônia se pode destoucar das tuas pétalas? Perfumas tôdas as religiões, juncas todos os altares, resplandeces em todos os cultos, e flor de escol, emergindo de uma ânfora de prata ou campânula humilde debru­çada num vaso de argila, tu és o raio de sol de todos os lares.

Enfeitas a vida e enfeitas a morte.

Nas tuas pétalas multicores se entrelaçam os mais puro afe­tos e se emba:am as lendas mais lindas, desde êsses lotus sagra­dos que ainda hoje descem, silenciosos, as águas do Nilo, levando amorosamente nos seus cálices os deuses recém-nascidos, até às rosas de Jericó em cujas corolas dormem as noivas sem mácula; desde essa flor de mirto, enlaçando o corpo escultural de Vênus, como uma serpente de lascivia, até à formosura cândida dessas ro­sas que numa praia pagã nasceram da espuma, brancas como a ne­ve, e se tingiram de púrpura, nas terras do Calvário, sob as gotas de sangue caídas da Cruz. ,

E ainda agora, nesta primavera flava a que se pode chamar com acêrto — a primavera da caridade — tu resplandeces aos nossos olhos maravilhosos, no mais alto apogeu da tua beleza imortal.

Vives em glória, para morrer em virtude, pois que dentro de algumas horas, quando começar a tua agonia, quando amarelarem • íS teus caules, quando fanarem as tuas pétalas, quando o vento le­var o teu último perfume — dêste prodigioso jardim nascerá, am­parada pelo teu prestígio, tôda uma grande obra de piedade re­dentora.

As tuas hastes formarão as colunas de um doce refúgio de esperança e de alívio.

És tu ainda, cheia de graça e cheia de bondade, que ajudarás a erigir e a cimentar o mais nobre, o mais santo, o mais cristão dos hospitais. E dos teus cálices, agora levantados, em oferenda, para o beijo luminoso do sol, correrá amanhã, como de uma fonte cristalina, a água lustral do maior dos bens.

Abençoada sejas, ó flor de poesia, flor de glória, flor de amor, flor de misericórdia!

Dr. Mario Totta.


1) Efêmera, — passageira.



[1] Zéfiro — brisa, vento brando e agradável.

[2] Louçã — sin. gentil, galante.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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