FRANZ BOAS – críticas aos métodos da antropologia evolucionista, reação às teorias racialistas e objetivos da pesquisa antropológica

FRANZ BOAS – críticas aos métodos da antropologia evolucionista, reação às teorias racialistas e objetivos da pesquisa antropológica

FRANZ
BOAS:

críticas
aos métodos da antropologia evolucionista, reação às teorias racialistas e
objetivos da pesquisa antropológica

 

Marcel Luis de
Moraes Oliveira ¹

 

 

Resumo

 

A antropologia evolucionista que
propunha uma única linha de desenvolvimento para a humanidade em geral e o
racialismo, teoria que faz julgamentos de valor dos indivíduos a partir de
características fenotípicas, eram dominantes até a primeira metade do século
XX, quando Franz Boas, através de artigos e conferências analisados no presente
texto, surge com críticas a essas teorias, propondo uma nova antropologia
fundamentada no conceito de cultura como o mais importante para a diversidade
humana, o relativismo metodológico, o método histórico e a necessidade de
estudar cada cultura como uma cultura em si.

 

Palavras-chave:
Franz
Boas, antropologia evolucionista, teorias racialistas

 

 

A antropologia evolucionista

A antropologia
evolucionista é uma das correntes da antropologia. Dominante até o início do
século XX, tem como seus expoentes, Lewis Henry Morgan, Edward Burnett Tylor e
James George Frazer. Partindo da observação de traços fundamentais em comum,
essa linha interpretativa parte da suposição de uma história comum a toda
humanidade.

            De acordo com Morgan (2004),
essa linha de pensamento antropológico apreendia três estágios de
desenvolvimento para a cultura humana:

pode-se afirmar agora, com base
em convincente evidência, que a selvageria precedeu a barbárie em todas as
tribos da humanidade, assim como se sabe que a barbárie precedeu a civilização.
A história da raça humana é uma só – na fonte, na experiência, no progresso.
(p. 44)

           

Esses três estágios são
capazes de explicar a ocorrência de elementos semelhantes em diferentes épocas
e lugares do planeta e a grande variedade de culturas existentes no mundo. Nem
todas alcançaram o último estágio de desenvolvimento – o europeu, havendo ainda
muitos homens no estágio de selvageria e barbárie. Esses, considerados
resquícios do passado.

            A antropologia, então,
precisava responder uma série de questões, como os selvagens passaram à
condição de selvagens e esses à civilização? Por que algumas tribos foram
deixadas para trás na trajetória do desenvolvimento humano enquanto outras
evoluíram mais rapidamente? E quais são as leis gerais que governam o
desenvolvimento humano? E, é possível a partir do conhecimento dessas leis
regular o agir humano? Sendo estas últimas o verdadeiro objetivo antropológico
na visão de Frazer (2004).

 

Os pressupostos teórico-metodológicos da antropologia evolucionista

Para chegar a tais
respostas, a antropologia evolucionista utiliza o método comparativo (ou novo
método) como metodologia, partindo do pressuposto teórico de uma única
mentalidade capaz de gerar único caminho de desenvolvimento possível para a
sociedade humana,

o estudo pode ser descrito como a
embriologia do pensamento e das instituições humanas, ou, para ser mais
preciso, como aquela pesquisa que busca verificar, primeiro, as crenças e
costumes dos selvagens, e, segundo, as relíquias dessas crenças e costumes que
sobreviveram como fósseis entre povos de cultura mais elevada (FRAZER, 2004, p.
106)

           

A idéia de considerar
as tribos não-européias como fósseis vivos, passíveis de estudo, é evidenciada
no seguinte trecho:

Em suma, a selvageria é a
condição primitiva da humanidade, e, se quisermos entender o que era o homem
primitivo, temos que saber o que é o homem selvagem hoje. (ibidem, p. 108)

           

Entretanto, o autor
salienta que os selvagens hoje, são primitivos quando comparados com a cultura
européia, não em relação ao homem primitivo original, tal como ele emergiu do
estado de existência bestial, quando colocado ao lado destes, o selvagem
moderno é um ser altamente desenvolvido e culto.

            Por conta dessa diferença
entre o homem selvagem atual e o primevo, ficam muitos abismos na compreensão
da evolução humana que só podem ser cobertos por hipóteses.

Na antropologia, como na
biologia, tais ligações são construídas pelo Método Comparativo, que nos
capacita a tomar emprestado os elos de uma cadeia de evidências para suprir as
faltas em outra. (…) a legitimidade do Método Comparativo assenta-se na bem
estabelecida similaridade do funcionamento da mente humana em todas as raças de
homens, (ibidem, p. 120)

           

O método comparativo
surge então considerando uma igualdade geral da natureza humana, na figura dos
“germes primários de pensamento” (MORGAN, 2004, p.44) que levam os homens à
evolução. A partir da disposição lado a lado das culturas e comparação entre
tais elementos, torna-se possível conhecer a trajetória da evolução da
humanidade, estabelecer as leis que regem essa evolução e descobrir os estágios
em que cada povo comparado se encontra.

 

As críticas de Franz Boas aos pressupostos teórico-metodológicos da antropologia evolucionista

A primeira crítica
boasiana a tais pressupostos reside no fato de que a mentalidade humana não é
algo uniforme e obedece a um conjunto determinado de leis, tampouco os são os
possíveis caminhos para o desenvolvimento das sociedades:

As idéias não existem de forma
idêntica por toda parte: elas variam. Tem-se acumulado material suficiente para
mostrar que as causas dessas variações são tanto externas, isto é, baseadas no
ambiente (…), quanto internas, isto é, fundadas sobre condições psicológicas.
A influência dos fatores externos e internos corporifica um grupo de leis que
governa o desenvolvimento da cultura. (BOAS, 2009, p. 27)

 

            Como a mente humana é
complexa e variada, também o são as instituições, invenções e descobertas
criadas a partir dela. Boas não aceita o pressuposto teórico de que os mesmos
fenômenos se desenvolvam da mesma maneira e a partir da mesma causa em todo
lugar, afirmando que há uma multiplicidade de caminhos para que esses fenômenos
possam se desenvolver.

            Para o autor, antes de tomar
os fenômenos humanos como unigênitos, deve-se primeiro considerar a
comparabilidade do material. Para ele, é inconcebível comparar tribos
completamente diferentes, que surgiram de forma díspar e supor que suas
invenções se dão a partir da mesma causa. Antes, é preciso verificar se tais
fenômenos não teriam se desenvolvido de maneira independente ou se teriam sido
transmitidas de um povo a outro.

            Para evitar amarrar os
fenômenos e forçar sua adequação dentro de uma camisa-de-força teórica – o
estabelecimento de grandes generalizações, Franz Boas sugere o estudo das
culturas tomadas individualmente e em sua totalidade, para a partir daí avançar
para a busca das leis régias da sociedade e não o contrário. Esse método de
indução empírica é chamado de “método histórico” e é defendido por Boas como
oposição ao ineficaz método comparativo.

 

As teorias racialistas

Para Todorov (1993),
racialismo é a teoria produzida na Europa Ocidental entre os séculos XVIII e XX
a partir de diferenças constatadas em análises do próprio grupo humano,
fundamentado em idéias etnocêntricas, essa doutrina surge de julgamentos de
valor que são feitos após as descrições sobre os outros encontrados pelos
navegantes na África e na América. Tem entre os seus representantes, Buffon,
Renan, Le Bon, Taine e Gobineau.

            Essa teoria afirma a
existência de uma “hierarquia humana com base biológica, hierarquia esta que
tem uma suposta analogia com a produção cultural dos diferentes grupos”.
(JESUS, 2008, p. 174) Buffon (apud TODOROV, 1993) considera os homens
pertencentes a uma mesma espécie (algo confirmado pela fecundação mútua) e,
portanto, pode-se julgá-los pelos mesmos critérios.

            O autor sugere uma
hierarquização através da sociabilidade e grau de civilização que um povo pode
alcançar, criando oposições entre a civilização ou a polidez versus a barbárie
e a selvageria. Partindo dessa lógica, no topo da pirâmide racial estão os
europeus ocidentais, logo em seguida, os outros europeus, abaixo, as populações
asiáticas e africanas, e na base, estão os selvagens americanos.

            Essas diferenciações sociais
levam o autor a interrogar-se sobre a unidade do gênero humano, encontrando
três parâmetros constituintes da variedade no gênero humano: a cor da pele, a
forma/tamanho do corpo e a cultura. É importante ressaltar que para Buffon, o físico
e o moral se misturam enquanto características capazes de diferenciar as raças
humanas.

            Outro intelectual
racialista, Renan (apud TODOROV, 1993), a partir da oposição entre arianos e
semitas, propõe uma hierarquização dos indivíduos na categoria raça, através da
humanidade em brancos (os mais superiores), amarelos e pretos (os mais
inferiores). Estando a raça negra no final dessa estratificação, sua tendência
é ser eliminada, já que sua inferioridade racial a torna incivilizável e não
suscetível ao progresso, enquanto a raça branca é o padrão absoluto de beleza,
inclusive, nunca tendo conhecido o estado selvagem.

            As teorias racialistas
consideram a mistura das raças como uma degradação e atribuem toda degeneração
à mistura de sangues: “os povos só degeneram em seguida às misturas e na
proporção em que sofrem” (JESUS, 2008, p. 182). A mistura de raças faria com
que os povos acabassem perdendo seus valores intrínsecos, já que seu sangue foi
paulatinamente modificado através dos acréscimos resultantes das misturas.

           

Reação Boasiana às teorias racialistas

Em 1931, Franz Boas,
então presidente da American Association for the Advancement of Science (AAAS),
faz uma conferência, reproduzida em “Raça e Progresso” que critica
vigorosamente estas teorias, até então dominantes no senso comum e no ambiente
acadêmico.

Acredito que o estado atual de
nosso conhecimento nos autoriza a dizer que, embora os indivíduos difiram, as
diferenças biológicas entre as raças são pequenas. Não há razão para acreditar
que uma raça seja naturalmente mais inteligente, dotada de grande força de
vontade, ou emocionalmente mais estável do que outra, e que essa diferença iria
influenciar significativamente sua cultura. Também não há razão para acreditar
que as diferenças entre as raças são tão grandes, que os descendentes de
casamentos mistos devem ser inferiores a seus pais. Biologicamente não há razão
para se opor à endogenia em grupos saudáveis, nem à mistura das principais
raças. (BOAS, 2009, p. 82)

           

Esse trecho retirado da
referida conferência resume a recusa boasiana ao pensamento vigente da época. O
autor começa sua argumentação desconstruindo o tipo ideal de cada uma das
raças, apontando para a existência de diversos indivíduos que pertencem àquele
grupo racial e que não se enquadram nos preconceitos abstraídos a partir de
nossas experiências mais cotidianas que nos induzem a formação de padrões para
as raças.

            Essa variabilidade de
características é comum a todos os grupos étnicos e é resultado da mistura de
raças, mistura essa que desempenhou um papel importante na formação de várias
populações modernas, inclusive as européias. Boas pontua que não há evidências
de que mestiços sejam inferiores de qualquer maneira às raças ditas puras,
chamando atenção para que a degeneração biológica é mais facilmente encontrada
em sociedades com intensa endogamia.

            No referente às
características raciais, o autor sugere que elas não são totalmente estáveis e
que estão mais sujeitas a modificações influenciadas pelo ambiente social e
geográfico do que por fatores étnicos da mesma maneira que ele desconsidera o
resultado dos chamados testes de inteligência, por acreditar que o ambiente
cultural dos indivíduos é o fator mais importante para determinar o resultado
desses testes, não o conjunto de características fenotípicas.

            Boas propõe também que a
problemática da mistura racial é mais influenciada por questões culturais que
biológicas. Grupos sociais tendem a não permitir que seres estranhos venham se
juntar e aponta como esse fenômeno se dá nas mais diversas esferas e ainda
contrapõe o argumento racialista de que as raças inferiores tendem a ser
subjugadas pelas superiores, sendo a guerra o instrumento usado para a “poda”
humana, afirmando que na guerra, são os fisicamente fortes que são eliminados e
os “devastadores flagelos da humanidade” são espalhados independentemente da
raça.

 

Propostas de Franz Boas quanto aos objetivos da pesquisa antropológica

 

Franz Boas (2009)
afirma que o objetivo almejado com o estudo da humanidade é a “tentativa de
compreender os passos pelos quais o homem tornou-se aquilo que é biológica,
psicológica e culturalmente.” (p. 88) Para que a antropologia possa alcançar
tal objetivo é necessário que ela recorra à história, de modo que seja possível
a compreensão do desenvolvimento da forma corporal humana, das suas funções
fisiológicas, da sua mente e da cultura:

A menos que saibamos como a
cultura de cada grupo humano se tornou aquilo que é, não podemos ter a
esperança de alcançar qualquer conclusão relativa às condições que controlam a
história geral da cultura. (ibidem, p. 97)

           

O estudo da história
das culturas fornece pistas para que se possa compreender como as culturas se
tornaram aquilo que são. O entendimento da dinâmica das sociedades existentes
também facilita a compreensão dos processos históricos e da evolução das formas
de vida.

            Conhecer a maneira como as
culturas se estabeleceram e se firmaram nas sociedades permite compreender,
através das relações entre indivíduo e sociedade, os fenômenos individuais, e
isso mais que estabelecer leis gerais do desenvolvimento da humanidade sem
considerar a reação do indivíduo à cultura, como pretendia a antropologia
evolucionista combatida por Boas.

Considerando essa
reação individual à cultura, a análise de culturas estrangeiras habilitaria o
observador a analisar os seus próprios comportamentos e se perceber enquanto um
produto cultural. Ao constatar quais traços de comportamento são moldadas pela
cultura, o pesquisador pode compreender quais são universais a todos os seres
humanos e partindo desse conhecimento sobre a “universalidade e da variedade
das culturas, a antropologia pode nos ajudar a moldar o futuro curso da
humanidade.” (ibidem, p. 109)

 

Referências bibliográficas

 

  • BOAS,
    Franz. As limitações do método comparativo da antropologia. In: Antropologia
    cultural
    . Trad. Celso Castro – 5. Ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
    2009.
  • ________.
    Os objetivos da pesquisa antropológica. In: Antropologia cultural. Trad.
    Celso Castro – 5. Ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2009
  • ________.
    Raça e progresso. In: Antropologia cultural. Trad. Celso Castro – 5. Ed.
    – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2009.
  • FRAZER,
    James George. O escopo da antropologia social. In: Evolucionismo cultural.
    Org. Celso Castro – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2004.
  • JESUS,
    Marcelo Siqueira de. A dialética da teoria racialista como saber para
    problematizar em pesquisas sobre questões raciais no campo da educação física
    escolar. In: Motrivivência. Ano XX. Nº 30, 2008, PP. 169-184.
  • MORGAN,
    Lewis Henry. A sociedade antiga ou investigações sobre as linhas do progresso
    humano desde a selvageria, através da barbárie, até a civilização. In: Evolucionismo
    cultural
    . Org. Celso Castro – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2004.
  • TODOROV,
    Tzveten. Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade
    humana. Trad. Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1993.

 

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