CRISE AMBIENTAL E MUDANÇA DE PARADIGMA: UMA POSSÍVEL SOLUÇÃO



 

CRISE AMBIENTAL E MUDANÇA DE PARADIGMA: UMA POSSÍVEL SOLUÇÃO

Thiago Felipe Sebben

 

A crise ambiental que vivemos, na contemporaneidade da existência humana, extremou-se tanto nas últimas décadas que acabou por tornar-se um assunto de suma importância para aqueles preocupados com os destinos da humanidade. Ora, essa crise ambiental está comprovada pelo aquecimento global e por outros efeitos – ou seria melhor dizer sintomas? – que o próprio planeta vem apresentando. Sua causa também já é conhecida: a atividade humana, que vem sendo muito mais predatória e virulenta do que harmoniosa e equilibrada com relação à natureza. Mas e a solução para esse cenário?

            Pois bem, a solução certamente passa pela produção, desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias, em todos os setores da economia, no sentido de reduzir a emissão dos gases que agravam o efeito estufa (CO² e outros poluentes). Entretanto, esse fator está intimamente ligado a uma mudança de paradigma na história da humanidade, e para se começar uma troca de informações, conceitos e interpretações da acerca do que é paradigma e qual é o fenômeno que essa palavra revela na realidade de nossa percepção, é necessário definir de que entendimento se fala acerca do fenômeno paradigmático, de qual degrau o fenômeno é contemplado. Se este degrau é mais alto, mais amplo, mais profundo, ou simplesmente mais volumoso em quantidade de informações; ou se é, pelo contrário, mais baixo, mais reduzido, mais superficial, ou simplesmente menos volumoso; não importa: o importante é estar disposto a buscar uma coerência acerca do entendimento do fenômeno a partir de uma relação social, estar disposto a abandonar seu degrau para visitar o do outro, e dali sair com mais uma perspectiva, para depois compreender quais são suas características. O julgamento vem na hora de usar, se esse entendimento se aplica à situação.

O entendimento do que é paradigma, foi a mim conduzido pelo professor Eurico Albuquerque, quando em seu material explicativo da disciplina de Paradigmas Emergentes, escreve que “a mudança de um paradigma para um ser-humano representa a escolha de outro sistema de crenças, construído por determinada cultura, em determinado momento, que norteará sua atuação biopsicossocial”. Ora, o paradigma é a forma com que o ser-humano lida com a experiência da vida, a sua forma pessoal de enxergar o mundo, influenciada pela cultura, pelo momento, mas que fará ele ser quem ele é, fazer o que faz, compreender o que compreende, e relacionar o que relaciona, enfim, manifestar o que manifesta. Sua atuação biopsicossocial depende de seu entendimento com a vida e si próprio, depende de sua auto-consciência e de sua consciência acerca dos fenômenos que nos rodeiam. O paradigma é o filtro com que interpretamos os fenômenos e construímos nossos entendimentos acerca do viver.

Nesse momento é fascinante perceber que autores, conhecidos por manifestarem idéias que compõem um novo paradigma na história do conhecimento humano, trazem uma contribuição no sentido da inovação dos modos de viver e agir do ser-humano, modos esses que conduziram a humanidade até onde ela está hoje. É uma contribuição no sentido dos emergentes do conhecimento.  Esse fenômeno é descrito na obra O ser quântico (1990), da autora Danah Zohar, de onde é possível extrair a existência de dois estilos de gestão, baseados em dois paradigmas diferentes:

 

Paradigma Atual

Novo Paradigma

Certeza

Incerteza

Previsibilidade

Mudanças rápidas

Hierarquia

Redes não-hierárquicas

Divisão de e fragmentação de funções

Esforço integrado / holístico

O poder vem do centro ou do topo

O poder vem de vários centros

Empregados passivos

Empregados sócios

Uma maneira correta

Vários pontos de vista

Competição

Compartilhar

Controle burocrático

Estruturas flexíveis

Eficiência

Relacionamento

Operação de cima para baixo (reativa)

Operação de baixo para cima (experimental)

Visão Dualista

 

· o átomo é indivisível;

· objetos são sólidos;

· o mundo físico é estável;

· o universo é mecanicista;

· existe e determinismo;

· a relação sujeito versus objeto;

· a realidade é percebida pelos sentidos;

· a observação é indireta;

· afirma a verdade absoluta da forma;

· o conhecimento é fragmentado;

· a consciência depende da estrutura cerebral fixa;

· a relação básica é ou/ou

Visão Holográfica

 

· estruturas subatômicas;

· impermanência da forma;

· transformação constante;

· probabilidades;

· universo das incertezas e paradoxos;

· inter-relação dos campos;

· análise dos efeitos;

· interação do observador;

· correlação com a experiência;

· o todo é maior que a soma das suas partes;

· expansão da consciência e suas alterações;

· relação com ambos: Ying e Yang

 

            Nossa organização social atual, bem como nossos entendimentos acerca de como devemos agir com relação à natureza provém das duas colunas da esquerda, enquanto o paradigma emergente de conhecimento é composto pelos elementos das duas colunas da direita.

Desse modo, fica claro que o caminho esperançoso para a humanidade dar um fim à crise ambiental, e porque não, na crise de valores que nos aflige, é o abarcamento dos novos elementos de entendimento da vida que compõe o paradigma emergente. Talvez o principal elemento, o diferencial entre os dois paradigmas expostos, é o entendimento que o todo não é somente o resultado da soma das partes, mas sim que todas as partes estão contidas e contém o todo. Trata-se da visão holística. A base epistemológica para se pensar dessa maneira é a concepção de pensamento complexo, fruto das de Edgar Morin. Nele não predomina o raciocínio fragmentador (o modelo mental binário do “ou/ou”: ou amigo ou inimigo; ou bem ou mal; ou certo ou errado; ou ocidente ou oriente; etc.), tampouco prevalece o utopismo da primazia do todo — o sistemismo reducionista. Uma visão de mundo abrangente deve nascer da complementaridade, do entrelaçamento — do abraço, enfim — entre esses dois modelos mentais (o linear com o holístico). Assim Morin denomina o pensamento complexo como sendo o pensamento do abraço.

Esse pensamento pode ser muito bem entendido no esquema que nos apresenta Ken Wilber (2008), em sua obra A Visão Integral. Ele diz que a complexidade da vida pode ser entendida e contemplada com sendo “estágios de desenvolvimento [...], cuja idéia é que cada estágio representa um nível de organização ou um nível de complexidade” (WILBER, p. 32, 2008).

 

esquema holítico

 

            No esquema é possível perceber que o todo pode ser reduzido em suas partes, mas o interessante é que não é só isso. Com o conhecimento da mecânica quântica e um cenário de probabilidades antes tidas como ilógicas, como dois corpos se adaptando e ocupando um só lugar, os saltos quânticos, o entendimento que matéria é energia condensada e que essa mesma energia pode se manifestar em forma de onda, as freqüências vibratórias da energia e de nosso cérebro, é possível dizer que o todo está contido nas partes também.

Isso tudo nos leva a concluir que é possível, através de práticas corporais específicas, atingir níveis de consciência que nos possibilitem abraçar cada vez mais o micro e o macrocosmo, pois ambos estão contidos em nosso corpo. Tais práticas corporais, como o yoga, o tai chi chuan, as danças circulares, o uso de psicotrópicos, as mudanças alimentares, o sexo tântrico, o kama sutra, entre inúmeras outras, podem servir como meios de se atingir freqüências vibratórias cerebrais que se harmonizem com o todo contido em nosso corpo e nos levem a compreensões cada vez mais amplas e profundas do fenômeno da vida. Ken Wilber é claro em afirmar que:

A sustentabilidade do ambiente exterior é obviamente necessária; mas sem crescimento e desenvolvimento nos domínios internos dos níveis de valores e de consciência centrados no mundo, o meio ambiente continua seriamente ameaçado. Quem busca apenas soluções externas está de fato contribuindo para o agravamento do problema. O eu, a cultura e a natureza precisam se libertar juntos ou não se libertam jamais (p. 100, 2008).

 

Trata-se de se conectar à teia da vida por meio do trabalho, desenvolvimento e aprimoramento dos níveis de consciência internos, conexão essa que, avaliando a partir dos valores propostos pelo conhecimento referente aos paradigmas emergentes, será uma força benéfica na solução dos problemas ambientais que enfrentamos, contribuindo na criação de soluções inovadoras externas para que tenhamos um ambiente sustentável.

            Quem contribui no sentido de perceber melhor o que é essa teia da vida é Fritjof Capra.

Capra avalia que a teoria dos sistemas vivos fornece o quadro conceitual para o estabelecimento do vínculo entre as comunidades ecológicas e as humanas, já que ambas são sistemas vivos que exibem os mesmos princípios básicos de organização. Com base nesses pressupostos, Capra expõe então uma lista de princípios de organização que podem ser identificados como princípios básicos da , para que possamos transpô-los para a sociedade e utilizá-los como guia de construção das comunidades humanas sustentáveis. (VER CITAÇÃO NA INTERNET).

 

Ele entende que uma rede de reações químicas gera células; células se agrupam e geram uma rede metabólica; a rede metabólica gera forças para manter vivo um organismo multicelular; organismos multicelulares da espécie humana geram comunicações; comunicações se agrupam em redes e geram as diferentes culturas. As redes biológicas são do início até a organização de organismos multicelulares, já a transposição dessas estruturas para as redes sociais se dá a partir das comunicações e tudo o que estas geram a seguir.

Baseado nesse entendimento das redes vivas, ou simplesmente teia da vida, o autor propõe uma “virada de jogo”, para que possamos superar a crise ambiental que assola e condena o futuro de toda a vida do planeta. Entretanto, ele alerta: “qualquer discussão realista sobre o virar do jogo deve começar com o reconhecimento que a forma atual da globalização econômica foi conscientemente planejada e pode ser re-formatada” (CAPRA, p. 6, 2003). Para auxiliar nesse reconhecimento, o autor explica o que é a nova economia e explica algumas de suas conseqüências.

É caracterizado por três aspectos fundamentais. O cerne de suas atividades econômicas é global; as fontes principais de produtividade e competitividade são: inovação, geração de conhecimento e processamento da informação; e tudo isto está amplamente estruturado ao redor de redes de fluxos de financiamento. Na nova economia o capital trabalha em tempo real, movimentando-se rapidamente de uma opção para outra, numa busca global incansável por oportunidades de investimentos. Os movimentos deste cassino global, controlados eletronicamente, não se enquadram em nenhuma lógica de . [...] Estas turbulências amplamente descontroladas resultaram em uma série de drásticas crises financeiras nos anos recentes. O impacto da nova economia no bem estar do ser humano tem sido negativo até o presente momento. Enriqueceu a elite global de especuladores financeiros, empresários e profissionais de alta capacitação , mas as conseqüências sociais e ambientais no seu todo, tem sido desastrosas. (Idem, p. 5, 2003).

 

Sua proposta, afinal, é favorecer e fomentar, através de cinco princípios básicos de qualquer rede viva – independente do nível -, “a criação de comunidades sustentáveis lastreadas na prática do planejamento ecológico (ecodesign)” (Idem, p. 4, 2003). Essas comunidades sustentáveis são “geralmente definidas como aquelas capazes de satisfazer suas necessidades e aspirações sem reduzir as probabilidades afins para as próximas gerações” (Idem, p. 8, 2003). Já o ecodesign é entendido como uma transposição de princípios contidos nas redes biológicas para as redes sociais, transformando de vez o “modus vivendi” da humanidade.

No total são cinco princípios: interdependência; fluxo cíclico ou ciclagem; parceria; flexibilidade e diversidade. O primeiro princípio, da interdependência, afirma que é necessário que a humanidade compreenda as relações do todo e suas partes, compreenda que está conectada numa rede de relações com gaya, para que consiga captar em sua consciência a interdependência ecológica. Somente assim a humanidade vai pensar duas vezes antes de jogar um lixo na rua, ou despejar produtos químicos nos rios, emitir gases tóxicos, desperdiçar água tanto por poluí-la quanto por exagero no uso. Capra ainda lembra que, do ponto de vista sistêmico, o entendimento das interações entre as partes é mais importante até mesmo do que as próprias partes.

            O segundo princípio é o fluxo cíclico ou ciclagem. É a não produção de resíduos na natureza, utilizando-se de um sistema produtivo linear. Um exemplo disso é a criação da célula combustível de hidrogênio a partir da água. Nessa produção, ocorre a separação da água, usando a energia solar para decompor a água em oxigênio e hidrogênio, produzindo eletricidade a partir do hidrogênio, e terminando com a água, outra vez. “Será, em longo prazo, o meio mais econômico e limpo. Quando isto se materializar teremos criado um verdadeiro sistema sustentável de geração de energia” (Idem, p. 10, 2003).

            O terceiro princípio é a parceria. Esse termo não pode e nem deve ser confundido com cooperação, uma vez visto que existe cooperação, por exemplo, das organizações sociais que compõem o lobby do petróleo e defendem seu uso até o esgotamento, pois isso os favorece. Existe, claro, aquela cooperação existente no sentido da , que produz e distribui os víveres produzidos de maneira mais justa, mas para não existir confusão, usemos somente parceria. A parceria pode ser associada, nas redes biológicas, à simbiose, conceito no qual determinados seres vivos vivem em conjunto, um auxiliando o outro a manter-se vivo.

            O quarto princípio é a flexibilidade. Ele é demonstrado quando um ecossistema sofre mudanças em suas condições ambientais, mas, após algum período, atinge um ponto de equilíbrio.

A esse respeito, Capra ressalta que o princípio da flexibilidade também sugere uma estratégia correspondente de resolução de conflito. Em cada comunidade, invariavelmente existem contradições e conflitos, como a tensão entre estabilidade e mudança, ordem e liberdade, tradição e inovação. Capra sugere que, melhor do que decisões rígidas e inflexíveis, esses inevitáveis conflitos são resolvidos pelo estabelecimento de um equilíbrio dinâmico, porque ambos os lados da tensão são importantes dependendo do contexto em que se encontram, e a contradição dentro de uma comunidade não é nada mais do que um sinal de diversidade e vitalidade que contribui para a viabilidade do sistema (VER CITAÇÃO NA INTERNET).

 

            O último princípio abordado por Capra é a diversidade. É através dela que um ecossistema garante sua resiliência ou sua perpetuação. Um ecossistema diverso será composto por muitas espécies que serão aptas a superpor funções ecológicas que deixem de ser executadas por outras espécies. No caso de um elo da rede se desfazer, outra estrutura do sistema assume a função.

            Para concluir, cabe a reflexão dos entendimentos aqui expostos, principalmente no que tange à proposta de mudança de paradigma. Que cada um de nós seja invocado a questionar qual nossa função na sociedade, na natureza e na nossa própria vida e, claro, julgar se estamos agindo de acordo com essa função. Enquanto nós, seres vivos com uma camada a mais de neocórtex em comparação com outros animais – a camada responsável pela autoconsciência (BUCKE, 1982) -, não agirmos em consonância com nosso real valor e nossa real função – não ser um vírus que mata, mas sim um humano que cria -, a natureza continuará tentando nos expulsar de seu sistema e menos chances teremos de nos manter vivos.

 

 

REFERENCIAL TEÓRICO

 

BUCKE, R. M. Consciência cósmica: estudo da evolução da . 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Renes, 1982.

CAPRA, F. Idéias ecológicas. São Paulo, 2003. (www.fritjofcapra.net).

CAPRA, F. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. Tradução: Marcelo B. Cipolla. São Paulo: Editora Cultrix, 2002.

WILBER, K. A visão integral: uma introdução à revolucionária Abordagem Integral da Vida, de Deus, do universo e de tudo mais. Tradução: Carmen Fischer. São Paulo: Editora Cultrix, 2008.

ZOHAR, D. & MARSHALL, I. N. O ser quântico: uma visão revolucionária da natureza humana e da consciência baseada na nova física. Tradução: Maria Antônia van Acker. Editora Best Seller, 1990.

           

 

Comentários

Mais textos

1 comentário - Comente também

Prezado visitante: por favor, não republique esta página em outros sites ou blogs na web. Ao invés disso, ponha um link para cá. Obrigado.


Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Início