História de Tiradentes – Viriato Corrêa



História  de   Tiradentes –

 

Fonte: A bandeira das esmeraldas, cia Ed. Nacional

A    conspiração

 

N

aquela noite os inconfidentes(1) se reuniam na Chácara do Cruzeiro — a bela vivenda do coronel Francisco de Paula Freire de Andrade.

Era em Vila Rica(2), capital de Minas Gerais, nos primeiros dias do ano de 1789.

A reunião prometia ser concorridís-sima. Já haviam entrado vários homens importantíssimos da cidade e da capitania.

O primeiro a chegar foi o velho Cláudio Manuel da Costa, grande poeta e grande advogado, uma das maiores culturas(3) de Minas Gerais. Veio com o cônego Luís Vieira da Silva, o mais erudito(4) dos padres mineiros daquele tempo. Recebeu-o à porta o Dr. José Álvares Maciel, cunhado do dono da casa.

A seguir entrou o poeta Inácio José de Alvarenga Peixoto. Acompanhava duas senhoras. Uma, a sua mulher, a ilustre Bárbara Heliodora, e outra, a linda Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, conhecida agora pelo doce nome de Marília porque assim o noivo, Tomás Antônio Gonzaga, a chamava em versos.

(1)     Inconjidente — infiel ao rei,  que conspira contra o rei.

(2)     Vila Rica — antigo nome da cidade de Ouro Preto.

(3)     Cultura — saber.

(4)     Erudito — que sabe muito.

 

Depois chegou o padre Carlos de Toledo e Melo, ao lado do irmão, o sargento-mor Luís Vaz de Toledo e Pisa.

Não tardou muito e entraram os padres Oliveira Rolim e Manuel Rodrigues Costa, o coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes e o Dr. Domingos Vidal Barbosa, médico formado na França.

Um dos últimos a chegar foi o desembargador Tomás Antônio Gonzaga, o famoso poeta dos versos a Marilia.

E toda essa gente, uns embuçados e outros não, ao começar a subida da ladeira do morro da chácara, tornava-se mais cautelosa.

Por que essa cautela ?   Para que aquela reunião ?

Para conspirar.

Conspirar contra quem ?

Contra o governo.   Contra o rei.   Contra Portugal.

Por quê ?   Para quê ?

Vou explicar, meus meninos.

Os sofrimentos do povo

Nos primeiros tempos, o Brasil era paupérrimo. Ao que se afirmava, havia muita prata, muito ouro e muitas pedras preciosas. Mas, durante um século e pouco, ninguém encontrou essas faladas riquezas.

Os bandeirantes paulistas nunca se desiludiram de as encontrar. Tanto e tanto trilharam o sertão à procura das minas de ouro, que acabaram achando uma porção delas. Ouro, como vocês sabem, é riqueza, e riqueza, para quase todo o mundo, é felicidade.

Era de esperar, portanto, que o Brasil, desde o momento em que os paulistas acharam as minas, passasse a ser feliz, muito e muito mais feliz do que nos seus tempos de pobreza.

 

Mas assim não aconteceu. Não aconteceu porque Portugal arregalou os olhos em cima do nosso ouro. Para evitar que nós aproveitássemos das minas tomou medidas tremendas contra nós.

Daí por diante, a pouca liberdade de que gozávamos desapareceu inteiramente.   Não tínhamos direito a nada.

Se alguém abria uma estrada, o governo imediatamente mandava fechá-la sob o pretexto de que, por ela, os brasileiros podiam  carregar contrabando de ouro.

Se alguém fundava uma fábrica de tecidos ou de qualquer outro artigo, o governo fechava a fábrica. O Brasil não podia comprar mercadorias senão nas fábricas de Portugal.

Imprensa, correio, até certas profissões, tudo era proibido. O Brasil, para a corte portuguesa, não passava de uma grande fazenda e, como fazenda, tinha que produzir o maior lucro possível.

O nosso ouro devia dar. para tudo, para os reis esbanjarem, para a corte se regalar, para os fidalgos viverem na preguiça.        

Quando o rei pretendia construir um palácio, mandava imediatamente aumentar os impostos nas zonas das minas. Quando um príncipe ou uma princesa estavam para casar, a corte, sem a menor cerimônia, mandava pedir aos povos das minas uma certa quantia para o casamento.

E não pensem que fosse coisinha. De uma vez, para um só casamento, fomos obrigados a dar de presente (chamava-se a isso presente !) nada menos de cento e vinte e cinco arrobas de ouro. Para outro casamento, não tivemos outro remédio senão dar a quantia de seiscentos contos que, naquele tempo, representavam uma fortuna colossal.

O povo vivia em completo desespero. Tinha nas mãos uma riqueza maravilhosa que eram as minas de ouro e essa riqueza passava inteira para as mãos de outrem.

E isso, cada vez, lhe doía mais no fundo da alma. Mesmo porque, com o aumento dos impostos, dia a dia, a vida se tornava mais insuportável.

 

Os povos queixavam-se .à corte. Inutilmente. Em vez de medidas generosas, o governo exigia ouro e mais ouro.

E que todos ficassem calados! Quem tivesse o atrevimento de protestar iria irremediavelmente para os degredos(5) da Costa dÁfrica ou para os cárceres das prisões.

Tanto e tanto se aumentaram os impostos sobre o ouro que o povo não os pode pagar. Mas não pensem vocês que o governo voltou atrás. Não pensem que, tendo verificado a impossibilidade do pagamento, perdoou os impostos. O que fez foi considerar o povo em atraso de dívida.

E, de tempos em tempos, mandava cobrar rigorosamente os impostos atrasados. Essa cobrança tinha, em Minas Gerais, a denominação de derrama.

Ninguém podia fugir a ela. O mineiro vendia até a camisa do corpo para satisfazer às exigências do governo.

O coração brasileiro, como era natural, foi-se envenenando. Nasceu-lhe a inquietação dos povos sofredores, a ânsia de sair o mais depressa possível do domínio português. O sentimento de liberdade acendeu-se em todos os espíritos. Por toda a parte não se falava senão em independência, na necessidade de não ter o Brasil mais senhor e de tornar-se senhor de si mesmo.

Mas, a independência de um país, meus meninos, não se faz com brincadeira. Para fazê-la é necessário uma revolução. E uma revolução precisa de um chefe.

O chefe de uma revolução deve ter qualidades      excepcionais. Deve ter prestígio popular. Deve ter energia.               Deve ter bravura. E deve principalmente ser uma criatura                                capaz de sacrificar a própria vida pela causa que defende.

Para fazer a revolução libertadora, a capitania de Minas só necessitava de um chefe.

E o chefe apareceu.   Quem era ele ?

(5) Degredo ~ expulsão da pátria com a nota de infame.

 

O    T ir a d ente s

Tiradentes por quê ? Porque tirava dentes. Sem ter passado por nenhuma escola de cirurgia tornara-se, pela sua imensa habilidade, um excelente cirurgião-dentista.

O seu verdadeiro nome era Joaquim José da Silva Xavier.

Querem vocês conhecer-lhe a biografia ?

Nasceu em Minas, a 12 de novembro de 1746, na fazenda Pombal, à margem direita do rio das Mortes, nas vizinhanças da vila de S. João d’El-Rei.

Nasceu de pai português — Dominós da Silva Santos e de mãe mineira — Dona Antônia Xavier. No rol dos seus sete irmãos havia dois padres — Domingos da Silva Xavier e Antônio da Silva.

Tem-se afirmado por aí que Tiradentes não passava de um ignorantaço.   É um erro.

Para a época em que viveu tinha instrução acima da vulgar. Sabia regularmente latim, regularmente francês. Conhecia mineralogia como poucos ali em Minas. Media terras como qualquer agrimensor.

E mais: tinha uma acentuada vocação para a medicina e para a cirurgia.

Não lhe faltavam qualidades. Era inteligente, ativo, franco, leal e enérgico. Coração de ouro. Dinheiro para ele não valia nada. A dor alheia fazia-o sofrer como se fosse sua própria dor.

Alto, moreno, simpático, impressionava profundamente às criaturas de quem se aproximava.

 

Tinha o poder de encantar a toda a gente. Principalmente se falava, ou melhor, se discursava. Era orador e orador de palavra fácil, quente, arrebatada.

A sua vida foi áspera e penosa. Tentou várias profissões. Uma delas a de mascate(6). Por muito tempo andou vendendo mercadorias de vila em vila, de povoado em povoado, de fazenda em fazenda.

Tentou-também a mineração(7).    Mas foi infeliz.

Mais tarde entrou para a carreira militar. Mas teve o desgosto de ser quatro vezes preterido nas promoções.

Não passou do posto de alferes.

Naquele tempo não havia exército brasileiro no rigor da palavra. O que predominava era o elemento português. Um brasileiro com dificuldade subia de posto, principalmente se não sabia lisonjear os chefes.

E Tiradentes não sabia lisonjear ninguém. Era integralmente um homem de caráter. De caráter e de sentimentos de humanidade.

Querem ter vocês uma idéia da grandeza daqueles sentimentos ?   Vou contar-lhes um fato.

O caso se passou no tempo em que Tiradentes, ainda rapaz, andava vendendo mercadorias.

Um dia hospedou-se ele numa fazenda, em Minas Novas.

Um escravo cometeu uma falta qualquer e o dono da fazenda imediatamente correu a castigá-lo. Mas, começou a castigá-lo com tanta brutalidade e tanta barbaridade que Tiradentes não se conteve e protestou*

—  O escravo é um ser humano, disse, e, como ser humano, não pode ser tratado dessa maneira.

—  Que tem o senhor com isso ? O escravo é meu, faço dele o que quiser.

 

(6)    Mascate — vendedor ambulante.

(7)    Mineração — exploração de mina.

 

E puseram-se a discutir. O dono da fazenda era poderoso: mandou meter o hóspede na cadeia.

Tiradentes sentia o sofrimento do povo, mais do que qualquer outro homem. Mais do que qualquer outro homem, porque além de viver nos meios populares, ouvindo-lhes as queixas, ele próprio sofria injustiças na sua carreira militar.

Tinha as qualidades necessárias para chefiar uma revolução em favor da liberdade.

Vamos agora ver, meus meninos, em que momento Tiradentes se decidiu a organizar a revolução que se conhece pelo nome de Inconfidência Mineira.

Decidiu-se depois que teve

O encontro com Álvares Maciel

Foi em setembro de 1788.

Tiradentes tinha ido ao Rio de Janeiro tratar de grandes projetos de engenharia.

De engenharia ?

De engenharia, sim ! Ele não era simplesmente um amador de cirurgia e da medicina, tinha também uma acentuada vocação para a engenharia.

E em engenharia sabia ver longe. E via mais depressa do que toda a gente.   Eis uma prova.

 

 

— O Brasil já pode viver por si próprio!

 

A primeira vez que Tiradentes foi ao Rio de Janeiro esteve ligeiramente, de passagem. Pois, apesar disso, compreendeu que a capital do Brasil embora feia, pobre e insignificante, seria, no futuro, uma das mais belas, das mais ricas e das maiores cidades do mundo. Uma grande cidade não podia deixar de ter água canalizada. Pareceu-lhe que os rios que melhor se prestavam a isso eram o Maracanã e o Tijuca.

Não perdeu tempo.   Propôs ao governo canalizá-los.

Estava ele no Rio de Janeiro, cuidando desse projeto audacioso, quando José Álvares Maciel chegou da Europa.

Maciel, que se formara em Coimbra, agora voltava da Inglaterra, onde se aperfeiçoara em química.

Tiradentes conhecia-o de muito tempo. Correu a visitá-lo.

Maciel contava, naquela ocasião, apenas vinte e oito anos de idade. Quando se tem essa mocidade, sonha-se ardentemente. Ele, na verdade, trazia a cabeça cheia de sonhos patrióticos.

Os Estados Unidos acabavam de sair do domínio da Inglaterra, proclamando-se país independente e republicano. Esse acontecimento que, de fato, sacudiu a Europa, havia deixado uma impressão violenta no espírito de Maciel. Ele falava da independência dos Estados Unidos com um entusiasmo de arrebatar.

Foi com lágrimas nos olhos que Tiradentes o ouviu.

— Ah ! se pudéssemos fazer o que os Estados Unidos fizeram !   disse o moço recém-chegado.

— Por que não ?!   exclamou Tiradentes.
E vibrando de patriotismo:

— O Brasil já pode viver por si próprio. O ouro que mandamos para Portugal basta para vivermos felizes. Não podemos mais ser o que somos. Haja o que houver, precisamos ser livres.    O país não progride porque não tem liberdade,

E daí por diante não lhe saiu mais da cabeça a idéia de uma revolução que libertasse o Brasil do domínio português.

 

Naquele ano havia chegado a Minas o visconde de Barbacena.

O visconde vinha como governador. E trazia de Portugal ordens terminantes de lançar a derrama(8).

A capitania de Minas Gerais estava atrasadíssima no pagamento dos impostos. Só do imposto de ouro devia três mil e tantos contos de réis.

Não pensem vocês que o povo devesse por ser mau pagador. Os impostos é que eram grandes demais e, por serem grandes, estavam acima das forças do povo.

Espalhando-se a notícia de que Barbacena ia em breve lançar a derrama Tiradentes percebeu ter chegado o momento de arranjar companheiros para dar o golpe revolucionário.

Pobres e ricos iam pagar uma dívida formidável de que não tinham culpa nenhuma. A derrama, portanto, ia desagradar grandes e pequenos. Não havia melhor ocasião para levantar estes e aqueles.

E Tiradentes começou

a propaganda da revolução

Começou a propaganda pelos homens importantes de Minas.

Naquela época havia muita vaidade e muito orgulho. Um homem rico parecia ter o rei na barriga, julgava-se quase um deus. Não se misturava com os pobres nem com os desclassificados.    Só fazia caso dos endinheirados e dos que podiam.

(8)  Lançar a derrama — ordenar que se faça a cobrança de impostos atrasados.

 

Que imensa dificuldade devia ser a de Tiradentes para se entender com essas criaturas !

Mas, tão forte era a sua força de atração, com tal convicção expunha as suas razões, com tal sinceridade falava, que conseguiu convencer os homens, não só os mais poderosos, como os mais inteligentes e os mais ilustres da capitania.

E caso curioso ! Ele, um simples alferes, dirigia toda essa gente !

A conspiração não se compunha apenas de civis, mas também de militares. Os militares sempre se preocuparam com a hierarquia, isto é, com a graduação dos postos. O alferes obedece ao tenente, o tenente ao capitão, o capitão ao major, e assim por diante.

Pois Tiradentes, simples alferes, dirigia militares hierarquicamente superiores a ele !

E mais ainda. O tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade era, em Vila Rica, o que hoje se chama comandante de região militar. Comandava o regimento dos Dragões, a maior força do exército estacionada em Minas. Como comandante dos Dragões era comandante de Tiradentes, que fazia parte do corpo de cavalaria daquele Regimento. Pois Freire de Andrade estava na conspiração com Tiradentes e ouvia religiosamente o alferes e por ele se deixava dirigir na conspiração !

Isso mostra, meus meninos, que aquele, que primeiro morreu pela nossa liberdade, não foi um parlapatão como muitos historiadores o classificam, mas sim um homem habilíssi-mo, com admiráveis qualidades de fascinação (9).

Ao começar o ano de 1789 a conjuração estava adiantada. Pode-se dizer que quase todas as figuras importantes de Minas faziam parte dela — magistrados, negociantes, advogados, poetas, fazendeiros, sacerdotes e militares.

(9) Fascinação — enfeitiçamento.

 

Tiradentes era incansável. Passava os dias no lombo do cavalo. Aqui, ali, acolá. Nos quartéis de Vila Rica, no Tijuco, em Campanha, no Serro Frio, nas vilas de S. José, S. João, nas fazendas, nos pousos, falando, seduzindo, convencendo.

A reunião em casa de Freire de Andrade

Recordam-se os meus meninos de como eu comecei esta história ? Contando da reunião dos inconfidentes em casa do tenente-coronel Freire de Andrade, comandante do Regimento dos Dragões.

A chácara de Freire de Andrade ficava no morro do Cruzeiro, nos arrabaldes de Vila Rica. Assim, afastada do centro populoso, sem vizinhos próximos, tornava-se um cantinho excelente para se conspirar.

Na reunião daquela noite iam ser tratados assuntos importantíssimos.

Iam-se conhecer, com exatidão, as forças de que dispunha o movimento (10). Iam-se traçar os planos de ataque. Iam-se estabelecer definitivamente os ideais da revolução.

Já todos lá estavam. Só se esperava por Tiradentes. Devia ele chegar às dez da noite, como prometera. Vinha de uma de suas viagens de propaganda pelo interior da capitania.

Os conspiradores moviam-se animadamente nas salas, conversando.

(10) Movimento — agitação revolucionária.

 

Cláudio Manuel da Costa, Alvarenga e Tomás Antônio Gonzaga formavam um grupo.   Falavam de literatura.   Gonzaga, por insistência de Cláudio, lia os versos que, na manhã daquele dia, fizera a Marília.

Noutro grupo, o cônego Vieira da Silva, apaixonado pelos Estados Unidos, conversava com o padre Rolim, elogiando a constituição (11) americana.

O sargento-mor Toledo e Pisa contava a Freire de Andrade os elementos de que dispunha para a revolução.

Álvares Maciel, em palestra com o padre Carlos de Toledo, narrava cenas do seu tempo de estudante, em Coimbra.

Batem à porta.    É Tiradentes que chega.

Todos o cercam. É um homem de quarenta e poucos anos, moreno, alto, forte, olhos ardentes. A franqueza, a lealdade e a coragem transparecem-lhe na fisionomia.

Conta por onde andou: por S. José do Rio das Mortes, pelo Registro Velho, pelo Campo Alegre dos Carijós, pelas Bananeiras, pela Borda do Campo. Em toda a parte — grande entusiasmo pela revolução ! Como que todo o mundo está compreendendo a necessidade de tornar-se o Brasil independente !

As suas palavras espalham grande alegria na sala.

Toledo e Pisa põe-lhe a mão nos ombros e diz com camaradagem:

— Não é só o alferes que tem boas notícias a dar. Também tenho uma e ótima.

E indicando o padre Carlos de Toledo:

— Eu e o mano arranjamos uma valiosa adesão para a nossa causa.

.   A fisionomia de Tiradentes avivou-se.

—   Quem foi ?

—   O coronel Joaquim Silvério.

—   O coronel Joaquim Silvério dos Reis ? perguntou Tiradentes, de rosto fechado.

(11) Constituição — a principal lei de um país na qual estão declarados os direitos e deveres do povo.

 

tirandentes

 

.. .falando, seduzindo, convencendo.

—  Achou má a aquisição ?  indagou o padre Carlos.

—  Péssima ! exclamou o alferes. Não pode ser pior. O coronel Joaquim Silvério é um caráter horrível.

—  Que ele não presta, sei eu ! atalhou o sargento-mor. Mas é para nós um excelente elemento. Todo o mundo sabe que, como arrematante do contrato de direitos de entrada na capitania, Joaquim Silvério teve a habilidade de ficar devendo cerca de duzentos e tantos contos à Fazenda Real(12).

E, sem deixar que Tiradentes o interrompesse:

— Também sabe todo o mundo que o patife já foi intimado a entrar com a quantia que deve. E ninguém ignora que ele não tem o dinheiro para realizar o pagamento. Quem não paga ao fisco (:3) ou vai para a cadeia ou para a Costa dÁfrica(13) ou para a forca. O coronel Joaquim Silvério vive sob essas ameaças.   Está atrapalhadíssimo da vida.

E pondo de novo a mão no ombro de Tiradentes.

— Ninguém, atualmente, deve ter mais ódio do governo do que o patife do Joaquim Silvério. Uma revolução, uma revolução que lhe perdoasse a dívida, seria para ele a salvação. E como tem escravos e como é coronel de milícia (15) e comanda .um regimento de cavalaria, só teríamos a lucrar se
viesse para o nosso lado.  Aí está porque o convidei.

— E vossa mercê não lhe teme o caráter, que é péssimo ?
Alvarenga intrometeu-se:

— Alferes, o coronel Joaquim Silvério tem dinheiro e tem força. As revoluções se fazem é com homens e armas e não com caráter.

Os olhos de Tiradentes brilharam:

(12)     Fazenda Real — os bens, a riqueza, ou melhor, o tesouro público.

(13)     Fisco — administração   encarregada  de cobrar impostos.

(14)     Costa dÁfrica — região africana próxima do mar para onde vão os degredados.

(15)     Milícia — tropa de segunda linha que auxilia a de primeira.

 

— Mas sem caráter ninguém faz obra duradoura, meu caro doutor. Os homens sem alma nunca fizeram revoluções. Joaquim Silvério é tão ruim que é capaz de nos vender.

Calaram-se todos. Joaquim Silvério entrava. O padre Carlos de Toledo havia-o convidado para a reunião.

O programa revolucionário e o plano de ataque

 

Os inconfidentes discutiram durante muitas horas. Naquela noite tudo ficou assentado.

Ficou assentado que se fizesse a independência e se proclamasse a república. Ficou assentado que se desse liberdade aos escravos. Que se criasse uma universidade. Que se instalassem fábricas de ferro, de pólvora, e de produtos necessários ao povo. Que se premiassem as mães que tivessem muitos filhos.

Cada inconfidente concorreria com o que pudesse.

Alvarenga prometeu trazer das suas propriedades, na capitania, nada menos de quinhentos pés-rapados(). O padre Rolim mandaria buscar no Serro Frio duzentos homens armados de espingardas e foices. O padre Carlos de Toledo e o seu irmão também trariam homens. A fábrica da pólvora ficava entregue ao Dr. Álvares Maciel, químico formado na Inglaterra. A tropa, que seria o elemento de força da sublevação, era todo o Regimento de Dragões, comandado por Freire de Andrade.

Tiradentes traçou o plano de ataque.

(16) Pé-rapado —  gente inferior,   gente à-toa.

 

A sublevação começaria ali, em Vila Rica. Nada de marcar o dia. Tudo ficava dependendo da data em que o visconde de Barbacena, governador da capitania, mandasse lançar a derrama.

Tarde da noite Tiradentes, com um punhado de homens decididos, viria para a rua dar vivas à liberdade.

Ao ouvir os vivas, Freire de Andrade correria ao quartel do Regimento dos Dragões e traria a tropa para a rua, a pretexto de conter os amotinados. Mas, em vez de contê-los, passaria a apoiá-los.

Tiradentes, comandando soldados, iria a Cachoeira do Campo prender o visconde de Barbacena. Preso o visconde, estaria vitoriosa a revolução.

Às duas da madrugada terminou a reunião.

Todos saíram satisfeitos. O Brasil, em breve, seria independente e, em breve, os brasileiros seriam livres e senhores da bela terra que Deus lhes dera !

Um homem, porém, se retirou mais contente do que os outros — Joaquim Silvério.

Durante a reunião conversara em particular com os chefes da inconfidência. E ficou mais ou menos assentado que a sua dívida com a Fazenda seria perdoada se ele prestasse bons serviços à revolução.

E ele estava disposto a prestar os serviços que lhe pedissem.   Assim se,salvaria das garras do governo.

morte de tiradentes

Joaquim Silvério e o Visconde de Barbacena

Uma noite, Joaquim Silvério, voltando de uma das suas propriedades, hospedou-se na fazenda do padre Rodrigues Costa. O padre, que bem sabia a bisca que tinha em casa, não lhe falou na conspiração. Mas, à hora da ceia, Silvério pôs-se a conversar sobre o movimento.

— Estou de corpo e alma ao lado de vossas mercês, disse.
Tudo que quiserem de mim, eu darei: dinheiro, armas e
homens. O que desejo é ver o governo no chão. Pois não é
que me querem meter na cadeia!

E com mais calor:

— Cada um cuida dos seus interesses. O governo está me perseguindo, os revolucionários estão me tratando bem. O governo quer levar-me à forca, os revolucionários prometem-me perdoar a dívida que tenho com a Fazenda Real. Com quem devo ficar ?   Com os revolucionários !

E mostrou a sua alegria pela promessa do perdão da dívida.

O padre Rodrigues Costa era um homem franco. Não podia ver ninguém iludido.

—  Vossa mercê acredita que, vencedora a revolução, nós lhe possamos perdoar o que deve à Fazenda Real ? perguntou.

—  Acredito, respondeu Joaquim Silvério.   Por que não ?

—  Porque seria começar a república com uma ilegalidade.

—  Mas os chefes me prometeram.

—  Prometeram mas não poderão dar, afirmou o padre. Quando chegar o momento, eles verificarão que é imoral e, como são homens de bem, recuarão.

 

Joaquim Silvério deu um murro no ar.

— De que me serve então ficar ao lado de vossas mercês?!

E, daí por diante, a sua fisionomia se tornou carrancuda.

Joaquim Silvério dos Reis não tinha mais de trinta e três anos de idade. Era uma criatura áspera, pouco instruída, de muita vaidade e de muita arrogância.

Ninguém sabia como viera de Portugal para o Brasil. Quando obteve a cobrança dos direitos de entrada de mercadorias em Minas Gerais, já possuía cerca de oitenta contos que, na época, representavam muito dinheiro.

Tinha em toda a capitania a fama de espertalhão. Diziam-no até capaz das maiores torpezas.

Durante aquela noite, em casa do padre Rodrigues Costa, não pensou senão no que o padre lhe dissera.

Não dormiu. Até ao amanhecer andou pelo quarto em passadas nervosas.

Em sua cabeça de homem sem caráter formou-se, pela madrugada, um plano diabólico. Esse plano fê-lo chegar quinze dias depois a Cachoeira do Campo (17) para falar ao visconde de Barbacena, governador da capitania.

O visconde raramente estava em Ouro Preto, no palácio governamental. Pode-se dizer que morava em Borda do Campo, numa grande chácara do governo, criando porcos e cabras.

Era um sujeito de poucas palavras e de fisionomia fechada. Não ria.   Não tinha amigos nem os queria ter.

Vivia metido consigo mesmo, desconfiado de toda a gente, boca fechada, ouvindo muito, à procura de uma oportunidade para castigar.

Tinha mesmo o prazer de fazer mal ao próximo. Era uma espécie de cobra atrás da moita, à espera de alguém para morder.

(17) Cachoeira do Campo — atualmente a cidade de Barbacena.

 

Barbacena recebeu Joaquim Silvério na sala de audiências.

—  Pode falar, disse com autoridade.

—  O que eu quero conversar com vossa excelência é importantíssimo, é gravíssimo. Só pode ser contado em segredo.

Os olhos do visconde faiscaram. Ele gostava de ouvir novidades, principalmente novidades graves.

E imediatamente passou para outra sala, onde não havia ninguém.

— Fale !  ordenou.
Joaquim Silvério começou:

— Venho dizer a v. ex.a que há uma conspiração contra o governo.

Os ouvidos do visconde aguçaram-se.

—  Aqui em Minas ?

—  Aqui em Minas !

Barbacena chegou-se para mais perto. Queria ouvir melhor.

Joaquim Silvério contou tudo. Contou como fora convidado para a conspiração. Contou como entrara no inteiro conhecimento da trama.   Contou como freqüentara as reuniões.

—  Freqüentou as reuniões ? interrogou Barbacena com uma ponta de surpresa.

—  Freqüentei para conhecer o que se passava, a fim de vir informar v. ex.a.

— Ah!

E narrou a conspiração tim-tim por tim-tim. Falou de Tiradentes, de Gonzaga, de Freire de Andrade. Não esqueceu um nome.   Não esqueceu uma minúcia.

O visconde ouvia, ouvia silenciosamente, sem perder uma palavra.

— V. ex.a será uma das vítimas, continuou o narrador.

 

— Eu?

—  Tiradentes virá a esta casa. Se v. ex.a fizer a menor resistência, será morto.

Barbacena ergueu-se e disse.

— O senhor vai escrever tudo isso que me acaba de contar. E tudo que souber, daqui por diante, venha trazer ao meu conhecimento. Não perca de vista o tal de Tiradentes, o desembargador Gonzaga, o coronel Freire de Andrade.    Ninguém.

A viagem de Tiradentes

Dias depois Joaquim Silvério entrou de novo na chácara da Cachoeira do Campo.

—  Alguma novidade ? interrogou o governador.

—  Vim dizer a v. ex.a que Tiradentes seguiu para o Rio de Janeiro.

—  Que foi fazer ?

—  Creio que foi conspirar.

—  Quando seguiu ele ?

—  Ontem à noite.

—  O senhor vai também, com urgência, seguir para o Rio. E lá não faça outra coisa senão vigiar o alferes. Vou dar-lhe cartas para o vice-rei D. Luís de Vasconcelos.

Na verdade, Tiradentes havia partido para o Rio.

Era ele, na conspiração, quem mais enxergava em assuntos militares. Logo que pôde conhecer as forças com que contavam os revolucionários, percebeu que tudo iria por água abaixo se os inconfidentes não tivessem ao seu lado as guarnições do Rio de Janeiro e de São Paulo. Sem o apoio dessas duas capitanias, Minas Gerais seria inteiramente aniquilada.

Conhecia ele o Rio das duas vezes em que lá estivera. Tinha amigos nos quartéis.   Ia aos quartéis do Rio conspirar.

Mas, para que as autoridades não desconfiassem, dizia a toda a gente que a viagem não tinha outro intuito senão entender-se com o vice-rei sobre o plano de canalização d?s águas dos rios Tijuca e Maracanã.

No mesmo dia em que chegou ao Rio, Tiradentes encontrou uma casa desocupada na Rua de S. Pedro e alugou-a.

E não perdeu tempo. Procurou imediatamente os camaradas para expor os planos da conjuração.

Pouco tempo depois chegou Joaquim Silvério com as cartas de Barbacena para o vice-rei.

O conspirado!- tinha no Rio um velho amigo de Minas — o sargento-mor Simão Pires Sardinha.

história da inconfidencia

Em palestra com pessoas chegadas ao palácio do vice-rei, Sardinha soube, com surpresa, que dois granadeiros, por ordem de D. Luís de Vasconcelos, espionavam os passos de Tiradentes. Mandou imediatamente avisar ao amigo.

O aviso assustou o alteres. Espionado por quê? O vice-rei saberia alguma coisa? Quem lhe teria contado? Quem teria traído a inconfidência ?

O alferes era homem decidido que enfrentava diretamente o perigo. Resolveu então ir entender-se com o vice-rei. Queria conhecer a verdade.

 

O projeto da canalização dos rios Maracanã e Tijuca oferecia-lhe um pretexto excelente para conversar com D. Luís de Vasconcelos.

O vice-rei recebeu-o amavelmente e nem de leve lhe deixou perceber que conhecia os planos dos inconfidentes de Minas.

—  Já sei que me vem falar do seu projeto de canalização, disse logo que o Viu entrar na sala. Ainda é cedo para que eu lhe possa dar uma resposta satisfatória. Mas não desespere. Em breve a terá.

—  Vim de Minas apenas para cuidar disso.

—  Os papéis estão sendo estudados. Um pouquinho mais de paciência.

—  Se vim falar a v. ex.a com certa insistência é porque sou obrigado a voltar a Minas. A minha licença está-se esgotando.   Devo voltar nestes três dias.

O vice-rei sorriu amavelmente.

— Por esse lado não se incomode. Eu poderei obter a prorrogação da sua licença.

Tiradentes arriscou:

— Quero voltar a Minas também por outra causa. É que estou sendo vigiado.

O vice-rei fez uma exclamação surpreendida.

—  Vigiado !

—  Por dois granadeiros.   Eu não sei a razão.

—  Nem eu ! asseverou D. Luís. Creio que está enganado. Como pode o alferes estar sendo espionado se eu, vice-rei, não o mandei espionar ?

—  Mas posso afirmar a v. ex.a que dois soldados seguem constantemente os meus passos. Tenho muitos inimigos. É possível que esses inimigos me envolvessem em alguma intriga.

 

 

mineiros inconfidencia

— Ninguém   me   falou  no   seu nome, respondeu o vice-rei.    Esteja descansado.   E não tenha pressa em voltar para a sua terra.   Eu lhe mandarei prorrogar a licença.

Tiradentes saiu satisfeito.

Pouco adiante, na rua, esbarrou com Joaquim Silvério. O alferes surpreendeu-se.

—  Por aqui ?

—  Os meus negócios obrigaram-me a vir com urgência falar ao vice-rei, disse o traidor. A perseguição que o governo me move, por causa da minha dívida, é cada vez maior.

Tiradentes era um homem de bem. Os homens de bem acreditam na honra alheia. Joaquim Silvério, em presença dos inconfidentes, jurara morrer pela revolução. Ele passou a acreditar em Joaquim Silvério.

E contou-lhe o encontro que acabava de ter com D. Luís.

—  Felizmente ele me tranqüilizou. Não há nada contra mim.

—  Não há nada contra vossa mercê? D. Luís disse-lhe isso?

—  Há poucos minutos.

—  Ele não lhe disse a verdade, alferes. Ao que estou informado, o governo já sabe alguma coisa do que se passa em Minas. Contaram-me que vossa mercê está, na verdade, sendo espionado por ordem das autoridades.

Tiradentes despediu-se.    Tinha a alma retalhada.

Quem teria traído os conspiradores ? Joaquim Silvério não era possível. Joaquim Silvério acabava de lhe demonstrar boa amizade, contando-lhe o que sabia da espionagem do vice-rei.

Ficou no meio da rua, atordoado. Era preciso sair da cidade. Era preciso fugir do Rio de Janeiro o mais depressa possível.   Mas fugir como, se a. polícia lhe seguia os passos ?

O remédio imediato era tratar de esconder-se. Mas onde ? Em casa de Dona Inácia Gertrudes.

A velha Inácia Gertrudes de Almeida, desde muitos anos que se fizera sua amiga. É que ele, da primeira vez que viera ao Rio, lhe curara a filha de uma chaga que a menina tinha na perna. Gertrudes não se esquecera mais do bem que o alferes lhe fizera.

E quando, naquela tarde, ele lhe entrou em casa, na Travessa da Alfândega, ela o recebeu com uma alegria comovida.

Tiradentes expôs a situação.

—  Preciso esconder-me dois ou três dias para preparar a minha fuga.  Poderá a senhora hospedar-me em sua casa ?

—  Em minha casa, não, disse a velha. Tenho uma filha moça e solteira e receio que as más línguas falem. Mas tenho um lugar seguro para esconder vossa mercê. É na ourivesaria do meu compadre Domingos Ferreira, à Rua dos Latoeiros (18). O compadre mora embaixo, sozinho. Mas em cima há um sótão. Vossa mercê esconde-se no sótão e ninguém o descobrirá.

Naquela mesma noite Tiradentes entrava cautelosamente no sótão da casa da Rua dos Latoeiros.

No palácio do vice-rei

Dois dias depois D. Luís de Vasconcelos ia entrando no seu gabinete quando lhe disseram que o coronel Joaquim Sil-vério queria falar-lhe com insistência.

(18) Rua dos Latoeiros — atualmente Rua Gonçalves Dias.

— Mande-o entrar.

O coronel, trêmulo e tímido, transpôs a porta.

—  Que aconteceu ?  perguntou o vice-rei. Com a voz sumida o outro respondeu:

—  O alferes Tiradentes desapareceu. O fidalgo pulou da cadeira.

—  Hem ?   Desapareceu ? E com um murro na mesa:

 

—  Tens que me dar conta dele ! Patife ! Ponho-te a espionar o homem, dou-te ainda dois soldados para te ajudarem e me vens dizer que o homem fugiu !   Vai procurá-lo.

—  Já o procurei por toda a cidade.

—  Procura-o no inferno ! roncou D. Luís. A esta hora já ele deve estar longe. Inteligente e conhecedor do sertão como é, a esta hora já deve estar no fim do mundo.

E dando grandes passadas pela sala:

— Arranja-te como puderes. Tens que me dar conta dele.
Se não o fizeres, mando-te enforcar.

Tocou a campainha. O ajudante de ordens apareceu. Ele ordenou.

— Envie patrulhas para as saídas da cidade, a fim de prender o alferes Joaquim José da Silva Xavier. Ponha escoltas à disposição do coronel Joaquim Silvério dos Reis. Se até amanhã ao meio-dia o alferes não tiver sido encontrado, prenda o coronel e mãnde-o para a ilha das Cobras.

Joaquim Silvério caiu de joelhos aos pés do vice-rei.

No sótão da ourivesaria

A inquietação de Tiradentes crescia hora a hora. Ali, no sótão da ourivesaria da Rua dos Latoeiros, os minutos lhe pareciam intermináveis.

 

Nunca sentira tanta ânsia de liberdade como ali dentro. E ia até a janela fechada, voltava, falando sozinho. Fizera mal em esconder-se ! Um sertanejo não se esconde num quarto — mete-se no mato. Devia ter fugido para o mato na mesma noite em que tivera a idéia de esconder-se entre aquelas quatro paredes.

Bateram à porta. Era o padre Inácio Nogueira, sobrinho da velha Inácia Gertrudes.

Vinha visitá-lo.

Tiradentes recebeu-o agradecidamente.

— Não agüento estas quatro paredes, confessou. A minha
vontade é sair para a rua, aconteça o que acontecer.

O padre aconselhou:

— Seja prudente.   Com o governo não se brinca.

O alferes, que passeava nervosamente pelo quarto, parou.

—  O reverendo quer fazer-me um favor ?

—  Estou às ordens de vossa mercê.

—  Vá, em meu nome, procurar o coronel Joaquim Sil-vério. Peça-lhe que lhe conte as novidades que há contra mim de anteontem para hoje.

— E vossa mercê confia no coronel Joaquim Silvério ?
Tiradentes sorriu candidamente.

— Não confiava. Mas hoje confio. Errei quando o supus
capaz de praticar infâmias. É um homem de bem. Amigo
dos amigos.

Q padre saiu no mesmo instante. Horas depois voltava. O inconfidente empalideceu ao vê-lo entrar.

—  Vossa reverendíssima traz a fisionomia tão preocupada que até me assusta.   Que vos disse o coronel ?

—  Não disse nada. Não sabe de nada. Apenas quis, com insistência, conhecer o lugar em que vossa mercê se encontra escondido.

—  E vossa reverendíssima não lhe disse ?

 

— Não. Não gostei da cara do homem. Por mais que insistisse que era amigo de vossa mercê, que queria visitar vossa mercê, eu não lhe disse uma palavra sobre este esconderijo. Não sei porque tive a impressão de estar falando com Judas Iscariotes.

O revolucionário ficou por muito tempo silencioso, olhando uma réstia de sol que entrava pela fresta da janela. Depois, disse:

— Fez bem, reverendo, fez bem.

Tiradentes não dormiu a noite inteira. Pela manhã tinha os olhos fundos, a cabeça zonza.

E passava por uma madorna quando um grande rumor de passos, na rua, o despertou.

Correu à rótula da janela. Era uma porção de soldados que parava defronte.

Ficou no meio do quarto, atordoado.

Esperou.

.Na escada — passos de gente que subia.

A voz do alferes Francisco Pereira Vidigal, que ele bem conhecia, ressoou junto da porta.

— Abra !  abra em nome da lei!
Não se moveu.

Um empurrão pôs a porta abaixo.

Tiradentes sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. De um pulo apanhou a espingarda que trouxera de Minas e apontou, bradando:

— Não passem dessa porta !

E entregou os braços para as algemas.

Vidigal, de pistola em punho, falou com serenidade:

— Alferes, a resistência é inútil. Vossa mercê é um só e nós somos muitos.    Para que sacrificar vidas ?

Tiradentes refletiu um segundo.

— Tem razão, disse.

E baixou amargamente a cabeça:

— Às suas ordens.

E entregou os braços para as algemas.

Seguido pelos soldados, desceu as escadas em silêncio, a boca em fel, o coração como a querer saltar do peito.

Ao chegar embaixo encarou a multidão que se acotovelava por toda a rua. Havia no seu olhar uma imensa tristeza, a tristeza de quem vê irremediavelmente por terra toda a grandeza e toda a beleza de um sonho.

A voz do. comandante reboou na rua:

— Marcha !

A tropa moveu-se.   Tiradentes deu os primeiros passos.

Eram os primeiros que dava para a prisão. Mas eram também os primeiros que dava para a glória.

O    baile

Em Vila Rica, Alvarenga e Bárbara Heliodora batizavam uma filha.

Grande festa. Jantar à tarde. À noite — baile. Os salões transbordavam. As filhas do intendente; as irmãs do contratador; a linda Marília pelo braço do noivo, o elegantíssimo desembargador Gonzaga; Freire de Andrade com a família; a família Vidal Barbosa; enfim, tudo que Minas Gerais tinha de fino, de rico, de ilustre.

Os inconfidentes lá estavam quase todos: o Dr. Cláudio, os padres Carlos de Toledo, Manuel Rodrigues da Costa, Vieira da Silva, o sargento-mor Toledo e Pisa, o coronel de milícias Francisco Antônio de Oliveira Lopes, muitos e muitos outros. Nesta e naquela sala, os homens, em grupos, conversavam abertamente sobre os planos revolucionários.  A revolução não podia tardar. Dependia do que Tiradentes mandasse dizer do Rio. Dependia principalmente do lançamento da derrama que Barbacena deveria fazer.

Tinha-se acabado de dançar uma pavana(19).  Alvarenga bateu palmas no meio da sala.   Os convivas aproximavam-se. —. Vamos ouvir um pouco de literatura, disse ele.   O desembargador Gonzaga, o fino Dirceu dos versos maravilhosos, vai recitar a sua última poesia feita à encantadora Marília. A sala inteira festejou o poeta que se aproximava do

cravo (20).

Em seguida, o desembargador disse os versos que fizera

pela manhã.

— Se a dona da casa é a distinta poetisa que costumamos aplaudir, por que não havemos de ouvi-la ? lembrou o cônego

Vieira da Silva.

Palmas reboaram na sala.   Bárbara Heliodora ergueu-se. — Imponho uma condição, disse sorrindo. Recitarei, mas, depois de mim, Maria Dorotéia, a decantada Marília, cantará

um lundu.

— Se é preciso esse sacrifício para termos o prazer de ouvi-la, eu farei o sacrifício, rematou a noiva de Gonzaga.

Bárbara Heliodora recitou.

 

(19)     Vavana — dança espanhola.

(20)     Cravo — uma espécie de piano.

 

Faltavam poucos minutos para meia-noite.

Marilia !   Marilia !   Agora Marilia !

Maria Dorotéia ergueu-se.  Aproximou-se do cravo que D. Isabel, esposa de Freire de Andrade, começou a tocar.

E ia dando a primeira nota quando se ouviu, vindo da rua, um longo e profundo gemido.

Tudo parou na sala. E, imediatamente, sem que ninguém visse por onde entrara, surgiu um fantasma. Vestia um camisolão.   Tinha um capuz na cabeça.

E, de rosto encoberto, bradou com voz estranha:

— Traição ! traição ! Tiradentes foi preso no Rio ! Queimem os papéis ! Judas vendeu os companheiros ! Fujam.

E calou-se. Homens e mulheres abriram os olhos eston-teados. Ele havia desaparecido. Apenas se ouvia, ao longe, a sua voz repetindo:

— Fujam !    Fujam !

Gonzaga levou a mão aos olhos como se quisesse verificar se estava com eles abertos.

—  Que foi ?  perguntou.

—  Uma alucinação, disse Freire de Andrade.

..— Eu vi um fantasma, afirmou Bárbara Heliodora.

— Era evidentemente um embuçado, repetiu o cônego
Vieira da Silva.

Alvarenga, sempre teimoso, avançou:

— Com certeza foi pilhéria de algum engraçado. Algum engraçado que se meteu num camisolão para nos pregar susto.

O padre Carlos de Toledo discordou:

— Não pode ser. A maneira de falar, a forma do aviso, a angústia da voz, não revelam pilhéria.

E com um tom triste que abalou os corações:

— Devem-se passar coisas muito graves fora desta sala.

Álvares Maciel entrava. Vinha a toda pressa da Cachoeira do Campo.

— Trago uma notícia horrível, disse. O visconde de Barbacena não lançará mais a derrama.

Uma exclamação ressoou na sala.

— Oh !

Para os inconfidentes aquilo foi pior do que uma bomba. A derrama é que iria despertar o desespero do povo. Sem ela não teriam os revolucionários motivo nenhum para fazer a revolução.

E por que Barbacena recuara ? Teria sabido de alguma coisa ?

E a figura do embuçado de minutos antes, surgiu na memória de todos.

Uma sombra de tristeza pesou nas salas.

O padre Rolim foi entrando afogueadamente. Trazia a fisionomia inquieta, a cabeleira revolta.

—  Que há ? perguntaram-lhe com ansiedade.

—  Tudo perdido. O governo sabe de tudo. Barbacena desceu de Cachoeira do Campo. O palácio do governo está aberto e iluminado.

—  Quem contou isso a vossa mercê ? indagou Freire de Andrade.

—  Eu próprio vi com meus olhos. Um embuçado foi à minha casa avisar-me.

—  Um embuçado ! exclamou Alvarenga, assustado. Esteve um embuçado em casa de vossa mercê ?

•— Esteve. Depois de ouvi-lo saí imediatamente para a rua a ver o que se passava. Tudo verdade. Tiradentes foi preso há oito dias no Rio de Janeiro. Barbacena não lançará a derrama. As tropas já saíram dos quartéis para realizar as prisões.

— Quem nos teria traído ? perguntou Toledo e Pisa.

 

Cláudio, com a voz ligeiramente rouca pela emoção, disse:

—  Não gosto de suspeitar do caráter de ninguém. Mas não sei o que me diz que o traidor foi Joaquim Silverio. Aquilo nunca prestou.

—  Ultimamente não saía da chácara da Cachoeira do Campo, lembrou o desembargador Gonzaga.

—  E logo que o Tiradentes seguiu para o Rio ele seguiu atrás, acrescentou o cônego Vieira da Silva.

O padre Carlos de Toledo pôs a mão no ombro do irmão.

— E fomos nós que o convidamos para o nosso meio. Se nos traiu, pior para a sua alma.

— Pior para nós !  bradou Alvarenga.
Rolim interrompeu a conversa:

— Meus amigos, palavras, neste momento, não valem nada. O que precisamos é sair desta situação. Ou melhor, o que precisamos é fugir. Eu não amanhecerei na cidade. Em mim Barbacena não porá a mão.

— Eu não fugirei, declarou Gonzaga.
Marília segurou-lhe a mão.

—  Mas eu te peço que fujas. Se ficares, com certeza serás preso.

—  Não tenhas receio, respondeu ele.

—  É um pressentimento que pesa no meu coração, disse ela.   Foge, foge !  eu te peço !

—  Não, repetiu ele. Não pratiquei crime nenhum. A minha consciência está tranqüila. E tão tranqüilo estou que, antes de nascer o dia, vou escrever uns versos dedicados a ti.

As salas esvaziaram-se rapidamente. Os convivas fugiam abatidos pelo pavor.

 

Vila Rica amanheceu triste. Uma nuvem de desgraça enegrecia os corações.

Ouviam-se rufos de tambores por todos os lados. Eram as tropas que, desde a madrugada, percorriam as ruas e as estradas para prender os inconfidentes.

Às dez da manhã uma escolta parou, espetaculosamente à porta da casa do desembargador Gonzaga. E a cidade, boquiaberta, viu o noivo de Marília sair lá de dentro, de algema nos braços, à frente dos soldados e entrar na cadeia.

Foram dias tremendos os que se desenrolaram daí por diante.   Vila Rica viu fatos que ninguém podia imaginar.

Viu passar à frente dos soldados, algemado como qualquer joão-ninguém, o coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do Regimento de Dragões, a maior autoridade da capitania depois do governador.

Viu pelas ruas, presos e humilhados, o Dr. Álvares Maciel, o sargento-mor Toledo e Pisa, o Dr. Domingos Vida! Barbosa, o coronel Domingos de Abreu e o abastado e orgulhoso Dr. Inácio José de Alvarenga Peixoto.

Viu entrar na cadeia o Dr. Cláudio Manuel da Costa, o velho respeitável que Minas Gerais inteira considerava um dos homens mais ilustres da capitania.

Parecia que o mundo vinha abaixo.    Nem os próprios sacerdotes eram poupados.

A cidade, cheia de pasmo e de dor, viu os padres Carlos de Toledo, Vieira da Silva e Rolim, seguirem para a cadeia, de algemas nos pulsos, como malfeitores.

E viu depois esses e outros revolucionários, à frente de grandes escoltas (21), marcharem miseravelmente pelas estradas, a rumo do Rio de Janeiro.

O que se passa daí por diante é a tragédia com cores horríveis.

No Rio, os desgraçados são metidos nos calabouços(22) das cadeias e das fortalezas.

Pode-se dizer que, desde aquele momento, a vida acabou para aqueles homens. Não tiveram mais direito a nada. O governo tomou-lhes os bens. Perseguiu-lhes as famílias. Reduziu-as à miséria.

Durante quase três anos — de maio de 1789 a abril de 1792 — ficaram eles apodrecendo nas prisões, à espera da sentença que os devia absolver ou condenar.

A alma humana, meus meninos, é fraca. Tanto tempo de sofrimento, nos cárceres, abateu o ânimo daqueles infelizes.

Quase todos se atemorizaram. E atemorizados, desdisseram-se quase todos.

E mais: acusaram-se uns aos outros. E pior ainda: a maioria atirou todas as culpas para os ombros de Tiradentes.

Só um homem não se deixou abater. Só um não se desdisse. Só um não acusou ninguém. Só um se conservou digno até o fim.

Foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier.

Durante quase três anos de sofrimento, não teve ele um segundo de fraqueza. Mesmo humilhado, mesmo castigado, continuou a exaltar os ideais republicanos.

(21)     Escolta — certo número de soldados acompanhando presos.

(22)     Calabouço — prisão subterrânea.

A conduta de Tiradentes na prisão é admirável. Nos primeiros depoimentos nega que houvesse conspiração e que ele tivesse conspirado.    Nega porque não sabe o que se está passando em Minas. Nega porque imagina que os seus companheiros, em Vila Rica, estão continuando os trabalhos revolucionários.

Mas, no momento em que sabe que os outros inconfidentes já estão presos como ele, começa a afirmar que a conspiração existiu. Que a conspiração existiu, mas que foi ele o único conspirador.

 

A sentença

A    sentença

Madrugada de 19 de abril de 1792.

Os inconfidentes, algemados, estão reunidos na grande sala térrea da Cadeia Velha (23).

Vai ser lida a sentença.

A leitura poderia ser em pleno dia. Mas, por um requinte de maldade e para dar àquilo um tom assustador, os magistrados entenderam mandar fazê-la fora de horas, ainda com as sombras da noite.

Deu-se um grande aparato a tudo. Reforçou-se a guarda da Cadeia com mais de cem homens. Num dos cantos da sala armou-se o Oratório (24) e, no Oratório, onze frades francisca-nos do convento de Santo Antônio rezavam tristemente.

Fazia dó olhar os revolucionários. Doentes, sujos, esqueléticos, barbados, não pareciam gente, pareciam trapos humanos.

(23)   Cadeia Velha — atualmente o Palácio Tiradentes, onde funcionou a Câmara de Deputados.

(24)   Oratório — lugar onde os condenados à morte fazem as suas últimas orações.

 

O desembargador Gonzaga, tão fino e tão elegante, agora vestido de roupas imundas, dava a impressão de um mendigo. Álvares Maciel, tão moço e tão ardente, estava com a expressão de um velho. Alvarenga, o arrogante e impetuoso Alvarenga de outrora, tinha um ar tímido, triste e assustado.

Ninguém poderia conhecer Tiradentes. A barba crescera-lhe tanto que lhe caía pelo peito. Tinha a cabeça inteiramente branca e os longos cabelos, que durante mais de dois anos não se cortaram, espalhavam-se vastamente pelos ombros.

Só os olhos revelavam o revolucionário de outros tempos — uns olhos belos, ardentes, fuzilantes, os mesmos olhos que encantavam no momento em que ele falava de liberdade.

São quatro horas da madrugada.

A porta de ferro da sala range e abre-se. Entra o desembargador Francisco Luís Alves da Rocha, acompanhado de meirinhos. Os frades rodeiam-no. Vai fazer a leitura da sentença.   Acendem-se fachos para iluminar a sala.

O desembargador, em voz pausada, começa a ler. Só às seis da manhã a leitura termina. Pouquíssimos os réus absolvidos. A maioria é condenada à morte ou ao degredo ou à prisão. Tiradentes, Freire de Andrade, Álvares Maciel, Alvarenga, Domingos de Abreu, Toledo e Pisa, Domingos Vidal Barbosa e mais quatro inconfidentes, morreriam na forca. Gonzaga e mais oito revolucionários seriam degredados  para a África.

Mas aquela sentença não era a definitiva.

A definitiva seria lida no dia seguinte, meia hora depois do meio-dia.

De fato, à hora marcada, de novo rangeu a porta da sala. O juiz entrou solenemente.

Trazia uma carta rema de Dona Maria I, a rainha de Portugal. A carta tornava as penas mais brandas: os condenados à morte não subiriam a forca, iriam degredados para a Costa dÁfrica.

Só para Tiradentes não havia perdão. A justiça considerava-o o chefe da conjuração e aplicava-lhe a pena máxima.

A sentença determinava com minúcia a morte de Tiradentes. O condenado seria conduzido pelas ruas, de corda ao pescoço, até à forca. Na forca seria morto. Depois esquartejado. A cabeça iria para Vila Rica, a fim de ser exposta aos olhos do povo. O corpo devia ser cortado em quatro pedaços e estes espalhados pelas estradas de Minas. Declarava-se infame a memória do mártir. Infames seriam os seus filhos e netos.

E para que não ficasse no mundo coisa alguma que lembrasse tão perigoso revolucionário, a casa em que o alferes morava, em Vila Rica, seria posta abaixo. E mais: o governo mandaria salgar o lugar em que a casa se erguia, para que ali não pudesse nascer planta nenhuma e para que ali não se construísse outra casa.

Era uma e meia da tarde quando terminou a leitura.

Não se descreve o que se passou naquele momento.

Os inconfidentes, ao saber que se salvavam da morte, ficaram por algum tempo aturdidos e aparvalhados de surpresa. Depois, aquelas fisionomias que pareciam de cadáveres, ressuscitaram repentinamente, alegres, ruidosas.

Um sopro de loucura como que agitou todas aquelas cabeças. Era a loucura dos que estão morrendo e que, inesperadamente, se salvam. Uns bradavam, outros oravam em voz alta, outros se abraçavam e se beijavam e outros riam convulsa-mente.

Um, porém, não se mexeu, não bradou, não riu. Foi Tiradentes. A um canto da prisão, de mãos e pés acorrentados, assistiu com simpatia ao contentamento dos companheiros que acabavam de se salvar da morte.

Ninguém se lembrou dele. Dele ninguém se aproximou para lhe dar uma palavra de consolo. A alegria não permitiu a nenhum daqueles homens olhar com piedade o companheiro que ia morrer.

 

Ele, porém, se lembrou de todos.

A um frade que se chegou para lhe falar piedosamente pediu com ternura e humildade:

— Faça-me o favor de dizer aos meus companheiros que eu me sinto feliz por vê-los felizes.

 

A morte de Tiradentes

 

O dia 21 de abril de 1792, aquele em que Tiradentes subiu à forca, foi um dos dias mais ruidosos e mais festivos que o Rio de Janeiro teve nos tempos coloniais.

O vice-rei, que agora era o conde de Rezende, quis dar à morte do alferes revolucionário uma pompa nunca vista. A execução ia ser feita na praça pública, com ares de festa, aos olhos do povo, para que o povo visse quanto era perigoso conspirar contra o domínio português.

As ordens tinham sido rigorosas. O conde de Rezende exigia que a cidade assistisse à morte do inconfidente. Exigia que os moradores enfeitassem as janelas das casas com colchas vistosas e pusessem luminárias nas fachadas.

O luxo que o vice-rei dava ao suplício de Tiradentes era, na verdade, espantoso.

Enfeitaram-se as ruas com bandeiras e folhas de canela. Ergueu-se um palco para dar, à noite, espetáculo gratuito ao povo. Fez-se fardamento novo para toda a tropa. Cada soldado trazia ao peito um ramo de flor e tinha outro ramo no cano da espingarda. Os cavalos, que as altas patentes do exército montavam, traziam laços de fitas nas crinas e nas caudas. Puseram-se ferraduras de prata nos cavalos que os magistrados montaram.

A forca em que se ia executar o condenado era a maior que já se havia levantado no Brasil. Tinha vinte e quatro degraus.

O movimento das tropas começou às duas da madrugada. O Regimento do Moura estendia-se desde a Cadeia até à Rua do Piolho (25), a artilharia de Bragança estacionou no Largo de S. Francisco; os Regimentos de Extremoz e o do Rio somando mais de dois mil soldados, formaram um triângulo desde o Campo da Barreira de Santo Antônio (26) até o Campo de S. Domingos, onde se erguia a forca.

Mais tarde, quando amanheceu, a cidade brilhou maravilhosamente. É que o sol, que Deus mandou à terra naquele sábado, foi o sol mais luminoso e mais belo que já cintilou no céu do Brasil.

O povo fervia nas ruas.

Às sete da manhã, no Terreiro do Paço(27), nas proximidades da prisão, nas Ruas Direita, da Misericórdia e da Cadeia, ninguém se podia mexer. Era a plebe e era a gente graduada: magistrados, militares, religiosos de todas as ordens, escrivães, meirinhos, irmãos da Misericórdia, pajens, cortesãos.

Lá dentro, na Cadeia, na mesma sala em que foi lida a sentença, realizava-se o cerimonial das ocasiões em que alguém ia morrer na forca.

O carrasco (a cidade o conhecia pelo nome de Capitania) entra rodeado de oficiais de justiça. Vem pôr a corda ao pescoço de Tíradentes e vestir-lhe a alva(28).

(25)     Rua-do Piolho — atual da Carioca.

(26)     Campo da Barreira de Santo Antônio — atualmente Praça Tiradentes.

(27)     Terreiro do Paço — atual Praça Quinze de Novembro.

(28)     Alva — veste branca dos condenados à morte.

 

Parece uma figura sobrenatural na longa camisa de Unho branco.

São oito horas exatas.

Nas salas do Regimento do vice-rei ressoa uma clarinada. Agita-se a tropa. O povo mexe-se, correndo para as proximidades da Cadeia. Os sinos das igrejas de S. José e do Carmo começam a dobrar a finados.

É o condenado que vai sair da prisão para seguir o caminho da forca.

Na longa fila dos irmãos de Misericórdia, desenrola-se a bandeira da irmandade.

Nova clarinada. Batem fortemente os tambores dos regimentos.

Começa-se a formar o préstito.

À frente vai o clero ricamente vestido. Atrás a irmandade da Misericórdia, com a bandeira desfraldada. A seguir, os frades franciscanos empunham tochas acesas e cantam tristemente.

A multidão, de repente, sussurra.  É Tiradentes que aparece à porta da Cadeia.

Parece uma figura sobrenatural na longa camisa de linho inco.   É alto, magro, rosto encovado, olhos ardendo como carvões acesos.    Os longos cabelos, que em menos de anos envelheceram, espalham-se fartamente pelas espáduas. Caem-lhe pelo peito as longas barbas.

Ao sentir nos olhos a claridade do dia, ele pára. E fica pira da porta, mudo, estático, encarando o sol maravilhoso ilumina o espaço azul.

O  rosto abre-se num sorriso deslumbrado.   O peito arfa se ele estivesse a beber, em tragos, aquele ar e aquela luz.

Há quanto tempo não via o sol e não via o céu !   Como se sentia feliz em morrer num dia assim tão lindo !

Alguém veio meter-lhe um crucifixo nas mãos amarradas. Ele como que acorda e fixa resignadamente os olhos na imagem.

Depois o povo.

E atrás de tudo — uma carreta puxada por doze condenados. É a carreta que, à tardinha, transportará do campo de S. Domingos o corpo esquartejado de Tiradentes.

Começa a marcha. É tudo lento. De quando em quando o préstito pára e um homem lê a sentença em voz alta. Como que há prazer em prolongar aquilo.

As ruas estão apinhadas. Nunca se tinha visto multidão tão numerosa. É gente nas janelas enfeitadas de colchas, gente nos sótãos, nos morros, nos telhados, nas árvores.

Por toda a parte — tropéis, burburinhos, sons de cometa e rufos de tambores.

Os frades, em coro, vão cantando ladainhas que o povo acompanha tristemente.   Os sinos não param de dobrar.

Às dez horas e meia o cortejo chega à igreja da Lampadosa.

Lá dentro há missa que o condenado deve ouvir da porta do templo.

Tiradentes ajoelha-se na escadaria exterior e reza profundamente.

Depois a marcha recomeça.

Mais adiante fica o campo de S. Domingos.

Ninguém dirá que vai haver ali a morte de um homem. A impressão é de que vai realizar-se uma grande festa.

 

 

O campo está apinhado de gente. No centro — a grande forca, com vinte e quatro degraus.

Os regimentos, em traje de gala, formados em triângulo, estendem-se em linhas duplas, de costas para o cadafalso (29) e de frente para o povo.

De repente, as cometas retinem. A multidão se agita rumorosamente.

É o cortejo que se aproxima.

A bandeira da Misericórdia aponta ondulada pelo vento. Cresce a zoada da multidão. Todo o mundo se mexe para ver o condenado.

E ei-lo que entra na praça, cabeça erguida, olhos voltados para o céu.

E vem andando, vem andando.  E pára junto à forca. Õ rumor da multidão vai-se apagando pouco a pouco..

O carrasco dá uma ordem. Tiradentes aproxima-se ainda mais do cadafalso. E sobe o primeiro degrau, o segundo, o terceiro, todos os. outros, barbas ao vento, passos serenos, passos firmes, consciente de que eram aqueles os seus últimos passos.

O Capitania cobriu-lhe o rosto com o capuz da alva.

— Deixa-me os olhos livres, irmão, pediu ele. Eu quero ver a morte.

O carrasco fez-lhe a vontade e meteu-lhe no pescoço a corda que o ia enforcar.

(29)  Cadafalso — estrado  onde se executam  os condenados.

Tudo se calou pela imensa extensão do campo. Não se ouvia mais a ladainha dos frades. Não mais se ouviam os sinos dobrando.  Nem mais um tambor.  Nem mais um clarim.

Frei José de Jesus Maria do Desterro, guardião do convento de Santo Antônio, subiu alguns degraus da forca e começou a falar.

Eram palavras de ternura e de piedade humanas. Pedia aos homens, às mulheres e às crianças que o acompanhassem na prece que ia erguer pela alma do infeliz que ia sair da vida terrena.

E, em voz alta, para que todo o campo o ouvisse, recitou:

—  Creio em Deus Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra.. .

—  Creio em Deus Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra. . .   Palavra por palavra vai repetindo o povo.

O frade ergue mais a voz:

— Creio em Jesus concebido sem pecado ! creio na comunhão dos santos ! creio na remissão dos pecados ! creio na ressurreição da carne !  creio na vida eterna…

Um grito no alto da forca. Um gemido em todo o campo. Toda a gente fechou instintivamente os olhos. Tiradentes tinha sido atirado nos ares pelo carrasco.

E o seu corpo pendia tragicamente da corda, esbracejando, agitando as pernas.

Repentinamente os tambores bateram em rataplãs festivos. Os clarins ressoaram de novo nos ares.

*

O triângulo dos regimentos desmanchou-se em filas de marcha.

O povo, triste, magoado, abatido, foi-se retirando em massa.

 

O campo esvaziou-se rapidamente. A multidão como que fugia assustada.

Somente lá ficou a forca.  E, na forca, a balançar, dependurado, o corpo de Tiradentes.

Ficou também o sol. E ficou, pelo resto do dia, banhando de luz a cabeça do supliciado.

Naquele dia, Deus havia mandado à terra um sol mais bonito, mais brilhante e mais luminoso que os outros sóis.

É que, naquele dia, ia morrer um mártir da liberdade. E Deus quis que o sol que iluminasse a morte do mártir fosse tão brilhante, tão luminoso e tão bonito como o sonho de liberdade que ele teve na vida.

 

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