NARRATIVA EPISTOLAR DE UMA VIAGEM E MISSÃO JESUITICA – Fernão Cardim

Fernão Cardim (1540? – 1625) – Tratados da Terra e Gente do Brasil
III
INFORMAÇÃO DA MISSÃO DO P. CHRISTOVÃO GOUVÊA ÁS PARTES DO BRASIL – ANNO DE 83,
OU
NARRATIVA EPISTOLAR DE UMA VIAGEM E MISSÃO JESUITICA.
Pela Bahia, llheos, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente, (S. Paulo) etc. desde o anno de 1583 ao de 1590, indo por visitador o P. Christovão de Gouvêa
Escripta em duas Cartas ao P. Provincial em Portugal
NARRATIVA EPISTOLAR DE UMA VIAGEM E MISSÃO JESUÍTICA
I
Nesta com o favor divino darei conta a Vossa Reverencia da nossa viagem e missão a esta província do Brasil, e determino contar todo o principal que nos tem succedido, não somente na viagem, mas também em todo o tempo da visita que Vossa Reverencia tenha maior conhecimento das cousas desta província, e para maior consolação minha, porque em tudo desejo de communicar-me com Vossa Reverencia e mais padres e irmãos desta província (I).
Recebendo o padre Christovão de Gouvea (II) patente de nosso padre geral, Cláudio Aquaviva, para visitar esta província lhe foi dado por companheiro o padre Fernão Cardim, ministro do collegio d’Evora, e o irmão Barnabé Tello. Juntos em Lisboa no principio de Outubro de 82 residimos ahi cinco mezes pela detença que fez o Sr. Governador Manuel Telles Barreto (III). Em todo este tempo se aparelhava matalotagem e.se negociaram muitas cousas, ás quaes tinha ido o padre Rodrigo de Freitas (IV). O padre visitador tratou por vezes com alguns prelados e letrados casos de muita importância sobre os captiveiros, baptismos e casamentos dos indios e escravos de Guiné, de cujas resoluções se seguiu grande fructo e augmento da chris-tandade depois que chegámos ao Brasil. Também fallou algumas vezes com El-Rei, o qual com muita liberaiidade lhe fez esmola de quinhentos cruzados para os padres que residem nas aldeias dos indios, e deu uma provisão para se darem ornamentos a todas as igrejas que os nossos têm nesta província, se. frontaes e vestimentas de damasco com o mais aparelho para os altares, o que tudo importaria passante de dous mil cruzados, e por sua grande benignidade e zelo que tem da christandade e protec-ção da Companhia, deu ao padre cartas em seu favor e dos indios para todos os capitães e câmaras das cidades e villas, encommendando-lhes muito o padre e o augmento de nossa santa fé e que com elles tratassem particularmente todas as cousas pertencentes não somente ao serviço de Deus, mas também ao governo da terra e conservação deste seu estado.
Chegado o tempo de partida nos embarcámos com o Sr. governador na náu Chagas S. Francisco, em companhia de uma grande frota. Viemos bem acommoda-dos em uma câmara grande e bem providos do necessário. Aos 5 de Marco de 83 levámos anchora, e com bom tempo, em 9 dias arribámos á ilha da Madeira, onde fomos recebidos do padre Rodrigues, Reitor, e dos mais padres e irmãos, com grande
alegria e caridade. O governador saindo em terra, se agasalhou em o collegio e foi bem servido, etc. O padre visitou aquelle collegio como V. Rva tinha ordenado, declarou-lhe as regras novas, e com práticas e colloquios familiares ficaram todos mui consolados: foi por vezes visitado do Sr. Bispo e mais principaes da terra. Passados dez dias nos fizemos á vella aos 24 de Março, véspera de N. Senhora da Annuncia-ção e com tal guia e estrella do mar cursando as brisas, que são os Nordestes geraes daquella paragem, nem tomando o Cabo Verde, em breve nos achámos em 4 graus da equinocial, aonde por cinco ou seis dias tivemos grandes calmarias, trovoadas, e chuveiros tão escuros e medonhos, e tão fortes ventos, que era cousa d’espanto, e no meio dia ficávamos numa noite mui escura. Neste tempo (pelas grandes calmas, faltas de bons mantimentos, e abundância de pescado que se tomava e comia, por não ser muito sadio) adoeceram muitos dumas febres tão coléricas, e agudas que em breve os punham em perigo manifesto da vida. Eram estes doentes de nós ajudados em suas necessidades, os quaes com confissões, práticas, lição das vidas dos santos, e animados de dia, e de noite, e no temporal ajudados com medicinas, e outros mi mos de doentes, conforme ás suas necessidades, e nossa pobreza e possibilidade; com elles houve não pequena matéria de merecimento, e não pequena consolação, porque com as diligencias que se lhes faziam, foi Nosso Senhor servido que só um morresse em toda a viagem, excepto outro que caiu ao mar, sem lhe podermos ser bons. Os nossos também participaram desta visitação das mãos de Deus. O primeiro que caiu foi o padre visitador, das mesmas febres tão agudas, e rijas, que nos parecia que não escaparia daquella. Foi sangrado três vezes, enxaropado, e purgado, provido de todas as gallinhas, alcaparras, perrexil, chicorias, e alfaces verdes, e cousas doces, e outros mimos necessários, que pareceria estarmos em o collegio de Coimbra; e tudo se deve á caridade do irmão Sebastião Gonçalves, que com grande amor mais que de pai e de mãe, prove a todos que se embarcam para estas partes. O segundo foi o padre Rodrigo de Freitas que, adoecendo das mesmas febres chegou á grande fraqueza, da qual com três sangrias, e uma purga se convalesceu. Os mais companheiros tivemos saúde nem nos pesou para os curar, e servir, graças ao Senhor, com tudo. Todo o tempo de viagem exercitámos nossos ministérios com os da náu, confessando, pregando, pondo em paz os discordes, impedindo juramentos e outras offensas de Deus, que em semelhantes viagens, se commettem todos os dias, Á noite havic ladainhas ás quaes se achava o Sr. Governador com seus sobrinhos e mais da náu. Na semana santa houve mandato (7 de Abril), ladainhas e Miserere em canto d’orgão. A manhã da gloriosa Ressurreição (10 de Abril) se celebrou com muitos foguetes, arvores, e rodas de fogo, disparando algumas peças d’artilharia, depois houve procissão pela náu, e pregação. O governador, com todos os seus, trataram sempre o padre com grande respeito e reverencia, algumas vezes o convidava a jantar, o que o padre visitador lhe acceitou algumas vezes. Toda a viagem se confessou commigo, e algumas vezes na Bahia; mas como chegaram os frades Bentos, logo se confessou com elles (V).
Passada a equinocial entraram os ventos geraes, com que arribámos á Bahia de todos os Santos, a 9 de Maio de 83. Gastámos na viagem, com dez dias de detença na ilha da Madeira, 66 dias (VI). Os padres visitador e Rodrigo de Freitas, dous ou três dias antes da chegada, tornaram a recair gravemente," e tanto que demos fundo veio á nau o padre Gregório Serrão, Reitor (VII), e outros padres: saímos logo em terra na praia; á porta da nossa cerca, nos esperavam quasi os mais padres e irmãos, que nos levaram ao collegio com grande alvoroço e contentamento. Estava um cubículo enramado e bem concertado para o padre visitador, no qual foi curado com grande caridade, não faltando medico, e muitos e diligentes enfermeiros, com os mais mimos de todas as conservas, e cousas necessárias para sua saúde, e com suar cada dia três ou quatro camisas nunca faltavam. Dahi a três ou quatro dias, adoeceu o -irmão Barnabé Tello, esteve muito ao cabo, foi sangrado sete vezes, e purgado, tinha grande fastio.e com vinho se lhe foi; e pela bondade de Deus, e diligencia grande, que com elles se teve, todos recuperaram a saúde desejada, e a Deus com orações de todos pedida.
Convalescido o padre, começou visitar o Collegio, lendo-se primeiro a patente na primeira prática; nella, e em outras muitas que fez, e mais colloquios familiares, consolou muito a todos. Ouviu as confissões geraes, renovaram-se os votos com devoção, e alegria; distribuiu a todos muitas relíquias, AgnusDei, relicarios, imagens, e contas bentas; deram-se a todos regras novas e se puzeram em execução as que ainda a não tinham, com que todos ficaram com maior luz, renovando-se no espírito de nosso instituto. Era matéria de grande consolação ver a alegria com que todos declaravam suas consciências ao padre, o fervor das penitencias com outros exercícios de virtude, e humildade.
Quando o padre visitou as classes, foi recebido dos estudantes, com grande alegria e festa. Estava todo o pateo enramado, as classes bem armadas com guarda-mecins, painéis e varias sedas. O padre Manuel de Barros (VIM), lente do curso, teve uma eloqüente oração, e os estudantes duas em prosa e verso: recitaram-se alguns epigramas, houve boa musica de vozes, cravo e descantes. O padre visitador lhes mandou dar a todos Agnus Dei, relíquias e contas bentas, de que ficaram agradecidos. Dahi a dous ou três dias, vindo o Sr. governador á casa, os estudantes o receberam com a mesma festa, recitando-lhe muitos epigramas; o padre Manuel de Barros lhe teve uma oração cheia de muitos louvores, onde entraram todos os troncos, e avoengas do Monizes, com as mais maravilhas que têm feito na índia, de que ficou muito satisfeito (IX).
Trouxe o padre uma cabeça das Onze mil virgens, com outras relíquias engastadas em um meio corpo de prata, peça rica e bem acabada. A cidade e os estudantes lhe fizeram um grave e alegre recebimento: trouxeram as santas relíquias da Sé ao Collegio em procissão solemne, com frautas, boa musica de vozes e danças. A Sé, que era um estudante ricamente vestido, lhe fez uma falia do contentamento que tivera com sua vinda; a Cidade lhe entregou as chaves; as outras duas virgens, cujas cabeças já cá tinham, a receberam á porta de nossa igreja; alguns anjos as acompanharam, porque tudo foi a modo de dialogo. Toda a festa causou grande alegria no povo, que concorreu quasi todo (X).
A Bahia é cidade d’EI-Rei, e a corte do Brasil; nella residem os Srs. Bispo, governador, ouvidor geral, com outros officiaes e justiça de Sua Magestade; dista da equinocial treze graus. Não está muito berri situada, mas por ser sobre o mar é de vista aprazível para a terra, e para o mar: a barra tem quasi três léguas de bocca, e uma enseada com algumas ilhas pelo meio, que terá em circuito quasi 40 leguas. É terra farta de mantimentos, carnes de vacca, porco, gallinha, ovelhas, e outras criações; tem 36 engenhos, nelles se faz o melhor assucar de toda a costa; tem muitas madeiras de paus de cheiro, de varias cores, de grande preço; terá a cidade com seu termo passante de três mil vizinhos portuguezes, oito mil Índios christãos, e três ou quatro mil escravos de Guiné; tem seu cabido de conegos, vigário geral provisor, etc. com dez ou doze freguezias por fora, não fallando em muitas igrejas e capellas que alguns senhores ricos têm em suas fazendas.
Os padres têm aqui collegio novo quasi acabado; é uma quadra formosa com boa capella, livraria, e alguns trinta cubículos, os mais delles têm as janellas para o mar. O edifício é todo de pedra e cal de ostra, que é tão boa com a de pedra de Portugal. Os cubículos são grandes , os portaes de pedra, as portas d’angelim, forradas de cedro; das janellas descobrimos grande parte da Bahia, e vemos os cardumes de peixes e balêas andar saltando n’agua, os navios estarem tão perto que quasi ficam á falia. A igreja é capaz, bem cheia de ricos ornamentos de damasco branco e roxo, veludo verde e carmesim, todos com tela d’ouro; tem uma cruz e thuribulo de prata, uma bôa custodia para as endoenças, muitos e devotos painéis da vida de Christo e todos os Apóstolos. Todos os três altares têm dóceis, com suas cortinas de tafetá carmesim; tem uma cruz de prata dourada, de maravilhosa obra, com Santo Lenho, três cabeças das Onze mil virgens, com outras muitas e grandes relíquias de santos, e uma imagem de Nossa Senhora de S. Lucas, mui formosa e devota.
A cerca é muito grande, bate o mar nella, por dentro se vão os padres embarcar, tem uma fonte perenne de boa água com seu tanque, aonde se vão recrear; está cheia de arvores d’espinho, parreiras de Portugal, as quaes se as podam a seus tempos, todo o anno estão verdes, com uvas, ou maduras ou em agraço. A terra tem muitas fructas, se. ananazes, pacobas, e todo o anno ha fruetas nos refeitórios. O ananaz é frueta real, dá-se em umas como pencas de cardos ou folhas d’erva babosa, são da feição e tamanho de pinhas, todos cheios de olhos, os quaes dão umas formosíssimas flores de varias cores: são de bom gosto, cheiram bem, para dôr de pedra são salutiferos: deltas fazem os Índios vinho, e tem outras boas commodidades; a maior parte do anno os ha. Tem alguns coqueiros, e uma arvore que chamam cuieira que não dá mais do que cabaças, é fresca e muito para ver. Legumes não faltam da terra e de Portugal; bringellas, alfaces, couves, abóboras, rabãos e outros legumes e hortalices. Fora de casa, tão longe como Villa Franca de Coimbra, tem um tanque mui formoso, em que andará um bom navio; anda cheio de peixes: junto a elle ha muitos bosques de arvoredos mui frescos; alli se vão recrear os assuetos, e no tanque entram algumas ribeiras de bôa água em grande quantidade (XI).
O Collegio tem três mil cruzados de renda, e algumas terras adonde fazem os mantimentos; residem nelle de ordinário sessenta; sustentam-se bem de mantimentos, carne e pescados da terra; nunca falta um copinho de vinho de Portugal, sem o qual se não sustenta bem a natureza por a terra ser desleixada e os mantimentos fracos; vestem e calçam como em Portugal; estão bem empregados em uma lição de Theoiogia, outra de casos, um curso d’artes, duas classes de humanidades, escola de ler e escrever; confessam e pregam em nossa igreja, sé, etc. Outros empregam-se na conversão dos Índios, e todos procuram a perfeição com grande cuidado, e serve-se Nosso Senhor muito deste collegio, ao qual será honra e gloria (XII).
Depois da renovação dos votos, quiz o padre vêr as aldêas dos índios brevemente para ter algumas noticias dellas. Partimos para a aldêa do Espirito Santo (XIII), sete léguas da Bahia, com alguns trinta indios, que com seus arcos e frechas vieram para acompanhar o padre e revezados de dous em dous o levavam numa rede. Os mais companheiros iamos a cavallo, os tapyaras (XIV) sc. padres moradores iam a pé com suas abas na cinta, descalços como de ordinário costumam. Aquella noite nos agasa-Ihou um homem rico (XV), honrado, devoto da Companhia, em uma sua fazenda, com todas as aves e caças e outras muitas iguarias, e elle mesmo servia á mesa. Ao dia seguinte dissemos missa ante-manhã, a qual acabada já o almoço estava prestes de muitas e varias iguarias, que nos ajudaram passar aquelle dia muitos rios caudaes. Um deites passaram os indios o padre na rede, pondo-o sobre as cabeças, porque lhes dava a água quasi pelo pescoço, os mais passamos a cavallo com bem de trabalho. Passado este chegámos ao grande rio Joannes; este passámos em uma jangada de paus levíssimos, o padre visitador ia na jangada sobre uma sella, por se não molhar e os indios a nado levavam a jangada.
Chegando o padre á terra começaram os frautistas tocar suas frautas com muita festa, o que também fizeram em quanto jantámos debaixo de um arvoredo de aroeira mui altas. Os meninos indios, escondidos em um fresco bosque, cantavam varias cantigas devotas emquanto comemos, que causavam devoção, no meio da-quelles matos, principalmente uma pastoril feita de novo para o recebimento do padre visitador seu novo pastor. Chegámos á aldêa á tarde; antes delia um bom quarto de Iegua, começaram as festas que os indios tinham aparelhadas as quaes fizeram em uma rua de altíssimos e frescos arvoredos, dos quaes saiam uns cantando e tangendo a seu modo, outros em ciladas safam com grande grita e urros, que nos atroa-vam e faziam estremecer. Os cunumis (XVI) sc. meninos, com muitos molhos de frechas levantadas para cima, faziam seu motim de guerra e davam sua grita, e pintados de várias cores, nusinhos, vinham com as mãos levantadas receber a benção do padre, dizendo em portuguez, "louvado seja Jesus Cristo". Outros sairam com uma dança d’escudos á portugueza, fazendo muitos trocados e dançando ao som da viola, pandeiro e tamboril e frauta, e juntamente representavam um breve dialogo, cantando algumas cantigas pastoris. Tudo causava devoção debaixo de taes bosques, em terras estranhas, e muito mais por não se esperarem taes festas de gente tão barbara. Nem faltou um anhangá (XVII) sc. diabo, que saiu do mato; este era o diabo Am-brosio Pires, que a Lisboa foi com o padre Rodrigo de Freitas. A esta figura fazem os indios muita festa por causa de sua formosura, gatimanhos e tregeitos que faz; em todas as suas festas mettem algum diabo, para ser delles bem celebrada.
Estas festas acabadas, os Índios Murubixaba (XVIII), sc. principaes, deram o Ereiupe (XIX) ao padre, que quer dizer Vieste? e beijando-lhe a mão recebiam a benção. As mulheres nuas (cousa para nós mui nova) com as mãos levantadas ao Céo, também davam seu Ereiupe, dizendo em portuguez, "louvado seja Jesus Christo". Assim de toda a aldêa fomos levados em procissão á igreja com danças e boa musica de frauta, com Te Deum laudamus. Feita oração lhes mandou o padre fazer uma falia na lingua, de que ficaram muito consolados e satisfeitos; aquella noite os Índios principaes, grandes línguas, pregavam da vida do padre a seu modo, que é da maneira seguinte: começavam pregar de madrugada deitados na rede por espaço de meia hora, depois se levantam, e correm toda a aldêa pé ante pé muito devagar, e o pregar também é pausado, freimatico, e vagaroso; repetem muitas vezes as palavras por gravidade, contam nestas pregações todos os trabalhos, tempestades, perigos de morte que o padre padeceria, vindo de tão longe para os visitar, e consolar, e juntamente os inicitam a louvar a Deus pela mercê recebida, e que tragam seus presentes ao padre, em agradecimento. Era para os ver vir com suas cousas, sc. patos, gallinhas, leitões, farinha, beijús com algumas raizes, e legumes da terra. Quando dão essas cousas commumente não dizem nada, mas botando-as aos pés do padre se tornam logo. Foi o padre delles visitado muitas vezes, agradecendo-lhes dava das cousas de Portugal, como facas, tesouras, pentes, fitas, gualterias, Agnus Dei em nominas de seda; mas o com que mais folgavam era com uma vez de cagui-été, se. vinho de Portugal.
Ao dia seguinte, dia da visitação de Santa Isabel, (3 de Julho), precedendo as confissões geraes, renovaram os padres e irmãos das aldêas seus votos, para que estavam alli juntos, e o padre visitador disse missa cantada com diacono, e sub-diacono, officiada em canto d’orgão pelos indios, com suas frautas. Dali fomos á aldêa de S. João (XX), duas léguas desta, onde houve semelhantes recebimentos e festas, com muita consolação dos indios e nossa.
É cousa de grande alegria ver os muitos rios caudaes e frescos bosques de altíssimos arvoredos, que todo o anno estão verdes e cheios de formosíssimos pássaros que em sua musica não dão muita avantagem aos canários, rouxinoes e pintasilgos de Portugal, antes !h’a levam na variedade e formosura de sua penna. Os indios caminham muito por terra, levando o padre sempre de galope, passando muitos rios e atoleiros, e tão depressa que os de cavallo os não podiam alcançar. Nunca entre elles ha desavença nem peleja sobre quem levou mais tempo ou menos, etc., mas em tudo são amigos e conformes. Outra cousa me espantou não pouco, e foi que saímos de casa algumas quarenta pessoas, sem cousa alguma de comer, nem dinheiro; porér onde quer que chegávamos, e a qualquer hora éramos agasalhados com toda a gente de todo o necessário de comer, carnes, pescados, mariscos, com tanta abundancia que não fazia falta a ribeira de Lisboa. Nem faltavam camas, porque as redes, que servem de cama, levávamos sempre comnosco, e este é cá o modo de peregrinar, sine pena, mas Nosso Senhor a todos sustenta nestes desertos com abundância.
Passados três mezes de visita depois da nossa chegada, aos 18 d’Agosto partimos para Pernambuco: se. o padre visitador, padre provincial, padre Rodrigo de Freitas, os irmãos Francisco Dias (XXI) e Barnabé Tello e outros padres e irmãos; e logo no dia seguinte com vento contrário, por mais não podermos, arribámos á Bahia. Tornando a partir o dia seguinte com o mesmo vento contrário, lançamos anchora em a barra do Camamú, terras do collegio da Bahia (que delia dista 18 léguas): aqui estivemos oito dias, esperando tempo e vendo aquellas terras. O Camamú são doze léguas de terra, por costa, e seis em quadra, para o sertão: tem uma barra de três léguas de bocca, com uma bahia e formosa enseada, que terá passante de quinze léguas, em roda e circuito; toda ella está cheia de ilhotes muito aprazíveis, cheios de muitos papagaios; dentro nelia entram três rios caudaes tamanhos ou maiores que o Mondego de Coimbra, afora muitas outras ribeiras, aonde ha águas para oito engenhos copeiros, e podem-se fazer outros rasteiros, e trapíches (XXII). As terras são muito boas; estão por cultivar, por serem enfestadas dos Guaimurés (XXIII), gentio silvestre, tão bárbaro que vivem com brutos animaes nos matos, sem povoação, nem casas: a enseada traz muitos pescados e peixes-bois: os iagostins, ostras e mariscos não têm conta: se estas terras foram povoadas bem poderam sustentar todos os collegios desta província e ainda fazer alguma caridades, maximé de assucar a esta província; mas como agora está, rende pouco ou nada. O governador Men de Sá fez doação destas terras ao collegio da Bahia (XXIV).
Do Camamú tornámos a tentar viagem, e não podendo, arribámos á capitania dos llhéos, donde temos casa, a qual o padre visitou por espaço de oito dias que esperamos tempo: da visita ficaram os nossos mui consolados e animados. Os portuguezes maiores visitaram por vezes o padre, com muitas mostras de amor e refazendo os bastimentos para a viagem, com gallinhas, patos, e farinhas e outras cousas, conforme á sua caridade e possibilidade.
Os llhéos distam da Bahia 30 léguas: é capitania do senhorio, se. de Francisco Giraldes (XXV): é villa intitulada de S. Jorge; terá 50 vizinhos com seu vigário; tem três engenhos de assucar: é terra abastada de mantimentos, criações de vaccas, porcos, gallinhas, e algodões: não tem aldêas de Índios, estão muito apertados dos Guaimurés, e com elles em contínua guerra: não se estendem pelo sertão adentre-mais de meia até uma légua, e pela costa, de cada parte, duas ou três léguas.
Os nossos têm aqui casa, aonde residem de ordinário seis; tem quatro cubículos de sobrado bem acommodados, igreja e off icinas; está situada em logar alto sobre o mar: tem sua cerca aprasivel, com coqueiros, laranjeiras, e outras arvores de espinho e fruetas da terra: as arvores de espinho são nesta terra tantas que os matos estão cheios de laranjeiras e limoeiros de toda sorte, e por mais que cortam não ha desinça-los.
Acabada a visita dos llhéos, tornámos a partir aos 21 de Setembro, dia do glorioso apóstolo S. Matheus: ao dia seguinte nos deitou o tempo em Porto Seguro. (E ainda que eram arribadas, tudo caía em proveito, porque visitava o padre de caminho estas casas, e o tempo contrario dava logar para tudo.) Fomos recebidos de um irmão com muita caridade, porque os outros três estavam na aldêa de S. Matheus com o Sr. Administrador (XXVI), que tinham ido á festa. Partimos logo para a mesma
aldêa visitar aquelles indios: passámos um rio caudal mui formoso egrande:caminhá-mos uma légua a pé, em romaria a uma nossa Senhora da Ajuda (XXVII), que antigamente fundou um padre nosso; e a mesma igreja foi da Companhia: e cavando junto delia o padre Vicente Rodrigues (XXVIII), irmão do padre Jorge Rijo (que é um santo velho, que dos primeiros que vieram com o padre Manuel da Nobrega, eile só é vivo) cavando como digo, junto da igreja, arrebentou uma fonte d’agua, que sae debaixo do altar da Senhora, e faz muitos milagres, ainda agora (XXIX): tem um retábulo da Annunciação de maravilhosa pintura e devotissima: o padre que edif icou a casa, que é um velho de setenta annos, vai lá todos os sabbados a pé dizer missa, e pregar a quasi toda a gente da villa, que alli costuma ir os sabbados em romaria, e para sua consolação lhe deu o padre licença que se enterrasse naquella igreja quando fallecesse; e bem creio que recolherá a Virgem um tal devoto e receberá sua alma no Séo, pois a tem tão bem servido. Chegámos á aldêa, que dista cinco léguas da villa, por caminho de uma alegre praia. Foi o padre recebido dos indios com uma dança mui graciosa de meninos todos empennados, com seus diademas na cabeça, e outros atavios das mesmas pennas, que os fazia mui lustrosos, e faziam suas mudanças, e invenções mui graciosas: da!li tornámos á villa, e vindo encalmados por uma praia, eis que desce de um alto monte uma india vestida como ellas costumam, com uma porcelana da índia, cheia de queijadinhas d’assucar, com um grande pucaro d’agua fria; dizendo que aquillo mandava seu senhor ao padre provincial Joseph (XXX). Tomámos o padre visitador e eu a salva, e o mais dissemos desse ao padre Joseph, que vinha de traz Com as abas na cinta, descalço, bem cançado: é este padre um santo de grande exemplo e oração, cheio de toda a perfeição, despresador de si e do mundo; uma columna grande desta província, e tem feito grande christandade e conservado grande exemplo: de ordinário anda a pé, nem ha retirá-lo de andar, sendo muito enfermo. Emfim, sua vida é verè apostólica.
Depois que o padre visitou a casa, ouvindo as confissões geraes com muita consolação de todos, e deixando os avisos necessários, partimos para outra aldêa de S. André (XXXI), dahi cinco léguas: está situada junto de um rio caudal, e da villa Santa Cruz, que foi o primeiro porto que tomou Pedr’Alvares Cabral no anno de mil e quinhentos, indo para a India; e por ser bom o porto, lhe chamou Porto Seguro (XXXII). No dia do Anjo preguei na matriz da villa: houve muitas confissões, e communhões, com extraordinária consolação do povo por haver dias que não ouviam missa, por estar seu vigário suspenso: dos moradores portuguezes e indios, fomos bem agasalha-dos, com grandes signaes de amor e abundância do necessário.
A Capitania de Porto Seguro é do Duque d’Aveiro (XXXIII): dista da Bahia 60 léguas: a villa está situada entre dois rios caudaes em um monte alto, mas tão chão, e largo que pudera ter uma grande cidade. A barra é perigosa, toda cheia de arrecifeí e terá quarenta vizinhos com seu vigário. Na misericórdia tem um crucifixo de estatura de um homem, o mais bem acabado proporcionado e devoto que vi e não se como a tal terra veio tão rica cousa. A gente é pobre, por estar a terra já gastada, e estão apertados dos Guaimurés: as vaccas lhe morrem por causa de certa herva, de que ha copia, e comendo-a, logo arrebentam. Tem um engenho de assucar; foi fértil de algodão e farinhas, mas também estas duas lhe vão já faltando, pelo que se despovoa a terra.
Aqui temos casa em que residem de ordinário quatro: tem igreja bem acommodada, e ornada; o sitio é mui largo com uma formosa cerca de todas as arvores d’espinhos, coqueiros, e outras da terra, hortaliça, etc. Toda a casa é aprasivel por estar edificada sobre o mar. Os padres têm a seu cargo duas aldêas de indios, que terão passante duzentas pessoas e visitam outras cinco ou seis, com muito perigo dos Guaimurés.
Junto a Porto Seguro quatro léguas, está a villa chamada Santa Cruz, situada sobre um formoso rio; terá quarenta vizinhos com seu vigário; é algum tanto mais abastada que Porto Seguro. De Santa Cruz partimos aos dois de Outubro com um camboeiro, que em um dia e noite nos deitou sessenta léguas, e tornando a calmar, corremos com nordeste franco toda a tarde para a Bahia, já determinados de não ir naquellas monções, que se iam acabando, a Pernambuco, e também porque se chegara o tempo da congregação, que se havia de começar a 8 de Dezembro.
Chegados á Bahia, vendo o padre visitador que todo aquelle anno e o seguinte; até Junho não podíamos ir a Pernambuco, começou de tratar mais de propósito dos negócios de toda a província, tomando mais noticia das pessoas delia, e das mais cousas que nella ocorrem. Occupou-se muito tempo com os padres Ignacio Toiosa (XXXIV), Quiricio Caxa (XXXV), Luiz da Fonseca (XXXVI), e outros padres superiores e theologos, em concluir algumas duvidas de casos de consciência; e fez fazer um compêndio das principaes duvidas que por cá occorrem, principalmente nos casamentos e baptismos dos índios e escravos de Guiné, de que se seguiu grande fructo; e os padres ficaram com maior luz para se poderem haver em semelhantes casos. Fez também compilar os privilégios da Companhia, declarando os que estavam mal entendidos, e fez que os confessores tivessem a parte distincta dos que lhes pertencem, para que entendessem os poderes que têm. E tudo se seguiu muito fructo: glória ao Senhor.
Chegado o tempo da congregação, se começou a 8 de Dezembro estando presente o padre provincial com os professores de quatro votos que estavam no collegio, que eram somente quatro, e o superior dos llhéos, com o padre Antonio Gomes (XXXVII), procurador da província, porque aos mais não chegaram as cartas a tempo, nem poderam vir por falta das monções e embarcações. Foi eleito o padre Antônio Gomes por procurador.
No tempo da congregação se recolheu o padre visitador em Nossa Senhora da Escada, (XXXVIII) ermida do collegio, que dista duas léguas da cidade. Acabada a congregação por ordem do padre visitador por reitor do collegio do Rio de Janeiro o padre Ignacio de Toiosa com três padres e alguns irmãos; foram bem acommoda-dos em nosso navio. Também deu profissão de quatro votos ao padre Luiz da Fonseca, companheiro do padre provincial, e quatro padres coadjutores espirituaes, e três irmãos temporaes, entre os quaes entrou o irmão Barnabé Tello. Eu fiquei uns quinze dias com o cuidado dos noviços em lugar do padre Tolosa, em quanto não vinha de uma missão o padre Vicente Gonçalves, (XXXIX) que lhe havia de succeder.
Tivemos pelo natal um devoto presépio na povoação, aonde algumas vezes nos ajuntavamos com boa e devota musica, e o irmão Barnabé nos alegrava com seu berimbau. Dia de Jesus, precedendo as confissões geraes, que quasi todos fizeram com o padre visitador, se renovaram os votos: pregou em nossa igreja o Sr. Bispo: tinha o padre visitador já neste tempo aviado de sua parte o padre Antônio Gomes de todos papeis, cartas e avisos necessários, para tratar em Roma e em Portugal; pelo que determinou visitar a segunda vez as aldèas dos indios mais devagar.
Aos 3 de Janeiro partimos o padre visitador, padre provincial e outros padres e irmãos. Fomos aquella noite agazalhados em casa de um sacerdote devoto da Companhia, que depois entrou nella (XL). Fomos servidos de várias iguarias com todo bom serviço de porcelanas da índia e prata, e o mesmo sacerdote servia a mesa com grande diligencia e caridade. Todo o dia seguinte estivemos em sua casa, e á tarde nos levou a um rio caudal que estava perto, mui alegre e fresco, e para que a água, ainda que era fria e bôa, não fizesse mal, mandou levar várias cousas doces tão bem feitas, que pareciam da Ilha da Madeira. Ao dia seguinte depois da missa nos acompanhou até á aldêa, e no caminho junto da cachoeira de outro formoso rio, nos deu um jantar com o mesmo concerto e limpeza, acompanhado de várias iguarias de aves, e caças. Em quanto comemos os indios pescaram alguns peixes: eram tão destros nisto que em chegando a um rio suados, logo se deitam a nadar e lavar, tiram das linhas, tomam peixes, fazem fogo, e se põem a assar e comer; e tudo com tanta presteza, que é cousa d’espanto. Também os frautistas nos alegraram, que alli vieram receber o padre. Junto da aldêa do Espirito Santo nos esperavam os padres que delia têm cuidado, debaixo de uma fresca ramada, que tinha uma fonte portátil, que por fazer calma, além de bôa graça, refrescava o lugar. Debaixo da ramada se representou pelos indios um dialogo pastoril, em lingua brasilica, portugueza e castelhana, e têm elles muita graça em fatiar línguas peregrinas, maximé a castelhana. Houve bôa musica de vozes frautas, danças e d’alli em procissão fomos até á igreja, com várias invenções; e feita oração lhes deitou o padre visitador sua benção, com que lhes cuidam que ficam santificados, pelo muito que estimão uma benção do Abaré-guaçú (XLI).
Dia dos Reis (6 de Janeiro de 84) renovaram os votos alguns irmãos. O padre visitador antes da missa revestido em capa d’asperges de damasco branco com diacono e subdiacono vestidos do mesmo damasco, baptisou alguns trinta adultos. Em todo o tempo do baptismo houve bôa musica e motetes, e de quando em quando se tocavam as frautas. Depois disse missa solerhne com diacono e subdiacono, officiada em canto d’orgão pelos indios, com suas frautas, cravo e descante: cantou na missa um mancebo estudante alguns salmos e motetes, com extraordinária devoção.
O padre na mesma missa casou alguns em lei da graça, precedendo na mesma missa os banhos; deu a communhão a cento e oitenta indios e indias, dos quaes vinte e quatro, por ser a primeira vez, commungaram á primeira mesa, com capella de flores na cabeça; depois da communhão lhes deitou o padre ao pescoço algumas veronicas e nominas com Agnus Dei de várias sedas, com seus cordões e fitas, de que todos ficaram mui consolados. Um destes era um grande principal por nome Men de Sá (XLII) que havia vinte annos que era christão; foi tanta a consolação, que teve de ter commungado, que não cabia de alegria. Todo o dia trouxe a capella na cabeça e a guardou, dizendo que a havia de ter guardada até morrer, para se lembrar da mercê que Nosso Senhor lhe fizera em o chegar a poder commungar.
É muito para ver e louvar Nosso Senhor a grande devoção de fervor, que se vê nestes Índios, quando hão de commungar; porque os homens quasi todos se disciplinam á noite antes por espaço de um Miserere, precedendo ladainha e sua exhortação espiritual na lingua: dão em si cruelmente; nem têm necessidade de esperar pela noite, porque muitos por sua devoção, acabando-se de confessar ainda que seja de dia, se disciplinam na igreja, diante de todos, e quasi todos tem disciplina, que sabem fazer muito boas.
As mulheres por sua devoção jejuam dois ou três dias antes, e todos ao commungar têm muita devoção, e choram alguns muitas lagrimas: confessam-se de cousa mui miúdas, e ao dia da communhão se tornam a reconciliar, por levíssima que seja a matéria da absolvição. Se lhes dizem que não é nada, que vão commungar, respondem: pai, como hei de commungar sem me absolveres?
No meio da missa houve pregação na lingua, e depois procissão solemne com danças e outras invenções. O padre visitador levava o Santíssimo Sacramento em uma custodia de prata debaixo do pallio, e as varas levavam alguns principaes, e levam-nas tão attento propósito, e vão tão devotos ou pasmados, que é para vêr.Tive grande consolação em confessar muitos Índios e Índias, por interprete (XLIII); são candi-dissimos, e vivem com muito menos peccados que os portuguezes. Dava-lhes sua penitencia leve, porque não são capazes de mais, e depois da absolvição lhes dizia, na lingua: xê rair tupã toçô de hirunamo (XLIV) sc. — filho, Deus vá comtigo.
Acabada a festa espiritual lhes mandou o padre visitador fazer outra corporal, dando-lhes um jantar a todos os da aldêa, debaixo de uma grande ramada. Os homens comiam a uma parte, as mulheres a outra: no jantar se gastou uma vacca, alguns porcos mansos e do mato, com outras caças, muitos legumes, fruetas, e vinhos feitos de várias fruetas, a seu modo. Emquanto comiam, lhes tangiam tambores, e gaitas. A festa para elles foi grande, pelo que determinaram á tarde alegrar o padre, jogando as laranjadas, fazendo motins e suíças de guerra a seu modo, e á portugueza. Quando estes fazem estes motins, andam muitos juntos em um corpo como magote com seus arcos nas mãos, e molhos de frechas levantadas para cima; alguns se pintam, e empenam de várias cores. As mulheres os acompanham, e os mais delles nús, e juntos andam correndo toda a povoação, dando grandes urros, e juntamente vão bailando, e cantando ao som de um cabaço cheio de pedrinhas (como os pandeirinhos dos meninos em Portugal (XLV) ). Vão tão serenos e por tal compasso que não erram ponto com os pés, e calcam o chão de maneira que fazem tremer a terra. Andam tão inflammados em braveza, e mostram tanta ferocidade, que é cousa medonha e espantosa. As mulheres e meninos também os ajudam nestes bailos e cantos; fazem seus trocados e mudanças com tantos gatimanhos e tregeitos, que é cousa ridícula. De ordinário não se bolem de um lugar, mas estando quedos em roda, fazem os me-neios com o corpo, mãos e pés. Não se lhes entende o que cantam, mas disseram-me os padres que cantavam em trova quantas façanhas e mortes tinham feito seus antepassados. Arremedam pássaros, cobras, e outros animaes, tudo trovado por comparações, para se incitarem a pelejar. Estas trovas fazem de repente, e as mulheres são insignes trovadoras. Também quando fazem este motim tiram um e um a terreiro, e ambos se ensaiam até que algum cansa, e logo lhe vem outro acudir. Algumas vezes procuram de vir a braços e amarrar o contrario, e tudo isto fazem para se embravecer. Emfim por milagre tenho a domar-se gente tão fera; mas tudo pôde um zeloso e humilde, cheio de amor de Deus, e das almas, etc.
Moravam os índios antes de sua conversão, em aldêas, em umas ocas (XLVI) ou casas mui compridas, de duzentos, trezentos, ou quatrocentos palmos, e cincoenta em largo, pouco mais ou menos fundadas sobre grandes esteios de madeiras, com as paredes de palha ou de taipa de mão, cobertas de pindoba, que é certo gênero de palma que veda bem água, e dura três ou quatro annos. Cada casa destas tem dois ou três buracos sem portas nem fecho: dentro neilas vivem logo cento ou duzentas pessoas, cada casal em eu rancho, sem repartimento nenhum, e moram duma parte e outra, ficando grande largura pelo meio, e todos ficam como em communidade, e entrando na casa se vê quanto nella está, por que estão todos á vista uns dos outros, sem repartimento nem divisão. E como a gente é muita, costumam ter fogo de dia e noite, verão e inverno, porque o fogo é sua roupa, e elles são mui coitados sem fogo. Parece a casa um inferno ou labyrintho, uns cantam, outros choram, outros comem, outros fazem farinha e vinhos, etc. e toda a casa arde em fogos; porem é tanta a conformidade entre elles, que em todo o anno não ha uma peleja, e com não terem nada fechado não ha furtos; se fora outra qualquer nação, não poderiam viver da marfeira que vivem sem muitos queixumes, desgostos, e ainda mortes, o que se não acha entre elles. Este costume das casas guardam também agora depois de christãos. Em cada oca destas ha sempre um principal a que têm alguma maneira de obediência (ainda que haja outros mais somenos). Este exhorta a fazerem suas roças e mais serviços, etc, excita-os á guerra; e lhe têm em tudo respeito; faz-lhes estas exhortações por modo de pregação, começa de madrugada deitado na rede por espaço de meia hora, em amanhecendo se levanta, e corre toda a aldêa continuando sua pregação, a qual faz em voz alta, mui pausada, repetindo muitas vezes as palavras. Entre estes seus principaes ou pregadores, ha alguns velhos antigos de grande nome e autoridade entre elles, que têm fama por todo o sertão, trezentas e quatrocentas léguas, e mais. Estimam tanto um bom lingua que lhe chamam o senhor da falia. E sua mão tem a morte e a vida, e os levará por onde quizer sem contradição. Quando querem experimentar um e saber se é grande lingua, ajuntam-se muitos para ver se o podem cançar, fallando toda a noite em peso com elle, e ás vezes dois, três dias, sem se enfadarem.
Estes principaes, quando o padre visitador chegava, pregavam a seu modo dos trabalhos que o padre padeceu no caminho, passando as ondas do mar, e vindo de tão longe, exposto a tantos perigos para os consolar, incitando a todos que se alegrassem com tanto bem, e lhe trouxessem suas cousas. Dos principaes foi visitado muitas vezes, vindo todos juntos, per modum universi com suas varas de meirinhos nas mãos, que estimam em muito, porque depois de christão se dão estas varas aos principaes, para os honrar e se parecerem com os brancos. Esta é toda a sua honra secular.
É cousa não somente nova, mas de grande espanto, ver o modo que têm em agasalhar os hospedes, os quaes agasalham chorando por um modo estranho, e a cousa passa desta maneira. Entrando-lhe algum amigo, parente ou parenta pela porta, se é homem logo se vai deitar em uma rede sem faltar palavras, as parentas também sem faIlar o cercam, deitando-lhe os cabellos sobre o rosto, e os braços ao pescoço, lhe tocam com a mão em alguma parte do seu corpo, com joelhos, hombro, pescoço, etc. Estando deste modo tendo-o no meio cercado, começam de lhe fazer a festa (que é a maior e de maior honra que lhe podem fazer): choram tantas lagrimas a seus pés, correndo-lhe em fio, como se lhe morrera o marido, mãi ou pai; e juntamente diz em trova de repente todos os trabalhos que no caminho poderia padecer tal hospede, e o que ellas padeceram em sua ausência. Nada se lhe entende mais que uns gemidos mui sentidos. E se o hospede é algum principal, também lhe conta os trabalhos que padeceu, e se é mulher chora da mesma maneira que as que a recebem. Neste tempo do triste ou alegre recebimento, a maior injuria que lhes podem fazer é dizer-lhes que se calem, ou que basta com estes choros. Não havia quem se ouvisse nas aldêas quando chegávamos. Acabada a festa e recebimentos alimpam as lagrimas com as mãos e cabellos, ficando tão alegres e serenas como que se nunca choraram, e depois se saúdam com o seu Ereiupe e comem (XLVII), etc.
Para os mortos têm outro choro e tom particular, os quaes choram dias e noites inteiras com abundância de lagrimas, mas tornando á festa dos hospedes, quando chegávamos, ou se fazia alguma festa, se punham a chorar, dizendo em trova muitas lastimas, de como seus parentes e antepassados não ouviram os padres nem sua doutrina.
Os pais não têm cousa que mais amem, que os filhos, e quem a seus filhos faz algum bem tem dos pais quanto quer. As mais os trazem em uns pedaços de redes, a que chamam typoia (XLVIII). De ordinário os trazem ás costas ou na ilharga escan-chados, e com elles andam por onde quer que vão, com elles ás costas trabalham, por calmas, chuvas e frio. Nenhum gênero de castigo têm para os filhos; nem ha pai nem mãi que em toda a vida castigue nem toque em filho, tanto os trazem nos olhos. Em pequenos são obedientíssimos a seus pais e mais, e todos muito amáveis e aprazíveis; têm muitos jogos a seu modo, que fazem com muita mais festa e alegria que os meninos portuguezes. Nestes jogos arremedam vários pássaros, cobras, e outros animaes, etc, os jogos são mui graciosos, e desenfadadiços, nem ha entre elles desavença, nem queixumes, pelejas, nem se ouvem pulhas, ou nomes ruins, edeshonestos. Todos trazem seus arcos e frechas, e não lhes escapa passarinho, nem peixe n’agua, que não frechem, pescam bem a linhas, e são pacientíssimos em esperar, donde vem em homens a ser grandes pescadores e caçadores, nem ha mato nem rio que não saibam e revolvam, e por serem grandes nadadores não temem água nem ondas nem mares. Ha indio que com uma braga ou grilhões nos pés nada duas e três léguas. Andando caminho, suados, se botam aos rios: os homens, mulheres e meninos, em se levantando se vão lavar e nadar aos rios, por mais frio que faça; as mulheres nadam e remam como homens, e quando parem algumas se vão lavar aos rios.
Tornando á viagem, partimos da aldêa do Espirito Santo para a de Santo Antônio, passámos alguns rios caudaes em jangadas, fomos jantar em uma fazenda do collegio, onde um irmão além de outras muitas cousas tinha muito leite, requeijões e natas que faziam esquecer Alemtejo. Comemos debaixo de um acajueiro muito fresco, carregado de acajús, que são como peros repinaldos ou camoezes, são uns amarellos, outros vermelhos, têm uma castanha no olho, que nasce primeiro que o pêro, da qual procede o pero; é fructa gostosa, bôa para tempo de calma, e toda se desfaz em sumo, o qual põe nodoas em roupa de linho ou algodão que nunca se tira. Das castanhas se fazem maçapães, e outras cousas doces, como de amêndoas; as castanhas são melhores que as de Portugal; a arvore é fresca, parece-se com os castanheiros, perde a folha de todo, cousa rara no Brasil, porque todo o anno as arvores estão tão verdes e frescas como as de Portugal na primavera.
Aquella noite fomos ter á casa de um homem rico que esperava o padre visita-dor (XLIX):é nesta Bahia o segundo em riquezas por ter sete ou oito léguas de terra por costa, em a qual se acha o melhor âmbar que por cá ha, e só em um anno colheu oito mil cruzados delle, sem lhe custar nada. Tem tanto gado que lhe não sabe o numero, e só do bravo e perdido sustentou as armadas d’EI-rei. Agasalhou o padre em sua casa armada de guadamecins com uma rica cama, deu-nos sempre de comer aves, perus, manjar branco, etc. Elle mesmo, desbarretado, servia a mesa e nos ajudava á missa, em uma sua capella, a mais formosa que ha no Brasil, feita toda de estuque e timtim de obra maravilhosa de molduras, laçarias, e cornijas; é de abobada sextavada com três portas, e tem-na mui bem provida de ornamentos. Nesta e outras ermi-das me lembrava de Vossa Reverencia, e de todos dessa província.
Daqui partimos para a aldêa, atravessando pelo sertão, caminhámos toda a tarde por uns mangabaes que se parecem alguma cousa com maceiras d’anafega. Dão umas mangabas amarellas do tamanho e feição de albricoques, com muitas pintas pardas que lhes dão muita graça; não têm caroço, mas umas pevides mui brandas que também se comem; a fructa é de maravilhoso gosto, tão leve e sadia que, por mais que uma pessoa coma, não ha fartar-se, sorvem-se como sorvas, não amadurecem na arvore, mas. cahindo amadurecem no chão ou pondo-as em madureiros: dão no anno duas camadas, a primeira se diz de botão, e dá flor, mas o mesmo botão é a fructa. Estas são as melhores e maiores, e vêm pelo natal; a segunda camada é de flor alva como neve, da própria maneira que a de jasmim, assim na feição, tamanho, e cheiro. Estas arvores dão-se nos campos, e com se queimarem cada anno as mais dellas dão no mesmo anno fructo. De quando em quando nos ajudávamos dellas para passar aquelles matos. Aquela noite nos agasalhou um feitor do mesmo homem de que acima fallei, a quem elle tinha mandado recado,. Fomos providos de todo o necessário com toda a limpeza de porcelanas e prata, com grande caridade.
Ao dia seguinte ás dez horas pouco maré ou menos, chegámos á aldêa de Santo Antônio: dos Índios fomos recebidos com muitas festas a seu modo, que deixo por brevidade, e ao domingo seguinte baptisou o padre visitador antes da missa sessenta adultos, vestido de pontificai, com grande alegria e festa, e consolação de todos. Na missa, que foi de canto d’orgão, casou a muitos em lei de graça, e deu a communhão a 80; e tudo se fez com as mesmas festas e musica que na aldêa do Espirito Santo. Á tarde lhes mandou dar o padre um bom jantar em que se gastou uma vacca, muitos porcos do mato, que elles mesmo traziam mortos e os deitavam aos pés do padre (têm estes porcos o umbigo nas costas, e em algumas cousas dífferem dos de Portugal). Havia mesa em que por banda caibam cem pessoas: os indíos á tarde, para fazerem festa ao padre jogaram as laranjas, fizeram as laranjadas, fizeram os seus motins de guerra, e foram a um rio dar tinguf, se. barbasco ao peixe, e ficaram bem providos, trouxeram tantos ao padre, que encheram duas grandes gamellas, que era uma formosura de vêr. Ao dia seguinte levou o padre visitador todos os padres e irmãos a um rio caudal que estava perto de casa, aonde ceámos. Iam comnosco alguns sessenta meninos nusinhos, como costumam. Pelo caminho fizeram grande festa ao padre, umas vezes o cercavam, outra o captivavam, outras arremedavam pássaros muito ao natural; no rio fizeram muitos jogos ainda mais graciosos, e têm elles n’agua muita graça em qualquer cousa que fazem. Estas cousas de ordinário faziam de si mesmos, que não é tão pouco em brasis e meninos achar-se habilidade para saberem festejar e agasalhar o Payguaçú. (L)
Desta aldêa fomos á de S. João, dali sete léguas, tornando a dar volta para o mar. É caminho de grandes campos e desertos; antes da aldêa uma grande légua vieram os indios principaes, os quaes revesando-se levaram o padre em uma rede, e pelo caminho ser já breve, a cada passo se revesavam para que não ficasse algum deites sem levar o padre, e não cabiam de contentes tendo aquillo por grande honra e favor. Fomos recebidos com muitas festas, etc. Ao domingo seguinte baptisou o padre 30 adultos, casou na missa outros tantos em ação de graça e deu a communhao a 120. Houve missa cantada, pregação com muita solemnidade, e depois das festas espirítuaes tiveram outro jantar como os passados, e toda a tarde gastaram em suas festas.
Em quanto aqui estivemos fomos bem servidos de aves, rolas e faisões, que têm três titelas uma sobre a outra, é carne gostosa semelhante á de perdiz, mas mais sadia.
Em todas estas três aldêas ha escola de ler e escrever, aonde os padres ensinam os meninos indios; e alguns mais hábeis também ensinam a contar, cantar e tanger; tudo tomam bem, e ha já muitos que tangem frautas, violas, cravos, e officiam mis-sasí em canto d’orgão, cousas que os pais estimam muito. Estes meninos faliam por-tuguez, cantam á noite a doutrina pelas ruas, e encommendam as almas do purgatório.
Nas mesmas aldêas ha confrarias do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora, e dos defuntos. Os mordomos são os principaes e mais virtuosos; têm sua mesa na igreja com seu panno, e elles trazem suas opas de baeta ou outro panno vermelho, branco e azul; servem de visitar os enfermos, ajudar a enterrar os mortos, e ás missas, levando a seus tempos os cirios acesos, o que fazem com modesta devoção e muito a ponto; dão esmolas para as confrarias, as quaes têm bem providas de cera, e os altares ornados com frontaes de várias sedas; em suas festas enramam as igrejas com muita diligencia e fervor, e certo que consola ver esta nova christandade.
Todos os das aldêas, grandes e pequenos, ouvem missa muito cedo cada dia antes de irem a seus serviços, e antes ou depois da missa lhes esinam as orações em portuguez e na lingua, e á tarde são instruídos no dialogo da fé, confissão e com-munhão. Alguns assim homens como mulheres, mais ladinos, resam o rosário de Nossa Senhora; confessam-se a miudo; honram-se muito de chegarem a commungar, e por isso fazem extremos, até deixar seus vinhos a que são muito dados, e é a obra mais heróica que podem fazer; quando os incitam a fazer algum peccado de vingança ou deshonestidade, etc. respondem que são de communhão, que não hão de fazer a tal cousa. Enxergam-se entre elles os que commungam no exemplo de bôa vida, modéstia e continuação das doutrinas; têm extraordinário amor, credito e respeito aos padres, e nada fazem sem seu conselho, e assim pedem licença para qualquer cousa_por pequena que seja, como se fossem noviços. E até aos do sertão dahi duzentas, trezentas e mais léguas, chega a fama dos padres e igrejas, e se não fossem estorvos, todo o sertão se viria para as igrejas, porque os que trazem os portuguezes todos vêm com promessa e titulo que os porão nas igrejas dos padres, mas em chegando ao mar nada se lhes cumpre.
Três festas celebram estes Índios com grande alegria, applauso e gosto particular. A primeira é as fogueiras de S. João, porque suas aldêas ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras não os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro. A segunda é a festa de ramos, porque é cousa para vêr, as palavras, flores e boninas que buscam, a festa com que os têm nas mãos ao officio, e procuram que lhes caia água benta nos ramos. A terceira que mais que todas festejam, é dia de cinza, porque de ordinário nenhum falta, e do cabo do mundo vêm á cinza, e folgam que lhes ponham grande cruz na testa, e se acontece o padre não ir ás aldêas, por não ficarem sem cinza elles a dão uns aos outros, como aconteceu a uma velha que, faltando o padre, convocou toda a aldêa á igreja e lhes deu a cinza, dizendo que assim faziam os Aharés, sc. padres, e que não haviam de ficar em tal solemnidade sem cinza.
Visitadas as aldêas, determinou o padre vêr algumas fazendas e engenhos dos portuguezes, visitando os senhores dellas, por alguns lhe terem pedido, e outros porque os não tinha ainda visto, e era necessário conciliar os ânimos d’alguns com a Companhia, por não estarem muito benevolos. Partimos de S. João para o mar: era para vêr neste caminho a multidão, variedade e formosura das flores das arvores umas amarellas, outras vermelhas, outras roxas, com outras muitas várias cores misturadas, que era cousa para louvar o Creador. Vi neste caminho uma arvore carregada de ninhos de passarinho (LI), pendentes de seus fios de comprimento de uma vara de medir ou mais, que ficavam todos no ar com as boccas para baixo. Tudo isto fazem os pássaros para não ficar frustrado seu trabalho, usam daquella industria que lhes ensinou o que os criou, para se não fiarem das cobras, que lhes comem os ovos e filhos.
Folgara de saber descrever a formosura de toda esta Bahia e recôncavo, as enseadas e esteiros que o mar bota três, quatro léguas pela terra dentro, os muito frescos e grandes rios caudaes que a terra deita ao mar, todos cheios de muita fartura de pescados, lagostins, polvos, ostras de muitas castas, caranguejos e outros mariscos.
Sempre fizemos caminho por mar em um barco da casa bem equipado, e quasi não ficou rio nem esteiro que não víssemos, com as mais e maiores fazendas, e engenhos, que são muito para ver. Grandes foram as honras e agasalhados, que todos fizeram ao padre visitador, procurando cada um de se esmerar não somente nas mostras d’amor, grande respeito e reverencia, que no tratamento e conversão lhe mostravam, mas muito mais nos grandes gastos das iguarias, da limpeza e concerto do serviço, nas ricas camas e leitos de seda (que o padre não aceitava, porque trazia uma rede que serve de cama, e cousa costumada na terra). Os que menos faziam, e se tinham por não muito devotos da Companhia, faziam mais agasalhados do que costumam fazer em Portugal os muito nossos amigos e intrínsecos; cousa que não somente nos edificava, mas também espantava vêr o muito credito que por cá se tem á Companhia.
0 padre Quiricio Caxa e eu pregávamos algumas vezes em as ermidas, que quasi todos os senhores de engenhos têm em suas fazendas, e alguns sustentam ca-pellão á sua custa, dando-lhes quarenta ou cincoenta mil réis cada anno, e de comer á sua mesa. E as capellas têm bem concertadas, e providas de bons ornamentos: não somente.os dias da pregação, mas também em outros nos importunavam que dissemos missa cedo, para exercitarem sua caridade, em nos fazer almoçar ovos reaes e outros mimos que nesta terra fazem muito bons, nem faltava vinho de Portugal. Confessávamos os portuguezes, ouvindo confissões geraes, e outras de muito serviço de Nosso Senhor. Os dias de pregação e festas de ordinário havia muitas confissões e com-munhões, e por todas chegariam a duzentas, afora as que fazia um padre, língua de escravos de Guiné, e de índios da terra, prégando-lhes e ensinando-lhes a doutrina, casando-os,baptisando-os, e em tudo se colheu copioso fructo, com grande edificação de todos. Nem se contentavam estes senhores de agasalhar o padre, mas também lhe davam bogios, papagaios, e outros bichos e aves que tinham em estima, e lhe mandavam depois á casa muitas e várias conservas, com cartas de muito amor, e quando vinham á cidade, o visitavam amiúde, dando os devidos agradecimentos pela consolação e visita que o padre lhes fizera.
Os engenhos deste recôncavo são trinta e seis (Lll); quasi todos vimos, com outras muitas fazendas muito para vêr. De uma cousa me maravilhei nesta jornada, e foi a grande facilidade que têm em agasalhar os hospedes, porque a qualquer hora da noite ou dia que chegávamos em brevíssimo espaço nos davam de comer a cinco da Companhia (afora os moços) todas as variedades de carnes, gallinhas, perus, patos, leitões, cabritos, e outras castas e tudo têm de sua criação, com todo o genero de pescado e mariscos de toda sorte, dos quaes sempre têm a casa cheia, por terem deputados certos escravos pescadores para isso, e de tudo têm a casa tão cheia que na fartura parecem uns condes, e gastam muito. Tornando aos engenhos cada um delles é uma machina e fabrica incrível: uns são de água rasteiros, outros de água copeiros, os quaes moem mais e com menos gastos; outros não são d’agua, mas moem com bois, e chamam-se trapiches; estes têm muito maior fabrica e gasto, ainda que moem menos, moem todo o tempo do anno, o que não têm os d’agua, porque ás vezes lhes falta. Em cada um delles, de ordinário ha seis, oito e mais fogos de brancos, e ao menos sessenta escravos, que se requerem para o serviço ordinário; mas os mais delles têm cento, e duzentos escravos de Guiné e da terra. Os trapiches requerem sessenta bois, os quaes moem de doze em doze revezados; começa-se de ordinário a tarefa á meia noite, e acaba-se ao dia seguinte ás três ou quatro horas depois do meio dia. Em cada tarefa se gasta uma barcada de lenha que tem doze carradas, e deita sessenta e setenta fôrmas de assucar branco, mascavado, maio e alto. Cada fôrma tem pouco mais de meia arroba, ainda que em Pernambuco se usam já grandes de arroba. O serviço é insoffrivel, sempre os serventes andam correndo, e por isso morrem muitos escravos, que éo que os endivida sobre todo este gasto. Tem necessidade cada engenho de feitor, carpinteiro, ferreiro, mestre de assucar com outros officiaes que servem de o purificar; os mestres de assucares são os senhores de engenhos, porque em sua mão está o rendimento e ter o engenho fama, pelo que são tratados com muitos mi mos, e os senhores lhes dão mesa, e cem mil réis, e outros mais, cada anno. Ainda que estes gastos são mui grandes, os rendimentos não são menores, antes mui avantajados, porque um engenho lavra no anno quatro ou cinco mil arrobas, que pelo menos valem em Pernambuco cinco mil cruzados, e postas no Reino por conta dos mesmos senhores dos engenhos (que não pagam direitos por dez annos do assucar que mandam por sua conta, e estes dez acabados não pagam mais que meios direitos) valem três em dobro. Os encargos de consciência são muitos, os peccados que se commetem nelles não têm conta; quasi todos andam amancebados por causa das muitas occasiões; bem cheio de peccados vai esse doce, porque tanto fazem: grande é a paciência de Deus, que tanto soffre.
Gastámos nesta missão Janeiro e parte de Fevereiro, e a segunda-feira depois do primeiro domingo da quaresma (20 de Fevereiro de 1584) chegámos á casa, não somente recreados, mas também mui consolados com o fructo que se colheu. Logo se distribuíram as pregações, se. o padre Quiricio Caxa dos domingos pela manhã em nossa igreja; o padre Manuel de Castro (LIII) á tarde; estes dous padres e o padre Manuel de Barros, são os melhores pregadores que ha nesta província. Eu preguei os domingos pela manhã na Sé, aonde se achava a maior parte da cidade. Das pregações de todos se seguiu grande fructo, seja Nosso Senhor com tudo louvado.
Muitas missões se fizeram por ordem do padre visitador nestes dois annos pelos engenhos e fazendas dos portuguezes; nellas se colheu copioso fructo e se baptisaram passante de três mil almas, e se casaram muitos em lei de graça, tirando-os de amancebamentos, ensinando-lhes a doutrina, pondo os discordes em paz, e se fizeram outros muitos serviços a Nosso Senhor. Quando os nossos padres vão a estas missões são mui bem recebidos de todos, bem providos do necessário, com grande amor e caridade.
Tornando á quaresma em nossa casa tivemos um devoto e rico sepulchro. A paixão foi também devota que concorreu toda a terra; os officios divinos se fizeram em casa com devoção. Sexta-feira Santa (30 de Março) ao desencerrar do Senhor, certos mancebos vieram á nossa igreja; traziam uma verônica de Christo mui devota, em panno de linho pintado, dous delles a tinham e juntamente com outros dous se disciplinavam, fazendo seus trocados e mudanças. E com a dança se fazia ao som de cruéis açoutes, mostrando a verônica ensaguentada, não havia quem tivesse as lagrimas com tal espectaculo, pelo que foi notável a devoção que houve na gente.
O padre visitador teve as endoenças na aldeia do Espirito Santo, aonde os índios tiveram um formoso e bem acabado sepulchro, de todas as columnas, cornijas, fron-tispicios de obra de papel, assentada sobre madeira tão delicada e de tão maravilhosa feitura, que não havia mais que pedir, por haver alli um irmão insigne em cortar, e para sepulchros tem grande mão e graça particular. Tiveram mandato em portuguez por haver muitos brancos que alli se acharam, e paixão na lingua, que causou muita devoção e lagrimas .nos indios. A procissão foi devotissima com muitos fachos e fogos , disciplinando-se a maior parte dos indios, que dão em si cruelmente, e têm isto não somente por virtude, mas também por valentia, tirarem sangue de si, e serem abaetê (LIV), se. valentes. Levaram na procissão muitas bandeiras que um irmão, bom pintor, lhes fez para aquelle dia, em panno, de boas tintas, e devotas. Um principal velho levava um devoto crucifixo debaixo do pallio. O padre visitador lhes fez todo os officios que se officiaram a vozes com seus bradados. Ao dia da Ressurreição (1 de Abril)" se fez uma procissão por ruas de arvoredos muito frescos, com muitos fogos, danças, e outras festas. Esquecia-me dizer que os lavatorios cheirosos e pós de murtinhos com que se curam estes indios, quando se disciplinam, são irem-se logo metter e lavar no mar ou rios, e com isto saram e não morrem.
Aos 3 de Maio, dia da invenção da Cruz, houve jubilêu plenário em nossa casa, missa de canto d’orgão, officiada pelos indios e outros cantores da Sé, com frautas e outros instrumentos músicos. Préguei-lhes da Cruz, por terem aqui uma relíquia do Santo Lenho em uma cruz de prata dourada,quefoi de uma dasfreirasde Allemanha, a qual a imperatriz deu para este collegio, com licença do Summo Pontífice. Com-mungaram passante de trezentas pessoas, e tudo se fez com muita festa e devoção.
Tinha o padre visitador dado ordem para se fazer um relicario para todas as relíquias que estavam mal acommodadas. Estava já neste tempo acabado. É grande, tem dezeseis armários com suas portas de vidraças, e no meio um grande, para a imagem de Nossa Senhora de S. Lucas; os armários são todos forrados dentro de setim carmesim, as portas da banda de dentro são forradas de sedas de várias cores, se. damasco, veludo, setim, etc. a madeira é de páu de cheiro de Jacarandá, e outras madeiras de preço, de várias cores, de tal obra que se avaliou somente das mãos, em cem cruzados. Fê-lo um irmão da casa, insigne official. Está assentado na capella dos irmãos, que é uma casa grande, nova, de pedra e cal, bem guarnecida, forrada de cedro. Ao dia da Cruz á tarde, se fez uma célebre translação da igreja para a dita capella. Foi o padre visitador á igreja com sua capa d’asperges, e outros dous padres com capas: os mais, que eram por todos dezoito, revestidos em alvas e sobrepelizes. Levava o padre debaixo do pallio o Santo Lenho, seis padres as varas, dois a imagem de Nossa Senhora, que também ficava debaixo do pallio; três, as três cabeças das Onze mil virgens e outras relíquias; os mais levavam suas velas de cera branca nas mãos, e seguia-se a cruz de prata, e turibulo. Começando a procissão a entrar pela sachristia, a gente arrombou a grade, e entrando os homens somente acompanharam as relíquias, porque não soffriam bem participarmos sem elles de tamanha alegria e consolação. A capella e corredores estavam mui ornados de várias sedas, alcatifas, guadamecins, palmas com outros ramos frescos. Na procissão houve bôa musica de vozes, frautas e órgãos. Em alguns passos estavam certos estudantes, com seus des-cantes e cravos, a que diziam psalmos, e alguns motetes, e também recitaram epigra-mas ás santas relíquias. Com esta solemnidade e devoção, chegámos á capella, aonde houve completas solemnes. Foi tanta a devoção dos cidadãos que se não fartavam de vir muitas vezes visitar as relíquias, e os estudantes continuaram muitos dias, gastando muitas horas em oração, resando seus rosários. Os padres e irmãos têm nesta capella muita devoção, oração continua, e assim as relíquias como os painéis da paixão de que está cercada a capella o pedem. Algumas pessoas de fora fizeram algumas esmolas, se. um frontal, vestimenta e sobrecéo de veludo verde, uma caixa de prata, em que está a relíquia de S. Christovão, outros deram algumas sedas, e botijas de azeite para a alampada; as mulheres já que não gosavam da festa, por ser dentro de casa, mostraram a muita devoção que tem às santas Virgens, em darem os melhores espelhos que tinham para vidraças, e alguns delles tinham mais de um palmo em quadro. E o padre visitador nesta parte fez mais frueto com seu relicario em tirar os espelhos, que os pregadores com as pregações.
Chegadas outra vez as monções do Sul, no fim de Junho, partimos para Pernambuco, padre visitador, padre Rodrigo de Freitas, com outros padres e irmãos que por todos éramos quatorze; não foi o padre provincial, porque ficava muito mal na Bahia. Ao segundo dia com vento contrario, arribámos ao morro de S. Paulo, barra de Tinhará, doze léguas da Bahia, aonde estivemos onze dias, sem fazer tempo para continuarmos a viagem. Aqui estivemos dia de S. João Baptista, S. Pedro e S. Paulo, em os quaes dizíamos missa em um teigupaba (LV) de palha. Os irmãos, passageiros e marinheiros, commungaram nestas festas: passamos estes dias com bôa musica, que alguns irmãos de boas fallas faziam freqüentemente ao som de uma suave frauta, que de noite nos consolavam e de madrugada nos espertavam com devotos e saudosos psalmos e cantigas. Pelo navio ser de casa e andarmos bem acommodados, sempre somos no mar providos de todo o necessário, assim na sáude como enfermidades, tão bem como em casa. E nestes dias o fomos de vários pescados com que cada dia se fartava o navio. Algumas vezes iamos gastar as tardes com bôa musica e praticas espirituaes, sobre um fresco rio á vista do mar e pelo lugar ser solitário causava não pequena devoção: de quando em quando pescávamos para aliviar as moléstias que consigo traz uma arribada. Aqui nos visitou um padre nosso que residia no Camarú, com um bom refresco de uma vitella, porco, gallinhas, patos, e outras aves, e fructas, com muita caridade.
Daqui partimos o segundo de Julho, e aos 14 do mesmo, dia de S. Boaventura, perto do meio dia, deitámos ferro no arrecife de Pernambuco, que dista uma bôa légua. Logo vieram dous irmãos com rede e cavallos, em que fomos, e no collegio fomos recebidos do padre Luiz da Gra (LVI), Reitor, e dos mais padres e irmãos com extraordinária alegria e caridade. Ao dia seguinte se festejou dentro de casa, como cá é costume, o martyrio do Padre Ignacio d’Azevedo e seus companheiros com uma oração em verso no refeitório, outra em língua d’Angola, que fez um irmão de 14 annos com tanta graça que a todos nos alegrou, e tornando-a em portuguez com tanta devoção que não havia quem se tivesse com lagrimas. No tempo do repouso, que estava bem enramado, o chão juncado de mangericões, se explicaram alguns enigmas e deram prêmios. Á tarde fomos merendar á horta, que tem muito grande,, e dentro nella um jardim fechado com muitas hervas cheirosas, e duas ruas de pilares de tijolo com parreiras, e uma fructa que chamam maracujá, sadia, gostosa e refresca muito o sangue em tempo de calma tem ponta d’azedo, é fructa estimada. Tem um grande romeiral de que colhem carros de romãs, figueiras de Portugal, e outras fructas da terra. E tantos melões, que não ha esgota-los, com muitos pepinos e outras boas commodidades. Também tem um poço, fonte e tanque, ainda que não é necessário para as laranjeiras, porque o céu as rega: o jardim é o melhor e mais alegre que vi no Brasil, e se estiveram em Portugal se pudera chamar jardim.
Logo á quarta-feira fizeram os irmãos estudantes um recebimento ao padre visitador dentro em casa, no tempo do repouso. Recitou-se uma oração em prosa, outra em verso, outra em portuguez, outra na língua brasilica, com muitos epigramas. Acabada a festa lhes fez o padre outra, distribuindo por todos relicarios, Agnus-Dei, contas bentas, relíquias, imagens, etc. Também se leu a patente, e todos deram a obediência ao padre tomando-lhe a benção.
Foi o padre mui freqüentemente visitado do Sr. Bispo, ouvidor geral (LVII), e outros principaes da terra, e lhe mandaram muitas vitellas, porcos, perus, gallinhas e outras cousas, como conservas etc; e pessoa houve que da primeira vez mandou passante de cincoenta cruzados em carnes, farinhas de trigo de Portugal, um quarto de vinho, etc; e não contentes com isto o levaram ás suas fazendas algumas vezes, que são maiores e mais ricas que as da Bahia; e nellas lhe fizeram grandes honras e gasa-Ihados, com tão grandes gastos que não saberei contar, porque deixando á parte os grandes banquetes de extraordinárias iguarias, o agasalhavam em leitos de damasco carmesim, franjados de ouro, e ricas colchas da índia (mas o padre usava de sua rede como costumava). Mandavam de ordinário cavallos para seis dos nossos com seus feitores que nos acompanhassem todo o caminho, e elles mesmos em pessoa vinham receber o padre ao caminho duas, três léguas, dando-nos pelo caminho muitos janta-res, almoços e merendas, com grande abundância e mostra de grande amor e respeito à Companhia. Costumam elles a primeira vez que deitam a moer os engenhos benze-los, e neste dia fazem grande festa convidando uns aos outros. O padre, á sua petição lhes benzeu alguns, cousa que muito estimaram. Vimos grande parte de 66 engenhos que ha em Pernambuco, com outras fazendas muito para ver. Não fallo na frescura dos arvoredos, nem nos muitos e grandes rios caudaes, porque é cousa ordinária e commum no Brasil.
Trazia o padre visitador cartas d’el-rei para o capitão (LVIII) e câmara. Fizeram grandes offerecimentos para tudo o que o padre quizesse e ordenasse para bem da christandade e governo da terra.
Os estudantes de humanidades, que são filhos dos principaes da terra, indo o padre á sua classe, receberam com um brevedialogo,bôa musica, tangendo e dançando mui bem; porque se prezam os pais de saberem elles esta arte. O mestre fez uma oração em latim. O padre lhes distribuiu contas, relíquias, etc.
No fim de Julho se celebra no collegio a trasladação de uma cabeça de Onze mil virgens, que os padres alli têm mui bem concertada em uma torre de prata. Houve missa solemne, préguei-lhes das Virgens com grande concurso de toda a terra, por haver jubileu, a que commungou muita gente. O mesmo fiz na matriz dia da As-sumpção de Nossa Senhora (15 de Agosto), á petição dos mordomos, que são os principaes da terra, e alguns delles senhores d’engenhos de quarenta e mais mil cruzados de seu. Seis delles todos vestidos de veludo e damasco de várias cores me acompanharam até o púlpito, e não é muito achar-se esta policia em Pernambuco, pois é Olinda da Nova Lusitânia (LIX).
Além do grande fructo que se colheu das missões que o padre fez a várias partes aonde o padre Luiz da Grã e eu pregávamos algumas vezes confessando muitos portuguezes e mulheres fidalgas de dom, que não faltam nesta terra, dia havia em que commungavam algumas trinta pessoas, afora o grande fructo que um padre língua fazia com os Índios e escravos de Guiné. Ordenou o padre que andassem quatro padres em missões uns quinze dias: fez-se grande fructo, baptisaram-se muitos índios e escravos de Guiné, e muitos se casaram em lei de graça, e ouviram grande cópia de confissões, de que se seguiu grande edificação para toda a terra.
O anno de 83 houve tão grande secca e esterilidade nesta província (cousa rara e desacostumada, porque é terra de contínuas chuvas) que os engenhos d’agua na: moeram muito tempo. As fazendas de cannaviaes e mandioca muitas se seccarar por onde houve grande fome, principalmente no sertão de Pernambuco, pelo que desceram do sertão apertados pela fome, socorrendo-se aos brancos quatro ou cinco mil indios. Porém passado aquele trabalho da fome, os que poderam se tornaram ao sertão, excepto os que ficaram em casa dos brancos ou por sua, ou sem sua vontade. Também ficou um principal chamado Mitaguaya, (LX) de grande nome entre os indios do sertão, por ser grande lingua e fallador. Este com intento e desejo de ser christão entregou um seu filho ao padre Luiz da Grã, o qual em breve tempo soube fallar portuguez, ajudar á missa, e aprendeu a ler, escrever e contar. Tanto que o padre visitador chegou a Pernambuco logo o sobredito Mitaguaya visitou por vezes o padre, vestido de damasco com passamanes d’ouro, e sua espada na cinta, pedindo-lhe com grande instância quizesse ir á sua aldeia e dar-lhe padres, que se queria baptísar com todos os seus. Dando-lhe o padre boas esperanças que o visitaria, fizeram-lhe caminhos por matos, e serras altíssimas mais de uma légua. Quando lá fomos nos vieram receber quasi duas léguas da aldeia, e para gasalhado do padre fizeram uma casa nova, mas por ser em paragem de grande perigo por causa dos contrários, o padre Luiz da Grã era de parecer que não ficássemos alli aquella noite; mas o padre visitador, para lhes agradecer a caridade da casa nova, e os não desconsolar, antes animar, dormiu alli aquela noite. Elles nos deram a cear de sua pobreza peixinhos de moquem assados, batatas, cará, mangará, e outras fructas da terra, etc, e o padre os convidou com cousas de Portugal. De noite tiveram seu soiemne e gracioso conselho defronte da nossa casa, tendo uma grande fogueira no meio como é costume, e juntos os velhos principaes e grande línguas, se assentaram assim nús em uns pedaços de paus, e alli com todo o siso e maduro conselho trataram certos pontos sobre a sua estada naquelle sitio, vendo a difficuldade dos matos, a commodida-de do rio que tinham perto, a conjuncção bóa que tinham para se fazer christãos, com outras cousas que tratavam com muita graça e gravidade, e resolveram uno ore que se fizesse tudo o que o padre ordenasse para bem de sua estada naquella terra, e poderem receber nossa santa fé. E assim como o determinaram o cumpriram, porque estando differentes nos pareceres, o sobredito Mitaguaya com outro grande principal se ajuntaram por parecer do padre em um sitio que o padre lhes assignaiou, e logo se passaram para elle, fundaram a aldêa, e têm já feita igreja. Para isto foi destinado um padre lingua com outro companheiro, e dando ordem para que se acabasse a igreja com diligencia, lhes começaram a ensinar as cousas da fé. São passante de 800 almas as que se querem baptisar, e espera-se que desça grande multidão de gen-tios com a fama desta igreja.
Da visita se seguiu grande consolação nos de casa com as muitas práticas, avisos espirituais, exhortações das regras, que o padre fez emquanto alli os conversou. Deu profissão de quatro votos aos padres Leonardo Arminio, (LXI) italiano, e ao padre Pero de Toledo (LXII) espanhol, que fora sete annos reitor do collegio do Rio de Janeiro, ambos bons letrados, e de coadjuctores formados espirituaes a dois padres: a festa se fez dia de S. Jeronymo (30 de Setembro): pregou o padre Luiz da Grã; tem muito bom púlpito e as boas cousas e graça em as propor, e assim nesta como nas mais cousas é mui acceito e amado de todos da terra. Dia da Assumpção de Nossa Senhora (15 de Agosto) ordenou o Sr. Bispo sete irmãos de missa, dando-lhes todas as ordens em nossa igreja.
Não posso deixar de dizer nesta as qualidades de Pernambuco, que dista da equinocial para o Sul oito graus, e cem léguas da Bahia, que lhe fica ao Sul. Tem uma formosa igreja matriz de três naves, com muitas capellas ao redor; acabada ficara uma boa obra. Tem seu vigário com dois outros clérigos, afora outros muitos que estão nas fazendas dos portuguezes que elles sustentam á sua custa, dando-lhes mesa todo o anno e quarenta ou cincoenta mil réis de ordenado, afora outras avantagens. Tem passante de dois mil vizinhos entre villa e termo, com muita escravaria de Guiné, que serão perto de dois mil escravos: os Índios da terra são já poucos.
A terra é toda muito chã; o serviço das fazendas é por terra e em carros; a fertilidade dos cannaviaes não se pôde contar; tem 66 engenhos, (LXIII) que cada um é uma boa povoacão; lavram-se alguns annos 200 mil arrobas de assucar, e os engenhos não podem esgotar a canna, porque em um anno se faz de vez para moer, e por esta causa a podem vencer, pelo que moe canna de três, quatro annos; e com virem cada anno quarenta navios ou mais a Pernambuco, não podem levar todo o assucar :é terra de muitas creações de vaccas, porcos, gallinhas, etc.
A gente da terra é honrada: ha homens muito grossos de 40, 50, e 80 mil cruzados de seu: alguns devem muito pelas grandes perdas que têm com escravaria de Guiné, que lhes morrem muito, e pelas demasias e gastos grandes que têm em seu tratamento. Vestem-se, e as mulheres e filhos de toda a sorte de veludos, damascos e outras sedas, e nisto têm grandes excessos. As mulheres são muito senhoras, e não muito devotas, nem freqüentam as missas, pregações, confissões, etc: os homens são tão briosos que compram ginetes de 200 e 300 cruzados, e alguns têm tres,qua-tro cavallos de preço. São mui dados a festas. Casando uma moça honrada com um viannez, que são os principaes da terra, os parentes e amigos se vestiram uns de velu-do carmesim, outros de verde, e outros de damasco e outras sedas de várias cores, e os guiões e sellas dos cavallos eram das mesmas sedas que iam vestidos. Aquelle dia correram touros, jogaram cannas, pato, argolinha, e vieram dar vista ao collegio para os ver o padre visitador; e por esta festa se pode julgar o que farão nas mais, que são communs e ordinárias. São sobretudo dados a banquetes, em que de ordinário andam comendo um dia dez ou doze senhores de engenhos juntos, e revezando-se desta maneira gastam quanto têm, e de ordinário bebem cada anno 50 mil cruzados de vinhos de Portugal; e alguns annos beberam oitenta mil cruzados dados em rol. Emfimem Pernambuco se acha mais vaidade que em Lisboa. Os viannezes são senhores de Pernambuco, e quando se faz algum arruido contra algum viannez dizem em lugar de: ai que d’elrei, ai que de Vianna, etc.
A villa está bem situada em lugar eminente de grande vista para o mar, e para a terra; tem bôa casaria de pedra e cal, tijolo e telha. Temos aqui collegio aonde residem vinte e um dos nossos; sustentam-se bem, ainda que tudo vai três dobro do que em Portugal. O edifício é velho, mal acommodado,a igreja pequena (LXIV). Os padres lêem uma lição de casos, outra de latim, e escola de ler e escrever, pregam, confessam, e com os Índios, e negros de Guiné se faz muito fructo; dos portuguezes são mui amados e todos lhes têm grande respeito. Nesta terra estão bem empregados, e por seu meio faz Nosso Senhor muito, louvado seja elle por tudo.
Acabada a visita de Pernambuco (aonde estivemos três mezes), e chegadas as monções dos Nordestes, aos dezesseis de Outubro partimos para a Bahia, nove padres e três irmãos, acompanhando-nos o padre Luiz da Grã, reitor, com alguns padres do collegio, até á barra, que é uma légua. Houve muitas lagrimas e saudades á despedida, e não se podiam apartar do padre visitador, tão consolados e edificados os deixava, e com estas saudades se tornaram cantando pela praia as ladainhas, psalmos e outras cantigas devotas. Estava já neste tempo o nosso navio fora da barra, e, por o tempo ser algum tanto contrário para sair, andámos até alta noite aos bordos, não podendo tomar o navio, e quando já o tomámos foi á tôa, e com cahir o padre Rodrigo de Freitas ao mar, entre o navio e barca, donde o tirámos meio afogado, mais foi Nosso Senhor servido que não chegasse o desastre a mais. Aquella noute levámos a anchora, e com um vento galerno, aos vinte chegámos á Bahia.
Ao dia seguinte, por ser dia das Onze mil virgens, houve no collegio grande festa da confraria das Onze mil virgens, que os estudantes têm a seu cargo; disse missa nova cantada um padre com diacono e subdiacono. Os padrinhos foram o padre Luiz da Fonseca, reitor, e eu com nossas capas d’asperges. A missa foi officiada com bôa capella dos índios, com frautas, e de alguns cantores da Sé, com órgãos, cravos e descantes. E ella acabada, se ordenou a procissão dos estudantes, aonde levámos debaixo do pallio três cabeças das Onze mil virgens, e as varas levaram os vereadores da cidade, e os sobrinhos do Sr. governador. Saiu na procissão uma náu á vella por terra, mui formosa, toda embandeirada, cheia de estudantes, e dentro nella iam as Onze mil virgens ricamente vestidas, celebrando seu triumpho. De algumas janellas fallaram á cidade, collegio, e uns anjos todos mui ricamente vestidos. Da náu se dispararam alguns tiros d’arcabuzes, e o da d’antes houve muitas invenções de fogo, na procissão houve danças, e outras invenções devotas e curiosas. Á tarde se celebrou o martyrio dentro na mesma náu, desceu uma nuvem dos Céus, e os mesmos anjos lhe fizeram um devoto enterramento; a obra foi devota e alegre, concorreu toda a cidade por haver jubilêu e pregação. Houve muitas confissões, comungaram perto de quinhentas pessoas; e assim enjoados como vínhamos, confessámos toda a manhã: Nosso Senhor seja com tudo louvado.
Três semanas nos detivemos na Bahia por o padre visitador chegar mal disposto d’umas mordeduras de carrapatos (que são tamaninos como piolhos de gailinha) dos quaes foi em Pernambuco sangrado duas vezes, e se encheu o corpo todo de poste-mas. Neste tempo foi admittido na Companhia um sacerdote já homem de dias que nella tinha vivido perto de 30 annos. E havendo um anno que o padre visitador o dilatava, não querendo aceitar sua fazenda, nunca quiz entrar sem fazer primeiro a doação pública ao Collegio de toda a sua fazenda, escravaria, terras, vaccas, e movei que valeria tudo passante de oito mil cruzados; e não quiz aceitar ser provisoreadaião da Sé, que o Sr. Bispo lhe mandou aceitasse sob penna d’excommunhão.
Aos 14 de Novembro partimos para as partes do Sul oito padres e quatro irmãos. E aquella tarde e dia seguinte navegámos sessenta léguas com bom tempo, e fogo nos deu tal vento pela proa, que as tornámos quasi todas as desandar. E tornando Nosso Senhor continuar com sua misericórdia, nos favoreceu de maneira que aos 21 tomámos a capitania do Espirito Santo, que dista 120 léguas da Bahia. Fomos recebidos dos padres com muita caridade, e do Sr. Administrador, que estava na nossa cerca esperando o padre visitador, com grande alvoroço e alegria; e logo mandou dous perus, e os da terra mandaram vitellas, porcos, vaccas e outras muitas cousas, conforme possibilidade e caridade de cada um. Logo aos 25 se celebrou em casa a festa de Santa Catharina; disse missa nova um dos padres que vinha de Pernambuco, filho do governador de Paraguay (LXV); o qual sendo único e herdeiro daquella governança, fugiu ao pai, e entrou na Companhia. O Sr. Administrador foi seu padrinho, e fez officiar a missa pelos de sua capella, e os indios também ajudaram com suas frautas. Toda a manhã houve muitas confissões, communhões e pregação.
Em quanto aqui estivemos foram os nossos mui ajudados com a visita e exhortações do padre visitador; fizeram com elle suas confissões geraes. O padre lhes fez praticas, e com ellas e mais avisos espirituaes ficaram em extremo consolados.
Têm os padres nesta capitania três léguas da villa, duas aidêas de indios a seu cargo, em que residem os nossos, que terão três mil almas christas, afora outras aidêas que estão ao longo da costa, as quaes visitam algumas vezes, que terão algumas duas mil pessoas entre pagãos e christãos. Véspera da Conceição da Senhora, por ser orago da aldêa mais principal, foi o padre visitador fazer-lhe a festa. Os indios também lhes fizeram a sua: porque duas léguas da aldêa em um rio mui largo e formoso (por ser o caminho por água) vieram alguns indios murubixáha, se. principaes, com muitos outros em vinte canoas mui bem esquipadas, e algumas pintadas, enramadas e em-bandeiradas, com seus tambores, pifanos e frautas, providos de mui formosos arcos e frechas mui galantes; e faziam a modo de guerra naval muitas ciladas em o rio, arrebentando poucos e poucos com grande grita, e prepassando pela canoa do padre lhe davam o Ereiupe, fingindo que o cercavam e o captivavam. Neste tempo um menino, prepassando em uma canoa pelo padre visitador, lhe disse em sua lingua: Pay, marápe guarinfme nande popeçoarR se. em tempo de guerra e cerco como estás desarmado (LXVI) e metteu lhe um arco e frechas na mão. O padre assim armado, e elle dando seus alaridos e urros tocando seus tambores, frautas e pifanos, levaram o padre até á aldêa, com algumas danças que tinham prestes. O dia da Virgem disse o Sr. Administrador missa cantada, com sua capella, e o padre visitador pela manhã cedo antes da missa baptisou setenta e três adultos, em o qual tempo houve bôa musica de vozes e frautas, e na missa casou trinta e seis em lei de graça, e deu a communhão a trinta e sete.
Por haver jubileu concorreu toda a terra, e toda a manhã confessámos homens e mulheres portuguezes. Houve muitas communhões, e tudo se fez com consolação dos moradores indios e nossa. Acabada a missa houve procissão solemne pela aldêa, com danças dos indios a seu modo e á portugueza; e alguns mancebos honrados também festejaram o dia dançando na procissão, e representaram um breve dialogo e devoto sobre cada palavra da Ave Maria, e esta obra dizem compoz o padre Álvaro Lobo (LXVII) e até ao Brasil chegaram suas obras e caridades.
Era para vêr os novos christãos, e christas sairem de suas ocas como conumis, acompanhados de seus parentes e amigos, com sua bandeira diante e tamboril, e depois do baptismo e casamentos tornarem assim acompanhados para suas casas; e as índias quando se vestem vão tão modestas, serenas, direitas e pasmadas, que parecem estatuas encostadas a seus pagens e a cada passo lhes caem os pantufos, porque não têm de costume.
Ao dia seguinte fomos á aldêa de S. João, dahi meia légua por água por um rio acima mui fresco e gracioso, de tantos bosques e arvoredos que se não via a terra, e escassamente o Céo. Os meninos da aldêa tinham feito algumas ciladas no rio, as quaes faziam a nado, arrebentando de certos passos com grande grita e urros, e faziam outros jogos e festas n’agua a seu modo mui graciosos, umas vezes tendo a canoa, outras mergulhando por baixo, e saindo em terra todos com as mãos levantadas diziam: Louvado seja Jesus Christo! — e vinham tomar a benção do padre, os princi-paes davam seu Ereiupe, prégrando da vinha do padre com grande fervor. Chegámos á igreja acompanhados dos índios, e os meninos e mulheres com saus palmas nas mãos, e outros ramalhetes de flores, que tudo representava ao vivo o recebimento do dia de Ramos. Porém neste tempo ainda que os índios fazem a festa, tudo é pasmar maxime as mulheres do Payguaçú. Acabado o recebimento houve outra festa das laranjadas, e não lhes faltam laranjas, nem outras fructas semelhantes com que as façam. Logo começaram com suas dádivas, e tão liberaes que lhes parece que não fazem nada senão dão logo quanto têm. E é grande injuria para elles não se lhes aceitar, e quando o dão não dizem nada, mas pondo perus, gallinhas, leitões, papagaios, tuins reaes, etc, aos pés do padre se tornam logo.
Ao dia seguinte baptisou o padre visitador trinta e três adultos, e casou na missa outros tantos em lei de graça, e tudo se fez com as mesmas festas. Estavam estes indios em ruim sitio, mal acommodados, e a igreja ia caindo: fez o padre que se mudassem á outra parte, o que fizeram com grande consolação sua.
Ha nesta terra mais gentio para converter que em nenhuma outra capitania; deu o padre visistador ordem, com que fossem dous padres dahi vinte e oito léguas á petição dos indios, que queriam ser christãos: espera-se grande fructo desta missão, e descerão logo quatro ou cinco mil almas, e ficará porta aberta para descer grande multidão de gentios; para o qual effeito o governador desta terra Vasco Fernandes Coutinho (filho daquelle Vasco Fernandes Coutinho que fez as maravilhas em Mala ca detendo o elefante que trazia a espada na tromba) (LXVIII) deu grande provisões sob graves penas que ninguém os fosse saltear ao caminho; deu-lhes três léguas de terra que os indios pediam, e perdão d’algumas mortes de brancos e alevantamentos que tinham antigamente feito, e quando foi ao assignar da provisão não na quiz lêr, nem viu o que dizia, antes vindo-a sellar a nossa casa, disse que tudo o que o padre visitador puzesse havia por bem, e que pedisse tudo quanto quizesse em favor dos indios, que elle o approvaria logo.
Os portuguezes têm muita escravaria destes indios christãos. Têm elles uma confraria dos Reis em nossa igreja, e por ser antes do Natal quizeram dar vista ao padre visitador de suas festas. Vieram um domingo com seus alardos á portugeza, e a seu modo com muitas danças, folias, bem vestidos, e o rei e a rainha ricamente ataviados, com outros principaes e confrades da dita confraria: fizeram no terreiro da nossa igreja seus caracóes, abrindo e fechando com graças por serem mui ligeiros, e os vestidos não carregavam muito a alguns, porque os não tinham. O padre lhes mandou fazer uma pregação na lingua, de como vinha a consola-los e trazer-lhes para os doutrinar, e do grande amor com que Sua Magestade lhos encommendava. Ficaram consolados e animados, e muito mais com os relicarios que o padre deitou ao pescoço do rei, da rainha, e outros principaes. Os portuguezes recebem o padre nesta terra com tantas honras e mostras d’amor, que não ha mais que pedir. O Sr. Governador e mais principaes da terra o visitaram muitas vezes, e porque o padre lhe trazia carta d’El-Rei, e aos mais da câmara e governo da villa, fizeram quanto o padre lhes pediu para bem da christandade; e não contentes com as dádivas passadas, levando o padre a suas fazendas lhe deram muitos banquetes de muitas exquisitas e várias iguarias. E em um delles, depois de sermos seis da Companhia bem servidos, tirando as toalhas de cima, começou o segundo, e este acabado o terceiro, tudo com tanta ordem, limpeza, concerto e gasto, que nos espantava, e emquanto comemos não faziam senão mandar canoas equipadas com várias iguarias aos padres, que ficavam em casa, e por o caminho ser por água e breve tudo chegava a tempo. Este é o respeito que por cá se tem ao padre e aos mais da Companhia. Nosso Senhor lho pague.
Na barra deste porto está uma ermida de N. Senhora, chamada da Pena (LXIX), e certo que representa a Senhora da Pena de Cintra, por estar fundada sobre uma altíssima rocha de grande vista para o mar e para a terra. A capella é de abobada pequena, mas de obra graciosa e bem acabada. Aqui fomos em romaria dia de S. André, e todos dissemos missa com muita consolação, e V. R? foi bem encommendada á Senhora com toda essa Província, o que também fazíamos em as mais romarias e continuamente em nossos sacrifícios, e eu sou o que ganho pela muita consolação que tenho com tal lembrança; e pois a devo a V. Ra e aos mais padres e irmãosdessa Província por tantas vias. Este dia nos agasalhou o Sr. governador com muita caridade.
Esta capitania do Espirito Santo é rica de gado e algodões. Tem seis engenhos de assucar e muitas madeiras de cedros e paus de balsamo, que são arvores altíssimas: picam-se primeiro e deitam um óleo suavíssimo de que fazem rosários, e é único remédio para feridas. A villa é de Nossa Senhora da Victoria: terá mais de 150 vizinhos, com seu vigário. Está mal situada em uma ilha cercada de grandes montes e serras, e não fora um rio muito formoso que lhe corre pelo pé, ainda fora mais manen-colisada do que é, porque pouco mais vista terá que a do rio.
Os padres têm uma casa bem acommodada com sete cubículos (LXX), e uma igreja nova e capaz. A cerca é cheia de muitas laranjeiras, limeiras doces, cidreiras, acajús e outras fructas da terra, com todo gênero de hortaliça de Portugal. Vivem os nossos d’esmolas, e são muito bem providos, e o collegio do Rio os ajuda com as cousas de Portugal, como também faz ás duas casas de Piratininga e S. Vicente, por serem a elle annexas e entrarem no numero das cincoenta para que tem dote.
Do Espirito Santo partimos para o Rio de Janeiro, que dista alli oitenta léguas. Dois ou três dias tivemos bom tempo, e logo nos deu um temporal tão forte, que foi necessário ficarmos arvore secca quasi dois dias com muito perigo, por estarmos sobre uns baixos dos Guaitacazes mui perigosos, e não muito longe da costa. Alli estivemos a Deus misericórdia, e cada um se encommendava a Nossa Senhora quanto podia por vermos perto a morte. Deste perigo nos livrou Deus por sua bondade, e aos 20 (Dezembro de 1584), véspera de S. Thomé, arribámos ao Rio. Fomos recebidos do padre Ignacio Tolosa, reitor, e mais padres, e do Sr. governador (LXXI), que manco de um pé com os principaes da terra veio logo á praia com muita alegria, e os da fortaleza também a mostraram com salva de sua artilharia. Neste collegio tivemos o Natal com um presépio muito devoto, que fazia esquecer os de Portugal:e também cá N. Senhor dá as mesmas consolações, e avantajadas. O irmão Barnabé Telo fez a lapa, e ás noites nos alegrava com seu berimbau.
Trouxemos no navio uma relíquia do glorioso Sebastião engastada em um braço de prata. Esta ficou no navio para a festejarem os moradores e estudantes como desejavam, por ser esta cidade do seu nome, e ser elle o padroeiro e protector. Uma das oitavas á tarde se fez uma celebre festa. O Sr. governador com os mais por-tuguezes fizeram um lustroso alardo de arcabuzaria, e assim juntos com seus tambores, pífaros e bandeiras foram á praia. O padre visitador com o mesmo governador e os principaes da terra e alguns padres nos embarcámos numa grande barca bem em-bandeirada e enramada: nella se armou um altar e alcatifou a tolda com um pallio por cima; acudiram algumas vinte canoas bem equipadas, algumas dellas pintadas, outras empennadas, e os remos de várias cores. Entre ellas vinha Martim Affonso (LXXII), commendador de Chrísto, indio antigo abaetê e moçacára (LXXIII), se. grande cavalleiro e valente, que ajudou muito os portuguezes na tomada deste Rio. Houve no mar grande festa de escaramuça naval, tambores, pífaros e frautas, com grande grita e festa dos índios; e os portuguezes da terra com sua arcabuzaria e também os da fortaleza dispararam algumas peças de artilharia grossa e com esta festa andamos barlaventeando um pouco á vella, e a santa relíquia ia no altar dentro de uma rica charola, com grande apparato de vellas accessas, musica de canto d’orgão, etc. Desembarcando viemos em procissão até á Misericórdia, que está junto da praia, com a relíquia debaixo do pallio; as varas levaram os da câmara, cidadãos principaes, antigos e conquistadores daquella terra. Estava um theatro á porta da Misericórdia com uma tolda de uma vela, e a santa relíquia se poz sobre um rico altar em quanto se representou um devoto dialogo do martyrio do santo, com choros e varias figuras muito ricamente vestidas; e foi asseteado um moço atado a um páu: causou este espectaculo muitas lagrimas de devoção e alegria a toda a cidade por representar ao vivo o martyrio do santo, nem faltou mulher que não viesse á festa; por onde acabado o dialogo, por a nossa igreja ser pequena lhes preguei no mesmo theatro dos milagres e mercês, que tinham recebido deste glorioso martyr na tomada deste rio, a qual acabada deu o padre visitador a beijar a relíquia a todo o povo e depois continuámos com a procissão e danças até nossa igreja: era para vêr uma dança de meninos índios, o mais velho seria de oito annos, todos nusinhos, pintados de certas cores aprazíveis, com seus cascavéis nos pés, e braços, pernas, cinta, e cabeças com várias invenções de diademas de pennas, collares e braceletes. Parece-me que se os viram nesse reino, que andaram todo o dia atraz elles; foi a mais aprazível dança que destes meninos cá vi. Chegados á igreja foi a santa relíquia collocada no sacrario para consolação dos moradores, que assim o pediram.
Têm os padres duas aldêas de índios, uma dellas de S. Lourenço, (LXXIV), uma légua da cidade por mar; e a outra de S. Barnabé (LXXV), 7 léguas também por mar, terão ambas três mil índios christãos. Foi o padre visitador á de S. Lourenço, aonde residem os padres, e dia dos Reis lhes disse missa cantada off iciada pelos índios em canto d’orgão com suasf rautas; casou alguns em lei de graça, e deu communhão a outros poucos. Eu baptisei dois adultos somente, por os mais serem todos christãos.
Esta capitania do Rio dista da Equinocial 23 graus para o Sul, e da Bahia 130 léguas. É muito sadia, de muitos bons ares e águas. No verão tem boas calmas algumas vezes, e no inverno mui bons frios; mas em geral é temperada. O inverno se parece com a primavera de Portugal: têm uns dias formosíssimos tão aprazíveis e salutiferos que parece estão os corpos bebendo vida. É terra mui fragosa e muito mais que a Serra da Estrella; tudo são serrarias e rochedos espantosos, e tem alguns penedos tão altos que com três tiros de frecha não chega um homem ao chão e ficam todas as frechas pregadas na pedra por causa da grande altura; destas serras.descem muitos rios caudaes que de quatro e sete léguas se vêem alvejar por entre matos que se vão ás nuvens, e do pé de algumas destas serras até riba ha uma grande jornada; são todas estas serras cheias de muitas e grandes madeiras de cedros, de que se fazem canoas tão largas de um só pau, que cabe uma pipa atravessada; e de comprimento que levam dez, doze remeiros por banda e carregam cem quintaes de qualquer cousa, e outras muito mais. Ha muitos paus de sandalos brancos, aquila e noz muscada e outros paus reaes muito para vêr. Agora se descobriu um páu que tinge de amarelo (LXXVI), como o brasil vermelho; é páu de preço: é abundante de gados, porcos e outras criações; dão-lhe nella marmellos, figos, romeiras, e também trigo se o semeam; a um grão respondem 800 e mais e cada grão dá 50 e sessenta espigas, das quaes umas estão maduras, outras verdes, outras nascem; também se dão rosas, cravos vermelhos, cebolas cecem, arvores d’espinho, todo gênero d’hortaliça de Portugal, as cannas também se dão bem, e tem três engenhos de assucar, emfim é terra mui farta.
A cidade está situada em um monte de boa vista para o mar, e dentro da barra tem uma bahia que bem parece que a pintou o supremo pintor e architecto do mundo Deus Nosso Senhor, e assim é cousa formosíssima e a mais aprasivel que ha em todo o Brasil,.nem lhe chega a vista do Mondego e Tejo; é tão capaz que terá 20 léguas em roda cheia pelo meio de muitas ilhas frescas de grandes arvoredos, e não impedem a vista umas ás outras que é o que lhe dá graça. Tem a barra meia legua da cidade, e no meio delia uma lagea de sessenta braças em comprido, e bem larga que a divide pelo meio, e por ambas as partes tem canal bastante para naus da India; nesta lagea manda El-Rei fazer a fortaleza (LXXVII), e ficará cousa inexpugnável nem se lhe poderá esconder um barco; a cidade tem 150 vizinhoe com seu vigario, e muita escravaria da terra.
Os padres têm aqui melhor sitio da cidade (LXXVIII). Têm grande vista com toda esta enseada defronte das janelas: têm começado o edificio novo, têm já 13 cubículos de pedra e cal que não dão vantagem aos de Coimbra, antes lha levam na bôa vista. São forrados de cedro, a igreja é pequena, de taipa velha. Agora se começa a nova de pedra e cal, todavia tem bons ornamentos com uma custodia de prata dourada para as endoenças, uma cabeça das Onze mil virgens, o braço de S. Sebastião com outras relíquias, uma imagem da Senhora de S. Lucas. A cerca é cousa formosa; tem muito mais larangeiras que as duas cercas d’Evora, com um tanque e fonte; mas não se bebe delia por a água ser salobra; muitos marmelleiros, romeiras, limeiras, limoeiros e outras fructas da terra. Também tem uma vinha que dá boas uvas, os melões se dão no refeitório quasi meio anno, e são finos, nem faltam couves mer-cianas bem duras, alfaces, rabãos e outros gêneros d’hortaliça de Portugal em abundância: o refeitório é bem provido de necessário; a vacca na bondade e gordura se parece com a d’Entre-Douro e Minho; o pescado é vário e muito, são para vêr as pescarias da sexta-feira, e quando se compra vai o arratel a quatro réis, e se é peixe sem escama a real e meio, e com um tostão se farta toda a casa, e residem nella de ordinário 28 padres e irmãos afora a gente, que é muita, e para todos ha. Duvidava eu qual era melhor provido, se o refeitório de Coimbra se este, e não me sei determinar: quanto ao espiritual se parece na observância, bom concerto e ordem com qualquer dos bem ordenados de Portugal: e estes padres velhos são a mesma edificação e desprezo do mundo, e esta fructa colheram cá por estes inatos sem pratica nem conferências, e são um espelho de toda virtude, e muito temos os que de lá viemos para andar, se havemos de chegar a tanta perfeição da solida e verdadeira virtude da Companhia.
Nas oitavas do Natal ouviu o padre visitador as confissões geraes, e renovaram-se os votos dia de Jesus, e aquelle dia preguei em nossa igreja, houve muitas confissões e communhões por causa da festa e jubileu. Por se irem acabando as monções dos Nordestes quiz o padre visitar primeiro a casa de S. Vicente e Piratininga para na volta estar n’este collegio de vagar: daqui partimos depois dos Reis para S. Vicente que dista daqui 40 léguas, e é a derradeira capitania. Fizemos o caminho á vista de terra, e toda é cheia de ilhas mui formosas, cheias de pássaros e pescado. Chegámos em seis dias por termos sempre calmarias á barra do Rio nomeado da Buriquioca (LXXIX), sc. cova dos bogios, e por o nome corrupto Bertioga, aonde está a nomeada fortaleza para que antigamente degradavam os malfeitores: a fortaleza é cousa formosa, parece-se ao longo com a de Belém e tem outra mais pequena defronte, e ambas se ajudavam uma á outra no tempo das guerras. Daqui a villa de Santos são quatro léguas. Sabendo o padre Pedro Soares (LXXX), superior daquella casa, veio pelo rio duas léguas com outro padre, e chegando á villa já de noite. O capitão com os princi-paes da terra estavam esperando o padre visitador na praia e o levaram até á igreja matriz por não haver alli outra, a qual tinham bem allumíada, concertada e enramada, e dahi o levaram á casa, e depois mandaram a cêa de diversas aves com muitos doces. Ao dia seguinte depois de jantar partimos para S. Vicente, e caminhando três léguas por um grande e formoso rio cheio de uns pássaros vermelhos que chamam Guará, dos formosos desta terra, os quaes são como pegas: os bicos são de um bom palmo, e na ponta revoltos, e têm mui compridas pernas: nascem estes pássaros pretos, e depois se fazem pardos, depois brancos, quarto loco ficam de um encarnado gracioso quinto loco ficam vermelhos mais que grã, e nesta formosíssima côr permanecem. Vivem junto d’agua salgada e nelle se criam e sustentam. Chegámos de noite á casa de S. Vicente; fomos recebidos dos padres e mais da terra com grande caridade. Dia do martyr Sebastião (20 de Janeiro de 1585) que também era domingo do Sacramento e havia desta na matriz lhe preguei: concorreu toda a terra a ouvir o companheiro do visitador, e padre reinol. Houve muitas confissões e communhões, assim na nossa casa como na matriz.
Desejavam os padres de Piratininga que o padre visitador se achasse naquella casa aos 25 de Janeiro, dia da conversão de S. Paulo, por ser orago da nossa igreja. Partimos uma segunda-feira, e caminhámos duas léguas por água, e uma por terra, e fomos dormir em um teigupaba ao pé de uma serra ao longo de um formoso rio de água doce que descia com grande impeto de uma serra tão alta, que ao dia seguinte caminhámos até ao meio dia, chegando ao cume bem cançados: o caminho é tão íngreme que ás vezes íamos pegando com as mãos. Chegando ao Paraná-piacaba, (LXXXI) se. lugar donde se vê o mar, descobrindo o mar largo quando podíamos alcançar com a vista, e uma enseada de mangaes e braços de rios de comprimento de oito léguas e duas e três em largo, cousa muito para vêr; e parecia um panno de armar: a toda esta terra enche a maré, e ficando vasia fica cheia de ostras, caranguejos, mexilhões, briguigões e outras castas de mariscos: aquelle dia fomos dormir junto a um rio de água doce, e todo o caminho é cheio de tijucos, (LXXXII) e peor que nunca vi, e sempre Íamos subindo e descendo serras altíssimas, e passando rios caudaes de água frigidissima. Ao 39 dia navegamos todo o dia por um rio de água doce, deitados em uma canoa de casca de arvore, em a qual alem do fato iam até 20 pessoas: iamos voando a remos, e da borda da canoa á água havia meio palmo e ainda que não havia perigo de darmos á costa não faltava um não pequeno, que era dar nos paus e ás vezes dando a canoa com grande impeto ficava atravessada. Era necessário guardar o rosto e olhos; porém a navegação é graciosa por o ser a embarcação e o rio mui alegre, cheio de muitas flores e fructas, de que iamos tocando, quando a grande corrente nos deixava; chegando a peaçaba (LXXXIII), se. lugar onde se desembarcam, demos logo em uns campos cheios de mentrastos; aquella noute nos agasalhou um devoto, com gallinhas, leitões, muitas uvas e ficos de Portugal, camarinhas brancas e pretas e umas fructas amarellas da feição e tamanho de cerejas, mas não tem os pés compridos. Ao dia seguinte vieram os principaes da villa três léguas receber o padre. Todo o caminho foram escaramuçando e correndo seus ginetes, que os têm bons, e os campos são formosíssimos, e assim acompanhados com alguns 20 de cavallo, e nós também a cavallo chegámos a uma Cruz que está situada sobre a villa, donde estava prestes um altar debaixo de uma fresca ramada, e todo o mais caminho feito um jardim de ramos. Dalli levou o padre visitador uma cruz de prata dourada com o Santo Lenho e outras relíquias, que o padre deu aquella casa; e eu levava uma grande relíquia dos santos Thebanos. Fomos em procissão até á igreja com uma dança de homens de espadas, e outra dos meninos da escola; todos Iam dizendo seus ditos ás santas relíquias. Chegando á igreja doutos a beijar as reliquias. ao povo. Ao dia seguinte disse o padre visitador missa com diacono e subdiacono, offi ciada em canto d’orgão pelos mancebos da terra. Houve jubileu plenário, confessou se e commungou muita gente: préguei-lhe da conversão do Apóstolo. E em tudo se viu grande alegria consolação no povo. E muito mais nos nossos, que com grande amor no meio daquelle sertão e cabo do mundo, nos receberam e agasalharam com extraordinária alegria e caridade.
Em Piratininga esteve o padre visitador quasi todo o mez de Fevereiro, consolando e animando os nossos; ouviu as confissões geraes, foi visitado dos principaes da terra muitas vezes. Foi a uma aldêa de Nossa Senhora dos Pinheiros da Conceição (LXXXIV). Os Índios o receberam com muita festa como o costumam, mandando de sua pobreza. Também foi a outra aldêa dahi duas léguas; parte do caminho fomos navegando por uns campos, por ter o rio espraiado muito, e ás vezes ficamos em secco. Nesta aldêa baptisou o padre trinta adultos e casou em lei da graça outros tantos; no fim de Fevereiro se partiu para S. Vicente, aonde esteve quasi todo o mez de Março, e eu fiquei em Piratininga até ao segundo domingo da quaresma, pregando e confessando, e quando parti para S. Vicente eram tantas as lagrimas das mulheres e homens moradores, que me confundiam: mandaram-me gallinhas para a matolagem, caixas de marmelada, e outras cousas, acompanhando-me alguns de cavallo as três léguas até o rio, e deram cavalgaduras para os companheiros. Nosso Senhor lhes pague tanta caridade e amor.
Piratininga é villa da invocação da conversão de São Paulo; está do mar pelo sertão dentro doze léguas; é terra muito sadia, ha nella grandes frios e geadas e boas calmas, é cheia de velhos mais que centenários, porque em quatro juntos e vivos se acharam quinhentos annos. Vestem-se de burel, e peiiotes pardos e azues, de pertinas compridas, como antigamente se vestiam. Vão aos domingos á igreja com roupões ou berneos de cacheira sem capa. A villa está situada em bom sitio ao longo de um rio caudal. Terá cento e vinte vizinhos, com muita escravaria da terra, não tem cura nem outros sacerdotes senão os da Companhia, aos quaes têm grande amor e respeito, e por nenhum modo querem aceitar cura. Os padres os casam, baptisam, lhes dizem as missas cantadas, fazem as procissões, e ministram todos os sacramentos, e tudo por sua caridade: não tem outra igreja na villa senão a nossa. Os moradores sustentam seis ou sete dos nossos, com suas esmolas com grande abundância: é terra de grandes campos e muito semelhante ao sitio d’Evora na bôa graça, e campinas, que trazem cheias de vaccas, que é formosura de vêr. Tem muitas vinhas, e fazem vinho, e o bebem antes de ferver de todo: nunca vi em Portugal tantas uvas juntas, como vi nestas vinhas: tem grandes figueiras de toda sorte de figos, bersaçotes, bebe-ras, e outras castas, muitos marmelleiros, que dão quatro camadas, uma após outra, e ha homem que colhe doze mil marmellos, de que fazem muitas marmelladas: tem muitos rosaes de Alexandria, e porque não tem das outras rosas, das de Alexandria fazem assucar rosado para mezinha, e das mesmas cozidas, deitando-lhe a primeira água fora, fazem assucar rosado para comer e fica soffrivel: dá-se trigo e cevada nos campos: um homem semeou uma quarta de cevada e colheu sessenta alqueires: é terra fertilissima, muito abastada: quem tem sal é rico, porque as criações não faltam. Tem grande falta de vestido, porque não vão os navios a S. Vicente senão tarde e poucos: ha muitos pinheiros, as pinhas são maiores, nem tão bicudas como as de Portugal: e os pinhões são também maiores, mas muito mais leves e sadios, sem nenhum extremo de quentura ou frialdade, e é tanta a abundância que grande parte dos índios do sertão se sustentam com pinhões: dão-se pelos matos amoras de silva, pretas e brancas, e pelos campos bredos, beldroegas, almeirões bravos e mentrastos, não fallo nos fetos, que são muitos, e de altura de uma lança se os deixam crescer. Em fim esta terra parece um novo Portugal.
Os padres têm uma casa bem acommodada, (LXXXV) com um corredor e oito cubículos de taipa, guarnecida de certo barro branco, e off icinas bem acommodadas. Uma cerca grande com muitos marmellos, figos, larangeiras e outras arvores d’espi-nho, roseiras, cravos vermelhos, cebolas cecêm, ervilhas, borragens, e outros legumes da terra e de Portugal. A igreja é pequena, tem bons ornamentos, e fica muito rica com o Santo Lenho, e outras relíquias que lhe deu o padre visitador.
O padre em S. Vicente visitou os padres, consolando muito a todos, e foi dalli dez léguas pela praia a uma Nossa Senhora da Conceição, que está na villa de Itanhaem: também visitou o forte que deixou Diogo Flores (LXXXVI), com cem soldados, e do alcaide e do capitão foi visitado muitas vezes e lhes concedeu um padre que os fosse confessar por ser quaresma.
S. Vicente é capitania: tem quatro villas, a primeira é S. Vicente, villa de Nossa Senhora da Assumpção; está situada em lugar baixo manencolisado e soturno, em uma ilha de duas ieguas de comprido. Esta foi a primeira villa e povoação de portu-guezes que houve no Brasil; foi rica, agora é pobre por se lhe fechar o porto de mar e barra antiga, por onde entrou com sua frota Martim Affonso de Sousa; e também por estarem as terras gastas e faltarem Índios que as cultivem, se vai despovoando; terá oitenta vizinhos, com seu vigário (LXXXVII). Aqui tem os padres uma casa aonde residem de ordinário seis da Companhia: o sitio é mal assombrado, sem vista, ainda que muito sadio: tem boa cerca com várias fructas de Portugal e da terra, e uma fonte de mui bôa água. Estão como heremitas, por toda a semana não haver gente, e aos domingos pouca. A segunda é a villa de Santos, situada na mesma ilha, é porto de mar; tem duas barras, na principal está o forte que deixou Diogo Flores, a outra é a barra da Bertioga, que dista desta villa quatro léguas por um rio tão formoso, que podem navegar navios de alto bordo: terá a villa de Santos oitenta vizinhos, com seu vigário. A terceira é a villa de Nossa Senhora do Itanhaem, que é a derradeira povoação da costa, que terá cincoenta vizinhos, não tem vigário. Os padres visitam, consolam e ajudam no que podem, ministrando-lhes os sacramentos por sua caridade. A quarta é villa de Piratininga, que está doze léguas pelo sertão adentro, terá cento e vinte vizinhos ou mais.
No fim de Março já despedidos de S. Vicente, viemos para Santos, aonde nos esperava já o nosso navio aparelhado: preguei na matriz dia de Nossa Senhora da Annunciação (25 de Março): houve muitas confissões e communhões. Os desta vil Ia pediram ao padre lhe mudasse a casa de S. Vicente para alli, o que o padre lhes concedeu. Logo deram um sitio bom ao longo do mar, e a cadêa publica, e umas casas novas, que tudo valera quinhentos cruzados, e começam o edifício com suas escolas (LXXXVIII).
De Santos partimos acompanhando-nos o capitão, o qual nunca se apartava do padre visitador, servindo-o com tanto respeito e amor que me espantava; estivemos dois ou três dias na barra da Bertioga esperando tempo, servidos de muitos e vários peixes: chegámos ao Rio de Janeiro sábbado de dominica in passione, adonde tivemos as endoenças; preguei o mandato, e outro padre a paixão. Fez-se um sepul-chro devoto e bem acabado, com muita cêra branca.
Tendo o padre visitado o collegio do Rio, e assentado de invernar alli aquelle anno, recebeu cartas de como N. Padre geral mandava doze a esta província, e que estavam para partir de Lisboa; para os agasalhar e receber se partiu para a Bahia com seus companheiros, padre provincial, padre Ignacio Tolosa,e alguns irmãos; gastámos na viagem trinta e dois dias, e quiz-nos Nosso Senhor modificar, e dar a entender quam trabalhosa era a navegação desta costa, porque até então todas as viagens que o padre visitador fez foram mui bem assombradas e mar bonança, mas esta como era a derradeira, foi tal tão contrários os ventos e taes as tempestades, que vindo embocar na Bahia e estando á vista de terra, nos deu tão forte tempo que estivemos perdidos uma noite com o navio meio alagado, e o traquete desaparelhado, e nós confessados nos aparelhamos para morrer, e se daquella foramos, lá ia a maior parte da província, não em numero, mas em qualidade (LXXXIX). Eu não no havia por mim, porque já me offerecia que me deitassem ás ondas como Jonas, mas queriam acabar juntamente com os padres visitador, provincial, Ignacio Tolosa, e outros irmãos de boas habilidades e virtude, para ajudarem esta província: certamente que isto me desconsolava. Porém foi Nosso Senhor servido consolar esta província com de novo lhe conceder os sobreditos. Chegados á Bahia nos achámos sem os padres, que não foi pequena mortificação, e eu em extremo me consolei com saber que o padre Lourenço Cardim com tanto animo acabara por obediência em tão gloriosa empresa (XC). Tive-lhe grande inveja, pois vai diante de mim, e em tudo sempre me levou avantagem.
Chegados á Bahia mandou o padre visitador recado ao padre Luiz da Grã, que viesse a este collegio, e foi o recado em tão bôa conjuncção que aos 13 de Outubro
chegou aqui. O padre visitador corn os mais padres, que para esse fim aqui ajuntou, listão dando remate e ultima resolução á visita e negócios desta província, etc.
Isto é o que se me offereceu da nossa viagem e missão para dar conta a Vossa Reverencia. Resta pedir os santos sacrifícios de Vossa Reverencia e sua santa benção e ser encomendado em os sacrifícios e orações dos mais padres e irmãos dessa provincia. Deste collogio da Bahia, a 16 de Outubro de 85. — Por commissão o
Padre Visitador Christovão de Gouvêa. — De V. R. filho indigno em Christo N. S. — FERNÃO CARDIM.
II
Ao muito reverendo em Christo Padre, o Padre provincial de Portugal:
Continuarei nesta o que succedeu depois da ultima que escrevi a Vossa Reverencia em 16 de Outubro de 85, que foi o seguinte. Tanto que o padre visitador teve aqui na Bahia juntos os reitores dos collegios, e outros padres professos, e antigos, attendeu dar a ultima mão á visita desta província, em a qual ordenou cousas muito necessárias ao bom meneio dos collegios e residências, aldêas dos indios, missões, assentando algumas cousas, a da visita para todos poderem observar com grande gloria divina, bom procedimento da Companhia, e bem da conversão, a observância religiosa a mandou a nosso padre geral, e lhe veio toda approvada sem lhe tirar cousa alguma, e assim se pratica até agora com notável fructo, e ainda que depois se ventilaram sobre ella algumas duvidas sempre nosso padre sustentou, avisando a todos por suas cartas secretamente, que se guardasse assim como estava, o que se faz com bôa satisfação, e assim mesmo approvou outra visita particular do collegio da Bahia, de que se não seguiu menos fructo.
Depois disto teve o padre visitador carta de nosso padre geral, em que lhe dizia que havia de ir para Portugal, e eu havia de ser companheiro do padre provincial Marçal Belliart (XCI); porém se não partisse para esse reino até a chegada do padre Marçal Belliarte. Dahi a um mez, ou pouco mais, recebeu outra do nosso padre, pela qual lhe ordenava que me encarregasse deste collegio da Bahia. Veja Vossa Reverencia qual eu ficarei com um peso tão sobre minhas forças, mas suprirão, como espero da caridade de Vossa Reverencia, seus santos sacrifícios, em que muito me encommendo, etc.
Algumas cousas fez o padre dignas de memória, e muito aceitas aos deste collegio: a primeira foi um poço de noventa palmos de alto, e sessenta em roda, todo empedrado, de boa água, que deu muito allivio a este collegio, que por estar em um monte alto, carecia de água sufficiente para as officinas; e também fez um eirado sobre columnas de pedra, aberto por todas as partes, e fica eminente ao mar, e vãos que estão no porto que servem de repousos; e é toda a recreação deste collegio, porque delle vêem entrar as naus, descobrem bôa parte do mar largo, e ficamos senhores de todo este recôncavo, que é uma excellente, aprazível e desabafada vista; fez uma quinta, e nella umas casas com capella, refeitório, cozinha, uma sala com suas varandas, e um formoso terreiro com uma fonte que lança mais de uma manilha de água, muito sadia para beber; mandou plantar arvores de espinho e outras fructas, que tudo faz uma bôa quinta, que se pôde comparar com as boas de Portugal.
Como o mar andava infestado de francezes e inglezes se deteve o padre Marçal Belliarte com seus companheiros nessa província até 7 de Maio de 87, em que chegaram a Pernambuco, aonde se detiveram até 20 de Janeiro de 88, que entraram nesta Bahia, e foram recebidos dos nossos com grande consolação e alegria, principalmente do padre visitador, que desejava descarregar-se do trabalho que exercitava havia tanto tempo; porém succedeu ao contrario, porque o padre Marçal Belliarte lhe deu uma carta de nosso padre geral, em a qual lhe mandava que lhe desse companheiro e consultores, e fizesse reitores dos collegio e superiores nas residências, e depois de bem informado o padre provincial, havendo bons commodos de embarcação, se partisse para esse reino. Logo succedeu não haver embarcações commodas no porto e foi necessário esperar uma náu bem artilhada de um André Nunes, vizinho do Porto. Determinando o padre de nella se partir, foram tantas as novas que correram dos muitos inglezes e francezes que coalhavam o mar, e da armada do Sr. D. Antônio, que poz em consideração a partida; e como o padre aqui não tinha superior, me
mandou que o tratasse com todos os padres deste collegio, os quais por escripto deram seus pareceres e ainda que a maior parte se inclinava a não se partir pelas razões apontadas, todavia como a náu era boa, com parecer do Bispo e outros Srs. desta cidade se fez á vella no principio de Março de 89, e andando no mar 3 ou 4 dias sem se poderem emmarar mais que 18 até 20 léguas, foi grande a tormenta e tempestade desfeita que tomou a náu de luva e abriu uma água tão grande, que se viram detodos perdidos e tornaram a arribar a esta Bahia. Os padres, o Sr. Bispo e outras pessoas de conta acabaram com elle que não fosse por então, e assim esteve neste collegio com muita consolação nossa até 20 de Maio, em que se partiu para Pernambuco em uma náu do Porto sem artilharia.
Em Pernambuco esteve até á véspera de S. Pedro e S. Paulo, e tomados os pareceres do"padre Luiz da Grã, reitor e mais padres por escripto, se embarcou, dizendo ao padre Luiz da Grã, que lhe parecia havia de ser tomado dos francezes, o que ouvindo o padre Luiz da Grã, pela efficacia com que o padre lho disse, lhe tornou a rogar com outros padres que se não partisse; respondeu-lhe o padre que já Sua Reverencia com os mais, tinham assentado, e elle aceitado aquella obediência como da mão de Deus, e que já estava offerecido a tudo o que Deus delle ordenasse, etc. e assim embarcando-se véspera dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, ao seu dia, com o terral da manhã se fizeram á vella para esse reino; tiveram sempre prospera viagem até á altura de Portugal, em que foram tomados uma manhã de um brechote francez, sem haver alguma resistência, por a náu ser desarmada sem nenhuma defensa, 6 de Setembro.
E posto que Vossa Reverencia lá terá plena informação dos particulares que nella aconteceram, não deixarei de apontar alguns mais principaes, assim como nos relatou o mesmo padre por sua carta, e o padre Francisco Soares (XCII) seu companheiro. Tanto que a náu foi entrada de sete ou oito francezes, o padre se foi ao capitão e lhe disse, que lhe daria algumas cousas que trazia em seu escriptorio, que lhe pedia por mercê lhe deixasse alguns papeis que nelle tinha, pois lhe não serviam; foi com isso contente o capitão, e o padre mandou vir o escriptorio, e lho deu, que era uma peça de estima, de madeira de várias cores e obra bem acabada por um irmão nosso, e insigne carpinteiro e marcineiro, e juntamente alguns rosários de cheiro, pelo que lhe deixou todos os papeis e lhe deu para os metter, um baú do mesmo padre, que já outro francez tinha pilhado, e o capitão lhe prometeu de olho satisfazer. Nove dias os trouxeram os francezes comsigo, nos quaes padeceram muita sede, fome e frio, e máu agasalhado, com que ao padre deu um catarro rijo com febre que o tratou muito mal e poz em risco da vida, mas esta tinham elles tão arriscada que cada dia esperavam pela morte a que estavam offerecidos. Andando com elles appareceu uma formosa náu ingleza, aqui de todo cuidaram não escapar, mas livrou-nos Nosso Senhor, porque se contentou o inglez com perguntar, que porta a náu e respondendo-lhes os francezes que bacalhau, passou; mas não passou a fúria dos francezes, que vendo ir pela água uns papeis, que por serem de segredo o padre os mandou lançar ao mar, e como elles são desconfiados, cuidaram que ia alli alguma traição ou cartas para El-Rei, em que por isso os lançaram ao mar: saltou a fúria nelles, eo capitão com outros tomaram as achas de fogo, e deram uma bôa a cada um dos nossos, ao irmão Barnabé Tello pelo rosto, ao padre Francisco Soares pelas costas, e ao padre por uma coxa, estas são boas piculas sem post pasto: mas não faltou este para o padre visitador, porque, não satisfeito, um delles achou uma tijela de fogo, e lha aremessou á cabeça com tanta força que lhe tratou muito mal um olho; acudiu logo outro francez, e de um rolo que tinha tomado aos padres lhe fez uma pasta e lha poz nelle. Veja vossa Reverencia que caridade esta, não esperada de gente que lhe tinham tomado até as vestes; e porque o padre sem ellas por causa do muito frio e catarro padecia muito, rogaram ao capitão que lhe desse um manto para se abrigar por causa do muito frio; mas pouco lhe durou, porque indo o padre para cima tomar ar e aquentar-se um pouco ao sol, quando tornou se achou sem o manto, que nunca mais appareceu. Outra tribulaçáo grande padeceram espiritual, e foi desta maneira: lançou o padre Francisco Soares uns poucos de papeis do padre pelo botoque de um pipa d’agua salgada, para que lhos não vissem os francezes, e lhe tornassem a dar outras poucas de pancadas. Eis que o capitão manda fusdir a nau e vasar a pipa, os padres que estavam temerosos, temendo que em sahindo os papeis rotos os francezes se indignassem contra elles e os matassem, estando já para sahir os papeis subitamente o capitão e mais francezes se alentaram e foram para a tolda de cima, deixando a pipa que se acabasse de vazar de água, e assim ficaram livres e desassombrados deste perigo; mas não de outro em que um francez tentou o padre visitador, porque dando-lhe em sexta-feira um pouco de toucinho, o padre lançou fora, e o francez desejoso que o comesse lho mettia por força na boca; e porque o padre o lançava fora, instava o francez com uma faca na mão, que lha queria metter pelo rosto e olhos, apertando que comesse, porém vencido da constância do padre desistiu de seu máu intento. Em outro perigo se viram não menor que o passado, e foi que achando um francez uma faca grande e uma moeda de prata junto dos padres, entrou nelle a imaginação que tinham alli aquella faca para com ella lhes fazerem traição e os matarem; porém, respondendo os padres com humildade, que não sabiam quem alli puzera a faca, se deram por satisfeitos; e chegando já junto ria Rochella, encontram um brechote pequeno sem coberta, com três pescadores Bretões, que sahindo de Bordeós aonde foram vender pescados, com tormenta andavam desgarrados por esse mar quasi de todo perdidos, lançaram os francezes sua "lancha fora, e tomaram os pobres pescadores e deram-lhes muitas pancadas, tomaram-lhe o dinheiro e mais que trazia. Nesta embarcação lançaram os padres com alguns marinheiros e passageiros; mas primeiro tornaram a buscar os nossos e abriram o baú dos papeis e sacudiram todos folha e folha, a vêr se achavam algum dinheiro; mas não o achando, tornaram a metter os papeis no báu e os deram aos padres. Não queria o capitão largar o padre visitador, reservando-o para resgate em troco d’alguns parentes seus que foram tomados pelos espanhoes; sabendo isto Manuel Alvares, capitão da náu portugueza, lhe pediu que o largasse que lhe não dariam nada por elle, que era muito doente, e lhe morreria sem alcançar o que pretendia. E um João Alvares, mestre da náu portugueza, irmão do dito capitão Manuel Alvares, que estava muito ferido de uma arcabuzada pelo rosto, e uma cutilada pela cabeça pediu também ao capitão francez que deixasse ir com elle, e com os mais o padre porque d’outra maneira sem falta morreria; e assim o largou e deixou embarcar. Estavam da costa setenta até oitenta léguas, e com uma fraca vella esfarrapada, e dous remos, com um barril de cerveja bem negra, e um pouco de biscoito pouco alvo e quasi podre; veja Vossa Reverencia que deshumanidade esta, parece que os largaram para morrer nesse mar, pois os largavam em bôa embarcação, e com tal matolagem. Começaram sua perigosa e venturosa viagem: acudiu-Ihes Nosso Senhor com um bom vento galerno, que em dous dias e meio os levou á Biscaia, porto de Santo André. Sahiram em terra muito desfigurados de fome, rotos, maltratados de frio, e tão lastimosos que as verdadeiras pelas ruas offereciam aos padres das maçãs e fructas que vendiam; iam elles tão desfallecidos que nada lhes aceitaram por estarem mais para morrer, do que para comer. A esta urgente necessidade lhes acudiu Nosso Senhor com sua misericórdia, por meio de um abbade de bago, isento administrador eclesiástico, irmão do nosso padre Dessa, que era como bispo daquella terra; este sabendo que eram da Companhia, e foram roubados, os mandou agasalhar em uma estalagem,aquelle sabbado, 15 de setembro, e lhes mandou dar um prato de meudos, pão, vinho e maçãs, com que em alguma maneira se refizeram; e mostrando-lhe o padre a patente, como os reconheceu de todo por da Companhia, os levou para sua casa, e metteu em uma câmara onde os regalou com abundância, pondo-os á sua mesa por espaço de cinco ou seis dias, nos quaes se refizeram de roupa, e tornaram em cavalgaduras até Burgos: de Burgos a Valhadoli, e dali até Bragança, passaram no caminho muitos frios e incommodidades, com que acabaram de perfeiçoar sua viagem, e Nosso Senhor terá lembrança de lhe dar os prêmios destes trabalhos em sua gloria.
Quoniarn beatus vir quisuffert tentationem: qui cum probatus fuerit, accipiet coronam vitae, etc.
Da Bahia, a 1 de Maio de 90. De V. R. Filho indigno em Christo N. Senhor. -FERNÃO CARDIM.
