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LÍNGUA ÁRABE, FILOSOFIA ÁRABE, LITERATURA ÁRABE

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Gustave Le Bon

A Civilização árabe (1884) – volume V

Capítulo II

LÍNGUA, FILOSOFIA, LITERATURA

I

A LÍNGUA ÁRABE

O idioma árabe faz parte do grupo das línguas semíticas, tem muita analogia com o hebreu e inclui sons muito diferentes dos das línguas européias, motivo pelo qual os estrangeiros o pronunciam com muita dificuldade.

Ignora-se em que época se constituiu a língua árabe, tal como hoje existe, mas sabemos pelos antigos poetas, anteriores a Maomé, que pelo menos um século antes deste ela já havia alcançado a perfeição atual. Embora constasse de vários dialetos, a tradição, recebida pelos escritores muçulmanos, assegura que a tribo na qual Maomé nasceu se distinguia pela pureza da linguagem. A influência do Co-rão fêz do idioma em que êle estava escrito uma língua universal.

O árabe é uma das línguas mais homogêneas, e apesar de indubitável que se divide em vários dialetos, como os da Síria, Arábia, Egito e Argélia, estes apenas diferem entre si por ligeiras variantes; enquanto há habitantes de uma aldeia do norte ou de uma cidade do sul de França que não compreendem uma palavra de suas línguas recíprocas, todos os habitantes do Marrocos compreendem facilmente os do Egito ou da Arábia. Não será demais sabermos o que diz

neste particular um dos homens mais competentes, o viajante Burckhardt:

"Sem dúvida há no árabe falado grande diversidade de dialetos, e talvez essa diversidade seja maior que em qualquer outra língua, mas apesar da vasta extensão dos países onde se fala, desde Mogador a Mascate, quem tiver aprendido um desses dialetos facilmente compreenderá todos os restantes; embora a pronúncia se tenha ressentido da natureza de cada país, conservado sua brandura nos vales baixos do Egito e da Mesopotâmia, e adquirido rudeza nas frias montanhas da Berbéria e da Síria, o ponto onde há mais diferenças, segundo pude averiguar, é entre os magrebinos de Marrocos e os beduínos do Hedjaz perto de Meca; e todas as diferenças que encontramos entre estes dois dialetos não passam das que vemos entre o idioma alemão de uma região da Suábia e o de uma região da Saxônia".

Porém se a língua mudou pouco desde Maomé, em compensação variou bastante o modo de a escrever. A primitiva escrita, chamada cúfica, do nome da cidade de Kufa onde se garante que a inventaram, era muito difícil de ler porque nela não figuravam as vogais, mas no século VIII da nossa era sofreu modificações, adotando sinais diacríticos que as indicavam, com a diferença de que, como os caracteres cúficos continuaram sendo usados nas inscrições, nem sempre podemos agora avaliar a idade destas pelos caracteres em que estão gravadas.

Cumpre fazer acerca da língua árabe a mesma observação que fizemos sobre a religião em outro capítulo, e é que enquanto os conquistadores anteriores nunca puderam impor sua língua aos conquistados, os árabes o conseguiram, tornando-a universal em todos os países onde penetraram, absorvendo todos os idiomas que antes se falavam, como o siri aco, o grego, o berbere, etc. O mesmo sucedeu na Pérsia durante muito tempo, pois apesar do renascimento do persa, o árabe continuou sendo o idioma de todos os literatos e a escrita árabe a única que se usa, razão pela qual todas as obras de e conhecidas na Pérsia são escri-

tas na mesma língua. O árabe ocupa nesta parte da uma posição análoga à que tinha o na Europa durante a Idade Média. Os próprios turcos, que foram os conquistadores dos árabes, adotaram sua escrita, e na Turquia toda a pessoa medianamente instruída é capaz de compreender facilmente o Corão.

Conviria talvez citar as nações latinas como pontos onde o árabe não suplantou mais ou menos os antigos idio-

Fig. 217 — Tinteiro de cobre cinzelado (estilo persa-árabe) segundo fotografía do autor.

Fig. 217 — Tinteiro de cobre cinzelado (estilo persa-árabe) segundo fotografía do autor.

mas existentes, porém de tal modo influiu neles que Dozy e Engelmann chegaram a compor todo um dicionário com as palavras espanholas e portuguesas derivadas do árabe.

Na própria França o árabe deixou recordações importantes, a ponto de Sedillot observar com razão que os dialetos do Auvergne e do Limousin estão "cheios de vocábulos árabes, e os nomes próprios têm freqüentemente uma forma árabe completa".

"Era muito natural —- acrescenta o autor acabado de citar, — que os árabes, senhores como eram do Mediterrâneo desde o século VIII, dessem à França e à Itália a maior parte dos vocábulos de marinha, como almirante, esquadra, frota, fragata, caravela, corveta, falua, chalupa, sloop, barca, chusma, calafate, estacada, e em primeira linha a bússu-la, impropriamente atribuida aos chineses; era natural que na formação dos exércitos permanentes se adotassem os títulos dados aos oficiais dos exércitos árabes, o grito de guerra dos árabes, o emprego da pólvora, das bombas, das granadas, dos obuses, e que na administração os vocábulos de síndico, ajudas, gabelas, alcavalas, tarifas, aduanas, bazar, etc, se tomassem dos governos de Bagdad e Córdova. Os reis de França da terceira raça imitavam-nos em tudo, e assim a maioria das palavras das grandes caçadas foram tiradas dos árabes; a palavra torneio, que os lexicógrafos modernos derivam de torneamentium, procede do árabe ternu, espetáculo militar; mas no que devemos especialmente fixar-nos é na nomenclatura científica. Nossa está povoada de expressões árabes: azimute, naãir, zénite, as peças do astrolábio, alidade, os nomes das estrelas Aldeba-ran, Rigel, Altair, Wega, Acamar, Aghol, etc; o mesmo-encontramos nas matemáticas: cifras, zero, , etc; na química: , álcool, álcali, alambique, e na história natural e na medicina, elixir, xaropes, julepos, sorvetes, mira-bolanos, e o haxixe do qual se originou a palavra assassi?ios".

O autor de um recente dicionário etimológico da língua francesa assegura que a permanência dos árabes no sul de França não deixou qualquer rastro no patuá nem na língua, mas à vista do que foi dito poderá julgar-se o escasso valor de semelhante opinião, sendo muito estranho que ainda hoje a repitam homens verdadeiramente instruídos.

A língua árabe é riquíssima, e sua riqueza aumentou-se continuamente com a adição de vocábulos novos tirados dos idiomas com os quais ela esteve em contacto. Assim é que o dicionário de Ibn Said, falecido em 1065, alcançava já vinte volumes.

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