jul 182012
 
Dr. Aluísio Telles de Meirelles.

Fonte: Manual do Executivo. 
Novo Brasil editora brasileira.
   
 

GREGOS E ROMANOS

Da Grécia ao Império Romano

NA GRÉCIA, país extremamente montanhoso, o mar penetra profundamente, pelos golfos ramificados; por sua vez a terra firme é dividida em inumeráveis ilhas e penínsulas que a protegem contra a tempestade e o furor das ondas. Essa a razão por que tal região sempre se prestou muitíssimo para a navegação.

As viagens marítimas eram já naquela época familiares aos gregos, embora eles não se arriscassem ainda a empresas mercantis de grande envergadura, devido a que o domínio do mar pertencia aos fenícios, que o asseguravam pela força.

Só mais tarde, quando os reis assírios e egípcios começaram a impor domínio sobre os fenícios, é que as

< idades gregas conseguiram se libertar das cadeias da hegemonia mercantil fenícia.

Enquanto isso, as regiões litorais da bacia mediterrânea oriental iam-se povoando de elementos gregos, o tràfico intensificando-se em todos os sentidos, os produtos gregos no estrangeiro tendo mercados assegurados. Assim, a atividade industrial tomou considerável impulso na Grécia, que se transformou de país agrícola em

Estado industrial e mercantil.

Conquista a sua hegemonia política sobre o mar, depois do levante jónico e das guerras dos persas, a Grécia conseguiu então o domínio mercantil da sua época.

Atenas passou então à invejável posição de metrópole do tráfico. Assim, ousadamente, os gregos visaram países longínquos. Cansados já das imposições fenícias, trataram de estabelecer imediato contacto com as caravanas que os mercadores fenícios haviam dirigido para

o seu Estado litoral.

As colônias fundadas no Mar Negro, as feitorias estabelecidas em Cirene e na desembocadura do rio Nilo, foram desde então a meta das expedições mercantis procedentes do interior da Ásia.

As mercadorias procedentes da Índia e da China passaram então a descrever um arco em torno dos portos fenícios, e chegando até o mar sem utilizar as funções intermediárias do mercador fenício, punham-se em mãos dos navegantes gregos.

O solo grego nunca se prestou para a agricultura, devido à sua pobreza e infecundidade. Não obstante, produziam mel, azeite e vinho que eram produtos sempre cobiçados. Igualmente os produtos artísticos adquiriram grande desenvolvimento entre os helenos.

Em Atenas, as fábricas de couros, as fundições, manufaturas de armas eram produtos fabricados para exportação. Possuía ainda grande importância a fabricação de objetos de cerâmica.

Com efeito, graças à sua magnífica argila, conseguiu Atenas conquistar os mercados estrangeiros com relativa facilidade. Com os produtos da sua variada indústria, inundaram os helenos todos os postos de comér-rio, cada vez mais os portos fenícios se iam enfraquecendo em face da competência dos gregos.

A época grega, comparada com o período fenício precedente, trouxe consigo um notável desenvolvimento «las rotas do comércio mundial. As praças do mar Negro, principalmente, ofereceram aos gregos magníficas opor-

t unidades para adquirirem toda uma série de artigos mercantis de primeira necessidade.

Com efeito, daquelas regiões Atenas recebia a madeira de construção para os seus arsenais, além dos produtos necessários para equipar suas naves como o cânhamo, o alcatrão, a cera e o couro.

À medida que fòi crescendo a atividade fabril, desempenhou um papel cada vez mais assinalado a impor-lação de escravos, principalmente da Trácia, sendo, daí por diante, maior a necessidade de trazer das colônias artigos alimentícios.

Atenas recebia dos povoados do mar Negro a maior parte dos cereais que necessitava, bem como carnes e peixes.

Em pouco tempo os gregos, à semelhança dos fenícios, JA não se contentavam e não se limitavam ao comércio do mar Egeu. Começaram também a abastecer-se com produtos orientais das localidades do Ocidente — o norte <la África, a Sicília e a Baixa Itália e ainda o sul da França.

Entre as cidades sicilianas que quase exclusivamente deveram a sua importância à abundância em produtos naturais, foi Siracusa, uma das cidades mercantis mais esplêndidas da antigüidade.

Assim, os gregos levaram até aos longínquos mercados do Ocidente mediterrâneo a sua competência, tão perigosa para os fenícios. Estes deram sua influência até  o sul da Espanha e começaram depois a explorar as regiões da desembocadura do Ródano, onde fundaram uma importante praça mercantil: Massília, hoje Marselha.

Filipe II e Alexandre Magno imprimiram um considerável progresso na estrutura do tráfico mundial elevando a Macedônia à categoria de Estado diretor da política da Grécia e criando um centro comum para as localidades geográficas e politicamente diferentes.

Alexandre abriu novos caminhos ao comércio mundial, levando os costumes e a cultura grega ao coração da Ásia. Suas expedições guerreiras foram ao mesmo tempo viagens de exploração, que permitiram o conhecimento das rotas seguidas pelas caravanas da Ásia interior.

As cidades fundadas por Alexandre com finalidades militares, converteram-se mais tarde em centros de colonização grega, pois não menor que o seu interesse estratégico, era sua posição mercantil por estarem situadas na desembocadura de grandes rios ou nas passagens de altas montanhas.

Muitos e muitos emigrantes gregos chegaram às cidades recém-fundadas, ficando assim todo o oriente incluído dentro da esfera cultural dos gregos.

A época macedônica trouxe ainda grande progresso, fazendo com que o mercador grego abandonasse o antigo sistema até então seguido, deixando de ser apenas intermediário, para penetrar por suas próprias forças até os grandes mercados do interior da Ásia.

Já nessa época se manifestava um deslocamento na situação mundial e mercantil; a Grécia não mais se achando no centro da política e do tráfico. Atenas lutando em vão por manter sua privilegiada posição mercantil e marítima.

Assim, a vida comercial do povo grego foi se modi

f ícando gradativamente, tornando-se diferente, enquanto novas praças mercantis iam surgindo em seguida.

Após a morte prematura de Alexandre, seu império mundial foi se desintegrando, muito embora não se perdesem os progressos conseguidos em sua época.

Alexandria, fundada na costa, vasta, de um país riquíssimo, na desembocadura de seu único rio, no limite de duas partes do mundo e unido por um mar mediterrâneo sumamente irregular, desenvolveu-se com extrema rapidez, convertendo-se logo, não só em magnífico centro de arte e ciência, como também na praça comercial mais grandiosa do mundo antigo.

Quanto à península italiana, seu povo dedicou-se a cultivar os vales profundos, a revestir as encostas de suas montanhas de parreiras e oliveiras e a criar cabras e ovelhas nas elevações calcárias, a agricultura e a criação servindo assim de base social aos seus habitantes.

A atividade industrial e mercantil desenvolveu-se primeiramente entre os etruscos, que imprimiram desde muito cedo um grande desenvolvimento à indústria metalúrgica e à confecção de objetos de cerâmica.

Cerca do segundo milênio antes de Cristo, os etruscos entraram em contacto com os fenícios e com o Oriente, fornecendo a esses povos vasos, armas e utensílios de bronze.

A partir dessa época, os etruscos aparecem juntamente com os fenícios e os gregos como uma das nações marítimas mais importantes da antigüidade.

O progresso dessa nação deu motivo igualmente de uma maior extensão do seu domínio político e em pouco

a Etrúria dominava toda a península itálica. Não obstante, sucumbiu, em face dos ataques conjuntos dos seus inimigos exteriores.

A Icália passou então a ser dominada por Roma e sua intervenção na Sicília deu lugar a um choque com o estado semita marítimo que ficava na costa norte da África, Cartago, que tinha-se mantido com seu esplendor colonial um último resto do domínio mercantil fenício.

Cartago, por sua situação super-favorável sobre um promontório da costa africana, no fundo do vasto golfo de Tunis, oferecia vantajosa situação para as relações mercantis.

Naturalmente que as zonas do Mediterrâneo oriental lhes estavam vedadas, pelo exclusivo domínio que ali exerciam os gregos; em compensação, na bacia ocidental seu comércio adquiriu caráter de verdadeiro monopólio. Também no interior da África penetraram as caravanas cartaginesas, trocando produtos de sua atividade fabril por marfim, ouro, sal.

Tal situação permaneceu até que surgiu o inevitável: chocaram-se os cartagineses com os romanos. Como se sabe, Cartago sucumbiu ante os romanos e a recém-for-mada frota romana foi portadora da sua grandeza mundial.

Roma pouco tinha para exportar. Somente azeite e vinho. Os artigos de consumo, em sua grande maioria, eram importados das províncias de ultra-mar e pagos com o dinheiro arrancado das populações submetidas.

Um aumento dos negócios se verificou, naturalmente. A plutocracia romana criou uma ilimitada economia monetária que abrangeu todo o mundo conhecido. E o comércio floresceu. No entanto, a falta de uma base industrial tornou a sua balança mercantil passiva, fazendo com que a prosperidade da Itália se perdesse, apesar dos tesouros que afluíam constantemente para ali.

Então, o comércio no mar Mediterrâneo conheceu um desenvolvimento inigualável, as províncias atingiram o máximo de desenvolvimento, caíram as barreiras que antes separavam os países e a plena liberdade de tráfico beneficiou a todos, de maneira estupenda.

O Mediterrâneo converteu-se então em um mar puramente latino, no qual se dava um intercâmbio universal de cultura, tanto na ordem espiritual como mercantil.

A Sicília, nessa época, constituía um verdadeiro depósito de Roma, a qual oferecia ou fornecia comestíveis de todo gênero — frutas, trigo, reses, etc.

A Espanha enviava lãs, Marselha remetia o toucinho e carnes salgadas, os países orientais enviavam vinho, mel, ostras, aves, etc. A Frigia fornecia seus mármores, que em forma de gigantescos blocos e colunas, foram empregados em magníficas construções.

A maior parte das cidades gregas de então foram caindo de importância, até mesmo Atenas, que afastada das grandes vias mercantis, não exercia outra atração que a de ser metrópole intelectual do mundo.

Alexandria, no Egito, com a conquista do país pelos romanos, adquiriu então um grande prestígio comercial. A fabricação egípcia de linhos manteve a sua fama; seus fornos de cristal adquiriram especial importância para o comércio de exportação, a mesma expansão atingindo as fábricas de papel que davam serviço a um grande número de operários.

Igualmente, os produtos da fabricação de bálsamos o inccnsos, bem como os trabalhos em granito, converteram-se em artigos de exportação muito procurados.

Assim, Alexandria se converteu em uma das capitais do império romano, uma potência quase equiparada a Roma. Todo o comércio com mercadorias asiáticas e árabes era dirigido exclusivamente por Alexandria, o que deu lugar a que perdessem sua importância os portos fenícios.

A evolução do comércio mundial acelerou-se quando o mar Mediterrâneo deixou de ser a única linha mercantil entre o Oriente e o Ocidente.

Além das regiões, antes mais ou menos exploradas dal Ásia, foram unidas pelo comércio romano as longínquas! localidades situadas ao Norte, quando as legiões romanasl se assentaram firmemente no Danúbio e no Reno e construíram todo um sistema de vias artificiais.

Ao longo de ambos os rios, estabeleceram-se em povoados, ricos comerciantes romanos, que faziam levar suas mercadorias às tribos germânicas, valendo-se de mercadores ambulantes.

A esses perigosos vizinhos só não fornecia Roma ferro e armas. Em compensação, utensílios domésticos, vestidos, objetos de cerâmica, e de vidro, assim como miudezas de toda espécie, passavam freqüentemente as fronteiras, em direção à Germânia.

Esse comércio de exportação não durou muito tempo, pois daí a pouco o Norte, embora atrasado fornecia à degenerada linhagem de Roma, certos artigos de luxo, muito cobiçados.

O principal meio de troca empregado no comércio, consistia, da parte germânica, em cavalos, vacas, ovelhas, porcos, etc. Adquiriram-se, principalmente, para os cavaleiros romanos, os cavalos da Tuvíngia, de grande resistência.

 

nov 262011
 
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Gustave Le Bon

A Civilização árabe (1884) – volume V

Capítulo Primeiro

ORIGENS DOS CONHECIMENTOS DOS ÁRABES, SEU ENSINO E SEUS MÉTODOS

I

ORIGEM DOS CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS E LITERÁRIOS DOS ÁRABES

Duas grandes civilizações, a dos bizantinos e a dos persas, projetavam seus últimos resplendores quando os árabes começaram suas guerras de invasão. O mundo novo onde entravam os discípulos do Profeta surpreendeu vivamente sua imaginação inflamada, e eles não tardaram a dedicar-se ao estudo das artes, letras e ciências com tanto entusiasmo quanto se dedicaram às conquistas. Assim que os califas consideraram garantido o seu império, fundaram em todas as cidades importantes diversos centros de ensino, chegando a dispor dos sábios capazes de traduzir para o árabe as obras mais famosas e especialmente as gregas.

Certas circunstâncias particulares facilitaram essa empresa, pois fazia algum tempo que os conhecimentos greco-latinos se tinham difundido na Pérsia e na Síria. Com efeito, quando os nestorianos foram desterrados do império do Oriente, fundaram em Edessa da Mesopotâmia uma escola que

propagou os conhecimentos dos gregos pelas terras da Ásia, e quando o imperador Zenon o Isáurio destruiu aquele centro de ensino, os monarcas sassânidas receberam muito bem os professores, o que motivou, quando mais tarde o imperador Justiniano fechou as escolas de Atenas e Alexandria, que os sábios delas se estabelecessem na Pérsia, onde se dedicaram a traduzir para as línguas mais conhecidas do Oriente, como o siríaco, o caldeu, etc., os autores gregos mais apreciados, por exemplo Aristóteles, Galeno, Dioscórides, etc.

Quando os árabes se apoderaram da Síria e da Pérsia, encontraram ali parte do precioso depósito da ciência grega e muitos deles aprenderam a ler os autores antigos, especialmente os gregos, em sua própria língua, como mais tarde aprenderam na Espanha o latim e o castelhano. A biblioteca do Escoriai possui dicionários árabe-gregos, árabe-latinos e árabe-espanhóis cujos autores eram muçulmanos.

Durante este primeiro período de iniciação, que pode ser comparado ao tempo que a criança passa no colégio pura receber a sabedoria acumulada pelas gerações anteriores, o conhecimento da antiguidade greco-latina era a base da educação do todo o árabe instruído. Os gregos, assim, foram os primeiros mestres dos árabes, mas como estes possuíam bas-tante originalidade intelectual e bastante entusiasmo, não se contentaram por muito tempo com o papel de discípulos que lhes reservou a Europa em toda a Idade Média, e esse primeiro período logo terminou.

Surpreende verdadeiramente o entusiasmo com que es-tudaram, de modo que se a esse respeito muitos povos os deravam de uma cidade seu primeiro cuidado era fundar uma mesquita e uma escola, multiplicando-as nos grandes centros. Benjamin de Tudela, morto em 1173, conta que em Alexandria localizara vinte.

Além das escolas para o simples ensino, as cidades de grande categoria como Bagdad, o Cairo, Toledo, Córdova, etc., possuiam universidades s providas de laboratórios, observato rios, etc , ricas bibliotecas e todo o material necessário para

as investigações científicas. Só a Espanha tinha 70 bibliotecas públicas, e a do califa Alhakam II continha em Córdova, segundo os autores árabes, 600.000 volumes, 44 dos quais eram o catálogo dos restantes. A este respeito se fêz

civilizaca Fig. 215 — Porta de uma pequena mesquita-escola, fotografada em Damasco pelo autor.

observar que 400 anos depois, Carlos, o Sábio não conseguiu juntar na biblioteca real de França mais de 900 volumes, entre os quais só uma terça parte não tratava de teologia.

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II

MÉTODOS CIENTÍFICOS DOS ÁRABES

As bibliotecas, laboratórios e instrumentos são materiais de instrução e investigação necessários, mas em última aná lise apenas materiais que dependem do modo de ser usados. O homem pode possuir a ciência dos outros e ser incapaz de pensar por si mesmo e criar alguma coisa, ser um discípulo sem lograr jamais chegar a mestre. As descobertas expostas nos capítulos que vamos escrever demonstrarão o partido que os árabes souberam tirar dos elementos de estudo adquiridos, e como, depois de serem apenas discípulos das obras dos gregos, compreenderam que a experiência e a observação valem mais que os melhores livros. Este princípio, hoje vulgar a força de óbvio nem sempre o foi, e os sábios da idade Média trabalharam mil anos até chegarem a conhecê-lo.

Atribui-se geralmente a Bacon o planejamento da experiência e da observação, como base dos métodos científicos modernos de preferência à autoridade dos mestres, mas é ne cessário reconhecer desde logo que êle pertence aos árabes, segundo o consignaram os sábios que estudaram sua obras, especialmente Humboldt, o qual depois de registrar que o ponto culminante da ciência consiste em produzir por si mesma e voluntariamente fenômenos, o que equivale a fazer experiências, acrescenta: "os árabes chegaram a essa altura, que OS antigos mal conheceram".

"O que especialmente caracteriza os começos da escola de Bagdad — escreve Sedillot, — é o espírito de verdadeira ciência que domina em seus trabalhos, o passar do conheci cido paia o desconhecido, o dar-se conta exata dos fenômenos paia subir em seguida dos efeitos às causas, o não aceitar, enfim, senão o que a experiência demonstrava. Tais foram os princípios que ensinaram .seus mestres. Eis aí como os árabes do século IX possuíam esse método fecundo, que multo tempo depois iria ser entre os modernos o instrumen to de suas mais altas descobertas".

Experimentar  observar foi o método dos árabes, en-

quanto a. Europa da Idade Média se limitava a estudar os livros e a. ser eco da opinião dos mestres. A diferença é com pletamente fundamental e só depois de a apreciarmos podemos aquilatar com justiça a. importância cientifica dos árabes.

Pêz assim este povo experiências, sendo o primeiro no mundo e o único durante muito tempo que compreendeu a importância desse método. "Entre os gregos — diz Delambre em sua História da Astronomia, — encontramos apenas dois ou três observadores, quando pelo contrário entre os árabes seu número é bastante considerável". Acerca da química não há meio de citar nenhum experimentador grego, ao passo que se poderiam citar várias centenas de árabes.

O costume da experiência deu aos trabalhos destes uma precisão e originalidade jamais encontrável nos homens que se limitam a estudar nos livros, faltando-lhes apenas originalidade numa ciência para a qual não havia então experimentação possível: a filosofia.

O método experimental inaugurado pelos árabes deveria necessariamente produzir descobertas importantes, e o exame que de seus trabalhos científicos vamos fazer demonstrará terem eles efetivamente descoberto mais verdades em três ou quatro séculos que os gregos num período muitíssimo mais longo. Este depósito da ciência antiga, que os bizantinos haviam recebido antes sem tirar qualquer partido de seu valor, legaram-no os árabes aos seus sucessores completamente transformado.

A influência deste povo não se limitou a adiantar as ciências com suas descobertas, antes se estendeu a propagá-las por meio de suas universidades e livros. Veremos assim no capítulo especial, dedicado ao estudo dessa influência, que eles foram durante muitos séculos os únicos mestres conhecidos das nações cristãs, e que só a eles se deve o conhecimento da antiguidade greco-latina, pois até à idade moderna o ensino das nossas universidades não deixou de basear-se na tradução de livros árabes.

arabesco

Tradução de Augusto Souza. Fonte: Paraná Cultural ltda

set 292011
 

Cônego Fernandes Pinheiro (1825 – 1876)

CURSO DE LITERATURA NACIONAL

I

LIÇÃO III

PRIMEIRA ÉPOCA — 1140 — 1279

Foi cercado de perigos o berço da monarquia portuguesa; com o montante e não com a pena gravou-se ela no mapa político da Europa; assim pois, a era dos guerreiros devera preceder a dos sábios.

Arrancando seu país ao domínio árabe, consagrou D. Afonso Henriques sua longa existência às guerras de con­quista: não desprezou porém a cultura das letras, atraindo à sua corte de Coimbra os literatos e abrindo aulas em que se instruía a juventude.

O primeiro cronista português (Fr. João Camelo) era capelão de D. Afonso Henriques e por ele foi incumbido de narrar a origem da nobreza: o que desempenhou no seu Su­mário das Famílias e primeiros conquistadores deste Reino. Vivia nesse tempo e partilhava da confiança do rei D. Gastão de Fox, bispo de Évora, que possuía vasta literatura francesa, latina, hebraica e árabe. Nesta última língua escreveu ele uma obra dividida em sete partes e que tratava: de Deus; da imortalidade da alma; da concordância das profecias das si­bilas com as dos profetas; da bem-aventurança eterna; do Pur­gatório e do Inferno.

Para completar a idéia que desejamos dar do reinado do primeiro monarca português, citaremos o que Fr. Luís de Souza diz falando de S. Fr. Gil que gozava nessa época da


reputação de grande médico e hábil químico (mágico): "Des­de a sua primeira puerícia entrou o bem-aventurado Gil a freqüentar os mestres em Coimbra, na qual cidade, como corte que era naquele tempo dos monarcas portugueses, se achavam então em grande vigor os estudos das letras1."

Fruindo das doçuras da paz que lhe alcançara a heróica espada de seu pai, ocupou-se D. Sancho I em reedificar cida­des e vilas, construir muralhas e favorecer à agricultura me­recendo o epíteto de Povoador e Pai da Pátria. Quanto per­mitia a rudeza dos tempos não foi por ele menosprezada a inteligência e em seu abono temos o seguinte testemunho do já citado Fr. Luís de Souza: "Era Coimbra o assento da corte, e juntamente havia nela mestres das boas artes e ciências. Porque el-rei D. Sancho (o primeiro) como recebeu de seu pai o reino pacífico e rico, procurou ilustrá-lo e acrescentá-lo por muitas vias, e não lhe esqueceu a das letras, que é o que mais lustre dá aos homens e às províncias2."

As contínuas guerras sustentadas por D. Afonso II dis­traíram sua atenção dos cuidados literários; e as discórdias que assinalaram o seguinte reinado (o de D. Sancho II) re­tardaram o desenvolvimento intelectual que tão bem estreara.

A exaltação de D. Afonso III, chamado o Bolonhês, marca um período de progresso para a língua e literatura portu­guesas. Sua longa residência em Paris, essa Atenas da idade média, seu trato familiar com os homens mais eminentes nas ciências, letras e artes, e mais que tudo seu gosto pela poesia dos trovadores, então muito em voga na capital de França, comunicaram grande brilhantismo ao seu reinado. Confiando a educação de seu filho ao célebre Emeric de Ebrard, um dos homens mais afamados dessa época, preparou o es­plendor a que atingiram as letras no governo de D. Diniz.

Deve Portugal a este príncipe ilustre a fundação de uma universidade, aberta em Lisboa em 1289, à imitação das que já possuíam algumas cidades da Europa. Para evitar que fossem seus vassalos mendigar em estranhos cimas o pão do espírito, estabeleceu el-rei D. Diniz a referida universidade onde se lecionavam leis, cânones, lógica, gramática e medi­cina, omitindo-se a teologia por ser ensinada nos conventos.

1 Hist, de S. Dom., part. I. n, cap. xm. 2 Hist, de S. Doming., loco citato.


Grandemente contribuiu semelhante fundação para os progressos da língua e literatura portuguesa, pelo concurso dos sábios estrangeiros chamados para regerem suas diversas cadeiras. Começou então o uso das traduções do árabe e do latim com que se enriqueceram as letras pátrias; e o contacto dos idiomas estranhos poliu e aperfeiçoou o nosso.

Já falamos do gosto que manifestava D. Afonso III pela poesia dos trovadores; acrescentaremos que no reinado de D. Diniz tornou-se este gosto universal, para o que certa­mente contribuiu a harmonia entre as cortes de Portugal e a de Aragão, cujos monarcas regiam a Provença.

Julgamos de utilidade citar a opinião que acerca dos tro­vadores e da sua benéfica influência emite um dos mais dis­tintos compatriotas nossos.

"Criadores do Parnaso moderno, os trovadores deveram ocupar o primeiro lugar entre os poetas da Europa moderna se o título de inventar fosse sempre uma prova indubitável do mérito do invento. Como quer que seja, este único título foi suficiente para que os trovadores fossem o objeto do respeito e da veneração de todos aqueles que amavam as letras e a poesia. O que de certo não nos deve causar admi­ração, se refletirmos que nessas eras rudes, sendo tudo es­crito em latim, língua peculiar aos sábios e desconhecida da maior parte da gente, as poesias dos trovadores, por serem escritas em vulgar, deviam ser naturalmente recebidas com universal aplauso. Era um novo prazer, um novo gênero de divertimento, inventado para o recreio do espírito em um tempo em que poucos havia que não fossem encaminhados à satisfação material dos sentidos. Assim que, foram os tro­vadores mui bem aceitos em todas as cortes, convidados a to­das as festas, amados dos grandes e das damas, e a muitos deles esse dote do engenho foi ocasião para se enriquecerem 1."

Ninguém ignora a influência que exercem sobre o espírito dos povos certas usanças vulgarmente intituladas modas, e muito mais sensível se torna essa influência quando parte o exemplo dos homens constituídos em dignidade. Sendo o rei o primeiro trovador, é fácil de supor que toda a nação se en­tregou à poesia.

» Prefação ao Cancioneiro d’el-rei D. Diniz, pelo Dr. C. Lopes de Moura.


Devemos ao zelo e dedicação do nosso benemérito patrício o Dr. Caetano Lopes de Moura a publicação do Cancioneiro de el-rei D. Diniz, que até o ano de 1847 se conservara inédito. Seria injusto aferi-lo pelas idéias modernas e torná-lo respon­sável pelas arcaicas locuções; mas, transportando-nos pela imaginação à época em que foi escrito, devemos confessar que é um dos mais belos monumentos da literatura por­tuguesa. A elevação e delicadeza dos pensamentos se har­moniza com a melodia da frase que o real-poeta procurava adelgaçar da bárbara crosta de que ainda se revestia. Para bem avaliar do merecimento desse precioso códice cumpre cotejá-lo com o que de melhor se escrevia na douta Itália e espirituosa França; e ousamos asseverar que dessa confron­tação não resultará desar ao régio cancioneiro.

Terminaremos esta lição apresentando alguns espécimes da língua e literatura portuguesa na primeira época.

Canção de Egas Moniz, despedindo-se de D. Violante, dama da rainha D. Mafalda. (Reinado de D. Afonso Henriques)

Flcaredes bos em bora

Tam coitada, Que ey boy me por hi fora

De longada.

Bay-se o bulto de mey corpo

Ma ey nom Cá ós cocos vos fica morto

O coraçom.

Si pensades que eey me bó

Nom lo pensedes Que em bós chantado esto

E nom me bedes.

Canção de Gonçalo Hermiguez à mulher D. Ouroana, (Reinado de D. Sancho I)

Tinhera bos, nom tinhera bos

Tal a tal cá assoma! Tinherades me, nom tinherades me De la vinherades, de cá filharedes Cá andabia tudo em soma.

Regulamento formulado pelas cortes de 1211 (Reinado de

D. Sancho I)

Perque a sanha sohe embargar o coraçon que nom pôde ver direytamente as cousas per onde estabelecemos que se per ventura no movimento de nosso coraçon a algum julgarmos morte, ou que lhe cortem algum membro; tal sentença seja prolongada atá vinte dias, e des hi em diante será a sentença a execuçom se a nos com este comenos a non revogarmos.

Extrato do Prólogo de um livro sobre o clima de Portugal, escrito pelo judeu Zacuto, e dedicado a D. Afonso III

Do que achardes honrado senhor querela e honrada semi nheira deste reyno em que Deus vos mantenha e mais atrigada pera arrebanhar porradas a gunhas coisas per birras, e a jazer em sembra co olho, e co cuidar no libro onde jaz a sabença.

Trecho do Cancioneiro d’el-rei D. Diniz

Praz m’ha mi, senhor, de moirer, E praz m’ende por vosso mal, Ca sey que sentiredes qual Mingua vos poys ey de fazer, Cá nõ perde pouco, senhor, Quando perde tal servidor, Qual perdedes en me perder.

E com minha mort’ey eu prazer Por que sey que vos farey tal Mingua, qual fez ornem leal O mays que podia seer, A quem ama, poys morto for, E fostes vós muy sabedor D’eu por vós a tal mort’ aver.

Fonte: editora Cátedra – MEC – 1978

ago 152011
 

Dicionário Filosófico de Voltaire – verbetes selecionados

ATEU, ATEÍSMO

O que outrora possuísse o segredo de uma arte corria o risco de passar por feiticeiro; toda a nova seita que aparecesse era acusada de degolar crianças durante a celebração de seus mistérios. E todo o filósofo que abandonasse a gíria da Escola era acusado de ateísmo pelos fanáticos e pelos velhacos, e condenado pelos néscios.

Ousa pretender Anaxágoras que não é Apolo quem conduz o sol, montado numa quadriga? É apodado de ateu e obrigado a fugir.

Aristóteles, acusado de ateísmo por um sacerdote, e vendo-se impotente para mandar castigar seu acusador, retira-se paia Caleis. Mas a morte de Sócrates é o episódio mais vergonhoso da história da Grécia.

Aristófanes, o homem que os comentadores admiram por ser grego, esquecendo-se de que Sócrates também o era, foi O primeiro a apresentar Sócrates aos Atenienses como um ateu.

Quem entre nós teria admitido esse poeta cómico, que não era cómico nem poeta, a representar farsas em Saint–Laurent? Parece-me muito mais baixo e desprezível ainda do que Plutarco o pinta. Eis o que o sábio Plutarco disse desse farsante: "A linguagem de Aristófanes denuncia um miserável charlatão: suas ironias são das mais baixas e repugnantes. Nem sequer ao povo agrada, e, para as pessoas de discernimento e honra, é insuportável; não se lhe pode tolerar a arrogância e os homens de bem detestam-lhe a malignidade" 3.

Eis aí, pois, o Tabarin que, de passagem se diga, Mme. Dacier, admiradora de Sócrates, ousa admirar: o homem que vinha preparando de longe o veneno com que uns juízes infames deram morte ao homem mais virtuoso da Grécia.

3 Paralelo entre Aristófanes e Menandro.

 

Os curtidores, os sapateiros e as costureiras de Atenas aplaudiram uma farsa em que se apresentava Sócrates subido a um cesto declarando que Deus não existia, e gaban-do-se de ter roubado uma capa enquanto ensinava filosofia. Um povo, cujo mau governo permitia tão infames abusos, mereceu b’em o fim que teve: tornar-se escravo dos Romanos, e hoje dos Turcos.

Galguemos o espaço de tempo que nos separa da república romana. Os Romanos, muito mais judiciosos que os Gregos, nunca perseguiram nenhum filósofo pelas suas opiniões, coisa que não acontece entre os povos bárbaros que sucederam ao império romano. Desde que o imperador Frederico II teve querelas com os papas, foi acusado de ateu e de ser o autor do livro Dos Três Impostores, conjuntamente com o seu chanceler De Vineis.

Nosso grande chanceler de l’Hôpital pronuncia-se contra as perseguições? É logo acusado de ateísmo. Homo doctus, sed verus atheus 4. Um jesuíta que está tão abaixo de Aristófanes como Aristófanes de Homero, um sacripanta cujo nome é ridículo mesmo para os fanáticos, em uma palavra, o jesuíta Garasse, vê ateistas em toda parte. Ateístas são todos aqueles com quem terça lanças. Chama ateísta a Teodoro Besis, e foi ele quem enganou o público a respeito de Vanini.

O lamentável fim de Vanini não nos inspira tanta indignação e piedade como o de Sócrates, porque Vanini não passava de um estrangeiro pedante, sem o menor valor, mas o certo é que Vanini não era ateu, como se pretendia, mas precisamente o contrário.

Era um pobre sacerdote napolitano, pregador e teólogo de ofício, pertinaz polemista sobre as quididades e sobre os universais, et utrum chimera bombinans in vácuo possit comedere secundas intentiones. Mas, apesar disso, não havia nele veia de ateísmo. Sua noção de Deus é a da mais sã e acatada das teologías: "Deus é o princípio e o fim, pai de um e de outro; eterno fora do tempo, omnipresente, sem estar em parte alguma. Não tem passado nem futuro; está em tudo e em nada, tudo governa e tudo criou; imutável, infinito, indivisível; seu poder é a sua vontade, etc".

4 Commentarium rerutn gallicarum. L. XXVIII.

 

Vanini jactava-se de ter renovado esse belo conceito de Platão, seguido por Averróis, segundo o qual Deus criou uma cadeia de seres, desde o mais ínfimo ao maior, cujo ullimo elo está preso a seu eterno trono; ideia, na verdade, mais sublime do que verdadeira, mas tão distante do ateísmo como o ser do não-ser.

Viajou para fazer fortuna e discutir. Infelizmente, a polémica é caminho oposto à fortuna; são tantos os inimigos irreconciliáveis que se fazem, como os sábios e pedantes com que se argumenta. Não foi outra a origem da desgraça de Vanini: o calor e a rudeza da polémica trouxeram-lhe o ódio de alguns teólogos, e, tendo questionado com certo Francon ou Franconi, o tal Francon, que era amigo de inimigos seus, acusou-o de ser ateu e de predicar o ateísmo.

Francon ou Franconi, valendo-se de algumas testemunhas, teve a barbárie de sustentar na acareação o que havia dito antes. Vanini, sentado no banco dos réus, inquirido sobre o que pensava da existência de Deus, respondeu que adorava um Deus em três pessoas, segundo o credo da Igreja, e, tomando uma palha do chão, acrescentou: "Basta esta palha insignificante para provar a existência de um criador." Depois, pronunciou um formosíssimo discurso sobre a vegetação e o movimento, e a necessidade de um Ser supremo, sem o qual, disse, não existiriam nem vegetação nem movimento.

O presidente Gramont, que então se encontrava em Toulouse, refere-se a esse discurso na sua História de França, hoje tão esquecida; e o mesmo Gramont, por uma prevenção inconcebível, assevera que Vanini dizia tudo isso mais por vaidade ou medo do que por íntima convicção.

Em que se funda esse juízo temerário e atroz do presidente Gramont? É evidente que a resposta de Vanini o absolve da acusação de ateísmo. Mas que aconteceu? Esse infeliz padre estrangeiro também se imiscuía na medicina. Acharam em sua casa um grande sapo vivo, conservado num vaso de água. Foi o bastante para que o acusassem de feiticeiro. Dizia-se que esse sapo era o Deus que ele adorava e deu-se uma interpretação ímpia a vários trechos dos seus livros, o que*é facílimo e muito frequente, tomando as objecções por conclusões, atribuindo significação maliciosa a uma ou outra frase ambígua, envenenando uma ou outra expressão inocente. Finalmente, a facção que o perseguia arrancou dos juízes a sentença que condenou o desgraçado à morte.

Para justificar essa morte, era mister lançar sobre o infeliz as mais espantosas calúnias. O mesquinho, mesquinhíssimo Mersenne, levou a loucura até a afirmar por escrito que Vanini partira de Nápoles com doze apóstolos para converter os outros povos ao ateísmo. Que piedosa atoarda! Como podia um pobre sacerdote ter doze homens a seu cargo? Como podia ele convencer doze napolitanos a viajar com grandes despesas e perigo da própria vida, no intuito de difundir por toda a parte essa abominável e revoltante doutrina? Teria um rei meios suficientes para poder pagar doze pregadores do ateísmo? Ninguém antes do padre Mersenne admitira tal absurdo. Depois, porém, toda a gente o repetiu, envenenando os jornais, os dicionários históricos; e o mundo, que adora o extraordinário, logo acreditou na fábula, sem se deter a analisá-la.

O próprio Bayle, nos seus Pensamentos Diversos, fala de Vanini como de um ateu; serve-se desse exemplo em apoio de seu paradoxo, segundo o qual uma sociedade de ateus pode subsistir. Assegura que Vanini era um homem de costumes muito morigerados e que foi o mártir da sua opinião filosófica. Engana-se por igual nestes dois pontos. O padre Vanini informa-nos nos seus Diálogos, feitos à imitação de Erasmo, que tinha uma amante, de nome Isabel.

Era tão livre em seus escritos como em sua vida, mas não um ateu.

Um século depois de sua morte, o sábio Lacroze, e o que adoptou o nome de Philalète 5 quiseram-no justificar, mas como ninguém se interessava pela memória de um infeliz napolitano e péssimo escritor, quase ninguém leu essas apologias.

O jesuíta Hardouin, mais sábio que Garasse, e não menos temerário, no seu livro Athei detecti, acusa de ateísmo os Descartes, os Arnauld, os Pascal, os Nicole e Malebranche; felizmente estes não tiveram a mesma sorte que Vanini.

De todos esses factos, passemos à questão de moral suscitada por Bayle, e procuremos saber se poderia ou não subsistir uma sociedade de ateus. É de notar, antes de mais nada, nesse artigo a enorme contradição dos homens que intervêm na polémica: os que com mais violência se insurgiram contra a opinião de Bayle, os que com mais injúrias negaram a possibilidade de uma sociedade de ateus são os mesmos que sustentam com igual desplante que o ateísmo era a religião do governo da China.

Enganaram-se, claro está, no que respeita ao governo chinês; bastaria que lessem os éditos dos imperadores desse vasto país para ver que esses éditos são sermões, onde se lala a cada passo do Ser supremo, guia, vingador de ofensas e premiador de virtudes.

Não se enganaram menos no que se refere à impossibilidade de uma sociedade de ateus; e não sei como Bayle esqueceu um exemplo edificante que podia ter dado o triunfo à sua causa.

Por que não será possível uma sociedade de ateus? Julga-se por acaso que o homem para viver em comunidade tem necessidade de um freio? Que as leis nada podem contra os crimes secretos? Que é mister um Deus vingador para castigar neste mundo ou no outro os malfeitores escapados à justiça?

5 J. Fr. Arpe, o autor da Apologia de Júlio César Vanini.

É bem verdade que as leis de Moisés não nos falam de nenhuma outra vida, nem nos ameaçam com castigos depois da morte, nem predicaram aos primeiros judeus a imortalidade da alma; mas os Judeus, longe de serem ateus e se furtarem à vingança divina, eram os mais religiosos dos homens. Não somente acreditavam na existência de um Deus eterno, como o julgavam sempre presente. Receavam o castigo em suas próprias pessoas, em suas mulheres e filhos, em sua posteridade, até à quarta geração; e esse freio era muito poderoso.

Mas, entre os gentios, houve várias seitas sem freio algum: os cépticos duvidavam de tudo, os académicos não deixavam passar nada sem julgamento. Os epicuristas estavam persuadidos de que a divindade não se intrometia nos negócios humanos, e, no fundo, não admitiam divindade alguma. Para eles, a alma não era uma substância, mas uma faculdade que nasce e morre com o corpo; seu único jugo, por consequência, eram a moral e a honra. Verdadeiros ateus eram os senadores e os cavaleiros romanos, porque os deuses não existiam para os homens que deles nada esperavam ou temiam. O senado romano constituía, pois, realmente, uma sociedade de ateus, na época de César e Cícero.

Este grande orador, em sua oração pró Cluêncio, disse perante todo o senado reunido: "Qual mal lhe pode causar a morte? Repelimos todas essas estúpidas fábulas dos infernos. Que lhe pode, pois, tirar a morte? Nada mais que a sensação das dores".

César, o amigo de Catilina, para salvar a vida de seu amigo contra as alegações do mesmo Cícero, não objectou que a morte não era castigo para um criminoso, que a morte nada é senão o fim dos nossos males, que é um momento mais feliz que fatal? Cícero e o senado não se renderam perante essas razões? Os vencedores e os legisladores do mundo conhecido formavam, pois, indiscutivelmente, uma sociedade de homens que nada receavam dos deuses, que eram verdadeiros ateus.

Bayle 6 passa, a seguir, a examinar se a idolatria é mais perigosa que o ateísmo, se é maior crime não se crer na divindade do que ter sobre ela opiniões indignas. É do mesmo parecer que Plutarco, o qual crê que mais vale não ter opinião que tê-la má. Mas, embora pese a Plutarco, é evidente que valia infinitamente mais para os Gregos temer a Ceres, a Neptuno e Júpiter que nada recear. É claro que a santidade dos juramentos é necessária, e que mais nos devemos fiar dos que pensam que um falso juramente deve ser punido do que dos que julgam que podem jurar em vão, com impunidade. É indubitável eme em uma cidade civilizada é infinitamente mais útil ter-se uma religião (mesmo má) que nenhuma.

Parece, pois, que Bayle devia antes ter examinado qual era mais perigoso, se o fanatismo, se o ateísmo. O fanatismo é decerto mil vezes mais funesto, porque o ateísmo não inspira, como ele, paixões sanguinárias; o ateísmo não se opõe aos crimes, mas o fanatismo leva a cometê-los. Suponhamos com o autor do Commentarium rerum Gallicarum que o chanceler de l’Hôpital foi ateu; mas não fez senão leis sábias, nem aconselhou senão a moderação e a concórdia; e os fanáticos cometeram a carnificina de São Bartolomeu. Hobbes passou por ser ateu; teve uma vida tranquila e inocente; e os fanáticos do seu tempo inundaram de sangue a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda. Espinosa não era apenas um ateu; predicou também o ateísmo. Não foi ele, contudo, ao que parece, quem participou no assassínio jurídico de Barneveldt; nem foi ele quem esquartejou os dois irmãos de Witt, e quem os comeu à grelha.

Os ateus são, em sua maioria, sábios corajosos e extraviados, que raciocinam mal, e que, não podendo compreender a criação, a origem do mal e outros fenómenos, recorrem à hipótese da eternidade das coisas e da necessidade.

Os ambiciosos e os voluptuosos não têm tempo para raciocinar e abraçar um mau sistema; têm mais que fazer do que comparar Lucrécio com Sócrates. É o que se dá conosco.

6 Bayle, Continuação dos Pensamentos diversos, § 77, art. XIII.

 

O mesmo não acontecia no senado de Roma, que era quase todo ele constituído por ateus, na teoria e na prática, isto é, por homens que não criam na Providência nem na vida. futura; esse senado era uma assembleia de filósofos, de voluptuosos e de ambiciosos, perigosíssimos todos, que perderam a república.

Não gostaria de ter que me haver com um príncipe ateu, cujo interesse fosse mandar triturar meus ossos num almofariz; tenho a certeza de que seria triturado. Não queria, por outra parte, se fosse rei, ter de tratar com cortesãos ateus, que tivessem interesse em envenenar-me; seria obrigado a tomar ao acaso um contraveneno todos os dias. É, pois, absolutamente necessário para os príncipes e para os povos que a ideia de um Ser supremo, criador, guia, premiador e vingador, esteja profundamente gravada nos espíritos.

Há alguns povos ateus, diz Bayle em seus Pensamentos sobre os Cometas; os cafres, os hotentotes, os tupinambás e muitos outros pequenos povos não têm deus. Talvez. Mas isso não quer dizer que neguem um Deus; nem o negam, nem o afirmam. Nunca ouviram falar dele. Dizei-lhes que existe um, que eles logo acreditarão nele; dizei-lhes, pelo contrário, que é a natureza das coisas que tudo faz, que eles também não deixarão de acreditar nisso. Pretender que são ateus é o mesmo que imputar-lhes ideias anticartesianas. Não são a favor nem contra Descartes. Uma criança não é ateia nem teísta. Não é nada.

Que conclusão se pode tirar de tudo isto? Que o ateísmo é um monstro muito pernicioso nos que governam; que o é da mesma forma para os homens de estudo, embora de vida inocente, porque do seu gabinete de trabalho podem influir nos que exercem altos cargos; que, se não é tão funesto como o fanatismo, é, no entanto, quase sempre fatal para a virtude. Acrescentemos, sobretudo, que há hoje menos ateus do que nunca, desde que os filósofos reconheceram que não existe ser que vegete sem germe, germe sem desígnio, etc., e que o trigo não nasce da podridão.

Geómetras não-filósofos rejeitaram as causas finais, mas os verdadeiros filósofos admitem-nas; e, como disse um autor conhecido, enquanto um catequista anuncia Deus às crianças, Newton o demonstra aos sábios.

 

Fonte: Clássicos Jackson. Trad. De Brito Broca

ago 142011
 

Uma Breve Apresentação da História da Didática

Paula Ignacio

            A Didática, antes dos sofistas, não era conhecida pelos homens. Ela tinha outras características, menos formais e artificiais, voltadas para a prática da vida cotidiana, dava-se de maneira natural.

            No entanto, na Magna Grécia, a vida social, cultural e política adquiriu uma nova maneira de se dar: a Palavra como o centro do Poder. Quem tinha a melhor oratória e retórica podia ser ouvido, e a educação acontecia dessa forma. Esse poder era concebido somente aos cidadãos (somente homens e nascidos nas cidades, como Atenas por exemplo). Havia muitos grupos que não possuíam direitos políticos, esses não tinham o poder da palavra. Por causa disso, os discursos passaram a ser de extrema importância e surgiram os sofistas, que de certa maneira transformaram a educação em uma espécie de tutoria, onde aquele que tinha o poder da palavra ensinava aos outros cidadãos. Esse processo transformou a educação, que antes se dava de maneira natural, em algo artificializado, pois aqueles que não tinham poder procuravam aqueles que possuíam o dom da palavra e da oratória para receberem instruções.

            Quanto aos sofistas, suas técnicas de ensino se baseavam em contraposições de argumentos afirmativos e negativos, da lógica, exercícios de memória, formulações de conceitos e argumentos, a palavra passou a ser mais importante do que o que a vida natural mostrava. Surgiu o processo científico tal como conhecemos hoje, uma tentativa de domínio da natureza, e não mais de convívio com ela. O homem passou a se enxergar como algo separado da natureza.

            Assim, a educação por meio de um homem que detém sabedoria e o poder da palavra surgiu e permaneceu por muitos séculos. A figura do Tutor ou preceptor era comum e o centro da educação até a Idade Média.

            No entanto, poucas eram as pessoas educadas por preceptores. Somente os ricos e religiosos tinham acesso a Educação.

            Por volta do ano de 1520, com os tratados escritos por Martinho Lutero e a tradução da Bíblia para o alemão, surgiu a Reforma Protestante, uma nova maneira de compreender o cristianismo e de interpretar os escritos bíblicos. Apesar da Reforma, muitos europeus ainda continuavam sem acesso a educação e muitos deles até mesmo analfabetos. A partir de então, Comenius se propõe a redigir a Didática Magna, um tratado de Educação que tinha como proposta principal apresentar aos educadores a técnica ou a arte de ensinar a todos.

            A Didática, para ele, deveria começar com uma reforma na educação. Para o autor, a didática deveria ser reconhecida como a Arte de Ensinar Tudo a Todos.

            A importância revolucionária desse tratado é reconhecida até os dias de hoje. De acordo com a Didática Magna, deveriam frequentar a escola homens e mulheres, e mesmo os pobres deveriam receber uma educação voltada principalmente para que os indivíduos compreendessem que deveriam ser virtuosos, racionais e piedosos.

            A tríade virtude, conhecimento e religião compreende toda a sua obra, que tinha como objetivo maior a formação dos verdadeiros educadores. A prática do ensino, para Comenius, era uma técnica que deveria ser adquirida, não bastando apenas o conhecimento das coisas.

            Vale lembrar que, apesar do caráter revolucionário da obra, ele acreditava em todos os ensinamentos da Bíblia, onde Deus era o ordenador do mundo. O homem, como mais sublime expressão da arte divina, teria supostamente uma tendência natural para evoluir tanto nos aspectos morais, quanto intelectuais e piedosos da vida.

            Assim, partindo desta breve compreensão sobre a mais conhecida obra de Comenius, podemos pensar a educação na atualidade, onde muitas técnicas descritas em seu livro são utilizadas pelos educadores até os dias atuais. No entanto, ainda há suposições descritas por ele que não foram aplicadas pela maioria dos professores e merecem maior atenção, afim de refletirmos melhor as maneiras como se dão a educação e as práticas de ensino na atualidade.

Algumas das Principais Técnicas de Ensino Sugeridas na Didática Magna: Revolução na Educação que teve sequência até os dias atuais

 

            De acordo com Comenius, todos os homens têm a capacidade para se tornarem educadores, sejam eles Chefes de Estado, Pastores de Igrejas, Diretores de Escola. Para que isso aconteça, antes de mais nada, além de ter o desenvolvimento da inteligência e a educação de si mesmos marcados por vidas virtuosas, aqueles que se propuserem a educar devem antes de mais nada compreenderem que a prática do ensino é uma arte, e como toda arte, precisa de técnica para ser melhor aprendida e compreendida.

            Assim, um homem não seria capaz de dar aulas de pintura se nunca tivesse aprendido sobre as tintas e diferentes técnicas de pintura, ou ensinar a cozinhar se não conhecesse algumas técnicas para cortar ou cozer os alimentos, e daí por diante. Dessa maneira, um educador que não compreendesse as técnicas necessárias para ensinar, não poderia ser capaz de formar homens capazes de levar uma vida verdadeiramente completa, ou seja: que seguisse com a vida de acordo com suas virtudes, compreensão da vida moral, intelectual e espiritual.

            Essas técnicas foram propostas por Comenius no livro Didática Magna, e algumas delas podem ser encontradas em parâmetros educacionais em muitas escolas atualmente. Neste trabalho, citarei, dentre inúmeras técnicas descritas pelo autor, apenas aquelas que ajudarão a compreender como essa obra influenciou muitos ditames educacionais ao longo da história da educação, e porque não dizer, da Pedagogia tal como a conhecemos hoje.

            Em especial nos Capítulos IV, X, XI, XII da obra de Comenius, encontraremos tanto sugestões sobre a arte de ensinar, como também observações sobre a necessidade de refazer a pedagogia nas escolas.

Considerações Sobre o Capítulo IV da Didática Magna

            Neste capítulo, o autor cita um trecho de uma citação bíblica para dizer que os homens são frutos perfeitos e aproximados da imagem divina, e por isso é natural que sejam reconduzidos ao seu criador. Ele descreve os homens da seguinte maneira: “(…) parece evidente que o homem foi colocado entre as criaturas visíveis para que fosse: I. Uma criatura racional, II. Uma criatura senhora das criaturas; III. Uma criatura feita a imagem de seu criador e para seu deleite”. [1]

            Assim, ele explicita o fato de que o homem é a mais perfeita das criaturas na Terra e que deve servir-se com sabedoria de todas as coisas que existem na natureza. A compreensão dos modos e técnicas para extrair da natureza o que precisa e na medida certa, dependem do conhecimento, de uma visão e atitudes honestas para consigo mesmo e os outros, e de uma conexão espiritual.

            Da mesma maneira que Comenius acreditava que a excelência do homem só poderia se dar quando este compreendesse completamente sua própria natureza, bem como a natureza e finalidade de todas as coisas na Terra, a educação hoje compartilha esse pensamento.

            No entanto, o conhecimento passou a ser a base central para a formação do homem, pressupondo que, se o homem conhece profundamente as técnicas de aproveitamento do que a natureza têm para nos oferecer, isso basta. Nossas sociedades nos mostram que falta aos homens uma educação que se volte também para o agir social. A única preocupação moral quando falamos em educação hoje fica pressuposta, quando muitos países, incluindo o Brasil, têm como obrigatoriedade a frequência de crianças a partir dos 7 anos completos às escolas. A vida social já passa a ser garantida. Para muitos pedagogos, o convívio com professores e outros alunos na escola é importante para a formação do sujeito enquanto ser social. Mas é fácil contestar esse tipo de afirmação, uma vez que apenas o convívio não é capaz de formar seres conscientes de seus atos, nem capacita-os para desenvolver o pensamento crítico que os levaria a agirem de acordo com uma compreensão mais profunda sobre a vida.

            Algumas escolas, mais tradicionais, apresentam uma preocupação com a educação religiosa dos alunos, que nem sempre conseguem assimilar certas concepções religiosas ou vivenciar experiências de êxtase espiritual capaz de leva-los a uma conexão maior com a vida e seu próprio ser.

            Para Comenius, os homens não deveriam ser direcionados ao seu ser, mas ao seu Criador, o que consistiria em um processo perfeitamente natural. Hoje é um pouco mais complicado falar em religião, mas é importante considerar o fato de que muitas religiões são capazes de realizar transformações profundas nos homens quando estes são dotados de fé. Talvez esse tipo de educação não deva ser obrigatório nas escolas, mas a apresentação aprofundada sobre a história das religiões sim. Assim, ficaria a critério do próprio educando perceber de que maneira sentiria uma elevação com relação ao próprio espírito, e quais ideias e concepções se aproximam mais daquilo que acredita.

            O mais importante, nesse caso, seria o fato do aluno conseguir perceber que sempre há necessidade de evoluir e nunca “estacionar” no que diz respeito ao aprendizado e a vida.

            A técnica proposta por Comenius é a formação total do homem. Essa formação se daria através da preocupação dos educadores com essas três instâncias da vida do educando (conhecimento, virtude e religião). No entanto, como já citado, é observada atualmente a preocupação única com o conhecimento, onde a virtude e a religião são vistas separadamente da formação do educando pelos educadores.

            Durante os anos 1873 a 1876, o Filósofo Frederich Nietzsche desenvolveu suas Considerações Extemporâneas, onde também dissertou sobre os costumes dos homens, seus hábitos históricos e sobre a educação.

            Em especial no texto Schopenhauer Como Educador, encontra-se uma crítica bastante proveitosa do filósofo a educação do seu tempo. Assim como Comenius, a preocupação de Nietzsche se baseava na observação da vida como educador, e também sugeria a importância da concepção de um novo modelo de educador, para que uma educação completa e mais natural do homem pudesse acontecer. Infelizmente, já no século XIX eram observadas certas hipocrisias pedagógicas, e poucos foram os educadores capazes de transcender hábitos frequentes das práticas de ensino de escolas e universidades.

            Em Nietzsche, apesar de ser avesso a religião, em especial ao cristianismo, também conseguimos encontrar uma preocupação com a formação do novo modelo de educador e com a formação do homem como um ser completo, não apenas detentor de conhecimento, uma vez que o homem não é apenas um ser racional, mas um ser que sente, que tem vontades, e principalmente capaz de transcender a si mesmo.

            Nos dias atuais, poucas são as escolas e universidades que trazem propostas concretas no sentido de formação integral dos seus alunos. Comenius propôs técnicas para isso, em especial nos Capítulos X, XI e XII da Didática Magna.

Sobre o Capítulo X da Didática Magna: “A Educação nas Escolas Deve Ser Universal”

            Compreender o que significa uma educação integral e universal não é tarefa muito simples. No entanto, tendo em mãos a obra de Comenius, é possível estabelecer de que maneira um bom educador poderia proceder.

            Educar para a vida e para a formação completa de um indivíduo é algo impensável nos dias atuais. A grande maioria dos educadores estão aprisionados em seus hábitos pedagógicos, talvez por comodismo, ou mesmo por estarem tão enraizados em suas ações que se tornaram incapazes de perceberem que para educar um aluno, é preciso estar constantemente educando a si mesmo. Essa educação de si mesmo compreende a sua formação integral, não bastando apenas o conhecimento intelectual das coisas, mas a compreensão do seu ser enquanto sujeito social e espiritual.

            Comenius, no Capítulo X da sua obra, nos diz: “É preciso, pois, tender sem exceção a que nas escolas, e por mérito delas em toda a vida, 1) os engenhos sejam educados nas ciências e nas artes; 2) as línguas sejam apuradas; 3) os costumes sejam formados dentro da honestidade, 4) Deus seja amado de modo sincero”. E completa: “Com grande sabedoria falou quem disse que as escolas são grandes oficinas da humanidade: elas transformam os homens em homens de verdade[2].

            A intenção do autor certamente foi alertar para o fato de que as escolas, enquanto formadoras de futuros homens completos, deveriam se ocupar da formação da completude desses homens, formá-los como seres intelectuais e conhecedores dos costumes e da vida.

            Ainda hoje, esperamos que as escolas formem os homens, muitas famílias ainda acreditam que elas serão capazes de formar seus alunos em todos os aspectos da vida, mas isso só acontece quando existe a participação efetiva da família no processo de formação desses. A escola hoje não se responsabiliza por nada além do conhecimento intelectual, o que é lamentável.

            Formar os alunos apenas em intelecto e sem explicar-lhes o porque é o mesmo que obrigar alguém a fazer algo apenas por fazer. Se nos perguntarmos: o quê é formação integral? Podemos pensar que a resposta para essa questão está dentro de nós mesmos, quando sentimos a necessidade de encontrarmos um sentido para as coisas que fazemos, e isso depende não apenas do conhecimento que temos sobre as coisas, mas da completude que envolve nosso ser: nosso intelecto, nossa vontade e nosssa fé. Essa tríade também é citada na Didática Magna como parte da essência da alma humana.

            Antes mesmo de Nietzsche criticar as escolas e universidades alemãs, Comenius também criticou as escolas de sua época. Tradicionais demais, poderiam ser reformadas e melhoradas, segundo ele, em vários aspectos, tais como:

- Desenvolvimento das capacidades individuais dos alunos no seu tempo e sem pressa

- O ensino do conhecimento e da disciplina sem severidade, mas de maneira agradável e delicada

- Poucas horas de estudo, pois muitas horas tornam-se cansativas e prejudicam o aprendizado

- Poucos alunos por turma, uma vez que um único professor para uma grande quantidade de alunos é prejudicial ao processo de ensino

- O aprendizado de uma disciplina por vez, para que os alunos absorvam e compreendam profundamente uma coisa para depois tentar conhecer outra

            Foram muitas as técnicas propostas por ele. A maioria delas, se pensarmos na educação hoje, poderiam ser bem aproveitadas. No entanto, o que é perceptível é que algumas práticas de ensino foram tomadas como absolutamente verdadeiras e não mudaram com o passar dos anos. O mundo mudou, políticas novas, avanços tecnológicos, houve mudanças na maneira de compreender as artes. No entanto, as práticas de ensino continuam as mesmas. Os professores hoje têm verdadeira aversão as novidades que o mundo nos traz, e têm dificuldades sérias para assimilar essas transformações.

            Como um educador pode então educar para a vida e formar integralmente seus alunos, se é incapaz de compreender a necessidade de repensar antigos conceitos e seguir adiante de acordo com a vida? Como ensinar seus alunos a pensar por si mesmos, se os próprios educadores mostram-se atualmente incapazes de sair dos modelos de prática de ensino seguidos a vários anos porque sentem medo de se adaptarem a realidade?

Que todos sejam educados para uma cultura não vistosa, mas verdadeira, não superficial mas sólida, de tal sorte que o homem, como animal racional, seja guiado pela própria razão e não pela de outrem e se habitue não só a ler e a entender nos livros as opiniões alheias e a guarda-las de cor e a recitá-las, mas a penetrar por si mesmo na raiz das coisas e delas extrair autêntico conhecimento e utilidade[3].

Comenius, Didática Magna

 

            O autor não sugere apenas uma reforma na Educação, mas principalmente uma reforma na maneira de educar dos supostos educadores. Se procurarmos compreender com sinceridade os motivos que levam um homem a verdadeiramente se considerar um educador, poderemos encontrar não somente em Comenius, Nietzsche ou outros críticos da Educação, mas em nós mesmos as reais necessidades de reformular as práticas pedagógicas que nos foram impostas até hoje e a repensarmos as novas possibilidades de educar para a vida como um todo.

           

           

Bibliografia

COMENIUS. Didática Magna. 3ª Edição, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2006.

DIAS, Rosa Maria. Nietzsche Educador.  2ª Edição, Ed. Scipione, São Paulo, 1993.



[1] COMENIUS. Didática Magna, 3ª edição. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2006. Cap. IV, pg. 53

[2] Idem, Cap. X, pg. 96.

[3] Ibdem, Cap. XII, pg. 110.

mai 142011
 

A filosofia de Platão e conceito de justiça

Gisele Leite

Refletir sobre Platão pode ser um grande desafio mesmo nos dias de hoje. Não resta dúvida de que Platão é mesmo considerado o pai da herança intelectual ocidental, um pensador que posicionou a Filosofia em direção que até hoje é seguida, dois anos depois…

Pode-se dizer que a filosofia ocidental é consistente de “uma série de notas de rodapé a Platão” (Alfred North Whitehead), embora possa parecer um exagero, temos que admitir que o referido filósofo possui de fato posição histórica privilegiada.

Platão tem sido criador e aperfeiçoador da arte literária, o diálogo filosófico. Ainda que considerássemos que não existe o real interesse, a obra de Platão seria interessante e fundamental para o pensamento contemporâneo.

Cumpre alertar que seu verdadeiro nome era Aristoclés, sendo uma homenagem ao seu avô. Platos significa largura, e é quase certe de que seu apelido veio de sua constituição robusta, ombros e frontes largos, apresentando porte físico forte e vigoroso, o que o fez receber várias reverências por seus feitos atléticos na juventude.

Talvez por sua excelente forma física tão aprecidada na Grécia Antiga, recebeu o enfoque privilefiado pela educação idealizada por Sócrates e seus companheiros no diálogo.

Aliás, os diálogos de Platão estão repletos de referências à competição de jovens no atletismo.

Cícero nos diz que se Deus tivesse que falar, seria numa linguagem como a de Platão. E reconheçamos enfim que sua genialidade é realmente extraordinária,e seus diálogos que são empolgantes  trouxeram uma incalculável influência para toda história da Filosofia. Teve Platão como principal obra-prima  “A República”.

Em linhas gerais, Platão desenvolveu a noção de que o homem está em contato permanente com dois tipos de realidade: a inteligível e a sensível. A primeira é a realidade imutável, igual a si mesma. E, a segunda corresponde a todas as coisas que nos afetam os sentidos, são realidades dependentes, mutáveis e são imagens da realidade inteligível.

Platão foi discípulo de Sócrates[1] e deixou Atenas depois da condenação e morte de seu mestre (em 399 a.C.). Peregrinou por doze anos e conheceu outros pensadores principalmente os pitagóricos.

Seus diálogos possuem a forma de interrogatórios cruzados, assim uma pergunta é feita, e uma resposta é dada. A resposta é submetida a um exame detalhado, é feita uma série de outras questões, mais réplicas são dadas, e, sucessivamente, e descobre-se que a prima resposta  era insuficiente em determinado aspecto.

Por vezes, é possível que uma resposta venha a contradizer a outra resposta anteriormente dita. É feita, então, nova tentativa de resposta, à luz da discussão recente e sempre acesa, e o processo prossegue até esgotarmos as possibilidades lógicas.

Sócrates fora o mestre e mentor de Platão sendo mesmo o principal personagem dos diálogos e o interrogador contumaz.

A doutrina central de Platão é a distinção de dois mundos, a saber: o mundo visível, sensível ou mundo dos reflexos, e o mundo invisível, inteligível ou mundo das idéias.

A essa concepção de dois mundos se ligam as outras partes de seu sistema cujo o método é a dialética (consistindo em que o espírito se eleve do mundo sensível ao mundo verdadeiro, o mundo inteligível,o mundo das idéias) mas este se eleva por etapas, passando das meras aparências dos objetos, em seguida dos objetos às idéias abstratas, e, enfim, de tais idéias às idéias verdadeiras que são seres reais que existem fora de nosso espírito.

Infelizmente temos poucas informações precisas sobre a biografia e os ensinamentos de Sócrates, mas é sabido que é mestre de argumentação. Segundo Xenofonte[2], ele podia fazer o que quisesse com qualquer debater. E, confessava publicamente que os homens bons e importantes da antiga Atenas não sabiam o que argumentavam principalmente sobre o conceito da virtude.

Os inimigos de Sócrates só desejavam calá-lo, e então acusaram-no impiedosamente de ser corruptor da juventude da cidade.

E, Sócrates em vez de abandonar a Filosofia, preferiu a morte, dando a essa ciência seu primeiro mártir  e aos diálogos o seu merecido rigor ácido e cruel.

Enquanto lemos sobre Sócrates insistindo lepidamente em suas definições estrategicamente situadas no intervalo de uma a outra taça de vinho, sabemos que seu fim será na prisão e, por fim, um copo de veneno letal.

Não há uma cronologia pacífica e precisa nos diálogos de Platão, e os estudiosos dividem-nos geralmente em três grandes grupos: os primeiros, os intermediários e os últimos.

Os primeiros diálogos de Platão refletem interesses e visões do Sócrates histórico, ao passo que o Socrátes dos diálogos intermediários e, ainda os últimos representam mais peculiarmente a filosofia própria de Platão.

Os primeiros diálogos são inconclusos, e as investigações empreendidas raramente chegam a um acordo no que diz respeito a uma definição. Alguns exergam nos diálogos intermediários os derradeiros esforços de salvar o seu mentor e mestre do que seria considerado uma incapacidade em resolver os problemas pontificados em primeiros diálogos.

Certamente a obra “A República”[3] deve ser lida desta maneira e bem representa um diálogo intermediário de Platão e que o traduz em sua força e firmeza, indo além dos interesses de Sócrates na ética e adentrando o campo de Metafísica e da Epistemologia, respondendo a algumas questões propostas inicialmente por seu mentor.

Relevante frisar que desde o início, que o diálogo de “A República” é dividido em dez livros.

Platão acreditava que existiam três espécies de virtudes baseadas na alma, e que correspondiam aos estamentos sociais da pólis: a primeira virtude era a da sabedoria, deveria ser a cabeça do Estado, ou seja, o governante, pois utiliza a razão, correspondente ao ouro; a segunda espécie da virtude é a coragem e deveria ser o peito do Estado, correspondendo aos soldados, guardiões da pólis posto que suas almas de prata eram imbuídas de vontade.

E, por derradeiro, a virtude era a temperança e que deveria ser o baixo-ventre do Estado, ou os trabalhadores e artesãos, posto que suas almas de bronze orientavam-se pelo desejo das coisas sensíveis.

No primeiro livro  de “A República” estão perguntas que os livros posteriores tentam responder: O que é justiça e será que vale a pena lutar por ela?

No segundo livro, no terceiro e no quarto Platão está preocupado, de maneira em geral, em lidar com a natureza do estado justo, mas no quarto livro, o filósofo começa a focar-se na justiça do indivíduo.

Já no livro oitavo e nono há a comparação da justiça da cidade com a justiça do indivíduo. Nos livros do meio há ainda a explicação das noções de reforma política de Platão e, constatamos o mais importante discurso sobre a Metafísica e a Epistemologia.

No derradeiro livro que parece ter sido feito às pressas e constam as noções platônicas de arte e da imortalidade da alma.

Enxergava Platão a alma dividida em três partes: a racional que é voltada a controlar as outras duas partes, e cuja virtude principal é a sabedoria ou a prudência (phrónesis); a irascível correspondente ao tórax, dotada de impetuosidade, dos sentimentos e cuja virtude é a coragem (andreia); a concupiscente correspondente ao baixo ventre, dotada de apetite, desejo (seja carnal ou espiritual), cuja virtual principal é a moderação ou temperança (sophrosýne).

Acreditava Platão que a alma depois da morte reencarnava noutro corpo, mas a alma que se ocupava com a filosofia e com o Bem, era privilegiada com a morte do corpo.

Assim com a morte era concedida o privilégio de passar o resto dos seus tempos em companhia dos deuses.

A questão da justiça surge mediante uma observação informal por parte do velho e próspero comerciante chamado Céfalo[4], que sustenta que uma das vantagens de ser rico é o fato de não ter que mentir ou enganar os outros.

Assim ele afirma que é um conforto saber que possui os meios para tratar os outros com justiça, podendo dizer a verdade e devolver o que tomou emprestado. Essa observação é suficiente para fazer com que Sócrates prossiga.

Suponha que um amigo lhe tenha emprestado armas, cogita Sócrates, e logo depois tenha se tornado insano. Avexadamente rubro de ira e fora de si, talvez até pensando em homicídio, este exige a devolução do que é dele.

No entendimento de Céfalo[5], seria justo ou correto devolver as armas, mas isso não pode ser tudo a declarar sobre a questão. Mais algumas definições convencionais são oferecidas pelas outras, porém todas insuficientes, até que o clima agradável da conversa é quebrado pela explosão de Trasímaco, um personagem retórico e sofista.

Quando este entra vigorosamente em ação, é um momento crucialmente dramático quanto se pode imaginar em uma conversação filosófica.

Trasímaco cansado da magnitude da conversa, afirma que aquilo que chamamos justiça não nada além de interesse próprio. Os detentores do poder criam a lei que satisfaz aos interesses e objetivos próprios, e a justiça não passa de uma sublime codificação do desejo do mais forte. Portanto, o poder dita as regras.

Adiante, Trasímaco argumenta que inerentemente do que possa ser dito na companhia das pessoas educadas, os corruptos são mais felizes e nós geralmente os admiramos, posto que conseguem o que desejam.

Ser justo, no sentido convencional, simplesmente não vale a pena, não é vantajoso e nem é agradável. Para que se incomodar com a justiça e com a virtude quando a dedicação aos próprios interesses nos conduz claramente à felicidade?

A explosão de Trasímaco[6] encontrou eco na História da Filosofia e transcende. Correspondendo a primeira expressão de suspeita sobre a fundamentação da moralidade que se transformou em niilismo, egoísmo ético, realismo cínico, imperativo político, relativismo e ainda ceticismo.

Platão, trata dessa questão durante todo o restante do diálogo..

É de difícil abate, a caça a respeito da natureza da justiça, e o melhor lugar para encontrá-la é certamente na cidade justa.

Mas, qual seria, então a natureza da cidade justa na visão de Platão? Arte desenvolvida por Platão é repleta de questionamentos incômodos.

O debate sobre a ordem justa surge exatamente para se descobrir se a justiça é melhor que a injustiça e, se a vida do homem injusto é mais regalada e farta do que a do justo. E, depois de exaustiva discussão, conclui-se que a justiça é preferível à corrupção.

O diálogo aporético[7] sobre a justiça levantam questões respondidas pelo mito da salvação e, é apoiado pela intensa argumentação dialética (que se caracteriza por apreender a realidade à luz das contradições, uma das quais acaba por ser compreendida como verdadeira e outra falsa).

A imagem correspondente é do confronto entre a luz (sol ou claridade) com as trevas (escuridão ou caverna). A aporia como figura de retórica refere-se aos momentos em que um personagem  dá sinais de indecisão ou de dúvida sobre a forma de se expressar e a de agir. Melhor exemplificação é o célebre solilóquio escrito por Shakespeare em Hamlet, consagrado na expressão “to be or not to be” ( que podemos traduzir ser ou não ser”).

Sócrates imagina os primórdios da coletividade humana, e salienta que os seres humanos não são autosuficientes (pois precisam uns dos outros e demandam por cooperação para sobreviver).

Em verdade a obra “A República” começa com um grande sofisma, pois Trasímaco declara que a força é um direito e que a justiça nada mais é do que o interesse do mais forte.

E para responder a pergunta: “Como seria uma cidade justa?”, Sócrates começa a dialogar, principalmente com Gláucon e Adimanto[8]. Platão salienta que a justiça seria simples se os homens fossem simples e, vivessem produzindo de acordo com suas necessidades, trabalhando muito e sendo sem luxo.

Absurdamente Platão imagina que o sistema de governo deve começar da estaca zero. O primeiro passo seria tirar os filhos de suas mães e o Estado deveria assumir a formação e instrução dos cidadãos.

Somos naturalmente capazes de exercer determinadas tarefas, e a eficiência aconselha que os indivíduos façam aquilo que melhor sabem fazer. Essas linhas gerais de pensamento levam a Socrátes a delinear a concepção de justiça na cidade ideal.

Seria injusto e poderia se configurar como furto, se uma pessoa ocupasse o papel natural de outra, o que seria o mesmo que retirar algo de alguém. É melhor, para mim, e para todos os outros, se eu fizer o que naturalmente sei fazer de melhor. A distância é mínima entre esses pensamentos e a visão de que a justiça na cidade depende de cada um fazer aquilo que naturalmente é pretenso a fazer.

Para Platão, em resumo existem três classes de cidadãos, a saber: os guardiões que governam, os auxiliares que policiam e defendem, e os artesãos que produzem os bens e prestam serviços.

Assim, segundo a visão platônica de cidade justa, as pessoas corretas deveriam ser destinadas aos papéis corretos, e isso é feito, por certo tipo de reprodução seletiva, conjugado com regime educacional e doutrinal – alguns chamariam de censura, propaganda e até lavagem cerebral.


Ademais, as pessoas precisam permanecer nos papéis aos quais foram designadas, apesar de que Platão aprovar a possibilidade de  mobilidade de classes sociais, um simples artesão dando-se ares de ser um governante de qualidade, simplesmente não poderia acontecer.

Sugere Platão que os governantes possam contar uma “nobre mentira[9]” que consiste em narrar que os Deuses estabelecem o destino de cada pessoa na terra, misturando em seus corpos um metal correspondente a sua classe social.

Desta forma, os guardiões são as crianças de ouro, nascidas para governar e de grande valia; os auxiliares seriam as crianças de prata, nascidas e vocacionadas a luta; e por fim, os artífices corresponderiam às crianças de bronze, nascidas para produzir e trabalhar e, portanto, resistentes.Não poderia haver mudanças de papéis, posto que o lugar do sujeito é predeterminado.

O fatalismo[10] é, sem dúvida, uma das marcas peculiares da visão platônica, no mito da República, Láquesis (que é uma das três Moiras) tem em seu regaço fichas para um sorteio (símbolo da contingência) e ainda padrões de existência;e cada alma deve escolher o Gênio (demônio) que a acompanhará na sua existência, de entre uma série de escolhas, cuja ordem foi tirada à sorte.

Uma vez realizada a escolha, a existência é necessidade. Ou seja, cada alma escolhe seu destino, mas este destino escolhido é irrevogável (assim quer tornar Deus inocente do mal que fazemos, assim a moralidade ganha um valor original).

A escolha é enfermidade reservada às almas que não participaram da vida filosófica; mas os filósofos estão isentos desta enfermidade que é a liberdade infernal da escolha. Quando a especulação filosófica incide sobre o conceito de Destino, o problema do voluntário ou involuntário transforma-se em um problema metafísico: o do livre arbítrio.

Mas você deve estar se questionando como uma cidade pode ser construída e baseada em mitos, mentiras, censura, propaganda e reprodução seletiva, como podem as pessoas nascerem programadas e fazerem apenas o que os guardiões dizem. Portanto, a cidade justa de Platão é onde tudo corre exatamente como deve ser, sendo estável e eficiente.

Na lógica de Platão, portanto, a cidade justa deve ser governada e administrada pelos filósofos e pelos homens da ciência e, onde cada classe cumprirá naturalmente sua função para o bem da pólis

Por outro lado, a cidade injusta[11] é aquela na qual o governo está nas mãos dos proprietários e, naturalmente não pensam no bem comum da cidade, e, sem dúvida, lutarão apenas para preservar seus interesses econômicos particulares, ou nos militares que levarão a cidade em estado de guerra constante para contemplar e vislumbrar desejos pessoais de honra e glória.

Não deveriam as pessoas ser felizes, e terem um pouco mais de liberdade para influenciar no funcionamento da cidade?, Não haveria como Sócrates se opor à explosão de Trasímaco, incorrido na defesa do que ele havia acabado de negar, que a justiça não é nada mais que a obediência à vontade dos poderosos?

Existe uma resposta para essa questão, embora não seja apropriada. Platão afirmava que a cidade ideal não pode se tornar real até que os reis sejam filósofos ou até que os filósofos tornem-se reis, até que o governante tenha sabedoria, particularmente a compreensão do fato que é a bondade.

Os governantes não são meros tiranos, mas pessoas que por sua origem e criação estão em posição privilegiada, podendo assim, naturalmente escolher o que é de benefício para todos.

Eugenias e mentiras à parte, talvez o povo possa realmente ser feliz, já que é cuidado por pessoas treinadas para ter em conta seus interesses. Desta forma, não significa apenas obedecer à vontade dos mais fortes, mas ser governado pelos que sabem mais e pelos que amam a sabedoria.

Defendia Platão que a educação visava o objetivo final de formar moralmente o homem exatamente para viver na cidade justa.

Rejeitava a educação grega praticada pelos sofistas que eram encarregados de transmitir conhecimentos técnicos, principalmente como a oratória, para os jovens da elite, que deveriam se tornar aptos para ocupar as funções públicas.

E, ainda apregoava que toda educação era de responsabilidade do Estado, e ainda, já naquela remota época reivindicava o acesso universal à educação e a mesma instrução para ambos sexos. Era ferrenho opositor da democracia ateniense principalmente por entregar poder às pessoas despreparadas para governar.

Desta forma, o sistema educação platônica definia-se poela renúncia do indivíduo em favor da comunidade e o processo educacional reconhecidamente longo tinha a missão de revelar o talento e o gênio.

Na ótica de Platão  a escola deveria testar as aptidões dos discípulos para que os revelassem tendências ao conhecimento e recebessem a formação completa para serem governantes.

Segundo Platão, a formação da pessoa, e da cidadania ocorreria antes mesmo do nascimento através do planejamento eugênico da procuração que se baseia em condições que favoreçam a reprodução e o aperfeiçoamento da etnia humana.

Platão propõe uma sucessão de analogias nos livros seis e sete, todas com a intenção de aclarar o tipo de conhecimento requerido pelos governantes, o conhecimento do Bem. E, para tanto recorremos a teoria das formas, pensando nos seguintes problemas:

Dizemos que diversas coisas são “vermelhas”, mas como conseguimos aprender o significado da palavra, se nunca nos foi apresentado um exemplo ambíguo de vermelhidão? Coisas vermelhas podem ser redondas e vermelhas, suculentas e vermelhas e, ainda, crocantes e vermelhas.

A incrível solução de Platão para esses problemas é a teoria das formas:a idéia de que exemplares perfeitos e imutáveis das coisas. Desta forma, todas as coisas vermelhas compartilham ou participam da forma de vermelho; todas as cidades, pessoas e ações justas compartilha da Forma de Justiça, e assim por diante.


Em verdade, as formas são realidades conceituais, e assim como a luz do Sol faz com que os objetos mundanos sejam visíveis, o conhecimento do Bem faz com que o rei filósofo “veja” o mundo das formas. Um governante iluminado, portanto, sabe o que é bom para todos, e governa de forma compatível com o bem estar de todos.

Diante das teses defendidas por Platão, Sócrates é levado a argumentar que a justiça tem valor em si mesma, dependendo apenas das condições para o seu exercício. Daí ser mais facilmente ser encontrada na atividade pública (na cidade), do que nas pessoas.

O primeiro princípio da justiça é a solidariedade social, ou as formas pelas quais a pessoa contribui para o bem estar coletivo, pois este é que tem a prioridade.

Desta forma, ressalta-se ainda o segundo princípio, necessário para a manutenção da integridade social: o desprendimento, o dever consciente de pessoas realmente dispostas a prover o bem comum. Eis aí, a justificativa para se criar uma classe social distinta das atividades econômicas, a dos guardiões, futuros reis-filósofos que sustentarão a felicidade do Estado.

A principal finalidade da polis é educar as pessoas e esta não precisa legislar sobre tudo. A cidade é sábia porque é governada por reis-filósofos; a cidade é corajosa, posto que garantida por guardiões valentes.

Há de ter temperança nas paixões e esta deve ser praticada tanto pelas pessoas como pelos governantes. A justiça consiste em cada um fazer o que deve assim: o sábio governar, o guardião vigiar e o artesão produzir.

A alma humana portanto é composta de três partes: os desejos (nous) e os impulsos (thymos) e, estes são dominantes, em certas ocasiões, superando as contenções racionais. Portanto, a justiça consiste na harmonia entre essas três partes, o que a faz aproximar-se da moral.

O mito da caverna é talvez a mais famosa imagem-parábola de Platão, e utilizável para todas as coisas com o fito de explicar a relação entre esse mundo e o mundo das formas, bem como a iluminação filosófica necessária aos reis filósofos.

Platão imaginou prisioneiros acorrentados ao solo de uma caverna. E, bem atrás deles existe uma palataforma erguida, onde vários objetos são carregados de uma lado para o outro, e, bem atrás desse vaivém existe uma fogueira.

E, os prisioneiros conseguem se libertar, enxergam o que está acontecendo e percebem que confundiam meras ilusões com objetos reais. Então um dos prisioneiros sai da caverna com dificuldade e se depara com a ofuscante luz do Sol. Por fim, consegue ver a verdadeira natureza do mundo.

Na ótica platônica, somos como prisioneiros em uma caverna e o mundo dos objetos físicos não passa de um mero vaivém de sombras comparado ao mundo imutável das formas perfeitas.

O filósofo que consegue se libertar e observar os objetos fora da caverna, as formas em si mesmas, finalmente vê o Sol, a forma da bondade, que a tudo ilumina.


Vale notar que o filósofo tem de retornar à caverna para nos libertar os demais mas não há dúvida de que ele preferiria permanecer lá fora, contemplando tudo tranquilamente. E, libertar a multidão não é tarefa fácil.

Este sofre, sendo acusado de louco por sua conversa  sobre o chamado “mundo real”. Com isto, Platão está sugerindo que o rei- filósofo governa não pelo senso de dever para com os sujeitos, mas porque se importa com eles. O que ele quer, mais que a alegria que acompanha a contemplação das formas, é a justiça para a cidade.

Mas o que há de verdadeiro na teoria das formas de Platão? A maior objeção considerada pelo próprio Platão, seja o Argumento do Terceiro Homem[12].

As coisas belas do mundo só o são belas na medida em que compartilham  da forma do Belo. Pois a forma do Belo é o belo em si. Isso não requer uma terceira pessoa, uma terceira forma, com a qual se pareça o Belo em si? Recomendo a leitura de “O banquete”.

Sócrates, Platão e Xenofonte são homens na medida que compartilham da forma homem. Isso não requer um terceiro homem com o qual deve se parecer a forma Homem para que elese sejam homens? A teoria das formas pode provocar um embaraçoso ciclo vicioso.

Abandonando as preocupações com a justiça do indivíduo e, retornando à cidade justa, sendo concebida por Platão como aquela em que as três classes fazem exatamente o que devem fazer e onde permanecem em seus apropriados lugares, exercendo seus respectivos papéis e não interferem uma nas outras.

E, consolidada a justiça na cidade, o filósofo volta-se para a justiça do indivíduo. Por simples analogia à cidade justa, uma pessoa justa é dotada de três partes, e que devem funcionar juntas.


Razão, força e apetite para Platão, correspondem na visão platônica às classes de cidadão na cidade. A vida interior da pessoa é estruturada tal como a vida social na cidade justa, as partes de sua alma fazem parte de um tipo similar de equilíbrio.

Mas, infelizmente a psicologia humana não pode ser reduzida a somente três princípios, e também porque as sociedades não são menos complexas.

Outra cogitação de Platão que tanto atormenta, que é saber se é desejável e compensadora a justiça? Acredita o filósofo que a pessoa justa é mais feliz e o que estado justo encerra as pessoas mais felizes.

Propõe alguns argumentos específicos: uma pessoa justa  escapa de um tipo de conflito interno, que conduz à infelicidade, quando a parte racional de sua alma governa as outras. A justiça, portanto, traz felicidade, um tipo de felicidade inacessível à pessoa cuja alma está em constante disputa.

Platão também argumenta que as partes de uma pessoa possuem desejos correspondentes e particulares, como a parte racional ama a sabedoria[13].


Disputas entre as partes da alma dependem do melhor juiz para sua resolução, e somente a parte racional sabe quais são os melhores desejos para cada parte da alma.

Portanto, a razão é o melhor juiz quando se trata da satisfação do desejo, e a pessoa cuja razão está no comando, a pessoa justa, encontrará uma maior satisfação em sua vida.

Quando Platão discute sobre a razão que governa as outras partes da alma, está também cogitando de outras coisas, o que perpetua a inquietação de seus diálogos. Daí, podemos testemuhar boquiabertos a eternidade de Platão.

Por fim, precisamos entender que o mito linguagem tão utilizada por Platão revela as relações existentes entre a poesia e a verdade. A poesia se traduz em ser mensagem metafísica, e o belo não é senão o esplendor do verdadeiro e a arte em segundo lugar em relação à filosofia, revela a verdade com beleza e destreza ao mundo sensível.

Referências

  1. GAVEY, James. Uma introdução aos vinte melhores livros de Filosofia. Série Rosari Filosofia.Continuum International Publishing Group, Londres, Inglaterra, 2006.
  2. JAPIASSU, Hilton. Danilo Marcondes. Dicionário Básico de Filosofia. Jorge Zahar Editor, 3ª. Edição, revista e ampliada, 1996.


[1] Sócrates – Principal figura, na boca do qual Platão  expressa seu pensamento. O encontro de Sócrates com os demais personagens se dá no Pireu, onde ele havia se dirigido com a finalidade de orar e constatar as festividades em honra à deusa Bêndis (Diana ou Ártemis) (327a). O local da discussão é a casa de Polemarco, irmão de Lísias e Eutidemos, filhos do velho Céfalo (327b).

[2] Xenofonte nasceu em Atenas, em uma família abastada e foi discípulo de Sócrates até 401 a.C., quando se juntou aos mercenários gregos que combateram na Pérsia em favor de Ciro, o Jovem, contra seu irmão, Artaxerxes II. Os gregos venceram, mas Ciro foi morto e após a batalha de Cunaxa. Os mercenários (chamados de "Os Dez Mil") tiveram de fugir, atravessando um território hostil. Xenofonte foi um dos líderes da bem sucedida retirada.

[3] Ness obra está descrito o Mito da Caverna, onde procura saber o que é um filósofo e como é uma sociedade justa entre outras idéias.

[4] Céfalo - Nasceu em Siracusa – portanto, era meteco -, estabeleceu-se em Atenas e após trinta anos acumulou fortuna com uma fábrica de escudos; foi desapropriado pelos Trinta Tiranos. É Céfalo que convida Sócrates a vir com freqüência em casa para debater com seus filhos (329d).

[5] Céfalo que significa referente a cabeça.

[6] Trasímaco – é o famoso sofista. Especialista na dialética, irrita-se com a ironia de Sócrates, no início da discussão sobre a Justiça (336d. 337a). Definirá a justiça como “a conveniência dos mais poderosos” (340b).

[7] Num diálogo aporético não se chega nunca a uma definição do tema central – a coragem e a virtude, respectivamente -, mas só pela refutação de todas as tentativas de definição se pode estar em condições de dizer alguma coisa (“de científico”) sobre aquilo que se quer discutir.

[8] Acompanham Sócrates os dois irmãos de Platão, Glauco e Adimanto; também Nicerato que figurará entre os personagens do Banquete. Este era filho do general Nícias que, em 421, celebrou o armistício na guerra do Peloponeso. Nicerato foi condenado a beber cicuta no mesmo período que Sócrates.

[9]  Que mais tarde serviu perfeitamente para justificar o absolutismo e a origem divina do poder.

[10] Fate, personificado pelos gregos, sob o nome de Moira, significava, na antiga do mundo invisível poder que regras mais humano destino. No pensamento clássico destino se acreditava-se superior aos deuses, uma vez que ainda não foram capazes de desafiar a sua totalidade – englobando o poder. O destino não é acaso, que pode ser definida como a ausência de leis, mas sim de um determinismo cósmico que não tem nenhum significado último ou finalidade.

 

[11] A condenação injusta e escandalosa de Sócrates exprime a incompatibilidade trágica existente entre o poder político e a sabedoria do filósofo. Por isso na sétima carta aponta Platão: “Reconheço que todos os Estados atuais, sem exceção, são mal governados… É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual.”(…)

[12]  Foi argumento usado por Aristóteles para criticar a teoria platônica das idéias. Entre todos os homens, diz ele, há algo de comum: a idéia de homem. Por detrás de cada homem, há a idéia de home, por detrás de Pedro, há o homem em si ( o perfaz dois homens), mas entre o homem em si e Pedro, também há algo em comum, um terceiro homem que corresponde a esse terceiro homem.

[13]  Poderíamos resumir a filosofia de Platão em uma palavra e que é fundamentalmente traduzida num dualismo.

fev 042011
 
mapa roma itália

OBSERVAÇÕES SOBRE AS VIDAS PARALELAS DE PLUTARCO

Observações de Clavier, Vauvilliers e Brotier para as Vidas de Plutarco.

SOBRE A VIDA DE TESEU

CAP. XXVI. Trazei-lhe pão saboroso. Amyot não entendeu esses versos, que são muito difíceis de explicar de maneira satisfatória. Eis como acredito se possam traduzir:

— "A Iresione (o ramo sagrado) traz figos e pão saborosos; traz mel num vaso, óleo para esfregar o corpo e uma copa de vinho puro, para adormecer depois de estar inebriada."

Eu li no primeiro verso com Eustátio, sobre Homero, página 1283, phérei em lugar de phérein; mas não entendo o terceiro verso e não sei o que se relaciona com os an methyoysa katheyde, pela qual ela adormece depois de estar inebriada. Dacier traduz: E as velhas encontram em ti esse doce néctar com o qual se inebriam e que as adormece. Não sei de onde êle tirou isso, pois não se trata de velhas no texto. É provável que’ esses versos não sejam senão o fragmento de um poema mais considerável e que esse último verso tenha relação com os que se perderam. C.

CAP. XXX. Peloponeso é para o Sol poente. Amyot foi torturado pela rima e pelo verso. A inscrição da coluna trazia na face oriental:

Aqui não é o Peloponeso, mas a Jônia.

E na face ocidental:

Aqui é o Peloponeso e não a Jônia.

O imperador Adriano imitou essa inscrição naquela que se vê ainda em Atenas sobre o monumento que erigiu entre a antiga e a nova cidade. De um lado: Aqui é Atenas, a antiga cidade de Teseu, e do Quatro Aqui é a cidade de Adriano, e não a de Teseu.

SOBRE A VIDA DE RÓMULO

CAP. XXVI.. Tarpéia, a jovem que morava então, etc.

Eis como esses versos devem ser traduzidos:

"Sobre o cimo do Capitólio morava Tarpéia, que fêz tomar Roma; pois que, na esperança de esposar o rei dos Celtas, entregou-lhe a casa do próprio pai."

Amyot afastou-se ainda mais do sentido nos versos que seguem, que Dacier traduziu muito bem:

-Os Bóios e os Celtas não a enterraram para além do Pó e não cortaram os cabelos sobre o seu sepulcro; mas atiraram sobre a infeliz os seus broquéis, que foram os únicos ornamentos de seu túmulo."

Observarei que Dacier leu no texto:

reíthron ektos ethento Pádoy,

lição que Reiske diz ter encontrado numa das edições de Aldo e que eu acredito a melhor; os Gauleses estavam para além do Pó, relativamente à Itália; e o poeta queria dizer com isso que o rei dos Celtas não a levara para o seu país. C.

CAP. XXX. As legiões de seis mil homens a pé. Não foi senão em tempos bem posteriores a Rómulo, e muito raramente, que se viram legiões romanas compostas de seis mil homens. Que significa pois, aqui a observação de Plutarco? Ela mostra o que se fêz após a reunião dos Sabinos com os Romanos. Para se estabelecer perfeita igualdade entre as duas nações, a juntaram-se cem patrícios Sabinos aos cem patrícios Romanos. A mesma coisa se fêz no domínio militar. Os Sabinos tiveram também sua legião. Foi então que a legião reunida dos Sabinos e dos Romanos foi composta de seis mil homens a pé e seiscentos homens a cavalo.

CAP. XL. Os Toscanos se originaram dos Sardos. Sardes era a capital da Lídia. Tornou-se, sob os Romanos, uma Corte de Justiça muito extensa, que se chamava a Sardiana. Plínio, Hist. Nat- V, 9. Segundo Plutarco, os Toscanos vieram de Sardes; como vimos mais acima, cap. XXIII, os Sabinos descendiam dos Lacedemônios. O grito dos Sardos em leilão seria pois, do tempo de Rómulo. Outros, entretanto, pretendem que esse grito é mais recente e que não começou senão muitos séculos depois, quando a Sardenha foi tomada pelo cônsul Tibério Semprônio Graco. Gritou-se: Os Sardos em leilão, cada qual mais perverso do que o outro.

SOBRE A VIDA DE LICURGO

CAP. IX.. Depois que tiveres edificado um templo a Júpiter Silaniano e a Minerva Silaniana. Essa passagem é muito difícil de interpretar e, como está no dialeto dos Lacedemônios, que conhecemos pouco, não é fácil corrigir. Dacier propõe pôr Júpiter Selásio e Minerva Selasiana, porque Selásia era uma cidade da Lacônia, às margens do Eurotas; Bryant propõe se leia: Júpiter Helaniano e Minerva Helaniana. Os Lacedemônios descendiam, como se sabe, de Doro, filho de Helen," e eram mesmo, segundo Heródoto, livro I, parágrafo 56, os principais dos Dórios: não seria, pois surpreendente que as suas duas principais divindades conservassem nomes que lhes recordassem a origem; e, por pouco que se conheça a afeição dos Gregos por sua metrópole, seria estranho que assim não fosse. Eis, pois, como eu creio dever ler a passagem:

Dios Ellaníoy es Athenas Ellanías ieron idrysaménon, phylas phyláxanta, es obas abaxanta, triákonta geroysían syn archagétais katarésanta, oras ex oras apellázein metaxy Babykas te es Knakíonos, otos eisphézein; es aphisatho damo exoysían eimen es krátos.

E creio dever traduzi-lo assim: "Depois que tiveres edificado um templo a Júpiter Heleniano e a Minerva Heleniana, e dividido o povo em linhagens e em tribos, estabelecerás um Senado de trinta conselheiros, inclusive os dois reis, e reunirás o povo de tempos a tempos entre o Babício e o Cnácion; aí o Senado proporá as leis e o povo terá o direito de rejeitá-las."

Plutarco ajunta em seguida, à guisa de interpretação: "Phylas phylaxai, obas obaxai, é dividir o povo em diferentes porções, das quais umas se chamam phyla e as outras oba; os archagetae são os reis; apellázein é reunir o povo- Essa palavra vem de Apolo, porque a êle se devem os primórdios da ordem civil: Cnácion chama-se agora Oinonte; mas Aristóteles diz que o Cnácion era um rio e que o Babício era uma ponte.

O pouco espaço de que disponho não me permite justificar as modificações que introduzi e que estão de acordo com o que Plutarco diz um pouco mais abaixo. C.

CAP. XII. Repartir as terras. Um grande caráter, de grandes exemplos, poucas leis, mas gerais e sem exceção, fundadas sobre a igualdade, a estima da glória e o amor ao bem público, eis a arte de Licurgo; eis o que fêz a força da instituição lacedemônia e de todas as que se lhe aproximaram. Tais espécies de instituições são extremas: subsistem ou caem com suas leis. Foi o que levou Montesquieu a dizer: "Peço que se atente um pouco a extensão do gênio que foi necessário a esses legisladores para verem que, chocando todos òs usos recebidos, confundindo todas as virtudes, mostrariam ao universo sua sabedoria. Combinando o latrocínio com o espírito de justiça, a mais dura escravidão com a extrema liberdade, os sentimentos mais atrozes com a maior moderação, deu Licurgo estabilidade à sua cidade. Parecia tirar-lhe todoa os recursos, as artes, o comércio, o dinheiro, as muralhas: tem-se ali ambição sem esperança de melhorar; os sentimentos são naturais, sem que ninguém seja filho, nem marido, nem pai; o próprio pudor é tirado à castidade. Foi por esses caminhos que Esparta chegou à grandeza e à glória, mas com tal afalibilidade de suas instituições que não se obteria nada contra ela ganhando batalhas, se não se chegasse a tirar-lhe a polícia." Espírito das Leis, IV, 6.

CAP. XXV.. A freqüentarem as procissões, dançarem nuas, etc. Amyot não seguiu a lição recebida: gym-nás te polyteyein, o que poderia significar irem nuas pela cidade, embora eu não me lembre de ter visto em outra parte a palavra polyteyein empregada nesse sentido; aliás, não é verdade que elas andassem nuas pela cidade, e a passagem de Plutarco, que Bryant cita para apoiar a lição ordinária, não diz isso: vê-se aí somente que as moças de Esparta iam à cidade com vestidos abertos dos lados, deixando ver as coxas. (Paralelo entre Licurgo e Numa, cap. VI); mas não se trata, como aqui, de nudez absoluta.

Amyot parece ter lido pomoeyein, a julgar por sua tradução. Essa correção ocorreu também ao espírito de Bryant, que a apoiou com a passagem seguinte de Plutarco, Apophith. Lec. t. VI, página 849: memphoménon de tinon ten lymnosin ton parthénon en tais pampais- Alguns censuram o costume de andarem as moças nuas nas procissões, e ela é ainda melhor apoiada pelo que diz Plutarco, Vida de Licurgo, no capítulo seguinte: Ademais, era isso um estímulo que atraía os jovens ao casamento; assim entendo esses jogos, danças e divertimentos a que se entregavam as moças inteiramente nuas na presença dos rapazes. Plutarco emprega também aqui a palavra pompas, que Amyot tomou mal por jogos, quando significa procissões. Dacier encontrou num manuscrito pykteyein, e Salvino em outro palaíein. Essas duas lições não são más e significariam que elas lutavam inteiramente nuas; mas eu prefiro a lição seguida por Amyot. C.

CAP. XXXIX. Quanto a mim, sou de opinião que os Lacônios, etc- O sentido dessa passagem não foi apreendido por Amyot nem por alguns outros tradutores; eles não viram que Plutarco citou a resposta de Agis somente para fazer uma comparação entre as espadas dos Lacedemônios e os seus discursos. Eis como é preciso traduzi-la: "O rei Agis respondeu um dia a um Ateniense que zombava das espadas usadas pelos Lacedemônios, dizendo que qs saltimbancos e prestidigitadores as engoliam facilmente no teatro diante de toda a gente: E todavia, disse Agis, assim repelimos bem os nossos inimigos; do mesmo modo, sou de opinião que o discurso dos Lacedemônios é curto, mas atinge muito bem o objetivo e se faz entender muito bem pelos ouvintes." C.

CAP. XLVI. O rei sacrificava primeiramente às Musas, para recordar aos combatentes, como me parece, a disciplina na qual tinham sido educados e os julgamentos. Há no grego: anamimnéskon os eoike, tes paideías es ton Kríseon. Essa palavra Kríseon, que Amyot traduziu por julgamentos, não tem nenhum sentido: achou-se num manuscrito poiésecs, o que seria melhor; mas creio ser preciso ler reséon, sentenças: "para recordar aos combatentes a disciplina na qual tinham sido educado e as sentenças que lhes tinham ensinado." C.

SOBRE A VIDA DE NUMA

CAP. XVI. Mas a ponte de pedra. Amyot não é exato nessa passagem. Êle devia traduzir: "a ponte de pedra foi construída muito tempo depois pelo questor Emilio. Dizem mesmo que a ponte de madeira não existia no tempo de Numa e que foi construída depois, quando reinava seu sobrinho Márcio-" Essa ponte ficava ao pé do monte Aventino, perto do lugar que se chama agora Ripa Grande. Sob os imperadores, ela trazia ainda os nomes de Ponte de Madeira e Ponte Emílio. O rei Márcio é Anco Márcio, quarto rei dos Romanos.

CAP. XVII. Um vaso ôco, composto da costa de um triângulo. A descrição dos espelhos ardentes e do seu uso não é muito precisa nem bastante exata em Amyot. Eis o relato de Plutarco: "Se o fogo das vestais vem a extinguir-se, dizem eles que não se deve tornar a acendê-lo com outro fogo, mas fazer um novo, tirando do sol uma flama pura e nítida. Servem-se eles ordinariamente de vasos ocos, cuja superfície côncava é formada pelo lado de um triângulo retângulo isós-celes: tudo vai terminar da circunferência em um ponto. Quando esses vasos são colocados em face do sol, os raios, refletidos de todas as partes da circunferência, se reúnem, entre-misturando-se no ponto; eles sutilizam-se, dividem o ar: os raios que adquiriram pela reflexão a natureza e a ponta candente do fogo, queimam prontamente as matérias secas e áridas que se lhes apresentam." Esses espelhos ardentes eram de bronze. A ponta, ou o centro, como se exprime Plutarco, é o foco. A razão pela qual êle diz que se serviam ordinariamente desses espelhos é que havia outra maneira, talvez mais antiga, de fazer fogo. Ela é relatada por Festo. Tomava-se uma tábua de madeira, com atenção para que fosse madeira de bom augúrio. Friccionando-se violentamente essa tábua, fazia-se que pegasse fogo. Uma vestal recebia esse fogo num crivo de bronze. Tal maneira de fazer fogo foi encontrada em quase todas as nações selvagens. Dupuy publicou uma erudita memória sobre essa passagem de Plutarco. Mostra êle que esses espelhos não eram parabólicos, como o pretendeu Méziriac. Êle determina em geometria as vantagens dos vasos cónicos retangulares para a reflexão dos raios solares. Vide as Memórias da Academia das Inscrições, tomo XXXV, página 395.

CAP. XVIII. Como as mulheres que têm três filhos. As mulheres que tinham três filhos podiam fazer suas disposições sem intromissão de curador. Esse privilégio fôra-lhes concedido por Augusto para encorajar a população num estado exausto pelas guerras civis e que devia temer ainda os efeitos do luxo. É o que recorda Plutarco, falando do mesmo privilégio que Numa concedera outrora às vestais.

CAP. XXVII. Da raça dos Titãs. Os Titãs não têm nenhuma semelhança com os Sátiros. Mas Pã e todo o grupo dos Pãs muito se parecem com eles. Plutarco não fala, pois, da raça dos Titãs, mas dos Pãs. Há muito tempo que se notou que o desprezo era fácil em grego. Ter-se-á escrito Titánon, em lugar de Pánon.

CAP. XXXI. E fevereiro o duodécimo e último. Há aqui uma lacuna do texto, que induziu Amyot em erro. Lê-se, com efeito: dodékatos de es teleytaios, ó phebroyá-rios, o nyn deutero chrontai. É preciso ler: dodékatos en este-leytaios o phebroiarios o nyn deutero chrontai, isto é, e fevereiro, que era então o duodécimo e último, é desde aquele tempo o segundo. Sabemos,- com efeito, por Macróbio, Saturnales, 1. I, cap. XII, que Numa pôs o mês de fevereiro em segundo.

OBSERVAÇÕES SOBRE A COMPARAÇÃO ENTRE LICURGO E NUMA

CAP. VI, página 321. Essa passagem me parece corrompida; não sei, com efeito, como sé pode explicar este verso:

Thyraion amphi meron,

e surpreende-me que Walckenaer, que, em sua diatribe sobre os fragmentos de Eurípides, página 221, corrige, no primeiro verso, néorton, em lugar de neorgon, o que não me parece muito necessário, não diga nada sobre isso; Brunk, na coletânea dos fragmentos de Sófocles, também não diz mais. Creio que, em lugar de thyraion, é preciso ler araión, tenro, delicado (1), como em Homero, Iliada, canto V, verso 425; e é preciso traduzir: E Hermíona, que começa a sentir desejos, cuja saia ainda aberta dos dois lados, deixa ver as delicadas coxas. C-

(1) Assim, com efeito, traduz Carlos Alberto Nunes aquele termo grego, como se vê nos versos 424-425 do canto V de sua versão brasileira da Ilíada de Homero, editada por Petraccone: -Quando amimava uma dessas Aquivas de manto bem feito. A delicada mãozinha espetou na dourada fivela." — N. do ed. bras.

 

SOBRE A VIDA DE SÓLON

CAP. III. O mais rico não é quem tem ganância. Esses versos se acham citados por Estobeu, título 93 ou 97, seguindo a ordem estabelecida por Grócio, sob o nome de Teógnida, entre cujos versos se encontram, v. 719 e seg., exceto na edição de Brunk, que os restituiu a Sólon; e, como o fragmento é mais completo, julguei dever dar-lhe a tradução por inteiro:

Aquele que tem muito ouro e dinheiro, campos muito vastos, cavalos, mulas, não é mais rico do que aquele que tem justamente tudo o que lhe é preciso para ser bem nutrido, bem calçado e bem vestido, que é amado por alguns jovens rapazes ou algumas jovens mulheres, e que está ainda na idade de entregar-se aos prazeres de sua sociedade; eis aí a verdadeira riqueza, os outros bens são supérfluos, ninguém lhes resiste nos Infernos, e com presentes ninguém fica preservado da morte, nem das doenças, nem da velhice."

Horácio, que muito imitou os poetas gregos, apropriou-se desse pensamento de Sólon, em sua epístola 12, livro I, verso 5:

Si ventri bene, si lateri est pedibusque tuis, nil Divitiae poterunt regales addere majus. C.

CAP. XXIV. Eis aqui os versos aos quais Plutarco se contenta de fazer alusão e que Aristides nos conservou em seu discurso De Paraphthegmate, tomo il, página 397:

"Eu poderia com justiça invocar o testemunho da maior das divindades do Olimpo, a Terra, mãe de Saturno, de cuja superfície arranquei as inscrições que ali estavam colocadas por toda parte; ela era escrava, está agora livre; reconduzi à pátria vários Atenienses, dos quais uns tinham sido vendidos justa ou injustamente, outrcs tinham errado por tanto tempo nos países estrangeiros, dizendo a sorte para ganharem a vida, que chegaram a esquecer a língua ática; libertei outros que haviam sido entregues a escravidão no próprio seio da pátria e que tremiam então diante dos senhores; prometera eu fazer tudo isso e o fiz, empregando ao mesmo tempo a força e a justiça. Escrevi leis para punir o mau, favorecer o homem honesto e permitir se fizesse a cada um justiça pronta. Se tal autoridade tivesse sido confiada a algum avarento ou mal-intencionado, êle se teria entregue às suas paixões e não descansaria enquanto não agitasse o povo e não lhe arrebatasse o mais precioso de sua substância."

Devo observar que emendei o primeiro verso, que se lê assim em todas as edições, mesmo nas de Brunck, tanto em seus Analecta como em seus Poetae Gnomicis

Symmartyroín tayt an on dike chrónoy Meter megíse daimónon Olympíon.

Ali pus Kronoy, em lugar de Chrónoy, tempo e o relaciono com meter, porque a Terra é efetivamente a mãe de Saturno.

Li no vigésimo verso, com W. Canter, em suas notas sobre Aristides, publicadas por Reiske no quinto volume de suas Animadversiones ad Authores Graecos, oyk an cache thy-mon, em lugar de daimons: essa correção foi também adotada por Brunck, em seus Gnomici, e oferece um sentido muito melhor, como se verá no cap. XXVI. C.

CAP. XXVI. . É preciso pôr nessa passagem, como disse na observação sobre o cap. XXIV, thymon, e traduzir assim: Que ninguém com a mesma autoridade e poder, teria deixado de entregar-se às suas paixões e não teria repouso enquanto não agitasse o povo e não lhe tirasse o mais precioso de sua substância ou, literalmente, não o desnatasse, pois é positivamente o que significa pion exéte gála. C.

CAP. XLIV.. Não posso deixar de referir aqui, para justificação de Sólon, uma passagem de Lísias, em seu discurso sobre o homicídio, que nos permite conhecer com que espírito essa lei foi feita:

"Vós entendeis, cidadãos, a lei ordena que, se alguém viola um homem ou uma criança livre, pagará multa dobrada; e, se viola uma mulher casada, cujo sedutor é permitido matar, a lei não ordena senão a mesma multa: vedes por aí que o legislador encarou como menos puníveis aqueles que usam de violência do que aqueles que empregam a sedução; pois que pronunciou a morte contra uns, e somente multa dobrada contra os outros. Êle pensava com efeito que aqueles que usavam de violência se faziam ordinariamente detestar por aquelas para com as quais dela usavam, ao passo que aqueles que empregam a sedução corrompem de tal maneira o espírito daquelas que seduzem que elas lhes são mais afeiçoadas do que a seus esposos; que eles se tornam absolutamente senhores da casa e que não se pode saber a quem pertencem os filhos, ao marido ou ao sedutor." Lísias, página 34 e seg., tomo V, dos Oradores Gregos de Reiske.

Fonte: Edameris. Trad. de Pe. Vicente Peixoto.

fev 032011
 
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Plutarco – Vidas Paralelas – OBSERVAÇÕES

SOBRE A VIDA DE AGESILAU

CAP. XX. — «Pois amou muito afetuosamente um jovem rapaz ateniense, etc». Deve traduzir: «Pois amou muito afetuosamente um jovem ateniense, atleta entre os meninos; como já estava grande e forte, correu o risco de ser recusado nos jogos olímpicos; eis porque o persa recorreu a Agesilau, etc». Para compreender isto é preciso saber que havia duas classes de atletas; uns eram homens feitos, os outros eram crianças. Cada um podia combater em sua classe; mas como podiam passar entre as crianças meninos de mais idade, o que então era uma desvantagem para os outros concorrentes, os magistrados encarregados do policiamento dos jogos examinavam todos os pretendentes, e rejeitavam aqueles que por força e sua conformação física, lhes pareciam de idade desproporcionada para serem admitidos na classe dos meninos. Como terei ocasião de examinar tudo isto muito mais detalhadamente em minhas notas sobre Pausânias, limitar-me-ei aqui ao que acabo de dizer. C.

CAP. XL. — Não se acha esse nome de Gelon em parte nenhuma. Na Vida de Pelópidas, Plutarco chama de beotárquios a Pelópidas, Caron e Melon, que Xenofonte escreve Mellon (com dois 1), o que parece indicar a correção feita neste trecho e proposta por Reiske, e antes dele, por Dodwell em seus Anais de Xenofonte, 33. É preciso observar que, falando deste assunto na própria Vida de Pelópidas, Plutarco atribui esta sugestão odiosa a Pelópidas e Gorgidas, beotárquios. Isto não dá contradição, porque havia sete beotárquios. Estes dois acontecimentos são do terceiro ano da centuagésima Olimpíada, segundo Dodwell, se bem que Diodoro coloque o caso de Esfódrias no quarto ano.

CAP. XLIII. — Há aqui no texto um erro incrível. Cleômbroto é designado como filho de Agesilau. Era com certeza de Pausânias o filho de Plistoanax; era o outro ramo dos reis de Esparta, chamado os Ágides. Procurar adivinhar o que é preciso colocar no lugar dessa palavra filho, como empreendeu o Sr. Dut>oul, é certamente perder tempo e trabalho. É preciso apagar esta palavra absurda. Quanto ao que Plutarco empresta aqui a Agesilau, Xenofonte diz expressamente que foram os éforos que convenceram Agesilau a se encarregar desta expedição, porque tinham uma idéia mais elevada a respeito de sua prudência do que da de Cleômbroto.

CAP. XLV. — Ver-se-á, algumas linhas e mais adiante, que Epaminondas, já célebre por sua sabedoria e seus conhecimentos, não era ainda conhecido pelos seus talentos militares, na ocasião desta embaixada. Não havia ainda conquistado a famosa batalha de Leutres, que abateu o poder de Esparta, fêz passar a proeminência da Grécia para os tebanos e elevou Epaminondas ao mais alto grau da glória militar. Parece portanto, evidente, que aqui não se trata senão da batalha de Tegiro, ganha por Pelópidas no primeiro ano da centuagésima-primeira Olimpíada, A. C. 376 anos. Esta conjectura de vários sábios está confirmada diversos manuscritos que citam neste trecho Tegiro em vez Leutres.

CAP. XLVII. . — Pode-se consultar Dodwell, em seus Anais de Xenofonte, caps. 39 e 40, para julgar sobre que motivos êle se apoia para suspeitar de engano este espaço de vinte dias, que Plutarco estabeleceu entre a paz concluída em Esparta e a batalha de Leutres, o que parece com efeito bem curto para conter os acontecimentos intermediários; daí se conclui que a paz da qual Plutarco fala aqui, se fêz no décimo-quarto dia do mês ático scirroforion, que havia começado aquele ano no quarto da centua gésima-primeira Olimpíada, no dia catorze de junho, razão pela qual o décimo-quarto dia do mês scirroforion estava a coincidir com o vigésimo-oitavo de junho; e que a batalha de Leutres se deu no segundo ano da centuagésima-segunda Olimpíada, no dia cinco do mês hecatombeon, que coincide nesse ano com o dia oito de julho, o mês ático tendo começado a três do mês de julho, no ano do período Juliano. Ainda mais, já se observou o engano de Amyot, com relação à comparação de nossos müses áticos. Ver as Observações, L. III, pág. 484.

CAP. LII.. — Este trecho não é fácil para explicar. Poliano, L. 2, cap. I, § 14, narra o mesmo feito. Porém, parece mudar o local da cena. «Uma sedição, tendo-se levantado em Esparta, diz êle, um grande número de soldados armados apoderou-se de uma montanha consagrada a Diana Issória, perto de Pitane». Issórium é, segundo Etiene, uma montanha da Lacônia. Pitane é uma cidadezinha da Lacônia, cuja posição não é dada de .maneira precisa por nenhum escritor antigo. Mas ela era, segundo Píndaro (olim. 6), e seguindo seu Escoliasto, sobre as margens do Eurota; e o Eurota que corria segundo Estrabão, junto de Esparta, era, segundo Políbio, Extr. L. XV, ao seu oriente, no verão. Tudo isto parece fixar o lugar que procuramos, fora da cidade, para o oriente. Mas Hesíquio nos diz que Issórium é um bairro de Esparta, com o que está de acordo Plutarco; e Pausânias coloca também o templo de Diana Issória na cidade, mas para o poente da praça pública, o que parece poder concordar com a posição junto de Pitane, dada por Poliano. O que concluir disto? Que é preciso distinguir dois objetos, o templo na cidade, e a montanha Issórium perto de Pitane, ao oriente de Esparta sobre o Eurota. Diana aí era honrada de maneira particular. Uma parte dos habitantes de Pitane, tendo se estabelecido em Esparta, para lá levou seu culto e construiu um templo para Diana Issória, perto do quarteirão chamado o Lesché, ou o conselho dos crotônios, que era uma tribo dos pitanios, segundo Pausânias; e a similitude de nome terá fornecido a um dos dois historiadores a ocasião de um descuido. Mas creio que é da mesma montanha que se trata aqui, porque os inimigos vindo atacar a cidade pelo lado do Eurota ao oriente, não teria sido possível fazer crer aos sediciosos que pudessem se desculpar de uma ordem mal ouvida, reunindo-se em tão grande número ao ocidente da cidade, que não tinha nenhuma necessidade de ser guardada, estando os inimigos além do Eurota ao seu oriente.

SOBRE A VIDA DE POMPEU

CAP. I. — Esquilo havia composto duas tragédias sob o título de Prometeu; uma de Prometeu acorrentado, é aquela que possuímos onde se desenrola um ódio amargo contra Júpiter; a outra, de Prometeu liberto por Hércules. O verso citado por Plutarco foi extraído desta que o tempo nos roubou.

CAP. XXII. — Houve, em Roma outros personagens que tiveram o sobrenome de Máximo. Plutarco aqui fala desses que o obtiveram por outras virtudes que não as virtudes militares, se bem que esses que constam neste trecho, fossem também muito ilustres desse lado, como se vê em Tito Lívio, L. II, cap. 31, com relação ao ditador Valério, que conquistou sobre os sabinos uma vitória tão brilhante, no ano de Roma 260, que além das honras do triunfo, o Senado designou-lhe um lugar distinguido para êle e para sua posteridade no circo, onde lhe colocaram uma cadeira curial; e com relação a Fábio Rulo, que outros chamam Ruliano, e o Padre Petau, Turiliano, no mesmo historiador, L. VIII, cap. 30, era então mestre da cavalaria, sob o ditador Papírio, no ano de Roma 429, e conquistou em sua ausência, apesar da pi-oibição que lhe fora imposta de combater uma vitória completa sobre os samnitas. Pode-se ler em Tito Lívio, como o Senado e o povo tiveram trabalho para salvar em seguida sua vida da severidade do ditador obstinado em castigar de morte esta infração da disciplina militar. Foi depois cônsul várias vezes, censor no ano de Roma 450, ditador no ano de Roma 453. Foi, em sua censura, que fêz no Senado e no povo a reforma da qual Plutarco fala aqui e a qual Tito Lívio refere no fim de seu nono livro, e que lhe mereceu o sobrenome de Máximo

Quanto a Valério, Cícero diz expressamente em seu Livro intitulado Brutus, L. I, pág. 211, a mesma coisa que Plutarco. Não foi êle, no entanto, que começou o trabalho de reconciliação do povo com o Senado, mas Menênio Agripa, como se lê em Tito Lívio, L. II, cap. 32. Este acontecimento da retirada do povo sobre o monte Sagrado é do ano de Roma 261.

CAP. XXXVI. A maneira pela qual o texto grego está concebido teria bastado para avisar Amyot que caía em um pesado engano. Não é questão aqui de Gêmeos, isto é, do Castor e de Pólux. O templo de Claros, diz Plutarco, o templo de Dídimo, o templo de Samotrácia. Creio que era fácil reconhecer] aqui três sítios e três templos diferentes. Dídimo é um cantão do território de Milet, cidade situada sobre a costa da Ásia chamada Jônia, onde se acha um templo famoso consagrado a Júpiter e a Apolo, e por causa disto, possivelmente chamado Didi meno, porque Dídimo no grego significa dois; Estrabão, Mela Plínio, Pausânias, Quinto Cúrsio, todos os escritores antigos, então de acordo. Estes não o apresentam senão sob o nome de Apolo Didimeno; mas Etiene e Bizâncio o dá, segundo Calímaco, como comum a Júpiter e a Apolo. O sacerdócio havia sido confiado durante muito tempo aos branquidas.

IDEM. — Aqui, o texto alterado por copistas ignorantes induziu Amyot em falta; porém, não era difícil substituir Lacínia por Lucânia. Nenhum antigo fala de um templo de Juno em Lucânia, e todos falam de um templo famoso de Juno denominado Laciniana, por causa do promontório Lacínio, que era grandemente venerado. Sobre este lado da Itália que olha o mar Jônio, havia três promontórios famosos; ao meio-dia está o Zefirano, ao norte o Iapugiano, no meio o Laciniano. Cícero conta em seu Tratado da Divindade, que Aníbal, apavorado por um sonho, não ousou retirar uma coluna de ouro que se achava nesse templo; e Fúlvio Flaco pereceu miseravelmente no ano de Roma 583, segundo Tito Lívio por tê-lo despojado no ano de Roma 581.

CAP. LX.  Hermágoras, denominado Carião, segundo Suidas, era da cidade de Temnos na Eólia da Ásia; lecionou em Roma e morreu muito velho, sob Augusto. Havia escrito vários livros sobre retórica; e Suidas não cita outros trabalhos dele. Parece-me natural concluir que esta questão geral da qual Plutarco fala aqui, era um de seus primeiros princípios sobre a arte oratória. Ora, parece então muito provável que seja precisamente aquele do qual fala Cícero em seu primeiro livro da Invenção, pág. 55: «Hermágoras, diz êle, divide a matéria do orador em duas, a causa e a questão; a causa tem por objeto uma controvérsia na qual intervém pessoas; a questão uma controvérsia sem interposição de pessoas, tal como está aqui: há nisto alguma coisa boa, excetuando o que é honesto? Os sentidos são verdadeiros? Qual é a forma do mundo? Qual é a grandeza do sol? Todas as coisas, ajunta Cícero, que se reconhecem evidentemente não ter nenhuma relação com a função do orador». Daí se conclui que esta divisão de Hermágoras nada vale.

SOBRE A COMPARAÇÃO DE AGESILAU COM POMPEU

CÁP. III. - «Pois um, querendo escravizar a cidade de Tebas, e sobre todos os pontos exterminar e destruir a de Messena, uma sendo era tudo e por tudo cidade antiga de-seu país e a outra- cidade mãe e capital de toda a nação beócia, etc» Eis como é preciso-traduzir esta passagem: «Pois um, querendo escravizar a cidade de Tebas e por todos os pontos exterminar e destruir a de Messena; esta aqui antigamente havia entrado em partilha com sua pátria, e a outra que era metrópole de sua raça, etc.» Tebas era a pátria de Hércules, de quem descendem os reis da Lacedemônia, e a Messena tinha caído por sorte a Cresfontes na partilha que os Heráclidas fizeram do Pelo poneso.

SOBRE A VIDA DE FÓCION

CAP. II.. — «Também numa cidade, na qual oa negócios não andam ao gosto dos cidadãos, o povo tem os ouvidos muito delicados e muito cautelosos, por causa de sua imbecilidade, para suportar pacientemente uma língua dizendo a verdade livremente, quando então deseja principalmente ouvir as coisas que não lhe tragam seu erro diante dos olhos». Essa passagem não foi bem transcrita por nenhum dos tradutores, e Dusoul é, a meu ver, o primeiro que pegou o sentido. É preciso traduzi-la assim: «O povo tem os ouvidos muito delicados e muito sensíveis por causa de sua fraqueza, para suportar pacientemente uma língua dizendo a verdade livremente, e isto precisamente na época em que era mais necessária, estando os negócios em tal situação que estariam sem recurso, para remediar os erros que cometeriam».

CAP. IV. — A passagem de Cícero que Plutarco cita aqui sobre a conduta de Catão, acha-se na primeira carta do Atiço, L. II. Mas o que termina esta frase, a saber, quo por esta austeridade pouco conveniente à época, fêz-se excluir do consulado, é uma adição de Plutarco, e não podia se encontrae nesta carta de Cícero. O aprisionamento do cônsul Metelo e a disputa de Cláudio para obter o cargo de tribuno, fixam a da ta da carta de Cícero no ano de Roma 694, e não foi senão oito anos depois que Catão solicitou e deixou escapar o consulado, isto é, no ano de Roma 702, como se vê em sua própria Vida, quando Plutarco nos refere que êle teve por competidor Sulpício, que foi com efeito cônsul com Metelo, no ano de Roma 703.

CAP. XXX.— O nome grego é Hermo e não Hérmio. Esse vilarejo do Atiço, era da tribo Acamântida. Estava situado um pouco acima do Pireu, um pouco mais próximo de Atenas do que de Eleusina. Talvez algum revisor indiscreto tenha inserido no texto mais uma letra, pelo que Amyot fêz o nome Hérmio

CAP. XXXIII. — Dusoul engana-se traduzindo até sessenta anos a contar desde a puberdade, o que faria setenta e oito anos, segundo sua própria explicação. As leis de Atenas dispunham que os rapazes começariam a pegar em armas com dezoito anos; eram encarregados da defesa do Ático até vinte. Nesta época serviam até os quarenta em todas as guerras, dentro ou fora do Ático; depois do que estavam isentos do serviço militar; em ocasiões extraordinárias, iam até quarenta e cinco, como se vê na terceira Olintiana de Demóstenes. Assim a publicação de Fócion já era assaz extraordinária incluindo até a idade de sessenta anos, sem prolongar até setenta e oito.

CAP. XXXLX. — Ê verdade que no texto consta nesta passagem uma palavra que significa um porto limpo, e poderia por extensão significar um porto vazio de navios. Mas desde que Amyot reconheceu que esta expressão não apresentava sentido, o que o determinou a traduzir pela palavra margem, teria podido ir mais longe’ e supor algum erro ligeiro no texto. Não haveria dificuldade em ter reconhecido o nome próprio de um dos três portos do Pireu; pois o Pireu não é chamado porto senão impropriamente. 15 um bairro do Ático ou vilarejo tornado parte de Atenas pela junção dos muros que o reuniram desde Temístocles; e havia três portos, que fechavam com uma corrente comum, dos quais um se chamava Afrodidis, um outro Zée e o terceiro Cântaro. Vede Mérsio em seu livro intitulado, O Pireu.

SOBRE A VIDA DE CATÃO DE ÚTICA

CAP. I.. — Seria difícil fazer-se uma idéia precisa da genealogia de Catão de Ütica, de acordo com o que Plutarco diz aqui, e de acordo com o que disse no fim da Vida de Catão, o Censor; Aullu-Gelle, em seu décimo-terceiro livro, cap. 19, felizmente nos esclareceu o que Plutarco não explica ou apresenta mesmo de uma maneira própria para ocasionar a confusão. Vou dá-la tal qual Aullu-Gelle nô-la apresenta:

Marcos Catão, o Antigo ou o Censor, havia tido de sua primeira mulher um filho, que morreu quando vivia seu pai, sendo designado pretor, depois de haver escrito livros muito apreciados sobre direito. Deixou um filho chamado Marcos Catão Nepos, que quer dizer neto, porque era neto de Catão, o Censor, chefe da família. Foi orador e teve reputação nesse gênero. Foi cônsul com Quinto Márcio no ano de Roma 636 e morreu em seu consulado na Africa, deixando um filho que foi edil, em seguida pretor e morreu na Gália Narbonesa.

Catão, o Censor, desposou em sua velhice a filha de Salônio e teve um filho denominado Saloniano, do nome de seu avô materno. Este teve dois filhos, Lúcio Catão e Marcos Catão, que foi tribuno do povo e pai de Catão de Ütica.

CAP. XVII.. — Não obstante isso, se bem quo tivesse feito e que fizesse todas essas coisas, ainda houve alguém que escreveu, que passou e escorreu por uma peneira as cinzas dO fogo». O texto está destruído neste trecho. Petau, em suas notas sobre Temístio, edição do Louvre, pág. 525, propõe ler: «E se bem que tivesse feito tudo isto, César não deixou de escrever, etc. o que oferece um sentido muito melhor.

CAP. XLI. — Alguns observaram antes de mim a alteração que não se pode impedir de supor aqui no texto dl Plutarco; pois certamente Catão não foi deposto nem forçado a abdicar de seu tribunato. Propuseram diversas conjecturai. Talvez se aproximassem muito perto da idéia de Plutarco, no lhe fizessem dizer que Catão, sem usar dos direitos de seu cargo, com muitos tiranos (no que o capricho de um homem, por uma palavra apenas, prevalece sobre toda autoridade e toda razão) suplantou-o, no entanto, de tal modo pelo seu ascendente pessoal, que induziu Mêmio a deixar o combate, renunciando suas acusa ções. Mas isto não é senão uma conjectura, que não exclui melhores pois vê-se um pouco mais acima, que Metelo havia acusado Catão de tirania; outros sediciosos podiam renovar esta imputação, por extravagante que fosse; assim, com uma ligeira mudança poder se-ia ler: «Catão, arrostando as imputações dos sediciosos que o censuravam de abusar tirânicamente do poder de seu cargo, puxou seu partido com tanto vigor, que conseguiu enfim, reduzir Mêmio etc».

CAP. XLIX.. — Traseas Poetus da cidade de Pádua, capital da Paduana, homem de raros méritos. Todos os escritores de Roma elogiam sua virtude. Tácito chama-o em alguma parte a própria virtude, Anais, L. XVI, cap. 21. Nero o fêz morrer; mas não o estimava menos, como se pode concluir da resposta desse monstro a um infame delator que acusava Traseas de haver pre varicado em suas funções de juiz: — «Desejava muito bem, diz o tirano, estar tão seguro de sua amizade, como estou convencido de sua integridade». Vejam-se os Preceitos de Administração, cap. 44. Havia escrito a Vida de Catão de Útica, na qual havia seguido as informações que lhe fornecia o trabalho de Munácio Rufo, contemporâneo de Catão e que havia sido. seu companheiro de viagem a Chipre, como o diz Valério Máximo, L. D7, cap. 3.

CAP. LXXIV.. — Os Psilos habitavam junto da grande Sirte, entre os nasamons e os gétules, segundo Estrabão, que diz mais ou menos a mesma coisa que Plutarco sobre esta virtude inata contra as serpentes. Atribuíam, segundo êle, aos tentiritos, habitando junto da pequena Dióspolis no Egito, a mesma faculdade nata contra os crocodilos. Muitas vezes ouvi que os negros, escravos na América, pegam e matam assim as serpentes sem recear suas mordidas; isto não é de se considerar impossível. Mas observo que as pessoas que combatem obstinadamente as coisas mais razoáveis e melhor estabelecidas, acreditam sem exame em todas as fábulas dos viajantes, em todas as imposturas dos charlatães.

(Notas dos tradutores franceses).

Tradução: Prof. Carlos Chaves. Fonte: Edameris.

dez 082010
 
Noções de História da Filosofia (1918)

Manual do Padre Leonel Franca.

PARTE III

Terceira época – Filosofia patrística

(Séc. I — Séc. IX)

48. CRISTIANISMO Ε FILOSOFIA — O advento do Cristianismo divide a história do pensamento, como a história da civilizarão, em duas partes inteiramente distintas.

Jesus Cristo não se apresenta ao mundo como um fundador de escola, semelhante a Platão e Aristóteles, que investiga, raciocina, discute e propõe a um círculo, mais ou menos estreito de iniciados, o seu sistema de idéias, a sua explicação do Universo; revela-se como Jesus e Salvador que, possuindo a verdade em sua plenitude, a comunica aos homens por meio de seu magistério infalível. Não é, pois, o cristianismo um sistema filosófico, no sentido rigoroso do termo. Não obstante, íntima e universal foi a influência que exerceu sobre a orientação da filosofia. Era natural. Propostas como infalivelmente verdadeiras, as novas soluções sobre a existência e a natureza de Deus, as suas relações com o mundo, a origem e os destinos do homem, a obrigação e sanção da lei moral, não podiam deixar de ter uma repercussão profunda em toda a filosofia que versa sobre estas mesmas questões ainda que encaradas sob aspecto diverso (48).

O próprio fato da revelação, alargando por novos meios de conhecimento a esfera das verdades cognoscíveis e abrindo novo campo às esperanças humanas, era de impor-se à inteligência como uma questão completamente nova e de importância transcendental. Com efeito, da vinda de Cristo ern diante quase toda questão filosófica apresenta um aspecto duplo, racional e religioso, e todo filósofo deve definir e justificar sua atitude em face deste acontecimento único, com todas as conseqüências que êle envolve, atitude que será de reconhecimento e submissão na filosofia cristã, de revolta e menosprezo na filosofia racionalista. Como para Jesus, centro da vida da humanidade convergiram em todos os tempos os amores e os ódios de todos os corações, assim também para êle se dirigem todas as inteligências, rejeitando ou aceitando-lhe o Verbo da verdade que regenerou o mundo.

É nas obras dos Padres e escritores eclesiásticos que primeiro se manifesta a nova influência das idéias cristãs.

49. FILOSOFIA PATRÍSTICA — CARACTERES GERAIS — Com exceção de S. Agostinho, não tratam os Padres ex-professo de questões filosóficas. Expositores do dogma, recorrem à filosofia todas as vezes que esta lhes pode ministrar esclarecimento ou confirmação da doutrina cristã. Defensores da fé, buscam no arsenal da razão as mesmas armas de que se servia o paganismo para impugnar o depósito das verdades reveladas.

Daí o caráter incidente e fragmentário da filosofia patrística, cujas doutrinas não constituem um complexo sistemático e orgânico, uma síntese patrística, no rigor filosófico da palavra. Daí ainda o desenvolvimento desigual das diferentes partes da filosofia, pelas suas relações de maior ou menor afinidade com o dogma.

As questões morais são tratadas em toda a amplidão. O fim do homem, a felicidade e os meios de alcançá-la, as virtudes são objeto de largos estudos. Entre as questões de ordem especulativa, cabe a primazia às teológicas, — existência, natureza e atributos de Deus, sua relação com o mundo. Seguem-se as psicológicas — natureza da alma e das suas faculdades, origem do conhecimento. Os problemas de lógica e cosmologia são quase de todo descurados.

No modo de tratar estas questões, a filosofia patrística, desenvolvendo-se num ambiente saturado de cultura helênica, havia naturalmente de vazar os seus pensamentos nos moldes clássicos dos mais ilustres filósofos gregos. Platão, sobretudo, atrai as simpatias gerais e entra com tão larga contribuição nos trabalhos filosóficos dos primeiros escritores cristãos que se poderia chamar platônica a sua filosofia em contraposição à escolástica, francamente aristoté-lica. As razões desta preferência deixam-se facilmente perceber. Platão era, por este tempo, o mais estudado e seguido dos grandes pensadores gregos e nas suas doutrinas entrincheiravam-se pagãos e hereges para opugnar o dogma cristão. Era, pois, de boa tática combatê-los com as mesmas armas. Demais, no fundador da Academia encontram-se muitos ensinamentos morais e teológicos que, à primeira vista, mais facilmente se harmonizavam com os preceitos do Evangelho. Com Aristóteles já não era assim. As suas incertezas e hesitações sobre a vida futura e a imortalidade pessoal, a negação, sobretudo, da Providência e de todo influxo causal de Deus no mundo eram erros muito de molde para desviar da doutrina peripatética os primeiros pensadores cristãos.

Esta dependência, porém, em relação à filosofia grega nada tem de servilismo. Os Padres julgam-na com critério imparcial e superior, corrigem-na onde a encontram desviada e aperfeiçoam-lhe notavelmente mais de um ponto fundamental. Assim, o dualismo irredutível entre Deus e a matéria, que vicia todas as filosofias antigas é eliminado e substituído pela tese da criação, única solução racional e extreme de contradições do problema das relações entre o Ser necessário e os seres contingentes (49). A unidade e a personalidade transcendente de Deus, sua Providência no governo das criaturas, a espiritualidade e imortalidade pessoal da alma humana, o caráter obrigatório da lei moral, a finalidade do Universo, verdades entrevistas pelos antigos, mas não afirmadas sem mescla de erros ou hesitações de dúvida, são definitivamente assentadas e adquiridas para o pecúlio intelectual de toda sã filosofia.

(48) A teologia e a filosofia, posto sejam ciências inteiramente distintas por serem distintos os seus objetos formais, têm um objeto material parcialmente comum. Dal a reciprocidade de influência.

(49) O gênio grego mostrou-se impotente para resolver esta grande questão, que tanto o torturou. O dualismo em que esbarraram Platão e Aristóteles não explica a origem e independência da matéria, princípio passivo e potencial arbitrariamente posto ab aterno em face do ato puro. O panteísmo emanatista, sob a sua dúplice forma, estóica e neoplatônica, introduz a contradição no ato puro, condenado fatalmente, sem se saber por que motivo, a efundlr-se numa multidão exterior de seres contingentes.

50. DIVISÃO — Na filosofia patrística podemos distinguir três períodos:

  • I. PERÍODO DE FORMAÇÃO — Do princípio do século II ao Concilio de Nicéia. Séc. II-III.
  • II. PERÍODO DE APOGEU — Séc. IV-V.
  • III. PERÍODO DE TRANSIÇÃO para a filosofia escolástica. Séc. VI-VIII.

BIBLIOGRAFIA

— Omitindo as antigas coleções das obras dos SS. Padres, mencionamos: — J. P. Migne, Patrologiae cursus completus, Parisiis, 1844-1866, Series latina, 221 vols, (até Inocencio III, m. 12Î6) series graeca, 162 vols.; (até o Concilio de Florença 1438-39) ; Corpus scriptorum ecclesiasticorum latinorum, edição crítica publicada desde 1866, pela Academia de Viena;

 Die griechischen christlichen Schriftsteller der ersten drei Jahrhunderte, Leipzig, 1897 e segs., a cargo da Real Academia de Ciência, da Prússia; — Patrologia orientalis, publiée sous la direction de R. Graffin et F. Nau, Paris, 1903, e segs. — Entre as maiores empresas de traduções citamos: Bibliothek der Kirchenväter, herausgegeben von F. X. Reithmayr, fortgesetzt von V. Thalhofer, Kempten, 1860-88, 80 vols.; — Ph. Schaff and H. Wace, A select Library of Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, in connection with a number of patristic scholars of Europe and America, "Buffalo and New-York, 1886-1890, 14 vols.; 2.a serie, New-York, 1890 e segs.

Estudos gerais: Α. Möhler, Patrologie oder christliche Litterärgeschiehte, hsg. von F. X- Reithmayr, Regensburg, 1840; — J. Fessler-b. Jungmann, Institutiones patrologiae2, 2 vols., Innsbruck, 1890-96; — J. Alzog, Grundriss der Patrologie 4, Freib. i. B. 1888; — J. Nirschl, Lehrbuch der Patrologie und Patristik, 3 vols., Mainz, 1881-85; — O. Bardenhewer, Patrologie’, Freib. i. Β., 1910 (muito exato; trad, em fr., ingl., ital. e esp.) ; — Idem, Geschichte der altchristlichen Literatur, 3 vols., Freib. i. Β. 1902–1912; — Α. Harnack, Geschichte der altchristlichen Literatur bis Eusebius, 3 vols., Leipzig, 1893-1904; — P. Batiffol, La Littérature grecque*, Paris,

1897 ,— GEORGIOS DÉBROS χριστιαυική γραμματολογια 3 vols.., Athenas, 1903–1910; — H. Kihn, Patrologie, 2 vols., Paderborn, 1904-1908; — G. Rauschen, Grundriss der Patrologie3, Freib. i. B. 1910; — J. Huber, Die Philosophie der Kirchenväter, München, 1859; — A. Stöckl, Geschichte der christlichen Philosophie zur Zeit der Kirchenväter, Mainz, 1891; — P. de Labriolle, Hist, de la littérature latine chrétienne2, Paris, 1924; — U. Morica, Storia délia leiteratura latina cristiana2, Vol. I. Dalle origini fino al tempo di Constantino, Torino, 1925; — Ueberweg, Grundriss der Geschichte der Philosophie Ilio (Baumgartner), Berlin, 1915; — F. Cayré, Précis de Patrologie, 2 vols., Präs., 1927-30; — Romeyer, La Philosophie chrétienne jusqu’à Descartes, 2 vols., Paris, 1936.

Informações bibliográficas: W. Engelman ,- Ε. Preuss, Bibliotheca scriptorum classicorum8, 2 vols., Leipzig, 1880-82 (Bibliografia de 1700 a 1878) ; — A. Ehrhard, Die altchristl. Literatur und ihre Erforschung seit, 1880, Freib. i. B. 1894; — Idem, Die altchristliche Literatur und ihre Erforschung von 1884 bis 1900, I, Die vornieänische Literatur, Freib. i. B. 1900. Copiosas informações bibliográficas encontram-se também em O. Bardenhewer, U. Moricca e principalmente em Ueberweg-Baumgartner, Ilio, 1*_88*.

CAPÍTULO 1 PRIMEIRO PERÍODO — (Séc. II – 325)

51. CARACTERES Ε DIVISÃO. — É o período de lutas mais vivas. Fora da Igreja, o velho paganismo recolhe contra a nova religião todas as forças vivas de resistência que ainda lhe restavam no organismo decrépito. O embate das duas civilizações foi sanguino-lento, prolongado e universal. Em Roma, onde religião e estado se identificavam, o contraste foi político na Grécia foi, sobretudo, filosófico. 

No seio da Igreja, surgem ao mesmo tempo as primeiras heresias, que lhe tentam contaminar a pureza da fé, com teorias pagas e judaicas.

A todos estes adversários opõe o cristianismo, no campo da ação, a firmeza e o sangue de seus mártires, na esfera da inteligência, os trabalhos de seus primeiros pensadores.

Só destes se interessa a história da filosofia. Os Apologistas elevam a voz da razão e da consciência contra a arbitrariedade e injustiça das perseguições, defendem a nova fé contra a filosofia e a superstição paga, armadas do poder supremo do Estado. Lembremos os nomes dos principais:

A. Entre os gregos: Aristides, filósofo ateniense convertido, cuja Apologia data de c. 140; S. Justino (m. 166), mártir, autor de duas Apologias e do Diálogo com o judeu Trijão; Taciano (c. 170), sírio de origem que acabou gnóstico; Atenágoras (c. 180), de Atenas, que dirigiu a Marco Aurélio a sua Legatio pro christianis; S. Teófilo de Antióquia (m. 181) autor da Epístola ad Autolycum, filósofo pagão; S. Irineu (m. c. 203) bispo de Lião, nas Gálias, e autor de uma obra poderosa Adversus haereses; S. Hipólito, provavelmente o autor do Philosophumena. Em geral os apologistas gregos se mostram simpáticos à filosofia, atribuindo-lhe a função providencial de preparar as inteligências para o cristianismo. Entre as teses que desenvolvem de preferência, notamos a existência de um Deus, único, pessoal, imenso e imutável, a criação do Universo, a Providência no governo das criaturas, a imortalidade e liberdade da alma humana.

B. Entre os africanos: Minucio Félix (c. 200), autor do diálogo apologético Octavius; Tertuliano (c. 160-245), caráter veemente e fogoso, que parece assumir por vezes contra a filosofia uma atitude hostil, reprovada pela maioria dos Padres posteriores (50). Arrastado ao montanismo (c. 207), morreu ao que parece fora da verdadeira Igreja; Arnóbio (c. 300), retórico, escreveu ainda catecúme-no (daí erros doutrinais) uma apologia "Adversus gentes"; Latân-cio (m. 320) escreveu em latim clássico as Institutiones divinae.

Os apologistas latinos insistem nas mesmas verdades acima indicadas, mas se mostram um pouco mais reservados relativamente à filosofia grega.

C. Na escola cristã de Alexandria, a atividade polêmica é dirigida contra a íilosofia paga e sobretudo contra o gnosticismo, fonte de inúmeras heresias, mescla informe de neoplatonismo, orientalis-mo e cristianismo. Fundada por Panteno, contou entre os seus membros Clemente Alexandrino (150-216) e Orígenes (185-254), seu discípulo, que combateram com vigor as heresias nascentes, afirmando energicamente contra neoplatônicos e gnósticos a transcendência divina, a tese da criação, a espiritualidade e liberdade da alma.

 

(50) Atribui-se-lhe o dito: credo quia absurdum que, posto não se ache nestes termos em suas obras tem seu equivalente em formas análogas; "pvorsus crediblle est, quia ineptum est; certum est quia impossibile est". De carne Christi, c. 5. A expressão, porém, tomada à letra, diz mais do que pretende o seu autor. Acha-se ela, como outras menos veementes, em obras dirigidas não contra o pagãó que procura a fé, mas contra o herege -que a corrompe com as suas fantasias. A quem já crê na divindade de Cristo, Tertuliano lança em rosto, em fórmulas exageradas, os paradoxos misteriosos da fé, de que Já falara S. Paulo (I Cor. I, 25). Fora dali insiste muitas vezes no caráter eminentemente racional das obras divinas. "Res Del ratio, quia Deus omnium conditor nihil non ratione tractari intelligique voluit. De paenítentia. 1. "Sicut naturalia. ita rationália in Deo sunt omnia". Adv. Marcionen, lib. 1, c. 23 cfr. D’Alês, Tertulien», Paris, 1905; pp. 1-37, G. Esser, Die Seelenlehre Tertullians, Paderborn, 1893, p. 20 segs. Sem. os exageros de estilo do polemista africano os outros Padres e apologistas frisam melhor a racionalidade da fé cristã. S. Justino aos pagãos: "Se tudo isto afirmamos plenamente e melhor que vossos filósofos e só nós com demonstração, porque nos per-seguis?" S. Agostinho: "Nullus quippe credit nisi cogitaverit esse credendum". Veremos como mais tarde São Tomaz, resumindo e precisando a tradição cristã, definirá admiràvelmente as relações de harmonia entre a ciência e a fé.

BIBLIOGRAFIA

— Ch. Th. Cruttwell, A litterary history of early Christianity, 2 vols., London, 1893; — J. Donaldson, A critical history of Christian littérature and doctrine from the death of the apostles to the Nicene council. Vol. II-III, The apologists, London, 1866; — G. Schmitt, Die Apologie der drei ersten Jahrhunderte in historisch-systematischer Darstellung, Mainz, 1890; — J. Zahn, Die apologetischen Grundgedanken in der Litteratur der ersten drei Jahrhunderte systematisch dargestellt, Würzburg, 1890; — R. Mariano, Le apologie nei trè primi secoli delia Chiesa, Napoli, 1888; — L. Lagnier, La méthode apologétique des pères dans les trois premiers siècles, Paris, 1905; — Ch. Freppel, Cours d’éloquence sacrée fait à la Sorbone, Paris, 10 vols., (Estudos dos principais escritores dos 3 primeiros séculos).

CAPÍTULO II SEGUNDO PERÍODO — (325-430)

52. CARÁTER GERAL — Neste período a patrística desenvolve-se amplamente. Vencido por fim o paganismo e concedida a paz aos cristãos (Edito de Constantino, 313), a Igreja concentra a sua atividade na própria organização interna e na exposição mais minuciosa das verdades reveladas. As grandes heresias, que então surgem, de Ario, Pelágio, Nestório e Eutiques ofereceram aos defensores da fé o ensejo de aprofundarem as noções filosóficas de natureza e pessoa, e de estudar a questão do livre arbítrio nas suas relações com a graça. Nestas grandes lutas distinguiram-se entre os gregos: S. Atanásio, S. Gregório, de Nazianzo, S. Basílio e S. Gregório, de Nissa; entre os latinos: S. Hilário, de Poitiers, e S. Ambrósio e sobre todos,o grande vulto de S. Agostinho, que, mais do que nenhum outro, apresenta para a história da filosofia particular importância.

S. Agostinho

53. VIDA Ε OBRAS de S. Agostinho — Nasceu Agostinho em Tagaste na Nu-mídia, no ano 354. Seu pai, Patrício, era pagão; Mônica, sua mãe, cristã. Jovem, extraviou-se e, enquanto o coração ardente buscava nos vícios a satisfação de desejos desregrados, a inteligência sequio-sa de luz batia à porta dos maniqueus e dos acadêmicos em busca da verdade. Durante este período ensinou com louvor a retórica em Cartago e Roma. Convertido aos 33 anos por S. Ambrósio, voltou pouco depois para a África. Em 395 foi nomeado bispo de Hipona, desenvolvendo ainda por 35 anos uma atividade prodigiosa contra todos os erros e heresias de seu tempo. Morreu em 430, enquanto os vândalos lhe assediavam a cidade episcopal.

Da vasta enciclopédia augustiniana (93 obras afora sermões e epístolas) à. filosofia interessam particularmente os trabalhos seguintes: Confessiones (autobiografia), Contra acadêmicos (refu-tação do probabilismo cético da Academia). De immortalitate ani-mae, De quantitate animae, De liber.o arbítrio, De civitate Dei, De Trinitate e Retractationes.

O bispo de Hipona foi o filósofo de maior envergadura da época patrística e uma das inteligências mais profundas de que se gloria o gênero humano. Seu gênio sintético harmonizou num corpo de doutrina os elementos assimiláveis da filosofia paga e os fragmentos dos Padres, seus antecessores, erigindo um vasto sistema de metafísica cristã, cuja influência perdura até aos nossos dias. Sua orientação é acentuadamente platônica (51).

54. DOUTRINAS FILOSÓFICAS — S. Agostinho é principalmente teólogo e psicólogo. Deus e a alma são o centro de todas as suas especulações. Deum et animam scire cupio. Nihilne plus? Nihil omnino. (Soliloq., I, c. 2).

TEODICÉIA — Seu argumento favorito para provar a existência de Deus é tirado da necessidade e da imutabilidade dos nossos conhecimentos. Os objetos destes conhecimentos não podem revestir semelhantes atributos senão enquanto imitações de uma essência eterna e imutável — Deus. As provas da contingência da matéria, da finalidade do mundo, do consentimento do gênero humano e do testemunho da consciência moral são também expostas com eloqüência e clareza.

Deus é infinito, eterno, inefável. A inteligência humana não o pode compreender como em si é; menos ainda, o pode exprimir a nossa linguagem: vertus cogitatur Deus quam dicitur et verius est quam cogitatur. Na .mente divina existem as razões eternas, as idéias imutáveis de todas as realidades contingentes; singula propriis crea-ta sunt rationibus. Estas "razões eternas" explicam a existência e inteligibilidade das coisas e são o último fundamento da certeza. Assim com o seu "exemplarismo divino", corrigiu Agostinho a teoria das idéias de Platão. A Providência, a existência do mal, o concurso de Deus nos atos livres são também questões profundamente estudadas na teologia augustiniana.

PSICOLOGIAÀ. Natureza do homem. A substancialidade, espiritualidade e imortalidade da alma são defendidas com vigor. A sua unidade é vindicada contra Platão e os maniqueus, o livre arbítrio contra os pelagianos.

Dominado por influência platônica, mostra-se, porém, um pouco hesitante ao tratar da união entre a alma e o corpo: modus quo cor-poribus adhaerent spiritus et animalia fiunt est omnino mirus et comprehend! ab homine non potest. Crescem suas hesitações acerca da origem da alma, oscilando entre a criação imediata para a qual mais se inclinava (criacionismo) e a transmissão por via do processo generativo (traducianismo).

A alma é dotada de múltiplas atividades ou íacuídades que dela não se distinguem realmente. Na nobreza hierárquica em que se podem classificar, a primazia é da vontade.

B. Teoria do conhecimento. Em oposição aos acadêmicos defende S. Agostinho a existência da certeza, confutando o ceticismo com o argumento que mais tarde Descartes porá em evidência: om-nis qui se dubitantem intelligit, verum intelligit et de hac re quam intelligit, certus est. Quod si jailor, sum.

 

Passando a explicar o progresso do conhecimento alude freqüentemente a uma iluminação divina particular, a uma ação imediata de Deus na produção das idéias, comparável ao auxílio da graça para o ato livre e sobrenatural da vontade. Esta teoria, a que modernamente se tem dado o nome de iluminismo augustiniano, deu azo a inúmeras interpretações. Os ontólogos pretenderam até ter o bispo de Hipona em seu favor, esquecidos de que êle, em vários lugares, rejeita abertamente uma intuição da essência divina, nesta vida (52). Quanto à origem das idéias, depois de se ater à reminiscência platônica, repudiou-a, asseverando, mais tarde, que pode a alma, refletindo sobre si mesma, descobrir as idéias. Sua ideogenia é certamente inatista.

COSMOLOGIA — A matéria foi, a princípio, criada por Deus que lhe depôs no seio os germes específicos de todos os seres. Estes germes ou rationes séminales, mais tarde, em condições favoráveis, acceptis opportunitatibus, desenvolveram-se na sua plenitude específica. A criação .foi, pois, instantânea, Deus creavit omnia simul. A narração mosaica dos seis dias não implica distinção ou sucessão de tempo, mas apenas exposição doutrinai das diferentes espécies de criaturas dispostas segundo seis graus de perfeição.

Independentemente de Aristóteles, cujos trabalhos a este respeito provavelmente não conhecia, chegou S. Agostinho à mesma conclusão de que os corpos são compostos de matéria e de forma.

Criação de S. Agostinho é a FILOSOFIA DA HISTÓRIA. Na sua obra imortal, De civitate Dei, mostra no progresso que preside à história da humanidade o desenvolvimento do plano divino, para cuja execução livremente concorrem bons e maus como instrumentos nas mãos da Providência. "O homem se agita e Deus o conduz", dirá mais tarde Bossuet, que nas Obras do bispo de Hipona se inspirou para a composição de seus "Discursos sobre a história universal".

(51) Falando de Aristóteles a quem cita apenas três vezes, diz: "vir excellentis ingenil et eloquii, Platoni quidem impar". De civitate Dei, VIII, 12.

(52) Cfr. Liberatone, Della conoscenza intellcttuale, vol. I, cap. II, Art. XIV, S III; Vallkt, Histoire de la Philosophie*, pp. 121-124.

BIBLIOGRAFIA

A. Théry, Le génie philosophique et littéraire de S. Augustin, Paris, 1861; — F. Nourrisson, La philosophie de S. Augustin2, 2 vols., Paris, 1869;

 A. Dupont, La Philosophie de S. Augustin, Louvain, 1881; — J. Storz, Die Philosophie des hl. Augustinus, Freib. i. B. 1882; — L. Grandgeorge, St. Augustin et le néo-platonisme, Paris, 1896; — Ch. Boyer, Christianisme et néo-platonisme dans la formation de S. Augustin, Paris, 1921; — Id. L’idée de vérité dans la phil. de S. Augustin, Paris, 1920; — J. Martin, Saint Augustin2, Paris, 1923; — P. Alferic, L’évolution intellectuelle de S. Augustin, Paris, 1918; — L. Bertrand, S. Augustin, Paris, 1913; — E: Portalié, Augustin, Angusiianisnie, arts, no Diet, de Théolog. Cath. Vacant-Mangenot;

 E. Gilson, Introduction à l’étude de S. Augustin, Paris, 1929; — J. Hessen, Augustins Metaphysik der Erkenntnis, Berlin, 1931; — H.J. Mar-riou, S. Augustin et la fin de la cultura antique, Paris, 1938.

Fonte: Livraria Agir, 20ª ed.

dez 032010
 
Escola de Atenas de Rafael Sanzio

Noções de História da Filosofia (1918)

Manual do Padre Leonel Franca.

12. A FILOSOFIA NA GRÉCIA — "O pequeno território da Hélade foi como o berço de quase todas as idéias que na filosofia, nas ciências, nas artes e em grande parte nas instituições vieram incorporar-se à civilização moderna" (13). Providencialmente situado entre o Oriente asiático e a Europa ocidental, liberalmente aquinhoado pela natureza de eminentes dotes espirituais — fantasia criadora e raro poder de generalização — dotado de instituições sociais e políticas que estimulavam a iniciativa individual, o povo grego recolheu os materiais das grandes civilizações, que al-voreceram nos impérios da Ásia, trabalhou-os com o seu espírito sintético e artístico e, com eles, elevou este grandioso e soberbo monumento de cultura, objeto de imitação e admiração dos séculos posteriores.

A filosofia, sobretudo, medrou na Grécia como em terra nativa. Seus grandes gênios dominaram as gerações pelo vigor incontestável do pensamento. Pode mesmo afoitamente afirmar-se que não há, no campo da especulação, teoria moderna que não encontre o seu germe nas idéias de algum pensador grego.

Este grande movimento filosófico, que abrange um período de mais de dez séculos, segue a princípio uma direção centrípeta. Parte das numerosas colônias gregas da Itália e da Ásia Menor e converge para Atenas. Neste foco de cultura atinge, no século de Péricles, o fastígio de sua perfeição, para daí dispersar-se mais tarde e irradiar pelo mundo helenizado, fundindo-se e modificando-se em contato com as idéias cristãs e com outras correntes intelectuais do pensamento.

Escola de Atenas de Rafael Sanzio
Escola de Atenas, por Rafael Sanzio

13. DIVISÃO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA GREGA — Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos:

  • I — Período pré-socrático (séc. VII-V a. C.) — Problemas cosmológicos.
  • II — Período socrático (séc. IV a. C.) — Problemas metafísicos.
  • Ill Período pós-socrático (séc. IV a. C. — VI p. C.) — Problemas morais.

O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

(13) Latino Coelho, Oração da Coroa, Introdução, p. XXXV.

BIBLIOGRAFIA .

Brandis A. Ch., Handbuch der Geschichte der griechisch-römischen Philosophie, 6 vols., in 8.°, Berlin, 1835-66; — Schweigler A., Geschichte der griechischen Philosophie, 3 ed. publ. p. K. Köstlin, 1 vol. in 8.°, Freiburg i. B., 1881; — Zeller E., Die Philosophie der Griechen, 5 vols.. 1844-25, 6.a ediç. por Nestle, 1919 e segs. (Obra capital) : — Zeller E., Grundriss der Geschichte der griechischen Philosophie, 12.a ed. por Nestle, Leipzig, 1920; — Windelband W., Geschichte der antiken Philosophie3, München, 1912; — Gomperz H., Griechische Denker, 3 vols, in 8.°, 2.a e 3.a ed. Leipzig, 1909-1912; — Döring A., Geschichte der griechischen Philosophie, 2 vols, in 8.°. Leipzig, 1903; — Ritter-Preller. Historia philosophiaë graecae, 1838, 9.a ediç. de Wellmann, 1 vol. in 8.°, Gotha, Perthes, 1913; — Baeumker Cle., Das Problem der Materie in der griechischen Philosophie. München, 1890;

— Bauch B. Das Substanzproblem in der griechischen Philosophie, Heidelberg, 1910: — Herbertz R., Das Wahrheitsproblem in der griechischen Philosophie, Berlin. 1913: — Renouvier Ch., Manuel de Philosophie ancienne2, 2 vols., Paris, 1845; — Laforet U. J., Histoire de la Philosophie, philosophie ancienne, 2 vols, in 8.°, Bruxelles. Devaux 1866-67;

— Chaignet, Histoire de la psychologie des Grecs, 5 vols, in 8.°; Paris, Hachette, 1887-92; — Benard Ch., La philosophie ancienne. Hist, peñérale de ses systèmes, 1 vol., in 8°, Paris, 1885; — Ch. Werner. La philosophie grecque, Paris, 1938; — L. Robin, La pensée grecoue2, Paris, 1928; — Btjttler W. A., Lectures on the history of ancient philosophy, Nov. ediç. por W. H. Thomson, 2 vols, in 12, London, 1874; — Benn, A. W., The greek Philosophers, 2 vols, in 8.°, London. 1882; — J. Burnet, The History of Greek Philosophy, in 8.°, London, Macmillan, 1914; — Bobba, Saggio delia filosofia greco-romana, Torino, 1881; — G. Ruggiero, La filosofia greca, Bari, 1917; — J. de Castro Nery, Evolução do pensamento antigo, Porto Alegre, 1936.

 

CAPÍTULO I

PRIMEIRO PERÍODO — (600-450 α. C.)

14. CARÁTER GERAL Ε DIVISÃO — Os filósofos deste, período preocupam-se quase exclusivamente com os problemas cos-mológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: 1.*, escola jônica; 2.*, escola itálica; 3.a, escola eleática; 4.a, escola atomística. Sem constituir escola propriamente dita, no fim do período aparecem os sofistas.

BIBLIOGRAFIA

Dos filósofos deste primeiro período não nos chegou nenhuma obra completa. Os fragmentos existentes foram conservados por Aristóteles, Platão e pelos doxógrafos gregos e latinos. Teofrasto, Pseudo-Plutarco, Hi-pólito, Stobeu, Diógenes Laércio, Cícero, Sêneca, Plutarco, Galeno, Sexto-Empírico e entre os autores cristãos, S. Justino. S. Irineu, Clemente Alexandrino, Orígenes, Tertuliano, Teodoreto, Eusébio de Cesarea e S. Agostinho. Colecionou-os modernamente A. Mullach, Fragmenta philosopho-rum graecorum, 3 vols., Paris. 1860-1881; mais recente, mais completa e mais crítica é a edição de H. Dtels, Fragmente der Vorsokratíker, 3 vols., in 8°, Berlin, Weidemann, 1922.

A. W. Eenn, Early Greek Philosophy, London, 1908; — K. Goebel, Die Vorsokratische Philosophie, Bonn, 1910; — G. Kafka, Die Vorsokratiuer, München, 1921; — S. A. Byck. Die Vorsokratische Philosophie der Griechen, in ihrer organischen Gliederung, 2 vols, in 8.°, Leipzig, Schäfer, 1876-77; — P. Tannery Pour l’histoire de la science hellène: De Thaïes a Empédocle, Paris, 1887: — A. Leceère, La philosophie grecque avant Socrate2, Paris. 1908: — J. Burnet, Early Greek Philosophy, London, 1908; — U. C. Β. Montagni. L’evoluzione pressocratíca, Cittá di Castello, 1912; — H. Schaaf, Institutiones historiae philosophiae graecae, Roma, 1912.

Aristóteles filósofo grego

§ 1.° — Escola jônica

A ESCOLA JÔNICA, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores.

15. Os jônios antigos consideram o Universo no ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são:

  • I.º) Tales (c. 624-548 a. C), de Mileto, fenicio de origem, fundador da escola. É o mais antigo filósofo grego. Levado, talvez, por alguns fatos ingenuamente observados e por lendas tradicionais, afirmou ser a água o princípio gerador de todas as coisas. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua.
  • 2.º Anaximandro (c. 611-547 a. C), de Mileto, discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza, põe como. princípio universal uma substância indefinida, ãweipov, isto é, quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Deste Επαρον primitivo, dotado de vida e imortalidade, por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens.
  • 3.º) Anaxímenes (c. 538-524 a. C), também de Mileto, colega de Anaximandro, levado talvez pela importância da respiração na economia vital, estabelece como elemento primitivo o ar, do qual por um processo de rarefação se origina o fogo, e por condensação a água, a terra, as pedras e os demais seres.

Tanto Anaximandro como Anaxímenes ensinam uma espécie de palingenèsia ou formação e destruição periódica de todas as coisas.

Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista.

16. OS JÔNIOS POSTERIORES distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos.

Heráclito (535-475 a. C.) de Éfeso é o elo de união entre os jônios antigos e os posteriores. Sua doutrina é uma reação contra as especulações dos eleatas. Parmênides, como veremos, afirmara a imutabilidade do ser. Heráclito opõe-lhe a mutabilidade de todas as coisas, -πάντα pel xal ovõh μένει tudo se acha em perpétuo fluxo, a realidade está sujeita a um vir-a-ser contínuo (14). Ε como de todos os elementos, o móvel por excelência é o fogo, do fogo fêz Heráclito o princípio fundamental de todas as coisas. È ainda a preocupação dos antigos jônios de determinar um elemento único, como origem comum de todos os seres. O fogo é dotado de um princípio interno de atividade, em virtude do qual se move continuamente, constituindo cada um dos estádios do seu perpétuo fluxo um fenômeno natural. O mundo teve origem deste fogo primitivo que se identifica com a divindade. Por um processo de "extinção" transformou-se em água e depois em terra. Por um novo processo de "ascensão" a terra volta a ser água e a água torna a fogo. Assim a "luta" separa os elementos, e a "concórdia" tende a reconduzi-los ao fogo donde provieram. Nestas vicissitudes em que a luta vai demolindo o trabalho da concórdia, o triunfo final caberá à concórdia. Mas então intervirá a divindade, construindo um novo mundo em que as duas forças antagonistas entrarão de novo em ação. Como se vê, a cosmologia de Heráclito é ainda em hilo zoísmo panteísta.

Além destas doutrinas físicas, Heráclito ensinou ainda a distinção entre a razão, a que devemos prestar fé, e os sentidos, testemunhas suspeitas da verdade quando não retamente interpretados pela razão.

(14) Por esta doutrina do vir-a-ser perpétuo quiseram alguns discípulos de Hegel ver em Heráclito um precursor do idealista alemão, inculcando-o como o primeiro pensador antigo que reconheceu a identidade do ser e do não ser, e negou o principio de contradição. O próprio Hegel referindo-se a Heráclito escreveu: "Foi este ousado pensador quem primeiro pronunciou a sentença profunda: tudo é e nada é. Aqui ô que devemos exclamar: Terra. Não há uma só posição de Heráclito que eu não admita na minha lógica".

Aristóteles, (Met. IV, 3.) porém, e com êle vários modernos (Zeller; Turner etc.) duvidam que o filósofo efesino tivesse chegado a tal extremo. Semelhança incontestável com Hegel, apresenta-a sim, Heráclito na obscuridade em que envolvia os sei conceitos. Os contemporâneos apelidaram-no "o tenebroso", o-xoreivás "clarus ob obscuram linguam" disse Lucrécio

 

2.°) Empédocles (c. 495-435 a. C.) de Agrigento, autor do poema "a natureza", no intuito de conciliar a unidade e imutabilidade do ser, ensinada pela escola eleata, com a pluralidade e o movimento local, evidentemente atestados pelo senso comum, propõe a teoria dos quatro elementos, que, abraçada por Aristóteles, reinou na ciência por quase 2.000 anos. Segundo o seu sistema todos os corpos são compostos de ar, água, terra e fogo. Estas "raízes" (15) primitivas, ingênitas, imutáveis e irredutíveis (propriedades do ente de Parmênides) entram em diferentes proporções na composição de todos os corpos. As mudanças reduzem-se a combinações ou separações destes elementos e são determinadas pelo "amor", e "ódio", forças místicas que, concebidas antropomòrficamente, regulam as alterações do mundo corpóreo.

A alma humana é também composta destes quatro elementos. Assim se explica a possibilidade do conhecimento, visto como simile simili cognoscitur.

Empédocles ensina a metempsicose e parece admitir a existência de uma Inteligência ordenadora. Mas esta idéia, mal definida em seus poemas, não lhe foi orgânicamente incorporada no sistema filosófico da natureza.

3.°) Anaxágoras (c. 500-428 a. C.). — A. Natural de Clazo-mena, escreveu uma obra "da natureza", de que nos restam preciosos fragmentos. Amigo de Péricles foi, como êle, perseguido pelo povo; acusado de ateísmo por não prestar culto aos deuses nacionais, fugiu para Lampsaco, onde faleceu. Tucídides, Temístocles, Euripides, Heráclito e Sófocles foram seus contemporâneos ou amigos.

(15) Των πάντων ς,ιξώματα O termo "elemento" στσικα é posterior, de origem platônica.

Β. Sua substância primitiva é um agregado de partículas mínimas de todas as substâncias existentes. Aristóteles chamou-as homeomerias. As propriedades específicas dum corpo dependem do predomínio das homeomerias de propriedades correspondentes. A existência das homeomerias de outras espécies, em todos os corpos, explica a possibilidade das transformações.

C. No que, porém, o sistema de Anaxágoras representa um notável progresso na evolução do pensamento grego é em ter feito apelo para uma Inteligência ordenadora a fim de explicar racionalmente a harmonia do Universo. Esta Inteligência — Noüs — é simples, imaterial, independente, toda poderosa, única e infinita, causa eficiente do movimento e da ordem cósmica. Por esta razão, do filósofo de Clazomena, disse Aristóteles que, "comparado com os que o precederam aparece como um sóbrio falando entre ébrios que devaneiam".

D. Em psicologia, Anaxágoras opõe aos sentidos, instrumentos fracos, mas não enganadores do conhecimento, a inteligência simples e imaterial que tudo percebe.

E. Com Anaxágoras dá entrada na filosofia o conceito do su-pra-sensível, afirma-se a irredutibilidade entre o material e o imaterial, delineia-se a idéia teleológica e à questão da causa material soprepõe-se a da causa eficiente do Universo. Lançando ainda os primeiros alicerces da psicologia e da teodicéia pela demonstração racional de suas teses fundamentais, Anaxágoras prepara o caminho a Sócrates e Aristóteles e conquista, na história da filosofia, títulos à imortal gratidão da posteridade.

Nota — Pelo que fica exposto, vê-se que os três filósofos acima, se bem orientados pela idéia geral dos jônios antigos, deles se separam em muitos pontos, sob o influxo de outras escolas. Melhor do que jônios poder-se-iam dizer ecléticos independentes. Isto explica a divergência de alguns autores que qs classificam entre os atomistas.

BIBLIOGRAFIA

H. Ritter. Geschichte der ionischen Philosophie, Berlin, 1821; — R. Seydel Der Fortschritt der Metaphysik innerhalb der Schule des ionischen Hylozoismus, Leipzig, 1860; — M. C. Mallet, Histoire de la philosophie ionienne, Paris, 1842.

§ 2.° — Escola itálica — Pitágoras

17. Enquanto, em plena florescência, se desenvolvia, na Ásia Menor, a escola jônica, em Crotona, na Magna Grécia, surgia outra escola — a primeira do Ocidente — de orientação bem diversa.

A. Pitágoras (sec. VI), natural de Samos e fundador da escola, é uma das mais notáveis personalidades da antigüidade. Nada deixou escrito (16) e sobre sua vida a tradição teceu inúmeras lendas. À crítica moderna chegou até a lançar dúvidas sobre a his toricidade de algumas das suas viagens ao Egito, à Pérsia, à Índia e às Gálias. Sabemos apenas que foi ilustre matemático, organizou a sua escola à maneira de congregação político-religiosa e lhe legou um corpo de doutrinas cosmológicas e morais. É-nos difícil, senão impossível distinguir entre elas os ensinamentos primitivos do mestre da contribuição posterior dos discípulos.

B. Segundo a escola itálica, o número é o fundamento de tudo, é o princípio essencial de que são compostas todas as coisas. Deus é a grande Unidade, a grande Monada, o número perfeito do qual emanam todos os outros seres do mundo, grandiosa harmonia matemática. Não sabemos ao certo que significação atribuíam os pi-tagóricos à palavra "número". Impressionados pela ordem do Universo, talvez quisessem simbolizar apenas, com este termo, a regularidade e constância dos fenômenos naturais. Se assim fosse — mas não temos provas para afirmá-lo contra Aristóteles que interpreta o termo no sentido óbvio — houvera sido esta uma intuição da possibilidade, hoje em grande parte realizada, de exprimir por fórmulas numéricas as leis físicas que presidem aos fenômenos do Cosmo.

Os corpos formados por números constam como estes de par e ímpar ou de finito ou infinito. Os números pares, por se poderem sempre dividir, são de certo modo infinitos; os ímpares, que se opõem a esta divisão, finitos.

O universo é constituído por um corpo ígneo, situado no centro e móvel em torno do próprio eixo e ao redor do qual se dispõem a terra, o sol, os planetas e a anti-terrâ, corpo que eles acrescentavam aos sete planetas então conhecidos para perfazer o número de 10. Engastados em esferas concêntricas, produzem estes astros no seu movimento uma admirável harmonia, "a harmonia das esferas", que o hábito nos impede de sentir.

C. Além destes ensinamentos de ordem cosmológica, professavam os discípulos de Pitágoras várias doutrinas religiosas e morais, características da escola. Fim último da vida e felicidade suprema do sábio é a semelhança com a Divindade. Meio necessário de atingi-la, a prática da virtude, harmonia resultante da subordinação da parte inferior à superior da nossa natureza. No intuito de alcançar este equilíbrio harmônico davam-se aos rigores das práticas ascéticas. Viviam vida comum, no celibate, praticavam o silêncio, a abstinência de certos alimentos e o exame de consciência. Guardavam entre os iniciados rigoroso segredo de doutrinas. Acreditavam na metempsicose ou transmigração das almas não de todo purificadas e tributavam ao mestre grande culto de veneração, abdicando em sua autoridade a própria razão, a ponto de considerarem a sentença dele em qualquer questão como aresto inapelável e expressão indiscutível da verdade. O ipse dixit era a última palavra de todas as discussões.

(16) Os fragmentos que se lhe atribuem são certamente espúrios. Os "versos áureos", coleção de máximas morais, parecem ser do pltagórico Lysis.

 

D. Por motivos políticos e pelas suas tendências acentuada-mente aristocráticas, depois da morte do mestre, foi a comunidade pitagórica assaltada e dispersa, numa sublevação popular. Seus membros disseminados pela Itália e pela Grécia ioram infiltrar em outros sistemas as próprias doutrinas. Como escola, o pitagorismo cessou de existir no see. IV a. C.

E. Entre os discípulos de Pitágoras os mais conhecidos são: Filolau (n. c. 480) que primeiro publicou as doutrinas da escola e de quem nos restam ainda fragmentos autênticos; Lysis, discípulo de Filolau, Hipasus, Cimias, Cebes, contemporâneos de Sócrates, que figuram como interlocutores nos diálogos de Platão; Ricetas, que ensinou o movimento da terra em torno do próprio eixo e inspirou a Copérnico a teoria heliocêntrica; Alcmeon, médico, que reconheceu no cérebro o órgão central da sensibilidade; Arquitas de Tarento, que fundou na Sicília uma escola filosófica.

F. A Pitágoras cabe a iniciativa de ter orientado a filosofia para os problemas ético-religiosos, encarando-a não só como explicação da natureza, senão ainda como regra de vida, como meio de atingir a perfeição e a felicidade. Sua moral, porém, apresenta-se a nós mais como uma tradição religiosa do que como resultado de uma investigação racional coerente com o resto do sistema filosófico. Seu, outrossim, é o merecimento de ter compreendido que o universo é realmente cosmos, isto é, ordem e harmonia. Caiu, porém, ao que parece, no erro de confundir a manifestação externa desta ordem com o seu constitutivo interno, fazendo do número não só à expressão da ordem real mas o princípio da própria realidade.

A Pitágoras, como refere Cícero (17) remonta a origem do termo "filósofo", que éle por evitar o de sábio — σ6φο$ — modestamente se atribuía, chamando-se "amigo da sabedoria".

BIBLIOGRAFIA

H. Ritter, Geschichte der pythagorischen Philosophie, Hamburg, 1826; — W. Bauer, Der ältere Pythagorismus, eine kritische Studie, Bern, 1897; — A. E. Chaignet, Phythagore et la philosophie pythagoricienne contenant les fragments de Philolaus et d’Archytas traduits pour la première fois en français, 2 vols., Paris. 1873.

§ 3.° — Escola eleática

18. Em face do problema cosmológico, a escola de Eléia, na Magna Grécia, assume uma posição francamente apriorista. Nega audazmente a multiplicidade e sucessão dos seres como ilusões dos sentidos, e, por meio. de processos dialéticos, afirma, em nome da razão, a unicidade, eternidade e imutabilidade do ser. "Firmam o universo", no dizer de Platão: " ót τον ΰλου στασιώται ‘. É o panteísmo idealista oposto ao panteísmo naturalista das escolas precedentes. Não podendo, porém, furtar-se à necessidade de explicar o mundo das aparências, inspiram-se os eleatas nas doutrinas físicas dos jônios.

(17) Cie, Tusc, V 3.

Às conclusões da escola chegaram seus diferentes adeptos por vias diversas.

1.°) Xenófanes (576-480 a. C), de Colofônio, na Ásia Menor, e fundador da escola em Eléia, é teólogo. Seu ponto de partida é a unidade de Deus que êle demonstra com bons argumentos e defende contra o politeísmo vulgar, exprobrando com veemência a Homero e Hesíodo por haverem favorecido com suas teogonias a concepção antropomórfica da Divindade. Deus é, pois, uno, eterno imóvel, imutável, perfeito, tudo abraçando e governando com o pensamento: Unus est Deus deorum, hominumque summus, sine negotio, mentis vi cuncta permovet immotus. Confundindo, porém, Deus e o Universo, dos atributos do primeiro inferiu erroneamente os atributos do segundo, concluindo pela unicidade e imutabilidade do ser.

Em física, Xenófanes explica a origem do mundo de uma ou mais substâncias primitivas — talvez a terra e a água — sem se preocupar da coerência destas doutrinas com as anteriores sobre a imutabilidade do Universo.

Em ética, censura acremente os desmandos morais de seus conterrâneos e aconselha de preferência à cultura demasiada das forças físicas, a sobriedade e o amor da sabedoria.

Do seu poema A natureza só nos restam fragmentos.

2.º) Parmênides (530-444 a. C), discípulo de Xenófanes, é metafísico, talvez o mais profundo dos filósofos pré-socráticos. Distingue duas ordens opostas de conhecimento: a sensitiva que nos leva à "opinião", τα προς δάξαν , enganadora e ilusória, e a intele-tual, fundada na evidência dialética, que nos conduz "à verdade" τα Trpòs άλήϋααρ. Os sentidos percebem o mutável, o múltiplo, o contingente; a razão vê no fundo de todas as coisas uma realidade única — o ente. Ora, o ente, não podendo vir do não ente "ex nihilo nihil", é uno, eterno, ingênito, imóvel, indivisível, imutável, homogêneo, contínuo e esférico (esfera, figura perfeita). O mundo fenomenal não passa de uma ilusão.

Na sua cosmologia do aparente, ensina Parmênides que todas as coisas são compostas de dois princípios — luz e trevas, calor e frio, isto é, de fogo e terra.

Além do defeito comum a todos os aprioristas de rejeitar a evidência experimental, confunde Parmênides a ordem lógica com a ontológica, transportando os atributos provenientes do estado de abstração de uma idéia à realidade por ela representada. Altean-do-se, porém, na esfera do inteligível até à idéia de ser, eleva-se muito acima de seus predecessores e aplaina o caminho a uma metafísica mais segura.

3.º) Zenão, de Eléia (490 a. C), é dialético. Chega às mesmas conclusões de Parmênides por via indireta, mostrando as contradições dos que prestam fé ao testemunho dos sentidos. Alguns de seus sofismas contra a pluralidade dos seres, e sobretudo contra a possibilidade do movimento (18), são célebres na história do pensamento. Zenão era um polemista erudito, sutil, mas amante de cavilações e paradoxos. Preludia os sofistas.

4.º) Melisso (meado do see. V a. C.), de Samos, não é um ta-lente original. Nada fêz senão sintetizar as teorias da escola, procurando conciliá-las com o naturalismo dos jônios. Neste trabalho de harmonização nem sempre conseguiu evitar contradições, introduzindo idéias contrárias às doutrinas capitais da escola eleata.

(18) Um dos mais conhecidos — o argumento da dicotomia, é o seguinte: Um móvel para ir de A a Β deve percorrer metade do espaço intermédio, mas antes de chegar ao ponto médio terá de vencer a metade da distancia que o separa do ponto Inicial e assim por diante. Ao argumento responde Aristóteles declarando a verdadeira natureza da extensão e do tempo. Cfr. Nys, Cosmologtc", p. 243.

 

Epicuro

Epicuro

BIBLIOGRAFIA

S. Ferrari, Gli Eleati, Roma, 1892, (Mem. delia Accad. dei Lincei) ; — J. Dörfler, Die Eleaten u. d. Orphiker, Freistadt, 1911; — G. Calogero, Studi sull’Eleatismo, Roma, 1832; — K. Riezler, Parmenídes, Frankfurt a, m. 1934.

§ 4.° — Escola atomística

19. Como Empédocles e Anaxágoras, tentam também os ato-mistas conciliar o rígido monismo dos eleatas com as exigências, do senso comum. Neste intuito, admitem como os dois filósofos precedentes que os elementos primitivos são imutáveis e dotados de movimento local, mas deles se separam afirmando a sua homogeneidade e indivisibilidade.

A. O verdadeiro fundador da nova escola é Leucipo, de quem quase nada sabemos. Demócrito (520-440 a. C), natural de Abdera, na Trácia, discípulo de Leucipo, é o seu principal organizador e representante. Foi homem muito versado na física e nas matemáticas e de maravilhosa erudição, não inferior à do próprio Aristóteles. Das suas muitas obras só restam fragmentos.

Β. O sistema mecanicista da natureza por êle proposto reduz-se aos seguintes princípios fundamentais. As grandes massas são compostas de corpúsculos insecáveis, ingênitos, eternos, chamados átomos. Substancialmente homogêneos, diferem uns dos outros pela figura, pela ordem e pela posição; pela figura como A de Ν (para o esclarecermos com o exemplo de Aristóteles, Metaphys. I, 4), pela ordem como AN de NA, pela posição como Ν de Ζ (o Ν é um Ζ deitado). A diferença de figura acarreta, outrossim, a de grandeza e de peso. Ao lado dos átomos, admite Demócrito o vácuo (contra Parmênides) para explicar a possibilidade do movimento. Daí a fórmula: os corpos são compostos de pleno e de vácuo, πληρεζ xaí χενον.

A geração, a corrução e às transformações das grandes massas explicam-se por agregações e desagregações atômicas. Das propriedades corpóreas, as de ordem quantitativa, como extensão, figura, grandeza, peso, movimento ou repouso (chamadas por Aristóteles sensíveis comuns e, pelos modernos, qualidades primárias) existem na realidade como as percebemos; as de ordem qualitativa (sensíveis próprios de Aristóteles ou qualidades secundárias dos modernos) tais a côr e o som, só existem como movimento local. Na sua formalidade qualitativa são impressões dos sentidos, na frase de Teofrasto, πάϋη ríjs άισαήσω* (De sens, et sensib., § 63).

C. A origem do mundo explica-se por um processo puramente mecânico, sem recorrer, como Anaxágoras, à intervenção de uma inteligência ordenadora. Por necessidade de natureza, os átomos movem-se no vácuo infinito com movimento retilíneo de cima para baixo e com desigual velocidade (19). Daí entrechoques atômicos e formação de imensos vórtices ou turbilhões de que se originam os mundos.

D. Na psicologia do abderita repercute a sua física mecani-cista. A alma é composta de átomos semelhantes aos do fogo, porém mais sutis, que, entrelaçados em rede descontínua, se difundem por todo o corpo. A respiração, ingerindo novos átomos ígneos, compensa a perda dos que continuamente se expelem. Quando já não é possível esta compensação sobrevem a morte.

A sensação é provocada por imagens materiais είδωλα (20) — que se destacam dos corpos e, pelo ar, vêm impressionar o órgão sensitivo. O conhecimento assim obtido é muito imperfeito, obscuro, variável e enganoso. Semelhante à sensibilidade no seu aspecto subjetivo, a inteligência de muito se lhe avantaja como faculdade de conhecimento: é mais ampla e mais segura, conhece a existência dos átomos e corrige os erros dos sentidos (aparência das qualidades secundárias). — Não há liberdade nem imortalidade.

E. Os deuses vulgares e a mitologia nasceram da fantasia popular. São entes superiores ao homem, mas compostos também de átomos e vácuos e sujeitos à lei da morte. "Deus verdadeiro e natureza imortal não existe".

F. Como físico, Demócrito é talvez o mais profundo entre os gregos. A-teoria atômica, nas suas linhas fundamentais abraçada pela’ ciência moderna, saiu-lhe quase perfeita das mãos. A inexistência fprmal das qualidades secundárias é hoje admitida pela quase unanimidade dos naturalistas. Quanto ao método, sem des-curar a observação, é um pouco apriorista. As propriedades dos seus átomos são determinadas pela necessidade de conciliar Par-mênides com a observação sensível.

(19) Criticando essa teoria, Já notava Aristóteles que no espaço infinito para cima e para baixo não têm significação alguma (Phys., IV, 8) e no vácuo todos os corpos, ainda de grandeza desigual, caem com a mesma velocidade (De coelo, IV, 2).

(20) Delas dirá mais tarde Lucrécio:

Quae quasi membranae summo de corpore rerum
Dereptae volltant, ultro citroquo per auras.

Como filósofo é somenos. Opondo-se ao dualismo irredutível, estabelecido por Anaxágoras, entre a matéria e o espírito, e negando a existência de uma inteligência ordenadora, o filósofo de Abdera aparece na história do pensamento como o primeiro re-presentante formal do materialismo e do ateísmo. "O defeito de todo o materialismo, observa Lange, é concluir as suas explicações no ponto em que começam os grandes problemas filosóficos". (21).

BIBLIOGRAFIA

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§ 5.° — Sofistas

20. A atitude intelectual de alguns dos pensadores precedentes havia aplainado o caminho ao ceticismo. Heráclito negara a realidade permanente. Parmênides e a escola de Eléia, opondo-se à mais evidente experiência e desvalorizando o conhecimento sensível, fiaram apenas da razão no apriorismo dos seus processos dialéticos. Concluir daí que tudo é ilusão e que a ciência é impossível era um passo fácil. As condições sociais de Atenas, que atingira o apogeu de sua glória, ofereciam ainda na abundância das riquezas, na corrução dos costumes, no abalo das tradições morais e religiosas discutidas pela critica racionalista, um ambiente favorável ao aparecimento dos sofistas.

A. Chamam-se sofistas os mestres populares de filosofia, homens venais e sem convicções, ávidos de riqueza e de glória que, nesta época de crise para o pensamento grego exploram em benefício da própria vaidade e cupidez o estado dos espíritos criado pelas especulações filosóficas e condições sociais do tempo (22). Mais retóricos que filósofos, argutos, artificiosos e eruditos, ensinavam à juventude ateniense, atraída pelos encantos da eloqüência, com a arte de defender o pró e o contra de todas as questões, o segredo de Sócrates combateu lôda a sua vida contra estes pseudo-filósofos; Platão impugna-os ainda nos seus primeiros diálogos; Aristóteles fala dos sofistas como de adversários históricos, como de um perigoso esconjurado tirar partido de qualquer situação, galgando as mais elevadas posições numa democracia volúvel e irrequieta. Serviam-se das anuas da razão para destruir a própria razão, e, sobre as ruínas da verdade, erigir o interesse em norma suprema de ação.

(21) Lange, Geschichte des Materialismus, t. I, p. 21.

(22) Nos tempos mais remotos denominaram-se sofistas todos os que se entregavam ao estudo das ciências e das artes. Assim chama Aristóteles os sete sábios da Grécia. No século V restringiu-se a significação do termo aos pedagogos e professores ambulantes de retórica que ensinavam mediante remuneração pecuniária. Pouco a pouco, pela tendência rabulista destes mestres de eloqüência o termo foi tomando o significado pejorativo que conservou até hoje. Xenofonte, Memox-ab, I, 6: "Chamam-se sofistas os que vendem a sabedoria por dinheiro". Platão, Sof. 268 D: "Sofista é o que constrange o seu interlocutor a dizer coisas contraditórias… com o prestígio das palavras enreda os seus ouvintes". Aristóteles, De elench, sophist, c. 1: "Sofista é quem aufere lucros de uma sabedoria que parece e não é". S. Tomaz, comentando Aristóteles: "ad aliud ordinat vitam suam et actiones philosophus et sophista. Philo-sophus quidem ad sciendum veritatem; sophista vero ad hoc quod videatur scire quod nésciat". In metaphys. I. 4, lect. 4.

 

B. Dentre a numerosa turba dos sofistas extremam-se como mais célebres, os dois vultos de Protagoras e Górgias.

1.º) Protágoras (c. 480-411 a. C), de Abdera, ensinou 40 anos por toda a Grécia. Acusado de ateísmo, em Atenas, fugiu para a Sicília, perecendo num naufrágio. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação, conforme as disposições subjetivas dos órgãos, inferiu Protagoras a relatividade do conhecimento. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula; o homem é medida de todas as coisas, πάντων χρημάτων μετρον άνϋρωπο%. Para ο seu autor, esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas, não na sua realidade física, mas na sua forma conhecida. Subjetivismo, relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial.

2.º) Górgias (480-375 a. C), de Leôncio, na Sicília, menos profundo, porém, mais eloqüente que Protagoras partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. É autor duma obra intitulada "Do não ser", na qual desenvolve as três teses: Nada existe; se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer; se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. A prova de cada uma destas proposições é um enredo de sofismas, sutis uns, outros pueris.

Prodicus, de Céus, autor do apólogo Hercules in bivio. Hipias, Crítias e outros figuram também como sofistas entre os interlocutores de Sócrates nos diálogos de Platão.

Protagoras e Górgias, ainda que incoerentemente, limitaram-se ao ceticismo especulativo. Os sofistas menores transpuseram as barreiras da ordem moral. Para Hipias, a "lei é o tirano dos homens", a causa de suas discórdias. Polus, Trasímaco e Cálicles preconizaram a mais desenfreada licença: "Justo, diziam, é o que é útil ao mais forte". Platão, Repl. 320 C. Ante estes superficiais demoli-dores nada ficou de pé no campo moral e religioso.

Benemerência indireta dos sojistas. Embora sendo um sintoma dd-degenerescência e anarquia intelectual, o aparecimento dos sofistas foi de incontestável utilidade para o progresso da filosofia. Analisando e criticando os sistemas precedentes, mostraram-lhe a inanidade das generalizações ambiciosas e precipitadas. Abusando da dialética, revelaram-lhe o valor e a importância de se lhe estudarem as regras e leis fundamentais. Impugnando a certeza e a veracidade das faculdades cognoscitivas, fizeram sentir a necessidade de aprofundar, ao lado das questões cosmológicas, a análise psicológica dos nossos instrumentos de conhecimento, estabelecendo-lhes o alcance e as condições de legitimidade. Desbravaram o terreno intelectual e rasgaram à filosofia novos horizontes, orientando-a para o estudo do espírito e de sua atividade, para a investigação dos métodos científicos do conhecimento e o exame dos processos dialéticos. Sem os sofistas não se compreende Sócrates. A reação dos primeiros preparou a reação do segundo com todas as suas salutares conseqüências.

BIBLIOGRAFIA

H. Stebeck, Das Problem des Wissens bei Sokrates und der Sophistik, Halle, 1870; — H. Gomperz, Sophistik und Rhetorik, Leipzig und Berlin, 1912; — CP. Gunning, De sophistis Graeciae praeceptoribus, Amsterdam, 1915; — Fünck-Brentano, Les sophistes grecs et les sophistes contemporains, Paris, 1879; — V. Brochard, Les sceptiques grecs2, Paris, 1923.

21. VISTA RETROSPECTIVA — Seguindo a ordem da evolução individual do conhecimento, a filosofia grega inaugura suas especulações com o estudo do problema cosmológico. Ora, em face da natureza, a inteligência levanta para logo dois problemas: 1.", como explicar as contínuas variações dos seres? 2.9, qual o elemento estável que permanece através de todas as transformações? O segundo destes problemas preocupa os filósofos das primeiras escolas. Depois de Heráclito, que imprimiu outra orientação aos estudos cos-mológicos, é no estudo das mudanças que se concentram as atenções. Nas respostas a estas questões inspiram-se alguns no dinamismo, admitindo um ou mais princípios primitivos (quando mais de um, qualitativamente diversos), dotados de atividade interna, outros declaram-se pelo mecanicismo, reduzindo todo o universo a matéria inerte e a movimento comunicado. A diversidade dos corpos é explicada com elementos puramente quantitativos.

Incidentemente, tocam-se as questões lógicas e psicológicas da natureza da alma e das suas relações com o corpo, q\o alcance e do valor do conhecimento, da sua distinção em conhecimento sensível e intelectual.

Com relação ao método, procedem uns (jônios e atomistas), a posteriori, buscando na experiência um apoio às suas teorias. São empiristas; Aristóteles chama-os jisiólogos ou naturalistas. Outros (pitagóricos e eleatas), mais abstratos, partem de princípios a priori e menosprezam a experiência. São mais ou menos idealistas. "Matemáticos", apelida-os o Estagirita.

Em teodicéia, com exceção de Demócrito, admitem todos um Ser Supremo e Eterno, mas identificam-no panteisticamente com a natureza. Só Anaxágoras professa explicitamente a imaterialidade e transcendência divinas.

No fim do período, o trabalho demolidor da crítica cética dos sofistas exercido sobre os muitos erros e as poucas verdades das escolas precedentes, mostra a necessidade de reerguer sobre alicerces mais firmes o edifício vacilante da filosofia.


Fonte: Livraria Agir Editora. 20ª edição.

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mapa roma itália

COMPARAÇÃO DE ARISTIDES COM MARCOS CATÃO
Plutarco – Vidas Paralelas

Bem, agora que registramos por escrito os feitos mais notáveis e mais dignos de nota desses dois grandes personagens, queremos conferir toda a vida de um com toda a vida do outro. Não será, naturalmente, fácil discernir a diferença que existe entre eles, que se acha obscurecida e escondida debaixo das várias e grandes semelhanças. Mas, se os compararmos um com o outro, minuciosamente, como costumamos comparar poesias ou quadros de arte, logo de início iremos percebendo o que há em comum nos dois: sem ter outra coisa que os elevasse ou que os recomendasse, somente pela virtude e suficiência próprias, ambos ocuparam elevados postos na administração pública, onde adquiriram renome e grandes honrarias.

(57) Catão Salonino.
(58) Catão da Ütiea.

II. Mas, segundo me parece, quando Aristides começou o trato com os negócios públicos, a situação e o domínio de Atenas ainda não estavam em evidência, sendo-lhe fácil progredir, porque os governadores e capitães de seu tempo, seus competidores, não eram muito ricos e nem tinham grande influência sobre os outros. O imposto que pagavam os mais ricos, entre aqueles que viviam em Atenas naquele tempo, era dos que tinham renda no valor de quinhentos minots de trigo ou menos, chamados por esse motivo, penta-cosiomedimni (59). A segunda taxa era daqueles que tinham trezentos e eram chamados cavaleiros. A terceira e última era de duzentos e os chamavam de zeugitas. Quanto a Marcos Catão, saindo de uma cidadezinha do interior e deixando a vida campestre e rústica, foi em cheio atirar-se, por assim dizer, no pélago infinito do governo romano, o qual não era dirigido por magistrados e capitães como existiram antigamente um Cúrio, um Fabrício, um Hostílio. O povo romano não entregava mais a magistratura e cargòlá elevados a homens simples, acostumados a trabalhar com seus braços, que vinham ainda viçosos por haverem puxado a charrua ou manejado o enxadão, mas já estava habituado a considerar a nobreza das casas e as riquezas, bem como aqueles que despendiam dinheiro ou que solicitavam com insistência. Assim, fazia-se cortejar pelos que aspiravam as honrarias e as funções públicas, pois não era o mesmo ter como rival e adversário um Temístocles, o qual não era de casa nobre e nem rico, pois segundo se diz, os bens que seu pai lhe deixou não iam além de quatro ou cinco talets (60) quando começou a se imiscuir nos negócios do Estado, com cujo preço devia competir no primeiro lugar, em honra e autoridade, contra um Cipião Africano, um Servílio Galba, um Quíncio Flamínio, sem outro suporte ou apoio senão uma língua livremente falada, dirigida pela razão e pela justiça.

(59) Ver a vida de Sólon, liv. I, cap. 30, onde são citadas essas elas»«s de Atenas e suas rendas.

III. Com vantagem, Aristides, na batalha de Maratona e na de Platéia, não era senão um dos dez capitães dos atenienses, ao passo que Catão foi eleito um dos dois ao consulado, entre diversos competidores poderosos, sendo que o seu próprio companheiro já se achava investido das funções de censor, além de outros sete solicitantes, dentre os mais notáveis de toda a cidade, os quais suplantou. Ainda mais, Aristides, em nenhuma das vitórias ganhas, pode se dizer que foi o primeiro, pois na de Maratona, Milcíades se destacou em primeiro lugar; na de Salamina, Temístocles e, na de Platéia, o principal papel coube a Pausânias, que conforme diz Heródoto, ganhou uma bela vitória. Há a citar também os que lutaram em segundo lugar contra Aristides, como um Sófanes, um Amínias, um Calímaco e um Cinegiro, todos eles praticando atos de bravura nessas batalhas. Em oposição a isto, Catão foi, não somente o primeiro e o principal chefe em seu exército, tanto pelos seus feitos como pela sua orientação durante a guerra na Espanha, no tempo de seu consulado, mas também mais tarde, quando o rei Antíoco foi derrotado no passo das Termópilas, onde atuava como capitão comandando mil soldados de infantaria, sob o comando de um outro cônsul, e ali levantou êle as honras da vitória, abrindo as portas aos romanos para que fossem no encalço de Antíoco, o qual foram surpreender pela retaguarda, quando o mesmo cuidava não ter que se ocupar senão da frente. Esta vitória foi uma das obras mestras de Catão, que expulsou a Ásia para fora da Grécia e abriu caminho para que Lúcio Cipião passasse depois à Ásia.

(60) No grego, três ou cinco talentos.

IV. Assim, portanto, com referência aos feitos de armas nem um nem o outro jamais se viram vencidos nem derrotados em qualquer batalha. Mas quanto a sua atuação nos tempos de paz e em matéria de governo, Aristides foi vencido e suplantado por Temístocles, que por meio de suas tramas, tanto fêz que o atirou para fora de Atenas, levando-o ao exílio durante algum tempo, ao passo que Catão, tendo como inimigos conjurados quase todos os maiores homens, os mais nobres e os mais poderosos que existiam em Roma no seu tempo, continuamente combateu contra eles, até a sua velhice, preservando-se, como um firme e rígido campeão de luta, de ser derrubado por terra. Acusou muitos e jamais foi condenado, nem uma só vez, tendo sempre como defesa de sua vida, para provar sua inocência, a sua língua, que era útil, pois sabia ajudar-se a si mesmo ao praticar grandes e belos feitos, ao que, segundo meu modo de pensar, deve-se atribuir a não ter nunca sofrido indignamente, nem nunca ter sido condenado injustamente, e não que se deva levar isto à conta de sorte favorável ou à guarda de algum deus (61). De fato. a eloqüência é uma grande coisa, como bem testemunha Antípater ao escrever sobre o filósofo Aristóteles depois de sua morte, dizendo que entre os dons singulares e perfeições que nele existiam, havia um que era soberano, o dom de bem falar, que persuadia o ouvinte ao que êle desejava.

V. Ora, segundo consenso quase universal, o homem não pode obter nem adquirir virtude nem ciência maior do que a política, isto é, a arte de saber governar e dirigir uma grande multidão de homens, como numa grande cidade; segundo a opinião de muitos, a econômica, ou arte de dirigir um lar, é uma das principais partes daquela outra, levando em conta que uma cidade não é outra coisa senão uma assembléia de vários lares e casas reunidas, sendo então a cidade, forte e poderosa publicamente, quando seus cidadãos são ricos e opulentos particularmente.

(61) No grego: ou a »eu gênio. Todo o mundo sabe que os antigos acreditavam em gênios de uma natureza intermediária entre os deuses e os homens; eram eles que. por seus conselhos e sua influência, determinavam os cortes do destino. Homero não conheceu esta espécie, nem a deusa Fortuna. Com êle, são os deuses subalternos que ocupam estas funções.

Licurgo, que excluiu o uso do ouro e da prata entre os lacedemônios, estabelecendo a moeda de ferro; ainda assim estragada com o fogo e o vinagre, não proibiu aos seus concidadãos essa atenção à economia do lar, mas apenas diminuiu as coisas supérfluas, os prazeres, a avareza e o ardor em juntar, que ordinariamente acompanham as riquezas. Mas, também pôde ver bem as coisas, tanto que reformou as leis do passado para que seus patrícios fizessem provisão de tudo o que era necessário à vida do homem, com receio de que viessem habitar sua cidade e gozar de seus benefícios, um desertor (62) necessitado e indigente, sem bens ou propriedades, ainda mais do que um presunçoso, insolente e soberbo pela sua grande riqueza.

VI. Penso que Catão não foi menos bom pai de família do que bom e sábio dirigente, pois aumentou honestamente seus bens, ensinando aos outros a maneira de os multiplicar por meio de uma boa direção e pela inteligência no trabalho, ensinos estes que se encontram nos livros que escreveu, nos quais reuniu diversos preceitos nesse sentido. Ao contrário, Aristides, por sua pobreza, desacreditou e mesmo tornou odiosa a justiça, como sendo causadora da ruína da casa do pobre, sendo mais proveitosa para os outros, aqueles que têm posses e até aos que a exercem. Todavia, o poeta Hesíodo nos recomenda tanto e tão bem a justiça, admoestando-nos a dirigir sempre com diligência o nosso lar e censurando aos que nada querem fazer, como o princípio e a fonte de todas as injustiças. Portanto, parece-me que Homero fala mui sabiamente naquela estrofe onde diz:

Eu jamais amei trabalhar,
Nem da direção da casa cuidar
Para meus filhos alimentar
E bem adquirir.

Mas amei as armas e a guerra,
Sobre barcos e galeras correr o mar
E arcos e dardos manejar (63).

Como queremos dar a entender, são duas coisas relativas, necessariamente acorrentadas uma à outra: aquele que não cuidou de si e de sua casa, vive injustamente, apropriando-se do alheio, pois a virtude não é como o óleo que os médicos dizem ser muito bom para o corpo humano quando utilizado exteriormente e, ao contrário, muito ruim, quando usado internamente. Assim, o homem justo não deve procurar ser proveitoso aos estranhos e, no entanto, não ter cuidados para consigo mesmo e para com os seus.

(62) Um homem sem recursos.
(63) Homero Odissóia, liv. XIV, vers. 222.

VII. Portanto, segundo a minha opinião, as virtudes políticas e civis de Aristides eram defeituosas nesse sentido; é verdade que a maioria dos autores escreve não ter êle tido a previdência de deixar às suas filhas nem o necessário para poderem se casar e nem mesmo para o seu próprio enterro, enquanto que a casa de Catão, até a quarta geração, deu magistrados e cônsules a Roma, pois os filhos de seus filhos e, ainda mais os filhos dos filhos de seus filhos conseguiram em Roma cargos e situações as mais honrosas. Aristides foi, em seu tempo, o maior homem da Grécia mas deixou sua posteridade numa pobreza tão grande e tão extrema, que entre os seus descendentes, uns foram obrigados a ser adivinhos, daqueles que interpretam os sonhos e dizem a boa sorte para ganhar a vida, outros viveram esmolando publicamente por necessidade, pois não deixou êle meios a nenhum para que pudessem fazer alguma coisa grande ou digna de si.

VIII., Entretanto, este aspecto que estou discutindo, que poderia ocasionar ou deixar alguma dúvida, precisa ser esclarecido. A pobreza não é, em parte nenhuma, nem má, nem afrontosa em si, a não ser quando é causada pela preguiça, por uma vida desonesta, gastos supérfluos e loucura, porque quando ela encontra um personagem saudável, trabalhador, diligente, justo, corajoso, sábio e bom dirigente da coisa pública, então isto se torna uma grande prova de magnanimidade e de valor, pois não é possível que alguém realize grandes feitos, tendo o pensamento ocupado sempre com ninharias e nem que possa socorrer os indigentes, quando êle mesmo é um indigente (64). Não é a previsão a mais necessária àqueles que desejam, como homens de bem, se embaraçar e intrometer-se na administração pública, mas sim a eficiência, a qual satisfaz por si, pois não desejando pessoalmente qualquer coisa supérflua e não desviando nunca a sua atenção, pode pensar e ocupar-se dos negócios públicos. Pois os deuses são os únicos que não têm, simplesmente e absolutamente, trabalho por nada, porque a mais elevada virtude do homem e a mais próxima da divindade deve ser considerada aquela que faz o homem se ocupar menos destas coisas. Assim, em tudo, como num corpo bem formado, de boa compleição, não precisa tanto de bom alimento ou de trajos curiosos. Uma casa saudável e limpa precisa de pouco, sendo que os utensílios devem ser proporcionais ao uso e à necessidade, porque aquele que junta muito e passa com o pouco, não tem suficiente aptidão. Pois que não faça grandes despesas aquele que trabalha loucamente e junta mais do que precisa. Se lhe apetece, mas por sovinice, não gasta e aproveita o fruto de seu trabalho, é um miserável.

(64) Refere-se à indigência moral ou cupidez.

IX. De acordo com este motivo, perguntarei de boa vontade a Catão: — Se os bens não são feitos para serem usados, por que te glorificas de haver ajuntado muito, quando o pouco era bastante? Se é coisa elogiável, como verdadeiramente o é. contentar-se do pão o primeiro achado, beber do mesmo vinho que os criados de quarto e os operários, não se preocupar em ter trajos tintos de púrpura, nem casas cujas paredes sejam rebocadas ou caiadas, seguindo-se que nem Aristides, nem Epaminondas, nem Mânio Cúrio, nem Caio Fabrício emitiram ou esqueceram seus deveres quando nunca se preocuparam em adquirir aquilo que não quisessem jamais usar. Pois não equivale a nenhuma necessidade, o homem considerar os rábanos e os nabos as melhores comidas do mundo, aquecê-los em seu fogão enquanto sua mulher amassa os pães, manter luxo e falar de um asse, que valia aproximadamente quatro moedas e meia, nem se preocupar escrevendo alguma obra de arte ou mesmo sobre qualquer indústria, se pudesse logo enriquecer. É verdade que contentar-se com o pouco é coisa bela e elogiável, porque isto nos separa do desejo das coisas desnecessárias que nos preocupam. Portanto, conforme Aristides disse ao advogar a causa do rico Cálias, aqueles que eram pobres contra a sua vontade, deviam ter vergonha de sua pobreza, mas os que o eram voluntariamente, podiam e deviam ser elogiados, pois seria tolice pensar que a pobreza de Aristides procedesse da covardia e da preguiça, atendendo que podia, sem cometer qualquer ato mau ou desonesto, enriquecer-se rapidamente, apropriando-se somente dos despojos de algum dos bárbaros que havia derrotado ou aproveitado alguma de suas tendas. Mas é bastante. Não vou discorrer mais sobre este assunto.

X. Em resumo, referindo-me às vitórias e batalhas que Catão ganhou, em nada as mesmas ampliaram o império romano, que já era tão grande que não podia mais aumentar. As de Aristides, entretanto, se enquadram nos feitos mais notáveis dentre os praticados pelos gregos, como a de Platéia, por exemplo, não sendo entretanto razoável comparar o rei Antíoco com o rei Xerxes, nem as muralhas das cidades espanholas que Catão mandou demolir, com os milhares de bárbaros que foram derrotados e passados ao fio da espada, tanto em terra como no mar, pelos gregos, em cujas ações Aristides não ficou relegado a segundo plano, pois corajosamente pôs mãos à obra e, no entanto, cedeu as honras desses feitos àqueles que desejavam mais que êle, com a mesma facilidade com que deixou o ouro e a prata aos que tinham mais urgência, no que demonstrou sobejamente ser pessoa mais digna do que todos os outros.

XI. Afinal, quanto a mim, não quero em absoluto reprovar o hábito de Catão se elogiar a si próprio, de maneira tão expressiva, preferindo-se a todos os outros, conforme êle mesmo refere em alguns de seus discursos, de que elogiar-se a si mesmo não é coisa tão inoportuna como o fato de menosprezar-se e desprezar-se, mas parece-me que aquele a quem não apetece ser elogiado é mais perfeito em suas qualidades do que aquele que comumente se louva a si próprio, pois não ser ambicioso é uma grande parte no trato requerido ao que deseja viver entre os homens, na administração pública. Ao contrário, a ambição é um vício odioso, que inspira grande inveja ao que a ela se agarra, do qual Aristides estava totalmente liberto e Catão muito viciado. Aristides auxiliou a Temístocles, seu principal inimigo, servindo-lhe mesmo de soldado e satélite em seu cargo de capitão-general, tornando-se ministro de sua glória, o que deu em resultado a salvação da cidade de Atenas. Catão, pelo contrário, opondo-se e resistindo às empresas de Cipião, procurou impedir sua viagem e sua expedição a Cartago, na qual derrotou Aníbal que até ali era invencível e continuou sempre, até o final, a levantar suspeitas e algumas calúnias contra o seu desafeto, procurando sempre expulsá-lo da cidade e mandou condenar seu irmão Lúcio Cipião por fraude e desvio em seu cargo.

XII. Quanto à temperança e abstinência que Catão sempre exaltou e ornou com os mais belos elogios, Aristides sempre se conservou limpo. Mas as segundas núpcias de Catão, tomando uma moça que não era de família conveniente à sua idade e à sua dignidade, dão margem a um juízo, não sem razão aparente, que ficasse suspeito por luxúria, não havendo jeito para se desculpá-lo ou dar uma aparência honesta ao caso, pois encontrando-se já em idade imprópria para se casar, não trepidou em levar para seu filho casado e sua nora, dentro de casa, uma madrasta que além de tudo era filha de um escrevente e escriba público, que fazia de notário e recebia dinheiro daqueles que se utilizavam de seus serviços. Seja porque tenha feito isto por volúpia ou por despeito, para se vingar do fato de ter seu filho olhado de maneira repreensiva a rapariga que ia encontrá-lo antes, de qualquer forma um e outro se viram às voltas com a sua vergonha, tanto o efeito como a causa. A desculpa que alegou a seu filho, que se casava novamente porque desejava verdadeiramente ter outros filhos que fossem pessoas de bem como o seu primogênito, não procede porque se assim fosse, teria procurado, logo após o falecimento de sua mulher, diligentemente, uma outra esposa de família honesta, não se contentando em se deitar com uma rapariga comum até que seu filho percebesse. Depois, quando se viu descoberto, aliou-se àquele cuja aliança não era honrosa, porém mais cômoda e mais fácil de obter.

 


Fonte: Edameris 1960. Vidas dos Homens Ilustres, tomo III. Tradução de José Carlos Chaves a partir da edição francesa de Amyot.

 

nov 232010
 
Arte etrusca

SUMÁRIO DA VIDA DE ARISTIDES

  • I. Origem de Aristides. Diferença de opiniões sobre sua fortuna.
  • IV. Sua amizade por Clistênio e sua consideração para com Licurgo. Início e causas de sua inimizade com Temís-tocles.
  • V. Princípios opostos de sua conduta.
  • VII. Eqüidade de Aristides.
  • X. Sua integridade no manejo das finanças.
  • XI. Sua deferência para com Milcíades.
  • XII. Seu valor e sua moderação na batalha de Maratona.
  • XIV. Tempo de seu arcontado.
  • XV. Sua justiça. Excelência do epíteto de Justo.
  • XVI. É expulso devido aos enredos de Temístocles.
  • XVII. Permanência deste uso em Atenas.
  • XIX. Sua maneira de proceder diante deste caso.
  • XXI. Aristides é chamado. Sua generosidade para com Temístocles. Sua entrevista.
  • XXIII. Batalha de Salamina.
  • XXVIII. Batalha de Platéia.
  • XLIX. Divisão do espólio.
  • LI. Aristides faz estabelecer as festas e jogos em Atenas.
  • LII. Solenidade pública instituída para honrar a memória dos que morreram pela liberdade.
  • LIII. Forma de governo em Atenas depois da batalha de Platéia.
  • LIV. Projeto de Temístocles para aumentar o poder de Atenas, o qual, submetido a Aristides, é recusado por injusto.
  • LV. A justiça de Aristides e a delicadeza de Cimon fazem perder à Lacedemônia seu principado sobre a Grécia. Altivez e orgulho de Pausânias, general dos lacedemònios.
  • LVI. Os aliados da Grécia deixam o partido da Lacedemônia para tomar o de Atenas.
  • LVII. Sentimentos nobres dos lacedemònios.
  • LVIII. Taxa imposta por Aristides a todas as cidades da Grécia, por um consentimento unânime. Tempos felizes da Grécia. Aumento da taxa sob Péricles e depois de sua morte.
  • LIX. Novas altercações entre Temístocles e Aristides.
  • LX. Juramento de aliança dos povos da Grécia. Aristides o pronuncia em nome dos atenienses.
  • LXI. Suas considerações políticas. Sua pobreza.
  • LXIV. Sua moderação na desgraça de Temístocles.
  • LXV. Morte de Aristides.
  • LXVI. Seus funerais e o casamento de suas filhas a expensas do público.
  • LXVII. Atos de humanidade da cidade de Atenas.

Da 63." Olimpiada ate o 2. ano da 78/’ ou 467 A. C.

ARISTIDES

por Plutarco in Vidas Paralelas

Aristides, filho de Lisímaco, era de linhagem antióquida (1), do bairro de Alopece, mas quanto a seus bens e suas possibilidades, foram escritas, a respeito, várias histórias. Enquanto uns dizem que êle viveu toda a sua vida numa angustiante pobreza e deixou duas filhas, as quais, depois de sua morte ficaram muito tempo sem casar por não serem ricas, com o que a maioria dos historiados antigos está de acordo, Demétrio Falereu (2), no entanto, num livro que intitulou Sócrates, escreve o contrário e diz que teve conhecimento da existência de uma possessão, no bairro de Falaréia, que ainda chamam a posse e terra de Aristides, na qual o seu corpo está enterrado. E, além disso, para provar que sua casa era opulenta e rica, alegou tais indícios: primeiramente, que êle foi, durante um ano, preboste da cidade de Atenas, cargo que era denominado arconte epônimo (3), isto é, o que dá o seu nome ao ano em que funciona (4) e diz também que foi eleito por meio das favas, segundo o antigo uso dos atenienses, em cuja eleição não eram admitidos senão aqueles que eram tidos em mais alta conta pelo valor de seus bens, os quais chamavam em Atenas pentacosiomcdimnos (5), a saber, os que tinham de renda o valor de quinhentos minots (6) de trigo, ou daí para cima. Em segundo lugar alega que ele foi relegado ou banido do partido que se chama Ostracismo, do qual não se costumava expulsar os pobres, mas somente os nobres e os ricos, os quais a plebe invejava. Como terceiro e último argumento, afirma que deixou ao templo de Baco os vasos de três pés que comumente os empreendedores estavam acostumados a oferecer (7), sendo que estes empreendedores levantavam os prêmios nos jogos de comédias, tragédias e outros divertimentos, fazendo eles as despesas, e que os ditos vasos teriam sido doados por Aristides (8), sendo que se podia ler neles a seguinte inscrição: "A linhagem antióquida levantou o prêmio, Aristides pagou as despesas e o poeta Arquestrato fêz representar suas comédias."

(1) No original grego: tribo.
(2) Famoso gramático que Cassandro, governador da Macedónia, pôs como comandante em Atenas, seis anos depois da morte de Alexandre, trezentos anos antes de nossa era. Foi a êle que os atenienses ergueram trezentas e sessenta estátuas.
(3) Arconte epônimo, isto é. aquele que dava seu nome ao ano. Com efeito, dos nove arcontes que nomeavam cada ano. o primeiro era o arconte propriamente dito e o único que inscrevia seu nome nos atos públicos.
(4) Codro, último rei de Atenas, dedicou-se à sua pátria, mil e noventa e um anos antes de Nosso Senhor Jesus Cristo. A realeza foi substituída por magistrados perpétuos, que se chamavam arcontes. No terceiro ano da sexta Olimpíada, .o arcontado foi reduzido para dez anos. Antes dessa redução houve treze seguidos e depois dela, sete. Depois os arcontes tornaram-se anuais, no primeiro ano da vigésima-quarta Olimpíada e Créon foi o primeiro. Esta data foi estabelecida em uma excelente obra de Larcher.
(5) Veja-se a Vida de Sólon, cap. XXX.
(6) Medida antiga.
(7) Ver as Observações.

II. Este último argumento, contanto seja o que parece ter mais visos de verdade é, no entanto, o mais frágil, pois Epaminondas, que como se sabe, nasceu, foi criado e morreu pobre, e Platão, o filósofo, também, aceitaram o encargo de arcar com as despesas dos jogos, que não eram nada pequenas, tendo um pago em Tebas os tocadores de flauta e o outro, em Atenas^ a dança das crianças que bailavam em roda, o que fêz com que Dion, o Siracusano, fornecesse dinheiro a Platão, e Pelópidas a Epaminondas. Pois não se afirma que os homens virtuosos devem fazer uma guerra mortal, por força de expressão, aos presentes que lhes poderiam fazer seus amigos e que não deviam, de qualquer forma, jamais aceitar nem receber nada deles e que deviam considerar sujo e imundo receber por avareza para enriquecer, guardar ou deixar em reserva. Mas, quando a questão era de alguma empresa honrosa ou de magnificência pública, da qual nada tocava particularmente em proveito deles, não deviam recusar os oferecimentos feitos pelos amigos. E quanto aos vasos que dizem ter sido oferecidos ao templo de Baco, Panécio mostra evidentemente que Demétrio abusou com a semelhança do nome, porque desde o tempo das guerras medas até o começo da guerra do Peloponeso, não se encontram nos registos dos custeadores de jogos públicos senão dois vencedores com o nome de Aristides, dos quais nem um nem outro é o filho de Lisímaco de quem presentemente falamos, pois um foi inscrito como sendo filho de Xenófilo e o outro existiu muito tempo depois deste sobre quem estamos escrevendo, o que se pode conhecer pela escrita (9) e pela ortografia usadas, o que está de acordo com as regras de gramática usadas na Grécia desde Euclides, também identificado pelo nome do poeta Arques-trato, que se acha anexo, pois não há pessoa alguma que faça menção de um poeta com esse nome em tcdo o tempo das guerras dos medas, mas sim na época das guerras do Peloponeso, quando diversos o colocavam como autor e compositor de hinos e cânticos daqueles que eram entoados nas danças públicas.

(8) No grego: "… e mostravam ainda esses vasos, em meu tempo, onde se lia esta inscrição…".

III. Todavia, quanto à oposição que faz Panécio, é preciso pensar nisso com mais elevação e mais cuidado. Quanto, porém, ao partido do ostracismo, é certo que todos esses que eram de maior projeção sobre os outros, fosse em glória e boa fama, bem como em nobreza e eloqüência, eram sujeitos aos demais, tanto assim que Damon, preceptor de Péricles, foi expulso somente porque pareceu à plebe que era muito sábio. Além do mais, Idomeneu escreve que Aristides foi preboste anual, não pela sorte das favas, mas pelos votos dos atenienses, que o quiseram eleger, e fci isto desde a noite de Platéia (10) como Demétrio escreve. E é razoável que lhe façam esta honra pela sua excelente virtude e seus grandes méritos e serviços, os quais os outros tinham o hábito de receber pelas suas riquezas. Mas esse Demétrio não se esforça somente para excluir Aristides da pobreza, como se isto fosse alguma coisa desprezível e digna de censura, pois escreve que êle não possuía somente uma casa, mas outros bens, entre os quais setenta minas de prata (11) que Críton lhe fazia auferir lucros, pagando-lhes juros.

(9) Não se trata aqui senão da escrita e da forma dos caracteres, que era muito diferente, como se vè pelas inscrições que ainda existem e que são mais antigas do que Euclides, matemático célebre e um dos mestres de Platão. Não se trata da forma dos caracteres, mas da ortografia, pois que os atenienses haviam conservado a antiga até o arcontatío de Euclides no segundo ano da octogésima-oitava Olimpíada, época em que adotaram o alfabeto jônio, que era mais completo.

IV. Voltando, porém, à história de Aristides, lembraremos que foi amigo íntimo de Clistênio, o mesmo que restabeleceu a ordem, administrativa em Atenas, após a expulsão dos trinta tiranos (12). Também Licurgo, o Lacedemônio, mais que todos os outros participantes da administração pública, mereceu de sua parte uma consideração especial, o que lhe trouxe o favor da aristocracia, isto é, a nobreza, com o reduzido número daqueles, que por serem pessoas de bem, acabam enfeixando em suas mãos maior autoridade. Temístocles, filho de Neocles, foi como que o seu contrapeso, pois procurou sempre o favor das classes populares. Segundo referem alguns, desde os tempos de sua infância, criados e instruídos juntos, foram os dois sempre contrários um ao outro, tanto em suas ações como em seus propósitos, mesmo quando brincavam, ocasião em que seus temperamentos começaram a mostrar, pelos seus atos e atitudes, a diferença que os caracterizava. Um era rápido em suas decisões, corajoso, bastante esperto e empreendia todas as coisas com grande presteza. O outro, porém, era frio e descansado, constante e parado e por nada neste mundo mudava o sentido reto da justiça e não admitia, sob nenhum pretexto, a mentira, o engano e a afetação, nem mesmo no jogo. Todavia, Ariston, natural de Quio, escreve que sua inimizade começou devido à inclinação amorosa de ambos por um rapaz de bela e atraente conformação física, de nome Estesileu, da ilha de Ceos, afeição esta que aumentou muito com o passar dos tempos. Isto criou entre eles uma rivalidade que, não somente não desapareceu, mesmo com o decorrer dos anos em que feneceu a beleza do moço, como adquiriu maior intensidade e os acompanhou pela vida em fora. Foi como que uma experiência que os dois tiveram, para mais tarde os indispor assim, sempre irritados e cheios de inveja, ao se lançarem juntos na vida pública.

(10) Foi arconte epônimo no terceiro e quarto anos da septuagésima-segunda Olimpíada, quatrocentos e noventa anos A. C. e um ano depois da batalha de Maratona. Digo terceiro e quarto, porque o ano ático, começando no mês gamclion. a partir do solsticio do inverno, correspondia a dois anos olímpicos, que começavam no mês hecatomheon, a partir do solsticio do verão, o que subsistiu até o fim da octogésima Olimpíada. Depois dessa época, o começo do ano ático e do arcontado foram levados para o mês hecatombeon. Dodwell coloca o arcontado de Aristides um ano mais tarde.
(11) Aproximadamente setecentos escudos, segundo Amyot.
(12) Esse restabelecimento foi feito depois da expulsão dos pisistrátidas, na sexagésima-sétima Olimpíada e não como Amyot entendeu, depois de serem expulsos os trinta tiranos, o que se deu na nonagésima-quarta Olimpíada, muito tempo depois da morte de Clistênio e de Aristides. Também não se encontra no original grego a palavra trinta.

V. Ora, Temístocles, logo que alcançou alguma posição, deu de subornar amigos e, por esse meio conseguiu, em pouco tempo, bastante autoridade, da qual se valeu para acautelar-se, provendo segurança e proteção para sua pessoa. Assim, um dia, respondendo a alguém que lhe dizia ser êle digno de governar a cidade de Atenas, o que poderia fazer muito bem desde que se mostrasse acessível a todos, exclamou: "Que aos deuses não apraza jamais esteja eu sentado na cadeira de governador, se ali meus amigos não encontrarem maior favor do que os estrangeiros, que para mim nada significam".

VI. Aristides, entretanto, resolveu agir de maneira contrária. Não quis, nunca, alinhar-se ao lado daqueles que se achavam ligados à administração pública, porque não desejava, em primeiro lugar, causar dano a ninguém em proveito de outros a quem teria forçosamente que se aliar, nem também contrariá-los, negando-lhes o que viessem a pedir. Admi-rava-se mesmo de como alguns tinham a coragem de praticar atos contra o direito e a razão, valendo-se da amizade daqueles que governam. Mantinha, dessa forma, a opinião de que o homem de bem não deve assegurar para si mesmo nenhuma outra proteção que não seja o fazer, aconselhar e dizer apenas o que é honesto.

VII. No entanto, vendo que Temístocles resistia temerariamente e de propósito a todos os seus empreendimentos, buscando entravar seus projetos, também êle era constrangido, às vezes, a resistir ao seu rival, debatendo suas pretensões para devolver-lhe o troco de igual para igual, ao mesmo tempo que rebatia seu prestígio e autoridade, que estavam sempre crescendo, com o favor da plebe. Contradizia-o, de quando em vez, para impedir que uma ou outra coisa fosse feita em favor da coletividade e assim impedir que o rival ficasse em evidência (13). Aconteceu mesmo, em certa ocasião, que tendo Temístocles apresentado um projeto reputado útil e proveitoso ao povo, Aristides lhe fêz uma barreira tão grande, que acabou ganhando do adversário. Ao sair, porém, da assembléia na qual o empreendimento de Temístocles havia sido rejeitado, disse que não era possível andarem bem os negócios de Atenas, a menos que um deles dois fosse atirado ao báratro (14), (que era um abismo, onde costumavam precipitar os malfeitores e condenados a morte).

(13) Parece que no grego, com a simples mudança de uma vírgula, pode-se conseguir este sentido mais razoável: "… do que deixá-lo conseguir uma autoridade excessiva, suportando que suas opiniões prevalecessem em todas as ocasiões".

VIII. De outra feita foi o próprio Aristides quem, após ter apresentado um projeto que levantou grande celeuma e oposição, antes que o presidente da assembléia o submetesse à aprovação, reconhecendo estar de fato cheio de contradições e reconhecendo igualmente as razões apresentadas contra, desistiu e fêz retirar sua proposição, verificando que realmente era prejudicial aos interesses do povo. Às vezes, receoso da oposição de Temístocles, fazia apresentar por outros os seus projetos, evitando assim que uma desavença pessoal viesse de encontro ao bem da coletividade.

Mas a sua maneira grave e, especialmente, sua constância, ao tratar as questões que Jhe estavam afetas, eram admiráveis. Jamais se deixou abalar pela lisonja e tão pouco pela repulsa que viessem a sofrer suas opiniões. Não se humilhava, nem se perturbava, mantendo sempre a opinião de que o homem público deve estar sempre disposto a oferecer o corpo e o espírito para bem servir à causa de seu povo, sem esperar qualquer recompensa em dinheiro, honras ou glória. E o povo reconhecia estas qualidades, pois um dia, quando citavam no teatro os versos de urna das tragédias de Ésquilo (15), escritos em louvor do antigo adivinho Anfiarao e que eram os seguintes:

Não quer nunca parecer justo, mas o ser Amante virtuoso, com pensamento profundo, Do qual vemos comumente nascer Sábios conselhos, com toda a honra do mundo, todos, incontinenti, voltaram os olhos em direção a Aristides, como se a êle verdadeiramente, mais do que a nenhum outro, pertencesse o louvor de uma tão grande virtude, pois era firme ao resistir, não somente ao favor e à graça, mas também semelhantemente à ira e ao ódio, porque onde havia questão de justiça, na amizade, não fazia nada por seus amigos e nem na inimizade contra seus inimigos.

(14) Isto é uma explicação de Amyot e não está no original.

IX. A propósito contam que uma vez, ao levar perante a justiça um inimigo seu, acompanhou-o no julgamento e, depois de feita a sua acusação, os juízes ficaram tão irritados contra o criminoso, que sem ouvi-lo, queriam condená-lo. Aristides, porém, levantou-se de sua cadeira para se atirar aos pés dos juízes com o criminoso, pedindo-lhes que dessem audiência também ao réu para que este pudesse justificar-se e defender-se como as leis ordenam. De outra vez, funcionando como juiz entre dois particulares que demandavam em sua frente, um dos dois se pôs a dizer: "Minha parte contrária causou-te muitos danos e irritações a ti mesmo, Aristides". Respondeu-lhe prontamente: — "Meu amigo, dize somente o que êle fêz a ti, pois estou aqui para te fazer justiça e não a mim".

(15) Na tragédia dos «Sete Chefes diante de Tebas», v. 594.

X. Ao ser eleito tesoureiro-geral de toda a renda senhorial de Atenas, demonstrou que todos aqueles que haviam manejado as finanças públicas, não somente em seu tempo, mas também anteriormente, haviam pilhado e roubado, entre os quais Temístocles, que era homem bem avisado e de grande senso, mas não tinha as mãos seguras e nem limpas. Assim, quando Aristides quis prestar suas contas, Temístocles e vários outros, por êle induzidos, voltaram-se contra Aristides, acusando-o de haver andado mal e roubado em seu cargo, e, com tal veemência sustentaram suas acusações e fizeram tal perseguição, que por meio desse ardil foi êle condenado, conforme relata Idomeneu. Todavia, os mais influentes e as pessoas mais conceituadas da cidade, verificando o erro que cometiam, tomaram em mãos a sua causa e não somente fizeram com que a multa a qual havia sido condenado fosse restituída, como também que êle fosse reintegrado no mesmo cargo, para o ano seguinte. Então começou a agir de modo diferente e fingiu estar arrependido de ter governado como havia feito no ano precedente, mostrando-se mais tratável com os que tinham negócios com êle, não tomando as coisas tão a sério, nem examinando-as tão rigorosamente, como havia feito antes. Por esse meio, aqueles que roubavam dos cofres públicos louvaram-no maravilhosamente e brigaram entre si para o fazer continuar no mesmo cargo. Mas, chegado o dia da eleição, quando os atenienses demonstraram desejo de elegê-lo novamente, ele mesmo os repreendeu e lhes disse: "Quando administrei bem e fielmente no cargo que me havíeis confiado, recebi de vós, ultraje, vergonha e vilania e agora que finjo não ver mais os furtos e as pilhagens, vós me tomais por homem de bem e bom cidadão, mas eu vos digo e vos declaro que tenho mais vergonha da honra que me concedeis agora, do que da multa a qual me condenastes o ano passado e estou ofendido e é preciso que vos diga: — para vós é mais louvável gratificar os maus do que guardar o bem público". E, aduzindo com suas advertências, a descoberta dos furtos comuns que praticavam os funcionários da cidade, fechou a boca dos ladrões que tão abertamente o louvavam e testemunhavam perante o povo o quanto êle era homem honesto. Dessa forma rendeu êle um preito de justo e verdadeiro louvor às pessoas de bem e de honra.

(16) Segundo ano da septuagésima-segunda Olimpíada, 491 A. C.

XI. Entrementes, tendo Dates, tenente do Rei Dario vindo abordar com toda a sua frota e desembarcar na região de Maratona (16) dentro da região da Ática aparentemente, como dizia, somente para vingar-se dos atenienses que haviam queimado a cidade de Sardis, mas em verdade com a intenção de subjugar e conquistar toda a Grécia, correndo e pilhando a região plana, os atenienses elegeram então dez capitães para conduzirem a defesa, entre os quais Milcíades, que era o que possuía mais dignidade e autoridade. Mas Aristides seguia-o bem de perto em reputação e crédito, tendo mesmo contribuído para a vitória quando concordou com a opinião de Milcíades no Censelho, no qual concluíram que teriam de dar batalha aos bárbaros, e também quando cedeu, voluntariamente, a autoridade de comando da armada a Milcíades porque cada capitão, a seu turno tinha um dia no qual comandava a frota. Assim, quando chegou a sua vez, colocou o comando nas mãos de Milcíades, ensinando aos companheiros a submissão e obediência aos mais sábios, que não somente não é coisa reprovável, mas salutar e honrosa. Com este exemplo, acalmando a luta que poderia se levantar entre eles e admoestando-os a concordar com o conselho e aviso daquele que entendia melhor dos feitos da guerra, animou grandemente a Malcíades, o qual se sentiu mais seguro e mais firme em autoridade, não cometendo mais qualquer falha, pois desde que Aristides, uma vez, havia cedido sua autoridade, todos os outros fizeram o mesmo e se submeteram inteiramente a êle.

XII. No dia da batalha, o lugar onde os atenienses tiveram mais dificuldade foi no meio, onde se achavam enfileiradas as tribos leôntida e antió-quida, pois foi o ponto onde os bárbaros mais se esforçaram e onde combateram mais duramente e ali mesmo Temístocles e Aristides, combatendo lado a lado, porque um era da linha leôntida e outro da antióquida, fizeram grandes proezas em competição um com o outro. Finalmente, os bárbaros, sendo rompidos, viraram em fuga desordenada, sendo perseguidos até dentro de seus navios. Uma vez embarcados, porém, os capitães atenienses, vendo que não tomavam o caminho das ilhas pelo qual deviam voltar para a Ásia, mas eram atirados pela impetuosidade do vento e pelas correntes marítimas dentro da Ática, para os lados da cidade de Atenas, tiveram receio de que a encontrassem desguarnecida e, por isso, para lá se encaminharam a toda a pressa, conduzindo nove linhagens, que foram tão rapidamente, que chegaram no mesmo dia, deixando no campo de Maratona Aristides e seus combatentes, guardando os prisioneiros e as presas tomadas dos bárbaros.

XIII. Nisto não ficaram decepcionados aqueles que acreditaram na probidade e grande experiência de Aristides, pois como havia grande quantidade de ouro e prata, vestimentas, móveis e outros bens em todas as tendas e pavilhões dos bárbaros e também dentro dos navios que foram tomados por eles, não teve a ambição de tocar em nada, nem consentiu que outros fizessem e foi a sua revelia que alguns agiram em desacordo com suas ordens, entre os quais Cálias, um dos sacerdotes de Ceres, denominado Dadouco, que quer dizer "porta-tocha" (porque nos sacrifícios secretos de Ceres seu ofício consistia em segurar a tocha) (17), pois houve um dos bárbaros que, ao vê-lo com a cabeça cingida por uma faixa e os cabelos compridos, pensou que fosse algum rei e, atirando-se a seus pés, beijou-lhe a mão, mostrando-lhe uma grande quantidade de ouro que se achava escondida e enterrada dentro de uma fossa. Cálias, mostrando-se o mais cruel, o mais covarde e malvado ente que pudesse haver sobre a terra, matou o pobre bárbaro, receoso de que dissesse aos outros o mesmo que lhe havia revelado. É por esta razão que os poetas cômicos chamam por pilhéria, aos seus descendentes, lacóplutos, isto é, "enriquecidos pela fossa".

XIV. Logo depois desta batalha, Aristides foi eleito preboste anual de Atenas, se bem que Demétrio Falereu escreva que foi pouco tempo antes de sua morte que isto se deu, depois da jornada de Plateia. Nos registros onde são escriturados em ordem, as pretorias de cada um, não se encontra o nome de Aristides senão vários anos depois de um Xantípidas, no ano em que Mardônio, tenente do rei da Pérsia, foi derrotado diante de Platéia (18) e, assim, é depois de Fanipo no ano em que se deu a jornada de Maratona, que se encontra Aristides arrolado com outros prebostes.

(17) Isto é uma explicação de Amyot.
(18) Segundo ano da septuagésima-quinta Olimpíada, ou 479 A. C.

XV. Mas, de todas as qualidades e virtudes louváveis que Aristides possuía, a mais conhecida e da qual o povo tinha mais experiência, era o senso de justiça. Esta virtude, cujo uso e exercício são como contínuos, é justamente aquela que a maioria das pessoas sente. Sendo êle homem pobre, humilde (19) e simples, obteve a mais real e a mais divina consagração que jamais homem algum saberia conseguir, sendo cognominado pela voz do povo — o Justo. Tal denominação nunca foi requisitada ou preferida, nem mesmo desejada pelos reis, pelos príncipes e pelos tiranos. Entretanto, muitos tiveram gosto em ser cognominados, uns de poliorcetas, isto é, "violentadores ou arrombadores de cidades". Outros cerâuni, que significa "fulminantes". Alguns mais foram chamados nicanores, cujo sentido quer dizer "vitoriosos" ou "conquistadores". Outros, ainda, tiveram prazer na denominação de aeti e de hieraces, isto é, "águias" ou "falcões", bem como outros pássaros de garras, preferindo se fazerem notar e adquirir reputação com as características da força e da violência, em lugar daquelas qualidades que dimanam da bondade e da virtude. E, no entanto, a divina essência, à qual todos eles tanto desejavam se igualar, precede todas as demais essências e naturezas, principalmente em três coisas distintas: na imortalidade, no poder e na bondade, das quais esta última (20) é a virtude mais digna de acatamento e onde há mais divindade. Porque ser imortal, os quatro elementos e o nada o são também (assim pensam os filósofos natos) (21). Quanto à força e ao poder, os tremores de terra, os raios e os impetuosos turbilhões de vento, as torrentes e as inundações de água são muito grandes, mas a justiça, a retidão e a eqüidade, delas participa a própria divindade, por meio da razão e do entendimento. E, assim, os homens cultivam três sentimentos diferentes para com os deuses: um, que os considera bem-aventurados; outro, que os faz temidos; o terceiro, que os julga dignos de honra. Consideram a divindade feliz, pela imortalidade e eternidade de sua essência. Temem-na, devido seu domínio e poder. Amam-na, adoram e reverenciam por sua justiça. No entanto, as qualidades, dentre estas três, que os homens mais ambicionam são: a imortalidade, que a natureza humana não alcança, e o poder, que em grande parte depende da sorte. Em último lugar vem a virtude, o único bem dos deuses do qual podemos ser capazes. No entanto, é justamente aí que falha e abusa a humanidade, porque a justiça torna a vida daqueles "que alcançam a fortuna, o poder e a autoridade, divina e celeste; e a injustiça a torna bestial e selvagem.

(19) No original grego: «Da classe do povo».
(20) Amyot se torna, às vezes, confuso, chegando mesmo a contradizer-se, no empenho de mostrar com maiores detalhes o pensamento de Plutarco, o que aliás, os próprios comentadores franceses reconhecem. Neste caso, por exemplo, as palavras bondade e virtude têm o mesmo sentido, o qual não é senão justiça, atributo da divindade que Plutarco considera fácil ser exercido pelos homens. No trecho que comentamos, Amyot discrimina bondade e virtude, quando pelo sentido se deve compreender que Plutarco se refere ao senso de justiça, que é também uma grande virtude. O que é de admirar, no caso, é que Amyot, prelado ilustre, que estava naturalmente familiarizado com São Paulo e Agostinho, deixe passar em branco a debatida questão da liberdade humana com relação ao bem e ao mal.
(21) Esta observação não se acha no original.

XVI. Ora, voltando a Aristides, lembremo-nos de que o cognome de Justo desde o início lhe trouxe o amor e a benevolência do povo, mas provocou e engendrou a inveja, devido aos meneios de Temísto-cles, o qual começou a dizer e a semear por toda a parte que Aristides havia abolido os julgamentos porque, pela escolha das partes, era sempre apontado como árbitro por saber julgar diferentemente dos outros e porque, por esse meio, ia adquirindo’ secretamente uma soberania e poder próprios de um monarca, sem precisar de guardas nem de satélites. Ora, o povo, que desde a vitória de Maratona, governava e desejava que todas as coisas dependessem inteiramente dele e de sua autoridade, caía em desagrado quando verificava que um dos particulares superava a outro em reputação e boa fama. Dessa forma, resolveu-se após reunião a que compareceram representantes de toda a região da Ática, a expulsão de Aristides do partido chamado Ostracismo, disfarçando a inveja que tinham de sua gloria, por um infundado temor de tirania.

XVII. Esta maneira de banir, a que chamavam Ostracismo ou Exostracismo, não era um castigo imposto por qualquer crime ou malfeitoria. Segundo diziam, o que visavam era apenas dar uma capa honesta aos atingidos para abater uma autoridade e um poder excessivos, incompatíveis num estado popular. Na verdade, porém, não passava de um meio pelo qual se procurava contentar graciosamente o povo, quando este concebia inveja contra alguém que se encontrava em autoridade e evidência, cons-trangendo-o a abster-se de toda e qualquer atividade pública, pelo prazo de dez anos. Entretanto, quando começaram a aplicar tal pena a pessoas sem representação social e também a indivíduos maus, como se deu com um de nome Hipérbolo, que foi o último a ser expulso, seu uso foi inteiramente abandonado em Atenas.

XVIII. Não estará fora de propósito o declarar neste lugar, como e por que razão foi este Hipérbolo relegado: Alcibíades e Nícias eram, em seu tempo, os primeiros homens de Atenas, tendo desavenças um com o outro, como acontece comumente entre iguais. Vendo que o povo desejava, em assembléia, proceder à execução de uma sentença pelo Ostracismo, desconfiaram que fosse para afastar e banir um deles; falaram um com o outro combinando juntamente com seus servos e aderentes e os reuniram tão bem numa liga que quando vieram recolher os votos do povo para ver a pluralidade de sufrágios e aquele que seria expulso, acharam que era Hipér-bolo, pelo que ò povo ficou tão descontente vendo a coisa assim aviltada, criticada e desonrada, que não quis. utilizar mais e foi abolido completamente o seu uso.

XIX. Mas, para dar sumariamente a compreender o que era e como se praticava em tal processo, é preciso anotar que em certo dia, antecipadamente marcado e prefixado, cada cidadão trazia uma concha, sobre a qual escrevia o nome daquele que desejava que fosse banido e a colocava dentro de um recinto fechado a volta toda por um tabique de madeira que construíam sobre a praça, pois cada um aí trazia a sua. Os magistrados e oficiais da cidade punham-se a contar todas essas conchas juntas, pois se havia menos de seis mil cidadãos que houvessem trazido essas conchas assim escritas, o Ostracismo era imperfeito. Isso feito, colocavam à parte cada nome escrito e aquele que estava escrito pelo maior número de cidadãos, era, ao som de trombeta proclamado banido e relegado por dez anos, durante os quais, no entanto, gozava de todos os seus bens.

XX. Como, portanto, na ocasião, cada um escrevia sobre sua concha o nome daquele que queria que fosse expulso, dizem que houve um camponês tão grosseiro e tão ignorante que não sabia nem ler nem escrever, o qual dirigiu-se a Aristides, porque o encontrou primeiro e lhe entregou sua concha, pedindo-lhe para escrever em cima o nome de Aristides. Este, admirando-se, perguntou-lhe se Aristides lhe havia causado algum desgosto: — "Não, respondeu o camponês, e o melhor é que eu não o conheço, mas êle me irrita porque ouço, em todo o lugar, chamarem-no o Justo". Aristides, tendo ouvido essas palavras não lhe respondeu nada, mas escreveu êle mesmo seu nome sobre a concha e a devolveu. Mas, ao partir, saindo da cidade, levantou suas duas mãos para o céu e fêz uma oração em tudo contrária à de Aquiles em Homero, pedindo aos deuses que jamais acontecesse mais nada aos atenienses, que os obrigasse a ter recordação de Aristides.

XXI. Todavia três anos depois, quando o rei da Pérsia, Xerxes, cem sua armada, passou pelas regiões da Tessália e da Beócia, entrando até o fundo da Ática (22), os atenienses, anulando o seu ostracismo, chamaram todos os que haviam afastado, isso principalmente pelo medo que tiveram que Aristides se passasse para o lado dos bárbaros e seu exemplo induzisse muitos outros a fazer o mesmo, no que demonstraram não conhecer muito bem a sua natureza, pois antes de ser convidado, não cessou de andar de um lado para o outro, exortando e encorajando os gregos a manter e defender sua liberdade. E depois que o decreto de seu chamado foi publicado, e que Temístocles foi eleito único capitão geral de Atenas, ele o ajudou fielmente, em tudo, tanto com seus serviços como com seus conselhos e, assim fazendo, fêz seu maior inimigo coberto de glória, tanto era o apreço da salvação dos negócios públicos. Como Euribíades, que era chefe da armada grega, deliberasse abandonar a ilha de Salamina, sem que ninguém soubesse nada a respeito, Aristides, com uma coragem estranha, partindo da ilha de Egina, passou entre os navios dos bárbaros e tanto fêz que chegou de noite à tenda de Temístocles, o qual chamou do lado de fora e falou-lhe desta maneira: -— "Temístocles, se nós dois somos sábios, é chegado o tempo de abandonarmos esta tola desavença e esta inveja que até aqui tivemos um contra o outro. Devemos ter ao contrário, uma outra espécie de inveja que será honrosa e salutar a um e ao outro, isto: quem cumprirá o dever melhor para salvar a Grécia: tu, como comandante e desempenhando os deveres de bom capitão e eu aconselhando-te e executando tuas ordens, atendendo mesmo que és agora o único que se acha apto a desincumbir-se desta missão. $ou de opinião e aconselho que arrisquem a batalha por mar, aqui dentro mesmo desse estreito de Salamina e o mais cedo que for possível; mas, se nossos aliados e confederados te impedirem de pôr em execução esse teu conselho, sou de aviso que os inimigos aí estão te ajudando, porque o mar na frente, por trás e à nossa volta toda, já está coberto com seus navios, de tal jeito que é forçoso que esses que antes não queriam, agora quer queiram ou não, combatam e cumpram o dever de gente de bem, porque estão cercados de todos os lados e não há passagem por onde possam escapar ou fugir".

(22) O primeiro ano (ia septuagésima-quinta Olimpíada. 480 anos A. C.

XXII. A isto, respondeu Temístocles: — "Desgosta-me, Aristides, que neste caso tenhas te mostrado mais digno do que eu; que assim continue e honra te seja dada por haveres começado e por me haveres provado a uma tão honesta e tão louvável disputa. Após vencer aqui, trabalharei para bem continuar". Tendo dado esta resposta, contou-lhe o ardil que havia imaginado para iludir o rei bárbaro, pedindo-lhe para fazer o mesmo contra Euribíades que queria condescender à sua opinião, advertindo-o que não tinha ordem de salvar a Grécia, senão combatendo por mar. Euribíades tinha mais confiança nas palavras e advertências de Aristides, do que nas de Temístocles. E, assim, no conselho em que todos os capitães se reuniram para deliberar se dariam a batalha ou não, como Cleócrito Coríntio dissesse a Temístocles, que seu aviso não agradava nem mesmo a Aristides, assim parecia, porque estando este presente não dizia uma palavra, Aristides respondeu-lhe: — "É o contrário, pois não me calaria se não achasse seu conselho bom: mas agora não digo palavra, nunca mais, não pelo bem que lhe desejo, mas porque acho seu conselho verdadeiramente bom e sábio".

XXIII. Enquanto os capitães gregos discutiam, Aristides, vendo Psitaléia, que é uma ilhota na frente de Salamina, dentro do estreito que estava cheio de soldados inimigos, embarcou nos esquifes de suas galeras os melhores combatentes e mais deliberados de seus concidadãos, com os quais desceu nessa ilha, onde desfez em batalha o que encontrou de bárbaros, os quais foram todos passados à espada, exceto os de mais projeção que foram feitos prisioneiros, entre os quais havia três filhos da irmã do rei, que tinha o nome de Sandauce, os quais enviou a Temístocles. Esses três senhores por ordem do adivinho Eufrânti-das, foram todos imolados a Baco, cognominado Omestes, isto é, cruel ou comedor de carne crua, segundo um oráculo que lhes teria respondido. Isto feito, Aristides pôs de emboscada, à volta da ilhota, soldados armados para espreitar esses que por sorte da guerra ou do mar seriam ali jogados, a fim de que não se salvasse nenhum dos inimigos, nem se perdesse também nenhum dos amigos, porque o mais formidável encontro de navios e a luta mais áspera de toda a batalha foi em torno daquela ilhota e por isso aí levantaram o troféu.

XXIV. Depois da batalha ganha, Temístocles, querendo sondar qual era a opinião de Aristides, disse-lhe: — "Fizemos uma bela obra, mas resta ainda a fazer uma outra muito mais bela, é que devemos tomar inteiramente toda a Ásia dentro da EuropB, o que faremos facilmente, contanto que com toda rapidez, singremos na direção do estreito de Helesponto. para romper a ponte que o rei mandou fazer". Aristides então exclamou em voz alta: "Oh! não fales nunca desse propósito, mas antes, trabalhemos em procurar um meio, seja qual for, para expulsar esse rei bárbaro fora da Grécia de modo que o encerremos com uma força tão poderosa que quando vier, não tenha mais meios para fugir, e, assim, em desespero de causa, terá que recorrer às armas e combater valentemente".

XXV. Ouvidas essas palavras, Temístocles, ríspido, enviou secretamente o eunuco Arnaces, que era prisioneiro, à frente do rei Xerxes, para avisá-lo que havia retido e desviado os gregos, os quais haviam deliberado ir derrubar a ponte que êle mandara construir sobre o estreito de Helesponto para passar sua armada e que havia desejado avisá-lo para o ajudar a pôr sua pessoa em segurança. Xerxes, amedrontado com esta notícia, pôs-se incontinenti a caminho, em grandes jornadas para chegar ao estreito de Helesponto e deixou na Grécia, Mardônio, seu tenente geral, com trezentos mil dos melhores combatentes que tinha em seu exército. Esse Mardônio era temível aos gregos pela poderosa força de terra que tinha e os ameaçava escrevendo-lhes cartas como esta: — "Vós vencestes com pedaços de pau a marinheiros que estão habituados a combater em pé sobre terra firme e que não aprenderam nunca a manejar o remo. Mas, agora, as planícies da Tessália ou o campo da Beócia são belos e largos para cavalaria e infantaria aí provar suas proezas, se quereis vos encontrar em campo de batalha". Escreveu também sobre outros assuntos dos atenienses por ordem do rei seu chefe, oferecendo-lhes, da parte deste, mandar reedificar sua cidade, dar-lhes grande auxílio em dinheiro, além de os fazer senhores de toda a Grécia se quisessem desistir da guerra. Os lacedemônios avisados do que se dava e receando que os gregos não se contivessem, enviaram rapidamente embaixadores a Atenas, para lhes pedir que mandassem suas mulheres e seus filhos para Esparta e oferecer-lhes víveres para manter e alimentar as pessoas idosas, porque o povo ateniense atravessava uma época de extrema pobreza por causa da cidade que havia sido queimada e destruída, e toda sua região plana pilhada e estragada pelos bárbaros. Mas, depois de terem ouvido os oferecimentos dos embaixadores, os atenienses deram uma resposta maravilhosa aos lacedemônios, da qual Aristides foi o autor: — "Que perdoavam aos bárbaros considerarem venais todas as coisas, ao preço do ouro e da prata, porque não conheciam nada melhor nem tinham nada mais caro neste mundo do que a riqueza e possuí-la, mas ao contrário, ficavam bastante descontentes com os lacedemônios que não olhavam senão a indigência e pobreza presente dos atenienses e esqueciam sua virtude e a grandeza de sua coragem, julgando poder induzi-los a combater mais virtuosamente pela salvação da Grécia, fazendo-lhes oferta de víveres",

XXVI. Tendo sido esta resposta aprovada e autorizada pelo povo, Aristides fêz vir os embaixadores de Esparta à assembléia e ordenou-lhes dizerem de-viva voz aos lacedemônios que não havia em baixo e nem sobre a terra, ouro que chegasse para os atenienses aceitar ou receber como pagamento para abandonar a defesa da liberdade da Grécia". Quanto ao arauto que viera da parte de Mardônio, mostrou-lhe o sol e disse-lhe: — "Enquanto este astro girar à volta do mundo, os atenienses serão inimigos mortais dos Persas, porque destruíram e arruinaram seu país e profanaram e queimaram os templos de seus deuses". Ordenou mais ainda que os sacerdotes, por ordem do povo, excomungassem, amaldiçoassem e anatematizassem aquele que, porventura, fosse enviado diante dos persas para despachar com eles, mesmo que abandonassem a aliança dos o.utros povos gregos. Por essa razão, quando Mardônio veio pela segunda vez correr a região da Ática, os atenienses retiraram-se também outra vez para a ilha de Salamina e então foi Aristides enviado como embaixador à Lacedemônia, que cs recriminou e lastimou conscientemente por sua negligência e atraso havendo assim desabridamente abandonado a cidade de Atenas aos bárbaros e pediu-lhes que cumprissem pelo menos o dever de socorrer e salvar os moradores da Grécia. Os éforos, que eram certos oficiais que tinham toda a superintendência dos negócios da cidade de Esparta, tendo ouvido essas advertências deram-lhes atenção, embora na aparência exterior e pública, parecesse que durante aquele dia não pensassem outra coisa senão jogar e comer bem, porque celebravam nesse dia uma de suas festas solenes, que chamavam Hiacintia. Mas na noite seguinte puseram-se em campo e fizeram partir cinco burgueses, nativos de Esparta, todos bons combatentes e homens escolhidos, cada um dos quais estava acompanhado por sete hilotas, que são camponeses e viviam como escravos no país da Lacedemônia, sem nada dar a entender aos embaixadores de Atenas.

XXVII. Por essa ocasião Aristides voltou outra vez ao conselho, pondo-se a lamentar com aspereza por sua indolência. Puseram-se a rir, dizendo que êle sonhava ou caçoava, porque o exército que haviam enviado contra os estrangeiros (pois assim chamavam os persas) já se encontrava na cidade de Oréstion, que está na Arcádia. Ouvida esta resposta, Aristides replicou-lhes que estavam errados pilhe-riando com eles, fazendo partir seus soldados secretamente e que eles, em consciência, de nada sabiam e que não era tempo para se divertirem enganando seus amigos, mas antes seus inimigos. Idomeneu narra o fato deste modo. Todavia, quanto ao decreto que Aristides propôs para enviarem embaixadores a Esparta, não foi êle nomeado como embaixador, mas foram designados Cimon, Xantipo c Mirônidas.

XXVIII. Logo que foi eleito pela vontade do povo, capitão geral do exército de Atenas na guerra contra os persas, seguiu para o acampamento dos gregos perto da cidade de Platéia, com oito mil soldados da infantaria, todos bem armados. Ali se encontrava também Pausânias, capitão-chefe de toda a força da Grécia, que levou com êle as forças de Esparta, chegando todos cs dias em fila, uma grande multidão de outros gregos. Ora, quanto aos bárbaros, seu acampamento achava-se ao longo do rio de Asopo, mas pela sua grande extensão, não era fechado nem fortificado de jeito algum, a não ser somente umcerto recinto quadrado que haviam cercado com uma muralha, o qual de cada lado tinha mil e duzentos e cinqüenta passos de comprimento para guardar súa bagagem e seus bens mais preciosos. Quanto aos gregos, o adivinho Tisameno, nativo da cidade de Elida, predisse a Pausânias e a todos os gregos juntos, que teriam a vitória, contanto que não assaltassem nunca e que não fizessem nada a não ser para defender-se somente. Aristides que consultara ao oráculo de Apelo na cidade de Delfos, teve resposta de que venceriam seus inimigos, contanto que sacrificassem e fizessem orações especiais a Júpiter e Juno do monte de Cíteron, a Pan e às ninfas Esfragitienas e que fizessem também sacrifícios aos semi-deuses Andrócrates, Leucão, Pisander, Damócrates, Hipsião, Acteão e Poliido, e também que aventurassem a batalha dentro de seu território, na planície de Ceres Eleusiana e de Prosérpina.

XXIX. Este oráculo pôs Aristides em grande tristeza e grande perplexidade, porquanto os semi-deuses, aos quais ordenavam que sacrificassem, eram os ancestrais dos platéanos e a caverna das ninfas Esfragitienas é uma das grutas do monte de Cíteron, virada para o lugar onde o sol se deita no verão, e dizem que aí, antigamente havia um oráculo, de cujo espírito vários habitantes dos arredores estavam possuídos e tornavam-se insensatos, pelo que os chamavam "nympholepti", como quem dissesse: "espírito das ninfas"; também o fato de dizer que os atenienses teriam a vitória contanto que aventurassem a batalha na planície de Ceres Eleusiana, e dentro de seu território, o que seria o mesmo que mandá-los para o país da Ática. Estando nessa dúvida, Arimnesto, capitão dos platéanos, teve uma visão, dormindo, segundo a qual Júpiter salvador lhe aparecera e lhe perguntara o que os gregos tinham resolvido fazer, ao que lhe respondeu: — "Devemos, senhor, mudar nosso acampamento amanhã, para o território de Eleusina e lá daremos batalha aos bárbaros, seguindo o que o oráculo de Apolo nos ordenou". Júpiter replicou-lhe que se iludiam grandemente, porque tudo que Apolo havia especificado pelo seu oráculo estava dentro do território dos platéanos e que o encontrariam assim que procurassem bem. Arimnesto, tendo esta visão tão expressiva e tão manifesta, de manhã muito cedo, assim que acordou, mandou chamar os mais velhos e os mais experimentados de seus cidadãos, com os quais, conferindo e procurando onde estaria esse lugar, descobriu que ao pé do monte de Cíteron junto da cidade de Hísia havia um antigo templo que chamavam o "templo de Ceres Eleusiana e de sua filha Prosérpina". Tratou logo de avisar Aristides e juntos foram examinar o local, achando e concordando ambos que de fato o local era maravilhosamente dotado e a propósito para ali se formar um exército em batalha, não tanto por meio da cavalaria porque o sopé do monte impedia a aproximação dos animais do local onde se achava o templo, que era onde a planície terminava, onde se achava também a capela de Andrócrates, rodeada e escondida por árvores espessas e copadas. Nada parecia faltar do que havia sido especificado pelo oráculo para esperança da vitória. Aconselhados por Arimnesto, os plateanos decretaram que as divisas do seu território fossem afastadas do lado de Atenas e doadas aos atenienses as terras ali situadas, a fim de que nelas pudessem os gregos combater os bárbaros, dentro de seu próprio território, para salvação e defesa da Grécia.

XXX. Ora, esta liberalidade e magnanimidade dos plateanos foi tão aclamada, que muitos anos depois o rei Alexandre, o Grande, tendo conquistado o império da Ásia mandou reedificar as muralhas da cidade de Platéia, e, fazendo isso, mandou proclamar por um arauto na assembléia dos jogos olímpicos que Alexandre fazia esse bem e prestava essa honra aos plateanos, em memória e recompensa de sua magnanimidade, porque na guerra contra os persas haviam dado liberalmente sua terra aos atenienses para salvação da Grécia e haviam se mostrado pessoas de bom coração e amigos da defesa da Grécia.

XXXI. Quando formaram o exército grego em batalha, houve uma dissensão entre os atenienses e os tegeatos (23), porque aqueles queriam, como sempre estavam acostumados a fazer, se os lacedemônios ficavam na ponta direita da linha de batalha, eles ficavam na esquerda e os tegeatos, indo de encontro, alegavam as proezas e grandes feitos de armas de seus ancestrais, o que deu origem a uma amotinação dos atenienses, mas Aristides, saindo à frente, admoestou-os dizendo-lhes que não era tempo de discutir com os tegeatos sua nobreza nem suas proezas. "E quanto a vós, senhores espartanos, disse êle, e vós outros gregos, avisamos-lhes que o lugar não dá nem tira jamais a virtude e asseguramos que qualquer que seja o lugar que nos entregardes, nós o defenderemos e guardaremos tão bem, que não diminuirão nem a honra nem a reputação que conseguimos nas batalhas precedentes; pois viemos aqui, não para discutir nem brigar contra nossos aliados mas para combater nosso inimigo comum; nem para enaltecer nossos antecessores, mas para com efeito nos mostrarmos pessoas de bem na defesa da Grécia, porque este dia testemunhará a todos os gregos como cada cidade, cada capitão e cada homem particular no seu de direito se fará estimar".

(23) Leia: — «Porque os tegeatos queriam, como estavam sempre habituados a fazer, se os lacedemônios ficavam na ponta direita da batalha, eles ficavam na sinistra e alegavam as proezas», etc.

XXXII. Ouvidas essas palavras de Aristides, os capitães e todos os do conselho concluíram em favor dos atenienses que ficariam numa das pontas da linha. Assim estava toda a Grécia em grande movimento e da mesma forma o estado ateniense em extremo perigo, porque aconteceu que um certo número de cidadãos das mais nobres casas da cidade e que possuíam bens antes da guerra, os quais vendo-se então reduzidos a pobreza e que além de seus bens que haviam perdido, ainda tinham sido privados da proeminência e da autoridade que estavam habituados no governo da coisa pública, estando agora outros, antes desacreditados, sendo promovidos a situações e cargos da cidade, reuniram-se em uma casa da cidade de Platéia e juntos conspiraram para destruir e abolir a autoridade do povo em Atenas ou, se não pudessem triunfar, perder tudo e trair a coisa pública em favor dos bárbaros. Como se tratava dessas coisas no próprio acampamento, no qual diversos estavam ligados à conspiração, Aristides sentiu soprar o vento e teve grande receio por causa do tempo que urgia e pensou não agir com indolência num caso de tão grande responsabilidade não procurando rebuscar tão ao vivo e nem descobrir tudo inteiramente, não sabendo o número de culpados ligados à tal conspiração mesmo que os procurasse até o fim, olhando antes o que era justo que teria de aproveitar, de acordo com o tempo. Mandou prender somente oito do grande número que havia e, desses oito, dois que queriam começar logo a processar porque eram os mais culpados, Esquines, do bairro da Lampra e Egesias do bairro de Acarne, encontraram meios de fugir do acampamento e se salvar. Quanto aos outros, Aristides os soltou, dando meios a esses que pensavam não ser descobertos para assegurar-se e arrepender-se, dizendo que teriam a batalha por julgamento, na qual poderiam se justificar das culpas que lhes punham em cima e mostrar que nunca tiveram outra intenção senão boa e justa, para com seu país.

XXXIII. Mardônio, ficando, quis sondar a coragem que teriam os gregos, e enviou toda a sua cavalaria, a qual era muito mais poderosa que a dos gregos, para os escaramuçar. Ora, estavam eles alojados ao pé do monte de Cíteron em lugares fortes e pedregosos, exceto os megarianos, que eram três mil combatentes acampados na planície, o que foi causa de serem trabalhados e prejudicados pelos soldados de cavalaria dos bárbaros, que os assaltaram de todos os lados porque podiam se aproximar de todas as partes, tanto que no fim, vendo que não pediam sós, suster tão grande multidão de bárbaros, enviaram rapidamente pedido a Pausânias, para solicitar que lhes enviasse prontamente socorro. Pausânias, ouvindo esta notícia e olhando o campo dos megarianos quase todo coberto de setas e de dardos que lhes atiravam os bárbaros e eles, obrigados a se colocarem e se apertarem em um pequeno canto, não soube o que devia fazer: pois ir pessoalmente com os lacedemônios que eram soldados da infantaria bem armados, achou que não teria sucesso; experimentou picá-los então com o aguilhão de ambição e de honra e mesmo com alguma inveja entre os capitães e chefes de tropas dos outros gregos que se encontravam à sua volta, para ver se poderia entusiasmá-los a irem voluntariamente socorrer os megarianos, mas todos os outros fizeram ouvidos surdos menos Aristides, o qual prometeu em nome dos atenienses ir, e despachou imediatamente Olimpiódoro, um dos mais valentes capitães que estavam sob suas ordens, com sua companhia que era de trezentos homens, todos de elite. Esses soldados ficaram prontos num instante e incontinenti marcharam apressadamente para a batalha contra os bárbaros.

XXXIV. Vendo isso, Masístio, que era general de cavalaria dos persas, homem grande, forte, e belo, virou seu cavalo e galopou direito a eles. Os atenienses o esperaram em pé e houve um encontro bastante áspero, porque uns e outros queriam neste princípio influir no final da batalha, e combateram tanto que o cavalo de Masístio recebeu um grande golpe de dardo através do corpo e a dor que sentiu fê-lo atirar por terra seu chefe todo armado dos pés a cabeça, como estava. Uma vez caído não pôde se levantar, devido ao peso de seu arreio e mais ainda porque os atenienses, que logo correram sobre ele, ajuntaram-se ao seu redor, diversos a sapatear, não achando jeito de matá-lo porque estava muito armado e carregado de ouro, cobre e ferro, não somente no corpo e na cabeça, mas também nas pernas e braços; num momento, porém, alguém enterrou o ferro de seu dardo por dentro da viseira de seu capacete, matando-o. Vendo isso, os outros persas incontinenti voltaram-se fugindo e abandonaram o corpo de seu general. Logo, verificaram os gregos que haviam feito muito nesta escaramuça, não pelo número de inimigos que tivessem morto, pois não eram muitos, mas pela grande perda que infligiram aos bárbaros, pois tosaram-se è a seus cavalos e burros como luto pela morte de Masístio e encheram o campo todo’ nos arredores, de lágrimas, de gritos e de urros como se houvessem perdido o primeiro homem de todo o seu acampamento, em valor e em autoridade, depois do tenente do rei Mardônio.

XXXV. Depois desta primeira escaramuça, ficaram uns e outros em seu acampamento sem sair durante vários dias, porque os adivinhos prometiam a vitória tanto aos persas como aos gregos, contanto que não fizessem senão se defender somente e, ao contrário, os ameaçava de serem derrotados ue começassem a assaltar. Mas Mardônio, vendo que não havia mais víveres senão para bem poucos dias e ainda mais que todos os dias vinha um novo reforço de gentes para os gregos, resolveu afinal não esperar e passar o rio Asopo logo ao clarear do dia seguinte e cair sobre os gregos desprevenidos. Ordenou, na noite anterior, aos seus capitães, o que deviam a fim de que cada um ficasse pronto, mas, à meia-noite, mais ou menos, um homem a cavalo, sem fazer barulho nenhum, aproximou-se tão perto do campo dos gregos que falou com os que montavam guarda, avisando-os que tinha alguma coisa a comunicar a Aristides, capitão dos atenienses. Aristides foi chamado imediatamente e assim que apareceu, o cavaleiro lhe disse: — "Sou Alexandre, rei da Macedónia, que pelo amor e amizade que vos tenho, lancei-me no maior perigo, para vir aqui a tais horas, para vos avisar que amanhã cedo Mardônio vos dará a batalha; a fim de que esta surpresa de vossos inimigos não vos assuste por serdes assaltados desprevenidos e não vos deixar combater valentemente, pois não é por nenhuma esperança ou confiança que lhe tenha surgido de novo, mas pela necessidade e escassez de víveres em que se encontra que o obriga a fazer isso, visto que cs adivinhos, tanto peles sinistros presságios dos sacrifícios como pelas respostas dos oráculos, tanto preveniram que podem vos dar a batalha, de maneira que todo seu exército está em grande pavor e sem esperanças, mas êle é forçado a tentar a sorte e confiar no acaso, ou bem se resolve a não sair do lugar e morrer de fome".

XXXVI. Depois que o rei Alexandre o advertiu, pediu-lhe para deixar se servir por êle e lembrar-se quando chegasse a hora, mas que não dissesse a ninguém; então Aristides respondeu-lhe que não era razoável calar uma coisa de tal responsabilidade a Pausânias, visto ser êle o encarregado principal e superintendente de todo o exército, mas prometeu-lhe que não diria a nenhum outro antes da batalha e que onde os deuses proporcionassem a vitória aos gregos, êle assegurava que não haveria pessoa alguma que não tivesse lembrança e recordação da boa vontade e da afeição demonstradas. Ditas estas, de uma parte e da outra, o rei Alexandre voltou de onde tinha vindo e Aristides ao sair dali foi direito à tenda de Pausânias, contando-lhe tudo. Imediatamente mandaram chamar os outros capitães e tiveram conselho de guerra, no qual foi ordenado que cada um manteria sua gente pronta para combater, porque no dia seguinte haveria batalha.

XXXVII. Pausânias, entretanto, como narra Heródoto (24), dirigiu-se a Aristides dizendo-lhe que queria transpor os atenienses da ponta esquerda para a ponta direita, a fim de terem pela frente cs nativos persas, que combateriam com mais dureza, tanto porque todos estavam habituados a combater contra eles como também porque já os havia vencido no primeiro encontro e desejava para si e seus soldados a ponta esquerda da batalha, onde deviam ficar os gregos que combatiam do lado dos persas. Ouvindo isto, todos os outros capitães se enfureceram, dizendo que Pausânias estava errado e não estava direito deixar os demais povos gregos nos seus lugares, onde sempre eram comandados, mudando somente os atenienses. Sem mais nem menos como se fossem escravos, para os colocar a seu bel prazer ora de um lado e ora do outro, jogando-os na frente dos inimigos mais belicosos; mas Aristides, lhes respondeu que não sabiam o que estavam dizendo e se mostravam assim agastados porque recentemente haviam contestado contra os tegeatos querendo somente a ponta esquerda da batalha, sentindo-se honrados com a preferência dos capitães que os haviam comandado e, no entanto, agora que os próprios lacedemônios, de boa vontade, lhes cediam a ponta direita, segundo se diz, largando entre suas mãos e entregando-lhes o principado de todo o exército, não aceitavam mais afetuosamente esta honra e não consideravam o ganho e vantagem que isto significava para eles, que não teriam nunca de combater contra aqueles que eram do mesmo sangue e da mesma origem que eles, mas contra os bárbaros que eram seus inimigos naturais. Depois que Aristides lhes fêz essas admoestações, ficaram contentes em mudar de lugar com os lacedemônios e não se ouvia outra coisa entre eles a não ser exortações que faziam uns aos outros para terem bastante coragem, dizendo ainda que os persas, ali presentes, não tinham outras armas nem corações melhores do que aqueles que haviam vencido e derrotado na planicie de Maratona: — "Pois são, diziam eles, os mesmos arcos, as mesmas vestes enriquecidas de bordados, as mesmas correntes e berloques de ouro sobre os corpos efeminados, que cobriam almas fracas, covardes e pusilânimes; e nós temos as mesmas armas e os mesmos corpos também, mas nossos corações tornaram-se maiores por tantas vitórias que ganhamos depois sobre eles e se há vantagem, não combatemos como nossos outros aliados gregos (25) somente por nossa cidade e nosso país, mas, ainda mais, para não perdermos o renome das proezas que conseguimos nos dias de Maratona e de Salamina, a fim de que não considerem que a glória desses troféus e dessas vitórias sejam devidas só a Milcíades, ou à sorte, mas à virtude dos atenienses".

(24) L. 9, § 45.

XXXVIII. Assim, enquanto estavam os gregos ocupados em trocar rapidamente a ordem de sua batalha, incontinenti os tebanos foram avisados por alguns traidores que passaram de um campo ao outro e deram a entender a Mardônio, o que estava sendo feito. Este, subitamente, trocou também a ordem da sua, pondo os nativos persas na ponta direita em face da esquerda dos inimigos; fêz isto porque teve receio dos atenienses ou porque, para maior glória, desejou combater contra os lacedemônios e ordenou aos gregos que tomaram seu partido, que deviam sustar os atenienses. Esta transposição foi tão clara que cada um podia vê-la, pelo que Pausânias mudou com rispidez os lacedemônios, colocando-os na ponta direita e Mardônio igualmente repôs os persas na esquerda, como estavam no começo, oposto aos lacedemônios, de tal forma que o dia se passou sem nada ser feito senão idas e vindas nessas mudanças; depois à noite os capitães gregos reuniram-se em conselho, no qual foi decretado que era preciso mudar seu acampamento e irem se alojar em lugar onde tivessem água mais à vontade, por causa dos inimigos que a gastavam e ordinariamente turvavam com seus cavalos os riachos e fontes que havia nos arredores.

(25) E uma falta de Amyot. Trata-se aqui dos persas e não dos aliados gregos. Devia portanto traduzir: — «Não combatemos como eles por uma cidade, por um país somente, mas para não perder o renome de proeza, etc.» Brotier. Creio que Amyot pegou bem o sentido dessa passagem, que é um pouco obscura no texto; poder-se-ia traduzir assim: — «Não combatemos como esses que combateram em Maratona por nossa cidade, etc.» Mas parece que não há nada a mudar na tradução de Amyot.

XXXIX. Por isso, vindo a noite, os capitães quiseram fazer partir seus soldados para irem se alojar aonde havia sido ordenado, mas eles iam de má vontade e tinham muito trabalho em os manter juntos, pois nem bem se encontraram fora das trincheiras e fortificações do campo, a maior parte correu para a cidade de Platéia, havendo uma grande desordem porque se espalharam daqui e dali, armando seus pavilhões onde bem lhes parecia sem que houvessem separado os quarteirés, menos os lacedemônios, que ficaram sós para trás, mas apesar deles, porque um de seus capitães chamado Amonfareto, homem corajoso que não conhecia nenhum perigo e não pedia durante muito tempo outra coisa senão a batalha, estava impaciente com tantas mudanças e dizia em voz alta e clara que essa troca de acampamentos não era outra coisa senão uma bela fuga e jurou que não sairia dali com a sua companhia e esperaria Mardônio. Pausânias foi à sua frente, admoestando-o que devia fazer o que os gregos em sua maioria haviam concluído e decretado no conselho. Amonfareto, pegando com as duas mãos uma pedra muito grande, atirou-a nos pés de Pausânias, dizendo: — "Veja o fardo (26) que eu me dou para concluir a batalha, não me preocupando mais com vossas outras conclusões covardes e pusilânimes". A teimosia desse homem assustou Pausânias que não sabia mais onde estava. Enviou à frente dos atenienses que já se achavam em caminho, solicitar que o esperassem, a fim que fossem juntos, quanclo fêz marchar o restante de seus soldados no caminho de Platéia, pensando que assim, afinal constrangeria Amonfareto a se levantar e sair dali, caso não quisesse ficar sozinho.

(26) Veja as Observações.

XL. Entrementes, chegou o dia. Mardônio, sendo avisado que os gregos abandonavam seu primeiro alojamento, imediatamente fêz marchar sua gente para batalha a fim de ir cair sobre os lacede-mônios. Atiraram-se os bárbaros com grandes gritos e grandes hurras, pensando não irem combater, mas somente saquear e despojar os gregos fugitivos, como de fato não precisaria muito. Pausânias, verificando a capacidade dos inimigos mandou parar as bandeiras e ordenou que cada um se preparasse para combater, mas esqueceu, seja pela cólera que sentia centra Amonfareto ou pelo espanto desta repentina carga dos inimigos, de dar o sinal de batalha, acontecendo que não vieram prontamente todos juntos ao combate, mas per pequenas tropas, umas daqui, as outras dali, quando a luta já havia começado.

XLI. Enquanto isto, Pausânias vagava fazendo sacrifícios aos deuses e vendo que seus primeiros sacrifícios lhe eram muito agradáveis, pelas observações que faziam os adivinhos, ordenou aos espartanos que pousassem sobre a terra, diante de seus pés, seus escudos e que não saíssem de seus lugares mas que tivessem somente olhos para o que lhes ordenassem sem se preocupar com a defesa contra os inimigos. Isto feito, pôs-se desabrido a imolar outros sacrifícios, quando já se aproximavam rápidos os soldados de cavalaria dos inimigos, chegando até eles seus golpes de flechas, de tal forma que houve alguns espartanos feridos, entre os quais o pobre Calícrates, o homem mais belo e maior que existiu entre os gregos, o qual foi ferido de morte por um golpe de dardo e entregando o espírito, na hora, disse que não lastimava sua morte, porque saíra de sua casa com a deliberação de morrer pela defesa da Grécia, mas arrependia-se de morrer assim tão covardemente, sem haver dado um só golpe com sua mão. Esta morte foi tristíssima (27) e a constância dos espartanos foi admirável, pois não saíram jamais de seus lugares, nem aparentaram querer se defender do inimigo que vinha sobre eles e sofriam ao serem furados pelos golpes de dardo e mortos imediatamente, esperando a hora que os deuses lhes mostrariam e que seu capitão lhes ordenasse para combater. Ainda dizem alguns que, como Pausânias estava perto, fazendo sacrifícios, pedidos e orações aos deuses, um pouco atrás da batalha, correu sobre êle uma tropa de lidianos que arrebatou e revirou de cima para baixo todo seu sacrifício; Pausânias e os que estavam à sua volta, não encontrando à mão outras armas, os expulsaram a golpes de bastão e de chicote; em lembrança desse fato, dizem que no aniversário, fazem uma procissão solene em Esparta, que chamam a procissão dos lidianos, na qual os rapazes são surrados e chicoteados à volta do altar. Pausânias estava angustiado por ver o sacerdote imolar vítimas sobre vítimas, sem encontrar uma agradável aos deuses; afinal virou os olhos chorando para diante do templo de Juno e, estendendo as mãos, suplicou a Juno Citeronina e a todos os outros deuses patronos e protetores da região de Platéia qüe não fosse para cumprimento de destinos fatais, que os gregos vencessem nesta batalha ou ao menos que não morressem sem vender muito caro sua morte aos vencedores e sem lhes fazer conhecer e sentir, pelo efeito, que haviam empreendido esta guerra contra homens valentes e que sabiam muito bem combater.

(27) Reproduziriam melhor o grego traduzindo: — Esse momento foi horrível e a constância dos espartanos admirável.

XLII. Pausânias não havia ainda terminado esta oração, quando os sacrifícios repentinamente se tornavam propícios, vindo os sacerdotes e adivinhos anunciar e prometer a vitória e a ordem, tendo ido, assim de mão em mão a ordem, por todas as fileiras, que marchassem contra os inimigos. Precisava-se ver o batalhão dos lacedemônios que não era senão um corpo, como algum animal corajoso que se erriçava, preparando-se para combater. Incontinenti, avisaram os bárbaros que teriam um encontro muito forte e encontrariam soldados que combateriam até o último suspiro, por isso se cobriram com suas grandes tar-gas persianas, atirando muitas flechas e dardos contra os lacedemônios, os quais, como estavam muito uni’ dos e apertados juntos, cobertos com seus escudos, iam sempre para a frente até que vieram tão viva-, mente ao seu encontro, fazendo voar suas targas fora do punho com grandes golpes de lanças e de dardos, dando-lhes através das faces e dos bustos com tal violência que diversos caíram por terra; os quais não morriam covardemente, pois pegavam com suas mãos completamente nuas as lanças e dardos dos lacedemônios, quebrando várias com a força dos braços, depois tiravam habilmente seus alfanjes e seus machados, com os quais combatiam conscientemente, até arrancar à força os boucliers dos lacedemônios e se agarrar corpo a corpo com eles, de maneira que resistiram durante muito tempo.

XLIII. Ora, enquanto os lacedemônios estavam assim agarrados ao combate contra os bárbaros, os atenienses esperavam em pé se bem que bastante longe dali, mas quando viram que demoravam tanto a chegar e ouvindo um grande barulho como de soldados combatendo e ainda mais quando chegou um mensageiro enviado às pressas por Pausânias, avisá-los, então puseram-se a caminho com a maior rapidez possível, para ir socorrer, mas enquanto caminhavam a largos passos através da planície para o lugar de onde julgavam ouvir o barulho, os gregos, que tomaram o partido dos bárbaros, chegaram à sua frente. Vendo isso, Aristides atirou-se à frente de suas tropas e primeiramente gritou em voz alta, o mais alto que pôde gritar, conjurando os gregos, em nome dos deuses protetores da Grécia, que se abstivessem desta guerra, e não causassem mais impedimento’ aos atenienses, os quais iam socorrer aqueles que punham suas vidas em perigo para defender o bem público e a salvação comum de toda a Grécia. Mas, quando viu que pelas súplicas e conjurações que lhes fazia, eles não queriam se afastar mas marchavam sempre de cabeça baixa para virem ao encontro, então desistiu de socorrer os lacedemônios e foi constrangido a fazer frente a esses que vinham sobre eles, havendo aproximadamente cinqüenta mil combatentes, dos quais no entanto, a maior parte logo debandou, retirando-se, quando souberam que os bárbaros haviam sido também rompidos e debandados. O mais forte da batalha e a luta mais áspera, ao que dizem, foi no lugar onde estavam os tebanos, porque os nobres e os principais do país combatiam diligentemente em favor dos bárbaros e o povo não, mas era levado por um pequeno número desta nobreza que os comandava.

XLIV. Assim, nesse dia, combateram em dois lugares, onde os lacedemônios foram os primeiros que romperam e mudaram em fuga os bárbaros, aí morrendo Mardônio, o tenente do rei, de uma pedrada que um espartano chamado Arimnesto lhe atirou na cabeça, cumprindo-se o que o oráculo de Anfiarao lhe havia predito e profetizado, pois Mardônio, antes da batalha enviara um lidiano e um cariano ao de Tro-fônio, do qual o profeta disse a resposta ao cariano em linguagem cárica: "e o lidiano dormiu dentro do santuário de Anfiarao e ali teve um aviso dormindo, que um dos ministros do templo ordenava que saísse do lugar onde estava, o que não quis fazer; então o ministro pegou uma grande pedra atirando-a na sua cabeça, de cujo golpe, pelo aviso, morreu"; assim contam.

XLV. Mas ao ficarem, os lacedemônios, expulsaram os persas fugitivos até dentro do recinto que haviam protegido e fortificado com o tabique de madeira. E algum tempo depois os atenienses também rompiam os tebanos, matando na hora, trezentos dos mais nobres e de maior aparência somente, porque no instante que os tebanos começaram a virar as costas, chegaram notícias aos atenienses que os bárbaros estavam fechados dentro do forte de madeira, onde os lacedemônios os mantinham cercados. Assim, deram oportunidade aos gregos fugitivos para se salvarem rapidamente e irem ajudar os lacedemônios a tomar o forte dos bárbaros, pois mantinham-se bastante frios, porque não estavam experimentados para assaltar e forçar uma muralha; imediatamente os atenienses chegaram, tomaram de assalto com uma grande carnificina de bárbaros, pois dos trezentos mil combatentes que havia no acampamento de Mardônio, salvaram-se apenas quarenta mil sob o comando de Artabazo e do lado dos gregos morreram aproximadamente uns mil e trezentos e sessenta ao todo, entre os quais havia cinqüenta e dois atenienses, todos da linhagem Aiântida, a qual nesse dia portou-se mais valentemente que qualquer outra, conforme escreve Clídemo. É a razão pela qual os Aiântidas faziam um sacrifício solene às ninfas Esfragitienas a expensas do erário público, seguindo o que lhes era ordenado pelo oráculo de Apolo, para lhes render graças daquela vitória. Dos lacedemônios morreram noventa e um e dos tegeatos apenas dezesseis.

XLVI. Mas, admiro-me que Heródoto (28) diga não ter havido senão esses povos que combateram naquele dia contra os bárbaros e nenhum dos outros gregos, pois o número de mortos e também as sepulturas mostram e testemunham que foi um feito comum a todos os gregos juntos, e, ainda mais, se apenas esses três povos tivessem combatido e todos os outros ficassem sem nada fazer, não teriam gravado sobre o altar que foi edificado no lugar da batalha um epigrama, cuja substância é a seguinte:

Os gregos vencedores, por grandes feitos de guerra
Expulsando os persas de sua terra,
Este cordial altar, comum a toda a Grécia
Erigiram à digna grandeza
De Júpiter, que de sua liberdade
Contra Medas foi o protetor.

XLVII. Deu-se esta batalha no quarto dia do mês que os atenienses denominam boedromion, que-é mais ou menos o mês de Julho (29) ou como contam os beócios, o vigésimo-sexto mês que denominam panemus, em cujo dia se faz ainda uma assembléia pública dos estados da Grécia, na cidade de Platéia, quando os platéanos erigem um solene sacrifício a Júpiter protetor da liberdade para o agradecer sempre por aquela vitória.

Não se deve estranhar essa desigualdade e discordância dos meses nem dos dias, visto que hoje em dia a arte da astrologia (30) está muito mais perfeitamente compreendida do que o era então.

(28) Pereceram nesta batalha trezentos e sessenta gregos. Heródoto, IX, 69, não fala dos cento e sessenta e nove homens que perderam os lacedemônios, os tegeatos e os atenienses. Eis o que Plutarco lhe censura.
(29) Veja as Observações.
(30) A astronomia.

XLVIII. Depois desta derrota dos bárbaros, levantou-se um tumulto entre os atenienses e os lace-demônios, no tocante ao prêmio e honra da vitória, porque os atenienses não queriam ceder seu direito aos lacedemônios nem lhes permitir que levantassem um troféu à parte, de tal medo que pouco faltou para que os gregos, nesta ocasião, ligados e amotinados uns contra os outros, não se destruíssem a si próprios, se Aristides, por admoestações e razões, não houvesse acalmado e retido os outros capitães seus companheiros, entre os quais, um Leccrates e um Mirônidas, para os quais, por meio de vivas persuasões e sábias palavras, conseguiu que concordassem em colocar a decisão final sob o arbítrio e o juigamento dos outros povos da Grécia. Reuniram-se os gregos todos no mesmo lugar para desfazer essa diferença e nesse conselho Teogitão, capitão dos megarianos, deu a sua opinião, de que era necessário, a fim de evitar a guerra civil, que estava por surgir entre os gregos, deferir o prêmio e a honra daquela vitória a qualquer outra cidade menos àquelas duas que o disputavam; em seguida levantou-se Cleócrito Corintio que todos julgavam querer a honra para a cidade de Corinto, porque era aquela que tinha mais dignidade em toda a Grécia, em seguida a Esparta e Atenas, mas êle falou em louvor dos plateanos, cujo discurso, todos acharam maravilhosamente honesto e foi recebido bem, pois foi de aviso que era ocasião de afastar toda a diferença cedendo o prémio e o lugar de honra à cidade de Platéia, porque nem uma nem outra parte não discordariam, que esses fossem honrados. Ainda não havia acabado de falar, quando Aristides, em primeiro lugar, concordou com seu aviso e acedeu em nome dos atenienses e depois Pausânias em nome dos lacedemônios.

XLIX. Estando todos assim concordes, devendo dividir o espólio entre eles, puseram de parte (31) oitenta talentos, que foram dados aos platéanos com os quais edificaram estes um templo a Minerva, dedicaram-lhe uma imagem e embelezaram todo seu templo com pinturas, as quais até hoje existem ainda completas. Os lacedemônios levantaram à parte seu troféu e os atenienses, o seu também; enviaram ao oráculo de Apolo na cidade de Delfos, para saber a que deuses e como deviam sacrificar; Apolo respondeu-lhes que edificassem um altar a Júpiter protetor da liberdade, mas não fizessem em cima, nenhum sacrifício, sem primeiramente apagarem todo o fogo que existia na região, porque havia sido poluído e contaminado pelos bárbaros, depois fossem buscar algum puro e limpo para o altar comum, sobre o qual sacrificariam a Apolo Pitiano, na cidade de Delfos.

(31) Quarenta e oito mil escudos. Amyot.

L. Ouvida esta resposta, os magistrados e oficiais dos gregos foram daqui e dali, por todo o país mandando apagar os fogos. Houve então um homem da cidade mesmo de Platéia, chamado Euquidas, o qual veio pessoalmente oferecer e prometer que traria o fogo do templo de Apolo Pitiano com a mais extrema diligência que lhe seria possível; chegado à cidade de Delfos, depois de haver aspergido e purificado seu corpo com água limpa, colocou sobre a cabeça uma coroa de louro e desse modo foi pegar o fogo sobre o altar de Apolo, retomando imediatamente seu caminho, correndo quanto pôde para a cidade de Platéia, onde chegou antes do sol posto. Assim, em um dia, caminhou mil estádios (32) que valem aproximadamente sessenta e duas léguas e meia, mas depois de haver saudado seus concidadãos e lhes livrar o fogo que trazia, caiu subitamente por terra, entregando o espírito. Os plateanos o levantaram morto, todo duro, enterrando-o dentro do templo de Diana, que cognominavam Euclia, que quer dizer, a boa fama, depois mandaram gravar sobre sua sepultura um epitáfio de tal substância:

Aqui faz sua última moradia Euquidas, que daqui correu Até Delfos, e voltou De lá aqui em um só dia.

Vários consideram que essa deusa Euclia, seja Diana e a chamam assim, mas há os que acham que era a filha de Hércules e (33) da ninfa Mirto, filha de Menócio e irmã de Pátroclo, que morreu virgem, sendo depois honrada e venerada pelos beócios e locrianos como uma deusa; pois em todas suas cidades encontram sempre nas praças públicas, um altar e uma imagem a ela dedicados, ofertando-lhe sacrifícios todos os que se casam, tanto homens como mulheres.

(32) Esses mil estádios fazem perto de quarenta léguas da França, com duas mil e quinhentas toesas cada uma.

LI. Desde então foi mantida uma assembléia geral de todos os gregos, na qual Aristides propôs que em cada ano todas as cidades da Grécia enviassem, em certo dia, seus deputados à cidade de Platéia para aí oferecerem orações e sacrifícios aos deuses, e também que de cinco em cinco anos aí celebrassem jogos públicos, que seriam chamados os jogos da liberdade; igualmente se decidiu que para guerrear os bárbaros levantariam em toda a Grécia dez mil infantes, mil cavalarianos, além de uma frota de cem velas. Idem, que os platéanos, daí em diante fossem considerados como santos e sagrados sem que fosse permitido prejudicá-los de forma alguma e que não tivessem outro trabalho senão sacrificar aos deuses pela salvação e prosperidade da Grécia. Todos esses artigos foram passados e autorizados, nento por ponto, sendo que os plateanos ficaram obrigados a fazerem todos os anos sacrifícios solenes aos gregos que foram mortos pela defesa da liberdade dentro de seu território. Isto fazem ainda até nossos dias.

(33) O grego não exprime que foi uma ninfa, e não podia ser, tendo nascido de parentes mortos.

LII. O décimo-sexto dia dc mês de memecte-tion, que os beócios chamam alalcomenos e é apre-ximadamente o mês de janeiro (34) realizam uma procissão na frente da qual marcha um trombetista que vai tocando (35) alarme, em seguida alguns carros carregados de ramos de murta (36) e com festões e chanéus de triunfo, depois um touro preto e certo número de crianças nobres, que levam grandes vrsos repletos de vinho e de leite que se costuma espargir como oblações propiciatórias sobre as sepulturas dos mortos; outros rapazes, de condição livre, levam óleos de perfumes e de odores dentro de frascos, pois não era permitido que alguma pessoa de condição servil se intrometesse nem se empregasse em nenhum ofício desse mister, pois aqueles de quem se honrava a memória, morreram combatendo para defender a liberdade da Grécia. Depois dessa apresentação toda, segue o último, aquele que na ocasião é (37) o preboste dos platéanos, ao qual, durante todo o resto do ano não é permitido tocar apenas em ferro, nem vestir roupagem de outra côr, a não ser branca, mas que na hora veste um saio tinto em púrpura e traz em uma das mãos um cântaro (38) que recebe na casa da cidade, e, na outra, uma espada toda nua, e marcha neste porte após toda a pompa precedente através da cidade até o cemitério onde estão as sepulturas dos que morreram no dia do mês em que se comemora o aniversário. Aí chegando retira a água de uma fonte que ali existe, com a qual, ele mesmo lava as colunas quadradas e as imagens que estão sobre as ditas sepulturas, untan-do-as com óleos de odores, em seguida imola um touro sobre um montão de madeira que já está pronto, nem mais nem menos como quando queimam os corpos de alguns mortos, fazendo súplicas e orações a Júpiter e a Mercúrio terrestres. Em seguida convida e admoesta para o festim dô sacrifício fúnebre, as almas daqueles homens valentes, que morreram combatendo pela liberdade da Grécia; toma uma taça que enche de vinho e derramando sobre suas sepulturas, diz essas palavras em voz alta: — "Bebo aos bravos e valentes homens que outrora morreram defendendo a franquia da Grécia". Os platéanos até hoje guardam ainda solenemente esta cerimônia de aniversário.

(34) É uma falha de Amyot. Memacterion não corresponde ao mês de janeiro, mas ao mês de outubro.
(35) Grego, uma ária guerreira.
(36) Mirto.
(37) O arconte.
(38) Uma jarra.

LIII. Em suma, quando os atenienses voltaram à sua cidade, vendo Aristides, que queriam a viva força, o governo do estado popular, cuja autoridade soberana estava entre as mãos do povo e estimando que o povo era digno e merecia que tivessem desvelo pela proeza e grandeza de coragem demonstradas nesta guerra e também vendo que seria bem desagradável forçá-lo a aceitar outro governo, levando em conta que tinham as armas nas mãos e o coração dilatado por tantas vitórias belas e gloriosas que havia ganho, lançou logo um edital: que a autoridade do governo ficasse entre as mãos de todos os cidadãos igualmente, que daí em diante todos os burgueses, tanto pobres como ricos, pudessem ser eleitos pelas vozes do povo, com o direito de promover aos ofícios e magistrados da cidade.

LIV. Afinal, como Temístocles, um dia, afirmasse em assembléia pública da cidade que havia propiciado uma coisa que era maravilhosamente útil, aproveitável e salutar à causa do povo, mas que haveria perigo dizê-la publicamente, o povo ordenou que a comunicasse então só a Aristides e consultasse com êle, para resolver se era conveniente ou não fazê-la. Então Temístocles disse-lhe em segredo que achava útil pôr fogo dentro do arsenal onde estavam todos os navios dos gregos, alegando que por esse meio os atenienses tornar-se-iam mais poderosos que quaisquer outros povos da Grécia. Tendo ouvido, a proposta, sem mais aquela, Aristides voltou-se para o povo e disse em plena assembléia que não podia haver coisa mais aproveitável para a causa pública em Atenas, nem também mais injusta e mais maldosa, "do que aquilo que Temístocles havia pensado fazer. Ouvida esta resposta, o povo ordenou a Temístocles que retirasse aquela sua proposição, tanto era o povo de Atenas amante da justiça e tanta confiança tinha na retidão e probidade de Aristides.

LV. Este foi enviado depois como capitão do exército ateniense, com Cimon, para perseguir e guerrear os bárbaros. Vendo que Pausânias e os outros capitães lacedemônios que enfeixavam nas mãos a superintendência de todas as forças militares eram rudes e rigorosos com os povos confederados, quando êle, ao contrário, falava delicadamente com eles, demonstrando-se o mais íntimo e o mais atencioso que podia, tornando seu companheiro semelhantemente acessível a todo mundo e igual para com todos, não humilhando uns para elevar outros nos cargos militares; fazendo isto, não repararam que êle tirava pouco a pouco aos lacedemônios a primazia da Grécia, não pelas armas, pelos navios, nem pelos cavalos, mas pelo bom senso somente e pela sábia conduta, pois se a justiça e a bondade de Aristides e a delicadeza e complacência de Cimon, tornavam o governo dos atenienses agradável e desejável aos outros povos gregos, a avareza, a arrogância e a altivez de Pausânias, o faziam ainda mais desejável, porque não falava nunca aos outros capitães dos povos aliados e confederados sem que estivesse enraivecido, repreenden-do-os rigorosamente e, quanto aos soldados, pelas menores faltas mandava-os chicotear ultrajantemente ou então fazia ficar um dia inteiro o culpado de pé com uma âncora pesada de ferro sobre os ombros. Não havia quem ousasse buscar forragem ou pegar a palha ou o junco para fazer enxergas, nem quem ousasse levar a beber seus cavalos diante dos espartanos, pois havia colocado guardas que expulsavam a chicotadas os que apareciam à sua frente. E um dia em que Aristides pensou dizer e adverti-lo de alguma coisa, franziu sua fisionomia e respondeu-lhe que não tinha tempo para falar com êle nem o queria ouvir.

LVI Nessa ocasião, os capitães dos outros gregos, mesmo os de Quio, de Samos e de Lesbos, colocaram-se depois juntos de Aristides para o persuadir a ficar com o cargo e autoridade de comandar os outros povos gregos e tomar sob sua guarda os aliados e confederados, que de há muito não procuravam outra coisa senão se livrar da obediência aos lacedemônics e submeterem-se aos atenienses. Aristides lhes respondeu que não somente tinham razão em fazer o que diziam, mas que se achavam totalmente constrangidos; todavia, para dar aos atenienses ocasião de assegurar sua fé e lealdade, era preciso que houvesse algum caso notável contra os lacedemônios, pelo qual seus povos não ousassem mais doravante dividir-se com os atenienses. Ouvindo tal, Ulíades Samiano e Antágoras de Quio, capitães de galeras, conjurados juntos, foram um dia investir um de um lado e o outro do outro lado da galera capitanea de Pausânias, muito perto de Constantinopla (39) quando navegava na frente da frota. Vendo isso, Pausânias incontinenti levantou-se colérico, ameaçando-os que dentro de poucos dias lhes faria saber que valia mais para eles assaltarem seu próprio país do que persegui-lo, mas lhe responderam que se retirasse habilmente se era sábio e que agradecesse corajosamente a sorte, a qual havia querido que sob a sua conduta os gregos tivessem levantado a vitória no dia de Platéia e que não tinha outra coisa senão aquela recomendação que havia até então retido os gregos e preservado de fazê-lo pagar todo o mal que seu orgulho e sua arrogância mereciam. Afinal aconteceu que se separaram dos lacedemônios e se colocaram ao lado dos atenienses.

(39) Grego, Bizâncio.

LVII. Nisto se pode claramente ver e conhecer uma grandeza de coração e magnanimidade admirável dos lacedemônios, pois quando perceberam que seus capitães se prejudicavam e se corrompiam devido à grande autoridade e licença que possuíam, deixaram voluntariamente a superioridade que, tinham sobre os outros gregos e cessaram de enviar seus capitães para obter a superintendência de todo o exército grego, preferindo antes que seus cidadãos fossem obedientes e observassem ponto por ponto a disciplina e as ordenanças de seu país, do que tivessem eles a presidência e superioridade sobre toda a Grécia.

LVIII. Ora as cidades e povos da Grécia contribuíam com regular soma de dinheiro para ajudar nas despesas da guerra contra os bárbaros, mesmo desde os tempos em que os lacedemônios tinham superioridade, mas depois que esta foi retirada, cs gregos quiseram que se fizesse um corte, pelo qual cada cidadão foi razoavelmente cotizado segundo suas posses, a fim de que cada um soubesse quanto devia pagar e para esse fim solicitaram Aristides aos atenienses, ao qual conferiram poderes e ordem de cotizar e taxar igualmente cada cidade, considerando o tamanho de seu território e a sua renda, de acordo com o que poderia e deveria razoavelmente ter. Mas se Aristides era pobre, quando tomou posse deste cargo e de tão grande autoridade, segundo se diz, em que a Grécia se submetia toda à sua discreção, saiu ainda mais pobre; criou a taxa e situação de acordo, não só justa e honestamente, mas com vantagem, tão equitativamente segundo a posse de cada um, não havendo pessoa alguma que ficasse descontente. E em tudo, assim como os antigos celebraram e cantaram a felicidade daqueles que viveram sob o reinado de Saturno, que chamaram a idade áurea, também fizeram depois os povos aliados e confederados dos atenienses com relação à taxa que então foi distribuída por Aristides, denominándolo "o bom e feliz tempo da Grécia" (40) mesmo quando algum tempo depois foi dobrada e depois de repente, triplicada, pois a taxa de Aristides subiu aproximadamente quatrocentos e sessenta talentos (41); e Péricles a aumentou quase de uma terça parte, por isso, Tucí-dides escreve, no começo da guerra Peloponésica que os atenienses pagavam seiscentos talentos (42) para cada ano sobre seus aliados. Depois da morte de Péricles os oradores e intermediários nos negócios públicos, a levantaram pouco a pouco até atingir a soma de mil e trezentos talentos (43) não tanto porque aquela guerra fosse assim de grande despesa, mas por causa da sua duração e das perdas que os atenienses tiveram, ficando o povo acostumado a fazer distribuição diária de dinheiro, a exercitar-se nos jogos, a fazer belas imagens e edificar templos magníficos.

LIX. Assim Aristides, com razão era honrado, louvado e considerado de todo o mundo por esta justa imposição de sua estatura moral, exceto da parte de Temístocles, o qual ironizava e dizia que aquilo não era um louvor, propriamente, a um homem de bem, mas antes a um cofre bem fechado, onde se pode pôr com segurança o dinheiro; dizia isso para se vingar, mas não o melindrar tão acremente como Aristides o havia ofendido abertamente e ao vivo, quando um dia, conversando amigavelmente, Temís tocles lhe disse considerar que a mais excelente virtude que poderia possuir um capitão, era o saber descobrir e prever os planos e empresas dos inimigos. "Isto, respondeu Aristides, é bem necessário, mas também é coisa honesta e verdadeiramente digna de um bom governador e chefe militar, ter as mãos limpas e não se deixar corromper pelo dinheiro".

(40) Leia: «e sobre tudo».
(41) Duzentos e setenta e seis mil escudos. Amyot.
(42) Trezentos e sessenta mil escudos. Amyot.
(43) Setecentos e oitenta mil escudos. Amyot.

LX. Aristides, então, fêz os outros povos gregos jurar que observariam ponto por ponto os artigos da aliança e êle mesmo como capitão geral jurava em nome dos atenienses; e pronunciando as execrações e maldições contra os que traíssem seu juramento, mandou jogar massas de ferro ardentes dentro do mar e como pedindo aos deuses assim fossem extintos e exterminados aqueles que violassem sua fé; todavia, depois, quando os negócios obrigaram segundo penso, os de Atenas a reter um pouco violentamente seu domínio, disse aos atenienses que atirassem todas as execrações e maldições sobre êle e que pensando bem, não deixassem mais por temor delas fazer as coisas que achassem ser convenientes.

LXL Resumidamente Teofrasto escreve que era êle um personagem perfeitamente reto e justo nas coisas particulares, de homem para homem, mas no governo fazia muita coisa segundo a exigência dos tempos e segundo as ocorrências de sua cidade, a qual constantemente necessitava de grande violência e mesmo de grande injustiça, como quando pôs sob deliberação do conselho, se deviam retirar o ouro e a prata que estavam depositados e economizados na ilha de Deles, no templo de Apolo, para suprir os negócios de guerra contra os bárbaros e transportar dali para Atenas, segundo o que os sâmios haviam disposto, se bem que fosse diretamente contra os artigos do tratado da aliança disposta e jurada entre todos os gregos. Quando perguntaram a Aristides sua opinião, respondeu que não era justa mas que era aproveitável; isto, no entanto, depois de haver posto seu país e dado a sua cidade a superioridade de comandar tantos milhares de homens, continuando sempre em sua pobreza habitual e amando sempre, até a sua morte, tanto o louvor e a glória que lhe vinham de sua pobreza, como das vitórias e troféus que havia ganho, o que se pode julgar e conhecer pelo fato que a seguir narramos.

LXII. Cálias, o porta-tocha de Ceres, que era seu parente próximo, foi entregue à Justiça acusado de crimes capitais. Quando chegou o dia em que a causa devia ser julgada, analisaram friamente e muito superficialmente os outros crimes dos quais o acusavam, mas extravasando fora da matéria principal, falaram desta maneira aos juízes: — "Senhores, vós todos conheceis Aristides, o filho de Lisímaco e sabeis como, por sua virtude, é estimado entre todos os gregos, como saberia ser um ser vivente. Como sabeis, vive em sua casa, e vós o vedes aparecer em público e ir à cidade com uma pobre veste toda rasgada e usada! Nós o vemos em público tremer de frio por estar mal vestido, suportar fome em sua vida de homem! E, no entanto, este Cálias que é seu pri-mo-irmão e o mais rico e opulento de todos os burgueses de Atenas, é tão infeliz, que deixa Aristides bem como sua mulher e seus filhos em necessidade, enquanto vive cheio de prazeres, devido à reputação que lhe concedeis".

LXIII. Cálias, vendo que seus juízes se enterneciam e se irritavam contra êle, mandou chamar Aristides ao tribunal, intimando-o a trazer como testemunho da verdade, se não havia por diversas vezes recebido de presente boa soma de dinheiro, o que não quis nunca aceitar, respondendo sempre que podia mais e com melhor direito vangloriar-se da sua pobreza do que êle de sua riqueza. Encontrava-se muita gente que usava, alguns, bem, outros, mal, sua riqueza, mas não era nada fácil encontrar um que suportasse virtuosamente e magnânimamente a pobreza a não ser aqueles que são pobres mas que tinham vergonha de o ser. Aristides testemunhou que a verdade era tal como êle dizia. Não houve um dos assistentes que contestasse e que não saísse com esta opinião e esta vontade que era preferível ser pobre como Aristides do que rico como Cálias. Assim escreveu Ésquines o filósofo Sócrates: Platão difere pouco, que todos os que eram considerados e renomados em Atenas não faziam caso senão dele: — "Pois os outros, diz êle, como Temístocles, Cimon e Péricles supriram e embelezaram bem a cidade de pórticos, de edifícios, de ouro e prata e outras coisas supérfluas e curiosas, mas Aristides, é o único que dirigiu todos os seus feitos com a virtude de um bom governo da coisa pública".

LXIV. Pode-se assim evidentemente conhecer a grande bondade e eqüidade que havia no caráter de Aristides, mesmo pelo seu comportamento para com Temístocles, do qual foi sempre inimigo e adversário em todas as coisas e devido à sua perseguição e às suas tramas, banido de Atenas; no entanto, não quis aproveitar a ocasião e o meio, quando Temístocles foi acusado, por crime contra o povo e asperamente perseguido por Cimon, Alcmeon e vários outros contra êle mal intencionados; Aristides pois, na ocasião, não fêz nem disse coisa alguma em seu prejuízo, nem para sua desvantagem e não se alegrou por ver seu inimigo na adversidade, como também nunca havia invejado sua prosperidade.

LXV. Quanto à sua morte, uns dizem que morreu no reino de Ponto, onde fora enviado para tratar de negócio público; outros afirmam que morreu de velhice na cidade de Atenas, grandemente amado, honrado e considerado por todos seus concidadãos. Mas Crátero, o Macedónio, descreve sua morte desta forma: — "Depois que Temístocles se foi, diz êle, o povo de Atenas tornou-se orgulhoso e insolente, e isto foi causa de fazer surgir um grande número de caluniadores que se puseram a depor e acusar falsamente os primeiros homens e principais personagens da cidade, ajudados pela inveja e maledicência da plebe que não se orgulhava com a prosperidade de seus negócios e nem com o aumento de seu poder, entre os quais Aristides, que foi acusado de fraude e malversação de dinheiro público, por um tal Diofanto, natural do bairro de Anfítropo, que o acusou de receber dinheiro dos jonianos, ao levar o tributo que pagavam anualmente e que por não poder pagar a multa quando ao ser condenado, que era de quinhentos escudos (44), foi obrigado a abandonar a cidade de Atenas, indo para Jônia, onde morreu. Todavia, esse Crátero não alegou um testemunho, nem um argumento para comprovar o que disse, nem a discussão a respeito, nem a sentença de condenação, nem decreto algum referente ao caso, quando estava acostumado a recolher diligentemente tudo e citar sempre os autores. Além de tudo, todos os outros que escreveram e organizaram uma coleção das faltas que o povo ateniense cometeu outrora contra seus capitães e governadores, alegando o exílio de Temístocles, o cativeiro de Milcíades, que morreu na prisão, a multa a qual foi condenado Péricles, a morte de Paques que se suicidou dentro da tribuna, quando se viu condenado, e, muitas histórias mais a que anexaram a expulsão de Aristides, mas não fazem menção alguma da condenação a que se refere Crátero.

(44) No grego: cinqüenta minas.

LXVI. Ainda hoje existe a sepultura de Aristides sobre o porto de Falero, que foi feita às expensas do erário público, porque morreu tão pobre, que não encontraram em sua casa nada com que se pudesse exumá-lo; diz-se ainda mais, que por decreto do povo, suas filhas casaram às custas do tesouro público e cada uma recebeu no casamento três mil dracmas" de prata (45). Quanto a seu filho Lisímaco deram-lhe cem minas de prata (46) e cem arpentes de terra (47) e deram ordem para quatro dracmas de prata (48) por dia de provisão comum por solicitação de Alcibíades, que levou o decreto avante. Além de tudo isso, Lisímaco deixou só uma filha chamada Polícrita, para a qual o povo ordenou, como afirma Calisteno, provisão para viver igual à daqueles que levantavam o prêmio dos jogos olímpicos. Pois Demétrio, o Faleriano, Jerônimo, o Rodiano, Aristoxeno, o músico e Aristóteles, o filósofo, se é que o tratado intitulado Da Nobreza, seja verdadeiramente obra de Aristóteles, todos juntos afirmam que uma Mirto, filha da filha de Aristides, casou-se (49) com o sábio Sócrates, que a desposou (se bem que tivesse outra esposa) porque era viúva e não encontrava com quem se casar por causa de sua pobreza e tinha dificuldade para viver. Todavia, Panecio responde e contesta bastante tudo isto, nos livros que escreveu sobre a vida de Sócrates. Mas Demétrio Faleriano diz em seu livro que intitulou Sócrates, que estava bem lembrado de haver visto um Lisímaco, filho do filho ou da filha de Aristides, que era muito pobre e vivia com o que podia ganhar interpretando sonhos por meio de certas tábuas, onde estava escrita a arte de expor os significados dos sonhos mantendo-se ordinariamente junto do templo de Baco, que chamam Jaquion, o qual juntamente com sua mãe e sua irmã, diz ter por ordem do povo, para os ajudar a viver, dado a cada um, um trióbolo (50) por dia.

(45) São aproximadamente trezentos escudos. Amyot.
(46) Mil escudos. Amyot.
(47) Ë um erro de Amyot. No grego, cem pletros. O ple-tro grego é de cem pés quadrados, e, o arpente é de cem varas quadradas; a vara de Paris, que é a menor, tem dezoito pés. (Pietro — antiga medida de comprimento que valia a sexta parte do estádio ou cem pés, aproximadamente trinta metros).
(48) Treize sous et quatre (65 centavos e quatro). Amyot.

LXVII. É bem certo que esse mesmo Demétrio Faleriano, reformando o estado de Atenas, ordenou que seria dado à mãe e à filha, pelo público, por dia, uma dracma de prata (51) e não se deve considerar novidade nenhuma que o povo de Atenas tivesse um tão grande cuidado em exercer a caridade para com essas mulheres que inspiravam compaixão na cidade, atendendo que outrora, sendo avisados que uma neta de Aristogitão (52) encontrava-se na ilha de Lemnos, pobre e mesmo em estado de penúria e que devido a isto não podia achar marido, fizeram-na vir a Atenas, casando-a em uma das mais nobres casas da cidade e deram-lhe como dote uma posse no bairro de Pótamos. Esta cidade sempre praticou no passado e ainda pratica no presente, até nossos dias, grandes atos de bondade e de humanidade pelos quais é de direito grandemente louvada, prezada e honrada de cada um.

 

(49) Ver as Observações.
(50) Aproximadamente vinte moedas tornesas. Amyot. (Tornes — moeda cunhada até o século XIII em Tours (França) e depois da moeda real cunhada pelo modelo da de Tours).
(51) Trois sous et quatre (quinze centavos e quatro). Amyot.
(52) Ver as Observações.


Fonte: Edameris 1960. Vidas dos Homens Ilustres, tomo III. Tradução de José Carlos Chaves a partir da edição francesa de Amyot.

 

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Plutarco – Vidas Paralelas

COMPARAÇÃO ENTRE DEMÉTRIO E ANTÔNIO

Sendo que um e outro, isto é, Demétrio e Antônio tenham em comum isto, que ambos foram sujeitos às mesmas mudanças e grandes variedades de fortuna, consideremos agora qual foi e de onde veio o poder de um e de outro, e como eles chegaram a tão grande autoridade. Primeiramente, é certo que o poder de Demétrio era hereditário, e adquirido anteriormente, por seu pai, Antígono, que se tornou o mais poderoso de todos os sucessores de Alexandre, e tinha conquistado a melhor e a maior parte da Ásia, antes de Demétrio ter atingido a idade adulta. Antônio, ao contrário, tendo nascido de um pai honrado, mas que não era homem de guerra, e que não lhe havia deixado os meios para conquistar tão grande glória, ousou introme-ter-sle no império de César, que por direito hereditário não lhe competia absolutamente em nada: e se tornou por si mesmo sucessor do poder, que o outro por seu trabalho e esforço havia adquirido e tornou-se tão grande, sem auxílio de outrem, unicamente com sua iniciativa, que estando o império do mundo dividido em duas partes, ele teve uma, a qual era a da maior importância. Estando ausente, por meio de seus generais venceu em várias batalhas aos partos, e organizou as nações bárbaras que habitam em redor do Cáucaso, até o mar de Hircano. E isto, mesmo que se lhe impute como reprovação e censura, dá testemunho de sua grandeza. O pai de Demétrio fê-lo desposar com grande alegria a Filia, filha de Antípater, embora ela fosse muito velha para ele, porque ela era de uma linhagem mais nobre que a sua; o que se reprova a Antônio foi o casamento com Cleópatra, senhora que sobrepujava em nobreza de sangue e poder a todos os reis de seu tempo, exceto Arsa-ces: e tornou-se por si mesmo tão poderoso que os outros o julgavam digno de muito grandes coisas que ele mesmo não queria.

II. Quanto à intenção e vontade que moviam a um e outro para conquistar impérios, era reta e irrepreensível em Demétrio, que queria dominar e reinar sobre os povos que tinham sempre sido governados e dirigidos por reis, desde todos os tempos: mas a de Antônio era má e tirânica, pelo que ele queria sujeitá-los ao povo romano, há pouco livre da monarquia de César. Mesmo o maior e o mais famoso feito de armas que jamais Antônio realizou, isto é, a guerra na qual ele derrotou Cássio e Bruto, não foi feita por outro fim senão para tirar a estes cidadãos e ao seu país, sua liberdade e franquia: Demétrio, porém, ainda antes que a fortuna o tivesse reduzido aos extremos, não deixou de libertar a Grécia e de expulsar as guarnições que ocupavam as cidades submetidas, não como Antônio, que se vangloriava e se gabava de ter matado os que tinham restituído a Roma a sua liberdade.

III. Uma das coisas que mais se louva em Antônio é sua liberalidade e magnificência, no que Demétrio o superou de muito, pois ele deu mais aos seus inimigos do que jamais Antônio aos seus amigos, embora ele fosse estimado, porque ordenou que o corpo de Bruto fosse honrosa e suntuosamente sepultado. Demétrio, porém, mandou sepultar todos os inimigos que tinham morrido na batalha e restituiu a Ptolomeu todos os que tinha aprisionado, com presentes e dons que ainda lhes fez.

IV. Eram ambos insolentes em sua prosperidade e dissolutos e voluptuosos em seus prazeres: mas, nao se poderia dizer jamais que Demétrio tenha deixado escapar as ocasiões de fazer grandes coisas, para se entregar aos seus prazeres, mas a eles se entregava somente depois de tê-las terminado e quando estava em descanso: divertia-se na companhia de Lâmia, na verdade, como se faria em ouvir contar histórias, se nao se sabe o que fazer, e quando se tem grande vontade de dormir, mas quando se tratava de fazer os preparativos para a guerra, não havia hera na sua lança, nem seu elmo rescendia de perfumes, nem êle saía dos aposentos das damas, enfeitado e elegante, para ir ao campo de batalha, mas abandonava as danças, e fazia cessar todos os divertimentos, tornando-se, como dizia o poeta Eurides:

Soldado de Marte cruel e desumano.

Em suma, jamais lhe aconteceu por sua preguiça ou descaso, nem por se ter demorado demais em seus prazeres, algo de desastroso: como vemos em quadros, em que Onfalo tira secretamente a maça de Hércules, e o despoja de sua pele de leão, assim muitas vezes Cleópatra desarmou a Antônio e o atraiu a si, fazendo escapar de suas mãos negócios de grande importância, viagens e expedições necessárias, para ir divertir-se e passar o tempo nas margens do Canoboe de Tafosiris. Finalmente, assim como Paris fugiu da batalha e foi se esconder entre os braços de Helena, o mesmo fez ele, no seio de Cleópatra, ou melhor, Paris escondeu-se no aposento de Helena, mas Antônio, para seguir a Cleópatra, fugiu e deixou perder-se a vitória.

V. Além disso Demétrio tinha várias mulheres ao mesmo tempo, o que não era proibido nem censurável entre os reis da Macedónia, mas era até mesmo uma coisa comum desde Felipe e Alexandre, como também o tinham Lisímaco e Ptolomeu, e honrava a todas, as quais desposava. Mas Antônio, em primeiro lugar, casou-se com duas mulheres ao mesmo tempo, o que nenhum romano havia ainda se atrevido a fazer. Em segundo lugar, ele abandonou e repudiou a romana, e a que tinha legitimamente desposado por amor de uma estrangeira, e à qual tinha tomado somente por amor passageiro, e não segundo as leis: por conseguinte, àquele nenhum mal aconteceu por erro ou injustiça que tivesse cometido contra suas esposas, e a este, ao invés, por esse motivo vieram-lhe os maiores males e as mais desastrosas conseqüências.

VI. É verdade que entre os efeitos de Antônio, não há a malignidade que existe entre os de Demétrio: pois os escritos deixaram declarado que não se permitia que os cães entrassem em todo o palácio de Atenas, porque este animal dentre todos os demais, é o que se mistura, mais publicamente, com as fêmeas; e êle mesmo no templo de Minerva dormia com meretrizes e também corrompeu e violou várias burguesas da cidade: e além disso, o vício que se julgaria ser o menos misturado às dissoluções e delícias, isto é, a crueldade, está unido à concupiscência de Demétrio, o qual deixou, ou melhor, obrigou a morrer piedosamente o mais belo e o mais casto dos jovens dentre os atenienses, para evitar de ser agarrado à força; em suma devemos dizer que Antônio pela sua incontinência fazia mal somente a si próprio, e Demétrio aos outros.

VII. Quanto aos seus parentes, Demétrio, jamais prejudicou a quem quer que seja, e Antônio abandonou o irmão de sua mãe à morte, para poder matar a Cícero, o que por si mesmo é tão condenável, tão mau e tão cruel, que com grande dificuldade mereceria ser-lhe perdoado, ainda que ele tivesse sido obrigado a fazer Cícero morrer para salvar a vida de seu tio.

VIII. Quanto ao terem violado seu juramento e faltado à sua palavra, um, prendendo Ar-tabazo e o outro, matando a Alexandre, Antônio, fora de dúvida, tinha um motivo de verdade: pois o outro o havia traído e abandonado na Média; mas Demétrio, ao que muitos dizem, inventou os motivos que atribuiu falsamente a Alexandre, para encobrir o assassínio que tinha cometido; julgou que ele caluniou aquele ao qual ele tinha feito mal, e não se vingou daquele que lhe queria fazê-lo.

IX. Por outra parte, Demétrio mesmo realizava seus feitos e empresas guerreiras, que descrevemos na sua vida: e Antônio, ao contrário, quando êle lá não estava em pessoa, conquistava brilhantes vitórias por meio de seus lugar-tenentes: e foram ambos derrotados e desbaratados estando presentes, em pessoa, à batalha, não porém, do mesmo modo: pois um foi destituído por seus homens, porque os macedônios o haviam abandonado, e o outro, ao contrário, abandonou os seus; pois fugiu deixando aos que por seu bem e sua honra arriscavam-se ao perigo da morte: assim a falta que um cometeu está nisto, que êle tornou inimigos aqueles mesmos que combatiam por êle, e o outro, em que êle abandonou tão covardemente àqueles que lhe dedicavam tão grande amor e lhe tinham prestado fidelidade.

X. Quanto à morte, não se saberia louvar uma ou outra; há, porém, muito mais a se lastimar e censurar na de Demétrio, que se deixou aprisionar e depois de ter sido condenado e desterrado, teve ainda ânimo de querer viver por três anos, com grande moleza, para servir ao seu ventre e à sua boca, à maneira dos animais irracionais: quanto a Antônio, êle matou-se, para dizer a verdade, muito tímida e miseravelmente, com grande tristeza e pena-mas ao menos, foi assim que seu corpo caiu em poder do seu inimigo.


Fonte: Edameris. Tradução de Padre Vicente Pedroso.

 

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PLUTARCO: VIDAS PARALELAS.

A COMPARAÇÃO ENTRE PÉRICLES E FÁBIO MÁXIMO

É isso o que se encontra escrito a respeito dessas duas grandes personagens. E como acontece terem ambas deixado belos exemplos de virtude, tanto em assunto de guerra como de governo, comecemos a confrontá-los. Péricles, em primeiro lugar, veio à direção dos negócios de sua república, quando o povo ateniense estava no ápice de sua prosperidade, na flor do seu poder e em abastança maior do que jamais estivera antes e que jamais veio a superar. Poderia parecer ter sido essa a causa de Péricles ter mantido seu país firme, em perpétua segurança sem nunca sucumbir. Não teria sido tanto por seu valor, como pela pujança e florescimento gerais. Os atos de Fábio, ao contrário, se verificaram nos tempos mais infelizes e humilhantes de seu país, durante os quais êle não conserva apenas sua cidade na plenitude de seus bens, mas tirando-a do estado calamitoso em que se encontrava, a reconduz a uma situação melhor.

II. As venturosas façanhas de Cimon, as vitórias e troféus de Mirônides e Leocrates e os diversos grandes e belos feitos de armas de Tolmides, deram a Péricles os meios de manter sua cidade em festas e jogos, enquanto esteve no governo. Não lhe foi necessário conservá-la pela força das armas, ou reconquistar o que houvesse perdido. Fábio, em contraste, vendo diante de si inúmeras fugas, derrotas e desbaratos; muitos assassínios e mortes de capitães generais dos exércitos romanos; vendo os lagos, as planícies, os bosques, cheios da sua destruição; os rios e ribeirões regorgitando até o mar, de sangue e de cadáveres, assumiu o governo de sua cidade e procedendo de forma totalmente diversa dos demais, sustentou-a e deu-lhe arrimo, impedindo-a de tombar aniquilada pela devastação e ruína, causadas por outros.

III. Poder-se-ia também dizer, entretanto, que não é tão difícil dirigir uma cidade humilhada pelo revés, a qual se deixa governar pelo mais sábio, constrangida pela necessidade, quanto conseguir refrear a altivez e insolência de um povo envaidecido e educado em longa prosperidade, como Pericles conseguiu dos atenienses.

IV. A grande quantidade de tantos e tão graves desastres que caíram sobre os romanos, revelou também a Fábio, como personagem grave e constante, que não se deixava arrastar pela gritaria da plebe, nem jamais se divorciava de suas primeiras decisões.

V. E pode-se opor à tomada de Samos, que Péricles conquistou pela força, a recuperarão de Tarento; à ilha de Eubéia, a das cidades da Campânia (1) obtidas por Fábio, excetuada a de Cápua que foi reconquistada pelos cônsules Frúrio (2) e Ápio. Parece todavia, não ter Fábio jamais vencido qualquer batalha a não ser aquela em virtude da qual obteve o triunfo pela primeira vez. Péricles, em contraste, levantou nove troféus de batalhas e vitórias obtidas tanto por mar como por terra.

(1) O texto de Amyot diz — Campagne — A nota do editor — Campânia.
(2) Fúlvio e Ápio, cônsules no ano 542 de Roma.

VI. É verdade também que não se poderia alegar um ato de Péricles semelhante ao de Fábio, quando arrancou Minúcio das mãos de Aníbal e preservou um exército inteiro dos romanos. Foi essa, sem nenhuma dúvida, ação digna de grande glória, tendo, como teve, sua origem em sua coragem, sabedoria e bondade, conjuntamente. Jamais entretanto, cometeu Péricles um erro semelhante ao de Fábio ao ver-se iludido e superado por Aníbal no estratagema dos bois, ocasião na qual encontrando o inimigo que, por uma infelicidade se encerrara a si mesmo em um vale, deixou-o escapar, à noite por sua sutileza e de dia por sua força. Fábio, superado então, por contemporizar excessivamente, foi batido por aquele a quem tivera dominado.

VII. E se, a um bom capitão cabe não só usar corretamente, em um momento dado, aquilo que tem nas mãos, mas também prever com sabedoria o futuro, veja-se que a guerra de Atenas terminou exatamente na forma prevista por Péricles. Por ambição de querer expandir-se em excesso, perderam os atenienses, seu estado. Os romanos, ao contrário, enviando Cipião à África para ali fazer a guerra aos cartagineses, obtiveram tudo quanto quiseram.

Seu capitão venceu os inimigos, não por acaso, mas por valentia e ação. A capacidade de Péricles na previsão do futuro foi testemunhada pela ruína posterior do seu país. O erro de Fábio, foi demonstrado pelo feliz resultado da empresa que êle pretendeu impedir. Ora, tanto é falha num capitão sofrer alguma dificuldade não esperada ou prevista, como, por desconfiança, deixar passar a ocasião propícia para um grande empreendimento, quando essa ocasião se apresenta. Em ambos os casos, é a mesma falta de experiência que engendra a temeridade de um e tira a segurança do outro. Isso quanto a seus leitos de guerra.

VIII. Quanto aos atos do governo civil, é Péricles altamente passível de censura por ter sido o autor da guerra. Considera-se realmente ter sido êle apenas o seu causador, obstinando-se em nada ceder aos lacedemônios. Cabe-se ponderar, entretanto, que Fábio Máximo também, nada concedeu aos cartagineses, fazendo frente, ousada e corajosamente a todo o perigo, para manter, contra eles, o império do seu país. A mansuetude e clemência porém, reveladas por Fábio em relação a Minúcio, condenam bastante as lutas e manobras de Péricles contra Cimon e Tucí-dides, ambos gente de bem e de honra, partidários da nobreza, expulsos e banidos por êle da cidade em certo momento. A autoridade e o poder de Péricles eram também maiores em sua república. Êle impediu cm seu tempo, por meio dessa autoridade, que qualquer capitão viesse a exercer a própria loucura e temeridade, em detrimento público. Excetuou-se apenas Tolmides que lhe escapou e, contra sua vontade, foi chocar-se contra os beocianos, entre os quais sucumbiu. Todos os demais aderiram a êle, submetendo-se à sua orientação, tão grande era seu prestígio. Fábio, nesse campo, embora pessoalmente não cometesse falta, agindo sempre com segurança, parece incompleto, a esse respeito, por não ter sido bastante forte para impedir os erros alheios. Os romanos não se teriam precipitado em tantas calamidades, se êle, em Roma, detivesse tanta autoridade quanto Péricles em Atenas.

IX. Em relação à liberalidade, um a demonstrou não querendo aceitar dinheiro a êle oferecido, e outro dando-o aos necessitados e resgatando seus concidadãos prisioneiros. É de considerar-se todavia que êle não despendeu soma muito grande em dinheiro, mas apenas cerca de três mil e seiscentos escudos. (3) Não seria fácil, em relação a isso, calcular quanto Péricles poderia acumular em dinheiro e presentes, valendo-se do seu poder, tanto dos súditos e dos próprios aliados, como de reis e príncipes estrangeiros. Êle, no entanto, conservou as mãos sempre limpa de toda a concussão.

X. Quanto ao mais porém, em relação à beleza e pompa dos templos, obras e edifícios públicos, nem todos os ornamentos em conjunto, existentes em Roma antes do tempo dos Césares, (4) podem ser comparados àqueles com que Péricles embelezou e ornou a cidade de Atenas. Não há proporção nem paralelo entre a deslumbrante suntuosidade e esplendor de uns e outros.

(3) No grego, seis talentos, equivalentes a 28.012 libras francesas de 1818. Cabe entretanto corrigir para dez talentos, ou sejam, 46.687 libras, como se vê pelo número de prisioneiros resgatados por Fábio. Veja-se o cap. XXIX.

(4) Eis um elogio curto mas esplêndido, do esplendor romano sob os Césares.


Fonte: Edameris. Tradução de Paulo Edmur de Sousa Queirós.

nov 172010
 
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COMPARAÇÃO DE FÓCION COM CATÃO DE ÚTICA
por Du Haillan

Adendo moderno às vidas Paralelas de Plutarco na edição de Amyot.

Se alguém se desse ao trabalho de comparar Fócion e Catão com todos os ilustres gregos e romanos, eu me capacitaria de que esses dois personagens levantariam sempre o prêmio, medindo as coisas com o compasso da virtude; e esta empreitada não seria das mais difíceis de executar. Mas compará-los um com o outro, para salientar as particularidades e nelas observar qual dos dois leva vantagem, fazem isto com exatidão é, não somente difícil, mas impossível, a meu ver; e o comentário que acrescento agora, não é senão para ampliar, fazendo-o com mais minúcias o que nosso autor diz lacônicamente no princípio da vida de Fócion. Se ele quisesse alongar esse comentário e fornecer a comparação completa, sem dúvida seria uma de suas obras-primas. Êle não quis aí entrar ou duvidando de si próprio, ou duvidando de todos os mais hábeis, e (a exemplo de Apeles), deixando um quadro imperfeito que ninguém jamais poderia terminar. Com isso, solicito que não considerem de modo algum que me atribua esse julgamento sutil e desprendido que Plutarco requer naquele que queira procurar e saiba discernir as diferenças das vidas desses dois ornamentos do mundo.

II. Ora, inclino-me ao seu parecer de que não somente foram parecidos por semelhança geral e universal, como também a dizer que foram ambos homens de bem, muito entendidos em matéria de política e de governo; mas também que suas virtudes demonstram em tudo um mesmo traço, um mesmo molde, uma mesma tonalidade e a mesma cor, impressos em seus costumes, até nas mínimas e últimas particularidades, tendo ambos a austeridade quase em medida igual juntamente com a brandura, a coragem com a prudência, a vigilância cautelosa pelos outros com a segurança resoluta por si mesmos, evasão das coisas vergonhosas e zelo pela justiça. Todavia, pois, como deixou essa palavra quase como uma entrada na comparação, vejamos se em algum ponto um tem mais vantagem sobre o outro, deixando ao leitor sábio o julgamento, que lhe será como um instrumento entre as mãos para abrir, cortar, abrandar e polir este trabalho cada vez mais. Pois há Vidas neste livro que eu desejava fossem mais vezes lidas por todas as pessoas, especialmente por aqueles que administram os negócios do Estado, não que julgue conter mais instruções do que estas duas; e, como uma fisionomia excelente em perfeição mostra-se belo em todos os sentidos, também encontrarão nestes dois quadros bem lavo-rados pela virtude que parecem ter consumido sobre estes seus traços, suas cores e sua última demão. Falo de uma virtude civil e de tudo o que o homem pode aprender, que encontrarão raramente em Fócion e em Catão, a cada um dos quais se podem propriamente aplicar estes versos ditos de um outro personagem muito digno:

Não quer parecer justo, mas o ser,
Amando a virtude com pensamento profundo
Do qual vemos comumente nascer
Sábios conselhos onde toda a honra existe.

III. Mas consideremos o ateniense um pouco à parte e pleiteemos em seu favor contra o romano. Primeiramente acho a escola de Fócion mais regrada que a de Catão; pois ainda que todos os dois tenham sido excelentemente modelados em todas as perfeições de bons costumes, todavia, a vida de Fócion foi menos austera, mas civil, mais aproveitável à sua pátria e sua morte menos cruel e mais nobre do que a de Catão. Digo o mesmo de suas famílias. Fócion e sua mulher viveram irrepreensivelmente; porém, o que Catão fez com sua esposa Márcia, dando-a e pouco depois retomando-a para si, é um caso vergonhoso e sem desculpa. Jamais ateniense viu rir nem chorar Fócion; porém, sabiam ler suas respostas sem rir? Observam- sob o véu desse corpo um espírito alegre, gentil e contente. Vede um homem a todas as horas e se o encontro é agradável, é impossível evitar nem largar a presa. Ainda que bata de rijo e de ponta não querem e nem podem aparar o golpe, tanto assenta bem e com graça, sem poupar ninguém; Catão parece haver tido uma austeridade mais triste, razão por que sobre a resolução que tomou, de ir visitar a Ásia, Curião lhe disse: — "Farás muito bem. pois voltarás mais alegre e mais domesticado do que és". Não obstante isso, o vêem depois misturar muito azedume em seus propósitos e ações. Sua atitude, a cor e o jeito de seus trajes e sua conversa em público, tanto na cidade como nos campos, sem respeito pelos cargos que lhe eram comissionados, demonstram que estava resolvido a tomar um caminho todo contrário aos outros, em todas as coisas. Porém, é na morte mesmo que se conhece a austeridade de Fócion a mais temperada possível para com seus amigos e inimigos. Catão, ao contrário, em poucas palavras, fez o processo de César e o seu próprio, não conseguiu falar senão rudemente a seu filho e a seus familiares, e chegou mesmo a esmurrar um de seus escravos, sendo sua austeridade como uma espada temperada e batida a frio pelos paradoxos dos estóicos, quando a de Fócion era composta pela grave brandura dos platônicos. ,

IV.Acho também que Fócion sem dispensar a verdade, soube melhor acomodar-se ao senso de humor de seu tempo. Se tivesse prevalecido o procedimento de Catão, a república de Atenas não teria obtido de Filipe, nem de Alexandre, nem de Antipas o que lhe reclamava, quando Catão, contrariando o Senado e o povo, sem querer abandonar o rigor do dever, não mais como se tivesse o que fazer com Numa Pompílio e com os romanos de então, não adiantou grande coisa, nem para si, nem para os outros. A eloqüência de Fócion tem uma testemunha em Demóstenes assaz suficiente para fazer frente a tudo o que dez outros bem falantes tentavam levar avante para provar que Catão foi grande orador. Todos os dois apreciaram uma concisão sentenciosa em seus discursos; porém, Fócion saiu-se melhor e mais vezes do que Catão, o qual, deixando seguir seu natural, fazia longos e cansativos discursos algumas vezes. Os exemplos de sua brandura são mui belos. Fócion, porém, parece ter o primeiro lugar, vivendo e morrendo. Catão foi às vezes muito severo, quando podia se conter, pois sua impulsividade suplantava, como, quando em pleno Senado, quis ver a carta que entregaram a César e tendo recebido o prêmio de sua curiosidade, devolveu-a sem poder se conter de chamá-lo ébrio. Ajuntemos a isso a súbita recusa que fêz a Pompeu, que lhe pedira em casamento uma de suas sobrinhas; pois ainda que tivesse razão em seu linguajar, não devia mostrar-se tão pronto, nem tão veemente em um caso que pela honra daquele que procurava sua aliança e por consideração à situação na qual se achavam então os negócios, merecia alguma delonga para digerir a resposta e opinar de mais perto o que fosse conveniente para o bem público.

V. Quanto aos feitos de armas, se bem que Catão haja dado diversas provas de seu valor, Fócion precede-o, tanto por ter sido, devido a sua reputação, eleito quarenta e cinco vezes capitão de Atenas, como por seus belos feitos militares, uma parte dos quais não é comparável a tudo o que fez Catão. E, o que é digno de nota, tendo tantas vezes sido nomeado chefe, o foi sempre em sua ausência e por aqueles que o contradiziam incessantemente; porém, eles compreendiam que sua virtude era sua salvaguarda, como as vitórias que ganhou sobre Filipe, a investida de Megara e a derrota dos lacedemônios fazem fé; ao passo que Catão teve trabalho para obter um regimento de mil soldados de infantaria e, quanto à sua viagem a Chipre, para lá foi à força e não combateu, tendo a sorte desejado para êle que Ptolomeu se desfizesse a si próprio.

VI. Por atenção à prudência guerreira, atribuo vantagens a Fócion, como o confirmam os conselhos que deu, os expedientes que seguiu nas guerras contra Filipe e seus avisos aos atenienses, pelo feito de suas armas; quanto a Catão, pretendendo expulsar Asínio Pólio para fora da Sicília, enfraqueceu muito Pompeu, pois em vez de se encontrar à frente do exército, a fim de manter conscientemente em mãos os combates que requeriam sua presença e impedir a desordem que sobreveio pela indiscreção dos outros senadores, deixou-se levar pela ambição de Pompeu, o qual o fechou dentro de Dirráquio, a fim de cortar e correr a seu gosto, parecendo que Catão já pensava no que executou depois dentro de Útica e começava a perder toda esperança; como também abandonando a Sicília não pôde se conter de dizer que "via no governo dos deuses uma grande incerteza e variação", atendendo que Pompeu sempre havia sido feliz antes, quando não fazia nada de bom, nem segundo o direito e a eqüidade; e quando queria preservar seu país e combater pela liberdade, viu-se destituído de sua felicidade. A prudência militar pede outras considerações e não deve nunca desesperar assim dos combates, sobretudo quando se tem as armas precisas, ainda que as mãos que as carreguem tenham suas imperfeições; pois a própria filosofia de Catão mesmo diz muito bem:

O homem justo e constante fica firme no lugar,
Rindo-se do perigo próximo que o ameaça;
Persegue até o fim suas resoluções bem concebidas, a examinar quando o universo lhe cairá em cima.

Ora, abandonar o fardo assim no meio do caminho não tem propósito; menos ainda do que fêz na África, confiando a direção do exército a Cipião, o qual sabia não possuir as qualidades requeridas para

uma tal comissão. O amor pelo bem público e a vida de tantos romanos que ficavam em falso, deviam ser preferidas a certas leis positivas, que ordenavam que o vice-pretor cedesse a um vice-cônsul; também não tardou muito para logo após se arrepender, falta que um sábio chefe de guerra não deve jamais cometer, nem dizer ou pensar. E em verdade esta inadvertência de Catão apressou a ruína do exército da África e tomou-lhe a vida a êle mesmo, imediatamente depois.

VII. Há muito mais ainda a debater na prudência política; todavia, vejamos o que se pode dizer por Fócion. Chegou à administração dos negócios quando sua república não tinha mais vigor, e todavia, salvou-a das mãos de Filipe, de Alexandre e de Antipas por uma excelente sabedoria, manejou todos os grandes de seu tempo muito dextramente, tornando-se em tudo inexpugnável ao ouro e à prata, ainda que possuísse poucos bens; preferiu, porém, sobrepôr-se aos que o possuíam e prosseguiu neste passo virtuoso do desprezo às riquezas caducas até o fim. Impressionando por sua constância aos que não eram experientes, tratou com aspereza os discursadores e jovens conselheiros, fechando-lhes a boca com suas réplicas vivas; conteve o povo de Atenas, inconstante ao máximo, num cumprimento de dever maravilhoso, pelo espaço de vinte anos; não se encontra ter dito em conselho alguma coisa de que se arrependesse pouco depois, mas achou-se sempre bem em suas resoluções, tanto que os atenienses não se encontraram nunca em apuros pelo fato de o terem acreditado e nunca prosperaram em nenhum ato que lhes desaconselhasse empreender. Era de resto o pior adulador do mundo a si mesmo e quando lhes gritava: — "Vós me podeis entregar comissões que não deveriam ser executadas, mas o fazer-me dizer coisas que não se deve dizer, vós não saberíeis obrigar-me"; com efeito, dizia-lhes ainda muito mais. Não receava, nem amigos, nem inimigos, tanto estava apoiado sobre a virtude, a qual lhe havia gravado este pensamento no fundo do coração: que procurando o bem da pátria não se deve recear a morte; mas sim quando se aconselham ou se cometem coisas indignas e perversas. Então, quando os oradores e o povo mostravam-se de começo arrogantes, fazia frente aos seus vãos discursos sem nada rebater de sua veemência; mas temperava sua aspereza com alguma palavra espirituosa, para lhes mostrar que os conhecia muito bem e que não se preocupava com eles. Se alguma calamidade os tornava levianos, depois de os haver graciosamente repreendido e avisado, descobria de um golpe de vista o remédio, e sem preferência por ninguém, aconselhava o que era mais necessário para a salvação de todos, no que perseverou até o último suspiro.

VIII.Catão, entretanto, tendo muito cedo cansado e desesperado de poder servir mais a Roma, pela liberdade da qual havia feito maravilhas, sombreou o lustro de sua prudência. E quando poderia em sua vida ter feito dez vezes mais do que Fócion, não se pode desculpá-lo por se ter esquecido quando preciso. Além disso, se é preciso julgar os conselhos pelos acontecimentos, parece ter incorrido em grande erro por haver rejeitado a aliança que Pompeu procurava em sua família, pois isto foi a causa pela qual Pompeu tomou o partido de César, o qual lhe deu sua filha, do que se seguiu uma união que procurou arruinar em cheio todo o império romano. Ainda mais, perseverou em sua austeridade habitual, quando era preciso cortar pela raiz todas as tramas desses facciosos, por meio do consulado; em vez de o perseguir ao extremo, procedeu de forma tão desagradável que foi desviado de seu objetivo, razão pela qual Cícero repreendeu-o, e com razão, quando, tendo necessidade de um magistrado como ele, não se dera ao trabalho, nem se preocupara em ganhar o favor da comuna pela cortezia, agradando-a e falan-do-lhe com brandura, e não quis experimentar de novo, mas separou-se totalmente, o que significa largar a corda em vez de retê-la.

IX.Não posso desculpar a falta que cometeu Fócion depois da morte de Antípater, não se preocupando com as tramas de Polipercon e de Nicanor; pois isto fêz esquecer seus serviços passados, e de tal modo, colocou-o fora de graça, que não podendo obter audiência, ficou abatido. Isto é requerido nesses que seguiram bem seu caminho em avisar cuidadosamente que não naufraguem no porto, se é possível; mas,

Os casos divinos existem de muitas formas.

Como diz o poeta Eurípedes, o caminho do homem não está em sua vontade. É a obra de um poder mais elevado fazer com que esta ou aquela atitude aplaine todas as dificuldades. Em suma, quanto à vigilância cautelosa pelos outros, aprecio mais aquela de Fócion, mais contida; no entanto, Catão cai logo numa espécie de êxtase do espírito e não pensa senão em perder a vida, quando vê os negócios um pouco fora dos limites da virtude exata. Pelo cuidado de zelo pela justiça, Fócion levanta entre os gregos o título de probidade e não procura em toda sua vida senão coisas honestas e convenientes, para manutenção das leis e da liberdade pública. Catão parece mais áspero neste ponto, mas, com menos duração. Com referência à evasão das coisas vergonhosas, acho que têm juntos uma grande conformidade, ainda que por diversos caminhos tenham corrido para o mesmo fim. Fócion com um espírito mais assentado, como um rio correndo suavemente, e Catão com um ardor de coragem, como uma torrente impetuosa que suplanta todos os obstáculos.

X. O último ponto que nos fica é a resoluta segurança desses dois personagens e é o que sobressai neles. Ora, direi numa palavra que, se Catão tivesse esperado os acontecimentos e não se tivesse desesperado, certamente avançaria de muitos passos o outro; mas Fócion, tendo-se mostrado corajoso em toda a sua vida, selou magnificamente suas ações com sua morte, a qual merece uma infinidade de elogios por ter sido acompanhada de uma constância, paciência, amizade, indulgência, justiça e sinceridade tais, que sua vida não tem nada de extraordinário a comparar com aquela. Marchar então como capitão, confortar seus amigos, perdoar seus inimigos, é ação de Fócion, isto é, de um segundo Sócrates, de um sábio generoso e virtuoso entre todos os outros. Em qualquer sentido que se o tome então, é preciso reconhecer nele uma magnanimidade mais que humana; quando em Catão, não vedes senão testemunhos da miséria do homem abandonado à suas opiniões, se bem que os estóicos digam o contrário. Ainda que nesse combate haja como que amarrado as mãos da morte e lutado contra ela por duas vezes, assim sendo não lhe dou o prêmio da vitória como a Fócion, o qual, não procurando, nem fugindo da sua hora, esperou que o capitão soberano o chamasse e saiu valorosamente desta guarnição terrestre pela porta que lhe estava aberta, sem rompê-la por si mesmo para sair de um perigo a fim de entrar em outro maior. Foi êle quem soprou a morte, que lhe saltou ao pescoço e enguliu-a pagando e bebendo a cicuta. Pensando bem, a morte de Fócion foi bem vingada, pois seus acusadores pereceram desgraçadamente e os atenienses sentiram em sua confusão a perda que haviam causado.

XI.Mas, ainda é tempo que repliquemos em favor do romano, o qual, além do testemunho que tem de todos os homens de bom julgamento, tanto antigos como de nossa época, mantém-se bastante por si mesmo, e em vários lugares parece ter proeminência acima de Fócion. O que diz nosso autor me servirá de prefácio ao que ajuntarei: — pois quem poderia pintar Catão completamente senão a própria virtude? — "É minha opinião, diz êle, que esse personagem se assemelha propriamente aos frutos que chegam fora da estação; pois assim como são vistos com gosto e são elogiados, mas não usados, também a antiga inocência estando há muito tempo fora de uso, vinha então, após um tão longo intervalo, mostrar-se entre as vidas corrompidas e os costumes danificados daquele tempo, e conquistou-lhe uma grande glória e fama; mas, pensando bem, não se achou viável para ser posta em prática, nem própria para ser empregada nos negócios, porque a gravidade e perfeição de sua virtude eram muito desproporcionais à corrupção daquele século. Não chegou a se intrometer nos negócios do governo, estando já a república arruinada como fêz Fócion na sua, mas aí chegou quando já estava muito abalada e agitada por grandes tormentas, e se nunca teve o timão nem a autoridade de piloto em mãos, e cuidando apenas de manejar as velas e a cordagem, assistindo e secundando os que tinham mais crédito e poder do que ele, no entanto, deu ainda muito que fazer à sorte, a qual tendo empreendido arruinar e abolir a república, o conseguiu afinal por meio de outros mas foi com grandes sacrifícios e com um longo espaço de tempo, estando ainda arriscada a ficar por baixo, dev»do Catão e sua virtude".

XII. É preciso, portanto, acusar o tempo, a Catão nunca; mas, desde que estamos nas comparações, terminemos este traço. Primeiramente é extraordinário em Catão, que desde sua infância tenha entrado no caminho da virtude, com tanta sorte que continuou de bem para melhor; e enquanto Fócion despendia os dias na escola de Platão e de Xenocrates, o outro dava-se a conhecer filósofo com efeito. O seu mau comportamento com Pompédio Sila, a autoridade que possuía sobre os outros meninos e a espada que pediu ao seu mestre para castigar as tiranias de Sila, são atos generosos o quanto possível, ainda que tivesse poucos anos de idade. Nessa veemência, portanto, para não abandonar nada ao vício, mostrou-se conservador da verdade e protetor vigilante da virtude a qual, não sendo diminuída mas sempre acrescida nele, ultrapassou nisto a Fócion que não foi tão inflexível. Mas há ainda mais: Catão, estando em uma república bem diferente daquela de Atenas, onde tinha a combater inimigos muito mais perigosos e poderosos, dentre eles César, mais temível que todos os de Fócion, no entanto, derramou uma infinidade de conselhos e esforços. Se seu natural e seu prestígio o tivessem atirado à primeira fila, teria podido confundir todos os inimigos do Estado, aos quais nunca abandonou nada, senão uma vez devido à importunação de Cícero, tendo porém tão logo sua desforra, fazendo-lhes processos extraordinários, e pode-se dizer que o império romano nada viu de invencível como a coragem de Catão.

XIII. Ora, isto não são contos para alegrar, nem elogios de algum adulador de corte; pois se eu quisesse dizer de Catão todo o bem do mundo, não saberia especificar com vantagem o que os gregos, romanos e franceses deixaram por escrito. Mas só sua vida e suas ações demonstram, em elevado grau, que parece ter a natureza escolhido esse mestre para mostrar até onde a constância e firmeza humanas podem atingir. Não paremos, entretanto, como este golpe de vista, nos belos traços dos poetas, que os eleva acima dos romanos, acima de César, acima de seus céus e seus deuses; mas, confinemo-nos dentro do que Plutarco nos diz. É uma grande honra para Catão haver amado tanto seu irmão, elogiando-o tão altamente: eisto apaga uma parte do opróbrio do feito de sua mulher e contrapeso à honra de Fócion que não se acha em nada recomendável no filho, nem no genro. Ao contrário, Pórcia e Bruto fizeram honra à virtude de Catão.

XIV.Em suma, o exercício de toda a virtude com tão grande afeição que parece ser atraído por alguma inspiração divina, o amor à severidade da justiça, que não se verga por graça, nem por favor algum, o abraço à verdade e sinceridade, o ódio à avareza e o desprezo dos afagos mundanos, são virtudes comuns entre ele e Fócion, mas em cuja prática Catão mostrou-se muito mais ardente. Seu linguajar inflexível, cheio de bom senso e de veemência, acompanhado de um laconismo gracioso e de um natural grave e venerável, levanta alguma coisa acima da severidade das sobrancelhas de Fócion, o qual, no entanto, deixava-se cair num extremo contrário, provocando o riso do povo por meio de muitos traços, um pouco espirituosos demais, como o que temos de seus discursos e cujo efeito também o provam bastante. Por exemplo, estes dois bastarão: quando, em plena assembléia da cidade pegou na barba de Arquibíades, gracejando dele e, uma outra vez, chamando bem alto a Aristógiton "covarde e mau, porque imitava o manco". Ao passo que Catão, chamando César ébrio, e fez num ímpeto de ódio, atirado à propósito, o qual, se o Senado tivesse querido se informar, a vergonha cairia sobre a impudicícia de César e não sobre Catão, pois este, no cargo que desempenhava, podia de forma legítima inquirir sobre os papéis que traziam a César enquanto estava em conselho.

XV. As enfermidades das nações são tais, que muitas vezes não solicitam médicos carrancudos ou que façam rir seus doentes, os quais têm necessidade de cautério e de fogo. Roma estava então em situação muito perigosa; e como Fócion dizia conhecer muito bem os atenienses, pode-se dizer que Catão lia no coração dos senadores romanos, o que é claro pelos fragmentos de seus discursos, quando descobre as tramas de Catilina, de Pompeu e de César como se pertencessem ao seu partido. Não era questão de atirar piadas em pleno Senado, nem quando tudo ia rolando em decadentes frivolidades aqui ou acolá. É suficiente que o homem virtuoso aproveite bem sua felicidade e ria da vaidade dos outros, sem se servir do ridículo, por suas palavras ou atitudes; se bem que Catão de resto não tenha sido tão severo que não amasse as boas companhias e não pudesse ficar tanto tempo como fazia, a ver, por vezes, toda a noite, se os sábios propósitos não tinham sido temperados por alguma palavra espirituosa; e Feônio, seu familiar, era homem nascido para dar passatempo aos outros. Sua brandura é singular para com seus amigos, aos quais emprestava seu dinheiro, suas próprias terras e escravos, sem tirar nenhum proveito, mas para acomodá-los apenas; e fazia isto muito mais do que Fócion, o qual nunca tomou refletidamente nada de ninguém, também não tinha os meios de socorrer seu próximo e teve muito trabalho em se desprender das garras do usurário Calicles. Com que afeição consola e aconselha a esses que estão dentro de Útica após a derrota de Cipião e de Juba? Por todas as honras que o público lhe faça, não muda de modo algum sua maneira simples de viver e conversar entre grandes e pequenos; e por qualquer dos cargos que tenha tido, mesmo na guerra, não quis grande comitiva, nem aparelhagem mais suntuosa.

XVI. A coragem parece ter sido maior em Fócion, mas não é somente pelas viagens, nem pelos golpes que se deve julgar a destreza dos homens. Há alguma coisa mais. Catão exercita de tal modo os soldados das legiões a ele entregue, que não se sabia dizer se as havia tornado mais pacíficas ou mais aguerridas, mais valorosas ou mais justas, e isto é uma honra própria só dele. Ver um homem virtuoso ou ser virtuoso não é coisa impossível; mas é passar a mestre na virtude, o saber muito bem alinhar os outros, sobretudo os soldados, o que Fócion não conseguiu atingir; ao contrário, observe-se como se queixa do filho de Cábrias, e como se vê bastante insolência nas guerras de seu tempo. Quanto aos golpes de mão, esse testemunho concedido a Catão como em natureza amável, grandeza de coragem, veemência e eficácia da palavra, suplanta a todos os que se faziam chamar coronéis e capitães; pois sendo o primeiro que punha a mão em fazer o que ordenava, demonstra que se seus concidadãos houvessem confiado na aptidão suficiente de suas armas, e se não teve outro alvo de servir sua pátria senão na guerra, poderia fazer outros serviços aos romanos, o que Fócion não fez aos atenienses: e não sei se tudo o que Fócion fez em vinte anos contra os inimigos, se deve comparar ao bem que Catão proporcionou ao exército romano pela disciplina que estabeleceu. Direi muito bem que o que o trouxe de Chipre a Roma sem haver dado um único golpe de espada, conquistou-lhe mais honra e aos romanos mais comodidade do que fizeram todas as proezas de Fócion a si próprio e àqueles de Atenas. Quando, em meio das armas não esquece seu estudo de filosofia, nem o amor fraterno; quando, por outro lado, deixa para trás seus amigos para pensar primeiramente no público, como o vêem na administração dos dinheiros de Chipre, o que lhe é uma grande vantagem sobre Fócion, o qual era bem firme quanto a si mesmo, mas não sabe ou não quer impedir que muitas corrupções escorreguem entre os que não estavam muito longe dele, como testemunha seu genro Caneles.

XVII. Chego agora à prudência; e com referência à militar, ajuntarei esta palavra ao que foi dito que, por vezes, os negócios reclamam um espírito frio, de preferência que pouco se perca, para salvar muito. Difere abertamente ao expulsar Pólio para fora da Sicília, porque não queria arruinar o país e considerando que César, sendo conduzido à razão, como aparentava então que nisso se poderia fazer, não era preciso remover o mundo em tantos lugares. Se amou o bem dos povos, se preferiu o repouso de infinitas pessoas inocentes a uma guerra civil, quem poderia taxá-lo de covardia ou de imprudência? E quando larga muito a rédea a Pompeu, não podia fazer de outro modo, pois que a direção dos combates estava nas mãos daquele, e não é coisa fácil, nem certa, nem de direito, querer controlar de muito perto um comandante de guerra. Se se queixa do governo dos deuses, é levantando os olhos sobre a situação exterior dos combates, e tanto é preciso que um tal pensamento o desencorage, quando ao contrário, reúne e conduz as tropas depois da jornada de Farsá-lia, reúne Juba, Cipião e Varo, dá tais conselhos que se os tivessem seguido, talvez César não tivesse procurado recomeçar. Em suma, Cipião, a quem abandonou o comando segundo o teor das leis, era homem apto para desempenhar alguma coisa boa; o exército respeitava-o e se não cumpriu seu dever, Catão, estando quites com o seu e cuidando bem de uma cidade de grande importância, não é passível de reprovação; pois infringir a disciplina militar, sobretudo em tais guerras, é abrir a porta a um milhão de desordens. Mas quem poderia desconfiar de uma coisa que não aparenta? Catão devia presumir que Cipião perderia tudo? Catão devia aceitar superficialmente um tão grande encargo ainda que lhe fosse oferecido? Não procurava a honra; era ao que se dava menos trabalho. Seu afeto consistia em servir sua pátria, mas observando as leis, e sem se expor com alegria de coração à inveja daqueles que estavam em mais alto grau do que ele. Não é simplesmente pelos fatos que se deve condenar os homens. Mas há mais: é que antes da derrota de Cipião, perceberam que Catão tinha sangue nas unhas, quando se ofereceu para conduzir suas tropas à Itália, para ali atrair César; o que não foi aprovado, mas desprezaram seu conselho salutar, do que se seguiu uma desolação extrema. Mas o erro que cometeu Fócion, não querendo apoderar-se de Nicanor, o que evitaria tantos males, é muito maior quando não o julgam a primeira vista, como também Plutarco o descreve exatamente.

XVIII. Ora, deixemos este ponto para considerar a prudência política de Catão, a qual acho excelente de encantar; pois sem falar de seu início, de que modo administrou êle as finanças de Roma? E que necessidade tinha a economia pública da prudência desse personagem, que não se aborrecia, nem se cansava de trabalho algum, mas em pouco tempo repunha as coisas no seu valor e dignidade iniciais? Como faz êle proceder direito a esses que tanto desejavam se recusar? Com que destreza levanta esses que se haviam desviado? Poderiam notar em Fócion um tão forte traço político como em Catão, o qual faz vomitar os assassinos e parricidas assalariados dos cofres públicos no tempo de Sila? E o que é haver conseguido com que a justiça fosse feita, senão tendo pelo bem público não faz escudo senão de sua vida, acusa Pompeu, César, Roma e mesmo o destino; breve, suplanta todo poder adversário, fica como um cubo, sempre firme em seu plano, não se desmente no que quer que seja, e em todo o sentido que se queira pegá-lo, no Senado, na assembléia do povo, na tribuna dos discursos, em seu escritório de questor, em sua cadeira de pretor ou de tribuno, com seus amigos, na presença de seus inimigos, seja quand querem levá-lo à prisão, ou trazê-lo à sua casa, tem sempre o mesmo modo; todo cargo, todo o porte, toda maneira lhe cai bem, e não faz coisa alguma em sua desvantagem, mas sempre por toda parte, acima de todos e em todas as coisas, paira no alto.

XXI.O que lhe objetam, de ter sido muito austero para com Pompeu na disputa do consulado, deve ser visto em um outro sentido. Via a situação de Roma toda embaralhada, e Pompeu, encontrando-se na embrulhada, e procurando atraí-lo por meio de uma aliança, era, a expensas de sua sobrinha, aventurar o repouso de seu espírito e sua reputação. Não fora preciso até ali se ligar, e se Pompeu ficou despeitado ou mal avisado de se unir a César contra sua pátria, sua falta não deve ser descarregada sobre Catão, que não podia forçar seu natural nobre e não se tendo habituado a entrar nas situações senão pela porta da honra e da virtude, não fez nada de indigno de seu valor mantendo-se em sua posição; em vez disso, se fosse arriscar (como dizem) todo seu bem contra um nada, se se pusesse a disputar à maneira dos outros, por alguma razão o povo o teria repelido. Em tudo, assim como antes, havia sem respeito de ninguém aconselhado e procurado o bem público, continuou sempre e se foi da opinião de eleger Pompeu cônsul sozinho, não foi isto sinal de inconstância, mas um ato de conselheiro fiel do Estado, que se acomoda prudentemente nos negócios, como um piloto experiente sabe baixar as velas a propósito, singrar sob ventos contrários e por diversos caminhos chegar ao mesmo porto. Quando Pompeu quis agradecê-lo, vêem qual a resposta que lhe deu, e como logo após ban-deou-se de novo para manter a autoridade das leis contra todos os adversários. Mas o que levou César a queixar-se dele por cartas bem ásperas? Como foram pouco avisados seus amigos ao reproduzi-las em pleno Senado? Fêz êle então ver a olho nu e apontar com o dedo a quem quisesse, todos os conselhos de César, como se fosse seu cúmplice? Precisou êle esperar as provas? As armas que César levantou contra sua pátria divulgaram diante dos senadores e cidadãos romanos que Catão era o mais sábio dentre todos os outros homens.

XXII.Quanto à sua vigilância cautelosa pelos outros, a resoluta segurança por si mesmo, a evasão das coisas vergonhosas e zelo pela justiça; já foi dito e em toda a sua vida demonstram essas virtudes serem nele sempre tão puras e brilhantes, que não é possível requerer tanto quanto as coisas humanas podem ter de perfeição. Ajunto que se acham essas virtudes e todas as outras acorrentadas juntas em Catão mais do que em nenhum outro grego ou romano; de tal modo que, quem considerar sua prudência, achá-la-á justa, valorosa, moderada, paciente, vigilante, assegurada e inexpugnável, sem que se possa facilmente discernir qual das virtudes avança sobre as outras; pois elas se mantêm em círculo, envolvendo-o com uma harmonia maravilhosamente justa.

XXIII. E, em verdade, se sua morte tivesse sido outra (pois os estóicos não me pagam com razão, aconselhando seus sábios a virar-se contra si mesmo, quando as correntes desta vida lhe pesam muito), pesaria mais sozinho do que tudo quanto existe de gregos e romanos ilustres dentro da história, ainda com esse defeito não deixe de suplantar a quase todos na balança. Aceito Fócion, sobretudo em sua morte; pois, na minha opinião, teve extraordinária vantagem sobre Catão, deste lado. Não quero entrar na refutação do paradoxo dos estóicos sobre esse ponto. Aprendemos (graças à bondade divina) em melhor escola do que a deles, que nossa morte ou saída desta vida, depende de uma outra vontade que não a nossa, e que se em nenhum tempo de nossa vida nossas paixões podem ser retidas, é então que a paciência nos aconselha a esperar alguma coisa contra nossas próprias pessoas. Se vivêssemos para nós mesmos somente, ser-nos-ia fácil tomar a chave dos tempos, e de uma infinidade de saídas que se apresentam, escolher alguma; em suma, poderíamos morrer onde, quando e como bem nos parecesse. E ainda que por vezes a providência divina pareça nos deixar em uma situação de vida pior do que a morte, no entanto se temos bons olhos, olhamos nossa vida aflita com outros olhos o que não fazem os estóicos e estimamos bastante quando chega ao seu fim, ainda que seja através de grandes calamidades. Mas o Soberano Legislador, proibindo o homicídio, compreende nesta proibição aquele que se mata a si mesmo; e a natureza, bem aconselhada e reconhecida, refuta e abomina esta absurda opinião. Também alguns outros que não parecem ser tão grandes filósofos e que todavia pensam melhor neste ponto, ensinam-nos a ficar em nossa vocação no mundo e esperar que Aquele que aí nos colocou como guarda venha nos levar para nos dar repouso. Não é constância, nem paciência dizer — Não posso ficar em tal lugar. E sabedoria partir sem se despedir? Nessa conta, não precisávamos de superior. Ainda a sabedoria dos estóicos acha-se um degrau abaixo de Júpiter. Que o homem espere, portanto, que seu senhor desamarre a corrente. Há mais magnanimidade em tra-zê-la suavemente do que em parti-la. A indiscrição, a impaciência e o desespero apressam o passo dos homens que procuram assim a morte.

XXIV.Mas não entremos mais na consideração desse estranho paradoxo; antes, deploremos a cegueira do homem simples, vendo personagens tais como Catão, Bruto e outros, tropeçarem tão pesadamente no fim de sua vida. Não se deve nunca abandonar, dizia Cleômenes, um obsecado desta idéia, enquanto resta um dedo de esperança. Quanto a vida de um homem generoso tem de constância e de toda espécie de brilho, em um minuto, às vezes, antes do fim? Catão podia prestar muitos serviços à sua pátria, demonstrar a César seu dever, desdobrar nesse trabalho tudo o que restava em seu espírito, depois esperar os acontecimentos, como havia feito em tantas outras vezes, tendo visto sua vida sobre o fio da navalha, como se diz. Imaginava, dirá alguém, que tudo estava perdido e não tinha mais desejo de viver. Não devemos nunca deixar por completo afundar nosso coração, nem arruinar o que nos foi dado como para o dispor à nossa fantasia. Mas o mau comportamento de Catão na cidade de Útica para abrandar uns e dar evasão a outros, tornou essa tragédia ainda mais lastimável; e de resto isto foi uma terrível luta o agarrar por duas vezes a morte pelo colarinho, e uma coragem extraordinariamente atroz arrancar assim as entranhas. São arrebatamentos de um pensamento que estudou e dirigiu a morte de longa data; e o que lia no discurso de Platão referente à imortalidade da alma não era porque precisava de nova esperança.

Havia muito mais do que Platão reproduziu em seus escritos; sua ciência e resolução estavam por esse cuidado, acima da filosofia. Não teve esta preocupação pela proximidade da morte, pois não interrompeu mesmo seu sono pela importância de uma tal deliberação. Era seu costume misturar seus estudos com outros atos; mas então achou um livro conforme seu desejo. Ora, se bem que por esse fato tenha culpa, como foi dito, todavia aí se observa ainda esta magnanimidade que reluz em toda sua vida, preferindo mais perdê-la do que tê-la daquele que julgava ser assassino das leis e da liberdade dos romanos. Se a morte de Fócion foi vingada e se os atenienses se arrependeram de lhe ter causado um tal erro, os de Útica, após César, lastimaram Catão. E quanto a César, Antônio e outros que oprimiram a pátria pelo julgamento justo Daquele que tem infinitos meios de castigar pequenos e grandes, tiveram sua vez, e pereceram desgraçadamente. Eis uma entrada para a comparação desses dois ornamentos raros do mundo. Acima, pelo discurso de Alexandre e de César, retive-me ao dar minha última opinião: tenho mais razoes de parar, quando falo destes dois; partindo, deixo a sentença e o prosseguimento ao leitor.

XXIV. Mas nao entremos mais na consideração desse estranho paradoxo; antes, deploremos a cegueira do homem simples, vendo personagens tais como Catão, Bruto e outros, tropeçarem tão pesadamente no fim de sua vida. Não se deve nunca abandonar, dizia Cleômenes, um obsecado desta idéia, enquanto resta um dedo de esperança. Quanto a vida de um homem generoso tem de constância e de toda espécie de brilho, em um minuto, às vezes, antes do fim? Catão podia prestar muitos serviços à sua pátria, demonstrar a César seu dever, desdobrar nesse trabalho tudo o que restava em seu espírito, depois esperar os acontecimentos, como havia feito em tantas outras vezes, tendo visto sua vida sobre o fio da navalha, como se diz. Imaginava, dirá alguém, que tudo estava perdido e não tinha mais desejo de viver. Não devemos nunca deixar por completo afundar nosso coração, nem arruinar o que nos foi dado como para o dispor à nossa fantasia. Mas o mau comportamento de Catão na cidade de Útica para abrandar uns e dar evasão a outros, tornou essa tragédia ainda mais lastimável; e de resto isto foi uma terrível luta o agarrar por duas vezes a morte pelo colarinho, e uma coragem extraordinariamente atroz arrancar assim as entranhas. São arrebatamentos de um pensamento que estudou e dirigiu a morte de longa data; e o que ha no discurso de Platão referente à imortalidade da alma não era porque precisava de nova esperança.

Havia muito mais do que Platão reproduziu em seus escritos; sua ciência e resolução estavam por esse cuidado, acima da filosofia. Não teve esta preocupação pela proximidade da morte, pois não interrompeu mesmo seu sono pela importância de uma tal deliberação. Era seu costume misturar seus estudos com outros atos; mas então achou um livro conforme seu desejo. Ora, se bem que por esse fato tenha culpa, como foi dito, todavia aí se observa ainda esta magnanimidade que reluz em toda sua vida, preferindo mais perdê-la do que tê-la daquele que julgava ser assassino das leis e da liberdade dos romanos. Se a morte de Fócion foi vingada e se os atenienses se arrependeram de lhe ter causado um tal erro, os de Útica, após César, lastimaram Catão. E quanto a César, Antônio e outros que oprimiram a pátria pelo julgamento justo Daquele que tem infinitos meios de castigar pequenos e grandes, tiveram sua vez, e pereceram desgraçadamente. Eis uma entrada para a comparação desses dois ornamentos raros do mundo. Acima, pelo discurso de Alexandre e de César, retive-me ao dar minha última opinião: tenho mais razões de parar, quando falo destes dois; partindo, deixo a sentença e o prosseguimento ao leitor.


 

Tradução de Carlos ChavesFonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Sexto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

nov 162010
 
Arte etrusca

Plutarco – Vidas Paralelas

OBSERVAÇÕES

 

SOBRE A VIDA DE CÍMON

CAP. VIII, pág. 16. Cornélio Nepos, em seu prefácio e na Vida de Cimon, diz categoricamente que Cimon esposara sua irmã, sem que tal casamento produzisse o menor dano à sua reputação, por ser permitido pelas leis atenienses. A lei, com efeito, permitia que um indivíduo casasse com sua irmã pelo lado paterno, e não pelo lado materno. Tendo sido Cimon aprisionado, por não se achar em condição de pagar a multa a que seu pai Milcíades fora condenado, um rico cidadão de Atenas, chamado Cálias, prontificou-se a pagar, sob condição de ser-lhe dada Elpinice por esposa. Cimon não se decidiu, diz Cornélio Nepos; mas Elpinice declarou não poder admitir que o filho de Milcíades perecesse nos cárceres públicos, quando só dela dependia restituir-lhe a liberdade. E desposou Cálias, pois o divórcio também era permitido por lei. Vide a Coleção das Leis Antigas, por Samuel Petit, liv. VI, títs. i e 3, e o Comentário, págs. 440 e 441.

CAP. XXII, pág. 33. Não faltará quem não estranhe que, devendo estabelecer paralelo entre duas vitórias de Cimon com duas anteriores conquistadas pelos gregos, Plutarco compare a obtida em terra com uma ganha no mar, e a que êle conseguiu no mar com a que os gregos venceram em terra. Confesso não atinar com a razão disto. Creio haver sido um descuido do compositor, e que se deva ler no mar, na primeira parte da oração, e em terra na segunda.

CAP. XXVII, pág. 37. Clístenes era filho de Mégacles, e pelo lado materno neto de Clístenes, tirano de Sicião, referido nas Observações sobre o quarto volume das Morais, cap. XV. Foi um dos principais autores da reaquisição da liberdade de Atenas, expulsou pisistrátidas ao fim da segunda, e foi arconte epônimo do terceiro ao quarto ano da sexagésima-sétima olimpíada.

Cumpre lembrar que o ano ático começava então em janeiro e que o olímpico tinha início em julho. Assim sendo, o ano de um arconte correspondia a dois olímpicos, durando aquele até à reforma introduzida por Metão, que tinha início no primeiro ano da octogésima-sétima olimpíada. Clístenes restabeleceu a ordem na república, reformou a legislação, elevou a dez o número das tribos, que não passavam então de quatro. Cai também neste ano a expulsão.dos reis de Roma.

CAP. XXVIII, pág. 38. Eles não se agastaram, devido à consideração e estima que devotavam a Cimon. Não concordo com Dacier, que acha não dever atribuir-se tal eles aos lacedemônios, porquanto, se o fôr aos atenienses, esta passagem não tem o menor sentido. Não admira, com efeito, que os atenienses não se agastassem de ver o seu poder aumentar e os aliados unirem-se a eles. Isto não se dava com os lacedemônios, razão por que Plutarco acrescenta que, se eles não se agastaram foi em consideração a Cimon. C.

CAP. XXIX, pág. 40. Os escravos dos lacedemônios chamavam-se Hilotas, derivado de Hilos, pequena cidade na extremidade da Lacônia, à beira-mar, que Agis, rei da Lacedemônia, arruinou antes da época de Licurgo, Teduzindo os habitantes à escravidão, como relata Estrabão, no seu oitavo livro. Muito depois, tendo sido os messênios vencidos e escravizados, os nomes de Hilotas e Messênios tornaram-se comuns aos escravos das duas cidades.

CAP. XXXI, pág. 42. Em cujos dez anos os lacedemônios decidiram libertar a cidade de Delfos da escravidão dos fócios, etc. Traduza-se: "Em cujo tempo, ao voltarem da expedição realizada para libertar a cidade de Delfos da escravidão dos fócios, os lacedemônios acamparam junto de Tanagre, onde os atenienses os foram encontrar, para atacá-los". Vede Tucídides, 1. I, § 108, e Diodoro de Sicília, 1. II, § 80. Tanagre achava-se na Beócia e não na Fócida. C.

SOBRE A VIDA DE LÚCULO

CAP. V, pág. 57. Qual é este Ptolomeu? Palmério diz ser Auletes. Êle, porém, só começou a reinar no Egito, em 689, ano romano, 65 antes de J. C, muito depois da morte de Sila, ocorrida no ano 676 de Roma. Não pode ser Ptolomeu Latire, que reinou pela primeira vez desde o ano 637 de Roma, porque Plutarco declara que, o de que se trata, era muito moço. Deve ser então Alexandre II ou Alexandre III. Nas notas sobre Plutarco, edição de Reiske, Moses Dusoul julga ser Alexandre II. Além de ser pouco crível que este tratado de Lúculo haja sido realizado justamente nos 18 ou 19 dias de seu reinado, é inacreditável ainda que êle se haja recusado a se aliar a Sila, que o colocara no trono. Isto só pode ser atribuído a Alexandre III, que o sucedeu ao fim de dezenove dias. O que não desfaz ainda todas as dificuldades, porque segundo Apiano, Alexandre II só foi elevado ao trono do Egito no ano 673 de Roma, Sila esteve em Atenas no ano 668 de Roma, e Fímbria, de quem se vai tratar, suicidou-se no ano 670 de Roma, e 84 antes de J. C. Há, pois, nisto, um erro de três ou quatro anos nas épocas desta sucessão, de retificação talvez impossível.

SOBRE O CONFRONTO DE LÚCULO COM CIMON

CAP. I, pág. 144. Segundo o que Platão, zombando, censura e condena acertadamente em Orfeu. Creio não se dever tomar a expressão da parte de Orfeu em sentido particular, como acontece geralmente, e sim em sentido geral, e que se deva traduzir nos que saíram da escola de Orfeu. É como diz Plutarco, no tratado contra Colotes, t. X, página 407, edição de Reiske: os Acadêmicos da escola de Arcesilas. Eram efetivamente as opiniões de Orfeu, que Museo e Eumolpe, seus filhos, haviam introduzido nos mistérios de Eleusina, que Platão visava na passagem citada por Plutarco. C.

CAP. III, pág. 146. Neste artigo Dacier confundiu o Pan-crácio, que compreendia o ataque, a luta e o pugilato, com o Pentatlo ou Quinquércio, constituído de cinco exercícios sucessivos, de assalto, de corrida, de disco, de dardo e de luta. Quanto a Amyot, não sei porque traduziu não vencedores, mas vitórias, para mais homenageá-los. O grego diz unicamente vitórias, que constitui erro de há muito reconhecido. Plutarco nunca pôde dizer que deixou de empregar o termo vencedores, que Amyot traduziu por vitórias. Era uso denominar os pancraciastas vencedores extraordinários. O pancrácio era uma espécie de exercício, constituído de luta e pugilato, e os que se dedicavam a êle eram menos fortes dos que se entregavam ou só à luta ou só ao pugilato. Razão por que consideravam coisa extraordinária um pancraciasta vencer no mesmo dia a luta e o pugilato, e levantar o prêmio do pancrácio. Vede nas Pausânias, 1. VI, cap. 6, o que aconteceu a Teágeno, que quis disputar a Eutimo o prêmio do pugilato, antes de bater-se pelo pancrácio. C.

SOBRE A VIDA DE NÍCIAS

CAP. VII, pág. 162. Todas estas passagens de poetas cômicos são de explicação muito difícil, por serem eles muito corrompidos. Creio que a de Teléclida pode ser explicada assim:

"Chariclés não lhe deu uma mina (moeda grega), porque êle não disse ter sido o primeiro filho que sua mãe teve à sua custa? Nícias, filho de Nicerato, deu-lhe quatro. E por que? É o que não direi, embora o saiba, porque Nícias é meu amigo e considero-um homem de bem".

A primeira parte deste trecho parece-me ter relação com o fato das mulheres gregas se considerarem crianças, quando não conseguiam ter filhos. Trata-se freqüentemente deste uso, em Aristófanes. Geralmente elas compravam os filhos de algumas mulheres pobres.

O segundo trecho é um diálogo entre um caluniador e um homem do povo. Amyot, apanhou bem o sentido; mas, não sendo muito clara a sua tradução em verso, eis uma outra em prosa:

- "O Caluniador: Há quanto tempo não vês Nícias? O Homem do povo: Vi-o anteontem, na praça pública, O Caluniador: Este homem declara que viu Nícias. Não o terá, visto para nos trair? Bem vedes, meus amigos, que apanhamoa Nícias agindo. O Poeta: É deste modo, perversos, que procurais tornar culpados os homens mais virtuosos e justos".

Citando a passagem de Aristófanes, Plutarco enganou-se, pois coloca-a na boca de Cleon, quando está na boca de Agorácrito. Vede os Cavaleiros, v. 358. C.

CAP. XXI, pág. 178. Este Hiparco não era o filho do tirano Pisístrato, mas sim um dos seus pais, como diz. de acordo com Plutarco. Harpocracião, e segundo o testemunho de Androcião, autoridade incontestavelmente preferida a todos os escritores posteriores, que fazem o Ostracismo remontar aos tempos de Teseu, ao passo que Androcião, discípulo de Isócrates, que participou da administração de Atenas, e escreveu a História da Atiça, afirma categoricamente que Hiparco foi a primeira vítima do Ostracismo que acabava de ser estabelecido. Quanto ao mais. Diodoro de Sicília e Eliano estão de acordo com Androcião e Plutarco quanto à data desta instituição, que não era peculiar a Atenas, mas de uso generalizado nas cidades da Grécia em que o governo popular se havia estabelecido. Eis como procediam: Em dia marcado, o povo reunia-se, presidido pelos nove arcontes e o Senado. Cada cidadão levava uma concha, na qual escrevia o nome que desejava, e jogava-a num cercado dotado de grade, onde se chegava por dez avenidas, de acordo com o número de tribos. Contadas as conchas a seguir, o indivíduo cujo nome aparecesse no maior número delas, se alcançasse pelo menos seis mil era obrigado a deixar a cidade dentro de dez dias. Esta espécie de exílio diferia do banimento proferido por sentença, em que determinava o lugar da residência do cidadão condenado ao ostracismo (prazo: dez anos) e não lhe confiscava os bens. Os outros banidos perdiam os bens; e, sendo expatriados para sempre, não lhes designavam o lugar em que deviam residir, por não serem mais considerados cidadãos.

A vila de Calorga, pátria de Hiparco, de quem se trata aqui, é um cantão da Atiça, perto de Cefisa, que se estende, ao oeste do Pireu, até o golfo Sarônico, fronteiro à Salamina.

CAP. XXI, pág. 177. Conciliar-se-ia Teofrasto com os outros historiadores, supondo-se que o Ostracismo ameaçava ao mesmo tempo Nícias, Alcibíades e Féaco. É o que me faz supor, com Tâilor, por mim já citado numa nota sobre a vida de Alcibíades, pág. 480, que o quarto, dos que nos restam sob o nome de Andócides, não é dele e sim de Féaco. Em tal discurso trata-se, • com efeito,- de saber quem será condenado ao Ostracismo, se Nícias, Alcibíades ou o Orador. Como nenhum escritor declara ser Andócides rival de Alcibíades, parecendo, ao contrário, serem os dois. muito- unidos, pois Andócides foi incluído na acusação feita – contra Alcibíades, de profanador dos mistérios, não se pode supor que eles .hajam disputado o banimento pelo Ostracismo. Se tal houvesse acontecido, os historiadores não silenciariam; sendo Andócides, como .era, um .personagem notável pelo talento, pela- descendência’ e’ pelo papel que desempenhara na República. Deixarei de lado todas as razões apresentadas por Tailor em favor de sua opinião, e às quais Ruhnkênios (História Crítica Orat. Gr. p. 50 e seguintes) respondeu muito fracamente. Deter-me-ei unicamente no que êle negligenciou, e que se me afigurou imperdoável; isto é, que, se o discurso era de Andócides, dever-se-ia supor que Teofrasto, citado pelo comentador de Luciano (Timão, § 30), e Plutarco na passagem que se discute, enganaram-se, declarando haver sido Hipérbolo o último contra quem se íêz uso do Ostracismo. Com efeito, se aquele a quem se refere o discurso atribuído a Andócides não é o que deu origem ao exílio de Hipérbolo, foi-lhe forçosamente posterior. Este discurso só pode ter sido proferido pouco antes da expedição da Sicília, pois o Orador (t. IV, pág. 123, Orat. Gr. de Reiske) nele censura Alcibíades pelo fato de, após haver opinado que se escravizasse os habitantes de Meios, comprar uma mulher desta cidade, com a qual teve um filho. A tomada de Meios, segundo Tucídides (L. V, § 116), deu-se no inverno que precedeu à expedição contra a Sicília. É indispensável que Meios haja sido tomada no início do inverno, para que Alcibíades tenha tido um filho antes do meado do verão, época em que êle partiu para a Sicília, segundo Tucídides (1. VI, § 30). Supondo que Alcibíades e Nícias hajam sido ameaçados duas vezes, juntos, de Ostracismo, o de que aqui se trata é o último, pois deve ter ocorrido pouco antes da expedição da Sicília, na qual Nícias perdeu a vida, e nesse caso Teofrasto e Plutarco se enganaram, escrevendo que o Ostracismo cessou depois da condenação de Hipérbolo, o que não é provável. Deve-se então acreditar que o discurso que tem o nome de Andócides, refere-se ao Ostracismo mencionado por Plutarco, e nesse caso não pode ser Andócides, de quem nenhum historiador fala em tal ocasião, e sim Féaco. C.

CAP. XXXIX, pág. 197. Siracusa, fundada por Arquias de Corinto no terceiro ano da quinta Olimpíada, segundo se lê nos mármores de Oxford, tinha 180 estádios de circunferência, isto é, cerca de oito léguas, segundo Estrabão, correspondendo à extensão do circuito de Atenas, no parecer de Tucídides. Compunha-se de cinco cidades ou grandes quarteirões, cercados por uma única muralha, ficando a chamada Ilha ou Ortígia entre os dois portos, sendo ligada ao resto da cidade por uma ponte; a segunda chama-se Acradina; a terceira Tiché ou Felicidade, devido ao velho templo da Felicidade que ali havia; a quarta, Cidade Nova ou Neá-polis; a quinta, enfim, da qual nos fala Cícero em seu discurso contra Verres, de Signis, era Epípoles, da qual aqui se trata, lugar muito escarpado, situado ao norte em relação ao resto da cidade, segundo Diodoro de Sicília. O que denominam Hexapila, era, segundo Celário, ou uma porção de Neápolis ou parte de suas muralhas, contendo seis aberturas que podiam ser consideradas como entradas desta nova cidadç, aparentemente defendida por um castelo.

Sobre a Vida de Marcos Crasso

CAP. I, pág. 215. Segundo as leis romanas, os casamentos só foram vedados, devido à afinidade, e considerados incestuosos, entre as pessoas de descendência direta ou que apresentavam laço achegado de parentesco, como: sogro, em relação ã sua nora, e sogra, em relação ao genro; padrasto e madrasta, em relação à enteada e ao enteado. Quanto aos parentes de linha transversal, como a mulher do irmão e a irmã do marido, enquanto os romanos viveram no paganismo consideravam esta espécie de afinidade desfeita e destruída com a morte de um dos cônjuges, principalmente quando não deixavam filhos. Foi o que levou Cícero a dizer que em hipótese alguma a afinidade podia ser destruída, se houvesse filhos que a perpetuassem. Do que se conclui que, com a falta de filhos, ela deixava de existir. Só muito tarde, devido à nova lei, é que o fundamento da afinidade se estendeu aos aparentados de linha transversal, como, por exemplo, entre um irmão e sua cunhada viúva. A lei romana proibitiva a tal respeito é a lei 4, do Código, de incestis et inutilibus nuptiis, dos imperadores Valentiniano, Teodósio e Árcade. Roma era então cristã. A mesma proibição encontra-se renovada na lei 8, ibid., de Zenão, e na lei 9, de Anastácio. Pode-se mesmo concluir que, pela lei de Zenão, embora os egípcios vivessem, em tal época, sob a lei do cristianismo, desposavam as cunhadas viúvas, desde que fossem ainda virgens.

CAP. XLX, pág. 232. Amyot seguiu uma lição defeituosa, contra a qual a autoridade de Cícero, no discurso contra Verres, de Suppliciis, bastaria para evitar qualquer erro. Diz o orador, em duas passagens, que a guerra dos escravos não só não se comunicou de qualquer modo à Sicília, como não houve o menor sinal de sublevação na ilha. T. II, p. 188 e 194. Razão teve, portanto, Dacier, de seguir a outra lição dos manuscritos, da qual resulta que: Tendo encontrado corsários cilícios, Espártaco concebeu a idéia de tentar um ataque à Sicília com dois mil homens, para reavivar a guerra dos escravos, que não se havia renovado, diz categoricamente Cícero à pág. 188, depois da que Mânio Aquílio, cônsul no ano de Roma 653, havia findo, matando seu chefe Atenião, segundo declara Diodoro de Sicília. Floro, no 1. III, cap. 19, narra esta última passagem de outro modo. O plano de Espártaco não foi levado a efeito, ou pela razão aqui apresentada por Plutarco, ou devido às precauções tomadas por Crasso, conforme declara Cícero na passagem já citada.

SOBRE A VIDA DE SERTÓRIO

CAP. XXVII, pág. 326. Nada existe no texto de Plutarco que signifique vitória de Sertório e derrota de Pompeu. Houve, de ambos os lados, parte do exército vitoriosa e parte vencida, O acampamento de Sertório foi tomado e saqueado, do que Pompeu se gaba em sua carta enviada ao Senado, existente entre os fragmentos de Salústio. É verdade que a desordem dos saqueadores deu oportunidade a Sertório de recair sobre eles vantajosamente. Mas isto não constitui nem vitória, nem derrota decisivas, como consta na Vida de Pompeu.

Este combate deu-se junto do rio Sucrão, segundo diz Plutarco na Vida de Pompeu, e não na cidade do mesmo nome, na foz do rio, à qual se referem Tito Lívio, Estrabão e Plínio, e que não é mencionada no texto de Plutarco. Este rio banha Castela e Aragão, outrora ocupados pelos celtiberianos, sendo hoje o Xucar. Este artigo não oferece qualquer dúvida, o que não se dá com o artigo seguinte, no qual Amyot cita a cidade de Tútia, declarando apenas Tútia. Os comentadores que não se conformam com esta falha opinam pela sua retificação, desejando uns que se leia o rio Dúrio, e outros o rio Túrias. Tútia foi, de fato, uma cidade desta província, como se vê claramente em Floro, liv. III, cap. XXII, 9, que no entanto se engana, quando dá a tomada de Valência após a morte de Sertório, quando ela se deu muito antes segundo a carta de Pompeu, já citada. Também é exato que o combate a que Plutarco se refere aqui, é posterior ao levado a efeito junto ao rio Sucrão, conforme êle mesmo declara. Logo, este não pode ser o mesmo que o rio Dúrio ou Túrias, seguido da tomada de Valência, porque este caso de Valência precedeu ao de Sucrão, e Pompeu combateu sem Metelo. conforme Plutarco declara na Vida de Pompeu. A substituição do Dúrio ou do Túrias não tem razão de ser. O nome da cidade de Tútia deve ser conservado.

Quanto ao combate anterior junto do Dúrio ou do Túrias, deve-se primeiro observar que Valência, situada a leste da Espanha, exclui toda idéia do Dúrio, hoje Douro, que se lança no Oceano ocidental, depois de atravessar Portugal. Além disso, Valência acha-se na foz de um rio que Plínio denomina Túrio, o mesmo que os nossos sábios chamam Túrias. Isto é incontestável; mas na carta de Pompeu, e nos discursos de Cícero por Balbo, este rio tem o nome de Dúrio. Esta simples diferença ortográfica, que não influi no caso, não merece, penso, discussão aprofundada.

CAP. XXX, pág. 329. Dada a semelhança dos fatos relatados no epítome do nonagésimo-terceiro livro de Tito Lívio, parece que esta cidade é Calaguris ou Calagúrio, onde Estrabão diz que Sertório foi sitiado por Pompeu no fim desta guerra, pág. 244. Esta cidade é que foi tomada após sua morte, produzindo tão grande revolta e ódio entre os habitantes, que degolaram mulheres e filhos, para servir-lhes de alimento, a fim de não buscarem na luta a gloriosa alternativa da vitória ou da morte. Existiam duas cidades com este nome: uma à direita do Ibero, na terra dos vasconços, e outra à esquerda, a algumas léguas do rio, na província de Ilergetes. É da primeira que se trata nesta passagem.

FIM DO QUINTO VOLUME


 

Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da França. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

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Sócrates afastando Alcebíades do Vício by Pedro Américo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

A PEDERASTIA EM ATENAS NO PERÍODO CLÁSSICO: RELENDO AS OBRAS DE PLATÃO E ARISTÓFANES. ( downloads)

LUANA NERES DE SOUSA

GOIÂNIA 2008

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás como requisito para obtenção do grau de Mestre em História.

Área de Concentração: Culturas, Fronteiras e Identidades Linha de Pesquisa: História, Memória e Imaginários Sociais.

Orientadora: Profª. Drª Ana Teresa Marques Gonçalves.

LUANA NERES DE SOUSA

A PEDERASTIA EM ATENAS NO PERÍODO CLÁSSICO: RELENDO AS OBRAS DE PLATÃO E ARISTÓFANES.

Download da dissertação do formato original em formato PDF.

Dissertação defendida pelo Programa de Pós-Graduação em História, nível Mestrado, da Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal de Goiás, aprovado pela Banca Examinadora constituída pelos seguintes professores:

Professora Doutora Ana Teresa Marques Gonçalves/UFG Presidente
Professor Doutor Alexandre Carneiro Cerqueira Lima/UFF Membro Externo
Professor Doutor Carlos Oiti Berbert Júnior/UFG Membro Interno
Professor Doutor Marlon Jeison Salomon /UFG Suplente

 

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) (GPT/BC/UFG)

Sousa, Luana Neres de.
S725p A pederastia em Atenas no período clássico [manuscrito]: relendo as obras de Platão e Aristófanes / Luana Neres de Sousa.2008
113 f.
Orientadora: Profª. Drª. Ana Teresa Marques Gonçalves.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Goiás. Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia, 2008.
Bibliografia: f. 106-113.

1. História Antiga 2. Atenas (Grécia) -Pederastia 3. Platão 4. Aristófanes 5. Imaginário 6. Identidade Social

I. Gonçalves, Ana Teresa Marques.II. Universidade Federal de Goiás. Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia III. Titulo.

CDU: 94(38)

SUMÁRIO

  • RESUMO
  • ABSTRACT
  • INTRODUÇÃO
  • CAPÍTULO 1 – PEDERASTIA: PRÁTICAS E CONCEITOS
    • 1.1. Pederastia: Contexto e Conceitos
    • 1.2. A Pederastia em Atenas
      • 1.2.1. Questões Morais
      • 1.2.2. Os ritos e os “jogos de sedução”
      • 1.2.3. O corpo para os atenienses
      • 1.2.4. O imaginário dos eupátridas atenienses
    • 1.3. A(s) identidade(s) dos Pederastas em Atenas no século V. a.C.
      • 1.3.1. A pederastia e a homossexualidade moderna
    • 1.4. A Pederastia e a Democracia em Atenas durante o período clássico
  • CAPÍTULO 2 -PLATÃO E A FILOSOFIA DO AMOR PEDERÁSTICO
    • 2.1. A Obra filosófica de Platão
      • 2.1.1. Sócrates: “parteiro intelectual” da Filosofia Ocidental
      • 2.1.2. A Influência de Sócrates na Obra de Platão
    • 2.2. O “Amor” na Obra Platônica
      • 2.2.1. Lísis
      • 2.2.2. O Banquete
      • 2.2.3. Fedro
    • 2.3. Platão e a memória pederástica
  • CAPÍTULO 3 – FAZER SORRIR E REFLETIR: A CRÍTICA DE ARISTÓFANES À PEDERASTIA ATENIENSE NO PERÍODO CLÁSSICO
    • 3.1. O Teatro Grego e a Comédia Ática Antiga
    • 3.2. Aristófanes: Vida e Obra
    • 3.3. A visão educacional de Aristófanes em As Nuvens
    • 3.4. A Imagem de Sócrates na Obra de Aristófanes
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS
  • BIBLIOGRAFIA
    • A -Documentação Textual
    • B -Obras de Referência.
    • C -Obras Gerais

 

RESUMO

A PEDERASTIA EM ATENAS NO PERÍODO CLÁSSICO: RELENDO AS OBRAS DE PLATÃO E ARISTÓFANES.

Bastante conhecida no mundo acadêmico, a pederastia em Atenas praticada durante o período clássico, ainda se trata de um objeto mal interpretado, não recebendo seu caráter pedagógico e de formação social dos futuros eupátridas a devida atenção. O objetivo geral desta pesquisa encontra-se na análise da pederastia praticada em Atenas durante o século V a.C e início do século IV a.C. Para tanto, utilizamos como fontes os diálogos Lísis, O Banquete e Fedro do filósofo Platão e a comédia As Nuvens de Aristófanes, a fim de compararmos o modo como a relação entre erastas e erômenos figurava no imaginário social ateniense neste período.

Utilizamos os conceitos de imaginário e identidades que têm sido amplamente discutidos pela historiografia a partir das últimas duas décadas do século XX, buscando apresentar parte desta discussão e aplicá-la no estudo das relações pederásticas no recorte de nossa pesquisa. Além de demonstrar a importância desta relação para a formação do futuro cidadão ateniense, salientamos as principais características da pederastia a partir da leitura das obras de Platão e Aristófanes.

Palavras-chaves: Pederastia, Platão, Aristófanes, Imaginário, Identidades.

ABSTRACT

THE PEDERASTY IN ATHENS DURING THE CLASSICAL PERIOD: RE-READING THE WORKS OF PLATO AND ARISTOPHANES.

The pederasty in Athens throughout the classical period is comprehensively approached in the academic environment, however it still remains a misinterpreted matter, where the future eupatridae’s educational character and social formation do not receive enough attention. The main purpose of this research is the analysis of the pederasty practiced in Athens during the fifth and at the beginning of the fourth century B.C. To do so we have been studying as sources the Plato’s dialogues Lysis, the Symposium and Phaedrus, and the comedy the Clouds by Aristophanes, in order to compare the way the relationship between the erastes and eromenos figured on this period.

In this paper we use the concepts of imaginary and identities, which have been widely discussed by historiography since the last two decades of the twentieth century, taking part in this discussion and applying it in our studies. Beyond showing the importance of the pederastic relationships for the formation of the future Athens’ citizen, we emphasize the main characteristics of the pederasty in Athens based on the readings of Plato and Aristophanes.

Keywords: Pederasty, Plato, Aristophanes, Imaginary, Identities.

Introdução

As peculiaridades do mundo grego em relação às relações sexuais não são, de modo algum, novidades em trabalhos historiográficos, sobretudo após o alargamento do horizonte de pesquisa que a História Cultural realizou após a segunda metade do século XX. Numerosas são as análises do papel que as culturas helenas dedicavam aos contatos sexuais entre indivíduos de mesmo sexo biológico e o desprezo masculino em relação às mulheres. Entretanto, raros são os pesquisadores que não cometem a inadvertência de adequar à visão do homem grego, em especial o ateniense, os moldes sexuais do mundo contemporâneo, oferecendo aos primeiros a falsa idéia de que na Grécia de Sócrates, Alcibíades, Platão e Aristófanes a “homossexualidade”, como é concebida no mundo contemporâneo atual, era natural e, muitas vezes, apoiada pela sociedade. Sabemos que “homossexualidade” é um conceito surgido somente durante a segunda metade do século XIX, não sendo apropriado, portanto, para designar os contatos sexuais entre indivíduos no mesmo sexo durante a Antigüidade. Muitas destas pesquisas estão imbuídas do preconceito proveniente do moralismo herdado pelo cristianismo e judaísmo, intolerantes à pratica sexual que não esteja direcionada à reprodução. Outras buscam legitimar o comportamento homoerótico de grupos em nosso tempo, que muitas vezes tentam autenticar suas práticas buscando as respostas para suas perguntas em sociedades como a grega e a romana antigas. Um exemplo é a obra Homossexualidade: uma história do jornalista inglês Colin Spencer. Nesta obra Spencer procura resgatar a história da homossexualidade, buscando referências desde a Pré-história, passando pela Antigüidade, chegando até os dias atuais. Termos como “homossexuais” e “homossexualidade” são empregados para designar qualquer tipo de envolvimento entre homens, até mesmo em períodos anteriores à elaboração de tais conceitos. […] Continue lendo a dissertação aqui.

 

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mapa roma itália

PLUTARCO – VIDAS PARALELAS

CONFRONTO ENTRE CRASSO E NÍCIAS

Para se estabelecer o confronto entre os dois, deve-se, em primeiro lugar, dizer que a riqueza de Nícias foi mais honestamente adquirida ou menos censurável que a de Crasso, embora custe, não há dúvida, louvar o ganho dos que exploram as minas de metais, valendo-se geralmente de homens perversos nas escavações, ou de escravos bárbaros, que mantêm à força, algemados uns e outros doentes e moribundos, devido às impurezas do ar destas cavernas. Mas, mesmo que se compare este meio de ganhar dinheiro com o de que se serviu Crasso, comprando as confiscações que Sila vendia e casas que se incendiavam ou que se achavam em risco de ser atingidas pelo fogo, achar-se-á o de Nícias mais razoável. Além disso, Crasso também explorava, como era público e notório, a agricultura e o empréstimo de dinheiro a juros elevados.

II. Quanto a outras faltas que algumas vezes lhe imputaram, e que êle negou forte e firmemente, como que exigia dinheiro das partes para opinar no Senado a seu favor; que êle sempre procurava desfavorecer em alguma coisa os aliados do povo romano, para tirar proveito; que adulava e acariciava mulheres para explorá-las; que protegia e ajudava a esconder malfeitores, desde que tivesse lucro, Nícias nunca foi capaz de as praticar. Pelo contrário, foi publicamente ridicularizado pelo que despendera com os caluniadores, para deixá-lo em paz. Isto, que seria vergonhoso se praticado por um Péricles ou por um Aristides, era-lhe indispensável, devido à sua timidez. Coisa que o orador Licurgo depois louvou em público, declarando que, à acusação que o povo lhe fazia quanto aos caluniadores, êle podia responder altivamente: "Tendo tão Ion-

garriente manejado vossos negócios, sinto-me muito feliz em saber que censurem o fato de eu só havei dado, ao invés de me apropriar". Quanto à prodigalidade, a de Nícias não ia além da de qualquer indivíduo da classe média, acrescida de uma ou outra doação de imagem aos deuses, ou de jogos e diversões públicas para distrair o povo. Mas todo o dinheiro por ele gasto nisto, e com a manutenção de sua casa, não passou de uma pequena parte do que Crasso despendeu no banquete que ofereceu ao público, no qual agradou milhares de indivíduos de uma vez, e ainda lhes forneceu alimentos durante algum tempo. Gastaram honestamente o que adquiriram de modo indigno.

III. Isto com relação às suas fortunas. Quanto à sua conduta na administração pública, Nícias nada praticou de ardiloso, violento ou injusto; não deu a menor mostra de animosidade ou de arrogância, e sim de excessiva simplicidade. Tanto assim que, iludido na boa-fé por Alcibíades, ele sempre se dirigiu ao público de modo muito discreto. Crasso, pelo contrário, é taxado de cobarde e desleal, por trocar facilmente de amigos e de inimigos. Êle mesmo confessava haver alcançado o seu segundo consulado pela violência, ter contratado facínoras para matar Catão e Domício, e, na assembléia havida para a escolha de governadores das províncias, muitos dos seus assalariados foram feridos e quatro mortos. E, coisa que omitimos, descrevendo a sua vida, contrariado em suas pretensões por Lúcio Análio, assentou-lhe forte murro no rosto, fazendo-o retirar-se bastante ensangüentado. Quanto Crasso foi violento e tirânico em tais coisas, Nícias mostrou-se pusilânime nas suas intervenções governamentais, a ponto de submeter-se à vontade das pessoas mais baixas e desclassificadas da cidade, o que é passível de grande censura. Nisto Crasso mostrou-se indulgente e de excelente coração, não perseguindo pessoas como Cleon e Hipérbolo, mas não cedendo à glória e esplendor de César, nem aos triunfos de Pompeu, mas procurando igualá-los em poder e autoridade, chegando mesmo a sobrepujar Pompeu na dignidade de censor.

IV. Os grandes homens tornam-se notáveis e não invejados, por suas grandes realizações na administração pública, quando destroem a inveja por meio de uma linha de conduta irrepreensível. Nícias, entretanto, preferia o descanso e a segurança da sua pessoa a tudo; e, temendo as arengas de Alcibíades na tribuna, os lacedemônios no forte de Pile, Pérdicas, na Trácia, encontrava espaço de sobra, para descansar, na cidade de Atenas, afastando-se por completo da direção dos negócios públicos, a fim de poder tecer um lindo chapeuzinho de tranqüilidade, para pô-lo à cabeça, no dizer de alguns retóricos. O desejo de intervir em favor da paz era nele uma tendência divina e um ato digno de tão ilustre personagem, que não poupou esforços para dar fim à guerra. Nisto Crasso não se compara a ele, embora haja acrescentado ao império romano todas as províncias existentes até ao mar Cáspio e até ao Oceano Índico.

V. Quando se lida com um povo que sabe dar valor e autoridade aos que agem bem e trilham o reto caminho da virtude, não se deve dar acesso aos maus, entregar cargos públicos aos indignos, nem confiar em falsos amigos, como fez Nícias, que deu oportunidade a Cleon, atrevido arengueiro e grande esbravejador, de ser eleito comandante. Também não louvo o fato de, na guerra contra Espártaco, haver-lhe Crasso dado combate com temerária precipitação, ao invés de fazê-lo com segurança, movido pela ambição, e de receio que a aproximação de Pompeu lhe destruísse a glória de quanto realizara durante toda esta guerra, como sucedeu a Metelo, que foi impedido por Múmio de tomar Corinto. O pior é que o procedimento de Nícias, no caso, apresenta-se, sob todos os aspectos, afrontoso e imperdoável, porque êle não cedeu a seu adversário as honras e o posto de comandante quando teve probabilidade de feliz êxito, ou de não correr grande risco de vida, e sim quando notou a gravidade da situação e a falta de segurança pessoal, pouco se preocupando com os mais, desde que se pusesse a salvo. Isto não fêz Temístocles, durante a guerra contra os persas; pois, para impedir que um homem de pouco valor, insensato e amalucado, eleito comandante-geral de Atenas, fosse causa da desgraça pública, deu-lhe secretamente dinheiro paia fazê-lo desistir da sua pretensão. Catão, por sua vez, sobrecarregado de serviços, vendo o perigo iminente, solicitou o auxílio de um representante do povo, para o bem geral. Nícias, pelo contrário, mantendo-se a postos para atacar a cidade de Minoa, a ilha de Cítara e os infelizes melianos, ao ter de combater contra os lacedemônios despojou-se do manto de comandante e entregou à temeridade e incapacidade de Cleon os navios, as armas e os homens, no momento em que era exigido o mais atilado e experimentado dos comandantes. Tratando-se da defesa de sua terra e não de meio para a conquista de renome, o seu ato fêz com que depois êle fosse constrangido a aceitar o posto de comandante, para ir guerrear os siracusanos na Sicília, pois o motivo pelo qual êle desaconselhava com veemência tal cometimento foi considerado pelo povo uma afronta à coisa pública, e vontade de, por mandria e cobardia, fazer perder à sua terra uma ótima oportunidade de conquistar a Sicília.

VI. Todavia, isto é um testemunho de que o juízo que faziam da sua probidade e da sua bondade era tal, que, embora êle detestasse a guerra e se apegasse aos cargos e honrarias dos negócios públicos, seus concidadãos não deixavam de elegê-lo como o mais idôneo, o mais perito e o mais honesto da cidade. Crasso, que não desejava outra coisa, só conseguiu ser eleito comandante-geral na guerra contra os escravos, e ainda assim por falta de outro, porque Pompeu e Metelo, e os dois Lúculos, se achavam ausentes, ocupados em outras guerras. Embora ele estivesse então em voga, fosse muito reputado e tivesse grande prestígio, mesmo os que o apoiavam consideravam-no, a meu ver, como diz o poeta cômico,

Homem honesto para tudo, menos para a guerra.

No entanto, o que os romanos fizeram compelidos pela ambição e pelo desejo ardente de dominar, de nada lhes valeu, porque, do mesmo modo que Nícias seguiu para a guerra contra a vontade, obrigado pelos atenienses, o fizeram os romanos, arrastados por Crasso, o que deu origem à ruína do povo por causa de um, e de outro por causa do povo. Posto que haja nisto motivo para louvar Nícias, não se pode censurar Crasso; porque, se aquele, como comandante experimentado e prudente, anteviu a impossibilidade de conquistar a Sicília, e desaconselhou sempre o tentame, sem deixar enlevar pela ilusão dos seus concidadãos, Crasso, empreendendo a guerra contra os partas, por julgar coisa fácil derrotá-los, foi, não há dúvida, iludido em sua boa-fé, mas aspirou a grandes cometimentos.

VII. Depois que Júlio César conquistou para o império romano as províncias do Ocidente, isto é, as Gálias, as Alemanhas e a Inglaterra, também desejava seguir para o Oriente e chegar ao Oceano Indico, subjugando todas as províncias da Ásia, como aspiravam Pompeu e Lúculo, ambos pessoas conceituadas, que sempre foram benevolentes para com todos, e no entanto tiveram a mesma intenção e manifestaram o mesmo desejo de Crasso. Quando a direção da guerra no Oriente foi entregue a Pompeu, por decreto do povo, o Senado não o aprovou e se opôs o mais possível. E,, tendo chegado notícias que César derrotara em combate trezentos mil alemães, Catão, referindo-se a tal acontecimento no Senado, foi de opinião que se devia deixá-lo às mãos dos alemães que ele vencera, como castigo, para que a vingança da cólera dos deuses caísse inteira sobre a cabeça de quem violou a paz estabelecida. O povo, entretanto, não ligando importância às demonstrações de Catão, durante quinze dias promoveu festas e procissões na cidade toda, regozijando-se, e fez sacrifícios públicos aos deuses, em ação de graça por tão grande vitória. Calcule-se, por aí, quão feliz se sentiria o povo, e quantos dias festejaria e faria sacrifícios, se Crasso houvesse escrito de Babilônia que fora vitorioso e conquistara todos os reinos da Média, da Pérsia, dos hircanianos, de Susa, de Bactres, tornando-os províncias e novas regências do império romano!

Pois, se é justo violar o direito,

como diz Eurípides aos que não podem viver sosse gados e contentar-se com o que é seu, não convém perder tempo com pequeninas coisas, como arrasar uma fortaleza de Escândia ou uma cidade dr Mende, nem em perseguir e dar caça aos eginos, que saíram de sua terra e foram, como pássaros desa-ninhados, meter-se em outro buraco. O que se deve é dar grande valor à violação do direito, e nem de leve e por pouco caso desprezar a justiça, como se fosse coisa sem importância. Os que louvam o propósito de Alexandre, o Grande, na sua viagem de conquistas ao Oriente, e censuram a de Crasso, não têm razão de julgar os fatos pelos acontecimentos finais.

VIII. Finalmente, quanto ao desempenho de seus cargos, Nícias praticou valiosos feitos, pois derrotou os inimigos em diversos encontros, e por pouco não tomou a cidade de Siracusa. Não se lhe pode atribuir a culpa de todos os contratempos que lhe advieram na Sicília, e sim à peste e à inveja que dele tinham os que estavam em Atenas; onde Crasso cometeu tantos erros e faltas graves, que não permitiu que a sorte o ajudasse. E a razão por que muito me admiro de haverem os partas conseguido dominar sua loucura, e esta obter as boas graças dos romanos. E, como ambos pereceram do mesmo mal, um nada omitindo do que respeita à arte de adivinhar o futuro, e o outro tendo-a desprezado por completo, dificílimo se torna julgar qual dos dois procedeu mais acertadamente. Todavia, segundo opiniões antigas e modernas, a falta mais desculpável é a que se comete por timidez, e não a praticada por temeridade ou desleixo, transgredindo as leis e costumes estabelecidos em todos os tempos.

IX.Quanto à sua morte, a de Crasso é a menos censurável, porque não se rendeu voluntariamente, nem foi a tal obrigado; cedeu às súplicas de seus amigos, e foi desleal e traiçoeiramente enganado pelos inimigos. Esperançado de poder salvar vergonhosa e torpemente sua vida, Nícias submeteu-se à vontade dos inimigos e tornou sua morte ignominiosa.


 

Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da França. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

nov 132010
 
Arte etrusca

VIDAS PARALELAS DE PLUTARCO

AGESILAU

Nascimento e educação de Agesilau.

Arquidano, filho de Zeuxidamo, tendo reinado gloriosamente na Lacedemônia, deixou dois filhos, um dos quais foi Ágis, filho de uma notável dama chamada Lampido e o outro foi Agesilau, muito mais moço, de quem era mãe a filha de Melissípidas, que tinha por nome Eupolia. Como a sucessão ao reinado pertencesse ao filho mais velho, Agesilau devia permanecer como cidadão comum e foi criado e educado, assim, na disciplina lacônica, a qual era muito dura e penosa, mas com a vantagem de ensinar aos meninos uma rígida obediência. Considera-se que seja esta a causa pela qual o poeta Simônides chama Esparta damasim-brotos, isto é, domadora dos homens, porque ela torna, pelo longo hábito, seus cidadãos maleáveis e obedientes às suas leis, tanto ou mais do que qualquer outra cidade que tenha existido no mundo, domando-os desde a sua infância, como se faz com os potros. A lei isentava e dispensava desta sujeição os meninos que deviam suceder na realeza; mas Agesilau recebeu-a mais naturalmente do que os outros em idênticas circunstâncias, pois chegando a comandar, tendo aprendido desde a infância a obedecer, foi esta causa de saber melhor que qualquer outro rei acomodar-se e comportar-se com seus súditos, amoldando, juntamente com a grandeza real e as maneiras de príncipe, a cortesia e o hábito de contentar-se com o pouco, que havia adquirido pela educação.

Seu retrato físico e moral.

II. No tempo em que ele se achava fazendo parte daqueles grupos de crianças que são educadas juntas, Lisandro, afeiçoou-se a ele, principalmente devido à sua gentileza, pois sendo mais corajoso e mais firme em suas opiniões do que qualquer outro, como aquele que deseja, em todas as coisas, ser o primeiro, com uma veemência e uma impetuosidade tão grandes em tudo quanto queria, que era impossível vencê-lo ou forçá-lo, era, por outro lado, tão dócil e tão flexível, que fazia tudo quanto lhe ordenavam com delicadeza, nada fazendo, entretanto, por medo, pois sentia mais ser censurado do que ser sobrecarregado de trabalho. E quanto à imperfeição da sua perna, que era mais curta do que a outra, a beleza de sua pessoa que estava então desabrochando, aliada à sua gentileza, tornavam-no tão paciente e tão alegre que ele mesmo era o primeiro a caçoar e a se regozijar, o que cobria grandemente o seu defeito e fazia com vantagem aparecer a grandeza de sua coragem, pois por ser manco, não recusava por isso trabalho algum, Quanto ao seu rosto, não poderemos retratá-lo nunca, porque ele não queria e proibiu expressamente em seu testamento, que fizessem pintura ou modelassem a imagem de seu corpo, o que se presume, por ser de pequena estatura e por esperar muito pouco de si mesmo para ver. Mas como estava sempre alegre e disposto e nunca triste ou irritado, nem por palavras, nem pela fisionomia, isto o tornava mais agradável e mais amável, mesmo em sua velhice; todavia os éforos (1), conforme Teofrasto escreve, condenaram a pagar a multa seu rei Arquidamo, porque este havia desposado uma mulher de pequena estatura, e que assim engendraria reizinhos e não reis.

(1) Designação dada, em Esparta, aos cinco magistrados eleitos para fiscalizar e contrabalançar a autoridade dos reis.

Relações de Alcibíades com Timéia, mulher do rei Agis, que não reconheceu seu filho Leotíquides, senão na hora da morte.

III. Mas, na época em que Ágis, filho mais velho de Arquidamo, reinou, Alcibíades, expulso de Atenas, fugiu da Sicília para a Lacedemônia, e não fazia muito tempo que estava em Esparta quando foi suspeito de entreter relações com a mulher do rei Ágis, que se chamava Timéia, de forma que, por esta razão, Ágis jamais considerou seu filho a criança que ela teve, dizendo que a havia concebido de Alcibíades. Timéia nunca se preocupou absolutamente com isto, pois, conforme Duris escreve, algumas vezes, estando ela em sua alcova, entre as mulheres que a serviam, chamava a criança, baixinho, Alcibíades e não Leotíquides; também, segundo consta, Alcibíades mesmo dizia que não era para fazer mal nem desgostar a pessoa alguma que se havia aproximado da rainha Timéia, mas somente porque desejava que houvesse reis da Lacedemônia engendrados de sua semente. Todavia, foi constrangido, nessa ocasião, a sair fora da Lacedemônia, devido a desconfiança que tinha do rei Agis, o qual sempre teve a criança por suspeita, não a considerando nunca por legítima, até que, caindo doente, no leito da morte, Leotíquides foi se jogar de joelhos, as lágrimas nos olhos, à sua frente e soube tão bem agir, que Ágis, na presença de testemunhas, declarou que o reconhecia por seu filho.

Agesilau lhe toma a coroa, com a influência de Lisandro

IV. No entanto, depois da morte de Ágis, Lisandro, que havia derrotado os atenienses por mar e tinha mais influência e autoridade na cidade de Esparta do que qualquer outro, empreendeu fazer cair a realeza sobre Agesilau, dizendo que ela não pertencia a Leotíquides, levando em conta que era bastardo; o mesmo diziam também vários outros dos cidadãos que estimavam a virtude de Agesilau e o favoreciam muito afetuosamente, porque havia sido criado e educado com eles. Mas também, ao contrário, havia em Esparta um adivinho chamado Diópites, que sabia de cor uma infinidade de profecias antigas e era tido como grande sábio e homem de autoridade em tudo o que se referia às coisas divinas, o qual afirmava que não era permitido a um manco ser rei de Esparta e, para provar, alegou em juízo este antigo oráculo:

Olhai bem, ó nação espartana,
Se bem que sejas em coragem altiva,
Que realeza manca não germine
Em ti, que tens o porte reto e firme;
Pois de outra forma desgraças te virão
Não esperadas, que muito tempo te manterão
Enolvida em tormentas de guerra,
Que de homens torna despovoada a terra.

Lisandro, refutando, replicou que se os espar-tanos temiam este oráculo, era antes de Leotíquides que se deviam guardar, porque não interessava em nada aos deuses que alguém, tendo um pé esfolado, Viesse a ser rei, mas sim que fosse legítimo e verda-deiramente oriundo da raça de Hércules; pois seria então, dessa forma, dizia ele, que a realeza viria a coxear. Agesilau alegava ainda mais que o mesmo o deus Netuno havia testemunhado que Leotíquides era bastardo: pois havia constrangido Agis, por um tremor de terra, a sair do quarto de sua mulher e que assim, mais de dez meses depois, havia nascido Leotíquides. Foi assim que Agesilau, por essas razoes e por esses meios, não somente foi declarado rei de Esparta, como também lhe foi adjudicada a sucessão de bens de seu irmão Ágis e negada uma demanda a Leotíquides; todavia, vendo que os parentes do lado de sua mãe eram extremamente pobres, mas pessoas de bem, deixou-lhes a metade de seus haveres, com o que conquistou honra e benevolência de todo o mundo, em vez de inveja e malevolência que, ao contrário, teria levantado por causa desta sucessão.

Adquire grande autoridade.

V. E, com relação ao que Xenofonte escreve, de que, obedecendo ao seu país, adquiriu tão grande poder, que fazia completamente tudo quanto queria, eis o que havia: os éforos e os senadores possuíam então soberana autoridade no governo do Estado, mas aqueles não ficavam em seus cargos senão um ano e os senadores conservavam esta honra durante toda a vida, sendo ordenados e estabelecidos para refrear a autoridade dos reis, a fim de que não tivessem todo o poder, pois como escrevemos mais amplamente na vida de Licurgo, na ocasião em que os reis vinham a suceder-se no reinado, tinham sempre uma desavença e uma inimizade hereditária, por assim dizer, entre eles. Mas Agesilau seguiu um caminho inteiramente contrário ao de seus predecessores, pois em vez de altercar com eles expressou-lhes toda a honra e toda a reverência, não empreendendo nada sem que não lhes comunicasse primei-ramente e, quando era chamado por eles, cami-nhava mais depressa do que o próprio passo. Todas as vezes que eslava em seu trono a dar audiência e os éforos apareciam, levantava-se à frente deles, e quando um novo senador vinha a ser eleito, enviava-lhe um traje e um boi como prêmio. Por estes meios êle aumentava e honrava a dignidade de seus cargos, e sorrateiramente ia ampliando seu próprio poder e anexando à realeza a grandeza procedente da benevolência que lhe testemunhavam.

Eqüidade de Agesilau em face de seus inimigos; sua fraqueza para com os amigos.

VI. Quanto ao seu mau comportamento para com alguns cidadãos, era menos repreensível inimigo do que amigo, pois como não prejudicava jamais injustamente aos seus desafetos, mas ajudava, muitas vozes, erradamente e em coisas injustas, aos seus amigos, com vergonha de não recompensar e honrar suficientemente seus inimigos quando estes haviam procedido bem, não podia também condenar nem censurar seus amigos ainda que tivessem agido mal, considerando que nada podia ser reprovável do que faziam. Ao contrário, se acontecia que algum de seus adversários ficava aflito, era o primeiro a mostrar compaixão e o socorria voluntariamente, se o outro reclamava: por estes meios ganhou a boa graça e a amizade de todo o mundo. Os éforos, vendo tal e temendo seu poder sempre crescendo, condenaram-no ao pagamento de uma multa, ajuntando, que isto era porque êle possuía sozinho os corações dos cidadãos, os quais deviam ser comuns. Na verdade, assim como há filósofos naturais que mantêm a opinião de que quem fizesse desaparecer do mundo a discórdia e a disputa, o curso dos corpos celestes pararia e a geração e todo o movimento cessariam, porque dizem ser a razão a mantenedora da harmonia deste mundo, também parece que quem estabeleceu as leis dos lacedemônios misturou no governo, a ambição e a inveja entre os cidadãos, como um aguilhão da virtude, querendo que as pessoas de bem tivessem sempre alguma coisa a debater com os outros, estimando que aquela covarde e preguiçosa graça pela qual os homens se concedem e se perdoam a si mesmos, sem se controlar, era com falsas insígnias, denominada concórdia. Pensam alguns que certamente Homero (2) teve esta mesma opinião porque, do contrário, não faria Agamenon se alegrar ao ver Ulisses e Aquiles altercar com pesadas palavras, se não considerasse que o debate e a inveja entre homens influentes (o que os faz terem olho aberto um sobre o outro) se tornaria um grande bem em favor da coisa pública; todavia, sem dúvida isto não é assim nem se deve ocasionalmente concordar, porque as discussões e as divergências excessivas entre os cidadãos são muito perigosas e prejudiciais ao bem público.

É nomeado para guerrear o rei da Pérsia.

VII. Pouco depois de Agesilau ter alcançado o trono da Lacedemônia, chegaram alguns viajantes da Ásia trazendo notícias de que o rei da Pérsia estava preparando uma poderosa armada com o objetivo de destituir os lacedemônios da prioridade nos mares. Além disso, Lisandro, desejando ser outra vez enviado à Ásia para socorrer seus amigos, os quais havia deixado como senhores e donos das cidades e fortes do país, de onde estavam sendo expulsos por seus cidadãos, outros castigados de morte porque abusavam violenta e tiránicamente de sua autoridade, sugestionou Agesilau a que empreendesse viagem e passasse à Ásia, para ir guerrear esse rei bárbaro longe da Grécia, antes que sua armada e seu equipamento ficassem prontos. Para conseguir isto mais facilmente, escreveu aos seus amigos da Ásia pedindo enviassem a Esparta solicitação para que seu capitão fosse Agesilau, o que eles fizeram; e Agesilau, em plena assembléia do conselho da cidade, aceitou o cargo, com a condição de lhe entregarem trinta capitães espartanos para o assistir e aconselhá-lo em seus empreendimentos, dois mil escravos libertos e seis mil dos aliados da Lacede-mônia. Isto lhe foi fácilmente concedido mediante a interferência de Lisandro e enviaram-no logo com os trinta capitães, dos quais Lisandro foi o primeiro, não somente pela autoridade e reputação que havia adquirido, como também pela amizade que tinha por Agesilau, o qual se sentia mais preso a êle por lhe haver conseguido aquela posição do que por tê-lo feito chegar à realeza.

(2) Odisséia, L. VIII, v. 77.

Sacrifício de uma corça a Diana.

VIII. Enquanto o exército se reunia no porto de Geresto, Agesilau, com alguns de seus amigos, foi à cidade de Áulida, onde lhe aconteceu que à noite, dormindo, alguém lhe disse: — "Ó rei dos lacedemônios, sabes que nunca houve capitão-general eleito em toda a Grécia, a não ser antigamente Agamenon e tu agora, depois dele, e para que comandes os mesmos povos que ele, quando vais guerrear os mesmos inimigos, partindo do mesmo local, é razoável que faças um mesmo sacrifício à deusa, como ele fez, à sua partida". Agesilau, tão logo teve esta visão, lembrou-se de que Agamenon, persuadido pelos adivinhos, sacrificava naquele mesmo lugar sua própria filha; todavia ele não se assustou, e de manhã deu conta a seus amigos do acontecido e disse-lhes que sacrificaria à deusa, achando ser verossímil que ela se agradasse, mas não queria imitar a cruel devoção do antigo capitão Agamenon. E, dizendo isto, mandou trazer uma corça coroada com flores, ordenou a seu adivinho que a imolasse, não concordando que tivesse a honra desse feito, como era costume no lugar, aquele que fora escolhido pelos da Beócia; ouvindo isto, os magistrados e governadores da Beócia ficaram descontentes e enviaram seus beleguins a Agesilau, intimando-o a que desistisse de sacrifícios ali naquele local, contra as leis, privilégios e costumes do país. Os que foram enviados fizeram-lhe saber sua missão, mas vendo que o animal já havia sido imolado e seus quartos jaziam sobre o altar, eles se apoderaram daqueles restos e os atiraram fora. Isto irritou Agesilau, que estava na hora de seu embarque e dali saiu furioso contra os tebanos, com desagradável impressão de sua viagem por causa desse sinistro presságio, o qual lhe parecia prognosticar que tal saída não dana o resultado que desejava.

Inveja de Lisandro.

IX. Chegando à cidade de Éfeso, ficou logo descontente com as honras prestadas a Lisandro, vendo o seu grande séquito, pois todos iam continuamente à sua casa para homenageá-lo e, quando saía seguiam-no e acompanhavam-no por toda a parte, como se Agesilau não tivesse senão o nome e a aparência de capitão-general pelas leis da Lacede-mônia, e como se Lisandro fosse aquele que, em verdade, tivesse o poder e a autoridade sobre tudo, pois nunca havia sido enviado capitão grego nessas condições, isto é, que tivesse adquirido tanta reputação, nem se tivesse feito tão temível quanto êle, nem jamais houve homem que fizesse mais benefícios aos seus amigos, nem maiores danos a seus inimigos; estas coisas, estando ainda vivas na lembrança de todos, os do país ainda se lembravam e viam em Agesilau um homem simples, popular, que pouco se mostrava em sua maneira de agir; ao contrário, reparavam em Lisandro a mesma veemência, a mesma aspereza e sobriedade no falar que haviam outrora conhecido; por isso, todo o mundo se dobrava completamente diante dele, acontecendo que só êle comandava. Isto foi a causa pela qual os outros espartanos de início se zangaram, porque parecia terem vindo para servir a Lisandro e não para aconselhar o rei. Mas, depois, Agesilau mesmo se aborreceu e ficou descontente também, se bem que por natureza não fosse invejoso nem se ressentisse quando honravam outros que não ele; sendo, porém, por natureza, muito ambicioso de glória e homem corajoso, tinha receio de que se praticasse algum belo feito nessa guerra, o atribuíram a Lisandro, pela grande reputação que desfrutava; assim, começou a portar-se desta maneira para com ele: primeiramente, contradizia todos os seus conselhos e todas as empreitadas que lhe punha à frente; mesmo aquelas a que ele se mostrava mais aficionado, não executava nenhuma, mas tomava outras em seu lugar. Ainda mais se alguém tivesse contas a acertar com ele ou reclamasse alguma coisa, se se apoiavam sobre o favor de Lisandro, enviava-os de volta sem nada fazer.

Trata Lisandro de tal maneira que o obriga a separar-se.

X. Semelhantemente, também os julgamentos, se havia alguns que Lisandro considerava mal, podiam estes interessados estar seguros de ganhar seus processos; ao contrário, se Lisandro se afeiçoava a algum e o desejava recompensar, era difícil salvar-se da condenação a multa. Todas estas demonstrações se faziam ordinariamente, não por acaso, uma ou duas vezes, mas igualmente, como de propósito deliberado. Lisandro, desconfiando da coisa, não a escondeu aos seus amigos, mas lhes disse francamente que era por sua causa que lhe faziam isto. Portanto, aconselhou-os a que fossem fazer a corte ao rei e aos que tinham mais força do que ele.

Agesilau considerou que ele dizia e fazia tudo isto para suscitar o ódio do mundo contra êle; por isto, desejando causar-lhe ainda maior despeito, estabeleceu-o como comissário dos víveres e distribuidor das carnes. E, depois de haver assim feito, segundo escrevem, êle disse em voz alta na presença de diversos que o puderam ouvir: — "Que vão agora fazer a corte ao meu distribuidor de carne". Lisan-dro, lamentando-se, disse-lhe: — "Francamente, rei Agesilau, sabes muito bem como deves engolir teus amigos". "Faz-se isto, respondeu Agesilau, aos que desejam passar sobre minha autoridade e ser maiores do que eu". "Vê, replicou Lisandro, não o fiz como estás dizendo; todavia, se tens tal opinião, dá-me algum cargo e algum lugar no qual, sem te zangar, eu possa ser útil".

Ressentimento de Lisandro.

XI. Depois desses propósitos, Agesilau en-viou-o para o Helesponto, onde Lisandro subornou um persa chamado Espitrídates, da província de Farnabazo, e o enviou a Agesilau com forte soma de ouro e de prata, e aproximadamente duzentos homens a cavalo; nem por isso a má vontade que havia concebido contra o rei diminuiu, mas ao contrário, guardou sempre o rancor em seu coração; de tal forma, procurava sempre os meios de fazer retirar das duas casas reais o privilégio que usufruíam da realeza, para a por em comum com todas as famílias dos espartanos; assim agindo, levantaria grande tumulto na cidade de Esparta, se não fosse morto tão cedo, como aconteceu numa viagem que empreendeu ao país da Beócia. Eis como as grandes naturezas ambiciosas, não podendo manter o meio termo e excedendo-se na direção da coisa pública, são muitas vezes causa de maior mal do que bem; ainda que Lisandro houvesse ficado ofendido e importuno, como estava verdadeiramente mostrando assim sua ambição fora do tempo e da estação, Agesilau não ignorava que havia muitos outros meios menos repre-ensíveis de castigar um personagem grande e ilustre, que pecava pela ambiciosa cobiça de mostrar somente a sua pessoa. É do meu aviso que todos os dois, cegos por uma mesma paixão, faliram; um, por não reconhecer o poder de seu superior, e o outro por não poder suportar a ignorância e a imperfeição de seu amigo.

Agesilau entra na Frigia, onde se apodera de diversas cidades.

XII. Ora, de início, Tissafernes, temendo Agesilau, teve alguma trégua com ele, entendendo que o rei se contentaria em deixar as cidades gregas da Ásia em plena liberdade; mas, desde que julgou haver reunido forças suficientes para o combater, declarou-lhe a guerra, a qual Agesilau aceitou, mesmo porque tinha grandes esperanças na Grécia, do que fana alguma coisa grandiosa nessa viagem e, pessoalmente, considerava uma grande vergonha, que os dez mil gregos, voltando do fundo da Ásia até o mar maior (3), sob o comando de Xenofonte, tivessem vencido e derrotado o exército do rei, tantas vezes quantas quiseram, e ele que era capitão-general dos lacedemônios, os quais ditavam a lei no mar e na terra, não praticara nenhum ato digno de memória entre os gregos. Assim, para vingar sem demora a deslealdade perjura de Tissafernes, fingiu primeiramente querer entrar no país da Caria; por esse meio, o bárbaro aí amontoou toda a sua força, mas de súbito voltou a rédea, rápido, e se atirou dentro da Frigia, onde se apoderou de diversas cidades, ganhando muitos bens, fazendo ver à sua gente que violar o acordo de paz ou trégua que juraram, significava menosprezar os deuses; mas decepcionar e abusar de seus inimigos não é somente justo, mas também honroso e traz proveito, unido ao prazer.

(3) «Maior» não está no grego.

Forma-se um esquadrão de cavalaria.

XIII. Desse modo, porque era o mais fraco da cavalaria e as entranhas dos animais sacrificados aos deuses se achavam defeituosas, Agesilau voltou para a cidade de Éfeso, onde reuniu cavalarianos, dando a entender aos homens ricos que não desejavam pessoalmente guerrear, que os dispensava, sob a condição de fornecerem um homem e um cavalo de serviço em seu lugar, e muitos assim fizeram, de maneira que, em poucos dias, Agesilau encontrou bom número de valorosos guerreiros, ao invés de infantes que não valiam nada; esses que não iam com vontade à guerra assalariavam os que iriam de boa vontade em seu lugar e igualmente também os que não desejavam servir a cavalo, no que seguiu sabiamente o exemplo do rei Agamenon (4), o qual dispensou um rico pusilânime de ir pessoalmente guerrear, tomando-lhe um bom jumento.

(4) Ver a Ilíada, L. XXIII, v. 295.

Agesilau faz vender os prisioneiros nus para mostrar a fraqueza dos persas.

XIV. Ora, havia ele ordenado aos comissários que vendiam publicamente em leilão, a quem mais oferecesse, os prisioneiros de guerra, que os despojassem, deixando-os nus, o que fizeram; e havia muita gente que comprava de bom grado seus despojos e suas vestes; mas, quanto aos corpos, ironizavam vendo-os assim brancos, delicados e tenros, por terem sido criados nas delícias da sombra, cobertos, de tal modo que se encontrava poucas pessoas animadas a fazerem oferta, porque os consideravam pessoas inúteis, nada valendo. Então Agesilau, encontrando-se presente ao leilão, expressamente para esse fim, disse a sua gente: — "Vede, meus amigos, ali estão as pessoas a quem tereis de combater e aqui os despojos pelos quais combatereis".

Derrota Tissafernes e toma seu acampamento.

XV. Depois, tendo chegado a ocasião de se organizar em campanha e entrar no país dos inimigos, Agesilau disse publicamente que entraria dentro da Lídia, não mais com a intenção de enganar Tissa-fernes; mas este mesmo se enganou, pois por ter sido decepcionado a primeira vez, não depositou mais fé nessa segunda proclamação, mas persuadiu-se de que seria por esse golpe que Agesilau entraria na Caria, levando em conta que era um país de solo desigual e desagradável para a cavalaria, no que se sentía mais fraco; não obstante, Agesilau entrou, como havia predito, dentro da região plana, na qual está situada a cidade real da Lídia, Sárdis. Tissafernes foi constrangido a acorrer em socorro, apressadamente, e chegando com extrema diligência, com sua cavalaría, surpreendeu pelos campos, vários dos inimigos afastados em desordem, daqui e dali, pilhando a planície e passando a maioria à espada. Ouvindo isto, Agesilau, falando consigo mesmo que os soldados de infantaria de seu inimigo não podiam ter ainda chegado e que êle, ao contrário, tinha o seu exército completo, por esse meio pensou ser melhor acudir prontamente à batalha do que a prolongar por mais tempo; misturou por entre a cavalaria seus soldados de infantaria superficialmente armados, ordenando-lhes que fossem rapidamente atacar o inimigo, enquanto êle faria seguir na retaguarda os outros, pesadamente armados, o que fizeram. Mas os bárbaros se puseram logo a caminho e os gregos, perseguindo-os Vivamente, e de perto, tomaram-lhes o acampamento e mataram um grande número de fugitivos.

Os lacedemônios lhe dão o comando geral em terra e mar, o que era sem precedentes.

XVI. Depois desta batalha tiveram meios, não somente de percorrer e pilhar o país do rei à vontade, como também de verificar o castigo de Tis-safernes, que era homem mau e rude inimigo da nação grega: pois o rei da Pérsia enviou imediatamente em seu lugar um outro tenente seu chamado Titrausto, que lhe mandou cortar a cabeça, e enviou uma proposta a Agesilau, solicitando-lhe atender ao despacho e oferecendo-lhe uma certa quantidade de ouro e prata para voltar a seu país. Agesilau respondeu que, quanto à paz, não competia a ele firmá-la e sim aos lacedemônios e que se achava mais à vontade para enriquecer seus soldados do que a si próprio; mas, além disso, os gregos não consideravam honroso aceitar presentes do inimigo, e sim os despojos; todavia, querendo gratificar Titrausto, porque havia vingado um inimigo comum de todos os gregos, conduziu seu exército para fora da Lídia, na Frigia, mediante a soma de trinta talentos (5) que lhe entregou pelos seus gastos. Assim, quando estava pelo caminho, recebeu (6) um bilhetinho dos oficiais e magistrados de Esparta, que lhe diziam ter-lhe entregue o comando da armada è o exército de terra, o que jamais outro capitão lacedemônio, antes dele, havia tido. Aliás era ele, sem contradição, o maior e o mais digno personagem vivo de seu tempo, conforme Teopompo escreve, como aquele que se fazia estimar mais pela sua virtude e não pela grandeza de sua autoridade; todavia, parece que neste lugar ele cometeu uma falta, ao fazer seu tenente, na armada, um tal Pisandro, irmão de sua mulher, quando devia haver outros capitães mais sábios e experimentados, tomando assim mais cuidado em gratificar sua mulher e honrar um aliado seu, do que fazer o que era mais útil para o país.

(5) Dezoito mil escudos. Amyot.
(6) Uma scytale — bastão cilíndrico, sobre o qual os espartanos enrolavam em espiral as margens do pergaminho servido para escrever os despachos do Estado. O próprio despacho.

Vai atacar o sátrapa Farnabazo, na Frigia.

XVII. Isto feito, conduziu seu exército pelas províncias de Farnabazo, onde encontrou, não somente abundância de víveres, mas também grande soma de dinheiro; dali passou ao reino da Pafla-gônia, onde fez aliança com o rei Cotis, que procurou afetuosamente sua amizade, pela virtude e constante fé que se achavam nele; como fez também Espitrídates, o qual abondonou Farnabazo para entregar-se a Agesilau, e depois que se entregou, nunca mais se separou dele, mas o seguiu e acompanhou sempre por toda a parte. Tinha ele um filho que era um menino muito bonito, chamado Mega-bates, do qual Agesilau estava enamorado e uma filha muito formosa prestes a casar, que Agesilau fez desposar o rei Cotis: tomando dele mil homens da cavalaria, com dois mil homens da infantaria superficialmente armados, voltou à Frigia onde destruiu as províncias sob o governo de Farnabazo, o qual não ousava enfrentá-lo no campo, nem mesmo fiar-se em suas fortalezas, e ia sempre fugindo à sua frente, levando consigo a maioria de tudo o que mais apreciava e que lhe era mais caro, retirando-se sempre para trás, de um sítio para o outro, até que Espitrídates acompanhado por um espartano chamado Erípidas, apertou-o um dia de tal forma, que lhe tomou o acampamento, apoderando-se de todo o mobiliário precioso que levava consigo. Mas ali Erípidas mostrou-se um tanto brusco em rebuscar o que havia sido subtraído do saque, obrigando os bárbaros a se entregarem, chegando ao ponto mesmo de querer visitar e remexer tudo. Isto irritou tão fortemente Espitrídates, que se retirou imediatamente com os paflagonianos para a cidade de Sár-dis, pelo que Agesilau irritou-se também com o que lhe estava acontecendo em toda essa viagem, desolado por haver perdido um homem de bem como Espitrídates e a tropa de guerreiros que levava consigo, e que não era nada pequena; tinha ainda receio que percebessem essa mesquinharia da qual havia sempre procurado manter-se puro e limpo, não somente a si, mas também a todos os de seu país.

Amor de Agesilau por Megabates.

XVIII. Mas, além dessas causas aparentes, ainda o apunhalava fortemente o amor do menino, que estava profundamente impresso em seu coração, tanto que, quando o tinha junto a si, seguindo sua natural tendência de não querer jamais ser vencido, esforçava-se por combater seu desejo, de maneira que um dia Megabates aproximando-se dele para acariciá-lo e beijá-lo, êle virou a cabeça, e o menino, envergonhado absteve-se, daí em diante, não ousando mais saudá-lo, senão de longe. Isto desagradou por outro lado a Agesilau, arrependido de haver desviado o beijo de Megabates e fingia admirar-se, porque êle não o saudava mais com um beijo como o havia acostumado, ao que alguns de seus familia-res lhe responderam então: — "Tu mesmo és a causa, majestade, que não ousaste esperar, mas tiveste medo do beijo de um tão belo menino; pois voltará ele tão logo se lhe diga, contanto que te ihslenhas de fugir outra vez, como já fizeste". Ouvidas estas palavras, Agesilau ficou um espaço de tempo muito pensativo, sem dizer nada e por fim respondeu-lhes: — "Não há necessidade que vós lhe faleis disso, pois eu vos asseguro que ficaria mais a vontade em poder ainda resistir a tal beijo, do que se tudo o que vejo diante de mim se transformasse em ouro’ . Assim se comportou Agesilau para com Megabates enquanto estava a seu lado, mas ao contrário, quando foi afastado, ele se encontrou tão ardentemente apaixonado, que seria difícil afirmar, se o menino voltasse outra vez e fosse apresentado à sua frente, se ele se defenderia ou se deixaria beijar.

Entrevista de Agesilau e Farnabazo.

XIX. Depois Farnabazo, procurando falar com ele, reuniu-os juntos um ciziceniano chamado Apolofânio, que era amigo comum de ambos; chegou primeiro Agesilau com seus amigos ao lugar marcado para a entrevista e, esperando Farnabazo, atirou-se sob uma árvore na sombra sobre a relva que estava alta e abundante, até que Farnabazo aí chegou também, ao qual estenderam peles macias de longo pêlo e tapetes lavorados em diversas cores, para se sentar em cima; entretanto, tendo vergonha de ver Agesilau assim deitado por terra sobre a relva nua, deitou-se também junto dele, se bem que trajasse uma veste de tecido maravilhosamente fino e de cores muito ricas. Depois de se terem saudado, Farnabazo começou a falar, não faltando as boas admoestações e justas lamentações, como aquele que havia causado tanto prazer aos lacedemônios na guerra contra os atenienses e como recompensa encontrava-se então pilhado e saqueado por eles. Agesilau, vendo os outros espartanos que assistiam a esta entrevista abaixarem os olhos de vergonha, não sabendo o que responder, porque não ignoravam que causavam dano a Farnabazo, tomou a palavra e respondeu desta maneira: — "Quando viemos para aqui, Farnabazo, sendo amigos do rei, agimos como amigos e agora que nos tornamos inimigos, agimos também como inimigos; vendo que queres ser um dos seus escravos, não é nada extraordinário se procuramos prejudicá-lo, fazendo-te mal: mas do momento que tu prefiras mais ser amigo e aliado dos gregos do que escravo do rei da Pérsia, considera que estes guerreiros, estas armas e estes navios, nós todos aqui estamos para guardar e defender teus bens e tua liberdade contra ele, sem a qual não há nada de belo, de bom nem de desejável neste mundo". A isto lhe respondeu Farnabazo abertamente, dando-lhe a entender qual era sua intenção: — "Pois se o rei, disse ele, enviar aqui um outro capitão para ser seu comandante, assegurai-vos que eu me tornarei imediatamente um dos vossos; mas lambem, se ele me dá o cargo e superintendência nesta guerra, não esquecerei, com diligência e afeição de fazer inteiramente tudo o que puder pelo seu serviço contra vós". Esta resposta agradou a Agesilau, o qual lhe tomando a mão ao se levantar com ele lhe disse: — "Oxalá, Farnabazo, que tendo um coração, como tens, fosses nosso amigo, e não nosso inimigo".

Estreita amizade de Agesilau com o filho de Farnabazo.

XX. Mas, assim que Farnabazo voltava com seus soldados, seu filho, que lhe havia ficado atrás, correu para Agesilau e, rindo, lhe disse: — "Majestade, quero entreter amizade e hospitalidade contigo", e dizendo isto lhe apresentou um dardo que mantinha em sua mão. Agesilau aceitou, ficando bem à vontade para ver que o menino era belo e quão gentil era o agrado que lhe fazia; olhou ao seu redor para verificar se havia alguém em sua companhia que tivesse alguma coisa de belo que pudesse ser próprio para lhe render igual prova, e percebendo o cavalo de um secretário seu, chamado Adeus, que estava arreado com um belo e rico arreio, mandou imediatamente retirá-lo e deu-o ao belo e gentil rapazinho, o qual depois, jamais esqueceu; mas algum tempo mais tarde, sendo expulso da casa de seu pai e privado de seus bens por seus irmãos, constrangido a fugir para o Peloponeso, teve-o sempre em singular recomendação, chegando mesmo a ajudá-lo em seus amores (7), pois o moço queria muito afetuosamente a um rapazinho ateniense, que se desenvolvia nos exercícios físicos para um dia competir nos jogos; mas, quando se tornou grande e rijo e se apresentou para ser arrolado no número daqueles que deviam tomar parte nos jogos Olímpicos, correu o perigo de ser rejeitado, pelo que o persa, que o amava, recorreu a Agesilau, solicitando-lhe auxiliar ao jovem campeão, de sorte que não sofresse mais a vergonha de ser recusado. Agesilau, desejando ajudá-lo até o fim, dedicou-se e obteve o que pedia, não sem grande trabalho e dificuldade.

(7) Ver as Observações.
(8) A Hidria.

Agesilau ama seus amigos além das leis da eqüidade.

XXI. Assim Agesilau, em todas as outras coisas era bem rígido e observava pontualmente tudo o que as leis ordenavam, mas nos negócios de seus amigos, ele dizia que guardar estreitamente a rigidez da justiça era uma cobertura com a qual se cobriam os que não queriam fazer nada pelos seus amigos. Nesse sentido, existe ainda uma cartinha que escreveu (8) a Idriano, príncipe da Caria, pedindo a libertação de um amigo seu: — "Se Nícias não errou, liberte-o; e se errou, liberte-o por amor de mim; mas seja como for, liberte-o". Tal era Agesilau ao tratar dos interesses de seus amigos; todavia, em muitas ocasiões, olhava primeiro a utilidade pública, como demonstrou certa vez, em que foi constrangido, um pouco perturbado e às pressas, a abandonar um que estimava, e que achava doente; e como o outro o chamava pelo nome quando partia, suplicando para não o abandonar, Agesilau voltou-se e disse: — "Ó como é desagradável (9) amar e ser sábio ao mesmo tempo! assim escreveu o filósofo Jerônimo".

(9) Outros lêem: «ter piedade e ser sábio ao mesmo tampo». Amyot.

Simplicidade, moderação e outras virtudes de Agesilau

XXII. Ora, já fazia dois anos completos que estava em guerra e não se falava mais, nas altas províncias da Ásia, senão em Agesilau, correndo por toda parte o glorioso renome de sua honestidade, sua abstinência, cortesia e simplicidade, pois, quando ia sozinho com sua comitiva pelos campos, alojava-se sempre dentro dos templos mais santos, querendo que os deuses mesmos fossem testemunhas do que fazia em sua vida particular, onde muitas vezes não dese-íamos que os homens vejam o que praticamos. Mais ainda, entre tantos milhares de soldados que estavam em seu acampamento, não se encontraria uma enxerga pior do que aquela sobre a qual dormia, e quanto ao frio e ao calor, suportava um e outro tão à vontade, que parecia ter nascido para suportar somente as variações do ar e das estações. Era bem agradável aos gregos moradores na Ásia, presenciar os sátrapas, tenentes do rei da Pérsia, governadores das provín-cias e outros potentados que anteriormente eram tão soberbos e intolerantes e viviam fartos na riqueza, na volúpia e nos prazeres, fazendo agora a corte, tomados de receio, a um homem que se apresentava simplesmente vestido com uma pobre e maltrapilha capa, e como eles se constrangiam e mudavam de opinião com uma simples palavra curta que lhes dizia ele, à moda lacomana, de maneira que vinha então à lembrança de muitos, estes versos do poeta Timóteo:

Marte é um tirano, mas a Grécia
Não se intimida com o ouro, a prata ou qualquer
riqueza.

É chamado a Esparta.

XXIII. Assim, toda a Ásia se achava em reboliço e, em diversos lugares, tomavam seu partido, voluntariamente. Depois de haver reformado as cidades e os fortes e de lhes haver entregue a administração pública com toda a liberdade e franqueza, sem efusão de sangue e sem banimento de um só homem, deliberou ele passar além e levar a guerra para além das costas do mar grego, indo combater pessoalmente o rei da Pérsia e fazendo-o arriscar suas riquezas e a vida de prazeres em que se comprazia, muito a seu gosto, lá nos distantes países de Ecbátana e de Susa, como se não tivesse tempo de mover a guerra entre os gregos, pois dispunha, à sua vontade, sem se mexer de sua cadeira, pela força do dinheiro, daqueles que governavam, em cada uma das cidades. Mas, entrementes, quando estava com este pensamento, chegou-lhe Epicídidas Espartano que lhe trouxe notícias de que a cidade de Esparta estava sendo acossada pela guerra feita pelos outros povos gregos; por essa razão, os éforos o chamavam e lhe ordenavam que voltasse para defender seu país.

Ó (10) gregos, que maiores males procurais,
Que jamais fizeram os bárbaros conjurados!

Como se poderia chamar por outro nome aquela cobiça ou aquela conjuração, que atirou os gregos uns contra os outros e os fez estacionar com suas próprias mãos a fortuna que os conduzia à felicidade, voltando contra suas próprias entranhas as armas que já estavam encaminhadas contra os bárbaros, chamando ao seu país a guerra que havia sido banida? Pois não sou da opinião de Demarato de Corinto, quando diz quç os gregos estavam privados de um singular prazer, por não terem visto Alexandre, o Grande, sentado no trono real de Dario; mas pelo contrário, creio que, antes, eles deveriam chorar, ao se lembrarem de que haviam deixado esta glória para Alexandre e para os macedônios, ao perderem loucamente famosos capitães da Grécia nas batalhas de Leutres, de Coronéia, de Corinto e da Arcádia.

(10) Eurípides, «As Troianas».

Deixa tudo para obedecer à voz da pátria.

XXIV. Todavia, Agesilau não praticou jamais ato mais meritório nem maior do que aquela retirada para o seu país, nem deu jamais um mais belo exemplo de obediência e de justiça devida à sua pátria, do que aquele. Aníbal, entretanto, quando começou a sentir sua decadência, quando estava sendo quase arrojado fora da Itália, não obedeceu senão com dificuldade aos seus concidadãos, que o chamavam para ir defendê-los da guerra que sustentavam dentro de seu próprio país. Alexandre, o Grande, sendo chamado pela mesma razão ao seu reino da Macedónia, logo que ali voltou, exclamou com ironia ao saber da grande batalha que seu tenente havia travado contra o rei Ágis: — "Parece-me, quando ouço contar essas notícias, que enquanto derrotávamos por aqui o rei Dano, êle sustentou lá na Arcádia uma batalha de ratos". Se é assim, se esses dois grandes capitães haviam tido em tão pouca conta seu país, não se deve portanto considerar a cidade de Esparta feliz, por haver tido um rei que lhe trouxe tanta honra e veneração e tanta obediência às suas leis, e que tão logo recebeu a ordem para voltar, abandonou e deixou os bens e o poder que tinha pacificamente conseguido com suas mãos, com uma esperança muito bem fundada e muito bem encaminhada, com muito mais vantagem, não embarcou para voltar subitamente, deixando, além disto, uma grande mágoa em todos os aliados e confederados de seu país, pelo fato de não terminar tão bela obra que havia tão bem começado? Certamente que sim. Dessa forma se refutou um dito de Demóstrato Feaciano, o qual dizia que os lacedemônios eram mais pessoas de bem, quando em público e os atenienses, em particular; pois Agesilau mostrou-se bom rei e excelente capitão publicamente e ainda se fazia sentir amigo mais dedicado em particular e mais agradável no trato familiar. Como o dinheiro persa tinha de um lado impressa a figura de um arqueiro, ele disse, afastando-se, que dez mil arquei-ros o expulsavam da Ásia; pois era esta quantia que haviam levado a Tebas e a Atenas e distribuído entre os oradores e líderes do povo, que suscitaram com seus discursos essas duas cidades poderosas e as fizeram pegar em armas contra os espartanos.

Passa pela Trácia, Macedónia, Tessália e Farsália.

XXV. Tendo, portanto, em sua volta, passado pelo estreito do Helesponto, seguiu caminho através da Trácia, onde jamais implorou nem ao povo, nem a qualquer príncipe bárbaro, caminho, para sua passagem, mas enviava-lhes somente uma mensagem: se queriam que passasse por suas terras como amigo ou como inimigo! Todos os outros o receberam amigavelmente e o honraram cada um segundo suas forças, mas os que se chamam (11) trocábanos, aos quais o próprio rei Xerxes distribuiu presentes para poder ter passagem amigável por suas terras, mandaram-lhe pedir, para o deixar passar, cem talentos (12) em prata e cem mulheres, ao que Agesilau, criticando-os, respondeu aos mensageiros: — "E por que não vieram eles em vosso lugar para os receber?" E dizendo isto, fez logo marchar seus soldados contra os bárbaros, que esperavam em formação de batalha para que ele supusesse que guardavam a passagem, e tendo-os rompido, dizimou um grande número na hora. O mesmo mandou dizer ao rei da Macedónia, se passaria por seu país como amigo ou como inimigo. Esse rei mandou responder que ia pensar. "Pois bem, replicou Agesilau, que pense portanto, mas enquanto isso, não deixaremos de caminhar sempre para a frente". O rei macedónio admirou-se de seu grande arrojo e, temendo lhe causasse algum desgosto ao passar, mandou pedir que passasse como amigo. Ora, estavam então os tessalianos em aliança com os inimigos dos lacede-mônios, pelo que passando pelo seu país, ele o saqueou e pilhou como terras de inimigos, e enviou à cidade de Larissa, Xenocles e Cita para convencer os seus habitantes, induzindo-os a tomar o partido dos lacedemônios. Esses dois embaixadores foram detidos prisioneiros, pelo que todos os outros espartanos ficaram indignados, e foram de aviso que Agesilau devia ir fazer cerco à cidade; ele, porém, lhes respondeu que não queria ganhar a Tessália inteira, arriscando-se a perder um desses dois homens, e por esta razão, tanto fez que os livrou, entrando em entendimento com a cidade. Isto não é para se admirar muito na pessoa de Agesilau, visto que de outra feita, ouvindo dizer que havia sido travada uma grande batalha perto da cidade de Corinto, ficando sobre o campo vários grandes e valorosos personagens do lado dos inimigos e bem poucos espartanos, ele não ficou satisfeito nem ninguém o viu alegrar-se; pelo contrário, suspirou fortemente e, do íntimo do coração, exclamou: — "Ó pobre Grécia, como és desgraçada matando com tuas próprias mãos tantos bons homens teus, que teriam sido suficientes para derrotar em um dia de batalha todos os bárbaros juntos! Mas como os farsalianos, quando passavam em seu caminho, o perseguissem e prejudicassem a retaguarda de seu exército, Agesilau tomou quinhentos cavalos com os quais foi carregar sobre eles, tão vivamente, que os rompeu à força, e desta vitória mandou levantar um troféu na base do monte que se denomina Nartácio; sendo-lhe esta vitória tanto ou mais agradável do que nenhuma outra, porque com tão pequena tropa de cavalananos, que ele mesmo havia amestrado, derrotou numa só batalha aqueles que, em todos os tempos, se vangloriavam de sua cavalaria.

(11) É preciso ler: — «Os tralianos, ou os habitantes da Trália». Ver a nota de Dacier.
(12) Sessenta mil escudos. Amyot.

Entra na Beócia.

XXVI. Ali foi encontrá-los Dífndas, um dos éforos, enviado expressamente de Esparta para lhe ordenar que entrasse imediatamente armado na Beócia, e embora ele tivesse deliberado ali entrar outra vez com muito mais forças, todavia, não querendo em coisa alguma desobedecer aos senhores do conselho de seu país, disse logo aos seus soldados que o dia pelo qual eles haviam voltado da Ásia, se aproximava e mandou requisitar duas companhias dos batalhões que estavam no acampamento perto de Corinto. Em recompensa disso, os espartanos, desejando honrá-lo porque havia prontamente obedecido ao seu comando, mandaram apregoar na cidade que os jovens que quisessem ir socorrer o rei pessoalmente, viessem dar seus nomes, e, então não houve um que não fosse se apresentar muito afetuosamente para ser arrolado; mas os governadores escolheram cinqüenta somente dos mais vigorosos e de melhor disposição, os quais lhe enviaram. Enquanto isso, Agesilau atravessou o passo das Termópilas, e, cruzando a Fócida, cujo povo era amigo da Lacedemônia, penetrou na Beócia, indo assentar seu acampamento junto da cidade de Queronéia, onde de repente, assim que ali chegou, viu o sol eclipsar-se, perdendo a luz e tomando a forma da lua quando está no crescente: ao mesmo tempo ouviu a notícia da morte de Lisan-dro, o qual havia sido morto em uma batalha naval, que havia perdido contra Farnabazo e Conon, junto da ilha de Gnidos. Esta notícia lhe foi muito desagradável, como se pode aquilatar, tanto pelo sentimento da perda de um personagem que era seu aliado, como também pelo prejuízo do povo; todavia, com receio de que isso desencorajasse seus soldados e pusesse algum pavor em seus corações, justamente na hora em que estavam prontos para travar batalha, ordenou aos que tinham vindo da praia, que espalhassem uma notícia bem ao contrário do que lhe haviam dito, e ele mesmo, para secundar suas palavras, saiu a público tendo sobre a cabeça um chapéu de flores e sacrificou aos deuses como para lhes agradecer por uma boa notícia, enviando a cada um de seus amigos uma porção de carne dos animais imolados, como se habituara a fazer quando em regozijo público; depois, marchando no país, assim que percebeu de longe os inimigos e que eles também o divisaram, colocou seus soldados em ordem de batalha, dando a ponta esquerda aos orcomenianos e conduzindo ele mesmo à direita.

Batalha onde Agesilau é gravemente ferido.

XXVII. Os tebanos, por seu lado, colocaram-se à direita da sua, dando a esquerda aos argia-nos. Xenofonte, que se encontrava nesta batalha ao lado de Agesilau, com o qual voltara da Ásia, escreve que não houve jamais uma luta igual. É bem verdade que o primeiro encontro não foi muito obstinadamente debatido nem durou muito tempo, porque os tebanos derrotaram logo os orcomenianos e Agesilau os argianos; mas, quando uns e outros compreenderam que as pontas esquerdas de suas batalhas travavam grandes combates e recuavam para trás, eles voltaram rapidamente e ali Agesilau poderia ter a vitória completa sem nenhum perigo, se quisesse somente deixar passar o batalhão dos tebanos, descarregando depois sobre a retaguarda uma vez que houvessem passado; por uma questão de teimosia, para mostrar suas proezas e por força de coragem, preferiu mais dar na cabeça, e foi chocá-los de frente, não querendo vencer senão à viva força. Os tebanos, do outro lado, o receberam não menos corajosamente e houve um combate obstinado e rude em todos os lugares da batalha, mas principalmente onde Agesilau estava entre os cinqüenta rapazes que lhe haviam sido enviados para guardar sua pessoa, o valor dos quais lhe veio então muito a propósito e lhe foi muito salutar; pois ainda que cumprissem todo o dever como lhes era possível, combatendo bem e se pusessem à frente para o guardar, eles não puderam, no entanto, salvá-lo de ser gravemente fendo, mas o carregaram, magoado por diversos golpes de dardo e de espada que recebeu através de sua armadura, a qual foi torcida e dobrada em muitos lugares, e colocando-se em tropa cerrada à sua frente para o cobrir, mataram grande número de inimigos e vários deles também ficaram mortos no lugar, até que finalmente, vendo que era muito difícil forçar os tebanos de frente, foram obrigados a fazer o que não queriam de início; abriram-se para os deixar passar e quando passaram, tomando cuidado para que marchassem em desordem, como se estivessem fora de todo perigo, eles os seguiram, e correndo nos seus passos, descarregaram de novo pelos flancos; isto, entretanto, não permitiu que eles fugissem em debandada, mas retiraram-se os tebanos em passo vagaroso para a montanha Helicon, sentindo-se em extremo orgulhosos com o êxito desta batalha, na qual se haviam, segundo julgavam, se mantido invencíveis.

Agesilau vai celebrar os jogos Píticos em Delfos.

XXVIII. Mas Agesilau, ainda que se sentisse muito mal devido aos vários ferimentos que recebera, jamais quis se retirar para lugar seguro a fim de ser pensado, sem primeiro estar no local da batalha e ver carregar os cadáveres de seus soldados dentro de suas armaduras. Quanto aos inimigos, ordenou que deixassem ir para onde quisessem aqueles que se haviam escondido no templo de Minerva Itoniana, que não estava muito longe dali, diante do qual há um troféu que os tebanos antigamente ali levantaram, depois de haverem derrotado em batalha, sob o comando de Espartão, o exército dos atenienses e terem morto sobre o campo 0 capitão Tolmides. No dia seguinte, ao amanhecer, Agesilau, querendo experimentar se os tebanos teriam coragem de descer. outra vez para a batalha, ordenou aos seus soldados que colocassem chapéus de flores sobre as cabeças e aos menestréis que tocassem suas flautas, enquanto ele mandava levantar e enfeitar um troféu como vitorioso; tendo os inimigos pedido licença para retirar seus mortos, ele lhes concedeu trégua para isto, com o que confirmou sua vitória, fazendo-se carregar depois para a cidade de Delfos, onde se divertiam com os jogos Píticos; aí organizou uma procissão e celebrou o sacrifício ordinário a Apolo, oferecendo-lhe o dízimo de toda a presa trazida da Ásia, que atingiu bem a soma de cem talentos.

Conserva a antiga simplicidade de seus costumes.

XXIX. Isto feito, voltou para sua casa, onde seus concidadãos o amaram e estimaram mais do que nunca pela simplicidade de sua vida e de sua conversação, pois não se mostrava em suas maneiras mais do que fora anteriormente, nem mudou o seu natural pelos costumes estrangeiros, como fazem ordinariamente os outros capitães quando voltam de uma expedição longa e distante, desprezando os costumes de seu país ou desdenhando obedecer as ordens daquele; assim, em tudo, sem mais nem menos, como aqueles que não haviam nunca passado o rio Eurotas, continuou sempre a observar, entreter e guardar os costumes sem nenhuma inovação em seu beber ou comer, lavar e secar, na "toilette" de sua mulher, nos ornamentos de suas armas, nem nos móveis de sua casa, pois deixou as mesmas portas onde estavam em todos os tempos, tão velhas e tão antigas que estimavam que fossem aquelas mesmas que Aristodemo aí havia colocado; e diz Xenofonte que o canastro de sua filha não era nada mais magnífico do que o das outras moças. Denominavam canastro, na Lacedemônia, as imagens de grifos, de veados ou de bodes, que as moças conduziam nas procissões solenes da cidade. Xenofonte não escre-veu como se chamava esta filha de Agesilau e Dicearco se lamenta e se enfurece por não saberem o nome dela, como também o da mãe de Epaminondas; todavia, encontramos nos registros da Lace-demônia que a mulher de Agesilau chamava-se Cleora, uma das filhas Apólia e a outra Prolita; vêem-se ainda até hoje, na cidade de Esparta, sua lança que não é em nada diferente das outras.

Alista sua irmã Cinisca com um carro para disputar o prêmio de corrida dos jogos olímpicos.

XXX. Mas, observando que alguns dos cidadãos de Esparta se vangloriavam e julgavam ser alguma coisa mais do que os outros, porque possuíam cavalos no estábulo, ele persuadiu a sua irmã, que se chamava Cinisca, a enviar seu carro com os cavalos aos jogos Olímpicos, para experimentar ganhar o prêmio da corrida, a fim de dar a conhecer e fazer ver aos gregos que isto não era ato de virtude alguma, mas de riquezas e de despesa somente. Tendo a seu lado o sábio Xenofonte, que estimava e do qual fazia grande caso, este convenceu-o a mandar buscar seus filhos para os criar na Lacedemônia, onde aprenderiam a mais bela ciência que os homens poderiam aprender, isto é, a saber obedecer e mandar.

Como ganha seus inimigos.

XXXI. Depois da morte de Lisandro, formou-se em Esparta uma liga de cidadãos conjurados contra êle, que Lisandro havia suscitado após sua volta da Ásia, e a fim de que conhecessem que espécie de cidadão havia sido Lisandro quando vivo, mandou entrar dois para mostrar e recitar em público um discurso encontrado entre seus papéis, que o orador Cleon Halicarnassiano havia escrito e que Lisandro devia pronunciar em assembléia pública diante de todo o povo, pela qual desejava levar avante muitas inovações e mudar quase toda a administração da Lacedemônia; mas, houve um dos conselheiros, homem sábio, que tendo lido o discurso e temendo a vivacidade das razões apresentadas, disse-lhe que o aconselhava a não desenterrar Lisan dro, mas antes enterrar o discurso junto com ele. Agesilau concordou e não fez mais nada, e quanto aos que haviam sido ou eram seus adversários, não os quis prejudicar abertamente, mas arranjava sempre um meio de os nomear capitão da armada ou então de lhes arranjar outro cargo; e, depois, fazendo conhecer evidentemente que esses não haviam se portado como pessoas de bem nos cargos que lhes haviam sido dados, mas haviam sido avarentos e maus, no entanto, se eles vinham a ser chamados perante a justiça, ainda os socorria e os ajudava, tornando-os por esse meio amigos em lugar de ini-migos e os ganhava de novo assim procedendo; de sorte que, afinal, não houve nenhum que fosse seu adversário.

Como se apega a Agesípolis.

XXXII. Pois o outro rei Agesípolis, seu concorrente (13), sendo filho de um pai (14) que haviam banido, além de muito moço e possuir uma natureza branda e indulgente, não se intrometia em absoluto no governo; todavia, ainda se portou de tal maneira com ele, que o tornou seu; pois os dois reis quando estavam na cidade, comiam juntos na mesma sala. E Agesilau, compreendendo que por sua natureza era inclinado para o amor, como também era ele mesmo, colocava-o sempre em forma de poder conversar com os belos meninos da cidade e incitava esse rapaz a amar algum que ele mesmo amava, secundando-o nisso; porque nos amores lacônicos não há nada de desonesto e sim toda continência e toda honestidade, todo zelo e cuidado de tornar o menino que amavam o mais virtuoso, como mais amplamente deduzimos na Vida de Licurgo.

(13) Concorrente não é a palavra, pois que sempre houve dois reis. Era seu companheiro, ou, se permitem o termo, co-rei.
(14) Pausânias, filho de Plistoanax. Ver a Vida de Lisan-dro, no cap. 52 até o cap. 56.

Expulsa os argianos de Corinto,

XXXIII. Por esses meios, portanto, Agesilau, chegando a enfeixar um grande poder, como nenhum outro em sua cidade, colocou na marinha seu irmão por parte de mãe, que se chamava Telêu-cias e ele foi com seu exército por terra até a cidade de Corinto, onde se apoderou das grandes muralhas e Telêucias o ajudou a fazer isso pelo lado do mar. Os argianos a retinham ainda e celebravam a festa dos jogos ístmicos, mas como Agesilau ah chegasse, expulsou-os no momento em que acabavam de sacrificar ao deus Netuno e foram obrigados a abandonar todos os seus aprestos. Então os banidos de Corinto que estavam com ele, pediram-lhe para pessoalmente presidir à festa e ordenar os jogos; mas Agesilau não o quis, para que eles mesmos o fizessem e presidissem; somente ah permaneceu enquanto duraram os jogos para lhes garantir segurança. Depois, quando partiu, os argianos voltaram e celebraram outra vez os jogos ístmicos, estando presentes alguns dos que haviam ganho o premio a primeira vez e levantaram ainda a segunda, e outros que tendo vencido nos primeiros, foram vencidos nos segundos. Eis porque Agesilau dizia que os argia-nos haviam se declarado homens de pouca ousadia, pois estimavam coisa tão grande e tão honrosa como o presidir esses jogos e não tinham ousado vir combater contra ele pelo direito que pretendiam.

Como Agesilau faz pouco caso de certos talentos.

XXXIV. Quanto a ele, estimava que devia guardar um meio termo em tais coisas, sem ser muito curioso; pois honrava com sua presença tais assembléias solenes de danças e de festas públicas, que faziam em Esparta antigamente e não deixava nunca de se encontrar com grande prazer e grande afeição em tais divertimentos, que deliciavam os jovens e as moças de Esparta, mas, pensando bem, em matéria de jogo, ele nem ao menos aparentava conhecer aquilo que os outros tinham em singular admiração. A este propósito conta Calípides, excelente em representar tragédias e que era grandemente famoso, honrado e estimado entre os gregos pela excelência de sua arte, que, encontrando-o um dia e saudando-o primeiro, atirou-se presunçosamente ao encontro dos que passeavam com êle e apresentando-se à sua frente, estimando que êle devia ser o primeiro a lhe dar atenção, disse: — "Como, rei Agesilau, não me conheces?" Agesilau, olhan-do-o no rosto, respondeu-lhe: — "Não és tu Calípides, o Farçante?" e não fêz mais caso. De outra vez, como o convidassem para ouvir um que imitava ingenuamente o cântico do rouxinol, ele não quis ouvir, dizendo: — "Muitas vezes ouvi o rouxinol mesmo". E como o médico Menecrates, por ter sido feliz na cura de algumas doenças desesperadoras houvesse sido cognominado Júpiter e usurpasse um tanto arrogantemente esse apelido, teve o atrevimento de colocar no sobrescrito de uma missiva que lhe escrevera: "Menecrates, o Júpiter, ao rei Agesilau, saudação"; Agesilau lhe respondeu: — "Agesilau a Menecrates (15), saúde".

Recepção que faz aos deputados de Tebas.

XXXV. Mas, enquanto estava dentro do território de Corinto, onde havia tomado o templo de Juno, ao aguardar seus soldados, que pilhavam e saqueavam toda a região plana, vieram à sua presença embaixadores de Tebas, para lhe falar de paz e amizade com os tebanos; ele, porém, que de todos os tempos odiava os tebanos e que além disso estimava que era de bom expediente para o bem de seus negócios, aparenta não fazer caso, resolveu conter-se como se não quisesse ver nem ouvir os que falavam com ele. Mas, na mesma hora surgiu um caso, como por expressa vingança divina, que lhe deu boa lição; pois antes que os embaixadores se separassem dele, teve notícias de que uma de suas tropas, que chamavam Meres, havia sido rechaçada e feita em pedaços por Ifícrates, sendo a maior perda que tinha sofrido desde muito tempo, pois perderam grande número de bons e valentes homens, todos lacedemônios, que foram mortos por aventu-reiros mercenários, ligeiramente armados. Esse fato Fez Agesilau se por imediatamente em campo, pensando poder socorrer ou vingar os seus, mas no raminho foi informado com segurança que não havia mais remédio, razão pela qual voltou de onde havia partido, ao templo de Juno, e então mandou chamar os embaixadores beócios para lhes dar audiência e eles, querendo devolver igual por igual a peça do desprezo que lhes pregara anteriormente, não fizeram nenhuma menção de paz mas requereram somente que os deixasse entrar em Corinto. Agesilau, despeitado, respondeu-lhes: — "Se é para verdes vossos amigos se vangloriarem de sua prosperidade, vós o podereis fazer certamente amanhã". E, no dia seguinte, levando-os consigo, foi destruir o país dos coríntios até junto às muralhas de sua cidade e assim depois de haver feito ver aos embaixadores beócios como os coríntios não ousavam sair a campo para defender seu país, despediu-os, e recolhendo alguns que haviam escapado da tropa desfeita, trouxe-os à Lacedemônia, partindo sempre de casa antes de amanhecer e não chegando senão quando era noite escura, de medo que os arcadianos, que os odiavam e os invejavam, se alegrassem com sua perda.

(15) Como querendo dizer, «que tinha o cérebro ferido por ser tão presunçoso». Amyot.

Destrói a Acarnânia.

XXXVI. Depois dessa viagem, para recompensar os acaianos, foi ele ao país da Acarnânia, de onde trouxe grande quantidade de presa, depois de haver derrotado os acarnânios em batalha; mas como os acaianos o solicitassem para aí ficar todo o inverno e fazer retirar aos seus inimigos todos os meios de semear em suas terras, ele lhes respondeu que não faria nada: — "Porque, disse-lhes, eles temerão mais a guerra na próxima estação, quando terão suas terras semeadas", o que aconteceu; pois aí tendo o exército voltado pela segunda vez, eles se reconciliaram com os acaianos.

Tratado dos lacedemônios com o rei da Pérsia.

XXXVII. Aproximadamente, nessa época, Farnabazo e Conon, com o exército do rei da Pérsia, sendo, sem contradição, senhores absolutos de toda a armada, pilhavam a costa da Lacônia, e ainda mais, as muralhas da cidade de Atenas se reconstruíam com o dinheiro que Farnabazo lhes fornecia, razão por que os senhores da Lacedemônia foram de aviso que valia mais fazer a paz com o rei da Pérsia, e para esse fim enviaram Antãlcidas à presença de Tinbazo, abandonando covarde e maldosamente ao rei bárbaro os gregos habitantes da Ásia, pela liberdade dos quais Agesilau havia guerreado. Assim nãc teve Agesilau parte nessa vergonha e nessa infâmia, porque Antãlcidas que era seu inimigo, procurou todos os meios para fazer a paz, vendo que a guerra aumentava sempre o poder, a honra e a reputação de Agesilau, o qual, todavia, respondeu então a um que o censurava, que os lace-demônios "se medizavam", isto é, favoreciam aos medas, mas sena melhor que os medas "se laconi-zassem". E, no entanto, ameaçando e declarando a guerra aos gregos que não queriam aceitar as condições de paz, Antãlcidas os obrigou a consentir no que o rei da Pérsia quisesse, o que fez principalmente pelo ódio aos tebanos a fim de que, sentin-do-se constrangidos pelas capitulações de paz e colocando todo o país da Beócia em liberdade, eles ficassem mais fracos.

Agesilau sustenta a empreitada injusta de Fébidas sobre a cidadela de Tebas

XXXVIII. Êle o declarou manifestamente, pelo que se seguiu logo após: pois como Fébidas houvesse praticado um ato mau e infeliz, por ter surpreendido em pleno período de paz e ocupado o castelo da cidade de Tebas, que chamavam Cadméia, pelo qual todos os demais povos gregos se achavam indignados e mesmo os espartanos não estavam contentes, especialmente aqueles que eram contrários a Agesilau, na ocasião em que se deu o fato, dirigiram-se furiosos a Fébidas a saber por ordem e consentimento de quem havia feito o assalto. Para fazer derivar toda a suspeita do feito sobre êle, Agesilau não disfarçou em dizer em voz alta e clara, para o desencargo de Fébidas, que era preciso olhar e considerar o fato em si, se era útil para ;i coletividade e que nesse caso era bem trabalhoso fazer com iniciativa própria sem esperar outra ordem, o que se sabia ser útil para o bem público.

Palavras de Agesilau sobre a justiça, diferentes de suas ações.

XXXIX. E, todavia, estava sempre habituado a dizer em suas palestras familiares que o senso de justiça era a primeira de todas as virtudes; para tanto, dizia ele, o feito não vale tanto se não é praticado com justiça e se todos os homens fossem justos, então não haveria nada que fazer com relação aos atos heróicos. E a esses que diziam, "o grande rei o quer assim", dizia ele: em que é maior do que eu, se não é justo?" Mantinha assim a boa e reta opinião de pensar que era preciso notar a diferença entre o grande e o pequeno rei, tomando a justiça como a medida real. E, acontecendo, depois da paz feita, que o rei da Pérsia lhe enviasse particularmente uma carta, na qual lhe escrevia que desejava desfrutar de sua amizade e hospitalidade, não as quis aceitar, dizendo lhe ser bastante a amizade pública e enquanto aquela durasse, outra não seria necessária. Mas, pouco depois chegaram os fatos positivos, e ele não se lembrou mais desta bela opinião, mas deixou-se muitas vezes levar pela ambição e pela obstinação, da mesma forma de encontro aos tebanos, como fez quando não somente salvou Fébidas, mas ainda fez que Esparta tomasse a responsabilidade, concordando com a violação que havia cometido, ao reter a fortaleza de Cadméia e colocando o governo da cidade de Tebas nas mãos de Arquidas (16) e de Leôntidas, com a orientação dos quais Fébidas se havia apoderado de Cadméia; portanto, devido a isso, formaram logo a opinião de que era Fébidas, de fato, que havia executado mas que Agesilau lhe havia dado o conselho; e, o que se seguiu depois, provou que esta suspeita tinha sua razão de ser.

(16) Leia-se Arquias, como os historiadores e Plutarco mesmo escreveram em diversos lugares.

Excita a guerra contra os tebanos.

XL. Depois que os tebanos expulsaram da Cadméia a guarnição lacedemônia e restituíram à cidade sua liberdade, acusando-os de que eles perversamente tinham assassinado Arquidas e Leôntidas, os quais de nome eram governadores, mas de fato verdadeiros tiranos, ele começou a fazer-lhes a guerra; e Cleômbroto, que já reinava após a morte de Agesípohs, foi enviado à Beócia com um exército, porque Agesilau tendo passado quarenta anos após a idade da adolescência e por esta razão estando dispensado pelas leis de ir à guerra, não quis tomar a responsabilidade dessa expedição, envergonhado de que o vissem combater na briga de dois tiranos, onde um deles, pouco antes, havia pegado em armas a favor dos banidos contra os fliasianos.

Empreitada de Esfódrias no Pireu.

XLl. Ora, havia então um lacônio chamado Esfódrias, da facção contrária à de Agesilau e que na ocasião era governador da cidade de Téspia, homem corajoso e valente, mas sempre animado de novas esperanças, em vez de bom senso e bom julgamento dos fatos, o qual, desejando adquirir fama, e considerando que Fébidas ganhara em honra e reputação pela corajosa empreitada que havia executado em Tebas, persuadiu-se a si mesmo que lhe seria coisa ainda mais honrosa se surpreendesse o porto de Pireu, retirando por esse meio aos atenienses o recurso da marinha. Julga-se que isto foi um trama urdido por Pelópidas e por Gelon (17), governadores da Beócia, os quais nomearam alguns homens que fingiram ser muito afeiçoados ao partido dos lacedemônios e altissonantemente elogiavam Esfódrias e lhe deram a entender que não havia senão ele digno de executar tão gloriosa obra, de maneira que por sua persuasão, eles o induziram a empreender o assalto, que não era para menos dano, nem menos perverso, do que o de Cadméia, em Tebas; mas foi menos ousado e menos diligentemente atentado, pois o dia, surpreendendo-o quando estava ainda na planície de Tnásio, começou a despontar no lugar onde julgava chegar de noite ainda nas muralhas do Pireu; dizem que as pessoas que ele levava, tendo percebido alguns fogos nos templos da cidade de Eleusina, tiveram medo, e mais ainda, ele mesmo, vendo que não podia mais esconder-se, perdeu a coragem, de maneira que voltou vergonhosa e ignominiosamente à cidade de Téspia, sem fazer outra coisa do que levar um pequeno saque.

(17) Ver as Observações.

Conduta de Agesilau com relação ao processo de Esfódrias. Faz com que seja absolvido.

XLII. Para resolver sobre esse caso, foram logo enviados acusadores, de Atenas para Esparta, os quais acharam não ser necessário acusá-lo porque os governadores e magistrados já o haviam citado para comparecer pessoalmente a fim de iniciarem seu processo criminal, mas êle não ousou apresentar-se, temendo o furor de seus concidadãos e desconfiando que queriam mostrar que a falta havia sido cometida contra eles mesmos. Ora, tinha este Esfódrias um filho chamado Cleônimo, do qual, sendo ainda menino de bela aparência, Arquidamo, filho de Agesilau, estava enamorado, pelo que se encontrava então muito pesaroso, como se pode imaginar, vendo aquele que amava no desespero pelo perigo de perder seu pai e não ousava ajudá-lo abertamente, porque Esfódrias era dos adversários de Agesilau; todavia, Cleônimo, tendo se dirigido a ele, solicitando e implorando com lágrimas nos olhos que ganhasse o apoio do seu pai, porque entre todos era de quem tinham grande medo, Arquidamo ficou durante três ou quatro dias junto de Agesilau, seguindo-o por toda a parte passo a passo, sem ousar abordar o assunto, ma: por fim, estando próximo o dia do julgamento, encorajou-se e lhe declarou como Cleônimo lhe havia pedido para interceder junto a êle a favor de seu pai. Agesilau, sabendo bem que seu filho amava Cleônimo, não o quis desviar dessa efeição, porque o menino desde os primeiros anos de sua infância havia sempre dado esperança de que seria um dia também um homem de bem, como nenhum outro, mas na hora não demonstrou, de maneira nenhuma a seu filho, que tencionava fazer alguma coisa para atender seu pedido e não lhe respondeu outra coisa senão que faria o que fosse honesto e conveniente no caso; pelo que, Arquidamo, envergonhado deixou de visitar Cleônimo, como anteriormente fazia, indo várias vezes, durante o dia, para vê-lo. Isto fêz com que os amigos de Esfódrias se desesperassem com o seu feito, mais do que nunca, até que um dos familiares de Agesilau, chamado Etímocles, conversando com eles, contou-lhes o que pensava Agesilau, e que era o seguinte: quanto ao fato em si, o julgava mau e o lamentava ao máximo, mas, pensando bem, considerava Esfódrias um homem valoroso e reconhecia que a coisa pública precisava de homens como êle; Agesilau, de fato, tinha comumente essa opinião, quando lhe vinham falar do processo de Esfódrias, e assim agradar seu filho, de tal forma que Cleônimo percebeu logo que Arquidamo havia feito tudo o que pôde por êle e os amigos de Esfódrias tiveram então mais coragem para socorrê-lo e falar a seu favor, conscientemente. Agesilau tinha essa qualidade entre outras: amava muito ternamente seus filhos; conta-se que êle brincava com eles em casa, quando eram pequenos, montando sôbré um bastão ou sobre uma bengala como sobre um cavalo, em cuja posição um dos seus amigos um dia o encontrou em seu gabinete pessoal e êle lhe pediu nada dizer até que êle mesmo tivesse filhos pequenos. Finalmente, Esfódrias, por sentença de seus juízes, foi absolvido puro e completo; tomando conhecimento disso, os atenienses resolveram declarar guerra aos lacedemônios, com o que Agesilau foi muito censurado sob a alegação de que, para gratificar um louco e leviano apetite de seu filho, havia impedido um justo julgamento e tornado a cidade culpada em face dos gregos por essas tão graves violações.

Agesilau guerreia na Beócia.

XLIII. Afinal, vendo que o outro rei seu companheiro Cleômbroto (18) não ia mais voluntariamente guerrear contra os tebanos, foi ele mesmo, transgredindo a proibição referente ao cargo de comandar o exército, que anteriormente havia observado, entrando à mão armada dentro do país da Beócia, causando danos e recebendo também, a tal ponto que Antãlcidas, um dia, vendo-o aflito, disse-lhe: — "Certamente recebes dos tebanos o salário que mereces, por lhes haver ensinado a combater, o que não sabiam, nem queriam fazer". Pois, em verdade, dizem que os tebanos se tornaram então mais belicosos do que jamais haviam sido outrora, sendo adestrados e exercitados às armas pelas contínuas invasões dos lacedemônios. Também era esta a razão pela qual o antigo Licurgo, em suas leis, que chamavam Retras, proibia guerrear sempre contra um mesmo povo, com receio de que o inimigo assim aprendesse também a guerrear.

(18) Ver as Observações.

Mostra a seus aliados que os lacedemônios fornecem mais soldados do que eles, se bem que dessem menos homens.

XLIV. Agesilau estava sendo odiado mesmo pelos aliados da Lacedemônia, os quais diziam que não era por nenhuma ofensa ao público, mas por um particular rancor e teimosia, que procurava perder e arruinar os tebanos e para satisfazer seu apetite, era necessário que eles se consumissem, indo todos os anos carregar as armas, ora aqui, ora ah, sem que fosse necessário, seguindo uma pequena tropa de lacedemônios, para o lugar onde eles se encontravam em maior número. Foi então que Agesilau, querendo fazê-los ver a quanto subia o número de guerreiros, usou de um artifício: ordenou um dia que os aliados, misturados, se assentassem uns entre os outros de um lado, à parte, e os lacedemônios à parte também de outro lado; depois mandou gritar por um dos arautos que todos os que soubessem fazer potes de terra se levantassem. Quando ficaram em pé mandou gritar que os fundidores se levantassem também e depois os carpinteiros, em seguida os pedreiros, e conseqüentemente, assim, todos os outros ofícios, de maneira que quase todos os aliados, obedecendo a essas proclamações se encontraram pouco a pouco em pé, e não se levantou nenhum dos lacedemônios, porque lhes era proibido aprender ou exercer alguma arte ou ofício mecânico e então Agesilau, a rir, lhes disse: — "Vedes agora, meus amigos, que quantidade de guerreiros nós colocamos nos campos, o que vós não fazeis".

Enfermidade de Agesilau.

XLV. A sua volta dessa viagem de Tebas, passando pela cidade de Mégara, enquanto subia ao palácio do governo, que se achava dentro da fortaleza, deu-lhe subitamente uma grande convulsão de nervos, com uma dor veemente na perna sã, que inchou e ficou grossa, com uma grave inflamação, pelo que pensaram estivesse cheia de sangue; por isso um médico de Siracusa, na Sicília, abriu-lhe uma veia sob o tornozelo, o que diminuiu muito as dores; mas, saiu sangue em tão grande quantidade, que não o podiam estancar, de sorte que sofreu grandes desmaios, ficando repentinamente em grande perigo de morte; todavia, encontraram, afinal, jeito de estancar o sangue e o levaram para a Lacede-mônia, onde ficou doente durante muito tempo, impedido de guerrear, em cujo período sobrevieram perdas e derrotas aos lacedemônios, tanto por mar como por terra, entre as quais a de Leutres (19) foi a principal, onde foram a primeira vez vencidos e desfeitos em batalha alinhada pelos tebanos.

(19) Ver as Observações.

Assembléia dos deputados da Grécia na Lacedemônia.

XLVI. Foram de aviso então, todos os gregos, que era preciso assinar uma paz universal e reuniram embaixadores e deputados de todas as cidades da Grécia na Lacedemônia para esse fim. Um desses deputados foi Epaminondas, homem de grande fama pelas suas notáveis epístolas e por seu saber em filosofia, mas que não havia ainda dado prova de ser grande capitão. E este, vendo como todos os outros embaixadores e deputados se ajoelhavam e se dobravam diante de Agesilau, teve a coragem de falar francamente e fez um discurso não somente por causa dos tebanos, mas por toda a Grécia junta, com o qual demonstrou à comunidade como a guerra ia aumentando só as cidades de Esparta e, ao contrário, diminuindo as outras cidades e fortalezas da Grécia. Por esta razão aconselhava todos a que procurassem compreender e tratar de compor uma boa paz com eqüidade e igualdade a fim de que durasse mais longamente, tendo todos os contratantes direitos iguais. Agesilau, vendo então que todos os demais gregos, membros dessa assembléia, prestavam atenção muito atentamente a Epaminondas, demonstrando prazeu imenso em ouvi-lo discorrer assim francamente sobre a paz, perguntou-lhe bem alto se achava ser justo e razoável que toda a Beócia fosse reposta em sua plena liberdade. Epaminondas, do outro lado, perguntou-lhe pronta e corajosamente, se ele também não estimava que fosse justo e razoável repor toda a Lacônia em completa liberdade. Então Agesilau, em fúria, levantando-se sobre os pés, ordenou-lhe responder abertamente se eles não devolveriam a toda a província da Beócia a sua liberdade, e Epaminondas replicou-lhe do mesmo jeito, se eles não devolveriam também à Lacônia a sua liberdade. Isto irritou de tal forma Agesilau, que ficou amarrado com a atitude que assumiu, devido ao antigo rancor que tinha aos de Tebas, que na hora apagou o nome dos tebanos da lista daqueles que deviam estar compreendidos na paz, declarando-lhes guerra imediatamente e despedindo-se igualmente dos deputados dos outros povos gregos, com tal decisão, que eles resolveram amigavelmente as diferenças que tinham em comum; desde que não podiam ceder por via pacífica aos outros que não queriam lavrar em despacho por via de composição amigável, decidiriam pelas armas, porque era bem difícil limpar, resolver e esvaziar todas as dissensões que tinham em comum.

Batalha de Leutres.

XLVII. Ora, estando então por acaso o rei Cleômbroto com um exército no país da Fócida, escreveram-lhe os éforos que devia marchar sem demora contra os tebanos e de quando em quando enviavam forças por toda a parte para reunir o socorro de seus aliados, que não eram nada afeiçoados e não iam voluntariamente à guerra, embora não ousassem abertamente recusar, nem desobedecer aos lacedemônios. E, se bem que houvesse vários sinais de mau presságio, conforme escrevemos na Vida de Epaminondas, e que Protous Laconiano tivesse resistido, com todo o seu poder, à empreitada desta guerra, Agesilau por isso não deixou de ir além, esperando ter encontrado a ocasião de se vingar dos tebanos, desde que todo o resto da Grécia estava em paz e em liberdade e só eles excluídos do tratado. Mas, quando não houvesse outra coisa senão a brevidade do tempo, ela sozinha mostra bem que esta guerra foi conduzida pelo ímpeto da cólera antes que pelo norteio da razão; porque o tratado de paz universal entre os outros gregos foi concluído em Esparta no décimo-quarto dia de maio (20) e os lace-demônios foram vencidos na batalha de Leutres (21) no quinto de junho, de maneira que não houve senão vinte dias de um para o outro. Aí morreram mil lacedemônios, com seu rei Cleômbroto e os mais valentes espartanos à sua volta, entre os quais estava Cleônimo, filho de Esfódrias, esse belo rapaz, do qual já falamos anteriormente, que tendo sido abatido por três vezes aos pés mesmo do rei, por três vezes se levantou e finalmente foi morto combatendo virtuosamente contra os tebanos.

(20) Ver as Observações.
(21) Leutres da Beócia, descendo de Tebas para o meio-dia, sobre o caminho de Platéia a Téspia.

Sentimento dos lacedemônios com a notícia da derrota de seu exército.

XLVIII. Esta derrota, tendo ocorrido aos lacedemônios contra a opinião de todo o mundo, e esta prosperidade aos tebanos, foi tão grande e tão gloriosa, que jamais gregos combatentes contra outros gregos ganharam uma igual; a cidade, no entanto, que foi vencida, não foi por isso menos elogiada e considerada por sua virtude como aquela que a venceu. Como Xenofonte diz, as palestras, os jogos e os passatempos das pessoas de bem mesmo à mesa sempre foram alguma coisa digna de ser conservada na memória e nisso diz a verdade; também menos e com vantagem, nota e considera o que as pessoas de honra diziam e a continência que mostravam tanto em sua adversidade como em sua prosperidade. realizando-se por acaso uma festa pública em Esparta, estando a cidade cheia de estrangeiros vindos para ver as danças e jogos que se praticam com os corpos nus dentro do teatro, chegaram aqueles que traziam as notícias da derrota de Leutres, mas os éforos, enquanto corria rapidamente por toda a cidade o rumor de que tudo estava arruinado para eles e que haviam perdido todo o seu principado na Grécia, não quiseram no entanto, por isto, que as danças saíssem para fora do teatro, nem que a cidade mudasse a forma da festa, mas enviaram pelas casas, aos parentes, os nomes dos que tinham sido mortos na batalha e eles continuaram no teatro mandando prosseguir e terminar os jogos e divertimentos das danças, a ver quem se esforçaria à porfia e quem ganharia o prêmio. No dia seguinte cedo, quando todo o mundo soube com certeza dos que estavam mortos e dos que haviam escapado, os pais, parentes, amigos e aliados daqueles que morreram, encontravam-se sobre a praça com boa fisionomia e atitude de homens alegres, tendo coragem, abraçando-se uns aos outros; ao contrário, os parentes dos que se haviam salvo, ficaram em suas casas com suas mulheres, como pessoas que estão de luto; e se por acaso algum deles era obrigado a sair para fora para algum negócio necessário, viam nele uma atitude tão triste e tão aflita, que não ousava falar firme, levantar a cabeça, nem levantar os olhos; viam ainda mais esta diferença entre as mulheres; pois elas, que esperavam seus filhos voltando desta batalha, estavam mornas e tristes, sem dizer palavra, e ao contrário, as mães daqueles que diziam estar mortos, iam aos templos render graças aos deuses, visitando-se umas às outras alegre e afetuosamente; todavia, quando a comuna viu que seus aliados começavam a deixá-los e separar-se deles, e que esperavam de um dia para o outro que Epaminondas, encorajado por sua vitória, se atirasse dentro do Peloponeso, então a maioria teve um remorso, de consciência no tocante aos oráculos dos deuses, que castigavam por eleger um rei manco como era Agesilau e deles se apoderou uma grande falta de coragem e um pavor enorme, pois acreditavam que sua cidade havia caído na desgraça, porque haviam negado à realeza um homem de físico perfeito, para colocar um defeituoso, o que os deuses lhes haviam avisado que se precavessem em todas as coisas.

Agesilau ordena que as leis dormirão por um dia.

XLIX. Todavia, sua autoridade era tão grande devido a sua virtude, e sua reputação tão boa, que não somente se serviam dele na guerra, como seu rei e soberano capitão, mas também seguiam seu conselho e seu aviso quando era necessário encontrar expediente em algumas dificuldades civis; assim fizeram quando ficaram em dúvida, se deviam impor a esses que haviam fugido da batalha, que chamam em Esparta, tresantas, isto é, "que tiveram medo", as marcas da infamia, às quais as leis condenam, porque eram em grande número e todos das mais nobres e mais poderosas casas da cidade, de medo que não lhes suscitassem alguma novidade; pois além de serem declarados incompetentes e jamais poderem exercer qualquer cargo público, é desonra dar-lhes mulher em casamento ou tomar deles, e quem os encontra em seu caminho pode espancá-los se desejar e é preciso que suportem abaixando a cabeça sem dizer palavra, obrigados a irem vestidos suja e pobremente com roupas remendadas de pano de cor, devendo fazer a barba só numa parte e na outra não; parecia-lhes perigoso serem vistos na cidade muitos deles marcados com esta infâmia, mesmo na ocasião em que tinham necessidade de grande número de guerreiros; razão por que expuseram tudo a Agesilau para resolver. E ele, sem retirar nem ajuntar ou mudar nada às leis, em assembléia pública com todo o povo lacedemônio, disse que naquele dia era preciso fazer dormir as leis, contanto que doravante elas retomassem sua autoridade.

Epaminondas entra na Lacônia.

L. Por esse meio manteve as leis sem nada corrigir e salvou a honra desses pobres soldados; mas para inspirar coragem à juventude e lhe retirar o espanto que dela se havia apoderado, entrou em armas dentro da Arcádia, onde se guardou de dar batalha e somente tomou uma cidadezinha (22) sobre as Mantinianas, percorrendo a parte plana; isto alegrou um pouco a cidade de Esparta e lhe devolveu alguma esperança, tirando-lhe ocasião de se desesperar em todos os pontos; mas logo depois chegou Epaminondas ao país da Lacônia, com quarenta mil soldados de infantaria, armados, com aquela outra multidão infinita de povo nu ou armado ligeiramente, que seguia seu acampamento somente para roubar, de maneira que aí havia atingido o número de setenta mil combatentes, que entraram dentro da Lacônia, em armas com ele. Havia aproximadamente seiscentos anos que os donos tinham entrado nessa província da Lacônia e aí já estavam acostumados e, em todo este tempo jamais tinham visto os inimigos dentro do país até esse dia; pois outrora nenhum inimigo havia ousado entrar em armas; mas, dessa vez saquearam e queimaram completamente, até o rio Eurotas e até contra a cidade de Esparta, sem que pessoa alguma saísse para impedi-los, porque Agesilau, como escreve Teopompo, não queria permitir que os lacedemônios se apresentassem contra uma tão impetuosa força e tão violenta tormenta de guerra; mas, tendo guarnecido o centro da cidade e suas principais avenidas com soldados de defesa, suportava pacientemente as arrogantes bravatas e ameaças dos tebanos, que o chamavam pelo nome ao combate e lhe diziam que saísse fora em campo, para defender seu país, ele, que era o único causador de todos esses males, que havia acendido e inflamado esta guerra. Se isto varava o coração de Agesilau, não menos pesar lhe causavam os tumultos que se davam dentro da cidade, os gritos, idas e vindas das pessoas idosas, que per-diam a paciência vendo o que se apresentava aos seus olhos, mulheres que não podiam ficar no mesmo lugar, mas cornam daqui e dali como pessoas fora de si e furiosas por ouvir o barulho que faziam os inimigos e ver o fogo que punham por toda a parte no campo; pois isso lhe trazia uma grande angústia de dor quando pensava consigo mesmo, que tendo alcançado a realeza quando sua cidade era mais poderosa e mais florescente, como jamais havia sido, viu em seu reino sua dignidade engolida e sua glória partida, viu que ele mesmo muitas vezes se vangloriava que jamais mulher laconiana havia visto fumaça do acampamento de nenhum inimigo. Como dizem também que Antãlcidas respondeu um dia a um ateniense que contestava com ele sobre o valor de um e de outro povo, alegando, por suas razões, que os atenienses haviam muitas vezes expulso os lacede-mônios do rio Cefiso: "É verdade, disse o laconiano, mas nós não vos expulsamos nunca do Eurotas". Igualmente também respondeu um outro espartano, dos menos famosos, a um argiano que o censurava: — "Há vários de vossos soldados enterrados dentro do país da Argólida; e, não há dos vossos enterrados na Lacônia". Dizem que Antãlcidas, sendo na ocasião éforo, enviou secretamente seus filhos para a ilha de Citera, desconfiando que a cidade de Esparta fosse tomada.

(22) Chamada Eutéia, segundo Xenofonte Heleno, L. VI. p. 353.

33 obrigado a retirar-se de Esparta.

LI. Mas Agesilau, vendo que os inimigos se esforçavam por passar o rio e penetrar dentro da cidade, resolveu defender somente o centro, que era o mais alto, diante do qual mantinha seus soldados em batalha. Ora, estava então, casualmente, o rio Eurotas muito cheio, como não era costume ficar, porque havia caído muita neve e causava maior mal aos tebanos pela sua friagem, do que pelo seu volume. Houve então alguns que mostraram a Agesilau, Epaminondas marchando à frente, diante de toda a sua tropa; olhou-o muito tempo, seguindo-o sempre com os olhos sem dizer outra coisa senão essa palavra somente: — "Oh! o homem da grande empreitada, ei-lo!" Epaminondas, entretanto, tendo feito tudo o que lhe era possível fazer para dar batalha aos lace-demônios dentro da própria cidade de Esparta e aí levantar um troféu, não pôde nunca atrair Agesilau nem fazê-lo sair de seu forte, pelo que afinal foi obrigado a partir sem terminar a pilhagem e estragar toda a região plana.

Sedição na cidade, apaziguada pela sabedoria de Agesilau. L

LII. Mas, dentro da cidade, houve aproximadamente duzentos motins promovidos por homens que de há muito tempo tinham má vontade, os quais se apoderaram de um bairro da cidade, onde estava o templo de Diana, lugar de base forte e difícil de ser forçado, que se chamava Issorium (23). Os lace-demônios quiseram correr furiosos contra eles, mas Agesilau, achando que isso não era causa para qualquer novidade maior, ordenou aos outros que não se mexessem e ele sozinho, com um traje simples, sem armas, a eles se dirigiu, gritando para os que o seguravam: — "Tendes ouvido diferente do que eu ordenei, pois não foi aqui que mandei que vos reunísseis, nem todos em um lugar; mas eu havia ordenado que uns fossem dali e outros de cá", mostrando-lhes diversos quarteirões da cidade. Os sediciosos, ouvindo estas palavras, ficaram descansados, porque julgaram que sua má intenção não tivesse sido descoberta, e saindo dali, partiram para os lugares que ele lhes havia mostrado; então Agesilau, fazendo vir outros, apoderou-se do forte de Issorium, mandou prender aproximadamente quinze desses sediciosos conjurados, os quais mandou matar na noite seguinte.

(23) Ver as Observações.

Conjuração abafada e castigada por Agesilau sem forma de processo.

LIII. Entretanto, foi descoberta uma outra conjuração, muito maior, de espartanos mesmo, que se haviam reunido secretamente em uma casa para suscitar algum novo movimento, contra os quais era embaraçoso formular o processo, em um tão grande tumulto e bem perigoso negligenciar, levando em conta a conspiração. Agesilau, tendo se comunicado em conselho com os éforos, mandou matar todos também, sem outra- forma de processo, ali, onde jamais anteriormente espartano algum havia sido executado, sem que primeiro houvesse sido condenado judicialmente. E como todos os dias, diversos de seus vizinhos e mesmo os hilotas, que havia arrolado em suas tropas como guerreiros, fugissem e fossem se tornar seus inimigos, o que desanimou bastante os moradores, Agesilau avisou seus servidores, que todos os dias, cedo, fossem examinar as enxergas, nas quais haviam dormido e que se apoderassem das armas dos que tinham fugido e as escondessem, a fim de que não se conhecesse o número daqueles que se haviam ocultado.

Os tebanos se retiram da Lacônia.

LIV. E, quanto à partida dos tebanos, uns dizem que partiram da Lacônia por causa do inverno que chegou, razão pela qual os arcadianos começavam a debandar e separar-se em desordem; outros dizem que eles ali ficaram três meses inteiros, durante os quais destruíram a maior parte do país; mas Teopompo escreve que tendo os capitães dos tebanos, resolvido retirar-se, chegou à sua presença um espartano chamado Frixus enviado da parte de Agesilau, que lhes trouxe dez talentos para que se fossem; de tal modo que, para fazer o que de há muito tempo haviam estabelecido fazer eles mesmos, ainda tiveram o dinheiro dos inimigos para fazer suas despesas pelo caminho. Mas eu não posso compreender como é possível que todos os outros historiadores não soubessem nada disto e que só Teopompo tivesse tido o conhecimento de tal fato.

Fraqueza de Esparta.

LV. É verdade e declarado por todos, que só Agesilau foi a causa de se salvar a cidade de Esparta, porque deixando de lado sua ambição e sua teimosia, que eram paixões natas nele, entendeu somente de prover aos negócios seguramente; todavia, jamais pôde se levantar dessa pesada queda, nem reafirmar sua reputação, nem poder, como tivera outrora. Pois em tudo é assim como um corpo são, que em todos os tempos, tendo observado dieta e regime de viver especial, no qual a menor falta ou menor desordem, estraga tudo, também estando a administração pública bem estabelecida e bem composta em virtude, pode fazer viver seus cidadãos em paz e em concórdia uns com os outros, e aptos, quando quisessem, a se defender das dominações de senhores violentos, dos quais Licurgo considerava que uma cidade para viver feliz e virtuosamente, não tem necessidade, e por isso eles foram descendo para a decadência.

Vitória sem lágrimas levantada por Arquidamo sobre os arcadianos.

LVl. Ora, estava Agesilau tão velho, que por causa de sua velhice não ia mais à guerra, mas seu filho Arquidamo, tendo o socorro que Dionísio, o tirano de Siracusa, lhes enviou, ganhou uma batalha contra os arcadianos, que chamam a batalha sem lágrimas; pois não morreu nem um só de seus soldados e foi morto grande número de inimigos. Esta vitória mostrou bem claramente a fraqueza da cidade, pois outrora lhe era coisa comum e costumeira vencer os inimigos, sacrificando aos deuses, em seguida, dentro da cidade, para lhes render graças pela vitória, apenas um galo; e, aqueles que haviam combatido, não se vangloriavam, nem aqueles que ouviam as notícias se alegravam demasiadamente; pois quando ganharam a grande batalha de Manti-néia que Tucídides (24) descreveu, os éforos enviaram àquele que havia trazido a notícia, como presente, um pedaço de carne (25) de seu salgado e mais nada. Quando, porém, trouxeram as novas desta vitória o compreenderam que Arquidamo voltava vitorioso, não houve ninguém que pudesse se conter na cidade e mesmo seu pai foi o primeiro ao seu encontro, chorando de alegria, depois dele os outros oficiais e toda uma multidão de velhos e de mulheres que desceram até a margem do rio, levantando as mãos aos céus e agradecendo aos deuses, como se sua cidade houvesse então vingado sua vergonha e recuperado sua honra e que recomeçasse a ver bruscamente o dia claro e sereno como antes. Pois até ali, segundo se diz, os maridos não ousavam nem olhar francamente o rosto de suas mulheres, tanto sentiam vergonha das perdas que haviam recebido.

(24) Esta batalha contra os atenienses, os argianos e os mantinianos, foi travada no terceiro ano da nonagésima Olimpíada, o ano de Roma 336, sob o comando de Agis.
(25) Não está escrito no texto que esta carne foi salgada, mas muito simplesmente que eles lhe enviaram um pedaço de carne de seu banquete.

Epaminondas surpreende a cidade de Esparta na ausência de Agesilau.

LVII. Mas, estando a cidade de Messena repovoada e sendo construída por Epaminondas, que para lá estava chamando os antigos moradores de todos os lados, não ousaram apresentar-se para combatê-lo, se bem que em seus corações estivessem mutíssimo indignados e desejassem grande mal a Agesilau, porque em seu reinado haviam perdido aquêle território, que não era de menor extensão que toda a Lacônia e competia com os melhores lugares de tôda a Grécia e do qual haviam gozado pacifica-mente por tantos anos. Eis a razão por que Agesilau não quis aceitar a paz que os tebanos lhe mandaram oferecer, não querendo violar sua palavra, quando os inimigos a mantinham de fato; mas, teimando em querer ainda combater e discutir, não somente não recuperou mais seu prestígio, como pouco faltou para que não perdesse com vantagem a própria cidade de Esparta num ardil de guerra, com o qual Foi surpreendido; porque estando de novo os man-tinianos separados da aliança dos tebanos e tendo mandado buscar os lacedemônios, Epaminondas, avisado de que Agesilau havia partido com toda a sua força para ir em socorro dos mantinianos, saiu uma noite de Tegéia, sem que os de Mantméia soubessem, foi direto a Esparta, de sorte que pouco faltou para que, indo por outro caminho que não aquêle que Agesilau trilhava, não surpreendesse des-prevenida a cidade de Esparta, completamente vazia de soldados para a defesa; mas um téspio, chamado Eulino, assim diz Calístenes, ou como escreve Xeno-fonte, um candioto, levou a notícia a Agesilau, que rapidamente mandou à frente um homem a cavalo para avisar os habitantes da cidade, pondo-se ele mesmo a caminho para voltar, nao demorando muito a chegar, e logo após, chegaram também os tebanos que passando o no Eurotas, empreenderam o assalto à cidade.

Agesilau volta e rechaça o inimigo.

LVlll. Agesilau, vendo que não era mais tempo de se manter em guarda e não querendo se aventurar, defendeu a cidade vigorosamente, mais do que sua idade permitia, concluindo que havia chegado a hora em que precisava expor-se, de cabeça baixa, a todo e qualquer perigo, e combater desesperadamente. Assim, impelido pelo desespero e pela coragem, em que outrora jamais havia confiado e jamais se havia utilizado, rechaçou para trás o perigo, salvando Esparta das mãos de Epaminondas, levantando um glorioso troféu por haver assim derrotado o inimigo, fazendo sentir às mulheres e às crianças que os homens lacedemônios pagavam ao seu país um belo e honroso salário pelo seu nascimento e criação; da mesma forma agiu Arquidamo, que praticou feitos admiráveis no combate, tanto pela sua coragem como pela sua disposição pessoal, correndo daqui e dali pelas ruas e ruelas da cidade, com alguns companheiros apenas, nos lugares onde havia mais combates, de onde expulsava os inimigos.

Extraordinária coragem de um jovem chamado Isadas.

LIX. Consta que houve um Isadas, filho de Fébidas, que praticou proezas admiráveis dignas de serem presenciadas não somente pelos seus concidadãos, como também pelos inimigos; pois era de bela fisionomia e bem conformado, encontrando-se então, justamente, na mais agradável e na mais bela estação de seus anos, quando o homem passa da infância para a juventude; estando despido não somente de armas defensivas mas também de todas as vestes, todo o corpo untado de óleo, como para lutar e tendo em uma de suas mãos uma parthisane e na outra uma espada, saiu fora de sua casa nesse estado, indo se atirar afoitamente com os que combatiam, abatendo todos os inimigos que se encontravam à sua frente, não ficando fendo, seja porque os deuses o quisessem preservar por causa da excelência de sua virtude ou porque os inimigos mesmo fossem de opinião que havia nesse fato alguma coisa mais do que de homem. Os éforos, depois, deram-lhe uma coroa para honrar sua façanha, mas ao mesmo tempo o condenaram a uma multa (26) de mil dracmas de prata, porque havia sido tão temerário em se aventurar no perigo da batalha sem armas defensivas.

(26) Cem escudos. Amyot.

LX. Batalha de Mantinéia.

LX. Poucos dias depois tiveram outra batalha em frente à cidade de Mantinéia, onde Epaminondas, tendo já partido as primeiras filas dos lacedemônios e apertando vivamente os outros, infundindo coragem aos seus, houve um laconiano chamado Antícrates, que o esperou parado e lhe vibrou um golpe de dardo, como descreve Dioscórides; todavia, os lacedemônios, até hoje, chamam os descendentes desse Antícrates, machecionas, que é o mesmo que dizer, espadachins, como se houvesse ferido com um golpe de espada; pois os lacedemônios o amaram e consideraram tanto, por causa desse golpe, pelo grande temor que tiveram de Epaminondas vivo, que ordenaram grandes honras e grandes presentes àquele que o havia morto e, aos seus descendentes, franquia a todos os cargos e atribuições públicas, cujos privilégios goza ainda em nosso tempo um Calícrates que é descendente desse Antícrates.

Agesilau perde a estima dos gregos e dos lacedemônios

LXI. Depois desta batalha e da morte de Epaminondas, tendo os gregos conseguido a paz universal entre eles, Agesilau quis ainda negar e excluir os messenianos do tratado, dizendo que não tinham direito a jurar por um tal chefe, levando em conta que não tinham cidade; mas, como todos os demais gregos, não obstante isso, o receberam no número dos contratantes e tomaram seu juramento, os lacedemônios se retiraram e desfizeram o tratado de paz geral, ficando somente eles a guerrear, na esperança de recuperar o país e território de Messena, tudo por instigação de Agesilau, que foi então considerado pelos gregos como homem violento, cruel e insaciável de guerras, por ir assim minando por baixo, procurando fazer cair, de todo o jeito, o tratado de paz universal. E, por outro lado, foi constrangido a desagradar seus concidadãos, dentro de sua cidade, devido à falta de dinheiro público, emprestando deles e obrigando-os a contribuir, e, assim, colocou-se em tão má situação diante de todo o mundo ali, que se julgava ser melhor pôr um fim a todas essas desgraças, pois levava todo o tempo, depois de haver perdido tão grande império, de tantas fortalezas e cidades e ter desistido do principado de toda a Grécia, tanto em mar como em terra, a atormentar-se para recuperar a renda das possessões do território messeniano.

Viagem ao Egito.

LXII. Ainda perdeu mais de sua reputação, quando se entregou a um capitão egípcio, chamado Tachos, o que foi considerado coisa indigna dele, que um tal personagem, reputado o maior de toda a Grécia e que havia enchido toda a terra com a fama de seu nome, fosse alugar sua pessoa e a glória de seu nome por dinheiro, a um bárbaro traidor e rebelde, para exercer a seu serviço o ofício de capitão mercenário, pois já era idoso, com mais de oitenta anos, com o corpo todo retalhado de ferimentos, quando aceitou o belo e honroso cargo para conduzir a recuperação da liberdade dos gregos, quando sua ambição ainda era irrepreensível, porque as coisas que são por si belas, têm seu tempo e sua estação própria, ou para melhor dizer, as boas e belas não diferem das feias e más, senão na dosagem com que elas se formam, pela moderação e pela mediocridade. Todavia, Agesilau não se preocupou muito com tudo isto e não julgou que houvesse alguma indignidade no serviço que se faz para o bem da coisa pública, mas antes se persuadiu que era coisa indigna dele, viver ocioso, sem nada fazer em uma cidade, esperando que a morte o viesse buscar. Portanto, reuniu na Grécia os guerreiros assalariados que Tachos lhe enviou, com os quais embarcou, tendo como seus conselheiros e seus colaboradores trinta espartanos, como havia acontecido em sua primeira viagem.

. Má opinião que os egípcios formam a seu respeito

LXIII. Uma vez chegado ao Egito, imediatamente os principais governadores e capitães do rei Tachos desceram à praia para o receber e lhe prestar honra, e não somente esses, mas também diversos outros egípcios de outros estados que o esperavam com grande devoção pela grande fama do seu nome, acorreram de todos os lados para verem que espécie de homem era êle, mas quando não viram nenhuma magnificência de séquito e de equipagem, mas somente um velho deitado sobre a relva, ao longo da praia, de estatura pequena, simples em sua atitude e sem nenhuma aparência, grosseiramente vestido com um velho traje usado, tiveram vontade de rir e caçoar, dizendo entre eles que aquilo verdadeiramente confirmava o que existia na fábula, — que uma montanha gemeu com as dores do parto, dando à luz um ratinho. Ainda o acharam mais estranho quando lhes trouxeram presentes de boas vindas, pois recebeu bem as farinhas, os vitelos e os filhotes de ganso, mas os doces, massas, odores e perfumes, recusou-os, e como aqueles que lhe haviam oferecido insistissem para que aceitasse, disse-lhes que os levasse aos hilotas, seus escravos. Teofrasto escreve que êle tomou gosto pela grama de papel, achando belos os terços (27) ali feitos, salientando-se pela sua beleza e acabamento, tendo levado deles quando partiu.

(27) As coroas.

Abandona Tachos para passar no partido de Nectanebo

LXIV. Mas, tendo falado com Tachos, que estava pondo em ordem seu exército e preparando sua viagem, não foi feito capitão-general, como esperava, mas somente coronel dos estrangeiros; Chabrias, era o comandante da armada e comandante em chefe, acima do qual estava Tachos em pessoa; isso desagradou muito a Agesilau, pois estava constrangido, quisesse ou não, a suportar a glória vã e a louca arrogância deste egípcio, o que o afligia muito porque era preciso ir com ele por mar contra os fenícios, dobrando-se sob seu jugo e obrigado a agir, de encontro à sua dignidade e contra sua natureza, até que chegou a ocasião de se ressentir. Um sobrinho de Tachos, chamado Nectanebo, tendo a seu cargo uma parte do exército, rebelou-se contra o tio e sendo eleito rei pelos egípcios, enviou um pedido a Agesilau solicitando que o viesse socorrer; também mandou pedir a Chabrias para tomar seu partido, prometendo a um e ao outro grandes presentes. Tachos, porém, tendo percebido, pôs-se a suplicar aos dois que não o abandonassem, o que fez Chabrias, que reconfortando Agesilau e lhe fazendo diversas admoestações, procurou conservá-lo na amizade de Tachos. Ao que Agesilau lhe respondeu:

— "Quanto a ti, Chabrias, que aqui vieste por teu próprio impulso, podes bem fazer o que bom te parece, mas quanto a mim é outra coisa; pois meu país enviou-me aqui como capitão ao serviço dos egípcios; portanto, não seria nada honesto que eu guerreasse contra esses a quem me enviaram para servir e socorrer, a menos que esses mesmos para os quais fui enviado, me mandassem agora o contrário". Dad a esta resposta, despachou alguns de seus soldados a Esparta para aí acusar Tachos e louvar Necta-nebo; eles também, cada um por seu lado, mandaram pedir o conselho da Lacedemônia, um como sendo seu amigo e aliado de todos os tempos e o outro prometendo ser no futuro mais leal e amigo mais dedicado. Os lacedemônios, tendo ouvido essas súplicas, responderam publicamente que Agesilau teria cuidado em resolver a respeito, e em segredo lhe escreveram que fizesse aquilo julgado mais útil para Esparta. Assim Agesilau, tomando consigo os aventureiros que trouxera da Grécia, retirou-se para junto de Nectanebo, cobrindo-se com a capa de que "era para o bem de seu país", para disfarçar seu maldoso intento; pois se lhe retirassem essa máscara de utilidade pública, achariam que o nome mais justo que lhe poderiam dar, seria traição, mas os lacedemônios, colocando como primeiro ponto de honra o que era útil para seu país, não conheciam outra justiça senão aquela que contribuísse para crescimento e progresso de Esparta.

Faz sair este de uma fortaleza onde estava sitiado

LXV. Assim Tachos, vendo-se abandonado por esses estrangeiros mercenários, fugiu; mas por outro lado levantou-se também na cidade de Mendes um outro rei contrário a Nectanebo, o qual tendo reunido cem mil combatentes, vinha procurá-lo e combatê-lo. E Nectanebo, julgando encorajar Agesilau, ia lhe dizendo que os inimigos estavam em grande número, mas que eram homens recolhidos de todos os cantos, pessoas do trabalho a maioria, dos quais não precisava fazer caso, porque eles não sabiam o que era a guerra; Agesilau respondeu-lhe: — "Ao contrário, eu não temo o seu número, mas sua ignorância e falta de experiência, o que é mais difícil de iludir; pois os ardis de guerra valem e servem contra aqueles que, ao se defenderem, mantendo-se em guarda, duvidam e desconfiam, e por este meio, esperam uma coisa em vez de outra; mas com aquele que não duvida de nada e que não espera uma coisa mais cedo do que outra, que não dá nenhuma oportunidade àquele que procura provocá-lo, mais do que o que não.se mexe na luta, não demonstra nenhuma inclinação nem meio de enfraquecer o adversário que luta contra êle". Depois o mendisiano mesmo mandou mensageiros à presença de Agesilau, procurando trabalhá-lo, pelo que Nectanebo teve receio e desconfiança; razão por que Agesilau aconselhou-o a descer para a batalha o mais cedo que pudesse e não demorar esta guerra contra soldados que não sabiam o que era combater, mas que devido ao seu elevado contingente, poderiam muito bem envolver e fechá-los em trincheiras, e prevenindo-o sobre diversas coisas, Nectanebo ficou então com suspeitas maiores e maior desconfiança dele, de tal forma que afinal retirou-se para uma grande cidade bem fechada por boas muralhas e que era um grande recinto; isto fez Agesilau ficar descontente, desagradando-o bastante o fato de ver como desconfiavam assim; no entanto, tendo vergonha de se virar bruscamente para o outro lado ou de voltar sem nada fazer, seguiu-o e entrou com ele dentro daquela fortaleza onde os seus inimigos o perseguiram; uma vez chegados diante do lugar, começaram a entrincheirar-se à volta para o fechar; motivo por que o egípcio Nectanebo temendo por outro lado ser durante muito tempo sitiado, quis iniciar batalha, com os aventureiros gregos às suas ordens, os quais não pediam outra coisa, mesmo porque havia muito pouco trigo no lugar, e ao contrário Agesilau impedindo-o e não desejando ceder, ficou ainda em pior situação do que antes com relação aos egípcios, a ponto de lhe dizer que era um traidor ao seu rei; mas ele começou a suportar mais pacientemente as injuriosas calúnias com que o acusavam, esperando o tempo favorável para executar um ardil que tinha em seu pensamento, o qual era: os inimigos construíam uma trincheira grande e profunda à volta da cidade para, por todos os pontos, fechá-la; quando as duas pontas da trincheira ficassem bem perto uma da outra e faltasse bem pouco para se encontrarem, esperando que a noite desse dia chegasse, ordenou aos gregos que se armassem e se mantivessem prontos, depois dirigindo-se ao egípcio disse-lhe: — "Eis o ponto culminante da ocasião própria para te salvares, cuja ocasião não te quis dizer, até que houvesse chegado, com medo de perdê-la. Pelo que, agora que mesmo os inimigos com suas próprias mãos nos arranjaram o meio de nos retirar a salvo, fazendo esta trincheira, da qual o que já está feito os impede de poderem se servir de sua multidão de soldados e o que está para ser feito, nos dá comodidade de os poder combater com número igual e medida semelhante, delibera mostrar-te por este golpe, homem de coragem e nós seguiremos teus passos; salva-te rapidamente, tu e tua gente, pois esses inimigos que encontramos de frente, não nos susterão nunca e os outros por causa da trincheira que nos cobrirá pelos lados, não nos poderão prejudicar". Ouvidas estas palavras, Necta-nebo maravilhou-se de seu bom senso, e colocando-se no meio dos gregos, deu contra os inimigos, os quais em poucas horas, foram facilmente derrotados, pelo menos aqueles que esperaram e que lhe ousaram fazer frente.

Ganha uma grande vitória que assegura o trono a Nectanebo.

LXVI. Depois que Agesilau ganhou nesse ponto e que Nectanebo nele acreditou, surpreendeu os inimigos ainda com o mesmo ardil, com o qual já os havia surpreendido, nem mais, nem menos do que de uma reviravolta na luta, da qual eles não souberam se defender; pois era simulando fugir e atraindo-os para perto dele, ora rodopiando daqui e dali, tanto fez que afinal atraiu toda esta grande multidão para um aterro estreito, apertado dos dois lados por grandes fossas, largas e profundas, cheias de água corrente; depois, quando ficaram no meio, barrou-lhes subitamente o passo com a frente da batalha, que igualou à largura do aterro, e assim fazendo, igualou também o número de seus combatentes com a multidão dos inimigos, porque não puderam mais rodeá-lo, nem pelos lados, nem por trás; por esse meio, depois de pequena resistência, foram todos postos em fuga e ficando grande número de mortos sobre o sítio e os outros, depois de haverem sido uma vez rompidos, debandaram e se afastaram fugindo daqui e dali, de tal forma que depois os negócios do rei egípcio se realizaram bem e encontrou-se seguro em seu estado. Daí em diante, estimou singularmente a Agesilau, fazendo-lhe, a toda a hora, todo o agrado que lhe era possível, pedindo-lhe que ficasse e passasse o inverno com êle; mas Agesilau teve pressa de voltar ao seu país porque a guerra lá estava, sabendo que sua cidade tinha falta de dinheiro e atendendo que ela estava obrigada a manter a seu soldo soldados estrangeiros.

Morte de Agesilau.

LXVII. Após isto, Nectanebo despediu-se dele muito honradamente e com bastante magnificência presenteando-o, além de todas as outras honras e dádivas, com duzentos e trinta talentos (28) em prata sonante, para suprir as despesas de guerra que seu país sustentava; mas, estando o mar em tormenta, por ser a estação do inverno, Agesilau morreu pelo caminho, tendo todavia ganho a terra com seus navios num lugar deserto nas costas da Líbia, que se denomina o Porto Menelau (29), depois de haver vivido oitenta e quatro anos, dos quais durante quarenta e um foi rei de Esparta e desses, durante mais de trinta, havia sempre continuamente sido estimado como o maior e o mais poderoso homem e quase como capitão-general de toda a Grécia até a jornada de Leutres. Sendo costume dos lacedemônios exumar os corpos de seus cidadãos que faleciam fora do país, no lugar mesmo onde morriam e lá deixá-los, exceto os reis, que transportavam ao país, os espartanos que então estavam à volta de Agesilau, por falta de mel, derreteram cera sobre seu corpo e o transportaram desse modo para Esparta. Seu filho Arquidamo sucedeu-o no trono, o qual ficou por sucessão contínua aos seus descendentes, até Ágis, que Leônidas mandou matar, porque procurava fazer voltar a antiga disciplina e modo de viver da Lace-demônia, sendo o quinto rei de pai para filho depois de Agesilau.

(28) Cento e trinta e oito mil escudos. Amyot.
(29) Sobre o Mediterrâneo, acima do promontório de Ar-dane, na parte da Africa denominada Marmarica, entre o Egito ao oriente e a Cirenaica ao ocidente.


 

Tradução de Carlos ChavesFonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Sexto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

nov 102010
 
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Plutarco – Vidas Paralelas

VIDA DE LÚCULO

Desde o ano 630, aproximadamente, até o ano 700 de Roma, antes de Jesus Cristo, 54.

 

Lúcio Licínio Lúculo

 

Família de Lúculo. Êle acusa o augure Servílio.

O avô de Lúculo era personagem de dignidade consular, e seu tio materno Metelo, cognominado Numídico, obteve esta alcunha por haver subjugado e conquistado a província de Numídia; seu pai, porém, foi categoricamente acusado de furto na administração das finanças públicas, e sua mãe, Cecília, adquiriu a fama de desonesta. Antes que Lúculo obtivesse qualquer cargo que o obrigasse a cuidar da administração pública, tratou, ao chegar, de acusar e submeter à ação da justiça Servílio Augúrio, acusador de seu pai, alegando haver procedido do mesmo modo em sua terra, isto é, haver ele atentado contra o erário público. Os romanos consideraram lindo este seu procedimento, não se falando de outra coisa em Roma, durante muito tempo, como se fosse coisa de grande valia. Passaram então a considerar coisa valiosa e nobre a acusação sincera e destemida a elementos perniciosos, sentindo grande prazer em ver os moços, à maneira de galgos enfurecidos atrás das lebres, perseguirem judicialmente os fraudadores. As rixas e perseguições foram tão grandes em tal processo, que houve feridos e mortos em praça pública, só terminando com a absolvição de Seivílio.

Eloqüência e habilidade de Lúculo nas línguas grega e latina.

II. Lúculo exprimia-se com tanta eloqüência, facilidade e correção nas línguas grega e romana, que Sila viu nele o único homem capaz de escrever-lhe a história completa dos seus feitos, com fidelidade e elegância, e recorreu a ele, fornecen-do-lhe os dados indispensáveis. A sua facilidade no falar não se resumia em ter resposta pronta para destruir ataques e produzir defesas unicamente, como se observa em outros, que em questões processuais, ou em audiências públicas,

Assemelham-se aos atuns, que por grande teimosia,
Vão às profundas do Oceano;

mas, que, afastados dos limites da prática e das arengas públicas,

Tornam-se áridos, enfadonhos,
E reduzem a nada a sua eloqüência.

Desde a mocidade Lúculo se dedicara com afinco ao estudo das belas-letras ou de humanidades, como dizem, e às ciências liberais. Chegado à velhice, dedicou-se, a custo, ao estudo da filosofia, avivando a parte contemplativa de sua alma, e amortecendo, ou pelo menos refreando a tempo, a parte ambiciosa e ativa, depois da pendência que teve com Pompeu. Dizem que, muito moço ainda, desejando dar maior prova do seu talento, ele fez uma aposta com o orador Hortênsio e o historiador Sisena de ser capaz de escrever um resumo da guerra Mársica (1), em prosa ou verso, em latim ou grego, de acordo com o que ficasse estabelecido por sorte. Isto, que a princípio foi tomado como pilhéria, tornou-se realidade, tendo-lhe caído, a meu ver, a prosa grega, porque de sua autoria é a pequena história que ainda hoje existe, em língua grega, da guerra que os romanos fizeram contra os marsos.

Seu afeto por seu irmão.

III. Êle era muito afeiçoado a seu irmão Marcos Lúculo, conforme demonstrou em muitas oportunidades, sobressaindo a que segue, mencionada pelos romanos: Lúcio era-lhe mais velho, mas nunca solicitou nem aceitou encargos públicos antes dele, pois preferia o bem-estar de seu irmão ao seu. Tanta bondade conquistou-lhe as mercês do povo, que, durante a sua ausência, elegeu-o edil, juntamente com seu irmão, em atenção a êle.

Sila agarra-se a êle, ocupando-o em diversas circunstâncias.

IV. O esplendor de sua mocidade manifes-ta-se durante a guerra Mársica, na qual êle praticou muitos atos sensatos e de grande audácia. Sila porém, chamou-o a si, não pelos cometimentos realizados, e sim devido à sua constância, à sua bondade e afabilidade. Feita a escolha, Sila ocupou-o sempre, de começo ao fim, nos afazeres mais importantes e de maior responsabilidade, sendo um deles o da cunhagem de moedas no Peloponeso, cuja maior parte foi despendida na guerra contra Mitrídates. Foi a razão por que as moedas tornaram-se conhecidas por Luculianas, tendo, durante muito tempo, livre circulação entre os guerreiros, que com elas adquiriam o que lhes era necessário, e ninguém se recusava em aceitá-las. Depois, sendo Sila, em Atenas, o mais forte em terra, mas o mais fraco no mar, o que fazia com que seus inimigos lhe interceptassem todos os víveres, mandou Lúculo ao Egito e à Líbia, para trazer-lhe os navios que encontrasse naquelas regiões. Embora se achassem no mais rigoroso inverno, quando foi incumbido de tal missão, ele fêz-se ao mar com três bergantins gregos e três galés rodianas, expondo-se não só aos perigos marítimos, em tão longa viagem, como aos ataques inimigos, muito mais fortes, que singravam por toda parte, sempre com excelente frota. Vencendo todas as dificuldades, êle primeiro desembarcou na ilha de Cândia, que submeteu às suas ordens, seguindo depois para a cidade de Cirene, onde encontrou os habitantes fatigados de lutas civis e das contínuas opressões a que os submetiam os tiranos. Êle abateu a tirania, estabelecendo ali uma forma de governo adequada às circunstâncias, garantindo-lhes, como fizera Platão, outrora, a seus antepassados, absoluta tranqüilidade. Como lhe solicitassem leis relativas ao melhor modo de gerir e governar os negócios públicos, ele respondeu não sentir-se à vontade, para ditar leis a pessoas tão ricas, felizes e opulentas como elas, por não haver coisa mais difícil de se frear do que o homem que tem dinheiro à sua disposição; dando-se o contrário com o que a sorte ajudou a enriquecer, que está sempre pronto a receber conselhos e ordens. Esta advertência tornou os cirênios, dali por diante, mais dóceis e mais obedientes às ordens estabelecidas por Lúculo.

Êle vai ao Egito. Honras que recebe de Ptolomeu.

V. Partindo dali para o Egito, durante a travessia êle foi inesperadamente atacado por corsários, perdendo boa parte dos navios que havia reunido. Conseguindo salvar-se, foi pomposamente recebido na cidade de Alexandria, pois toda a esquadra real foi-lhe ao encontro, em boa ordem e bem equipada, do mesmo modo que procedia com o rei, quando regressava de alguma viagem marítima. O próprio rei Ptolomeu, então ainda muito jovem, fêz-lhe o melhor acolhimento possível, pois, entre outras demonstrações de amizade, alojou-o e alimentou-o em seu castelo real, onde, até então, nunca fora hospedado nenhum capitão estrangeiro; nem poupou despesas, para homenageá-lo, coisa que nunca fez com outros. Lúculo, porém, resumiu-se ao indispensável à sua manutenção, e resolveu não aceitar presente algum do rei, por mais desvahoso que fosse; negou-se a visitar a cidade de Mênfis e qualquer das .raridades e maravilhas de renome, existentes no Egito, sob o fundamento de ser isso próprio de homem que corre o mundo só para ver e distrair-se, não já para ele, que deixara seu capitão em campo, na sede do comando, diante das muralhas dos inimigos. Finalmente, o jovem rei Ptolomeu não quis entrar em aliança com Sila, receoso de meter-se na guerra, pois bem que lhe pediu Lúculo gente e navios para levar a Chipre. Logo que ele quis embarcar, o rei disse-lhe adeus, abraçou-o, e ofereceu-lhe uma linda e preciosa esmeralda engastada em ouro, que Lúculo logo recusou; mas, como o rei lhe mostrasse a sua efígie ali gravada, acabou aceitando, receoso de que, julgando-o partir descontente com a sua pessoa, o rei lhe preparasse alguma emboscada no mar.

Por meio de que astúcia êle foge aos inimigos que o esperavam de emboscada.

VI. Tend o conseguido certo número de navios nas cidades marítimas dos arredores, que não homiziavam piratas e corsários, participando dos seus furtos e assaltos, ele foi ter a Chipre, onde recebeu a notícia que seus inimigos, ocultos em alguns cabos, aguardavam a sua passagem, para atacá-lo de surpresa. À vista disso, ele fez aportar os navios, e preveniu as cidades próximas que resolvera invernar ali, razão por que o aprovisionassem de víveres e de quanto fosse necessário a passar o inverno e esperar a nova estação. Nem bem o tempo permitiu, ele fêz-se de novo ao mar, com toda a esquadra, singrando durante o dia de velas arriadas, e à noite de velas alteadas, sendo tão bem sucedido, com este ardil, que chegou a Rodes sem perder um único navio. Os rodianos forneceram-lhe outros, e, os gnídeos e os da ilha de Co, instigados por ele, abandonaram o partido do rei Mitrídates e foram, em sua companhia, guerrear os de Samos. Ele, porém, só com sua gente expulsou de Quio as forças do rei, e libertou os colofônios, aprisionando o tirano Epígono, que os submetia à escravidão.

Fímbria propõe-lhe atacar Mitrídates por mar.

VII. Mais ou menos nessa época, Mitrídates foi obrigado a deixar a cidade de Pérgamo e a retirar-se para a de Pitana, na qual Fímbria retinha-o fortemente sitiado por terra. À vista disso, ele mandou prevenir suas forças navais e marítimas de toda a costa, sem ousar atacar nem arriscar-se a um embate terrestre com Fímbria, que sabia ser homem valente e arrojado por natureza, e que levaria vantagem sobre os seus. Fímbria bem se apercebeu disso; mas, não possuindo forças navais, mandou pedir a Lúculo que se dirigisse para ali com sua frota, a fim de ajudá-lo a derrotar o maior e mais cruel inimigo do povo romano, e impedir que tão bela e rica presa, perseguida com tanto trabalho e risco, lhes escapasse, já que por si mesma se fora lançar entre as suas reses; pediu-lhe que não deixasse de atender, porque, se Mitrídates fosse apanhado, a ninguém, senão a ele, caberia a grande honra e glória de haver-lhe impedido a fuga, proporcionando o meio de vencê-lo, e de repartirem igualmente os louvores do grande empreendimento. Além disso, a derrota de Sila fana com que os romanos se esquecessem de todas as proezas e grandes feitos de armas por ele realizados na Grécia, nas cidades de Queronéia e de Orcomene.

Duas vitórias alcançadas por Lúculo sobre as frotas de Mitrídates.

VIII. Tais foram as propostas que Fímbria lhe fizera, nas quais nada havia de extraordinário, ou pelo menos não demonstrava. Ninguém duvida que, se Lúculo tivesse atendido ao pedido, e tivesse ido, com seus navios, fechar a entrada do porto da cidade em que Mitrídates estava sitiado, a pequena distância dele, a guerra acabaria ali, e livraria o mundo da incalculável série de males que sobrevieram. Mas, ou porque Lúculo desse mais valor ao que devia a Sila, do qual era tenente, do que a qualquer outra consideração e proveito, de caráter privado ou público; ou porque odiasse e abominasse Fímbria, como verdugo, que pouco antes, por deplorável ambição, havia manchado as mãos no sangue de seu amigo e chefe; ou por qualquer providência e concessão divina, êle poupou, então, Mitrídates, para torná-lo depois um adversário digno, capaz de fazê-lo por à prova todo o seu valor. Tanto isto é verdade, que êle, ao invés de atender ao pedido de Fímbria, deu a Mitrídates tempo e espaço suficientes para fugir e zombar de todo o esforço de Fímbria. Depois, sozinho, derrotou a esquadra do rei, perto do cabo Lecto, na costa de Troada, e junto à ilha Tenedos, onde Neoptolemo, tenente da marinha de Mitrídates, que o esperava com maior número de navios, embargou-lhe inesperadamente o avanço, lançando-se sobre a nau capitânea, galera rodiana de cinco remos em cada banco, governada pelo piloto Demágoras, muito afeiçoado aos romanos e experimentado nos combates navais. Como Neoptolemo corresse ruidosamente ao seu encontro, ordenando a seu piloto um choque de proa, que seria fatal, visto ser a galera real forte e maciça, e bem armada de pontas e esporões de cobre, Demágoras fez habilmente girar a sua, e recebeu o choque na popa, sem graves danos, dada a posição baixa da mesma. Neste ínterim seus homens se aproximaram, e Lúculo ordenou ao piloto que retomasse a posição primitiva, praticando atos de grande valor; afugentou seu inimigos e expulsou Neoptolemo.

Êle ataca de surpresa os habitantes de Mitilene, e derrota-os completamente.

IX. Partindo dali, ele foi ao encontro de Sila, no momento em que este ia atravessar o mar, a caminho do Quersoneso, ajudando-o a passar sua esquadra, e assegurando-lhe a passagem. Ao ser concluída a paz, e ao retirar-se o rei Mitrídates aos seus domínios e reinos, situados ao longo do mar Maior, Sila condenou a província da Ásia, por se haver rebelado, a multa de vinte mil talentos, que correspondem a doze milhões de libras. Para haver tão elevada quantia foi comissionado Lúculo, com poderes de mandar cunhar as moedas, que foram de grande utilidade às cidades da Ásia, dado o rigor com que Sila se utilizara delas; pois, em situação tão ruinosa e odiosa para todos, ele portou-se como homem reto, honestíssimo, comedido e humano. Quanto aos mitilenos, que se rebelaram abertamente contra ele, apenas desejava que reconhecessem seu erro, e que, como castigo de haverem aderido a Mário, sofressem uma leve punição. Vendo-os, porém, excessivamente teimosos em sua infelicidade, dirigiu-se contra eles, e, derrotando-os em combate, obrigou-os a meterem-se em suas muralhas, sitiou-lhes a cidade, lançando mão deste ardil: durante o dia fêz-se ao mar, à vista de todos os moradores da cidade, singrando para a cidade de Eléia; à noite, porém, voltou secretamente, e, sem fazer o menor ruído, colocando-se de emboscada no lugar mais próximo da cidade. Os mitilenos, que nada suspeitavam, saíram na manhã seguinte, temerária e desordenadamente, para pilhar e saquear o acampamento dos romanos, certos de não encontrar ninguém ali. Lúculo saltou de improviso sobre eles, aprisionou muitos, e matou uns quinhentos dos que procuraram defender-se; ganhou seis mil escravos, além de enorme quantidade de outros despojos.

Sila nomeia-o, por testamento, tutor de seu filho.

X. Ocupado, como se achava, com os negócios da Ásia, os deuses impediram-no de participar da longa série de males e misérias de toda espécie, a que Sila e Mário submeteram a pobre Itália naquela época; o que não obstou que Sila lhe dedicasse a mesma estima e consideração concedida aos outros amigos, pois, como já dissemos, dedicou-lhe seus Comentários, e, em testamento, nomeou-o tutor de seu filho, deixando Pompeu esquecido. Foi esta, ao que parece, a origem da discórdia e do ciúme surgidos mais tarde entre os dois, jovens e ávidos de honrarias.

Êle é nomeado cônsul.

XI. Pouco depois da morte de Sila, ou seja, um ano antes do início da guerra de Espártaco e da morte de Sertório, Lúculo foi eleito cônsul. Começaram então a propalar ser indispensável recomeçar a guerra contra Mitrídates, o mesmo fazendo Marcos Cota, que dizia, em toda parte, não achar-se ela extinta nem amortecida, mas unicamente adormecida. Foi por isso que, ao serem sorteadas as províncias que os cônsules iriam governar, Lúculo ficou muito triste, ao ver que a Gália entre os Alpes e a Itália, lhe caíra por sorte. Pareceu-lhe não ser província em que pudesse fazer coisa digna de nota; e, nesta conjuntura, Pompeu, que diariamente adquiria maior fama, pelas façanhas que realizava na Espanha, seria fatalmente eleito comandante das forças contra Mitrídates, logo que concluísse a guerra ali. A esse tempo Pompeu mandou pedir que lhe remetessem com urgência, dinheiro para pagamento do soldo às tropas, escrevendo ao Senado que, caso não o atendessem sem demora, êle abandonaria Sertório e a Espanha, e reconduziria todo o seu exército à Itália. Lúculo empregou todo o seu prestígio, para que o dinheiro lhe fosse logo remetido, receoso que êle chegasse à Itália no ano do seu consulado, e, possuidor de poderoso exército, fizesse e obtivesse em Roma o que melhor entendesse, pois Cetego, muito reputado e querido ali como administrador, por fazer e dizer tudo quanto fosse do agrado do povo, estava desavindo com ele Lúculo, que reprovava seus costumes e modo de vida, próprios de pessoa viciada e dissoluta, e movia-lhe guerra aberta. Havia, além disso, outro arengueiro popular, chamado Lúcio Quíncuo, que pretendia desfazer e anular todas as ordens e atos de Sila, isto é, revolver por completo a administração pública, e pôr em polvorosa e combustão a cidade de Roma, que até então estivera em completa paz e repouso. Lúculo admoestou-o delicadamente, em caráter reservado, e, Usando da mesma cortesia em público, fê-lo desistir do mau propósito, reconduziu-o ao uso da razão, e desfez, com habilidade e sabedoria, para o bem da coisa pública, o início de um mal que poderia dar origem a inúmeras desgraças.

Êle é encarregado da guerra contra Mitrídates.

XII. Neste cómenos chegaram notícias do falecimento de Otávio, governador da Cilicia. Surgiram logo muitos pretendentes, que se puseram a brigar e a demandar por causa deste governo, e a cortejar Cetego, por ser o que melhor podia fazê-los conseguir o seu desejo. Lúculo não ligava importância ao governo da Cilicia, pelo fato de ser ela província; mas, considerando que a Capadócia estava-lhe anexa, e, certo de que, se conseguisse obter o seu governo, a ninguém, mais do que a ele, caberia a tarefa de guerrear Mitrídates, resolveu pôr em prática todos os meios para consegui-lo. Depois de haver se utilizado de todo expediente, foi, por fim, contra a sua índole, obrigado a recorrer a um meio pouco louvável e honesto, mas o mais expedito para conseguir o que almejava. Havia em Roma, naquele tempo, uma mulher, chamada Pré-cia, célebre por sua beleza, graça e encanto no falar, tão honesta como as que publicamente mercadejam seus corpos. Mas, em razão de empregar a sua valia em benefício dos que com ela mantinham relações, para o bem da coisa pública e dos que amava, adquiriu fama de bondosa e dominadora, capaz de levar a bom termo uma boa empresa. Além disso, ela conquistara Cetego, muito reputado em Roma, que manejava a bel-prazer todos os negócios públicos, e que se achava tão enamorado dela, que não podia perdê-la de vista. Assim sendo, ela enfeixava em suas mãos todo o poder e autoridade da cidade de Roma, porque nada se fazia, em favor do povo, que não emanasse de Cetego, e este a nada atendia, que não fosse solicitado por Précia. Por isso, Lúculo tratou de ache-gar-se e de conseguir-lhe o auxílio, por meio de presentes e de outros agrados que pôde imaginar, embora já fosse uma grande honra, para uma mulher ambiciosa e altiva como ela, ser procurada e solicitada por uma personagem como Lúculo, que, assim, conseguiu ter Cetego à sua disposição. Allém disso, êle não fez outra coisa senão louvar Cetego em todos comícios populares, e em pedir-lhe o govêrno da Cilicia. Alcançado este, êle não precisou mais do auxílio de Précia e de Cetego, pois o povo todo conferiu-lhe, por unanimidade, o direito de guerrear Mitrídates, considerando-o o único capaz de enfrentá-lo vantajosamente, visto ainda achar-se Pompeu às voltas com Sertório, na Espanha, e ser Metelo muito avançado em idade para um feito desta natureza. Pompeu e Metelo eram os únicos que podiam contender e lutar pela posse do cargo. Não obstante Marcos Cota, seu concorrente ao consulado, tanto pediu ao Senado, que também foi mandado, com uma armada, guardar as costas da Propôntida, e defender a Bitínia.

Êle restabelece a disciplina no seio de suas tropas.

XIII. De posse desta missão, Lúculo passou para a Ásia, com uma legião novamente recrutada em Roma. Lá chegando, arrebanhou o resto das forças que encontrou, constituída de gente corrompida e gasta pelos prazeres e pela avareza, sobressaindo os libertinos, conhecidos por libertinos fim-brianos, homens debochados e difíceis de serem submetidos à disciplina militar, por se haverem de há muito habituado a viver a vontade, sem obedecer a quem quer que fosse. Foram eles que, com Fímbria, assassinaram seu capitão Flaco, cônsul do povo romano, e depois traíram o próprio Fímbria, entre gando-o a Sila. Embora turbulentos, intratáveis e perversos, não deixavam de ser bons combatentes, valentes e perfeitos conhecedores dos trabalhos da guerra. Lúculo em pouco tempo diminuiu-lhes o atrevimento, e disciplinou igualmente os outros, que nunca tiveram a comandá-los um homem de valor, se im indivíduos que os adulavam e só faziam o que eles queriam.

Mitrídates faz novos preparativos de guerra.

XIV. Quanto aos inimigos, eles se achavam nesta situação: Mitrídates, que a princípio fora audacioso e valente, como o são geralmente os sofis-tas, a ponto de ousar guerrear os romanos com um exército aparatoso, mas inútil e nulo, depois de ser uma vez castigado e derrotado vergonhosamente, sofrendo inúmeras perdas, ao fazer segunda guerra restringiu-se ao indispensável, e fez de suas forças um verdadeiro e útil instrumento de guerra, próprio a satisfazer o fim que tinha em vista: proibiu o acúmulo desordenado de gente de toda nacionali-dade entre suas forças; deteve as arrogantes amea-ças dos bárbaros, proferidas em tantas línguas diferentes; acabou com as armas ornadas de borda-dos, ouropéis e pedras preciosas, que só serviam para enriquecer os vendedores e nenhum estímulo davam aos que as usavam. Mandou forjar espadas longas e fortes, à romana, escudos pesados e maci-ços, e reuniu os cavalos melhores e mais adestrados, sem se preocupar com o seu aparato; reuniu cento e vinte mil combatentes a pé, dispostos e aparelhados como um exército de romanos, com dezesseis mil cavalos de assalto, sem contar os que arrastavam a: carretas de artilharia, munidas de foices em toda a volta, em número de cem. Além disso, reuniu numerosas galeras e navios, desprovidos dos belod pavilhões dourados que ostentaram na primeira vez, sem banheiras e estufas, sem dormitórios e gabinetes deliciosos, destinados às senhoritas, mas repletos de armas, de flechas e de dardos, e com o dinheiro indispensável ao pagamento do soldo às tropas. Com este séquito, primeiro ele foi invadir a Bitínia, no ocidente da Ásia, em cujas cidades foi novamente bem recebido, o mesmo acontecendo em todas as do resto do continente, que haviam recaído na miséria, devido à crueldade dos rendeiros e usurá rios romanos, que as sobrecarregavam de multas e impostos, submetendo-as a toda espécie de castigos e vexames, negando até alimentos às populações. Lúculo livrou-as de tais tormentos, e, por meio de conselhos conseguiu evitar que as populações se rebelassem.

Êle vence o cônsul Cota em terra e no mar.

XV. Enquanto Lúculo assim procedia, Marcos Cota, percebendo que a ausência do companheiro dava-lhe ensejo de satisfazer seus desejos, preparou-se para combater Mitrídates. E, como, de muitos lugares, lhe chegassem notícias de achai Lúculo na Frigia, à frente do seu exército, pronto para ir ter com êle, convencido de ter em mãos, como coisa certa, a honra do triunfo, receoso de que Lúculo viesse dela participar, adiantou-se no combate, sendo derrotado tanto em terra como no mar; perdeu sessenta navios, com toda a tripulação, e quatro mil soldados, sendo acossado e sitiado na cidade de Calcedônia ou Bitínia, no Bósforo, sem esperança de poder salvar-se, a não ser que Lúculo o socorresse. Não faltaram, no acampamento de Lúculo, os que lhe pedissem e aconselhassem a deixar Cota entregue à sua sorte, e a dirigir-se para determinado lugar, no reino de Mitrídates, comple-tamente desguarnecido e sem qualquer meio de defesa; não era justo ir em socorro de quem, por sua tola temeridade e falta de tino, não só enganara e perdera os que se achavam sob suas ordens, como os impedira de vencer e terminar a guerra sem disparar um tiro. Lúculo, porém, respondeu-lhes: "Que preferia salvar um romano que fosse, a ganhar tudo o que estivesse em poder dos inimigos". Como Arquelau, que na primeira guerra fora tenente de Mitrídates e nesta segunda se pusera ao lado dos romanos, lhe garantisse que, se ele fosse ao reino de Ponto, todos ali se rebelariam contra Mitrídates e colocar-se-iam a seu lado, Lúculo disse-lhe que, se tal fizesse, "êle não se mostraria mais cobarde que os bons monteiros, que nunca largam a besta, mesmo para entrar em sua casa". Assim dizendo, fez seu exército marchar ao encontro de Mitrídates, que linha, ao todo, trinta mil soldados de infantaria e dois mil e quinhentos de cavalaria. Aproximando-se dos inimigos o mais possível, para tê-los sempre sob suas vistas, admirou-se Lúculo do elevado número de combatentes que vira em campo, e teve vontade de não travar combate, ponderando ser melhor deixar o tempo correr e delongar o embate. Um tal Mário, porém, capitão romano, que Sertório mandara da Espanha a Mitrídates, com alguns combatentes, foi-lhe ao encontro, provocando-o à luta.

Êle dispõe seu exército, em ordem de combate, diante do de Mitrídates. Um milagre impede o ataque.

XVI. Lúculo, a seu turno, pôs sua gente em posição de combate. Mas, no momento em que os dois exércitos iam entrechocar-se, o ar fendeu-se de repente, sem que ninguém notasse qualquer mudança sensível de tempo, e um grande corpo em chama, semelhante a um tonel, cor de prata fundida, desceu entre eles. Este sinal e presságio celeste assustou de tal modo os dois exércitos que eles se retiraram sem combater. Origma-se deste maravilhoso sinal, dizem, o nome Otries, dado àquele lugar da Frigia.

Êle procura ganhar tempo, sem arriscar-se a agir.

XVII. Refletindo, a seguir, não possuir Mitrídates dinheiro e abastecimento suficientes para ocorrer, durante muito tempo, às necessidades de tantos milhares de homens, que via acampados diante dele, Lúculo inquiriu a tal respeito um dos prisioneiros, e, para obter a confirmação, outros dois. Comparando a quantidade de trigo e de outros víveres armazenados com o número de homens a serem alimentados, concluiu que em três ou quatro dias tudo estaria esgotado, e decidiu manter-se no seu primeiro propósito de deixar o tempo correr, sem tentar a luta. Fêz buscar trigo em toda parte e recolhê-lo ao acampamento, bem como outros gêneros alimentícios, para que, com o seu exército ao abrigo de necessidades, melhor pudesse aguardar a ocasião propícia ao ataque aos inimigos.

Mitrídates vai sitiar Cízico.

XVIII. Mitrídates, por sua vez, estudava os meios de apoderar-se, de surpresa, da cidade de Cízica, na Propôntida, cujos cízicos, com Cota, haviam sido derrotados e afastados de diante da Calcedônia, perdendo três mil homens e dez navios. Para que Lúculo nada soubesse do seu propósito, êle partiu certa noite, logo depois do jantar, aproveitando a noite escura e chuvosa, e foi tão feliz que, pela manhã, ao romper do dia, achou-se diante da cidade, e acampou no lugar em que se ergue o templo da deusa Adrastia, isto é, de Nemésis, que é de destino fatal. Sabedor disso, Lúculo foi-lhe ao encalço; e, satisfeito de não ser apanhado desprevenido pelos inimigos, foi entrincheirar-se, com seu exército, na vila denominada Trácia, em lugar excelente, para onde convergiam todas as estradas e caminhos das regiões vizinhas, proporcionando-lhe os meios de obstar a passagem de víveres para o acampamento de Mitrídates. Notando o feliz acaso, êle não o quis ocultar à sua gente; e, ao ver o acampamento repleto de trincheiras e bem aparelhado, reuniu todas as forças, e, em rápido discurso, declarou-lhes ter absoluta certeza de proporcionar-lhes a vitória dentro de alguns dias, sem que ela lhes custasse uma gota de sangue.

Receios dos cizicenos.

XIX. Nesse decurso de tempo, Mitrídates assediou os cízicos, dispondo o seu exército em dez acampamentos, e bloqueou a costa, de ambos os lados, fechando, com seus navios, a entrada do canal que separa a cidade da terra firme. Apesar disso, os cízicos mostraram-se corajosos e decididos a suportar e vencer todas as dificuldades, em favor dos romanos. Afligia-os, porém, o fato de desconhecerem o paradeiro de Lúculo e não terem notícias dele, embora estivesse acampado em lugar facilmente visível da cidade. Os soldados de Mitrídates por sua vez, enganavam-nos por esta forma, mos-trando-lhes os romanos, vantajosamente acampados atrás deles, tão perto dali: "Vêem aquele acampamento? São os medos e os armênios, que o rei Tigrano mandou em auxílio de Mitrídates". Estas palavras punham os cízicos inquietos, porque, vendo tantos inimigos espalhados pelos arredores contra eles, e em número tão avultado, achavam que Lúculo não teria por onde passar, quando lhes fosse em auxílio. Por fim, um indivíduo chamado Demô-nax, que Arquelau lhes enviou, notificou-os da chegada de Lúculo, não sendo acreditado. Suas palavras foram consideradas um simples meio de encorajamento, para fazê-los suportar por mais tempo os sofrimentos e misérias do cerco a que estavam submetidos. Pouco depois, porém, chegou à cidade um rapazinho, que fora aprisionado pelos inimigos e que depois conseguira fugir. Como lhe perguntassem onde se achava Lúculo, o rapaz levou tudo em troça, pensando que quisessem zombar dele, fingindo desconhecer. Mas depois, notando que falavam a verdade, mostrou-lhe com o dedo o acampamento dos romanos, arrancando de todos os peitos um suspiro de alívio e de satisfação.

Prodígios que os garantem.

XX. Bem perto da cidade de Cízica há um lago denominado Dacilítido, navegável por grandes navios. Lúculo abasteceu-se no local do que julgou mais necessário e levou tudo para bordo; embarcou o maior número possível de soldados, e fê-los entrar à noite na cidade, sem serem percebidos pelos vigias inimigos. Este pequeno auxílio reconfortou extraordinariamente os sitiados. E, parece que os deuses, satisfeitos de vê-los tão corajosos, procuraram cientificá-los da vitória por meio de sinais muito evidentes que lhes enviaram, sobressaindo o seguinte: aproximava-se o dia da festa de Prosérpina, e os moradores da cidade não tinham vaca preta, para imolar no ato solene daquele dia, conforme o exigiam suas antigas cerimônias. Chegado o dia, eles levaram para junto do altar uma vaca qualquer, pois, a que criaram especialmente para ser submetida ao sacrifício pastorejava com o resto do gado da cidade na outra margem do canal. Naquele dia, porém, separando-se do resto da manada, a vaca atravessou a nado o canal, e foi apresentar-se ao sacrifício. A própria deusa Proserpina apareceu à noite, em sonho, a Aristágoras, secretário de Estado dos negócios públicos dos cízi-cos, e lhe disse: "Vim trazer-te a flauta da Líbia em oposição à trombeta pôntica. Dize, por mim, aos teus cidadãos, que eu lhe peço que tenham muita coragem". No dia seguinte, tendo o secretário divulgado sua visão, os cízicos ficaram pasmos, não chegando a compreender a significação das palavras da deusa. Mas, ao romper da aurora, desencadeou-se um furacão, que provocou tremenda tempestade marítima; as máquinas e engenhos de guerra do rei, verdadeiras maravilhas inventadas e armadas pelo engenheiro tessaliano Nicônidas, que já se haviam aproximado das muralhas da cidade para atacá-los, começaram a ranger e estalar com tal ruído, agitados pelo vento, que facilmente podia-se prever o que iria acontecer. De repente o vento sul adquiriu tal violência que despedaçou e afundou num instante todos os engenhos, inclusive uma torre de madeira de cem côvados de altura, que abalou e derrubou. Dizem ainda, que, na cidade de Ilion, a deusa Minerva apareceu em sonho a diversas pessoas, lavada em suor, e mostrando o seu véu rasgado, em conseqüência do auxílio que acabava de prestar aos cízicos, naquele instante. Em atenção a isto, os habitantes de Ilion conservam, ainda hoje, uma coluna, como perene recordação do fato.

Consideráveis vantagens obtidas por Lúculo sobre as tropas de Mitrídates.

XXI. Este acontecimento inesperado, que livrou os cízicos do ataque a que iam ser submetidos e das amarguras do sítio, acrescido dos tormentos da fome, que obrigava seus homens a fazer uso da carne humana, chamou Mitrídates à dura realidade e fê-lo desistir da sua obstinada ambição e tola teimosia de permanecer ali por mais tempo. Tanto mais que a guerra que Lúculo lhe movia, consistia em obstar a entrada de víveres em seu acampamento. Assim, num dia em que Lúculo saíra para forçar uma cidadela qualquer que o aborrecia, próxima do seu acampamento, Mitrídates aproveitou a oportunidade e mandou quase todos os seus cavaleiros em busca de víveres na Bitínia, com carretas, bestas e as sobras dos seus soldados de infantaria. Sabedor disso, Lúculo voltou na mesma noite para o seu acampamento, e na manhã seguinte, de pleno inverno, seguiu-lhe as pegadas, unicamente com dez corpos de infantaria e toda a cavalaria. A neve era tão abundante, o frio tão rigoroso, e a temperatura tão baixa, que muitos soldados pereceram pelo caminho. Lúculo, porém, não se deteve, indo alcançar seus inimigos perto do rio Rindaco, na Frigia, destroçando-os de tal modo, que até as mulheres da cidade de Apolônia foram saquear-lhes os víveres e despojar os mortos, em número elevado, como é fácil calcular. Nesta jornada Lúculo apreendeu seis mil cavalos, numerosas bestas, e fêz quinze mil prisioneiros, que levou para o seu acampamento, passando com tudo diante do acampamento inimigo. Admira-me, neste ponto, que o historiador Salústio afirme ter sido ah que os romanos viram, pela pri meira vez, camelos, coisa que nunca haviam visto antes, pois não lhes faltou oportunidade, quando venceram o grande Antíoco, comandados por Cipião, e, mais recentemente, no ataque a Arquelau, perto das cidades de Orcomene e de Queronéia.

Nova vitória de Lúculo.

XXII. Apavorado com esta derrota, Mitrí dates resolveu fugir sem demora; e, para alongar e conservar Lúculo em sua perseguição durante certo tempo, ele resolveu mandar seu almirante, com a esquadra, ao mar da Grécia. Quando ele ia fazer-se de vela, seus homens o traíram, entregando-o a Lúculo, com dez mil escudos que estavam em seu poder, para subornar, corromper e conseguir o apoio de parte do exército dos romanos. Ciente do ocorrido, Mitrídates fugiu por mar, deixando o resto do seu exército ao cuidado dos seus comandantes. Em seguida Lúculo foi até o rio Grânico, na Mísia, onde fez numerosos prisioneiros e matou vinte mil homens. Neste encontro, dizem, morreram quase trezentas mil pessoas, entre soldados, cavaleiros e adidos ao acampamento. Satisfeito com o resultado, Lúculo regressou à cidade de Cízica, onde lhe foram prestadas as maiores homenagens, e seguiu em visita à costa do Helesponto, para reunir navios e aparelhar uma esquadra. Passando pela Troada, alojaram-no no templo de Vênus, onde, à noite, apareceu-lhe em sonho a deusa, recitando estes versos:

Como podes dormir, ó leão corajoso,
Tendo a teu lado fantasmas transformados em
veados?

Êle levantou-se sem demora, reuniu seus amigos, e contou-lhes o que ouvira. Era ainda noite cerrada. Nisto, pessoas chegadas da cidade de Ihon declararam-lhe haver visto, no porto dos aqueanos, quinze galeras de cinco remos em cada assento, iguais às do rei Mitrídates, dirigirem-se para a ilha de Lemnos.

Êle apodera-se de quinze galeras de Mitrídates, em Lemnos.

XXIII. Lúculo deu logo de vela, e foi buscá-las. Ao chegar, matou o capitão Isidoro, e foi no encalço dos outros marinheiros, ancorados ao longo da costa. Vendo-o ir-lhes ao encontro, eles rumaram para a terra; e, combatendo do convés, mataram muitos soldados de Lúculo, que viu-se impossibilitado de envolvê-los pela retaguarda, devido ao lugar em que se achavam, e de forçá-los de frente, por terem as galeras flutuantes garantidas e firmemente defendidas pelas que se achavam ancoradas junto à costa. Vencendo a custo todas as dificuldades, Lúculo conseguiu desembarcar num ponto da ilha os melhores soldados que então possuía, os quais atacaram os inimigos pela retaguarda, matando alguns, e obrigando os outros a cortar os cabos que prendiam as galeras à beira-mar. Estes procuraram fugir; mas as galeras se entrechocaram e amolgaram, indo dar nas pontas e esporões das de Lúculo. Muitos dos que nelas se achavam morreram, e os outros, entre os quais o capitão romano, Mário, que Sertório enviara da Espanha a Mitrídates, foram feitos prisioneiros. Achando-se Mário embriagado, foi entregue a Lúculo, de acordo com suas ordens de não matarem inimigos embriagados, para que não tivessem a honra de morrer em combate e passassem pela vergonha e ignomínia de morrer sob a ação da justiça.

Êle persegue Mitrídates, cuja frota é destruída por uma tempestade.

XXIV. Feito isto, Lúculo apressou-se em ir pessoalmente perseguir Mitrídates, que ainda esperava encontrar na costa da Bitínia, onde Vocônio devia tê-lo detido, pois fora mandado à frente, com alguns navios, à cidade de Nicomédia, na Bitínia, para impedir-lhe a fuga. Vocônio, porém, acolheu-se à ilha de Samotrácia, em sacrifício aos seus deuses, e para ser recebido na confraria de sua religião, não conseguindo chegar a tempo de impedir a partida de Mitrídates, que já se havia feito de vela com toda a frota, esforçando-se por alcançar o reino de Ponto, antes que Lúculo voltasse do lugar em que se achava. Durante a viagem, porém, êle foi apanhado por violenta tempestade, que lhe arrebatou parte dos navios, despedaçou e afundou os mais, enchendo costas e praias, durante muitos dias, de cadáveres que as ondas lhes levavam. Mitrídates achava-se em um grande navio de carga, que, devido ao tamanho, não podia alcançar a costa nem singrar ao longo dela, e, devido à tempestade, tornara-se tão cheio de água e tão pesado que os esforços, conhecimentos e habilidade dos pilotos tornaram-se improfícuos. Assim, ante a impossibilidade de fazer-se ao mar alto, ele foi obrigado a transferir-se para um pequeno bergantim de corsários, e a pôr sua pessoa e vida nas mãos de ladrões e salteadores do mar, com a ajuda dos quais, sujeito a todos os perigos e sem qualquer esperança de salvação, ele alcançou a terra e chegou à cidade de Heracléia, no reino de Ponto. A jactância de Lúculo perante o senado romano, nessa ocasião, não o pôs, pela fúria dos deuses, de acordo com o seu pensamento. Tendo o senado deliberado mandar preparar e equipar uma grande esquadra, para pôr fim à luta, na qual seriam gastos um milhão e oitocentos mil escudos, Lúculo impediu, por meio de cartas, que tal se fizesse; escreveu, desassombradamente, que, sem tamanha despesa, e tão grande aparato, ele sentia-se bastante forte para expulsar Mitrídates do mar, servindo-se dos navios emprestados por seus aliados e confederados. E o fez, de fato, com a boa graça e ajuda dos deuses, porque, dizem, a horrível tempestade que destruiu a esquadra de Mitrídates, foi provocada por Diana, irritada com o fato de haverem os pônticos saqueado seu templo, na cidade de Príapos, e retirado e levado sua imagem.

Queixas dos soldados de Lúculo.

XXV. Muitos aconselharam Lúculo a transferir a continuação desta guerra para outra estação. Não obstante as razões apresentadas, ele embrenhou-se pelas regiões da Galácia e da Bitínia, e invadiu o reino de Mitrídates. A princípio ele lutou com a falta de víveres, pois só tinha trinta mil homens da Galácia, a acompanhar-lhe o exército, tendo, cada um, meia fanga de trigo às costas. Mas, à medida que foi avançando e conquistando tudo, conseguiu tal abundância de todas as coisas, que um boi era vendido, em seu acampamento, por uma dracma de prata, ou sejam, três soldos e seis déci mos, aproximadamente, e um prisioneiro por catorze, mais ou menos. Tão avultada era a quantidade de outros despojos que, não encontrando compradore ou quem os quisesse, punham-nos fora. Percorre ram assim a região toda, até à cidade de Temiscira e planícies do rio Termodon, sem se deter em qualquer lugar mais que o tempo necessário a saqueá-lo e pilhá-lo. Isto desagradou os soldados, que começaram a queixar-se do comandante, alegando que êle recebia as cidades todas sem luta e não lhes proporcionava meios de se enriquecerem pela pilhagem. "Neste andar, diziam, êle nos levará além de Amiso, cidade rica e forte, que tomaríamos facilmente à força e apressaria o sítio, para nos fazer acampar nos desertos dos tibarênios e dos caldeus, a fim de combater Mitrídates!"

Razões que Lúculo dá de sua conduta.

XXVI. Lúculo não ligou importância às lamúrias e queixas dos seus soldados, porque nunca OS supôs capazes de enfurecer-se e mudar de opinião, como aconteceu depois. Ao contrário, confiou mais neles do que nos que permaneciam e distraíam longamente nas cidades e aldeias, que pouco valiam, dando tempo a que Mitrídates se refizesse e prepa-rasse nova esquadra. "A razão, dizia-lhes, que me faz distrair e descansar em toda parte, é a que ele consiga tornar-se bastante forte e preparar um novo exército, capaz de nos enfrentar, ao invés de fugir. Não vedes que, atrás dele, há uma infinidade de regiões desertas, que não permitem seguir-lhe o rasto, e perto dele o monte Cáucaso, e outros inacessíveis, capazes de abrigar e refugiar não só a ele como inúmeros príncipes e reis que prefiram fugir a combater? Além disso, há poucos dias de caminho, da província dos cabirênios ao reino da Armênia, onde reside Tigrano, o rei dos reis, tão poderoso que desdenha os partas da Ásia e domina todas as cidades gregas até o reino da Média; que ocupa toda a Síria e a Palestina; que matou e exterminou os reis sucessores do grande Seleuco, e submeteu suas mulheres e filhas ao cativeiro. Este grande e poderoso rei é aliado de Mitrídates, tendo desposado sua filha, e não deixará de socorrê-lo, em caso de extrema necessidade. Ora, apressando-nos em atacar Mitrídates, correremos o risco de atrair novo inimigo em Tigrano, que de há muito busca uma aparente oportunidade para nos guerrear, e não poderia encontrá-la melhor do que esta, em defesa de um rei arruinado, seu vizinho e aliado, constran gido a jogar-se a seus braços. Que necessidade temos nós de procurar isto, e de ensinar a Mitrídates o que ele desconhece, isto é, que recorra a Tigrano, para nos guerrear? Isto ele nunca fará se não fôr constrangido, por julgar desonroso à sua pessoa. Não é melhor que lhe permitamos reunir de novo as forças do seu reino, e que se refaça, para que combatamos de preferência contra os colquianos, tibarênios, capadócios e outros povos semelhantes, que já vencemos tantas vezes, do que contra os medos e os armênios?

Lúculo vai acampar diante de Mitrídates.

XXVII Lúcul o manteve-se durante muito tempo neste propósito, diante da cidade de Amiso, prolongando o cerco, sem o forçar. Passado o inverno, êle encarregou Murena de continuá-lo, e foi com o resto do exército em busca de Mitrídates, que assentara acampamento perto da cidade de Cabira, com um exército de quarenta mil soldados de infantaria e quatro mil de cavalaria, decidido a esperar ali a chegada dos romanos. Confiando demasiado em suas forças, êle atravessou o rio Lico, e foi oferecer combate aos romanos numa campina. Houve algumas escaramuças de cavalaria, em que os romanos levaram a pior, sendo aprisionado um, chamado Pampônio, de grande reputação, e levado a Mitrídates, por achar-se gravemente ferido. Como Mitrídales lhe perguntasse se estava disposto a tornar-se seu aliado e amigo, no caso de salvar-lhe a vida, submetendo-o a tratamento, êle respondeu-lhe prontamente: "Sim, se fizeres as pazes com os romanos; no caso contrário, serei sempre teu inimigo". O rei louvou-lhe a virtude, e não lhe fez o menor mal.

Escaramuça em que, por fim, Lúculo tem vantagem.

XXVIII. Lúculo receou descer à campina, por ser o contingente de cavalaria inimigo mais forte que o seu, e ficou indeciso se devia ou não enveredar pela montanha, coberta de matas e de florestas, e camnho bastante longo e acidentado. Achava-se nesta dúvida, quando, casualmente, seus homens prenderam alguns gregos escondidos numa caverna próxima, entre os quais se achava um velho chamado Artemidoro, que prometeu a Lúculo levá-lo a lugar forte e seguro, caso nele confiasse e quisesse segui-lo, dotado de fortaleza, perto da cidade de Cabira, onde poderia assentar seu acampamento. Lúculo confiou no velho, e à noite partiu com suas forças; transpôs algumas montanhas e desfiladeiros perigosos, e pela manhã achou-se no lugar prometido. Os inimigos admiraram-se da sua chegada e de tê-lo tão perto, em posição vantajosa para atacá-los ou deixá-los entocados, sem se poderem mover. Ficara ao arbítrio de ambas as partes, entrar ou não em luta. Estavam nesta situação, quando alguém, no acampamento de Mitrídates, soltou um veado. Alguns romanos foram-lhe ao encontro, para impedir-lhe a passagem, sendo atacados pelos soldados do rei, que os puseram em debandada. Envergonhados com a fuga dos companheiros, 08 romanos pediram instantemente a Lúculo que os lançasse à luta, dando-lhes o sinal de combate. Desejando mostrar-lhe quanto vale a presença de um comandante prudente e bom, Lúculo ordenou-lhes que não se afastassem de seus postos; foi pessoalmente à planície, e determinou aos primeiros fugitivos encontrados que parassem e voltassem a luta, no que foi prontamente atendido. Os outros os acompanharam, e, sem grande esforço, envolveram os inimigos, expulsando-os a seguir, e arrasando-lhes as fortalezas. Ao voltar ao acampamento, Lúculo submeteu os fugitivos a um duro vexame, que os romanos passaram a usar em casos semelhantes: pô-los em fraldas de camisa, diante de todos oi companheiros, obrigando cada um a abrir uma cova de doze pés de comprimento.

Um dandariano tenta assassinar Lúculo, sem o conseguir.

XXIX. Havia, na hoste do rei Mitrídates, o príncipe dos dandarianos, povos bárbaros habitan tes das cercanias dos lagos Meóticos. Chamava-se Oltaco. Era nobre, valente, afeito às armas; sensato, de bons costumes e companhia agradável; empreendedor, e o mais apto, em toda a hoste, para os grandes ataques. Achando-se sempre em rixa com os outros nobres de sua terra, pela posse do lugar de favorito do rei, resolveu dirigir-se a Mitrí dates, comprometendo-se a prestar-lhe um serviço de grande valia, matando Lúculo. O rei exultou, a tal proposta, e, particularmente, elogiou-o sem reserva. Publicamente, porém, censurou-o e ofendeu-o, muito de indústria, para que ele, aparentando indignação, se apresentasse a Lúculo como aliado, e fosse bem recebido. E assim aconteceu. Lúculo recebeu-o com satisfação, por sabê-lo muito querido e respeitado em seu acampamento; e, para submetê-lo à prova, encarregou-o de uma missão, da qual êle se saiu admiravelmente, sendo muito elogiado. Com isto, a sua reputação cresceu de tal modo que, a partir de então, Lúculo passou a pedir-lhe alguns conselhos e a tê-lo como comensal. No dia em que este dandanano achou asada a oportunidade de executar o seu sinistro plano, ordenou a seus lacaios que tivessem seu cavalo preparado além das trincheiras; e, achando-se os soldados a descansar e a dormir no meio do acampamento, em pleno dia, êle foi à tenda de Lúculo, certo de não encontrar quem lhe impedisse a entrada, atendendo à intimidade e familiaridade com que o tratava, e porque tinha coisa muito importante a comunicar-lhe, segundo disse. Êle teria entrado, não resta dúvida, se o sono, que prejudica tantos outros comandantes, não tivesse preservado e salvo Lúculo, que dormia. Embora o camareiro Menedemo, que por felicidade guardava a porta, lhe dissesse ter chegado em má hora, porquanto Lúculo, fatigado de trabalhos e vigílias, se havia recolhido ao leito, Oltaco não quis retirar-se; e, a uma observação qualquer do camareiro, disse-lhe que entraria, com ou sem permissão, porque tinha coisas muito importantes a comunicar-lhe. Menedemo respondeu-lhe não haver coisa mais necessária e importante do que a conservação da vida e saúde de seu amo, que necessitava de descanso, e pô-lo fora da tenda aos empurrões. Oltaco amedrontou-se, foi, às escondidas, ao ponto marcado aos seus lacaios, montou a cavalo, e dirigiu-se ao acampamento de Mitrídates, sem ter executado o que lhe prometera. Aprendeu, assim, que a ocasião e as circunstâncias de momento produzem, nas grandes empresas, o mesmo efeito que os medicamentos ministrados aos doentes, isto é, ou salvam, ou matam os homens.

Diversas vantagens obtidas pelos oficiais de Lúculo sobre os de Mitrídates.

XXX. Decorrido algum tempo, Lúculo mandou seu capitão Sornácio, com dez batalhões, em busca de víveres. Ciente disso, Mitrídates enviou-lhe ao encalço o capitão Menander, que foi atacado e derrotado por Sornácio, com grande perda de soldados. Logo depois Lúculo destacou o tenente Adriano, com boa tropa, a fim de que levasse para o acampamento trigo em abundância. Mitrídates não os deixou à vontade; pelo contrário, mandou-lhes ao encontro os capitães Menemaco e Miron, com maior número de soldados de infantaria do que de cavalaria, sendo todos mortos, exceção feita de dois, que levaram a notícia ao acampamento. Mitrídates tratou de disfarçar o abalo que essa comunicação lhe causara, declarando ser a perda muito menor do que a que se podia prever, dada a ignorância e temeridade dos seus tenentes. Ao regressar ao acampamento, Adriano fê-lo com tanto aparato e orgulho, dado o elevado número de carroças de trigo e de espólios que levava, que Mitrídates, desesperado, vendo sua gente apavorada, resolveu não permanecer ali por mais tempo. Assim, os fidalgos mais achegados a êle começaram a abandonar secretamente o acampamento, levando suas bagagens, e procurando impedir que os outros fizessem o mesmo.

Mitrídates foge.

XXXI. Ante este procedimento dos favoritos do rei, os outros combatentes se amotinaram, atacaram-nos, mataram-nos, e se apoderaram de suas bagagens. Dorialo, um dos principais capitães de todo o acampamento, foi morto, e despojado da roupa do corpo, única coisa que possuía. Hermes, o chefe dos sacrifícios, foi pisado e morto pela turba dos fugitivos, à saída do acampamento. O próprio Mitrídates, apavorado com a atitude dos fugitivos, saiu do acampamento sem um soldado, um escudeiro ou alguém que lhe fosse buscar um cavalo. Quando o camareiro Ptolomeu descobriu-o no meio da multidão fugitiva, e apeou do seu cavalo, oferecendo-lho, já era tarde: os romanos já lhe estavam no encalço, bem próximos, e na iminência de agarrá-lo. A cobiça e concupiscência dos soldados, porém, fêz-lhes perder a presa de há muito perseguida com tanto sacrifício e riscos de combates, privando Lúculo da maior e mais completa de todas as vitórias. Com mais um pequeno avanço Mitrídates seria fatalmente detido. Mas, casual ou propositalmente, um dos muares que levavam o ouro e a prata do rei foi largado a meio do caminho, entre o fugitivo e os romanos. À vista do animal, estes se detiveram a despojá-lo do ouro e da prata, lutando entre si pela posse da pilhagem. Deste modo Mitrídates ganhou tal dianteira que conseguiu salvar-se. Além deste grande dano, a ganância dos soldados ocasionou outro a Lúculo, também relevante, como se verá pelo que segue: preso um dos principais secretários do rei Calistrato, Lúculo ordenou que o levassem ao acampamento. Chegando ao conhecimento dos que o conduziam, que ele usava um cinturão do valor de quinhentos escudos, mataram-no, para apoderar-se do objeto, e completaram a obra saqueando e pilhando o acampamento dos inimigos.

Êle faz morrer suas mulheres e suas irmãs.

XXXII. Depois desta fuga de Mitrídates, Lúculo tomou a cidade de Cabira e muitas fortalezas e praças fortes, nas quais encontrou grandes tesouros e as prisões repletas de infelizes prisioneiros gregos, e de príncipes parentes do próprio rei, de há muito considerados mortos, que libertados por Lúculo daquele mísero cativeiro, consideraram-se ressuscitados e retornados a uma nova vida. Lá, também foi encontrada Nissa, uma das irmãs de Mitrídates, para a qual a tomada da cidade foi benéfica, pois as outras mulheres e irmãs, julgadas livres de perigo e em lugar seguro, perto da cidade de Fernácia, morreram mísera e deploravelmente, assassinadas pelo camareiro Baquilidas, a mandado de Mitrída-tes. Entre outras senhoras, havia até duas irmãs do rei, Roxana e Estatua, quarentonas e solteiras, e duas de suas esposas, naturais da Iônia, Berenice e Monimé, a primeira nascida na ilha de Quio e a segunda na cidade de Mileto. Esta era muito reputada entre os gregos, porque, por mais apaixonado que o rei se mostrasse por ela, e por mais dinheiro que lhe oferecesse para conquistá-la, sendo a última oferta de quinze mil escudos, ela sempre o repeliu, dizendo que só cederia aos seus desejos quando ele a desposasse, lhe desse o diadema real e a chamasse rainha. Casou; mas, em toda a sua vida de casada com este rei bárbaro, passou por grandes desgostos, e nada mais fez do que deplorar a desditosa beleza de seu corpo, que, em lugar de um mando, lhe dera um senhor, e em lugar de damas de honra, uma guarnição de homens bárbaros, que a retinham como prisioneira, longe da sua querida Grécia. Quando Baquilidas foi ter com elas, e pediu-lhes, a mandado do rei, que lhe declarassem a maneira mais rápida e menos dolorosa por que desejavam morrer, Monimé arrancou da cabeça o diadema, e amarrou-o ao pescoço, para enforcar-se. O diadema, porém, rasgou-se, e ela falou: "Maldito e mesquinho tecido! Nem ao menos me és útil neste triste benefício?" Jogou ao chão, pisou-o, e apresentou a garganta a Baquilidas, para cortá-la. Berenice tomou de uma taça cheia de veneno, e, quando ia levá-la à boca, sua mãe, ali presente, pediu-lhe que repartisse com ela, sendo atendida. Sendo o veneno muito violento e de ação bastante rápida, a mãe, enfraquecida pela velhice, tombou logo sem vida; Berenice, porém, que não ingerira a quantidade devida, conservou-se em agonia, até ser estrangulada por Baquilidas. Quanto às irmãs solteiras, consta que Roxana envenenou-se, amaldiçoando e odiando a crueldade de seu irmão. Estatira, ao contrário, não proferiu uma palavra de reprovação ou de ressentimento contra ele; louvou-lhe o cuidado que teve, ao ver-se em perigo, de fazê-las morrer, antes que caíssem escravas às mãos dos inimigos e fossem por eles ultrajadas em sua honra.

Lúculo toma a cidade de Amiso.

XXXIII. Estas lamentáveis desgraças feriram profundamente o coração de Lúculo, que era, por natureza, compassivo e bom. Contudo, êle procurou esquecer-se do acontecido, e seguiu o rasto de Mitrídates à cidade de Talaura, onde soube que, quatro dias antes, êle havia fugido para Tigrano, na Armênia. Lúculo subjugou os caldeus e os libaremos, apoderou-se da Armênia menor, submetendo as cidades, fortalezas e praças fortes às suas ordens, e regressou. A seguir, mandou Ápio intimar o rei Tigrano a entregar-lhe Mitrídates e dirigiu-se à cidade de Amiso, que ainda se achava sitiada, graças à capacidade e experiência do comandante que defendia ali o rei Calímaco, incomodando enormemente os romanos. Mas, não obstante ser profundo conhecedor de todos os segredos de guerra, Lúculo conseguiu enganá-lo, de um modo muito simples: na hora em que fazia tocar a recolher, para o descanso, ordenou, inesperadamente, o assalto à muralha, ocupando pequena parte dela, antes que a pudessem, defender. Com isto, Calímaco, reconheceu não poder mais conservar a cidade em seu poder, e abandonou-a. Mas, antes de partir, ateou fogo à cidade, não se sabendo se para impedir que os romanos se enriquecessem com o saque à mesma, ou para ter maior facilidade de se salvar e de fugir. Ninguém ligava importância aos que fugiam por mar, por ser de enorme proporção o incêndio, que se espalhava por toda parte, até às muralhas, e por saberem que a única preocupação dos soldados romanos era a pilhagem.

Êle se entristece de vê-la destruída pelo fogo, e repara-a como pode.

XXXIV. Lúculo contristou-se, ao ver aquela enorme fogueira, e quis remediar o mal, pedindo aos soldados que a extinguissem. Ninguém o atendeu, pois todos quiseram a pilhagem, disparando suas armas com horrível gritaria. Constrangido a deixar-lhes a cidade entregue ao saque, êle esperava que ao menos os prédios fossem salvos do fogo. O que não aconteceu, porque, desejando certificar-se se nada havia oculto, os próprios soldados, procurando por toda parte, com archotes e velas acesas, queimaram tantas casas que Lúculo, ali entrando no dia seguinte, e vendo os danos ocasionados pelo fogo, desandou a chorar, dizendo aos amigos mais achegados que o rodeavam, que muitas vezes considerara

Sila um homem felicíssimo; mas nunca lhe invejara a felicidade como no dia em que, desejando salvar a cidade de Atenas, os deuses concederam-lhe a graça de poder fazê-lo. "E eu, disse êle, que desejava seguir-lhe o exemplo, e salvar esta, a sorte, contra a minha vontade, igualou-me a Múmio, que fêz queimar Corinto". Não obstante, êle fêz o que pôde, então, para reerguer esta pobre cidade. Quanto ao fogo, por graça divina uma chuva o extinguiu quase no instante em que ela foi tomada. Antes de partir, êle fêz reconstruir boa parte dos edifícios que o fogo havia consumido, nos quais alojou humanitariamente os habitantes que haviam fugido, além de alguns gregos que fizeram questão de residir ah, e aumentou a cidade, dando-lhe sete léguas e meia de território. A cidade era colônia dos atenienses, que a haviam fundado e construído no tempo em que o seu império estava em pleno desenvolvimento e dominava o mar, o que fêz com que muitos fugitivos da tirania de Aristião ali se acolhessem, gozando de iguais direitos dos filhos da região. Tiveram assim a felicidade de, em paga dos bens perdidos, adquirir e gozar os bens alheios. Aos da cidade, que conseguiram escapar de tal desolação, Lúculo forneceu boa roupa, deu a cada um duzentas dracmas, e fê-los voltar para a sua terra. O gramático Tirânio foi então preso, a mandado de Murena, porém Lúculo libertou-o, censurando o uso incivil e despótico que o seu subalterno fazia dos poderes que lhe concedera.

Prendendo um homem muito querido e acatado por seu saber, e praticando outros atos censuráveis, Murena deu mostras de não possuir os requisitos indispensáveis a um homem de bem e a um bom chefe.

Êle visita as cidades da Asia, e freia a liberdade dos oficiais romanos.

XXXV. Partindo dali, Lúculo foi visitar as cidades da Ásia, para dar-lhes algum lenitivo nas leis e na justiça, durante o tempo em que não estivesse ocupado nos afazeres da guerra. Não sendo de há muito administradas, e achando-se totalmente entregues à cobiça dos rendeiros, cobradores e usu-rários romanos, que as devoravam e mantinham cativas, achavam-se em tal estado de aflição e de miséria, que não há palavras capazes de descrever. Os quadros dedicados aos templos, as estátuas dos deuses, e outras preciosidades das igrejas, passavam para as mãos dos credores; os pais eram constrangidos a vender seus filhinhos e suas filhas casadoiras, para poderem pagar capital e juros do dinheiro tomado de empréstimo, e acabavam sendo também escravizados. Antes de serem adjudicados como escravos, eles eram encarcerados, metidos na geena, estendidos na polé, colocados em cepos, expostos nus sob o sol ardente, no verão, e no inverno atolados na lama ou sob o gelo. De modo que a escravidão, para eles, era uma quitação de misérias e o descanso de sofrimentos.

Êle regulamenta os lucros monetários.

XXXVI. Lúculo encontrou as cidades da \sia repletas de tais opressões, mas em pouco tempo libertou as injustamente castigadas. Primeiramente ele ordenou que se calculasse, como juro, a ser pago mensalmente, a centésima parte da dívida real, e não mais; a seguir anulou todos os juros e exigências que excedessem do verdadeiro haver. Por fim, e foi este o ponto principal, estabeleceu que o credor e usurário só gozaria da quarta parte dos lucros e das rendas de seu devedor, ficando sujeito à perda total quem quisesse cobrar juros dos juros. Com estas disposições todos os débitos foram pagos em menos de quatro anos, e as terras e propriedades restituídas a seus proprietários, livres e desembaraçados de todas as dívidas. Esta sobrecarga de juros provinha dos vinte mil talentos a que Sila condenara a região da Ásia, importância que já havia sido paga duas vezes aos rendeiros e cobradores romanos, que a fizeram aumentar, acumulando juros dos juros, até à quantia de cento e vinte mil talentos, equivalentes a setenta e dois milhões de moedas ouro. Isto fez com que os rendeiros e cobradores fossem esbravejar em Roma contra Lúculo, taxando-o de perseguidor e injusto, e, à força de dinheiro, movimentassem alguns arengueiros habituais contra ele. Lúculo, porém, não se tornara muito querido nas regiões que beneficiara, como bastante cobiçado nas que não tinham a felicidade de possuí-lo como governador.

Apio Clódio arranca Zer-bieno da obediência de Tigrano.

XXXVII. Por fim, Ápio Clódio, cunhado de Lúculo, que este havia mandado ter com Tigrano, confiando demasiado na maldade de alguns agentes deste rei, deixou-se conduzir pela região montanhosa do país, vencendo grande percurso, com um inútil desperdício de dias de sacrifícios. Como um dos seus escravos libertos, natural da Síria, lhe ensinasse o verdadeiro caminho, ele dispensou seus guias bárbaros, e, desviando-se da rota que eles lhe traçaram, em poucos dias transpôs o rio Eufrates, e chegou à cidade de Antioquia, cognominada Epidafne, onde devia esperar a volta de Tigrano da Fenícia; subjugou algumas cidades que ainda lhe restava conquistar, e conseguiu o apoio secreto de muitos príncipes e fidalgos, que só pela força contra a vontade prestavam obediência ao rei da Armênia. Entre eles achava-se Zarbieno, rei da província Gordiana. Ápio Clódio garantiu a todos o auxílio de Lúculo, pedindo-lhes que nada divulgassem no momento. Os gregos não só detestavam o domínio dos armênios, como não toleravam o orgulho e a petulância do rei, que, devido à sua grande prosperidade, tornara-se tão soberbo e presunçoso, que tudo quanto o homem possui de mais precioso e mais preza, êle considerava de nenhum valor, e se julgava superior a tudo e a todos no mundo, esquecido de que chegara ao que era bafejado unicamente pela sorte.

Exaltação e insolência de Tigrano.

XXXVIII. De início Tigrano pouco possuía; e, com este pouco a que ninguém ligava, êle subjugou diversas grandes nações, e abateu o poder dos partas, coisa que homem algum conseguira fazer antes dele. Encheu a Macedónia de habitantes gregos, levados à força da Cilicia e da Capadócia, obrigando-os a fixar residência ali, mudou o modo de vida dos árabes, apelidados cenitas ou tendeiros, por ser um povo errante, cujas casas não passavam de tendas, que levavam consigo, a fim de vendê-las. Tinha sempre, em sua corte, muitos reis para servi-lo. Quatro deles estavam-lhe sempre ao lado, como guardas ou lacaios, acompanhando-o a pé e de túnica, quando êle saía a cavalo pelos campos; quando dava audiência, sentado em sua cadeira, eles conservavam-se de pé, ao redor, de mãos entrelaçadas, numa postura que bem denunciava o seu servilismo, como a dizer-lhe que lhe davam inteira liberdade de ação, e que podia dispor dos seus corpos como melhor entendesse.

Ápio pede a Tigrano que lhe entregue Mitrídates.

XXXIX. Ápio Clódio não se admirou do aparato trágico que observara, ao ser-lhe concedida audiência; e, não o temendo, disse-lhe, de cara, que ali se achava para exigir-lhe a entrega de Mitrída-tes, cujo aprisionamento êle devia-o à vitória de Lúculo, caso contrário declarar-lhe-ia guerra. Os que assistiram a esta intimação, perceberam muito bem que Tigrano, embora se esforçasse por aparentar cara alegre, com um sorriso fingido e alvar, sentiu apertar-se-lhe o coração, ante a coragem e franqueza do moço; pois, nos seus vinte e cinco anos de reinado, ou melhor, de tirania ultrajante, nunca ouvira palavras tão sinceras e espontâneas como aquelas. Não obstante, êle respondeu a Ápio que não entregaria Mitrídates, e que, se os romanos o guerreassem, ele se defenderia. E, despeitado com o fato de havê-lo Lúculo, nas cartas que lhe escrevera, tratado simplesmente de rei, e não de rei dos reis, nas respostas que lhe dera tratou-o de capitão. Ao despedir-se Ápio, o rei mandou-lhe belos e ricos presentes, que ele recusou; apesar disso, enviou-lhe outros melhores, dos quais Ápio ficou apenas com uma taça, receoso de que o rei tomasse a sua obstinada recusa como uma prevenção pessoal contra ele, e devolveu-lhe o resto. A seguir voltou para junto do seu comandante, depois de longas e penosas jornadas.

Entrevista de Mitrídates e de Tigrano.

XL. Tigrano, que até então nunca quisera ver Mitrídates, seu aliado tão achegado, que devido à guerra perdera seu grande e poderoso império, e conservava-o orgulhosamente como prisioneiro, em lugar pantanoso e malsão, mandou buscá-lo com todas as honras, e recebeu-o com as maiores demonstrações de carinho. No palácio real, eles se isolaram dos mais, para poderem conversar em particular, justificando-se e desculpando-se das suspeitas que um tivera do outro, em prejuízo dos seus assistentes e amigos, que eles desprezaram, entre os quais Metro-doro, o Cepciano, homem de grande saber, que dizia jocosamente o que quena, e a quem Mitrídates dedicara tão grande amizade que o chamava o pai do rei. No início das suas lutas Mitrídates mandara-o pedir auxílio a Tigrano, contra os romanos, e Tigrano perguntou-lhe: "Que me aconselhas tu, Metro doro?" Ou porque preferisse o proveito de Tigrano, ou porque não quisesse que Mitrídates fugisse, ele respondeu-lhe: "Como embaixador, senhor, acon selho-te que o atendas, mas, como conselheiro, que não o faças". Tigrano relatou o caso a Mitrídates, supondo não o desgostar, e no entanto fez com que Metrodoro fosse logo submetido a pena de morte, Isto não só fez com que Tigrano se arrependesse de haver sido o causador de tal morte, como o tornou conhecedor da malquerença que de há muito Mitri dates nutria contra a sua vítima, com a descoberta de documentos secretos, em um dos quais era determinada a morte de Metrodoro. Em compensação, Tigrano não poupou suntuosidade no sepultamento do corpo de quem traíra em vida. Também foi morto, na corte de Tigrano, o orador Anfícrates, natural de Atenas. Dizem que, tendo sido expulso de sua terra, ele fugiu para a cidade de Selêucia, à margem do Tigre; e, como os habitantes da cidade lhe pedissem que ensinasse ali a arte da eloqüência, ele recusou-se, respondendo pretensiosamente ser o prato muito pequeno para conter um golfinho, como a dizer que a cidade era muito insignificante para detê-lo ali. Retirando-se de Selêucia, êle tratou de acercar-se de Cleópatra, filha de Mitríáates e esposa de Tigrano. Tornando-se logo suspeito, foi denunciado, sendo-lhe proibido visitar e conversar com os gregos. Isto ocasionou-lhe tamanho desgosto que êle deixou-se morrer por inanição, sendo honrosamente sepultado pela rainha Cleópatra, num lugar denominado Safa, como dizem naquela região.

Lúculo apodera-se da cidade de Sínope.

XLI. Lúculo, depois de ter reposto toda a Ásia em boa paz e tranqüilidade, e estabelecido boas normas em materia de justiça, não se esqueceu dos passatempos e diversões. Pelo contrário, enquanto esteve em descanso na cidade de Éfeso, promoveu inúmeras festas, lutas romanas e assaltos de esgrima, em regozijo à vitória obtida, causando grande satisfação em todas as cidades da província. Tanto assim, que, em sinal de reconhecimento, instituíram uma festa solene em sua homenagem, a que denominaram Lucúlia, celebrando-a com grande alegria, sincera e não fingida amizade e benquerença, e que deixou-o mais satisfeito do que as maiores homenagens que lhe houvessem prestado. Com o regresso de Ápio, considerando e concluindo ser indispensável guerrear Tigrano, ele voltou ao reino de Ponto, onde movimentou o exército que ali havia deixado de guarnição, levando-o para a cidade de Sínope, a fim de sitiá-la, ou antes, para cercar alguns cilícios, que nela se haviam internado em favor de Mitrída-tes. Ao verem Lúculo dirigir-se contra eles, os cilícios, certa noite, mataram grande parte dos habitantes, incendiaram a cidade, e fugiram. Avisado do ocorrido, Lúculo entrou na cidade, fez passar ao fio da espada oito mil cilícios que ainda ali se achavam, e devolveu aos habitantes quanto lhes pertencia. O que o induziu a apoderar-se desta cidade foi uma visão que tivera durante a noite, que aproximou-se do seu leito e lhe disse: "Segue um pouco além, Lúculo, pois Autólico deseja falar-te, Este sonho despertou-o, mas ele não conseguiu atinar com o sentido do que a visão lhe dissera Foi nesse dia da tomada da cidade de Sínope que, perseguindo os cilícios fugitivos, ele achou uma está tua estendida ao chão, à beira-mar, que eles, precipitação da fuga, não conseguiram transportar para bordo. Dizem que era um dos mais belos e grandiosos trabalhos do estatuário Estênis, e há quem afirme ser a imagem de Autólico, o fundador de Sínope. Autólico foi um dos príncipes que par tiram da Tessália, com Hércules, contra as Ama zonas, e era filho de Demaco. Fala-se que, ao voltar desta viagem, o navio em que êle embarcara com Demoleão e Flógio deu de encontro a um escolho na costa do Quersoneso, submergindo. Tendo-se salvo com suas armas e seus homens, Autólico tanto fez que chegou à cidade de Sínope, que arrebatou a alguns sírios, assim chamados por descenderem do Siro, filho de Apolo, e da ninfa Sínope, filha de Asopo. Com esta informação, Lúculo lembrou-se de uma advertência de Sila, que, em seus comentários escritos, declarou não haver nada mais certo, e em que a gente devia piamente acreditar, do que o que nos é transmitido pelo sonho.

Êle recebe aviso da aproximação de Tigrano e de Mitrídates.

XLII. Nesta ocasião, ele foi prevenido que Tigrano e Mitrídates estavam prestes a chegar na Liaônia e na Cilicia, para serem os primeiros a apoderar-se da província da Ásia. Admirou-se muito da solução de Tigrano, pois sabia ser sua intenção marchar contra os romanos, mesmo que não fosse auxiliado por Mitrídates, visto achar-se perfeita-mente aparelhado para a luta. Entretanto, não podendo admitir que se atacasse povos indefesos, e ciente de que tudo não passasse de um ardil de ambas as partes, preparou-se para enfrentá-los.

Êle se põe em marcha, para ir-lhes ao encontro.

XLIII. A esse tempo, Machares, filho de Mitrídates, senhor do reino do Bósforo, mandou-lhe uma coroa de ouro do valor de mil escudos, pedin-do lhe que o considerasse amigo e aliado dos roma-nos. Lúculo considerou isso como o fim de sua primeira guerra, e, deixando Sornácio na defesa do reino de Ponto, com seis mil combatentes, partiu-lhes ao encontro, com doze mil soldados de infantaria e pouco menos de três mil de cavalaria. A grita foi geral, pois acharam ser grande temeridade de sua parte lançar-se, mal aconselhado, com tão pouca gente, contra exércitos belicosos, dotados de milha-res e cavalarias, em lugar tão vasto e afastado, sulcado de inúmeros e profundos rios, repleto de montanhas o ano todo cobertas de neve, o que fêz com que os seus soldados, pouco disciplinados e obedientes, o seguissem receosos e desatendessem as suas ordens. Os arengueiros, em Roma, não cessavam de gritar contra ele, declarando ao povo que ele semeava uma guerra após outra, sem o menor proveito à coisa pública, provocando-as com o único fito de ter sempre exércitos sob suas ordens e par satisfazer às suas necessidades particulares, à custa e prejuízo do erário público. Com o decorrer d tempo eles viram satisfeitos os seus desejos, qu eram os de afastar Lúculo do comando das forças, fazendo-o substituir por Pompeu.

Êle passa o Eufrates.

XLIV. Apesar de toda a grita, Lúculo não deixou de comandar e fazer seguir o seu exército o mais que pode, e em poucos dias chegou ao rio Eufrates, que encontrou transbordante, agitado impetuoso, como acontece no inverno. Lúculo ficou muito aborrecido, certo de ser obrigado a permanecer ali durante muito tempo, e de ter o aborrecimento de procurar navios e de mandar fazer jangadas para a construção de uma ponte, a fim de poderem atravessar. A noite, porém, a água começou a baixar, e desceu tanto que, pela manhã, o rio achou-se reduzido ao seu curso normal. Os filhos do lugar, ao verem ilhotas aparecer ao longo do curso das águas, e o rio calmo, como um pântano, em torno delas, adoraram Lúculo como um deus, porque nunca viram acontecer tal coisa até então, pois o rio submeteu-se logo a ele, tornando-se manso e obediente, para dar-lhe passagem fácil e segura. Não querendo perder a oportunidade, ele fez seu exército passar sem demora, e, na outra margem, deu com este achado de feliz presságio: algumas vacas consagradas à deusa Diana, cognominada Persiana, que os habitantes bárbaros de além do rio Eufrates veneram e glorificam acima de todos os outros deuses, pastavam por ali. Estas vacas, exclusivamente destinadas a imolação em louvor à deusa, erram à vontade por toda a região, sem qualquer espécie de amarra ou de prisão, tendo a distingui-las uma lâmpada gravada no corpo, que é a marca de Diana, e só são apanhadas em caso de necessidade, com muito trabalho. Uma delas, depois da passagem de todo o exécito, foi voluntariamente colocar-se numa rocha também consagrada à deusa, abaixando a cabeça e estendendo pescoço, como fazem as que são amarradas e submetidas ao sacrifício, dando a entender a Lúculo que ali fora para ser imolada: o que foi feito. Em seguida, ele também imolou um touro em louvor ao Eufrates, por haver-lhe dado tão fácil passagem.

Êle entra na Armênia.

XLV. Nesse primeiro dia Lúculo só se ocupou em acampar além do rio. Nos dias seguintes internou-se no país por Sofena, sem produzir o menor mal ou descontentamento às pessoas que iam entregar-se a ele, ou que recebiam com satisfação seu exército. Tendo seus soldados mostrado desejo de atacar e tomar uma fortaleza, na qual diziam haver muito ouro e prata, ele mostrou-lhes ao longe a montanha de Taurus, dizendo-lhes: "É aquilo que vos cabe ir tomar, pois, o que está dentro desta fortaleza, pertence aos vencedores". E, prosseguindo em suas longas jornadas, transpôs o no Tigre, e entrou com seu exército na Armênia.

Como Tigrano recebe a notícia de sua aproximação.

XLVI. Quanto a Tigrano, o primeiro que ousou levar-lhe a notícia da chegada de Lúculo, não teve sorte, pois ele o fez decapitar. À vista disso, ninguém mais se atreveu a falar-lhe a tal respeito. Assim, ignorando achar-se completamente cercado pelos inimigos, ele deleitava-se com os elogios que lhe faziam seus favoritos, declarando que Lúculo seria de fato um grande comandante, se tivesse a coragem de esperá-lo unicamente na cidade de Éfeso, e não se tivesse espalhado por tcda a Ásia, como fez, nem bem percebeu a sua aproximação com um exército triunfante, de tantos milhares de homens. Vê-se, por aí, que, não possuindo todos os corpos e todos os cérebros igual resistência para suportar excesso de vinho, também não possuem compreensão bastante, nem bom senso, para julgar os outros como merecem. Mitrobarzane, um dos favoritos, que ousou dizer a verdade, foi por Tigrano mandado ao encon tro de Lúculo, com três mil cavaleiros e bom número de soldados de infantaria, e ordem de levar lhe o comandante vivo, embora tivesse de passar por cima do ventre de todos os seus soldados.

Sextílio vence as tropas de Tigrano, comandadas por Mitrobarzane, que é morto.

XLVII. Achava-se Lúculo com parte do sen exército já acampada e a outra parte prestes a chegar, quando os seus batedores deram-lhe a notícia da chegada do capitão bárbaro. Êle calculou logo que, se o inimigo o atacasse na situação em que se achava, com as forças dispersas, e em condição de não poder combater, ser-lhe-ia impossível enfrentá-lo e derrootá-lo. Assim sendo, êle permaneceu no acam-pamento, tratando de fortificá-lo e restaurá-lo, e mandou Sextílio, um dos seus tenentes, com mil e seiscentas cavalarias e um número pouco maior de soldados de infantaria, com munição escassa, reco-mendando-lhe que se aproximasse o mais possível do inimigo, sem combater, unicamente para entre-tê-lo e contê-lo, até ser avisado achar-se todo o exército reunido no acampamento. Sextílio procurou executar as ordens recebidas, mas foi constrangido, contra a vontade, a entrar em combate, visto ter sido vigorosa e audaciosamente atacado por Mitrobar-zane. Este, porém, morreu valorosamente na luta, e seus homens foram acossados e mortos, salvando-se apenas uns poucos, que conseguiram fugir.

Lúculo assedia Tigranoeerta.

XLVIII. Com esta derrota, Tigrano aban-donou sua grande cidade real de Tigranocerta, assim batizada por êle mesmo, e retirou-se para o monte Taurus, onde concentrou gente de toda parte. Lúculo, porém, não lhe deu oportunidade de prepa-rar-se, mandando Murena obstar-lhe a saída e Sextílio impedir a entrada de grande reforço de árabes mandado em seu auxílio, e que foi quase totalmente morto. Seguindo o rasto de Tigrano, Murena esperou a sua passagem por um vale longo e estreito, em cujo fundo havia um péssimo camu nho, impróprio para um grande exército. Valeu do-se da oportunidade, atacou-o pela retaguarda Tigrano pôs-se logo em fuga, fazendo jogar toda a bagagem no meio do caminho, para retardá-lo, perdendo, nesta derrota, numerosos armênios, entre mortos e prisioneiros. Conseguindo isto, Lúculo diri-giu-se à cidade de Tigranocerta, na Armênia, sitiando-a completamente. Havia ali numerosos gregos, transportados à força da Cilicia, o mesmo acontecendo com numerosos bárbaros, adiabênios, assírios, gordiênios e capadócios, cujas cidade Tigrano arruinou, para obrigá-los a ir morar ah. Por este meio, êle conseguiu que a cidade ficasse repleta de ouro e prata, de medalhas, estátuas, quadros e pinturas de subido valor, pois todo o mundo, desde os particulares aos príncipes e fidalgos, estudavam a maneira de agradá-lo, enriquecendo e embelezando-lhe a cidade com o que possuíam de mais belo e mais precioso. Isto fêz com que Lúculo apressasse o mais possível o sítio, certo de que Tigrano, enfurecido, nao se conformasse com a tomada da cidade e lhe desse combate. Tal aconteceria fatalmente, se Mitrídates, por meio de cartas e de mensageiros, não o desaconselhasse calorosamente de se aventurar à luta, instigando-o a impedir a entrada de toda espécie de víveres aos romanos, com sua gendarmería, Reforçando tais. conselhos, Taxiles, capitão que Mitrídates lhe enviara, pediu-lhe instantemente que evitasse enfren-tar as forças dos romanos, que eram invencíveis.

Tigrano avança, decidido a combater.

XLIX. Tigrano ouviu pacientemente todas as razoes apresentadas, até à chegada, em seu auxílio, de numerosas forças de armênios, de gordiênios, de árabes do mar de Babilônia, de albanos do mar Cáspio, de iberos seus vizinhos, de povos habitantes do no Araxes, que acorreram em seu socorro, espontâneamente uns, para agradá-lo, outros devido às pensões e soldo que êle lhes dava; além dos reis dos medos e dos adiabênios, com todo o seu poder. à vista de tanta força, êle desprezou conselhos, para seguir a resolução tomada pelos seus conselheiros, de dar combate. Taxiles, que tacitamente se opôs a tal resolução, esteve em perigo de vida. Houve quem dissesse que invejando a glória do rei, Mitrí-dates procurava dissuadi-lo da luta. À vista disso, Tigrano não só o desatendeu, receoso da sinceridade de suas palavras, como, para evitar que êle chegasse a participar de sua vitória, se pôs em campo com seu grande exército, dizendo, aos seus amigos mais achegados, que a única coisa que o desgostava era ter de combater unicamente contra Lúculo, quando o seu desejo era fazê-lo contra todos os comandantes romanos. Esta tola bravata, isenta de todo bom senso, não teria lugar, se êle não se visse cercado de tantos povos diferentes, de tantos reis que o seguiam, de tantos batalhões de artilharia e de tantos milhares de cavalarias, pois contava em seu exército: vinte mil lanceiros e atiradores, cinqüenta e cinco mil cavalarias, das quais dezessete mil de todas as armas, conforme o próprio Lúculo comunicou ao Senado; cento e cinqüenta mil soldados de infantaria, de todas as armas, distribuídos por bandeiras e esquadrões; pioneiros, carpinteiros, pedreiros e outros trabalhadores, para aplainar os caminhos, construir pontes, limpar os rios, cortar matas e executar outros trabalhos semelhantes, num total de trinta e cinco mil, que seguiam à retaguarda, em ordem de guerra, dando um aspecto poderoso e descomunal.

Gracejos de Tigrano e de seus cortesãos sobre o reduzido número dos romanos.

L. Quando ele chegou ao cume do monte Taurus, e foi visto nitidamente, pelos da cidade, com tão grande exército, e ele mesmo pôde ver o de Lúculo, que sitiava a sua Tigranocerta, os bárbaros exultaram, ameaçando do alto das muralhas os romanos, mostrando-lhes o exército dos armênios. Lúculo reuniu seus conselheiros, para saber como agir, sendo uns de parecer que êle levantasse o sítio e despejasse todo o seu exército contra Ti grano, e outros que êle não devia arcar com o peso de tão avultado número de inimigos, e muito menos levantar o sítio. Lúculo declarou-lhes que todos lhe deram bons conselhos, mas que decidira não ouvi-los. Dividiu seu exército, deixou Murena sitiando a cidade com seis mil combatentes, e, com vinte e quatro coortes, num total de uns dez mil soldados de infantaria, e toda a sua cavalaria, que não ia além de mil homens, entre lanceiros e caçadores, foi enfrentar Tigrano, detendo-se numa grande e espaçosa planície ao longo do no. O acampamento dos romanos pareceu insignificante a Tigrano, e durante algum tempo serviu de zombaria e de passatempo aos seus bajuladores. Uns pilheriavam, outros tiravam a sorte, e jogavam a parte dos seus despojos, como se já houvessem ganho o combate, e cada um dos reis e comandantes apresentou-se ao rei, pedindo-lhe instantemente que lhe concedesse a graça de fazê-lo dirigir a luta, e que êle se abstivesse de o fazer e fosse sentar-se em um lugar qualquer, para assistir o embate. Desejando mostrar que não era menos espirituoso que os outros, e que também sabia usar palavras adequadas às situações, Tigrano proferiu algo bastante vulgar: "Se eles vêm como embaixadores, são muitos; mas, se vêm como inimigos, são pouquíssimos". Era assim que eles zombavam e se divertiam.

Resposta de Taxiles a Tigrano, que exigia a retirada dos romanos.

LI. No dia seguinte, ao romper do dia, Lúculo dispôs sua gente, perfeitamente armada, em posição de combate. O acampamento dos bárbaros achava-se na outra margem do rio, voltado para o sol nascente, e, casualmente, o curso do rio desviava-se de repente para o poente, onde podia ser transposto com maior facilidade. Lúculo fêz seu exército descer em ordem de combate, seguindo o curso do rio, para encontrar passagem, e a pressa com que o fêz deu a Tigrano a impressão de uma retirada. Esta doce ilusão fez com que ele chamasse Taxiles e lhe dissesse rindo: "Vês como fogem, os belos legionários romanos, que tanto gabavas de invencíveis?" Taxiles respondeu-lhe: "Faço votos, senhor, que a tua boa sorte te conceda hoje algum milagre, pois seria de admirar que os romanos fugissem. Eles não costumam enfeitar-se com arneses, quando saem a passeio pelo campo, nem deixam à mostra seus broquéis e escudos, seus capacetes, como agora se observa, e sim cobertos de couro. O apresto com que os vemos brilhar é sinal seguro de que querem combater, e que marcham ao nosso encontro".

Lúculo dá sinal de atravessar o rio.

LII. Taxiles não havia ainda concluído a sua fala, quando Lúculo, à vista de seus inimigos, fêz o sinaleiro que levava o primeiro estandarte virar imediatamente, e as forças prepararam-se para atravessar em ordem de combate. Tigrano, como que retornando a custo de uma embriaguez, gritou então alto, duas ou três vezes: Eles vêm a nós! Houve grande confusão e tumulto, quando se tratou de dispor tanta gente para o combate. O rei Tigrano encarregou-se de comandar as forças do centro, entregando as da esquerda às ordens do rei dos adia-bênios e as da direita ao comando do rei dos medos, havendo nestas, que deviam enfrentar o primeiro embate, homens de todas as armas.

Êle marcha para os inimigos.

LIII. Quando Lúculo ia atravessar o rio, alguns dos seus capitães preveniram-no que devia evitar qualquer combate naquele dia, por ser um dos que os romanos consideravam aziagos, e que denominavam Atri ou lutuosos, correspondendo exata-mente àquele em que Cipião fora derrotado pelos cimbros, com todo o seu exército. Lúculo deu-lhes esta resposta, que depois tornou-se célebre: "Eu o tornarei feliz, hoje, para os romanos". Era o déci-mo-sexto dia do mês de outubro. Assim dizendo, e exortando-os a ter coragem, êle transpôs o rio e foi o primeiro a marchar ao encontro dos inimigos, armado de uma couraça de aço, trabalhada em escamas reluzentes, coberta por uma cota de armas franjada em toda a volta, e empunhando a espada desembainhada, dando a entender aos seus soldados que deviam ir alcançar os inimigos e atacá-los de surpresa, visto já se haverem habituado aos combares frente a frente; que êle venceria tão rápida e rigorosamente a distância a ser percorrida, que não lhes daria tempo de atirar. Notando que o grosso das forças inimigas estava disposto em posição de combate na base de uma colina, de cume pouco aguçado e plano, e que as encostas, de um quarto de légua, aproximadamente, não eram íngremes, nem de difícil acesso, mandou cavalarias tracianas e gaulesas, que tinha a soldo, atacá-los pelos flancos, a fim de desnorteá-los e fazê-los terçar suas lanças com suas espadas, pois todo o poder daqueles guerreiros resumia-se na lança; mais não podiam fazer a seu favor, e contra o inimigo, dado o peso e incomodidade da armadura que os envolvia, deixando-os como que metidos numa prisão de ferro. Êle, a seu turno, conduzindo, vez por vez, duas companhias de infantaria, esforçava-se por alcançar o alto da colma, sendo corajosamente seguido pelos soldados, orgulhosos de vê-lo caminhar a pé e de ser o primeir a galgar a encosta.

Completa vitória de Lúculo.

LIV. Ao chegar ao alto, êle se deteve, e bradou: "A vitória é nossa, companheiros, a vitória é nossa!" Dito isto, levou-os direito contra os inimigos, ordenando-lhes que não se detivessem a lançar dardos, mas que tomassem das espadas e lhes golpeassem as pernas e as coxas, únicas partes do corpo que se apresentavam descobertas. Entretanto, não houve necessidade de assim proceder, porque eles não esperaram os romanos; fugiram sem demora, gritando apavorados, e foram covardemente lançar-se, com seus cavalos, entre as tropas de infantaria, sem haverem desferido um único golpe. Deste modo, numerosos milhares de homens foram derrotados sem luta, não havendo um único ferido, e sem o derrame de uma gota de sangue. A fuga, porém, ocasionou-lhes inúmeras mortes, dada a afobação com que foi realizada, o vultoso número de seus batalhões, e a enorme extensão por eles ocupada. Tigrano, igualmente, tratou de fugir com sua companhia; e, vendo seu filho também em fuga, arrancou da cabeça a banda real, entregou-lha chorando, e ordenou-lhe que procurasse salvar-se a todo custo, seguindo outro rumo. O jovem príncipe não ousou pô-la à cabeça, entregando-a ao cuidado do mais fiel dos seus lacaios, que teve a infelicidade de ser preso e levado, com outros prisioneiros, à presença de Lúculo, a quem precisou entregar o emblema real. Consta que, nesta derrota, morreram mais de cem mil soldados de infantaria, e que bem poucas cavalarias conseguiram salvar-se. Do lado dos romanos houve uns cem feridos e cinco mortos.

Considerações sobre a conduta de Lúculo

LV. Referindo-se a este combate, em um tratado que escreveu sobre os deuses, Antíoco declarou que nunca o sol vira coisa semelhante; Estrabo, também filósofo, em alguns rápidos relatos que traçou, disse que os romanos se envergonharam da vitória e zombaram de si mesmos, por haverem usado suas armas contra escravos tão cobardes; Tito Lívio relata que nunca os romanos se acharam em luta com tão pouca gente e contra tão avultado número de inimigos, pois os vencedores constituíam a vigésima parte dos vencidos. Os chefes romanos mais velhos e experimentados louvaram extraordinariamente Lúculo, por haver derrotado os dois maiores e mais poderosos príncipes do mundo, um numa ação bastante prolongada e outro fulminantemente; destruiu e consumiu Mitrídates lentamente, devido à distância, e Tigrano num ímpeto. Fez o que comandante algum conseguira realizar antes dele.

Mitrídates recolhe Tigrano, em sua fuga.

LVI. O que fez com que Mitrídates não se achasse no acampamento de Ti grano no dia do encontro, foi supor que Lúculo, como de hábito, dilataria o prazo de seu ataque. Como só aparecia de vez em quando, no dia da fuga encontrou alguns armênios assustados e horrorizados, que o puseram ao par do ocorrido. Duvidou da derrota; mas encontrando logo depois outros, mais numerosos, nus e cobertos de chagas, convenceu-se da realidade, e partiu à procura de Tigrano, encontrando-o sozinho, em estado lastimável, completamente abandonado por todos os seus. Ao contrário do que lhe fizera Tigrano na adversidade, que o tratara com arrogância e desprezo, Mitrídates apeou do cavalo, para confortá-lo e deplorar-lhe a infelicidade, e ofereceu-lhe todos os lacaios para servi-lo e os trens e comestíveis que conduzia; reconfortou-o, exortan-do-o a ter muita coragem dali em diante, e a confiar no futuro. A seguir, os dois puseram-se a aliciar e reunir guerreiros de toda parte.

Lúculo toma a cidade de Tigranoeerta.

LVII. Entrementes houve uma sedição na cidade de Tigranocerta, de gregos e bárbaros, pol se oporem estes que aqueles entregassem a cidade a Lúculo, como desejavam. À vista disso, Lúculo apoderou-se dela, e assenhoreou-se dos bens do rei ali existentes, entregando depois a cidade à pilhagem dos soldados velhos, na qual, além de outras riquezas, ,Jforam encontradas moedas, num total de oito mil talentos. Dos despojos ganhos ao inimigo, ele deu oitocentas dracmas a cada guerreiro. Sa-bendo haver ali músicos, comediantes, cantores e outros indivíduos semelhantes, contratados para festas públicas, que Tigrano mandara buscarem toda parte, para ocupar o teatro que mandara cons-truir, Lúculo serviu-se deles para festejar a sua vitó-ria. Isto feito, reenviou os gregos ao seu país, dando-lhes dinheiro para as despesas de viagem, fazendo o mesmo com os bárbaros levados para ali à força. Assim, da desolação e destruição de uma cidade abandonada, muitas foram reedificadas e repovoadas. Tendo recobrado seus habitantes naturais, amaram e veneraram Lúculo como seu benfeitor e fundador. Tudo o que praticava, neste sentido, estava de acordo com a sua índole, pois ele amava e preferia os louvores procedentes da bondade, da justiça e da clemência, aos provindos dos grandes feitos guerreiros; sim, porque estes dependiam do eu exército e de felicidade, e aqueles eram exclusivamente obra sua.

Várias nações submetem-se a Lúculo.

LVIII. Êle demonstrava, nisto, ser possuidor de uma boa alma, bem formada e muito afeita à virtude, pelo que recebia a recompensa merecida. Por estas qualidades, êle conquistou os corações dos bárbaros com tal veemência que os reis dos árabes foram colocar-lhe às mãos suas pessoas e bens. Os sofênios também submeteram-se a êle; e os gordiênios habituaram-se de tal modo com o seu sítio que, na ocasião, abandonariam cidade, casas, tudo, para acompanhá-lo, voluntariamente, com suas mulheres e filhos. Zarbieno, rei dos gordiênios, havia, como dissemos, feito aliança com Lúculo, por intermédio de Ápio Clódio, por não mais poder suportar a tirania de Tigrano. Isto foi levado ao conhecimento de Tigrano, que mandou matá-lo, com sua mulher e filhos, antes que os romanos se apoderassem da Armênia. Lúculo não o esqueceu, pois, ao passar por seu reino, fêz-lhe funerais reais: mandou preparar uma bela fogueira, magnificamente enfeitada com tapetes dourados e prateados, e outros ricos despojos de Tigrano, e quis pessoalmente atear-lhe fogo; fêz-lhe os funerais com as honras devidas, presentes os parentes e amigos, concedendo-lhe o título de amigo e aliado do povo romano; e forneceu elevada soma de dinheiro, para ser-lhe erguida sepultura condigna, pois foi encontrada em seu castelo grande quantidade de ouro e prata, bem como farta provisão de trezentas mil minas de trigo. Isto enriqueceu os soldados, e fêz com que Lúculo sustentasse vantajosamente a luta, sem receber uma única dracma de Roma.

Propósito sedicioso das tropas de Lúculo.

LIX. A esse tempo, também o rei dos partas expressou-lhe, por embaixadores, sua amizade e aliança, que Lúculo recebeu de bom grado, man-dando-lhe embaixadores que, ao voltar, comunicaram-lhe achar-se o rei dos partas indeciso quanto ao lado por que devia propender, mas que secretamente pedia a Tigrano o reino da Mesopotâmia, para decidir-se a socorrê-lo contra os romanos. Obtida confirmação, Lúculo decidiu abandonar Tigrano e Mitrídates, como adversários fatigados e inócuos, e sondar e experimentar um pouco as forças e o valor dos partas, indo atacá-los, conquistando, assim, a glória de haver, num só arranco, abatido e desbaratado três reis tão poderosos, campeões de lutas, e transposto os países dos três maiores príncipes que o sol aclara, vitoriosos sempre, e nunca vencidos. Escreveu sem demora a Estornácio, e aos outros seus capitães que deixara de guarda ao reino de Ponto, que lhe levassem às pressas as forças que lhes estavam subordinadas, calculando partir contra os partas, saindo da província gordiana. Mas aconteceu o contrário. Seus tenentes, que diversas vezes, antes, acharam seus soldados amotinados e rebeldes às suas ordens, tiveram então certeza da sua má vontade e incorrigível desobediência, não lhes sendo possível arrancá-los dali, nem exortando-os ao cumprimento do dever, nem à força. A tudo isto, os soldados respondiam, gritando e protestando, que não ficariam nem mesmo onde se achavam, e que voltariam para suas casas, deixando o reino de Ponto sem guarnição e sem defesa. O pior é que, ao serem levadas tais notícias ao acampamento de Lúculo, elas induziram os outros a seguir-lhes o exemplo e a audácia de também se amotinar, graças à boa vida que gozavam; pois, cheios de dinheiro, e habituados aos prazeres, achavam-se cansados de lutas e queriam descansar. Assim, ao terem conhecimento da resolução dos outros, qualificaram-nos de homens e gente de bom coração, declarando seguir-lhes o exemplo, pois muito já haviam trabalhado e mereciam ser dispensados com vida e em condição de poder descansar.

Êle vence os armênios em muitos encontros.

LX. Sabedor deste propósito, e de outros piores e mais alarmantes, Lúculo suspendeu a saída dos partas e partiu ao reencontro de Tigrano, em pleno verão. Ao chegar ao cume do monte Taurus, ficou muito aborrecido ao ver os campos e o trigo ainda verdes, pois as estações são prolongadas, naquelas paragens, devido à umidade do ar. Desceu à planície, e, em dois ou três encontros, derrotou os armênios que se atreveram a esperá-lo. Depois percorreu e assenhoreou-se de toda a planície sem qualquer oposição, apoderando-se do trigo armazenado para Tigrano, pondo os inimigos desprovidos de víveres e provocando-os por todos os meios a entrar em luta; cercou-lhes o campo todo de trincheiras, para deixá-los esfaimados, desbastou e destruiu toda a planície, sob suas vistas. Eles, porém, que já haviam sido derrotados tantas vezes, não se moveram.

Êle vai sitiar a cidade de Artaxata.

LXI. Ante isto, Lúculo levantou acampamento, e foi assentá-lo diante da cidade de Arta-xata, capital do reino da Armênia, onde se achavam as esposas legítimas e filhinhos de Tigrano, à espera que este se aventurasse a um combate, a fim de não perder a cidade. Dizem que Aníbal de Cartago, depois da derrota do rei Antíoco pelos romanos foi ter com Artaxes, ao qual induziu e ensinou a fazer muitas coisas úteis e proveitosas ao seu reino, sobressaindo, como das mais belas, mais agradáveis e mais úteis da província, que jazia abandonada, o plano de uma cidade, que ele traçou e decidiu o rei a mandá-la edificar e povoar. O rei não hesitou, e encarregou-o de dirigir o grande empreendimento. Foi como surgiu a bela, grande e triunfante cidade, que foi chamada do nome do rei, Artaxata, e foi transformada em capital do reino da Armênia. Advertido que Lúculo ia assediá-la, Tigrano nao se conteve e pôs-se a seguir os romanos, com todo o seu exército, e no quarto dia acampou perto deles, tendo a separá-los o no Arsânias, que os romanos eram obrigados a transpor, para chegar a Artaxata.

Vitória alcançada por Lúculo.

LXII. Depois de haver imolado aos deuses, para garantir a vitória e considerando-a já em seu poder, Lúculo fez o seu exército atravessar em posição de combate, pondo doze coortes à frente e as outras atrás, de receio que os inimigos, tendo à frente grande e séria gendarmería, os envolvesse. Havia ainda diante deles arqueiros a cavalo, mardianos e hibenanos armados de lanças, nos quais Tigrano depositava absoluta confiança, por serem os melhores e mais ardorosos dos combatentes que tinha a seu soldo. Não houve grandes combates, porque, tendo escaramuzado um pouco contra os romanos, eles não ousaram esperar os legionários que vinham atrás, e fugiram acossados pela cavalaria romana. Vendo-a dispersa os guerreiros que rodeavam Tigrano marcharam contra a infantaria. Vendo o avultado número dos que lhe iam ao encontro, bem armados e equipados, Lúculo teve medo, e mandou avisar as cavalarias que perseguiam os fugitivos. Sem perda de tempo, marchou ao encontro dos fidalgos e sátrapas que se achavam diante dele, com os melhores elementos de sua hoste, causando-lhes tal pavor que, antes que os pudesse ter ao alcance da mão, eles se puseram em fuga. Havia três reis em combate, um a seguir a outro; mas o que fugiu mais vergonhosa e cobardemente foi Mitrídates, o rei de Ponto, que não teve a coragem de atender aos gritos e clamores dos romanos. A caçada, que foi longa, durou toda a noite, até que os romanos se estafaram de matar, de aprisionar, e de armazenar despojos de toda espécie. Diz Tito Lívio, que no primeiro combate morreram numerosos combatentes, mas neste segundo foram mortos os personagens mais eminentes, sendo aprisionados os principais inimigos.

Sedição nas hostes de Lúculo.

LXIII. Depois deste combate, cheio de coragem, e nada mais temendo, Lúculo decidiu avançar pelo país, para acabar de arruinar e destruir o bárbaro rei. Achando-se, porém, no equinócio do outono, o tempo tornou-se tão rígido (coisa que nunca lhe passou pelo pensamento) e fêz tanto frio que nevou quase todos os dias; se o céu se aclarava, geava e endurecia tão depressa que os cavalos não podiam tomar água nos rios, por ser excessivamente gelada e fria, e ninguém se atrevia a atravessar por cima do gelo, porque este fendia-se e as lascas cortavam-lhe os pés. Além disso, achando-se a região coberta de árvores, de matas e de florestas, e sendo os caminhos estreitos, eles não podiam ir pelos campos, sem serem maltratados pela neve que caía; no alojamento a situação era pior ainda, porque eram obrigados a deitar em lugares fofos e úmidos. Razão por que, os soldados, só muitos dias depois do combate, puderam ir além. Primeiro mandaram seus coronéis e capitães pedir-lhe que se abstivesse de tal empresa; reuniram-se depois em tropas mais audaciosas, e começaram a murmurar e a gritar à noite em suas tendas, o que era sinal de exército amotinado e pronto a rebelar-se contra seu chefe, embora Lúculo tudo fizesse, pedindo encarecidamente que tivessem um pouco de paciência, pelo menos até à tomada da cidade de Cartago, na Armênia, isto é, da cidade de Artaxata, para poderem arruinar a obra e a memória do maior inimigo que os romanos tiveram até então no mundo, referindo-se a Aníbal.

Êle entra na Migdônia, e apodera-se de Nísibis.

LXIV. Vendo que, apesar disso, eles nada queriam fazer, fê-los recuar, e repassou o monte Taurus, por outros caminhos; desceu depois na província de Migdônia, terra quente e fértil, onde há uma grande cidade, muito povoada, que os habitantes do país chamaram Nísibis, e os gregos Antioquia de Migdônia. A cidade tinha como autoridade suprema Gouras, irmão verdadeiro de Tigrano, mas como comandante, perfeito conhecedor dos engenhos de guerra, o Calímaco que tanto trabalho dera a Lúculo no cerco à cidade de Amiso. Lúculo foi assentar acampamento em frente, e fê-la assaltar por todos os meios empregados para vencer uma cidade; e agiu com tal ímpeto, que em pouco tempo ela foi tomada de assalto. Gouras, que se pôs à mercê de Lúculo, foi muito bem tratado; Calímaco, porém, que não o quis ouvir, embora prometesse revelar os esconderijos de grandes tesouros, somente dele conhecidos, contanto que não o matassem, foi algemado, por haver incendiado a cidade de Amiso, e impedido que Lúculo demonstrasse a sua amizade aos gregos, o seu afeto e liberalidade para com eles.

Considerações sobre a mudança de sorte que Lúculo sofreu "a partir de então, e as faltas que cometeu.

LXV. Até aqui, pode-se dizer que a boa sorte seguiu e favoreceu Lúculo em todos os seus empreendimentos e em todas as suas ações. Mas, a seguir, parece que o bafejo da felicidade começou a diminuir, pois tudo quanto realizou foi feito a muito custo, e tudo lhe saiu contrário aos seus desejos. É verdade que ele sempre demonstrou a virtude, a resignação e a coragem próprias de um bom e valente comandante de exército; mas as suas ações e cometimentos não tiveram a mercê da facilidade, nem o esplendor de glória que seriam de esperar, ficando em risco de perder tudo quanto conquistara no passado, devido às adversidades que o acometeram e às rixas que injustamente manteve com seus homens. O pior é que tudo quanto acontecia era-lhe atribuído, visto não saber ou não querer manter-se nas boas graças dos soldados, preferindo dar valor a qualquer capitão ou graduado, para conquistar-lhes as simpatias, originando, assim, antipatias e desrespeito à sua autoridade. O que mais o fez cair em desagrado foi o fato de não respeitar as pessoas qualificadas, tratando os nobres com desprezo e como inferiores à sua pessoa. Dizem que, apesar das virtudes que o adornavam, ele possuía este vício e imperfeição. Tinha bela aparência e belo porte; era bem falante, sensato e reto nos negócios governamentais, bem como nos afazeres da guerra, tanto na direção dos simples cidadãos, como na dos soldados em campo de batalha.

Discursos espalhados em Roma contra Lúculo.

LXVI. Escreve Salústio que desde o início desta guerra, os soldados. começaram a descontentar-se dele, porque os fizera passar dois invernos rigorosos no acampamento, um diante da cidade de Cízico, e outro diante da de Amiso. Outros invernos, a seguir, agastaram-nos e irritaram-nos, pois os passaram em terras inimigas ou de aliados e amigos, sobre tendas armadas o no acampamento, sem nunca penetrar em cidade grega ou confederada. Se os soldados estavam tão desavindos com Lúculo, os arengúenos, em Roma, seus inimigos declarados, invejosos dos seus triunfos e de sua glória, viam na desavença a melhor oportunidade para agir contra ele, perante a massa popular, alegando que êle prolongava e perdurava a guerra com o único fim de dominar e de acumular haveres, tendo em mãos quase toda a Cilicia, a Ásia, Bití-ma, Paflagônia, Galácia, o reino de Ponto, a Armênia, e todas as províncias existentes até o rio Fasis; afirmando que, não havia muito, saqueara as casas reais de Tigrano, como se só para saquear e despojar houvesse sido mandado, e não para abater e subjugar aqueles reis. Dizem que um dos arengueiros que fêz uso de tal linguagem foi Lúcio Quíncio, bem como o que mais induziu o povo a exigir que Lúculo fosse destituído do seu cargo e que o substituíssem no governo das províncias sob o seu poder. Pelo mesmo meio, foram dispensados de suas ocupações muitos dos que se achavam sob suas ordens, com permissão de voltar da guerra quando bem lhes parecesse.

Clódio aumenta o exército contra Lúculo.

LXVII. Além de todas estas enormes dificuldades, havia peste mais perigosa, que, mais do que todos os males reunidos, estragava os trabalhos de Lúculo: era Públio Clódio, homem insolente, difamador e temível, irmão da mulher de Lúculo, tida como tão desavergonhada e devassa, que mantinha relações carnais com seu próprio irmão. Indo Clódio ao acampamento de Lúculo, não recebeu as homenagens a que se julgava com direito, por haver ali, antes dele, outros considerados superiores, por não serem devassos e gozarem de boa reputação. À vista disso, por vingança, ele começou a subornar e a manejar as tropas fimbrianas, excitando-as contra Lúculo, com agradáveis promessas. Estes soldados, que se haviam habituado a elogios, e faziam questão de ser adulados, eram os mesmos que Fímbria induzira a matar o cônsul Flaco e a elegê-lo seu comandante. Razão por que prestaram-se de boa vontade aos propósitos de Clódio e passaram a chamá-lo de capitão gentil, amante dos seus soldados, ao ouvir-lhe esta fingida arenga: "Nunca vos achais ao fim de tantas fadigas e lutas, e gastais miseravelmente os dias, a guerrear ora uma nação, ora outra, errando por todos os climas, sem a menor recompensa, servindo únicamente de guardas às carroças e camelos de Lúculo, carregados de ouro, de prata e de pedras preciosas. Entretanto, os guerreiros às ordens de Pompeu já se acham descansando em suas casas, ao lado de suas esposas e filhos, sendo possuidores de boas terras, residindo em belas cidades, como grandes e ricos burgueses, sem precisar expulsar Mitrídates e Tigrano de seus reinos para desertos inabitáveis, sem precisar destruir e arrasar as casas dos reis da Ásia, mas com uma simples e pequena guerra na Espanha, contra degredados, e na Itália, contra escravos fugitivos. Devemos nós, perguntava êle, permanecer a vida inteira com os arneses às costas? Não é preferível, já que até agora escapamos da morte, que reservemos nossos corpos e nossas vidas àquele excelente comandante, que, à sua maior glória, prefere enriquecer a quantos se submetem ao seu comando?"

Triário é batido por Mitrídates.

LXVIII. Com estas sedições e calúnias, o exército de Lúculo ficou tão corrompido que os soldados não o quiseram mais acompanhar nem contra Tigrano, nem contra Mitrídates, que partiu sem demora para o seu reino de Ponto, e começou a reconquistá-lo, enquanto os soldados romanos, amotinados contra seu chefe, resolveram não agir na província gordiana, alegando o inverno, certos de que Pompeu ou qualquer outro comandante não demoraria a levantar o sítio, em substituição a Lúculo. Ao saberem, porém, que Mitrídates já havia derrotado Fábio, um dos tenentes de Lúculo, e que se dirigia contra Sornácio e contra Triário, envergonharam-se e fizeram-se conduzir por Lúculo. Triário, porém, muito presumido, ao saber que Lúculo se aproximava, quis arrebatar-lhe a vitória, considerando-a como certa; e, antes que ele chegasse, entrou em luta, sendo derrotado. Neste grande encontro morreram mais de sete mil soldados romanos, entre os quais cento e cinqüenta centunÕes, e vinte e quatro capitães de mil homens. Além disso, Mitrídates tomou-lhes o acampamento.

Os soldados de Lúculo recusam-se a segui-lo.

LXIX. Dias depois da derrota chegou Lúculo, que precisou esconder Triário, pois os soldados, furiosos, queriam matá-lo. Lúculo experimentou atrair Mitrídates à luta, coisa que este evitou, por achar-se à espera de Tigrano, que descia com poderosa força. À vista disso, Lúculo resolveu ir de novo ao encontro de Tigrano, para atacá-lo antes que ele se unisse às forças de Mitrídates. Mas, nem bem se pôs a caminho, as hostes fimbrianas rebelaram-se de novo, negando-se a segui-lo, alegando que, por decreto do povo, estavam licenciadas e quites com o seu juramento; que, à vista disso, não lhe cabia mais comandá-las, mesmo porque o governo das províncias que ele conquistara já havia sido entregue a outros. Lúculo procurou demovê-las, humilhando-se o mais possível, a ponto de implorá-las, com lágrimas nos olhos, que cumprissem o seu dever. Surdos, porém, a todas as súplicas, os fim-brianos jogaram-lhe aos pés as bolsas vazias, dizendo-lhe atrevidamente que fosse sozinho combater os inimigos, já que o seu cuidado sempre fora enriquecer à custa dos seus despojos. Todavia, graças à intervenção e pedido de outros soldados, os fimbria-nos prometeram permanecer a postos durante o verão, sob condição de, não sendo atacados até então, terem liberdade de dirigir-se para onde quisessem.

Insultos que lhe dirigem.

LXX. Colocado no duro dilema de aceitar a condição imposta ou ficar sozinho e entregar o país aos bárbaros, Lúculo reteve-os sem constrangimento e sem levá-los à luta, contentando-se com a sua permanência, embora se visse obrigado a permitir que Tigrano corresse e saqueasse a Capadócia, e que Mitrídates novamente o desafiasse, quando, sobre este, já havia escrito ao Senado que o exterminara por completo e pedido a presença de deputados e comissários de Roma, para cuidarem dos negócios do reino de Ponto, que considerava uma província seguramente conquistada para o império romano. Ao chegarem ao local, os deputados e comissários acharam não estar Lúculo em seu juízo perfeito, pois os próprios soldados zombavam dele por todos os modos, dirigindo-lhe insolências e insultos bastante pesados. Tão atrevidos se mostraram com seu comandante, e tamanho desprezo lhe demonstraram, que, ao chegar o fim do verão tomaram de suas armas, desembainharam escarnecedoramente as espadas e desafiaram os inimigos ao combate, sabendo que eles já haviam levantado acampamento. Depois, emitindo os gritos usados para entrar em luta, agitaram as espadas ao ar, fingindo combater, e retiraram-se do acampamento, alegando que o tempo prometido a Lúculo, de sua permanência ali, havia expirado.

Entrevista de Lúculo e Pompeu.

LXXI. Pompeu, por sua vez, escreveu aos veteranos que ainda se conservavam no acampamento que fossem ter com êle, pois já havia sido nomeado comandante em lugar de Lúculo, para guerrear Mitrídates e Tigrano, por mercê do povo, e pela indicação e louvores dos arengueiros de Roma. Isto desagradou imenso ao Senado e a todas as pessoas de bem e honestas, por acharem que faziam grande injustiça a Lúculo, mandando-lhe um sucessor, não das fadigas e riscos da guerra, mas sim da honra e da glória do triunfo, e obrigando-o a ceder a outrem, não o posto de comando, e sim o prêmio e as honras que lhe pertenciam, pelos trabalhos realizados. O fato, porém, pareceu ainda mais iníquo e mais indigno aos habitantes das regiões conquistadas, porque, nem bem chegou à Ásia, Pompeu cassou-lhe o direito de castigar ou recompensar quem quer que fosse, por bons ou maus serviços prestados nesta guerra à coisa pública, e proibiu, por meio de avisos fixados em lugares públicos, que se dirigissem a Lúculo e que obedecessem ao que êle e os dez comissários enviados para administrar as províncias conquistadas determinassem ou ordenassem. Pompeu foi por êle temido, por achar-se com um exército maior e mais poderoso que o seu. Todavia, os amigos de ambos resolveram intervir; reuniram-se em um burgo da Galácia, onde acolheram os dois, que se cumprimentaram amavelmente e rememoraram os belos feitos e as gloriosas vitórias por eles alcançadas.

Eles separam-se muito mal entendidos.

LXXII. Lúculo era mais velho, porém, Pompeu separava-o em importância, por haver sido comandante-geral do povo romano em várias guerras, nas quais triunfara duas vezes. Os feixes de varas que os sargentos carregavam diante deles, achavam-se rodeados de ramos de louro, pelas vitórias que haviam obtido; os dos sargentos de Pompeu achavam-se secos, porém, devido ao longo trajeto realizado por regiões áridas e quentes; os dos de Lúculo apresentavam-se verdes e foram colhidos de fresco, coisa que os amigos de Pompeu consideraram de bom aviso e feliz presságio. E não se enganaram, porque os feitos de Lúculo deram lugar às vantagens conquistadas por Pompeu a seguir. Não obstante tudo isso, o fato de haverem confabulado juntos não os tornou melhores amigos; pelo contrário, separaram-se mais indiferentes que dantes. Pompeu, por um édito, cassou e anulou todas as ordens de Lúculo; e, retirando-lhe todos os guerreiros, deixou-lhe apenas mil e seiscentos homens para acompanhar seu triunfo, coisa que, assim mesmo, fizeram de má vontade. Seja por natureza ou por capricho da sorte, Lúculo era falho no que concerne a um grande comandante, para tornar-se querido dos seus subordinados. Se possuísse esta perfeição, de par com tantas outras excelentes virtudes de que era dotado, como a magnanimidade, a prudência, o bom senso, a diligência e a justiça, o no Eufrates não teria sido o limite derradeiro do império romano do lado da Ásia, e ter-se-ia estendido até ao fim do mundo, embora Tigrano já tivesse vencido as outras nações situadas além, exceto a dos partas, que não era tão poderosa nem tão unida como se mostrara ao tempo de Crasso, e sim fraca e desunida, devido aos dissídios reinantes entre os seus habitantes, às guerras que os seus vizinhos lhe faziam, e à impossibilidade de enfrentar as provocações dos armênios.

Digressões sobre a posterior expedição de Crasso contra os partas.

LXXIII. Considerando as coisas como elas se apresentam, parece-me que Lúculo, com as suas conquistas, causou mais prejuízos que lucros ao seu país; porque, os troféus e vitórias que êle alcançara na Armênia, tão perto dos partas, a cidade de Tigranocerta, a de Nísibis, que êle saqueara, fazendo transportar as riquezas para Roma, o diadema de Tigrano, que foi levado em triunfo como prisioneiro, instigaram Crasso a transferir-se para a Ásia, convencido de que os bárbaros não passavam de simples despojos e de presas postas à disposição de quem as quisesse apanhar. Mas, vendo-se, ao chegar, desbaratado pelas flechas dos partas, êle serviu de testemunha e prova que Lúculo não os venceu por falta de senso ou cobardia dos mesmos, e sim por ser corajoso e sensato. É o que se verá depois.

Lúculo obtém a custo a honra do triunfo.

LXXIV. De regresso a Roma, Lúculo deu com seu irmão Marcos acusado, por um tal Gaio Mênio, de faltas cometidas como questor, ao tempo de Sila e por ordem deste, e das quais fora plenamente absolvido, por sentença unânime dos juizes. Irritado com isto, Mênio despejou sua cólera contra Lúculo, sublevando o povo, sob a alegação que o grande cabo de guerra havia retido e roubado grandes riquezas que deviam ser entregues ao erário público, e que só para satisfazer às suas necessidades prolongara a guerra. E incitou o povo a recusar-lhe, unanimemente, as honras do triunfo. Lúculo esteve em risco de ser desdenhado. Mas as pessoas honestas da cidade, e de maior autoridade, misturaram-se com a plebe, quando esta teve de opinar, e tanto suplicaram e instaram que, por fim, a custo, o povo permitiu-lhe entrar na cidade triunfalmente.

Descrição do seu. triunfo.

LXXV. A entrada triunfal de Lúculo na cidade não teve o aparato enfadonho, nem a quantidade de pessoas e coisas notadas, até ali, em solenidades tributadas a outros comandantes. O parque das pelejas, que em Roma denominam de Circo Flamínio, ele fizera enfeitar com numerosas armas tomadas aos inimigos, e com máquinas e instrumentos de bateria do rei, muito agradáveis à vista, sob o cuidado de certo número de seus guerreiros, devidamente armados, vendo-se dez carros de guerra, dotados de foices usadas, e sessenta dos principais amigos e comandantes dos dois reis, que foram levados prisioneiros para ali. Notavam-se ainda: cento e dez galeras, tendo na proa grandes esporões de cobre; uma estátua de Mitrídates, toda de ouro, de seis pés de altura, com um rico escudo crivado de pedras preciosas; vinte casinholas cheias de baixelas de prata; trinta e duas casinholas cheias de arneses e vasos de ouro, bem como de moedas de ouro, que alguns homens carregavam seguidos de oito mus conduzindo leitos de ouro; cinqüenta e seis outros mus, que carregavam prata fundida em quantidade; além de outros cento e sete destes animais, que levavam moedas de prata num total de dois milhões e setecentas mil dracmas. Havia, além disso, registros discriminados das quantias que ele fornecera a Pompeu para a guerra aos corsários, e aos questores e tesoureiros gerais, para serem depositadas nos cofres do erário público; e, a seguir, em documento separado, a entrega, que ele fizera, de novecentas e cinqüenta dracmas a cada gerreiro.

Êle despreza Clódia para casar com Servília, que despreza a seguir.

LXXVI. Depois da demonstração deste triunfo, ele realizou uma festa geral, com o concurso de toda a cidade e das aldeias dos arredores, que os romanos denominam Viços. Em seguida ele divorciou-se de sua mulher Clódia por sua desonestidade e mau comportamento, e casou com Servíha, irmã de Catão, com a qual não foi mais feliz; porque, exceção feita de não ser acusada de haver sido poluída e incestada por seus próprios irmãos, ela era tão desonesta, voluptuosa e dissoluta como a primeira. Todavia ele conformou-se em aturá-la durante algum tempo, pela estima que consagrava a seu irmão. Mas, por fim, ele abandonou-a e divorciou-se.

Êle abandona os afazeres, para descansar.

LXXVII. Tendo, por fim, inspirado admirável confiança ao Senado, que pensou valer-se dele para enfrentar a tirania de Pompeu e obrigar o povo a respeitar a autoridade e nobreza do Senado, graças à autoridade e grande reputação que conquistara por seus elevados feitos guerreiros, não foi sem profunda admiração que o viram alhear-se por completo dos negócios públicos e recolher-se à vida privada. Houve quem lhe aprovasse a resolução, atendendo ao estado de decadência em que se achava a administração pública, bem como quem a atribuísse ao excesso de honrarias que lhe foram prestadas, e à injustiça da sua substituição, depois de tanto trabalho e sofrimento. Embora não procedesse como Mário, nem lhe seguisse o exemplo, o seu procedimento não deixou de ser considerado justo por muitos. Mário, depois das belas vitórias alcançadas contra os cimbros, e de outros elevados e felizes feitos de armas, não quis recolher-se à vida privada e gozar das honras da glória; ao contrário, sedento de mando, ligou sua velhice à cobiça desenfreada de jovens que o compeliram a praticar violências estranhas e mesmo desumanas. Cícero também teria envelhecido mais feliz, se, depois de haver extinto a conspiração de Catilina, se tivesse recolhido ao descanso; o mesmo aconteceria a Cipião, se o houvesse feito depois de haver acrescentado a tomada da cidade de Numância à de Cartago. Dizem, com razão, que, atingida uma determinada idade, o homem sensato não deve mais imiscuir-se nos negócios públicos, porque passada a flor da idade e o vigor do corpo, êle não está mais apto para as disputas, para a luta e outros afazeres semelhantes.

Considerações sobre a magnificência e as delícias em que passou o resto de sua vida.

LXXVIII. Crasso e Pompeu zombaram de Lúculo, por entregar-se aos prazeres e à volúpia, como se a vida voluptuosa e prazenteira não fosse mais estafante aos de sua idade que o comando de um exército ou a direção dos negócios públicos. Lendo-se a vida de Lúculo, tem-se a impressão de se estar lendo uma comédia antiga, de começo muito laborioso e fim alegre. Sim, porque, de início são encontrados belos feitos de armas, em guerra, e de governo, em tempo de paz; mas no fim só há festas e banquetes, pouco faltando que não apareçam também macaquices, danças com archotes, e outros folguedos próprios de rapazes. Coloquem-se ainda, na relação das coisas aprazíveis, seus soberbos edifícios, seus belos passadiços para passeios, suas estufas, além de seus quadros e pinturas, suas estátuas, e a grande admiração que ele tinha por tais artes e trabalhos, provindos de toda parte, em profusão e a preços elevados, valendo-se, desmedidamente, da riqueza que conquistara a mancheias em cargos que exercera e guerras que conseguira vencer. Agora, que a abastança cresceu de maneira assombrosa, notam-se também os jardins que Lúculo mandou executar, tão lindos e encantadores como os possuídos pelos imperadores. Ao ver os admiráveis trabalhos que ele mandou executar ao longo da praia, perto de Nápoles, escavando vales e perfurando montanhas, para fazer o mar contornar-lhe as casas e poder criar peixes, e os edifícios que ele mandou alicerçar dentro do próprio mar, o filósofo estóico Túbero denominou-o Xerxem Togatum, como a chamá-lo Xerxes Romano, porque Xerxes fez perfurar o monte de Ato e abrir um canal, para a passagem dos seus navios.

LXXIX. Havia outros lugares aprazíveis em Roma, perto de Túsculo, onde Lúculo possuía grandes aposentos e galerias, de onde se descortinavam todos os panoramas dos arredores da cidade. Tendo ah estado algumas vezes, Pompeu reprovou-lhe o gosto, alegando que tudo aquilo condizia muito bem para o verão, nunca, porém, para o inverno. Lúculo desandou a rir, e respondeu-lhe: ‘Achas, então, que eu tenha menos juízo e inteligência que as cegonhas e os grous, e não saiba, de acordo com as estações, mudar de residência?" Outra ocasião, promovendo ali diversões para entreter o povo, certo pretor romano pediu-lhe que lhe emprestasse mantos de púrpura, para enfeitar os folgazões, e Lúculo respondeu-lhe que ia mandar ver se os possuía. No dia seguinte perguntou-lhe de quantos precisava, recebendo, em resposta, necessitar de algumas centenas. Lúculo, então declarou-lhe que lhe forneceria até cinco mil, se os possuísse. Fazendo o cálculo, o poeta Horácio emite uma bela exclamação contra a superfluidade, declarando que se dá valor à casa pequena e modesta, unicamente dotada dos móveis indispensáveis, onde o dono só sabe o que possui do que lhe está sob os olhos e não do que está escondido.

Boas palavras de Lúculo sobre os gastos e a fartura de sua mesa.

LXXX. Lúculo também eia pródigo nas suas refeições vulgares. A mesa era forrada de ricas Icalhas purpurinas, e ele era servido em baixelas de ouro e de prata, enriquecidas de pedras preciosas, sendo as refeições geralmente alegradas por danças, músicas, comédias e outros passatempos semelhantes. Diariamente serviam-lhe toda espécie de carnes muito bem preparadas, manjares de forno, doces deliciosos e sobremesas, o que o tornavam admirado pelas pessoas de pouca cultura e de baixa condição social. Eis porque Pompeu foi muito louvado pelo que disse ao médico, quando doente, ao ser-lhe ordenado que comesse um tordo ou peixe labróide. Como os criados lhe dissessem que tal peixe só poderia ser obtido com Lúculo, que os criava o ano todo, visto, acharem-se no verão, Pompeu proibiu-os que lho fossem pedir, e falou ao médico: "Como!. . . Se Lúculo não o tivesse, Pompeu deixaria de viver?" E ordenou que lhe preparassem outra qualquer coisa, das facilmente encontradas.

Êle dá ceia a Cícero e a Pompeu na sala de Apolo.

LXXXI. Catão era seu amigo e aliado, mas detestava tanto a sua maneira de viver e os seus gastos comuns, que um dia, tendo um moço proferido uma longa e fastidiosa arenga no Senado, fora de tempo e descabida, a respeito da simplicidade, sobriedade e temperança no modo de vida dos indi víduos, não podendo mais suportá-lo, pôs-se de pé e disse-lhe: "Não acabarás, hoje, de nos censurar tu que és rico como um Crasso, que vives como um Lúculo, e falas como um Catão?" Há os que dizem que isto foi proferido, não, porém, por Catão. O que não deixa dúvidas, porém, atendendo às alega çôes de Lúculo, é que ele sentia imenso prazer em viver na opulência, e vangloriava-se disso. Contam a tal respeito, que, tendo êle festejado durante vários dias, em sua residência, alguns personagens gregos que foram da Grécia a Roma, eles, habituados à vida simples e sóbria de sua terra, negaram-se a voltar para ah, quando os foram convidar, convencidos de que era em sua homenagem que Lúculo despendia tanto dinheiro nos banquetes. Avisado disso, Lúculo disse: "Não deixeis, senhores, de vir ver-me, por isso, embora se faça alguma coisa mais que o do costume, em vossa honra. Quero, entretanto, que saibam, que a maior parte dos gastos é feita em atenção a Lúculo". Certa vez, que êle jantou sozinho, os criados não se esmeraram no arranjo da mesa. Êle zangou-se, mandou chamar o criado que assim procedeu, e que lhe disse: "Como o senhor não mandou convidar ninguém, julguei desnecessário grande aparato no jantar". A isto Lúculo observou-lhe: "Então não sabias que Lúculo jantaria hoje com Lúculo?"

Biblioteca de Lúculo.

LXXXII. A rapidez era coisa tão difícil na cidade de Roma, que causava admiração vê-la existir na casa de Lúculo, em meio a tanta pompa e magnificência, e era assunto forçado em todas as rodas. Querendo tirar a prova do que se dizia, Cícero e Pompeu, vendo-o um dia na praça, a espairecer, foram-lhe ao encontro. Cícero era um dos seus maiores e íntimos amigos, e Pompeu, apesar das divergências que tiveram em assuntos de guerra, não deixava de visitá-lo e de confabular com êle muito amavelmente. Depois dos cumprimentos de praxe, Cícero perguntou-lhe se era do seu agrado que eles o fossem visitar. "Do maior agrado do mundo, respondeu-lhe êle, peço-lhes encarecidamente que o façam". "Nós desejamos então, disse Cícero, Pompeu e eu, jantar hoje contigo, sob condição de nada mandares preparar de extraordinário. Queremos a comida usual". Lúculo respondeu-lhe que iriam passar muito mal, e que melhor seria deixarem a visita para o dia seguinte. Eles não concordaram, e não consentiram que êle falasse com seus criados, para impedir que ordenasse o preparo de mais alguma coisa, embora para seu uso. Todavia, a seu pedido, eles só permitiram que, em sua presença, e em voz alta, êle dissesse a um dos seus criados que jantaria, aquela tarde, na Apolo. Era como se chamava uma das mais suntuosas e magníficas salas do seu domicílio. Com estas poucas palavras, e sem que eles percebessem, êle enganou-os muito delicadamente, porque cada sala tinha uma dotação determinada e certa da despesa que devia ser realizada, sempre que ah se jantava, seus móveis próprios e toda a ordem do serviço. De modo que, declarada a sala em que ele desejava jantar, os criados sabiam quanto deviam gastar no mesmo, e a ordem que deviam observar. E, como ele costumava despender a quantia de cinqüenta mil dracmas, quando dava banquete naquela sala, e o jantar, naquele dia, custou tal importância, Pompeu ficou pasmo de ver como um jantar, de custo tão elevado, tivesse sido tão rapidamente preparado.

Apego de Lúculo à antiga seita dos acadêmicos.

LXXXIII. Se, nisto, Lúculo desperdiçava desordenada e reprovàvelmente a sua riqueza, tornando-se um verdadeiro escravo da ostentação, muito honesta e louvável era a despesa que fazia com a aquisição e encadernação de livros, que conseguiu reunir em grande quantidade, e dos melhores escritos, para fim muito elevado e digno dos maiores elogios. Suas bibliotecas estavam sempre abertas a todos os visitantes, sendo permitida a entrada aos gregos, sem exceção, nas galerias, pórticos e outros lugares disputados, onde os homens doutos e estudiosos geralmente se encontravam e passavam o dia a discorrer, como na casa das musas, felizes de poderem se desvencilhar dos seus afazeres para ir para ali. Êle mesmo freqüentemente misturava-se com os visitantes nas galerias, sentindo prazer em comunicar-se com eles, e em ajudar aos que tinham ocupações, em tudo quanto lhe pedissem. Sua casa tornou-se logo o retiro e amparo de quantos iam da Grécia a Roma.

Pompeu reúne-se a Crasso e César, para expulsar da praça pública Catão e Lúculo

LXXXIV. Êle apreciava todas as espécies de filosofia e nao desprezava nenhuma seita. Desde o início, porém, apreciou e dispensou mais consideração à seita acadêmica, não à nova, embora estivesse muito em voga, devido às obras de Carneades, que Filo valorizava, e sim à antiga, que tinha por defensor Antíoco, filósofo natural da cidade de Ascalão, eloqüente e de palavra fácil, que Lúculo procurou conquistar e mantê-lo em sua casa, como amigo íntimo. Isto para contrapô-lo aos ouvintes e aderentes de Filo, entre os quais se achava Cícero, que escreveu um belíssimo livro contra a seita dos velhos acadêmicos, no qual figura Lúculo sustentan-do-lhes a opinião de que todo homem sabe e compreende alguma coisa, que denomina Catalepsin.

Cícero sustenta o contrário. O livro intitula-se Lúculo, pois, como já dissemos alhures, eles eram bons e grandes amigos, e tendiam ao mesmo fim, na direção dos negócios públicos. Cedendo lugar a Crasso e a Catão, e retirando-se à vida privada, Lúculo não o fêz no firme propósito de nunca mais se envolver em postos de mando e nem querer ouvir falar neles; apenas ambicionou dedicar-se a afazeres de sua exclusiva alçada, isentos de perigos e de grandes indignidades.

Subornam um patife, para declarar que Lúculo havia-o induzido a assassinar Pompeu.

LXXXV. Tendo Lúculo recusado este primeiro posto de confiança e de autoridade, o Senado valeu-se de Crasso e de Catão, para deter e moderar o enorme poder de Pompeu, que era tido como suspeito. Lúculo, porém, sempre que solicitado, comparecia às reuniões e julgamentos populares, para satisfazer a seus amigos. Também ia ao Senado, quando se tratava de pulverizar qualquer intriga ou de reprovar qualquer atuação ambiciosa de Pompeu, pois este anulara todos os atos e decretos que ele emitira depois da derrota dos reis Mitrí-dates e Tigrano, e, auxiliado por Catão, proibiu a divisão e distribuição de dinheiro, que ele havia determinado fosse feita aos seus guerreiros. À vista disso, Pompeu precisou valer-se da amizade, ou melhor, da trama de Crasso e de César, com o auxílio dos quais encheu Roma de armas e de soldados, expulsou dali Lúculo e Catão, por meios violentos, e obrigou o povo a aprovar e validar tudo quanto quis.

Morte de Lúculo.

LXXXVI. Ante a indignação causada às pessoas dignas e honestas, pela expulsão afrontosa daqueles dois personagens, os partidários de Pompeu subornaram um tal Bruciano, declarando havê-lo surpreendido de tocaia, à espera de Pompeu, para matá-lo. Interrogado a respeito no Senado, Bruciano acusou algumas pessoas, e perante o povo apontou Lúculo como mandante do assassínio de Pompeu. Ninguém lhe deu crédito, pois todos perceberam haver sido ele subornado pelos partidários de Pompeu para acusar falsamente Lúculo e outros adversários daquele cabo de guerra. Isto tornou-se mais patente ainda, quando, dias depois, jogaram o cadáver de Bruciano a rua, fora da prisão, alegando que sua morte fora natural, originada por moléstia; mas, os sinais visíveis do seu estrangulamento, e das pancadas que lhe desferiram, não deixaram dúvida de que foram os próprios subor-nadores que o mataram.

LXXXVII. Isto induziu Lúculo a afastar-se ainda mais dos negócios públicos; e, ao ver exilarem indignamente Cícero, e afastarem Catão do governo, sob o fundamento de ser indispensável numa missão especial na ilha de Chipre, abandonou-os definitivamente. Escrevem alguns que ele assim procedeu porque, pouco antes de sua morte, devido à idade, ele foi perdendo aos poucos o juízo. Diz Cornélio Nepos que não foi por velhice nem por doença que ele se transtornou, mas sim por peçonha que lhe ministrou um dos seus escravos libertos, chamado Calístenes, que o fez não mal intencionado e sim convencido de que tal veneno tivesse o poder de torná-lo mais querido a seu amo. O caso é que Lúculo ficou com o juízo tão perturbado, que seu irmão Marcos, enquanto ele viveu, tornou-se seu curador e administrou-lhe os bens. A sua morte foi muito sentida pelo povo, que acorreu em massa aos funerais, a fim de prestar-lhe as últimas homenagens. O corpo foi levado ao túmulo pelos jovens mais nobres da cidade, exigindo o povo que fosse inumado no campo de Marte, do mesmo modo por que o foi Sila. Como ninguém tivesse pensado nisso, e os preparativos indispensáveis não fossem fáceis, Marcos pediu ao povo que os funerais fossem realizados em terras que possuía perto da cidade de Túscuío, onde sua sepultura havia sido preparada, e que ele mesmo escolhera. Sepultado Lúculo com todas as honras merecidas, seu irmão, que sempre o amara muito, não lhe sobreviveu durante longo tempo.


Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

nov 082010
 
Arte etrusca

VIDA DE CIMON por Plutarco – Ebook parte das Vidas Paralelas

 

CÍMON

(em grego: Κίμων, transl. Kímon, Atenas, c. 510 a.C. – Cítio, 449 a.C.) estadista e general ateniense, Grécia Antiga)

Desde o ano 500 até o ano 449 antes de Jesus Cristo.

O profeta Peripoltas estabelece-se em Queronéia.

O profeta Peripoltas, que conduziu de Tessália à Beócia o rei Ofeltas (1) com os povos que lhe estavam subordinados, deixou uma celebridade que perdurou no país, principalmente na cidade de Queronéia, por ter sido a primeira que conquistaram aos bárbaros, que eles expulsaram. Sendo os indivíduos desta raça muito corajosos e naturalmente propensos às armas, tanto se arriscaram nas lutas invasoras dos medos pela Grécia e nas guerras contra os gauleses, que sucumbiram quase todos, escapando apenas um òrfãozinho de pai e mãe, chamado Damão, e sobre-nomeado Peripoltas, que sobrepujou todos os outros jovens de seu tempo em estatura e coragem, ainda que tão fortes, tão violentos e tão severos como êle.

Damão conspira contra o capitão de uma guarnição romana em Queronéia, e mata-o.

II. Aconteceu que, ao sair da infância, um romano, capitão de umas tropas que se achavam na cidade de Queronéia, para ali passarem o inverno, agradou-se dele; e, não conseguindo atraí-lo por meio de súplicas e de donativos, resolveu conquistá-lo pela força, certo de que a cidade de Queronéia, fraca e pobre como era, não se revoltaria. Receoso de que tal acontecesse, o que seria desonroso para ele, Damão resolveu preparar-lhe uma emboscada; e, agindo com a maior cautela, conseguiu que alguns companheiros, em número reduzido, conspirassem com ele contra o capitão. Foram dezesseis ao todo. Certa noite borraram o rosto com fuligem, e na manhã seguinte, ao romper do dia, lançaram-se sobre o romano, que executava um sacrifício na praça, matando-o com bom número de pessoas. Isto feito fugiram da cidade, que ficou bastante alvoroçada com o acontecido. Reunido o conselho pelo prefeito de Macedónia, Damão e seus cúmplices foram condenados à morte, como testemunho de desagravo e de satisfação aos romanos. Na mesma noite, porém, quando todos os magistrados e oficiais da cidade ceavam juntos no palácio, como de costume, Damão e seus partidários entraram de improviso no lugar em que eles estavam, mataram todos, e de novo fugiram da cidade.

Êle mesmo é morto a traição.

III. Mais ou menos nessa ocasião, aconteceu passar pela cidade de Queronéia, à frente de seu exército, Lúcio Lúculo, para uma diligência qualquer: e, como o acontecimento era de data recente, ele deteve-se alguns dias, para se inteirar do fato e conhecer a verdade. Chegou à conclusão que a população da cidade nenhuma culpa tinha no caso, e que, pelo contrário, também ela havia sido ultrajada. Razão por que prendeu todos os soldados que se achavam fora da guarnição, levando-os consigo. Enquanto isso, Damão vagueava tranqüilamente pelos arredores da cidade. Por fim, os habitantes resolveram mandar pessoas ao seu encontro; e, com boas maneiras e sentenças favoráveis, conseguiram fazê-lo voltar. Nomearam-no gina-siarca, isto é, professor de exercícios da mocidade. Pouco depois, num dia em que, completamente nu, ele se fazia untar de óleo em um banheiro, mataram-no a traição. Como durante muito tempo aparecessem espíritos naquele lugar, ouvindo-se gemidos e suspiros, conforme relatam nossos pais, foi ele interditado, sendo murada a porta do banheiro. Todavia, os que moram nas imediações dizem ver visões e ouvir palavras e gritos assustadores. Os descendentes deste Damão (pois ainda os há de sua raça na Fócida, perto da cidade de Estíris, que conservam o modo de agir e a língua dos eólios) são chamados abolomênios, isto é, os lambuzados de fuligem, por terem Damão e seus companheiros lambuzado o rosto de fuligem, quando se lançaram sobre o capitão romano.

Os orcomênios acusam os de Queronéia ao prefeito da Macedónia do assassinato cometido por Damão; o testemunho de Lúculo absolve-os, e eles levantam-lhe uma estátua.

IV. Sendo os orcomênios vizinhos dos que-rônios, mas vizinhos inimigos, elogiaram um advogado romano, caluniador, que acusou a população toda da cidade do assassínio de romanos, praticado por Damão e seus cúmplices. Como os romanos ainda não tivessem governadores na Grécia, instaurado o processo a causa foi contestada perante o governador da Macedónia, e os advogados, que defendiam os habitantes de Queronéia apelaram para o testemunho de Lúcio Lúculo, alegando ser ele perfeito conhecedor do ocorrido. O governadcr escreveu-lhe, obtendo dele o relato da verdade. Foi como nossa cidade venceu a causa, que de outro modo levá-la-ia à ruína. Tendo escapado de tão grande perigo, graças ao testemunho de Lúculo, os habitantes de Queronéia quiseram demonstrar-lhe o seu reconhecimento, e ergueram-lhe uma estátua próxima à de Baco.

Plutarco escreve a vida de Lúculo, em sinal de gratidão dos seus concidadãos ao grande benefício que lhes prestara.

V. Embora estejamos muitos anos e séculos afastados daqueles tempos, presumimos que o seu benefício se estenda até nós, que somos da época atual; e, embora sejamos de opinião que a imagem e o retrato que perpetuam o caráter e as virtudes das pessoas falam mais do que na realidade merecem, enfeixaremos nesta obra das Vidas dos Homens Ilustres, comparando-os, seus atos e seus feitos; escrevendo unicamente a verdade. Acreditamos que eles mesmos reprovariam qualquer narração falsa e controvertida que se fizesse, ainda que fosse em seu favor. Entretanto, como acontece com os retratos, que às vezes enfeiam as pessoas mais belas e outras embelezam as feias, se o acaso lhes fizer deparar feiuras e imperfeições nos nossos estudos, não as desprezem de todo, lembrando-se de que não há no mundo personagem de vida totalmente inocente e irrepreensível. Eles têm por fim pôr em relevo as virtudes realmente praticadas, para que nos sirvam de exemplo. As faltas e os erros que apareçam de permeio às suas boas ações, às suas paixões ou aos seus constrangimentos em bem da coisa pública devem ser considerados como defeitos e imperfeições de virtude mal apurada, ao invés de produtos de perversidade e de malícia. A natureza não produziu, até hoje, um homem tão perfeito e tão virtuoso do qual nada se tenha a reprovar.

Êle comparou-o a Damão, por não encontrar melhor comparação. Diversos traços de semelhança entre o grego e o romano.

VI. Pensando, pois, a quem eu poderia comparar Lúculo, pareceu-me dever fazê-lo a Cimon, porque ambos foram valentes e belicosos contra os inimigos, tendo praticado belos e grandes feitos de armas sobre os bárbaros; ambos foram clementes e afáveis para com seus concidadãos, sendo os principais fatores da pacificação das guerras e lutas civis em seus países, e vencedores de três gloriosas lutas contra os bárbaros. Nenhum comandante grego, antes de Cimon, nem romano antes de Lúculo, foi guerrear tão longe. Pelo menos, exceção feita dos monumentos comemorativos das façanhas de Baco e de Hércules, dos sucessos de Perseu contra os etíopes, medos e armênios, e dos de Jasão, nenhum outro existe, oriundo daqueles tempos, que prove o contrário. Eles têm ainda de comum, o fato de haverem conduzido a termo suas empresas, vencendo e enfraquecendo os adversários, sem arruiná-los nem destruí-los completamente. Nota-se entre ambos grande semelhança de sentimentos quanto à honestidade, cortesia e deveres de humanidade com que agiam, ao receberem e tratarem os estrangeiros em suas casas, e na magnificência, suntuosidade e opulência de sua vida e conduta usual. Outros traços de semelhança serão dados no decurso de sua história.

Nascimento, mocidade e caráter de Cimon.

VII. Cimon era filho de Milcíades e de Hegesípila, de origem traciana e filha do rei Oloro, conforme referem algumas composições poéticas, escritas por Melâncio e Arquelau sobre Cimon. O pai do historiador Tucídides, parente de Cimon, também chamava-se Oloro, o que demonstra ser o rei um dos seus ancestrais. Possuía minas de ouro na Trácia, no lugar denominado floresta coveira, onde foi assassinado. Suas cinzas e seus ossos foram transportados para a Ática, vendo-se ainda seu túmulo entre as sepulturas da família de Cimon, junto da de Elpinice, irmã deste. Todavia, Tucídides era do burgo de Alimo e Milcíades do de Lácia. Tendo sido condenado ao pagamento da multa de cinqüenta talentos (1), na falta de pagamento Milcíades foi encarcerado e morreu na prisão, deixando Cimon na orfandade, criança ainda, com sua irmã, pouco mais idosa que êle. Nos seus primeiros anos de mocidade, Cimon conquistou má fama na cidade, sendo considerado dissoluto, beberrão, tal qual seu avô, também chamado Cimon, que, por suas asneiras, era apelidado Coalemos, isto é, o Maluco. Estesimbroto, do mesmo modo que Tasiano, que existiu na época de Cimon, escreveu que Cimon nunca aprendeu nem a música, nem qualquer das outras artes que costumavam ensinar às crianças de boa família na Grécia, e que ele não possuía nem a vivacidade de espírito, nem a graça de falar, características das crianças nascidas na Ática: não obstante, ele era de índole generosa, magnânima, em que não havia nenhuma simulação nem fingimento, e a sua maneira de agir tinha mais de pelo-ponésio do que de ateniense. Era o que o poeta Eurípides disse de Hércules:

Um tanto monstruoso e sem nenhum adorno,
Homem de bem, no mais, inteiramente.

Má conduta de Cimon e de sua irmã; casamento desta.

VIII. Isto pode ser acrescentado ao que, muito acertadamente, Estesimbroto escreveu dele. Todavia, em sua primeira mocidade desconfiou-se que ele tivesse relações carnais com sua irmã, que não tinha boa reputação, pois pecava em sua honra com o pintor Pol ignoto, que resolveu pintar as senhoras troianas escravas nas paredes do Pórtico, então denominado Plesianação e atualmente Peciíe, isto é, enriquecido de diversas pinturas. E, ao que dizem, ele reproduzia o rosto de Laodice inspirado em Elpinice. Não sendo mercenário, prestou gratuitamente este benefício à coisa pública, conforme testemunharam todos os historiadores da época e o próprio poeta Melâncio declarou nestes versos:

À sua custa, sem qualquer auxílio,
Êle enfeitou nossa praça pública,
E adornou os santos templos dos deuses,
Ali pintando os feitos dos semi-deuses.

Todavia há os que dizem que Elpinice não morava clandestinamente e sim às escâncaras com seu irmão Cimon, como sua mulher, legitimamente desposada, visto não ter ela encontrado marido de posição tão nobre como a sua, devido à sua pobreza: mas que depois, um tal Cálias, que era dos mais ricos e opulentos da cidade, pediu-a em casamento, prontificando-se a pagar a multa a que fora condenado seu pai Milcíades, se lhe cedesse a mulher. Cimon aceitou a proposta e entregou-a em casamento. Contudo, é inegável que Cimon tenha estado um tanto preso ao amor e às mulheres. O poeta Melâncio, gracejando, em algumas elegias refere-se a uma Astéria, natural de Salamina, e à outra denominada Mnestra, pelas quais Cimon se enamorou. E fora de dúvida, porém, ser êle muito afeiçoado a sua legítima esposa Isodice, filha de Euriptolemo e neta de Mégacles, que teve uma morte muito penosa, conforme se depreende das elegias que lhe foram dedicadas após o falecimento.

O filósofo Panécio afirma que tais elegias, muito de acordo com a época, foram escritas pelo físico Arquelau.

Belas qualidades de Cimon.

IX. Quanto ao mais, os costumes e o temperamento de Cimon eram dignos dos maiores louvores, pois ele, não sendo inferior a Milcíades em audácia, nem a Temístocles em bom senso e sabedoria, foi mais justo e mais honesto que ambos; não sendo inferior a eles, como guerreiro e valoroso comandante, excedeu-os extraordinariamente como bom governador e administrador dos negócios da cidade, embora muito moço e não experimentado na guerra. Quando, à chegada dos medos, Temístocles, aconselhou o povo de Atenas a sair da cidade, a abandonar suas terras e o seu país, para embarcar em gôndolas e ir combater os bárbaros através do estreito de Salamina, como todos se mostrassem pasmos de tão ousado quão arriscado conselho, Cimon foi o primeiro a seguir, pela rua do Cerâmico, para o castelo, de cara alegre, com outros jovens e amigos, empunhando um pedaço de rédea, a fim de consagrá-lo e oferecê-lo à deusa Minerva. Quis, assim, significar, que a cidade por enquanto não precisava de cavaleiros, e sim de marinheiros. Depois de fazer sua oferenda, tomou um dos escudos que se achavam dependurados nas paredes do templo, dirigiu sua prece a Minerva, foi ao porto, e animou e decidiu a maior parte dos cidadãos a deixar a terra e seguir para o mar. Além disso, êle era bonito, conforme declara o poeta Ion, de belo porte, de cabelos ondulados e espessos. Portou-se tão bem e tão valentemente no dia do combate, que logo adquiriu grande fama, consideração e estima de todos; tanto assim que não poucos seguiam-lhe os passos, a incutir-lhe coragem e a induzi-lo a praticar atos condizentes com a glória conquistada por seu pai na jornada de Maratona.

Entrada de Cimon na administração.

X. Logo que ele começou a intervir na direção dos negócios públicos, o povo recebeu-o com grande alegria, pois já estava enfastiado de Temís-tocles. Cimon foi sendo progressivamente elevado aos postos de maior destaque e responsabilidade da cidade, tornando-se muito querido do povo, graças à sua bondade e à sua modéstia. Seja por ter visto nele um caráter reto e inabalável, ou porque quisesse contrapô-lo ao astuto e audaz Temístocles, Aristides foi-lhe de grande valia nos rápidos acessos. Quando os medos fugiram da Grécia, deixando a cidade de Atenas desgovernada, e visivelmente submetida às ordens de Pausânias e dos lacedemônios, Cimon, escolhido pelos atenienses para comandante da marinha, em todas as viagens realizadas manteve os seus subordinados em admirável boa ordem, bem equipados e sempre prontos a agir. Pausânias desde logo procurou entendimentos com os bárbaros, para trair a Grécia, e escreveu nesse sentido ao rei da Pérsia, tratando, nesse ínterim, grosseira e atrevidamente os aliados e confederados de sua terra, pratticando muitas arbitrariedades, atendendo à grande autoridade de que estava revestido. Cimon, pelo contrário, recebia bondosamente os que Pausânias maltratava, ouvindo-os humanamente e falando-lhes com delicadeza, sem se preocupar com o fato de ter sido ele quem arrancou a soberania da Grécia das mãos dos lacedemônios, entregando-a aos atenienses, não pela força das armas, mas pela meiguice, pela maneira sensata de agir, e por sua bondade. Não podendo mais suportar o orgulho e os maus tratos de Pausânias, a maior parte dos aliados submeteu-se voluntariamente às ordens de Cimon e de Aristides, que não só os receberam como escreveram aos membros do conselho dos lacedemônios que chamassem Pausânias, porque ele desonrava Esparta e punha toda a Grécia em confusão e desordem.

História de Pausânias e de Cleonice.

XI. Contam, a tal respeito, que Pausânias, certo dia, na cidade de Bizâncio, mandou buscar uma jovem chamada Cleonice, de boa família e de nobre descendência, para satisfazer aos seus desejos. Os pais não ousaram opor-se, temendo a sua perversidade, e deixaram-na levar. A jovem pediu aos seus criados de quarto que levassem todas as luzes; mas, procurando aproximar-se do leito de Pausânias, que já havia pegado no sono, achando-se no escuro, e sem fazer o menor ruído, ela encontrou casualmente uma lucerna, que jogou ao chão. Êle acordou sobressaltado; e, supondo logo tratar-se de algum dos seus desafetos, que o quisesse atacar a traição, apanhou o punhal que tinha debaixo do travesseiro, e apunhalou-a de tal modo que a infeliz caiu morta a seus pés. Pausânias nunca mais dormiu sossegado, porque a alma da jovem aparecia-lhe todas as noites, nem bem ele ia pegar no sono, reci-tando-lhe furiosa uns versos heróicos, que podem ser resumidos no que segue:

Procede direito e honra a justiça:
Sofrimento e miséria a quem pratica injustiça.

Esta afronta irritou de tal modo os aliados, que cheios de ódio, e sob as ordens de Cimon, cercaram-no na cidade de Bizâncio, da qual ele conseguiu salvar-se, fugindo sorrateiramente. Como o espírito da jovem não o deixasse em paz, perseguindo-o sem cessar, ele fugiu para a cidade de Heracléia, onde havia um templo destinado a exorcismar os espíritos, e esconjurou o de Cleonice, pedindo-lhe que abrandasse a sua cólera. Ela apareceu-lhe sem demora, e disse-lhe que antes de chegar a Esparta ele ficaria livre dos seus tormentos: o que, a meu ver, veladamente ela quis referir-se à morte que o esperava. E o que dizem diversos historiadores.

Êle expulsa os persas de Iônia, e apodera-se de todo o cantão.

XII. Cimon, então, apoiado pelos aliados e confederados gregos, que se haviam afastado de Pausânias, foi avisado de que alguns altos personagens persas, parentes do próprio rei, residentes na cidade de Iônia, situada na Trácia, na margem do no Estrimão, perseguiam e causavam graneles danos aos gregos que habitavam os arredores. Fêz-se ao mar com a sua esquadra, atacou, venceu e aniquilou os bárbaros, e expulsou todos os habitantes da cidade; depois correu contra os tracianos situados além do no Estnmão, que forneciam víveres aos habitantes de Iônia, e, fazendo-os abandonar a região, apoderou-se totalmente dela. Antes, porém, vendo-se perdido, em ato de desespero o tenente persa Butes incendiou a cidade, perecendo queimado com seus amigos e bens. Deste modo, os despojos da cidade conquistada não foram de grande valia, porque os bárbaros queimaram o que de mais belo e valoroso ali havia. Em compensação, a conquista forneceu aos atenienses uma região muito amena e fértil. Para memorar o feito, o povo fez erigir três Hermes ou pedestais de pedra com a estátua de Mercúrio, nos quais foram gravados dizeres enaltecendo o valor da sua gente.

Êle torna-se senhor da ilha de Ciros.

XIII. Se o nome de Cimon não aparece em tais inscrições é porque esta honra extraordinária nunca foi concedida nem mesmo a Milcíades e a Temístocles. Que o povo era inimigo de individualizar, demonstra-o este simples fato: tendo Milcíades pedido um dia ao povo que lhe fosse permitido usar na cabeça uma coroa de oliveira, um tal Sófa-nes, natural da aldeia Decélia, levantou-se no meio da assembléia, e se opôs, proferindo palavras que muito agradaram ao povo, embora fossem ingratas e mal agradecidas aos bons serviços que ele havia prestado à coisa pública. "Quando tiveres, Mil-cíades, vencido sozinho os bárbaros em combate, disse ele, poderás pedir que te honrem somente a ti". Qual a razão por que a atuação de Cimon tornou-se mais querida aos atenienses do que a dos outros capitães? Foi, a meu ver, porque os outros capitães agiram em defesa do seu território, dentro do próprio país, e Cimon e sua gente atacaram e destroçaram os inimigos em sua terra, conquistando as cidades de Iôma e de Anfípolis, que povoaram, e mais a ilha de Ciros. Os dolopianos, que a possuíam, inimigos do trabalho e do cultivo da terra, desde remota antiguidade não passavam de corsários, que viviam do que pilhavam no mar, não poupando nem mesmo os passageiros e mercadores que demandavam seus portos. Alguns tessalianos que ali apareceram para comerciar foram roubados, castigados e aprisionados. Conseguindo fugir, eles recorreram ao parlamento dos anfictiões, que é um conselho geral de deputados das cidades gregas. Julgado o feito, os anfictiões condenaram todos os arianos ao pagamento de elevada multa, que eles se negaram a satisfazer, sob a alegação de que não eram responsáveis pelos atos praticados pelos corsários; que se dirigissem a estes, e eles que pagassem, se quisessem. Para castigar este ato de rebeldia, e obrigá-los a pagar, Cimon foi encarregado de atacá-los e de apoderar-se da cidade, o que foi feito.

Conquistada a ilha, Cimon expulsou os dolopianos, e livrou o mar Egeu dos corsários.

Êle leva os ossos de Teseu para Atenas.

XIV. Sabia-se que o velho Teseu, filho de Egeu, fugindo de Atenas fora ter à ilha de Ciros, onde o rei Licomedes, suspeitando dele, mandou matá-lo a traição. Como, por um oráculo e profecia, as suas cinzas e os seus ossos deviam ser levados para Atenas, por ser considerado um semi-deus, negando-se os habitantes da ilha a dizer-lhes onde fora ele inumado, os conquistadores procuraram teimosa e inutilmente a sepultura. Por fim, depois de obstinada busca, Cimon conseguiu encontrar o túmulo; colocou os ossos na nau capitânea, magnificamente paramentada, e levou-os para a sua pátria. Isto quatrocentos anos depois da saída de Teseu de sua terra natal.

Os atenienses mostraram-se sumamente gratos a Cimon; e, para perpetuarem o grande acontecimento, os poetas escreveram poemas trágicos que se tornaram célebres. Tendo o jovem poeta Sófocles apresentado sua primeira tragédia, Afepsião, que significa primeiro magistrado, o preboste, notou grande divergência e cabala entre os espectadores, e não quis sortear os que deviam escolher os julgadores dos trabalhos apresentados, para dar o prêmio ao poeta vencedor.

Achando-se Cimon e os outros capitães no teatro, fêz a oferta devida ao deus em cuja honra se realizam tais torneios, sorteou-os e fê-los jurar que escolheriam com ânimo desprevenido os julgadores do poeta merecedor do prêmio. Feita a escolha, todos se esforçaram em serem justos no julgamento, sendo Sófocles declarado vencedor. Ésquilo, segundo dizem, ficou tão aborrecido e triste com o acontecido que abandonou Atenas, retirando-se para a Sicília, onde faleceu, sendo sepultado perto da cidade de Gele.

Como Cimon distribuiu os despojos, depois da tomada de Sestos e de Bizâncio

XV. Escreve Ion, que, sendo ainda muito jovem, recém-chegado a Atenas, proveniente de Quio, ceou certa noite com Cimon, ria hospedaria de Laomedão, e que ao fim da ceia, depois das efusões.costumeiras aos deuses, Cimon foi convidado pelos presentes a cantar. Ele não se fêz de rogado, sendo muito aplaudido. Todos foram unânimes em declará-lo mais civil e atencioso que Temístocles, que, em caso semelhante, sendo convidado a tocar cítara, respondeu que nunca aprendera a cantar nem a tocar cítara, mas que sabia fazer de uma pequena e pobre aldeia uma rica e poderosa cidade. Depois disto, como é natural, o assunto e as conversas dos presentes giraram sobre feitos e gestos de Cimon, enumerando os principais. Ele mesmo relatou um. que considerava superior a quantos havia realizado. Como os atenienses e seus aliados tivessem aprisionado numerosos bárbaros nas aldeias de Sestos e de Bizâncio, como homenagem conferiram-lhe o direito de repartir entre eles a presa. Aceitando o encargo, êle pôs num quinhão todos os bárbaros completamente nus, e no outro todas as suas roupas e despojos. Os aliados acharam a partilha muito desigual, mas Cimon deu-lhes o direito de escolha, deixando o resto para os atenienses. Um capitão samiano, apelidado Herófito, aconselhou os aliados a ficar com as roupas e despojos dos persas, o que foi feito. Cimon foi logo taxado por todos de péssimo distribuidor, por dar aos aliados, aljavas e pulseiras de ouro, bem como lindas e riquíssimas vestes de púrpura, sistema persa, e aos atenienses corpos nus, de homens indolentes, não afeitos ao trabalho e ao sofrimento. Tempos depois, parentes e amigos dos prisioneiros, provenientes da Frigia e da Lídia, deram-lhe tanto dinheiro, que Cimon manteve, durante quatro meses as galeras à sua custa, e entregou o resto ao governo de Atenas, reservando uma parte para si.

Liberalidade de Cimon.

XVI. Tendo Cimon enriquecido, gastou os bens honestamente recebidos dos bárbaros do modo mais honesto, atendendo às necessidades dos seus cidadãos: fez retirar todas as cercas de suas terras e patrimônios, para que os estrangeiros em viagem, e os seus cidadãos, que tivessem necessidade, pudessem servir-se dos produtos ali existentes, como e quanto quisessem, se’m risco de qualquer espécie. Em sua casa, além disso, havia sempre uma posta para numerosas pessoas; não de petiscos, porém, farta, sendo os pobres burgueses que a ela acorriam muito bem recebidos e muito bem tratados. Deste modo, eles não tinham necessidade de trabalhar para viver e melhor podiam preocupar-se com os afazeres públicos. Entretanto, o filósofo Aristóteles escreveu não ser para todos os atenienses, indistintamente, que ele mantinha assim sua casa, mas üni-mente para os do burgo de Lácia, onde nascera. Além disso, ele tinha sempre a seu lado alguns moços, seus criados, muito bem vestidos. Se, ao ir pela cidade, acontecesse encontrar algum velho pobremente trajado, ele fazia um dos moços despir-se e trocar a roupa com o necessitado. Isto, longe de ser levado a mal, era considerado por todos coisa venerável. Mas há mais: estes mesmos moços levavam sempre consigo boa importância em dinheiro; e, ao encontrarem, na praça ou na rua algum necessitado de fato, colocavam-lhe à mão, às escondidas, e sem nada dizer, alguma moeda de prata. Parece ser a isto que o poeta Cratino se refere, em sua comédia os Arquiloques. Górgias Leontino dizia que Cimon conquistou bens para usá-los, e que usava-os com honestidade. Crítias, um dos trinta tiranos de Atenas, em suas elegias deseja e pede aos deuses:

A opulência dos herdeiros de Escopas,
O nobre coração e a liberalidade
Do valoroso Cimon, e os gloriosos Troféus conquistados por Agesilau.

Ela era absolutamente desinteressada.

XVII. O nome de Liças Espartiata foi muito exaltado e celebrado, entre os gregos, pelo simples fato de, em dia de festa solene, em que os jovens faziam exercícios e dançavam nus na cidade de Esparta, ele receber festivamente os estrangeiros que iam assistir a tais folguedos. A grandeza dalma de Cimon excedia, porém, a liberalidade, humanidade e hospitalidade dos antigos atenienses, que foram os primeiros a ensinar aos homens em toda a Grécia, como deviam semear e usar o trigo para se alimentarem, qual o uso que deviam fazer das águas das fontes, e como deviam acender e manter o fogo. Cimon, entretanto, fazendo de sua própria casa um hcspital, onde todos os pobres eram fartamente alimentados e socorridos, e onde os viajantes estrangeiros podiam livremente colher os frutos de cada estação, brotados em suas terras, reconduzia ao mundo, por assim dizer, a comunidade de bens que os poetas dizem haver estado outrora sob o domínio de Saturno. Quanto às objeções dos que caluniavam esta honesta liberalidade, dizendo ter por fim adular a comuna e ganhar as boas graças da plebe, elas eram desfeitas e vencidas pelo seu modo de vida onde residia, pois pertencia à nobreza e vivia como os lacedemônios. Demonstra-o o fato de ter sido sempre contrário a Temístocles, que aumentava excessivamente a autoridade e o poder do povo, e de ter-se ligado, com Aristides, a Efialtes, que, em favor do povo, procurou deter e abolir o parlamento do Areópago. E, onde todos os governadores do seu tempo, exceto Aristides e Efialtes, se mostraram violentos e corrompidos, ele se manteve a vida inteira incorruptível quanto à coisa pública, tendo sempre as mãos limpas, fazendo, dizendo e aconselhando com sinceridade, justeza e honestidade, em matéria de administração, sem nunca ter-se aproveitado do dinheiro de quem quer que seja. Acha-se escrito, a este respeito, que um senhor persa, chamado Resaces, traindo seu soberano, o rei da Pérsia, fugiu um dia para Atenas. Ali, diariamente aborrecido pelos apupos e gritarias dos maldizentes, que o apontavam publicamente, recorreu a Cimon, levan-do-lhe duas dornas cheias, uma de dáricos de ouro e outra de dáricos de prata, moedas assim chamadas por conterem o nome de Dario. À vista das dornas Cimon desandou a rir, e perguntou-lhe o que preferia que ele fosse, seu amigo ou seu assalariado. O bárbaro respondeu preferi-lo por amigo. "Leva então o teu ouro e a tua prata, e retira-te, disse-lhe Cimon. Se sou teu amigo, sei que eles estarão sempre ao meu dispor, para usá-los quando se tornem necessários".

Política de Cimon com relação aos confederados dos atenienses.

XVIII. Por esse tempo, os aliados e confederados dos atenienses começaram a enfastiar-se da guerra contra os bárbaros, desejando dali em diante descansar da luta e entregar-se ao trabalho, ao seu tráfego e ao lar, visto haverem já expulso os inimigos de sua terra e não serem por eles aborrecidos. Assim sendo, eles preferiram cotizar-se e pagar a grande indenização que lhes foi exigida, a fornecer homens e navios para a guerra, como dantes. A vista disso, os outros comandantes atenienses constrangiam-nos de toda a forma, submetendo a processo os que deixassem de pagar as elevadas multas a que eram condenados. O rigor com que agiam e o exagero da penalidade tornaram a soberania e o domínio dos atenienses odiosos aos aliados. Cimon, porém, seguia rumo diametralmente oposto: não obrigava nem constrangia ninguém; satisfazia-se em receber dinheiro e embarcações dos que não queriam ou não podiam servir pessoalmente, e em deixá-los embrutecer e tornarem-se indolentes em suas casas, sob os atrativos do descanso, certo de que, fartos da sua estupidez, eles acabariam sendo bons guerreiros, trabalhadores, mercadores e mensageiros dedicados. Fazendo seguir em suas galeras grande número de atenienses, uns após outros, e enrijan-do-os no trabalho por meio de contínuas viagens, em pouco tempo tornou-os senhores e instrutores dos que os assalariaram e mantiveram, porque pouco a pouco se habituaram a enganar e a evitar os próprios atenienses, que viam constantemente em guerra, com os arneses às costas e armas na mão, a guerrear à sua custa, valendo-se da soda e do dinheiro que eles lhes forneciam. De modo que, no fim, eles se viram sujeitos e tributários, ao invés de companheiros e aliados, como de início.

Êle prossegue na guerra contra os persas.

XIX. Também nunca houve capitão grego que abatesse e refreasse a altivez e o poder do grande rei da Pérsia como Cimon. Depois de havê-lo expulso de toda a Grécia, não lhe deu descanso, perseguindo-o a pontapés, como se costuma dizer; antes que os bárbaros pudessem recobrar fôlego, ou dar maior atenção aos seus propósitos, êle procedeu de tal modo, que apoderou-se de algumas de suas cidades pela força e de outras por meio de ardis, fazendo-as rebelar-se contra o rei e pôr-se ao lado dos gregos. Assim, em toda a Ásia, desde a Iônia até Panfília, não havia um guerreiro favorável ao rei da Pérsia. Avisado de que os capitães do rei achavam-se na costa da Panfília com uma grande esquadra e poderoso exército naval, a fim de assustá-los e impedir que ousassem aparecer aquém das ilhas Caledônias, Cimon partiu da ilha de Gnidos e da cidade de Triópio com duzentas galeras, que desde o início haviam sido muito bem construídas e distribuídas por Temístocles, tanto para singrar com facilidade, como para girar com rapidez. Cimon, porém, mandou alargá-las e tirar-lhes o soalho de um costado a outro, para que pudessem transportar maior número de combatentes, para atacar os inimigos. Primeiro foi ao encontro dos fasé-litos, que, não obstante serem gregos de nascimento, negavam-se a auxiliá-los e opunham-se à entrada de suas esquadras em seus portos. Chegou inesperadamente e apoderou-se de toda a planície da região e a seguir achegou suas forças às muralhas. Havendo, na armada de Cimon, antigos amigos dos fasélitos, naturais de Quio, eles procuraram aplacar a cólera de seu chefe, e deram notícias suas, aos que se achavam na cidade, por meio de cartas que amarravam a flechas e jogavam por cima das muralhas. Por fim eles entraram em acordo, obrigando-se os fasélitos a pagar uma multa de dez talentos, correspondentes a seis mil escudos, aproximadamente, e a segui-los, combatendo com eles e para eles, contra os bárbaros.

Êle alcança sobre eles uma vitória naval junto do rio Eurimedão.

XX. Diz Éforo, que o capitão persa que comandava a armada chamava-se Titraustes, e o que dirigia o exército Ferendates. O filósofo Calístenes, porém, primo e discípulo de Aristóteles, escreve que Ariomandes, filho de Góbrias e tenente do rei, tendo a maior autoridade sobre toda a esquadra ancorada junto ao rio Eunmedão, não se decidia a entrar em ação por estar à espera de um reforço de oitenta navios fenícios, que lhe deviam chegar de Chipre. Procedendo de modo contrário, Cimon tratou de atacá-los, antes que as naus fenícias pudessem lá chegar, para obrigá-los à defesa, caso não se decidissem a ir-lhe ao encontro voluntariamente. Percebendo isto, os bárbaros recolheram-se à embocadura do rio Eunmedão, para não serem envolvidos pela retaguarda, nem obrigados a entrar em combate contra vontade. Mas, ao verem os atenienses irem-lhes ao encontro, rumaram para eles com uma frota de seiscentas naus, segundo relata Fenodemo, ou de trezentas e cinqüenta somente, no dizer de Éforo. Nada fizeram, porém, em combate marítimo, que correspondesse ao avultado número de navios postos em ação; pelo contrário, voltaram sem demora as proas para o no, e os que conseguiram alcançá-lo a tempo passaram-se para as forças de terra, que não estavam longe, em posição de combate; os outros, que foram apanhados no trajeto foram mortos, e as suas galeras, de fato numerosas, postas a pique ou aprisionadas. Os atenienses também fizeram duzentos prisioneiros.

Uma segunda contra o exército.

XXI. Isto não impediu que o exército se aproximasse da costa, porque Cimon mostrou-se indeciso se devia ou não ordenar o desembarque de sua gente. Parecia-lhe difícil e perigoso desembarcar contra a vontade dos inimigos, e expor os gregos, fatigados e fartos do primeiro combate, aos bárbaros que se achavam íntegros, em boa forma, descansados e em muito maior número. Todavia, vendo que sua gente confiava nas próprias forças, e que, entusiasmada com a primeira vitória, desejava ir ao encontro dos inimigos, ordenou o desembarque. Os atenienses correram então cheios de incontido ardor e em altos brados, contra os bárbaros, que os esperaram a pés firmes, e sustentaram valentemente o primeiro embate. Neste encontro, áspero e cruel, pereceram os melhores e maiores elementos do exército atacante; os outros, porém, combateram com tal denodo, que se tornaram senhores do campo e puse-ram os bárbaros em fuga, matando muitos e apri-siondo numerosos outros, com suas tendas e pavilhões repletos de toda espécie de bens e de riquezas.

Uma terceira contra a frota fenícia que vinha em auxílio dos persas.

XXII. Cimon já havia adquirido renome como campeão das lutas sagradas, na qualidade de atleta, e, como guerreiro, nas brilhantes vitórias alcançadas pelos gregos no canal de Salamina e na cidade de Platéia, tanto no mar como em terra, quando foi avisado de que as vinte e quatro naus fenícias, vindas muito tarde para enfrentar o primeiro combate, haviam chegado ao cabo de Hidra. Sem perda de tempo, singrou para lá. Os comandantes fenícios nada sabiam de positivo sobre o desastre de sua armada principal, e duvidavam que ela houvesse sido destroçada. De modo que ficaram surpreendidos, ao verem aparecer ao longe a esquadra vitoriosa de Cimon. Travada a luta, os fenícios perderam todas as naus e a maior parte de sua gente, entre afogados e mortos em combate.

Tratado de paz entre o rei da Pérsia e os atenienses.

XXIII. Este feito de armas abateu e venceu de tal modo o orgulho do rei da Pérsia, que ele fez o tratado de paz mencionado pelas histórias antigas, pelo qual prometeu e jurou que, dali em diante, suas armadas não se aproximariam mais do mar da Grécia com velocidade superior à de um cavalo, e que suas galeras e outros vasos de guerra não iriam além das ilhas Caledônias e Cianéias. O historiador Calístenes declara que semelhante coisa não foi lançada no tratado, mas que o rei determinou, pelo pavor que a grande derrota lhe causou; que, a seguir, manteve-se distante do mar da Grécia, que Péricles, com cinqüenta galeras, e Efialtes com trinta, navegaram além das ilhas Caledônias, sem nunca encontrar qualquer frota dos bárbaros. E a razão por que, entre os atos públicos de Atenas, referidos por Crátero, se encontram as cláusulas desta paz, tão longamente ocultada, como coisa realmente existente. Sabe-se que, nessa ocasião, os atenienses ergueram o altar da Paz, e homenagearam extraordinariamente Cálias, que serviu de embaixador junto do rei da Pérsia, para fazê-lo jurar tal tratado.

A cidade de Atenas enriquecida dos despojos dos persas.

XXIV. Ao serem postos em leião os despojos dos inimigos, encontrou-se tanto ouro e prata nos cofres de economias, que cobriu todas as despesas e para a construção do lanço de muralha do castelo, que dá para o sul. Dizem que a ereção das grandes muralhas que ligam a cidade ao porto de Jambes foi construída e concluída depois, mas que os primeiros alicerces foram feitos com o dinheiro que Cimon forneceu dos seus próprios haveres. Como o trabalho foi executado em lugares pantanosos e sujeitos às marés, foi preciso contê-las com pedras de todo tamanho, jogadas a esmo à beira-mar. Logo, foi êle quem primeiro ornou e embelezou a cidade de Atenas, dotando-a de lugares de fácil acesso e deleitoso passatempo, que se tornaram logo muito recomendados; quem mandou plantar plátanos na grande praça; quem dotou a academia, sitada em terreno baldio, de um jardim encantador, semeado de fontes e de ruas para passeios e corridas.

Êle apodera-se do Quersoneso de Trácia, e da ilha de Tasos.

XXV. Tempos depois, ele soube que alguns persas que ocupavam o Quersoneso, ou seja, meia ilha da região de Trácia, não queriam abandoná-la e pediam aos habitantes da alta Trácia que os ajudassem na defesa contra ele, embora não o temessem, pois sabiam haver partido de Atenas com poucos navios. Cimon, de fato, avançou sobre eles com quatro galeras apenas, e tomou-lhes treze. Expulsos os persas, e subjugados os tracianos, ele conquistou para o seu país todo o Quersoneso de Trácia. A seguir, dirigiu-se contra os habitantes da ilha de Tasos, que se haviam insurgido; e, derrotando-os no combate naval, em que se apoderou de trinta e três navios, bloqueou e apoderou-se da cidade, conquistando-lhes as minas de ouro existentes nos arredores e todas as terras.

Acusação, defesa e absolvição de Cimon.

XXVI. Esta conquista facilitou-lhe imenso a passagem para a Macedónia e a possível ocupação de grande parte da mesma. Não querendo fazê-lo, inimigos invejosos de sua glória coligaram-se contra êle, acusando-o de haver recebido dinheiro para tal e de haver se deixado subornar por presentes do rei Alexandre. Chamado à justiça, defendeu-se perante os juízes, justificando-se nestes termos: "Não contraí amizade, nem qualquer relação afetuosa com os jônios ou com os tessalianos, povos abastados e opulentos, nem me encarreguei de defender-lhes as causas, como fizeram outros, para serem por eles venerados e bem remunerados. Aceitei-lhes a hospitalidade, porque admiro e quero imitar-lhes a temperança, a sobriedade e simplicidade do seu modo de viver, que eu prefiro a todos os bens e a toda riqueza, embora me sinta feliz, quando atraio a opinião pública com os despojos dos nossos inimigos".

Referindo-se a esta acusação, narra Estesim-broto que Elpinice, irmã de Cimon, foi ao gabinete de Péricles, o mais severo e o mais veemente de todos os acusadores, para pedir-lhe que não perseguisse tão tenazmente seu irmão, e que ele lhe disse sorridente: "Estás muito velha, Elpinice, muito velha, atualmente, para conseguires demandas como esta". Entretanto, quando a causa entrou em julgamento, êle foi o mais moderado dos acusadores, levantando-se uma única vez para falar contra o acusado, como que distraidamente, o que fez com que Cimon fosse absolvido e declarada caluniosa e improcedente a acusação.

O povo revolta-se contra os nobres na ausência de Cimon. Êle é difamado, ao voltar

XXVII. Depois disto, durante a sua permanência na cidade, Cimon freou a insolência do povo, que não cessava de zombar da autoridade das pessoas honestas, e chamou a si todo o poder e mando. Mas, nem bem êle partiu para a guerra, não tendo mais quem a combatesse, a comuna revolveu de alto a baixo o governo da cidade, instigada e guiada por Efialtes, e desordenou todas as leis e costumes antigos, que sempre estiveram em uso. A corte de Areópago foi impedida de julgar quase todas as causas, porquanto tal direito foi atribuído ao povo, o que transformou o estado em pura democracia, isto é, em governo em que o povo manda e domina. Péricles pôs-se logo em destaque, por apoiar o partido da comuna.

Ao regressar, vendo a autoridade do senado e do conselho tão vergonhosamente diminuída, Cimon tratou de atribuir-lhes o mesmo direito antigo, e de reconduzir ao poder as pessoas de bem, como fora estabelecido desde o tempo de Clístenes. Com isto voltaram os inimigos a gritar contra ele, renovando as difamações antigas de manter relações jlícitas com sua própria irmã, e caluniando-o de favorecer as causas dos lacedemônios. E ao que se referem os versos do poeta Eupólis, muito divulgados, contra Cimon:

Êle não é mau, mas é negligente,
Mais amante do vinho do que do dinheiro;
E algumas Vezes desaparece,
Para ir dormir às noites em Esparta,
Deixando sua irmã em casa, a pobrezinha
Elpinice, dormir sozinha.

Afeto que os lacedemônios dedicam a Cimon

XXVIII. Se, preguiçoso e amante do vinho, ele tomou tantas cidades e venceu tantas batalhas, sendo sóbrio e vigilante não existiria, nem antes, nem depois dele, capitão grego que o excedesse na glória dos feitos guerreiros. É exato que êle sempre apreciou os costumes dos lacedemônios, pois, a dois filhos gêmeos que teve com uma mulher clitoriana, deu a um o nome de Lacedemônio e a outro o de Eleo, segundo relata Estesimbroto, adiantando que foi a razão por que Péricles sempre exprobrou-lhes a linhagem materna. Todavia, o geógrafo Diodoro escreve que, tanto estes como um terceiro filho chamado Tessálio, êle os tivera com Isodice, filha de Euriptólemo, natural de Mégacles. Seja como for, o certo é que a sua reputação, confiança e estima cresceram extraordinariamente entre os lacedemônios, que passaram a considerá-lo, embora moço ainda, mais prestigioso e poderoso que Temístocles, em Atenas. Disto, e do ódio que votavam a este último, bem depressa se aperceberam os atenienses, mas não ligaram grande importância, porque a afeição dos lacedemônios a Cimon forneceu-lhes grandes proveitos e levou-os a induzir, secretamente, os aliados gregos a abandonar os lacedemônios, para se unirem a eles. Sabendo que só em consideração a eles é que Cimon dirigia quase todos os combates dos gregos, e portava-se humana e benevolamente para com os aliados, os lacedemônios não se agastaram com o perverso procedimento dos atenienses, continuando a proferir louvores ao seu grande amigo, em altas vozes. Vendo que a sua deslealdade pôs Cimon a pique de unir-se aos lacedemônios; que ele, quando desejava repreendê-los por qualquer falta cometida ou quando queria induzi-los a fazer alguma coisa, limitava-se a dizer-lhes: "Os lacedemônios não devem proceder assim"; notando as relações que êle mantinha com os seus protegidos, os atenienses, diz Estesimbroto, enciumados, passaram a ter-lhe inveja e ódio.

Tremor de terra em Esparta. Guerra dos hilotas. Os espartanos pedem socorro aos atenienses.

XXIX. A principal carga que lhe fizeram, porém, e que mais o aborreceu, teve lugar em determinada ocasião. No quarto ano do reinado de Arquidamo filho de Zeuxidamo, rei de Esparta, a cidade de Lacedemônia e seus arredores foram vítimas do maior e mais espantoso terremoto de que se tem lembrança até hoje, pois a terra abriu-se em muitos lugares, e afundou à maneira de abismos. A montanha Taigete foi tão fortemente abalada que enormes rochedos desmoronaram. A cidade toda foi abatida e reduzida a um montão de ruínas, exceto cinco casas, que se mantiveram de pé. Dizem que, pouco antes do fenômeno manifestar-se, os moços e moças da cidade faziam exercícios físicos, completamente nus, sob um pórtico e galeria cobertos, quando apareceu-lhes uma lebre. Vendo-a, os moços correram-lhe no encalço, a persegui-la, nus e untados como se achavam, e às gargalhadas. Nem bem haviam partido, o telhado da galena caiu sobre as moças, matando-as todas. Como lembrança do triste acontecimento, o túmulo em que foram sepultadas chama-se até hoje Sismatias, isto é, túmulo das que o terremoto matou. Avisado prontamente do perigo iminente, e vendo que os seus súditos só cuidavam de salvar seus preciosos móveis, pondo-o fora de suas casas, o rei Arquidamo mandou corneteiros tocar caloroso alerta, como se os inimigos estivessem atacando de surpresa, para que os moradores da cidade abandonassem tudo e corressem armados contra eles. Isto salvou, sem dúvida, a cidade de Esparta, porque os hilotas, seus camponeses, e os habitantes das aldeias dos arredores acorreram, armados, de toda parte, para apanhar o inimigo de surpresa e saquear os que houvessem escapado do terremoto. Mas, encontrando todos bem armados, e em posição de combate, voltaram do mesmo modo como haviam chegado, começando depois a fazer-lhes guerra declarada, aliados a alguns vizinhos, e mesmo aos messênios, que, com eles, atacaram deliberadamente os espartanos. É a razão por que os lacedemônios mandaram Periclidas pedir auxílio a Atenas, coisa que, visando Lisístrato, o poeta Aristófanes ridiculariza assim:

Fale, sempre erguido aos altares,
Pede socorro, de opa vermelha.

Efialtes opôs-se resolutamente, declarando que não se devia auxiliar nem engrandecer uma cidade inimiga de Atenas, e sim deixá-la rastejar e ver calcar-se aos pés o orgulho e a arrogância de Esparta.

Cimon vai em seu auxílio.

XXX. Cimon, porém, segundo relata Crítias, preferindo o bem de Esparta ao desenvolvimento de sua pátria, tanto fez, que, a seu pedido, o povo atendeu ao auxílio solicitado, mandando-o com bom número de guerreiros. Ion reproduz-lhe fielmente as palavras proferidas, para induzir o povo a acompanhá-lo, pois pediu-lhe que não permitisse que a Grécia manquejasse, como se a Lace-demônia fosse um de seus pés e Atenas outro, nem admitisse que sua cidade fosse privada de sua companheira, em caso de defesa da Grécia. Obtido os socorros para levar aos lacedemônios, ele seguiu com suas forças pelas terras dos coríntios, dando motivo a que Lacarto, capitão de Corinto, se enfurecesse e lhe declarasse que não devia ter penetrado em suas terras sem o consentimento prévio das autoridades da cidade; porque, quando se bate à porta de uma residência particular, não se entra sem que o dono da casa convide a fazê-lo. Ao que Cimon objetou: "Mas os coríntios não bateram às portas dos cleônios, nem às dos megarianos, para lá entrar; arrombaram-nas, e entraram à força de armas, alegando que tudo devia ser aberto aos mais fortes". Com esta audaciosa resposta ao capitão corintio, que estava precisando dela, Cimon passou com seu exército por Corinto.

Êle vai para o exílio

XXXI. Tempos depois, os lacedemônios pediram novamente socorro aos atenienses, contra os messênios e os hilotas, seus lavradores e escravos, que haviam se apoderado da cidade de Itome. Receosos, porém, da força enviada, por ser muito numerosa, forte e arrojada, preferiram não se utilizar dela, e despediram-na, antes que entrasse em ação. Os atenienses regressaram bastante descontentes e furiosos, decididos a nunca mais satisfazer às necessidades dos lacedemônios; e, procurando vingar-se de Cimon, pela afronta sofrida, exilaram-no de sua terra, condenando-o ao ostracismo. Nestes dez anos de exílio, a que Cimon foi condenado, os lacedemônios decidiram-se a livrar a cidade de Delfos do cativeiro dos focianos, e a tirar-lhes a guarda e superintendência do templo de Apolo, existente na referida cidade. Para tal conseguir, foram acampar junto à cidade de Tanagre, na Fócida, onde os atenienses os foram encontrar, para combatê-los.

Êle se prepara para guerrear na ilha de Chipre e no Egito

XXXII. Sabendo disto, Cimon, ainda no exílio, dirigiu-se armado ao acampamento de Atenas, a fim de cumprir o seu dever, combatendo ao lado dos seus, contra os lacedemônios, arregimen-tando-se nas forças da linha de Oeneida, onde se achava. Seus inimigos começaram a gritar contra êle, dizendo que o seu desejo era perturbar a luta, para depois levar os lacedemônios até à cidade de Atenas. À vista disso, o grande conselho dos quinhentos homens, receoso, proibiu os capitães de recebê-lo como combatente, e êle foi obrigado a retirar-se. Mas, antes de partir, êle pediu a Eutipo Anaflisteano, e a outros amigos em evidência, que participavam de suas idéias e também eram acusados de favorecer os lacedemônios, que cumprissem o seu dever e combatessem denodadamente os inimigos, para que aquela jornada lhes servisse de alívio e de justificação de sua inocência perante seus compa-triotas. O que foi realizado, porque, de posse de suas armas, eles organizaram uma pequena companhia de cem homens, que combateu tão corajosa e obstinadamente, que não restou um único com vida. Este fato causou grande mágoa e arrependimento entre os atenienses, que, falsa e injustamente, che-garam a duvidar da sua lealdade à pátria. À vista disso, eles não guardaram por muito tempo o seu resentimento contra Cimon, em parte, suponho, lembrando-se dos bons serviços que êle lhes prestara no passado, e em parte, creio, porque as circunstân-cias do momento a isso obrigavam. Derrotados em grande combate diante de Tanagre, eles esperavam que os peloponésios os atacassem com numerosas forças. À vista disso, revogaram o banimento de Cimon, por um decreto baixado pelo próprio Périeles, pois a inimizade dos homens, que eram civis e moderados naqueles tempos, suas fúrias, sempre prontas a serenar em se tratando do bem público, e a ambição, que é a mais forte e a mais veemente de todas as paixões que perturbam o espírito humano, cediam e se adaptavam às conveniências e às necessidades da coisa pública.

XXXIII. Logo que Cimon regressou, ele abafou a guerra e conciliou as duas cidades. Vendo, porém, que os atenienses não podiam viver em paz, preferindo estar continuamente em ação e enriquecer e engrandecer pelas guerras, receoso que eles se ligassem a algum povo grego, ou que, girando ao redor do Peloponeso e das ilhas da Grécia, com a grande esquadra que possuíam, chegassem a provocar a guerra civil entre os gregos, ou queixas dos seus aliados contra eles, Cimon armou e equipou duzentas galeras, para ir novamente guerrear em Chipre e no Egito, a fim de habituar os atenienses à guerra contra os bárbaros, e de quando em quando enriquecê-los dos despojos dos que realmente eram seus inimigos. Mas, achando-se tudo pronto para a partida, e as tropas preparadas para o embarque, à noite Cimon teve, dormindo, uma visão, que prevê-mu-o que uma cadela de caça, muito furiosa, latia contra êle, e no meio do seu latido proferia palavras humanas, dizendo:

Vem ousadamente, pois meus filhos e eu,
Se vieres, teremos nisso o maior prazer.

Sendo esta visão difícil de ser resolvida e interpretada, Astífilo, natural da cidade de Possidônia, pessoa bem exercitada em tais conjecturas, e íntimo amigo de Cimon, declarou-lhe que tal visão predizia-lhe a morte, usando destas palavras: "O cão é geralmente inimigo daquele contra quem late, e quer-lhe mal. Tua morte, para o inimigo, seria motivo de grande satisfação. Além disso, a mistura da voz humana com o latido de uma cadela denota um inimigo medo, cujas forças são constituídas de uma mescla de bárbaros e gregos". Depois de esclarecê-lo sobre a visão e sobre a maneira por que êle cedia ao deus Baco, o adivinho abriu a vítima que acabava de imolar, e, em torno do sangue que caiu ao chão, reuniu-se logo grande quantidade de formigas, que aos poucos levaram o sangue coagulado e cobriram com êle toda a volta do grande artelho do pé de Cimon, sem que ninguém percebesse. Seja como for, Cimon ficou ciente da aventura e de como devia proceder. Por fim, o ministro do sacrifício mostrou-lhe o fígado do animal imolado, tendo a extremidade mais volumosa já em decomposição, o que fazia antever um funesto presságio.

Êle vence a frota dos persas.

XXXIV. Todavia, como os acontecimentos avançassem mais rapidamente do que se esperava, êle não pôde furtar-se a esta viagem, e fêz-se ao mar, enviando sessenta de suas galeras ao Egito, e foi, com as restantes, bloquear a costa de Panfíha, onde destroçou a esquadra do rei da Pérsia, consti-tuída de galeras fenícias e cilícias, e conquistou as cidades limítrofes, na esperança de, assim, conseguir penetrar no Egito. Cimon não cogitava de pequenos empreendimentos; o que queria era destruir por completo o império persa, por saber ser Temístocles muito louvado e querido entre os bárbaros, pelo fato de haver prometido a seu rei comandar-lhe as forças e prestar-lhe os maiores auxílios, sempre que ele se decidisse guerrear os gregos. Foi por isso, dizem, que Temístocles, não conseguindo conduzir os negócios da Grécia ao ponto prometido, por ser-lhe difícil vencer a virtude e a sorte de Cimon, que conservava sua armada ao longo da ilha de Chipre, para grandes aventuras, entregou-se voluntariamente à morte. Neste cómenos ele mandou alguns dos seus homens ao oráculo de Júpiter Amon, para consultá-lo sobre coisas de caráter reservado, nunca se sabendo, nem antes, nem depois, para que os mandara. Eles não obtiveram qualquer resposta à consulta, pois, nem bem chegaram, o oráculo ordenou-lhes que voltassem, declarando-lhes que Cimon ali estivera antes deles. A esta resposta, os enviados fizeram-se logo ao mar.

De volta ao campo dos gregos, que se achavam no Egito a fim de auxiliá-los, souberam da morte de Cimon; e, só então perceberam que, veladamente, o oráculo de Júpiter lhes havia comunicado a sua morte, e de achar-se ele entre os deuses.

Sua morte.

XXXV. Êle pereceu no assédio à cidade de Cicio, em Chipre, na opinião de alguns, ou, segundo outros, de um golpe que recebeu em um recontro; ao morrer recomendou aos seus comandados que se afastassem sem comunicar a sua morte. Todos cumpriram as suas ordens, regressando sãos e salvos, sem que os aliados e mesmo os inimigos se apercebessem. De modo que, durante trinta dias, as forças gregas foram dirigidas e governadas por Cimon, embota morto, conforme relata Fanodemo, não havendo, depois dele, capitão grego que fizesse coisa memo-rável contra os bárbaros, porque os arengueiros e os governadores das principais cidades da Grécia lançaram seus súditos uns contra os outros, não havendo pessoa capaz de os apaziguar. As guerras civis, que muito aproveitaram aos persas, arruinaram o poderio dos gregos, tão grande que não há palavras que possam descrevê-lo.

Suas cinzas levadas para a Atiça. Os habitantes de Cicio honram seu sarcófago.

XXXVI. Muito depois, Agesilau levou as forças gregas à Ásia. Antes, porém, que êle conseguisse realizar algum feito memorável, foi obrigado a regressar à sua terra, para abafar as novas perturbaçôes e guerras civis, novamente desencadeadas entre os gregos. Ao fazê-lo, deixou os tesoureiros e financistas do rei da Pérsia encarregados de arrecadar tributos e benefícios das cidades gregas da Ásia, embora fossem aliadas e confederadas da Lacedemônia. Durante o governo de Cimon, nenhum comissário, beleguim ou guerreiro, mesmo com ordem ou mandato do rei, ousava aproximar-se da costa mais de vinte e quatro ou vinte e cinco léguas. As sepulturas, até hoje chamadas Címônia, atestam que suas cinzas e seus ossos foram transportados para a Ática. Todavia, os da cidade de Cicio ainda honram uma sepultura, que dizem ser o túmulo de Cimon, erguido, segundo escreveu o orador Nausicrates, porque, por ocasião da grande penúria e esterilidade da terra, um oráculo ordenou ao povo que não desprezasse Cimon, mas que o venerasse e honrasse como um deus. Tal foi a vida do capitão grego.


Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

nov 012010
 

Quem foi Camões

LUIS DE CAMÕES (Lisboa, 1524-1580) estudou na Universidade
de Coimbra e militou com distinção, perdendo um olho na campanha de
Ceuta. Um amor infeliz por D. Catarina de Ataíde certamente contribuir
para quatizar de dulcíssimo romantismo a vida deste poeta-soldado. Em
1553 embarcou para a Índia, exercendo em Macau um ofício de prove
dor, e de lá voltou a Portugal por Moçambique. Amargurados foram por
extrema penúria os últimos dias do inditoso mas afamado cantor de de Os
Lusíadas, ao qual, além deste poema, uma das grandes epopéias modernas
deve a pátria literatura muitas outras poesias líricas e as três comedi
dos Anfitriões, El-Rei Seleuco e Filodemo.

Quanto ao mérito literário da epopéia camoniana, por escusado tem
encarecê-la; ela é para a língua portuguesa o mesmo que para a italian
a obra do Dante; a pedra angular sobre que se elevou o trabalho arqui
tetônico de outras gerações.

Seleção de Poesia de Camões

Episódio de Inês de Castro

CXX

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo o doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito;
Nos saudosos campos do Mondego,
De seus fermosos olhos nunca enxuito, (815)
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

CXXI

De teu príncipe ali te respondiam
As lembranças, que n’aima lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam,
De noite em doces sonhos, que mentiam,
De dia em pensamentos, que voavam;
E quanto, enfim, cuidava, e quanto via,
Eram tudo memórias de alegria. (816)

CXXII

De outras belas senhoras e princesas
Os desejados tálamos (817) enjeita;
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto (818) suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas
O velho pai sisudo, (819) que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

CXXIII

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho, que tem preso,
Crendo c’o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor (820) consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada? (821)

CXXIV

Traziam-na os horríficos algozes
Ante o rei, já movido à piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua (822) o persuade.
Ela, com triste e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava, (823)

 

CXXV

Pera o céu cristalino alevantando
Com lágrimas os olhos piedosos,
Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos,
E depois nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia,
Para o avô cruel assi dizia:

CXXVI

"Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fêz cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento,
Como co’a mãe de Nino já mostraram
E c’os irmãos que Roma edificaram: (824)

CXXVII

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito,
(Se de humano é matar uma donzela (825)
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela:
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha. (826)

CXXVIII

E se, vencendo a maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida com clemência
A quem para perdê-la não fêz erro; (827)
Mas, se to assi merece essa inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria, ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.

CXXIX

Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso piedade,
Que entre peitos humanos não achei.
Ali c’o amor intrínseco, e vontade (828)
Naquele por quem mouro, (829) criarei
Estas relíquias suas, que aqui viste,
Que (830) refrigério sejam da mãe triste".

CXXX

Queria perdoar-lhe o rei benino,
Movido das palavras, que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino,
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais, e cavaleiros? (831)

 

CXXXI

Qual contra a linda moça Policena, (832)
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

CXXXII

Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fêz rainha,
As espadas banhando e as brancas flores, (833)
Que ela dos olhos seus regadas tinha, (834)
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

CXXXIII

Bem puderas, ó sol, da vista destes
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa (835) de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Per muito grande espaço (836) repetistes!

CXXXIV

Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas (837) maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a côr murchada:
Tal está morta a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva côr, c’oa doce vida.

CXXXV

As filhas do Mondego a morte escura (838)
Longo tempo chorando memoraram:
E, por memória eterna, em fonte pura,
As lágrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água, e o nome amores!

(Os Lusíadas — Canto III).

Tromba Marinha

XVII

Os casos vi, que os rudos marinheiros,
Que têm por mestra a longa experiência,
Contam por certos sempre, e verdadeiros
Julgando as coisas só pela aparência:

E os que têm juízos mais inteiros,
Que só por puro engenho e por ciência
Têm do mundo os segredos escondidos,
Julgam por falsos, ou mal entendidos.

XVIIÍ

Vi, claramente visto, o lume vivo, (839)
Que a marítima gente tem por santo
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura, e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certa, (840) de alto espanto,
Ver as nuvens do mar, com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.

XIX

Eu o vi certamente (e não presumo
Que a vista me enganava) levantar-se
No ar um vaporzinho e sutil fumo,
E do vento trazido rodear-se: (841)
Daqui levado (842) um cano ao polo sumo
Se via, tão delgado que enxergar-se
Dos olhos (843) facilmente não podia:
Da matéria das nuvens parecia.

XX

Ia-se pouco e pouco acrescentando,
E mais que um largo mastro se engrossava;
Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
Os golpes grandes de água em si chupava; (844)

Estava-se co’as ondas ondeando,
Em cima dele üa nuvem se espessava,
Fazendo-se maior, mais carregada
Co cargo grande d’água em si tomada.

XXI

Qual roxa sanguessuga se veria
Nos beiços da alimária (que imprudente
Bebendo a recolheu na fonte fria)
Fartar co sangue alheio a sede ardente;
Chupando mais e mais se engrossa e cria;
Ali se enche e se alarga grandemente:
Tal a grande coluna, enchendo, aumenta,
A si e a nuvem negra, que sustenta.

XXII

Mas, depois que de todo se fartou,
O pé, que tem no mar, a si recolhe,
E pelo céu chovendo, enfim, voou,
Porque co’a água a jacente água molhe;
Às ondas torna as ondas que tomou;
Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
Vejam agora os sábios na escritura
Que segredos são estes dc Natura!

(Os Lusíadas Canto V).

Episódio do Adamastor

XXXVII

Porém já cinco sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca d’outrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando;

Quando, uma noite, estando descuidados (845)
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

XXXVIII

Tão temerosa vinha e carregada
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo o negro mar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
Õ Potestade, disse, sublimada!
Que ameaço divino, ou que segredo,
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor coisa parece que tormenta?

XXXIX

Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura,
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a côr terrena e pálida,
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos. (846)

XL

Tão grande era de membros que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo; (847)
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo:
Arrepiam-se as carnes e o cabelo
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.

 

XLI

E disse: "Ó gente ousada mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas:
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas:
Pois os vedados términos quebrantas, (848)
E navegar meus longos mares ousas, (849)
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho:

XLII

Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do úmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento:
Ouve os danos de mi, que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento
Per todo o largo mar e pola terra
Que inda hás de sojugar com dura guerra.

XLIII

Sabe que quantas naus esta viagem,
Que tu fazes, fizeram de atrevidas,
Inimiga terão esta paragem
Com ventos e tormentas desmedidas:
E na primeira armada, que passagem
Fizer por estas ondas insofridas, (850)
Eu farei de improviso tal castigo,
Que seja mor o dano que o perigo. (851)

 

XLIV

Aqui espero tomar, se não me engano, (852)
De quem me descobriu (853) suma vingança:
E não se acabará só nisto o dano
De vossa pertinace confiança;
Antes em vossas naus vereis cada ano
(Se é verdade o que meu juízo alcança)
Naufrágios, perdições de toda sorte,
Que o menor mal de todos seja a morte.

XLV

E do primeiro ilustre (854) que a ventura
Como fama alta fizer tocar os céus,
Serei eterna e nova sepultura,
Por juízos incógnitos de Deus:
Aqui porá da turca armada dura
Os soberbos e prósperos troféus;
Comigo de seus danos o ameaça
A destruída Quíloa com Mombaça.

XLVI

Outro também virá de honrada fama,
Liberal, cavaleiro e namorado, (855)
E consigo trará, fermosa dama
Que Amor per grão mercê lhe terá dado:
Triste ventura e negro fado os chama
Neste terreno meu, que duro e irado
Os deixará dum cru naufrágio vivos,
Pera verem trabalhos excessivos.

 

XLVII

Verão morrer com fome os filhos caros,
Em tanto amor gerados e nascidos;
Verão os Cafres ásperos e avaros
Tirar à linda dama seus vestidos:
Os cristalinos membros e preclaros
À calma, ao frio, ao ar verão despidos,
Despois de ter pisada longamente
Cos delicados pés a areia ardente.

XLVIII

E verão mais os olhos que escaparem
De tanto mal, de tanta desventura,
Os dois amantes míseros ficarem
Na férvida e implacábil (856) espessura;
Ali despois que as pedras abrandarem
Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
Abraçados, as almas soltarão
Da fermosa e misérrima prisão".

XLIX

Mas ia per diante o monstro horrendo
Dizendo nossos fados, (857) quando alçado
Lhe disse eu: "Quem és tu? que este estupendo
Corpo, certo, me tem maravilhado".
A boca e os olhos negros retorcendo,
E dando um espantoso e grande brado
Me respondeu com voz pesada e amara,
Como quem da pergunta lhe pesara: (858)

L

Eu sou aquele oculto e grande cabo,
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrano,
Plínio, e quantos passaram, fui notório:
Aqui toda a africana costa acabo
Neste meu nunca visto promontório,
Que pera o polo antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.

LI

Fui dos filhos aspérrimos da terra,
Qual Encélado, Egeu e o Centimano; (859)
Chamei-me Adamastor, e fui na guerra
Contra o que vibra os raios de Vulcano:
Não que pusesse serra sobre serra,
Mas, conquistando as ondas do Oceano,
Fui capitão do mar, por onde andava
A armada de Netuno, que eu buscava.

LX

Assi contava, e cum medonho choro
Súbito de ante os olhos se apartou;
Desfêz-se a nuvem negra, e c’um sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantando as mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse os duros
Casos que Adamastor contou futuros.

(Os Lusíadas – Canto V).

Os doze de Inglaterra

XLIII

No tempo que (860) do reino a rédea leve
João, filho de Pedro, moderava,
Depois que sossegado e livre o teve
Do vizinho poder que o molestava,
Lá na grande Inglaterra, que da neve
Boreal sempre abunda, semeava
A fera Erinis dura e má cizânia,
Que lustre fosse à nossa Lusitânia.

XLIV

Entre as damas gentis da corte inglesa
E nobres cortesãos, acaso um dia
Se levantou discórdia em ira acesa;
Ou foi opinião, ou foi porfia.
Os cortesãos, a quem tão pouco pesa
Soltar palavras graves de ousadia,
Dizem que provarão que honras e famas
Em tais damas não há pera ser damas;

XLV

E que se houver alguém com lança e espada
Que queira sustentar a parte sua,
Que (861) eles em campo raso ou estacada
Lhe darão feia infâmia, ou morte crua.
A feminil fraqueza, pouco usada,
Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua (862)
De forças naturais convenientes,
Socorro pede a amigos e parentes.

XLVI

Mas, como fossem grandes e possantes
No reino os inimigos, não se atrevem
Nem parentes, nem férvidos amantes,
A sustentar (863) as damas, como devem;

Com lágrimas fermosas e bastantes
A fazer que em socorro os deuses levem
De todo o céu, por rostos de alabastro, (864)
Se vão todas ao duque de Alencastro.

XLVII

Era este Inglês potente, e militara
Cos Portugueses já contra Castela,
Onde as forças magnânimas provara
Dos companheiros e benigna estrela:
Não menos nesta terra exp’rimentara
Namorados afeitos, (865) quando nela
A filha viu, que tanto o peito doma
Do forte rei que por mulher a toma.

XLVIII

Este, que socorrer-lhe (866) não queria,
Por não causar discórdias intestinas,
Lhe diz: "Quando o direito pretendia
Do reino lá das terras iberinas,
Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
Tanto primor e partes (867) tão divinas
Que eles sós poderiam, se não erro,
Sustentar vossa parte a fogo e ferro.

XLIX

E se, agravadas damas, sois servidas,
Por vós lhe mandarei embaixadores,
Que, por cartas discretas e polidas
De vosso agravo os façam sabedores;

 

Também por vossa parte encarecidas
Com palavras de afagos e de amores
Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio
Que ali tereis socorro e forte esteio".

L

Destarte as aconselha o duque experto,
E logo lhe (868) nomeia doze fortes:
E porque cada dama um tenha certo,
Lhe manda que sobre eles lancem sortes;
Que elas só doze são: e, descoberto
Qual a qual tem caído das consortes (869)
Cada uma escreve ao seu por vários modos,
E todas a seu rei, e o duque a todos.

LI

Já chega a Portugal o mensageiro;
Toda a corte alvoroça a novidade:
Quisera o rei sublime ser primeiro,
Mas não lho sofre (870) a régia majestade.
Qualquer dos cortesãos aventureiros
Deseja ser com férvida vontade; (871)
E só fica por bem-aventurado,
Quem já vem pelo duque nomeado.

LII

Lá na leal cidade, donde teve
Origem (como é fama) o nome eterno
De Portugal, armar madeiro leve
Manda o que tem o leme do governo.
Apercebem-se (872) os doze em tempo breve
D’armas e roupas de uso mais moderno,
De elmos, cimeiras, letras e primores,
Cavalos e concertos de mil cores.

 

LIII

Já do seu rei tomado têm licença,
Para partir do Douro celebrado,
Aqueles que escolhidos por sentença
Foram do duque inglês exp’rimentado. (873)
Não há na companhia diferença
De cavaleiro destro, ou esforçado;
Mas um só, que Magriço se dizia, (874)
Destarte fala à forte companhia:

LIV

"Fortíssimos consócios, eu desejo
Há muito já de andar terras estranhas,
Por ver mais águas que as do Douro e Tejo,
Várias gentes e leis, e várias manhas: (875)
Agora que aparelho certo vejo
(Pois que do mundo as cousas são tamanhas)
Quero, se me deixais, ir só por terra,
Porque eu serei convosco em Inglaterra.

LV

E quando caso fôr que eu, impedido
Por quem das cousas é última linha, (876)
Não fôr (877) convosco ao prazo instituído,
Pouca falta vos faz a falta minha.
Todos por mim fareis o que é devido;
Mas, se a verdade o esp’rito me adivinha,
Rios, montes, fortuna, ou sua inveja
Não farão que eu convosco lá não seja".

LVI

Assi diz; e, abraçados os amigos,
E tomada licença, enfim se parte:

Passa Lião, Castela, vendo antigos
Lugares, que ganhara o pátrio Marte, (878)
Navarra, cos altíssimos perigos
Do Pireneu, que Espanha e Gália parte.
Vistas, enfim, de França as cousas grandes,
No grande empório foi parar de Frandes.

LVII

Ali chegado, ou fosse caso ou manha, (879)
Sem parar se deteve muitos dias;
Mas dos onze a ilustríssima companha
Cortam do mar do Norte as ondas frias.
Chegados de Inglaterra à costa estranha, (880)
Pera Londres já fazem todos vias:
Do duque são com festa agasalhados,
E das damas servidos e amimados. (881)

LVIII

Chega-se o prazo e dia assinalado
De entrar em campo já cos doze Ingleses,
Que pelo rei já tinham segurado: (882)
Armam-se d’elmos, grevas e de arneses.
Já as damas têm por si fulgente e armado
O Mavorte feroz dos Portugueses:
Vestem-se elas de cores e de sedas,
De ouro e de jóias mil, ricas e ledas.

LIX

Mas aquela a quem fora em sorte dado
Magriço, que não vinha, com tristeza
Se veste, por não ter quem nomeado
Seja seu cavaleiro nesta empresa;

Bem que os onze apregoam que acabado
Será o negócio assi na corte inglesa,
Que as damas vencedoras se conheçam,
Posto que dois e três dos seus faleçam.

LX

Já num sublime e público teatro
Se assenta o rei inglês com toda a corte:
Estavam três e três, e quatro e quatro,
Bem como a cada qual coubera em sorte.
Não são vistos do sol, do Tejo ao Batro,
De força, esforço e d’ânimo mais forte
Outros doze sair, como os Ingleses
No campo contra os onze Portugueses.

LXI

Mastigam os cavalos, escumando,
Os áureos freios com feroz semblante;
Estava o sol nas armas rutilando
Como em cristal, ou rígido diamante;
Mas enverga-se num e noutro bando
Partido desigual e dissonante,
Dos onze contra doze: quando a gente
Começa a alvoroçar-se geralmente.

LXII

Viram (883) todos o rosto aonde havia,
A causa principal do reboliço;
Eis entra um cavaleiro que trazia
Armas, cavalo ao bélico serviço:
Ao rei e às damas fala; e logo se ia
Pera os onze, que este era o grão Magriço.
Abraça os companheiros como amigos,
A quem não falta certo nos perigos.

 

LXIII

A dama, como ouviu que este era aquele
Que vinha a defender seu nome e fama,
Se alegra e veste ali do animal de Hele, (884)
Que a gente bruta mais que virtude ama.
Já dão sinal, e o som da tuba impele
Os belicosos ânimos, que inflama;
Picam d’esporas, largam rédeas logo,
Abaixam lanças, (885) fere a terra fogo.

LXIV

Dos cavalos o estrépito parece
Que faz que o chão debaixo todo treme; (886)
O coração no peito, que estremece,
De quem os olha, se alvoroça e teme. (887)
Qual do cavalo voa, que não desce; (888)
Qual, co cavalo em terra dando, geme;
Qual vermelhas as armas faz de brancas;
Qual cos penachos do elmo açouta as ancas. (889)

LXV

Algum dali tomou perpétuo sono
E fêz da vida ao fim breve intervalo;
Correndo algum cavalo vai sem dono,
E noutra parte o dono sem cavalo.
Cai a soberba inglesa, do seu trono,
Que dois ou três já fora vão do valo. (890)
Os que de espada vêm fazer batalha,
Mais acham já que arnês, escudo e malha. (891)

 

LXVI

Gastar palavras em contar extremos
De golpes feros, cruas estocadas,
É desses gastadores, que sabemos,
Maus do tempo com fábulas sonhadas;
Basta por fim do caso, que entendemos,
Que com finezas altas e afamadas
Cos nossos fica a palma da vitória,
E as damas vencedoras e com glória.

LXVII

Recolhe o duque os doze vencedores
Nos seus paços com festas e alegria;
Cozinheiros ocupa e caçadores
Das damas a fermosa companhia,
Que querem dar aos seus libertadores
Banquetes mil cada hora e cada dia,
Enquanto se detêm em Inglaterra,
Até tornar à doce e cara terra.

(Os Lusíadas – Canto VI).

Epílogo

CXLV

No’ mais, Musa, no’ mais, (892) que a lira tenho
Destemperada, (893) e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá (894) a pátria, não, que está metida
No gosto da cubica e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza. (895)

 

CXLVI

E não sei por que influxo de destino
Não tem um ledo (896) orgulho e geral gosto.
Que os ânimos levanta de contino,
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes!

CXLVII

Olhai que ledos vão por várias vias,
Quais rompentes leões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras (897) e de Mouros
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a peixes, ao profundo, (898)

CXLVIII

Por vos servir a tudo aparelhados,
De vós tão longe, sempre obedientes
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar resposta, prontos e contentes.
Só com saber que são de vós olhados,
Demônios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido
Que vencedor vos façam, não vencido.

CXLIX

Favorecei-os logo e alegrai-os,
Com a presença e lêda humanidade; (899)

 

De rigorosas leis desalivai-os, (900)
Que assi se abre o caminho à santidade;
Os mais exp’rimentados levantai-os,
Se com a experiência têm bondade,
Pera vosso conselho; pois que sabem
O como, o quando, e onde as cousas cabem.

CL

Todos favorecei em seus ofícios,
Segundo têm das vidas o talento;
Tenham Religiosos — exercícios
De rogarem por vosso regimento,
Com jejuns, disciplinas, pelos vícios
Comuns; toda ambição terão por vento; (901)
Que o bom Religioso verdadeiro
Glória vã não pretende nem dinheiro.

CLI

Os cavaleiros tende em muita estima,
Pois com seu sangue intrépido e fervente
Estendem não somente a lei de cima,
Mas inda vosso império preeminente;
Pois aqueles, que a tão remoto clima
Vos vão servir com passo diligente,
Dois inimigos vencem: uns os vivos,
E (902) (o que é mais) os trabalhos excessivos.

CLII

Fazei, senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses
Possam dizer que são pera mandados, (903)
Mais que pera mandar, os Portugueses.

Tomai conselhos só de exp’rimentados,
Que viram largos anos, largos meses:
Que, posto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.

CLIII

De Formião, filósofo elegante,
Vereis como Aníbal escarnecia, (904)
Quando das artes bélicas diante
Dele com larga voz tratava e lia. (905)
A disciplina militar prestante
Não se aprende, senhor, na fantasia
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.

CLIV

Mas eu, que falo, humilde, baixo e rudo,
De vós não conhecido, nem sonhado? (906)
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai às vezes acabado;
Nem me falta na vida honesto estudo
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.

CLV

Para servir-vos, braço às armas feito,
Para cantar-vos, mente às musas dada;

Só me falece ser a vós aceito, (907)
De quem virtude deve ser prezada:
Se me isto o céu concede, e o vosso peito
Digna empresa tomar de ser cantada,
—- Como a pressaga mente vaticina,
Olhando a vossa inclinação divina —

CLVI

Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante; (908)
A minha já estimada e leda Musa
Fico (909) que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandra em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter inveja. (910)

(Os Lusíadas – Canto X).

Soneto 19

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor, que me ficou,
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo daqui me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Soneto 29

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia. (911)

Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida; (912)

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.

(Obras, tomo II, da edição do Visconde de Jurumenha) .

Ode 9

Fogem as neves frias
Dos altos montes, quando reverdecem

As árvores sombrias;
As verdes ervas crescem,
E o prado ameno de mil cores tecem.

 

Zéfiro brando aspira;
Suas setas amor afia agora;
Progne triste, suspira,

E Filomela chora:
O céu da fresca terra se namora.

Já a linda Citeréia
Vem, do coro das ninfas rodeada:
A branca Pasitéia

Despida e delicada,
Com as duas irmãs acompanhada.
Enquanto as oficinas
Dos Ciclopas Vulcano está queimando,

Vão colhendo boninas
As ninfas, e cantando,

A terra co ligeiro pé tocando.

Desce do áspero monte
Diana, já cansada da espessura,
Buscando a clara fonte,
Onde, por sorte dura,
Perdeu Acteão a natural figura.

Assi se vai passando
A verde primavera e o seco estio;
O outono vem entrando
E logo o inverno frio,
Que também passará por certo fio.

Ir-se-á embranquecendo
Com a frígida neve o seco monte;
E Júpiter chovendo
Turbará a clara fonte;
Temerá o marinheiro a Orionte. (913)

Porque, enfim, tudo passa;
Não sabe o tempo ter firmeza em nada;
E a nossa vida escassa
Foge tão apressada
Que, quando se começa, é acabada.

(Idem).

Vocabulário e Comentários aos poemas de Camões

  • (815) As vozes latinas fructu, exsuctu (do v. suggere, sugar, tornar seco) e multu, vocalizaram o c e o I em i, dando fruito e enxuito como formas anteriores de fruto e enxuto; a voz muito persistiu. É de notar, entretanto, que Camões, nessa est., escreveu fructo sem a alteração do c, e enxuto com a redução do ditongo. Epifânio Dias atribuiu o fato a distração do poeta; J. Maria Rodrigues aceita-o como rimas imperfeitas, de que há outras amostras (poucas, aliás) no poema (VII, 77: Mauritano, humano e venerando, que se emendou para soberano em algumas edições; X, 88: fazendo, horrendo e urbulento,substituído por metuendo; X, 128: molhados e escapados [os Cantos] e exe- cutado [o mando]; algumas edições põem o Canto por manter perfeita a rima.
  • (816) Eram tudo memórias de alegria. V. a n. 396.
  • (817) tálamo, do gr. thálamos, leito conjugal, aí casamento; epitalâmio, poesia nupcial.
  • (818) gesto, do lat. gestu-, movimento; com o movimento extensivo à fisionomia, assumiu o vocáb. o sentido de rosto entre os clássicos. Em Os Lusíadas cerca de trinta vezes usa Camões o termo gesto designando o rosto.
  • (819) sisudo, de siso, e este do lat. sensu-, Camões escreveu sesudo, mais consentâneo com o vocábulo *seso, que seria a forma natural, oriunda daquela. Viso é juízo.
  • (820) furor = loucura, delírio: sentido do lat. furor.
  • (821) delicado e delgado, ambos procedentes do lat. delicatu-: o primeiro, de formação erudita, comporta o sentido moral; o segundo, mais alterado, retém a significação física.
  • (822) morte crua = morte cruel, violenta.
  • (823) Que = O que (ou cousa que, fato que, sucesso que) mais que a própria morte a magoava.
  • (824) Semíramis, mãe de Nino; e Rómulo e Remo. Veja o comentário de Epifânio Dias, em Os Lusíadas, 2.a ed., 1.° tomo, p. 201.
  • (825) donzela —explica Sales Lencastre — porque se conservava esse nome às damas que haviam servido de aia ou donzela às senhoras nobres, como sucedia com Inês.
  • (826) tinha por tenho, por amor da rima.
  • (827) fêz erro = cometeu erro. O v. fazer é talvez o que mais produz expressões de molde francês; mas é fato verificado que muitas já se entranharam na língua desde os inícios, c outras se vão nela acomodando. São duas ou três centenas de locuções a cargo desse verbo, um dos mais prestantes do idioma pátrio.
  • (828) vontade = coração, benquerença, dedicação.
  • (829) mouro= morro. A forma moiro ou mouro (da primeira pessoa — morio(t) do v. lat. mori) foi usada pelos quinhentistas. Conjugava-se o pres. do indic: moiro ou mouro, morres, morre, morremos, morreis, morrem. O pres. do subj. pela primeira pessoa: moira ou moura, mouras, moura, mouramos, mourais, mouram. Morais averba o are. mourir (fr. mourir, esp. morir, ital. moriré). Da raiz de mori há lambem moribundo e esmorecer. Ainda em Camões se lê: "Mas moura, enfim [o povo lusitano] nas mãos das brutas gentes" (Lus., II, 41); por quem mouro =por causa de quem vou morrer.
  • (830) que = para que.
  • (831) e cavaleiros?interrogação de espanto e indignação: e [sois] cavaleiros?!
  • (832) Policena — filha de Príamo, rei de Tróia e noiva do herói grego Aquiles. Este apareceu, depois de morto, a seu filho Pirro, a quem pediu matasse a moça, o que fêz.
  • (833) as obras e as brancas flores — são expressões cuja interpretação tem posto em divergência os comentadores de Os Lusíadas. Obras são naturalmente o conjunto: — a boca, as faces, os olhos,
    o mento, a cabeleira — da formosa cabeça, a cujos encantos se rendeu o coração do príncipe; e brancas flores são, segundo alguns comentadores, as faces descoradas de Inês, regadas de lágrimas e, neste caso, obras e brancas flores são complemento do v. suster e nada têm gramaticalmente com o v. banhar: Os matadores se encarniçavam banhando as espadas no colo de alabastro); segundo
    outros, as brancas flores são os seios, para onde teriam descido as lágrimas e que ficam, no atentado, banhados peío sangue em que os assassinos banharam as espadas (e, neste caso, brancas flores se ligam, como as espadas, ao v.banhar). Leiam-se e confrontem-se: Camões médico, de Afrânio Peixoto, Aillaud e Bertrand, 2.a ed., pp. 57-68), e A linda Inês, de M. Said Ali, na Rev. de Filol. e de Hist., tomo II, pp. 5-16).
  • (834) regadas tinha: part. pass. ativo, flexionado para concordar com o complemento direto. (Hoje, na voz ativa, o part. pass. fica inalterado). Veja no poema: "íem passados tão ásperos perigos"
    (I, 29); "E do Jordão a areia tinha vista" (III, 27); "as armas… / que a ferrugem da paz gastadas tinha" (IV, 22); "depois de ter pisada… a areia ardente" (V, 47).
  • (835) seva mesa — mesa horrível, cruel, desumana. Saevae mensae — festins abomináveis (de carne humana).
  • (836) espaço_ =: tempo.
  • (837) lascivas = irrequietas, alegres, brincalhonas, travessas: com esse sentido
    é latinismo.
  • (838) morte escura = horrível, cruenta.
  • (839) o lume vivo — o fogo de Santelmo ou, como também ]he chamavam,corpo santo. Morais o designa "fogo elétrico, que nas tormentas aparece nos mastros e outras partes do navio".
  • (840) certo = certamente; como adiante, no Episódio do Adamastor, estrofe 49, quarto verso.
  • (841) rodear-se = andar à roda, mover-se em torno de si mesmo, espiralar-se.
  • (842) levado — levantado. V. as nn. 51 c 490.
  • (843) enxergar-se dos olhos facilmente não podia = não podia ser divisado facilmente pelos olhos.
  • (844) golpes = porções, quantidades, bocados, goles, tragos. V. a n. 83.
  • (845) descuidados = sem preocupações ou cuidados próprios; mas, de qualquer modo, vigiando, isto é, em situação de quem vigia, reunidos na proa.
  • (846) Os termos estão despojados de preposição, que seria com, em quase todos: com o rosto carregado, com a barba esquálida etc. É um caso de assíndeto.
  • (847) milagres = maravilhas; têm, aliás a mesma raiz, do v. lat. mirari,espantar-se, surpreender-se:miraculu- e mirabilia — plural (tomado como fem.) de mirabilis. Cognatos: mirar, mirante, admirar, admiração, maravilhar, maravilhoso, miríjico etc. O adjet. mirabolante, oriundo de raiz grega, só tem com o verbo mirar o sentido, decorrente da falsa etimologia.
  • (848) quebrantas =quecbras, infringes, ultrapassas.
  • (849) longos mares — longínquos, afastados, temotos mares.
  • (850) insofridas = indomáveis, rebeldes, irrefreáveis, que não forem jugo, (Forma passiva com força ativa).
  • (851) A primeira armada foi a de Cabral, que acabava de deixar as praias do Brasil, e da qual se perderam no Tormentório quatro navios. "O dano foi maior que o perigo — diz Cláudio Basto — porque os navios se afundaram tão rapidamente que os tripulantes mal deveriam ter sentido a morte" (Os Lusíadas de Luís de Camões, Porto, 1930, p. 356).
  • (852) se não me engano — Essa intercalada condicional não condiz com a lógica, mas apenas com a rima.
  • (853) quem me descobriu — Refere-se a Bartolomeu Dias, que aí pereceu em 1500, com o seu navio, da frota de Cabral.
  • (854) ilustre está substantivado: é aí o primeiro vice-rei da índia, D. Francisco de Almeida.
  • (855) é Manuel de Sousa Sepúlveda, com sua mulher.
  • (856) implacábil — como visíbil, terríbil, instábil, inábil, incansábil, inso fríbil, vendíbil — que é a forma que Camões conserva a tais adjetivos, sebem que escreva notável (VI, 68) e o plural memoráveis (VII, 70 e VIII, 36)e inexplicáveis (VIII, 12).
  • (857) lados = destinos.
  • (858) como quem…lhe = como aquele que se pesara (se molestara) da pergunta, ou a quem a pergunta molestara. V. a n. 442.
  • (859) Deslocada pela métrica a sílaba tônica de Centimano.
  • (860) — No tempo que = em que. V. a n. 384.
  • (861) Que — conjunção integrante, do primeiro verso, aqui repetida. Em vários passos se depara, nos escritos clássicos, essa repetição do que,praticada também, alguma vez, por modernos. No poema camoniano há outras amostras (I, 55; VIII, 61 etc).
  • (862) nua = desprovida, desamparada, desaparelhada, carecida.
  • (863) a sustentar = a defender, a amparar.
  • (864) Com lágrimas [que descem] pelos rostos de alabastro, lágrimas [de faces] formosas, lágrimas bastantes ou capazes de atrair em seu socorro todos os deuses do céu…
  • (865) namorados afeitos ~ afetos de amor — que êle verificou em Portugal, por ter sua própria filha, D. Filipa, desposado "o forte rei" D. João I, fundador da dinastia de Avis. Na última estrofe deste c. VI, Camões escreve: "de afeitos ocupado", isto é, levado por afetos.
  • (866) —socorrer-lhe — Este v. teve, entre os clássicos, as duas sintaxes: com dativo, como ai, e com acusativo, como na est. 81 do c. III: "…vai socorrer o filho"; e na est. 65 do mesmo canto: "…a socorrê-la vinha". Na língua atual dá-se-lhe objeto direto.
  • (867) partes = qualidades, dotes, predicados.
  • (868) lhe =: lhes.
  • (869) qual [deles] tenha caído a qual das consortes
    (companheiras indicadas pela sorte).
  • (870) sofre = permite, consente, tolera.
  • (871) Qualquer dos cortesãos deseja ser aventureiro (cavaleiro andante, paladino, defensor).
  • (872) aperceber-se — aparelhar-se, munir-se.
  • (873) experimentado = experiente, hábil.
  • (874) Magriço se dizia= se chamava.
  • (875) manhas = usanças, costumes.
  • (876) última linha das cousas — a morte.
  • (877) E quando caso fôr que eu …não fôr, isto é: que eu não seja. Epifânio Dias assinala o fato sob o nome de assimilação de tempos e explica-o em nota à est.33 do canto VII.
  • (878) que ganhara o pátrio Marte = em que o exército luso obtivera vitórias.
  • (879) caso ou manha = acaso ou propósito.
  • (880) Note o estudante a inversão na ordem dos termos (anástrofe) nos 3.°, 4.° e 5.° versos; e observe, no 4.°, a concordância do verbo no pl. com o complemento do coletivo, e não com éste. V. a n. 517. (881) Do duque, das damas —agentes da passiva.
  • (882) Segurar o campo, nas justas e torneios, era assegurar aos contendores a ordem, a lealdade, a proteção contra a fraude; ou, ainda, em luta violenta, afiançar-lhes a impunidade, no caso de alferirem ou matarem os adversários.
  • (883) viram — v. virar, voltar. (Volvem todos o rostopara onde havia a causa principal do reboliço).
  • (884) o animal de Hele é o carneiro de velo de ouro, da fábula, montado por Hele, que dêle caiu ao mar (gr. pontos), tomando-lhe o nome esse mar helénico (Helesponto). A dama inglesa cobriu-se com algum manto ou capa bordada a ouro.
  • (885) abaixar lanças — é pô-las em posição horizontal, em riste, para a carga.
  • (886) treme por trema: assimilação de tempos, por força da rima.
  • (887) Desfeita a inversão: "O coração que estremece no peito de quem os olha se alvoroça e teme".
  • (888) Voa, que não desce — Este que plonástico inicia a frase retificativa (que se podia reduzir a não desce, mas que pode ser interpretada como adversativa mas não desce, ou causal : pois não desce). V. a n. 216.
  • (889) — qual… qual = um… outro; este…aquele
  • (890) valo = o muro que cerca o campo.
  • (891) Mais acham = encontram mais do que as armas, o valor lusitano.
  • (892) No’ mais — Nom mais (Não canto mais). Nom arc. < lat. non. A expressão está também no c. III. est. 67.
  • (893) destemperada — desentoada, desafinada.
  • (894) Não no dá — V. a n. 671.
  • (895) Austera e vil estão aí, cada um, com um sentido especial dos vários que tinham no latim: austera = sombria, sem brilho; vil = comum, vulgar, indiferente; apagada diz, até hoje, esmorecida, delida, inexpressiva.
  • (896) ledo = alegre, agradável, sadio e favorável: como que reunidas estão essas quatro qualidades no adjet. ledo (lat. laetu-) de que Camões fêz largo uso, pois que está entre os doze qualificativos mais repetidos no poema.
  • (897) idolatras, por idólatras.
  • (898) ao profundo = ao [mar] profundo. Várias vezes Camões emprega essa braquilogia, conquanto use também mar profundoe profundo oceano.
  • (899) humanidade = benevolência, bondade.
  • (900) desalivar ê forma arc de desallvlar, e em ambas é intensivo, não negativo, o pref. des. (Cfr. desmudar, desgastar, desfear, desinquietar, desbotar, descair, deslumbrar, desvanecer etc.).
  • (901) — terão por vento — reputarão vã.
  • (902) E [outros], os trabalhos excessivos.
  • (903) pera [ser] mandados: omissão comum com o v. ser.
  • (904) A métrica ordinária manda ler aqui Anibal como oxítono.
  • (905) tratava e lia = tratava como um lente, como se estivesse ensinando. V. a n. 457.
  • (906) Nas anteriores edições desta Antologia o ponto interrogativo do segundo verso estava substituído por vírgula, e lia-se o que como pron. relat., referente a eu: "Mas eu, que falo [de modo]
    humilde, baixo e rude, sei, contudo, que o louvor sai, às vezes, acabado da boca dos pequenos". Entretanto, o ponto de interrogação após o segundo verso, posto pelo Camões e mantido nas edições do poema, torna o que pron. indef.:"Mas, que falo eu? (que digo eu), que sou humilde…? Sei, contudo, que o louvor"… etc. A primeira interpretação, não interrogativa, parece diria mais logicamente o pensamento do grande épico, tanto mais quanto o v. falar nela está na sua vera feição de intransitivo. O conceito aí expresso traduz as palavras de Jesus, que se lêem no Evangelho de Mateus, XXI, 16.
  • (907)ser a vós aceito, de quem virtude deve ser prezada — prepos. a e de iniciando agentes da voz passiva.
  • (908) Refere-se à jornada da África, de tão desastrosas conseqüências.
  • (909) Fico = asseguro, afianço, prometo, espero, estou certo — é uma das muitas significações do v. ficar. Veja neste c. X, as est. 25 e 57.
  • (910) — Os dois últimos versos: De modo que sejais outro Alexandre, sem que invejeis a glória de Aquiles [ter sido cantado nas epopéias homéricas], (pois que tendes em mim um novo Homero).
  • (911) "Mas não servia ao pai, servia a ela / que a ela só por prêmio pretendia — três objetos diretos preposicionados.
  • (912) Como se a não tivera merecida". V. a n. 834.
  • (913) Neste trecho: progne = andorinha; filomela = rouxinol; Filomela e Progne, filhas de um rei de Atenas, foram transformadas em rouxinol e andorinha. O preciosismo da poesia clássica designou pelos dois antropônimos aqueles pássaros. Citeréia — Vénus, de Citera, ilha em que recebia intenso culto;Pasitéia, uma das três Graças; Acteão, caçador transformado em veado, por ter visto Diana a banhar-se; Orionte, constelação a que se atribuem as chuvas e tormentas do inverno. Em "gesto turbulento de Orionte" em Os Lusíadas (X,
    88), turbulento tem a significação latina de proceloso. Orionte é nome mal
    formado; melhor: Orion ou Orião.

 

out 312010
 
Arte etrusca

Plutarco Vidas Paraleas

FÓCION

Desde o terceiro ano da nonagésima-quarta Olimpíada, até o terceiro ano da centésima-décima-quinta; A. C. 318.

As circunstâncias retiraram da virtude de Fócion uma parte da glória que merecia.

O orador Demades desfrutou em certa época, de grande prestígio em Atenas porque dizia e fazia, quando se intrometia no governo, tudo o que julgava agradar e servir aos macedônios e a Antipas; para isto era constrangido, muitas vezes, a aconselhar e persuadir coisas deprimentes para a dignidade de sua terra e contrárias à vida normal da cidade, e depois, para se desculpar, não se cansava de dizer que deviam perdoá-lo se assim procedia, porque o que ele tinha a governar era, nada menos que os restos do naufrágio de seu país. Isto, ainda que seja dito um pouco crua e temeràriamente, poderia parecer verdadeiro, se se referisse à administração de Fócion; pois, para dizer a verdade, Demades era, ele mesmo, o náufrago de sua cidade, vivendo tão dissolutamente e conduzindo-se tão vergonhosamente em seu governo, que o próprio Antipas dizia dele, depois que ficou velho, que não era mais do que uma hóstia imolada à língua e ao ventre; mas a virtude de Fócion teve que combater ( 1) um poderoso e violento inimigo, como o tempo, que trouxe calamidades à Grécia e foram causa de não ter sido famosa nem celebrada como merecia; pois não se pode depositar fé nas palavras de Sófocles, que faz a virtude fraca, quando diz:

Nada (2) fica aos aflitos, Senhor, Mesmo o senso em boa hora.

Mas é preciso conceder que a sorte, quando lhe apraz opor-se aos homens virtuosos e às pessoas de bem, tem tanto poder, que em vez de receberem estas a honra e a graça que merecem, coloca sobre alguns deles falsas imputações e malignas calúnias que são motivos de não se crer mais em suas virtudes, tais como são.

As repúblicas são perigosas para se manejar na adversidade.

II. Todavia, parece a muitos que os povos livres são mais violentos e ultrajam mais seus bons cidadãos no tempo da prosperidade porque o feliz sucesso de seus negócios e o crescimento de seu poder lhes endurece o coração; mas não é isto. Ordinariamente, as adversidades tornam os homens despeitados, tristes e prontos a se encolerizar, e seu ouvido pouco disposto, áspero e ofendido a todo propósito e toda palavra dita claramente. Aquele que reprova aos que falham, parece propriamente lhes censurar suas desgraças e aquele que fala francamente parece caluniá-los. Pois tudo é assim como o mel, que é doce por natureza e, no entanto, produz dor, quando o aplicam nas úlceras ou nos ferimentos e partes inflamadas; também as admoestações sábias e verdadeiras mordem e irritam aqueles que se acham na desgraça, se não estão bem adocicadas. Eis porque o poeta Homero chama ao delicado, menoices, o que equivale a dizer: cedendo e obedecendo à parte da alma que está inchada de despeito e de raiva, não a resistindo nem a combatendo; nem mais, nem menos como o olho doente que, mais voluntariamente, olha as coisas sombrias, escuras e não reluzentes e foge daquelas que são vivas, alegres e brilhantes; também numa cidade, na qual os negócios não andam ao gosto dos cidadãos (3), o povo tem ouvidos delicados e medrosos, por causa de sua imbecilidade, para suportar pacientemente uma língua que diga a verdade livremente; então preferem, principalmente, ouvir aquilo que não lhes traz seu erro diante dos próprios olhos; portanto, é perigoso para os que governam, em todos os sentidos, pois perde com a coisa pública, aquele que adula; e também aquele que não adula.

Temperamento delicado, mas também difícil de encontrar quando necessariamente, em iguais circunstâncias.

III. Assim, portanto, como dizem os matemáticos, o sol não segue totalmente o curso do firmamento, nem também tem seu movimento oposto ou contrário, mas enviezando um pouco e caminhando por uma via oblíqua, traça uma linha torta, que não é muito violentamente estendida, mas vai girando delicadamente e, por sua obliqüidade, é causa da conservação de tudo, mantendo o mundo em boa temperatura. Também em matéria de governo, a severidade muito inflexível em todos os propósitos e em todas as coisas diante da vontade do povo, é muito dura e muito rude; também a facilidade de deixar cair no erro os que falham, porque vêem o povo afeiçoado e inclinado àquela parte, isto é um precipício muito escorregadio e muito perigoso. Mas a via do centro, em ceder algumas vezes para fazer obedecer em outra e ceder uma coisa agradável para pedir uma útil, é um meio salutar para bem reger e governar os homens, os quais se deixam por fim conduzir mansa e utilmente para executar o que é bom, quando não sujeitos, em tudo e por tudo, em elevada luta nem por uma violenta e senhorial autoridade. É bem verdade que esse meio é muito desagradável e difícil, porque nele há majestade misturada com graciosidade; mas também quando estão misturadas juntas, não há harmonia tão musical, nem consonância tão bem afinada nem tão perfeita; também dizem ser este o estilo do deus da natureza no governo deste mundo, sem nada forçar, abrandando por admoestação e persuadindo pela razão, para constranger à obediência.

Austeridade excessiva de Catão.

IV. Esse defeito de austeridade tinha Catão, o Jovem, pois não possuía a natureza nem os costumes agradáveis a um povo, nem próprios para se fazer amar pela plebe; também não chegou a ter prestígio por ter adulado o povo. Eis porque Cícero diz que, governando, nem mais, nem menos como se estivesse na cidade e na coisa pública é que se forma Platão, e não na escória e no bagaço como foi Rómulo, o qual foi desviado (4) e falhou ao obter o consulado. É minha opinião que ele se parece propriamente com os frutos que vêm fora da estação, que são elogiados por todos mas não são aproveitados. Também a antiga inocência, há muito tempo havia caído do uso e vinha depois de tão longo intervalo mostrar-se entre as vidas corrompidas e os costumes estragados desse tempo; adquiriu-lhe uma grande glória e grande fama; no entanto não encontrou saída para a pôr em ação, nem era própria para empregar nos negócios, porque a gravidade e perfeição de sua virtude eram muito desproporcionadas à corrupção desse século.

Porque Plutarco compara Fócion com Catão.

V. Pois êle não veio intrometer-se no governo dos negócios já estando a república arruinada, como fêz Fócion, que aí chegou quando estava muito enfraquecida e agitada por grande tormenta; e não teve nunca o timão nem a autoridade de piloto na mão, mas tratou apenas de manejar as velas e cordagens, assistindo e secundando aos que tinham mais prestígio e poder do que ele; e no entanto ainda deu muito trabalho à sorte, a qual, tendo procurado arruinar e abolir a república, conseguiu afinal por meio de outros, mas foi com grande sacrifício, lenta e demoradamente, e ainda por pouco quase ficou por baixo, por causa de Catão e de sua virtude, à qual comparo aquela de Fócion, não que seja minha opinião de que tenham sido parecidos por semelhança geral e universal, mas quero dizer apenas que todos os dois foram pessoas de bem, todos os dois entendidos em matéria de situação e de governo; pois ainda há diferença de energia a energia, como entre aquela de Alcibíades e a de Epaminondas; e de prudência a prudência, como aquela de Temístocles para a de Aristides; e de justiça a justiça, como aquela de Numa à de Agesilau; mas as virtudes desses dois personagens mostram em tudo um mesmo traço, um mesmo molde, uma mesma tez e mesma cor impressas em seus costumes, até nas mínimas particularidades, tendo ambos possuído a austeridade quase em igual medida, juntamente com a brandura, a energia com a prudência, a vigilância temerosa pelos outros, com a segurança resoluta para eles mesmos, a fuga das coisas vergonhosas e zelo pela justiça, igualmente comuns aos dois, tanto que é preciso um bem sutil e hábil juízo como por um instrumento, para encontrar e saber discernir as diferenças.

Nascimento e caráter de Fócion.

VI. Ora, quanto a Catão, é coisa confessada por todos, que era de casa grande e nobre, como diremos mais adiante em sua vida; quanto a Fócion, conjeturo que não tenha saído de lugar baixo nem vil; pois teria sido filho de um fabricante de colheres, como diz Idomeneu (5), Glaucipo, o filho de Hipérides (6) que ajuntou na invectiva que escreveu contra ele, todos os males que pôde, e não se esqueceu de censurar-lhe a baixeza plebéia de sua linhagem; pois em sua juventude foi discípulo de Platão e depois de Xenocrates na escola da Academia, onde se dedicou desde seu início a todas as práticas de bons costumes; pois como Duris escreveu, jamais ateniense o viu rir ou chorar, nem lavar-se nos banhos públicos, nem pôr as mãos fora da capa de sua veste nas raras vezes que a usava, pois quando ia pelos campos, durante as guerras, caminhava sempre de pés nus e sem veste, se não fazia um frio extremo e insuportável, de sorte que os soldados, na sua linguagem comum, diziam entre eles que era sinal de grande inverno, quando viam Fócion vestido.

Diversas piadas de Fócion.

VII. E se bem que fosse muito delicado e muito humano por natureza, no rosto demonstrava ser austero e intratável, de sorte que um homem que não tivesse familiaridade com ele, não o teria facilmente abordado sozinho; assim um dia quando o orador Cares caçoava da severidade de suas sobrancelhas, como o povo de Atenas fosse tomado pelo riso, ele respondeu publicamente: — "Estas minhas sobrancelhas, senhores atenienses, não vos fizeram nenhum mal, mas as risadas destes favoritos aqui, muitas vezes vos fizeram chorar". Seu linguajar, igualmente, pelas boas concepções e belas sentenças que continha, era cheio de instrução, muito útil e salutar, mas de um laconismo imperativo, austero e de forma alguma adocicado; pois, como dizia o filósofo Zenon: — "Que o homem sáBio deve molhar sua palavra no senso e na razão antes de pronunciá-la", também o falar de Fócion, de poucas palavras, continha muita substância e parece ser esta a razão pela qual Polieucto, o Esfetiano, diz: — "Que Demóstenes era muito bom orador, mas que Fócion era muito eloqüente". Pois, assim como as peças de ouro ou de prata são as melhores, as quais, com menos massa, têm mais preço e mais valor, também a força no falar repousa em significar muito com poucas palavras. A este propósito contam, que um dia, estando todo o teatro repleto, Fócion passeava à parte, sozinho, meditando, no tablado da cena, quando um de seus amigos, vendo-o assim pensativo, perguntou-lhe: — "Pensas em alguma coisa, Fócion? — Com efeito, respondeu ele, penso se poderia cortar ainda alguma coisa do que tenho a dizer ao povo ateniense". E Demóstenes mesmo, que fazia bem pouco caso de todos os outros oradores de seu tempo, quando Fócion se levantou uma vez para falar, fartou-se em dizer baixo no ouvido de seus amigos: — "Eis o machado que se levanta para cortar minhas palavras". Todavia, isto poderia por acaso também referir-se aos seus costumes; porque não somente uma palavra, mas também uma olhadela ou um sinal de cabeça de um homem de bem, têm o poder de persuadir contrapesando com vantagem, mais que infinitos argumentos e cláusulas artificiais de retórica.

Inícios de Fócion sob a orientação de Cábrias.

VIII. Em suma, na sua juventude convivia com o capitão Cábnas e seguia-o, aprendendo com êle muita coisa referente aos feitos da guerra e reciprocamente também o corrigia de algumas imperfeições que tinha por natureza. Pois sendo Cábrias, pensando bem, homem frio e difícil de se comover, quando vinha ao combate, queimava-se do ardor da coragem, de tal modo se atirava, de olhos fechados ao perigo, entre os mais temerários; também isto lhe custou a vida dentro da ilha de Quios (7), onde quis ser o primeiro a abordar com sua galera e descer à terra apesar dos inimigos; mas Fócion, sendo prudente em se preservar e esperto no executar, esquentava de um lado a lentidão de Cábrias e de outro amornava sua ardente impetuosidade; por esta razão Cábnas, sendo homem brando e bondoso, estimava-o e cientificava-o dos negócios, dan-do-o a conhecer aos gregos e servindo-se dele nas coisas de maior responsabilidade, como o fez adquirir grande honra e grande reputação na batalha naval que ganhou junto da ilha de Naxos (8), onde lhe deu a conduzir a ponta esquerda de sua armada e foi neste lugar o combate mais áspero do que em nenhuma outra parte; também aí foram os inimigos mais depressa rompidos. Esta batalha, sendo a primeira que a cidade de Atenas ganhou só com suas forças depois de sua tomada, foi causa do povo amar muito Cábnas e começar a fazer caso de Fócion, como de um personagem serviçal e digno de ter um cargo. Esta batalha foi ganha no próprio dia da festa dos grandes mistérios, em memória da qual Cábnas, todos os anos, no décimo-sexto dia de agosto, dava a beber a quem quisesse, do povo ateniense. Depois Cábrias, tendo-o escolhido para enviá-lo a receber o dinheiro e os navios com que os aliados consulares deviam contribuir, entregou-lhe vinte galeras; dizem que Fócion respondeu-lhe que se o enviava para combater inimigos, precisava de maior número de navios, e se o enviava como embaixador diante de aliados e amigos, só uma galera lhe era suficiente. Assim, indo só com uma galera, depois de haver falado nas cidades e se comunicado com os oficiais e governadores, branda e simplesmente, voltou com uma boa frota de navios que forneceram os aliados e com dinheiro também para os atenienses.

Apego de Fócion por Cábrias.

IX. Se Fócion continuou a honrar tanto Cábrias, enquanto viveu, mas também depois de sua morte, e abraçou a proteção dos que lhe pertenciam e se esforçou para tornar seu filho Ctesipo, homem de bem, apesar de vê-lo muito depravado e bastante incorrigível, não deixou nunca de experimentar sempre diminuir e encobrir sua infâmia; todavia, dizem que como esse rapaz estava sob sua guarda numa guerra em que era o capitão, deu-lhe dores de cabeça e importunou-o, fazendo-lhe em cheio perguntas desagradáveis, intrometendo-se a querer aconselhá-lo, repreendê-lo e ensinar-lhe o ofício e dever de capitão, ao que não pôde se conter e disse: — O Cábrias, Cábrias! Pago bem cara, a amizade que me dedicaste quando vivo, suportando a importunação de teu filho".

Fócion estuda igualmente a política e a guerra.

X. E vendo que aqueles que manejavam os negócios do governo em Atenas, estavam repartindo entre si, como por meio de sortes, os cargos militares e civis, de tal modo, que uns como Éubulo, Aristo-fon, Demóstenes, Licurgo e Hipérides, não faziam mais nada senão discursar diante do povo e submeter projeto a sua frente, e, os outros como Diopitas, Menesteu, Leóstenes e Cares faziam-se grandes e ricos, guerreando e tendo cargos militares, preferiu mais propôr-se a imitar e seguir a maneira de governo que haviam tido Péricles, Aristides e Sólon, como sendo mais completa e composta de uma e de outra parte igualmente, pois cada um deles, a meu ver, como diz o poeta Arquílocos:

Unido era bom servidor de Marte
E conhecia das Musas a delicada arte.

Também não ignorava que a deusa tutora de Atenas, Palas, era guerreira e política ao mesmo tempo, isto é, possuía as qualidades necessárias para governar na guerra e na paz.

Não adula nunca o povo.

XI. Estando, portanto, assim preparado o alvo, ao qual dirigia sempre toda sua intervenção do governo da república, ele que desejava sempre o repouso e a paz, no entanto foi muitas vezes eleito capitão e teve mais de uma vez o comando de forças, não somente de todos os homens de guerra de seu tempo, mas também de todos aqueles que haviam sido antes dele, não pedindo nem solicitando tais cargos, nem também recusando ou rejeitando quando a necessidade o chamava; pois é coisa certa que por quarenta e cinco vezes foi eleito capitão, sem que jamais tenha se encontrado uma só vez nas assembléias das eleições, sendo sempre escolhido ausente; deste modo, os homens insensatos se espantavam desta maneira de agir do povo, visto que jamais Fócion fazia nem dizia coisa alguma para os agradar, mas a maioria das vezes contradizia a sua vontade, em vez dos outros, que eram mais engraçados, mais alegres e mais agradáveis em suas arengas, pelos apartes e passatempos, nem mais, nem menos como dizem dos reis, que ouviam seus aduladores e engraçados, depois de terem lavado as mãos para se porem à mesa; mas quando era questão de escolher os cargos militares, então pensavam demorada e conscientemente, chamando sempre o homem mais austero e mais sábio da cidade, aquele que só ou mais do que nenhum outro, se opunha a todos os seus apetites e a todas as suas vontades. Um dia, tendo sido lido publicamente um oráculo de Delfos, o qual dizia: "Que todos os outros atenienses estando de acordo, havia um único que estava contrário a todo o resto da cidade", Fócion adian-tando-se disse publicamente: "que não se dessem de modo algum ao trabalho de procurar quem era aquele, pois era ele, porque de fato achava nada bom de tudo o que faziam".

Bons ditos e sábias respostas de Fócion.

XII. Uma outra vez aconteceu-lhe dar uma opinião diante da assembléia do povo, a qual foi universalmente aprovada e recebida por todo o mundo e, vendo que toda a assistência se punha logo ao seu lado, voltou-se para seus amigos,’ perguntan-do-lhes: — "Ai de mim! meus amigos, não me escapou alguma palavra sem pensar?" Uma outra vez, como os atenienses solicitassem uma contribuição liberal e voluntária em dinheiro, para fazer um sacrifício, tendo os outros de sua posição, já entregue sua parte, foi também nominalmente chamado várias vezes para o mesmo fim, mas ele lhes disse: — "Pedi a esses que são ricos, pois quanto a mim, terei vergonha de contribuir, não tendo ainda pago a este aqui", mostrando o agiota, Cálicles, que lhe havia emprestado dinheiro; mas como eles não cessavam nem por isto de gritar e bradar contra ele, pôs-se a contar-lhes esta história: — "Houve um dia um homem covarde que se preparava para ir à guerra, e na hora em que ia partir, ouviu gritar os corvos e pensando que fosse um mau presságio para ele, pousou suas armas e parou na hora, ficando em casa. Depois tomou-as uma outra vez e se pôs a caminho para ir ao campo; os corvos recomeçaram a gritar atrás ainda mais, e então ele ficou de uma vez e disse finalmente: — "Gritais bastante e alto como desejais, mas não comereis meu corpo".

XIII. Uma outra vez os atenienses, estando na guerra sob seu comando, queriam, a toda força, que ele os conduzisse para ir contra seus inimigos. Ele não o queria e nessa ocasião chamaram-no de covarde e poltrão; ele respondeu-lhes: — "Nem vós me saberíeis fazer destemido, nem eu a vós covardes; todavia nós nos conhecemos bem uns aos outros". Uma outra vez, em tempo bastante perigoso, o povo o maltratava e queria que imediatamente prestasse contas de sua administração e de seu cargo; ele lhes respondeu: — "Ó meus amigos, salvai-vos, salvai-vos primeiramente". E como durante a guerra fossem humildes e flexíveis pelo pavor que tinham, mas de repente, tendo sido feita a paz o afrontassem com palavras e gritassem contra Fócion, que lhes havia conseguido a vitória toda, assegurada entre as mãos, ele nada fez senão dizer: — "Sois bem felizes em ter um capitão que vos conhece, pois do contrário seríeis pedaços perdidos". Tiveram aliás alguma diferença contra ele devido sua conduta contra os beócios, com os quais o povo não queria contender em justiça, mas combater em campo de batalha; mas Fócion disse-lhes que eles não entendiam nada, aconselhando-os a combater antes por palavras, no que eram mais fortes, e não com as armas, no que eram mais fracos. Sua opinião numa assembléia do Conselho desagradou algumas vezes tanto aos atenienses, que eles não queriam nem ter paciência de ouvi-lo; e êle lhes disse então: — "Não podeis forçar-me, senhores atenienses, a fazer o que não se deve; mas fazer-me dizer contra minha opinião coisa que se não deve dizer, a isto vós não saberíeis me constranger". Repelia também vivamente os oradores que eram contrários, quando o atacavam, como respondeu uma vez a Demóstenes, o qual lhe dizia: — "O povo te matará algum dia, Fócion, se entra em furor"; — "A ti também, disse êle, se entra em seu bom senso". E a Polieucto, o Esfetiano, o qual num dia que fazia muito calor, persuadia o povo a empreender a guerra contra o rei Filipe e estava quase sem fôlego, respirava e suava em grossas gotas, pois que era muito gordo, de sorte que precisava beber água diversas vezes para terminar seu discurso: — "Verdadeiramente, disse ele, há razão para que ordeneis a guerra seguindo persuasão deste aqui; o que pensais vós fará ele quando tiver a mochila sobre os ombros e os inimigos pela frente, se agora, pronunciando somente um discurso que estudou há muito, está em perigo de arrebentar-se e sufocar diante de vós?" E como, durante uma assembléia de Conselho, Licurgo lhe dirigisse vários insultos na presença de todo o povo, e depois de tudo ainda disse que Alexandre, tendo pedido dez dos cidadãos de Atenas para fazer com eles o que bem lhe parecesse, havia Fócion aconselhado a entregá-los, ele respondeu: — "Muitas vezes aconselhei diversas coisas boas e belas a estes aqui, mas não quiseram atender".

XIV. Havia então em Atenas um homem chamado Arquibíades que imitava o lacedemônio com uma barba longa e forte, uma mísera capa e uma fisionomia e atitude sempre tristes. Fócion, encontrando-se um dia na assembléia da cidade, tratado com aspereza pelo povo, chamou-o como testemunha para provar e confirmar suas palavras, mas o outro, levantando-se, fez justamente o contrário, aconselhando o que lhe parecia ser agradável ao povo; ouvindo isso Fócion, pegou-o pela barba e lhe disse (9) : — "Por que não fazes, portanto, badalar esta barba, desde que queres te pôr a adular?" Havia (10) um grande advogado chamado Ansto-giton, que em todas as assembléias da cidade não fazia outra coisa senão proclamar ordinariamente a guerra e pregar que se devia dar as armas ao povo.

Depois, quando foi preciso levantar soldados e arrolai os nomes daqueles que deveriam ir à guerra, ele veio à praça, apoiado em uma bengala, as duas pernas enfaixadas para fazer crer que estava doente; e Fócion percebendo-o de longe, de cima da tribuna, gritou bem alto ao secretário que escrevia os arrolados: — "Escreve também: Anstogiton, covarde e mau, que imita o manco".

XV. Deste modo, algumas vezes eu me admiro de como um homem tão áspero e tão severo, como é evidente por seus exemplos, nunca teve o cognome de bom. Todavia, acho que é coisa bem difícil, mas não impossível encontrar um homem como o vinho, que seja maneiroso e engraçado como os outros, ao contrário, que à primeira vista parecem suaves no convívio e depois tornar-se tão desagradáveis e prejudiciais a todos os que conversam com eles. No entanto se lê que o orador Hipérides disse um dia ao povo de Atenas: — "Senhores atenienses, não olheis somente se eu sou azedo, mas considerai e o sou sem tirar proveito"; como se os homens não fossem desagradáveis e enfadonhos pela avareza apenas e o povo não temesse e não odiasse a esses todos que por arrogância, inveja, insolência, cólera e obstinação, abusam de seu prestígio e autoridade. Fócion, portanto, não praticou mal nem desagradou a cidadão algum por inimizade particular que tivesse contra êle, nem nunca odiou nenhum, mas era somente áspero e rude contra aqueles que resistiam a alguma coisa que empreendia fazer pelo bem público; pois, pensando bem, mostrava-se em tudo delicado, cortês e humano para com todo o mundo, até mesmo em convivendo particularmente com os que lhe eram adversários e socorrê-los em seus negócios, se vinham a cair em algum perigo e alguma adversidade. Seguindo tal propósito, seus amigos o recriminavam um dia porque defendia em julgamento um indivíduo mau, a quem submetiam a processo-cnme e êle lhes respondeu: — "Que as pessoas de bem não precisavam de defesa". De outra vez Aristogiton, o Caluniador, estando na prisão, depois de ter sido condenado, mandou suplicar-lhe para ir vê-lo; atendeu-o e foi até dentro da prisão, pelo que seus amigos queriam zombar, mas êle lhes disse: — "Deixem-me, pois em que lugar poderei ver Aristogiton mais à vontade do que na prisão?

Estima dos aliados dos atenienses por Fócion.

XVI. Quando partia de Atenas alguma armada, se havia outro capitão que não fosse Fócion, as cidades marítimas aliadas dos atenienses e as insulares, armavam suas muralhas, enchiam seus portos e traziam dos campos para dentro da cidade as mulheres, as crianças, os escravos, o gado e todos os demais valores como se se tratasse de inimigos declarados em guerra aberta; mas ao contrário, se Fócion era o chefe, iam até bem longe ao seu encontro com seus navios coroados de festoes e chapéus de flores em sinal de regozijo público, e conduziam-no eles mesmos às suas casas. E como o rei Filipe, procurando apoderar-se secretamente da ilha de Eubea, por ali fizesse passar uma armada da Macedónia e foi subornando as cidades por meio de alguns tiranos particulares, Plutarco Eretriano chamou os atenienses, suphcando-lhes que retirassem das mãos desse rei a ilha que, dia a dia, estava ocupando cada vez mais, se logo não procurassem remediar. Fócion foi enviado como capitão com poucos soldados, porque julgavam que os do país se uniriam a ele logo, afetuosamente, mas ao contrário, encontrando à sua chegada, cheia de traidores, tudo corrompido, gasto e minado pelo poder do dinheiro que Filipe despendia, encontrou-se em grande perigo; por esta razão retirou-se para um outeiro separado da planície de Tamina por um grande e profundo vale, onde se fortificou e aí parou com toda a elite de guerreiros que tinha consigo, admoestando a seus capitães que não se preocupassem com os outros amotinados e sediciosos, que não faziam senão gaguejar e não valiam nada quando preciso, mas que os deixassem ir e se afastassem para fora do acampamento para onde quisessem: — "Porque, dizia ele, tais soldados também nos seriam inúteis por aqui por sua desobediência e prejudicariam aos que têm boa vontade em cumprir o dever; mas sentindo-se culpados por ter abandonado o campo e terem ido sem consentimento, não ousarão gritar contra nós, e se preservarão de nos caluniar".

Conquista uma vitória completa sobre a armada de Filipe em Eubéia.

XVII. Depois, quando os inimigos vieram em batalha para enfrentá-lo, ordenou a seus soldados que estivessem prontos e armados, sem se mover, até que êle houvesse acabado de sacrificar aos deuses, no que ficou muito tempo, seja porque não pudesse receber os sinais felizes dos sacrifícios, ou porque não procurasse atrair mais para perto os inimigos. Mas Plutarco Eretnano, pensando que prolongava assim a marcha por falta de coragem, jogou-se nos campos em primeiro lugar com alguns aventureiros que tinha a seu soldo; vendo isso, os soldados da cavalaria não puderam mais se conter, e marcharam também após êle contra os inimigos, em desordem, separados, uns aqui, outros acolá, como haviam saído do campo; os primeiros, tendo sido rompidos pelo inimigo, todos os demais debandaram também por si mesmos e Plutarco mesmo se pôs em fuga, de modo que algumas tropas adversárias, pensando já haver ganho tudo, foram até dentro do acampamento e trataram de abater o tapume; entretanto, os sacrifícios de Fócion estando terminados, os atenienses saíram sobre eles, que viraram imediatamente em fuga, depois de deixarem morto um grande número junto das trincheiras de seu acampamento. Isto feito, Fócion ordenou que permanecessem firmes sem se mover, para esperar e recolher aqueles de seus soldados que estavam ainda espalhados aqui e ali pelos campos onde se deu a primeira ruptura, enquanto ele, com uma tropa de combatentes escolhidos, em todo seu exército, foi dar através dos inimigos. O combate foi duro, pois os atenienses combateram corajosamente, sem poupar sua gente; mas, sobre todos os demais, dois rapazes, combatendo ao lado do capitão, Glauco, filho de Polimedes e Tálio, filho de Cíneas, levantaram o prêmio de coragem. Todavia Cleófa-nes, nesse dia, demonstrou também seu valor; pois gritou tanto por seus soldados da cavalaria que haviam sido rompidos e intimou-os tanto a irem socorrer seu capitão que dizia estar em perigo que, ridicularizando-os, trouxe-os ao combate; fazendo isso, conseguiu a vitória assegurada e inteira aos soldados da infantaria.

Os aliados de Atenas recusam receber em seus portos a frota comandada por Cares.

XVIII. Depois desta batalha, expulsou Plutarco mesmo para fora de Eretria; e, tendo se apoderado do castelo de Zaretra, assentado em lugar estratégico para esta guerra, no lugar onde a ilha se vai estreitando em um longo aterro, apertado de um lado e do outro do mar, proibiu (11) que se apoderassem dos gregos prisioneiros, com receio de que os discur-sadores de Atenas constrangessem o povo ateniense como algumas vezes faziam, a uma súbita cólera, exercendo alguma crueldade contra eles. Essas coisas assim feitas, Fócion voltou à casa, mas nem bem havia virado as costas, os aliados e confederados de Atenas sentiram imediatamente falta de sua justiça e sua bondade; e os atenienses conheceram também seu valor e sua suficiência; pois Molosso, aquele que o sucedeu no cargo de capitão nos demais combates, portou-se de tal modo, que êle mesmo foi feito prisioneiro. Por esta razão, Filipe, abraçando grandes coisas em sua esperança, foi com toda sua armada até o Helesponto, opinando que aí tomaria logo toda a Quersoneso, as cidades de Pennto e de Bizâncio (12) ; entretanto, estando os atenienses resolvidos a enviar socorro, para o impedir de realizar seu intento, elegeram Cares para capitão, a instância e grande empenho dos oradores que puseram à frente; mas tendo este ido com bom número de navios, não praticou feito algum digno das forças que havia conduzido, porque as cidades não quiseram nem receber sua frota em seus portos, razão por que se viu constrangido a ir rodando aqui e acolá ao longo das costas, suspeito a todo o mundo, renegado dos amigos e desprezado dos inimigos. Ouvindo isto, o povo, a quem também os discursadores irritaram com suas prédicas ordinárias, ficou muito enfurecido, arrependendo-se de haver enviado socorro aos bizantinos; Fócion então, atirando-se à frente, demonstrou-lhes que não era de seus aliados e confederados que deviam duvidar, mas de seus capitães, que se portavam de modo que tinham motivos para desconfiar deles: — "São àqueles, dizia ele, a quem vós deveis agarrar, pois eles vos tornam odiosos e temíveis àqueles mesmos que não saberiam se salvar sem vosso socorro".

Fócion é nomeado em seu lugar; seus sucessos.

XIX. Essas palavras agitaram o povo de tal forma que na mesma hora fizeram-no mudar de opinião, tanto que entregaram a Fócion um outro reforço, enviando aquela parte para socorrer seus aliados, o que foi de muito resultado para preservar a cidade de Bizâncio; pois além de que sua reputação já era grande, Cleon, o primeiro homem de Bizâncio em virtude e em autoridade, tendo sido companheiro e amigo de Fócion na escola da Academia, pleiteou-o para sua cidade; e então os bizantinos não quiseram que acampasse fora, mas abrindo suas portas, o receberam dentro de sua cidade e se misturaram entre os atenienses; estes, vendo que os da cidade confiavam neles, portaram-se tão honestamente em sua conversação comum, que não houve queixa nenhuma deles, e tão valentemente se mostraram em todos os combates e assaltos, que Filipe, o qual consideravam antes tão terrível nas armas, que nada parava à sua frente e não encontravam pessoa alguma que ousasse apresentar-se em batalha contra ele, voltou do Helesponto sem nada fazer, senão perdendo muito de sua reputação, quando Fócion ganhou alguns de seus navios e recuperou as praças fortes onde havia colocado guarnições; e desembarcando em vários lugares de suas terras, percorreu e pilhou toda a planície, até que tendo reunido bom número de soldados para o defender, aí foi fendo e nesta ocasião obrigado a voltar.

Torna os atenienses senhores da cidade de Megare.

XX. Algum tempo depois os megarianos mandaram secretamente propor-lhe entregar a cidade em suas mãos; mas Fócion, temendo que os beócios, avisados, não o prevenissem a tempo, fez logo tocar a trombeta e, ao partir da assembléia sem lhes dar outro descanso senão pegar as armas somente, levou-os logo diretamente a Megara (13), onde, sendo recebido, fechou a muralha do porto de Nisa (14) e levantou duas muralhas enormes da cidade até ali, por meio do que uniu a cidade à praia e o fez de modo que do lado da terra não teria que temer em nada seus inimigos do lado do mar (15), ficando inteiramente à disposição dos atenienses.

Aconselha os atenienses a assinar a paz com Filipe.

XXI. E como os atenienses já se haviam declarado abertamente inimigos de Filipe e houvessem eleito em sua ausência outros capitães para irem guerreá-lo, ele, assim que voltou a Atenas, vindo das ilhas, persuadiu o povo, considerando que Filipe tinha boa vontade de viver em paz com eles, temendo o perigo que as forças de Atenas podiam trazer aos seus negócios, e que deviam receber os artigos e condições de paz que apresentava. Opondo-se um pleiteador comum, que não se movia jamais nos litígios senão para caluniar e chicanear sempre contra alguém, disse-lhe: — "Fócion, como ousas dissuadir os atenienses da guerra, quando eles têm as armas nas mãos?" — "Sim, verdadeiramente, respondeu-lhe Fócion, pois eu sei muito bem, que se há guerra, eu te comandarei; e se há paz, tu me comandarás". No entanto, não o podendo obter, Demóstenes ganhou contra ele desta vez, aconselhando os atenienses a irem dar a batalha a Filipe, no local mais distante que pudessem no país do Ático; e Fócion disse-lhe então: — "Meu amigo, não nos divirtamos em discutir em que local nós lhe daremos a batalha, mas olhemos somente como nós a ganharemos; porque fazendo isto, recuamos a guerra para bem longe de nós; pois esses que são vencidos, em qualquer parte em que estejam, têm sempre todo o mal e perigo junto deles".

É colocado à frente da república.

XXII. Após a batalha (16) perdida contra Filipe os sediciosos, que não pediam senão novidades na cidade, arrastaram Caridemo (17) para frente, para o fazer eleger capitãogeneral de Atenas, pelo que as pessoas de bem e de honra ficaram com grande medo e tomando seu lado, toda a Corte e o Senado do Areópago, solicitaram afetuosamente ao povo, com lágrimas nos olhos, o que afinal se conseguiu, mas foi com grande sacrifício, que os negócios da cidade fossem entregues nas mãos de Fócion; este foi de opinião que deviam receber no momento a forma de viver e as humanas condições de paz que lhe ofereciam ; como o orador Demades houvesse proposto que a cidade de Atenas entrasse no tratado comum de paz e na reunião habitual dos estados da Grécia, que devia se instalar a instâncias de Filipe, Fócion não concordou, mas dissuadiu-os, até que soubessem o que Filipe desejava dos gregos naquela assembléia. Todavia, a sua opinião não teve lugar por causa do mau tempo; e, logo depois, vendo que os atenienses se arrependiam por não terem acreditado em seu conselho, quando viram que precisavam fornecer navios e soldados de cavalaria a Filipe, ele lhes disse então: — "O temor do que vos lastimais agora, está em oposição ao que vós vos consentistes; mas desde que haveis cedido, é preciso suportar pacientemente e não perder a coragem por isto, não esquecendo que vossos antepassados algumas vezes deram leis aos outros e algumas vezes receberam também de outrem; e portando-se bem e sabiamente em uma e outra sorte, preservaram não somente esta cidade, mas também todos os moradores da Grécia .

Prudentes respostas de Fócion.

XXIII. Depois, tendo chegado a notícia da morte de Filipe (18), todo o povo quis acender os fogos de alegria e fazer sacrifícios aos deuses como por uma boa notícia, mas Fócion não quis permitir: — "Isto, disse ele, seria um sinal de muita baixeza e coração mesquinho alegrar-se com a morte de outrem, se bem que a armada que vos derrotou em Quero-néia (19) não esteja diminuída apenas de uma cabeça". E como Demóstenes em seus discursos habituais dissesse palavras injuriosas contra Alexandre que já se aproximava com seu exército da cidade de Tebas, disse-lhe estes versos de Homero:

"Ó desgraçado, por que andar irritando
Um tão feroz e áspero combatente,

que não cobiça outra coisa senão grandeza de glória? Queres, sendo tu um tão grande fogo aceso, jogar esta cidade dentro? Quanto a mim, se bem que os atenienses queiram se perder, eu não lhes permitiria, pois para este fim aceitei o cargo de capitão".

Conselho de Fócion relativamente aos dez cidadãos que Alexandre solicitou lhe entregassem.

XXIV. E depois a cidade de Tebas, tendo sido inteiramente destruída e arrasada, como Alexandre pedisse aos de Atenas que lhe entregassem em suas mãos Demóstenes, Licurgo, Hipérides e Can-demo, a assembléia do povo, não sabendo o que responder a esta intimação, pôs seus olhos sobre Fócion e chamou-o diversas vezes por seu nome, para dar sua opinião; pelo que ele se levantou e, aproximando-se de um dos seus amigos chamado Nicocles, aquele que estimava com mais apreço e em quem tinha mais confiança, disse alto e claro: — "Esses que Alexandre vos pede, conduziram a cidade a tal extremo de necessidade, que se ele pedisse Nicocles, seria da opinião que lho entregassem; pois eu mesmo reputaria que me seria uma grande honra, se pudesse morrer, de sorte que minha morte salvasse a vida a todos meus outros concidadãos; e ainda que sinta em meu coração grande piedade e compaixão por esses pobres desolados que fugiram das ruínas de Tebas para esta cidade, se é que eu deva opinar, vale mais que os gregos lamentem a perda de uma só cidade, do que de duas, e por esta razão, é meu parecer que é melhor tratar de impetrar graça por meio de súplicas e admoestações àquele que é o mais forte, do que se obstinar em querer combater diante da ruína certa.

Aconselha Alexandre a virar suas armas contra os persas.

XXV. Dizem que Alexandre rejeitou o primeiro decreto que foi concluído pelo povo sobre seu pedido e desviou-se para não ver os embaixadores que lhe haviam trazido; mas recebeu o segundo que lhe foi levado por Fócion mesmo, ouvindo dizer pelos servidores mais velhos de seu pai, que este sempre tivera muito apreço por ele, razão pela qual Alexandre, não somente lhe concedeu audiência e atendeu sua solicitação, como também seguiu seu conselho. De fato êle o exortou, dizendo-lhe que, se apreciava o repouso, descansasse todas as suas armas e cessasse de guerrear; mas, se cobiçava a glória, que voltasse suas armas contra os bárbaros e não contra os gregos. E deduzindo-lhe diversas razões e admoestações acomodadas com o temperamento e gosto de Alexandre, desviou-o e abrandou-o de tal modo, que o rei, ao separar-se dele, disse-lhe que os atenienses deviam ter olhos bem abertos nos negócios, porque se êle viesse a morrer, não conhecia outro povo a quem o império pudesse ser entregue, senão a eles; e desejando a amizade particular e a hospitalidade de Fócion, tratou-o com tanta honra, como não o fazia aos seus íntimos. Com referência a isto, o historiador Duris escreve que depois de se tornar grande e ter derrotado o rei Dario, retirou da saudação de todas as suas cartas particulares, a palavra que estava habituado a colocar, caro, a não ser naquelas que escrevia a Fócion, e que não dava mais esta honra de saudar assim àqueles a quem escrevia, senão a Fócion e Antípatro, o que Cares também confirma.

Recusa um presente considerável de Alexandre.

XXVI. É coisa bem confessada por todos que Alexandre enviou a Fócion boa soma de dinheiro como presente, pois mandou-lhe cem talentos (20). Tendo sido esse dinheiro trazido a Atenas, Fócion perguntou aos que o trouxeram, por que Alexandre enviava tal presente só a ele, quando havia tantos burgueses em Atenas. — "Porque (responderam eles), o considerava o único homem de bem e de honra". E Fócion lhes replicou: — "Ora, que me deixem, portanto, continuar a ser toda a minha vida". Nem por isto os mensageiros deixaram de ir atrás dele até sua casa, onde viram grande simplicidade, pois encontraram sua mulher que amassava o pão ela mesma e ele, em sua presença, tirou a água de seu poço para lavar os pés; razão porque instaram mais ainda do que antes para receber o presente do rei, insistindo com ele, e dizendo que era uma grande vergonha viver assim pobre, levando em conta que era amigo de Alexandre. Pelo que Fócion, vendo passar pela rua um pobre ancião, ridiculamente vestido com um velho traje sujo e gorduroso, perguntou-lhes se o reputavam menos do que aquele pobre homem — "que aos deuses já não agrada" — responderam imediatamente: — "E, todavia, replicou-lhes, vive ainda com muito menos do que eu e está, apesar disso, muito contente. Afinal, — disse-lhes mais — se eu receber tão grande soma de ouro e não usá-lo, de nada me adiantará e se me servir dele, gastando-o, o resultado será que toda esta cidade começará a falar mal de mim e do rei."

Novas recusas de Fócion.

XXVII. Assim, foi recambiado o presente para fora de Atenas, servindo de notável exemplo a todos os gregos, para lhes dar a conhecer que mais rico era aquele que não tinha o que fazer com tanto ouro e prata, do que aquele que lhe dava. Alexandre, tendo sabido que seu presente havia sido recusado, ficou descontente e escreveu a Fócion, que não podia considerar seus amigos, os que recusavam receber presentes dele; todavia, mesmo assim não tomou o dinheiro, mas somente solicitou-lhe o favor de libertar Equecrátidas, retórico, Atenodoro, natural da cidade de Imbro e dois coríntios, Demarato e Esparton, que haviam sido retidos prisioneiros na cidade de Sardis, por algumas faltas de que os acusavam. Alexandre imediatamente os fez libertar, enviando Crátero à Macedónia e ordenando-lhe dar a Fócion uma dessas quatro cidades da Ásia, que preferisse mais, Quios (21), Gergueto (22), Milas-ses (23), ou Eléia (24), dizendo-lhe que se enfureceria mais amargamente do que na primeira vez, se as recusasse; todavia, Fócion não quis aceitar nenhuma. E Alexandre pouco depois morreu. Vê-se ainda hoje, no bairro de Melita (25) a casa de Fócion, decorada com lâminas de cobre, mas quando morava nela era simples e sem nenhuma superfluidade.

Mulheres de Fócion.

XXVIII. Quanto às mulheres que desposou, não encontram nada por escrito da primeira, senão que Cefisódoto, modelador de imagens, era seu irmão; mas a segunda não foi menos famosa em Atenas por sua honestidade e simplicidade em todas as suas ações, assim como Fócion, por sua justiça e bondade. Segundo tal propósito, dizem que um dia, como os atenienses estivessem reunidos no teatro para ver desempenhar as Tragédias novas, um dos atores, na hora mesmo que devia entrar no palco para desempenhar seu papel, pediu ao empresário uma máscara de rainha e um acompanhamento de moças enfeitadas magnificamente, porque desempenhava o papel de uma princesa; o outro não concordou e o comediante enfureceu-se, fez cessar os jogos, e não quis sair do palco. Melâncio, que era o empresário, puxou-o à força, gritando bem alto: — "Não vês a mulher de Fócion, que vai sempre só com uma camareira à cidade e, tu queres te fazer glorioso e corromper os costumes das damas de Atenas?" Essas palavras foram ouvidas pela assistência, a qual, pelo grande barulho que fêz batendo palmas, mostrou achá-las muito a propósito. Esta dama, tendo uma de suas amigas da região da Jônia, vindo a Atenas, exibiu-lhe suas jóias e anéis de ouro enriquecidos com pedras preciosas, deu-lhe esta resposta: — "Todo meu ornamento é meu marido Fócion que há vinte anos tem sido continuamente eleito capitão dos atenienses".

Conduz seu filho a Esparta para aí ser formado na disciplina dos lacedemônios.

XXIX. (26) Seu filho deu-lhe a entender um dia que desejava competir com os outros rapazes, a ver quem levantaria o prêmio de descida e subida sobre os carros, correndo à rédea solta nos jogos dos festejos denominados em Atenas, Panathenea; o que o pai lhe permitiu, não porque lhe viesse alguma honra de tal vitória, mas a fim de que, adestrando-se nesse honesto exercício, se tornasse mais útil, porque era rapaz bastante dissoluto e que amava o vinho; todavia, tendo conquistado o prêmio, houve vários amigos de seu pai que lhe pediram para homenageá-lo, festejando em suas casas aquela vitória. Fócion recusou a todos os outros, exceto a um só, ao qual permitiu fazer esta exibição de boa vontade para com sua casa e foi êle mesmo ao jantar onde, entre outras delícias e superfluidades, constatou que haviam preparado banhos de vinho e especiarias odorantes para lavar os pés dos convidados logo que entrassem no festim. Chamou seu filho e lhe disse: — "Como suportas, Fócio (27), que este nosso amigo prejudique e desonre assim tua vitória com estas superfluidades?" E desejando retirar imediatamente esse rapaz daquela dissoluta maneira de viver, levou-o a Esparta, colocando-o com os meninos que são criados na disciplina denominada lacônia. Isto desagradou aos atenienses, ao verem que Fócion desprezava assim os costumes, hábitos e maneiras de seu país, e como Demades, o orador lhe dissesse: — "Por que não persuadimos nós ao povo ateniense para adotar a forma de governo e a disciplina da Lacedemônia ? Quanto a mim, se quiseres concordar, eu me ofereço para propô-lo". — "Verdadeiramente, respondeu então Fócion, seria bem decente que persuadisses os atenienses a viver como os lacedemônios e elogiar as ordens de Licurgo, que são austeras, tu que és comu-mente tão perfumado e andas tão delicadamente vestido".

Conduta de Fócion com relação a Harpalo.

XXX. Uma outra vez, tendo Alexandre pedido que lhe enviassem algumas galeras, os discursadores contrários pregavam que não deviam atender; o povo chamou nominalmente Fócion para ouvir sua opinião, o qual lhes respondeu francamente: —

"Sim, sou de opinião que deveis ser os mais fortes nas armas ou que procureis a amizade daqueles que o são." A Pítias, que estava começando a fazer seus discursos diante do povo e vivia constantemente falando, audacioso e cheio de presunção, Fócion disse: — "Esse novo arengueiro não se calará nunca?" E como Harpalo (28), tenente de Alexandre na província da Babilônia, tendo fugido da Ásia com uma grande quantidade de ouro e de prata, descesse ao país do Ático, logo os que estavam acostumados a mercadejar sua língua falando ao povo, acorreram com inveja uns dos outros perante ele, o qual não deixou de jogar a cada um alguma quantia em prata para os atrair e apetecer; pois isto lhe era pouca coisa, dada a grande quantidade que havia trazido; mas a Fócion, enviou deliberadamente setecentos talentos (29), querendo pôr ainda o resto de seus haveres e sua própria pessoa sob a proteção e salvaguarda dele. Fócion lhe deu uma bem dura resposta: — "Que o faria arrepender-se, caso não parasse de prejudicar e corromper a cidade de Atenas". Nessa ocasião Harpalo retirou-se muito admirado da presença daqueles que haviam aceito seu dinheiro; mas, pouco depois, os atenienses, pondo seus negócios em deliberação, viu que aqueles que haviam aceito o dinheiro haviam virado a casaca, de tal modo que em lugar de defendê-lo, o acusaram para que não suspeitassem de terem aceito dinheiro dele, Fócion ao contrário, que o havia tão rudemente despedido sem querer receber nada, dando em seus conselhos principal atenção à utilidade pública, teve ainda alguma consideração por Harpalo. Este tentou então, pela segunda vez e por todos os meios ganhar sua amizade mas acabou verificando que era uma fortaleza inexpugnável por meio do dinheiro; mas fêz-se amigo de Caneles, genro de Fócion, o que foi causa de maus rumores, pois todos viam que Harpalo confiava em todas as coisas nele, empregando-o em todos os seus negócios, chegando até a encarregá-lo de fazer construir uma magnífica sepultura para a cortesã Pitônica (30), da qual fora amante e de quem havia tido uma filha. Mas, se aceitar um tal encargo era ignominioso para Caricies, a obra o difamou ainda mais, quando ficou terminada; pois até hoje se vê a sepultura no lugar que é denominado Hér-mio (31), quando se vai de Atenas a Eleusina, não havendo nada digno de nota ao se considerar des-peza (32), de trinta talentos, que dizem ter-lhe pago pela construção daquela sepultura. Ainda mais, após o falecimento de Harpalo, Caneles e Fócion mesmo tomaram a filha e a fizeram cuidadosamente criar; todavia sendo Caneles depois chamado perante à justiça para responder pelo dinheiro que o acusavam de haver recebido de Harpalo, aquele pediu a seu sogro Fócion para ajudá-lo e assisti-lo no julgamento, e favorecer sua defesa; mas Fócion recusou, dizendo-lhe: — "Eu o aceitei, Caricies, como meu genro somente, para as coisas justas e honestas".

Prudente conduta de Fócion diante da morte de Alexandre.

XXXI. O primeiro que trouxe a Atenas a notícia da morte de Alexandre foi um Asclepíades, filho de Hiparco, ao qual Demades dizia que não poderiam dar fé: — "Porque, disse ele, se fosse verdadeiro, toda a terra sentina o odor de uma tal morte". Mas Fócion, vendo que o povo já levantava a cabeça, farejando novidades, procurou moderá-lo e contê-lo; e como muitos dos discursadores subissem incontinenti à tribuna e gritassem que a notícia de Asclepíades era certa e que Alexandre estava verdadeiramente morto, Fócion respondeu-lhes: — "Se ela é verdadeira hoje, será portanto verdadeira amanhã e depois de amanhã; portanto, senhores atenienses, não vos apresseis, mas deliberai sossegadamente e estabelecei seguramente o que tendes a fazer". E como Leóstenes, que tanto fêz por suas tramas que atirou a cidade de Atenas na guerra que chamam "a guerra dos gregos" (33), perguntasse zombando a Fócion, que estava irritado, que bem havia feito em favor da coisa pública em tantos anos de poder como capitão-general de Atenas, Fócion respondeu-lhe: — "O bem que fiz não é pequeno; pois enquanto fui capitão, os cidadãos de Atenas foram enterrados nas sepulturas de seus antepassados". Esse Leóstenes falava alto e avantajadamente diante do povo, razão por que Fócion lhe disse um dia: "Teus propósitos, rapaz amigo, assemelham-se propriamente aos ciprestes; pois são grandes e altos, mas não dão frutos". Então Hipérides, levantando-se nos pés, perguntou-lhe: — "Então, Fócion, quando aconselharás os atenienses a guerrear?" — "Quando vir, disse êíe, os rapazes bem disciplinados em suas fileiras, os ricos contribuindo voluntariamente com dinheiro e os oradores se abstendo de furtar a república".

O que pensava da guerra denominada Lamaica.

XXXII. No entanto, diversos se encantaram de ver a bela e poderosa armada que Leóstenes havia organizado e perguntaram a Fócion o que lhe parecia tal preparativo. — "É belo, disse ele, para uma corrida no estádio (34) mas receio a volta e a continuação da guerra, porque não vejo onde esta cidade tenha meios de conseguir dinheiro, nem outros navios, nem outros soldados além desses". Isto foi depois testemunhado pelos acontecimentos, porque de início Leóstenes praticou grandes feitos de armas, pois derrotou os beócios e colocou Antípater dentro da cidade de Lâmia; o que levantou os atenienses em grande esperança, de sorte que não faziam em Atenas outra coisa senão festas e sacrifícios contínuos, para render graças aos deuses por estas boas notícias; havia alguns que procuravam convencer Fócion, de maneira que não soubesse o que responder, e perguntavam-lhe se desejava tomar parte em tão belas festas: — "Sim, verdadeiramente, respondeu-lhes, eu desejaria de fato, mas continuo aconselhando o que aconselhei". E como escrevessem e trouxessem todos os dias boas notícias umas sobre as outras, disse: — *Ó deuses! Quando cessaremos de vencer e de ganhar?" Todavia Leóstenes, no final, tendo morrido nessa viagem, aqueles que receavam ser Fócion nomeado capitão em lugar dele, e fizesse a paz, nomearam um personagem pouco conhecido e de baixa classe que em plena assembléia do conselho veio dizer que, sendo amigo de Fócion e seu companheiro de escola, suplicava ao povo para poupá-lo e salvaguardá-lo porque não tinham outro semelhante a ele e que enviassem antes ao campo a Antífilo. Manifestando-se o povo de acordo, Fócion foi à frente e disse que não havia estado nunca na escola com aquele homem, e mais ainda, que não o conhecia de modo algum, nem nunca havia sido seu amigo: — "Entretanto, quem quer que tu sejas, disse ele, tenho-te doravante por meu amigo e por meu benfeitor, pois aconselhaste ao povo o que me é mais excelente".

Dá ordem para arrolar homens até sessenta anos.

XXXIII. No entanto o povo, a toda força, querendo ir contra os beócios, Fócion resistiu o mais que pôde, com palavras primeiramente; e como seus amigos lhe observassem que se faria matar, contrariando assim a vontade popular, respondeu-lhe: —

Sem razão me farão morrer, se faço e procuro o que lhes é útil; e com razão também, se o que faço os contraria". Mas vendo que nem assim eles não concordavam, mas gritavam mais e mais contra ele, então ordenou aos arautos que proclamassem ao som da trombeta, que todos os burgueses, camponeses e habitantes de Atenas, desde a idade de quatorze anos (35), até sessenta, estivessem prontos, ao partir da assembléia, a segui-lo nas armas, trazendo víveres para cinco dias. Ouvido tal brado, houve grande tumulto em toda a cidade e acorreram incontinenti os velhos à sua presença para se queixarem da dureza da ordem; respondeu-lhes: — "Isto não é nenhum erro, pois eu mesmo, que estou com a idade de oitenta anos, estarei convosco".

Derrota Micion.

XXXIV. Assim os reteve e lhes fez perder seu louco desejo de guerrear, mas sendo a costa da praia percorrida e pilhada pelo capitão Micion, o qual, com bom número de macedônios e outros estrangeiros havia descido no território do bairro de Ramnus e danificava toda a região plana nos arredores, Fócion para ali conduziu os atenienses; entretanto, como vários acorressem a ele, intrometendo-se em seu cargo de capitão e pondo-se a aconselhar, uns para alojar seu acampamento sobre tal outeiro, outros, a enviar a tal local os soldados da cavalaria, outros ainda a acampar aqui: — Hercules, disse-lhes, que quantidade vejo de capitães e tão poucos soldados!" Depois, quando alinhou seus soldados em formação de batalha, houve um que se atirou bem longe adiante dos outros, fora de sua linha; mas, tendo lambem avançado um dos inimigos para enfrentá-lo, o ateniense teve medo, e voltou ao seu lugar; então Fócion lhe disse: — "Não tens vergonha, jovem estouvado, de haver assim, por duas vezes,