Aristides, o justo – estratego grego – por Plutarco

Aristides, o justo – estratego grego – por Plutarco

SUMÁRIO DA VIDA DE ARISTIDES

  • I. Origem de Aristides. Diferença de opiniões sobre sua fortuna.
  • IV. Sua amizade por Clistênio e sua consideração para com Licurgo. Início e causas de sua inimizade com Temís-tocles.
  • V. Princípios opostos de sua conduta.
  • VII. Eqüidade de Aristides.
  • X. Sua integridade no manejo das finanças.
  • XI. Sua deferência para com Milcíades.
  • XII. Seu valor e sua moderação na batalha de Maratona.
  • XIV. Tempo de seu arcontado.
  • XV. Sua justiça. Excelência do epíteto de Justo.
  • XVI. É expulso devido aos enredos de Temístocles.
  • XVII. Permanência deste uso em Atenas.
  • XIX. Sua maneira de proceder diante deste caso.
  • XXI. Aristides é chamado. Sua generosidade para com Temístocles. Sua entrevista.
  • XXIII. Batalha de Salamina.
  • XXVIII. Batalha de Platéia.
  • XLIX. Divisão do espólio.
  • LI. Aristides faz estabelecer as festas e jogos em Atenas.
  • LII. Solenidade pública instituída para honrar a memória dos que morreram pela liberdade.
  • LIII. Forma de governo em Atenas depois da batalha de Platéia.
  • LIV. Projeto de Temístocles para aumentar o poder de Atenas, o qual, submetido a Aristides, é recusado por injusto.
  • LV. A justiça de Aristides e a delicadeza de Cimon fazem perder à Lacedemônia seu principado sobre a Grécia. Altivez e orgulho de Pausânias, general dos lacedemònios.
  • LVI. Os aliados da Grécia deixam o partido da Lacedemônia para tomar o de Atenas.
  • LVII. Sentimentos nobres dos lacedemònios.
  • LVIII. Taxa imposta por Aristides a todas as cidades da Grécia, por um consentimento unânime. Tempos felizes da Grécia. Aumento da taxa sob Péricles e depois de sua morte.
  • LIX. Novas altercações entre Temístocles e Aristides.
  • LX. Juramento de aliança dos povos da Grécia. Aristides o pronuncia em nome dos atenienses.
  • LXI. Suas considerações políticas. Sua pobreza.
  • LXIV. Sua moderação na desgraça de Temístocles.
  • LXV. Morte de Aristides.
  • LXVI. Seus funerais e o casamento de suas filhas a expensas do público.
  • LXVII. Atos de humanidade da cidade de Atenas.

Da 63." Olimpiada ate o 2. ano da 78/’ ou 467 A. C.

ARISTIDES

por Plutarco in Vidas Paralelas

Aristides, filho de Lisímaco, era de linhagem antióquida (1), do bairro de Alopece, mas quanto a seus bens e suas possibilidades, foram escritas, a respeito, várias histórias. Enquanto uns dizem que êle viveu toda a sua vida numa angustiante pobreza e deixou duas filhas, as quais, depois de sua morte ficaram muito tempo sem casar por não serem ricas, com o que a maioria dos historiados antigos está de acordo, Demétrio Falereu (2), no entanto, num livro que intitulou Sócrates, escreve o contrário e diz que teve conhecimento da existência de uma possessão, no bairro de Falaréia, que ainda chamam a posse e terra de Aristides, na qual o seu corpo está enterrado. E, além disso, para provar que sua casa era opulenta e rica, alegou tais indícios: primeiramente, que êle foi, durante um ano, preboste da cidade de Atenas, cargo que era denominado arconte epônimo (3), isto é, o que dá o seu nome ao ano em que funciona (4) e diz também que foi eleito por meio das favas, segundo o antigo uso dos atenienses, em cuja eleição não eram admitidos senão aqueles que eram tidos em mais alta conta pelo valor de seus bens, os quais chamavam em Atenas pentacosiomcdimnos (5), a saber, os que tinham de renda o valor de quinhentos minots (6) de trigo, ou daí para cima. Em segundo lugar alega que ele foi relegado ou banido do partido que se chama Ostracismo, do qual não se costumava expulsar os pobres, mas somente os nobres e os ricos, os quais a plebe invejava. Como terceiro e último argumento, afirma que deixou ao templo de Baco os vasos de três pés que comumente os empreendedores estavam acostumados a oferecer (7), sendo que estes empreendedores levantavam os prêmios nos jogos de comédias, tragédias e outros divertimentos, fazendo eles as despesas, e que os ditos vasos teriam sido doados por Aristides (8), sendo que se podia ler neles a seguinte inscrição: "A linhagem antióquida levantou o prêmio, Aristides pagou as despesas e o poeta Arquestrato fêz representar suas comédias."

(1) No original grego: tribo.
(2) Famoso gramático que Cassandro, governador da Macedónia, pôs como comandante em Atenas, seis anos depois da morte de Alexandre, trezentos anos antes de nossa era. Foi a êle que os atenienses ergueram trezentas e sessenta estátuas.
(3) Arconte epônimo, isto é. aquele que dava seu nome ao ano. Com efeito, dos nove arcontes que nomeavam cada ano. o primeiro era o arconte propriamente dito e o único que inscrevia seu nome nos atos públicos.
(4) Codro, último rei de Atenas, dedicou-se à sua pátria, mil e noventa e um anos antes de Nosso Senhor Jesus Cristo. A realeza foi substituída por magistrados perpétuos, que se chamavam arcontes. No terceiro ano da sexta Olimpíada, .o arcontado foi reduzido para dez anos. Antes dessa redução houve treze seguidos e depois dela, sete. Depois os arcontes tornaram-se anuais, no primeiro ano da vigésima-quarta Olimpíada e Créon foi o primeiro. Esta data foi estabelecida em uma excelente obra de Larcher.
(5) Veja-se a Vida de Sólon, cap. XXX.
(6) Medida antiga.
(7) Ver as Observações.

II. Este último argumento, contanto seja o que parece ter mais visos de verdade é, no entanto, o mais frágil, pois Epaminondas, que como se sabe, nasceu, foi criado e morreu pobre, e Platão, o filósofo, também, aceitaram o encargo de arcar com as despesas dos jogos, que não eram nada pequenas, tendo um pago em Tebas os tocadores de flauta e o outro, em Atenas^ a dança das crianças que bailavam em roda, o que fêz com que Dion, o Siracusano, fornecesse dinheiro a Platão, e Pelópidas a Epaminondas. Pois não se afirma que os homens virtuosos devem fazer uma guerra mortal, por força de expressão, aos presentes que lhes poderiam fazer seus amigos e que não deviam, de qualquer forma, jamais aceitar nem receber nada deles e que deviam considerar sujo e imundo receber por avareza para enriquecer, guardar ou deixar em reserva. Mas, quando a questão era de alguma empresa honrosa ou de magnificência pública, da qual nada tocava particularmente em proveito deles, não deviam recusar os oferecimentos feitos pelos amigos. E quanto aos vasos que dizem ter sido oferecidos ao templo de Baco, Panécio mostra evidentemente que Demétrio abusou com a semelhança do nome, porque desde o tempo das guerras medas até o começo da guerra do Peloponeso, não se encontram nos registos dos custeadores de jogos públicos senão dois vencedores com o nome de Aristides, dos quais nem um nem outro é o filho de Lisímaco de quem presentemente falamos, pois um foi inscrito como sendo filho de Xenófilo e o outro existiu muito tempo depois deste sobre quem estamos escrevendo, o que se pode conhecer pela escrita (9) e pela ortografia usadas, o que está de acordo com as regras de gramática usadas na Grécia desde Euclides, também identificado pelo nome do poeta Arques-trato, que se acha anexo, pois não há pessoa alguma que faça menção de um poeta com esse nome em tcdo o tempo das guerras dos medas, mas sim na época das guerras do Peloponeso, quando diversos o colocavam como autor e compositor de hinos e cânticos daqueles que eram entoados nas danças públicas.

(8) No grego: "… e mostravam ainda esses vasos, em meu tempo, onde se lia esta inscrição…".

III. Todavia, quanto à oposição que faz Panécio, é preciso pensar nisso com mais elevação e mais cuidado. Quanto, porém, ao partido do ostracismo, é certo que todos esses que eram de maior projeção sobre os outros, fosse em glória e boa fama, bem como em nobreza e eloqüência, eram sujeitos aos demais, tanto assim que Damon, preceptor de Péricles, foi expulso somente porque pareceu à plebe que era muito sábio. Além do mais, Idomeneu escreve que Aristides foi preboste anual, não pela sorte das favas, mas pelos votos dos atenienses, que o quiseram eleger, e fci isto desde a noite de Platéia (10) como Demétrio escreve. E é razoável que lhe façam esta honra pela sua excelente virtude e seus grandes méritos e serviços, os quais os outros tinham o hábito de receber pelas suas riquezas. Mas esse Demétrio não se esforça somente para excluir Aristides da pobreza, como se isto fosse alguma coisa desprezível e digna de censura, pois escreve que êle não possuía somente uma casa, mas outros bens, entre os quais setenta minas de prata (11) que Críton lhe fazia auferir lucros, pagando-lhes juros.

(9) Não se trata aqui senão da escrita e da forma dos caracteres, que era muito diferente, como se vè pelas inscrições que ainda existem e que são mais antigas do que Euclides, matemático célebre e um dos mestres de Platão. Não se trata da forma dos caracteres, mas da ortografia, pois que os atenienses haviam conservado a antiga até o arcontatío de Euclides no segundo ano da octogésima-oitava Olimpíada, época em que adotaram o alfabeto jônio, que era mais completo.

IV. Voltando, porém, à história de Aristides, lembraremos que foi amigo íntimo de Clistênio, o mesmo que restabeleceu a ordem, administrativa em Atenas, após a expulsão dos trinta tiranos (12). Também Licurgo, o Lacedemônio, mais que todos os outros participantes da administração pública, mereceu de sua parte uma consideração especial, o que lhe trouxe o favor da aristocracia, isto é, a nobreza, com o reduzido número daqueles, que por serem pessoas de bem, acabam enfeixando em suas mãos maior autoridade. Temístocles, filho de Neocles, foi como que o seu contrapeso, pois procurou sempre o favor das classes populares. Segundo referem alguns, desde os tempos de sua infância, criados e instruídos juntos, foram os dois sempre contrários um ao outro, tanto em suas ações como em seus propósitos, mesmo quando brincavam, ocasião em que seus temperamentos começaram a mostrar, pelos seus atos e atitudes, a diferença que os caracterizava. Um era rápido em suas decisões, corajoso, bastante esperto e empreendia todas as coisas com grande presteza. O outro, porém, era frio e descansado, constante e parado e por nada neste mundo mudava o sentido reto da justiça e não admitia, sob nenhum pretexto, a mentira, o engano e a afetação, nem mesmo no jogo. Todavia, Ariston, natural de Quio, escreve que sua inimizade começou devido à inclinação amorosa de ambos por um rapaz de bela e atraente conformação física, de nome Estesileu, da ilha de Ceos, afeição esta que aumentou muito com o passar dos tempos. Isto criou entre eles uma rivalidade que, não somente não desapareceu, mesmo com o decorrer dos anos em que feneceu a beleza do moço, como adquiriu maior intensidade e os acompanhou pela vida em fora. Foi como que uma experiência que os dois tiveram, para mais tarde os indispor assim, sempre irritados e cheios de inveja, ao se lançarem juntos na vida pública.

(10) Foi arconte epônimo no terceiro e quarto anos da septuagésima-segunda Olimpíada, quatrocentos e noventa anos A. C. e um ano depois da batalha de Maratona. Digo terceiro e quarto, porque o ano ático, começando no mês gamclion. a partir do solsticio do inverno, correspondia a dois anos olímpicos, que começavam no mês hecatomheon, a partir do solsticio do verão, o que subsistiu até o fim da octogésima Olimpíada. Depois dessa época, o começo do ano ático e do arcontado foram levados para o mês hecatombeon. Dodwell coloca o arcontado de Aristides um ano mais tarde.
(11) Aproximadamente setecentos escudos, segundo Amyot.
(12) Esse restabelecimento foi feito depois da expulsão dos pisistrátidas, na sexagésima-sétima Olimpíada e não como Amyot entendeu, depois de serem expulsos os trinta tiranos, o que se deu na nonagésima-quarta Olimpíada, muito tempo depois da morte de Clistênio e de Aristides. Também não se encontra no original grego a palavra trinta.

V. Ora, Temístocles, logo que alcançou alguma posição, deu de subornar amigos e, por esse meio conseguiu, em pouco tempo, bastante autoridade, da qual se valeu para acautelar-se, provendo segurança e proteção para sua pessoa. Assim, um dia, respondendo a alguém que lhe dizia ser êle digno de governar a cidade de Atenas, o que poderia fazer muito bem desde que se mostrasse acessível a todos, exclamou: "Que aos deuses não apraza jamais esteja eu sentado na cadeira de governador, se ali meus amigos não encontrarem maior favor do que os estrangeiros, que para mim nada significam".

VI. Aristides, entretanto, resolveu agir de maneira contrária. Não quis, nunca, alinhar-se ao lado daqueles que se achavam ligados à administração pública, porque não desejava, em primeiro lugar, causar dano a ninguém em proveito de outros a quem teria forçosamente que se aliar, nem também contrariá-los, negando-lhes o que viessem a pedir. Admi-rava-se mesmo de como alguns tinham a coragem de praticar atos contra o direito e a razão, valendo-se da amizade daqueles que governam. Mantinha, dessa forma, a opinião de que o homem de bem não deve assegurar para si mesmo nenhuma outra proteção que não seja o fazer, aconselhar e dizer apenas o que é honesto.

VII. No entanto, vendo que Temístocles resistia temerariamente e de propósito a todos os seus empreendimentos, buscando entravar seus projetos, também êle era constrangido, às vezes, a resistir ao seu rival, debatendo suas pretensões para devolver-lhe o troco de igual para igual, ao mesmo tempo que rebatia seu prestígio e autoridade, que estavam sempre crescendo, com o favor da plebe. Contradizia-o, de quando em vez, para impedir que uma ou outra coisa fosse feita em favor da coletividade e assim impedir que o rival ficasse em evidência (13). Aconteceu mesmo, em certa ocasião, que tendo Temístocles apresentado um projeto reputado útil e proveitoso ao povo, Aristides lhe fêz uma barreira tão grande, que acabou ganhando do adversário. Ao sair, porém, da assembléia na qual o empreendimento de Temístocles havia sido rejeitado, disse que não era possível andarem bem os negócios de Atenas, a menos que um deles dois fosse atirado ao báratro (14), (que era um abismo, onde costumavam precipitar os malfeitores e condenados a morte).

(13) Parece que no grego, com a simples mudança de uma vírgula, pode-se conseguir este sentido mais razoável: "… do que deixá-lo conseguir uma autoridade excessiva, suportando que suas opiniões prevalecessem em todas as ocasiões".

VIII. De outra feita foi o próprio Aristides quem, após ter apresentado um projeto que levantou grande celeuma e oposição, antes que o presidente da assembléia o submetesse à aprovação, reconhecendo estar de fato cheio de contradições e reconhecendo igualmente as razões apresentadas contra, desistiu e fêz retirar sua proposição, verificando que realmente era prejudicial aos interesses do povo. Às vezes, receoso da oposição de Temístocles, fazia apresentar por outros os seus projetos, evitando assim que uma desavença pessoal viesse de encontro ao bem da coletividade.

Mas a sua maneira grave e, especialmente, sua constância, ao tratar as questões que Jhe estavam afetas, eram admiráveis. Jamais se deixou abalar pela lisonja e tão pouco pela repulsa que viessem a sofrer suas opiniões. Não se humilhava, nem se perturbava, mantendo sempre a opinião de que o homem público deve estar sempre disposto a oferecer o corpo e o espírito para bem servir à causa de seu povo, sem esperar qualquer recompensa em dinheiro, honras ou glória. E o povo reconhecia estas qualidades, pois um dia, quando citavam no teatro os versos de urna das tragédias de Ésquilo (15), escritos em louvor do antigo adivinho Anfiarao e que eram os seguintes:

Não quer nunca parecer justo, mas o ser Amante virtuoso, com pensamento profundo, Do qual vemos comumente nascer Sábios conselhos, com toda a honra do mundo, todos, incontinenti, voltaram os olhos em direção a Aristides, como se a êle verdadeiramente, mais do que a nenhum outro, pertencesse o louvor de uma tão grande virtude, pois era firme ao resistir, não somente ao favor e à graça, mas também semelhantemente à ira e ao ódio, porque onde havia questão de justiça, na amizade, não fazia nada por seus amigos e nem na inimizade contra seus inimigos.

(14) Isto é uma explicação de Amyot e não está no original.

IX. A propósito contam que uma vez, ao levar perante a justiça um inimigo seu, acompanhou-o no julgamento e, depois de feita a sua acusação, os juízes ficaram tão irritados contra o criminoso, que sem ouvi-lo, queriam condená-lo. Aristides, porém, levantou-se de sua cadeira para se atirar aos pés dos juízes com o criminoso, pedindo-lhes que dessem audiência também ao réu para que este pudesse justificar-se e defender-se como as leis ordenam. De outra vez, funcionando como juiz entre dois particulares que demandavam em sua frente, um dos dois se pôs a dizer: "Minha parte contrária causou-te muitos danos e irritações a ti mesmo, Aristides". Respondeu-lhe prontamente: — "Meu amigo, dize somente o que êle fêz a ti, pois estou aqui para te fazer justiça e não a mim".

(15) Na tragédia dos «Sete Chefes diante de Tebas», v. 594.

X. Ao ser eleito tesoureiro-geral de toda a renda senhorial de Atenas, demonstrou que todos aqueles que haviam manejado as finanças públicas, não somente em seu tempo, mas também anteriormente, haviam pilhado e roubado, entre os quais Temístocles, que era homem bem avisado e de grande senso, mas não tinha as mãos seguras e nem limpas. Assim, quando Aristides quis prestar suas contas, Temístocles e vários outros, por êle induzidos, voltaram-se contra Aristides, acusando-o de haver andado mal e roubado em seu cargo, e, com tal veemência sustentaram suas acusações e fizeram tal perseguição, que por meio desse ardil foi êle condenado, conforme relata Idomeneu. Todavia, os mais influentes e as pessoas mais conceituadas da cidade, verificando o erro que cometiam, tomaram em mãos a sua causa e não somente fizeram com que a multa a qual havia sido condenado fosse restituída, como também que êle fosse reintegrado no mesmo cargo, para o ano seguinte. Então começou a agir de modo diferente e fingiu estar arrependido de ter governado como havia feito no ano precedente, mostrando-se mais tratável com os que tinham negócios com êle, não tomando as coisas tão a sério, nem examinando-as tão rigorosamente, como havia feito antes. Por esse meio, aqueles que roubavam dos cofres públicos louvaram-no maravilhosamente e brigaram entre si para o fazer continuar no mesmo cargo. Mas, chegado o dia da eleição, quando os atenienses demonstraram desejo de elegê-lo novamente, ele mesmo os repreendeu e lhes disse: "Quando administrei bem e fielmente no cargo que me havíeis confiado, recebi de vós, ultraje, vergonha e vilania e agora que finjo não ver mais os furtos e as pilhagens, vós me tomais por homem de bem e bom cidadão, mas eu vos digo e vos declaro que tenho mais vergonha da honra que me concedeis agora, do que da multa a qual me condenastes o ano passado e estou ofendido e é preciso que vos diga: — para vós é mais louvável gratificar os maus do que guardar o bem público". E, aduzindo com suas advertências, a descoberta dos furtos comuns que praticavam os funcionários da cidade, fechou a boca dos ladrões que tão abertamente o louvavam e testemunhavam perante o povo o quanto êle era homem honesto. Dessa forma rendeu êle um preito de justo e verdadeiro louvor às pessoas de bem e de honra.

(16) Segundo ano da septuagésima-segunda Olimpíada, 491 A. C.

XI. Entrementes, tendo Dates, tenente do Rei Dario vindo abordar com toda a sua frota e desembarcar na região de Maratona (16) dentro da região da Ática aparentemente, como dizia, somente para vingar-se dos atenienses que haviam queimado a cidade de Sardis, mas em verdade com a intenção de subjugar e conquistar toda a Grécia, correndo e pilhando a região plana, os atenienses elegeram então dez capitães para conduzirem a defesa, entre os quais Milcíades, que era o que possuía mais dignidade e autoridade. Mas Aristides seguia-o bem de perto em reputação e crédito, tendo mesmo contribuído para a vitória quando concordou com a opinião de Milcíades no Censelho, no qual concluíram que teriam de dar batalha aos bárbaros, e também quando cedeu, voluntariamente, a autoridade de comando da armada a Milcíades porque cada capitão, a seu turno tinha um dia no qual comandava a frota. Assim, quando chegou a sua vez, colocou o comando nas mãos de Milcíades, ensinando aos companheiros a submissão e obediência aos mais sábios, que não somente não é coisa reprovável, mas salutar e honrosa. Com este exemplo, acalmando a luta que poderia se levantar entre eles e admoestando-os a concordar com o conselho e aviso daquele que entendia melhor dos feitos da guerra, animou grandemente a Malcíades, o qual se sentiu mais seguro e mais firme em autoridade, não cometendo mais qualquer falha, pois desde que Aristides, uma vez, havia cedido sua autoridade, todos os outros fizeram o mesmo e se submeteram inteiramente a êle.

XII. No dia da batalha, o lugar onde os atenienses tiveram mais dificuldade foi no meio, onde se achavam enfileiradas as tribos leôntida e antió-quida, pois foi o ponto onde os bárbaros mais se esforçaram e onde combateram mais duramente e ali mesmo Temístocles e Aristides, combatendo lado a lado, porque um era da linha leôntida e outro da antióquida, fizeram grandes proezas em competição um com o outro. Finalmente, os bárbaros, sendo rompidos, viraram em fuga desordenada, sendo perseguidos até dentro de seus navios. Uma vez embarcados, porém, os capitães atenienses, vendo que não tomavam o caminho das ilhas pelo qual deviam voltar para a Ásia, mas eram atirados pela impetuosidade do vento e pelas correntes marítimas dentro da Ática, para os lados da cidade de Atenas, tiveram receio de que a encontrassem desguarnecida e, por isso, para lá se encaminharam a toda a pressa, conduzindo nove linhagens, que foram tão rapidamente, que chegaram no mesmo dia, deixando no campo de Maratona Aristides e seus combatentes, guardando os prisioneiros e as presas tomadas dos bárbaros.

XIII. Nisto não ficaram decepcionados aqueles que acreditaram na probidade e grande experiência de Aristides, pois como havia grande quantidade de ouro e prata, vestimentas, móveis e outros bens em todas as tendas e pavilhões dos bárbaros e também dentro dos navios que foram tomados por eles, não teve a ambição de tocar em nada, nem consentiu que outros fizessem e foi a sua revelia que alguns agiram em desacordo com suas ordens, entre os quais Cálias, um dos sacerdotes de Ceres, denominado Dadouco, que quer dizer "porta-tocha" (porque nos sacrifícios secretos de Ceres seu ofício consistia em segurar a tocha) (17), pois houve um dos bárbaros que, ao vê-lo com a cabeça cingida por uma faixa e os cabelos compridos, pensou que fosse algum rei e, atirando-se a seus pés, beijou-lhe a mão, mostrando-lhe uma grande quantidade de ouro que se achava escondida e enterrada dentro de uma fossa. Cálias, mostrando-se o mais cruel, o mais covarde e malvado ente que pudesse haver sobre a terra, matou o pobre bárbaro, receoso de que dissesse aos outros o mesmo que lhe havia revelado. É por esta razão que os poetas cômicos chamam por pilhéria, aos seus descendentes, lacóplutos, isto é, "enriquecidos pela fossa".

XIV. Logo depois desta batalha, Aristides foi eleito preboste anual de Atenas, se bem que Demétrio Falereu escreva que foi pouco tempo antes de sua morte que isto se deu, depois da jornada de Plateia. Nos registros onde são escriturados em ordem, as pretorias de cada um, não se encontra o nome de Aristides senão vários anos depois de um Xantípidas, no ano em que Mardônio, tenente do rei da Pérsia, foi derrotado diante de Platéia (18) e, assim, é depois de Fanipo no ano em que se deu a jornada de Maratona, que se encontra Aristides arrolado com outros prebostes.

(17) Isto é uma explicação de Amyot.
(18) Segundo ano da septuagésima-quinta Olimpíada, ou 479 A. C.

XV. Mas, de todas as qualidades e virtudes louváveis que Aristides possuía, a mais conhecida e da qual o povo tinha mais experiência, era o senso de justiça. Esta virtude, cujo uso e exercício são como contínuos, é justamente aquela que a maioria das pessoas sente. Sendo êle homem pobre, humilde (19) e simples, obteve a mais real e a mais divina consagração que jamais homem algum saberia conseguir, sendo cognominado pela voz do povo — o Justo. Tal denominação nunca foi requisitada ou preferida, nem mesmo desejada pelos reis, pelos príncipes e pelos tiranos. Entretanto, muitos tiveram gosto em ser cognominados, uns de poliorcetas, isto é, "violentadores ou arrombadores de cidades". Outros cerâuni, que significa "fulminantes". Alguns mais foram chamados nicanores, cujo sentido quer dizer "vitoriosos" ou "conquistadores". Outros, ainda, tiveram prazer na denominação de aeti e de hieraces, isto é, "águias" ou "falcões", bem como outros pássaros de garras, preferindo se fazerem notar e adquirir reputação com as características da força e da violência, em lugar daquelas qualidades que dimanam da bondade e da virtude. E, no entanto, a divina essência, à qual todos eles tanto desejavam se igualar, precede todas as demais essências e naturezas, principalmente em três coisas distintas: na imortalidade, no poder e na bondade, das quais esta última (20) é a virtude mais digna de acatamento e onde há mais divindade. Porque ser imortal, os quatro elementos e o nada o são também (assim pensam os filósofos natos) (21). Quanto à força e ao poder, os tremores de terra, os raios e os impetuosos turbilhões de vento, as torrentes e as inundações de água são muito grandes, mas a justiça, a retidão e a eqüidade, delas participa a própria divindade, por meio da razão e do entendimento. E, assim, os homens cultivam três sentimentos diferentes para com os deuses: um, que os considera bem-aventurados; outro, que os faz temidos; o terceiro, que os julga dignos de honra. Consideram a divindade feliz, pela imortalidade e eternidade de sua essência. Temem-na, devido seu domínio e poder. Amam-na, adoram e reverenciam por sua justiça. No entanto, as qualidades, dentre estas três, que os homens mais ambicionam são: a imortalidade, que a natureza humana não alcança, e o poder, que em grande parte depende da sorte. Em último lugar vem a virtude, o único bem dos deuses do qual podemos ser capazes. No entanto, é justamente aí que falha e abusa a humanidade, porque a justiça torna a vida daqueles "que alcançam a fortuna, o poder e a autoridade, divina e celeste; e a injustiça a torna bestial e selvagem.

(19) No original grego: «Da classe do povo».
(20) Amyot se torna, às vezes, confuso, chegando mesmo a contradizer-se, no empenho de mostrar com maiores detalhes o pensamento de Plutarco, o que aliás, os próprios comentadores franceses reconhecem. Neste caso, por exemplo, as palavras bondade e virtude têm o mesmo sentido, o qual não é senão justiça, atributo da divindade que Plutarco considera fácil ser exercido pelos homens. No trecho que comentamos, Amyot discrimina bondade e virtude, quando pelo sentido se deve compreender que Plutarco se refere ao senso de justiça, que é também uma grande virtude. O que é de admirar, no caso, é que Amyot, prelado ilustre, que estava naturalmente familiarizado com São Paulo e Agostinho, deixe passar em branco a debatida questão da liberdade humana com relação ao bem e ao mal.
(21) Esta observação não se acha no original.

XVI. Ora, voltando a Aristides, lembremo-nos de que o cognome de Justo desde o início lhe trouxe o amor e a benevolência do povo, mas provocou e engendrou a inveja, devido aos meneios de Temísto-cles, o qual começou a dizer e a semear por toda a parte que Aristides havia abolido os julgamentos porque, pela escolha das partes, era sempre apontado como árbitro por saber julgar diferentemente dos outros e porque, por esse meio, ia adquirindo’ secretamente uma soberania e poder próprios de um monarca, sem precisar de guardas nem de satélites. Ora, o povo, que desde a vitória de Maratona, governava e desejava que todas as coisas dependessem inteiramente dele e de sua autoridade, caía em desagrado quando verificava que um dos particulares superava a outro em reputação e boa fama. Dessa forma, resolveu-se após reunião a que compareceram representantes de toda a região da Ática, a expulsão de Aristides do partido chamado Ostracismo, disfarçando a inveja que tinham de sua gloria, por um infundado temor de tirania.

XVII. Esta maneira de banir, a que chamavam Ostracismo ou Exostracismo, não era um castigo imposto por qualquer crime ou malfeitoria. Segundo diziam, o que visavam era apenas dar uma capa honesta aos atingidos para abater uma autoridade e um poder excessivos, incompatíveis num estado popular. Na verdade, porém, não passava de um meio pelo qual se procurava contentar graciosamente o povo, quando este concebia inveja contra alguém que se encontrava em autoridade e evidência, cons-trangendo-o a abster-se de toda e qualquer atividade pública, pelo prazo de dez anos. Entretanto, quando começaram a aplicar tal pena a pessoas sem representação social e também a indivíduos maus, como se deu com um de nome Hipérbolo, que foi o último a ser expulso, seu uso foi inteiramente abandonado em Atenas.

XVIII. Não estará fora de propósito o declarar neste lugar, como e por que razão foi este Hipérbolo relegado: Alcibíades e Nícias eram, em seu tempo, os primeiros homens de Atenas, tendo desavenças um com o outro, como acontece comumente entre iguais. Vendo que o povo desejava, em assembléia, proceder à execução de uma sentença pelo Ostracismo, desconfiaram que fosse para afastar e banir um deles; falaram um com o outro combinando juntamente com seus servos e aderentes e os reuniram tão bem numa liga que quando vieram recolher os votos do povo para ver a pluralidade de sufrágios e aquele que seria expulso, acharam que era Hipér-bolo, pelo que ò povo ficou tão descontente vendo a coisa assim aviltada, criticada e desonrada, que não quis. utilizar mais e foi abolido completamente o seu uso.

XIX. Mas, para dar sumariamente a compreender o que era e como se praticava em tal processo, é preciso anotar que em certo dia, antecipadamente marcado e prefixado, cada cidadão trazia uma concha, sobre a qual escrevia o nome daquele que desejava que fosse banido e a colocava dentro de um recinto fechado a volta toda por um tabique de madeira que construíam sobre a praça, pois cada um aí trazia a sua. Os magistrados e oficiais da cidade punham-se a contar todas essas conchas juntas, pois se havia menos de seis mil cidadãos que houvessem trazido essas conchas assim escritas, o Ostracismo era imperfeito. Isso feito, colocavam à parte cada nome escrito e aquele que estava escrito pelo maior número de cidadãos, era, ao som de trombeta proclamado banido e relegado por dez anos, durante os quais, no entanto, gozava de todos os seus bens.

XX. Como, portanto, na ocasião, cada um escrevia sobre sua concha o nome daquele que queria que fosse expulso, dizem que houve um camponês tão grosseiro e tão ignorante que não sabia nem ler nem escrever, o qual dirigiu-se a Aristides, porque o encontrou primeiro e lhe entregou sua concha, pedindo-lhe para escrever em cima o nome de Aristides. Este, admirando-se, perguntou-lhe se Aristides lhe havia causado algum desgosto: — "Não, respondeu o camponês, e o melhor é que eu não o conheço, mas êle me irrita porque ouço, em todo o lugar, chamarem-no o Justo". Aristides, tendo ouvido essas palavras não lhe respondeu nada, mas escreveu êle mesmo seu nome sobre a concha e a devolveu. Mas, ao partir, saindo da cidade, levantou suas duas mãos para o céu e fêz uma oração em tudo contrária à de Aquiles em Homero, pedindo aos deuses que jamais acontecesse mais nada aos atenienses, que os obrigasse a ter recordação de Aristides.

XXI. Todavia três anos depois, quando o rei da Pérsia, Xerxes, cem sua armada, passou pelas regiões da Tessália e da Beócia, entrando até o fundo da Ática (22), os atenienses, anulando o seu ostracismo, chamaram todos os que haviam afastado, isso principalmente pelo medo que tiveram que Aristides se passasse para o lado dos bárbaros e seu exemplo induzisse muitos outros a fazer o mesmo, no que demonstraram não conhecer muito bem a sua natureza, pois antes de ser convidado, não cessou de andar de um lado para o outro, exortando e encorajando os gregos a manter e defender sua liberdade. E depois que o decreto de seu chamado foi publicado, e que Temístocles foi eleito único capitão geral de Atenas, ele o ajudou fielmente, em tudo, tanto com seus serviços como com seus conselhos e, assim fazendo, fêz seu maior inimigo coberto de glória, tanto era o apreço da salvação dos negócios públicos. Como Euribíades, que era chefe da armada grega, deliberasse abandonar a ilha de Salamina, sem que ninguém soubesse nada a respeito, Aristides, com uma coragem estranha, partindo da ilha de Egina, passou entre os navios dos bárbaros e tanto fêz que chegou de noite à tenda de Temístocles, o qual chamou do lado de fora e falou-lhe desta maneira: -— "Temístocles, se nós dois somos sábios, é chegado o tempo de abandonarmos esta tola desavença e esta inveja que até aqui tivemos um contra o outro. Devemos ter ao contrário, uma outra espécie de inveja que será honrosa e salutar a um e ao outro, isto: quem cumprirá o dever melhor para salvar a Grécia: tu, como comandante e desempenhando os deveres de bom capitão e eu aconselhando-te e executando tuas ordens, atendendo mesmo que és agora o único que se acha apto a desincumbir-se desta missão. $ou de opinião e aconselho que arrisquem a batalha por mar, aqui dentro mesmo desse estreito de Salamina e o mais cedo que for possível; mas, se nossos aliados e confederados te impedirem de pôr em execução esse teu conselho, sou de aviso que os inimigos aí estão te ajudando, porque o mar na frente, por trás e à nossa volta toda, já está coberto com seus navios, de tal jeito que é forçoso que esses que antes não queriam, agora quer queiram ou não, combatam e cumpram o dever de gente de bem, porque estão cercados de todos os lados e não há passagem por onde possam escapar ou fugir".

(22) O primeiro ano (ia septuagésima-quinta Olimpíada. 480 anos A. C.

XXII. A isto, respondeu Temístocles: — "Desgosta-me, Aristides, que neste caso tenhas te mostrado mais digno do que eu; que assim continue e honra te seja dada por haveres começado e por me haveres provado a uma tão honesta e tão louvável disputa. Após vencer aqui, trabalharei para bem continuar". Tendo dado esta resposta, contou-lhe o ardil que havia imaginado para iludir o rei bárbaro, pedindo-lhe para fazer o mesmo contra Euribíades que queria condescender à sua opinião, advertindo-o que não tinha ordem de salvar a Grécia, senão combatendo por mar. Euribíades tinha mais confiança nas palavras e advertências de Aristides, do que nas de Temístocles. E, assim, no conselho em que todos os capitães se reuniram para deliberar se dariam a batalha ou não, como Cleócrito Coríntio dissesse a Temístocles, que seu aviso não agradava nem mesmo a Aristides, assim parecia, porque estando este presente não dizia uma palavra, Aristides respondeu-lhe: — "É o contrário, pois não me calaria se não achasse seu conselho bom: mas agora não digo palavra, nunca mais, não pelo bem que lhe desejo, mas porque acho seu conselho verdadeiramente bom e sábio".

XXIII. Enquanto os capitães gregos discutiam, Aristides, vendo Psitaléia, que é uma ilhota na frente de Salamina, dentro do estreito que estava cheio de soldados inimigos, embarcou nos esquifes de suas galeras os melhores combatentes e mais deliberados de seus concidadãos, com os quais desceu nessa ilha, onde desfez em batalha o que encontrou de bárbaros, os quais foram todos passados à espada, exceto os de mais projeção que foram feitos prisioneiros, entre os quais havia três filhos da irmã do rei, que tinha o nome de Sandauce, os quais enviou a Temístocles. Esses três senhores por ordem do adivinho Eufrânti-das, foram todos imolados a Baco, cognominado Omestes, isto é, cruel ou comedor de carne crua, segundo um oráculo que lhes teria respondido. Isto feito, Aristides pôs de emboscada, à volta da ilhota, soldados armados para espreitar esses que por sorte da guerra ou do mar seriam ali jogados, a fim de que não se salvasse nenhum dos inimigos, nem se perdesse também nenhum dos amigos, porque o mais formidável encontro de navios e a luta mais áspera de toda a batalha foi em torno daquela ilhota e por isso aí levantaram o troféu.

XXIV. Depois da batalha ganha, Temístocles, querendo sondar qual era a opinião de Aristides, disse-lhe: — "Fizemos uma bela obra, mas resta ainda a fazer uma outra muito mais bela, é que devemos tomar inteiramente toda a Ásia dentro da EuropB, o que faremos facilmente, contanto que com toda rapidez, singremos na direção do estreito de Helesponto. para romper a ponte que o rei mandou fazer". Aristides então exclamou em voz alta: "Oh! não fales nunca desse propósito, mas antes, trabalhemos em procurar um meio, seja qual for, para expulsar esse rei bárbaro fora da Grécia de modo que o encerremos com uma força tão poderosa que quando vier, não tenha mais meios para fugir, e, assim, em desespero de causa, terá que recorrer às armas e combater valentemente".

XXV. Ouvidas essas palavras, Temístocles, ríspido, enviou secretamente o eunuco Arnaces, que era prisioneiro, à frente do rei Xerxes, para avisá-lo que havia retido e desviado os gregos, os quais haviam deliberado ir derrubar a ponte que êle mandara construir sobre o estreito de Helesponto para passar sua armada e que havia desejado avisá-lo para o ajudar a pôr sua pessoa em segurança. Xerxes, amedrontado com esta notícia, pôs-se incontinenti a caminho, em grandes jornadas para chegar ao estreito de Helesponto e deixou na Grécia, Mardônio, seu tenente geral, com trezentos mil dos melhores combatentes que tinha em seu exército. Esse Mardônio era temível aos gregos pela poderosa força de terra que tinha e os ameaçava escrevendo-lhes cartas como esta: — "Vós vencestes com pedaços de pau a marinheiros que estão habituados a combater em pé sobre terra firme e que não aprenderam nunca a manejar o remo. Mas, agora, as planícies da Tessália ou o campo da Beócia são belos e largos para cavalaria e infantaria aí provar suas proezas, se quereis vos encontrar em campo de batalha". Escreveu também sobre outros assuntos dos atenienses por ordem do rei seu chefe, oferecendo-lhes, da parte deste, mandar reedificar sua cidade, dar-lhes grande auxílio em dinheiro, além de os fazer senhores de toda a Grécia se quisessem desistir da guerra. Os lacedemônios avisados do que se dava e receando que os gregos não se contivessem, enviaram rapidamente embaixadores a Atenas, para lhes pedir que mandassem suas mulheres e seus filhos para Esparta e oferecer-lhes víveres para manter e alimentar as pessoas idosas, porque o povo ateniense atravessava uma época de extrema pobreza por causa da cidade que havia sido queimada e destruída, e toda sua região plana pilhada e estragada pelos bárbaros. Mas, depois de terem ouvido os oferecimentos dos embaixadores, os atenienses deram uma resposta maravilhosa aos lacedemônios, da qual Aristides foi o autor: — "Que perdoavam aos bárbaros considerarem venais todas as coisas, ao preço do ouro e da prata, porque não conheciam nada melhor nem tinham nada mais caro neste mundo do que a riqueza e possuí-la, mas ao contrário, ficavam bastante descontentes com os lacedemônios que não olhavam senão a indigência e pobreza presente dos atenienses e esqueciam sua virtude e a grandeza de sua coragem, julgando poder induzi-los a combater mais virtuosamente pela salvação da Grécia, fazendo-lhes oferta de víveres",

XXVI. Tendo sido esta resposta aprovada e autorizada pelo povo, Aristides fêz vir os embaixadores de Esparta à assembléia e ordenou-lhes dizerem de-viva voz aos lacedemônios que não havia em baixo e nem sobre a terra, ouro que chegasse para os atenienses aceitar ou receber como pagamento para abandonar a defesa da liberdade da Grécia". Quanto ao arauto que viera da parte de Mardônio, mostrou-lhe o sol e disse-lhe: — "Enquanto este astro girar à volta do mundo, os atenienses serão inimigos mortais dos Persas, porque destruíram e arruinaram seu país e profanaram e queimaram os templos de seus deuses". Ordenou mais ainda que os sacerdotes, por ordem do povo, excomungassem, amaldiçoassem e anatematizassem aquele que, porventura, fosse enviado diante dos persas para despachar com eles, mesmo que abandonassem a aliança dos o.utros povos gregos. Por essa razão, quando Mardônio veio pela segunda vez correr a região da Ática, os atenienses retiraram-se também outra vez para a ilha de Salamina e então foi Aristides enviado como embaixador à Lacedemônia, que cs recriminou e lastimou conscientemente por sua negligência e atraso havendo assim desabridamente abandonado a cidade de Atenas aos bárbaros e pediu-lhes que cumprissem pelo menos o dever de socorrer e salvar os moradores da Grécia. Os éforos, que eram certos oficiais que tinham toda a superintendência dos negócios da cidade de Esparta, tendo ouvido essas advertências deram-lhes atenção, embora na aparência exterior e pública, parecesse que durante aquele dia não pensassem outra coisa senão jogar e comer bem, porque celebravam nesse dia uma de suas festas solenes, que chamavam Hiacintia. Mas na noite seguinte puseram-se em campo e fizeram partir cinco burgueses, nativos de Esparta, todos bons combatentes e homens escolhidos, cada um dos quais estava acompanhado por sete hilotas, que são camponeses e viviam como escravos no país da Lacedemônia, sem nada dar a entender aos embaixadores de Atenas.

XXVII. Por essa ocasião Aristides voltou outra vez ao conselho, pondo-se a lamentar com aspereza por sua indolência. Puseram-se a rir, dizendo que êle sonhava ou caçoava, porque o exército que haviam enviado contra os estrangeiros (pois assim chamavam os persas) já se encontrava na cidade de Oréstion, que está na Arcádia. Ouvida esta resposta, Aristides replicou-lhes que estavam errados pilhe-riando com eles, fazendo partir seus soldados secretamente e que eles, em consciência, de nada sabiam e que não era tempo para se divertirem enganando seus amigos, mas antes seus inimigos. Idomeneu narra o fato deste modo. Todavia, quanto ao decreto que Aristides propôs para enviarem embaixadores a Esparta, não foi êle nomeado como embaixador, mas foram designados Cimon, Xantipo c Mirônidas.

XXVIII. Logo que foi eleito pela vontade do povo, capitão geral do exército de Atenas na guerra contra os persas, seguiu para o acampamento dos gregos perto da cidade de Platéia, com oito mil soldados da infantaria, todos bem armados. Ali se encontrava também Pausânias, capitão-chefe de toda a força da Grécia, que levou com êle as forças de Esparta, chegando todos cs dias em fila, uma grande multidão de outros gregos. Ora, quanto aos bárbaros, seu acampamento achava-se ao longo do rio de Asopo, mas pela sua grande extensão, não era fechado nem fortificado de jeito algum, a não ser somente umcerto recinto quadrado que haviam cercado com uma muralha, o qual de cada lado tinha mil e duzentos e cinqüenta passos de comprimento para guardar súa bagagem e seus bens mais preciosos. Quanto aos gregos, o adivinho Tisameno, nativo da cidade de Elida, predisse a Pausânias e a todos os gregos juntos, que teriam a vitória, contanto que não assaltassem nunca e que não fizessem nada a não ser para defender-se somente. Aristides que consultara ao oráculo de Apelo na cidade de Delfos, teve resposta de que venceriam seus inimigos, contanto que sacrificassem e fizessem orações especiais a Júpiter e Juno do monte de Cíteron, a Pan e às ninfas Esfragitienas e que fizessem também sacrifícios aos semi-deuses Andrócrates, Leucão, Pisander, Damócrates, Hipsião, Acteão e Poliido, e também que aventurassem a batalha dentro de seu território, na planície de Ceres Eleusiana e de Prosérpina.

XXIX. Este oráculo pôs Aristides em grande tristeza e grande perplexidade, porquanto os semi-deuses, aos quais ordenavam que sacrificassem, eram os ancestrais dos platéanos e a caverna das ninfas Esfragitienas é uma das grutas do monte de Cíteron, virada para o lugar onde o sol se deita no verão, e dizem que aí, antigamente havia um oráculo, de cujo espírito vários habitantes dos arredores estavam possuídos e tornavam-se insensatos, pelo que os chamavam "nympholepti", como quem dissesse: "espírito das ninfas"; também o fato de dizer que os atenienses teriam a vitória contanto que aventurassem a batalha na planície de Ceres Eleusiana, e dentro de seu território, o que seria o mesmo que mandá-los para o país da Ática. Estando nessa dúvida, Arimnesto, capitão dos platéanos, teve uma visão, dormindo, segundo a qual Júpiter salvador lhe aparecera e lhe perguntara o que os gregos tinham resolvido fazer, ao que lhe respondeu: — "Devemos, senhor, mudar nosso acampamento amanhã, para o território de Eleusina e lá daremos batalha aos bárbaros, seguindo o que o oráculo de Apolo nos ordenou". Júpiter replicou-lhe que se iludiam grandemente, porque tudo que Apolo havia especificado pelo seu oráculo estava dentro do território dos platéanos e que o encontrariam assim que procurassem bem. Arimnesto, tendo esta visão tão expressiva e tão manifesta, de manhã muito cedo, assim que acordou, mandou chamar os mais velhos e os mais experimentados de seus cidadãos, com os quais, conferindo e procurando onde estaria esse lugar, descobriu que ao pé do monte de Cíteron junto da cidade de Hísia havia um antigo templo que chamavam o "templo de Ceres Eleusiana e de sua filha Prosérpina". Tratou logo de avisar Aristides e juntos foram examinar o local, achando e concordando ambos que de fato o local era maravilhosamente dotado e a propósito para ali se formar um exército em batalha, não tanto por meio da cavalaria porque o sopé do monte impedia a aproximação dos animais do local onde se achava o templo, que era onde a planície terminava, onde se achava também a capela de Andrócrates, rodeada e escondida por árvores espessas e copadas. Nada parecia faltar do que havia sido especificado pelo oráculo para esperança da vitória. Aconselhados por Arimnesto, os plateanos decretaram que as divisas do seu território fossem afastadas do lado de Atenas e doadas aos atenienses as terras ali situadas, a fim de que nelas pudessem os gregos combater os bárbaros, dentro de seu próprio território, para salvação e defesa da Grécia.

XXX. Ora, esta liberalidade e magnanimidade dos plateanos foi tão aclamada, que muitos anos depois o rei Alexandre, o Grande, tendo conquistado o império da Ásia mandou reedificar as muralhas da cidade de Platéia, e, fazendo isso, mandou proclamar por um arauto na assembléia dos jogos olímpicos que Alexandre fazia esse bem e prestava essa honra aos plateanos, em memória e recompensa de sua magnanimidade, porque na guerra contra os persas haviam dado liberalmente sua terra aos atenienses para salvação da Grécia e haviam se mostrado pessoas de bom coração e amigos da defesa da Grécia.

XXXI. Quando formaram o exército grego em batalha, houve uma dissensão entre os atenienses e os tegeatos (23), porque aqueles queriam, como sempre estavam acostumados a fazer, se os lacedemônios ficavam na ponta direita da linha de batalha, eles ficavam na esquerda e os tegeatos, indo de encontro, alegavam as proezas e grandes feitos de armas de seus ancestrais, o que deu origem a uma amotinação dos atenienses, mas Aristides, saindo à frente, admoestou-os dizendo-lhes que não era tempo de discutir com os tegeatos sua nobreza nem suas proezas. "E quanto a vós, senhores espartanos, disse êle, e vós outros gregos, avisamos-lhes que o lugar não dá nem tira jamais a virtude e asseguramos que qualquer que seja o lugar que nos entregardes, nós o defenderemos e guardaremos tão bem, que não diminuirão nem a honra nem a reputação que conseguimos nas batalhas precedentes; pois viemos aqui, não para discutir nem brigar contra nossos aliados mas para combater nosso inimigo comum; nem para enaltecer nossos antecessores, mas para com efeito nos mostrarmos pessoas de bem na defesa da Grécia, porque este dia testemunhará a todos os gregos como cada cidade, cada capitão e cada homem particular no seu de direito se fará estimar".

(23) Leia: — «Porque os tegeatos queriam, como estavam sempre habituados a fazer, se os lacedemônios ficavam na ponta direita da batalha, eles ficavam na sinistra e alegavam as proezas», etc.

XXXII. Ouvidas essas palavras de Aristides, os capitães e todos os do conselho concluíram em favor dos atenienses que ficariam numa das pontas da linha. Assim estava toda a Grécia em grande movimento e da mesma forma o estado ateniense em extremo perigo, porque aconteceu que um certo número de cidadãos das mais nobres casas da cidade e que possuíam bens antes da guerra, os quais vendo-se então reduzidos a pobreza e que além de seus bens que haviam perdido, ainda tinham sido privados da proeminência e da autoridade que estavam habituados no governo da coisa pública, estando agora outros, antes desacreditados, sendo promovidos a situações e cargos da cidade, reuniram-se em uma casa da cidade de Platéia e juntos conspiraram para destruir e abolir a autoridade do povo em Atenas ou, se não pudessem triunfar, perder tudo e trair a coisa pública em favor dos bárbaros. Como se tratava dessas coisas no próprio acampamento, no qual diversos estavam ligados à conspiração, Aristides sentiu soprar o vento e teve grande receio por causa do tempo que urgia e pensou não agir com indolência num caso de tão grande responsabilidade não procurando rebuscar tão ao vivo e nem descobrir tudo inteiramente, não sabendo o número de culpados ligados à tal conspiração mesmo que os procurasse até o fim, olhando antes o que era justo que teria de aproveitar, de acordo com o tempo. Mandou prender somente oito do grande número que havia e, desses oito, dois que queriam começar logo a processar porque eram os mais culpados, Esquines, do bairro da Lampra e Egesias do bairro de Acarne, encontraram meios de fugir do acampamento e se salvar. Quanto aos outros, Aristides os soltou, dando meios a esses que pensavam não ser descobertos para assegurar-se e arrepender-se, dizendo que teriam a batalha por julgamento, na qual poderiam se justificar das culpas que lhes punham em cima e mostrar que nunca tiveram outra intenção senão boa e justa, para com seu país.

XXXIII. Mardônio, ficando, quis sondar a coragem que teriam os gregos, e enviou toda a sua cavalaria, a qual era muito mais poderosa que a dos gregos, para os escaramuçar. Ora, estavam eles alojados ao pé do monte de Cíteron em lugares fortes e pedregosos, exceto os megarianos, que eram três mil combatentes acampados na planície, o que foi causa de serem trabalhados e prejudicados pelos soldados de cavalaria dos bárbaros, que os assaltaram de todos os lados porque podiam se aproximar de todas as partes, tanto que no fim, vendo que não pediam sós, suster tão grande multidão de bárbaros, enviaram rapidamente pedido a Pausânias, para solicitar que lhes enviasse prontamente socorro. Pausânias, ouvindo esta notícia e olhando o campo dos megarianos quase todo coberto de setas e de dardos que lhes atiravam os bárbaros e eles, obrigados a se colocarem e se apertarem em um pequeno canto, não soube o que devia fazer: pois ir pessoalmente com os lacedemônios que eram soldados da infantaria bem armados, achou que não teria sucesso; experimentou picá-los então com o aguilhão de ambição e de honra e mesmo com alguma inveja entre os capitães e chefes de tropas dos outros gregos que se encontravam à sua volta, para ver se poderia entusiasmá-los a irem voluntariamente socorrer os megarianos, mas todos os outros fizeram ouvidos surdos menos Aristides, o qual prometeu em nome dos atenienses ir, e despachou imediatamente Olimpiódoro, um dos mais valentes capitães que estavam sob suas ordens, com sua companhia que era de trezentos homens, todos de elite. Esses soldados ficaram prontos num instante e incontinenti marcharam apressadamente para a batalha contra os bárbaros.

XXXIV. Vendo isso, Masístio, que era general de cavalaria dos persas, homem grande, forte, e belo, virou seu cavalo e galopou direito a eles. Os atenienses o esperaram em pé e houve um encontro bastante áspero, porque uns e outros queriam neste princípio influir no final da batalha, e combateram tanto que o cavalo de Masístio recebeu um grande golpe de dardo através do corpo e a dor que sentiu fê-lo atirar por terra seu chefe todo armado dos pés a cabeça, como estava. Uma vez caído não pôde se levantar, devido ao peso de seu arreio e mais ainda porque os atenienses, que logo correram sobre ele, ajuntaram-se ao seu redor, diversos a sapatear, não achando jeito de matá-lo porque estava muito armado e carregado de ouro, cobre e ferro, não somente no corpo e na cabeça, mas também nas pernas e braços; num momento, porém, alguém enterrou o ferro de seu dardo por dentro da viseira de seu capacete, matando-o. Vendo isso, os outros persas incontinenti voltaram-se fugindo e abandonaram o corpo de seu general. Logo, verificaram os gregos que haviam feito muito nesta escaramuça, não pelo número de inimigos que tivessem morto, pois não eram muitos, mas pela grande perda que infligiram aos bárbaros, pois tosaram-se è a seus cavalos e burros como luto pela morte de Masístio e encheram o campo todo’ nos arredores, de lágrimas, de gritos e de urros como se houvessem perdido o primeiro homem de todo o seu acampamento, em valor e em autoridade, depois do tenente do rei Mardônio.

XXXV. Depois desta primeira escaramuça, ficaram uns e outros em seu acampamento sem sair durante vários dias, porque os adivinhos prometiam a vitória tanto aos persas como aos gregos, contanto que não fizessem senão se defender somente e, ao contrário, os ameaçava de serem derrotados ue começassem a assaltar. Mas Mardônio, vendo que não havia mais víveres senão para bem poucos dias e ainda mais que todos os dias vinha um novo reforço de gentes para os gregos, resolveu afinal não esperar e passar o rio Asopo logo ao clarear do dia seguinte e cair sobre os gregos desprevenidos. Ordenou, na noite anterior, aos seus capitães, o que deviam a fim de que cada um ficasse pronto, mas, à meia-noite, mais ou menos, um homem a cavalo, sem fazer barulho nenhum, aproximou-se tão perto do campo dos gregos que falou com os que montavam guarda, avisando-os que tinha alguma coisa a comunicar a Aristides, capitão dos atenienses. Aristides foi chamado imediatamente e assim que apareceu, o cavaleiro lhe disse: — "Sou Alexandre, rei da Macedónia, que pelo amor e amizade que vos tenho, lancei-me no maior perigo, para vir aqui a tais horas, para vos avisar que amanhã cedo Mardônio vos dará a batalha; a fim de que esta surpresa de vossos inimigos não vos assuste por serdes assaltados desprevenidos e não vos deixar combater valentemente, pois não é por nenhuma esperança ou confiança que lhe tenha surgido de novo, mas pela necessidade e escassez de víveres em que se encontra que o obriga a fazer isso, visto que cs adivinhos, tanto peles sinistros presságios dos sacrifícios como pelas respostas dos oráculos, tanto preveniram que podem vos dar a batalha, de maneira que todo seu exército está em grande pavor e sem esperanças, mas êle é forçado a tentar a sorte e confiar no acaso, ou bem se resolve a não sair do lugar e morrer de fome".

XXXVI. Depois que o rei Alexandre o advertiu, pediu-lhe para deixar se servir por êle e lembrar-se quando chegasse a hora, mas que não dissesse a ninguém; então Aristides respondeu-lhe que não era razoável calar uma coisa de tal responsabilidade a Pausânias, visto ser êle o encarregado principal e superintendente de todo o exército, mas prometeu-lhe que não diria a nenhum outro antes da batalha e que onde os deuses proporcionassem a vitória aos gregos, êle assegurava que não haveria pessoa alguma que não tivesse lembrança e recordação da boa vontade e da afeição demonstradas. Ditas estas, de uma parte e da outra, o rei Alexandre voltou de onde tinha vindo e Aristides ao sair dali foi direito à tenda de Pausânias, contando-lhe tudo. Imediatamente mandaram chamar os outros capitães e tiveram conselho de guerra, no qual foi ordenado que cada um manteria sua gente pronta para combater, porque no dia seguinte haveria batalha.

XXXVII. Pausânias, entretanto, como narra Heródoto (24), dirigiu-se a Aristides dizendo-lhe que queria transpor os atenienses da ponta esquerda para a ponta direita, a fim de terem pela frente cs nativos persas, que combateriam com mais dureza, tanto porque todos estavam habituados a combater contra eles como também porque já os havia vencido no primeiro encontro e desejava para si e seus soldados a ponta esquerda da batalha, onde deviam ficar os gregos que combatiam do lado dos persas. Ouvindo isto, todos os outros capitães se enfureceram, dizendo que Pausânias estava errado e não estava direito deixar os demais povos gregos nos seus lugares, onde sempre eram comandados, mudando somente os atenienses. Sem mais nem menos como se fossem escravos, para os colocar a seu bel prazer ora de um lado e ora do outro, jogando-os na frente dos inimigos mais belicosos; mas Aristides, lhes respondeu que não sabiam o que estavam dizendo e se mostravam assim agastados porque recentemente haviam contestado contra os tegeatos querendo somente a ponta esquerda da batalha, sentindo-se honrados com a preferência dos capitães que os haviam comandado e, no entanto, agora que os próprios lacedemônios, de boa vontade, lhes cediam a ponta direita, segundo se diz, largando entre suas mãos e entregando-lhes o principado de todo o exército, não aceitavam mais afetuosamente esta honra e não consideravam o ganho e vantagem que isto significava para eles, que não teriam nunca de combater contra aqueles que eram do mesmo sangue e da mesma origem que eles, mas contra os bárbaros que eram seus inimigos naturais. Depois que Aristides lhes fêz essas admoestações, ficaram contentes em mudar de lugar com os lacedemônios e não se ouvia outra coisa entre eles a não ser exortações que faziam uns aos outros para terem bastante coragem, dizendo ainda que os persas, ali presentes, não tinham outras armas nem corações melhores do que aqueles que haviam vencido e derrotado na planicie de Maratona: — "Pois são, diziam eles, os mesmos arcos, as mesmas vestes enriquecidas de bordados, as mesmas correntes e berloques de ouro sobre os corpos efeminados, que cobriam almas fracas, covardes e pusilânimes; e nós temos as mesmas armas e os mesmos corpos também, mas nossos corações tornaram-se maiores por tantas vitórias que ganhamos depois sobre eles e se há vantagem, não combatemos como nossos outros aliados gregos (25) somente por nossa cidade e nosso país, mas, ainda mais, para não perdermos o renome das proezas que conseguimos nos dias de Maratona e de Salamina, a fim de que não considerem que a glória desses troféus e dessas vitórias sejam devidas só a Milcíades, ou à sorte, mas à virtude dos atenienses".

(24) L. 9, § 45.

XXXVIII. Assim, enquanto estavam os gregos ocupados em trocar rapidamente a ordem de sua batalha, incontinenti os tebanos foram avisados por alguns traidores que passaram de um campo ao outro e deram a entender a Mardônio, o que estava sendo feito. Este, subitamente, trocou também a ordem da sua, pondo os nativos persas na ponta direita em face da esquerda dos inimigos; fêz isto porque teve receio dos atenienses ou porque, para maior glória, desejou combater contra os lacedemônios e ordenou aos gregos que tomaram seu partido, que deviam sustar os atenienses. Esta transposição foi tão clara que cada um podia vê-la, pelo que Pausânias mudou com rispidez os lacedemônios, colocando-os na ponta direita e Mardônio igualmente repôs os persas na esquerda, como estavam no começo, oposto aos lacedemônios, de tal forma que o dia se passou sem nada ser feito senão idas e vindas nessas mudanças; depois à noite os capitães gregos reuniram-se em conselho, no qual foi decretado que era preciso mudar seu acampamento e irem se alojar em lugar onde tivessem água mais à vontade, por causa dos inimigos que a gastavam e ordinariamente turvavam com seus cavalos os riachos e fontes que havia nos arredores.

(25) E uma falta de Amyot. Trata-se aqui dos persas e não dos aliados gregos. Devia portanto traduzir: — «Não combatemos como eles por uma cidade, por um país somente, mas para não perder o renome de proeza, etc.» Brotier. Creio que Amyot pegou bem o sentido dessa passagem, que é um pouco obscura no texto; poder-se-ia traduzir assim: — «Não combatemos como esses que combateram em Maratona por nossa cidade, etc.» Mas parece que não há nada a mudar na tradução de Amyot.

XXXIX. Por isso, vindo a noite, os capitães quiseram fazer partir seus soldados para irem se alojar aonde havia sido ordenado, mas eles iam de má vontade e tinham muito trabalho em os manter juntos, pois nem bem se encontraram fora das trincheiras e fortificações do campo, a maior parte correu para a cidade de Platéia, havendo uma grande desordem porque se espalharam daqui e dali, armando seus pavilhões onde bem lhes parecia sem que houvessem separado os quarteirés, menos os lacedemônios, que ficaram sós para trás, mas apesar deles, porque um de seus capitães chamado Amonfareto, homem corajoso que não conhecia nenhum perigo e não pedia durante muito tempo outra coisa senão a batalha, estava impaciente com tantas mudanças e dizia em voz alta e clara que essa troca de acampamentos não era outra coisa senão uma bela fuga e jurou que não sairia dali com a sua companhia e esperaria Mardônio. Pausânias foi à sua frente, admoestando-o que devia fazer o que os gregos em sua maioria haviam concluído e decretado no conselho. Amonfareto, pegando com as duas mãos uma pedra muito grande, atirou-a nos pés de Pausânias, dizendo: — "Veja o fardo (26) que eu me dou para concluir a batalha, não me preocupando mais com vossas outras conclusões covardes e pusilânimes". A teimosia desse homem assustou Pausânias que não sabia mais onde estava. Enviou à frente dos atenienses que já se achavam em caminho, solicitar que o esperassem, a fim que fossem juntos, quanclo fêz marchar o restante de seus soldados no caminho de Platéia, pensando que assim, afinal constrangeria Amonfareto a se levantar e sair dali, caso não quisesse ficar sozinho.

(26) Veja as Observações.

XL. Entrementes, chegou o dia. Mardônio, sendo avisado que os gregos abandonavam seu primeiro alojamento, imediatamente fêz marchar sua gente para batalha a fim de ir cair sobre os lacede-mônios. Atiraram-se os bárbaros com grandes gritos e grandes hurras, pensando não irem combater, mas somente saquear e despojar os gregos fugitivos, como de fato não precisaria muito. Pausânias, verificando a capacidade dos inimigos mandou parar as bandeiras e ordenou que cada um se preparasse para combater, mas esqueceu, seja pela cólera que sentia centra Amonfareto ou pelo espanto desta repentina carga dos inimigos, de dar o sinal de batalha, acontecendo que não vieram prontamente todos juntos ao combate, mas per pequenas tropas, umas daqui, as outras dali, quando a luta já havia começado.

XLI. Enquanto isto, Pausânias vagava fazendo sacrifícios aos deuses e vendo que seus primeiros sacrifícios lhe eram muito agradáveis, pelas observações que faziam os adivinhos, ordenou aos espartanos que pousassem sobre a terra, diante de seus pés, seus escudos e que não saíssem de seus lugares mas que tivessem somente olhos para o que lhes ordenassem sem se preocupar com a defesa contra os inimigos. Isto feito, pôs-se desabrido a imolar outros sacrifícios, quando já se aproximavam rápidos os soldados de cavalaria dos inimigos, chegando até eles seus golpes de flechas, de tal forma que houve alguns espartanos feridos, entre os quais o pobre Calícrates, o homem mais belo e maior que existiu entre os gregos, o qual foi ferido de morte por um golpe de dardo e entregando o espírito, na hora, disse que não lastimava sua morte, porque saíra de sua casa com a deliberação de morrer pela defesa da Grécia, mas arrependia-se de morrer assim tão covardemente, sem haver dado um só golpe com sua mão. Esta morte foi tristíssima (27) e a constância dos espartanos foi admirável, pois não saíram jamais de seus lugares, nem aparentaram querer se defender do inimigo que vinha sobre eles e sofriam ao serem furados pelos golpes de dardo e mortos imediatamente, esperando a hora que os deuses lhes mostrariam e que seu capitão lhes ordenasse para combater. Ainda dizem alguns que, como Pausânias estava perto, fazendo sacrifícios, pedidos e orações aos deuses, um pouco atrás da batalha, correu sobre êle uma tropa de lidianos que arrebatou e revirou de cima para baixo todo seu sacrifício; Pausânias e os que estavam à sua volta, não encontrando à mão outras armas, os expulsaram a golpes de bastão e de chicote; em lembrança desse fato, dizem que no aniversário, fazem uma procissão solene em Esparta, que chamam a procissão dos lidianos, na qual os rapazes são surrados e chicoteados à volta do altar. Pausânias estava angustiado por ver o sacerdote imolar vítimas sobre vítimas, sem encontrar uma agradável aos deuses; afinal virou os olhos chorando para diante do templo de Juno e, estendendo as mãos, suplicou a Juno Citeronina e a todos os outros deuses patronos e protetores da região de Platéia qüe não fosse para cumprimento de destinos fatais, que os gregos vencessem nesta batalha ou ao menos que não morressem sem vender muito caro sua morte aos vencedores e sem lhes fazer conhecer e sentir, pelo efeito, que haviam empreendido esta guerra contra homens valentes e que sabiam muito bem combater.

(27) Reproduziriam melhor o grego traduzindo: — Esse momento foi horrível e a constância dos espartanos admirável.

XLII. Pausânias não havia ainda terminado esta oração, quando os sacrifícios repentinamente se tornavam propícios, vindo os sacerdotes e adivinhos anunciar e prometer a vitória e a ordem, tendo ido, assim de mão em mão a ordem, por todas as fileiras, que marchassem contra os inimigos. Precisava-se ver o batalhão dos lacedemônios que não era senão um corpo, como algum animal corajoso que se erriçava, preparando-se para combater. Incontinenti, avisaram os bárbaros que teriam um encontro muito forte e encontrariam soldados que combateriam até o último suspiro, por isso se cobriram com suas grandes tar-gas persianas, atirando muitas flechas e dardos contra os lacedemônios, os quais, como estavam muito uni’ dos e apertados juntos, cobertos com seus escudos, iam sempre para a frente até que vieram tão viva-, mente ao seu encontro, fazendo voar suas targas fora do punho com grandes golpes de lanças e de dardos, dando-lhes através das faces e dos bustos com tal violência que diversos caíram por terra; os quais não morriam covardemente, pois pegavam com suas mãos completamente nuas as lanças e dardos dos lacedemônios, quebrando várias com a força dos braços, depois tiravam habilmente seus alfanjes e seus machados, com os quais combatiam conscientemente, até arrancar à força os boucliers dos lacedemônios e se agarrar corpo a corpo com eles, de maneira que resistiram durante muito tempo.

XLIII. Ora, enquanto os lacedemônios estavam assim agarrados ao combate contra os bárbaros, os atenienses esperavam em pé se bem que bastante longe dali, mas quando viram que demoravam tanto a chegar e ouvindo um grande barulho como de soldados combatendo e ainda mais quando chegou um mensageiro enviado às pressas por Pausânias, avisá-los, então puseram-se a caminho com a maior rapidez possível, para ir socorrer, mas enquanto caminhavam a largos passos através da planície para o lugar de onde julgavam ouvir o barulho, os gregos, que tomaram o partido dos bárbaros, chegaram à sua frente. Vendo isso, Aristides atirou-se à frente de suas tropas e primeiramente gritou em voz alta, o mais alto que pôde gritar, conjurando os gregos, em nome dos deuses protetores da Grécia, que se abstivessem desta guerra, e não causassem mais impedimento’ aos atenienses, os quais iam socorrer aqueles que punham suas vidas em perigo para defender o bem público e a salvação comum de toda a Grécia. Mas, quando viu que pelas súplicas e conjurações que lhes fazia, eles não queriam se afastar mas marchavam sempre de cabeça baixa para virem ao encontro, então desistiu de socorrer os lacedemônios e foi constrangido a fazer frente a esses que vinham sobre eles, havendo aproximadamente cinqüenta mil combatentes, dos quais no entanto, a maior parte logo debandou, retirando-se, quando souberam que os bárbaros haviam sido também rompidos e debandados. O mais forte da batalha e a luta mais áspera, ao que dizem, foi no lugar onde estavam os tebanos, porque os nobres e os principais do país combatiam diligentemente em favor dos bárbaros e o povo não, mas era levado por um pequeno número desta nobreza que os comandava.

XLIV. Assim, nesse dia, combateram em dois lugares, onde os lacedemônios foram os primeiros que romperam e mudaram em fuga os bárbaros, aí morrendo Mardônio, o tenente do rei, de uma pedrada que um espartano chamado Arimnesto lhe atirou na cabeça, cumprindo-se o que o oráculo de Anfiarao lhe havia predito e profetizado, pois Mardônio, antes da batalha enviara um lidiano e um cariano ao de Tro-fônio, do qual o profeta disse a resposta ao cariano em linguagem cárica: "e o lidiano dormiu dentro do santuário de Anfiarao e ali teve um aviso dormindo, que um dos ministros do templo ordenava que saísse do lugar onde estava, o que não quis fazer; então o ministro pegou uma grande pedra atirando-a na sua cabeça, de cujo golpe, pelo aviso, morreu"; assim contam.

XLV. Mas ao ficarem, os lacedemônios, expulsaram os persas fugitivos até dentro do recinto que haviam protegido e fortificado com o tabique de madeira. E algum tempo depois os atenienses também rompiam os tebanos, matando na hora, trezentos dos mais nobres e de maior aparência somente, porque no instante que os tebanos começaram a virar as costas, chegaram notícias aos atenienses que os bárbaros estavam fechados dentro do forte de madeira, onde os lacedemônios os mantinham cercados. Assim, deram oportunidade aos gregos fugitivos para se salvarem rapidamente e irem ajudar os lacedemônios a tomar o forte dos bárbaros, pois mantinham-se bastante frios, porque não estavam experimentados para assaltar e forçar uma muralha; imediatamente os atenienses chegaram, tomaram de assalto com uma grande carnificina de bárbaros, pois dos trezentos mil combatentes que havia no acampamento de Mardônio, salvaram-se apenas quarenta mil sob o comando de Artabazo e do lado dos gregos morreram aproximadamente uns mil e trezentos e sessenta ao todo, entre os quais havia cinqüenta e dois atenienses, todos da linhagem Aiântida, a qual nesse dia portou-se mais valentemente que qualquer outra, conforme escreve Clídemo. É a razão pela qual os Aiântidas faziam um sacrifício solene às ninfas Esfragitienas a expensas do erário público, seguindo o que lhes era ordenado pelo oráculo de Apolo, para lhes render graças daquela vitória. Dos lacedemônios morreram noventa e um e dos tegeatos apenas dezesseis.

XLVI. Mas, admiro-me que Heródoto (28) diga não ter havido senão esses povos que combateram naquele dia contra os bárbaros e nenhum dos outros gregos, pois o número de mortos e também as sepulturas mostram e testemunham que foi um feito comum a todos os gregos juntos, e, ainda mais, se apenas esses três povos tivessem combatido e todos os outros ficassem sem nada fazer, não teriam gravado sobre o altar que foi edificado no lugar da batalha um epigrama, cuja substância é a seguinte:

Os gregos vencedores, por grandes feitos de guerra
Expulsando os persas de sua terra,
Este cordial altar, comum a toda a Grécia
Erigiram à digna grandeza
De Júpiter, que de sua liberdade
Contra Medas foi o protetor.

XLVII. Deu-se esta batalha no quarto dia do mês que os atenienses denominam boedromion, que-é mais ou menos o mês de Julho (29) ou como contam os beócios, o vigésimo-sexto mês que denominam panemus, em cujo dia se faz ainda uma assembléia pública dos estados da Grécia, na cidade de Platéia, quando os platéanos erigem um solene sacrifício a Júpiter protetor da liberdade para o agradecer sempre por aquela vitória.

Não se deve estranhar essa desigualdade e discordância dos meses nem dos dias, visto que hoje em dia a arte da astrologia (30) está muito mais perfeitamente compreendida do que o era então.

(28) Pereceram nesta batalha trezentos e sessenta gregos. Heródoto, IX, 69, não fala dos cento e sessenta e nove homens que perderam os lacedemônios, os tegeatos e os atenienses. Eis o que Plutarco lhe censura.
(29) Veja as Observações.
(30) A astronomia.

XLVIII. Depois desta derrota dos bárbaros, levantou-se um tumulto entre os atenienses e os lace-demônios, no tocante ao prêmio e honra da vitória, porque os atenienses não queriam ceder seu direito aos lacedemônios nem lhes permitir que levantassem um troféu à parte, de tal medo que pouco faltou para que os gregos, nesta ocasião, ligados e amotinados uns contra os outros, não se destruíssem a si próprios, se Aristides, por admoestações e razões, não houvesse acalmado e retido os outros capitães seus companheiros, entre os quais, um Leccrates e um Mirônidas, para os quais, por meio de vivas persuasões e sábias palavras, conseguiu que concordassem em colocar a decisão final sob o arbítrio e o juigamento dos outros povos da Grécia. Reuniram-se os gregos todos no mesmo lugar para desfazer essa diferença e nesse conselho Teogitão, capitão dos megarianos, deu a sua opinião, de que era necessário, a fim de evitar a guerra civil, que estava por surgir entre os gregos, deferir o prêmio e a honra daquela vitória a qualquer outra cidade menos àquelas duas que o disputavam; em seguida levantou-se Cleócrito Corintio que todos julgavam querer a honra para a cidade de Corinto, porque era aquela que tinha mais dignidade em toda a Grécia, em seguida a Esparta e Atenas, mas êle falou em louvor dos plateanos, cujo discurso, todos acharam maravilhosamente honesto e foi recebido bem, pois foi de aviso que era ocasião de afastar toda a diferença cedendo o prémio e o lugar de honra à cidade de Platéia, porque nem uma nem outra parte não discordariam, que esses fossem honrados. Ainda não havia acabado de falar, quando Aristides, em primeiro lugar, concordou com seu aviso e acedeu em nome dos atenienses e depois Pausânias em nome dos lacedemônios.

XLIX. Estando todos assim concordes, devendo dividir o espólio entre eles, puseram de parte (31) oitenta talentos, que foram dados aos platéanos com os quais edificaram estes um templo a Minerva, dedicaram-lhe uma imagem e embelezaram todo seu templo com pinturas, as quais até hoje existem ainda completas. Os lacedemônios levantaram à parte seu troféu e os atenienses, o seu também; enviaram ao oráculo de Apolo na cidade de Delfos, para saber a que deuses e como deviam sacrificar; Apolo respondeu-lhes que edificassem um altar a Júpiter protetor da liberdade, mas não fizessem em cima, nenhum sacrifício, sem primeiramente apagarem todo o fogo que existia na região, porque havia sido poluído e contaminado pelos bárbaros, depois fossem buscar algum puro e limpo para o altar comum, sobre o qual sacrificariam a Apolo Pitiano, na cidade de Delfos.

(31) Quarenta e oito mil escudos. Amyot.

L. Ouvida esta resposta, os magistrados e oficiais dos gregos foram daqui e dali, por todo o país mandando apagar os fogos. Houve então um homem da cidade mesmo de Platéia, chamado Euquidas, o qual veio pessoalmente oferecer e prometer que traria o fogo do templo de Apolo Pitiano com a mais extrema diligência que lhe seria possível; chegado à cidade de Delfos, depois de haver aspergido e purificado seu corpo com água limpa, colocou sobre a cabeça uma coroa de louro e desse modo foi pegar o fogo sobre o altar de Apolo, retomando imediatamente seu caminho, correndo quanto pôde para a cidade de Platéia, onde chegou antes do sol posto. Assim, em um dia, caminhou mil estádios (32) que valem aproximadamente sessenta e duas léguas e meia, mas depois de haver saudado seus concidadãos e lhes livrar o fogo que trazia, caiu subitamente por terra, entregando o espírito. Os plateanos o levantaram morto, todo duro, enterrando-o dentro do templo de Diana, que cognominavam Euclia, que quer dizer, a boa fama, depois mandaram gravar sobre sua sepultura um epitáfio de tal substância:

Aqui faz sua última moradia Euquidas, que daqui correu Até Delfos, e voltou De lá aqui em um só dia.

Vários consideram que essa deusa Euclia, seja Diana e a chamam assim, mas há os que acham que era a filha de Hércules e (33) da ninfa Mirto, filha de Menócio e irmã de Pátroclo, que morreu virgem, sendo depois honrada e venerada pelos beócios e locrianos como uma deusa; pois em todas suas cidades encontram sempre nas praças públicas, um altar e uma imagem a ela dedicados, ofertando-lhe sacrifícios todos os que se casam, tanto homens como mulheres.

(32) Esses mil estádios fazem perto de quarenta léguas da França, com duas mil e quinhentas toesas cada uma.

LI. Desde então foi mantida uma assembléia geral de todos os gregos, na qual Aristides propôs que em cada ano todas as cidades da Grécia enviassem, em certo dia, seus deputados à cidade de Platéia para aí oferecerem orações e sacrifícios aos deuses, e também que de cinco em cinco anos aí celebrassem jogos públicos, que seriam chamados os jogos da liberdade; igualmente se decidiu que para guerrear os bárbaros levantariam em toda a Grécia dez mil infantes, mil cavalarianos, além de uma frota de cem velas. Idem, que os platéanos, daí em diante fossem considerados como santos e sagrados sem que fosse permitido prejudicá-los de forma alguma e que não tivessem outro trabalho senão sacrificar aos deuses pela salvação e prosperidade da Grécia. Todos esses artigos foram passados e autorizados, nento por ponto, sendo que os plateanos ficaram obrigados a fazerem todos os anos sacrifícios solenes aos gregos que foram mortos pela defesa da liberdade dentro de seu território. Isto fazem ainda até nossos dias.

(33) O grego não exprime que foi uma ninfa, e não podia ser, tendo nascido de parentes mortos.

LII. O décimo-sexto dia dc mês de memecte-tion, que os beócios chamam alalcomenos e é apre-ximadamente o mês de janeiro (34) realizam uma procissão na frente da qual marcha um trombetista que vai tocando (35) alarme, em seguida alguns carros carregados de ramos de murta (36) e com festões e chanéus de triunfo, depois um touro preto e certo número de crianças nobres, que levam grandes vrsos repletos de vinho e de leite que se costuma espargir como oblações propiciatórias sobre as sepulturas dos mortos; outros rapazes, de condição livre, levam óleos de perfumes e de odores dentro de frascos, pois não era permitido que alguma pessoa de condição servil se intrometesse nem se empregasse em nenhum ofício desse mister, pois aqueles de quem se honrava a memória, morreram combatendo para defender a liberdade da Grécia. Depois dessa apresentação toda, segue o último, aquele que na ocasião é (37) o preboste dos platéanos, ao qual, durante todo o resto do ano não é permitido tocar apenas em ferro, nem vestir roupagem de outra côr, a não ser branca, mas que na hora veste um saio tinto em púrpura e traz em uma das mãos um cântaro (38) que recebe na casa da cidade, e, na outra, uma espada toda nua, e marcha neste porte após toda a pompa precedente através da cidade até o cemitério onde estão as sepulturas dos que morreram no dia do mês em que se comemora o aniversário. Aí chegando retira a água de uma fonte que ali existe, com a qual, ele mesmo lava as colunas quadradas e as imagens que estão sobre as ditas sepulturas, untan-do-as com óleos de odores, em seguida imola um touro sobre um montão de madeira que já está pronto, nem mais nem menos como quando queimam os corpos de alguns mortos, fazendo súplicas e orações a Júpiter e a Mercúrio terrestres. Em seguida convida e admoesta para o festim dô sacrifício fúnebre, as almas daqueles homens valentes, que morreram combatendo pela liberdade da Grécia; toma uma taça que enche de vinho e derramando sobre suas sepulturas, diz essas palavras em voz alta: — "Bebo aos bravos e valentes homens que outrora morreram defendendo a franquia da Grécia". Os platéanos até hoje guardam ainda solenemente esta cerimônia de aniversário.

(34) É uma falha de Amyot. Memacterion não corresponde ao mês de janeiro, mas ao mês de outubro.
(35) Grego, uma ária guerreira.
(36) Mirto.
(37) O arconte.
(38) Uma jarra.

LIII. Em suma, quando os atenienses voltaram à sua cidade, vendo Aristides, que queriam a viva força, o governo do estado popular, cuja autoridade soberana estava entre as mãos do povo e estimando que o povo era digno e merecia que tivessem desvelo pela proeza e grandeza de coragem demonstradas nesta guerra e também vendo que seria bem desagradável forçá-lo a aceitar outro governo, levando em conta que tinham as armas nas mãos e o coração dilatado por tantas vitórias belas e gloriosas que havia ganho, lançou logo um edital: que a autoridade do governo ficasse entre as mãos de todos os cidadãos igualmente, que daí em diante todos os burgueses, tanto pobres como ricos, pudessem ser eleitos pelas vozes do povo, com o direito de promover aos ofícios e magistrados da cidade.

LIV. Afinal, como Temístocles, um dia, afirmasse em assembléia pública da cidade que havia propiciado uma coisa que era maravilhosamente útil, aproveitável e salutar à causa do povo, mas que haveria perigo dizê-la publicamente, o povo ordenou que a comunicasse então só a Aristides e consultasse com êle, para resolver se era conveniente ou não fazê-la. Então Temístocles disse-lhe em segredo que achava útil pôr fogo dentro do arsenal onde estavam todos os navios dos gregos, alegando que por esse meio os atenienses tornar-se-iam mais poderosos que quaisquer outros povos da Grécia. Tendo ouvido, a proposta, sem mais aquela, Aristides voltou-se para o povo e disse em plena assembléia que não podia haver coisa mais aproveitável para a causa pública em Atenas, nem também mais injusta e mais maldosa, "do que aquilo que Temístocles havia pensado fazer. Ouvida esta resposta, o povo ordenou a Temístocles que retirasse aquela sua proposição, tanto era o povo de Atenas amante da justiça e tanta confiança tinha na retidão e probidade de Aristides.

LV. Este foi enviado depois como capitão do exército ateniense, com Cimon, para perseguir e guerrear os bárbaros. Vendo que Pausânias e os outros capitães lacedemônios que enfeixavam nas mãos a superintendência de todas as forças militares eram rudes e rigorosos com os povos confederados, quando êle, ao contrário, falava delicadamente com eles, demonstrando-se o mais íntimo e o mais atencioso que podia, tornando seu companheiro semelhantemente acessível a todo mundo e igual para com todos, não humilhando uns para elevar outros nos cargos militares; fazendo isto, não repararam que êle tirava pouco a pouco aos lacedemônios a primazia da Grécia, não pelas armas, pelos navios, nem pelos cavalos, mas pelo bom senso somente e pela sábia conduta, pois se a justiça e a bondade de Aristides e a delicadeza e complacência de Cimon, tornavam o governo dos atenienses agradável e desejável aos outros povos gregos, a avareza, a arrogância e a altivez de Pausânias, o faziam ainda mais desejável, porque não falava nunca aos outros capitães dos povos aliados e confederados sem que estivesse enraivecido, repreenden-do-os rigorosamente e, quanto aos soldados, pelas menores faltas mandava-os chicotear ultrajantemente ou então fazia ficar um dia inteiro o culpado de pé com uma âncora pesada de ferro sobre os ombros. Não havia quem ousasse buscar forragem ou pegar a palha ou o junco para fazer enxergas, nem quem ousasse levar a beber seus cavalos diante dos espartanos, pois havia colocado guardas que expulsavam a chicotadas os que apareciam à sua frente. E um dia em que Aristides pensou dizer e adverti-lo de alguma coisa, franziu sua fisionomia e respondeu-lhe que não tinha tempo para falar com êle nem o queria ouvir.

LVI Nessa ocasião, os capitães dos outros gregos, mesmo os de Quio, de Samos e de Lesbos, colocaram-se depois juntos de Aristides para o persuadir a ficar com o cargo e autoridade de comandar os outros povos gregos e tomar sob sua guarda os aliados e confederados, que de há muito não procuravam outra coisa senão se livrar da obediência aos lacedemônics e submeterem-se aos atenienses. Aristides lhes respondeu que não somente tinham razão em fazer o que diziam, mas que se achavam totalmente constrangidos; todavia, para dar aos atenienses ocasião de assegurar sua fé e lealdade, era preciso que houvesse algum caso notável contra os lacedemônios, pelo qual seus povos não ousassem mais doravante dividir-se com os atenienses. Ouvindo tal, Ulíades Samiano e Antágoras de Quio, capitães de galeras, conjurados juntos, foram um dia investir um de um lado e o outro do outro lado da galera capitanea de Pausânias, muito perto de Constantinopla (39) quando navegava na frente da frota. Vendo isso, Pausânias incontinenti levantou-se colérico, ameaçando-os que dentro de poucos dias lhes faria saber que valia mais para eles assaltarem seu próprio país do que persegui-lo, mas lhe responderam que se retirasse habilmente se era sábio e que agradecesse corajosamente a sorte, a qual havia querido que sob a sua conduta os gregos tivessem levantado a vitória no dia de Platéia e que não tinha outra coisa senão aquela recomendação que havia até então retido os gregos e preservado de fazê-lo pagar todo o mal que seu orgulho e sua arrogância mereciam. Afinal aconteceu que se separaram dos lacedemônios e se colocaram ao lado dos atenienses.

(39) Grego, Bizâncio.

LVII. Nisto se pode claramente ver e conhecer uma grandeza de coração e magnanimidade admirável dos lacedemônios, pois quando perceberam que seus capitães se prejudicavam e se corrompiam devido à grande autoridade e licença que possuíam, deixaram voluntariamente a superioridade que, tinham sobre os outros gregos e cessaram de enviar seus capitães para obter a superintendência de todo o exército grego, preferindo antes que seus cidadãos fossem obedientes e observassem ponto por ponto a disciplina e as ordenanças de seu país, do que tivessem eles a presidência e superioridade sobre toda a Grécia.

LVIII. Ora as cidades e povos da Grécia contribuíam com regular soma de dinheiro para ajudar nas despesas da guerra contra os bárbaros, mesmo desde os tempos em que os lacedemônios tinham superioridade, mas depois que esta foi retirada, cs gregos quiseram que se fizesse um corte, pelo qual cada cidadão foi razoavelmente cotizado segundo suas posses, a fim de que cada um soubesse quanto devia pagar e para esse fim solicitaram Aristides aos atenienses, ao qual conferiram poderes e ordem de cotizar e taxar igualmente cada cidade, considerando o tamanho de seu território e a sua renda, de acordo com o que poderia e deveria razoavelmente ter. Mas se Aristides era pobre, quando tomou posse deste cargo e de tão grande autoridade, segundo se diz, em que a Grécia se submetia toda à sua discreção, saiu ainda mais pobre; criou a taxa e situação de acordo, não só justa e honestamente, mas com vantagem, tão equitativamente segundo a posse de cada um, não havendo pessoa alguma que ficasse descontente. E em tudo, assim como os antigos celebraram e cantaram a felicidade daqueles que viveram sob o reinado de Saturno, que chamaram a idade áurea, também fizeram depois os povos aliados e confederados dos atenienses com relação à taxa que então foi distribuída por Aristides, denominándolo "o bom e feliz tempo da Grécia" (40) mesmo quando algum tempo depois foi dobrada e depois de repente, triplicada, pois a taxa de Aristides subiu aproximadamente quatrocentos e sessenta talentos (41); e Péricles a aumentou quase de uma terça parte, por isso, Tucí-dides escreve, no começo da guerra Peloponésica que os atenienses pagavam seiscentos talentos (42) para cada ano sobre seus aliados. Depois da morte de Péricles os oradores e intermediários nos negócios públicos, a levantaram pouco a pouco até atingir a soma de mil e trezentos talentos (43) não tanto porque aquela guerra fosse assim de grande despesa, mas por causa da sua duração e das perdas que os atenienses tiveram, ficando o povo acostumado a fazer distribuição diária de dinheiro, a exercitar-se nos jogos, a fazer belas imagens e edificar templos magníficos.

LIX. Assim Aristides, com razão era honrado, louvado e considerado de todo o mundo por esta justa imposição de sua estatura moral, exceto da parte de Temístocles, o qual ironizava e dizia que aquilo não era um louvor, propriamente, a um homem de bem, mas antes a um cofre bem fechado, onde se pode pôr com segurança o dinheiro; dizia isso para se vingar, mas não o melindrar tão acremente como Aristides o havia ofendido abertamente e ao vivo, quando um dia, conversando amigavelmente, Temís tocles lhe disse considerar que a mais excelente virtude que poderia possuir um capitão, era o saber descobrir e prever os planos e empresas dos inimigos. "Isto, respondeu Aristides, é bem necessário, mas também é coisa honesta e verdadeiramente digna de um bom governador e chefe militar, ter as mãos limpas e não se deixar corromper pelo dinheiro".

(40) Leia: «e sobre tudo».
(41) Duzentos e setenta e seis mil escudos. Amyot.
(42) Trezentos e sessenta mil escudos. Amyot.
(43) Setecentos e oitenta mil escudos. Amyot.

LX. Aristides, então, fêz os outros povos gregos jurar que observariam ponto por ponto os artigos da aliança e êle mesmo como capitão geral jurava em nome dos atenienses; e pronunciando as execrações e maldições contra os que traíssem seu juramento, mandou jogar massas de ferro ardentes dentro do mar e como pedindo aos deuses assim fossem extintos e exterminados aqueles que violassem sua fé; todavia, depois, quando os negócios obrigaram segundo penso, os de Atenas a reter um pouco violentamente seu domínio, disse aos atenienses que atirassem todas as execrações e maldições sobre êle e que pensando bem, não deixassem mais por temor delas fazer as coisas que achassem ser convenientes.

LXL Resumidamente Teofrasto escreve que era êle um personagem perfeitamente reto e justo nas coisas particulares, de homem para homem, mas no governo fazia muita coisa segundo a exigência dos tempos e segundo as ocorrências de sua cidade, a qual constantemente necessitava de grande violência e mesmo de grande injustiça, como quando pôs sob deliberação do conselho, se deviam retirar o ouro e a prata que estavam depositados e economizados na ilha de Deles, no templo de Apolo, para suprir os negócios de guerra contra os bárbaros e transportar dali para Atenas, segundo o que os sâmios haviam disposto, se bem que fosse diretamente contra os artigos do tratado da aliança disposta e jurada entre todos os gregos. Quando perguntaram a Aristides sua opinião, respondeu que não era justa mas que era aproveitável; isto, no entanto, depois de haver posto seu país e dado a sua cidade a superioridade de comandar tantos milhares de homens, continuando sempre em sua pobreza habitual e amando sempre, até a sua morte, tanto o louvor e a glória que lhe vinham de sua pobreza, como das vitórias e troféus que havia ganho, o que se pode julgar e conhecer pelo fato que a seguir narramos.

LXII. Cálias, o porta-tocha de Ceres, que era seu parente próximo, foi entregue à Justiça acusado de crimes capitais. Quando chegou o dia em que a causa devia ser julgada, analisaram friamente e muito superficialmente os outros crimes dos quais o acusavam, mas extravasando fora da matéria principal, falaram desta maneira aos juízes: — "Senhores, vós todos conheceis Aristides, o filho de Lisímaco e sabeis como, por sua virtude, é estimado entre todos os gregos, como saberia ser um ser vivente. Como sabeis, vive em sua casa, e vós o vedes aparecer em público e ir à cidade com uma pobre veste toda rasgada e usada! Nós o vemos em público tremer de frio por estar mal vestido, suportar fome em sua vida de homem! E, no entanto, este Cálias que é seu pri-mo-irmão e o mais rico e opulento de todos os burgueses de Atenas, é tão infeliz, que deixa Aristides bem como sua mulher e seus filhos em necessidade, enquanto vive cheio de prazeres, devido à reputação que lhe concedeis".

LXIII. Cálias, vendo que seus juízes se enterneciam e se irritavam contra êle, mandou chamar Aristides ao tribunal, intimando-o a trazer como testemunho da verdade, se não havia por diversas vezes recebido de presente boa soma de dinheiro, o que não quis nunca aceitar, respondendo sempre que podia mais e com melhor direito vangloriar-se da sua pobreza do que êle de sua riqueza. Encontrava-se muita gente que usava, alguns, bem, outros, mal, sua riqueza, mas não era nada fácil encontrar um que suportasse virtuosamente e magnânimamente a pobreza a não ser aqueles que são pobres mas que tinham vergonha de o ser. Aristides testemunhou que a verdade era tal como êle dizia. Não houve um dos assistentes que contestasse e que não saísse com esta opinião e esta vontade que era preferível ser pobre como Aristides do que rico como Cálias. Assim escreveu Ésquines o filósofo Sócrates: Platão difere pouco, que todos os que eram considerados e renomados em Atenas não faziam caso senão dele: — "Pois os outros, diz êle, como Temístocles, Cimon e Péricles supriram e embelezaram bem a cidade de pórticos, de edifícios, de ouro e prata e outras coisas supérfluas e curiosas, mas Aristides, é o único que dirigiu todos os seus feitos com a virtude de um bom governo da coisa pública".

LXIV. Pode-se assim evidentemente conhecer a grande bondade e eqüidade que havia no caráter de Aristides, mesmo pelo seu comportamento para com Temístocles, do qual foi sempre inimigo e adversário em todas as coisas e devido à sua perseguição e às suas tramas, banido de Atenas; no entanto, não quis aproveitar a ocasião e o meio, quando Temístocles foi acusado, por crime contra o povo e asperamente perseguido por Cimon, Alcmeon e vários outros contra êle mal intencionados; Aristides pois, na ocasião, não fêz nem disse coisa alguma em seu prejuízo, nem para sua desvantagem e não se alegrou por ver seu inimigo na adversidade, como também nunca havia invejado sua prosperidade.

LXV. Quanto à sua morte, uns dizem que morreu no reino de Ponto, onde fora enviado para tratar de negócio público; outros afirmam que morreu de velhice na cidade de Atenas, grandemente amado, honrado e considerado por todos seus concidadãos. Mas Crátero, o Macedónio, descreve sua morte desta forma: — "Depois que Temístocles se foi, diz êle, o povo de Atenas tornou-se orgulhoso e insolente, e isto foi causa de fazer surgir um grande número de caluniadores que se puseram a depor e acusar falsamente os primeiros homens e principais personagens da cidade, ajudados pela inveja e maledicência da plebe que não se orgulhava com a prosperidade de seus negócios e nem com o aumento de seu poder, entre os quais Aristides, que foi acusado de fraude e malversação de dinheiro público, por um tal Diofanto, natural do bairro de Anfítropo, que o acusou de receber dinheiro dos jonianos, ao levar o tributo que pagavam anualmente e que por não poder pagar a multa quando ao ser condenado, que era de quinhentos escudos (44), foi obrigado a abandonar a cidade de Atenas, indo para Jônia, onde morreu. Todavia, esse Crátero não alegou um testemunho, nem um argumento para comprovar o que disse, nem a discussão a respeito, nem a sentença de condenação, nem decreto algum referente ao caso, quando estava acostumado a recolher diligentemente tudo e citar sempre os autores. Além de tudo, todos os outros que escreveram e organizaram uma coleção das faltas que o povo ateniense cometeu outrora contra seus capitães e governadores, alegando o exílio de Temístocles, o cativeiro de Milcíades, que morreu na prisão, a multa a qual foi condenado Péricles, a morte de Paques que se suicidou dentro da tribuna, quando se viu condenado, e, muitas histórias mais a que anexaram a expulsão de Aristides, mas não fazem menção alguma da condenação a que se refere Crátero.

(44) No grego: cinqüenta minas.

LXVI. Ainda hoje existe a sepultura de Aristides sobre o porto de Falero, que foi feita às expensas do erário público, porque morreu tão pobre, que não encontraram em sua casa nada com que se pudesse exumá-lo; diz-se ainda mais, que por decreto do povo, suas filhas casaram às custas do tesouro público e cada uma recebeu no casamento três mil dracmas" de prata (45). Quanto a seu filho Lisímaco deram-lhe cem minas de prata (46) e cem arpentes de terra (47) e deram ordem para quatro dracmas de prata (48) por dia de provisão comum por solicitação de Alcibíades, que levou o decreto avante. Além de tudo isso, Lisímaco deixou só uma filha chamada Polícrita, para a qual o povo ordenou, como afirma Calisteno, provisão para viver igual à daqueles que levantavam o prêmio dos jogos olímpicos. Pois Demétrio, o Faleriano, Jerônimo, o Rodiano, Aristoxeno, o músico e Aristóteles, o filósofo, se é que o tratado intitulado Da Nobreza, seja verdadeiramente obra de Aristóteles, todos juntos afirmam que uma Mirto, filha da filha de Aristides, casou-se (49) com o sábio Sócrates, que a desposou (se bem que tivesse outra esposa) porque era viúva e não encontrava com quem se casar por causa de sua pobreza e tinha dificuldade para viver. Todavia, Panecio responde e contesta bastante tudo isto, nos livros que escreveu sobre a vida de Sócrates. Mas Demétrio Faleriano diz em seu livro que intitulou Sócrates, que estava bem lembrado de haver visto um Lisímaco, filho do filho ou da filha de Aristides, que era muito pobre e vivia com o que podia ganhar interpretando sonhos por meio de certas tábuas, onde estava escrita a arte de expor os significados dos sonhos mantendo-se ordinariamente junto do templo de Baco, que chamam Jaquion, o qual juntamente com sua mãe e sua irmã, diz ter por ordem do povo, para os ajudar a viver, dado a cada um, um trióbolo (50) por dia.

(45) São aproximadamente trezentos escudos. Amyot.
(46) Mil escudos. Amyot.
(47) Ë um erro de Amyot. No grego, cem pletros. O ple-tro grego é de cem pés quadrados, e, o arpente é de cem varas quadradas; a vara de Paris, que é a menor, tem dezoito pés. (Pietro — antiga medida de comprimento que valia a sexta parte do estádio ou cem pés, aproximadamente trinta metros).
(48) Treize sous et quatre (65 centavos e quatro). Amyot.

LXVII. É bem certo que esse mesmo Demétrio Faleriano, reformando o estado de Atenas, ordenou que seria dado à mãe e à filha, pelo público, por dia, uma dracma de prata (51) e não se deve considerar novidade nenhuma que o povo de Atenas tivesse um tão grande cuidado em exercer a caridade para com essas mulheres que inspiravam compaixão na cidade, atendendo que outrora, sendo avisados que uma neta de Aristogitão (52) encontrava-se na ilha de Lemnos, pobre e mesmo em estado de penúria e que devido a isto não podia achar marido, fizeram-na vir a Atenas, casando-a em uma das mais nobres casas da cidade e deram-lhe como dote uma posse no bairro de Pótamos. Esta cidade sempre praticou no passado e ainda pratica no presente, até nossos dias, grandes atos de bondade e de humanidade pelos quais é de direito grandemente louvada, prezada e honrada de cada um.

 

(49) Ver as Observações.
(50) Aproximadamente vinte moedas tornesas. Amyot. (Tornes — moeda cunhada até o século XIII em Tours (França) e depois da moeda real cunhada pelo modelo da de Tours).
(51) Trois sous et quatre (quinze centavos e quatro). Amyot.
(52) Ver as Observações.


Fonte: Edameris 1960. Vidas dos Homens Ilustres, tomo III. Tradução de José Carlos Chaves a partir da edição francesa de Amyot.

 

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