set 272014
 
padre-antonio-vieira

A formosura – excerto de Sermão do Pe Vieira.

Que coisa é a formosura, senão uma caveira bem vestida, a que a menor enfermidade tira a côr, é, antes da morte a despir de todo, os anos lhe vão mortificando a graça daquela exterior e apa­rente superfície de tal sorte que, se os olhos ”pudessem penetrar o \ interior dela, o não\ poderiam ver sem horror ?\! A formosura é um bem frágil, e, quanto mais se vai chegando aos anos, tanto mais vai diminuindo, desfazendo-se em si e fazendo-se menor. Se­ja exemplo desta lastimosa fragilidade. Helena1), aquela famosa e formosa grega, filha de Tindareu, rei de Lacônia, por cujo roubo foi destruída Tróia. Durou a guerra dez anos: e, ao passo que ia durando e crescendo a guerra, se ia juntamente com os anos

diminuindo a causa dela. Era a causa a formosura de Helena,

flor enfim da terra e cada ano cortada com o arado do tempo.

Estava já A formosura

Que coisa é a formosura, senão uma caveira bem vestida, a que a menor enfermidade tira a côr, é, antes da morte a despir de todo, os anos lhe vão mortificando a graça daquela exterior e apa­rente superfície de tal sorte que, se os olhos ”pudessem penetrar o \ interior dela, o não\ poderiam ver sem horror ?\! A formosura é um bem frágil, e, quanto mais se vai chegando aos anos, tanto mais vai diminuindo, desfazendo-se em si e fazendo-se menor. Se­ja exemplo desta lastimosa fragilidade. Helena1), aquela famosa e formosa grega, filha de Tindareu, rei de Lacônia, por cujo roubo foi destruída Tróia. Durou a guerra dez anos: e, ao passo que ia durando e crescendo a guerra, se ia juntamente com os anos

diminuindo a causa dela. Era a causa a formosura de Helena,

flor enfim da terra e cada ano cortada com o arado do tempo.

Estava já tão murcha, e a mesma Helena tão* outra, que, vendo-se

ao espêlho, pelos olhos, que já não tinham a antiga viveza, lhe corriam as lágrimas; e, não achando a causa pór que duas vêzes fôra roubada, o mesmo espêlho e a si perguntava por ela.

(Idem)


1) Venal — comercial.

1) Helena — Segundo a fábula, era mulher de Menelau, rei de Spar- ta. Foi raptada por Páris, filho de Priamo, rei de Tróia, o que causou a guerra e a ruína desta cidade (1193-1184 a. Cr.).tão murcha, e a mesma Helena tão* outra, que, vendo-se

ao espêlho, pelos olhos, que já não tinham a antiga viveza, lhe corriam as lágrimas; e, não achando a causa pór que duas vêzes fôra roubada, o mesmo espêlho e a si perguntava por ela.

(Idem)


1) Venal — comercial.

1) Helena — Segundo a fábula, era mulher de Menelau, rei de Sparta. Foi raptada por Páris, filho de Priamo, rei de Tróia, o que causou a guerra e a ruína desta cidade (1193-1184 a. Cr.).

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

fev 222011
 

História da Civilização – Oliveira Lima

IDADE ANTIGA

CAPÍTULO II

A CIVILIZAÇÃO HELÉNICA

O valor da civilização grega

O tamanho do país não está neste caso em relação com a grandeza da civilização a que serviu de berço, a mais completa da antiguidade, a que maior número de idéias aventou, discutiu e disseminou, a ponto tal que ainda hoje se vai buscar no seu vocabulario a terminologia científica e filosófica e que, sob certos aspectos, jamais foram excedidas as manifestações do gênio helénico. A disposição geográfica fazia da península grega o cenário adequado dessa surpreendente atividade mental e social que brilhou radiosamente na poesia, no teatro e na eloqüência, erigiu o civismo em culto popular e elevou a política a uma arte para competentes.

Aspectos físicos e tradições da civilização grega

A Grécia é uma terra alterosa, cortada de vales, defendida por desfiladeiros, assim repelindo a tutela de invasores, com uma costa de mil anfractuosidades, como que chamando às suas enseadas calmas a colaboração estrangeira. Esta desde começo que lhe não faltou, pois segundo suas tradições fabulosas, foi o fenício Cadmo quem ensinou aos gregos o alfabeto e a arte de trabalhar os metais e quem construiu na Beócia a cidadela de Tebas, e foi o egípcio Cécrops quem, com seus companheiros, encetou a construção da Acrópole de Atenas, instituiu o tribunal do areópago e implantou na Ática o cultivo da vinha e da oliveira. Outro egípcio, Danaus, ensinou aos habitantes de Argos a arte da navegação, a qual tão bem aprenderam que os argonautas, sob o comando de Jasão, foram combater os piratas da Cólquida e franquear ao comércio grego o Ponto Euxino, de lá trazendo o velocino de ouro, símbolo da riqueza mercantil.

O período heróico da Grécia Antiga

Essas tradições fabulosas repousam sobre um fundo de realidade, referindo-se as citadas ao primitivo intercurso dos gregos com povos então mais adiantados. A história grega apenas começa no século VIII a. C, mas o período anterior, legendário e heróico, deve haver sido prolongado porque, ao começar o período histórico, já a língua grega estava perfeitamente formada e a sua mitologia aparecia tal como a conhecemos, imaginativa e risonha.

As cidades e os clãs dos gregos

Isoladas nos vales estreitos ficavam cidades de característicos diferentes, cidades-estados, às vezes compostas da cidade exclusivamente, outras vezes abraçando* as aldeias circunvizinhas. Tinham-nas fundado tribos de índole altiva, que tratavam de desenvolver seus destinos numa ciosa independência. Formava cada tribo diversos clãs, sendo o clã a família ampliada, ligada por laços de parentesco e de religião, tendo o culto do mesmo antepassado comum.

A península grega

País montanhoso e marítimo, com seus núcleos políticos a um tempo divididos entre si pelo espírito local e com a vastidão das águas a convidá-los a empresas remuneradoras, compõe-se a península grega de duas partes proporcionais — a Hélade ao norte e o Pelo-poneso ou Moréia ao sul, quase separadas as duas metades pelo Golfo de Corinto, hoje completado pelo canal, onde havia o istmo.

Os mentes Cambúnios como que resguardam a Grécia, na frase de um historiador, dos ventos frios e das tribos hostis da Macedónia. A nordeste da vasta planície da Tessália ergue-se o Monte Olimpo, cujo cume, coroado de nuvens, a 3 000 metros de altura, serve de morada ao Panteão do politeísmo helénico, personificando as forças da natureza. Descendo para o sul, ainda do lado do Mar Egeu, levantam-se como sentinelas os montes Ossa e Pelion, que os titãs da fábula colocaram um sobre o outro para escalar o céu quando moveram guerra aos deuses. Do lado do oeste a cadeia do Pindo separa a Tessália do Epiro e vai constituir o sistema orográfico da Hélade. Da planície da Tessália prolongada pela Etólia se desprende uma espécie de grande língua de terra arrendada, que é propriamente a Grécia central, onde mais ativa pulsou a civilização.

As montanhas dessa região são mais baixas e nemorosas, regan-do-as fontes abundantes. Aí habitavam as Musas, no Parnaso e no Helicon; mais para o meio-dia, perto donde floresceu o aticismo, avultam o Himeto, em cuja encosta flui o mel, e o Pentélico, célebre pelos seus mármores. A Arcádia forma no Peloponeso o planalto central fechado por montanhas; a simplicidade pastoril dos seus habitantes, por assim dizer isolados do movimento intelectual que agitou a Grécia, ficou proverbial. Projetando-se no Mar Egeu, a Ar-gólida recorda ter sido a sede de uma cultura pré-histórica. No sul, a Lacônia ou Lacedemônia encerra o vale profundo do Eurotas, onde se aninhou a cultura espartana: os rios na Grécia são antes torrentes de inverno. A oeste fica a Elida, onde se verificavam os jogos olímpicos, que tão belos modelos vivos ofereciam à estatuária grega, a qual por essa forma animavam.

O Mar Egeu

Coalhado de ilhas, o Mar Egeu apresentava fácil e já experimentada passagem aos que, de gênio mais aventuroso, se sentissem abafados dentro dos confins da sua pequenina pátria e atraídos pela costa fronteira da Ásia Menor a fundarem ali colônias e espalharem sua cultura compreensiva e sutil. A Grécia faz frente à Ásia, pois que seus mais abundantes e melhores portos se acham na costa oriental, da mesma forma que a Itália faz frente à Espanha, pois que seus mais abundantes e melhores portos ficam na costa ocidental.

Os grupos de populações. As culturas jónica e dórica

Os habitantes da Grécia intitulavam-se helenos e dividiam-se em quatro grupos — jônios, dórios, aqueus, que dominaram o Peloponeso em tempos pré-históricos e predominaram entre as tribos gregas, e eólios, dos quais se pode dizer um tanto vagamente que são os que não pertencem a nenhuma das outras divisões. Na Hélade floresceu por excelência a civilização jónica e no Peloponeso a civilização dórica, representadas uma por Atenas e outra por Esparta, sem que isso signifique que cada um desses centros absorvesse os demais, apenas que num dado momento impôs sua hegemonia — o vocábulo é grego — a uma liga de cidades livres, entre as quais aquele foco brilhava excepcionalmente. A cultura jónica significou mais espírito cosmopolita, maior largueza de vistas, mais graça de expressão, maior mobilidade intelectual; a dórica mais espírito nacionalista, mais estreiteza de concepções, mais rigidez de costumes, menos horizontes mentais.

As ilhas e a costa da Ásia Menor

Todos os helenos, descendentes de Prometeu segundo a própria crença, vieram da Ásia: os jônios por mar, através do mundo de ilhas do Egeu, os dorios tangendo seus rebanhos de pasto em pasto desde o Egito, com um pouso mais prolongado na Dórida. Os jônios desceram até a Ática; os dórios introduziram a desordem no Peloponeso, provocando o êxodo de várias tribos para a Ásia Menor; os eólios fixaram-se no centro e a oeste da península) Foi em virtude dessas deslocações de tribos que os jônios, tomando rumo por entre as Cíclades que rodeavam o santuário famoso de Apolo em Délos, fundaram Éfeso e Mileto no litoral fronteiro, dando origem à Jônia, e que os dorios, acompanhando esses movimentos de população, ocuparam Creta, alcançaram Rodes (colónia fundada por fenícios) e chegaram a Halicarnasso, na extremidade meridional da costa asiática fronteira à Hélade.

Essa costa e as ilhas que a guarnecem de perto foram teatro de uma cultura notável que precedeu mesmo a helénica e da qual são representativas a poetisa Safo, de Lesbos, que foi colónia eólia, o matemático Tales, de Mileto, que sabia calcular os eclipses, e o filósofo Pitágoras, de Samos, que precedeu Galileu na teoria do movimento da terra. Na península a civilização helénica sucedeu a outra que é chamada pelásgica, que nem por isso é menos obscura e de que entretanto há traços, entre outros lugares, nos muros ciclópicos de Corinto, de Micenas e de Tróia.

Odisseu e Nausícaa. Odisseia, canto VI. Pintura de um vaso. Séc. V a. C.

Odisseu e Nausícaa. Odisseia, canto VI. Pintura de um vaso. Séc. V a. C.

fev 032011
 
mapa roma itália

Plutarco – Vidas Paralelas – OBSERVAÇÕES

SOBRE A VIDA DE AGESILAU

CAP. XX. — «Pois amou muito afetuosamente um jovem rapaz ateniense, etc». Deve traduzir: «Pois amou muito afetuosamente um jovem ateniense, atleta entre os meninos; como já estava grande e forte, correu o risco de ser recusado nos jogos olímpicos; eis porque o persa recorreu a Agesilau, etc». Para compreender isto é preciso saber que havia duas classes de atletas; uns eram homens feitos, os outros eram crianças. Cada um podia combater em sua classe; mas como podiam passar entre as crianças meninos de mais idade, o que então era uma desvantagem para os outros concorrentes, os magistrados encarregados do policiamento dos jogos examinavam todos os pretendentes, e rejeitavam aqueles que por força e sua conformação física, lhes pareciam de idade desproporcionada para serem admitidos na classe dos meninos. Como terei ocasião de examinar tudo isto muito mais detalhadamente em minhas notas sobre Pausânias, limitar-me-ei aqui ao que acabo de dizer. C.

CAP. XL. — Não se acha esse nome de Gelon em parte nenhuma. Na Vida de Pelópidas, Plutarco chama de beotárquios a Pelópidas, Caron e Melon, que Xenofonte escreve Mellon (com dois 1), o que parece indicar a correção feita neste trecho e proposta por Reiske, e antes dele, por Dodwell em seus Anais de Xenofonte, 33. É preciso observar que, falando deste assunto na própria Vida de Pelópidas, Plutarco atribui esta sugestão odiosa a Pelópidas e Gorgidas, beotárquios. Isto não dá contradição, porque havia sete beotárquios. Estes dois acontecimentos são do terceiro ano da centuagésima Olimpíada, segundo Dodwell, se bem que Diodoro coloque o caso de Esfódrias no quarto ano.

CAP. XLIII. — Há aqui no texto um erro incrível. Cleômbroto é designado como filho de Agesilau. Era com certeza de Pausânias o filho de Plistoanax; era o outro ramo dos reis de Esparta, chamado os Ágides. Procurar adivinhar o que é preciso colocar no lugar dessa palavra filho, como empreendeu o Sr. Dut>oul, é certamente perder tempo e trabalho. É preciso apagar esta palavra absurda. Quanto ao que Plutarco empresta aqui a Agesilau, Xenofonte diz expressamente que foram os éforos que convenceram Agesilau a se encarregar desta expedição, porque tinham uma idéia mais elevada a respeito de sua prudência do que da de Cleômbroto.

CAP. XLV. — Ver-se-á, algumas linhas e mais adiante, que Epaminondas, já célebre por sua sabedoria e seus conhecimentos, não era ainda conhecido pelos seus talentos militares, na ocasião desta embaixada. Não havia ainda conquistado a famosa batalha de Leutres, que abateu o poder de Esparta, fêz passar a proeminência da Grécia para os tebanos e elevou Epaminondas ao mais alto grau da glória militar. Parece portanto, evidente, que aqui não se trata senão da batalha de Tegiro, ganha por Pelópidas no primeiro ano da centuagésima-primeira Olimpíada, A. C. 376 anos. Esta conjectura de vários sábios está confirmada diversos manuscritos que citam neste trecho Tegiro em vez Leutres.

CAP. XLVII. . — Pode-se consultar Dodwell, em seus Anais de Xenofonte, caps. 39 e 40, para julgar sobre que motivos êle se apoia para suspeitar de engano este espaço de vinte dias, que Plutarco estabeleceu entre a paz concluída em Esparta e a batalha de Leutres, o que parece com efeito bem curto para conter os acontecimentos intermediários; daí se conclui que a paz da qual Plutarco fala aqui, se fêz no décimo-quarto dia do mês ático scirroforion, que havia começado aquele ano no quarto da centua gésima-primeira Olimpíada, no dia catorze de junho, razão pela qual o décimo-quarto dia do mês scirroforion estava a coincidir com o vigésimo-oitavo de junho; e que a batalha de Leutres se deu no segundo ano da centuagésima-segunda Olimpíada, no dia cinco do mês hecatombeon, que coincide nesse ano com o dia oito de julho, o mês ático tendo começado a três do mês de julho, no ano do período Juliano. Ainda mais, já se observou o engano de Amyot, com relação à comparação de nossos müses áticos. Ver as Observações, L. III, pág. 484.

CAP. LII.. — Este trecho não é fácil para explicar. Poliano, L. 2, cap. I, § 14, narra o mesmo feito. Porém, parece mudar o local da cena. «Uma sedição, tendo-se levantado em Esparta, diz êle, um grande número de soldados armados apoderou-se de uma montanha consagrada a Diana Issória, perto de Pitane». Issórium é, segundo Etiene, uma montanha da Lacônia. Pitane é uma cidadezinha da Lacônia, cuja posição não é dada de .maneira precisa por nenhum escritor antigo. Mas ela era, segundo Píndaro (olim. 6), e seguindo seu Escoliasto, sobre as margens do Eurota; e o Eurota que corria segundo Estrabão, junto de Esparta, era, segundo Políbio, Extr. L. XV, ao seu oriente, no verão. Tudo isto parece fixar o lugar que procuramos, fora da cidade, para o oriente. Mas Hesíquio nos diz que Issórium é um bairro de Esparta, com o que está de acordo Plutarco; e Pausânias coloca também o templo de Diana Issória na cidade, mas para o poente da praça pública, o que parece poder concordar com a posição junto de Pitane, dada por Poliano. O que concluir disto? Que é preciso distinguir dois objetos, o templo na cidade, e a montanha Issórium perto de Pitane, ao oriente de Esparta sobre o Eurota. Diana aí era honrada de maneira particular. Uma parte dos habitantes de Pitane, tendo se estabelecido em Esparta, para lá levou seu culto e construiu um templo para Diana Issória, perto do quarteirão chamado o Lesché, ou o conselho dos crotônios, que era uma tribo dos pitanios, segundo Pausânias; e a similitude de nome terá fornecido a um dos dois historiadores a ocasião de um descuido. Mas creio que é da mesma montanha que se trata aqui, porque os inimigos vindo atacar a cidade pelo lado do Eurota ao oriente, não teria sido possível fazer crer aos sediciosos que pudessem se desculpar de uma ordem mal ouvida, reunindo-se em tão grande número ao ocidente da cidade, que não tinha nenhuma necessidade de ser guardada, estando os inimigos além do Eurota ao seu oriente.

SOBRE A VIDA DE POMPEU

CAP. I. — Esquilo havia composto duas tragédias sob o título de Prometeu; uma de Prometeu acorrentado, é aquela que possuímos onde se desenrola um ódio amargo contra Júpiter; a outra, de Prometeu liberto por Hércules. O verso citado por Plutarco foi extraído desta que o tempo nos roubou.

CAP. XXII. — Houve, em Roma outros personagens que tiveram o sobrenome de Máximo. Plutarco aqui fala desses que o obtiveram por outras virtudes que não as virtudes militares, se bem que esses que constam neste trecho, fossem também muito ilustres desse lado, como se vê em Tito Lívio, L. II, cap. 31, com relação ao ditador Valério, que conquistou sobre os sabinos uma vitória tão brilhante, no ano de Roma 260, que além das honras do triunfo, o Senado designou-lhe um lugar distinguido para êle e para sua posteridade no circo, onde lhe colocaram uma cadeira curial; e com relação a Fábio Rulo, que outros chamam Ruliano, e o Padre Petau, Turiliano, no mesmo historiador, L. VIII, cap. 30, era então mestre da cavalaria, sob o ditador Papírio, no ano de Roma 429, e conquistou em sua ausência, apesar da pi-oibição que lhe fora imposta de combater uma vitória completa sobre os samnitas. Pode-se ler em Tito Lívio, como o Senado e o povo tiveram trabalho para salvar em seguida sua vida da severidade do ditador obstinado em castigar de morte esta infração da disciplina militar. Foi depois cônsul várias vezes, censor no ano de Roma 450, ditador no ano de Roma 453. Foi, em sua censura, que fêz no Senado e no povo a reforma da qual Plutarco fala aqui e a qual Tito Lívio refere no fim de seu nono livro, e que lhe mereceu o sobrenome de Máximo

Quanto a Valério, Cícero diz expressamente em seu Livro intitulado Brutus, L. I, pág. 211, a mesma coisa que Plutarco. Não foi êle, no entanto, que começou o trabalho de reconciliação do povo com o Senado, mas Menênio Agripa, como se lê em Tito Lívio, L. II, cap. 32. Este acontecimento da retirada do povo sobre o monte Sagrado é do ano de Roma 261.

CAP. XXXVI. A maneira pela qual o texto grego está concebido teria bastado para avisar Amyot que caía em um pesado engano. Não é questão aqui de Gêmeos, isto é, do Castor e de Pólux. O templo de Claros, diz Plutarco, o templo de Dídimo, o templo de Samotrácia. Creio que era fácil reconhecer] aqui três sítios e três templos diferentes. Dídimo é um cantão do território de Milet, cidade situada sobre a costa da Ásia chamada Jônia, onde se acha um templo famoso consagrado a Júpiter e a Apolo, e por causa disto, possivelmente chamado Didi meno, porque Dídimo no grego significa dois; Estrabão, Mela Plínio, Pausânias, Quinto Cúrsio, todos os escritores antigos, então de acordo. Estes não o apresentam senão sob o nome de Apolo Didimeno; mas Etiene e Bizâncio o dá, segundo Calímaco, como comum a Júpiter e a Apolo. O sacerdócio havia sido confiado durante muito tempo aos branquidas.

IDEM. — Aqui, o texto alterado por copistas ignorantes induziu Amyot em falta; porém, não era difícil substituir Lacínia por Lucânia. Nenhum antigo fala de um templo de Juno em Lucânia, e todos falam de um templo famoso de Juno denominado Laciniana, por causa do promontório Lacínio, que era grandemente venerado. Sobre este lado da Itália que olha o mar Jônio, havia três promontórios famosos; ao meio-dia está o Zefirano, ao norte o Iapugiano, no meio o Laciniano. Cícero conta em seu Tratado da Divindade, que Aníbal, apavorado por um sonho, não ousou retirar uma coluna de ouro que se achava nesse templo; e Fúlvio Flaco pereceu miseravelmente no ano de Roma 583, segundo Tito Lívio por tê-lo despojado no ano de Roma 581.

CAP. LX.  Hermágoras, denominado Carião, segundo Suidas, era da cidade de Temnos na Eólia da Ásia; lecionou em Roma e morreu muito velho, sob Augusto. Havia escrito vários livros sobre retórica; e Suidas não cita outros trabalhos dele. Parece-me natural concluir que esta questão geral da qual Plutarco fala aqui, era um de seus primeiros princípios sobre a arte oratória. Ora, parece então muito provável que seja precisamente aquele do qual fala Cícero em seu primeiro livro da Invenção, pág. 55: «Hermágoras, diz êle, divide a matéria do orador em duas, a causa e a questão; a causa tem por objeto uma controvérsia na qual intervém pessoas; a questão uma controvérsia sem interposição de pessoas, tal como está aqui: há nisto alguma coisa boa, excetuando o que é honesto? Os sentidos são verdadeiros? Qual é a forma do mundo? Qual é a grandeza do sol? Todas as coisas, ajunta Cícero, que se reconhecem evidentemente não ter nenhuma relação com a função do orador». Daí se conclui que esta divisão de Hermágoras nada vale.

SOBRE A COMPARAÇÃO DE AGESILAU COM POMPEU

CÁP. III. - «Pois um, querendo escravizar a cidade de Tebas, e sobre todos os pontos exterminar e destruir a de Messena, uma sendo era tudo e por tudo cidade antiga de-seu país e a outra- cidade mãe e capital de toda a nação beócia, etc» Eis como é preciso-traduzir esta passagem: «Pois um, querendo escravizar a cidade de Tebas e por todos os pontos exterminar e destruir a de Messena; esta aqui antigamente havia entrado em partilha com sua pátria, e a outra que era metrópole de sua raça, etc.» Tebas era a pátria de Hércules, de quem descendem os reis da Lacedemônia, e a Messena tinha caído por sorte a Cresfontes na partilha que os Heráclidas fizeram do Pelo poneso.

SOBRE A VIDA DE FÓCION

CAP. II.. — «Também numa cidade, na qual oa negócios não andam ao gosto dos cidadãos, o povo tem os ouvidos muito delicados e muito cautelosos, por causa de sua imbecilidade, para suportar pacientemente uma língua dizendo a verdade livremente, quando então deseja principalmente ouvir as coisas que não lhe tragam seu erro diante dos olhos». Essa passagem não foi bem transcrita por nenhum dos tradutores, e Dusoul é, a meu ver, o primeiro que pegou o sentido. É preciso traduzi-la assim: «O povo tem os ouvidos muito delicados e muito sensíveis por causa de sua fraqueza, para suportar pacientemente uma língua dizendo a verdade livremente, e isto precisamente na época em que era mais necessária, estando os negócios em tal situação que estariam sem recurso, para remediar os erros que cometeriam».

CAP. IV. — A passagem de Cícero que Plutarco cita aqui sobre a conduta de Catão, acha-se na primeira carta do Atiço, L. II. Mas o que termina esta frase, a saber, quo por esta austeridade pouco conveniente à época, fêz-se excluir do consulado, é uma adição de Plutarco, e não podia se encontrae nesta carta de Cícero. O aprisionamento do cônsul Metelo e a disputa de Cláudio para obter o cargo de tribuno, fixam a da ta da carta de Cícero no ano de Roma 694, e não foi senão oito anos depois que Catão solicitou e deixou escapar o consulado, isto é, no ano de Roma 702, como se vê em sua própria Vida, quando Plutarco nos refere que êle teve por competidor Sulpício, que foi com efeito cônsul com Metelo, no ano de Roma 703.

CAP. XXX.— O nome grego é Hermo e não Hérmio. Esse vilarejo do Atiço, era da tribo Acamântida. Estava situado um pouco acima do Pireu, um pouco mais próximo de Atenas do que de Eleusina. Talvez algum revisor indiscreto tenha inserido no texto mais uma letra, pelo que Amyot fêz o nome Hérmio

CAP. XXXIII. — Dusoul engana-se traduzindo até sessenta anos a contar desde a puberdade, o que faria setenta e oito anos, segundo sua própria explicação. As leis de Atenas dispunham que os rapazes começariam a pegar em armas com dezoito anos; eram encarregados da defesa do Ático até vinte. Nesta época serviam até os quarenta em todas as guerras, dentro ou fora do Ático; depois do que estavam isentos do serviço militar; em ocasiões extraordinárias, iam até quarenta e cinco, como se vê na terceira Olintiana de Demóstenes. Assim a publicação de Fócion já era assaz extraordinária incluindo até a idade de sessenta anos, sem prolongar até setenta e oito.

CAP. XXXLX. — Ê verdade que no texto consta nesta passagem uma palavra que significa um porto limpo, e poderia por extensão significar um porto vazio de navios. Mas desde que Amyot reconheceu que esta expressão não apresentava sentido, o que o determinou a traduzir pela palavra margem, teria podido ir mais longe’ e supor algum erro ligeiro no texto. Não haveria dificuldade em ter reconhecido o nome próprio de um dos três portos do Pireu; pois o Pireu não é chamado porto senão impropriamente. 15 um bairro do Ático ou vilarejo tornado parte de Atenas pela junção dos muros que o reuniram desde Temístocles; e havia três portos, que fechavam com uma corrente comum, dos quais um se chamava Afrodidis, um outro Zée e o terceiro Cântaro. Vede Mérsio em seu livro intitulado, O Pireu.

SOBRE A VIDA DE CATÃO DE ÚTICA

CAP. I.. — Seria difícil fazer-se uma idéia precisa da genealogia de Catão de Ütica, de acordo com o que Plutarco diz aqui, e de acordo com o que disse no fim da Vida de Catão, o Censor; Aullu-Gelle, em seu décimo-terceiro livro, cap. 19, felizmente nos esclareceu o que Plutarco não explica ou apresenta mesmo de uma maneira própria para ocasionar a confusão. Vou dá-la tal qual Aullu-Gelle nô-la apresenta:

Marcos Catão, o Antigo ou o Censor, havia tido de sua primeira mulher um filho, que morreu quando vivia seu pai, sendo designado pretor, depois de haver escrito livros muito apreciados sobre direito. Deixou um filho chamado Marcos Catão Nepos, que quer dizer neto, porque era neto de Catão, o Censor, chefe da família. Foi orador e teve reputação nesse gênero. Foi cônsul com Quinto Márcio no ano de Roma 636 e morreu em seu consulado na Africa, deixando um filho que foi edil, em seguida pretor e morreu na Gália Narbonesa.

Catão, o Censor, desposou em sua velhice a filha de Salônio e teve um filho denominado Saloniano, do nome de seu avô materno. Este teve dois filhos, Lúcio Catão e Marcos Catão, que foi tribuno do povo e pai de Catão de Ütica.

CAP. XVII.. — Não obstante isso, se bem quo tivesse feito e que fizesse todas essas coisas, ainda houve alguém que escreveu, que passou e escorreu por uma peneira as cinzas dO fogo». O texto está destruído neste trecho. Petau, em suas notas sobre Temístio, edição do Louvre, pág. 525, propõe ler: «E se bem que tivesse feito tudo isto, César não deixou de escrever, etc. o que oferece um sentido muito melhor.

CAP. XLI. — Alguns observaram antes de mim a alteração que não se pode impedir de supor aqui no texto dl Plutarco; pois certamente Catão não foi deposto nem forçado a abdicar de seu tribunato. Propuseram diversas conjecturai. Talvez se aproximassem muito perto da idéia de Plutarco, no lhe fizessem dizer que Catão, sem usar dos direitos de seu cargo, com muitos tiranos (no que o capricho de um homem, por uma palavra apenas, prevalece sobre toda autoridade e toda razão) suplantou-o, no entanto, de tal modo pelo seu ascendente pessoal, que induziu Mêmio a deixar o combate, renunciando suas acusa ções. Mas isto não é senão uma conjectura, que não exclui melhores pois vê-se um pouco mais acima, que Metelo havia acusado Catão de tirania; outros sediciosos podiam renovar esta imputação, por extravagante que fosse; assim, com uma ligeira mudança poder se-ia ler: «Catão, arrostando as imputações dos sediciosos que o censuravam de abusar tirânicamente do poder de seu cargo, puxou seu partido com tanto vigor, que conseguiu enfim, reduzir Mêmio etc».

CAP. XLIX.. — Traseas Poetus da cidade de Pádua, capital da Paduana, homem de raros méritos. Todos os escritores de Roma elogiam sua virtude. Tácito chama-o em alguma parte a própria virtude, Anais, L. XVI, cap. 21. Nero o fêz morrer; mas não o estimava menos, como se pode concluir da resposta desse monstro a um infame delator que acusava Traseas de haver pre varicado em suas funções de juiz: — «Desejava muito bem, diz o tirano, estar tão seguro de sua amizade, como estou convencido de sua integridade». Vejam-se os Preceitos de Administração, cap. 44. Havia escrito a Vida de Catão de Útica, na qual havia seguido as informações que lhe fornecia o trabalho de Munácio Rufo, contemporâneo de Catão e que havia sido. seu companheiro de viagem a Chipre, como o diz Valério Máximo, L. D7, cap. 3.

CAP. LXXIV.. — Os Psilos habitavam junto da grande Sirte, entre os nasamons e os gétules, segundo Estrabão, que diz mais ou menos a mesma coisa que Plutarco sobre esta virtude inata contra as serpentes. Atribuíam, segundo êle, aos tentiritos, habitando junto da pequena Dióspolis no Egito, a mesma faculdade nata contra os crocodilos. Muitas vezes ouvi que os negros, escravos na América, pegam e matam assim as serpentes sem recear suas mordidas; isto não é de se considerar impossível. Mas observo que as pessoas que combatem obstinadamente as coisas mais razoáveis e melhor estabelecidas, acreditam sem exame em todas as fábulas dos viajantes, em todas as imposturas dos charlatães.

(Notas dos tradutores franceses).

Tradução: Prof. Carlos Chaves. Fonte: Edameris.

nov 222010
 
Arte etrusca

SUMÁRIO DA VIDA DE PELÓPIDAS

  • I. Reflexões sobre a temeridade e sobre o desprezo da morte.
  • VI. Nascimento e nobreza de Pelópidas. Sua liberalidade.
  • VII Seu casamento.
  • VIII. Caracteres de Pelópidas e de Epaminondas.
  • IX. Suas ligações e sua amizade.
  • X. A autoridade é usurpada em Tebas pelos nobres, apoiados pelos lace-(lemônios que se apoderam da cidadela. Pelópidas é banido.
  • XII. Sua ação em Atenas, para libertar a pátria.
  • XIII. Conspiração.
  • XIV. Sua execução.
  • XXIV. Seu sucesso. Pelópidas e os principais conjurados são nomeados capitães da tropa sagrada e governadores da Beócia.
  • XXV. Coragem desta proeza comparada com a de Trasíbulo, que libertou Atenas.
  • XXVI. Os lacedemônios levam a guerra à Beócia. Os atenienses abandonam a parte dos tebanos.
  • XXVII. Política de Pelópidas.
  • XXIX. Os tebanos alcançam vantagens sobre os lacedemônios. Batalha de Tegire. Derrota dos lacedemônios.
  • XXXIII. Origem da tropa sagrada. XXXVI. Cleômbroto, rei da Lacede-mônia, marcha contra os tebanos.
  • XXXVII. Batalha de Leuctres. XL. Vitória de Epaminondas e de Pelópidas.
  • XLI. Entram no Peloponeso, fazem revoltar a maioria dos povos contra os lacedemônios e vão atacar Esparta.
  • XLIII. Tentativa de acusação contra Epaminondas e Pelópidas por não se terem demitido do cargo de governador a tempo.
  • XLIV. Injustiça do orador Meneclides. Pelópidas o faz condenar.
  • XLVII. A Tessália pede socorro contra Alexandre, tirano de Feres. Tebas envia-lhe Pelópidas.
  • XLVIII. Passa na Macedónia para pacificar diferenças entre Ptolomeu e Alexandre, rei da Macedónia.
  • XLIX. É enviado na qualidade de embaixador na Tessália, para enfrentar novas dificuldades que se haviam levantado.
  • L. Alexandre, tirano de Feres, o faz prisioneiro. Lili. Tebas torna a pedir Pelópidas. Mau resultado e castigo dos deputados. Epaminondas marcha para libertar Pelópidas e o reconduz.
  • LIV. É enviado como embaixador a Artaxerxes, rei da Pérsia.
  • LV. Seu sucesso.
  • LVII. A Tessália o solicita de novo para o opor aos vexames de Alexandre, tirano de Feres.
  • LVIII. Chega a Farsale. LIX. Batalha onde Pelópidas é morto.
  • LXI. Luto do exército.
  • LXII. Pompa dos funerais.
  • LXIV. Os tebanos fazem marchar um exército contra o tirano de Feres, que é obrigado a receber a lei.
  • LXV. Alexandre é morto em uma conspiração formada por sua mulher.

Do terceiro ano da nonagésima-nona Olimpíada até o primeiro da centésima-quarta, 364 anos antes de Jesus Cristo.

PLUTARCO – VIDAS PARALELAS – PELÓPIDAS

O antigo Catão, respondendo um dia a alguns que engrandeciam um personagem, arrojado além da medida e valente sem discreção nos perigos da guerra, disse que havia grande diferença entre estimar muito a virtude e pouco a vida. Isto foi sabiamente dito. A esse propósito, contam que o rei Antígono tinha a seu serviço um soldado, entre outros, muito temerário, mas, bem observado, via-se que era uma pessoa de aparência desagradável e com o físico bem gasto. O rei, perguntou-lhe, um dia, de onde procedia estar êle assim pálido e com aquela côr tão má. O soldado confessou-lhe que era devido a uma doença secreta que não ousava de boa vontade declarar. Ouvindo isso, o rei ordenou expressamente a seus médicos e cirurgiões que lhe avisassem do que se tratava e se havia algum meio de o curar e que empregassem toda rapidez e diligência que lhes fosse possível. Agiram eles, de tal maneira, que o soldado recuperou sua saúde, mas ficando curado não se mostrou mais tão amável companheiro nem tão ousado nos perigos da guerra como fazia antes, de maneira que Antígono mesmo, tendo percebido a mudança, chamou-o um dia, dizendo-lhe que se espantava bastante em ver uma tão grande transformação nele, a que o soldado, não tendo senão aquela ocasião, respondeu-lhe: — "Vós me tendes, senhor, vós mesmo me tornastes menos corajoso o que eu não era, fazendo curar-me e tratar-me dos males pelos quais eu não tinha em conta minha vida".

II. A isto se relaciona também o dito de um sibaritano (1), referindo-se à maneira de viver dos lacedemônios: — "Que não era nada de mais se eles tinham grande desejo de morrer na guerra para se redimir de tanto trabalho e livrar-se de uma tão árdua e austera maneira de vida, como era a sua". Mas não é preciso admirar os sibaritanos, homens afeminados e fundidos em delícias e volúpias, se eles consideravam que aqueles que não temiam a morte pelo desejo que tinham de fazer o bem e pela afeição com que cumpriam o seu dever, mas que tivessem ódio da vida, era falso com relação aos lacedemônios, pois eles tornariam a viver e a morrer voluntariamente se isto fosse possível, no exercício da virtude, conforme o testemunho deste brasão funerário:

Estes mortos aqui não tiveram ainda desta vez
Que o seu morrer nem o seu viver
Foi belo e bom, mas souberam fazer bem
E um e o outro têm o direito em boa causa.

(1) Sibaris, cidade famosa pela moleza de seus habitantes. Estava situada sobre a costa oriental ao pé da Itália, entre os rios Sibaris e Cratis. Foi destruída pelos de Crotona no terceiro ano da quinquagésima-sétima Olimpíada, sob as ordens do famoso atleta Milon. Reconstruída pelos atenienses no terceiro ano da octogésima-terceira Olimpíada, à pequena distância de seu primeirc sítio, foi denominada Túrio.

III. Também em verdade, fugir à morte não é em si reprovável, conquanto seja sem covardia de coração, nem a espera é louvável se é feita com moleza e desprezo da vida.

Eis porque Homero descreve sempre como os mais valentes e corajosos guerreiros, os que estão mais bem armados quando é tempo de combater. E os que fizeram e estabeleceram as leis dos gregos, castigam aqueles que abandonam o seu bouclier e não sua espada ou sua lança, porque o soldado deve primeiramente pensar em se defender a si do que ofender seu inimigo, proceder que deve ser também daqueles que têm nas mãos o governo de um estado ou de um exército.

Assim, a comparação que fazia o capitão ateniense Ifícrates é verdadeira, quando dizia que em um exército, as tropas ligeiras se assemelhavam às mãos; a soldadesca (2) aos pés, os batalhões de infantaria, ou o grosso das tropas, ao estômago e ao peito, e o capitão era a cabeça do corpo humano. Parece que o capitão, que se arrisca muito e se atira ao perigo sem propósito, não é indolente somente em sua vida mas também em tudo o que a salvação dependa de si e, semelhantemente, tendo o cuidado da segurança de sua pessoa, tem também cuidado de todos os que estão sob suas ordens.

(2) No grego; "a cavalaria".

IV. Calicrátidas, capitão lacedemônio, pensando bem, foi um grande personagem, mas não respondeu sabiamente ao adivinho que lhe anunciou e predisse que êle se guardasse porque os sinais e presságios dos sacrifícios o ameaçavam de morte: — "Esparta, disse êle, não depende de um homem só". A verdade é que para combater por mar e por terra, Calicrátidas não era nada mais que um só homem verdadeiramente, mas como capitão, tinha toda a força e poder de seu exército unida e reunida em si, e, assim, não era um homem sozinho, pois que tantos outros pereceriam com êle.

Mas ao contrário, o velho Antígono, estando no momento de travar uma batalha naval perto da ilha de Andros, respondeu bem melhor a um que lhe dizia que os inimigos tinham muito mais navios do que êle. "E eu, disse-lhe, por quantoj navios me contas tu?" Pois fazia muito bem ter em grande conta a dignidade do capitão, pois esta, em ação, com a proeza e a experiência, daria como primeiro resultado salvar aquele que deve salvar todos os outros. Portanto, Timóteo, assim como Cares, mostrou um dia publicamente aos atenienses as cicatrizes de diversos ferimentos que recebera em seu corpo, bem como seu escudo todo dobrado e perfurado por diversos golpes de lança: — "Estou, disse êle, envergonhado, pois quando mantinha a cidade de Samos sitiada, uma seta lançada das muralhas da cidade veio cair bem perto de mim, porque havia avançado demais, como um jovem afoito, temerariamente, o que não convinha ao chefe de um tão grande exército". Mas quando a causa é de grande importância, vá que o chefe do exército se exponha ao perigo mas, deve ir de cabeça baixa, empregar bem sua mão e resguardar sua pessoa, sem se esquivar e não fazer caso das palavras daqueles que dizem que um bom e sábio capitão deve morrer de velhice, ou pelo menos velho.

Onde, porém, não espera senão pouca vantagem e perda, pondo em jogo a vida de todos, não deve se expor e jamais homem sábio algum reclamará que êle devia ter praticado ato de soldado raso, q liando isto traz o perigo de fazer perder um capitão em chefe.

V. Pareceu-me necessário fazer este prefácio diante das vidas de Pelópidas e de Marcelo, que foram dois grandes personagens e ambos mortos de forma que não deviam, pois tendo sido homens valentes, de arma em punho e tendo honrado seu país com vitórias gloriosas e, mais, contra inimigos temíveis, porque um foi o primeiro, ao que se diz, que aniquilou Aníbal, o qual até esse dia havia se mantido invencível e, o outro derrotou em batalha alinha-da os lacedemônios, que na ocasião dominavam toda a Grécia, tanto por mar como por terra e ambos perderam suas vidas sem razão, por serem mui temerariamente afoitos, justamente quando seus países tinham a maior necessidade de homens e de capitães como eles. É a causa pela qual, seguindo as semelhanças que houve entre os dois, reunimos e comparamos suas vidas uma com a outra.

VI. Pelópidas, filho de Hipoclo, de uma das mais nobres casas da cidade de Tebas, como Epaminondas, foi educado em grande opulência, vindo a ser herdeiro de sua casa, que era rica e poderosa desde a sua juventude. Mostrou incontinenti ter vontade de socorrer aqueles que tinham necessidade e eram dignos, dando assim a conhecer que era verdadeiramente dono e senhor e não servo de seus bens.

Da maioria dos homens ricos, uns não aproveitam nada de suas riquezas, porque são avarentos, como diz Aristóteles e, os outros abusam, porque se entregam aos prazeres, e assim são eles servos toda a vida, uns das volúpias e os outros dos negócios e do lucro. Os que conheciam essas qualidades de Pelópidas, agradeciam-lhe e usavam francamente de sua bondade e liberalidade para com êle, exceto Epaminondas, a quem não pôde nunca dar nada de seus bens, mas ao contrário, Pelópidas mesmo recebeu dele a vontade de imitar sua pobreza, no que tomou gosto e teve orgulho em se vestir de maneira tão simples, comer sobriamente, trabalhar voluntariamente e fazer a guerra sem rebuços, sendo tal como o poeta Eurípides descreve Capaneo, quando disse dele (3):

Era rico e em bens opulento
Mas por isso não menos extraordinário.

Pois tinha vergonha se o homem mais pobre da cidade de Tebas gastasse menos com sua pessoa, do que êle.

VII. Ora, quanto a Epaminondas, a pobreza lhe era familiar e hereditária. É bem verdade que êle a tornou mais leve e mais fácil de suportar, pelo estudo da filosofia à qual se dedicou e porque desde sua juventude escolheu uma vida simples, dispensando o supérfluo.

Quando Pelópidas casou com uma dama da grande nobreza, da qual teve filhos, não foi, no entanto, por isso, menos ativo em conservar e aumentar seus bens, mas deu-se a servir em tudo à causa pública enquanto viveu, de maneira que suas posses diminuíram, o que dava motivo a seus amigos mais chegados a repreendê-lo, mostrando-lhe que estava errado, tendo em pouca monta uma coisa que era tão necessária, como o possuir bens. Êle, então, lhes respondeu: — "Necessária é, verdadeiramente, mas é a um como este Nicodemo". E mostrou-lhes um (4) pobre homem aleijado e cego que passava.

(3) Nos Suplicantes, v. 861.
(4) "Pobre" não está no original grego.

VIII. Haviam nascido assim cs dois, igualmente, com todas as disposições para as virtudes, com a diferença que Pelópidas tinha mais prazer em exercitar o corpo e Epaminondas em exercitar o espírito e aprender, de forma que seus passatempos, quando estavam de folga, de um, era lutar, caçar e fazer exercícios corporais e, do outro, ouvir, estudar e aprender sempre qualquer coisa das letras e da filosofia. Mas, entre os diversos e bons passatempos que lhes trouxe tanta honra e tanta glória, cs homens de bom julgamento não acham nada de tão grande nem tão louvável como o haver mantido em toda sua vida sua amizade e benevolência, inalteradas desde o começo até o fim, entre tantos combates, tantas guerras, tantos comandos de exércitos e tantos negócios do governo que tiveram de desempenhar juntos.

Olhando os maus comportamentos de Aristides e de Temístocles, de Cimon e de Péricles, de Nícias e de Alcibíades na administração da coisa pública, de como foram eles cheios de desinteligência, de ambições e de inveja uns contra os outros, e considerando depois o amor e a honra que mantiveram sempre, continuamente, um ao outro Pelópidas e Epaminondas, encontraremos sem dúvida razão para achá-los mais dignos de ser chamados irmãos de armas e colegas de cargos públicos, do que quaisquer daqueles outros, os quais sempre estudavam e trabalhavam mais para vencer um ao outro do que para vencer seus inimigos.

A causa verdadeira, o objetivo visado em seu modo de proceder, era a virtude, porque por seus feitos não procuravam nem glória, nem riqueza para eles, na cobiça das quais está sempre ligada a malquerença e a sediciosa inveja. Ambos estavam como que enamorados, desde c começo, de um amor, de afeição e caridade divinas, que era de ver seu país mais poderoso e mais próspero per seu intermédio e no seu tempo.

IX. Todavia, a maioria dos historiadores estima que esta grande e veemente amizade que tinham um para com o outro, começou e procedeu de uma viagem que fizeram juntos a Mantinéia em socorro dos lacedemônios, que então estavam ainda aliados e confederados aos tebanos. Eles estiveram juntes na linha de batalha, nas tropas de infantaria, lutando contra os arcadinos que tinham pela frente. Aconteceu que uma ponta da linha dos lacedemônios, na qual estavam, recuou e houve muitos que fugiram por lodos cs caminhos, mas eles, preferindo morrer do que fugir, apertaram-se juntos e fizeram frente àqueles que os perseguiam até que Pelópidas, ficando ferido em sete lugares, tedos pela frente, caiu sobre um monte de cadáveres. Epaminondas então, embora tendo-o por morto, atirou-se à frente para defender seu corpo e suas armas e sustentou sozinho o combate contra diversos, preferindo antes morrer do que abandonar Pelópidas deitado entre os mortos. Lutou valentemente e ficando ferido de um golpe de lança no estômago e de um golpe de espada no braço, quase não podendo mais, Agesípolis, rei dos lacedemônios, chegou na outra ponta da linha de combate bem a tempo e salvou os dois que já estavam fora de toda a esperança.

X. Ora, desde esta batalha, que os lacedemônios deram de tratar bem os tebanos como seus aliados, amigos e confederados, mas na verdade começaram a ter suspeitas do poder e da grandeza de coragem de sua cidade, mesmo devido a um partido que obedecia a Ismênias e Andróclidas, no qual estava também Pelópidas, porque lhes parecia ser o mesmo bastante popular e liberal.

Houve três personagens da cidade de Tebas, Arquias, Leôntidas e Filipe, homens ricos e poderosos, que não se contentando em ser iguais aos outros cidadãos, persuadiram a Febidas, capitão lacedemônio, que ia e vinha pelo país da Beócia com seu exército, o qual apoderou-se um dia do castelo de Tebas que se chamava Cadméia, expulsando da cidade os que o queriam contrariar, pôs a direção dos negócios nas mãos de um pequeno número dos mais nobres, os quais fariam todas as coisas com carinho e ao gosto dos lacedemônios. Febidas fêz e executou esta empreitada sem que os tebanos suspeitassem de nada.

No dia da festa denominada Tesmofória, tendo-se apoderado da fortaleza, mandou também aprisionar Ismenias, levá-lo à Lacedemônia, onde poucos dias depois mandou matá-lo. Pelópidas, Ferênico e Andróclidas com diversos outros, tendo-se salvo a tempo, foram expulsos de Tebas ao som de trombetas. Quanto a Epaminondas, ficou na cidade, sem que lhe perguntassem nada, porque o desprezavam como pessoa inofensiva, pois era dedicado ao estudo e mesmo que tivesse vontade de querer qualquer coisa, não podia executá-la, devido sua pobreza.

XI. Os lacedemônios, à vista desta surpresa, depuseram Febidas de seu cargo e o condenaram a multa de dez mil escudos mas guardaram sempre com boa guarnição a fortaleza de Cadméia em suas mãos, o que todas as outras cidades e povos gregos acharam muito estranho, o aprovarem o ato e no entanto castigarem aquele que o havia praticado.

Assim os tebanos, tendo perdido sua antiga liberdade e estando escravizados por esses dois, Arquias e Leôntidas, chegaram a perder a esperança de poder jamais se livrar daquela tirania nem a destruir, vendo que ela estava sendo mantida e defendida pelos lacedemônios, se não havia quem pudesse tirar a estes, a posse e domínio que tinham em toda a Grécia, tanto no mar como em terra.

Todavia, Leôntidas e seus partidários, percebendo como os banidos de Tebas eram em Atenas benvindos e bem vistos pela comuna e honrados por toda gente de bem, experimentaram mandar secretamente matá-los por emboscada e, para fazer isso, enviaram a Atenas alguns homens incógnitos, os quais mataram à traição Andróclidas, mas quase que mataram também os outros. Por isso, os lacedemô-nios escreveram a Atenas dizendo que não deviam receber os banidos de Tebas nem os solicitar, mas sim desviá-los e expulsá-los, como esses, que devido aos seus aliados, eram juridicamente inimigos comuns de toda a federação.

XII. Não obstante, cs atenienses, além da humanidade e bondade de todos os tempos, que lhes era natural, própria e inata, querendo corresponder aos tebanos que haviam sido os autores do estabelecimento do governo popular em Atenas, atendendo que haviam ordenado por edital público que se algum ateniense fosse e viesse pelo país da Beócia, trazendo armas contra os trinta governadores tiranos que sufocavam a liberdade de Atenas oprimida, não houve ninguém que fizesse menção de ver e ouvir para não causar dano nem desprazer aos tebanos. E entretanto, Pelópidas, ainda que fosse dos mais jovens, ia sempre solicitando a cada banido em particular e em comum e fazia discursos mostrando que não seria somente covardia, mas perversidade e crime de lesa-majestade divina, se consentissem que seu país continuasse em tal escravidão e que estrangeiros aí mantivessem guarnições par« os fazer dobrar sob o jugo, enquanto que eles se contentavam em salvar suas pessoas e pôr suas vidas em segurança, permanecendo ociosos em Atenas, esperando o que agradaria aos atenienses lhes ordenar, fazendo a corte aos oradores e a esses que, pela eloqüência, sabiam persuadir sobre o que desejavam da comuna. Portanto, seria preciso tudo arriscar por coisa de tão grande conseqüência, a exemplo da proeza e coragem de Trasí-bulo, a fim de que como êle, que partindo de Tebas havia expulso os tiranos que oprimiam Atenas, também eles partindo de Atenas, libertassem Tebas da escravidão.

Depois de haver tirado essas observações de sua própria opinião, enviaram secretamente instruções aos seus amigos que estavam morando em Tebas, para lhes dar a entender sua deliberação, a qual aprovaram, tanto que Caron, que era o mais evidente de todos, prometeu fechar sua porta para realizar a assembléia, e Filidas arranjou jeito de ser escrivão e secretário de Filipe e de Arquias, que eram então governadores e capitães da cidade.

XIII. Por outro lado, Epaminondas, sem deixar transparecer, vinha de longa data procurando levantar a coragem dos jovens tebanos, pois quando estes passavam seu tempo entregues aos exercícios corporais, achava sempre um meio de os emparelhar em luta com os lacedemônios e quando os via orgulhosos, por havê-los jogado por terra e por serem os mais fortes, vinha apertar-lhes os músculos, dizendo que deviam ter vergonha, por estarem sujeitos a outros, que não eram tão fortes, tão rígidos e nem tão robustos como eles. Assim, num dia determinado entre aqueles que dirigiam, para executar a empresa, foi avisado que Ferenico com outros banidos estavam morando no povoado de Triasio e que alguns dos mais jovens e mais dispostos correriam o risco de ir na frente para entrar na cidade, com a condição de que, se porventura, fossem surpreendidos pelos inimigos, todos os outros conjurados juntos teriam que cuidar para que seus pais, mães e filhos não sofressem falta de coisa alguma que lhes fosse necessária.

XIV. Pelópidas foi o primeiro que se apresentou para esta obrigação e depois dele Melon, De-móclidas e Teopompo, todos pertencentes às primeiras famílias de Tebas, que se estimavam muito uns aos outros e que por nada cometeriam uma fuga ou praticariam qualquer deslealdade, um ao outro, embora, em todos os tempos, houvesse entre eles inveja, desejo de glória e contenda sobre quem levantaria o prêmio. Foram doze ao todo, os quais despedindo-se uns dos outros, enviaram na frente um mensageiro a Caron para o avisar, e puseram-se a caminho levando casacos curtos sobre as costas, conduzindo cães de caça e trazendo nas mãos estacas para esticar as redes, a fim de que aqueles que os encontrassem pelo caminho não desconfiassem de sua empreitada e pensassem que iam assim passeando pelos campos e caçando para o seu prazer. Quando o mensageiro que haviam enviado na frente chegou à cidade e disse a Caron como se encontravam pelo caminho, não recuou, se bem que visse aproximar-se o perigo mas, como homem de bem, persistiu no oferecimento que havia feito e disse que seriam benvindos em sua casa. Um outro, porém, chamado Hipostênidas, que não era de forma alguma mau homem, pois desejava o bem e a honra de seu país e era amigo dos banidos, mas não tinha muita coragem, pelo menos assim como se mostrou na ocasião e no negócio que naquela hora se apresentava, reclamou tanto que a cabeça virou, conforme a maneira de dizer, e o nariz sangrou, quando se pôs a examinar e considerar de perto a enormidade do perigo, no qual teria de entrar, não podendo compreender como é que poderiam abalar desse jeito o império dos lacedemônios e construir o alicerce da ruína de seu poder sobre a confiança de um pequeno número de exilados que não tinham meios. Pelo que, retornado à sua casa, enviou subitamente um de seus familiares a Melon e Pelópidas, a dizer-lhes que transferissem sua empreitada para uma outra ocasião melhor e que por ora voltassem a Atenas. Aquele que mandou, chamava-se Clidon, o qual foi apressadamente para sua casa e, tirando seu cavalo fora do estábulo, disse a sua mulher que lhe trouxesse depressa o freio, mas a mulher, não o encontrando prontamente, disse-lhe que havia emprestado a um de seus vizinhos. Começaram primeiro a se empurrar um ao outro, depois a se injuriar mutuamente até que a mulher, amaldiçoando-o, pediu aos deuses que fizesse infeliz a viagem que êle devia fazer, bem como aqueles que o enviaram, de tal forma que esse Cli-don, tendo perdido boa parte do dia a discutir e brigar com sua mulher, e também porque tinha em mau presságio as maldições e pragas que ela havia rogado centra êle, resolveu por si mesmo não prosseguir e pôs-se a fazer qualquer outra coisa. Assim muito pouco foi necessário para que a empresa de uma tão digna e gloriosa proeza não fosse cortada antes do começo.

XV. Mas aqueles que se achavam na companhia de Pelópidas vestidos como camponeses, a fim de não serem reconhecidos, dividiram-se para não entrar todos juntos, mas por diversas portas da cidade, enquanto era dia. Ora, havia por sorte, bastante vento e nevava, de maneira que começando a ficar escuro, a maior parte das pessoas retirou-se para suas casas, o que serviu muito para que eles não fossem descobertos ao entrar; aqueles que estavam de acordo os recebiam à medida que chegavam e os levavam para a casa de Caron, onde se encontraram com os exilados, quarenta e oito homens somente.

XVI. Quanto aos tiranos, eis o que acontecia. Filidas o secretário, fazia parte da conjuração como dissemos e conhecia toda a meada por meio da qual muito tempo antes havia expressamente convocado Arquias e seus companheiros a virem jantar em sua casa, prometendo que traria também mulheres a fim de que, quando estivessem bem embriagados e bem mergulhados em suas volúpias, os conjurados fizessem mais à vontade tudo o que desejassem. Assim, tendo o banquete começado, antes que tivessem ainda bebido muito, vieram lhes contar a verdade sobre a conjuração, não porém ponto por ponto como tudo era nem como coisa certa, mas somente que havia rumor de que os banidos estavam dentro da cidade, escondidos na casa de Caron. Filidas procurou desviar esse propósito, mas Arquias enviou um de seus arqueiros a Caron, ordenando que viesse imediatamente à sua presença.

XVII. Ora, já era tarde, Pelópidas e seus companheiros preparavam-se para irem executar sua empreitada, estando todos armados, tendo já em mãos suas espadas, quando de súbito ouviu-se bater com força na porta. Acorreu alguém da casa, que veio dizer muito amedrontado que era um dos satélites de Arquias, que vinha ordenar a Caron para ir imediatamente à frente dos governadores. Pensaram incontinenti que todo seu trabalho fosse descoberto e, conseqüentemente, estavam perdidos, antes de poderem fazer alguma prova de sua virtude. Todavia, foram todos de aviso que Caron obedecesse essa ordem e que se apresentasse diante dos governadores para desfazer qualquer suspeita. Se Caron era homem corajoso, constante e seguro do perigo quanto a olhá-lo, no entanto, na hora ficou espantado e zangado, temendo que fosse suspeito de haver praticado traição, se acontecesse que tanta gente de bem e tão grandes cidadãos, aos quais havia cedido sua casa, fossem presos. Pelo que antes de sair, foi pegar no quarto de sua mulher, seu filho que era ainda criança, mas belo e forte, mais que qualquer outro de sua idade e o pôs entre as mãos de Pelópidas, pedindo-lhe que se soubesse que havia cometido qualquer traição, ou qualquer farsa de mau gosto, fizessem com seu filho como a um inimigo, sem nenhuma piedade.

XVIII. As lágrimas vieram aos olhos de muitos dos conjurados, quando viram esse zelo e essa magnanimidade de Caron. Discutiram todos pelo fato de considerar êle alguns deles tão fracos de coração e tão assustados por qualquer perigo que se apresentasse. Não suspeitavam nem o acusavam de nada e lhe disseram para não deixar a criança entre eles, mas a escondesse em algum lugar fora do perigo dos tiranos, onde pudesse ser criado para um dia vingar o erro que teriam feito a eles e a seu país. Caron respondeu-lhes que não o tiraria, pois não via nenhuma vida nem salvação mais feliz para êle, do que morrer sem infâmia como seu pai e entre tanta gente de bem, seus amigos. Assim, depois de haver orado aos deuses para virem em sua ajuda e ter abraçado e confortado todos os conjurados, um após outro, foi-se e pelo caminho procurou compor de tal modo seu rosto, seu domínio e sua palavra, que parecia pensar antes em toda outra coisa que naquela que queria em pensamento fazer.

XIX. Quando chegou à porta da casa onde se realizava o festim, Arquias e Filidas vieram ao seu encontro, dizendo-lhe: — "Caron, quem são aqueles que dizem haver entrado secretamente nesta cidade e que estão escondidos em alguma casa, tendo burgueses que se entendem e conversam com eles?" Caron perturbou-se um pouco no começo e lhes perguntou: — "E que espécie de gente é? Quem são aqueles que os recebem nesta cidade?" Mas (5) quando viu que Arquias não lhe podia declarar nada de certo, pensou bem que a descoberta lhe havia sido feita por alguém que não sabia nada de toda a trama da empreitada. Disse-lhe: — "Guardai que não seja qualquer falso alarme que querem dar para vos assustar, todavia indagarei, pois em toda aventura é sempre mais seguro não fazer nada em tais coisas com incerteza". Filidas respondeu que êle dizia a verdade e com isso levou Arquias para a sala, onde o fêz beber ainda mais do que antes, entretendo sempre cs outros com a esperança das mulheres que deviam vir e, Caron voltando à sua casa, encontrou os conjurados todos prontos e aparelhados para pôr mãos à obra, não como gente que esperasse salvar suas vidas, nem ficar sob o poder de seus inimigos, mas disposta e bem resoluta em morrer corajosamente e vender sua morte bem cara. Assim disse a verdade toda, como era, só a Pelópidas, dando a entender aos outros que Arquias o havia chamado para lhe dizer qualquer outra coisa.

(5) Grego: "em seguida, tendo perguntado", etc, "quando viu", etc.

XX. Apenas havia passado o perigo da primeira tormenta, a sorte lhes enviou um outro, pois chegou logo depois um mensageiro vindo de Atenas, que trouxe ao mesmo Arquias uma carta que lhe escrevia o grande pontífice de Atenas, chamado Arquias, como êle, e era seu hóspede e seu velho amigo, na qual escrevia não uma conjectura simples nem uma suspeita imaginária, mas a conspiração de ponta a ponta, toda, tal como a viram depois. Foi o mensageiro conduzido a Arquias que já estava embriagado e dando-lhe a carta, disse: —- "Aquele que te envia esta missiva, ordenou-me expressamente de te dizer que leias incontinenti o que contém, porque é coisa de grande importância". Arquias rindo, respondeu-lhe: — "Amanhã cedo os negócios", e tomando a carta, colocou-a debaixo de sua almofada, e retomou a conversa que havia começado com Filidas; estas palavras ficaram em uso entre os gregos, como um provérbio comum: — "Amanhã cedo os negócios".

XXL Quando, portanto, acharam chegado o tempo de começar a executar sua empresa, dividiram-se em duas partes, indo uns com Pelópidas e Damó-clidas para assaltar Leôntidas e Hipato, porque ficavam um junto do outro e, os demais com Caron e Melon foram contra Arquias e Filipe, disfarçados com vestidos de mulheres que haviam posto sobre suas armas e traziam à cabeça chapéus com ramos de pinheiro que lhes cobriam o rosto. Por esse meio, quando se apresentaram à porta da sala onde se realizava o banquete, os de dentro, julgando à primeira vista que fossem as mulheres esperadas, gritaram e fizeram grande algazarra, mas depois de terem passado seus olhos pela sala, para reconhecerem todos aqueles que estavam no banquete, desembainharam as espadas, e colocando-se por entre as mesas sobre Arquias e Filipe, deram-se a conhecer quem eram. Então Filidas disse àqueles que havia convidado que não se mexessem, que não haveria nenhum mal, no que foi obedecido por alguns, mas os outros, em maior número, acharam que era seu dever defender os governadores e levantaram-se mas, como estavam tão ébrios que não sabiam o que faziam, foram todos facilmente mortos.

XXII. Entretanto, a execução não foi tão fácil para o bando que conduzia Pelópidas, pois iam contra Leôntidas que era pessoa cuidadosa e sóbria. Quando o encontraram já estava deitado e a porta de sua casa fechada. Bateram por muito tempo sem que alguém abrisse; enfim, um criado, com grande pena, ouviu bater daquela forma e veio à porta para lhes abrir e logo que tirou o ferrolho e que a porta começou á se entreabrir, eles a puxaram tão rudemente, atirando o povo todo junto dentro, que puseram por terra o servidor e subiram direito ao quarto. Leôntidas, ouvindo o barulho daqueles que subiam tão depressa, desconfiou logo e, jogando-se fora do leito, tomou uma espada na mão, mas esqueceu-se de apagar as lâmpadas que ardiam à noite em seu quarto, pois se assim não fora, os assaltantes teriam que se empurrar uns aos outros nas trevas, mas ao contrário, sendo fácil se ver em tão profusa claridade de lâmpadas, foram até diante da porta do quarto. Cefisodoro, que se havia atirado primeira dentro, recebeu um tão grande golpe de espada que se abateu todo rígido e morto aos pés de Leôntidas, que assim o matou. Caído esse primeiro, agarrou-se ao que vinha logo depois, que era Pelópidas. Foi um combate contrafeito, não só porque a porta do quarto era estreita, como também porque o corpo de Cefisodoro, estendido no lugar, impedia-os. Todavia, por fim, Pelópidas chegou ao final, matando Leôntidas e se dirigiu incontinenti com seus companheiros para a casa de Hipato, onde entraram nem mais nem menos como em casa de Leôntidas, mas aquele, percebendo logo o que era, cuidou de se salvar nas casas de seus vizinhos, mas os conjurados o perseguiram de perto, sendo morto antes que pudesse alcançar refúgio.

XXIII. Isto feito, reuniram-se com a outra parte de Melon e enviaram imediatamente, com rapidez a Atenas, diversos outros exilados e começaram a gritar pela cidade: "Liberdade, liberdade", e armando os camponeses que vinham se entregar e aliar-se a eles, com armas e despojos dos inimigos, que estavam suspensas e penduradas nos pórticos dos edificios públicos e nas lojas dos armadores e fornecedores ao redor da casa de Caron, as quais arrombavam ou faziam abrir à força. De outro lado vieram também em seu socorro Epaminondas e Górgidas, bem armados com uma milícia de jovens e também de velhos dos melhores que haviam reunido. Logo, toda a cidade ficou virada debaixo para cima pelo pavor, cheia de tumulto e de barulho. Já havia luzes por todas as casas, correndo os habitantes para casa uns dos outros, procurando saber o que acontecia. Todavia, o povo não se havia ainda reunido, mas estava admirado por não saber em verdade o que havia e esperando o clarear do dia para se reunir em conselho. Por esse meio, parece-me que os capitães da guarnição dos lacedemônios cometeram um grande erro, não agindo na hora e não atacando logo os revoltosos, atendendo que possuíam mil e quinhentos guerreiros, sem contar, naturalmente o grande número dos moradores da cidade que iriam juntar-se a eles, mas é que tiveram medo do grande barulho que ouviam, do fogo que viam por todas as casas e do povo que ia e vinha de todos os lados formando grandes multidões. Assim, decidiram não se mexer mas guardaram somente a fortaleza de Cadméia.

XXIV. Ao clarear do dia seguinte chegaram da Ática os outros exilados bem armados e reunindo todo o povo de Tebas em conselho, Epaminondas e Górgidas, se apresentaram, bem como Pelópidas e seus comparsas rodeados pelos sacerdotes e religiosos da cidade, que apresentavam coroas para colocarem sobre suas cabeças e proclamaram à assembléia de cidadãos que desejavam socorrer seus deuses e seu país. Toda a assistência do povo levantou-se nos pés, logo que os viu, com grande clamor e batendo as mãos e recebeu-os como seus benfeitores, os que os haviam libertado da escravidão e conquistado sua liberdade. Na hora, foram eleitos capitães e governadores da Beócia pelas vozes do povo, Pelópidas, Melon e Caron. Pelópidas, então, fêz cercar com trincheiras e tapume de madeira (6) o castelo de Cadméia, ordenando o assalto de todos os lados e empregando todo seu esforço para tomá-lo e expulsar os lacedemônios, antes que viesse de Esparta um exército para socorrê-los. Os da guarnição, que capitularam, haviam saído do castelo para voltarem à Lacedemônia, e encontraram nas terras de Mégara, Cleômbroto, rei de Esparta que vinha auxiliá-los com grandes e poderosas forças. Mas dos três capitães que serviram naquela guarnição de Tebas, os espartanos condenaram a morte dois deles, Hermipidas e Arcisso, que foram executados, e o terceiro Disaóridas foi condenado a pagar uma grande soma de dinheiro como multa e foi-se para fora do Peloponeso.

(6) O grego designa por uma palavra genérica uma circun-valação com trincheiras.

XXV. Esta proeza tendo sido organizada e executada com a mesma valentia, os mesmos riscos e o mesmo trabalho que a de Trasíbulo quando libertou a cidade de Atenas dos trinta governadores tiranos e tendo atingido o mesmo fim pela sorte, foi denominada pelos gregos, irmã daquela, pois não poderiam citar outros senão esses dois, que com tão pouca gente caíram sobre seus adversários, em número maior do que eles e que com tão apoucados meios houvessem vencido aqueles que se achavam mais fortes, chegando ao fim de sua empresa, somente pela sua coragem e pela sábia conduta, trazendo maiores benefícios para seus países. O que tornou a empreitada ainda mais honrosa e mais gloriosa para eles, foi a mudança dos negócios que vieram depois, pois a guerra, que diminuiu a dignidade de Esparta e tirou aos lacedemônios o principado da terra e do mar, começou naquela noite em que Pelópidas, sem ter procurado surpreender nem cidade, nem castelo, nem praça forte, entrando o décimo-segundo em uma casa particular, cortou e partiu pela maneira de dizer, e, para melhor exprimir a verdade com esta figura de retórica, as cadeias que mantinham firme o domínio e principado dos lacedemônios em toda a Grécia, os quais, até esse tempo, eram considerados tão fortes que seria impossível quebrá-los, romper ou desligar.

XXVI. Tendo, entretanto, algum tempo depois, os lacedemônios entrado com uma força poderosa no país da Beócia, os atenienses, amedrontados com a sua grande força, recusaram continuar a aliança e linha defensiva que tinham com eles (7) e até, fizeram justiça e processaram aqueles que foram acusados de tomar o partido dos beócios, dos quais uns foram executados à sorte, outros expulsos da Ática e outros condenados a pagar grandes multas. De fato, a opinião comum era de que os negócios dos tebanos deveriam andar muito mal, atendendo que eles não eram socorridos nem favorecidos por pessoa alguma do mundo. Ora, naquele ano eram capitães-gerais da Beócia, Pelópidas e Górgidas, os quais procuravam cs meios de pôr em rígido os atenienses, em lança e inimizade contra os lacedemônios e tramaram um ardil. Havia um capitão lacede mônio chamado Esfódria, homem valente, mas sempre estouvado e leviano, que punha facilmente em sua cabeça vãs esperanças e era animado por uma louca ambição de ter ainda em sua vida algum belo feito. Ora, êle havia ficado com um bom número de guerreiros na cidade de Téspia, para recolher e favorecer os da Beócia que desejavam rebelar-se contra os tebanos.

(7) Os tebanos.

XXVII. Pelópidas, com sua autoridade particular, enviou-lhe um mercador, seu familiar e amigo, levando dinheiro e palavras que valiam mais ainda que o dinheiro que lhe punha na frente, ajuntando que devia esperar maiores coisas ainda para que fosse surpreender e tomar o porto de Pireu, o que poderia facilmente fazer, se o assaltasse desprevenido, pois os atenienses não duvidavam de nada, nem tinham guarda segura. Ainda mais, com toda a certeza, para os senhores lacedemônios não haveria nada tão caro nem tão agradável como o de tomarem a cidade de Atenas em seu poder, e os tebanos, que lhe queriam mal de morte porque os haviam traído e abandonado quando precisavam, não os socorreriam de maneira alguma. Esfódria, movido por essas insinuações, tomou consigo os guerreiros que pôde arranjar e, partindo uma noite, entrou no país da Ática, onde penetrou até a cidade de Eleusina, mas quando ali chegou, sua gente ficou com medo e não quis mais passar adiante. Assim,’ sendo descobertos, foram constrangidos a voltar a Téspía, tendo provocado aos lacedemônios uma guerra que não lhes foi de pequena conseqüência nem fácil de desenrolar, pois depois disto os atenienses procuraram de rijo a aliança dos tebanos, socorrendo-os mui afetuosamente e mais ainda, restabelecendo a marinha foram daqui e dali concitando e conseguindo como aliados aqueles que desejavam rebelar-se contra os lacedemônios. Enquanto isso, os tebanos uniam-se constantemente nos pequenos encontros dentro do país da Beócia aos lacedemônios. É verdade, que não eram grandes batalhas, mas não deixava de ser bom aprendizado da guerra e um exercício que lhes elevava o coração cada vez mais e tornava suas pessoas mais fortes, de maneira que com as tais emboscadas tornaram-se mais valentes, mais aguerridos e melhor dados às armas do que não eram antes.

XXVIII. Encontraram escrito, certa vez, que Antãlcidas, Espartano, dissera um dia ao rei Agesilau, que voltava da Beócia todo ferido: — "Certamente recebeste dos tebanos o salário que merecias, por lhes haver ensinado, apesar deles, a fazer a guerra e a combater". Todavia, a verdade é que Agesilau não foi o chefe que lhes ensinou a fazer a guerra, mas foram os bons e sábios capitães que souberam em tempo e lugar, colocar na frente seus inimigos, como bons galgos largados de propósito, para os reter com segurança depois de os haver açu-lado, fazendo-os saborear um pouco à vontade o fruto da vitória, entre os quais estava Pelópidas, quem mais mereceu honra e glória, porque depois da primeira vez que lhe deram o encargo dos guerreiros, não deixou nunca de ser eleito continuamente, cada ano, como capitão da tropa sagrada ou governador da Beócia, enquanto viveu, de sorte que foi êle quem fêz a maior parte de tudo o que se deu nesta guerra.

XXIX. Ora, houve diversas derrotas e rupturas dos lacedemônios junto das cidades de Platéia e de Téspia, onde Febidas mesmo, aquele que havia assaltado o castelo de Cadméia, foi morto entre outros. Também foi derrotada (8) uma outra grande tropa perto da cidade de Tanagra, onde aquele que era governador, Pantoidas, foi morto, mas todos esses encontros assim como serviram bem para assegurar e garantir os vencedores e levar-lhes o coração, também não destruíram completamente os vencidos, pois não houve batalha em linha com força inteira, mas foram apenas guerrilhas emboscadas, onde ora fugiam, ora expulsavam e eram atacados ou derrotados. Mas a batalha de Tegire, que foi como um ensaio da jornada de Leuctres, trouxe a Pelópidas grande reputação, porque não houve nenhum companheiro que quisesse disputá-la nem que com ele partilhasse a glória da vitória, nem deixou aos inimigos nenhuma desculpa pela qual pudessem cobrir sua derrota, pois espreitava sempre a ocasião como poderia assaltar a cidade de Orcomene, a qual havia tomado o partido dos lacedemônios, e havia recebido duas insígnias (9) da infantaria para guardá-la. E um dia, sendo avisados de que aquela guarnição havia feito uma incursão ao país da Lo-crida, esperando encontrar a cidade de Orcomene vazia, foi Pelópidas atacá-la com a tropa sagrada e alguns cavaleiros, mas assim que chegou perto da cidade, soube que vinha de Esparta uma guarnição em lugar daquela que havia partido e por isso voltou atrás pela cidade de Tegire, porque não quis retornar pelo outro caminho que volteava ao pé da montanha, por causa da planície, que situada no meio, estava inundada com as águas do rio Melas, o qual desde o local onde nasce, espalha-se formando alagadiços, de sorte que é impossível atravessá-lo (10).

(8) Pelópidas.
(9) Ê o que chama mais abaixo companhias. Veja cap. 31.

XXX. Um pouco abaixo dessas baixadas alagadas há um templo de Apolo denominado Tegirião, onde haviam embebedado antigamente um oráculo, que hoje está abandonado e não floresceu longamente, mas somente até o tempo da guerra dos medos, tendo então como superintendente Equecrates. E querem alguns dizer que é o lugar mesmo onde Apolo nasceu, porque denominam a montanha vizinha De los, ao pé da qual terminam as enchentes do rio Melas e atrás do templo, ensurdecedoras, há duas fontes que jorram a água em grande quantidade, boa e fresca que é uma maravilha, das quais, uma denomina-se ainda em nossos dias, Palma e a outra, Oliva. E dizem mais que não foi entre duas árvores, mas entre dois riachos que a deusa Latona deu à luz, pois (11) mesmo a montanha de Ptoum está ali perto, da qual saiu subitamente o javali que a amedrontou e, coisa semelhante contam da serpente Piton e do gigante Titio, o que confirma e prova que é propriamente lá o lugar do nascimento de Apolo. Deixou diversos outros indícios que se referem a isto, porque não consideramos em nosso país que Apolo seja do número daqueles que per transmutação foram feitos homens mortais, como Hércules e Baco que, pela excelência de sua virtude, despojaram-se do que havia de mortal e de passivo neles, mas acreditamos ser daqueles que eternamente foram sem princípio de geração, se devemos ter fé no que cs mais sábios .e cs mais antigos deixaram por escrito no tocante a coisas tão grandes e tão santas.

(10) Grego: de o atravessar.
(11) Leia: -pois Ptoum está ali perto" O grego não se refere em nada que fosse uma montanha.

XXXI. Os tebanes, então, tendo voltado de Orcomene e os lacedemônios do cutro lado, voltando igualmente da Locrida ao mesmo tempo, encontraram-se uns diante dos outros perto da cidade de Tegire. E, tão logo descobriram cs lacedemônios passando o estreito, houve alguém da tropa dos te-banos que depressa acercou-se de Pelópidas e lhe disse: — "Caímos entre as mãos dos lacedemônios". "Quem sabe, respondeu-lhe subitamente, se não foram eles entre as nessas?" E dizendo isto, ordenou aos cavaleiros que se encontravam na retaguarda de toda a tropa que passassem à frente, como para começar a carregar, enquanto êle formava um pequeno batalhão bem unido com a infantaria de que dispunha e que não eram senão trezentos soldados, certo que ende desse com este esquadrão, forçaria e fenderia os inimigos que estavam em maior número, pois havia duas companhias de lacedemônios e cada companhia, como escreve Eforo, era de quinhentos homens, e segundo Calístenes, de setecentos, havendo ainda outros que referem novecentos, entre os quais Políbio. Marcharam os capitães lacedemônios Teopompo e Gorgoleão, de grande bravura, contra os tebanos e o primeiro encontro começou por acaso, nos lugares onde estavam os chefes tanto de uma parte como de outra, com um furor e uma impetuosidade tão grande, que os primeiros que morreram foram os dois capitães lacedemônios, que juntos se arremessaram sobre Pelópidas. Depois deles, aqueles que estavam à volta de suas pessoas e ficaram também bastante feridos ou mortos sobre o campo. O resto do exército ficou tão assustado que se partiu em dois e rompendo-se daqui e dali, pelos flancos, deu passagem aos tebanos para poder atirar além se quisessem, mas quando viram que Pelópidas não se divertia em passar pela abertura feita e, conduzia sua gente contra os que estavam ainda em batalha e matando os que lhe faziam frente, então puseram-se a fugir por todos os caminhos. Todavia, os tebanos não os expulsaram para muito longe, porque temiam os orcomênios, que não estavam longe dali, como também a nova guarnição que antes havia chegado da Lacedemônia. Isso foi a causa de se contentarem apenas em haver rompido aquela força e, com indignação deles, haver passado entre seu exército, mal conduzido e derrotado.

XXXII. Depois de haver levantado troféus e despojado os mortos, voltaram para suas casas bem alegres, tendo os corações elevados, porque em tantas guerras que os lacedemônios sustentaram no passado, tanto contra os gregos como contra os bárbaros, não há memória que tivessem sido derrotados por um número tão diminuto de inimigos nem por um número igual em batalha de linha. Eles, que eram tão corajosos (12) e tão terríveis, que pessoa alguma ousava alcançar, pois só sua reputação espantava de tal forma os adversários que deviam combater contra eles, que não pensavam poder, com igual força poder fazer tanto quanto eles. Mas esta batalha deu o primeiro conhecimento a eles e aos outros gregos, que não era só o rio Eurotas e nem o lugar situado entre os riachos de Cnacion e de Babice (13) que possui homens belicosos e valentes e também ensinando aos jovens a ter vergonha das coisas desonestas, temendo mais a censura e a desonra do que o perigo. São estes, sempre, os mais temíveis e os mais terríveis inimigos.

XXXIII. Ora, quanto à tropa sagrada da qual já fizemos menção pouco antes, dizem que foi um chamado Górgidas, o primeiro a comandá-la e compunha-se de trezentos homens escolhidos, assalariados e mantidos às expensas do erário público e que habitavam no castelo de Cadméia, chamado ordinanamente a "tropa da cidade", porque então denominavam do mesmo jeito esses bairros da Grécia, come também os castelos e fortalezas dos grandes lugares eram chamados de cidades. Os outros querem dizer que era uma companhia de infantaria composta de homens enamorados uns dos outros e, a esse propósito, contam um dito notável de Pamenes, o qual, brincando, disse que Nestor nada entendia do comando, contando que na Ilíada de Homero êle aconselha aos gregos que se alinhem em batalha por nação e por linhagem,

"A (14) fim que mais tenham afeição
Em socorrer cada um sua nação".

Era necessário, dizia êle, colocar mais cedo um amante junto daquele que ama, porque os homens ordinariamente, ocupam-se bem pouco daqueles que são de sua nação nem de sua linhagem em um perigo, mas um batalhão que seria composto de homens amorosos uns dos outros, não poderia jamais romper-se nem forçar, porque os amantes, pela afeição veemente que têm aos seus amados, não os abandonariam nunca e os amados, tendo vergonha de fazer alguma coisa covarde ou desonesta diante de seus amantes, manter-se-iam uns por amor dos outros, até o fim.

(12) Orgulhosos. 
(13) Babice não é um riacho, mas uma ponte que se achava sobre o Eurotas, como vimos na Vida de Licurgo, cap. 9. A cidade de Esparta estava situada entre esta ponte e o riozinho de Cnacion.

XXXIV. O.que não está fora de propósito, se é verdade que os amarosos respeitam seus amores, mesmo quando estão ausentes, assim podem conhecer pelo exemplo, como daquele que, estando caído por terra, assim que seu inimigo levantou a espada para matá-lo, pediu-lhe que lhe desse o golpe de morte pela frente, com medo que seu amado vendo seu corpo morto, ferido nas costas, viesse a se envergonhar. Assim, dizem que Iolao sendo amado por Hércules, socorreu-o e acompanhou-o em todos os seus combates e trabalhos, na ocasião em que Aristóteles escreve que até seu tempo os amantes davam fé e juravam lealdade um ao outro sobre a sepultura de Iolao. Pelo que parece-me verossímil dizer, que esta tropa tenha sido primeiramente denominada a tropa sagrada, pela mesma razão que Platão chama um amante de amigo divino ou inspirado dos deuses. E, pelo que está escrito, jamais foi rompida nem desfeita até a batalha de Queronéia, depois da qual Filipe vendo a decomposição dos mortos, parou no lugar onde estavam os quatrocentos (15) homens desta companhia deitados por terra, apertados uns contra os outros (16), todos perfurados por grandes golpes de lança no estômago, do que assombrou-se enormemente vendo que era a tropa dos amantes e começou a chorar de piedade, dizendo: — "Que mal pode acontecer àqueles que julgam que tal gente faça alguma coisa de desonesto". Em suma (17), o inconveniente de Laio, que foi morto por seu próprio filho Édipo, não foi a causa primitiva deste costume que os tebanos tinham de serem amorosos uns com os outros, mas foram esses que primeiramente estabeleceram suas leis, os quais vendo que era uma nação corajosa e violenta por natureza, quiseram amortecer e adocicar um pouco a sua natureza, desde a infância e com esta intenção misturaram entre seus atos, o prazer e os deveres e, o tocar flauta, ordinariamente, colocava-os em honra e em reputação. Igualmente também entre as diversões da juventude nos exercícios corporais, introduziram o uso do namoro, para temperar e adocicar os costumes e o natural de seus jovens. E por isto, foi atribuído aos tebanos, com bom julgamento e seguindo este propósito, como tutora e patrona de sua cidade, a deusa Harmonia, a qual dizem ter sido gerada de Marte e de Vénus; pois isto dá a entender que, onde a força e a valentia militar estão unidas e conjuntas com a graça da aparência e da persuasão, todas as coisas são reduzidas por esta união, a um belo, esplêndido e perfeito governo.

(14) Ilíada, liv. 21, v. 363.
(15) Grego, trezentos. Veja cap. 33.
(16) Veja as Observações sobre o cap. 34.

XXXV. Voltando ao caso da tropa sagrada dos tebanos, Górgidas, separando as primeiras filas, estendeu-as ao longo de toda a frente da batalha, não quis tomar conhecimento do quanto elas valiam separadamente e por isso não as colocou num só corpo, de sorte que se pode ver o efeito que procedia de toda a companhia reunida, levando em conta que fora dividida e misturada entre muitas outras que valiam menos. Mas Pelópidas, que havia visto claramente, como valiam juntos esses soldados, porque haviam combatido à sua volta em Tegire, não quis, daí em diante, dividi-los nem separá-los uns dos outros, mas serviu-se deles como de um corpo inteiro com todos seus membros, com o qual começou a fazer carga em suas batalhas de maior sucesso, pois assim como vemos nos jogos das corridas de carros, onde os cavalos, atrelados diversos juntos, numa só frente, correm mais firme e mais fortemente do que quando estão desligados e aguilhoados sozinhos, não porque se atiram diversos juntos e aspiram melhor o ar, mas porque aquele esforço e desejo que têm uns contra os outros sobre qual correrá mais depressa e qual passará seu companheiro, esquenta-lhes a coragem; assim apreciava que os homens valentes, distribuindo uns aos outros um zelo e uma inveja de bem fazer, teriam mais coragem e fariam maior esforço quando tivessem que combater juntos à vista uns dos outros.

(17) Leia: «a aventura de Laio não foi a causa primitiva», etc. Veja a segunda Observação sobre o mesmo capítulo.

XXXVI. Mas desde que os lacedemônios celebraram a paz e acordo com todos os outros gregos, declararam guerra só aos tebanos, indo em seu encalço o rei Cleômbroto com um exército de dez mil soldados da infantaria e mil da cavalaria. Os tebanos não estavam em igual perigo como tinham estado, antes de perder somente a sua liberdade, mas os lace-demônios os ameaçavam públicamente, declarando que os destruiriam e exterminariam por completo, de maneira que todo o país da Beócia estava com muito medo, como nunca tinha estado. Um dia, como Peló-pidas saía de sua casa para ir para a guerra, sua mulher, que o acompanhava até fora da porta, disse-lhe chorando que lhe pedia para ter cuidado em salvar sua pessoa, respondeu-lhe: —- "É aos soldados rasos, minha amiga, a quem se deve lembrar isto, mas aos capitães, deve-se trazer-lhes à memória que tenham olhos para salvar a vida dos outros". Chegando ao campo e encontrando os capitães gerais e chefes do exército em divergência de opiniões foi o primeiro que concordou com a de Epaminondas, que era de aviso que deviam dar batalha aos inimigos.

XXXVII. Pelópidas não era na ocasião nem governador da Beócia, nem capitão-geral, mas somente comandante da tropa sagrada. Todavia, confiavam nele, dando-lhe crédito e autoridade no conselho dos negócios, pois era um personagem que havia dado muitas provas do amor que devotava a seu país. Assim, tendo resolvido no conselho que dariam a batalha aos inimigos, encontraram-se uns na frente dos outros na planície de Leutres (18), onde, à noite, dormindo, Pelópidas teve uma visão que o perturbou bastante. Há, naquele campo, as sepulturas das filhas de um Cedaso, que denominam, por causa do lugar, as Leutridas, porque aí foram enterradas depois de terem sido violentadas e forcadas pelas hostes espartanas que passavam. Este ato sendo infeliz e malvado, no entanto, não pôde ter reparação nem vingança na Lacedemônia e o pai, depois de haver amaldiçoado os lacedemônios com as mais horríveis e execráveis maldições e pragas que podia conhecer, matou-se a si mesmo sobre os túmulos de suas filhas. Tinham os lacedemônios em diversos oráculos e diversas profecias e presságios dos deuses que os admoestavam, para que ficassem em guarda contra o furor Leutriquio, mas o povo comum não compreendia o que queria significar esse aviso e assim abusavam no equívoco do nome, porque havia no país da Lacônia, sobre a borda do mar, uma cidadezinha chamada Leutrum e igualmente também na Arcádia, perto da cidade de Megalípolis havia uma outra com o mesmo nome. Ora, este acidente surgiu muito tempo antes da batalha de Leutres mas, Peló-pidas, dormindo na sua tenda, teve uma visão em que julgou ver as filhas de Cedaso, lacrimejantes à volta de suas sepulturas, amaldiçoando os lacedemônios e viu também seu pai, que lhe ordenava em sacrificar a suas filhas, uma virgem ruiva, se quisessem obter a vitória. Essa ordem à primeira vista, pareceu-lhe cruel e inócua, porque logo que se levantou foi comunicar aos adivinhos e aos chefes do exército, o que uns disseram que não era coisa que deviam omitir ou desleixar, citando exemplos de casos semelhantes, como o de Meneceo, filho de Creon, antigamente, e o de Maçaria, filha de Hércules: e, de mais recente memória, a do sábio Ferecides que os lacedemônios mataram e do qual seus reis guardam ainda a pele, por ordem de um oráculo e Leônidas que seguindo uma divina profecia, imolou-se, como maneira de dizer, a si mesmo para a salvação da Grécia e ainda mais, os rapazes que Temístocles, antes da jornada de Salamina sacrificou à Baco, denominado Omestes, isto é, comendo carne crua. Todos aqueles sacrifícios foram aprovados e aceitos pelos deuses, como testemunham as vitórias que se seguiram.

(18) Deu-se esta batalha no segundo ano da centésima-segunda Olimpíada, 371 anos antes de J. C.

XXXVIII. Ao contrário, o rei Agesilau, partindo dos mesmos lugares, de onde antigamente partira o rei Agamenon, no tempo da guerra de Tróia e marchando contra os mesmos inimigos, viu igualmente, uma noite, dormindo, a deusa Diana na cidade de Aulide, que pediu o sacrifício e oblação de sua filha. Êle não quis obedecer por ter o coração muito terno e assim foi constrangido a desistir da viagem, antes de haver executado seu empreendimento, sem nenhuma glória. Agora, os outros em oposição, diziam que não precisava fazer coisa alguma, porque um tão cruel, tão abominável e tão bárbaro sacrifício não podia ser agradável a nenhum dos deuses nem a nenhuma entidade melhor e mais poderosa que a nossa, considerando que não são nem Tifões nem gigantes os que têm o domínio do mundo, mas o todo poderoso, que é o pai dos deuses e dos homens. E a crer que haja deuses e semideuses que se deleitam com o assassínio e efusão de sangue humano, é uma loucura, e mesmo que assim fosse, não deveria ser levado em conta, pois não teriam poder algum, porque somente uma alma covarde e má, poderia alimentar tão infelizes e estranhos apetites.

XXXIX. Estavam assim, os principais do exército dos tebanos neste debate de opiniões, encon-trando-se Pelópidas, devido a sua irresolução, em maior dúvida do que nunca, quando uma potranca, que havia fugido e corrido através do campo, veio postar-se direito na frente deles. Uns não observaram que tinha o pêlo e as crinas vermelhas muito reluzentes e que era viva e alegre ao soltar seu claro e arrogante relinchar, mas o adivinho Teócrito que era da companhia, tendo incontinenti compreendido o que se dava, exclamou subitamente muito alto: — "Ó gentil Pelópidas, eis a hóstia que pediste, não procures mais outra virgem para imolar, mas recebe e emprega esta que deus mesmo te envia". Ditas essas palavras, pegaram logo a potranca, levando-a sobre a sepultura das filhas de Cedaso, coroaram-na com festões e chapéus de flores, como fazem nos sacrifícios e, depois de haverem feito suas orações e invocar aos deuses, sacrificaram-na com grande alegria e foram espalhar por todo o acampamento a notícia da visão que Pelópidas havia tido à noite, dormindo, e o sacrifício que haviam feito seguindo o seu aviso.

XL. Na espera, quando chegou o dia da batalha, Epaminondas, que era o capitão geral, estendeu de revés todas suas tropas sobre o lado esquerdo, a fim de que a ponta direita dos inimigos, onde estavam os nativos espartanos, se agastasse ainda mais dos outros gregos seus aliados, que ficaram na outra extremidade, podendo assim atacar com todas as suas forças juntas, a Cleômbroto, seu rei, que estava num canto onde podia ser aniquilado. Os inimigos compreendendo porque êle assim procedia, começaram, a mudar suas ordens, querendo alargar e estender sua ponta direita para envolver Epaminondas com o grande número de gente que aí se achava. Mas Pelópidas avisou-os às pressas e correndo com firmeza com o esquadrão de seus trezentos homens, foi fazer carga a Cleômbroto antes que pudesse abrir e alargar a ponta direita de sua tropa, isto, num instante, de sorte que encontrou os lacedemônios ainda não colocados em suas linhas, e chocou-se com eles nessa deserdem, quando estavam ainda misturados uns aos outros. Os lacedemônios, que sempre foram os soberanos e senhores de tudo o que pertence à arte e disciplina militar, agora não se habituavam e não se exercitavam em nada mais do que se atrapalhar e confundir-se, quando mudava a ordem de suas filas, pois queriam que sua gente fosse cabeça e

Flanco em todos os sentidos, ao mesmo tempo, segundo o negócio e a necessidade que se apresentassem e que se colocassem e combatessem em todos os lugares igualmente. Assim Epaminondas assaltou-os com tôda a força de sua gente unida, sem se deter com os outros. Igualmente Pelópidas, com uma rapidez e coragem incríveis, apresentando-se de súbito com as armas à sua frente, assustaram de tal forma o inimigo que os fizeram esquecer toda sua arte de esgrimir e perder sua costumeira coragem, pois fugiram por vales e caminhos, sendo feita a seguir uma fogueira dos nativos espartanos, muito maior do que jamais havia sido feita até aquela jornada, em qualquer batalha.

XLI. Pelópidas, que não era então nem governador da Beócia, nem capitão-geral do exército, mas somente chefe da tropa sagrada, conquistou, no entanto, tanta honra e glória nesta vitória, como Epaminondas, que era governador da Beócia e capitão-geral. É verdade que desde que foram os dois juntos governadores da Beócia, quando entraram no Peloponeso, onde dirigiram a rebelião contra os lacedemônios, trazendo para seu lado a maior parte das cidades e dos povos, como os helenos, os argenos, toda a Arcádia e a maior parte da Lacônia mesmo, quando chegou quase no coração do inverno, nos dias mais curtos e no fim do último mês do ano, do qual não restava mais senão poucos dias e seria necessário logo na entrada do mês seguinte deixassem seus cargos para que outros entrassem, sob pena de perder a vida se recusassem passar seu cargo e autoridade aos novos oficiais. Nessa ocasião, seus outros companheiros na situação de governadores da Beócia, tanto pelo receio de incorrer na pena da lei, como também para fugir ao trabalho de ficar acampado no mais áspero rigor do inverno, instavam e solicitavam para reconduzir o exército para casa, mas Pelópidas foi o primeiro que concordou com a opinião de Epaminondas, chamando a si também os outros tebanos para, sob suas ordens, assaltar a própria cidade de Esparta. Passaram despercebidos o rio Eurotas e tomaram diversas cidadezinhas aos lacedemônios, pilharam e estragaram todo o país até o mar, conduzindo sob suas bandeiras um exército de setenta mil combatentes, todos gregos, do qual os tebanos não faziam nem a décima-segunda parte, mas a glória e grande reputação desses dois personagens fazia que sem outra resolução do conselho ou ordem pública, os outros aliados e confederados seguissem, sem contradizer uma palavra e marchassem voluntariamente sob suas ordens.

XLII. A primeira e soberana lei da natureza, a meu ver, é que aquele que por si mesmo não se possa guardar e defender, submeta-se ao que pode e tem meios para o fazer, nem mais nem menos do que sobre o mar, aqueles que estão dentro de um navio, mesmo com bom tempo, e o mar calmo, ou enquanto estão ancorados em alguma boa enseada, conduzem-se altivos e audaciosos para com os pilotos, todavia, assim que a tormenta se levanta, vendo-se em perigo, lançam os olhos sobre eles e não depositam esperança de salvação senão neles. Também em caso idêntico os helenos e argenos, ainda que nas assembléias do conselho brigassem e discutissem contra os tebanos pela superioridade e a honra na direção da tropa, todavia quando tinham que entrar na batalha, conhecendo o perigo que havia, colocavam-se e submetiam-se voluntariamente às ordens de seus capitães.

XLIII.Nessa viagem, juntaram-se numa só aliança todas as cidades da província da Arcádia e tiraram dos lacedemônios toda a região de Messênia, da qual se aproveitavam sossegadamente, chamaram os antigos habitantes nativos, aos quais a devolveram e repovoaram a cidade de Itome. Depois, voltando a seu país pela cidade de Cencréia, derrotaram os atenienses que foram inquietá-los dentro do estreito, na entrada do Peloponeso, para vigiá-los e evitar a passagem. Se era a virtude desses dois personagens amada e honrada de todo o mundo por tantos belos e bons feitos, a sua prosperidade era também grandemente admirada, mas a medida que sua glória crescia, a inveja dos de seu país e de seus concidadãos aumentava também, tramando à sua volta, um aran-zel que não era bonito nem honesto, nem conveniente aos serviços que acabavam de praticar, pois todos os dois, a sua chegada, foram chamados perante a justiça e acusados de crime capital, porque havia em Tebas uma lei que ordenava expressamente que aqueles que eram governadores da Beócia, transmitissem sem demora as atribuições aos que fossem, novamente eleitos na entrada do primeiro mês do ano que denominam na Beócia, boucation, e eles haviam retido seus cargos por mais tempo do que lhes estava fixado, quatro meses todos inteiros, durante os quais haviam executado tudo o que dissemos, tanto na província de Messênia e de Arcádia, como na Lacônia.

XLIV. O primeiro a quem processaram foi Pelópidas, que por isso esteve em perigo muito maior. Todavia, no final, foram todos os dois absolvidos. Quanto a Epaminondas, suportou resignadamente a calúnia e o ensaio das maledicências de seus patrícios que procuraram arruiná-los, considerando que a paciência daqueles que se intrometem nos negócios de um governo, tem uma grande parte da força e da magnitude. Pelópidas, sendo de natureza mais colérica, sendo mais impulsivo e estando irritado por alguns de seus amigos, aproveitou tal ocasião para se vingar. Menéclides, o orador, era um daqueles que haviam ficado na casa de Caron com Pelópidas e Melon, mas não o honraram tanto como aos outros, pelo que, estando despeitado e sendo homem muito eloqüente, viciado e de natureza maligna e má, abusou de sua eloqüência para caluniar e, falsamente, depôs e acusou esses que valiam mais do que êle; não se contentando com a primeira acusação, tanto fêz em seus meneios, que num ano conseguiu depor Epaminondas do ofício de governador da Beócia, perseguindo-o e contrariando-o longamente em tudo que experimentava fazer na direção da coisa pública.

XLV. Mas a Pelópidas, não conseguiu colocá-lo no desagrado do povo, por isso procurou lançá-lo em questão com Caron, pois o conforto comum dos invejosos, quando não podem ser admirados, como pessoas de bem como aqueles a quem invejam, procuram demonstrar que não são em nada melhores do que quaisquer outros que se lhe ponham na frente. Não fazia outra coisa senão elogiar bem alto, ordinariamente, em todas as suas arengas perante o povo, os feitos e gestos de Caron e enaltecer suas vitórias, mesmo aquela que os tebanos ganharam na jornada de Leutres num encontro da cavalaria, junto da cidade de Platéia, sob seu comando, da qual (19) se procurou deixar uma lembrança. An-drócides, pintor ciziceno, combinou com os da cidade pintar qualquer outra batalha, fazendo este serviço na cidade mesmo de Tebas, mas assim que havia começado, surgiu a rebelião dos tebanos contra os lacedemônios e, conseqüentemente, a guerra tendo o pintor se retirado de Tebas deixando sua obra quase acabada e perfeita. Os tebanos esconderam o quadro e esse Meneclides colocou-o na frente do povo que o dependurou em algum templo ou lugar público, com uma inscrição que diz que era a vitória de Caron, procurando assim ofuscar e apagar a glória de Pelópidas e de Epaminondas. Era uma vã e louca ambição querer confrontar tantos combates e tantas vitórias a um só encontro de Caron, no qual morreu Gerandas, um dos menos famosos fidalgos de Esparta e outros quarenta com êle, e mais nada.

(19) Meneclides.

XLVI. Pelópidas acusou esse decreto que Meneclides propunha, que estava diretamente contra as leis de Tebas, as quais defendiam expressamente que não honrassem nenhum particular pelo título de uma vitória pública, porque deviam ser atribuídas e glorificadas a comunidade e o povo. É verdade que por todas as arengas que proferiram neste processo, Pelópidas louvou e exaltou sempre Caron grandemente mas provou que Meneclides era um invejoso maligno e um homem mau e malvado, perguntando constantemente aos tebanos se não haviam feito nada de belo, nem de bom e, finalmente, fazendo condenar Meneclides a multa de uma boa soma de dinheiro, a qual não podendo pagar porque era muito grande, tentou depois remover e mudar inteiramente o estado e o governo da coisa pública. Procurei explicar bem isso de maneira um tanto longa, porque parece-me que de outra forma daria a conhecer quais eram os costumes e a natureza de Pelópidas.

XLVII. De resto, por volta desse tempo, Alexandre, o tirano de Feres, fazia abertamente a guerra a diversos povos da Tessália e procurava os meios pelos quais pudesse escravizá-los todos universalmente, a si. Por esta razão as cidades francas enviaram seus embaixadores a Tebas, a requerer que lhes enviasse um capitão com um exército para socorrê-los. Pelópidas, vendo que Epaminondas estava ocupado em governar os negócios do Peloponeso, apresentou-se a si mesmo, entregando-se aos da Tessália, não querendo que sua força e conhecimento nos misteres da guerra, ficassem ociosos ou inúteis e sabendo que o lugar onde estava Epaminondas não precisava de outro capitão. Tendo então chegado com um exército na Tessália, a cidade de Larisse entregou-se incontinenti entre suas mãos, onde o tirano Alexandre veio encontrá-lo e pedir acordo entre êle e os tessalianos, o que experimentou fazer, procurando torná-lo em vez de tirano, amável, justo e legítimo governador da Tessália; mas vendo que quando lhe faziam algumas observações era intratável e feroz, não querendo de forma alguma ficar em casa, e, ainda mais, se lamentavam das grandes crueldades que praticava, e acusavam-no por ser homem dissoluto e desordenado em todos os seus apetites e extremamente avarento, começava então a falar rudemente e a enfurecer-se, desistiu de sua intenção,

XLVIII. Nessa ocasião o tirano ocultou-se e fugiu com seus satélites e soldados de sua guarda. Pelópidas, deixando os tessalianos fora de todo temor e perigo do tirano, estando em boa paz, união e concórdia uns com os outros, foi à Macedónia, onde Ptolomeu (20) guerreava Alexandre, que retinha o reino da Macedónia, tendo todos os dois mandado chamá-lo para conhecer, compor e pacificar suas diferenças e também para ajudar aquele que estaria com a razão e contra aquele que estaria errado. Ao chegar, terminou amigavelmente todas as suas contendas, repôs os exilados por uma parte, e pela outra em suas casas e em seus bens e para segurança daquela decisão, tomou como refém o irmão do rei chamado Filipe e outras trinta crianças das mais nobres casas da Macedónia, os quais levou todos a Tebas, fazendo ver aos gregos quão longe se estendia a reputação das forças dos tebanos e a fama de sua igualdade e justiça. Foi esse Filipe que depois guerreou os gregos para lhes tirar a liberdade, mas agora sendo menino, era criado em Tebas na casa dos Pamenes. Eis porque alguns estimaram que o dito Filipe tenha sido o imitador de Epaminondas e poderia bem ser que, por acaso, tivesse aprendido com êle a ser assim pronto e de execução súbita na guerra, como foi, o que não é senão uma bem pequena parte das virtudes de Epaminondas, mas de sua abstinência, justiça, magnanimidade e clemência que eram as qualidades que o tornavam verdadeiramente grande, Filipe nem por natureza, nem por criação ou estudo tinha conservado.

(20) Ptolomeu, antes de J. C. 369 anos.

XLIX. Depois, tendo os tessalianos enviado outra vez a Tebas suas queixas contra Alexandre, o tirano de Feres, que perturbava e agitava as cidades livres da Tessália, Pelópidas foi mandado como embaixador com Ismênias, sem levar forças de Tebas, não pensando nunca que houvesse guerra, razão pela qual foi obrigado a se servir do povo do país, num caso urgente que se apresentava. Ao mesmo tempo, também foram perturbados os negócios da Macedónia porque Ptolomeu matou o rei e usurpou o reinado. Os servidores e amigos do rei morto chamaram em seu socorro Pelópidas, o qual desejando chegar logo, não levou consigo guerreiros de seu país, mas, reuniu subitamente alguns no lugar mesmo onde estava, com os quais se pôs imediatamente a caminho para ir em busca de Ptolomeu. Quando se aproximaram um do outro, este achou meios de comprar e corromper por dinheiro os soldados que Pelópidas havia trazido, fazendo-os passar para o seu lado, mas não obstante isso, temendo ainda o nome e grande reputação de Pelópidas, foi à sua frente como a uma pessoa muito maior do que êle e usando de todo o carinho, prometeu e jurou que guardaria o reino para os irmãos do rei defunto e que tomaria, por seus amigos e por seus inimigos, aqueles mesmos que os tebanos tivessem. Para garantia daquela promessa, deu como refém seu filho Filóxeno e cinqüenta de seus amigos, os quais Pelópidas enviou todos a Tebas. Mas nessa ocasião sentindo-se gravemente ultrajado peles soldados que lhe haviam feito tal traição e compreendendo que a maior parte de seus bens, suas mulheres e seus filhos estavam na cidade de Farsale, pensou que se pudesse tomá-la, o que seria um bom meio em praticar tal vingança, que queria pelo logro que lhe haviam pregado: reuniu um certo número de tessalianos e partiu, mas apenas havia chegado, o tirano Alexandre apareceu também com seu exército.

L. Pelópidas, julgando que êle vinha para se justificar e confiar-lhe as queixas que os tessalianos apresentavam contra êle, foi ao seu encontro, embora soubesse muito bem que era um mau homem e que facilmente manchava suas mãos com homicídio e sangue, mas confiava que, para a autoridade do domínio de Tebas, pela qual era enviado lícito, também pela dignidade de sua pessoa e pela sua reputação, não ousaria causar-lhe algum contratempo. Todavia o tirano, vendo-o mal acompanhado e sem armas, deteve-o prisioneiro e no mesmo instante apoderou-se da cidade de Farsale. Isto causou grande medo e terror a todos os seus subordinados, os quais pensaram bem como êle havia tido a coragem de praticar tal injustiça e com certeza não perdoaria a mais ninguém e faria o mesmo de todas as coisas e de todas as pessoas que caíssem em suas mãos, como um homem desesperado que está dando tudo por perdido. Quando os moradores de Tebas receberam essa notícia, ficaram sobremaneira ofendidos e prontamente enviaram um exército sob o comando de outros capitães e não de Epaminondas, devido a um descontentamento que estavam tendo com ele.

LI. Ora, nessa ocasião o tirano, tendo levado Pelópidas para Feres, permitiu de início, a quem quisesse, ir vê-lo e falar-lhe, pensando que lhe havia diminuído o ânimo, mas quando compreendeu o contrário, que o prisioneiro mesmo confortava os habitantes de Feres e exortava-os a terem coragem, dizendo-lhes que havia chegado a hora em que o tirano seria castigado por um só golpe de todas as suas maldades e que mandara lhe dizer, a êle mesmo, em pleno rosto, que não havia justificativas para, todos os dias, martirizar e fazer morrer de tormentos seus pobres concidadãos, que não o haviam em nada ofendido e que não fazia nada a êle, Pelópidas, porque sabia bem que jamais escaparia de suas mãos, vingando-se dele; o tirano, admirado com esta grandeza de coragem e esta constância em não temer nada, perguntou por que tinha tanta pressa e tanto desejo em morrer. Tendo ouvido isso Pelópidas respondeu-lhe: — "Isto é para que morras mais cedo, odiado dos deuses e dos homens ainda mais do que és agora".

LII. Depois destas palavras, o tirano não quis mais que pessoa de fora lhe falasse. Mas Teba, que era filha do defunto tirano Jasão e mulher de Alexandre, compreendendo a constância, firmeza de coragem e magnanimidade de Pelópidas, pelo que contavam os que o guardavam, teve vontade de vê-lo e de falar-lhe. Foi um dia visitá-lo, mas como mulher, não compreendeu, à primeira vista, a grandeza de sua coragem e a excelência oculta de seu valor, vendo-o em tal cativeiro, mas conjecturando pelo que via por fora, assim simplesmente vestido, os cabelos e a barba longos, pobremente servido e mal tratado, julgou que havia piedade em seu caso e que não estava em situação de acordo com a glória de seu nome e pôs-se a chorar de compaixão. Pelópidas, que não sabia de quem se tratava, espantou-se a princípio, mas pouco depois, quando lhe disseram quem era, então cumprimentou-a (21) pela honra de Jasão seu pai, do qual quando vivo havia sido outrora familiar e amigo. E ela lhe disse: — "Tenho grande pena de tua pobre mulher, senhor Pelópidas". "Também tenho eu de ti, respondeu-lhe, visto que não sendo prisioneira possas suportar um homem tão mau como Alexandre". Estas palavras tocaram fundo em Teba, a qual suportava muito impacientemente a crueldade, o ultraje e a vilania do tirano seu marido, que além de outras infâmias de sua vida desordenada, abusava carnalmente da mais jovem das irmãs dela, pelo que, voltando constantemente a ver Pelópidas, contava-lhe livremente suas tristezas e as faltas e ultrajes que lhe praticava seu marido. Com essa convivência, ia pouco a pouco se enchendo de coragem, como também aumentavam seu ódio, seu rancor e o desejo de vingar-se.

(21) No grego: «pelo nome de Jasão seu pai>. C.

LIII. Os capitães tebanos enviados para libertar Pelópidas, tendo entrado com seu exército na Tessália, seja por ignorância ou por infelicidade, vergonhosamente voltaram sem nada fazer. Em razão disso, os de Tebas, na sua volta condenaram cada um a pagar a multa de dez mil escudos (22) e enviaram então Epaminondas com um outro exército, a vista do qual toda a Tessália se revolucionou, dada a reputação de um tão grande capitão. Assim, era preciso bem pouco, para empurrar a roda e fazer estrebuchar o tirano em ruína total. Até os seus amigos e capitães ficaram amedrontados e seus súditos prontos a se rebelar, alegres pela esperança que tinham, de ver bem cedo o ditador pagar a pena toda que merecia, pelo golpe de tanta desgraça e perversidade que havia cometido no passado. Todavia, Epaminondas, colocando a libertação e salvação de Pelópidas em primeiro plano, diante da consideração de sua honra e de sua glória e receando que Alexandre quando visse seus negócios em perigo de ruína não voltasse, no seu desespero, como um animal selvagem assustado, de encontro a êle, ia prolongando a guerra, volteando ao redor, sem dar entrada conscientemente, sob pretexto de fazer seus preparativos e transferindo sempre, a fim de preparar e moderar o coração do tirano por um tal contrapeso, nem tão pouco não largou muito a rédea à sua arrogância e desenfreada crendice. Procurou também não irritá-lo contra Pelópidas, que correria o risco da dureza e desumanidade de seu ódio, sabendo muito bem como era homem cruel e que não se preocupava com razão nem com justiça, de maneira alguma, pois costumava mandar enterrar homens vivos e cobrir outros com peles de ursos e de javalis e depois soltava os cães de caça sobre eles, que os rasgavam em pedaços ou então, êle mesmo, como passatempo, matava-os a golpes de dardo ou seta. E nas cidades de Meliboe e Escotuso, estando as duas em paz e amizade com êle, espreitou quando os habitantes estivessem um dia reunidos em conselho da cidade, atacou-os de repente com seus apaniguados e mandou passar todos ao fio da espada, até as crianças, tendo consagrado e coroado com festões e flores *a lança com a qual havia morto Polifrão, seu próprio tio, sacrificando-o como se fosse um deus e chamando-o Ticon, como quem dissesse, feliz em bem assentar. E, uma vez, estando em um teatro onde desempenhavam a tragédia das Troadas de Eurípides, saiu e mandou dizer aos que representavam que não deixassem de trabalhar tão diligentemente como se êle tivesse ficado e que não tinha saído, porque se zangara ou não achara sua representação satisfatória, mas porque tinha vergonha que seus concidadãos o vissem chorar ao ouvir representar as desgraças de Hecuba e de Andrômaco, visto que não havia tido jamais piedade de nenhum de todos aqueles que havia mandado matar. Pois este tirano, apesar de tudo, assustou-se somente com o nome e a reputação de Epaminondas; e, como dizem num provérbio comum:

Abaixou a asa assim como o galo
Que sai fugindo da briga.

Enviou incontinenti mensageiros à sua presença para se desculpar e justificar, mas Epaminondas não quis que por seu intermédio os tebanos, tratassem paz nem aliança com um homem tão mau, mas concedeu uma trégua por trinta dias, retirando de suas mãos Pelópidas e Ismênias, com os quais voltou a Tebas.

(22) Ê um erro de Amyot: No grego: mil dracmas.

LIV, Os tebanos, sendo avisados de que os lacedemônios e os atenienses enviavam embaixadores à presença do grande rei da Pérsia para obter sua aliança, enviaram da sua parte também Pelópidas, no que foram sabiamente aconselhados pela grande glória de seu nome. Passando primeiramente pelos países e províncias que deviam obediência ao rei, onde era tão famoso que não falavam senão dele, dada a fama das batalhas que havia ganho contra os lacedemônios e que havia penetrado adiante e atravessado as regiões da Ásia; e depois que a primeira notícia da jornada de Leutres foi trazida, juntando proezas sobre proezas, sua glória cresceu de tal modo que se expandiu por tudo, até as mais altas e mais distantes províncias do Oriente. Assim, quando chegou à Corte da Pérsia, os senhores, príncipes e capitães que o viram, tomaram-no com grande admiração dizendo: — "Eis aquele que tirou aos lacedemônios o domínio da terra e do mar e que alinhou até do outro lado do rio Eurotas e da montanha Taigeto (23) os espartanos, os quais há pouco tempo guerreavam o grande rei da Pérsia, scb o comando de seu rei Agesilau, até o meio da Ásia, para os reinados de Susa e de Ecbátana".

LV. Estava o rei Artaxerxes muito contente mesmo com a sua vinda, elogiando-o mais altamente e colocando-o ainda em maior estima e muito maior reputação do que nunca, pelas honras que lhe tributava desejando mesmo que esta glória o acompanhasse sempre e que os personagens mais virtuosos e mais excelentes do mundo deviam fazer-lhe a corte, porque consideravam sua grandeza e sua altivez soberanamente feliz. Além disso, quando o viu à sua frente e ouviu os seus conceitos, achou-os mais graves do que os dos atenienses e mais sinceros do que os dos lacedemônios, amando-o ainda e tomando uma afeição verdadeiramente real para com êle, de tal forma, que sem nada dissimular, honrou-o e favoreceu-o acima de todos os outros embaixadores, os quais bem se aperceberam que se fazia mais caso dele do que de nenhum outro. Como parecesse ao rei dever maior apreço a Antalcidas Lacedemônio, do que a qualquer outro dos gregos, um dia estando à mesa, tirou de sua cabeça o chapéu de flores que trazia e molhando-o êle mesmo em um licor de perfume, enviou-lho. É bem verdade que não fêz a Pelópidas demonstrações de tão grande intimidade, mas enviou-lhe presentes os mais belos e mais ricos que soube enviar e concedeu-lhe inteiramente todos os seus pedidos que foram: "Que todos os povos gregos ficassem livres e libertados, que a cidade e região de Messênia fossem repovoadas, que os tebanos fossem nomeados os velhos amigos hereditários dos reis da Pérsia".

(23) Taigeto, montanha vizinha de Esparta.

LVI. Obtendo esta resposta, Pelópidas voltou sem aceitar receber coisa alguma senão os presentes que lhe haviam sido ofertados da parte do rei (24), o que foi causa a que os outros embaixadores gregos ficassem malvistos em suas cidades. Entre os outros, os atenienses processaram o seu, que se chamava Timágoras, que foi condenado a morte e executado. E assim recebeu muitos presentes do rei, justamente, pois não aceitou somente de ouro e de prata tanto quanto queriam dar, mas também um leito muito rico e criados de quarto persas, para o servirem como se os gregos não o soubessem fazer; ainda mais, recebeu também oitenta vacas leiteiras e vaqueiros para as guiar, o que lhe foi útil, pois teve necessidade do leite de vaca na cura de uma enfermidade que lhe sobreveio. Por esta razão foi conduzido desde a corte persa até a costa do mar Mediterrâneo numa liteira a braços, sendo dado, da parte do rei, àqueles que o levaram, dois mil e quatrocentos escudos como seu salário. Todavia, parece que não foram as dádivas que recebeu, que mais irritaram os atenienses, levando em conta que Epícrates o carregador, não somente confessou em público haver aceito presentes do rei da Pérsia, mas disse ainda mais que queria propor e levar avante um decreto que em vez de elegerem todos os anos, nove oficiais (25) que mantinham o governo da cidade, elegessem nove embaixadores dos mais pobres e dos mais adoentados que houvesse entre a plebe, para os enviar como embaixadores à presença do rei, a fim que voltassem ricos com presentes que lhes daria. O povo não fêz senão rir, mas ficaram invejosos porque os tebanos haviam obtido tudo o que haviam pedido, não levando em consideração quanto a estima e reputação de Peló-pidas havia sido de mais eficácia e força do que todos os falatórios que os outros fizeram, mesmo em face de um príncipe que procurava sempre considerar esses gregos que eram os mais poderosos nas armas. Esta embaixada, portanto, aumentou grandemente o amor e benevolência que todo o mundo tinha a Peló-pidas, por causa da restauração e repovoamento de Messênia e a libertação de todos os outros gregos.

(24) Juntai segundo o grego: «que o que podia ser visto como um penhor de favor e de benevolência–. C.
(25) Arcontes. C.

LVII. Mas Alexandre, o tirano de Feres, tendo voltado ao seu natural ríspido, destruiu diversas cidades da Tessália, pôs guarnições por todo o país dos Ftiotes, aqueanos e magnesianos. Tão logo as cidades souberam da volta de Pelópidas, despacharam incontinenti seus embaixadores a Tebas para solicitar que lhes enviasse um exército, e Pelópidas especialmente como seu capitão para as libertar da escravidão do tirano. Os tebanos acederam bem voluntariamente e todas as coisas ficaram prontas em pouco tempo. Mas no momento em que Pelópidas quis partir, repentinamente, o sol eclipsou-se (26) e em pleno dia ficou toda a cidade de Tebas obscurecida nas trevas, pelo que Pelópidas vendo todo o mundo assustado por este sinal e presságio celeste, não quis obrigar seus concidadãos a partir com este temor, nem com tanta esperança colocar ao acaso sete mil burgueses tebanos que estavam arrolados para irem nesta viagem, mas deu-se a si mesmo aos tessalianos com trezentos cavaleiros estrangeiros que o seguiram de boa vontade, na companhia dos quais se pôs a caminho contra a proibição dos adivinhos e contra a vontade de seus concidadãos mesmos, aos quais parecia que este sinal do céu ameaçava algum grande personagem, como êle. Êle, porém, estava mais ardentemente desejoso de ir ao encontro de Alexandre, pela vontade que tinha de se vingar da injúria que lhe havia feito. Ainda esperava êle muito mais, que encontraria sua casa em condições favoráveis à derrota do inimigo, pela conversa que havia tido com a mulher Teba. Todavia, a beleza do ato em si era o que mais o incitava e aguilhoava e por isso esforçava-se para fazer ver aos gregos ao mesmo tempo que aos lacedemônios, que enviavam a Dionísio, tirano da Sicília, governadores e capitães para o servir e que os atenienses, como mercenários recebiam dinheiro e soldo de Alexandre, o tirano de Feres, em honra do qual haviam levantado dentro de sua cidade uma estátua de cobre como a um benfeitor, que só os tebanos, ao contrário, tomavam as armas para libertar os que estavam oprimidos pelos tiranos e combatiam para exterminar e retirar os usurpadores do domínio violento e iníquo dentre os gregos.

(26) Éste eclipse chegou 364 ou 365 anos antes de J. C.

LVIII. Tendo chegado à cidade de Farsale, logo que reuniu seu exército, pôs-se logo em campo para ir à procura do tirano, o qual vendo que Peló-pidas tinha poucos soldados à sua volta e que êle se encontrava com um número duplicado de gente, foi até o templo de Tétis, onde alguém disse a Pelópidas que Alexandre vinha ao seu encontro com numerosos combatentes e Pelópidas respondeu-lhe rápido: — "Tanto melhor, pois assim venceremos mais gente." Ora, há no centro desta planície outeiros redondos e bastante altos, que chamam comumente as cabeças de cão e trataram uns e outros de alcançá-los mais depressa. Pelópidas, que contava com cavalaria e bons guerreiros, enviou-os na frente para aniquilar os inimigos que pensassem alcançar esses outeiros e, tendo-os aniquilado, puseram-se a persegui-los através da planície. Entretanto, Alexandre com infantaria ali perto, marchou na frente e ocupou os ditos outeiros porque os tessalianos que estavam mais longe chegaram muito tarde. Todavia, chegados, aí ficaram e trataram de escalar pelo lado contrário os declives desses outeiros, que eram altos e retos, mas Alexandre, fazendo carga do alto, com vantagem, matou esses que avançavam primeiro e os outros, que vinham atrás, retiraram-se feridos, sem nada fazer.

LIX. Vendo isso, Pelópidas chamou com urgência seus cavaleiros que estavam expulsando aqueles que haviam aniquilado e ordenou-lhes que fossem ao encontro da infantaria inimiga, enquanto êle mesmo foi, correndo, ajudar os que combatiam para alcançar os penhascos. Tomando um escudo sobre o braço e passando entre os que vinham atrás, fêz tanto que chegou até os primeiros, aos quais sua presença aumentou de tal forma a força e a coragem, que os inimigos pensaram que fossem combatentes novos que vinham fazer carga; no entanto, sustentaram ainda dois ou três ataques, mas no fim, vendo que aqueles atiravam sempre vigorosamente para a frente e a cavalaria lhes vinha por cima, entregaram-lhes .a praça e se retiraram recuando passo a passo.

LX. Assim, Pelópidas, tendo ganho os outeiros, ficou sobre o cume olhando o exército dos inimigos, o qual não estava ainda fugindo rapidamente, mas já se achava em movimento e em grande desorganização. Olhou daqui e dali, à volta toda para ver se não percebia Alexandre e, finalmente, escolheu-o entre os outros na ponta direita de sua tropa, tentando garantir sua gente. Tendo-o percebido, não pôde, com razão, dominar sua cólera, mas sentindo inflamar-se de ódio por tê-lo visto, abandonou a direção de sua empreitada e jogou-se longe, à frente de toda sua gente, gritando e chamando em alta voz o tirano para o combate. Este não ouviu, nem se apresentou para combatê-lo, mas fugiu escondendo-se entre seus guardas. Quanto aos soldados, os primeiros que pensaram em fazer frente a Pelópidas, foram por êle feitos em pedaços e ficaram muitos mortos sobre o campo, mas os outros aliando-se em tropa cerrada, dando-lhe de longe grandes golpes de lança, torceram seu corpo de couraça, ferindo-o no estômago, até que os tessalianos penalizados de vê-lo assim maltratado, correram de cima dos outeiros para socorrê-lo, mas êle já estava caído por terra quando chegaram e então todos, juntos com a cavalaria, fizeram um tão grande esforço que viraram a batalha dos inimigos em fuga e os perseguindo até bem longe de lá cobriram toda a planície de mortos, pois mataram mais de três mil (27).

(27) 364 anos antes de J. C.

LXI. Ora, não é de admirar que os tebanos presentes à morte de Pelópidas tenham ficado muito descontentes e tenham posto grande luto chamando-o seu pai, seu salvador e seu chefe, como aquele que lhes havia ensinado as mais belas e as mais honrosas coisas que souberam aprender. Mas os tessa-lianos e outros aliados e confederados de Tebas, além do que fizeram por seus editais e decretos públicos, prestaram em louvor de sua memória, toda a honra que poderia ser devida à mais excelente das virtudes humanas, demonstraram ainda mais seu amor e sua afeição para com êle pelo desgosto que sentiam e o grande luto que puseram; pois diz-se que esses que se encontravam nesta batalha, não se despojaram de suas armas, não desenfrearam seus cavalos nem fizeram pensar suas feridas, quando ouviram a notícia da morte de seu chefe antes de irem primeiramente junto do corpo, ainda todo quente que estava do combate, juntando à volta grande quantidade de despojos dos inimigos, como sinal de sentimento e de luto. Cortaram seus cabelos e as crinas de seus cavalos e houve ainda muitos que depois de terem se retirado para suas tendas e pavilhões, não quiseram acender o fogo, nem beber nem comer e por todo o campo um triste e morno silêncio como se não tivessem ganho uma bela e gloriosa vitória, mas houvessem sido derrotados e escravizados pelo tirano. Depois, quando a notícia foi espalhada por todo o país, os oficiais de cada cidade por onde o corpo devia passar com os rapazes, as crianças e os sacerdotes iam à frente para recebê-lo honrosamente, com exibição de troféus, de coroas e de armas de ouro puro.

LXII. E quando chegou o momento dos funerais, quando era preciso retirar o corpo, os mais antigos e mais notáveis personagens dentre os tessalia-nos dirigiram-se aos tebanos pedindo que lhes permitissem poderem eles mesmos, exumar, tendo um falado desta maneira: — "Senhores tebanos nossos bons amigos e aliados, solicitamos uma graça que se nos reverterá em honra e também nos confortará numa calamidade tão grande, pois não podemos nunca mais acompanhar Pelópidas vivo, nem lhe pagar as honras que de nós mereceu, mas se vós nos fizerdes esse bem em permitir que possamos tocar seu corpo com nossas próprias mãos, amortalhar e enfeitar nós mesmos as suas exéquias, pelo menos nos seria um sinal que acreditais no que firmemente cremos, que a perda é mais grave e maior para os tessalianos do que para os tebanos, pois perdestes um bom capitão mas nós não perdemos somente um bom capitão, mas também a esperança da recuperação de nossa liberdade, pois como ousaremos ainda pedir para enviar outro comandante, quando não podemos vos devolver Pelópidas?"

LXIII. Estas súplicas ouviram os tebanos, dando-lhes o que pediam. Parece-me que não poderiam ser dos mais honrosos nem mais magníficos os funerais como foram aqueles, pelo menos para aqueles que medem a dignidade, o esplendor e magnificência, não pelos ornamentos de marfim nem de púrpura como faz Filisto, que tanto exaltou e engrandeceu o enterro de Dionísio, o tirano de Siracusa, que saiu de sua tirania, como a conclusão pomposa de uma tragédia. E Alexandre, o Grande, na morte de Efestion mandou cortar não somente as crinas dos cavalos e das mulas, mas também mandou demolir as seteiras das muralhas das cidades a fim de que parecesse que mesmo as muralhas trouxessem luto tomando, em lugar de sua forma primitiva, uma demolição que trazia indício de dor e sentimento. Mas todas as coisas assim são ordens de senhores, dadas pela força e pelo constrangimento, os quais não alimentam senão inveja contra a memória daqueles para quem elas são feitas e ódio desses que são constrangidos apesar de a cumprirem, não trazendo porém testemunho de honra, nem de benevolência, mas antes são mostras de uma pompa, arrogância e vaidade bárbara, que emprega sua autoridade e o supérfluo de seus bens em coisas frívolas que não são para desejar unicamente; quando um simples homem privado, morto em país estrangeiro, onde não tinha nem mulher, nem parentes, nem filhos convidados para seus funerais, é levado e coroado por tantos povos e as cidades fazendo inveja uma a outra, procurando honrar mais sua memória, sem que pessoa alguma lhes pedisse e ainda mais as constrangesse. Com justiça, parece haver atingido tal testemunho o cume da verdadeira felicidade humana, pois a morte dos homens felizes não é muito grave, como dizia Esopo, mas é muito feliz, levando em conta que ela põe em pé de segurança as prosperidades e os bons atos das pessoas de bem, deixando a sorte variar e mudar a seu prazer. E, portanto, falou melhor, a meu julgamento, um lacedemônio que agradando um bom velho Diágoras, o qual havia, êle mesmo levantado antigamente, o prêmio dos jogos olímpicos, tendo visto coroar como vitorioso nos ditos jogos seus filhos e os filhos de seus filhos, tanto de seus filhos como de suas filhas, disse-lhe: — "Morres tu agora, Diágoras (28), pois não subirás mais ao céu".

Mas as vitórias dos jogos olímpicos e píticos, mesmo colocadas todas juntas, não têm no que comparar a uma só de tantas batalhas em que Pelópidas combateu e ganhou, tendo empregado a maior parte de seus dias na honra e na glória e finalmente tendo-as terminado como governador da Beócia pela décima-terceira vez, que era a honra suprema de seu país e tendo morrido entre aqueles tiranos que oprimiam a vida dos tebanos e sendo morto combatendo corajosamente pela recuperação da liberdade dos tessalianos.

(28) Este acontecimento é da nonagésima-sexta Olimpíada, aproximadamente 433 anos antes de J. C. Diágoras descendia de Hércules, por Tlepolema, que reinou em Rodes, antes do cerco de Tróia onde foi morto. Sua família conservou o trono mais ou menos seiscentos anos. Diágoras levantou um. grande número de vitórias nos diferentes jogos da Grécia. Foi para êle que Píndaro compôs a sétima de suas Olimpíadas, que os rodinos mandaram escrever com letras de ouro no templo de Minerva em Linde, uma das três cidades antigas da ilha.

LXIV. Mas se a morte foi desagradável aos aliados de Tebas, foi-lhes ainda de maior proveito, pois logo que os tebanos receberam a notícia, não pensaram senão em vingança e despacharam incontinenti um exército de sete mil soldados de infantaria e setecentos cavaleiros sob o comando de Maleitas e de Diogiton, os quais encontrando Alexandre derrotado e tendo perdido a maior parte de suas forças, obrigaram-no a devolver aos tessalianos as suas cidades que estavam em seu poder e deixar os magne-sianos, ftiotes e aqueanos em liberdade, retirando e suprimindo as guarnições que havia posto nas praças fortes, e também prometer e jurar que doravante marcharia sob as ordens dos tebanos contra tal ou qual inimigo ou contra quem eles ordenassem.

LXV. E quanto aos tebanos, contentaram-se com essas condições, mas eu quero, ainda mais, contar o castigo com que os deuses, tanto antes como depois, fizeram os responsáveis pagar pela morte de Pelópidas, o qual como havíamos citado acima, havia primeiramente instruído Teba, sua mulher que não devia nunca temer a aparência exterior nem o poder da tirania, ainda que Ficasse entre os satélites armados e no meio dos banidos que o tirano mantinha na sua guarda. Por outro lado, temendo sua deslealdade e odiando sua crueldade, conspirou sua morte com seus irmãos que eram três, Tisífono, Pitolau e Licofrão e executou sua conspiração desta maneira: todos os moradores do palácio onde se achava o tirano estava cheio de guardas e de soldados que guardavam a noite toda junto de sua pessoa, mas o quarto onde costumavam dormir, ficava no pavimento mais alto, na porta do qual havia um cachorro amarrado que montava a guarda e era terrível para todo o mundo, não conhecendo ninguém, somente eles dois e um criado que lhe dava de comer. Quando então quis pôr mãos a obra para a execução de seu plano, manteve um dia todos os seus irmãos fechados num quarto bem próximo ao seu e depois vindo a noite foi sozinha, como estava acostumada, ao quarto de Alexandre que já dormia e logo depois saiu ordenando ao criado que levasse o cachorro para alguma parte longe dali, porque seu marido queria descansar à vontade e sem barulho. Ora, subia-se naquele quarto somente por uma escada, a qual desceu e com receio que seus irmãos subindo fizessem barulho, cobriu-a e forrou-a com lã antes de a descer, fazendo-os assim subir com suas espadas e pondo-os diante da porta, entrou no quarto e tirou ela mesma, a espada do tirano que estava suspensa sobre sua cabeceira, que lhes mostrou, sendo esse o sinal combinado com eles para lhes dar a entender que êle dormira.

LXVI. Os rapazes ficaram assustados e afastaram-se um pouco quando chegou o momento de chegar às vias de fato. Ela se zangou asperamente com eles, chamando-os de homens covardes, visto que o coração assim lhes falhava quando necessário e lhes jurou colérica que iria ela mesma acordar o tirano e contar-lhe toda a conspiração, de tal jeito que parte por vergonha e parte por medo, obrigou-os a entrar e aproximar-se do leito, segurando ela mesma a lâmpada para os clarear. Então um deles pegou-o pelos pés apertando-os bastante, o outro atirou a cabeça para trás, segurando-a pelos cabelos e o terceiro matou-o a golpes de espada. Assim morreu mais rapidamente, por sorte e mais prontamente do que não devia. No entanto, por esta maneira foi morto, assim como suas perversidades e infelicidades o fizeram merecer, pois foi o primeiro tirano assassinado por conspiração de sua própria mulher e também pelos ultrajes que fizeram a seu corpo depois da morte, pois os habitantes de Feres, depois de o haver arrastado por toda a cidade e pisado, por fim o jogaram e abandonaram como repasto aos cães.


Fonte: Edameris 1960. Vidas dos Homens Ilustres, tomo III. Tradução de José Carlos Chaves a partir da edição francesa de Amyot.

 

nov 162010
 
Arte etrusca

Plutarco – Vidas Paralelas

OBSERVAÇÕES

 

SOBRE A VIDA DE CÍMON

CAP. VIII, pág. 16. Cornélio Nepos, em seu prefácio e na Vida de Cimon, diz categoricamente que Cimon esposara sua irmã, sem que tal casamento produzisse o menor dano à sua reputação, por ser permitido pelas leis atenienses. A lei, com efeito, permitia que um indivíduo casasse com sua irmã pelo lado paterno, e não pelo lado materno. Tendo sido Cimon aprisionado, por não se achar em condição de pagar a multa a que seu pai Milcíades fora condenado, um rico cidadão de Atenas, chamado Cálias, prontificou-se a pagar, sob condição de ser-lhe dada Elpinice por esposa. Cimon não se decidiu, diz Cornélio Nepos; mas Elpinice declarou não poder admitir que o filho de Milcíades perecesse nos cárceres públicos, quando só dela dependia restituir-lhe a liberdade. E desposou Cálias, pois o divórcio também era permitido por lei. Vide a Coleção das Leis Antigas, por Samuel Petit, liv. VI, títs. i e 3, e o Comentário, págs. 440 e 441.

CAP. XXII, pág. 33. Não faltará quem não estranhe que, devendo estabelecer paralelo entre duas vitórias de Cimon com duas anteriores conquistadas pelos gregos, Plutarco compare a obtida em terra com uma ganha no mar, e a que êle conseguiu no mar com a que os gregos venceram em terra. Confesso não atinar com a razão disto. Creio haver sido um descuido do compositor, e que se deva ler no mar, na primeira parte da oração, e em terra na segunda.

CAP. XXVII, pág. 37. Clístenes era filho de Mégacles, e pelo lado materno neto de Clístenes, tirano de Sicião, referido nas Observações sobre o quarto volume das Morais, cap. XV. Foi um dos principais autores da reaquisição da liberdade de Atenas, expulsou pisistrátidas ao fim da segunda, e foi arconte epônimo do terceiro ao quarto ano da sexagésima-sétima olimpíada.

Cumpre lembrar que o ano ático começava então em janeiro e que o olímpico tinha início em julho. Assim sendo, o ano de um arconte correspondia a dois olímpicos, durando aquele até à reforma introduzida por Metão, que tinha início no primeiro ano da octogésima-sétima olimpíada. Clístenes restabeleceu a ordem na república, reformou a legislação, elevou a dez o número das tribos, que não passavam então de quatro. Cai também neste ano a expulsão.dos reis de Roma.

CAP. XXVIII, pág. 38. Eles não se agastaram, devido à consideração e estima que devotavam a Cimon. Não concordo com Dacier, que acha não dever atribuir-se tal eles aos lacedemônios, porquanto, se o fôr aos atenienses, esta passagem não tem o menor sentido. Não admira, com efeito, que os atenienses não se agastassem de ver o seu poder aumentar e os aliados unirem-se a eles. Isto não se dava com os lacedemônios, razão por que Plutarco acrescenta que, se eles não se agastaram foi em consideração a Cimon. C.

CAP. XXIX, pág. 40. Os escravos dos lacedemônios chamavam-se Hilotas, derivado de Hilos, pequena cidade na extremidade da Lacônia, à beira-mar, que Agis, rei da Lacedemônia, arruinou antes da época de Licurgo, Teduzindo os habitantes à escravidão, como relata Estrabão, no seu oitavo livro. Muito depois, tendo sido os messênios vencidos e escravizados, os nomes de Hilotas e Messênios tornaram-se comuns aos escravos das duas cidades.

CAP. XXXI, pág. 42. Em cujos dez anos os lacedemônios decidiram libertar a cidade de Delfos da escravidão dos fócios, etc. Traduza-se: "Em cujo tempo, ao voltarem da expedição realizada para libertar a cidade de Delfos da escravidão dos fócios, os lacedemônios acamparam junto de Tanagre, onde os atenienses os foram encontrar, para atacá-los". Vede Tucídides, 1. I, § 108, e Diodoro de Sicília, 1. II, § 80. Tanagre achava-se na Beócia e não na Fócida. C.

SOBRE A VIDA DE LÚCULO

CAP. V, pág. 57. Qual é este Ptolomeu? Palmério diz ser Auletes. Êle, porém, só começou a reinar no Egito, em 689, ano romano, 65 antes de J. C, muito depois da morte de Sila, ocorrida no ano 676 de Roma. Não pode ser Ptolomeu Latire, que reinou pela primeira vez desde o ano 637 de Roma, porque Plutarco declara que, o de que se trata, era muito moço. Deve ser então Alexandre II ou Alexandre III. Nas notas sobre Plutarco, edição de Reiske, Moses Dusoul julga ser Alexandre II. Além de ser pouco crível que este tratado de Lúculo haja sido realizado justamente nos 18 ou 19 dias de seu reinado, é inacreditável ainda que êle se haja recusado a se aliar a Sila, que o colocara no trono. Isto só pode ser atribuído a Alexandre III, que o sucedeu ao fim de dezenove dias. O que não desfaz ainda todas as dificuldades, porque segundo Apiano, Alexandre II só foi elevado ao trono do Egito no ano 673 de Roma, Sila esteve em Atenas no ano 668 de Roma, e Fímbria, de quem se vai tratar, suicidou-se no ano 670 de Roma, e 84 antes de J. C. Há, pois, nisto, um erro de três ou quatro anos nas épocas desta sucessão, de retificação talvez impossível.

SOBRE O CONFRONTO DE LÚCULO COM CIMON

CAP. I, pág. 144. Segundo o que Platão, zombando, censura e condena acertadamente em Orfeu. Creio não se dever tomar a expressão da parte de Orfeu em sentido particular, como acontece geralmente, e sim em sentido geral, e que se deva traduzir nos que saíram da escola de Orfeu. É como diz Plutarco, no tratado contra Colotes, t. X, página 407, edição de Reiske: os Acadêmicos da escola de Arcesilas. Eram efetivamente as opiniões de Orfeu, que Museo e Eumolpe, seus filhos, haviam introduzido nos mistérios de Eleusina, que Platão visava na passagem citada por Plutarco. C.

CAP. III, pág. 146. Neste artigo Dacier confundiu o Pan-crácio, que compreendia o ataque, a luta e o pugilato, com o Pentatlo ou Quinquércio, constituído de cinco exercícios sucessivos, de assalto, de corrida, de disco, de dardo e de luta. Quanto a Amyot, não sei porque traduziu não vencedores, mas vitórias, para mais homenageá-los. O grego diz unicamente vitórias, que constitui erro de há muito reconhecido. Plutarco nunca pôde dizer que deixou de empregar o termo vencedores, que Amyot traduziu por vitórias. Era uso denominar os pancraciastas vencedores extraordinários. O pancrácio era uma espécie de exercício, constituído de luta e pugilato, e os que se dedicavam a êle eram menos fortes dos que se entregavam ou só à luta ou só ao pugilato. Razão por que consideravam coisa extraordinária um pancraciasta vencer no mesmo dia a luta e o pugilato, e levantar o prêmio do pancrácio. Vede nas Pausânias, 1. VI, cap. 6, o que aconteceu a Teágeno, que quis disputar a Eutimo o prêmio do pugilato, antes de bater-se pelo pancrácio. C.

SOBRE A VIDA DE NÍCIAS

CAP. VII, pág. 162. Todas estas passagens de poetas cômicos são de explicação muito difícil, por serem eles muito corrompidos. Creio que a de Teléclida pode ser explicada assim:

"Chariclés não lhe deu uma mina (moeda grega), porque êle não disse ter sido o primeiro filho que sua mãe teve à sua custa? Nícias, filho de Nicerato, deu-lhe quatro. E por que? É o que não direi, embora o saiba, porque Nícias é meu amigo e considero-um homem de bem".

A primeira parte deste trecho parece-me ter relação com o fato das mulheres gregas se considerarem crianças, quando não conseguiam ter filhos. Trata-se freqüentemente deste uso, em Aristófanes. Geralmente elas compravam os filhos de algumas mulheres pobres.

O segundo trecho é um diálogo entre um caluniador e um homem do povo. Amyot, apanhou bem o sentido; mas, não sendo muito clara a sua tradução em verso, eis uma outra em prosa:

- "O Caluniador: Há quanto tempo não vês Nícias? O Homem do povo: Vi-o anteontem, na praça pública, O Caluniador: Este homem declara que viu Nícias. Não o terá, visto para nos trair? Bem vedes, meus amigos, que apanhamoa Nícias agindo. O Poeta: É deste modo, perversos, que procurais tornar culpados os homens mais virtuosos e justos".

Citando a passagem de Aristófanes, Plutarco enganou-se, pois coloca-a na boca de Cleon, quando está na boca de Agorácrito. Vede os Cavaleiros, v. 358. C.

CAP. XXI, pág. 178. Este Hiparco não era o filho do tirano Pisístrato, mas sim um dos seus pais, como diz. de acordo com Plutarco. Harpocracião, e segundo o testemunho de Androcião, autoridade incontestavelmente preferida a todos os escritores posteriores, que fazem o Ostracismo remontar aos tempos de Teseu, ao passo que Androcião, discípulo de Isócrates, que participou da administração de Atenas, e escreveu a História da Atiça, afirma categoricamente que Hiparco foi a primeira vítima do Ostracismo que acabava de ser estabelecido. Quanto ao mais. Diodoro de Sicília e Eliano estão de acordo com Androcião e Plutarco quanto à data desta instituição, que não era peculiar a Atenas, mas de uso generalizado nas cidades da Grécia em que o governo popular se havia estabelecido. Eis como procediam: Em dia marcado, o povo reunia-se, presidido pelos nove arcontes e o Senado. Cada cidadão levava uma concha, na qual escrevia o nome que desejava, e jogava-a num cercado dotado de grade, onde se chegava por dez avenidas, de acordo com o número de tribos. Contadas as conchas a seguir, o indivíduo cujo nome aparecesse no maior número delas, se alcançasse pelo menos seis mil era obrigado a deixar a cidade dentro de dez dias. Esta espécie de exílio diferia do banimento proferido por sentença, em que determinava o lugar da residência do cidadão condenado ao ostracismo (prazo: dez anos) e não lhe confiscava os bens. Os outros banidos perdiam os bens; e, sendo expatriados para sempre, não lhes designavam o lugar em que deviam residir, por não serem mais considerados cidadãos.

A vila de Calorga, pátria de Hiparco, de quem se trata aqui, é um cantão da Atiça, perto de Cefisa, que se estende, ao oeste do Pireu, até o golfo Sarônico, fronteiro à Salamina.

CAP. XXI, pág. 177. Conciliar-se-ia Teofrasto com os outros historiadores, supondo-se que o Ostracismo ameaçava ao mesmo tempo Nícias, Alcibíades e Féaco. É o que me faz supor, com Tâilor, por mim já citado numa nota sobre a vida de Alcibíades, pág. 480, que o quarto, dos que nos restam sob o nome de Andócides, não é dele e sim de Féaco. Em tal discurso trata-se, • com efeito,- de saber quem será condenado ao Ostracismo, se Nícias, Alcibíades ou o Orador. Como nenhum escritor declara ser Andócides rival de Alcibíades, parecendo, ao contrário, serem os dois. muito- unidos, pois Andócides foi incluído na acusação feita – contra Alcibíades, de profanador dos mistérios, não se pode supor que eles .hajam disputado o banimento pelo Ostracismo. Se tal houvesse acontecido, os historiadores não silenciariam; sendo Andócides, como .era, um .personagem notável pelo talento, pela- descendência’ e’ pelo papel que desempenhara na República. Deixarei de lado todas as razões apresentadas por Tailor em favor de sua opinião, e às quais Ruhnkênios (História Crítica Orat. Gr. p. 50 e seguintes) respondeu muito fracamente. Deter-me-ei unicamente no que êle negligenciou, e que se me afigurou imperdoável; isto é, que, se o discurso era de Andócides, dever-se-ia supor que Teofrasto, citado pelo comentador de Luciano (Timão, § 30), e Plutarco na passagem que se discute, enganaram-se, declarando haver sido Hipérbolo o último contra quem se íêz uso do Ostracismo. Com efeito, se aquele a quem se refere o discurso atribuído a Andócides não é o que deu origem ao exílio de Hipérbolo, foi-lhe forçosamente posterior. Este discurso só pode ter sido proferido pouco antes da expedição da Sicília, pois o Orador (t. IV, pág. 123, Orat. Gr. de Reiske) nele censura Alcibíades pelo fato de, após haver opinado que se escravizasse os habitantes de Meios, comprar uma mulher desta cidade, com a qual teve um filho. A tomada de Meios, segundo Tucídides (L. V, § 116), deu-se no inverno que precedeu à expedição contra a Sicília. É indispensável que Meios haja sido tomada no início do inverno, para que Alcibíades tenha tido um filho antes do meado do verão, época em que êle partiu para a Sicília, segundo Tucídides (1. VI, § 30). Supondo que Alcibíades e Nícias hajam sido ameaçados duas vezes, juntos, de Ostracismo, o de que aqui se trata é o último, pois deve ter ocorrido pouco antes da expedição da Sicília, na qual Nícias perdeu a vida, e nesse caso Teofrasto e Plutarco se enganaram, escrevendo que o Ostracismo cessou depois da condenação de Hipérbolo, o que não é provável. Deve-se então acreditar que o discurso que tem o nome de Andócides, refere-se ao Ostracismo mencionado por Plutarco, e nesse caso não pode ser Andócides, de quem nenhum historiador fala em tal ocasião, e sim Féaco. C.

CAP. XXXIX, pág. 197. Siracusa, fundada por Arquias de Corinto no terceiro ano da quinta Olimpíada, segundo se lê nos mármores de Oxford, tinha 180 estádios de circunferência, isto é, cerca de oito léguas, segundo Estrabão, correspondendo à extensão do circuito de Atenas, no parecer de Tucídides. Compunha-se de cinco cidades ou grandes quarteirões, cercados por uma única muralha, ficando a chamada Ilha ou Ortígia entre os dois portos, sendo ligada ao resto da cidade por uma ponte; a segunda chama-se Acradina; a terceira Tiché ou Felicidade, devido ao velho templo da Felicidade que ali havia; a quarta, Cidade Nova ou Neá-polis; a quinta, enfim, da qual nos fala Cícero em seu discurso contra Verres, de Signis, era Epípoles, da qual aqui se trata, lugar muito escarpado, situado ao norte em relação ao resto da cidade, segundo Diodoro de Sicília. O que denominam Hexapila, era, segundo Celário, ou uma porção de Neápolis ou parte de suas muralhas, contendo seis aberturas que podiam ser consideradas como entradas desta nova cidadç, aparentemente defendida por um castelo.

Sobre a Vida de Marcos Crasso

CAP. I, pág. 215. Segundo as leis romanas, os casamentos só foram vedados, devido à afinidade, e considerados incestuosos, entre as pessoas de descendência direta ou que apresentavam laço achegado de parentesco, como: sogro, em relação ã sua nora, e sogra, em relação ao genro; padrasto e madrasta, em relação à enteada e ao enteado. Quanto aos parentes de linha transversal, como a mulher do irmão e a irmã do marido, enquanto os romanos viveram no paganismo consideravam esta espécie de afinidade desfeita e destruída com a morte de um dos cônjuges, principalmente quando não deixavam filhos. Foi o que levou Cícero a dizer que em hipótese alguma a afinidade podia ser destruída, se houvesse filhos que a perpetuassem. Do que se conclui que, com a falta de filhos, ela deixava de existir. Só muito tarde, devido à nova lei, é que o fundamento da afinidade se estendeu aos aparentados de linha transversal, como, por exemplo, entre um irmão e sua cunhada viúva. A lei romana proibitiva a tal respeito é a lei 4, do Código, de incestis et inutilibus nuptiis, dos imperadores Valentiniano, Teodósio e Árcade. Roma era então cristã. A mesma proibição encontra-se renovada na lei 8, ibid., de Zenão, e na lei 9, de Anastácio. Pode-se mesmo concluir que, pela lei de Zenão, embora os egípcios vivessem, em tal época, sob a lei do cristianismo, desposavam as cunhadas viúvas, desde que fossem ainda virgens.

CAP. XLX, pág. 232. Amyot seguiu uma lição defeituosa, contra a qual a autoridade de Cícero, no discurso contra Verres, de Suppliciis, bastaria para evitar qualquer erro. Diz o orador, em duas passagens, que a guerra dos escravos não só não se comunicou de qualquer modo à Sicília, como não houve o menor sinal de sublevação na ilha. T. II, p. 188 e 194. Razão teve, portanto, Dacier, de seguir a outra lição dos manuscritos, da qual resulta que: Tendo encontrado corsários cilícios, Espártaco concebeu a idéia de tentar um ataque à Sicília com dois mil homens, para reavivar a guerra dos escravos, que não se havia renovado, diz categoricamente Cícero à pág. 188, depois da que Mânio Aquílio, cônsul no ano de Roma 653, havia findo, matando seu chefe Atenião, segundo declara Diodoro de Sicília. Floro, no 1. III, cap. 19, narra esta última passagem de outro modo. O plano de Espártaco não foi levado a efeito, ou pela razão aqui apresentada por Plutarco, ou devido às precauções tomadas por Crasso, conforme declara Cícero na passagem já citada.

SOBRE A VIDA DE SERTÓRIO

CAP. XXVII, pág. 326. Nada existe no texto de Plutarco que signifique vitória de Sertório e derrota de Pompeu. Houve, de ambos os lados, parte do exército vitoriosa e parte vencida, O acampamento de Sertório foi tomado e saqueado, do que Pompeu se gaba em sua carta enviada ao Senado, existente entre os fragmentos de Salústio. É verdade que a desordem dos saqueadores deu oportunidade a Sertório de recair sobre eles vantajosamente. Mas isto não constitui nem vitória, nem derrota decisivas, como consta na Vida de Pompeu.

Este combate deu-se junto do rio Sucrão, segundo diz Plutarco na Vida de Pompeu, e não na cidade do mesmo nome, na foz do rio, à qual se referem Tito Lívio, Estrabão e Plínio, e que não é mencionada no texto de Plutarco. Este rio banha Castela e Aragão, outrora ocupados pelos celtiberianos, sendo hoje o Xucar. Este artigo não oferece qualquer dúvida, o que não se dá com o artigo seguinte, no qual Amyot cita a cidade de Tútia, declarando apenas Tútia. Os comentadores que não se conformam com esta falha opinam pela sua retificação, desejando uns que se leia o rio Dúrio, e outros o rio Túrias. Tútia foi, de fato, uma cidade desta província, como se vê claramente em Floro, liv. III, cap. XXII, 9, que no entanto se engana, quando dá a tomada de Valência após a morte de Sertório, quando ela se deu muito antes segundo a carta de Pompeu, já citada. Também é exato que o combate a que Plutarco se refere aqui, é posterior ao levado a efeito junto ao rio Sucrão, conforme êle mesmo declara. Logo, este não pode ser o mesmo que o rio Dúrio ou Túrias, seguido da tomada de Valência, porque este caso de Valência precedeu ao de Sucrão, e Pompeu combateu sem Metelo. conforme Plutarco declara na Vida de Pompeu. A substituição do Dúrio ou do Túrias não tem razão de ser. O nome da cidade de Tútia deve ser conservado.

Quanto ao combate anterior junto do Dúrio ou do Túrias, deve-se primeiro observar que Valência, situada a leste da Espanha, exclui toda idéia do Dúrio, hoje Douro, que se lança no Oceano ocidental, depois de atravessar Portugal. Além disso, Valência acha-se na foz de um rio que Plínio denomina Túrio, o mesmo que os nossos sábios chamam Túrias. Isto é incontestável; mas na carta de Pompeu, e nos discursos de Cícero por Balbo, este rio tem o nome de Dúrio. Esta simples diferença ortográfica, que não influi no caso, não merece, penso, discussão aprofundada.

CAP. XXX, pág. 329. Dada a semelhança dos fatos relatados no epítome do nonagésimo-terceiro livro de Tito Lívio, parece que esta cidade é Calaguris ou Calagúrio, onde Estrabão diz que Sertório foi sitiado por Pompeu no fim desta guerra, pág. 244. Esta cidade é que foi tomada após sua morte, produzindo tão grande revolta e ódio entre os habitantes, que degolaram mulheres e filhos, para servir-lhes de alimento, a fim de não buscarem na luta a gloriosa alternativa da vitória ou da morte. Existiam duas cidades com este nome: uma à direita do Ibero, na terra dos vasconços, e outra à esquerda, a algumas léguas do rio, na província de Ilergetes. É da primeira que se trata nesta passagem.

FIM DO QUINTO VOLUME


 

Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da França. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

nov 142010
 
Arte etrusca

SUMÁRIO DA VIDA DE ALCIBÍADES

 

Desde o quarto ano da octogésima quarta olimpíada até o primeiro ano da nonagésima quarta; 404 anos A. C.

Plutarco – Vidas Paralelas

ALCIBÍADES

Antiguidade e nobreza da casa de Alcibíades.

A raça de Alcibíades, do lado de seu pai, descendia, na antiguidade, de Eurisace, filho de Ajax, e do lado materno de Alcmeão pois sua mãe, Dino-maca, era filha de Mégacles. Tendo seu pai Clínias, armado e equipado uma galera à sua custa, obteve grande honra na batalha naval, travada ao longo da costa de Artemísio, morrendo depois em outra batalha contra os beocianos perto de Coronéia. Foram tutores do seu filho, Péricles e Arifron, filho de Xantipo, ambos próximos parentes seus. Conta-se, e é verdade, que a amizade e benevolência de Sócrates foram muito úteis à glória de Alcibíades. Evidencia-se o fato, tendo em vista que não se conhece de Nícias, Demóstenes, Lâmaco, Fórmio, Trasí-bulo e Teramene, personagens afamadas de seu tempo, nem sequer os nomes das respectivas mães. Sabemos, ao contrário, de Alcibíades até que sua ama era lacedemônia e se chamava Amicla. Seu pedagogo tinha por nome Zopiro, como, a respeito de uma e de outro escrevem Antístenes e Platão.

Beleza de Alcíbiades

II. Quanto a sua beleza, já não é necessário dizer nada. Direi somente, de passagem, que ela se manteve sempre florescente, na sua infância e adolescência, conservando-se perfeita em sua maturidade. Alcibíades se manteve assim, atraente e agradável em todas as estações de sua vida, muito embora não seja universalmente verdadeiro o dizer de Eurípides «que para os belos é também bela a última quadra». Foi essa porém uma característica própria e peculiar de Alcibíades em virtude do equilíbrio perfeitamente harmônico de seu corpo. Conta-se ainda que êle não pronunciava muito bem o «R», o que não lhe ia mal, atribuindo uma certa graça ingênua e atraente ao seu modo de falar. O próprio Aristófanes a isso se refere em uma passagem (1) onde zomba de Teoro, imitando a fala de quem pronuncia mal o «R»:

Olha bem a face de Teolo,
Dizia-me em seu lambdacismo
O filho tão belo de Clínias:
Vê bem! êle tem a cabeça de um colvo (2).
Sua maneira de pronunciar o «r»
Fê-lo, em verdade, acertar esse golpe.
Arquipo, também, um outro poeta, ao burlar-se do filho de Alcibíades disse:
Para parecer que o v êem
Semelhante em tudo a seu pai,
Êle arrasta as vestes pela praça
Caminhando molemente;
Deixa de lado, seu modo de falar,
E simula um lambdacismo, com o pescoço inclinado.

(1) Comédia as Vespas, v. 45.
(2) O dito não se pode revelar, como na língua grega, em função das duas pronúncias, corax e colax. Uma palavra significa corvo, a outra bajulador.

Seus costumes.

III. Seus costumes mudaram e se transformaram muitas vezes, com o tempo, o que não deve espantar, visto as grandes empresas e casos nos quais, depois, se envolveu. Entre as muitas paixões a que foi sujeito por natureza, a mais forte e veemente era a de querer se impor em todas as coisas e ser o primeiro em tudo. Isso transparece de alguns fatos e ditos notáveis de sua infância, recolhidos de memória. Certo dia em que se divertia lutando, viu-se, por acaso, bastante apertado pelo companheiro, e em risco de ir ao chão. Tanto fêz porém, que conseguiu aproximar a boca do braço do antagonista, morden-do-o com tanta força que parecia querer devorar-lhe a mão. O outro sentindo a mordida, abandonou incontinenti a presa e lhe disse: «O que é isso, Alcibíades, tu mordes como mulher?» «Não, respondeu êle, como leão». Sendo ainda menino, êle jogava certa vez, com outros companheiros, o jogo dos ossinhos de carneiro. Surgiu casualmente, um carro inteiramente carregado. Alcibíades solicitou ao carroceiro que esperasse um pouco até êle terminar seu jogo, porque os ossinhos haviam caído justamente no lugar por onde devia passar o carro. O carroceiro foi grosseiro bastante para não concordar, tocando os cavalos, não obstante os rogos de Alcibíades. As outras crianças se afastaram para deixá-lo passar. Alcibíades porém, lançou-se ao chão e estirando-se diante do carro, disse ao homem que passasse se era esse o seu desejo. Atemorizado o carroceiro deteve precipitadamente os cavalos, enquanto os vizinhos, percebendo o incidente, acorriam gritando para o local.

Seu amor à decência.

IV. Quando depois começaram a fazê-lo estudar, êle obedeceu de boa vontade a todos os outros mestres que lhe quiseram ensinar qualquer coisa. Negou-se por exceção, a aprender flauta, declarando que não era arte honesta nem digna de um gen-til-homem. Afirmava êle que o uso (3) da rabeca e do arco em nada prejudica, nem a atitude nem a forma do rosto conveniente a um fidalgo. Quando alguém sopra a flauta porém, o rosto se altera e se transforma tanto, que os mais íntimos mal podem reconhecê-lo. A lira e a rabeca, (4) além disso, não impedem a quem as toca de cantar e falar, enquanto a flauta cerra de tal forma a boca do tocador, que lhe inibe não somente a palavra mas também a voz: «Portanto, dizia êle, deixemos a flauta para os filhos dos tebanos, que não sabem falar. Nós outros atenienses, como nos ensinam nossos pais, temos por protetores e patronos do país, Palas e Apolo. Um lançou fora a flauta, como se conta, o outro esfolou vivo o flautista.» Alegando essas razões, Alcibíades, meio brincando meio sério, não somente desistiu de aprender a tocar flauta, como desviou dela seus companheiros, porque correu imediatamente, de mão em mão entre as crianças, que Alcibíades, com boas razões, odiava e desprezava a flauta, zombando de quem aprendia a tocá-la. A impressão foi tal que, mais tarde em Atenas, foi essa arte excluída de entre as artes honestas e os exercícios liberais, sendo a flauta desonrada e tida por instrumento infame.

(3) Da lira e do plectro. C.
(4) Não se fala em rabeca no texto grego. C.

Censuras feitas à sua juventude.

V. Quanto ao mais, acha-se escrito num libelo difamatório, composto contra Alcibíades por um certo Antifon que, quando ainda menino, êle fugiu da casa dos seus tutores refugiando-se na de Demócrates, um dos seus apaixonados. Arifron, um dos tutores, foi de parecer que o fizessem apregoar pela cidade. Péricles entretanto o dissuadiu, dizendo que, se por acaso, Alcibíades estivesse morto, eles viriam a sabê-lo pelo pregão, com um dia de antecedência apenas, enquanto, se estivesse vivo, seria desonrado pelo mesmo pregão, pelo resto de sua vida, sendo para êle, nesse caso, melhor perder-se totalmente. Alcibíades foi, além disso, censurado por ter morto com um golpe de bastão, no ginásio de Sibirtio, a um dos servos encarregados de seguí-lo por toda a parte. Não é, contudo, razoável, dar fé a tudo quanto diz um indivíduo que confessa injuriá-lo expressa mente por inimizade pessoal.

Sua amizade e respeito por Sócrates.

VI. Houve, bem cedo, em torno de Alcibíades, muita gente de qualidade e importância para acarinhá-lo, esforçando-se por cair em suas boas graças. Davam todos a entender, assaz evidentemente, que o seguiam pela sua extraordinária e singular beleza. Excetuava-se apenas Sócrates, cujo amor constitui grande testemunho, de que o rapaz nascera realmente para a virtude. Percebendo-a Sócrates, reluzente através da beleza corporal de seu rosto, e temendo as riquezas, a dignidade, a autoridade, e o grande número de pretendentes que o perseguiam, tanto entre as principais personagens da cidade como entre estrangeiros, desejosos todos de atraí-lo pela lisonja e seduções do prazer, resolveu irítrometer-se para defendê-lo e não permitir que uma planta tão bela viesse a perder ou estragar seu fruto ainda em flor. Porque jamais a fortuna deu tanto apoio e cercou exteriormente um homem, com o que, vulgarmente se chamam seus dons, impedindo que a filosofia o atingisse com suas livres advertências severas e pungentes, como o fêz com Alcibíades. Êle foi, a princípio, cercado de delícias e bloqueado pelos que lhe subministravam todos os prazeres e voluptuosidades, para impedi-lo de escutar a palavra de quem queria instruí-lo no bem e ensiná-lo. Sócrates, entretanto, reconheceu, apesar disso, a bondade de sua natureza, e o aproximou de si, repelindo e afastando os outros ricos e poderosos enamorados. Alcibíades, tornou-se assim, imediatamente, familiar seu, e se dispôs a ouvir seus discursos, não de homem que andasse à procura de nenhum gozo desonesto, nem atrás de beijos e contactos, mas de alguém que o advertia, censurando as imperfeições de sua alma, e rebaixava seu orgulho e presunção. E assim, como se diz num provérbio comum:

Êle abaixou a asa, como um galo Que vai fugindo ao choque do combate,

e considerou que toda a insistência e afeição de Sócrates junto aos jovens, era, em verdade, uma intromissão dos deuses, e um meio de que usavam com quem queriam preservar e induzir no caminho da salvação.

Generosidade de Sócrates

VII. Êle começou em conseqüência, a desprezar-se a si próprio admirando Sócrates, recebendo o prazer de seu carinho e ao mesmo tempo reverenciando sua virtude. Sem que êle o percebesse, foi-se assim formando em seu coração, uma imagem de amor, ou antes um contra-amor, como diz Platão, isto é um amor santo e honesto. Foi tal sua impressão que todo o mundo se espantou de vê-lo constantemente, beber, comer, divertir-se, lutar e habitar com Sócrates, em tempo de guerra, e ao contrário, tratar com rudeza seus demais apaixonados, sem conceder-lhes a menor vantagem. Êle chegou mesmo a portar-se, de forma ultrajante em relação a alguns, como aconteceu com Anito filho de Antemion. Era este um dos que o amavam e certa vez, como oferecesse um festim a alguns amigos estrangeiros que o tinham vindo visitar, convidou também Alcibíades. Recusando-se este, conservou-se em casa num banquete em companhia de outros companheiros. Depois de ter bebido muito, foi até à residência de Anito e detendo-se à porta da sala, viu a mesa e o aparador cobertos com a baixela de ouro e prata e determinou a seus servos que tomassem a metade dela e a trouxessem para sua casa. Depois de obedecido, retirou-se sem dignar-se entrar. Os estrangeiros presentes ao festim, acharam muito estranha sua atitude, declarando que êle se comportara de forma muito ofensiva e soberba para com Anito: «Mas não, disse-lhes Anito, êle foi extremamente gentil; podia ter levado tudo, e deixou-nos a metade.»

VIII. Alcibíades tratava da mesma maneira os demais apaixonados seus, com exceção de um estrangeiro que viera habitar Atenas. Pobre, como se conta, vendeu este o que possuía e reunindo a soma de cem «stateres» (5) levou-a a Alcibíades, rogan-do-lhe que a aceitasse. Alcibíades se pôs a rir, e satisfeito com a sua boa vontade, convidou-o para cear com êle tratando-o bem e oferecendo-lhe boa mesa. Logo depois da ceia, devolveu-lhe o dinheiro, dete minando-lhe que no dia seguinte não faltasse ao local onde se concediam as rendas públicas a quem mais desse para ali fazer o maior lanço, cobrindo o de todos os demais. O infeliz quis escusar-se alegando serem as concessões excessivamente caras para êle. Alcibíades ameaçou fazê-lo açoitar se êle não concordasse, porque além de querer ser-lhe útil, tinha uma certa rivalidade particular contra os arrendatários costumeiros. No dia seguinte de manhã, estava o estrangeiro na praça, no lugar onde se adjudicam as rendas, e fêz o lanço de um talento (6). Os outros arrendatários irritando-se muito com isso, ligaram-se contra êle, exigindo que indicasse, prontamente, seu responsável, supondo que êle jamais encontraria quem lhe quisesse dar caução. O estrangeiro, muito perturbado, começava já a recuar, quando Alcibíades gritou de longe, alto, aos oficiais que presidiam ao leilão: «Eu respondo por êle. Inscrevei-me. Êle é amigo meu». Os arrendatários ouvindo isso, já não souberam o que dizer ou fazer, porque acostumados sempre a pagar a renda dos anos precedentes com a dos subseqüentes, viam-se privados desse meio de quitar-se com o público. Não encontrando melhor expediente, suplicaram-lhe que aceitasse uma peça de prata para desistir do negócio. Alcibíades porém não permitiu que êle recebesse menos de um talento, concordando com isso os arrendatários. Só assim Alcibíades autorizou a desistência, tornando-se, por isso causa do lucro obtido por esse pobre estrangeiro.

(5) Correspondem mais ou menos a cem florins. Amyot. Se esses "stateres" eram de Corinto, valiam 130 libras francesas de 1818. Havia aliás -stateres" que valiam o dobro. Tais eram provavelmente aqueles aqui mencionados.
(6) Equivalente a cem escudos. Amyot. 4668 libras francesas de 1818.

IX. O amor de Sócrates, embora contasse com grandes e poderosos adversários, detinha algumas vezes a Alcibíades, pela sua delicadeza e por meio de belos discursos e sérias advertências que lhe fazia. Suas razões o tocavam ao vivo e o comoviam até as lágrimas. Outras vezes porém, deixando-se levar pelo engodo dos aduladores, que lhe propiciavam todos os prazeres e volúpias, êle se furtava a Sócrates e era preciso que este corresse atrás dele para retomá-lo, como se fosse um escravo fugido da casa do senhor. Porque-Alcibíades temia exclusivamente a Sócrates, a quem reverenciava, desprezando todos os demais. A esse propósito, costumava dizer o filósofo Cleanto, que Sócrates mantinha o jovem amado, seguro apenas pelas orelhas, enquanto este dava a seus concorrentes muitas outras formas de o pegarem às quais Sócrates não desejava recorrer. Queria significar com isso, a bebida, a comida e outros prazeres desonestos. Porque, em verdade, Alcibíades, era por natureza, muito fácil de ser levado aos desmandos, e é talvez, o que Tucídides quis exprimir quando escreveu sobre a desordem de sua vida particular. Aqueles entretanto, que o estragavam, aderiam cada vez com mais afinco à sua ambição e ânsia de glória, pondo-lhe na cabeça que êle devia empreender, antes do tempo, todas as grandes coisas, Faziam-no assim, crer que, mal começasse a intrometer-se na direção dos negócios públicos, não só obscureceria e apagaria todos os demais governadores, mas chegaria mesmo a ultrapassar a autoridade e o poder de Péricles entre os gregos. Da mesma forma que o ferro mole e fundido pelo fogo, endurece de novo pela ação do frio, fechando-se em si mesmo, Alcibíades também, inchado de vaidade e de presunçosa confiança em si, todas as vezes que Sócrates o recuperava, contraía-se com as suas censuras, tornando-se pequeno e humilde quando vinha a reconhecer suas múltiplas falhas, e como estava longe da verdadeira virtude.

X. Um dia porém, já tendo ultrapassado a infância, êle entrou em uma escola de gramática e pediu ao mestre qualquer livro de Homero. O mestre respondeu-lhe não possuir nenhum exemplar. Deu-lhe Alcibíades uma bofetada e saiu. Outro gramático disse-lhe, certa vez, que êle tinha um Homero corrigido por suas próprias mãos. Alcibíades replicou: «E por que te divertes a ensinar as primeiras letras aos meninos, se és suficiente para corrigir Homero? Por que não te pões a ensiná-lo aos jovens?» Querendo uma outra vez, falar com Péricles, foi bater-lhe à porta. Responderam-lhe que êle não tinha tempo de falar com êle, pois estava só, pensando na maneira de prestar suas contas aos atenienses: «Mas como! disse Alcibíades ao retirar-se, não seria melhor que êle pensasse na maneira de não precisar prestá-las de todo?»

XI. Quanto ao mais, sendo ainda jovem, êle tomou parte (7) na viagem de Potidéia, onde se alojou sempre em companhia de Sócrates, mantendo-o permanentemente a seu lado em todos recontros e escaramuças em que se envolveu. Entre esses choques houve um bastante áspero, onde ambos se comportaram muito bem, sendo ferido Alcibíades, Sócrates lançou-se diante dele para cobri-lo e o socorreu tão eficientemente, à vista de todo o mundo, que o salvou com suas armas, impedindo estas de caírem em poder dos inimigos. De acordo com o direito e a razão era devido a Sócrates, sem nenhuma dúvida, o prêmio de honra desse combate. Os capitães, entretanto, desejavam deferi-lo a Alcibíades porque pertencia a uma casa grande e nobre. O próprio Sócrates, querendo aumentar-lhe e aguçar sua ambição de honra e de glória por coisas honestas e louváveis, foi o primeiro a testemunhar que Alcibíades o tinha merecido e a pedir aos capitães que lhe adjudicassem a coroa e o arnês completos.

(7) No grego: na expedição de Potidéia.

Casamento de Alcibíades.

XII. Após a batalha de Delio, tendo sido vencidos e desbaratados os atenienses, retirava-se Sócrates a pé, com poucos companheiros. Alcibíades, a cavalo, tendo-o encontrado, não quis passar adiante, mas o acompanhou e defendeu contra uma tropa de inimigos que o perseguia e matava muitos homens do seu grupo. Isso porém, aconteceu algum tempo depois. Antes disso êle deu um tapa em Hipônico, pai de Calias, homem dos maiores e dos mais poderosos da cidade, tanto pela nobreza de sua casa como por seus bens e riqueza. Alcibíades não agiu movido pela raiva, nem por nenhuma rixa que tivesse com êle. Fê-lo apenas por brincadeira em virtude de uma aposta com seus companheiros. Essa insolência foi, imediatamente, disseminada e divulgada pela cidade, e não havia ninguém, como é fácil de imaginar, que não considerasse o ato extremamente condenável. No dia seguinte de manhã, porém, Alcibíades dirigiu-se à casa de Hipônico, e batendo à porta, entrou e se desnudou diante dele, entregando-lhe o corpo para o açoite e o castigo que entendesse aplicar-lhe. Hipônico perdoou-lhe então a falta, acalmando-se totalmente sua ira. Mais tarde deu-lhe em casamento sua filha Hiparete. Há, todavia, quem diga que não foi Hipônico quem lha deu, mas Calias seu filho, com dez talentos (8) de dote. Depois entretanto, do nascimento do primeiro filho, Alcibíades pediu mais dez talentos, dizendo que assim lhe fora prometido no contrato de casamento, caso sua mulher viesse a procriar. Calias porém, temendo que se. tratasse de pretexto para matá-lo em qualquer cilada, e obter assim a herança de seus bens, declarou publicamente ao povo, que ele constituia Alcibíades seu herdeiro universal, caso viesse a falecer sem filhos de seu próprio sangue.

(8) Equivalem a seis mil escudos. Amyot. 42.018 libras francesas de 1818.

XIII. Esta Hiparete. honesta e fiel a seu marido, despeitou-se profundamente com a ofensa que este lhe fazia, sustentando muitas cortesãs, tanto da própria cidade como estrangeiras e deixou a sua casa, retirando-se para a do irmão. Alcibíades não se preocupou com isso nem deu outra importância a não ser a de solicitar-lhe que fosse ela mesma levar ao juiz a declaração dos motivos do seu divórcio, não o fazendo por interposta pessoa. Indo ela em conseqüência, propor pessoalmente sua separação, como a lei exigia, Alcibíades que ali também se encontrava, apoderou-se dela e carregou-a pela praça até sua casa, sem que ninguém ousasse intrometer-se para impedi-lo ou para arrebatá-la de suas mãos. Hiparete permaneceu ali até sua morte que se verificou logo depois durante uma viagem de Alcibíades à ilha de Éfeso. Essa violência não foi considerada nem ilícita nem inumana pois parece que a razão pela qual a lei determinava à mulher pretendente ao divórcio, que comparecesse, em pessoa, diante do magistrado para expor seus motivos, era a de dar ao marido meios para falar com ela e esforçar-se assim, para retê-la consigo.

XIV. Alcibíades tinha um cão magnífico e de tamanho descomunal, que lhe custara setecentos escudos (9). Cortou-lhe todavia a cauda, seu mais belo ornamento. Seus familiares o repreenderam, dizendo-lhe que êle tinha dado muito o que falar a todo mundo, sendo geral a censura contra êle pela inutilização de um tão soberbo animal. Alcibíades disse-lhes rindo: «Não peço outra coisa senão isso. Quero que os atenienses sigam cacarejando sobre o fato, e não digam nada pior de mim».

Éle toma parte nos negócios públicos.

XV. Conta-se quanto ao resto, que sua estréia em uma oração pública e sua primeira intromissão nos negócios de Atenas, se deu por ocasião (10) de uma dádiva em dinheiro feita por êle ao povo. Alcibíades não projetara antecipadamente a doação; passando, certo dia casualmente, pela praça, ouviu grande alarido popular e perguntou do que se tratava. Disseram-lhe tratar-se de um dinheiro doado por alguns particulares, (11) à coisa pública. Avançando, imediatamente, Alcibíades ofereceu também do seu dinheiro. O povo ficou tão satisfeito que se pôs a gritar e a bater palmas de agradecimento. Alcibíades, muito alegre com isso, esqueceu-se de uma codorniz que trazia escondida no peito, sob as vestes. A ave, assustada com o barulho, voou. O povo continuou a gritar fazendo ainda maior barulho. Muitos se levantaram de seus lugares para correr atrás da codorniz que foi finalmente, recapturada por um piloto naval, chamado Antíoco, que a devolveu a Alcibíades, tornando-se depois muito amado por êle.

(9) No grego: setenta -minas", equivalentes a 5.446 libras francesas de 1818.
(10) Distribuição de dinheiro que êle fêz ao povo. C.
(11) Leia-se: distribuido ao povo. C.

Sua eloqüência.

XVI. A nobreza de sua casa, sua riqueza, suas proezas, e o grande número de seus parentes e amigos, propiciavam-lhe magnífica oportunidade para progredir no manejo dos negócios públicos. Alcibíades todavia, mais do que qualquer outra coisa, desejava fazer-se valer junto ao povo pela graça de sua eloqüência. Sobre a existência real dessa eloqüência, dão testemunho os poetas cômicos do tempo e além deles o demonstra Demóstenes, o príncipe dos oradores, no discurso feito contra Mídias, onde declara que Alcibíades, além de outras qualidades, fora muito eloqüente. E se dermos crédito a Teofrasto, o filósofo mais curioso desses assuntos e o mais versado em história, Alcibíades era penetrante e engenhoso em inventar e imaginar o que convinha dizer como nenhum contemporâneo seu. Às vezes entretanto procurando não apenas o que cabia dizer, mas como e em quais termos seria melhor fazê-lo, não podia encontrar as palavras com bastante presteza. Êle se detinha então, abruptamente, no meio de uma proposição, sem encontrar as expressões desejadas, até que, meditando um pouco, voltava-lhe, de novo a memória.

Sua despesa em cavalos e corridas.

XVII. Era afamada a despesa que êle fazia na manutenção de cavalos de corridas nos jogos de prêmios, não somente por serem sempre os seus os mais vistosos, como pelo número dos carros que exibia. Não se conhecera até então nenhum particular, nem mesmo rei, que tivesse enviado como êle, sete carros equipados para correr nos jogos olímpicos. Jamais também existira antes quem, numa mesma corrida, tivesse levantado o primeiro, o segundo e o quarto prêmios, como narra Tucídides, ou como diz Eurípi-des o terceiro inclusive. Esse fato ultrapassa em brilho e glória e grandeza de todos quantos, anteriormente, se haviam envolvido nesses jogos. Eurípides escreveu sobre isso num cântico composto em seu louvor, onde se diz:

Eu quero, para exaltar teu nome,
Cantar teus louvores em verso,
Filho de Clínias. A vitória
É coisa bela e cheia de glória;
Entre todas porém, a tua é tão grande
Que nenhum grego a conseguiu tão bela:
Porque teus carros magníficos,
Ganharam nos jogos Olímpicos
O primeiro, segundo e terceiro prêmios
Da corrida. E sem esforço (12)
A tua cabeça, ornada de glória,
Foi por duas vezes, coroada

(12) As três primeiras vitórias tinham sido alcançadas por Alcibíades que pilotava seus próprios carros. As duas últimas foram obtidas por carros seus, embora êle não os dirigisse.

De oliveira, sendo tu, alto e bom som,
Proclamado pela voz do arauto,
Vencedor de todos os concorrentes
Que se haviam apresentado. (13).

XVIII. Essa honra porém, tornou-se ainda mais espetacular, pela preocupação de agradá-lo demonstrada pelas cidades, em recíproca emulação. Os efesianos armaram-lhe uma tenda rica e majestosamente ornada. Os de Quio forneceram-lhe forragens para seus cavalos, além de muitos carneiros e outros animais próprios para os sacrifícios. Os de Lesbos enviaram-lhe vinho e outras provisões para ajudá-lo na grande despesa que fazia, mantendo casa permanentemente aberta, com festas para grande número de convivas. A calúnia todavia, lançada contra êle ou talvez a má-fé por êle usada nessa notável ocasião, deu matéria para faiarem dele mais do que nunca. Conta-se ter existido em Atenas certo indivíduo chamado Diomedes, que aliás não era mau homem e, como amigo de Alcibíades, desejava, ao menos uma vez em sua vida. levantar o prêmio nesses jogos Olímpicos. Foi êle avisado de que os argeus tinham um carro bem equipado, pertencente à sua república. Sabendo da grande influência de Alcibíades junto à cidade de Argos, através dos muitos amigos que ali tinha, pediu-lhe encarecidamente para comprar o carro em seu nome. Alcibíades o comprou, atribuindo-o todavia, a si próprio, sem consideração por Diomedes, o qual, desesperado, apelava aos deuses e aos homens como testemunhas da. injustiça praticada contra ele por Alcibíades. Parece ter havido um processo sobre o caso, porque Isócrates, ainda adolescente, escreveu um arrazoado e proferiu uma oração em defesa de Alcibíades, referindo-se a uma parelha de cavalos. Nesse arrazoado, entretanto, a parte adversa é chamada Tísias e não Diomedes.

(13) Vejam-se as observações sobre o cap. XVII.

Sua rivalidade com Nícias e a causa dessa rivalidade.

XIX. Mal todavia, Alcibíades se lançou nos negócios da república, ainda muito jovem, suplantou imediatamente todos os demais oradores e intermediários de governo, com exceção de dois apenas que sempre se opuseram a êle. Um foi Féaco, filho de Erasistrato e o outro Nícias, filho de Nicerato. Dos dois, Nícias já era homem maduro e adquirira reputação de notável chefe militar, enquanto Féaco, como o próprio Alcibíades, começava apenas a sobressair, pertencendo também à casa boa e nobre. Muitas coisas lhe faltavam, contudo, e entre elas especialmente a eloqüência. Era mais hábil para conversar e discutir em caráter privado, do que para arrazoar e arengar publicamente em matéria contenciosa diante do povo. Tinha, como diz Eupolis:

Bastante verbo, mas nenhuma eloqüência.

Ainda se encontra dele, um discurso escrito contra Alcibíades (14). Nesse discurso êle acusa a este, entre outras imputações, de servir-se comumente em sua casa, como se fossem seus, de utensílios de ouro e prata, pertencentes à coisa pública, que eram levados com toda a pompa segundo o costume, nas procissões do povo.

(14) Vejam-se as Observações sobre o cap. XIX.

XX. Ora, havia então em Atenas um certo Hi-pérbolo, nativo do burgo de Peritóide, a quem o próprio Tucídides se refere como a um mau homem, servindo de objeto a todos os motejos e zombarias dos poetas cômicos do tempo. Êle era porém, tão desavergonhado, e se preocupava tão pouco com a fama a êle atribuída que não lhe importava ser vilipendiado nem se comovia de forma alguma com o que se dizia dele. Alguns chamam a isso, sobranceria e firmeza de coragem, quando em verdade não passa de impudência, malícia descarada e irremediável maldade. Êle não agradava a ninguém, mas a plebe servia-se dele freqüentemente, quando queria debicar, injuriar ou caluniar as personagens de elite. O povo, assim, mantinha-se pronto quando suscitado e persuadido por este Hipérbolo, para aplicar, por maioria de votos, o exílio do ostracismo. Era costume, por esse meio, banir e pôr fora da cidade, por algum tempo, a quem se revelava mais destacado que os outros em prestígio, autoridade e poder. O povo agia por essa forma mais para satisfazer a própria inveja, do que para dar remédio a seu temor. Como era evidente que um dos três homens públicos acima mencionados seria banido, Alcibíades achou meios de reunir em um único grupo, suas três correntes e pondo-se de acordo e em contacto com Nícias, fêz virar a sorte do ostracismo contra o próprio Hipérbolo que o propusera. Dizem outros que o acordo não foi feito com Nícias mas com Féaco. Seu bando, junto ao de Alcibíades, fêz expulsar Hipérbolo desprevenido, porque jamais homem de baixa condição e pouca autoridade, sofrera a pena desse exílio. O poeta cômico Platão, o testemunha em sua passagem onde se refere a esse Hipérbolo, dizendo;

Embora em verdade, por seus costumes, tenha
Merecido, com justiça, isso e pior,
O certo é que êle, pessoa de condição
Tão vil, e da raça de servos,
Não era digno disso. Porque o ostracismo
Não foi inventado para tal gente.

XXI. Sobre esse assunto porém, falamos mais amplamente em outra parte. É de notar-se, voltando a Alcibíades, que êle não se aborrecia menos com a boa reputação de Nícias entre estrangeiros e inimigos, do que com as honrarias ao mesmo dispensadas pelos seus concidadãos. Nícias era hóspede público dos lacedemônios, que também se alojavam todos em sua casa quando vinham a Atenas, e a cujos prisioneiros, feitos diante do forte de Pila, Nícias dispensara o melhor tratamento possível. A paz, posterior, em virtude da qual os lacedemônios recuperaram os seus prisioneiros, tendo sido tratada além disso, por intermédio e solicitação de Nícias principalmente, passaram aqueles a amá-lo mais que nunca. Espalhara-se por toda a Grécia a fama de que Péricles acendera a guerra entre eles e Nícias a extinguira. Havia assim quem chamasse Nicium a essa paz como se dissesse, a obra-prima de Nícias. Amargurava-se Alcibíades com tudo isso e, por inveja, decidiu romper a paz a qualquer preço. Para isso, antes de mais nada, estando seguro de que os argeus não procuravam senão meio e ocasião de romper com os espartanos, a quem odiavam e invejavam, deu-lhes secretamente a esperança de uma aliança e liga com os atenienses. E, tanto através de cartas como em conversa mantida com quem tinha autoridade e crédito junto ao povo, exortou-os ao rompimento, convencendo-os de que não deviam temer os lacedemônios nem ceder-lhes em nada. Cabia-lhes ao contrário, passar-se para o lado dos atenienses, que logo se arrependeriam do acordo feito com Esparta e o quebrariam.

XXII. Tendo depois os da Lacedemônia, feito aliança com os beocianos, entregando além disso, aos atenienses a cidade de Panacte não intacta como deviam pelo tratado, mais inteiramente demolida e destruída, irritou-se Alcibíades ainda mais, e ao mesmo tempo envolveu Nícias, levando-o a cair no desagrado do povo, ao fazer contra êle acusações verossímeis. Disse que, quando capitão, Nícias jamais quisera ir capturar e forçar os lacedemônios encerrados na ilha de Esfactéria, mas que depois destes terem sido aprisionados por outros, êle achara meio de os pôr em liberdade, enviando-os para casa, num gesto agradável aos da Lacedemônia. Sendo além disso, amigo dos lacedemônios, não se impusera o dever de dissuadi-los de fazerem liga ofensiva e defensiva com os beocianos e coríntios. Ao contrário porém, quando aparecia algum povo da Grécia desejoso de tornar-se amigo e aliado dos atenienses, êle se esforçava para impedi-lo, caso isso não fosse do agrado dos lacedemônios.

Alcibíades torna Nícias suspeito e ilude os embaixadores dos. lacedemônios.

XXIII. Tendo Nícias caído em desgraça junto ao povo, pelas razões mencionadas, aconteceu, por acaso, que, a esse tempo, chegaram embaixadores da Lacedemônia (15). Logo à sua chegada, com as palavras mais honestas do mundo, declararam ter plenos poderes para acertar e desfazer todas as diferenças existentes entre os respectivos povos, mediante condições razoáveis e equitativas. O senado os ouviu e recebeu de boa vontade e ficou decidido que o povo se reuniria no dia seguinte para lhes dar audiência. Alcibíades temendo isso, conseguiu falar, à parte, com os embaixadores e lhes disse: «Que fazeis, senhores espartiatas? Não sabeis que o senado teve sempre o costume de tratar moderada e graciosamente com todos quantos têm assuntos a deliberar com êle, enquanto o povo, ao contrário, é altivo por natureza e ávido de grandes coisas? Se ides, ao primeiro contacto, dar a entender que viestes aqui com plenos poderes para tratar livremente sobre todos os assuntos, não percebeis que o povo há de querer forçar-vos e constranger-vos autoritariamente, a dar-lhe vossa outorga a todos os pedidos? Portanto, senhores embaixadores, se quereis levar a melhor sobre os atenienses, impedindo que eles vos constranjam a conceder-lhes, iniquamente, qualquer coisa contra o vosso desejo, aconselho-vos a deixar um pouco de lado essa simplicidade, e a propor-lhes somente como preliminar, algumas condições e artigos equitativos de paz, sem revelar vossos plenos poderes para tudo decidir. Eu de minha parte, vos auxiliarei em favor dos lacedemônios.» Jurou-lhes, com essas palavras, que agiria nesse sentido e fêz tais e tantas que os conquistou desviando-os da confiança depositada em Nícias. Passaram os embaixadores a não acreditar senão nele Alcibíades, deslumbrando-se com o bom senso e a vivacidade de sua inteligência, como se estivessem diante de uma personagem de grande e singular elevação. No dia seguinte de manhã, reuniu-se o povo em conselho para ouvi-los, sendo os embaixadores introduzidos à assembléia. Alcibíades perguntou-lhes suavemente sobre as razões de sua vinda. Responderam os embaixadores que tinham vindo para fazer propostas de paz, sem ter entretanto poderes para nada decidir. Começou então Alcibíades a gritar colérico, contra os enviados, como se eles tivessem praticado grave injustiça contra êle, e não fosse verdade o inverso. Chamou-os homens desleais, inconstantes e mutáveis, que não tinham vindo fazer nem dizer, qualquer coisa de útil. O próprio senado se irritou contra os embaixadores, e o povo os maltratou com muita rudeza. Nícias, em conseqüência, sentiu-se cheio de vergonha e confusão, sem saber o que dizer de uma tão súbita mudança, ignorando o embuste e malícia usados por Alcibíades.

(15) No primeiro ano da nonagégima olimpíada.

Liga formada por Alcibíades contra a Lacedemônia. Batalha de Mantinéia.

XXIV. Foram assim despedidos os embaixadores lacedemônios que nada conseguiram fazer, ele-gendo-se general a Alcibíades. Atraiu este imediatamente, à aliança de Atenas, os argeus, os élios e os mantínios. Embora ninguém aprovasse o meio pelo qual conseguira atingir seus fins, foi incontestavelmente, grande a sua proeza ao dividir e abalar assim todo o Peloponeso, articulando numa batalha tão grande número de combatentes contra os lacedemônios, como aconteceu diante da cidade de Man-tinéia. Alcibíades afastou por esse meio para longe de Atenas, as desgraças da guerra e os azares da peleja da qual os lacedemônios pouco poderiam aproveitar se a vencessem, sendo-lhes bem difícil salvar a própria cidade de Esparta se a perdessem.

Os conselhos que êle dá a Argos e Patras.

XXV. Ora, após essa batalha de Mantinéia, (16) os mil homens da tropa mantidos a soldo público na cidade de Argos, tanto em paz como em guerra, considerando a ocasião propícia, tentaram arrebatar à comuna o supremo poder, fazendo-se senhores da praça. Os lacedemônios que para ali acorreram deram-lhes ajuda e aboliram o governo popular. O povo todavia, tomou armas logo depois e tornou-se o mais forte. Chegando no momento exato, Alcibíades assegurou-lhe a vitória restaurando a suprema autoridade popular. Depois disso êle persuadiu os argeus a levantarem longas muralhas unindo sua cidade à costa marinha, para poderem ser assistidos mais facilmente com socorros marítimos da potência ateniense. Enviou-lhes da própria Atenas muitos carpinteiros, pedreiros, canteiros, e outros operários, demonstrando por todos os meios muito grande dedicação em defesa de seus interesses. Alcibíades não adquiria assim junto a esses povos, menor simpatia e crédito em favor próprio, do que em favor de sua república e de seu país.

(16) No terceiro ano da nonagésima olimpiada.

XXVI. Alcibíades persuadiu também os habitantes de Patras a unirem, da mesma maneira, sua cidade à costa marítima, por meio das longas muralhas que eles fizeram avançar até o mar. E como alguém lhes dissesse: «Ó pobre gente de Patras o que fazeis? os atenienses vos tragarão.» «É bem possível, respondeu Alcíbiades, mas será pouco a pouco, e começando pelos pés. Os lacedemônios ao contrário, vos engulirão, de um golpe, começando pela cabeça.» Muito embora continuasse Alcibíades fortificando o poder marítimo da cidade de Atenas, não se cansava contudo de aconselhar e exortar aos atenienses que decidissem engrandecer-se também do lado da terra. Rememorava assim, freqüentemente aos jovens, o juramento que eram obrigados a prestar no burgo de Agraulo, intimando-os de fato a cumpri-lo. Porque eles juravam que considerariam como os limites e extremidades da Ática, o trigo, a cevada, as vinhas e oliveiras. Por esse juramento ensinava-se a juventude a reconhecer a reputar como sua, toda terra lavradia, cultivada e frutífera.

Sua vida voluptuosa.

XXVII. Ao lado, porém, desses belos feitos e ditos de Alcibíades, e juntamente com a grandeza de sua coragem e a vivacidade de sua inteligência, êle tinha também muitos defeitos e imperfeições. Era demasiadamente requintado em sua vida cotidiana, dissoluto amante de mulheres depravadas, desordenado em banquetes, excessivo e efeminado em seus costumes. Saía sempre vestido com longas vestes de púrpura que arrastava passeando pela praça, gastando com exagero e soberba. Insistindo nesses desmandos, mesmo quando a bordo das galeras, fazia abrir e romper o soalho de popa, para sua acomodação mais macia. Porque seu leito não era estendido sobre as tábuas duras, mas suspenso no ar por meio de correias de couro. Alcibíades equipava-se para a guerra com um escudo dourado, sobre o qual não havia nenhum emblema ou divisa comum aos atenienses, mas sim a imagem de Cupido com o raio inflamado na mão. Quanto a esse aspeto seu, a gente de bem e de honra da cidade de Atenas, além de odiar essas suas atitudes que muito a irritavam, sentia além disso, temor diante da audácia desenfreada de Alcibíades e de sua insolência no menosprezo às leis e costumes do país. Eram esses, indícios de homem que aspirava à tirania e com pretensões a revolucionar todas as coisas de cima até em baixo. Quanto à intensa afeição votada a êle pela plebe todavia, o poeta Aristófanes (17) a põe de manifesto quando diz:

Deseja-o ter diante dos olhos Embora lhe seja odioso.
E em outra passagem, agravando ainda a suspeita alimentada contra êle, diz:
Melhor seria para a coisa pública,
Não alimentar o leão tirânico,
Mas uma vez que querem nutri-lo, é necessário
Adatar-se ao seu modo de agir.

Prestigio de Alcibíades junto ao povo.

XXVIII. Porque em verdade, os dons gratuitos; as liberdades e despesas magníficas feitas com os passatempos oferecidos ao povo, grandes como não era possívei maiores; a gloriosa memória dos seus antepassados; a graça de sua eloqüência; a beleza de sua pessoa; a força do seu corpo e a sua ousadia temperada pelo bom senso e experiência em assuntos de guerra, faziam com que se permitisse tudo a êle. Os atenienses suportavam pacientemente as suas insolências, disfarçando-as e, amenizando-as com os nomes mais graciosos, pois chamavam-nas arroubos de juventude e brincadeiras, como aconteceu quando êle reteve prisioneiro, à força, em sua casa o pintor Agatarco, até êle pintar todo seu alojamento, deixando-o ir depois com belos presentes, concluído o trabalho; ou quando aplicou uma bofetada em Táureas que financiava, à sua revelia, as despesas de um grupo de comediantes, pretendendo arrebatar a honra desses jogos; ou quando, com a sua autoridade, retirou de entre os prisioneiros de guerra uma jovem média c a fêz sua concubina, vindo a ter dela um filho que fêz criar. Chamavam a isso, ato de caridade, embora o acusassem como o principal causador de se terem feito passar a fio de espada todos os pobres médios, com exceção das crianças. Acusavam-no disso porque êle favorecera e incentivara o decreto impondo essa desumanidade, o qual fora proposto por outro. Tendo o pintor Aris-tófon pintado uma cortesã chamada Neméia. com Alcibíades reclinado entre seus braços, o povo todo acorria e sentia prazer em contemplar o quadro. A gente antiga e honesta, porém, se irritava diante de todos esses desmandos considerados tirânicos, e praticados contra a moderação exigida numa burguesia civil.

(17) Na peça as "Rãs", v. 1425. C.

XXIX. Arquestrato, não parece por isso manifestar-se fora de propósito, quando diz que a Grécia não suportaria dois Alcibíades. Voltava este certo dia da assembléia do povo em conselho, onde arengara ao gosto da assistência, obtendo por isso o que pretendia. Dirigia-se para casa seguido de grande acompanhamento de pessoas que o reconduziam em sinal de reverência. Tímon, o cognominado Misantropo, como quem dissesse lobisomem ou execrador dos homens, ao encontrá-lo em seu caminho não passou adiante, nem se afastou dele como costumava fazer com todos os demais, mas foi-lhe ao encontro e tocando-lhe na mão disse-lhe: «Fazes bem, meu filho, e eu te agradeço muito o fato de ires assim aumentando teu crédito, porque se jamais conseguires o poder, será para grande mal e ruína de todos estes.» Riram alguns, outros injuriaram Tímon e outros ainda notaram bem essas palavras e pensaram depois nelas mais de uma vez, tão diversa e diferente era a opinião que se tinha dele, dada a variedade de sua vida e a inconstância de seus costumes e natureza.

Suas idéias de conquista. Empreendimento contra a Sicília.

XXX. Ora, quanto à empresa da Sicília, é bem verdade que os atenienses tinham começado a cobiçá-la já ao tempo de Péricles. Puseram mãos à obra, entretanto, só depois de sua morte, sob o pre texto de fazer alianças e enviar socorros às cidades guerreadas e acossadas pelos siracusanos. Era o mesmo que construir uma ponte para fazer depois passar sobre ela um exército maior e mais poderoso. Quem, todavia, inflamou-lhes realmente o desejo, persuadindo-os, a não mais penetrar assim pouco a pouco e em pequena escala, mas a ir imediatamente com uma tropa considerável e forte, para total sujeição e conquista de Siracusa, foi Alcibíades. Êle soube falar com tanta habilidade que por sua insinuação se pôs o povo a conceber grandes fantasias sobre o empreendimento, enquanto Alcibíades se propunha a si mesmo outras fantasias ainda maiores. Porque, para êle, a conquista da Sicília não era senão um começo, embora satisfizesse o anseio dos demais, constituindo o fim de suas esperanças. Enquanto Nícias, por suas advertências, dissuadia os atenienses de tentar a guerra contra Siracusa, considerando sua ocupação como empresa extremamente difícil, Alcibíades, ao contrário, antecipava já, em sua mente, a conquista da Líbia e de Cartago, depois das quais passaria à Itália e ao Peloponeso. A Sicília não serviria assim, mais do que a fornecer víveres e soldo às demais conquistas planejadas. Os jovens, em conseqüência, foram de si mesmos levados a grandes esperanças, escutando com intensa paixão aos mais antigos que lhes narravam maravilhas dessa viagem. Tal, foi o entusiasmo, que não se via outra coisa nos lugares públicos, próprios para o exercício dos jovens bem como nos pórticos oficiais, a não ser gente reunida em círculo, vendo traçar na terra a forma da Sicília e ouvindo discorrer sobre ela bem como sobre a situação da Líbia e de Cartago.

Alcibíades nomeado, juntamente com Nícias, para o comando dessa expedição.

XXXI. Afirma-se, entretanto, que nem o filósofo Sócrates nem o astrólogo Meton, jamais auguraram nada de bom de toda essa expedição. O primeiro como é verossímil, pela revelação do seu espírito familiar que lhe fazia antever o futuro. Quanto ao outro, Meton, ou pelo medo que o tomou ao julgar a empresa por via racional, ou pelo mal pressentido no porvir, através de sua arte de adivinhação, fingiu enlouquecer e com uma tocha ardente simulou que ia atear fogo à própria casa. Dizem outros que não foi fingimento, tendo êle certa noite, queimado de fato e realmente sua casa. Na manhã seguinte apresentou-se na praça para implorar e suplicar ao povo, que em consideração pela grande perda e grave calamidade sofridas por êle, fosse de seu agrado dispensar-lhe o filho dessa viagem. Através desse embuste Meton obteve a graça pedida ao povo ludibriado. Nícias, mau grado seu foi eleito capitão para conduta da guerra. Êle não via o cargo com bons olhos, não só pelo seu companheiro no comando, como pelas dificuldades previstas na empresa. Os atenienses porém calcularam que os negócios da guerra se desenvolveriam melhor se eles não os entregassem totalmente à audácia de Alcibíades, interpondo a ela a prudência de Nícias e isso, especialmente, porque o terceiro capitão Lâmaco, investido também no comando embora idoso não se tinha mostrado menos ardente, arrojado e temerário em alguns combates, do que Alcibíades. Quando se veio, enfim, a deliberar sobre o número de combatentes, a maneira e complementação do equipamento que era preciso preparar para a guerra, Nícias tentou ainda, em forma oblíqua, impedir e fazer com que se abandonasse a empresa. Alcibíades porém o contradisse e venceu. Houve também a proposta do orador chamado Demóstrato, de que os capitães eleitos para a direção da campanha, deveriam ter plenos poderes e inteiro arbítrio para recrutar gente a seu talante, e a fazer os preparativos que bem lhes parecesse. O povo aquiesceu, dando sua autorização.

XXXII. Quando porém, estava tudo pronto e aparelhado para a partida (18) revelaram-se vários sinais de mau presságio. Verificou-se, entre outros, que o embarque fora determinado para o dia exato no qual se celebra a festa denominada Adônia. É costume nessa festa, que as mulheres coloquem nas ruas, em muitos locais da cidade, figuras semelhantes a corpos que se vão enterrar. Simulam então a tristeza e as lamentações próprias dos funerais, e vão chorando e ferindo a si mesmas, em comemoração ao luto da deusa Vénus ao tempo da morte de seu amigo Adônis. Os Hermes, além disso, imagens e figuras de Mercúrio, que antigamente se costumavam colocar nas encruzilhadas, apareceram quase todos, uma noite, mutilados e estragados, especialmente no rosto. (19) Muita gente foi tomada de espanto e perplexidade, até mesmo entre quem não fazia grande caso de tais coisas. Alegou-se que poderiam ter sido os de Corinto, favoráveis aos siracusanos seus parentes, como seus fundadores, os quais teriam recorrido à prática dessa insolência, considerando que o mau agouro poderia dar causa à desistência da empresa, levando o povo a arrepender-se da guerra intentada. Essas afirmações não foram porém, aceitas pelo povo, como também não o foram as palavras de quem afirmava que não cabia deter-se diante de tais signos e presságios, provocados provavelmente, por jovens libertinos que embriagados teriam cometido e praticado o escândalo por mero divertimento. Não obstante todas essas razões o povo levou a sério o caso e teve medo, pensando que ninguém jamais ousaria a prática de tal ato, se não se tratasse de uma conjuração de grande importância. Sindicava-se, em conseqüência, sobre qualquer suspeita, por pequena que fosse com a maior severidade, reunindo-se também sobre o caso, senado e povo, muitas vezes em poucos dias.

 

(18) No segundo ano da nonagésima-primeira olimpíada.
(19) O "especialmente" é inútil, e não se encontra no texto grego. Os Hermes eram figuras de Mercúrio sem pernas e sem braços. Eram uma cabeça de Mercúrio colocada sobre um suporte.

Éle é acusado de ter partido as estátuas dos deuses.

XXXIII. Androcles, entrementes, um dos oradores que se imiscuíam no governo da república, trouxe ao conselho alguns escravos e estrangeiros residentes em Atenas, os quais depuseram que Alcibíades e outros familiares seus, tinham pela mesma forma, quebrado e mutilado outras imagens, contrafazendo também, satíricamente, em um banquete privado, as cerimónias dos santos mistérios. Relataram minuciosamente particularidades, tais como ter um certo Teodoro imitado o arauto que costuma fazer as proclamações, assumindo Polition o papel de porta-tocha, e Alcibíades o do sacerdote que revela as coisas santas e místicas. Os demais companheiros eram os assistentes, representando os que pretendem e pedem para ser recebidos na religião e confraria dos santos mistérios, chamados por essa razão «Mistos». São exatamente esses, os termos da acusação que Tessalo filho de Cimon, fêz a Alcibíades, incul-pando-o de ter zombado maldosamente das duas deusas Ceres e Prosérpina. O povo, diante disso, irritado e indignado contra Alcibíades, tornava-se cada vez mais cheio de azedume por excitação do orador Ándrocles, um dos seus mais duros inimigos. Sentiu-se Alcibíades a princípio, meio desnorteado. Mas percebendo em seguida, todos os marinheiros arrolados para a viagem da Sicília e os próprios soldados, muito devotados a êle e particularmente, as tropas de socorro de Argos e Mantinéia, mil homens de pé bem armados, os quais diziam abertamente ser por amor a Alcibíades que eles empreendiam essa viagem tão longa, e que se lhe quisessem impor qualquer injustiça ou mau trato, eles se retirariam imediatamente para suas casas, retomou este pé na situação. Deliberou assim, vendo o momento favorável, apresentar-se em juízo para responder a quem o quisesse acusar. Seus inimigos, à vista disso, esfriaram um pouco, temendo que o povo amolecesse diante dele nesse julgamento, tanto mais à vista do empreendimento pendente.

Mau grado essas acusações, é obrigado a partir para Sicília

XXXIV. Para obviar a esse perigo, eles inscreveram outros oradores que, embora não parecessem adversários de Alcibíades, não lhe queriam menos mal do que seus inimigos declarados. Levantaram-se esses oradores, em plena assembléia do conselho, e declararam não haver propósito em que êle, eleito como um dos generais de um exército tão belo e poderoso, já prestes a fazer-se a vela juntamente com as tropas aliadas auxiliares, se detivesse, perdendo tempo e oportunidade de êxito, enquanto se escolhiam seus juízes e se mediam as honras (20) dentro das quais lhe cabia responder. Portanto, diziam eles, era necessário, por enquanto, que êle iniciasse em boa hora, sua viagem. Quando depois a guerra terminasse, podia apresentar-se de novo em juízo, para purgar-se das acusações feitas contra êle.

(20) No grego, "e se media a sua água". Media-se então, o tempo por meio de clepsidra, e pela queda da água.

XXXV. Alcibíades percebendo e descobrindo imediatamente a malícia desse adiamento, tomou a palavra para observar que não havia razão para o fazerem partir como chefe de uma tropa tão considerável, com a mente suspensa em contínuo temor pelas graves imputações levantadas contra êle na retaguarda. Mereceria assim a morte se antes não se purgasse e justificasse inteiramente. Após sua justificação, sendo reconhecido como inocente, não teria então, nada mais no pensamento a não ser dar combate aos inimigos, sem cogitar mais do perigo constituído pelos caluniadores. Alcibíades todavia, não conseguiu orientar o povo nesse sentido e recebeu dele ordem expressa para embarcar.

XXXVI. Êle foi assim constrangido a fazer-se a vela com os demais companheiros. Sua frota tinha cerca de 140 galeras, todas de três remos por banco (21) com cinco mil e cem combatentes a pé, bem armados, e aproximadamente mais mil e trezentos fundibulários, arqueiros e outros armados à ligeira. Contava além disso com a restante munição e equipamento necessários para a guerra, em quantidade suficiente. Mal tinham atingido a costa da Itália, desembarcaram na cidade de Rege (22) onde, no conselho reunido para decidir como deveriam conduzir a guerra, Alcibíades foi de aviso que era conveniente ir diretamente à Sicília. Sua opinião foi seguida, embora Nícias lhe fosse contrário, porque Lâmaco adotou o mesmo parecer. Surpreendeu-se assim, logo ao chegar, a cidade de Catina. Nada mais pôde Alcibíades realizar entretanto, porque foi, logo em seguida, chamado de volta pelos atenienses, para responder pelos crimes e imputações a êle atribuídos. Porque, como o dissemos antes, houve a princípio, algumas leves suspeitas e acusações levantadas contra êle por escravos e estrangeiros. Após sua partida porém, seus inimigos o acusaram muito mais duramente, juntando ao crime de ter quebrado as estátuas de Mercúrio, o sacrilégio da contrafação satírica das santas cerimônias dos mistérios. Davam assim a entender ao povo que um e outro ato procediam da mesma conspiração, destinada a abalar e transformar o governo da cidade. O povo se irritou e emocionou-se tanto que foram lançados à prisão todos quantos se viram indiciados ou suspeitos de qualquer forma, sem que se quisesse ouvir suas justificações. Arrependeram-se muito os atenienses de não terem instaurado processo contra Alcibíades, ante acusações e informações tão sérias, ao tempo em que ainda estava entre as suas mãos. Se algum seu parente, amigo ou familiar caía, em conseqüência, sob o furor do povo amotinado contra êle, era extremamente maltratado. Tucídides não indica quem foram os delatores. Outros porém apontam Dioclides e Teucro. Entre eles o poeta cômico Frínico o diz nestes versos, onde introduz alguém que se dirige à imagem de Mercúrio nestes termos:

Ó caro amigo, eu suplico cuidado
Em não estrebuchar, ó Mercúrio:
Temo que se te quebras, caindo,
Não me faças caluniar, apesar de inocente,
Por um novo falsário como Dioclides
Que vai procurando todos os meios de fazer o mal.
Mercúrio responde:

Eu terei bastante cuidado, não te preocupes: Porque não quero ser causa de que se dê Ao estrangeiro Teucro, ladrão maldito, O prêmio em dinheiro, prometido ao delator.

Os indícios entretanto, não revelaram nada de seguro e positivo. Houve mesmo alguém que interrogado como pudera reconhecer o rosto dos que tinham quebrado as imagens, visto ser então noite, respondeu tê-los reconhecido ao clarão da lua. Percebeu-se pela resposta, com toda evidência, que o depoimento era falso porque a noite na qual se praticara o ato, tinha sido exatamente de conjuração lunar. O fato pôs em dúvida as pessoas de inteligência, não impedindo porém a plebe de receber, com a mesma aspereza e azedume de antes, toda a espécie de calúnias e delações.

(21) No grego, "cerca de cento e quarenta trirremes". Esses navios tinham três linhas de remos.
(22) Rhege, atualmente Régio, na Calábria.

Conduta de Andócides.

XXXVII. Ora, encontrava-se entre os prisioneiros, detidos para sofrerem processo, o orador Andócides, a quem o historiador Helânico, faz descender da raça de Ulisses. Consideravam-no como tendo ódio ao governo popular, agindo favoravelmente ao advento do governo da minoria e da nobreza. Um dos principais motivos pelos quais se supunha ser êle um dos iconoclastas era porque, uma das estátuas, grande e bela, colocada junto à sua casa, pela tribo Egeida, tinha sido das poucas poupadas entre as mais famosas. Essa estátua por esse motivo é chamada, ainda hoje, o Mercúrio de Andócides, sendo assim denominada por todo o mundo, embora a inscrição testemunhe coisa diferente. Aconteceu que na prisão, travou êle relações de amizade mais com um certo Timeu, do que com os outros detidos pelo mesmo caso. Não era esse Timeu, homem tão conhecido quanto Andócides, não obstante sua grande inteligência e audácia. Timeu persuadiu o companheiro a acusar-se a si mesmo em companhia de alguns outros, pois reconhecendo e confessando o ato, êle seria agraciado, como determinava o decreto popular, enquanto, caso viesse a esperar a sentença dos juízes, correria perigo, dada a incerteza do resultado de todo o julgamento especialmente no que se referia aos ricos. Se êle encarasse o caso exclusivamente, pela vantagem pessoal, valia evidentemente mais, salvar a própria vida, mentindo, do que deixar-se matar ignominiosamente, com o peso e a condenação desse mesmo crime. Mas se também queria encará-lo pelo aspecto do bem público, ainda assim seria agir prudentemente, expondo ao perigo apenas alguns sobre os quais pesava dúvida quanto à culpabilidade, para salvar do furor popular e resgatar da morte, muitas pessoas de bem, que eram, em verdade, inocentes desses desmandos.

Alcibíades é destituído.

XXXVIII. As razões e sutilezas de Timeu tiveram tal influência sobre Andócides, que o dominaram e persuadiram a acusar-se a si mesmo juntamente com alguns outros. Êle obteve assim, pessoalmente, a impunidade prometida pelo povo. Todos quantos indicou todavia, foram condenados e executados, exceto os que se salvaram pela fuga. Para tornar a coisa mais plausível, Andócides colocara, entre os acusados, alguns de seus próprios servos.

XXXIX. Não se aplacou, contudo, a ira do povo. Não tenho mais de pensar nos destruidores de estátuas, dirigiu todo seu rancor contra Alcibíades. Ghegou-se a ponto de enviar-lhe a galera denominada "Salaminiana, recomendando-se expressamente aos comissionados incumbidos de irem no seu encalço, a que não tentassem agarrá-lo à força, nem lhe pusessem a mão, de maneira nenhuma. Deviam ao contrário usar as palavras mais suaves e delicadas, emprazando-o somente a comparecer, em pessoa, diante do povo, para responder por certas imputações levantadas contra êle. Temiam que agindo de outro modo, o exército se amotinasse dentro do país inimigo, levantando-se uma sedição na tropa. Alcibíades, se o quisesse aliás, tê-lo-ia facilmente conseguido, porque os soldados.desgostaram-se muito vendo-o partir, certos de que sem êle a guerra se arrastaria interminavelmente sob o comando de Ní-cias, pois Alcibíades funcionava em relação a êle, como um aguilhão propulsor. Lâmaco, embora pessoalmente, audacioso e valente, não tinha nem autoridade nem era considerado por ser de origem modesta e pobre.

XL. Alcibíades logo à sua partida, fêz os atenienses perderem a cidade de Messina onde haviam entrado em inteligência com certos indivíduos que concordaram em entregá-la. Alcibíades conhecen-do-os muito bem pelos nomes, denunciou-os aos partidários dos siracusanos, no interior da cidade. A combinação foi assim rompida. Chegando, depois à cidade de Túrio, Alcibíades escondeu-se, mal pòs o pé em terra, sem que ninguém o pudesse encontrar. Houve todavia alguém que o reconheceu e lhe disse: «Mas como, Alcibíades, não tens confiança na justiça do teu país?» «Sim respondeu êle, se estivesse tratando de outra coisa, mas quando minha vida está em jogo eu não confiaria em minha própria mãe, temendo que, por descuido, ela desse o seu voto com a fava negra em vez da branca.» (Porque uma correspondia à sentença condenatória e outra à de absolvição) (23). Quando depois Alcibíades veio a saber que o povo de Atenas o tinha condenado à morte, por contumácia, disse: «Eu os farei sentir com toda certeza que ainda vivo.»

É condenado; seus bens são confiscados.

XLI. A acusação proposta contra êle foi redigida por escrito, na seguinte forma: «Tessalo, filho de Cimon, do burgo de Lacrade, denunciou e denuncia a Alcibíades filho de Clínias do burgo dos Escam-bômidas, por ter praticado crime contra as deusas Ceres e Prosérpina, imitando sarcàsticamente os sagrados mistérios, numa exibição feita a alguns familiares seu, sem sua casa. Vestiu-se êle com vestes semelhantes às do hierofante (24), a Polítio como porta-tocha e a Teodoro do burgo de Fegéia como arauto (25). Aos demais assistentes, chamou confrades e observadores. Tudo foi feito em escárnio e desprezo das santas cerimônias e costumes dos Eumólpi-das, sacerdotes, religiosos e ministros do santo templo da cidade de Eleusis». Alcibíades foi assim condenado por contumácia à revelia, sendo confiscados todos os seus bens. Além dessa condenação, foi ainda ordenado por decreto, que todos os sacerdotes, religiosos e religiosas, o amaldiçoassem e detestassem. Houve apenas uma religiosa chamada Teano, filha de Menon, do burgo de Agraulo que se opôs ao decreto, dizendo «que ela era religiosa para orar e abençoar e não para detestar e amaldiçoar.»

(23) O que está entre parênteses, não consta do texto. C.
(24) Amyot escreve "presbtre", a nota corrige para -hiérophante".
(25) Amyot escreve -bastonnier", a nota indica "arauto" ou "ceryce".

Retira-se para Argos e depois para Lacedemônia.

XLII Pronunciadas assim essas graves sentenças contra Alcibíades, êle deixou a cidade de Túrio e dirigiu-se para o Peloponeso passando a residir por algum tempo na cidade de Argos. Temendo porém seus inimigos, e não admitindo a possibilidade favorável de êle poder voltar ao seu país, mandou pedir aos lacedemônios em Esparta, salvo-conduto e liberdade para residir entre eles. Prometi aprestar-lhes mais serviços e dar-lhes mais proveito como amigo, do que lhes tinha causado dano como inimigo. Os lacedemônios outorgaram-lhe o pedido e o receberam de boa vontade em sua cidade. Mal chegando ali êle realizou inicialmente três coisas: a primeira foi fazer com que os lacedemônios, indecisos antes, se resolvessem a socorrer prontamente os siracusanos, enviando-lhe Gilipo como general, para bater as forças dos atenienses. A segunda levá-los a começar a guerra contra os atenienses dentro mesmo da Grécia. A terceira, e mais importante, foi aconselhá-los a fortificar no interior do próprio território da Ática, a cidade de Decélia, o que contribuiu tanto ou mais do que nenhuma outra coisa, para minar e destruir o poder de Atenas. E se êle era ben-vindo e estimado em Esparta pelos serviços públicos prestados, não conquistava menos as boas graças e simpatia dos particulares pela sua maneira de viver em estilo da Lacônia. Quem o via, com a barba rigorosamente rapada, banhar-se em água fria, comer pão de rala e tomar sopa escura, entrava em dúvida, ou melhor, nunca poderia crer, que um tal indivíduo tivesse tido algum dia cozinheiro em sua casa, o tivesse olhado, sequer, um perfumista, ou tocado em alguma vestimenta feita do pano tecido na cidade de Mileto.

Alcibíades adota os costumes lacedemônios.

XLIII. Entre outros artifícios e habilidades de que êle era pródigo, como se diz, o que mais cativava os homens, era sua capacidade de adatar-se a seus costumes e à sua forma de vida. Êle adotava preci-, sãmente sua maneira de viver, assumindo todos os comportamentos mais facilmente do que um camaleão. Consta que esse animal não pode revestir-se da côr branca, enquanto é certo não ter havido hábitos, costumes ou maneiras carcterísticas de agir de qualquer nação que fosse, que Alcibíades não soubesse imitar, praticar e simular quando queria, tanto quanto ao mal como quanto ao bom. Em Esparta êle se manteve ativo, em contínuo exercício, vivendo parcamente, austero e rigoroso. Na Jônia, ao contrário, delicado, frívolo, alegre e luxurioso. Na Trácia conservava-se sempre bêbedo ou a cavalo. Quando se aproximava de Tissafernes, lugar-tenente do grande rei da Pérsia, Alcibíades excedia em pompa e suntuo-sidade o esplendor oriental. Não que sua natureza se alterasse realmente, passando de um pólo a outro, nem que seus costumes sofressem toda a sorte de mutações. Como porém, caso êle seguisse sua própria inclinação, poderia talvez em lugares diferentes, ofender aqueles com quem entrava em contacto, Alcibíades se disfarçava assim com a máscara e o manto mais adequado ao ambiente, assumindo o aspecto e a atitude mais próximos dos seus costumes. Quando, por isso êle estava em Esparta, quem olhasse apenas a exteriorização do seu comportamento, teria repetido o provérbio vulgar:

Não é o filho de Aquiles, mas o próprio Aquiles, considerando-o a êle também, como legítima criação de Licurgo. Mas quem pelo lado interior visse a nu, sua verdadeira inclinação e as ações procedentes do seu temperamento, diria, ao contrário, o que se afirma em outras palavras conhecidas:

Esta mulher é a mesma de sempre (26).

XLIV. Alcibíades, com efeito, enquanto Ágis, rei de Esparta, se achava na guerra, insinuou-se tão bem junto a Timéia, sua mulher, que a tornou grávida. Ela mesma não negava o fato. Tendo dado à luz um filho, foi-lhe dado o nome de Leotiquides. Sua mãe em público, chamava-o por esse nome em alta voz. Quando porém se encontrava na intimidade com as amigas mais familiares ou entre suas servas, chamava-o baixinho Alcibíades, de tal forma se apaixonara. E êle, zombando, dizia não ter agido por mal, nem por desordenado desejo de prazer, mas exclusivamente para fazer com que sua raça viesse a reinar sobre os lacedemônios. Esses rumores eram levados ao conhecimento do rei Ágis por muitos intermediários, até que finalmente êle deu crédito às notícias, especialmente quando fêz a conta do tempo durante o qual não se aproximara de sua mulher. Porque sentindo certa noite, um tremor de terra, fugira do quarto, temendo o desabamento da casa, mantendo-se depois, dez meses sem coabitar com ela. Nascendo Leotiquides, ao cabo desses dez meses, Ágis declarou que não era seu filho, dando causa mais tarde, a que Leotiquides decaísse do trono e fosse privado da realeza.

(26) Eurípides, Orestes, V. 129.

Suscita inimigos aos atenienses. A derrota destes na Sicília

XLV. Após a total derrota dos atenienses na Sicília, os habitantes da ilha de Quio e de Lesbos, juntamente com os cizicenos, enviaram, simultaneamente, embaixadores a Esparta, para dar ciência aos lacedemônios de sua boa vontade em rebelar-se contra os atenienses, desde que aqueles lhes enviassem socorros para sua defesa. Os beocianos apoiavam os de Lesbos e Farnabazo, lugar-tenente do rei da Pérsia, os cizicenos. Os lacedemônios todavia, preferiram socorrer em primeiro lugar os de Quio, mediante persuasão de Alcibíades que esposou seus interesses. Êle próprio, fazendo-se ao mar, dirigiu-se à Ásia onde fêz revoltar-se contra Atenas quase todos os países da Jônia e em contacto com os generais da Lacedemônia, causou muito dano aos atenienses.

Para subtrair-se ao ressentimento do rei Agis, Alcibíades se retira para junto de Tissafernes, lugar-tenente do rei da Pérsia

XLVI. O rei Ágis, entretanto, queria-lhe muito mal, tanto pelo ultraje dele recebido em sua mulher a quem corrompera, como também por inveja à sua glória, porque era voz corrente, que os belos resultados obtidos nessa guerra, se deviam, na maior parte, a Alcibíades. Os espartiatas mais poderosos e cheios de ambição, começavam também a aborrecer-se com êle pela inveja que lhe tinham. Seus inimigos adquiriram finalmente, tanto poder, que fizeram os magistrados escrever aos capitães em campanha, para o matarem. Alcibíades, sentindo o perigo, não deixou, por isso, de agir em tudo, em benefício dos lacedemônios, mantendo-se porém prevenido, evitando todas as ocasiões de cair entre suas mãos.

XLVII. Nessas condições, retirou-se êle, finalmente, procurando maior segurança pessoal, para junto de Tissafernes, um dos oficiais do rei persa, e adquiriu ali, imediatamente, tanto crédito que se tornou o primeiro e a principal personagem de sua companhia. Esse bárbaro que não era homem simples, mas de natural astuto e caviloso e que apreciava as pessoas sutis e perigosas, tinha admiração pela facilidade de Alcibíades em transformar facilmente sua maneira de viver, bem como pela vivacidade e agudeza da sua inteligência. Sem contar que o seu convívio habitual em divertimentos e passatempo era extremamente agradável e tão cheio de atrativos que não havia costumes austeros que não se amenizassem a seu contacto, nem natureza tão selvagem que não fosse vencida e abrandada. Era tal seu poder de sedução, que até mesmo quem o temia ou lhe tinha inveja, sentia apesar disso, prazer em vê-lo e se alegrava de falar com êle e andar em sua companhia. Tissafernes, por esse motivo, homem áspero aliás (27) e que naturalmente odiava os gregos, deixou-se envolver de tal forma, com as gentilezas de Alcibíades, tornando-se tão seu cativo, que êle próprio, apesar de tudo, esforçava-se para devolver-lhe com acréscimo suas atenções, fazendo-lhe os maiores afagos. Chamou até «Alcibíades» (28) a sua mais deslumbrante casa de campo, morada admirável entre todas as do mundo, pelos belos jardins, fontes, bosques e prados saudáveis e deliciosos aí existentes, tudo disposto com régia grandeza.

XLVIII. Alcibíades, pois, desesperando de poder jamais encontrar segurança com os Espartia-tas, e também temendo-lhes o rei Ágis, ia maldizendo deles e caluniando tudo o que faziam para com Tissa-fernes; assim fazendo, êíe impedia também que êle os ajudasse tão afetuosamente quanto teria podido fazê-lo e que arruinasse inteiramente os Atenienses, pois lhe demonstrava que êle devia fornecer dinheiro escassamente aos Lacedemônios, para os deixar minar e consumir pouco a pouco, a fim de que depois se afligissem e enfraquecessem uns aos outros, sendo então mais fácil a ambos dominar o rei. Com isso o Bárbaro concordou facilmente, e via-se com evidência que êle amava Alcibíades e o estimava muito, de maneira que por isso êle era procurado e considerado tanto por uma como pela outra parte dos gregos.

(27) No grego; e que era um dos persas que mais odiava os gregos.
(28) Amyot teria sido mais exato se traduzisse: "Porque êle chegou a dar o nome de Alcibíades, à sua mais bela casa de campo, morada a mais admirável do mundo, pelos belos jardins, fontes, bosques e prados saudáveis e deliciosos que aí havia, tudo arranjado com régia suntuosidade. Todo o mundo deu-lhe depois esse nome".

Perturbações em Atenas.

XLIX. Os atenienses, nessa conjuntura, arrependiam-se bem da decisão decretada contra Alcibíades, em virtude dos grandes males e danos sofridos, em conseqüência. O próprio Alcibíades de seu lado, lamentava muito vê-los reduzidos a tais termos, temendo que a cidade de Atenas viesse a ser totalmente arruinada, e que êle mesmo caísse finalmente entre as mãos dos lacedemônios que o odiavam de morte. Ora, a esse tempo, estavam quase todas as forças atenienses na ilha de Samos, de onde, com um exército de mar, tentavam a reconquista daqueles que se tinham rebelado e a conservação de quem se mantivera fiel, porque, ao menos no mar, eram ainda bastante fortes para resistir, de certa forma, a seus inimigos. Temiam, porém, grandemente o poder de Tissafernes, e as cento e cinqüenta galeras que constava iam chegar de país fenício, em socorro de seus inimigos. Se essas galeras viessem, a cidade de Atenas não teria mais recurso nem esperança de salvação. Alcibíades sabendo disso, enviou emissário secreto ao exército de Atenas em Samos, para lhe dar esperança de que êle Alcibíades poderia fazer de Tissafernes um amigo. Não agia pelo desejo de ser útil ao povo nem se fiava da plebe ateniense. Confiava apenas nos nobres e na gente de bem e de honra desde que demonstrassem ter coração e ousadia bastantes para refrear um pouco a licenciosa insolência da arraia miúda, e empolgar a autoridade governamental para restabelecer a situação e preservar a cidade de Atenas da última ruína.

Traição de Frínico descoberta por Alcibíades.

L. Recebida a comunicação, todos os homens de responsabilidade prestaram-lhe ouvidos de boa vontade, com exceção de Frínico, do burgo de Dira-des, um dos capitães. Duvidava este que Alcibíades se preocupasse realmente em saber quem ficaria no poder em Atenas, a nobreza ou o povo. Êle, segundo Frínico, tentava por todos os meios, voltar de qualquer maneira a Atenas epor isso, ia assim preparando a boa vontade da nobreza, censurando e caluniando o povo. Frínico, por essas razões, se opôs à proposta de Alcibíades. Seu parecer entretanto, nessa emergência, não foi seguido. Vendo assim, que se tinha declarado abertamente inimigo de Alcibíades, êle comunicou a Astioco, ao tempo almirante dos lacedemônios, as intrigas e manobras que aquêle desenvolvia secretamente junto aos atenienses, e o exortou a precaver-se contra Alcibíades, fazendo-o prender, pois se tratava de homem dúplice, que mantinha contacto com um partido e com outro. Frínico porém, como traidor, não sabia que falava a outro traidor. Esse Astioco, fazia a corte a Tissafernes em proveito próprio e vendo Alcibíades altamente acreditado junto a êle, revelou-lhe tudo quanto Frínico lhe comunicara. Alcibíades enviou imediatamente emissários aos outros capitães, para denunciar e acusar expressamente a Frínico pela traição, levando todos os do conselho à indignação e repulsa contra êle. Vendo Frínico que já não tinha outro meio de salvar-se, tentou corrigir seu erro praticando outro ainda maior: comunicou-se novamente com Astioco, queixando-se de ter sido denunciado por êle, e ao mesmo tempo prometendo-lhe, se êle o quisesse, entregar-lhe nas mãos toda a frota de navios e o exército inteiro dos atenienses.

LI. Essa traição todavia, não resultou em dano para os atenienses em virtude da contra-traição de Astioco, que novamente levou ao conhecimento de Alcibíades a oferta de Frínico. Percebendo este a denúncia, esperando uma segunda acusação diante do conselho, por parte de Alcibíades, apressou-se em advertir os demais chefes do exército ateniense, que os inimigos iam atacá-los, indicando a maneira pela qual o fariam. Exortou-os também a se manterem de prontidão junto de seus navios, fazendo boa guarda, bem como a fortificar seu campo com a máxima urgência. Tudo isso foi feito. Vieram, em seguida, novas cartas de Alcibíades, nas quais êle avisava os demais chefes para se precaverem contra Frínico que tentara entender-se com o inimigo, no sentido de entregar-lhe nas mãos todo o exército de Atenas. Ninguém deu fé a essas cartas, admitindo-se que Alcibíades, conhecendo os preparativos e desígnios dos adversários, servira-se disso para sem razão, acusar e caluniar a Frínico. Aconteceu porém, que um dos encarregados da ronda, chamado Hermon, apunhalou-o, logo em seguida, matando-o. (29) O caso foi examinado em justiça e verificadas todas as circunstâncias, foi o morto condenado por felonia em julgamento do povo, (30) sendo o homicida Hermon, juntamente com seus cúmplices, coroado em recompensa de ter eliminado um traidor da república.

A nobreza se apossa do poder

LII. Os favoráveis a Alcibíades, em conseqüência do fato, tornando-se mais fortes no conselho do exército concentrado em Samos, enviaram a Atenas um certo Pisander, para tentar uma revolução, encorajando os nobres a empolgar a direção dos negócios, retirando-a das mãos do povo. Pisander devia assegurar-lhes que Tissafernes se solidarizaria com eles e lhes ofereceria ajuda, tornando-se favorável e amigo por intermédio de Alcibíades. Foi essa a cobertura dos que então transformaram o governo de Atenas, colocando-o entre as mãos da minoria nobre. Porque embora se chamassem «os cinco mil», não ultrapassavam quatrocentos. Quando estes porém se sentiram fortes e tiveram em mãos, sem contraste, a autoridade do governo, não deram mais importância a Alcibíades, e continuaram a guerra em forma mais displicente e frouxa do que antes. Agiam assim, em parte, por desconfiarem dos seus concidadãos, a quem parecia estranha a mudança de governo e em parte também por serem de opinião que os lacedemônios, sempre mais favoráveis ao governo da nobreza, se inclinariam a fazer a paz com eles. Ora, a plebe do interior da cidade não se moveu e manteve-se quieta, contra a vontade, pelo temor do perigo, pois houve muitos mortos entre os que ousaram resistir abertamente aos quatrocentos.

(29) Frínico foi morto, segundo Lísias. por Trasibulo de Calidon e Apolodoro de Megara. Veja-se o seu discurso contra Agorato. onde êle dá pormenores relativos a essa morte, p. 492, t. V. "Das orações gregas de Reiske." C.
(30) A palavra homicida não consta do grego. O golpe foi dado por um dos homens da tropa de Hermon. Hermon foi coroado, por ter dado a ordem.

Serviços que Alcibíades presta à sua pátria

LIII. Mas os que se achavam a postos na ilha de Samos, ao ouvirem a notícia, foram tomados de tal indignação que resolveram voltar imediatamente ao porto do Pireu. Mandaram primeiramente, buscar Alcibíades a quem elegeram capitão, e o intimaram vivamente, a conduzi-los contra esses tiranos que tinham atentado contra a liberdade do povo de Atenas. Alcibíades todavia, não agiu nessa ocasião, como qualquer outro teria agido, sentindo-se subitamente elevado e engrandecido pelo favor de uma comunidade. Não considerou que era seu dever concordar e satisfazer em todas as coisas a quem o tinha transformado de um banido, vagabundo e fugitivo, em chefe e general de tantos belos navios, e de uma força tão poderosa e magnífica. Pensou ao contrário, como convinha a capitão digno de tal cargo, que era preciso resistir um pouco a esses que, movidos pelo rancor, iam precipitar-se e perder-se cabendo-lhe impedi-los de cometer tal falta.

LIV. Foi sem dúvida, essa a causa de se ter preservado nessa ocasião a cidade de Atenas de sua ruína total. Se eles tivessem partido imediatamente de Samos para voltar a Atenas, os inimigos, desimpedidos totalmente teriam se apossado sem combate, de todo o país da jônia, do rieiesponto e de todas as ilhas, enquanto os atenienses se divertissem lutando entre si, numa guerra civil, dentro mesmo de suas muralhas. Alcibíades, exclusivamente, e ninguém mais, impediu esse resultado, não somente em discurso público, diante da comuna fazendo a demonstração do desastre que resultaria da súbita partida, como também solicitando a uns em particular e retendo a outros pela força. Secundava-o nisso, Tra-síbulo do burgo de Estira, que se encontrava nesse exército e clamava contra quem desejava ir, com sua voz que segundo consta, era a mais forte e mais autoritária de Atenas.

LV. Outro belo ato e grande serviço prestado por Alcibíades, foi ter-se proposto como intermediário para que as cento e cinqüenta velas fenícias, esperadas com certeza pelos lacedemônios, como reforço oferecido pelo rei da Pérsia, não viessem de todo ou viessem em favor dos atenienses. Alcibíades partiu imediatamente ao encontro de Tissafernes, junto a quem tanto instou, que o fêz deter as ditas velas, já aparelhadas diante da cidade de Aspende, fazendo-o assim falar com a palavra empenhada aos lacedemônios. Alcibíades entretanto, foi depois censurado por ambas as partes por tê-lo dissuadido, principalmente pelos lacedemônios. Diziam estes que êle demonstrara ao bárbaro não lhe ser conveniente ajudar nem a um nem a outro lado, sendo-lhe mais útil deixá-los destruir-se e arruinar-se mutuamente, não havendo dúvida que esse grande reforço da frota do rei, juntando-se a qualquer das partes, tararia à outra o domínio e senhorio do mar.

Alcibíades chamado de volta. Vitórias obtidas por êle.

LVI. Pouco tempo depois foram batidos e expulsos os quatrocentos usurpadores do poder em Atenas, e isso com apoio e auxílio oferecido afetuosamente pelos amigos de Alcibíades, aos que sustentavam o partido do povo. Satisfeitos então os da cidade, autorizaram Alcibíades a voltar quando bem entendesse. Este entretanto, considerando não lhe ser honroso nem elegante voltar com as mãos vazias, sem nada ter merecido, exclusivamente pelo benefício e graça do povo, quis, ao contrário, tornar a sua volta gloriosa e triunfante. Partiu assim de Samos, a princípio com pequeno número de galeras, e foi rodando em torno das ilhas de Cos e Gnidos, sendo aí advertido que o almirante lacedemônio, Mindaro, fora com toda sua frota ao estreito do Helesponto, e que os capitães atenienses tinham ido a seu encontro. Alcibíades singrou então com a maior celeridade naquela direção, e aí chegou, por sorte, com dezoito galeras, no momento em que os dois partidos tinham travado combate diante da cidade de Abidos. A luta durava já muito violenta desde a manhã até a tarde, tendo uns e outros levado a melhor em um setor da batalha e a pior em outro. Assim, ao percebê-lo de longe, acendeu-se em ambas as partes, imaginação enganosa. Encorajaram-se os inimigos vendo-o, per-turbando-se os atenienses. Alcibíades fêz finalmente, alçar em sua galera capitanea, a insígnia de amigos, lançando-se, imediatamente, contra os peloponesia-nos que, em superioridade, davam caça a algumas galeras de Atenas. Conseguindo logo constrangê-los à fuga, Alcibíades as perseguiu tão vivamente, que as obrigou a ir dar em terra, onde, quebrando-se os navios, êle matou grande número de homens que se lançaram à água numa tentativa de salvar-se a nado. Muito embora acorresse Farnabazo em socorro dos lacedemônios, fazendo todo o possível para salvar as galeras ao longo da costa marítima, conseyuiram os atenienses apossar-se de trinta delas e salvando todas as suas, erigiram em seguida um troféu em sinal de vitória.

LVII. Vencedor Alcibíades nesse glorioso e feliz recontro, quis ir, em triunfo, mostrar-se a Tissafernes. Provendo-se, com essa intenção de belos e ricos presentes a ele destinados e aparelhando uma comitiva digna de um capitão general, fêz-se a vela para ir a seu encontro. Não teve ali todavia, o acolhimento esperado. Tissafernes já de longa data, vinha sendo difamado pelos lacedemônios, queixosos de que êle não cumpria as ordens do rei. Temendo por isso, ser um dia alcançado e punido por este, considerou que Alcibíades chegara no momento oportuno e o fêz aprisionar na cidade de Sardes, pensando com essa injustiça, preparar a sua escusa e justificação junto do rei. Ao cabo de trinta dias porém, Alcibíades achou meios, não se sabe como, de arranjar um cavalo, e, furtando-se aos guardas, fugiu para a cidade de Clazomenas (31). O fato aumentou ainda mais a suspeita contra Tissafernes, por suposição de que, subrepticiamente, êle tivesse propiciado a fuga de Alcibíades. Este entretanto, reembarcou incontinenti, indo encontrar-se com o exército dos atenienses, junto ao qual teve notícias de que Min^laro e Farnabazo se haviam reunido na cidade de Cízico. Alcibíades arengou aos soldados, demonstrando-lhes que lhes era absolutamente necessário combater os inimigos por mar e terra, indo assaltá-los até mesmo dentro de seus fortes e cidades, porque de outra forma não tinham meios de obter dinheiro para seu sustento.

(31) No grego: "e ele procurou caluniar Tissafernes, espalhando boato que era quem o tinha feito evadir-se". C.

LVIII. Encerrada sua oração, êle os fêz embarcar imediatamente, e foi ancorar junto à ilha de Proconeso, onde ordenou que se retivessem no meio dos seus navios de guerra, todas as fragatas e outras pequenas embarcações semelhantes, para que os inimigos não pudessem receber de ninguém, qualquer notícia de sua chegada. Foi-lhe propício também o desabamento de um súbito aguaceiro acompanhado de trovões e tempo obscuro, que o ajudou bastante a esconder e dissimular sua empresa. Assim, não somente os inimigos mas também os próprios atenienses, nada perceberam. Já tinham estes calculado que nesse dia nada mais se faria, quando, repentinamente, Alcibíades fê-los embarcar de novo e partir. Mal se fizeram ao largo, o tempo começou a clarear. Viram então, de longe, as galeras inimigas ancoradas diante do porto de Cízico. Temendo que sua frota, muito numerosa, fosse causa de fazê-los fugir para terra, antes de êle os poder alcançar, Alcibíades determinou aos outros capitães que ficassem para trás, vogando lentamente em sua esteira, enquanto êle, com quarenta navios apenas, lançava-se para frente indo mostrar-se aos inimigos para atraí-los ao combate. Pensando estes que Alcibíades tinha apenas os navios visíveis, navegaram a seu encontro, tratando imediatamente, de os atacar e combater. Mal se tinham chocado porém, chegaram os demais que se haviam atrasado, aterrando os inimigos e os pondo precipitadamente em fuga. Alcibíades destacou-se de sua frota com vinte de suas melhores galeras para perseguir os fugitivos até a costa onde chegou a desembarcar, acossando tão vivamente e de tão perto os que haviam deixado as galeras para salvar-se pela rapidez da fuga, que conseguiu matar um grande número deles no próprio local. E mais ainda, tendo Mindaro e Farna-bazo, saído da cidade para socorrer sua gente, êle os venceu a ambos, sendo Mindaro, morto em campo, lutando com valentia, enquanto Farnabazo conseguiu escapar.

LIX. Ficaram assim em poder dos atenienses os corpos dos mortos, em número considerável, com grande quantidade de armas e despojos. Apresaram também, todos os navios dos inimigos. Tomando além disso, a cidade de Cízico, por tê-la Farnabazo abandonado, após a morte dos peloponesianos, os atenienses asseguraram não só a posse do país do Helesponto ainda em sen poder, como expulsaram além disso o inimigo, a viva força, de todo o resto do mar. Surpreenderam-se cartas nas quais um secretário comunicava a derrota aos Éforos de Esparta, em poucas palavras, de acordo com o costume lacônico de falar. Essas cartas estavam escritas nestes termos: «Tudo é perdido. Mindaro morreu. Nossa gente morre de fome. Nós não sabemos o que fazer». Os soldados atenienses, autores da derrota, se envaideceram tanto, que não queriam e recusavam com desprezo serem misturados com outros que se tinham deixado bater muitas vezes, enquanto eles jamais tinham sido vencidos. Essa recusa se deu porque, pouco tempo antes, sucedera ter sido o capitão Trãsiio derrotado perto da cidade de Éfeso erigindo os efesianos um troféu de bronze pela derrota, para vergonha e ignomínia dos atenienses. Era isso que os soldados de Alcibíades censuravam aos de Trásilo, e como se engrandeciam e se exaltavam a si mesmos e a seu capitão, não queriam alojar-se no mesmo quartel, nem tomar parte em jogos e exercícios, em comum com os demais. A repulsa permaneceu até que Farnabazo avançou contra eles com grande poder, tanto de infantaria como de cavalaria, enquanto se ocupavam em correr as terras dos abidenos para reabastecer-se. Alcibíades foi socorrê-los e oferecendo-lhes batalha, venceu-os novamente e os perseguiu pela noite a dentro em companhia de Trásilo. Os soldados de um e outro chefe, misturaram-se todos na ação, voltando juntos para o acampamento, com grande alegria.

LX. No dia seguinte Alcibíades, depois de ter levantado um troféu pela vitória do dia precedente, foi correr e pilhar o país governado por Farnabazo, sem que ninguém ousasse sair-lhe ao encontro. Nessa incursão foram feitos prisioneiros vários sacerdotes e religiosas do país, mas Alcibíades os libertou em seguida, sem fazê-los pagar nenhum resgate. Enquanto se preparava para ir guerrear os calcedônios que se tinham rebelado contra os atenienses, recebendo em sua cidade, guarnição e governador lace-demônios, Alcibíades foi prevenido de como eles haviam juntado todo o produto de sua recolta e o tinham depositado entre as mãos dos bitínicos, seus vizinhos e amigos, para os guardarem. Alcibíades conduziu assim, o seu exército até as fronteiras destes, e enviou-lhes na frente um arauto para queixar-se, exigindo-lhes explicações pelo agravo feito aos de Atenas. Os bitínicos, temendo que êle viesse atacá-los a eles próprios, entregaram-lhe os bens recebidos em depósitos, e mais, fizeram também aliança com êle.

LXI. Alcibíades, depois disso, foi sitiar a cidade de Calcedonia circundando-a inteiramente com um muro, de um extremo, a beira-mar, a outro. Far-nabazo aproximou-se para fazê-lo levantar o sítio enquanto Hipócrates, capitão lacedemônio, governador da cidade, reunindo todas as suas forças no interior da praça, fêz uma sortida contra os atenienses. Alcibíades, em conseqüência, alinhando sua gente em formação de batalha, de maneira a permitir-lhes fazer frente aos dois assaltantes smultânea-mente, agiu com tal eficiência que constrangeu Farnabazo à fuga, matando no local a Hipócrates com grande número dos seus. Embarcou em seguida, pessoalmente, para ir ao país do Helesponto levantar dinheiro, e ali tomou de surpresa a cidade de Seli-bréia, arriscando-se em pessoa, antes do tempo que lhe fora prefixado. Isso porque, alguns particulares da cidade com quem mantivera inteligência, tinham combinado juntar-se a êle, no momento em que levantassem no ar um facho aceso, por volta de meia-noite. Viram-se porém constrangidos a dar o sinal antes da hora, por temor a um dos participantes da conjuração, que repentinamente se arrependeu. O facho foi assim levantado antes de estar pronta toda tropa. Alcibíades, ao vê-lo, tomou consigo trinta homens, e correu com eles para as muralhas da cidade, determinando ao resto de sua gente que o sequisse com a maior diligência possível. A porta foi-lhe aberta a êle e aos trinta homens de sua companhia, além dos quais apareceram mais vinte, armados à ligeira. Mal entraram ouviram os da cidade que marchavam em armas contra eles, sendo impossível a Alcibíades escapar, caso fizesse frente aos inimigos. Tendo-se porém mantido invencível até esse dia, em todos os recontros por êle capitaneados, repugnava-lhe fugir. Decidiu-se assim, subitamente, a impor silêncio, a toque de trombeta, e, aquietado o rumor, fêz solicitar em voz alta, por um dos seus acompanhantes, aos selibrianos que não tomassem armas contra os atenienses. A proclamação esfriou um pouco o calor dos que desejavam o combate, por suporem todo o exército ateniense já dentro da cidade, Os demais tiveram assim facilidade de entrar em composição, sem aventurar-se à sorte das armas. Enquanto eles parlamentavam para fazer o acordo, chegou o resto do exército. Supondo que os selibria-nos não pediam outra coisa senão paz, como de fato era verdade, Alcibíades teve medo que uma numerosa tropa de trácios, vinda espontaneamente a essa expedição em seu apoio e por amor dele, começasse a pilhar e saquear a cidade. Determinou por isso, a todos, que saíssem para fora, e entrando em acordo com os principais selibrianos, não lhes causou outro mal senão o de pagarem uma soma em dinheiro, recebendo guarnição dos atenienses. Feito isso Alcibíades se retirou.

LXII. Enquanto era obtido esse resultado, os outros capitães atenienses que mantinham sitiada a cidade de Calcedonia, entraram também em acordo com Farnabazo, para mediante a entrega de certa soma em dinheiro de sua parte, bem como da recolocação da cidade na obediência dos atenienses, se absterem de fazer quaisquer correrias ou causar danos ao país de seu governo. Comprometeu-se ainda Farnabazo a dar guia e salvaguarda aos embaixadores de Atenas para poderem apresentar-se com segurança ao rei da Pérsia. Esse tratado tendo sido jurado pelos demais capitães, Farnabazo quis que Alcibíades também o jurasse. Recusou-se porém este a jurar, antes de fazê-lo o próprio Farnabazo. Quando depois os juramentos foram prestados por ambas as partes, Alcibíades marchou contra os de Bizâncio que se haviam também rebelado. Logo à sua ahegada a circundou inteiramente a cidade com um tapume, obtendo depois um contacto secreto com dois particulares, Anaxilau e Licurgo e mais alguns outros, que lhe prometeram a rendição da cidade, caso êle se abstivesse de causar-lhe dano. Para executar a combinação, Alcibíades fêz espalhar o boato de ter sido constrangido a abandonar precipitadamente o cerco, em virtude de certas notícias de sublevação no país da Jônia. Êle partiu de fato, com todos os seus navios, em pleno dia, voltando, entretanto nessa mesma noite. Descendo à terra com os mais bem armados de seus homens, aproximou-se das muralhas da cidade sem fazer barulho, ordenando aos demais, deixados nos navios, que, enquanto isso, vogassem em massa para dentro do porto, fazendo o maior alarme possível, com espanto e tumulto. O plano visava, por um lado que a rapidez da surpresa desnorteasse ao máximo os bizantinos, permitindo por outro, que aqueles com quem Alcibíades mantinha inteligência, tivessem mais facilidade para recebê-los e fazer entrar sua tropa com segurança, enquanto todo o mundo acorria ao porto para resistir à gente das galeras.

LXIII. A ação porém não transcorreu sem combate, porque os da guarnição da cidade, pelopo-nesianos uns, outros beocianos e megarianos, barraram com tanta firmeza a tropa das galeras, que a obrigaram a reembarcar. Ouvindo em seguida, que os atenienses haviam entrado, por outro lado, na cidade serraram-se em batalha e marcharam a seu encontro. Foi muito duro o combate, mas Alcibíades saiu, enfim, vencedor, conduzindo a ala direita de sua tropa enquanto a esquerda era dirigida por Tera-mene. Obtida a vitória, Alcibíades fêz prisioneiros os inimigos que haviam escapado da derrota, em número de trezentos mais ou menos. Fora do combate, porém, não houve um único bizantino justiçado, nem confiscado ou banido, porque os realizadores do acordo, tinham capitulado sob essa condição de que não lhes seria causado dano algum, nem se atentaria contra suas pessoas ou bens, nem se subtrairia a eles nada do que lhes pertencesse. A combinação foi tal, que mais tarde, na Lacedemônia, acusado Anaxilau de traição em virtude desse acordo, respondeu e justificou-se de maneira a reconhecerem não ter êle praticado ato algum, passível de censura. Declarou Anaxilau nessa ocasião, que não era lacedemônio mas bizantino, e não vira a Lacedemônia em perigo mas sim a Bizâncio totalmente encerrada em um tapume construído pelos inimigos, sendo impossível entrar coisa alguma na cidade e enquanto nessas condições, o pouco trigo existente ali dentro, era comido pelos peloponesianos e beocianos da guarnição, morriam os pobres bizantinos de fome, com suas mulheres e filhos. Não se podia dizer, por essa razão, ter êle traído seu país sendo mais aceitável considerar que o tinha livrado das misérias e calamidades trazidas consigo pela guerra. Seguira nisso o exemplo da maior parte da gente de bem da Lacedemônia, a qual não reconhece outra honestidade e justiça, fora do que é proveitoso e útil a seu país. Ouvida a defesa, os lacedemônios tiveram vergonha de condená-lo e o deixaram partir.

Reentra em Atenas.

LXIV. Alcibíades porém, desejando finalmente, rever sua casa ou para dizer melhor, desejando ser visto por seus concidadãos depois de ter, tantas vezes, destroçado, desfeito e batido seus inimigos, aparelhou as velas para voltar a Atenas. Reconduzia, ricamente enfeitadas todas as galeras atenienses, ornadas em -todo o seu contorno, pelos escudos, armas e outros despojos dos inimigos. Fazia ainda rebocar muitas outras galeras apresadas por êle, carregando ainda maior número de insígnias e adornos de outras destruídas ou danificadas, as quais contadas conjuntamente, não eram menos de duzentas.

LXV. Quanto a Duris o Saminiano, pretenso descendente da raça de Alcibíades, o qual escreve que nessa sua volta, Crisógono, o tocador de flauta admirável, conquistador dos prêmios nos jogos Píti-cos, dava a nota, à cuja cadência os galés moviam os remos em compasso; e que Calípides, outro excelente ator trágico desempenhava aí o ofício de comitre (32), incitando os remadores à voga, paramentado e vestido nos moldes exatos de certos atores quando vêm, em pleno teatro diante do povo, dar prova de sua arte; e que a galera capitanea sobre a qual se encontrava Alcibíades, entrou no porto com uma vela de púrpura, como se fosse uma mascarada levada a efeito depois da orgia de um festim, nem Éforo, nem Teopompo nem Xenofonte, fazem menção a nada disso. E não me parece crível, voltando do exílio depois de um tão longo banimento e de tantos males e calamidades que a êle se haviam seguido, quisesse Alcibíades mostrar-se de forma tão insolente e soberba aos atenienses. É certo, bem ao contrário, que êle voltou cheio de dúvida e temor, porque chegado ao porto de Pireu, não quis desembarcar de sua galera sem antes ter visto do convés, sobre a praça do porto, seu sobrinho Euriptólemo e muitos outros seus parentes e amigos vindos para recebê-lo, os quais lhe diziam para descer ousadamente sem medo nenhum.

(32) Oficial de navio que comanda os remadores.

LXVI. Mal Alcibíades desembarcou, acorreu todo o povo a seu encontro com tamanho afeto que nem sequer olhava para os outros capitães, acoto-velando-se em torno dele e gritando de alegria ao vê-lo. Os que podiam aproximar-se, o saudavam e abraçavam enquanto todos o iam acompanhando, havendo quem se chegasse a êle para colocar-lhe chapéus de flores sobre a cabeça. Os que não podiam juntar-se a Alcibíades, olhavam-no de longe e os velhos o mostravam aos jovens. Essa alegria pública entretanto, era entrecortada de lágrimas e choro de pesar, quando o povo se lembrava de suas desgraças passadas, e as comparava com a prosperidade presente. Consideravam também que não teriam perdido a Sicília nem teriam sido frustradas todas as suas esperanças, se tivessem conservado a conduta do seu exército e o governo dos seus negócios nas mãos de Alcibíades na ocasião em que o haviam intimado a comparecer pessoalmente diante deles. De Alcibíades que depois, encontrando a cidade de Atenas quase inteiramente destituída do domínio do mar, com suas forças de terra reduzidas a tal extremidade que mal podia defender seus arrabaldes; dividida e perturbada, além disso, em seu interior por sedições civis, conseguira, apesar de tudo, restabelecê-la e reunindo o punhado de forças fracas e pequenas que lhe restava, já lhe restituíra, não somente a superioridade e domínio no mar, mas também em terra e a fizera vitoriosa por toda a parte.

LXVII. Seu decreto de anistia já tinha sido antes passado e concedido pelo povo, e instâncias de Calias, filho de Caléscoro, que o propôs, como êle próprio o testemunha èm suas elegias, ao relembrar a Alcibíades o serviço prestado, dizendo:

Eu propus o decreto do teu primeiro perdão
Em pleno conselho, e ousei
Propugná-lo. Posso, por isso, sustentar
Ser eu quem te fêz retornar
Pois a decisão que te trouxe de volta,
Está selada com selo verbal de minha língua.

Honras que recebe.

LXVIII Reunindo-se ò povo em conselho, Alcibíades tomou a palavra apesar disso, e fêz um discurso no qual deplorou primeiramente, suas desgraças, e queixando-se um pouco da injustiça que lhe tinham feito, lançou todavia todo o acontecido à conta de sua má sorte, ou de algum deus invejoso da sua prosperidade. Discorreu em seguida minuciosamente sobre os motivos de esperança do inimigo, exortando os atenienses, a manter de qualquer forma, a coragem, e a ter confiança no futuro. Foram-lhe finalmente doadas pelo povo, coroas de ouro, sendo êle eleito capitão general de Atenas, com supremo poder tanto em terra como no mar. Foi também determinado no mesmo momento, por decisão popular, que lhe fossem devolvidos todos os bens, absol-vendo-o os sacerdotes Eumólpidas das maldições, revogadas da mesma maneira em alta voz, pelos arautos e oficiais de justiça as execrações fulminadas e publicadas contra êle, por determinação do povo. A ordem foi cumprida por todos exceto por Teodoro (33) o pontífice, o qual declarou: «Se êle nada fêz contra a coisa pública eu não o excomunguei nem amaldiçoei. »

(33) O hierofante.

LXIX. Apesar dos negocios de Alcibíades estarem assim prosperando tão gloriosamente, houve entretanto quem considerasse mau presságio o tempo de sua volta, pois o dia de sua chegada caiu, por acaso, exatamente naquele em que é celebrada, em honra da deusa Minerva, a festa chamada Plinteria, ou seja, a festa das lavagens. Os sacerdotes, denominados Praxiergidas, praticam nesse dia alguns sacrifícios secretos e cerimônias ocultas, no vigésimo-quinto dia do mês de Setembro (34). Retiram então todas as jóias e paramentos da imagem da deusa, conservando-a escondida e velada. Os atenienses, por esse motivo, colocam esse dia entre os mais aziagos, evitando cuidadosamente fazer ou começar nele qualquer coisa de importância. O fato era interpretado como parecendo não estar a deusa satisfeita nem alegre com o retorno de Alcibíades, escondendo-se para não vê-lo e afastá-lo de si.

(34) O dia vinte e quatro do mês Thargelion, que não corresponde ao mês de Setembro mas ao de Maio. (35) Os mistérios de Ceres e de Prosérpina.

LXX. Sucedendo-lhe tudo, nessa sua volta todavia, de acordo com os seus desejos, êle armou cem galeras para retornar imediatamente ao teatro da guerra. Dominou-o, entretanto, um impulso honesto e delicado que o deteve até o tempo no qual se celebra a solenidade dos mistérios (35). Porque, após a ocupação da praça de Decélia, fortificada pelos lacedemônios dentro do território da Ática, quando os inimigos, mais fortes em campo raso, dominaram os caminhos que conduzem de Atenas a Eleusina, não houve mais licença para fazer-se a procissão solene por terra, com a mesma dignidade e devoção de antes, só se podendo ir até lá por mar. Os sacrifícios, as danças e muitas outras santas e piedosas cerimônias, que se costumavam fazer pelo caminho, (36) através do qual se cantava o cântico sagrado de laco, eram assim necessariamente, descuidadas e suprimidas. Pareceu portanto a Alcibíades que seria para êle obra meritória em relação aos deuses, e gloriosa em relação aos homens, devolver a essa festa e solenidade, sua forma e dignidade costumeira, acompanhando a procissão e defendendo-a das incursões e ataques dos inimigos. Alcibíades calculou que a aconteceria uma das duas hipóteses: ou Ágis, rei dos lacedemônios, não se moveria, diminuindo assim sua reputação e rebaixando sua glória, ou, caso saísse, êle Alcibíades lhe daria batalha devota e religiosa em relação aos deuses, visto que seria em defesa de suas mais santas e sagradas cerimônias e à vista do seu país, onde teria todos seus concidadãos como espectadores e testemunhas do seu valor e coragem.

(36) No grego: "conduzindo laco". Isso era feito no sexto dia da celebração dos mistérios. Vide Meursii Eleusinia cap. XXVII; e a erudita obra de Sainte-Croix, pág. 198. C.

LXXI. Tomada essa resolução Alcibíades a comunicou aos sacerdotes Eumólpidas, aos arautos e outros ajudantes e ministros dos mistérios. Dispôs, em seguida, ao longo de todo o caminho, homens de sentinela sobre as mais altas encostas da região, e enviou adiante, pela madrugada, batedores para a exploração do país. Fêz depois disso, marchar os sacerdotes, religiosos, confrarias e os demais acompanhantes em procissão, cobrindo-os a todos com seu exército que os cercava inteiramente, marchando de ambos os lados em boa ordem e profundo silêncio. Foi essa uma expedição venerável do exército, cheia de santa elevação na qual os invejosos, se quisessem confessar a verdade, diriam que Alcibíades desempenhou tanto o ofício de grande sacerdote e soberano pontífice como de general. Êle conduziu então essa procissão até o interior da cidade, sem que ninguém dos inimigos tivesse jamais ousadia de sair a campo para combatê-lo. Isso tudo o encorajou ainda mais, e aumentou a boa opinião formada sobre sua competência e sábia conduta na guerra. Consideravam-no assim como invencível, sempre que investido com plenos poderes no comando de um exército. Quanto ao povo mais humilde e gente de baixa condição Alcibíades os soube atrair e conquistar tão bem, que todos eles desejavam insistentemente fossem, a autoridade e o poder supremo usurpados por êle. Chegaram a dizer-lhe para colocar-se acima de toda inveja, exortando-o a abolir todas essas leis e costumes de se fazerem autorizar as coisas pela voz do povo. Deviam-se abolir também todas as demais loucuras que arruinavam os negócios da coisa pública. Cabia-lhe apossar-se da soberana autoridade do governo, para dispor inteiramente de tudo à sua vontade, sem temer daí por diante os caluniadores. Se jamais Alcibíades pretendeu realmente, usurpar ou não a tirania, ninguém o saberá dizer. É certo, todavia, terem os maiorais da cidade, apressado ao máximo a sua partida, temendo que êle o fizesse. Satisfizeram, para isso, a todas as suas vontades, dando-lhe até mesmo, por companheiros, no cargo de capitão, aqueles a quem êle próprio escolheu.

Nova expedição contra os lacedemônios e novas acusações contra Alcibíades.

LXXII. Alcibíades partiu enfim, com uma frota de cem galeras, indo primeiramente desembarcar na ilha de Andros. Derrotou em batalha os habitantes da ilha, juntamente com alguns lacedemônios aí presentes. Não conquistou porém, a cidade, constituindo isso uma das primeiras denúncias e imputações que os malevolentes lhe fizeram. Porque, se houve jamais homem prejudicado pela própria fama de capacidade e valor, foi certamente Alcibíades. As belas e grandes coisas por êle realizadas, tinham-lhe atribuído tal reputação de bom senso e ousadia, que quando falhava, no que quer que fosse dava margem a suspeitas, julgando-se não ter sido por impossibilidade que êle falhara, mas por falta de vontade, nada podendo escapar-lhe quando êle se empenhava a fundo. O povo por isso, prometera a si mesmo, ouvir, logo após sua partida, notícias da tomada da ilha de Quio e de todo o país da Jônia. Irritava-se assim por não chegarem tais notícias com a presteza imaginada pelo seu desejo. Não se tinha em consideração a falta de dinheiro sofrida por Alcibíades, especialmente quando fazia a guerra a inimigos, que tinham o grande rei da Pérsia por fornecedor, enquanto êle, por necessidade, era freqüentemente constrangido a abandonar seu campo e a ir daqui para ali à procura de numerário, para nutrir, pagar o soldo e entreter sua gente. E foi esse o motivo da última acusação feita contra êle. Lisandro, enviado pelos lacedemônios como almirante e capitão general do seu exército de mar, instou tanto junto a Ciro, irmão do rei da Pérsia, que obteve dele uma considerável soma em dinheiro, por meio da qual deu aos marinheiros quatro óbolos (37) de soldo ordinário por dia, enquanto não era costume deles receberem senão três. Alcibíades porém tinha grande dificuldade em fornecer aos seus marinheiros, três óbolos apenas. Assim para obter dinheiro, êle abalou-se a fazer uma incursão pela Caria.

(37) O óbolo de Atenas valia mais ou menos sete dinheiros. Amyot. Valia pouco mais de dois "sous" e sete dinheiros da moeda francesa de 1818.

LXXIII. Deixara, durante esse tempo, como seu lugar-tenente, entregando-lhe a superintendência dos navios em sua ausência, a um certo Antíoco, bom piloto, mas homem leviano, quase destituído de bom senso e com mau discernimento. Alcibíades lhe de-terminara expressamente não combater de forma alguma, nem mesmo se os inimigos lhe viessem apresentar batalha. Antíoco, todavia, revelou-se de tal forma contrário, e deu tão pouca atenção à ordem terminante recebida, que, armando a galera por êle capitaneada, juntamente com mais outra, dirigiu-se à ilha de Éfeso e foi navegar diante das proas inimigas, fazendo e dizendo vilanias e ultrajes aos tripulantes das suas embarcações. Irritado com isso, Lisandro saiu-lhe ao encontro, a princípio, com poucos navios. Os outros oficiais das galeras atenienses, vendo Antíoco em perigo, saíram em fila, para socorrê-lo. Lisandro, de seu lado, lançou-se então ao mar contra eles com toda sua frota, destroçando-os. O próprio Antíoco morreu em combate, e houve muitas galeras e homens aprisionados, razão pela qual Lisandro erigiu um troféu em sinal de vitória.

LXXIV. Alcibíades recebendo a notícia do desastre, voltou imediatamente com toda diligência para a ilha de Samos. Aí chegado, foi apresentar batalha a Lisandro com o resto de sua frota. Este porém, satisfeito com a primeira vitória, não lhe saiu ao encontro. Houve, logo em seguida, um certo Trasí-bulo, filho de Trasão, inimigo de Alcibíades que partiu do acampamento de Samos, indo diretamente para Atenas a fim de acusá-lo junto ao povo, dando a entender que êle estragava tudo, tendo perdido já vários navios por negligenciar seu cargo e dar-lhe pouca atenção, fazendo-se substituir por gente acreditada junto a êle exclusivamente por ser de agradável companhia. Segundo a denúncia, essa gente fazia Alcibíades passar seu tempo em bebedeiras, repetindo as chalaças costumeiras dos homens do mar, enquanto se deslocava, a seu bel-praver, de um lado para outro, amontoando dinheiro, e celebrando banquetes com cortesãs abidenas e jônias, mesmo a esse tempo em que o exército inimigo se encontrava táo perto do seu. Alcibíades foi também acusado, de fazer fortificar alguns castelos no país da Trácia, perto da cidade de Bisante (38) para aí retirar-se, não podendo, ou antes não querendo viver mais em seu país. Os atenienses, dando crédito a essas imputações, elegeram imediatamente outros capitães, para demonstrar a sua irritação e descontentamento contra êle.

(38) É agora chamada Rodasto.

Êle se retira para a Trácia.

LXXV. Alcibíades, sabendo disso, e temendo lhe fizessem algo ainda pior, retirou-se inteiramente do campo ateniense e reunindo certo número de soldados estrangeiros, foi fazer a guerra, por conta própria, a alguns povos trácios, independentes da autoridade de qualquer jugo. Alcibíades acumulou ali boa soma de dinheiro com os despojos conquistados, e ao mesmo tempo garantiu os gregos, habitantes dessa região, contra as correrias e invasões dos bárbaros. Os capitães atenienses, Tideu, Menan-der e Adimanto mantinham-se então com todas as galeras que restavam à cidade de Atenas, na costa vulgarmente chamada (39) o Ribeirão da Cabra, de onde todas as manhãs, durante vários dias seguidos, lançavam-se ao mar alto, e iam apresentar batalha a Lisandro, ancorado diante da cidade, de Lampsaco, com todo o exército de mar lacedemônio. Os chefes atenienses retornavam ao local de onde haviam partido, em muito má ordem, sem fazer sentinela, nem manter-se em guarda por qualquer outra forma, como gente que desprezava os inimigos. Alcibíades, achando-se em terra firme não longe dali, inquietando-se com a falta por eles cometida, foi-Jhes ao encontro, a cavalo, para observar que eles se haviam colocado mal nessa costa, onde não tinham abrigo, nem contavam com cidades, e onde necessitavam procurar seu reabastecimento muito longe, na cidade de Sestos. Observou também que eles permitiam à sua gente de mar sair fora dos navios quando junto à costa, e dispersar-se pela terra, à sua vontade, quando tinham diante deles um grande exército inimigo acostumado a obedecer prontamente às ordens de um só chefe. Alcibíades chamou-lhes a atenção, aconselhando-os a saírem dali para irem ancorar diante da cidade de Sestos. Os capitães não o quiseram escutar e o que é pior, um deles, Tideu. ordenou-lhe cheio de orgulho que se retirasse imediatamente, pois não competia a êle mas a outros, a direção do exército.

(39) Aegos Potamos.

Lisandro bate os atenienses, conquista Atenas e garante para a Lacedemônia, o império do mar.

LXXVI. Alcibíades, retirou-se, suspeitando alguma traição escondida. Ao partir disse a alguém dentre seus conhecidos, que o acompanhavam quando deixava o campo, que se os capitães atenienses não o tivessem assim repelido com tanta soberba, êle Alcibíades, constrangeria dentro de poucos dias os lacedemônios a travar batalha, mesmo contra vontade, ou a deixar e abandonar seus navios. Alguns consideraram essa declaração como pura jactância, enquanto outros julgaram-na possível porque êle estava em condições de trazer do lado de terra, grande número de trácios, gente com armas de arremesso e de cavalaria, com os quais teria caído sobre os lacedemônios pondo seu campo em confusão. Demonstrou-se, de resto, com toda evidência, que êle tinha previsto sabiamente o resultado dos erros cometidos pelos capitães atenienses, em virtude do sucedido logo depois, porque Lisandro atacou um dia. de improviso, os atenienses com tal rudeza que, do conjunto dos navios de sua frota, não se salvaram senão oito galeras com as quais fugiu Conon. As demais, nada menos de duzentas, foram todas apresadas e conduzidas cativas, com três mil prisioneiros que foram todos mortos por determinação de Lisandro. Pouco tempo depois, conquistou este a própria cidade de Atenas onde incendiou o resto de seus navios, fazendo demolir e abater suas longas muralhas.

Alcibíades dirige-se para a Bitínia com a intenção de ir à corte do rei Artaxerxes.

LXXVII. Depois desse grande acontecimento, temendo os lacedemônios, que se tinham tornado sem contraste, senhores do mar e da terra, Alcibíades passou-se para o país da Bitínia, fazendo seguir atrás de si grande quantidade de bens, e levando consigo boa soma em dinheido, sem contar o que havia deixado, além disso, nos castelos da Trácia, onde se firmara, Êle perdeu, entretanto, na Bitínia grande parte do que trazia, tomado e desviado por alguns trácios, habitantes do país. Alcibíades deliberou nessa ocasião, retirar-se para junto do rei Artaxerxes. esperando que, quando este rei o tivesse experimentado, não o julgaria homem menos útil do que fora antes Temís-tocles. O motivo de sua presença, cabia notar, seria ainda considerado mais justo, porque êle não ia propor ao rei a guerra contra seus concidadãos, nem contra seu país, como fizera Temístocles, mas ao contrário, ia pedir-lhe fosse do seu agrado socorrê-los. Pensando que Farnabazo, mais do que ninguém, lhe forneceria meios para ir com segurança até a corte do rei, tomou a direção do seu país na Frigia, onde permaneceu algum tempo a lhe fazer a corte, sendo também honrado e acarinhado por êle.

LXXVIII. Os atenienses, entrementes, sentiam-se desolados de ver seu império perdido. Quando, porém, Lisandro, após lhes ter tirado a liberdade, colocou ainda Atenas sob o domínio de trinta governadores, vendo então tudo iremediàvelmente liquidado, quando lhes teria sido possível ressurgir (40), se tivessem sido bem avisados, puseram-se juntos, a lamentar e deplorar suas misérias e desgraças, rememorando os erros e faltas cometidos, entre os quais consideravam como o maior de todos terem-se irado pela segunda vez contra Alcibíades. Porque eles o haviam expulso e repelido sem que de sua parte tivesse este praticado ofensa ou cometido crime, exclusivamente por despeito de ter, um dos seus subordinados, em sua ausência, perdido vergonhosamente, pequeno número dos seus navios. Eles entretanto, mais vergonhosamente ainda, haviam privado sua cidade do capitão de maior valor e capacidade entre os que possuíam. E apesar de tudo, tinham ainda uma vaga esperança de que seus negócios não estivessem totalmente perdidos, enquanto vivesse Alcibíades. Se antes, fugitivo e banido, êle não se contentara com viver em repouso sem nada empreender, muito menos se contentaria agora, diziam eles, e caso lhe reste algum meio, não suportará jamais o orgulho e insolência dos lacedemônios, nem as crueldades e ultrajes dos trinta tiranos.

(40) Há aqui um erro de Amyot. Meziriac notou bem que êle devia ter traduzido: "Vendo então tudo perdido, entraram eles em considerações que não tinham sabido fazer, enquanto estavam ainda em condições de manter-.se."

A Lacedemônia nada mais teme a não ser Alcibíades. Lisandro é encarregado de fazê-lo morrer. Lisandro contrata sua morte com Farnabazo.

LXXIX. Não era totalmente desarrazoado que a plebe desenvolvesse tais fantasias em sua maneira de julgar, pois mesmo os trinta governadores desenvolveram todos os esforços para procurar saber e inquirir cuidadosamente qual a atitude de Alcibíades, e como pretendia agir. Crítias, finalmente, fêz observar a Lisandro que a cidade de Atenas, não estando mais sob a autoridade e governo do povo, podiam os lacedemônios considerar-se e declarar-se como firmes senhores de toda a Grécia. Mas embora o povo de Atenas, de si mesmo, se acomodasse a sofrer pacientemente o jugo de um pequeno número de governadores, jamais Alcibíades, enquanto existisse, deixá-los-ia viver em paz e procuraria constantemente, suscitar e acender na cidade alguma agitação. Lisandro porém não se deixou de todo levar pela sugestão, sem que primeiro lhe fosse enviada uma ordem especial pelos magistrados da Lacedemônia, onde lhe era expressamente determinado tirar Alcibíades deste mundo, a qualquer preço. Os magistrados agiam assim seja por medo real à subtileza de seu espírito e á grandeza de sua coragem em empreender todas as coisas as altas arriscadas, seja por desejarem, com isso. agradar ao rei Ágis. Tendo recebido essa ordem, Lisandro, para poder executá-la. transmitiu-a a Farnabazo, que a deferiu a seu irmão Mageu e a seu tio Susamitres.

Alcibíades é morto na Frigia.

LXXX. Encontrava-se então Alcibíades em certo burgo da Frigia, em companhia de uma sua concubina de nome Timandra. Viu-se uma noite, enquanto dormia, como se estivesse vestido com a roupa dessa sua concubina que o mantinha entre os braços e lhe adornava a cabeça, pintando e enfeitando seu rosto como se ele fosse mulher. Dizem outros ter êle pressentido que Mageu lhe cortava a cabeça e fazia queimar seu corpo. Afirmava-se ter sido bem pouco tempo antes de sua morte que êle teve essa visão. Os encarregados de matá-lo não tendo tido a ousadia de penetrar na casa onde êle se encontrava, atearam-lhe fogo de todos os lados. Mal Alcibíades ouviu o barulho, juntou o que pôde de vestimentas, tapeçarias e outros panos, e os lançou sobre o fogo, tentando abafá-lo. Enrolando depois o manto em torno do braço esquerdo, tomou a espada nua na mão direita e atirou-se para fora de casa sem que o fogo lhe causasse outro dano a não ser o de queimar-lhe ligeiramente as vestes. Os bárbaros, mal o perceberam, recuaram dispersando-se, sem que houvesse nenhum capaz de esperá-lo para combatê-lo de perto. De longe porém, lançaram tal quantidade de dardos e flechas sobre êle, que o mataram no lugar. Quando depois se retiraram, Timandra foi recolher seu corpo a quem envolveu e amortalhou nos seus melhores tecidos dando-lhe sepultura na forma mais honrosa possível, com os bens que pôde recuperar. Conta-se que Laís, a tão afamada cortesã apelidada a Corintia, embora nascida em uma pequena cidade da Sicília chamada Hicaro (41) onde tinha sido recolhida, era filha dessa Timandra.

(41) Atualmente Carini.

LXXXI. Quanto à morte de Alcibíades, há quem, concedendo como verdadeiro todo o resto do meu escrito, negam ter sido Farnabazo ou Lisandro ou os lacedemônios que o fizeram matar. Dizem que Alcibíades tendo consigo uma jovem de nobre estirpe, corrompida e seduzida por êle, seus irmãos, não podendo suportar a injúria, foram incendiar a casa onde êle se encontrava, matando-o na forma descrita, no momento em que pretendia lançar-se, de um salto, para fora do fogo.


Fonte: Edameris. Tradução brasileira de Paulo Edmur de Souza Queiroz.

nov 132010
 
Arte etrusca

VIDAS PARALELAS DE PLUTARCO

AGESILAU

Nascimento e educação de Agesilau.

Arquidano, filho de Zeuxidamo, tendo reinado gloriosamente na Lacedemônia, deixou dois filhos, um dos quais foi Ágis, filho de uma notável dama chamada Lampido e o outro foi Agesilau, muito mais moço, de quem era mãe a filha de Melissípidas, que tinha por nome Eupolia. Como a sucessão ao reinado pertencesse ao filho mais velho, Agesilau devia permanecer como cidadão comum e foi criado e educado, assim, na disciplina lacônica, a qual era muito dura e penosa, mas com a vantagem de ensinar aos meninos uma rígida obediência. Considera-se que seja esta a causa pela qual o poeta Simônides chama Esparta damasim-brotos, isto é, domadora dos homens, porque ela torna, pelo longo hábito, seus cidadãos maleáveis e obedientes às suas leis, tanto ou mais do que qualquer outra cidade que tenha existido no mundo, domando-os desde a sua infância, como se faz com os potros. A lei isentava e dispensava desta sujeição os meninos que deviam suceder na realeza; mas Agesilau recebeu-a mais naturalmente do que os outros em idênticas circunstâncias, pois chegando a comandar, tendo aprendido desde a infância a obedecer, foi esta causa de saber melhor que qualquer outro rei acomodar-se e comportar-se com seus súditos, amoldando, juntamente com a grandeza real e as maneiras de príncipe, a cortesia e o hábito de contentar-se com o pouco, que havia adquirido pela educação.

Seu retrato físico e moral.

II. No tempo em que ele se achava fazendo parte daqueles grupos de crianças que são educadas juntas, Lisandro, afeiçoou-se a ele, principalmente devido à sua gentileza, pois sendo mais corajoso e mais firme em suas opiniões do que qualquer outro, como aquele que deseja, em todas as coisas, ser o primeiro, com uma veemência e uma impetuosidade tão grandes em tudo quanto queria, que era impossível vencê-lo ou forçá-lo, era, por outro lado, tão dócil e tão flexível, que fazia tudo quanto lhe ordenavam com delicadeza, nada fazendo, entretanto, por medo, pois sentia mais ser censurado do que ser sobrecarregado de trabalho. E quanto à imperfeição da sua perna, que era mais curta do que a outra, a beleza de sua pessoa que estava então desabrochando, aliada à sua gentileza, tornavam-no tão paciente e tão alegre que ele mesmo era o primeiro a caçoar e a se regozijar, o que cobria grandemente o seu defeito e fazia com vantagem aparecer a grandeza de sua coragem, pois por ser manco, não recusava por isso trabalho algum, Quanto ao seu rosto, não poderemos retratá-lo nunca, porque ele não queria e proibiu expressamente em seu testamento, que fizessem pintura ou modelassem a imagem de seu corpo, o que se presume, por ser de pequena estatura e por esperar muito pouco de si mesmo para ver. Mas como estava sempre alegre e disposto e nunca triste ou irritado, nem por palavras, nem pela fisionomia, isto o tornava mais agradável e mais amável, mesmo em sua velhice; todavia os éforos (1), conforme Teofrasto escreve, condenaram a pagar a multa seu rei Arquidamo, porque este havia desposado uma mulher de pequena estatura, e que assim engendraria reizinhos e não reis.

(1) Designação dada, em Esparta, aos cinco magistrados eleitos para fiscalizar e contrabalançar a autoridade dos reis.

Relações de Alcibíades com Timéia, mulher do rei Agis, que não reconheceu seu filho Leotíquides, senão na hora da morte.

III. Mas, na época em que Ágis, filho mais velho de Arquidamo, reinou, Alcibíades, expulso de Atenas, fugiu da Sicília para a Lacedemônia, e não fazia muito tempo que estava em Esparta quando foi suspeito de entreter relações com a mulher do rei Ágis, que se chamava Timéia, de forma que, por esta razão, Ágis jamais considerou seu filho a criança que ela teve, dizendo que a havia concebido de Alcibíades. Timéia nunca se preocupou absolutamente com isto, pois, conforme Duris escreve, algumas vezes, estando ela em sua alcova, entre as mulheres que a serviam, chamava a criança, baixinho, Alcibíades e não Leotíquides; também, segundo consta, Alcibíades mesmo dizia que não era para fazer mal nem desgostar a pessoa alguma que se havia aproximado da rainha Timéia, mas somente porque desejava que houvesse reis da Lacedemônia engendrados de sua semente. Todavia, foi constrangido, nessa ocasião, a sair fora da Lacedemônia, devido a desconfiança que tinha do rei Agis, o qual sempre teve a criança por suspeita, não a considerando nunca por legítima, até que, caindo doente, no leito da morte, Leotíquides foi se jogar de joelhos, as lágrimas nos olhos, à sua frente e soube tão bem agir, que Ágis, na presença de testemunhas, declarou que o reconhecia por seu filho.

Agesilau lhe toma a coroa, com a influência de Lisandro

IV. No entanto, depois da morte de Ágis, Lisandro, que havia derrotado os atenienses por mar e tinha mais influência e autoridade na cidade de Esparta do que qualquer outro, empreendeu fazer cair a realeza sobre Agesilau, dizendo que ela não pertencia a Leotíquides, levando em conta que era bastardo; o mesmo diziam também vários outros dos cidadãos que estimavam a virtude de Agesilau e o favoreciam muito afetuosamente, porque havia sido criado e educado com eles. Mas também, ao contrário, havia em Esparta um adivinho chamado Diópites, que sabia de cor uma infinidade de profecias antigas e era tido como grande sábio e homem de autoridade em tudo o que se referia às coisas divinas, o qual afirmava que não era permitido a um manco ser rei de Esparta e, para provar, alegou em juízo este antigo oráculo:

Olhai bem, ó nação espartana,
Se bem que sejas em coragem altiva,
Que realeza manca não germine
Em ti, que tens o porte reto e firme;
Pois de outra forma desgraças te virão
Não esperadas, que muito tempo te manterão
Enolvida em tormentas de guerra,
Que de homens torna despovoada a terra.

Lisandro, refutando, replicou que se os espar-tanos temiam este oráculo, era antes de Leotíquides que se deviam guardar, porque não interessava em nada aos deuses que alguém, tendo um pé esfolado, Viesse a ser rei, mas sim que fosse legítimo e verda-deiramente oriundo da raça de Hércules; pois seria então, dessa forma, dizia ele, que a realeza viria a coxear. Agesilau alegava ainda mais que o mesmo o deus Netuno havia testemunhado que Leotíquides era bastardo: pois havia constrangido Agis, por um tremor de terra, a sair do quarto de sua mulher e que assim, mais de dez meses depois, havia nascido Leotíquides. Foi assim que Agesilau, por essas razoes e por esses meios, não somente foi declarado rei de Esparta, como também lhe foi adjudicada a sucessão de bens de seu irmão Ágis e negada uma demanda a Leotíquides; todavia, vendo que os parentes do lado de sua mãe eram extremamente pobres, mas pessoas de bem, deixou-lhes a metade de seus haveres, com o que conquistou honra e benevolência de todo o mundo, em vez de inveja e malevolência que, ao contrário, teria levantado por causa desta sucessão.

Adquire grande autoridade.

V. E, com relação ao que Xenofonte escreve, de que, obedecendo ao seu país, adquiriu tão grande poder, que fazia completamente tudo quanto queria, eis o que havia: os éforos e os senadores possuíam então soberana autoridade no governo do Estado, mas aqueles não ficavam em seus cargos senão um ano e os senadores conservavam esta honra durante toda a vida, sendo ordenados e estabelecidos para refrear a autoridade dos reis, a fim de que não tivessem todo o poder, pois como escrevemos mais amplamente na vida de Licurgo, na ocasião em que os reis vinham a suceder-se no reinado, tinham sempre uma desavença e uma inimizade hereditária, por assim dizer, entre eles. Mas Agesilau seguiu um caminho inteiramente contrário ao de seus predecessores, pois em vez de altercar com eles expressou-lhes toda a honra e toda a reverência, não empreendendo nada sem que não lhes comunicasse primei-ramente e, quando era chamado por eles, cami-nhava mais depressa do que o próprio passo. Todas as vezes que eslava em seu trono a dar audiência e os éforos apareciam, levantava-se à frente deles, e quando um novo senador vinha a ser eleito, enviava-lhe um traje e um boi como prêmio. Por estes meios êle aumentava e honrava a dignidade de seus cargos, e sorrateiramente ia ampliando seu próprio poder e anexando à realeza a grandeza procedente da benevolência que lhe testemunhavam.

Eqüidade de Agesilau em face de seus inimigos; sua fraqueza para com os amigos.

VI. Quanto ao seu mau comportamento para com alguns cidadãos, era menos repreensível inimigo do que amigo, pois como não prejudicava jamais injustamente aos seus desafetos, mas ajudava, muitas vozes, erradamente e em coisas injustas, aos seus amigos, com vergonha de não recompensar e honrar suficientemente seus inimigos quando estes haviam procedido bem, não podia também condenar nem censurar seus amigos ainda que tivessem agido mal, considerando que nada podia ser reprovável do que faziam. Ao contrário, se acontecia que algum de seus adversários ficava aflito, era o primeiro a mostrar compaixão e o socorria voluntariamente, se o outro reclamava: por estes meios ganhou a boa graça e a amizade de todo o mundo. Os éforos, vendo tal e temendo seu poder sempre crescendo, condenaram-no ao pagamento de uma multa, ajuntando, que isto era porque êle possuía sozinho os corações dos cidadãos, os quais deviam ser comuns. Na verdade, assim como há filósofos naturais que mantêm a opinião de que quem fizesse desaparecer do mundo a discórdia e a disputa, o curso dos corpos celestes pararia e a geração e todo o movimento cessariam, porque dizem ser a razão a mantenedora da harmonia deste mundo, também parece que quem estabeleceu as leis dos lacedemônios misturou no governo, a ambição e a inveja entre os cidadãos, como um aguilhão da virtude, querendo que as pessoas de bem tivessem sempre alguma coisa a debater com os outros, estimando que aquela covarde e preguiçosa graça pela qual os homens se concedem e se perdoam a si mesmos, sem se controlar, era com falsas insígnias, denominada concórdia. Pensam alguns que certamente Homero (2) teve esta mesma opinião porque, do contrário, não faria Agamenon se alegrar ao ver Ulisses e Aquiles altercar com pesadas palavras, se não considerasse que o debate e a inveja entre homens influentes (o que os faz terem olho aberto um sobre o outro) se tornaria um grande bem em favor da coisa pública; todavia, sem dúvida isto não é assim nem se deve ocasionalmente concordar, porque as discussões e as divergências excessivas entre os cidadãos são muito perigosas e prejudiciais ao bem público.

É nomeado para guerrear o rei da Pérsia.

VII. Pouco depois de Agesilau ter alcançado o trono da Lacedemônia, chegaram alguns viajantes da Ásia trazendo notícias de que o rei da Pérsia estava preparando uma poderosa armada com o objetivo de destituir os lacedemônios da prioridade nos mares. Além disso, Lisandro, desejando ser outra vez enviado à Ásia para socorrer seus amigos, os quais havia deixado como senhores e donos das cidades e fortes do país, de onde estavam sendo expulsos por seus cidadãos, outros castigados de morte porque abusavam violenta e tiránicamente de sua autoridade, sugestionou Agesilau a que empreendesse viagem e passasse à Ásia, para ir guerrear esse rei bárbaro longe da Grécia, antes que sua armada e seu equipamento ficassem prontos. Para conseguir isto mais facilmente, escreveu aos seus amigos da Ásia pedindo enviassem a Esparta solicitação para que seu capitão fosse Agesilau, o que eles fizeram; e Agesilau, em plena assembléia do conselho da cidade, aceitou o cargo, com a condição de lhe entregarem trinta capitães espartanos para o assistir e aconselhá-lo em seus empreendimentos, dois mil escravos libertos e seis mil dos aliados da Lacede-mônia. Isto lhe foi fácilmente concedido mediante a interferência de Lisandro e enviaram-no logo com os trinta capitães, dos quais Lisandro foi o primeiro, não somente pela autoridade e reputação que havia adquirido, como também pela amizade que tinha por Agesilau, o qual se sentia mais preso a êle por lhe haver conseguido aquela posição do que por tê-lo feito chegar à realeza.

(2) Odisséia, L. VIII, v. 77.

Sacrifício de uma corça a Diana.

VIII. Enquanto o exército se reunia no porto de Geresto, Agesilau, com alguns de seus amigos, foi à cidade de Áulida, onde lhe aconteceu que à noite, dormindo, alguém lhe disse: — "Ó rei dos lacedemônios, sabes que nunca houve capitão-general eleito em toda a Grécia, a não ser antigamente Agamenon e tu agora, depois dele, e para que comandes os mesmos povos que ele, quando vais guerrear os mesmos inimigos, partindo do mesmo local, é razoável que faças um mesmo sacrifício à deusa, como ele fez, à sua partida". Agesilau, tão logo teve esta visão, lembrou-se de que Agamenon, persuadido pelos adivinhos, sacrificava naquele mesmo lugar sua própria filha; todavia ele não se assustou, e de manhã deu conta a seus amigos do acontecido e disse-lhes que sacrificaria à deusa, achando ser verossímil que ela se agradasse, mas não queria imitar a cruel devoção do antigo capitão Agamenon. E, dizendo isto, mandou trazer uma corça coroada com flores, ordenou a seu adivinho que a imolasse, não concordando que tivesse a honra desse feito, como era costume no lugar, aquele que fora escolhido pelos da Beócia; ouvindo isto, os magistrados e governadores da Beócia ficaram descontentes e enviaram seus beleguins a Agesilau, intimando-o a que desistisse de sacrifícios ali naquele local, contra as leis, privilégios e costumes do país. Os que foram enviados fizeram-lhe saber sua missão, mas vendo que o animal já havia sido imolado e seus quartos jaziam sobre o altar, eles se apoderaram daqueles restos e os atiraram fora. Isto irritou Agesilau, que estava na hora de seu embarque e dali saiu furioso contra os tebanos, com desagradável impressão de sua viagem por causa desse sinistro presságio, o qual lhe parecia prognosticar que tal saída não dana o resultado que desejava.

Inveja de Lisandro.

IX. Chegando à cidade de Éfeso, ficou logo descontente com as honras prestadas a Lisandro, vendo o seu grande séquito, pois todos iam continuamente à sua casa para homenageá-lo e, quando saía seguiam-no e acompanhavam-no por toda a parte, como se Agesilau não tivesse senão o nome e a aparência de capitão-general pelas leis da Lacede-mônia, e como se Lisandro fosse aquele que, em verdade, tivesse o poder e a autoridade sobre tudo, pois nunca havia sido enviado capitão grego nessas condições, isto é, que tivesse adquirido tanta reputação, nem se tivesse feito tão temível quanto êle, nem jamais houve homem que fizesse mais benefícios aos seus amigos, nem maiores danos a seus inimigos; estas coisas, estando ainda vivas na lembrança de todos, os do país ainda se lembravam e viam em Agesilau um homem simples, popular, que pouco se mostrava em sua maneira de agir; ao contrário, reparavam em Lisandro a mesma veemência, a mesma aspereza e sobriedade no falar que haviam outrora conhecido; por isso, todo o mundo se dobrava completamente diante dele, acontecendo que só êle comandava. Isto foi a causa pela qual os outros espartanos de início se zangaram, porque parecia terem vindo para servir a Lisandro e não para aconselhar o rei. Mas, depois, Agesilau mesmo se aborreceu e ficou descontente também, se bem que por natureza não fosse invejoso nem se ressentisse quando honravam outros que não ele; sendo, porém, por natureza, muito ambicioso de glória e homem corajoso, tinha receio de que se praticasse algum belo feito nessa guerra, o atribuíram a Lisandro, pela grande reputação que desfrutava; assim, começou a portar-se desta maneira para com ele: primeiramente, contradizia todos os seus conselhos e todas as empreitadas que lhe punha à frente; mesmo aquelas a que ele se mostrava mais aficionado, não executava nenhuma, mas tomava outras em seu lugar. Ainda mais se alguém tivesse contas a acertar com ele ou reclamasse alguma coisa, se se apoiavam sobre o favor de Lisandro, enviava-os de volta sem nada fazer.

Trata Lisandro de tal maneira que o obriga a separar-se.

X. Semelhantemente, também os julgamentos, se havia alguns que Lisandro considerava mal, podiam estes interessados estar seguros de ganhar seus processos; ao contrário, se Lisandro se afeiçoava a algum e o desejava recompensar, era difícil salvar-se da condenação a multa. Todas estas demonstrações se faziam ordinariamente, não por acaso, uma ou duas vezes, mas igualmente, como de propósito deliberado. Lisandro, desconfiando da coisa, não a escondeu aos seus amigos, mas lhes disse francamente que era por sua causa que lhe faziam isto. Portanto, aconselhou-os a que fossem fazer a corte ao rei e aos que tinham mais força do que ele.

Agesilau considerou que ele dizia e fazia tudo isto para suscitar o ódio do mundo contra êle; por isto, desejando causar-lhe ainda maior despeito, estabeleceu-o como comissário dos víveres e distribuidor das carnes. E, depois de haver assim feito, segundo escrevem, êle disse em voz alta na presença de diversos que o puderam ouvir: — "Que vão agora fazer a corte ao meu distribuidor de carne". Lisan-dro, lamentando-se, disse-lhe: — "Francamente, rei Agesilau, sabes muito bem como deves engolir teus amigos". "Faz-se isto, respondeu Agesilau, aos que desejam passar sobre minha autoridade e ser maiores do que eu". "Vê, replicou Lisandro, não o fiz como estás dizendo; todavia, se tens tal opinião, dá-me algum cargo e algum lugar no qual, sem te zangar, eu possa ser útil".

Ressentimento de Lisandro.

XI. Depois desses propósitos, Agesilau en-viou-o para o Helesponto, onde Lisandro subornou um persa chamado Espitrídates, da província de Farnabazo, e o enviou a Agesilau com forte soma de ouro e de prata, e aproximadamente duzentos homens a cavalo; nem por isso a má vontade que havia concebido contra o rei diminuiu, mas ao contrário, guardou sempre o rancor em seu coração; de tal forma, procurava sempre os meios de fazer retirar das duas casas reais o privilégio que usufruíam da realeza, para a por em comum com todas as famílias dos espartanos; assim agindo, levantaria grande tumulto na cidade de Esparta, se não fosse morto tão cedo, como aconteceu numa viagem que empreendeu ao país da Beócia. Eis como as grandes naturezas ambiciosas, não podendo manter o meio termo e excedendo-se na direção da coisa pública, são muitas vezes causa de maior mal do que bem; ainda que Lisandro houvesse ficado ofendido e importuno, como estava verdadeiramente mostrando assim sua ambição fora do tempo e da estação, Agesilau não ignorava que havia muitos outros meios menos repre-ensíveis de castigar um personagem grande e ilustre, que pecava pela ambiciosa cobiça de mostrar somente a sua pessoa. É do meu aviso que todos os dois, cegos por uma mesma paixão, faliram; um, por não reconhecer o poder de seu superior, e o outro por não poder suportar a ignorância e a imperfeição de seu amigo.

Agesilau entra na Frigia, onde se apodera de diversas cidades.

XII. Ora, de início, Tissafernes, temendo Agesilau, teve alguma trégua com ele, entendendo que o rei se contentaria em deixar as cidades gregas da Ásia em plena liberdade; mas, desde que julgou haver reunido forças suficientes para o combater, declarou-lhe a guerra, a qual Agesilau aceitou, mesmo porque tinha grandes esperanças na Grécia, do que fana alguma coisa grandiosa nessa viagem e, pessoalmente, considerava uma grande vergonha, que os dez mil gregos, voltando do fundo da Ásia até o mar maior (3), sob o comando de Xenofonte, tivessem vencido e derrotado o exército do rei, tantas vezes quantas quiseram, e ele que era capitão-general dos lacedemônios, os quais ditavam a lei no mar e na terra, não praticara nenhum ato digno de memória entre os gregos. Assim, para vingar sem demora a deslealdade perjura de Tissafernes, fingiu primeiramente querer entrar no país da Caria; por esse meio, o bárbaro aí amontoou toda a sua força, mas de súbito voltou a rédea, rápido, e se atirou dentro da Frigia, onde se apoderou de diversas cidades, ganhando muitos bens, fazendo ver à sua gente que violar o acordo de paz ou trégua que juraram, significava menosprezar os deuses; mas decepcionar e abusar de seus inimigos não é somente justo, mas também honroso e traz proveito, unido ao prazer.

(3) «Maior» não está no grego.

Forma-se um esquadrão de cavalaria.

XIII. Desse modo, porque era o mais fraco da cavalaria e as entranhas dos animais sacrificados aos deuses se achavam defeituosas, Agesilau voltou para a cidade de Éfeso, onde reuniu cavalarianos, dando a entender aos homens ricos que não desejavam pessoalmente guerrear, que os dispensava, sob a condição de fornecerem um homem e um cavalo de serviço em seu lugar, e muitos assim fizeram, de maneira que, em poucos dias, Agesilau encontrou bom número de valorosos guerreiros, ao invés de infantes que não valiam nada; esses que não iam com vontade à guerra assalariavam os que iriam de boa vontade em seu lugar e igualmente também os que não desejavam servir a cavalo, no que seguiu sabiamente o exemplo do rei Agamenon (4), o qual dispensou um rico pusilânime de ir pessoalmente guerrear, tomando-lhe um bom jumento.

(4) Ver a Ilíada, L. XXIII, v. 295.

Agesilau faz vender os prisioneiros nus para mostrar a fraqueza dos persas.

XIV. Ora, havia ele ordenado aos comissários que vendiam publicamente em leilão, a quem mais oferecesse, os prisioneiros de guerra, que os despojassem, deixando-os nus, o que fizeram; e havia muita gente que comprava de bom grado seus despojos e suas vestes; mas, quanto aos corpos, ironizavam vendo-os assim brancos, delicados e tenros, por terem sido criados nas delícias da sombra, cobertos, de tal modo que se encontrava poucas pessoas animadas a fazerem oferta, porque os consideravam pessoas inúteis, nada valendo. Então Agesilau, encontrando-se presente ao leilão, expressamente para esse fim, disse a sua gente: — "Vede, meus amigos, ali estão as pessoas a quem tereis de combater e aqui os despojos pelos quais combatereis".

Derrota Tissafernes e toma seu acampamento.

XV. Depois, tendo chegado a ocasião de se organizar em campanha e entrar no país dos inimigos, Agesilau disse publicamente que entraria dentro da Lídia, não mais com a intenção de enganar Tissa-fernes; mas este mesmo se enganou, pois por ter sido decepcionado a primeira vez, não depositou mais fé nessa segunda proclamação, mas persuadiu-se de que seria por esse golpe que Agesilau entraria na Caria, levando em conta que era um país de solo desigual e desagradável para a cavalaria, no que se sentía mais fraco; não obstante, Agesilau entrou, como havia predito, dentro da região plana, na qual está situada a cidade real da Lídia, Sárdis. Tissafernes foi constrangido a acorrer em socorro, apressadamente, e chegando com extrema diligência, com sua cavalaría, surpreendeu pelos campos, vários dos inimigos afastados em desordem, daqui e dali, pilhando a planície e passando a maioria à espada. Ouvindo isto, Agesilau, falando consigo mesmo que os soldados de infantaria de seu inimigo não podiam ter ainda chegado e que êle, ao contrário, tinha o seu exército completo, por esse meio pensou ser melhor acudir prontamente à batalha do que a prolongar por mais tempo; misturou por entre a cavalaria seus soldados de infantaria superficialmente armados, ordenando-lhes que fossem rapidamente atacar o inimigo, enquanto êle faria seguir na retaguarda os outros, pesadamente armados, o que fizeram. Mas os bárbaros se puseram logo a caminho e os gregos, perseguindo-os Vivamente, e de perto, tomaram-lhes o acampamento e mataram um grande número de fugitivos.

Os lacedemônios lhe dão o comando geral em terra e mar, o que era sem precedentes.

XVI. Depois desta batalha tiveram meios, não somente de percorrer e pilhar o país do rei à vontade, como também de verificar o castigo de Tis-safernes, que era homem mau e rude inimigo da nação grega: pois o rei da Pérsia enviou imediatamente em seu lugar um outro tenente seu chamado Titrausto, que lhe mandou cortar a cabeça, e enviou uma proposta a Agesilau, solicitando-lhe atender ao despacho e oferecendo-lhe uma certa quantidade de ouro e prata para voltar a seu país. Agesilau respondeu que, quanto à paz, não competia a ele firmá-la e sim aos lacedemônios e que se achava mais à vontade para enriquecer seus soldados do que a si próprio; mas, além disso, os gregos não consideravam honroso aceitar presentes do inimigo, e sim os despojos; todavia, querendo gratificar Titrausto, porque havia vingado um inimigo comum de todos os gregos, conduziu seu exército para fora da Lídia, na Frigia, mediante a soma de trinta talentos (5) que lhe entregou pelos seus gastos. Assim, quando estava pelo caminho, recebeu (6) um bilhetinho dos oficiais e magistrados de Esparta, que lhe diziam ter-lhe entregue o comando da armada è o exército de terra, o que jamais outro capitão lacedemônio, antes dele, havia tido. Aliás era ele, sem contradição, o maior e o mais digno personagem vivo de seu tempo, conforme Teopompo escreve, como aquele que se fazia estimar mais pela sua virtude e não pela grandeza de sua autoridade; todavia, parece que neste lugar ele cometeu uma falta, ao fazer seu tenente, na armada, um tal Pisandro, irmão de sua mulher, quando devia haver outros capitães mais sábios e experimentados, tomando assim mais cuidado em gratificar sua mulher e honrar um aliado seu, do que fazer o que era mais útil para o país.

(5) Dezoito mil escudos. Amyot.
(6) Uma scytale — bastão cilíndrico, sobre o qual os espartanos enrolavam em espiral as margens do pergaminho servido para escrever os despachos do Estado. O próprio despacho.

Vai atacar o sátrapa Farnabazo, na Frigia.

XVII. Isto feito, conduziu seu exército pelas províncias de Farnabazo, onde encontrou, não somente abundância de víveres, mas também grande soma de dinheiro; dali passou ao reino da Pafla-gônia, onde fez aliança com o rei Cotis, que procurou afetuosamente sua amizade, pela virtude e constante fé que se achavam nele; como fez também Espitrídates, o qual abondonou Farnabazo para entregar-se a Agesilau, e depois que se entregou, nunca mais se separou dele, mas o seguiu e acompanhou sempre por toda a parte. Tinha ele um filho que era um menino muito bonito, chamado Mega-bates, do qual Agesilau estava enamorado e uma filha muito formosa prestes a casar, que Agesilau fez desposar o rei Cotis: tomando dele mil homens da cavalaria, com dois mil homens da infantaria superficialmente armados, voltou à Frigia onde destruiu as províncias sob o governo de Farnabazo, o qual não ousava enfrentá-lo no campo, nem mesmo fiar-se em suas fortalezas, e ia sempre fugindo à sua frente, levando consigo a maioria de tudo o que mais apreciava e que lhe era mais caro, retirando-se sempre para trás, de um sítio para o outro, até que Espitrídates acompanhado por um espartano chamado Erípidas, apertou-o um dia de tal forma, que lhe tomou o acampamento, apoderando-se de todo o mobiliário precioso que levava consigo. Mas ali Erípidas mostrou-se um tanto brusco em rebuscar o que havia sido subtraído do saque, obrigando os bárbaros a se entregarem, chegando ao ponto mesmo de querer visitar e remexer tudo. Isto irritou tão fortemente Espitrídates, que se retirou imediatamente com os paflagonianos para a cidade de Sár-dis, pelo que Agesilau irritou-se também com o que lhe estava acontecendo em toda essa viagem, desolado por haver perdido um homem de bem como Espitrídates e a tropa de guerreiros que levava consigo, e que não era nada pequena; tinha ainda receio que percebessem essa mesquinharia da qual havia sempre procurado manter-se puro e limpo, não somente a si, mas também a todos os de seu país.

Amor de Agesilau por Megabates.

XVIII. Mas, além dessas causas aparentes, ainda o apunhalava fortemente o amor do menino, que estava profundamente impresso em seu coração, tanto que, quando o tinha junto a si, seguindo sua natural tendência de não querer jamais ser vencido, esforçava-se por combater seu desejo, de maneira que um dia Megabates aproximando-se dele para acariciá-lo e beijá-lo, êle virou a cabeça, e o menino, envergonhado absteve-se, daí em diante, não ousando mais saudá-lo, senão de longe. Isto desagradou por outro lado a Agesilau, arrependido de haver desviado o beijo de Megabates e fingia admirar-se, porque êle não o saudava mais com um beijo como o havia acostumado, ao que alguns de seus familia-res lhe responderam então: — "Tu mesmo és a causa, majestade, que não ousaste esperar, mas tiveste medo do beijo de um tão belo menino; pois voltará ele tão logo se lhe diga, contanto que te ihslenhas de fugir outra vez, como já fizeste". Ouvidas estas palavras, Agesilau ficou um espaço de tempo muito pensativo, sem dizer nada e por fim respondeu-lhes: — "Não há necessidade que vós lhe faleis disso, pois eu vos asseguro que ficaria mais a vontade em poder ainda resistir a tal beijo, do que se tudo o que vejo diante de mim se transformasse em ouro’ . Assim se comportou Agesilau para com Megabates enquanto estava a seu lado, mas ao contrário, quando foi afastado, ele se encontrou tão ardentemente apaixonado, que seria difícil afirmar, se o menino voltasse outra vez e fosse apresentado à sua frente, se ele se defenderia ou se deixaria beijar.

Entrevista de Agesilau e Farnabazo.

XIX. Depois Farnabazo, procurando falar com ele, reuniu-os juntos um ciziceniano chamado Apolofânio, que era amigo comum de ambos; chegou primeiro Agesilau com seus amigos ao lugar marcado para a entrevista e, esperando Farnabazo, atirou-se sob uma árvore na sombra sobre a relva que estava alta e abundante, até que Farnabazo aí chegou também, ao qual estenderam peles macias de longo pêlo e tapetes lavorados em diversas cores, para se sentar em cima; entretanto, tendo vergonha de ver Agesilau assim deitado por terra sobre a relva nua, deitou-se também junto dele, se bem que trajasse uma veste de tecido maravilhosamente fino e de cores muito ricas. Depois de se terem saudado, Farnabazo começou a falar, não faltando as boas admoestações e justas lamentações, como aquele que havia causado tanto prazer aos lacedemônios na guerra contra os atenienses e como recompensa encontrava-se então pilhado e saqueado por eles. Agesilau, vendo os outros espartanos que assistiam a esta entrevista abaixarem os olhos de vergonha, não sabendo o que responder, porque não ignoravam que causavam dano a Farnabazo, tomou a palavra e respondeu desta maneira: — "Quando viemos para aqui, Farnabazo, sendo amigos do rei, agimos como amigos e agora que nos tornamos inimigos, agimos também como inimigos; vendo que queres ser um dos seus escravos, não é nada extraordinário se procuramos prejudicá-lo, fazendo-te mal: mas do momento que tu prefiras mais ser amigo e aliado dos gregos do que escravo do rei da Pérsia, considera que estes guerreiros, estas armas e estes navios, nós todos aqui estamos para guardar e defender teus bens e tua liberdade contra ele, sem a qual não há nada de belo, de bom nem de desejável neste mundo". A isto lhe respondeu Farnabazo abertamente, dando-lhe a entender qual era sua intenção: — "Pois se o rei, disse ele, enviar aqui um outro capitão para ser seu comandante, assegurai-vos que eu me tornarei imediatamente um dos vossos; mas lambem, se ele me dá o cargo e superintendência nesta guerra, não esquecerei, com diligência e afeição de fazer inteiramente tudo o que puder pelo seu serviço contra vós". Esta resposta agradou a Agesilau, o qual lhe tomando a mão ao se levantar com ele lhe disse: — "Oxalá, Farnabazo, que tendo um coração, como tens, fosses nosso amigo, e não nosso inimigo".

Estreita amizade de Agesilau com o filho de Farnabazo.

XX. Mas, assim que Farnabazo voltava com seus soldados, seu filho, que lhe havia ficado atrás, correu para Agesilau e, rindo, lhe disse: — "Majestade, quero entreter amizade e hospitalidade contigo", e dizendo isto lhe apresentou um dardo que mantinha em sua mão. Agesilau aceitou, ficando bem à vontade para ver que o menino era belo e quão gentil era o agrado que lhe fazia; olhou ao seu redor para verificar se havia alguém em sua companhia que tivesse alguma coisa de belo que pudesse ser próprio para lhe render igual prova, e percebendo o cavalo de um secretário seu, chamado Adeus, que estava arreado com um belo e rico arreio, mandou imediatamente retirá-lo e deu-o ao belo e gentil rapazinho, o qual depois, jamais esqueceu; mas algum tempo mais tarde, sendo expulso da casa de seu pai e privado de seus bens por seus irmãos, constrangido a fugir para o Peloponeso, teve-o sempre em singular recomendação, chegando mesmo a ajudá-lo em seus amores (7), pois o moço queria muito afetuosamente a um rapazinho ateniense, que se desenvolvia nos exercícios físicos para um dia competir nos jogos; mas, quando se tornou grande e rijo e se apresentou para ser arrolado no número daqueles que deviam tomar parte nos jogos Olímpicos, correu o perigo de ser rejeitado, pelo que o persa, que o amava, recorreu a Agesilau, solicitando-lhe auxiliar ao jovem campeão, de sorte que não sofresse mais a vergonha de ser recusado. Agesilau, desejando ajudá-lo até o fim, dedicou-se e obteve o que pedia, não sem grande trabalho e dificuldade.

(7) Ver as Observações.
(8) A Hidria.

Agesilau ama seus amigos além das leis da eqüidade.

XXI. Assim Agesilau, em todas as outras coisas era bem rígido e observava pontualmente tudo o que as leis ordenavam, mas nos negócios de seus amigos, ele dizia que guardar estreitamente a rigidez da justiça era uma cobertura com a qual se cobriam os que não queriam fazer nada pelos seus amigos. Nesse sentido, existe ainda uma cartinha que escreveu (8) a Idriano, príncipe da Caria, pedindo a libertação de um amigo seu: — "Se Nícias não errou, liberte-o; e se errou, liberte-o por amor de mim; mas seja como for, liberte-o". Tal era Agesilau ao tratar dos interesses de seus amigos; todavia, em muitas ocasiões, olhava primeiro a utilidade pública, como demonstrou certa vez, em que foi constrangido, um pouco perturbado e às pressas, a abandonar um que estimava, e que achava doente; e como o outro o chamava pelo nome quando partia, suplicando para não o abandonar, Agesilau voltou-se e disse: — "Ó como é desagradável (9) amar e ser sábio ao mesmo tempo! assim escreveu o filósofo Jerônimo".

(9) Outros lêem: «ter piedade e ser sábio ao mesmo tampo». Amyot.

Simplicidade, moderação e outras virtudes de Agesilau

XXII. Ora, já fazia dois anos completos que estava em guerra e não se falava mais, nas altas províncias da Ásia, senão em Agesilau, correndo por toda parte o glorioso renome de sua honestidade, sua abstinência, cortesia e simplicidade, pois, quando ia sozinho com sua comitiva pelos campos, alojava-se sempre dentro dos templos mais santos, querendo que os deuses mesmos fossem testemunhas do que fazia em sua vida particular, onde muitas vezes não dese-íamos que os homens vejam o que praticamos. Mais ainda, entre tantos milhares de soldados que estavam em seu acampamento, não se encontraria uma enxerga pior do que aquela sobre a qual dormia, e quanto ao frio e ao calor, suportava um e outro tão à vontade, que parecia ter nascido para suportar somente as variações do ar e das estações. Era bem agradável aos gregos moradores na Ásia, presenciar os sátrapas, tenentes do rei da Pérsia, governadores das provín-cias e outros potentados que anteriormente eram tão soberbos e intolerantes e viviam fartos na riqueza, na volúpia e nos prazeres, fazendo agora a corte, tomados de receio, a um homem que se apresentava simplesmente vestido com uma pobre e maltrapilha capa, e como eles se constrangiam e mudavam de opinião com uma simples palavra curta que lhes dizia ele, à moda lacomana, de maneira que vinha então à lembrança de muitos, estes versos do poeta Timóteo:

Marte é um tirano, mas a Grécia
Não se intimida com o ouro, a prata ou qualquer
riqueza.

É chamado a Esparta.

XXIII. Assim, toda a Ásia se achava em reboliço e, em diversos lugares, tomavam seu partido, voluntariamente. Depois de haver reformado as cidades e os fortes e de lhes haver entregue a administração pública com toda a liberdade e franqueza, sem efusão de sangue e sem banimento de um só homem, deliberou ele passar além e levar a guerra para além das costas do mar grego, indo combater pessoalmente o rei da Pérsia e fazendo-o arriscar suas riquezas e a vida de prazeres em que se comprazia, muito a seu gosto, lá nos distantes países de Ecbátana e de Susa, como se não tivesse tempo de mover a guerra entre os gregos, pois dispunha, à sua vontade, sem se mexer de sua cadeira, pela força do dinheiro, daqueles que governavam, em cada uma das cidades. Mas, entrementes, quando estava com este pensamento, chegou-lhe Epicídidas Espartano que lhe trouxe notícias de que a cidade de Esparta estava sendo acossada pela guerra feita pelos outros povos gregos; por essa razão, os éforos o chamavam e lhe ordenavam que voltasse para defender seu país.

Ó (10) gregos, que maiores males procurais,
Que jamais fizeram os bárbaros conjurados!

Como se poderia chamar por outro nome aquela cobiça ou aquela conjuração, que atirou os gregos uns contra os outros e os fez estacionar com suas próprias mãos a fortuna que os conduzia à felicidade, voltando contra suas próprias entranhas as armas que já estavam encaminhadas contra os bárbaros, chamando ao seu país a guerra que havia sido banida? Pois não sou da opinião de Demarato de Corinto, quando diz quç os gregos estavam privados de um singular prazer, por não terem visto Alexandre, o Grande, sentado no trono real de Dario; mas pelo contrário, creio que, antes, eles deveriam chorar, ao se lembrarem de que haviam deixado esta glória para Alexandre e para os macedônios, ao perderem loucamente famosos capitães da Grécia nas batalhas de Leutres, de Coronéia, de Corinto e da Arcádia.

(10) Eurípides, «As Troianas».

Deixa tudo para obedecer à voz da pátria.

XXIV. Todavia, Agesilau não praticou jamais ato mais meritório nem maior do que aquela retirada para o seu país, nem deu jamais um mais belo exemplo de obediência e de justiça devida à sua pátria, do que aquele. Aníbal, entretanto, quando começou a sentir sua decadência, quando estava sendo quase arrojado fora da Itália, não obedeceu senão com dificuldade aos seus concidadãos, que o chamavam para ir defendê-los da guerra que sustentavam dentro de seu próprio país. Alexandre, o Grande, sendo chamado pela mesma razão ao seu reino da Macedónia, logo que ali voltou, exclamou com ironia ao saber da grande batalha que seu tenente havia travado contra o rei Ágis: — "Parece-me, quando ouço contar essas notícias, que enquanto derrotávamos por aqui o rei Dano, êle sustentou lá na Arcádia uma batalha de ratos". Se é assim, se esses dois grandes capitães haviam tido em tão pouca conta seu país, não se deve portanto considerar a cidade de Esparta feliz, por haver tido um rei que lhe trouxe tanta honra e veneração e tanta obediência às suas leis, e que tão logo recebeu a ordem para voltar, abandonou e deixou os bens e o poder que tinha pacificamente conseguido com suas mãos, com uma esperança muito bem fundada e muito bem encaminhada, com muito mais vantagem, não embarcou para voltar subitamente, deixando, além disto, uma grande mágoa em todos os aliados e confederados de seu país, pelo fato de não terminar tão bela obra que havia tão bem começado? Certamente que sim. Dessa forma se refutou um dito de Demóstrato Feaciano, o qual dizia que os lacedemônios eram mais pessoas de bem, quando em público e os atenienses, em particular; pois Agesilau mostrou-se bom rei e excelente capitão publicamente e ainda se fazia sentir amigo mais dedicado em particular e mais agradável no trato familiar. Como o dinheiro persa tinha de um lado impressa a figura de um arqueiro, ele disse, afastando-se, que dez mil arquei-ros o expulsavam da Ásia; pois era esta quantia que haviam levado a Tebas e a Atenas e distribuído entre os oradores e líderes do povo, que suscitaram com seus discursos essas duas cidades poderosas e as fizeram pegar em armas contra os espartanos.

Passa pela Trácia, Macedónia, Tessália e Farsália.

XXV. Tendo, portanto, em sua volta, passado pelo estreito do Helesponto, seguiu caminho através da Trácia, onde jamais implorou nem ao povo, nem a qualquer príncipe bárbaro, caminho, para sua passagem, mas enviava-lhes somente uma mensagem: se queriam que passasse por suas terras como amigo ou como inimigo! Todos os outros o receberam amigavelmente e o honraram cada um segundo suas forças, mas os que se chamam (11) trocábanos, aos quais o próprio rei Xerxes distribuiu presentes para poder ter passagem amigável por suas terras, mandaram-lhe pedir, para o deixar passar, cem talentos (12) em prata e cem mulheres, ao que Agesilau, criticando-os, respondeu aos mensageiros: — "E por que não vieram eles em vosso lugar para os receber?" E dizendo isto, fez logo marchar seus soldados contra os bárbaros, que esperavam em formação de batalha para que ele supusesse que guardavam a passagem, e tendo-os rompido, dizimou um grande número na hora. O mesmo mandou dizer ao rei da Macedónia, se passaria por seu país como amigo ou como inimigo. Esse rei mandou responder que ia pensar. "Pois bem, replicou Agesilau, que pense portanto, mas enquanto isso, não deixaremos de caminhar sempre para a frente". O rei macedónio admirou-se de seu grande arrojo e, temendo lhe causasse algum desgosto ao passar, mandou pedir que passasse como amigo. Ora, estavam então os tessalianos em aliança com os inimigos dos lacede-mônios, pelo que passando pelo seu país, ele o saqueou e pilhou como terras de inimigos, e enviou à cidade de Larissa, Xenocles e Cita para convencer os seus habitantes, induzindo-os a tomar o partido dos lacedemônios. Esses dois embaixadores foram detidos prisioneiros, pelo que todos os outros espartanos ficaram indignados, e foram de aviso que Agesilau devia ir fazer cerco à cidade; ele, porém, lhes respondeu que não queria ganhar a Tessália inteira, arriscando-se a perder um desses dois homens, e por esta razão, tanto fez que os livrou, entrando em entendimento com a cidade. Isto não é para se admirar muito na pessoa de Agesilau, visto que de outra feita, ouvindo dizer que havia sido travada uma grande batalha perto da cidade de Corinto, ficando sobre o campo vários grandes e valorosos personagens do lado dos inimigos e bem poucos espartanos, ele não ficou satisfeito nem ninguém o viu alegrar-se; pelo contrário, suspirou fortemente e, do íntimo do coração, exclamou: — "Ó pobre Grécia, como és desgraçada matando com tuas próprias mãos tantos bons homens teus, que teriam sido suficientes para derrotar em um dia de batalha todos os bárbaros juntos! Mas como os farsalianos, quando passavam em seu caminho, o perseguissem e prejudicassem a retaguarda de seu exército, Agesilau tomou quinhentos cavalos com os quais foi carregar sobre eles, tão vivamente, que os rompeu à força, e desta vitória mandou levantar um troféu na base do monte que se denomina Nartácio; sendo-lhe esta vitória tanto ou mais agradável do que nenhuma outra, porque com tão pequena tropa de cavalananos, que ele mesmo havia amestrado, derrotou numa só batalha aqueles que, em todos os tempos, se vangloriavam de sua cavalaria.

(11) É preciso ler: — «Os tralianos, ou os habitantes da Trália». Ver a nota de Dacier.
(12) Sessenta mil escudos. Amyot.

Entra na Beócia.

XXVI. Ali foi encontrá-los Dífndas, um dos éforos, enviado expressamente de Esparta para lhe ordenar que entrasse imediatamente armado na Beócia, e embora ele tivesse deliberado ali entrar outra vez com muito mais forças, todavia, não querendo em coisa alguma desobedecer aos senhores do conselho de seu país, disse logo aos seus soldados que o dia pelo qual eles haviam voltado da Ásia, se aproximava e mandou requisitar duas companhias dos batalhões que estavam no acampamento perto de Corinto. Em recompensa disso, os espartanos, desejando honrá-lo porque havia prontamente obedecido ao seu comando, mandaram apregoar na cidade que os jovens que quisessem ir socorrer o rei pessoalmente, viessem dar seus nomes, e, então não houve um que não fosse se apresentar muito afetuosamente para ser arrolado; mas os governadores escolheram cinqüenta somente dos mais vigorosos e de melhor disposição, os quais lhe enviaram. Enquanto isso, Agesilau atravessou o passo das Termópilas, e, cruzando a Fócida, cujo povo era amigo da Lacedemônia, penetrou na Beócia, indo assentar seu acampamento junto da cidade de Queronéia, onde de repente, assim que ali chegou, viu o sol eclipsar-se, perdendo a luz e tomando a forma da lua quando está no crescente: ao mesmo tempo ouviu a notícia da morte de Lisan-dro, o qual havia sido morto em uma batalha naval, que havia perdido contra Farnabazo e Conon, junto da ilha de Gnidos. Esta notícia lhe foi muito desagradável, como se pode aquilatar, tanto pelo sentimento da perda de um personagem que era seu aliado, como também pelo prejuízo do povo; todavia, com receio de que isso desencorajasse seus soldados e pusesse algum pavor em seus corações, justamente na hora em que estavam prontos para travar batalha, ordenou aos que tinham vindo da praia, que espalhassem uma notícia bem ao contrário do que lhe haviam dito, e ele mesmo, para secundar suas palavras, saiu a público tendo sobre a cabeça um chapéu de flores e sacrificou aos deuses como para lhes agradecer por uma boa notícia, enviando a cada um de seus amigos uma porção de carne dos animais imolados, como se habituara a fazer quando em regozijo público; depois, marchando no país, assim que percebeu de longe os inimigos e que eles também o divisaram, colocou seus soldados em ordem de batalha, dando a ponta esquerda aos orcomenianos e conduzindo ele mesmo à direita.

Batalha onde Agesilau é gravemente ferido.

XXVII. Os tebanos, por seu lado, colocaram-se à direita da sua, dando a esquerda aos argia-nos. Xenofonte, que se encontrava nesta batalha ao lado de Agesilau, com o qual voltara da Ásia, escreve que não houve jamais uma luta igual. É bem verdade que o primeiro encontro não foi muito obstinadamente debatido nem durou muito tempo, porque os tebanos derrotaram logo os orcomenianos e Agesilau os argianos; mas, quando uns e outros compreenderam que as pontas esquerdas de suas batalhas travavam grandes combates e recuavam para trás, eles voltaram rapidamente e ali Agesilau poderia ter a vitória completa sem nenhum perigo, se quisesse somente deixar passar o batalhão dos tebanos, descarregando depois sobre a retaguarda uma vez que houvessem passado; por uma questão de teimosia, para mostrar suas proezas e por força de coragem, preferiu mais dar na cabeça, e foi chocá-los de frente, não querendo vencer senão à viva força. Os tebanos, do outro lado, o receberam não menos corajosamente e houve um combate obstinado e rude em todos os lugares da batalha, mas principalmente onde Agesilau estava entre os cinqüenta rapazes que lhe haviam sido enviados para guardar sua pessoa, o valor dos quais lhe veio então muito a propósito e lhe foi muito salutar; pois ainda que cumprissem todo o dever como lhes era possível, combatendo bem e se pusessem à frente para o guardar, eles não puderam, no entanto, salvá-lo de ser gravemente fendo, mas o carregaram, magoado por diversos golpes de dardo e de espada que recebeu através de sua armadura, a qual foi torcida e dobrada em muitos lugares, e colocando-se em tropa cerrada à sua frente para o cobrir, mataram grande número de inimigos e vários deles também ficaram mortos no lugar, até que finalmente, vendo que era muito difícil forçar os tebanos de frente, foram obrigados a fazer o que não queriam de início; abriram-se para os deixar passar e quando passaram, tomando cuidado para que marchassem em desordem, como se estivessem fora de todo perigo, eles os seguiram, e correndo nos seus passos, descarregaram de novo pelos flancos; isto, entretanto, não permitiu que eles fugissem em debandada, mas retiraram-se os tebanos em passo vagaroso para a montanha Helicon, sentindo-se em extremo orgulhosos com o êxito desta batalha, na qual se haviam, segundo julgavam, se mantido invencíveis.

Agesilau vai celebrar os jogos Píticos em Delfos.

XXVIII. Mas Agesilau, ainda que se sentisse muito mal devido aos vários ferimentos que recebera, jamais quis se retirar para lugar seguro a fim de ser pensado, sem primeiro estar no local da batalha e ver carregar os cadáveres de seus soldados dentro de suas armaduras. Quanto aos inimigos, ordenou que deixassem ir para onde quisessem aqueles que se haviam escondido no templo de Minerva Itoniana, que não estava muito longe dali, diante do qual há um troféu que os tebanos antigamente ali levantaram, depois de haverem derrotado em batalha, sob o comando de Espartão, o exército dos atenienses e terem morto sobre o campo 0 capitão Tolmides. No dia seguinte, ao amanhecer, Agesilau, querendo experimentar se os tebanos teriam coragem de descer. outra vez para a batalha, ordenou aos seus soldados que colocassem chapéus de flores sobre as cabeças e aos menestréis que tocassem suas flautas, enquanto ele mandava levantar e enfeitar um troféu como vitorioso; tendo os inimigos pedido licença para retirar seus mortos, ele lhes concedeu trégua para isto, com o que confirmou sua vitória, fazendo-se carregar depois para a cidade de Delfos, onde se divertiam com os jogos Píticos; aí organizou uma procissão e celebrou o sacrifício ordinário a Apolo, oferecendo-lhe o dízimo de toda a presa trazida da Ásia, que atingiu bem a soma de cem talentos.

Conserva a antiga simplicidade de seus costumes.

XXIX. Isto feito, voltou para sua casa, onde seus concidadãos o amaram e estimaram mais do que nunca pela simplicidade de sua vida e de sua conversação, pois não se mostrava em suas maneiras mais do que fora anteriormente, nem mudou o seu natural pelos costumes estrangeiros, como fazem ordinariamente os outros capitães quando voltam de uma expedição longa e distante, desprezando os costumes de seu país ou desdenhando obedecer as ordens daquele; assim, em tudo, sem mais nem menos, como aqueles que não haviam nunca passado o rio Eurotas, continuou sempre a observar, entreter e guardar os costumes sem nenhuma inovação em seu beber ou comer, lavar e secar, na "toilette" de sua mulher, nos ornamentos de suas armas, nem nos móveis de sua casa, pois deixou as mesmas portas onde estavam em todos os tempos, tão velhas e tão antigas que estimavam que fossem aquelas mesmas que Aristodemo aí havia colocado; e diz Xenofonte que o canastro de sua filha não era nada mais magnífico do que o das outras moças. Denominavam canastro, na Lacedemônia, as imagens de grifos, de veados ou de bodes, que as moças conduziam nas procissões solenes da cidade. Xenofonte não escre-veu como se chamava esta filha de Agesilau e Dicearco se lamenta e se enfurece por não saberem o nome dela, como também o da mãe de Epaminondas; todavia, encontramos nos registros da Lace-demônia que a mulher de Agesilau chamava-se Cleora, uma das filhas Apólia e a outra Prolita; vêem-se ainda até hoje, na cidade de Esparta, sua lança que não é em nada diferente das outras.

Alista sua irmã Cinisca com um carro para disputar o prêmio de corrida dos jogos olímpicos.

XXX. Mas, observando que alguns dos cidadãos de Esparta se vangloriavam e julgavam ser alguma coisa mais do que os outros, porque possuíam cavalos no estábulo, ele persuadiu a sua irmã, que se chamava Cinisca, a enviar seu carro com os cavalos aos jogos Olímpicos, para experimentar ganhar o prêmio da corrida, a fim de dar a conhecer e fazer ver aos gregos que isto não era ato de virtude alguma, mas de riquezas e de despesa somente. Tendo a seu lado o sábio Xenofonte, que estimava e do qual fazia grande caso, este convenceu-o a mandar buscar seus filhos para os criar na Lacedemônia, onde aprenderiam a mais bela ciência que os homens poderiam aprender, isto é, a saber obedecer e mandar.

Como ganha seus inimigos.

XXXI. Depois da morte de Lisandro, formou-se em Esparta uma liga de cidadãos conjurados contra êle, que Lisandro havia suscitado após sua volta da Ásia, e a fim de que conhecessem que espécie de cidadão havia sido Lisandro quando vivo, mandou entrar dois para mostrar e recitar em público um discurso encontrado entre seus papéis, que o orador Cleon Halicarnassiano havia escrito e que Lisandro devia pronunciar em assembléia pública diante de todo o povo, pela qual desejava levar avante muitas inovações e mudar quase toda a administração da Lacedemônia; mas, houve um dos conselheiros, homem sábio, que tendo lido o discurso e temendo a vivacidade das razões apresentadas, disse-lhe que o aconselhava a não desenterrar Lisan dro, mas antes enterrar o discurso junto com ele. Agesilau concordou e não fez mais nada, e quanto aos que haviam sido ou eram seus adversários, não os quis prejudicar abertamente, mas arranjava sempre um meio de os nomear capitão da armada ou então de lhes arranjar outro cargo; e, depois, fazendo conhecer evidentemente que esses não haviam se portado como pessoas de bem nos cargos que lhes haviam sido dados, mas haviam sido avarentos e maus, no entanto, se eles vinham a ser chamados perante a justiça, ainda os socorria e os ajudava, tornando-os por esse meio amigos em lugar de ini-migos e os ganhava de novo assim procedendo; de sorte que, afinal, não houve nenhum que fosse seu adversário.

Como se apega a Agesípolis.

XXXII. Pois o outro rei Agesípolis, seu concorrente (13), sendo filho de um pai (14) que haviam banido, além de muito moço e possuir uma natureza branda e indulgente, não se intrometia em absoluto no governo; todavia, ainda se portou de tal maneira com ele, que o tornou seu; pois os dois reis quando estavam na cidade, comiam juntos na mesma sala. E Agesilau, compreendendo que por sua natureza era inclinado para o amor, como também era ele mesmo, colocava-o sempre em forma de poder conversar com os belos meninos da cidade e incitava esse rapaz a amar algum que ele mesmo amava, secundando-o nisso; porque nos amores lacônicos não há nada de desonesto e sim toda continência e toda honestidade, todo zelo e cuidado de tornar o menino que amavam o mais virtuoso, como mais amplamente deduzimos na Vida de Licurgo.

(13) Concorrente não é a palavra, pois que sempre houve dois reis. Era seu companheiro, ou, se permitem o termo, co-rei.
(14) Pausânias, filho de Plistoanax. Ver a Vida de Lisan-dro, no cap. 52 até o cap. 56.

Expulsa os argianos de Corinto,

XXXIII. Por esses meios, portanto, Agesilau, chegando a enfeixar um grande poder, como nenhum outro em sua cidade, colocou na marinha seu irmão por parte de mãe, que se chamava Telêu-cias e ele foi com seu exército por terra até a cidade de Corinto, onde se apoderou das grandes muralhas e Telêucias o ajudou a fazer isso pelo lado do mar. Os argianos a retinham ainda e celebravam a festa dos jogos ístmicos, mas como Agesilau ah chegasse, expulsou-os no momento em que acabavam de sacrificar ao deus Netuno e foram obrigados a abandonar todos os seus aprestos. Então os banidos de Corinto que estavam com ele, pediram-lhe para pessoalmente presidir à festa e ordenar os jogos; mas Agesilau não o quis, para que eles mesmos o fizessem e presidissem; somente ah permaneceu enquanto duraram os jogos para lhes garantir segurança. Depois, quando partiu, os argianos voltaram e celebraram outra vez os jogos ístmicos, estando presentes alguns dos que haviam ganho o premio a primeira vez e levantaram ainda a segunda, e outros que tendo vencido nos primeiros, foram vencidos nos segundos. Eis porque Agesilau dizia que os argia-nos haviam se declarado homens de pouca ousadia, pois estimavam coisa tão grande e tão honrosa como o presidir esses jogos e não tinham ousado vir combater contra ele pelo direito que pretendiam.

Como Agesilau faz pouco caso de certos talentos.

XXXIV. Quanto a ele, estimava que devia guardar um meio termo em tais coisas, sem ser muito curioso; pois honrava com sua presença tais assembléias solenes de danças e de festas públicas, que faziam em Esparta antigamente e não deixava nunca de se encontrar com grande prazer e grande afeição em tais divertimentos, que deliciavam os jovens e as moças de Esparta, mas, pensando bem, em matéria de jogo, ele nem ao menos aparentava conhecer aquilo que os outros tinham em singular admiração. A este propósito conta Calípides, excelente em representar tragédias e que era grandemente famoso, honrado e estimado entre os gregos pela excelência de sua arte, que, encontrando-o um dia e saudando-o primeiro, atirou-se presunçosamente ao encontro dos que passeavam com êle e apresentando-se à sua frente, estimando que êle devia ser o primeiro a lhe dar atenção, disse: — "Como, rei Agesilau, não me conheces?" Agesilau, olhan-do-o no rosto, respondeu-lhe: — "Não és tu Calípides, o Farçante?" e não fêz mais caso. De outra vez, como o convidassem para ouvir um que imitava ingenuamente o cântico do rouxinol, ele não quis ouvir, dizendo: — "Muitas vezes ouvi o rouxinol mesmo". E como o médico Menecrates, por ter sido feliz na cura de algumas doenças desesperadoras houvesse sido cognominado Júpiter e usurpasse um tanto arrogantemente esse apelido, teve o atrevimento de colocar no sobrescrito de uma missiva que lhe escrevera: "Menecrates, o Júpiter, ao rei Agesilau, saudação"; Agesilau lhe respondeu: — "Agesilau a Menecrates (15), saúde".

Recepção que faz aos deputados de Tebas.

XXXV. Mas, enquanto estava dentro do território de Corinto, onde havia tomado o templo de Juno, ao aguardar seus soldados, que pilhavam e saqueavam toda a região plana, vieram à sua presença embaixadores de Tebas, para lhe falar de paz e amizade com os tebanos; ele, porém, que de todos os tempos odiava os tebanos e que além disso estimava que era de bom expediente para o bem de seus negócios, aparenta não fazer caso, resolveu conter-se como se não quisesse ver nem ouvir os que falavam com ele. Mas, na mesma hora surgiu um caso, como por expressa vingança divina, que lhe deu boa lição; pois antes que os embaixadores se separassem dele, teve notícias de que uma de suas tropas, que chamavam Meres, havia sido rechaçada e feita em pedaços por Ifícrates, sendo a maior perda que tinha sofrido desde muito tempo, pois perderam grande número de bons e valentes homens, todos lacedemônios, que foram mortos por aventu-reiros mercenários, ligeiramente armados. Esse fato Fez Agesilau se por imediatamente em campo, pensando poder socorrer ou vingar os seus, mas no raminho foi informado com segurança que não havia mais remédio, razão pela qual voltou de onde havia partido, ao templo de Juno, e então mandou chamar os embaixadores beócios para lhes dar audiência e eles, querendo devolver igual por igual a peça do desprezo que lhes pregara anteriormente, não fizeram nenhuma menção de paz mas requereram somente que os deixasse entrar em Corinto. Agesilau, despeitado, respondeu-lhes: — "Se é para verdes vossos amigos se vangloriarem de sua prosperidade, vós o podereis fazer certamente amanhã". E, no dia seguinte, levando-os consigo, foi destruir o país dos coríntios até junto às muralhas de sua cidade e assim depois de haver feito ver aos embaixadores beócios como os coríntios não ousavam sair a campo para defender seu país, despediu-os, e recolhendo alguns que haviam escapado da tropa desfeita, trouxe-os à Lacedemônia, partindo sempre de casa antes de amanhecer e não chegando senão quando era noite escura, de medo que os arcadianos, que os odiavam e os invejavam, se alegrassem com sua perda.

(15) Como querendo dizer, «que tinha o cérebro ferido por ser tão presunçoso». Amyot.

Destrói a Acarnânia.

XXXVI. Depois dessa viagem, para recompensar os acaianos, foi ele ao país da Acarnânia, de onde trouxe grande quantidade de presa, depois de haver derrotado os acarnânios em batalha; mas como os acaianos o solicitassem para aí ficar todo o inverno e fazer retirar aos seus inimigos todos os meios de semear em suas terras, ele lhes respondeu que não faria nada: — "Porque, disse-lhes, eles temerão mais a guerra na próxima estação, quando terão suas terras semeadas", o que aconteceu; pois aí tendo o exército voltado pela segunda vez, eles se reconciliaram com os acaianos.

Tratado dos lacedemônios com o rei da Pérsia.

XXXVII. Aproximadamente, nessa época, Farnabazo e Conon, com o exército do rei da Pérsia, sendo, sem contradição, senhores absolutos de toda a armada, pilhavam a costa da Lacônia, e ainda mais, as muralhas da cidade de Atenas se reconstruíam com o dinheiro que Farnabazo lhes fornecia, razão por que os senhores da Lacedemônia foram de aviso que valia mais fazer a paz com o rei da Pérsia, e para esse fim enviaram Antãlcidas à presença de Tinbazo, abandonando covarde e maldosamente ao rei bárbaro os gregos habitantes da Ásia, pela liberdade dos quais Agesilau havia guerreado. Assim nãc teve Agesilau parte nessa vergonha e nessa infâmia, porque Antãlcidas que era seu inimigo, procurou todos os meios para fazer a paz, vendo que a guerra aumentava sempre o poder, a honra e a reputação de Agesilau, o qual, todavia, respondeu então a um que o censurava, que os lace-demônios "se medizavam", isto é, favoreciam aos medas, mas sena melhor que os medas "se laconi-zassem". E, no entanto, ameaçando e declarando a guerra aos gregos que não queriam aceitar as condições de paz, Antãlcidas os obrigou a consentir no que o rei da Pérsia quisesse, o que fez principalmente pelo ódio aos tebanos a fim de que, sentin-do-se constrangidos pelas capitulações de paz e colocando todo o país da Beócia em liberdade, eles ficassem mais fracos.

Agesilau sustenta a empreitada injusta de Fébidas sobre a cidadela de Tebas

XXXVIII. Êle o declarou manifestamente, pelo que se seguiu logo após: pois como Fébidas houvesse praticado um ato mau e infeliz, por ter surpreendido em pleno período de paz e ocupado o castelo da cidade de Tebas, que chamavam Cadméia, pelo qual todos os demais povos gregos se achavam indignados e mesmo os espartanos não estavam contentes, especialmente aqueles que eram contrários a Agesilau, na ocasião em que se deu o fato, dirigiram-se furiosos a Fébidas a saber por ordem e consentimento de quem havia feito o assalto. Para fazer derivar toda a suspeita do feito sobre êle, Agesilau não disfarçou em dizer em voz alta e clara, para o desencargo de Fébidas, que era preciso olhar e considerar o fato em si, se era útil para ;i coletividade e que nesse caso era bem trabalhoso fazer com iniciativa própria sem esperar outra ordem, o que se sabia ser útil para o bem público.

Palavras de Agesilau sobre a justiça, diferentes de suas ações.

XXXIX. E, todavia, estava sempre habituado a dizer em suas palestras familiares que o senso de justiça era a primeira de todas as virtudes; para tanto, dizia ele, o feito não vale tanto se não é praticado com justiça e se todos os homens fossem justos, então não haveria nada que fazer com relação aos atos heróicos. E a esses que diziam, "o grande rei o quer assim", dizia ele: em que é maior do que eu, se não é justo?" Mantinha assim a boa e reta opinião de pensar que era preciso notar a diferença entre o grande e o pequeno rei, tomando a justiça como a medida real. E, acontecendo, depois da paz feita, que o rei da Pérsia lhe enviasse particularmente uma carta, na qual lhe escrevia que desejava desfrutar de sua amizade e hospitalidade, não as quis aceitar, dizendo lhe ser bastante a amizade pública e enquanto aquela durasse, outra não seria necessária. Mas, pouco depois chegaram os fatos positivos, e ele não se lembrou mais desta bela opinião, mas deixou-se muitas vezes levar pela ambição e pela obstinação, da mesma forma de encontro aos tebanos, como fez quando não somente salvou Fébidas, mas ainda fez que Esparta tomasse a responsabilidade, concordando com a violação que havia cometido, ao reter a fortaleza de Cadméia e colocando o governo da cidade de Tebas nas mãos de Arquidas (16) e de Leôntidas, com a orientação dos quais Fébidas se havia apoderado de Cadméia; portanto, devido a isso, formaram logo a opinião de que era Fébidas, de fato, que havia executado mas que Agesilau lhe havia dado o conselho; e, o que se seguiu depois, provou que esta suspeita tinha sua razão de ser.

(16) Leia-se Arquias, como os historiadores e Plutarco mesmo escreveram em diversos lugares.

Excita a guerra contra os tebanos.

XL. Depois que os tebanos expulsaram da Cadméia a guarnição lacedemônia e restituíram à cidade sua liberdade, acusando-os de que eles perversamente tinham assassinado Arquidas e Leôntidas, os quais de nome eram governadores, mas de fato verdadeiros tiranos, ele começou a fazer-lhes a guerra; e Cleômbroto, que já reinava após a morte de Agesípohs, foi enviado à Beócia com um exército, porque Agesilau tendo passado quarenta anos após a idade da adolescência e por esta razão estando dispensado pelas leis de ir à guerra, não quis tomar a responsabilidade dessa expedição, envergonhado de que o vissem combater na briga de dois tiranos, onde um deles, pouco antes, havia pegado em armas a favor dos banidos contra os fliasianos.

Empreitada de Esfódrias no Pireu.

XLl. Ora, havia então um lacônio chamado Esfódrias, da facção contrária à de Agesilau e que na ocasião era governador da cidade de Téspia, homem corajoso e valente, mas sempre animado de novas esperanças, em vez de bom senso e bom julgamento dos fatos, o qual, desejando adquirir fama, e considerando que Fébidas ganhara em honra e reputação pela corajosa empreitada que havia executado em Tebas, persuadiu-se a si mesmo que lhe seria coisa ainda mais honrosa se surpreendesse o porto de Pireu, retirando por esse meio aos atenienses o recurso da marinha. Julga-se que isto foi um trama urdido por Pelópidas e por Gelon (17), governadores da Beócia, os quais nomearam alguns homens que fingiram ser muito afeiçoados ao partido dos lacedemônios e altissonantemente elogiavam Esfódrias e lhe deram a entender que não havia senão ele digno de executar tão gloriosa obra, de maneira que por sua persuasão, eles o induziram a empreender o assalto, que não era para menos dano, nem menos perverso, do que o de Cadméia, em Tebas; mas foi menos ousado e menos diligentemente atentado, pois o dia, surpreendendo-o quando estava ainda na planície de Tnásio, começou a despontar no lugar onde julgava chegar de noite ainda nas muralhas do Pireu; dizem que as pessoas que ele levava, tendo percebido alguns fogos nos templos da cidade de Eleusina, tiveram medo, e mais ainda, ele mesmo, vendo que não podia mais esconder-se, perdeu a coragem, de maneira que voltou vergonhosa e ignominiosamente à cidade de Téspia, sem fazer outra coisa do que levar um pequeno saque.

(17) Ver as Observações.

Conduta de Agesilau com relação ao processo de Esfódrias. Faz com que seja absolvido.

XLII. Para resolver sobre esse caso, foram logo enviados acusadores, de Atenas para Esparta, os quais acharam não ser necessário acusá-lo porque os governadores e magistrados já o haviam citado para comparecer pessoalmente a fim de iniciarem seu processo criminal, mas êle não ousou apresentar-se, temendo o furor de seus concidadãos e desconfiando que queriam mostrar que a falta havia sido cometida contra eles mesmos. Ora, tinha este Esfódrias um filho chamado Cleônimo, do qual, sendo ainda menino de bela aparência, Arquidamo, filho de Agesilau, estava enamorado, pelo que se encontrava então muito pesaroso, como se pode imaginar, vendo aquele que amava no desespero pelo perigo de perder seu pai e não ousava ajudá-lo abertamente, porque Esfódrias era dos adversários de Agesilau; todavia, Cleônimo, tendo se dirigido a ele, solicitando e implorando com lágrimas nos olhos que ganhasse o apoio do seu pai, porque entre todos era de quem tinham grande medo, Arquidamo ficou durante três ou quatro dias junto de Agesilau, seguindo-o por toda a parte passo a passo, sem ousar abordar o assunto, ma: por fim, estando próximo o dia do julgamento, encorajou-se e lhe declarou como Cleônimo lhe havia pedido para interceder junto a êle a favor de seu pai. Agesilau, sabendo bem que seu filho amava Cleônimo, não o quis desviar dessa efeição, porque o menino desde os primeiros anos de sua infância havia sempre dado esperança de que seria um dia também um homem de bem, como nenhum outro, mas na hora não demonstrou, de maneira nenhuma a seu filho, que tencionava fazer alguma coisa para atender seu pedido e não lhe respondeu outra coisa senão que faria o que fosse honesto e conveniente no caso; pelo que, Arquidamo, envergonhado deixou de visitar Cleônimo, como anteriormente fazia, indo várias vezes, durante o dia, para vê-lo. Isto fêz com que os amigos de Esfódrias se desesperassem com o seu feito, mais do que nunca, até que um dos familiares de Agesilau, chamado Etímocles, conversando com eles, contou-lhes o que pensava Agesilau, e que era o seguinte: quanto ao fato em si, o julgava mau e o lamentava ao máximo, mas, pensando bem, considerava Esfódrias um homem valoroso e reconhecia que a coisa pública precisava de homens como êle; Agesilau, de fato, tinha comumente essa opinião, quando lhe vinham falar do processo de Esfódrias, e assim agradar seu filho, de tal forma que Cleônimo percebeu logo que Arquidamo havia feito tudo o que pôde por êle e os amigos de Esfódrias tiveram então mais coragem para socorrê-lo e falar a seu favor, conscientemente. Agesilau tinha essa qualidade entre outras: amava muito ternamente seus filhos; conta-se que êle brincava com eles em casa, quando eram pequenos, montando sôbré um bastão ou sobre uma bengala como sobre um cavalo, em cuja posição um dos seus amigos um dia o encontrou em seu gabinete pessoal e êle lhe pediu nada dizer até que êle mesmo tivesse filhos pequenos. Finalmente, Esfódrias, por sentença de seus juízes, foi absolvido puro e completo; tomando conhecimento disso, os atenienses resolveram declarar guerra aos lacedemônios, com o que Agesilau foi muito censurado sob a alegação de que, para gratificar um louco e leviano apetite de seu filho, havia impedido um justo julgamento e tornado a cidade culpada em face dos gregos por essas tão graves violações.

Agesilau guerreia na Beócia.

XLIII. Afinal, vendo que o outro rei seu companheiro Cleômbroto (18) não ia mais voluntariamente guerrear contra os tebanos, foi ele mesmo, transgredindo a proibição referente ao cargo de comandar o exército, que anteriormente havia observado, entrando à mão armada dentro do país da Beócia, causando danos e recebendo também, a tal ponto que Antãlcidas, um dia, vendo-o aflito, disse-lhe: — "Certamente recebes dos tebanos o salário que mereces, por lhes haver ensinado a combater, o que não sabiam, nem queriam fazer". Pois, em verdade, dizem que os tebanos se tornaram então mais belicosos do que jamais haviam sido outrora, sendo adestrados e exercitados às armas pelas contínuas invasões dos lacedemônios. Também era esta a razão pela qual o antigo Licurgo, em suas leis, que chamavam Retras, proibia guerrear sempre contra um mesmo povo, com receio de que o inimigo assim aprendesse também a guerrear.

(18) Ver as Observações.

Mostra a seus aliados que os lacedemônios fornecem mais soldados do que eles, se bem que dessem menos homens.

XLIV. Agesilau estava sendo odiado mesmo pelos aliados da Lacedemônia, os quais diziam que não era por nenhuma ofensa ao público, mas por um particular rancor e teimosia, que procurava perder e arruinar os tebanos e para satisfazer seu apetite, era necessário que eles se consumissem, indo todos os anos carregar as armas, ora aqui, ora ah, sem que fosse necessário, seguindo uma pequena tropa de lacedemônios, para o lugar onde eles se encontravam em maior número. Foi então que Agesilau, querendo fazê-los ver a quanto subia o número de guerreiros, usou de um artifício: ordenou um dia que os aliados, misturados, se assentassem uns entre os outros de um lado, à parte, e os lacedemônios à parte também de outro lado; depois mandou gritar por um dos arautos que todos os que soubessem fazer potes de terra se levantassem. Quando ficaram em pé mandou gritar que os fundidores se levantassem também e depois os carpinteiros, em seguida os pedreiros, e conseqüentemente, assim, todos os outros ofícios, de maneira que quase todos os aliados, obedecendo a essas proclamações se encontraram pouco a pouco em pé, e não se levantou nenhum dos lacedemônios, porque lhes era proibido aprender ou exercer alguma arte ou ofício mecânico e então Agesilau, a rir, lhes disse: — "Vedes agora, meus amigos, que quantidade de guerreiros nós colocamos nos campos, o que vós não fazeis".

Enfermidade de Agesilau.

XLV. A sua volta dessa viagem de Tebas, passando pela cidade de Mégara, enquanto subia ao palácio do governo, que se achava dentro da fortaleza, deu-lhe subitamente uma grande convulsão de nervos, com uma dor veemente na perna sã, que inchou e ficou grossa, com uma grave inflamação, pelo que pensaram estivesse cheia de sangue; por isso um médico de Siracusa, na Sicília, abriu-lhe uma veia sob o tornozelo, o que diminuiu muito as dores; mas, saiu sangue em tão grande quantidade, que não o podiam estancar, de sorte que sofreu grandes desmaios, ficando repentinamente em grande perigo de morte; todavia, encontraram, afinal, jeito de estancar o sangue e o levaram para a Lacede-mônia, onde ficou doente durante muito tempo, impedido de guerrear, em cujo período sobrevieram perdas e derrotas aos lacedemônios, tanto por mar como por terra, entre as quais a de Leutres (19) foi a principal, onde foram a primeira vez vencidos e desfeitos em batalha alinhada pelos tebanos.

(19) Ver as Observações.

Assembléia dos deputados da Grécia na Lacedemônia.

XLVI. Foram de aviso então, todos os gregos, que era preciso assinar uma paz universal e reuniram embaixadores e deputados de todas as cidades da Grécia na Lacedemônia para esse fim. Um desses deputados foi Epaminondas, homem de grande fama pelas suas notáveis epístolas e por seu saber em filosofia, mas que não havia ainda dado prova de ser grande capitão. E este, vendo como todos os outros embaixadores e deputados se ajoelhavam e se dobravam diante de Agesilau, teve a coragem de falar francamente e fez um discurso não somente por causa dos tebanos, mas por toda a Grécia junta, com o qual demonstrou à comunidade como a guerra ia aumentando só as cidades de Esparta e, ao contrário, diminuindo as outras cidades e fortalezas da Grécia. Por esta razão aconselhava todos a que procurassem compreender e tratar de compor uma boa paz com eqüidade e igualdade a fim de que durasse mais longamente, tendo todos os contratantes direitos iguais. Agesilau, vendo então que todos os demais gregos, membros dessa assembléia, prestavam atenção muito atentamente a Epaminondas, demonstrando prazeu imenso em ouvi-lo discorrer assim francamente sobre a paz, perguntou-lhe bem alto se achava ser justo e razoável que toda a Beócia fosse reposta em sua plena liberdade. Epaminondas, do outro lado, perguntou-lhe pronta e corajosamente, se ele também não estimava que fosse justo e razoável repor toda a Lacônia em completa liberdade. Então Agesilau, em fúria, levantando-se sobre os pés, ordenou-lhe responder abertamente se eles não devolveriam a toda a província da Beócia a sua liberdade, e Epaminondas replicou-lhe do mesmo jeito, se eles não devolveriam também à Lacônia a sua liberdade. Isto irritou de tal forma Agesilau, que ficou amarrado com a atitude que assumiu, devido ao antigo rancor que tinha aos de Tebas, que na hora apagou o nome dos tebanos da lista daqueles que deviam estar compreendidos na paz, declarando-lhes guerra imediatamente e despedindo-se igualmente dos deputados dos outros povos gregos, com tal decisão, que eles resolveram amigavelmente as diferenças que tinham em comum; desde que não podiam ceder por via pacífica aos outros que não queriam lavrar em despacho por via de composição amigável, decidiriam pelas armas, porque era bem difícil limpar, resolver e esvaziar todas as dissensões que tinham em comum.

Batalha de Leutres.

XLVII. Ora, estando então por acaso o rei Cleômbroto com um exército no país da Fócida, escreveram-lhe os éforos que devia marchar sem demora contra os tebanos e de quando em quando enviavam forças por toda a parte para reunir o socorro de seus aliados, que não eram nada afeiçoados e não iam voluntariamente à guerra, embora não ousassem abertamente recusar, nem desobedecer aos lacedemônios. E, se bem que houvesse vários sinais de mau presságio, conforme escrevemos na Vida de Epaminondas, e que Protous Laconiano tivesse resistido, com todo o seu poder, à empreitada desta guerra, Agesilau por isso não deixou de ir além, esperando ter encontrado a ocasião de se vingar dos tebanos, desde que todo o resto da Grécia estava em paz e em liberdade e só eles excluídos do tratado. Mas, quando não houvesse outra coisa senão a brevidade do tempo, ela sozinha mostra bem que esta guerra foi conduzida pelo ímpeto da cólera antes que pelo norteio da razão; porque o tratado de paz universal entre os outros gregos foi concluído em Esparta no décimo-quarto dia de maio (20) e os lace-demônios foram vencidos na batalha de Leutres (21) no quinto de junho, de maneira que não houve senão vinte dias de um para o outro. Aí morreram mil lacedemônios, com seu rei Cleômbroto e os mais valentes espartanos à sua volta, entre os quais estava Cleônimo, filho de Esfódrias, esse belo rapaz, do qual já falamos anteriormente, que tendo sido abatido por três vezes aos pés mesmo do rei, por três vezes se levantou e finalmente foi morto combatendo virtuosamente contra os tebanos.

(20) Ver as Observações.
(21) Leutres da Beócia, descendo de Tebas para o meio-dia, sobre o caminho de Platéia a Téspia.

Sentimento dos lacedemônios com a notícia da derrota de seu exército.

XLVIII. Esta derrota, tendo ocorrido aos lacedemônios contra a opinião de todo o mundo, e esta prosperidade aos tebanos, foi tão grande e tão gloriosa, que jamais gregos combatentes contra outros gregos ganharam uma igual; a cidade, no entanto, que foi vencida, não foi por isso menos elogiada e considerada por sua virtude como aquela que a venceu. Como Xenofonte diz, as palestras, os jogos e os passatempos das pessoas de bem mesmo à mesa sempre foram alguma coisa digna de ser conservada na memória e nisso diz a verdade; também menos e com vantagem, nota e considera o que as pessoas de honra diziam e a continência que mostravam tanto em sua adversidade como em sua prosperidade. realizando-se por acaso uma festa pública em Esparta, estando a cidade cheia de estrangeiros vindos para ver as danças e jogos que se praticam com os corpos nus dentro do teatro, chegaram aqueles que traziam as notícias da derrota de Leutres, mas os éforos, enquanto corria rapidamente por toda a cidade o rumor de que tudo estava arruinado para eles e que haviam perdido todo o seu principado na Grécia, não quiseram no entanto, por isto, que as danças saíssem para fora do teatro, nem que a cidade mudasse a forma da festa, mas enviaram pelas casas, aos parentes, os nomes dos que tinham sido mortos na batalha e eles continuaram no teatro mandando prosseguir e terminar os jogos e divertimentos das danças, a ver quem se esforçaria à porfia e quem ganharia o prêmio. No dia seguinte cedo, quando todo o mundo soube com certeza dos que estavam mortos e dos que haviam escapado, os pais, parentes, amigos e aliados daqueles que morreram, encontravam-se sobre a praça com boa fisionomia e atitude de homens alegres, tendo coragem, abraçando-se uns aos outros; ao contrário, os parentes dos que se haviam salvo, ficaram em suas casas com suas mulheres, como pessoas que estão de luto; e se por acaso algum deles era obrigado a sair para fora para algum negócio necessário, viam nele uma atitude tão triste e tão aflita, que não ousava falar firme, levantar a cabeça, nem levantar os olhos; viam ainda mais esta diferença entre as mulheres; pois elas, que esperavam seus filhos voltando desta batalha, estavam mornas e tristes, sem dizer palavra, e ao contrário, as mães daqueles que diziam estar mortos, iam aos templos render graças aos deuses, visitando-se umas às outras alegre e afetuosamente; todavia, quando a comuna viu que seus aliados começavam a deixá-los e separar-se deles, e que esperavam de um dia para o outro que Epaminondas, encorajado por sua vitória, se atirasse dentro do Peloponeso, então a maioria teve um remorso, de consciência no tocante aos oráculos dos deuses, que castigavam por eleger um rei manco como era Agesilau e deles se apoderou uma grande falta de coragem e um pavor enorme, pois acreditavam que sua cidade havia caído na desgraça, porque haviam negado à realeza um homem de físico perfeito, para colocar um defeituoso, o que os deuses lhes haviam avisado que se precavessem em todas as coisas.

Agesilau ordena que as leis dormirão por um dia.

XLIX. Todavia, sua autoridade era tão grande devido a sua virtude, e sua reputação tão boa, que não somente se serviam dele na guerra, como seu rei e soberano capitão, mas também seguiam seu conselho e seu aviso quando era necessário encontrar expediente em algumas dificuldades civis; assim fizeram quando ficaram em dúvida, se deviam impor a esses que haviam fugido da batalha, que chamam em Esparta, tresantas, isto é, "que tiveram medo", as marcas da infamia, às quais as leis condenam, porque eram em grande número e todos das mais nobres e mais poderosas casas da cidade, de medo que não lhes suscitassem alguma novidade; pois além de serem declarados incompetentes e jamais poderem exercer qualquer cargo público, é desonra dar-lhes mulher em casamento ou tomar deles, e quem os encontra em seu caminho pode espancá-los se desejar e é preciso que suportem abaixando a cabeça sem dizer palavra, obrigados a irem vestidos suja e pobremente com roupas remendadas de pano de cor, devendo fazer a barba só numa parte e na outra não; parecia-lhes perigoso serem vistos na cidade muitos deles marcados com esta infâmia, mesmo na ocasião em que tinham necessidade de grande número de guerreiros; razão por que expuseram tudo a Agesilau para resolver. E ele, sem retirar nem ajuntar ou mudar nada às leis, em assembléia pública com todo o povo lacedemônio, disse que naquele dia era preciso fazer dormir as leis, contanto que doravante elas retomassem sua autoridade.

Epaminondas entra na Lacônia.

L. Por esse meio manteve as leis sem nada corrigir e salvou a honra desses pobres soldados; mas para inspirar coragem à juventude e lhe retirar o espanto que dela se havia apoderado, entrou em armas dentro da Arcádia, onde se guardou de dar batalha e somente tomou uma cidadezinha (22) sobre as Mantinianas, percorrendo a parte plana; isto alegrou um pouco a cidade de Esparta e lhe devolveu alguma esperança, tirando-lhe ocasião de se desesperar em todos os pontos; mas logo depois chegou Epaminondas ao país da Lacônia, com quarenta mil soldados de infantaria, armados, com aquela outra multidão infinita de povo nu ou armado ligeiramente, que seguia seu acampamento somente para roubar, de maneira que aí havia atingido o número de setenta mil combatentes, que entraram dentro da Lacônia, em armas com ele. Havia aproximadamente seiscentos anos que os donos tinham entrado nessa província da Lacônia e aí já estavam acostumados e, em todo este tempo jamais tinham visto os inimigos dentro do país até esse dia; pois outrora nenhum inimigo havia ousado entrar em armas; mas, dessa vez saquearam e queimaram completamente, até o rio Eurotas e até contra a cidade de Esparta, sem que pessoa alguma saísse para impedi-los, porque Agesilau, como escreve Teopompo, não queria permitir que os lacedemônios se apresentassem contra uma tão impetuosa força e tão violenta tormenta de guerra; mas, tendo guarnecido o centro da cidade e suas principais avenidas com soldados de defesa, suportava pacientemente as arrogantes bravatas e ameaças dos tebanos, que o chamavam pelo nome ao combate e lhe diziam que saísse fora em campo, para defender seu país, ele, que era o único causador de todos esses males, que havia acendido e inflamado esta guerra. Se isto varava o coração de Agesilau, não menos pesar lhe causavam os tumultos que se davam dentro da cidade, os gritos, idas e vindas das pessoas idosas, que per-diam a paciência vendo o que se apresentava aos seus olhos, mulheres que não podiam ficar no mesmo lugar, mas cornam daqui e dali como pessoas fora de si e furiosas por ouvir o barulho que faziam os inimigos e ver o fogo que punham por toda a parte no campo; pois isso lhe trazia uma grande angústia de dor quando pensava consigo mesmo, que tendo alcançado a realeza quando sua cidade era mais poderosa e mais florescente, como jamais havia sido, viu em seu reino sua dignidade engolida e sua glória partida, viu que ele mesmo muitas vezes se vangloriava que jamais mulher laconiana havia visto fumaça do acampamento de nenhum inimigo. Como dizem também que Antãlcidas respondeu um dia a um ateniense que contestava com ele sobre o valor de um e de outro povo, alegando, por suas razões, que os atenienses haviam muitas vezes expulso os lacede-mônios do rio Cefiso: "É verdade, disse o laconiano, mas nós não vos expulsamos nunca do Eurotas". Igualmente também respondeu um outro espartano, dos menos famosos, a um argiano que o censurava: — "Há vários de vossos soldados enterrados dentro do país da Argólida; e, não há dos vossos enterrados na Lacônia". Dizem que Antãlcidas, sendo na ocasião éforo, enviou secretamente seus filhos para a ilha de Citera, desconfiando que a cidade de Esparta fosse tomada.

(22) Chamada Eutéia, segundo Xenofonte Heleno, L. VI. p. 353.

33 obrigado a retirar-se de Esparta.

LI. Mas Agesilau, vendo que os inimigos se esforçavam por passar o rio e penetrar dentro da cidade, resolveu defender somente o centro, que era o mais alto, diante do qual mantinha seus soldados em batalha. Ora, estava então, casualmente, o rio Eurotas muito cheio, como não era costume ficar, porque havia caído muita neve e causava maior mal aos tebanos pela sua friagem, do que pelo seu volume. Houve então alguns que mostraram a Agesilau, Epaminondas marchando à frente, diante de toda a sua tropa; olhou-o muito tempo, seguindo-o sempre com os olhos sem dizer outra coisa senão essa palavra somente: — "Oh! o homem da grande empreitada, ei-lo!" Epaminondas, entretanto, tendo feito tudo o que lhe era possível fazer para dar batalha aos lace-demônios dentro da própria cidade de Esparta e aí levantar um troféu, não pôde nunca atrair Agesilau nem fazê-lo sair de seu forte, pelo que afinal foi obrigado a partir sem terminar a pilhagem e estragar toda a região plana.

Sedição na cidade, apaziguada pela sabedoria de Agesilau. L

LII. Mas, dentro da cidade, houve aproximadamente duzentos motins promovidos por homens que de há muito tempo tinham má vontade, os quais se apoderaram de um bairro da cidade, onde estava o templo de Diana, lugar de base forte e difícil de ser forçado, que se chamava Issorium (23). Os lace-demônios quiseram correr furiosos contra eles, mas Agesilau, achando que isso não era causa para qualquer novidade maior, ordenou aos outros que não se mexessem e ele sozinho, com um traje simples, sem armas, a eles se dirigiu, gritando para os que o seguravam: — "Tendes ouvido diferente do que eu ordenei, pois não foi aqui que mandei que vos reunísseis, nem todos em um lugar; mas eu havia ordenado que uns fossem dali e outros de cá", mostrando-lhes diversos quarteirões da cidade. Os sediciosos, ouvindo estas palavras, ficaram descansados, porque julgaram que sua má intenção não tivesse sido descoberta, e saindo dali, partiram para os lugares que ele lhes havia mostrado; então Agesilau, fazendo vir outros, apoderou-se do forte de Issorium, mandou prender aproximadamente quinze desses sediciosos conjurados, os quais mandou matar na noite seguinte.

(23) Ver as Observações.

Conjuração abafada e castigada por Agesilau sem forma de processo.

LIII. Entretanto, foi descoberta uma outra conjuração, muito maior, de espartanos mesmo, que se haviam reunido secretamente em uma casa para suscitar algum novo movimento, contra os quais era embaraçoso formular o processo, em um tão grande tumulto e bem perigoso negligenciar, levando em conta a conspiração. Agesilau, tendo se comunicado em conselho com os éforos, mandou matar todos também, sem outra- forma de processo, ali, onde jamais anteriormente espartano algum havia sido executado, sem que primeiro houvesse sido condenado judicialmente. E como todos os dias, diversos de seus vizinhos e mesmo os hilotas, que havia arrolado em suas tropas como guerreiros, fugissem e fossem se tornar seus inimigos, o que desanimou bastante os moradores, Agesilau avisou seus servidores, que todos os dias, cedo, fossem examinar as enxergas, nas quais haviam dormido e que se apoderassem das armas dos que tinham fugido e as escondessem, a fim de que não se conhecesse o número daqueles que se haviam ocultado.

Os tebanos se retiram da Lacônia.

LIV. E, quanto à partida dos tebanos, uns dizem que partiram da Lacônia por causa do inverno que chegou, razão pela qual os arcadianos começavam a debandar e separar-se em desordem; outros dizem que eles ali ficaram três meses inteiros, durante os quais destruíram a maior parte do país; mas Teopompo escreve que tendo os capitães dos tebanos, resolvido retirar-se, chegou à sua presença um espartano chamado Frixus enviado da parte de Agesilau, que lhes trouxe dez talentos para que se fossem; de tal modo que, para fazer o que de há muito tempo haviam estabelecido fazer eles mesmos, ainda tiveram o dinheiro dos inimigos para fazer suas despesas pelo caminho. Mas eu não posso compreender como é possível que todos os outros historiadores não soubessem nada disto e que só Teopompo tivesse tido o conhecimento de tal fato.

Fraqueza de Esparta.

LV. É verdade e declarado por todos, que só Agesilau foi a causa de se salvar a cidade de Esparta, porque deixando de lado sua ambição e sua teimosia, que eram paixões natas nele, entendeu somente de prover aos negócios seguramente; todavia, jamais pôde se levantar dessa pesada queda, nem reafirmar sua reputação, nem poder, como tivera outrora. Pois em tudo é assim como um corpo são, que em todos os tempos, tendo observado dieta e regime de viver especial, no qual a menor falta ou menor desordem, estraga tudo, também estando a administração pública bem estabelecida e bem composta em virtude, pode fazer viver seus cidadãos em paz e em concórdia uns com os outros, e aptos, quando quisessem, a se defender das dominações de senhores violentos, dos quais Licurgo considerava que uma cidade para viver feliz e virtuosamente, não tem necessidade, e por isso eles foram descendo para a decadência.

Vitória sem lágrimas levantada por Arquidamo sobre os arcadianos.

LVl. Ora, estava Agesilau tão velho, que por causa de sua velhice não ia mais à guerra, mas seu filho Arquidamo, tendo o socorro que Dionísio, o tirano de Siracusa, lhes enviou, ganhou uma batalha contra os arcadianos, que chamam a batalha sem lágrimas; pois não morreu nem um só de seus soldados e foi morto grande número de inimigos. Esta vitória mostrou bem claramente a fraqueza da cidade, pois outrora lhe era coisa comum e costumeira vencer os inimigos, sacrificando aos deuses, em seguida, dentro da cidade, para lhes render graças pela vitória, apenas um galo; e, aqueles que haviam combatido, não se vangloriavam, nem aqueles que ouviam as notícias se alegravam demasiadamente; pois quando ganharam a grande batalha de Manti-néia que Tucídides (24) descreveu, os éforos enviaram àquele que havia trazido a notícia, como presente, um pedaço de carne (25) de seu salgado e mais nada. Quando, porém, trouxeram as novas desta vitória o compreenderam que Arquidamo voltava vitorioso, não houve ninguém que pudesse se conter na cidade e mesmo seu pai foi o primeiro ao seu encontro, chorando de alegria, depois dele os outros oficiais e toda uma multidão de velhos e de mulheres que desceram até a margem do rio, levantando as mãos aos céus e agradecendo aos deuses, como se sua cidade houvesse então vingado sua vergonha e recuperado sua honra e que recomeçasse a ver bruscamente o dia claro e sereno como antes. Pois até ali, segundo se diz, os maridos não ousavam nem olhar francamente o rosto de suas mulheres, tanto sentiam vergonha das perdas que haviam recebido.

(24) Esta batalha contra os atenienses, os argianos e os mantinianos, foi travada no terceiro ano da nonagésima Olimpíada, o ano de Roma 336, sob o comando de Agis.
(25) Não está escrito no texto que esta carne foi salgada, mas muito simplesmente que eles lhe enviaram um pedaço de carne de seu banquete.

Epaminondas surpreende a cidade de Esparta na ausência de Agesilau.

LVII. Mas, estando a cidade de Messena repovoada e sendo construída por Epaminondas, que para lá estava chamando os antigos moradores de todos os lados, não ousaram apresentar-se para combatê-lo, se bem que em seus corações estivessem mutíssimo indignados e desejassem grande mal a Agesilau, porque em seu reinado haviam perdido aquêle território, que não era de menor extensão que toda a Lacônia e competia com os melhores lugares de tôda a Grécia e do qual haviam gozado pacifica-mente por tantos anos. Eis a razão por que Agesilau não quis aceitar a paz que os tebanos lhe mandaram oferecer, não querendo violar sua palavra, quando os inimigos a mantinham de fato; mas, teimando em querer ainda combater e discutir, não somente não recuperou mais seu prestígio, como pouco faltou para que não perdesse com vantagem a própria cidade de Esparta num ardil de guerra, com o qual Foi surpreendido; porque estando de novo os man-tinianos separados da aliança dos tebanos e tendo mandado buscar os lacedemônios, Epaminondas, avisado de que Agesilau havia partido com toda a sua força para ir em socorro dos mantinianos, saiu uma noite de Tegéia, sem que os de Mantméia soubessem, foi direto a Esparta, de sorte que pouco faltou para que, indo por outro caminho que não aquêle que Agesilau trilhava, não surpreendesse des-prevenida a cidade de Esparta, completamente vazia de soldados para a defesa; mas um téspio, chamado Eulino, assim diz Calístenes, ou como escreve Xeno-fonte, um candioto, levou a notícia a Agesilau, que rapidamente mandou à frente um homem a cavalo para avisar os habitantes da cidade, pondo-se ele mesmo a caminho para voltar, nao demorando muito a chegar, e logo após, chegaram também os tebanos que passando o no Eurotas, empreenderam o assalto à cidade.

Agesilau volta e rechaça o inimigo.

LVlll. Agesilau, vendo que não era mais tempo de se manter em guarda e não querendo se aventurar, defendeu a cidade vigorosamente, mais do que sua idade permitia, concluindo que havia chegado a hora em que precisava expor-se, de cabeça baixa, a todo e qualquer perigo, e combater desesperadamente. Assim, impelido pelo desespero e pela coragem, em que outrora jamais havia confiado e jamais se havia utilizado, rechaçou para trás o perigo, salvando Esparta das mãos de Epaminondas, levantando um glorioso troféu por haver assim derrotado o inimigo, fazendo sentir às mulheres e às crianças que os homens lacedemônios pagavam ao seu país um belo e honroso salário pelo seu nascimento e criação; da mesma forma agiu Arquidamo, que praticou feitos admiráveis no combate, tanto pela sua coragem como pela sua disposição pessoal, correndo daqui e dali pelas ruas e ruelas da cidade, com alguns companheiros apenas, nos lugares onde havia mais combates, de onde expulsava os inimigos.

Extraordinária coragem de um jovem chamado Isadas.

LIX. Consta que houve um Isadas, filho de Fébidas, que praticou proezas admiráveis dignas de serem presenciadas não somente pelos seus concidadãos, como também pelos inimigos; pois era de bela fisionomia e bem conformado, encontrando-se então, justamente, na mais agradável e na mais bela estação de seus anos, quando o homem passa da infância para a juventude; estando despido não somente de armas defensivas mas também de todas as vestes, todo o corpo untado de óleo, como para lutar e tendo em uma de suas mãos uma parthisane e na outra uma espada, saiu fora de sua casa nesse estado, indo se atirar afoitamente com os que combatiam, abatendo todos os inimigos que se encontravam à sua frente, não ficando fendo, seja porque os deuses o quisessem preservar por causa da excelência de sua virtude ou porque os inimigos mesmo fossem de opinião que havia nesse fato alguma coisa mais do que de homem. Os éforos, depois, deram-lhe uma coroa para honrar sua façanha, mas ao mesmo tempo o condenaram a uma multa (26) de mil dracmas de prata, porque havia sido tão temerário em se aventurar no perigo da batalha sem armas defensivas.

(26) Cem escudos. Amyot.

LX. Batalha de Mantinéia.

LX. Poucos dias depois tiveram outra batalha em frente à cidade de Mantinéia, onde Epaminondas, tendo já partido as primeiras filas dos lacedemônios e apertando vivamente os outros, infundindo coragem aos seus, houve um laconiano chamado Antícrates, que o esperou parado e lhe vibrou um golpe de dardo, como descreve Dioscórides; todavia, os lacedemônios, até hoje, chamam os descendentes desse Antícrates, machecionas, que é o mesmo que dizer, espadachins, como se houvesse ferido com um golpe de espada; pois os lacedemônios o amaram e consideraram tanto, por causa desse golpe, pelo grande temor que tiveram de Epaminondas vivo, que ordenaram grandes honras e grandes presentes àquele que o havia morto e, aos seus descendentes, franquia a todos os cargos e atribuições públicas, cujos privilégios goza ainda em nosso tempo um Calícrates que é descendente desse Antícrates.

Agesilau perde a estima dos gregos e dos lacedemônios

LXI. Depois desta batalha e da morte de Epaminondas, tendo os gregos conseguido a paz universal entre eles, Agesilau quis ainda negar e excluir os messenianos do tratado, dizendo que não tinham direito a jurar por um tal chefe, levando em conta que não tinham cidade; mas, como todos os demais gregos, não obstante isso, o receberam no número dos contratantes e tomaram seu juramento, os lacedemônios se retiraram e desfizeram o tratado de paz geral, ficando somente eles a guerrear, na esperança de recuperar o país e território de Messena, tudo por instigação de Agesilau, que foi então considerado pelos gregos como homem violento, cruel e insaciável de guerras, por ir assim minando por baixo, procurando fazer cair, de todo o jeito, o tratado de paz universal. E, por outro lado, foi constrangido a desagradar seus concidadãos, dentro de sua cidade, devido à falta de dinheiro público, emprestando deles e obrigando-os a contribuir, e, assim, colocou-se em tão má situação diante de todo o mundo ali, que se julgava ser melhor pôr um fim a todas essas desgraças, pois levava todo o tempo, depois de haver perdido tão grande império, de tantas fortalezas e cidades e ter desistido do principado de toda a Grécia, tanto em mar como em terra, a atormentar-se para recuperar a renda das possessões do território messeniano.

Viagem ao Egito.

LXII. Ainda perdeu mais de sua reputação, quando se entregou a um capitão egípcio, chamado Tachos, o que foi considerado coisa indigna dele, que um tal personagem, reputado o maior de toda a Grécia e que havia enchido toda a terra com a fama de seu nome, fosse alugar sua pessoa e a glória de seu nome por dinheiro, a um bárbaro traidor e rebelde, para exercer a seu serviço o ofício de capitão mercenário, pois já era idoso, com mais de oitenta anos, com o corpo todo retalhado de ferimentos, quando aceitou o belo e honroso cargo para conduzir a recuperação da liberdade dos gregos, quando sua ambição ainda era irrepreensível, porque as coisas que são por si belas, têm seu tempo e sua estação própria, ou para melhor dizer, as boas e belas não diferem das feias e más, senão na dosagem com que elas se formam, pela moderação e pela mediocridade. Todavia, Agesilau não se preocupou muito com tudo isto e não julgou que houvesse alguma indignidade no serviço que se faz para o bem da coisa pública, mas antes se persuadiu que era coisa indigna dele, viver ocioso, sem nada fazer em uma cidade, esperando que a morte o viesse buscar. Portanto, reuniu na Grécia os guerreiros assalariados que Tachos lhe enviou, com os quais embarcou, tendo como seus conselheiros e seus colaboradores trinta espartanos, como havia acontecido em sua primeira viagem.

. Má opinião que os egípcios formam a seu respeito

LXIII. Uma vez chegado ao Egito, imediatamente os principais governadores e capitães do rei Tachos desceram à praia para o receber e lhe prestar honra, e não somente esses, mas também diversos outros egípcios de outros estados que o esperavam com grande devoção pela grande fama do seu nome, acorreram de todos os lados para verem que espécie de homem era êle, mas quando não viram nenhuma magnificência de séquito e de equipagem, mas somente um velho deitado sobre a relva, ao longo da praia, de estatura pequena, simples em sua atitude e sem nenhuma aparência, grosseiramente vestido com um velho traje usado, tiveram vontade de rir e caçoar, dizendo entre eles que aquilo verdadeiramente confirmava o que existia na fábula, — que uma montanha gemeu com as dores do parto, dando à luz um ratinho. Ainda o acharam mais estranho quando lhes trouxeram presentes de boas vindas, pois recebeu bem as farinhas, os vitelos e os filhotes de ganso, mas os doces, massas, odores e perfumes, recusou-os, e como aqueles que lhe haviam oferecido insistissem para que aceitasse, disse-lhes que os levasse aos hilotas, seus escravos. Teofrasto escreve que êle tomou gosto pela grama de papel, achando belos os terços (27) ali feitos, salientando-se pela sua beleza e acabamento, tendo levado deles quando partiu.

(27) As coroas.

Abandona Tachos para passar no partido de Nectanebo

LXIV. Mas, tendo falado com Tachos, que estava pondo em ordem seu exército e preparando sua viagem, não foi feito capitão-general, como esperava, mas somente coronel dos estrangeiros; Chabrias, era o comandante da armada e comandante em chefe, acima do qual estava Tachos em pessoa; isso desagradou muito a Agesilau, pois estava constrangido, quisesse ou não, a suportar a glória vã e a louca arrogância deste egípcio, o que o afligia muito porque era preciso ir com ele por mar contra os fenícios, dobrando-se sob seu jugo e obrigado a agir, de encontro à sua dignidade e contra sua natureza, até que chegou a ocasião de se ressentir. Um sobrinho de Tachos, chamado Nectanebo, tendo a seu cargo uma parte do exército, rebelou-se contra o tio e sendo eleito rei pelos egípcios, enviou um pedido a Agesilau solicitando que o viesse socorrer; também mandou pedir a Chabrias para tomar seu partido, prometendo a um e ao outro grandes presentes. Tachos, porém, tendo percebido, pôs-se a suplicar aos dois que não o abandonassem, o que fez Chabrias, que reconfortando Agesilau e lhe fazendo diversas admoestações, procurou conservá-lo na amizade de Tachos. Ao que Agesilau lhe respondeu:

— "Quanto a ti, Chabrias, que aqui vieste por teu próprio impulso, podes bem fazer o que bom te parece, mas quanto a mim é outra coisa; pois meu país enviou-me aqui como capitão ao serviço dos egípcios; portanto, não seria nada honesto que eu guerreasse contra esses a quem me enviaram para servir e socorrer, a menos que esses mesmos para os quais fui enviado, me mandassem agora o contrário". Dad a esta resposta, despachou alguns de seus soldados a Esparta para aí acusar Tachos e louvar Necta-nebo; eles também, cada um por seu lado, mandaram pedir o conselho da Lacedemônia, um como sendo seu amigo e aliado de todos os tempos e o outro prometendo ser no futuro mais leal e amigo mais dedicado. Os lacedemônios, tendo ouvido essas súplicas, responderam publicamente que Agesilau teria cuidado em resolver a respeito, e em segredo lhe escreveram que fizesse aquilo julgado mais útil para Esparta. Assim Agesilau, tomando consigo os aventureiros que trouxera da Grécia, retirou-se para junto de Nectanebo, cobrindo-se com a capa de que "era para o bem de seu país", para disfarçar seu maldoso intento; pois se lhe retirassem essa máscara de utilidade pública, achariam que o nome mais justo que lhe poderiam dar, seria traição, mas os lacedemônios, colocando como primeiro ponto de honra o que era útil para seu país, não conheciam outra justiça senão aquela que contribuísse para crescimento e progresso de Esparta.

Faz sair este de uma fortaleza onde estava sitiado

LXV. Assim Tachos, vendo-se abandonado por esses estrangeiros mercenários, fugiu; mas por outro lado levantou-se também na cidade de Mendes um outro rei contrário a Nectanebo, o qual tendo reunido cem mil combatentes, vinha procurá-lo e combatê-lo. E Nectanebo, julgando encorajar Agesilau, ia lhe dizendo que os inimigos estavam em grande número, mas que eram homens recolhidos de todos os cantos, pessoas do trabalho a maioria, dos quais não precisava fazer caso, porque eles não sabiam o que era a guerra; Agesilau respondeu-lhe: — "Ao contrário, eu não temo o seu número, mas sua ignorância e falta de experiência, o que é mais difícil de iludir; pois os ardis de guerra valem e servem contra aqueles que, ao se defenderem, mantendo-se em guarda, duvidam e desconfiam, e por este meio, esperam uma coisa em vez de outra; mas com aquele que não duvida de nada e que não espera uma coisa mais cedo do que outra, que não dá nenhuma oportunidade àquele que procura provocá-lo, mais do que o que não.se mexe na luta, não demonstra nenhuma inclinação nem meio de enfraquecer o adversário que luta contra êle". Depois o mendisiano mesmo mandou mensageiros à presença de Agesilau, procurando trabalhá-lo, pelo que Nectanebo teve receio e desconfiança; razão por que Agesilau aconselhou-o a descer para a batalha o mais cedo que pudesse e não demorar esta guerra contra soldados que não sabiam o que era combater, mas que devido ao seu elevado contingente, poderiam muito bem envolver e fechá-los em trincheiras, e prevenindo-o sobre diversas coisas, Nectanebo ficou então com suspeitas maiores e maior desconfiança dele, de tal forma que afinal retirou-se para uma grande cidade bem fechada por boas muralhas e que era um grande recinto; isto fez Agesilau ficar descontente, desagradando-o bastante o fato de ver como desconfiavam assim; no entanto, tendo vergonha de se virar bruscamente para o outro lado ou de voltar sem nada fazer, seguiu-o e entrou com ele dentro daquela fortaleza onde os seus inimigos o perseguiram; uma vez chegados diante do lugar, começaram a entrincheirar-se à volta para o fechar; motivo por que o egípcio Nectanebo temendo por outro lado ser durante muito tempo sitiado, quis iniciar batalha, com os aventureiros gregos às suas ordens, os quais não pediam outra coisa, mesmo porque havia muito pouco trigo no lugar, e ao contrário Agesilau impedindo-o e não desejando ceder, ficou ainda em pior situação do que antes com relação aos egípcios, a ponto de lhe dizer que era um traidor ao seu rei; mas ele começou a suportar mais pacientemente as injuriosas calúnias com que o acusavam, esperando o tempo favorável para executar um ardil que tinha em seu pensamento, o qual era: os inimigos construíam uma trincheira grande e profunda à volta da cidade para, por todos os pontos, fechá-la; quando as duas pontas da trincheira ficassem bem perto uma da outra e faltasse bem pouco para se encontrarem, esperando que a noite desse dia chegasse, ordenou aos gregos que se armassem e se mantivessem prontos, depois dirigindo-se ao egípcio disse-lhe: — "Eis o ponto culminante da ocasião própria para te salvares, cuja ocasião não te quis dizer, até que houvesse chegado, com medo de perdê-la. Pelo que, agora que mesmo os inimigos com suas próprias mãos nos arranjaram o meio de nos retirar a salvo, fazendo esta trincheira, da qual o que já está feito os impede de poderem se servir de sua multidão de soldados e o que está para ser feito, nos dá comodidade de os poder combater com número igual e medida semelhante, delibera mostrar-te por este golpe, homem de coragem e nós seguiremos teus passos; salva-te rapidamente, tu e tua gente, pois esses inimigos que encontramos de frente, não nos susterão nunca e os outros por causa da trincheira que nos cobrirá pelos lados, não nos poderão prejudicar". Ouvidas estas palavras, Necta-nebo maravilhou-se de seu bom senso, e colocando-se no meio dos gregos, deu contra os inimigos, os quais em poucas horas, foram facilmente derrotados, pelo menos aqueles que esperaram e que lhe ousaram fazer frente.

Ganha uma grande vitória que assegura o trono a Nectanebo.

LXVI. Depois que Agesilau ganhou nesse ponto e que Nectanebo nele acreditou, surpreendeu os inimigos ainda com o mesmo ardil, com o qual já os havia surpreendido, nem mais, nem menos do que de uma reviravolta na luta, da qual eles não souberam se defender; pois era simulando fugir e atraindo-os para perto dele, ora rodopiando daqui e dali, tanto fez que afinal atraiu toda esta grande multidão para um aterro estreito, apertado dos dois lados por grandes fossas, largas e profundas, cheias de água corrente; depois, quando ficaram no meio, barrou-lhes subitamente o passo com a frente da batalha, que igualou à largura do aterro, e assim fazendo, igualou também o número de seus combatentes com a multidão dos inimigos, porque não puderam mais rodeá-lo, nem pelos lados, nem por trás; por esse meio, depois de pequena resistência, foram todos postos em fuga e ficando grande número de mortos sobre o sítio e os outros, depois de haverem sido uma vez rompidos, debandaram e se afastaram fugindo daqui e dali, de tal forma que depois os negócios do rei egípcio se realizaram bem e encontrou-se seguro em seu estado. Daí em diante, estimou singularmente a Agesilau, fazendo-lhe, a toda a hora, todo o agrado que lhe era possível, pedindo-lhe que ficasse e passasse o inverno com êle; mas Agesilau teve pressa de voltar ao seu país porque a guerra lá estava, sabendo que sua cidade tinha falta de dinheiro e atendendo que ela estava obrigada a manter a seu soldo soldados estrangeiros.

Morte de Agesilau.

LXVII. Após isto, Nectanebo despediu-se dele muito honradamente e com bastante magnificência presenteando-o, além de todas as outras honras e dádivas, com duzentos e trinta talentos (28) em prata sonante, para suprir as despesas de guerra que seu país sustentava; mas, estando o mar em tormenta, por ser a estação do inverno, Agesilau morreu pelo caminho, tendo todavia ganho a terra com seus navios num lugar deserto nas costas da Líbia, que se denomina o Porto Menelau (29), depois de haver vivido oitenta e quatro anos, dos quais durante quarenta e um foi rei de Esparta e desses, durante mais de trinta, havia sempre continuamente sido estimado como o maior e o mais poderoso homem e quase como capitão-general de toda a Grécia até a jornada de Leutres. Sendo costume dos lacedemônios exumar os corpos de seus cidadãos que faleciam fora do país, no lugar mesmo onde morriam e lá deixá-los, exceto os reis, que transportavam ao país, os espartanos que então estavam à volta de Agesilau, por falta de mel, derreteram cera sobre seu corpo e o transportaram desse modo para Esparta. Seu filho Arquidamo sucedeu-o no trono, o qual ficou por sucessão contínua aos seus descendentes, até Ágis, que Leônidas mandou matar, porque procurava fazer voltar a antiga disciplina e modo de viver da Lace-demônia, sendo o quinto rei de pai para filho depois de Agesilau.

(28) Cento e trinta e oito mil escudos. Amyot.
(29) Sobre o Mediterrâneo, acima do promontório de Ar-dane, na parte da Africa denominada Marmarica, entre o Egito ao oriente e a Cirenaica ao ocidente.


 

Tradução de Carlos ChavesFonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Sexto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

out 312010
 
Arte etrusca

Plutarco Vidas Paraleas

FÓCION

Desde o terceiro ano da nonagésima-quarta Olimpíada, até o terceiro ano da centésima-décima-quinta; A. C. 318.

As circunstâncias retiraram da virtude de Fócion uma parte da glória que merecia.

O orador Demades desfrutou em certa época, de grande prestígio em Atenas porque dizia e fazia, quando se intrometia no governo, tudo o que julgava agradar e servir aos macedônios e a Antipas; para isto era constrangido, muitas vezes, a aconselhar e persuadir coisas deprimentes para a dignidade de sua terra e contrárias à vida normal da cidade, e depois, para se desculpar, não se cansava de dizer que deviam perdoá-lo se assim procedia, porque o que ele tinha a governar era, nada menos que os restos do naufrágio de seu país. Isto, ainda que seja dito um pouco crua e temeràriamente, poderia parecer verdadeiro, se se referisse à administração de Fócion; pois, para dizer a verdade, Demades era, ele mesmo, o náufrago de sua cidade, vivendo tão dissolutamente e conduzindo-se tão vergonhosamente em seu governo, que o próprio Antipas dizia dele, depois que ficou velho, que não era mais do que uma hóstia imolada à língua e ao ventre; mas a virtude de Fócion teve que combater ( 1) um poderoso e violento inimigo, como o tempo, que trouxe calamidades à Grécia e foram causa de não ter sido famosa nem celebrada como merecia; pois não se pode depositar fé nas palavras de Sófocles, que faz a virtude fraca, quando diz:

Nada (2) fica aos aflitos, Senhor, Mesmo o senso em boa hora.

Mas é preciso conceder que a sorte, quando lhe apraz opor-se aos homens virtuosos e às pessoas de bem, tem tanto poder, que em vez de receberem estas a honra e a graça que merecem, coloca sobre alguns deles falsas imputações e malignas calúnias que são motivos de não se crer mais em suas virtudes, tais como são.

As repúblicas são perigosas para se manejar na adversidade.

II. Todavia, parece a muitos que os povos livres são mais violentos e ultrajam mais seus bons cidadãos no tempo da prosperidade porque o feliz sucesso de seus negócios e o crescimento de seu poder lhes endurece o coração; mas não é isto. Ordinariamente, as adversidades tornam os homens despeitados, tristes e prontos a se encolerizar, e seu ouvido pouco disposto, áspero e ofendido a todo propósito e toda palavra dita claramente. Aquele que reprova aos que falham, parece propriamente lhes censurar suas desgraças e aquele que fala francamente parece caluniá-los. Pois tudo é assim como o mel, que é doce por natureza e, no entanto, produz dor, quando o aplicam nas úlceras ou nos ferimentos e partes inflamadas; também as admoestações sábias e verdadeiras mordem e irritam aqueles que se acham na desgraça, se não estão bem adocicadas. Eis porque o poeta Homero chama ao delicado, menoices, o que equivale a dizer: cedendo e obedecendo à parte da alma que está inchada de despeito e de raiva, não a resistindo nem a combatendo; nem mais, nem menos como o olho doente que, mais voluntariamente, olha as coisas sombrias, escuras e não reluzentes e foge daquelas que são vivas, alegres e brilhantes; também numa cidade, na qual os negócios não andam ao gosto dos cidadãos (3), o povo tem ouvidos delicados e medrosos, por causa de sua imbecilidade, para suportar pacientemente uma língua que diga a verdade livremente; então preferem, principalmente, ouvir aquilo que não lhes traz seu erro diante dos próprios olhos; portanto, é perigoso para os que governam, em todos os sentidos, pois perde com a coisa pública, aquele que adula; e também aquele que não adula.

Temperamento delicado, mas também difícil de encontrar quando necessariamente, em iguais circunstâncias.

III. Assim, portanto, como dizem os matemáticos, o sol não segue totalmente o curso do firmamento, nem também tem seu movimento oposto ou contrário, mas enviezando um pouco e caminhando por uma via oblíqua, traça uma linha torta, que não é muito violentamente estendida, mas vai girando delicadamente e, por sua obliqüidade, é causa da conservação de tudo, mantendo o mundo em boa temperatura. Também em matéria de governo, a severidade muito inflexível em todos os propósitos e em todas as coisas diante da vontade do povo, é muito dura e muito rude; também a facilidade de deixar cair no erro os que falham, porque vêem o povo afeiçoado e inclinado àquela parte, isto é um precipício muito escorregadio e muito perigoso. Mas a via do centro, em ceder algumas vezes para fazer obedecer em outra e ceder uma coisa agradável para pedir uma útil, é um meio salutar para bem reger e governar os homens, os quais se deixam por fim conduzir mansa e utilmente para executar o que é bom, quando não sujeitos, em tudo e por tudo, em elevada luta nem por uma violenta e senhorial autoridade. É bem verdade que esse meio é muito desagradável e difícil, porque nele há majestade misturada com graciosidade; mas também quando estão misturadas juntas, não há harmonia tão musical, nem consonância tão bem afinada nem tão perfeita; também dizem ser este o estilo do deus da natureza no governo deste mundo, sem nada forçar, abrandando por admoestação e persuadindo pela razão, para constranger à obediência.

Austeridade excessiva de Catão.

IV. Esse defeito de austeridade tinha Catão, o Jovem, pois não possuía a natureza nem os costumes agradáveis a um povo, nem próprios para se fazer amar pela plebe; também não chegou a ter prestígio por ter adulado o povo. Eis porque Cícero diz que, governando, nem mais, nem menos como se estivesse na cidade e na coisa pública é que se forma Platão, e não na escória e no bagaço como foi Rómulo, o qual foi desviado (4) e falhou ao obter o consulado. É minha opinião que ele se parece propriamente com os frutos que vêm fora da estação, que são elogiados por todos mas não são aproveitados. Também a antiga inocência, há muito tempo havia caído do uso e vinha depois de tão longo intervalo mostrar-se entre as vidas corrompidas e os costumes estragados desse tempo; adquiriu-lhe uma grande glória e grande fama; no entanto não encontrou saída para a pôr em ação, nem era própria para empregar nos negócios, porque a gravidade e perfeição de sua virtude eram muito desproporcionadas à corrupção desse século.

Porque Plutarco compara Fócion com Catão.

V. Pois êle não veio intrometer-se no governo dos negócios já estando a república arruinada, como fêz Fócion, que aí chegou quando estava muito enfraquecida e agitada por grande tormenta; e não teve nunca o timão nem a autoridade de piloto na mão, mas tratou apenas de manejar as velas e cordagens, assistindo e secundando aos que tinham mais prestígio e poder do que ele; e no entanto ainda deu muito trabalho à sorte, a qual, tendo procurado arruinar e abolir a república, conseguiu afinal por meio de outros, mas foi com grande sacrifício, lenta e demoradamente, e ainda por pouco quase ficou por baixo, por causa de Catão e de sua virtude, à qual comparo aquela de Fócion, não que seja minha opinião de que tenham sido parecidos por semelhança geral e universal, mas quero dizer apenas que todos os dois foram pessoas de bem, todos os dois entendidos em matéria de situação e de governo; pois ainda há diferença de energia a energia, como entre aquela de Alcibíades e a de Epaminondas; e de prudência a prudência, como aquela de Temístocles para a de Aristides; e de justiça a justiça, como aquela de Numa à de Agesilau; mas as virtudes desses dois personagens mostram em tudo um mesmo traço, um mesmo molde, uma mesma tez e mesma cor impressas em seus costumes, até nas mínimas particularidades, tendo ambos possuído a austeridade quase em igual medida, juntamente com a brandura, a energia com a prudência, a vigilância temerosa pelos outros, com a segurança resoluta para eles mesmos, a fuga das coisas vergonhosas e zelo pela justiça, igualmente comuns aos dois, tanto que é preciso um bem sutil e hábil juízo como por um instrumento, para encontrar e saber discernir as diferenças.

Nascimento e caráter de Fócion.

VI. Ora, quanto a Catão, é coisa confessada por todos, que era de casa grande e nobre, como diremos mais adiante em sua vida; quanto a Fócion, conjeturo que não tenha saído de lugar baixo nem vil; pois teria sido filho de um fabricante de colheres, como diz Idomeneu (5), Glaucipo, o filho de Hipérides (6) que ajuntou na invectiva que escreveu contra ele, todos os males que pôde, e não se esqueceu de censurar-lhe a baixeza plebéia de sua linhagem; pois em sua juventude foi discípulo de Platão e depois de Xenocrates na escola da Academia, onde se dedicou desde seu início a todas as práticas de bons costumes; pois como Duris escreveu, jamais ateniense o viu rir ou chorar, nem lavar-se nos banhos públicos, nem pôr as mãos fora da capa de sua veste nas raras vezes que a usava, pois quando ia pelos campos, durante as guerras, caminhava sempre de pés nus e sem veste, se não fazia um frio extremo e insuportável, de sorte que os soldados, na sua linguagem comum, diziam entre eles que era sinal de grande inverno, quando viam Fócion vestido.

Diversas piadas de Fócion.

VII. E se bem que fosse muito delicado e muito humano por natureza, no rosto demonstrava ser austero e intratável, de sorte que um homem que não tivesse familiaridade com ele, não o teria facilmente abordado sozinho; assim um dia quando o orador Cares caçoava da severidade de suas sobrancelhas, como o povo de Atenas fosse tomado pelo riso, ele respondeu publicamente: — "Estas minhas sobrancelhas, senhores atenienses, não vos fizeram nenhum mal, mas as risadas destes favoritos aqui, muitas vezes vos fizeram chorar". Seu linguajar, igualmente, pelas boas concepções e belas sentenças que continha, era cheio de instrução, muito útil e salutar, mas de um laconismo imperativo, austero e de forma alguma adocicado; pois, como dizia o filósofo Zenon: — "Que o homem sáBio deve molhar sua palavra no senso e na razão antes de pronunciá-la", também o falar de Fócion, de poucas palavras, continha muita substância e parece ser esta a razão pela qual Polieucto, o Esfetiano, diz: — "Que Demóstenes era muito bom orador, mas que Fócion era muito eloqüente". Pois, assim como as peças de ouro ou de prata são as melhores, as quais, com menos massa, têm mais preço e mais valor, também a força no falar repousa em significar muito com poucas palavras. A este propósito contam, que um dia, estando todo o teatro repleto, Fócion passeava à parte, sozinho, meditando, no tablado da cena, quando um de seus amigos, vendo-o assim pensativo, perguntou-lhe: — "Pensas em alguma coisa, Fócion? — Com efeito, respondeu ele, penso se poderia cortar ainda alguma coisa do que tenho a dizer ao povo ateniense". E Demóstenes mesmo, que fazia bem pouco caso de todos os outros oradores de seu tempo, quando Fócion se levantou uma vez para falar, fartou-se em dizer baixo no ouvido de seus amigos: — "Eis o machado que se levanta para cortar minhas palavras". Todavia, isto poderia por acaso também referir-se aos seus costumes; porque não somente uma palavra, mas também uma olhadela ou um sinal de cabeça de um homem de bem, têm o poder de persuadir contrapesando com vantagem, mais que infinitos argumentos e cláusulas artificiais de retórica.

Inícios de Fócion sob a orientação de Cábrias.

VIII. Em suma, na sua juventude convivia com o capitão Cábnas e seguia-o, aprendendo com êle muita coisa referente aos feitos da guerra e reciprocamente também o corrigia de algumas imperfeições que tinha por natureza. Pois sendo Cábrias, pensando bem, homem frio e difícil de se comover, quando vinha ao combate, queimava-se do ardor da coragem, de tal modo se atirava, de olhos fechados ao perigo, entre os mais temerários; também isto lhe custou a vida dentro da ilha de Quios (7), onde quis ser o primeiro a abordar com sua galera e descer à terra apesar dos inimigos; mas Fócion, sendo prudente em se preservar e esperto no executar, esquentava de um lado a lentidão de Cábrias e de outro amornava sua ardente impetuosidade; por esta razão Cábnas, sendo homem brando e bondoso, estimava-o e cientificava-o dos negócios, dan-do-o a conhecer aos gregos e servindo-se dele nas coisas de maior responsabilidade, como o fez adquirir grande honra e grande reputação na batalha naval que ganhou junto da ilha de Naxos (8), onde lhe deu a conduzir a ponta esquerda de sua armada e foi neste lugar o combate mais áspero do que em nenhuma outra parte; também aí foram os inimigos mais depressa rompidos. Esta batalha, sendo a primeira que a cidade de Atenas ganhou só com suas forças depois de sua tomada, foi causa do povo amar muito Cábnas e começar a fazer caso de Fócion, como de um personagem serviçal e digno de ter um cargo. Esta batalha foi ganha no próprio dia da festa dos grandes mistérios, em memória da qual Cábnas, todos os anos, no décimo-sexto dia de agosto, dava a beber a quem quisesse, do povo ateniense. Depois Cábrias, tendo-o escolhido para enviá-lo a receber o dinheiro e os navios com que os aliados consulares deviam contribuir, entregou-lhe vinte galeras; dizem que Fócion respondeu-lhe que se o enviava para combater inimigos, precisava de maior número de navios, e se o enviava como embaixador diante de aliados e amigos, só uma galera lhe era suficiente. Assim, indo só com uma galera, depois de haver falado nas cidades e se comunicado com os oficiais e governadores, branda e simplesmente, voltou com uma boa frota de navios que forneceram os aliados e com dinheiro também para os atenienses.

Apego de Fócion por Cábrias.

IX. Se Fócion continuou a honrar tanto Cábrias, enquanto viveu, mas também depois de sua morte, e abraçou a proteção dos que lhe pertenciam e se esforçou para tornar seu filho Ctesipo, homem de bem, apesar de vê-lo muito depravado e bastante incorrigível, não deixou nunca de experimentar sempre diminuir e encobrir sua infâmia; todavia, dizem que como esse rapaz estava sob sua guarda numa guerra em que era o capitão, deu-lhe dores de cabeça e importunou-o, fazendo-lhe em cheio perguntas desagradáveis, intrometendo-se a querer aconselhá-lo, repreendê-lo e ensinar-lhe o ofício e dever de capitão, ao que não pôde se conter e disse: — O Cábrias, Cábrias! Pago bem cara, a amizade que me dedicaste quando vivo, suportando a importunação de teu filho".

Fócion estuda igualmente a política e a guerra.

X. E vendo que aqueles que manejavam os negócios do governo em Atenas, estavam repartindo entre si, como por meio de sortes, os cargos militares e civis, de tal modo, que uns como Éubulo, Aristo-fon, Demóstenes, Licurgo e Hipérides, não faziam mais nada senão discursar diante do povo e submeter projeto a sua frente, e, os outros como Diopitas, Menesteu, Leóstenes e Cares faziam-se grandes e ricos, guerreando e tendo cargos militares, preferiu mais propôr-se a imitar e seguir a maneira de governo que haviam tido Péricles, Aristides e Sólon, como sendo mais completa e composta de uma e de outra parte igualmente, pois cada um deles, a meu ver, como diz o poeta Arquílocos:

Unido era bom servidor de Marte
E conhecia das Musas a delicada arte.

Também não ignorava que a deusa tutora de Atenas, Palas, era guerreira e política ao mesmo tempo, isto é, possuía as qualidades necessárias para governar na guerra e na paz.

Não adula nunca o povo.

XI. Estando, portanto, assim preparado o alvo, ao qual dirigia sempre toda sua intervenção do governo da república, ele que desejava sempre o repouso e a paz, no entanto foi muitas vezes eleito capitão e teve mais de uma vez o comando de forças, não somente de todos os homens de guerra de seu tempo, mas também de todos aqueles que haviam sido antes dele, não pedindo nem solicitando tais cargos, nem também recusando ou rejeitando quando a necessidade o chamava; pois é coisa certa que por quarenta e cinco vezes foi eleito capitão, sem que jamais tenha se encontrado uma só vez nas assembléias das eleições, sendo sempre escolhido ausente; deste modo, os homens insensatos se espantavam desta maneira de agir do povo, visto que jamais Fócion fazia nem dizia coisa alguma para os agradar, mas a maioria das vezes contradizia a sua vontade, em vez dos outros, que eram mais engraçados, mais alegres e mais agradáveis em suas arengas, pelos apartes e passatempos, nem mais, nem menos como dizem dos reis, que ouviam seus aduladores e engraçados, depois de terem lavado as mãos para se porem à mesa; mas quando era questão de escolher os cargos militares, então pensavam demorada e conscientemente, chamando sempre o homem mais austero e mais sábio da cidade, aquele que só ou mais do que nenhum outro, se opunha a todos os seus apetites e a todas as suas vontades. Um dia, tendo sido lido publicamente um oráculo de Delfos, o qual dizia: "Que todos os outros atenienses estando de acordo, havia um único que estava contrário a todo o resto da cidade", Fócion adian-tando-se disse publicamente: "que não se dessem de modo algum ao trabalho de procurar quem era aquele, pois era ele, porque de fato achava nada bom de tudo o que faziam".

Bons ditos e sábias respostas de Fócion.

XII. Uma outra vez aconteceu-lhe dar uma opinião diante da assembléia do povo, a qual foi universalmente aprovada e recebida por todo o mundo e, vendo que toda a assistência se punha logo ao seu lado, voltou-se para seus amigos,’ perguntan-do-lhes: — "Ai de mim! meus amigos, não me escapou alguma palavra sem pensar?" Uma outra vez, como os atenienses solicitassem uma contribuição liberal e voluntária em dinheiro, para fazer um sacrifício, tendo os outros de sua posição, já entregue sua parte, foi também nominalmente chamado várias vezes para o mesmo fim, mas ele lhes disse: — "Pedi a esses que são ricos, pois quanto a mim, terei vergonha de contribuir, não tendo ainda pago a este aqui", mostrando o agiota, Cálicles, que lhe havia emprestado dinheiro; mas como eles não cessavam nem por isto de gritar e bradar contra ele, pôs-se a contar-lhes esta história: — "Houve um dia um homem covarde que se preparava para ir à guerra, e na hora em que ia partir, ouviu gritar os corvos e pensando que fosse um mau presságio para ele, pousou suas armas e parou na hora, ficando em casa. Depois tomou-as uma outra vez e se pôs a caminho para ir ao campo; os corvos recomeçaram a gritar atrás ainda mais, e então ele ficou de uma vez e disse finalmente: — "Gritais bastante e alto como desejais, mas não comereis meu corpo".

XIII. Uma outra vez os atenienses, estando na guerra sob seu comando, queriam, a toda força, que ele os conduzisse para ir contra seus inimigos. Ele não o queria e nessa ocasião chamaram-no de covarde e poltrão; ele respondeu-lhes: — "Nem vós me saberíeis fazer destemido, nem eu a vós covardes; todavia nós nos conhecemos bem uns aos outros". Uma outra vez, em tempo bastante perigoso, o povo o maltratava e queria que imediatamente prestasse contas de sua administração e de seu cargo; ele lhes respondeu: — "Ó meus amigos, salvai-vos, salvai-vos primeiramente". E como durante a guerra fossem humildes e flexíveis pelo pavor que tinham, mas de repente, tendo sido feita a paz o afrontassem com palavras e gritassem contra Fócion, que lhes havia conseguido a vitória toda, assegurada entre as mãos, ele nada fez senão dizer: — "Sois bem felizes em ter um capitão que vos conhece, pois do contrário seríeis pedaços perdidos". Tiveram aliás alguma diferença contra ele devido sua conduta contra os beócios, com os quais o povo não queria contender em justiça, mas combater em campo de batalha; mas Fócion disse-lhes que eles não entendiam nada, aconselhando-os a combater antes por palavras, no que eram mais fortes, e não com as armas, no que eram mais fracos. Sua opinião numa assembléia do Conselho desagradou algumas vezes tanto aos atenienses, que eles não queriam nem ter paciência de ouvi-lo; e êle lhes disse então: — "Não podeis forçar-me, senhores atenienses, a fazer o que não se deve; mas fazer-me dizer contra minha opinião coisa que se não deve dizer, a isto vós não saberíeis me constranger". Repelia também vivamente os oradores que eram contrários, quando o atacavam, como respondeu uma vez a Demóstenes, o qual lhe dizia: — "O povo te matará algum dia, Fócion, se entra em furor"; — "A ti também, disse êle, se entra em seu bom senso". E a Polieucto, o Esfetiano, o qual num dia que fazia muito calor, persuadia o povo a empreender a guerra contra o rei Filipe e estava quase sem fôlego, respirava e suava em grossas gotas, pois que era muito gordo, de sorte que precisava beber água diversas vezes para terminar seu discurso: — "Verdadeiramente, disse ele, há razão para que ordeneis a guerra seguindo persuasão deste aqui; o que pensais vós fará ele quando tiver a mochila sobre os ombros e os inimigos pela frente, se agora, pronunciando somente um discurso que estudou há muito, está em perigo de arrebentar-se e sufocar diante de vós?" E como, durante uma assembléia de Conselho, Licurgo lhe dirigisse vários insultos na presença de todo o povo, e depois de tudo ainda disse que Alexandre, tendo pedido dez dos cidadãos de Atenas para fazer com eles o que bem lhe parecesse, havia Fócion aconselhado a entregá-los, ele respondeu: — "Muitas vezes aconselhei diversas coisas boas e belas a estes aqui, mas não quiseram atender".

XIV. Havia então em Atenas um homem chamado Arquibíades que imitava o lacedemônio com uma barba longa e forte, uma mísera capa e uma fisionomia e atitude sempre tristes. Fócion, encontrando-se um dia na assembléia da cidade, tratado com aspereza pelo povo, chamou-o como testemunha para provar e confirmar suas palavras, mas o outro, levantando-se, fez justamente o contrário, aconselhando o que lhe parecia ser agradável ao povo; ouvindo isso Fócion, pegou-o pela barba e lhe disse (9) : — "Por que não fazes, portanto, badalar esta barba, desde que queres te pôr a adular?" Havia (10) um grande advogado chamado Ansto-giton, que em todas as assembléias da cidade não fazia outra coisa senão proclamar ordinariamente a guerra e pregar que se devia dar as armas ao povo.

Depois, quando foi preciso levantar soldados e arrolai os nomes daqueles que deveriam ir à guerra, ele veio à praça, apoiado em uma bengala, as duas pernas enfaixadas para fazer crer que estava doente; e Fócion percebendo-o de longe, de cima da tribuna, gritou bem alto ao secretário que escrevia os arrolados: — "Escreve também: Anstogiton, covarde e mau, que imita o manco".

XV. Deste modo, algumas vezes eu me admiro de como um homem tão áspero e tão severo, como é evidente por seus exemplos, nunca teve o cognome de bom. Todavia, acho que é coisa bem difícil, mas não impossível encontrar um homem como o vinho, que seja maneiroso e engraçado como os outros, ao contrário, que à primeira vista parecem suaves no convívio e depois tornar-se tão desagradáveis e prejudiciais a todos os que conversam com eles. No entanto se lê que o orador Hipérides disse um dia ao povo de Atenas: — "Senhores atenienses, não olheis somente se eu sou azedo, mas considerai e o sou sem tirar proveito"; como se os homens não fossem desagradáveis e enfadonhos pela avareza apenas e o povo não temesse e não odiasse a esses todos que por arrogância, inveja, insolência, cólera e obstinação, abusam de seu prestígio e autoridade. Fócion, portanto, não praticou mal nem desagradou a cidadão algum por inimizade particular que tivesse contra êle, nem nunca odiou nenhum, mas era somente áspero e rude contra aqueles que resistiam a alguma coisa que empreendia fazer pelo bem público; pois, pensando bem, mostrava-se em tudo delicado, cortês e humano para com todo o mundo, até mesmo em convivendo particularmente com os que lhe eram adversários e socorrê-los em seus negócios, se vinham a cair em algum perigo e alguma adversidade. Seguindo tal propósito, seus amigos o recriminavam um dia porque defendia em julgamento um indivíduo mau, a quem submetiam a processo-cnme e êle lhes respondeu: — "Que as pessoas de bem não precisavam de defesa". De outra vez Aristogiton, o Caluniador, estando na prisão, depois de ter sido condenado, mandou suplicar-lhe para ir vê-lo; atendeu-o e foi até dentro da prisão, pelo que seus amigos queriam zombar, mas êle lhes disse: — "Deixem-me, pois em que lugar poderei ver Aristogiton mais à vontade do que na prisão?

Estima dos aliados dos atenienses por Fócion.

XVI. Quando partia de Atenas alguma armada, se havia outro capitão que não fosse Fócion, as cidades marítimas aliadas dos atenienses e as insulares, armavam suas muralhas, enchiam seus portos e traziam dos campos para dentro da cidade as mulheres, as crianças, os escravos, o gado e todos os demais valores como se se tratasse de inimigos declarados em guerra aberta; mas ao contrário, se Fócion era o chefe, iam até bem longe ao seu encontro com seus navios coroados de festoes e chapéus de flores em sinal de regozijo público, e conduziam-no eles mesmos às suas casas. E como o rei Filipe, procurando apoderar-se secretamente da ilha de Eubea, por ali fizesse passar uma armada da Macedónia e foi subornando as cidades por meio de alguns tiranos particulares, Plutarco Eretriano chamou os atenienses, suphcando-lhes que retirassem das mãos desse rei a ilha que, dia a dia, estava ocupando cada vez mais, se logo não procurassem remediar. Fócion foi enviado como capitão com poucos soldados, porque julgavam que os do país se uniriam a ele logo, afetuosamente, mas ao contrário, encontrando à sua chegada, cheia de traidores, tudo corrompido, gasto e minado pelo poder do dinheiro que Filipe despendia, encontrou-se em grande perigo; por esta razão retirou-se para um outeiro separado da planície de Tamina por um grande e profundo vale, onde se fortificou e aí parou com toda a elite de guerreiros que tinha consigo, admoestando a seus capitães que não se preocupassem com os outros amotinados e sediciosos, que não faziam senão gaguejar e não valiam nada quando preciso, mas que os deixassem ir e se afastassem para fora do acampamento para onde quisessem: — "Porque, dizia ele, tais soldados também nos seriam inúteis por aqui por sua desobediência e prejudicariam aos que têm boa vontade em cumprir o dever; mas sentindo-se culpados por ter abandonado o campo e terem ido sem consentimento, não ousarão gritar contra nós, e se preservarão de nos caluniar".

Conquista uma vitória completa sobre a armada de Filipe em Eubéia.

XVII. Depois, quando os inimigos vieram em batalha para enfrentá-lo, ordenou a seus soldados que estivessem prontos e armados, sem se mover, até que êle houvesse acabado de sacrificar aos deuses, no que ficou muito tempo, seja porque não pudesse receber os sinais felizes dos sacrifícios, ou porque não procurasse atrair mais para perto os inimigos. Mas Plutarco Eretnano, pensando que prolongava assim a marcha por falta de coragem, jogou-se nos campos em primeiro lugar com alguns aventureiros que tinha a seu soldo; vendo isso, os soldados da cavalaria não puderam mais se conter, e marcharam também após êle contra os inimigos, em desordem, separados, uns aqui, outros acolá, como haviam saído do campo; os primeiros, tendo sido rompidos pelo inimigo, todos os demais debandaram também por si mesmos e Plutarco mesmo se pôs em fuga, de modo que algumas tropas adversárias, pensando já haver ganho tudo, foram até dentro do acampamento e trataram de abater o tapume; entretanto, os sacrifícios de Fócion estando terminados, os atenienses saíram sobre eles, que viraram imediatamente em fuga, depois de deixarem morto um grande número junto das trincheiras de seu acampamento. Isto feito, Fócion ordenou que permanecessem firmes sem se mover, para esperar e recolher aqueles de seus soldados que estavam ainda espalhados aqui e ali pelos campos onde se deu a primeira ruptura, enquanto ele, com uma tropa de combatentes escolhidos, em todo seu exército, foi dar através dos inimigos. O combate foi duro, pois os atenienses combateram corajosamente, sem poupar sua gente; mas, sobre todos os demais, dois rapazes, combatendo ao lado do capitão, Glauco, filho de Polimedes e Tálio, filho de Cíneas, levantaram o prêmio de coragem. Todavia Cleófa-nes, nesse dia, demonstrou também seu valor; pois gritou tanto por seus soldados da cavalaria que haviam sido rompidos e intimou-os tanto a irem socorrer seu capitão que dizia estar em perigo que, ridicularizando-os, trouxe-os ao combate; fazendo isso, conseguiu a vitória assegurada e inteira aos soldados da infantaria.

Os aliados de Atenas recusam receber em seus portos a frota comandada por Cares.

XVIII. Depois desta batalha, expulsou Plutarco mesmo para fora de Eretria; e, tendo se apoderado do castelo de Zaretra, assentado em lugar estratégico para esta guerra, no lugar onde a ilha se vai estreitando em um longo aterro, apertado de um lado e do outro do mar, proibiu (11) que se apoderassem dos gregos prisioneiros, com receio de que os discur-sadores de Atenas constrangessem o povo ateniense como algumas vezes faziam, a uma súbita cólera, exercendo alguma crueldade contra eles. Essas coisas assim feitas, Fócion voltou à casa, mas nem bem havia virado as costas, os aliados e confederados de Atenas sentiram imediatamente falta de sua justiça e sua bondade; e os atenienses conheceram também seu valor e sua suficiência; pois Molosso, aquele que o sucedeu no cargo de capitão nos demais combates, portou-se de tal modo, que êle mesmo foi feito prisioneiro. Por esta razão, Filipe, abraçando grandes coisas em sua esperança, foi com toda sua armada até o Helesponto, opinando que aí tomaria logo toda a Quersoneso, as cidades de Pennto e de Bizâncio (12) ; entretanto, estando os atenienses resolvidos a enviar socorro, para o impedir de realizar seu intento, elegeram Cares para capitão, a instância e grande empenho dos oradores que puseram à frente; mas tendo este ido com bom número de navios, não praticou feito algum digno das forças que havia conduzido, porque as cidades não quiseram nem receber sua frota em seus portos, razão por que se viu constrangido a ir rodando aqui e acolá ao longo das costas, suspeito a todo o mundo, renegado dos amigos e desprezado dos inimigos. Ouvindo isto, o povo, a quem também os discursadores irritaram com suas prédicas ordinárias, ficou muito enfurecido, arrependendo-se de haver enviado socorro aos bizantinos; Fócion então, atirando-se à frente, demonstrou-lhes que não era de seus aliados e confederados que deviam duvidar, mas de seus capitães, que se portavam de modo que tinham motivos para desconfiar deles: — "São àqueles, dizia ele, a quem vós deveis agarrar, pois eles vos tornam odiosos e temíveis àqueles mesmos que não saberiam se salvar sem vosso socorro".

Fócion é nomeado em seu lugar; seus sucessos.

XIX. Essas palavras agitaram o povo de tal forma que na mesma hora fizeram-no mudar de opinião, tanto que entregaram a Fócion um outro reforço, enviando aquela parte para socorrer seus aliados, o que foi de muito resultado para preservar a cidade de Bizâncio; pois além de que sua reputação já era grande, Cleon, o primeiro homem de Bizâncio em virtude e em autoridade, tendo sido companheiro e amigo de Fócion na escola da Academia, pleiteou-o para sua cidade; e então os bizantinos não quiseram que acampasse fora, mas abrindo suas portas, o receberam dentro de sua cidade e se misturaram entre os atenienses; estes, vendo que os da cidade confiavam neles, portaram-se tão honestamente em sua conversação comum, que não houve queixa nenhuma deles, e tão valentemente se mostraram em todos os combates e assaltos, que Filipe, o qual consideravam antes tão terrível nas armas, que nada parava à sua frente e não encontravam pessoa alguma que ousasse apresentar-se em batalha contra ele, voltou do Helesponto sem nada fazer, senão perdendo muito de sua reputação, quando Fócion ganhou alguns de seus navios e recuperou as praças fortes onde havia colocado guarnições; e desembarcando em vários lugares de suas terras, percorreu e pilhou toda a planície, até que tendo reunido bom número de soldados para o defender, aí foi fendo e nesta ocasião obrigado a voltar.

Torna os atenienses senhores da cidade de Megare.

XX. Algum tempo depois os megarianos mandaram secretamente propor-lhe entregar a cidade em suas mãos; mas Fócion, temendo que os beócios, avisados, não o prevenissem a tempo, fez logo tocar a trombeta e, ao partir da assembléia sem lhes dar outro descanso senão pegar as armas somente, levou-os logo diretamente a Megara (13), onde, sendo recebido, fechou a muralha do porto de Nisa (14) e levantou duas muralhas enormes da cidade até ali, por meio do que uniu a cidade à praia e o fez de modo que do lado da terra não teria que temer em nada seus inimigos do lado do mar (15), ficando inteiramente à disposição dos atenienses.

Aconselha os atenienses a assinar a paz com Filipe.

XXI. E como os atenienses já se haviam declarado abertamente inimigos de Filipe e houvessem eleito em sua ausência outros capitães para irem guerreá-lo, ele, assim que voltou a Atenas, vindo das ilhas, persuadiu o povo, considerando que Filipe tinha boa vontade de viver em paz com eles, temendo o perigo que as forças de Atenas podiam trazer aos seus negócios, e que deviam receber os artigos e condições de paz que apresentava. Opondo-se um pleiteador comum, que não se movia jamais nos litígios senão para caluniar e chicanear sempre contra alguém, disse-lhe: — "Fócion, como ousas dissuadir os atenienses da guerra, quando eles têm as armas nas mãos?" — "Sim, verdadeiramente, respondeu-lhe Fócion, pois eu sei muito bem, que se há guerra, eu te comandarei; e se há paz, tu me comandarás". No entanto, não o podendo obter, Demóstenes ganhou contra ele desta vez, aconselhando os atenienses a irem dar a batalha a Filipe, no local mais distante que pudessem no país do Ático; e Fócion disse-lhe então: — "Meu amigo, não nos divirtamos em discutir em que local nós lhe daremos a batalha, mas olhemos somente como nós a ganharemos; porque fazendo isto, recuamos a guerra para bem longe de nós; pois esses que são vencidos, em qualquer parte em que estejam, têm sempre todo o mal e perigo junto deles".

É colocado à frente da república.

XXII. Após a batalha (16) perdida contra Filipe os sediciosos, que não pediam senão novidades na cidade, arrastaram Caridemo (17) para frente, para o fazer eleger capitãogeneral de Atenas, pelo que as pessoas de bem e de honra ficaram com grande medo e tomando seu lado, toda a Corte e o Senado do Areópago, solicitaram afetuosamente ao povo, com lágrimas nos olhos, o que afinal se conseguiu, mas foi com grande sacrifício, que os negócios da cidade fossem entregues nas mãos de Fócion; este foi de opinião que deviam receber no momento a forma de viver e as humanas condições de paz que lhe ofereciam ; como o orador Demades houvesse proposto que a cidade de Atenas entrasse no tratado comum de paz e na reunião habitual dos estados da Grécia, que devia se instalar a instâncias de Filipe, Fócion não concordou, mas dissuadiu-os, até que soubessem o que Filipe desejava dos gregos naquela assembléia. Todavia, a sua opinião não teve lugar por causa do mau tempo; e, logo depois, vendo que os atenienses se arrependiam por não terem acreditado em seu conselho, quando viram que precisavam fornecer navios e soldados de cavalaria a Filipe, ele lhes disse então: — "O temor do que vos lastimais agora, está em oposição ao que vós vos consentistes; mas desde que haveis cedido, é preciso suportar pacientemente e não perder a coragem por isto, não esquecendo que vossos antepassados algumas vezes deram leis aos outros e algumas vezes receberam também de outrem; e portando-se bem e sabiamente em uma e outra sorte, preservaram não somente esta cidade, mas também todos os moradores da Grécia .

Prudentes respostas de Fócion.

XXIII. Depois, tendo chegado a notícia da morte de Filipe (18), todo o povo quis acender os fogos de alegria e fazer sacrifícios aos deuses como por uma boa notícia, mas Fócion não quis permitir: — "Isto, disse ele, seria um sinal de muita baixeza e coração mesquinho alegrar-se com a morte de outrem, se bem que a armada que vos derrotou em Quero-néia (19) não esteja diminuída apenas de uma cabeça". E como Demóstenes em seus discursos habituais dissesse palavras injuriosas contra Alexandre que já se aproximava com seu exército da cidade de Tebas, disse-lhe estes versos de Homero:

"Ó desgraçado, por que andar irritando
Um tão feroz e áspero combatente,

que não cobiça outra coisa senão grandeza de glória? Queres, sendo tu um tão grande fogo aceso, jogar esta cidade dentro? Quanto a mim, se bem que os atenienses queiram se perder, eu não lhes permitiria, pois para este fim aceitei o cargo de capitão".

Conselho de Fócion relativamente aos dez cidadãos que Alexandre solicitou lhe entregassem.

XXIV. E depois a cidade de Tebas, tendo sido inteiramente destruída e arrasada, como Alexandre pedisse aos de Atenas que lhe entregassem em suas mãos Demóstenes, Licurgo, Hipérides e Can-demo, a assembléia do povo, não sabendo o que responder a esta intimação, pôs seus olhos sobre Fócion e chamou-o diversas vezes por seu nome, para dar sua opinião; pelo que ele se levantou e, aproximando-se de um dos seus amigos chamado Nicocles, aquele que estimava com mais apreço e em quem tinha mais confiança, disse alto e claro: — "Esses que Alexandre vos pede, conduziram a cidade a tal extremo de necessidade, que se ele pedisse Nicocles, seria da opinião que lho entregassem; pois eu mesmo reputaria que me seria uma grande honra, se pudesse morrer, de sorte que minha morte salvasse a vida a todos meus outros concidadãos; e ainda que sinta em meu coração grande piedade e compaixão por esses pobres desolados que fugiram das ruínas de Tebas para esta cidade, se é que eu deva opinar, vale mais que os gregos lamentem a perda de uma só cidade, do que de duas, e por esta razão, é meu parecer que é melhor tratar de impetrar graça por meio de súplicas e admoestações àquele que é o mais forte, do que se obstinar em querer combater diante da ruína certa.

Aconselha Alexandre a virar suas armas contra os persas.

XXV. Dizem que Alexandre rejeitou o primeiro decreto que foi concluído pelo povo sobre seu pedido e desviou-se para não ver os embaixadores que lhe haviam trazido; mas recebeu o segundo que lhe foi levado por Fócion mesmo, ouvindo dizer pelos servidores mais velhos de seu pai, que este sempre tivera muito apreço por ele, razão pela qual Alexandre, não somente lhe concedeu audiência e atendeu sua solicitação, como também seguiu seu conselho. De fato êle o exortou, dizendo-lhe que, se apreciava o repouso, descansasse todas as suas armas e cessasse de guerrear; mas, se cobiçava a glória, que voltasse suas armas contra os bárbaros e não contra os gregos. E deduzindo-lhe diversas razões e admoestações acomodadas com o temperamento e gosto de Alexandre, desviou-o e abrandou-o de tal modo, que o rei, ao separar-se dele, disse-lhe que os atenienses deviam ter olhos bem abertos nos negócios, porque se êle viesse a morrer, não conhecia outro povo a quem o império pudesse ser entregue, senão a eles; e desejando a amizade particular e a hospitalidade de Fócion, tratou-o com tanta honra, como não o fazia aos seus íntimos. Com referência a isto, o historiador Duris escreve que depois de se tornar grande e ter derrotado o rei Dario, retirou da saudação de todas as suas cartas particulares, a palavra que estava habituado a colocar, caro, a não ser naquelas que escrevia a Fócion, e que não dava mais esta honra de saudar assim àqueles a quem escrevia, senão a Fócion e Antípatro, o que Cares também confirma.

Recusa um presente considerável de Alexandre.

XXVI. É coisa bem confessada por todos que Alexandre enviou a Fócion boa soma de dinheiro como presente, pois mandou-lhe cem talentos (20). Tendo sido esse dinheiro trazido a Atenas, Fócion perguntou aos que o trouxeram, por que Alexandre enviava tal presente só a ele, quando havia tantos burgueses em Atenas. — "Porque (responderam eles), o considerava o único homem de bem e de honra". E Fócion lhes replicou: — "Ora, que me deixem, portanto, continuar a ser toda a minha vida". Nem por isto os mensageiros deixaram de ir atrás dele até sua casa, onde viram grande simplicidade, pois encontraram sua mulher que amassava o pão ela mesma e ele, em sua presença, tirou a água de seu poço para lavar os pés; razão porque instaram mais ainda do que antes para receber o presente do rei, insistindo com ele, e dizendo que era uma grande vergonha viver assim pobre, levando em conta que era amigo de Alexandre. Pelo que Fócion, vendo passar pela rua um pobre ancião, ridiculamente vestido com um velho traje sujo e gorduroso, perguntou-lhes se o reputavam menos do que aquele pobre homem — "que aos deuses já não agrada" — responderam imediatamente: — "E, todavia, replicou-lhes, vive ainda com muito menos do que eu e está, apesar disso, muito contente. Afinal, — disse-lhes mais — se eu receber tão grande soma de ouro e não usá-lo, de nada me adiantará e se me servir dele, gastando-o, o resultado será que toda esta cidade começará a falar mal de mim e do rei."

Novas recusas de Fócion.

XXVII. Assim, foi recambiado o presente para fora de Atenas, servindo de notável exemplo a todos os gregos, para lhes dar a conhecer que mais rico era aquele que não tinha o que fazer com tanto ouro e prata, do que aquele que lhe dava. Alexandre, tendo sabido que seu presente havia sido recusado, ficou descontente e escreveu a Fócion, que não podia considerar seus amigos, os que recusavam receber presentes dele; todavia, mesmo assim não tomou o dinheiro, mas somente solicitou-lhe o favor de libertar Equecrátidas, retórico, Atenodoro, natural da cidade de Imbro e dois coríntios, Demarato e Esparton, que haviam sido retidos prisioneiros na cidade de Sardis, por algumas faltas de que os acusavam. Alexandre imediatamente os fez libertar, enviando Crátero à Macedónia e ordenando-lhe dar a Fócion uma dessas quatro cidades da Ásia, que preferisse mais, Quios (21), Gergueto (22), Milas-ses (23), ou Eléia (24), dizendo-lhe que se enfureceria mais amargamente do que na primeira vez, se as recusasse; todavia, Fócion não quis aceitar nenhuma. E Alexandre pouco depois morreu. Vê-se ainda hoje, no bairro de Melita (25) a casa de Fócion, decorada com lâminas de cobre, mas quando morava nela era simples e sem nenhuma superfluidade.

Mulheres de Fócion.

XXVIII. Quanto às mulheres que desposou, não encontram nada por escrito da primeira, senão que Cefisódoto, modelador de imagens, era seu irmão; mas a segunda não foi menos famosa em Atenas por sua honestidade e simplicidade em todas as suas ações, assim como Fócion, por sua justiça e bondade. Segundo tal propósito, dizem que um dia, como os atenienses estivessem reunidos no teatro para ver desempenhar as Tragédias novas, um dos atores, na hora mesmo que devia entrar no palco para desempenhar seu papel, pediu ao empresário uma máscara de rainha e um acompanhamento de moças enfeitadas magnificamente, porque desempenhava o papel de uma princesa; o outro não concordou e o comediante enfureceu-se, fez cessar os jogos, e não quis sair do palco. Melâncio, que era o empresário, puxou-o à força, gritando bem alto: — "Não vês a mulher de Fócion, que vai sempre só com uma camareira à cidade e, tu queres te fazer glorioso e corromper os costumes das damas de Atenas?" Essas palavras foram ouvidas pela assistência, a qual, pelo grande barulho que fêz batendo palmas, mostrou achá-las muito a propósito. Esta dama, tendo uma de suas amigas da região da Jônia, vindo a Atenas, exibiu-lhe suas jóias e anéis de ouro enriquecidos com pedras preciosas, deu-lhe esta resposta: — "Todo meu ornamento é meu marido Fócion que há vinte anos tem sido continuamente eleito capitão dos atenienses".

Conduz seu filho a Esparta para aí ser formado na disciplina dos lacedemônios.

XXIX. (26) Seu filho deu-lhe a entender um dia que desejava competir com os outros rapazes, a ver quem levantaria o prêmio de descida e subida sobre os carros, correndo à rédea solta nos jogos dos festejos denominados em Atenas, Panathenea; o que o pai lhe permitiu, não porque lhe viesse alguma honra de tal vitória, mas a fim de que, adestrando-se nesse honesto exercício, se tornasse mais útil, porque era rapaz bastante dissoluto e que amava o vinho; todavia, tendo conquistado o prêmio, houve vários amigos de seu pai que lhe pediram para homenageá-lo, festejando em suas casas aquela vitória. Fócion recusou a todos os outros, exceto a um só, ao qual permitiu fazer esta exibição de boa vontade para com sua casa e foi êle mesmo ao jantar onde, entre outras delícias e superfluidades, constatou que haviam preparado banhos de vinho e especiarias odorantes para lavar os pés dos convidados logo que entrassem no festim. Chamou seu filho e lhe disse: — "Como suportas, Fócio (27), que este nosso amigo prejudique e desonre assim tua vitória com estas superfluidades?" E desejando retirar imediatamente esse rapaz daquela dissoluta maneira de viver, levou-o a Esparta, colocando-o com os meninos que são criados na disciplina denominada lacônia. Isto desagradou aos atenienses, ao verem que Fócion desprezava assim os costumes, hábitos e maneiras de seu país, e como Demades, o orador lhe dissesse: — "Por que não persuadimos nós ao povo ateniense para adotar a forma de governo e a disciplina da Lacedemônia ? Quanto a mim, se quiseres concordar, eu me ofereço para propô-lo". — "Verdadeiramente, respondeu então Fócion, seria bem decente que persuadisses os atenienses a viver como os lacedemônios e elogiar as ordens de Licurgo, que são austeras, tu que és comu-mente tão perfumado e andas tão delicadamente vestido".

Conduta de Fócion com relação a Harpalo.

XXX. Uma outra vez, tendo Alexandre pedido que lhe enviassem algumas galeras, os discursadores contrários pregavam que não deviam atender; o povo chamou nominalmente Fócion para ouvir sua opinião, o qual lhes respondeu francamente: —

"Sim, sou de opinião que deveis ser os mais fortes nas armas ou que procureis a amizade daqueles que o são." A Pítias, que estava começando a fazer seus discursos diante do povo e vivia constantemente falando, audacioso e cheio de presunção, Fócion disse: — "Esse novo arengueiro não se calará nunca?" E como Harpalo (28), tenente de Alexandre na província da Babilônia, tendo fugido da Ásia com uma grande quantidade de ouro e de prata, descesse ao país do Ático, logo os que estavam acostumados a mercadejar sua língua falando ao povo, acorreram com inveja uns dos outros perante ele, o qual não deixou de jogar a cada um alguma quantia em prata para os atrair e apetecer; pois isto lhe era pouca coisa, dada a grande quantidade que havia trazido; mas a Fócion, enviou deliberadamente setecentos talentos (29), querendo pôr ainda o resto de seus haveres e sua própria pessoa sob a proteção e salvaguarda dele. Fócion lhe deu uma bem dura resposta: — "Que o faria arrepender-se, caso não parasse de prejudicar e corromper a cidade de Atenas". Nessa ocasião Harpalo retirou-se muito admirado da presença daqueles que haviam aceito seu dinheiro; mas, pouco depois, os atenienses, pondo seus negócios em deliberação, viu que aqueles que haviam aceito o dinheiro haviam virado a casaca, de tal modo que em lugar de defendê-lo, o acusaram para que não suspeitassem de terem aceito dinheiro dele, Fócion ao contrário, que o havia tão rudemente despedido sem querer receber nada, dando em seus conselhos principal atenção à utilidade pública, teve ainda alguma consideração por Harpalo. Este tentou então, pela segunda vez e por todos os meios ganhar sua amizade mas acabou verificando que era uma fortaleza inexpugnável por meio do dinheiro; mas fêz-se amigo de Caneles, genro de Fócion, o que foi causa de maus rumores, pois todos viam que Harpalo confiava em todas as coisas nele, empregando-o em todos os seus negócios, chegando até a encarregá-lo de fazer construir uma magnífica sepultura para a cortesã Pitônica (30), da qual fora amante e de quem havia tido uma filha. Mas, se aceitar um tal encargo era ignominioso para Caricies, a obra o difamou ainda mais, quando ficou terminada; pois até hoje se vê a sepultura no lugar que é denominado Hér-mio (31), quando se vai de Atenas a Eleusina, não havendo nada digno de nota ao se considerar des-peza (32), de trinta talentos, que dizem ter-lhe pago pela construção daquela sepultura. Ainda mais, após o falecimento de Harpalo, Caneles e Fócion mesmo tomaram a filha e a fizeram cuidadosamente criar; todavia sendo Caneles depois chamado perante à justiça para responder pelo dinheiro que o acusavam de haver recebido de Harpalo, aquele pediu a seu sogro Fócion para ajudá-lo e assisti-lo no julgamento, e favorecer sua defesa; mas Fócion recusou, dizendo-lhe: — "Eu o aceitei, Caricies, como meu genro somente, para as coisas justas e honestas".

Prudente conduta de Fócion diante da morte de Alexandre.

XXXI. O primeiro que trouxe a Atenas a notícia da morte de Alexandre foi um Asclepíades, filho de Hiparco, ao qual Demades dizia que não poderiam dar fé: — "Porque, disse ele, se fosse verdadeiro, toda a terra sentina o odor de uma tal morte". Mas Fócion, vendo que o povo já levantava a cabeça, farejando novidades, procurou moderá-lo e contê-lo; e como muitos dos discursadores subissem incontinenti à tribuna e gritassem que a notícia de Asclepíades era certa e que Alexandre estava verdadeiramente morto, Fócion respondeu-lhes: — "Se ela é verdadeira hoje, será portanto verdadeira amanhã e depois de amanhã; portanto, senhores atenienses, não vos apresseis, mas deliberai sossegadamente e estabelecei seguramente o que tendes a fazer". E como Leóstenes, que tanto fêz por suas tramas que atirou a cidade de Atenas na guerra que chamam "a guerra dos gregos" (33), perguntasse zombando a Fócion, que estava irritado, que bem havia feito em favor da coisa pública em tantos anos de poder como capitão-general de Atenas, Fócion respondeu-lhe: — "O bem que fiz não é pequeno; pois enquanto fui capitão, os cidadãos de Atenas foram enterrados nas sepulturas de seus antepassados". Esse Leóstenes falava alto e avantajadamente diante do povo, razão por que Fócion lhe disse um dia: "Teus propósitos, rapaz amigo, assemelham-se propriamente aos ciprestes; pois são grandes e altos, mas não dão frutos". Então Hipérides, levantando-se nos pés, perguntou-lhe: — "Então, Fócion, quando aconselharás os atenienses a guerrear?" — "Quando vir, disse êíe, os rapazes bem disciplinados em suas fileiras, os ricos contribuindo voluntariamente com dinheiro e os oradores se abstendo de furtar a república".

O que pensava da guerra denominada Lamaica.

XXXII. No entanto, diversos se encantaram de ver a bela e poderosa armada que Leóstenes havia organizado e perguntaram a Fócion o que lhe parecia tal preparativo. — "É belo, disse ele, para uma corrida no estádio (34) mas receio a volta e a continuação da guerra, porque não vejo onde esta cidade tenha meios de conseguir dinheiro, nem outros navios, nem outros soldados além desses". Isto foi depois testemunhado pelos acontecimentos, porque de início Leóstenes praticou grandes feitos de armas, pois derrotou os beócios e colocou Antípater dentro da cidade de Lâmia; o que levantou os atenienses em grande esperança, de sorte que não faziam em Atenas outra coisa senão festas e sacrifícios contínuos, para render graças aos deuses por estas boas notícias; havia alguns que procuravam convencer Fócion, de maneira que não soubesse o que responder, e perguntavam-lhe se desejava tomar parte em tão belas festas: — "Sim, verdadeiramente, respondeu-lhes, eu desejaria de fato, mas continuo aconselhando o que aconselhei". E como escrevessem e trouxessem todos os dias boas notícias umas sobre as outras, disse: — *Ó deuses! Quando cessaremos de vencer e de ganhar?" Todavia Leóstenes, no final, tendo morrido nessa viagem, aqueles que receavam ser Fócion nomeado capitão em lugar dele, e fizesse a paz, nomearam um personagem pouco conhecido e de baixa classe que em plena assembléia do conselho veio dizer que, sendo amigo de Fócion e seu companheiro de escola, suplicava ao povo para poupá-lo e salvaguardá-lo porque não tinham outro semelhante a ele e que enviassem antes ao campo a Antífilo. Manifestando-se o povo de acordo, Fócion foi à frente e disse que não havia estado nunca na escola com aquele homem, e mais ainda, que não o conhecia de modo algum, nem nunca havia sido seu amigo: — "Entretanto, quem quer que tu sejas, disse ele, tenho-te doravante por meu amigo e por meu benfeitor, pois aconselhaste ao povo o que me é mais excelente".

Dá ordem para arrolar homens até sessenta anos.

XXXIII. No entanto o povo, a toda força, querendo ir contra os beócios, Fócion resistiu o mais que pôde, com palavras primeiramente; e como seus amigos lhe observassem que se faria matar, contrariando assim a vontade popular, respondeu-lhe: —

Sem razão me farão morrer, se faço e procuro o que lhes é útil; e com razão também, se o que faço os contraria". Mas vendo que nem assim eles não concordavam, mas gritavam mais e mais contra ele, então ordenou aos arautos que proclamassem ao som da trombeta, que todos os burgueses, camponeses e habitantes de Atenas, desde a idade de quatorze anos (35), até sessenta, estivessem prontos, ao partir da assembléia, a segui-lo nas armas, trazendo víveres para cinco dias. Ouvido tal brado, houve grande tumulto em toda a cidade e acorreram incontinenti os velhos à sua presença para se queixarem da dureza da ordem; respondeu-lhes: — "Isto não é nenhum erro, pois eu mesmo, que estou com a idade de oitenta anos, estarei convosco".

Derrota Micion.

XXXIV. Assim os reteve e lhes fez perder seu louco desejo de guerrear, mas sendo a costa da praia percorrida e pilhada pelo capitão Micion, o qual, com bom número de macedônios e outros estrangeiros havia descido no território do bairro de Ramnus e danificava toda a região plana nos arredores, Fócion para ali conduziu os atenienses; entretanto, como vários acorressem a ele, intrometendo-se em seu cargo de capitão e pondo-se a aconselhar, uns para alojar seu acampamento sobre tal outeiro, outros, a enviar a tal local os soldados da cavalaria, outros ainda a acampar aqui: — Hercules, disse-lhes, que quantidade vejo de capitães e tão poucos soldados!" Depois, quando alinhou seus soldados em formação de batalha, houve um que se atirou bem longe adiante dos outros, fora de sua linha; mas, tendo lambem avançado um dos inimigos para enfrentá-lo, o ateniense teve medo, e voltou ao seu lugar; então Fócion lhe disse: — "Não tens vergonha, jovem estouvado, de haver assim, por duas vezes, abandonado tua fileira, uma na qual fôste colocado por teu capitão e a outra na qual te colocaste por ti mesmo?" E imediatamente carregou contra o inimigo, rompeu-o à força e matou sobre o campo o capitão Mi-cion, com um bom número de seus soldados.

Vitória, e em seguida, derrota dos gregos confederados.

XXXV. Ora, achava-se então a armada dos gregos na Tessália, onde ganhou uma batalha (36) contra Antípater e contra Leonato, que se havia unido a ele com os macedônios que havia pouco trouxera da Ásia e ali foi morto Leonato, sendo Antífilo comandante dos soldados da infantaria e Menon Tessaliano, da cavalaria. Mas pouco tempo depois, tendo Crátero passado da Ásia para a Europa com uma poderosa força, houve outra batalha próxima à cidade de Cranon (37) na qual os gregos foram derrotados; todavia, a derrota não foi tão grande e não morreram muitos soldados; isto mesmo aconteceu devido à desobediência dos soldados aos capitães, que eram muito brandos, enquanto que eram eles muito jovens; também, tão logo Antípater forçou suas cidades, eles debandaram todos e abandonaram vergonhosamente a defesa da liberdade comum. Assim, Antípater logo se encaminhou diretamente com sua armada para diante da cidade de Atenas. Pressentindo tal, Demóstenes e Hipérides abandonaram a cidade; mas Demades, não podendo pagar o dinheiro que devia ao erário público, tendo sido condenado em sete multas, por haver tantas vezes proposto e levado avante coisas contrárias às leis, tornou-se impopular e não lhe era fácil falar e discursar em público; todavia, sendo dispensado na hora, propôs que enviassem embaixadores com plenos poderes a Antípater, para conseguir tratar alguma paz com êle.

Fócion é enviado na qualidade de embaixador diante de Antípatro e Crátero.

XXXVI. O povo, temendo conceder este poder absoluto para tratar com quem quer que fosse, chamou nominalmente Fócion, dizendo que não havia senão êle em quem se pudesse confiar. E então respondeu-lhes Fócion: — "Se eu fosse acreditado quando vos dei conselhos, não estaríeis agora em dificuldade". Assim, sendo o decreto autorizado pelo povo, foi enviado pessoalmente à presença de Antípater, o qual estava então acampado na Cad-méia, preparando-se para entrar logo no país do Ático. Fócion solicitou-lhe que, antes de se desalojar dali, fizesse a paz com eles, ao que Crátero respondeu prontamente: — "Fócion, tu não nos pedes coisa razoável, pois ficando aqui, estamos solapando o país de nossos aliados e amigos, ao passo que acolá, onde podemos viver e nos enriquecer, é justamente o território de nossos inimigos"; todavia Antípater, tomando Crátero pela mão: — "É preciso, disse ele, que concordemos em dar esse prazer a Fócion". Mas, quanto às condições de paz, estipulou que os atenienses as aceitassem aquelas que lhes impusesse, tal como acontecera quando ele, sitiado dentro da cidade de Lâmia, deixara todas as condições de sua rendição ao comandante Leóstenes. Ouvida esta resposta, Fócion voltou a Atenas, onde o povo, vendo-se constrangido, foi obrigado às condições do tratado que lhe oferecia o inimigo.

Nova embaixada de Fócion.

XXXVII. Assim, Fócion voltou imediatamente à Tessália, à presença de Antípater com outros embaixadores, entre os quais os atenienses estima e a reputação da virtude desse personagem elegeram o filósofo Xenocrates, porque a fama, a eram tão grandes em todo o mundo, que pensavam não haver arrogância, nem crueldade, nem cólera tão grande em coração de homem, fosse quem fosse, que só o olhar de Xenocrates não abrandasse até obrigá-lo a dar-lhe alguma honra e reverência. Não obstante, isso, aconteceu tudo ao contrário, devido à maldade da natureza de Antípater, inimiga de toda virtude; pois, primeiramente, não se dignou nem saudá-lo, quando abraçava todos os outros. Sobre isto, Xenocrates teria dito então: — "Antípater fêz bem tendo vergonha de me ver como testemunha do seu mau papel e do tratamento iníquo que quer dar aos atenienses". Depois, quando começou a falar, não teve paciência de ouvi-lo, mas interrompendo-o a todo momento,e tratando-o com aspereza, ordenou afinal calar-se por completo; mas depois que Fócion falou, deu-lhe resposta, segundo a qual os atenienses teriam paz, aliança e amizade com êle, contanto que lhe entregassem Demóstenes e Hipérides em suas mãos; que governassem seu Estado segundo a forma de governo instituída pelos seus antepassados, onde não houvesse privilégios nos cargos da administração; que recebessem guarnição dentro do porto de Muníquia (38) ; que reembolsassem o dinheiro despendido na guerra e, além disso, pagassem uma certa quantia como multa. Todos os outros embaixadores se contentaram e aceitaram essas condições de paz como suaves e humanas, exceto Xenocrates, o qual disse que para escravos, ele os tratava muito delicadamente; mas para um povo franco e livre, muito duramente. Então Fócion suplicou-lhe que transigisse ao menos quanto à guarnição; ao que, segundo dizem Antípater respondeu: — "Fócion, nós desejamos recompensar-te em todas as coisas, menos naquelas que sejam causa de tua ruína e da nossa". Outros escrevem que não respondeu assim, mas perguntou-lhe se garantia que os atenienses manteriam integralmente os artigos e condições da paz, sem qualquer novidade sem distúrbios, se ele os isentasse de receber a guarnição. Como Fócion se calasse e demorasse a responder, um tal Calimedon, denominado Carabos, homem violento e que odiava a liberdade popular, atirando-se entre eles, disse: — "E se este fosse tão louco em garantir isto, Antípater, acreditarias nele portanto, e deixarias por isto de fazer o que deliberaste?"

Os atenienses são obrigados a receber guarnição.

XXXVIII. Assim, foram os atenienses obrigados a receber a guarnição dos macedônios, da qual Menilo foi capitão, homem honesto e amigo de Fócion. Essa ordem de receber guarnição dentro do porto de Muníquia foi considerada como orgulho e exigida por Antípater mas por uma vã glória para demonstrar ultrajantemente seu poder, do que pelo bem que pudesse advir aos seus negócios. Ainda mais, no dia em que isto aconteceu, aumentou ainda mais o pesar; pois foi justamente no vigésimo dia de agosto (39) que sua guarnição entrou ali, quando se celebra a festa dos Mistérios (40), na qual se habituaram a fazer a procissão chamada Jacos, desde a cidade de Atenas até à de Eleusina, de sorte que, estando a solenidade desta santa cerimônia um tanto confusa, acudiu ao pensamento de vários, a consideração de como, antigamente, nos tempos felizes da república, haviam sido ouvidas e vistas vozes e visões divinas em tal dia, do que os inimigos haviam ficado assustados e amedrontados, e agora, ao contrário, na mesma solenidade, os deuses viam a mais triste calamidade que podia ter vindo à Grécia e justamente no dia mais santo e mais agradável, o qual começaria a ser contaminado com o mais desgraçado acontecimento, que jamais viera aos gregos, que era a perda de sua liberdade.

Mais de doze mil atenienses são privados do direito de cidadania.

XXXIX. Ora, poucos anos antes, haviam trazido um oráculo de Dodone (41) a Atenas: "Que guardassem bem os rochedos de Diana, de modo que os estrangeiros deles não se apoderassem"; e aproximadamente, nesse mesmo tempo, as cortinas (42) que se achavam colocadas à volta dos santos leitos místicos, estando banhadas em água, trinaram uma cor amarelada e pálida como a de um morto, em lugar da cor viva de púrpura que tinham antes; e, ainda mais, os outros panos dos particulares não sagrados, que eram molhados juntos, dentro da mesma água, mantinham sua inocente vivacidade de cor. E como um dos sacerdotes do templo lavasse um porquinho dentro do mar num lugar da praia (43), puro e limpo, saiu de repente um grande peixe do mar que o retirou dentre as mãos e engoliu todo o trazeiro; daí conjecturaram que os deuses lhes davam a entender que perderiam a parte baixa de sua cidade e a mais próxima do mar, mas que salvariam as partes altas; todavia, essa guarnição, dada a honestidade do capitão Menilo, não aborreceu os atenienses. Mas houve mais de doze mil cidadãos que foram privados do direito de burguesia, em razão de sua pobreza, dos quais uma parte ficou em Atenas a quem parece que causavam um grande dano e uma grande injúria; e uma outra parte foi-se para a Trácia, onde Antípater assinou-lhes cidades e terras para morar. Esses pareciam propriamente pessoas cuja cidade tivessem tomado de assalto, ou por assédio e que fossem assim obrigados a abandonar seu país.

Dureza e tirania de Antípatro.

XL. Em suma, a morte de Demóstenes na ilha de Caláuria (44) e de Hipérides próximo à cidade de Cléones (45) o que narramos em outro local, quase que foram causa de se recordar com saudade o tempo dos reinados de Filipe e de Alexandre; tanto, que daí em diante diziam que Antígono, tendo sido derrotado, esses que o haviam vencido e morto oprimiram e trataram tão rudemente seus súditos, que no país da Frigia, um lavrador, revolvendo a terra e sendo interrogado sobre o que procurava, respondeu suspirando: — "Procuro Antígono". Também vinha a outros o mesmo pensamento, quando rememoravam a magnanimidade e generosidade desses dois grandes príncipes, que, mau grado a sua cólera, perdoavam facilmente e voltavam atrás em suas decisões, não assim como Antí-pater, que sob a máscara de se portar como homem comum, andar simplesmente vestido, viver sobriamente e com pouca despesa, dissimulava o poder tirânico que usurpava e no entanto mostrava-se senhor mais violento e tirano mais cruel para com aqueles de quem a sorte havia fugido. Todavia, Fócion conseguiu dele o retorno de diversos que havia banido e dos que não pode chamar, ao menos conseguiu que seus limites de banimento não ficassem tão longe como dos outros que estavam relegados para além dos montes Acroceraunianos (46), e do Tenaro, fora da Grécia, mas que lhe fosse pelo menos possível ficar dentro do Peloponeso, entre os quais estava Agônides, falso acusador.

Sábia conduta de Fócion.

XLl. Afinal, governando os que haviam ficado dentro da cidade com grande justiça e com grande humanidade, quando conhecia alguns de natureza suave e pacífica, mantinha-os sempre em algum cargo; mas aqueles que sabia serem avoados, sediciosos e amantes das novidades, preservava-os de chegar a alguma posição e retirava-lhes todo meio de excitar tumultos, de sorte que feneciam por si mesmos e aprendiam com o tempo a amar o campo e dedicar-se ao cultivo da terra. E vendo que Xenocrates pagava o mesmo tributo à república, que os estrangeiros moradores de Atenas pagavam em cada ano, quis lhe dar o direito de cidadão, para poder ter parte na administração, mas Xenocrates não aceitou, dizendo que não desejava ter parte (47) num governo, o qual, para impedir, havia sido enviado como embaixador.

Seu nobre desinteresse

XLIl. E como Menilo enviasse dinheiro de presente a Fócion, deu esta resposta, dizendo que Menilo não era maior senhor do que havia sido Alexandre, nem tinha no momento maior ocasião para aceitar seu presente, do que quando havia recusado o do rei; e como Menilo replicasse que se não precisava para si, pelo menos que o aceitasse para seu filho Fócio, respondeu-lhe: — "Se meu filho Fócio, mudando a maneira de viver, quer ser homem de bem, terá bastante para viver com o que lhe deixarei, mas se deseja dirigir-se como atualmente, não há riqueza que lhe possa ser suficiente". Uma outra vez respondeu bem rudemente a Antí-pater, que desejava obrigá-lo fazer alguma coisa, a qual não era honesta: — "Antípater, não saberei ser amigo e adulador ao mesmo tempo". Antípater mesmo dizia que contava com dois amigos em Atenas, Fócion e Demades, a um dos quais nunca conseguira fazer aceitar nada e não pudera nunca saciar o outro. Também era a pobreza de Fócion um grande argumento de sua probidade, atendendo que havia envelhecido após ter sido em sua vida tantas vezes capitão-general dos atenienses e havia tido a amizade de tantos príncipes e reis, quando Demades sentia prazer em fazer demonstração de sua riqueza até nas mesmas coisas que eram vedadas pelas leis da cidade; pois havia então uma ordem em Atenas, pela qual era proibido a qualquer estrangeiro tomar parte nas danças dos jogos públicos sobre pena da multa (48) de mil dracmas, que seria paga à república; Demades, fazendo alguns jogos à sua custa, fez vir cem bailarinos estrangeiros para um lance e no mesmo momento trouxe o dinheiro para pagar a multa publicamente no teatro diante de todo o mundo, a mil dracmas para cada cabeça. Uma outra vez, quando casou seu filho, que se chamava Demas, disse-lhe: — "Meu filho, quando desposei tua mãe, houve tão pouca festa, que nosso vizinho próximo não ouviu nada; e, no entanto, agora, os príncipes e os reis contribuem para as despesas de tuas núpcias".

Morte de Demades e de seu filho.

XLIII. Entretanto, os atenienses insistiam com Fócion para requerer de Antípater que retirasse sua guarnição da cidade, mas este encontrava sempre algum meio para rejeitar esse pedido, fosse porque não esperava poder obter esta graça, ou antes porque via que o povo estava mais humilde e muito fácil para se deixar conduzir pela razão do temor daquela guarnição; mas conseguiu de Antípater que não reclamasse prontamente seu dinheiro, protelando ainda o pagamento; dado isto, vendo que Fócion não queria compreender de outro modo, viraram-se para Demades, o qual aceitou a incumbência e foi com seu filho à Macedónia, quando, sem nenhuma dúvida, seu destino o conduziu em má hora, pois Antípater já havia caído doente da enfermidade da qual morreu e passavam os negócios para as mãos de seu filho Cassandra, o qual havia surpreendido uma carta particular de Demades, em que notificava Antígono, na Ásia, que viesse com toda diligência para se apoderar da Grécia e da Macedónia, que não pendia senão de uma rede velha, ainda assim toda podre, criticando Antípater. Cassandra, avisado que foi de sua chegada, o fez aprisionar imediatamente (49) e, aproximando primeiramente seu filho bem junto dele, matou o rapaz diante de seus olhos, tão perto, que o sangue esguichou sobre ele, ficando o pai todo ensanguentado; depois, após haver censurado sua ingratidão e sua desleal traição e ter-lhe feito e dito todas as vilanias e ultrajes que podia lembrar, matou-o também.

Fócion aconselha Nicanor a tratar os atenienses com brandura.

XLIV. Antípater, entretanto, em sua morte, havia estabelecido Polipercon capitão-general do exército dos macedônios e Cassandra, coronel de apenas mil homens da infantaria. Cassandra, assim que ele morreu, tomando os negócios em sua mão, enviou subitamente Nicanor para suceder a Menilo no cargo de capitão da guarnição de Atenas, antes que a morte de seu pai fosse divulgada, ordenan-do-lhe de se apoderar, de qualquer modo, da fortaleza de Muníquia, o que foi feito. E, poucos dias depois os atenienses souberam da notícia da morte de Antípater, pelo que Fócion foi muito censurado e acusado de ter conhecimento muito tempo antes dessa morte e de se haver calado para auxiliar Nicanor; todavia, não fez caso dessas imputações, mas travou relações com Nicanor e o entreteve tão bem, que não somente o tornou delicado e atencioso para com os atenienses, mas, ainda mais, persuadiu-o a fazer alguma despesa para dar ao povo o passatempo de alguns jogos que fez realizar a suas expensas.

Polisperco engana os atenienses por meio de cartas que lhes trazem sua liberdade.

XLV. Nesse ínterim, Polipercon, que estava encarregado da pessoa do rei, querendo oferecer um estojo de instrumentos cirúrgicos a Cassandra, enviou ao povo de Atenas uma patente, pela qual estava expresso, como o jovem rei devolvia aos atenienses a plena e inteira liberdade do estado popular, querendo e entendendo que todos os atenienses, indiferentemente, governassem seu Estado, segundo as leis, usos e costumes de todos os tempos preservadas em seu país, assim como haviam feito seus predecessores. Isto era uma armadilha para Fócion; pois Polipercon, urdindo esta trama para se apoderar da cidade de Atenas, como evidenciou bem logo com efeito, não esperava poder realizar este seu intento, se não encontrasse primeiramente meios de expulsar Fócion; e julgou que seria expulso, logo que aqueles que haviam sido privados de seu direito de cidadania e tinham visto suas reivindicações negadas, voltassem a intrometer-se na administração, quando os discursadores e caluniadores teriam então o direito de dizer tudo o que quisessem. Os atenienses, cientes do que se passava, começaram a ficar alvoroçados. Então Nicanor, desejando falar-lhe no Senado, que se havia reunido no Pireu, para ali se dirigiu, colocando-se sob a proteção de Fócion. Dercílio, capitão das forças do rei, que se achavam acampadas fora da cidade, avisado secretamente, resolveu aprisioná-lo. Nicanor, entretanto, sentiu soprar o vento em boa hora e conseguiu salvar-se.

Nicanor empreende apoderar-se do Pireu.

XLVI. Era evidente que ele quena incontinenti vingar-se deste ultraje, sobre a cidade, e acusavam Fócion de não ter retido Nicanor, deixando-o escapar; a isto respondeu que confiava nas promessas de Nicanor e que sabia que não havia nenhum perigo e temor desse lado; todavia, se acontecesse de outra forma, que considerava melhor ser. ofendido e enganado, do que ofender e causar dano. Esta resposta, se se referisse a um assunto que não concernesse senão a ele só, poderia parecer, a quem a considerasse de perto, haver partido de uma grande bondade e grande magnanimidade, mas atendendo que colocava na sorte a salvação de seu país, sendo mesmo capitão-general e mantendo cargo de autoridade pública, eu não sei se transgredia um outro direito e não violava uma outra fé prévia e de maior obrigação, isto é, a atenção que devia para com todas as coisas, para o bem e segurança de seus concidadãos. Não se poderia também alegar em sua defesa, que ele não desejou por a mão sobre Nicanor, pelo receio de atirar sua cidade na guerra, mas como uma capa que colocava adiante, devido ter-lhe prometido e jurado e a justiça que quis observar no caso, a fim de que por consideração a ele, Nicanor, depois se mantivesse em paz e não causasse prejuízo nenhum aos atenienses; mas na verdade parece que de outra coisa aquele não abusou, a não ser da grande confiança que lhe depositara, como é evidente, porquanto vários vieram a concluir que espreitava os meios de poder surpreender o porto de Pireu, que fazia todos os dias passar guerreiros para a ilha de Salamina e procurava corromper por dinheiro alguns dos moradores dentro do recinto do porto; ele, entretanto, não quis nunca dar ouvidos nem acreditar. E, ainda mais, tendo Filomedas Lampnano (50) proposto um decreto, segundo o qual os atenienses deviam se manter prontos em armas, para fazer o que o capitão Fócion lhes ordenasse, não fez caso, até que Nicanor, saindo com as armas do forte de Muníquia, começou a fechar as trincheiras do porto do Pireu, mas então quando Fócion pensou em levar o povo para impedi-lo, encontrou-o amotinado contra ele, de maneira que nenhuma pessoa parecia querer obedecer às suas ordens.

Fócion acusado de traição.

XLVII. Nesse entrementes, Alexandre, filho de Polipercon, chegou com uma armada, sob a aparência de vir em socorro dos habitantes da cidade contra Nicanor, mas em verdade com a intenção de se apoderar, ele mesmo, do resto da cidade se pudesse, rnesmo porque estava em revolução uma parte contra a outra porque os bandidos aí entraram em confusão e acorreram também muitos estrangeiros e outras pessoas com a nota de infâmia, de modo que se manteve uma assembléia da cidade confusa com pessoas recolhidas de todas as camadas sociais, sem ordem nenhuma, na qual Fócion foi deposto de seu cargo, sendo eleitos outros capitães em seu lugar; e se não tivessem percebido Alexandre que falava a sós com Nicanor, voltando por várias vezes bem próximo às muralhas da cidade, (o que pôs os atenienses em desconfiança e suspeita) julgando que ele não quisera livrar a cidade daquele perigo. Foi Fócion incontinenti acusado asperamente de traição pelo orador Agnônides; receando isso, Calimedon e Péricles (51) ausentaram-se em boa hora da cidade, e Fócion com seus outros amigos que não haviam fugido, foram à presença de Polipercon; acompanharam-no também Sólon Plateiano e Di-narco Coríntio, que julgavam ter alguma amizade e alguma intimidade com Polipercon; mas em caminho, tendo Dinarco caído doente na cidade de Elácia, aí ficaram vários dias, esperando que ficasse curado, durante os quais, pela persuasão do orador Agnônides e a instâncias de Arquestrato, que propôs o decreto, o povo enviou à presença de Polipercon embaixadores para acusarem Fócion, de tal modo que os dois partidos chegaram ao mesmo tempo e encontraram-no pelos campos com o rei, próximo de um vilarejo da Fócia denominado Fariges, assentado ao pé do monte Acrorion, que chamam atualmente Gaulês.

Polisperco envia-o atado sobre uma carriola a Atenas.

XLVlll. Ali fez Polipercon estender um doceilde ouro em forma de céu, sob o qual fez sentarrei e os principais de seus servidores e amigos ao redor dele; mas, de entrada antes de qualquer outro trabalho, fez prender Dinarco e ordenou que o levassem para morrer, após o torturarem e depois disto feito, ordenou aos atenienses que declarassem o que tinham a dizer. E, então começaram a gritar e fazer um grande barulho, acusando-se uns aos outros na presença do rei e de seu Conselho, até que Agnô-nides indo à frente, disse: — "Senhores macedô-nios, fazei-nos por a todos em uma jaula e enviar-nos pés e mãos atados a Atenas, ao povo, para nos fazer dar contas de nosso feito". O rei se pôs a rir com estas palavras; mas os senhores macedônios iam a esta audiência e alguns estrangeiros que haviam vindo para presenciar a acusação, faziam sinais com a cabeça para que deduzissem no momento, em presença do rei, os artigos de suas acusações, antes do que mandá-los de volta ao povo de Atenas. Mas as partes não eram igualmente ouvidas, porque Polipercon muitas vezes tratava mal a Fócion, cortando a todo instante sua palavra, quando este tentava fazer suas justificações até que, colérico, bateu com a bengala que tinha nas mãos em terra, ordenando afinal que se calasse e que se retirasse.

E como Hegemon lhe disse que podia mesmo ser muito boa testemunha de como Fócion havia sempre amado e servido o povo, respondeu-lhe furioso: — "Não venhas aqui mentir falsamente em presença do rei". O rei então levantou-se de seu trono e tomando uma lança, procurou bater em Hegemon se Polipercon não o tivesse abraçado subitamente pelas costas, retendo-o, e assim, dissolveu-se esta audiência e assembléia de Conselho; mas logo houve guardas que agarraram Fócion e os que estavam junto dele. Vendo isso, alguns outros de seus amigos, que estavam um pouco distantes, cobriram ridiculamente o rosto e fugiram rapidamente dali; os outros foram levados prisioneiros a Atenas por Clito, não tanto para fazer e completar seu processo, como dizem, mas para os executar, como já sendo condenados à morte. Ainda foi o modo como os conduziram, ignominioso; pois os arrastaram sobre carno-las em toda a extensão da grande rua de Cerâmica, até ao teatro, onde Clito os deteve até que os magistrados houvessem reunido o povo, sem excluir desta assembléia nem escravo, nem estrangeiro, nem homem com marca de infâmia; mas deixaram o teatro aberto a todos e a todas, de qualquer condição que fossem e a tribuna dos discursos livre a quem quisesse falar contra eles.

O povo condena-o à morte.

XLIX. Foram primeiramente lidas publicamente as cartas do rei, pelas quais dizia ao povo que havia julgado esses criminosos atingidos e evidenciados de traição, mas que os havia enviado de volta para julgamento e seu conhecimento, para os condenar, como homens que eram, francos e livres. Então Clito apresentou seus prisioneiros diante do povo, quando as pessoas de bem e de honra, assim que viram Fócion, abaixaram os olhos contra a terra, cobrindo o rosto com medo de olhá-lo, e puseram-se a chorar; todavia, houve um que se levantou e disse alto e claro: — "Senhores, desde que o rei submete ao povo o julgamento de tão grandes personagens, seria pelo menos razoável que fizesse sair desta assembléia os escravos e os estrangeiros que não são cidadãos de Atenas". Mas a plebe não quis consentir, e pôs-se a gritar que deviam castigar esses traidores inimigos do povo, que desejavam retirar a autoridade soberana para dá-la a um pequeno número de tiranos, de tal modo que não houve pessoa alguma que ousasse falar por Fócion. Tendo dificilmente e com grande luta obtido a palavra, Fócion perguntou: — "Senhores atenienses, como quereis nos fazer morrer, com justiça ou injustamente?" Alguns lhes responderam: — "Com justiça". — "Como, replicou ele, podeis fazê-lo, se não ouvis primeiramente nossas justificações?" Nem assim puderam conseguir. Então Fócion, aproximando-se mais para perto, disse-lhes: — "Bem, senhores, confesso vos haver causado dano c que as faltas que cometi na administração de vossa república, mereçam a morte; mas esses que estão comigo, por que quereis fazê-los morrer, levando em conta que não cometeram nenhum crime?" A plebe respondeu-lhe: — "Porque são teus amigos! Ouvida esta resposta, Fócion retirou-se sem dizer mais uma só palavra. E o orador Agnônides, tendo um decreto já escrito, leu-o, pelo qual o povo julgasse, pela pluralidade das vozes, se esses prisioneiros tinham cometido crimes contra a república, ou não; e quando fossem da opinião que tinham crimes, seriam todos condenados à morte. Quando esse decreto foi lido, houve os que gritaram bem alto que ajuntassem ainda mais a esse decreto, que Fócion antes de ser executado, fosse primeiramente martirizado; e de fato ordenaram que trouxessem t a roda de tortura e fizessem vir os carrascos; mas Agnônides vendo que mesmo Clito estava descontente com isto, julgando ser uma crueldade bárbara e detestável, disse bem alto: — "Quando tiverdes entre vossas mãos um velhaco como Cali-medon, senhores atenienses, então o fareis martirizar; mas contra Fócion, eu não saberia ser o autor". Então houve um homem de honra na assembléia que ajuntou: — "Fazes bem, Agnônides, em dizer isto; pois se martirizássemos Fócion, que deveríamos fazer contigo?" Esse decreto, sendo autorizado e segundo seu teor, o julgamento posto à pluralidade dos votos do povo, não houve um na assembléia que ficasse sentado, mas levantaram-se todos e a maioria ainda pôs chapéus de flores sobre suas cabeças pelo prazer que sentiam em condenar esses prisioneiros à morte.

Constância de Fócion.

L. Estavam com Fócion, Nicocles, Tudipo, Hegemon e Pitocles, mas Demétrio, o Faleriano, Calimedon e Caricies achando-se ausentes, foram também condenados a morrer. Assim, terminada a assembléia, os condenados foram conduzidos à prisão para serem executados, quando todos os outros, abraçando pela última vez seus parentes e amigos que encontravam pelo caminho, iam chorando e lamentando sua miserável sorte, Fócion ia com a mesma fisionomia que demonstrava antes como capitão, quando o acompanhavam por honra, da assembléia até sua casa, e assim emocionava, com grande compaixão, os corações de diversos, quando iam considerando com admiração a constância e força de coragem que existiam nele; e ao contrário, aí estavam também outros maldosos e inimigos seus, que cornam o mais perto que podiam atrás dele para lhe dizerem vilanias, entre os quais houve um. que, abordando-o pela frente, cuspiu-lhe no rosto; então Fócion virando-se para os magistrados, disse-lhes: — "Não fareis cessar a insolência deste homem? Quando chegaram à prisão, Tudipo, vendo a cicuta que socavam para os fazer beber, pôs-se a lamentar e a atormentar-se desesperadamente, dizendo que cometiam um grande erro fazendo-o morrer com Fócion: — "Como, respondeu-lhe Fócion, não recebes como grande conforto, fazerem-te morrer comigo?" E como algum dos assistentes lhes perguntasse se desejava mandar dizer alguma coisa a seu filho Fócion (52) : — "Certamente, disse ele, que não procure nunca vingar o erro que me fazem os atenienses". Então Nicocles, que era o mais fiel de seus amigos, pediu-lhe que lhe permitisse beber o veneno primeiro do que ele. Fócion respondeu-lhe: — "Tu me fazes um pedido que me é bem doloroso e bem difícil, Nicocles; mas como em minha vida nunca te recusei nada, ainda concedo-te agora na minha morte o que me pedes". Quando todos os outros haviam bebido, aconteceu que não havia mais cicuta e o carrasco disse que não moeria mais nenhuma, se não lhe entregassem doze dracmas de prata, porque tanto lhe custava, de modo que ficaram muito tempo neste estado, até que Fócion mesmo, chamando um de seus amigos, pediu-lhe para entregar ao carrasco esse pouco dinheiro que pedia, pois não se podia morrer em Atenas, sem que custasse dinheiro.

Um pobre homem chamado Conópio cumpre com os deveres fúnebres

LI. Foi no décimo-nono dia do mês de março (53) no qual os cavaleiros estão acostumados a fazer uma procissão em honra de Júpiter; mas uns retiraram os chapéus de flores que deviam trazer sobre suas cabeças, e outros, olhando a porta da prisão passando pela frente, puseram-se a chorar. Pareceu a esses que não estavam despojados de toda humanidade e que não tinham o juízo totalmente depravado por rancor e inveja, que era um sacrilégio muito grave contra os deuses, de não haver pelo menos esperado passar esse dia, a fim de que uma festa tão solene como aquela, não fosse poluída nem contaminada com a morte violenta de homens; todavia, seus inimigos, não tendo ainda sua ira saciada, fizeram ordenar pelo povo que seu corpo seria transportado para fora dos limites do país do Ático e proibido aos atenienses acender fogo algum em seus funerais; razão porque não houve nenhum de seus companheiros que ousasse por-lhe a mão. Mas um pobre homem chamado Conopião, que estava acostumado a ganhar sua vida nisto, por algumas moedas de prata que lhe deram, tomou o corpo e levou-o para além da cidade de Eleusina e fazendo fogo sobre a terra dos megarianos, queimou-o; e, houve uma dama megánca, a qual encontrando-se por acaso nesses funerais com suas criadas, levantou um pouco a terra no lugar onde o corpo havia sido embalsamado e queimado, fazendo como um túmulo vazio, sobre o qual espargiu as fusões que se costumam espargir nos falecidos, mas recolhendo os ossos, levou-os dentro de seu regaço à noite, para sua casa e enterrou-os junto da sua lareira, dizendo: — "Ó querido lar, deposito em tua guarda estas relíquias de um homem de bem e peço-te que as conserves fielmente para as devolver um dia à sepultura de seus antepassados, quando os atenienses vierem a reconhecer o erro que cometeram nesta ocasião".

Arrependimento dos atenienses, honras restituídas a Fócion. Castigo de seus acusadores

LII. Não se passou muito tempo sem que os negócios públicos fizessem sentir aos atenienses que haviam feito morrer aquele que mantinha a justiça e a honestidade em Atenas. Por esta razão fizeram erigir uma estátua de cobre e sepultaram honradamente seus ossos a expensas da república; quanto aos seus acusadores, eles mesmos fizeram morrer Agnô-nides; os dois outros, Epicuro e Demófilo tendo fugido, foram encontrados depois por seu filho Fócion que vingou o pai. Esse Fócion, na ocasião, não tinha valor algum; mas tornou-se enamorado de uma jovem rapariga sustentada por um alcoviteiro e, encontrando-se, por acaso, um dia, dentro da escola do Liceu, ouviu um discurso e um argumento de Teodoro, aquele que foi denominado o Ateísta, isto é, descrente, que negava que existissem deuses: — "Se não há vergonha alguma em libertar da escravidão um seu amigo, também não é vergonhoso libertar uma sua amiga, e se não o é para tirar do cativeiro um companheiro seu, também não o é tirar uma companheira sua". Esse jovem, acomodando esteargumento com a sua paixão e fazendo suas contas, o que podia fazer com razão, tirou das mãos desse tratador de animais a jovem rapariga pela qual estava apaixonado. Em suma, esta morte de Fócion reavivou nos gregos a lembrança de Sócrates e consideraram que foi uma falta e uma calamidade igual para a cidade de Atenas.

Notas

  • (1) Tendo a lutar contra um tempo tempestuoso, como contra um terrível antagonista.
  • (2) No "Antígono", v. 570 ou 563.
  • (3) Ver as Observações.
  • (4) Ver as Observações.
  • (5)  Historiador, de Lampsaque, viveu no tempo da velhice de Fócion.
  • (6)  Um dos dez oradores dos quais Plutarco escreveu as Vidas, que se encontram nesta coleção.
  • (7) Na guerra que denominam Social, no terceiro ano da centuagésima-quinta Olimpíada; A. C. 358.
  • (8) O quarto ano da centuagésima Olimpiada; A. C. 377.
  • (9) "Por que não te fazes escanhoar?" O resto é uma paráfrase de Amyot.
  • (10) Um sicofanta.
  • (11) Leia-se, de acordo com as variantes dos manuscritos, "enviou de volta todos os gregos que haviam sido aprisionados".
  • (12) Todas as duas na parte da Trácia que forma o reino dos Odrisianos; Perinto, sobre a Propôntida, e Bizâncio, sobre o Bósforo da Trácia.
  • (13) Na extremidade ocidental do Atiço, abaixo do monte Citeron.
  • (14) Um pouco abaixo de Megara. Era uma cidadezinha que servia de porto e de arsenal de marinha a Megara.
  • (15) Isto não consta no grego.
  • (16) De Queronéia, aparentemente.
  • (17) Aquele que se retirou com a comitiva que seguiu Dario, ali recebendo a morte como prêmio da nobre franqueza com que fizera sentir a diferença de suas tropas brilhantes de ouro com os soldados macedônios todos cobertos de ferro. Veja Q. Curt. L. III, cap. 5.
  • (18) No primeiro ano da centuagésima-undécima-primeira Olimpíada.
  • (19) No terceiro ano da centuagésima-décima Olimpíada.
  • (20) Sessenta mil escudos, Amyot.
  • (21) Não é da ilha que se trata aqui, mas de uma cidade sobre o rio do mesmo nome, na Bitínia ou na Mísia, que lhe é contígua.
  • (22) Gergueto está na Mísia.
  • (23) Milasses acha-se na Caria.
  • (24) Eléia, na Eólia, abaixo do rio Calco e de Pérgamo que está do outro lado do rio. £ hoje a aldeia de Castela-mare-della-Bruca.
  • (25) É um bairro do Pireu. Ver Meursius, L. I.
  • (26) Leia: "Seu filho desejando combater nos jogos das Panathenea, Fócion permitiu-lhe concorrer aos prêmios do exercício chamado Parabate, não porque lhe apetecesse unanimemente, etc". Este exercício consistia em descer e subir sobre carros correndo à rédea solta. C.
  • (27) Os sábios concordam com razão com a forma Foco, como se encontra mais adiante.
  • (28) General de Alexandre, governador da Babilônia, onde roubou o tesouro dos reis antigos, transportando-o para Atenas. O desaparecimento de uma parte desse tesouro deu causa a um processo ruidoso, no qual o próprio Demóstenes esteve envolvido. Harpalo morreu em 324 A. C
  • (29) Quatrocentos e noventa mil escudos. Amyot.
  • (30) Pausânias chama-a Pitionice e assegura que esse monumento é um dos mais belos da Grécia. L. I, pág. 90, ediç. de Kuhn.
  • (31) Ver as Observações.
  • (32) Dezoito mil escudos. Amyot.
  • (33) A Guerra Lamiaca, pela qual os gregos tentaram libertar-se do domínio macedónico depois da morte de Alexandre (328 A. C), sob a chefia de Hispérides e Demóstenes. Houve sucessos a princípio, tendo o próprio Leóstenes, referido no texto, feito um cerco a Antípater na cidade de Lâmia (daí a denominação da guerra). Com a batalha naval de Craunon e morte dos principais chefes, Atenas submeteu-se.
  • (34) Consta no grego: "mas receio o Dolichum", que era uma corrida em que se fazia seis vezes o percurso. C.
  • (35) Ver as Observações.
  • (36) No segundo ano da centuagésima-décima-quarta Olimpíada; A. C. 323.
  • (37) No ano seguinte. Cranon acha-se no distrito da Tessália chamado Têmpia.
  • (38) Entre o de Falere para o oriente e o do Pireu para o ocidente. É uma das povoações do Atiço, mas não se sabe de qual tribo.
  • (39) Grego, "boedromion", setembro.
  • (40) Leia-se: "em cujo dia habituaram-se a conduzir Jacos desde a cidade de Atenas até. etc." C.
  • (41) Floresta da Tesprótida ou de Molóssia; pois os limites dessas duas províncias variaram. Era consagrada a Júpiter e famosa por seus oráculos que eram entregues por carvalhos ou por pombas.
  • (42) Ou faixas, com as quais unem ao redor os berços místicos de Baco. Amyot.
  • (43) Ver as Observações.
  • (44) Na extremidade do golfo Argólico e do golfo Saronlco.
  • (45) Cidade da Argólida.
  • (46) Grande cadeia de montanhas no Épiro.
  • (47) A esta forma de governo. C.
  • (48) Cem escudos. Amyot.
  • (49) No quarto ano da centuagéslma-décima-quarta Olimpíada; A. C 321.
  • (50) Havia duas províncias com o nome de Lampria no Atico.
  • (51) É preciso ler: "eu creio. Caricies". Veja o cap. 50.
  • (52) Leia-se: Foco.
  • (53) Grego, ."munychion" (abril), no terceiro ano da centuagé-sima-décima-quinta Olimpíada.

Fonte: Edameris. Tradução brasileira de Prof. Carlos Chaves, com base na versão francesa de de 1616 de Amyot com notas de Brotier, Vauvilliers e Clavier.

 

set 182010
 
Arte etrusca

OBSERVAÇÕES

SOBRE A VIDA DE ALEXANDRE, O GRANDE

CAP. V, pág. 17. No grego está a palavra hécatombeon. Nós ja dissemos que esse mês ático corresponde, para a maior parte, não ao mês de junho, mas ao de julho; pois começava na lua nova mais próxima do solsticio de verão, antes ou depois do solsticio, segundo o padre Pétau, depois do solsticio, somente, segundo Es-calígero. Assim, se supusermos com Dodwell que no primeiro ano da centésima-segunda olimpíada, o mês ático hécatombeon começou a 14 de julho, 6 do mês de hécatombeon, cairá a 19 de julho; é um duplo erro, que Amyot comete em todas estas circunstâncias, não somente porque ¿le desorganiza as verdadeiras relações dos meses, mas ainda porque, dando data por data, êle supõe um começo imóvel em meses que, sendo lunares, não podiam deixar de ser variáveis como a lua que os regulava. Quanto à comparação dos meses áticos com os meses macedõnios esta matéria esgotou as indagações dos sábios, sem que eles se pudessem pôr de acordo. Nós os vamos apresentar*" ao leitor na ordem estabelecida pelo padre Corsini sem pretender preferi-lo à de Dodwell ou de Pétau.

Meses Áticos

Al a cril i mios

Romanos

Hécatombeon

Lous

Julho

Métageitnion

Gorpiaeus

Agosto

Boédromion

Hyperberelffius

Setembro

Mémactériori

Dius

Outubro

Pyanepsion

Apellaeus

Novembro

Poseidon

Audynaeus

Dezembro

Gainéliun

Peritius

Janeiro

Anthcstérion

Dystrus

Fevereiro

Êlapliébolion

Xunticus

Março

Munichion

Artémisius

Abril

Thargélion

Soirrophorlon

Daésius

Panemua

Maio

Junho

O ano dos macedônios começava com Dius, no equinócio do outono.

CAP. XII, pág. 26. Creio que Amyot é o único que conheceu esta edição da Ilíada chamada la correcte. A palavra grega significa uma espécie de cofrezinho onde se punham perfumes ou drogas medicinais. Entre os móveis preciosos de Dario. Alexandre havia tomado um cofre desse gênero, de ouro. adornado de diamantes, onde êle encerrou, com efeito, o exemplar da Ilíada de Homero, que sempre trazia consigo, segundo o que diz Plínio. 1. VII, cap. XIX. Falaremos desse cofre na continuação desta Vida de Alexandre. Assim, seria preciso traduzir: o exemplar conhecido sob o nome de exemplar do cofre.

CAP. XVII. pág. 33. Não é Medéia quem diz esse verso, citad por Plutarco, e Plutarco não lho atribui absolutamente; êle dl somente que Alexandre citou a Pausânias, esse verso, da tragédia de Medéia. É o 288 da Medéia de Eurípides; está na boca de Créon que diz à Medéia: "Eu sei que na tua cólera tu ameaças castigar este esposo e aquela à qual êle se vai unir e aquele que a entrega aos seus braços". C.

CAP. XXX, pág. 49. Eis o que diz Estrabão com relação a essa passagem: "Perto de Faselis, cidade da Lídia (que Amyot chama Faselina) há uma montanha chamada Clímax (palavra grega que significa escada). Avança para o mar da Panfília. de maneira que aperta bastante a costa, e deixa aos viajantes apenas uma passagem muito estreita. No tempo da calmaria ela está seca. mas quando o mar se enche, ela o cobre com suas águas. Alexandre aí chegou no inverno, com tempo péssimo; preferiu confiar na sorte do que esperar a bonança e a retirada das águas e mandou seus soldados marchar, os quais levaram um dia inteiro para atravessar esse passo, tendo água até o umbigo".

CAP. XXXII, pág. 50. Esta palavra Asgande é desconhecida dos sábios. Astande, que com ela muito se parece, é conhecida por Eustathe e Suidas. Ambos a tomam por uma palavra persa, que significa a mesma coisa que Angare, outra palavra persa que significa uma mensagem. Dario que era. segundo Diodoro de Sicília, de sangue real, não podia sem dúvida ser um simples mensageiro; mas êle bem podia ter sido o que nós chamaríamos superintendente do correio ou ter tido junto do rei Oco, seu predecessor, a jurisdição de seus negócios particulares e de suas ordens secretas.

CAP. LVIII. pág. 81. Deve-se escrever Gaiiganicle, segundo Estrabão e Arrieno. É uma aldeia situada entre o Tigre e o Lico, bastante perto de um outro rio de nome Bumade ou Buinalc a vinte e cinco léguas, mais ou menos, de Arbelas, outra aldeia ou cidadezinha, segundo alguns, situada ao oriente de Gaugamele. entre o Lico e o Caper. Os que lerem em Quinto Cúrcio a descrição das marchas de Alexandre e de Dario, para chegar ao lugar desse combate, julgarão, por essas posições certas, que o historiador latino de Alexandre, conheceu mal a situação dos lugares de que êle fala, ou que a ignorância dos copistas desfigurou-lhe o texto.

Ibid. pág. 81. O mês de agosto é ainda um erro de Amyot. Há no grego boédromion. setembro, segundo o que dissemos nas Observações, no tomo III e na primeira destas Observações sobre a Vida de Alexandre. Plutarco, ou melhor, seus copistas, esqueceram aqui a data do mês. Mas na Vida de Camilo êle diz que a batalha de Arbelas (ela era conhecida por esse nome, embora se tenha realmente travado perto de Gaugamele) deu-se a 26 do mês boédromion. Éle diz aqui que foi no 11.« dia depois do eclipse da lua, que se deu na época da (grande) festa dos Mistérios (de Céres) em Atenas. Começava a 15 do mês de boédromion, segundo Meursio e o padre Pétau. Plutarco está pois de acordo com ele mesmo e sua autoridade, apoiada pelas tabelas astronómicas, citadas pelo padre Pétau. (Doutrina dos tempos. 1. X. cap. 36 colocando o eclipse a 20 de setembro e a batalha a 1." de outubro, parece incontestável -mente preferível à de Arrieno. que põe este combate no mês pyancp-sioh, isto é, de novembro.

CAP. LIX, pág. 81. Nada há que trocar aqui, diga o que disser o sábio Dusoul, no texto de Plutarco, mas somente substituir-se na tradução de Amyot. um nome de rio que não está no grego, pelo de montanha. "Eu não sei, diz Dusoul, porque se traz aqui os montes Nifates e Gordianos. da Armênia, para a Mesopotâmia".

Ninguém, eu creio, encarregar-se-ia de tal incumbência. Devem-se deixá-los no lugar que Estrabão lhes destina. 1. XI, pág. 793. A passagem é clara. A primeira montanha de que êle fala é o monte Tauro, que avança da Capadócia e da Comagena para o oriente. Divide, acrescenta êle. a Armênia, da Mesopotâmia;. Esse parte da cadeia é chamada por alguns de montes Dordiaii". Ele se eleva depois e toma o nome de Nifates. onde está a nascente do Tigre. Eu não tenho necessidade de discutir essa posição da nas cente do Tigre, no que Estrabão e Ptolomeu não estão de amido

Mas fica sempre de pé, segundo o texto, que os montes Gordianos e Nifates prolongam-se e se estendem do ocidente para o orientó, entre a parte meridional da Armênia e a setentrional da Mesopotâmia. Gaugamele está na parte setentrional da Mesopotâmia. Nao se deve pois admirar de que a luz dos inúmeros fogos acesos pela multidão prodigiosa dos bárbaros, iluminasse as montanhas, a várias léguas de distância e o clarão produzisse um espetáculo assustador.

CAP. LXII, pág. 84. Êle era da cidade de Salamina na ilha de Chipre, filho de Acesas, o pai e o filho eram muito famosos na arte do bordado, muito cultivada em Chipre. Atenas nos conservou uma inscrição do templo de Delfos, que mostra o grau de fama a que estes dois artistas tinham chegado. Isto, diz o epigrama, é obra de Helicón de Salamina, filho de Acesas. A imortal Palas depositou em suas mãos todas as graças de sua arte divina. Eus-tato os cita também como os homens mais célebres na arte do bordado. Mas nem um. nem outro nos falam da sua idade.

CAP. LXIV. pág. 88. Eu respeito muito as razões pelas quais o sábio Dusoul pretende que Failo não se encontre entre os vencedores olímpicos. Se êle se tivesse lembrado da quinta cena do primeiro ato dos Acarnianos de Aristófanes, lá teria encontrado precisamente o Failo de que aqui se trata: nas glossas. há um epigrama que nos diz que êle saltava cinqüenta e cinco pés e lançava o disco a noventa e cinco. O Escoliaste diz que êle havia conquistado a vitória nos jogos Olímpicos e Suidas está de acordo com êle. É verdade que Pausânias atribuindo-lhe três vitórias nos jogos Píticos, acrescenta que êle não as havia conquistado nos jogos Olímpicos. Mas êle o concluía, talvez segundo Heródoto, que lhe atribui, com efeito, três vitórias nos jogos Píticos. Ora, Heródoto leu sua história nos jogos Olímpicos, na octogésima-primeira olimpíada e a vitória de Failo pode bem ter sido posterior. O Escoliaste de Aristófanes cita ainda um outro Failo, coroado nos jogos Olímpicos, na oitava olimpíada.

CAP. LXV. pág. 88. A terra nos fornece, bem como os vegetais, matérias inflamáveis. Tais são os diferentes carvões minerais, o azeviche, o âmbar, o asfalto ou betume da Judéia, o pissasfalto e todos os betumes sólidos e líquidos: também as naftas claras e coloridas que se encontram nas quatro partes do mundo, no seio da terra, na areia, muitas vezes escorrendo dos rochedos e principalmente nas vizinhanças dos vulcões, flutuando na superfície de alguns lagos, de fontes e do mar.

Todas estas matérias têm grande relação entre si, <• m<,..uo podemos considerar as primeiras como sendo a origem das segundas. Todos conhecem o carvão de pedra e o azeviche. O âmbar é uma resina vegetal pura, que as antigas revoluções da terra fizeram aprofundar-se nas entranhas dela mesma. Devemos notar que a analogia da árvore que produziu o âmbar, nos é desconhecida, pode ser mesmo que não exista mais; parece ter grande relação com a árvore que produz a goma copal; que esta árvore deve ser originária dos países meridionais e que viveu outrora num clima totalmente oposto àquele onde se encontra hoje o solo da Pomerània e da Prússia ducal, sob os quais está sepultada.

O betume, mais conhecido antigamente é o asfalto ou betume da Judéia; era tirado do lago Asfaltite ou de Sodoma. Havia dele fontes abundantes nas cercanias de Babilônia. Tinha-se tornado objeto de grande comércio. O Egito principalmente fazia dele o material mais importante para seus embalsamamentos. O petróleo que é um betume fluido e menos grosseiro, encontra-se por toda a parte; a nafta é mais rara; todavia pode ser encontrada em Módena e mais abundantemente ainda na superfície do mar nas vizinhanças do Vesúvio, durante as erupções desse vulcão.

A nafta é um betume ou óleo muito fluido. Pode ser mais ou menos colorido, como alguns que leni a leveza, a brancura e a limpidez do espírito de vinho; assim era a nafta de Babilónia e de Ecbátana, tal é ainda a nafta de que fala Kempfer, como testemunha ocular.

"Há na península do mar Cáspio, que se chama Okesva, diz-nos êle. uma pequena planície rodeada de montanhas, a que chamam em linguagem do país o Campo de fogo "CAMPUS ARDENS"; porque, com efeito, dele saem chamas pelas fendas da terra; esse fogo embora invisível de dia, não se manifesta menos, quando se lhe apresentam matérias leves, tênues e muito combustíveis, como o algodão. Encontramos no mesmo campo, betume negro, que corre em vários lugares, quer do seio da terra, quer dos rochedos; enfim, êle fala de um pequeno lago de água salgada, no qual há muito pouca água. A margem ocidental do lago, havia no seu tempo, dois poços, a pouca distância um do outro, nos quais se ajunta por dis-tilação uma nafta muito branca e muito límpida. .’"Este óleo, acrescenta Kempfer, exala um vapor tão sutil que é suficiente aproximar-se a chama de uma lâmpada para que se infli…..

E fora de dúvida que um óleo dessa espécie, já bastante atenuado e volatilizado pelo calor que lhe comunica uma terra incandescente, reduz-se em parte a vapor, desde que venha a ter uma corrente de ar. Pode-se, a este respeito, compará-la ao espírito de vinho, c melhor ainda, ao espírito de terebentina. um pouco aquecido. Como esses líquidos têm sempre uma atmosfera de vapor, esta inflama-se e o fogo comunica-se imediatamente ao líquido; êle se queima então, sobre algum corpo, ao qual adere; assim quando se molha um corpo qualquer no espírito de vinho e dele se aproxima uma chama, o espírito de vinho acende-se e consuma-se no momento. É assim que as crianças fazem com os ratos e os camundongos, quando os apanham; molham-nos em espírito de terebentina e põem fogo. Quando Plutarco então nos refere que se iluminou em Babilônia a rua pela qual Alexandre devia passar para ir ao palácio, queimando de ambos os lados a nafta, e que num instante o fogo que lhe foi dado comunicou-se de uma ponta à outra, êle diz uma coisa muito simples e muito possível.

Há ainda a brincadeira de mau gosto que Antenófanes fêz a Estêvão, na presença de Alexandre: a nafta com a qual esfregou o pagem era certamente muito fluida e volátil; isso se passou num lugar quente, na banheira em que o príncipe se banhava; a simples aproximação de uma chama pôs-lhe fogo e o infeliz jovem ficou queimado e quase sufocado. Uma prova de que a nafta era muito seca e volátil é que puderam apagá-la, o que não se teria podido conseguir se ela tivesse mais consistência e resistência.

Por mais volátil~ leve que seja a nafta, não pode se inflamar senão pela aproximação de outra matéria já inflamada e jamais ao simples contacto do ar, nem pelos raios do sol, por mais quentes que sejam. Até agora só se conhecem o fósforo e os piróforos. que se inflamam ao contacto do ar, mas o tempo, o lugar, o caráter do líquido e as circunstâncias, tudo mostra evidentemente que era a nafta de que Antenófanes se havia servido e não do fósforo, absolutamente, quando mesmo nós o supuséssemos conhecido dos antigos.

Devemos observar que só se encontram petróleo e nafta nas vizinhanças dos terrenos, ou nos terrenos mesmos que se inflamam, ou que outrora foram queimados; em toda a parte onde encontramos a nafta pura. volátil e muito inflamável, pode-se ter certeza de que o fogo está debaixo da terra de onde ela promana; pois êle perde sua leveza e sua volatilidade com o tempo, pelo frio, envelhecendo. É produzido por incandescência subterrânea e pela combustão do betume e do carvão natural, aos quais a nafta deve sua origem.

Esta observação é do meu ilustre confrade Mr. Darcet.

CAP. LXXVIII. pág. 105. Não seria muito de se admirar que antes de Alexandre tivesse havido escritores menos instruídos a este respeito. Houve depois vários, mesmo entre os mais sábios geógrafos, como Estrabão. Pompònio, Mela e outros. Mas antes de Alexandre, Heródoto tinha dito, 1. I. pág. 96, que esse mar não tinha comunicação com o Oceano. No tempo mesmo de Alexandre, Aristóteles tinha escrito e provado no capítulo primeiro do segundo livro do seu tratado dos meteoros. Foram eles seguidos com razão por Arrieno e Diodoro da Sicília. As observações dos modernos viajantes confirmaram-no.

CAP. LXXXII, pág. 110. Há aqui no texto um erro grave. Amyot não lhe podendo dar remédio, preferiu pular as palavras que êle não entendia. Os sábios editores do Plutarco no lugar dessas palavras én tini króno, sem sentido, acharam num manuscrito én Kortánou, e persuadidos, com Mr. Dacier, de que nada se podia concluir, eles substituíram por én Kortakánois, sem se importar se era assim que se devia escrever o nome dessa cidade, ou ãrtákava ou ártikene. Eles todos tinham esquecido de que falando dessa entrevista de Alexandre com Roxana. Quinto Cúrcio, disse, 1. VIII. que aquilo aconteceu no palácio dè um rico sátrapa do país, chamado Cohortano; o que é evidentemente a palavra do manuscrito e a verdadeira palavra que aqui devemos colocar, como o erudito Wesselingue o nota em suas Observações sobre Diodoro da Sicília, 1. XVIII. cap. III, pág. 259.

CAP. LXXXIX, pág. 119. Las que les maeurs de Grece se cor-rompent. Não se pode • compreender a malignidade dessa citação, sem conhecer-se o resto da passagem, que era então conhecida de toda a Grécia, pois as tragédias de Eurípides estavam em todas as bocas: eis aqui o trecho inteiro: "Havia-se estabelecido um muito mau costume na Grécia: quando um exército era vitorioso, por que o chefe recebe a glória, e se esquecem os instrumentos dos seus triunfos? Confundido entre os outros guerreiros, que tem êle mais que os outros, para que dele se fale mais? No entretanto os chefes orgulhosos dão ordens nos conselhos, desprezam seus concidadãos, embora eles mesmos sejam desprezíveis, rodeados por homens superiores em mérito, aos quais só falta querer e ousar". Théâtre des Grecs, Paris, CUSSAC, 1786, t. VI, pág. 472. Andromaque de Eu-ripides, v. 694, e seguintes. C.

CAP. CHI, pág. 136. Ayant ordonné à ceulx qui estoyent à la droitte d’en faire autant de leur costé. Eu corrigi a tradução dessa passagem, segundo a conjetura de Blancard, fundada em Diodoro da Sicília e sobre Arrieno: De Exped. Alex. 1. V. pág. 215, edit. de J. Gronovius. .

Segui ainda na passagem seguinte a correção de Moysés Dusoul, que propõe se leia: éoten dé ten makén anamemigménen eínai, a batalha tendo começado de manhã.

CAP. CIV. pág. 137. Et ayant aussi subjugué les peuples Irancs, etc. Toda essa passagem está mutilada; é muito difícil restaurá-la; mas podemos suprir-lhe as deficiências, por meio de Arrieno: leia-se então: "Mas também acrescentou-lhe muito do país, assim como os povos francos e livres das quais havia até quinze nações, que habitavam em trinta e sete cidades, das quais a menor tinha cinco mil habitantes, e várias tinham mais de dez mil, sem um número infinito de aldeias. Éle tomou ainda um país três vezes tão grande, do qual fêz sátrapa a um de seus familiares que se chamava Felipe". Veja-se ARRIENO. De Expedit. Alex. 1. V, pág. 221, edit. de Gronovius. C.

CAP. CXI, pág. 148. Há sem dúvida aqui algum erro no texto, e é suficiente estarmos avisado disso, sem ser necessário corrigi-lo, porque não temos subsídios. No fim do Cap. CIX, Plutarco fêz Alexandre entrar na Gedrosia, de lá atravessar a Carmânia durante sete dias e ao sair da Carmânia, eis-nos na Gedrosia: esta marcha não é fácil de se conceber.

CAP. CXIII, pág. 151. Isso pode não ser absolutamente contraditório, entre Arrieno*e Quinto Cúrcio. O nome que aí se lé. em Arrieno é Orxines e em Quinto Cúrcio Orsinés; era, diz Quinto Cúrcio um sátrapa poderosamente rico e do sangue de Ciro. Quanto à acusação, segundo Quinto Cúrcio, era pura calúnia do eunuco Bagoas, que subornou testemunhas, para se vingar do desprezo que p sátrapa tinha demonstrado por éle. Pode ser que então depois de sua morte se tenha reconhecido Polímaco. do qual se fala aqui. como verdadeiro culpado e que Alexandre o tenha condenado á morte, como diz Plutarco.

CAP. CXXII, pág. 161. Plutarco vai di/.cr um pouco mala adiante, 28; como é difícil se suspeitar de um erro na última data, é verossímil que aqui se deve ler 28 para se pôr o escritor de acordo com êle mesmo. De resto, há divergência entre os sábios sobre a verdadeira época, não do ano, mas do mês da morte de Alexandre. Padre Pétau que adotou o mês hécatombeon, para salvar-se desta passagem de Plutarco, supõe que o mês daésius variou de posição entre os macedónios, correspondendo, num tempo ao mês de thar-gélion e noutro, ao mês hécatombeon dos áticos. Padre Corsini fá-lo concorrer de uma maneira fixa, com o mês thargélion, e foi o seu sistema que seguimos na comparação que demos dos meses macedónios com os áticos e romanos.

SOBRE A VIDA DE JÚLIO CÉSAR

CAP. XI. pág. 184. Et les Grecs veulent que ce soit celles des meres de Bacchus que I’on n’oze nommer. É provável que essa mãe de Baco que não se ousa nomear, seja Prosérpina, que tivera Baco, de Júpiter, seu próprio pai; o que me leva a crê-lo, é que, quando os antigos falam dessa deusa, com relação aos mistérios de Eleusina, onde esse nascimento de Baco desempenhava, ao que parece um grande papel, eles não a designam senão pelo nome de koré, a filha, e que os autores que escreveram enquanto a religião grega estava em pleno vigor, evitaram cuidadosamente, falar desse nascimento de Baco: o primeiro autor, com efeito, que fala disso, é Cícero, no seu tratado De natura üeorum, 1. III, cap. XXIII. Diodoro da Sicília, disso também diz alguma coisa; 1. III, cap. 64 e 1. IV, cap. IV; mas os que entram em maiores detalhes a este respeito, são os primeiros escritores do cristianismo, como Clemente de Alexandria, em sua exortação aos pagãos; Arnóbio, contra Gentes, 1. IV, pág. 171 e vários outros. Das suas obras depreende-se que Júpiter se transformou em serpente para gozar de sua filha. C.

CAP. XX, pág. 196. Todos os tradutores de Plutarco enganaram-se neste lugar. Mr. Dusoul tem razão em criticar sua interpretação; mas êle teria feito muito melhor ainda dizendo claramente aos seus leitores no que eles se enganaram, o simples soldado de que se trata, é o mesmo Cássio Sceva do qual se tratou algumas linhas acima, mas esta aventura que Plutarco narra em segundo lugar, é anterior, em ordem cronológica; Sceva era centurião no exército de César em Dirráquio. onde êle foi morto, segundo Valério Máximo. Êle era simples soldado na Inglaterra. Veja Val. Máximo 1. III. cap. II.

CAP. XXI. pág. 198. O que Amyot diz aqui das cartas cifradas de César, formadas pela transposição de letras, não está no texto de Plutarco, mas está na verdade da história. Suetônio di-lo expressamente, na Vida de César e nos afirma que essas cartas cifradas consistiam no emprego das mesmas letras do alfabeto, mas de maneira que o D era a primeira e tinha o valor de A e assim por diante todas as demais letras.

CAP. XXX. pág. 208. Tácito entende sob esse nome genérico não somente povos da Germânia, mas ainda habitantes da Sarmácia e da Escandinávia: aqueles de que "aqui se trata são os habitantes do país que hoje se chama a Suábia.

CAP. XL, pág. 223. Não é sem alguma razão que os srs. Bryan e Dusoul atacam aqui o texto de Plutarco e querem introduzir-lhe o nome de Cássio. Mas eu não sei se eles tèm razão em pretender tirar o de Cúrio. Desenvolvamos o fato em poucas palavras, a fim de pormos o leitor em condições de julgar.

Primeiramente Cúrio não era mais tribuno nessa ocasião, tinha-o sido no ano precedente, 704 de Roma, sob o consulado de L. Emílio Paulo, e de C. Cláudio Marcelo, durante o qual êle se havia vendido a César, segundo o testemunho de Suetônio e de Dion Cássio. Ao deixar seu tribunado êle fora juntar-se a César, como diz Dion Cássio, no fim do seu quadragésimo livro. Voltou a Roma, diz o mesmo historiador, no começo do quadragésimo-primeiro livro, no mesmo dia em que os cônsules do ano seguinte 705, Marcelo e Lèntulo entraram em função. Apresentou ao Senado as cartas de César, de que se falou no começo deste capítulo de Plutarco. Esta leitura motivou grande altercação e os tribunos Antônio e Cássio, diz César, (é assim sem dúvida que devemos ler em Diqn em vez de António e Longino) opuseram-se à deliberação. Mas não podendo resistir à superioridade do partido oposto, que acabou por expulsá-los do Senado, fugiram para junto de César, com Cúrio e Cecílio, continua o mesmo Dion; e foi esse mesmo Cúrio acrescenta ainda Dion, a quem César encarregou de fazer a descrição de todo este assunto diante das tropas reunidas em Rímini. O nome de Cúrio não é pois demais aqui, mas falta o de Cássio, a menos que se suponha que Plutarco se enganou a respeito do ano do tribunado de Cúrio, o queé muito possível.

 

CAP. XLVIII, pág. 232. Não foi Amyot que se enganou neste ponto; foi Plutarco, ou melhor algum comentador que pôs essa nota à margem de onde ela passou em seguida para o texto. O mês de janeiro corresponde ao de gamélion. Veja-se a nota anterior, pág. 469.

CAP. LXXVI, pág. 264. O antigo nome do Teverone era Anio e é o que se julga 1er neste trecho. Mas o Anio lança-se no Tibre a très mil passos mais ou menos acima de Roma. O canal de que fala Plutarco, não podia portanto receber o Tibre e o Anio na cidade de Roma. Assim penso eu, com o Mr. Dusoul que é preciso juntar este nome, Anieno, que se toma pelo rio Anio, com a frase precedente e 1er: êle tentou cortar o istmo de Corinto, tendo encarregado Anieno desta empresa e de levar o Tibre por um canal, etc.

Ibid. Se consultarmos Estrabão no livro V, Suetònio, na Vida de César e Celario, pág. 513 e 517, veremos que é Pomencio e Secia que se deve 1er nesse trecho de Plutarco. Mas Plutarco não fala de cidade; e eu acho a cidade de Secia mas não encontro a cidade de Pomencio, mas apenas pântanos, chamados pelos romanos Pomptinae Taludes, nesse lugar da campanha romana onde está hoje Terracina e são os pantanais de que se trata aqui.

SOBRE AS VIDAS DE AGIS E CLEÔMENES

CAP. Ill, pág. 318. Hz ne s»- donnèrent de garde qu’ilz se trouvèrent enveloppez en des a lia ires où Hz ne pouvoyent plus dire ce commun proverbe, etc. Aqui está o texto grego dessa passagem que está muito corrompido e quase ininteligível: élaton apsámenon pragmáton én ois oukét’ en tó, epeí mè kalòn, aikròn, éde to pasastai. Reiske corrige: oúkét’ én tó probenai kalón, aikròn éde tó paúsastai; que se afasta um pouco demais do texto. Encontramos num manuscrito: én ais ouk én eipéin, tõn oúkéti kalõn aikròn éde to mè paúsastai. Parece-me que é muito mais simples de se 1er: én oís oiikét én eípein. mè kalòn oùk aikròn dè tò paúsastai: "eles não se alertaram para não se encontrarem envolvidos em negócios, nos quais já não podiam dizer: Cela n’est pas beau — isso não é belo. mas não há vergonha em se retirar dele". C.

CAP. XI, pág. 328. Parece estranho que o número das pessoas que se reuniam em uma mesma mesa, sendo de quinze mais ou menos, no tempo de Licurgo. como diz Plutarco, na Vida desse legislador e Porfírio, no quarto livro, de abstin, afirme-se aqui em número de duzentos ou quatrocentos e que seja o número das mesas que foi reduzido a quinze. Além disso, lemos no começo do capítulo que o número das sortes ou divisões do território, era de quatro mil e quinhentos. Ora, de qualquer maneira, que combinarmos esses três números 400, 200 e 15 o cálculo será errado, porque se multiplicarmos pelo primeiro, teremos 6.000. e se pelo segundo, 3.000. É pois claro que há aqui uma alteração no texto de Plutarco. Talvez Plutarco tenha escrito: départis en trois cents tables qui seroient de quinze convives chacune, — repartidos em trezentas mesas de quinze convivas cada uma.

CAP. XXI, pág. 343. A Ceada não era uma prisão, mas um precipício onde se lançavam os criminosos, condenados à pena capital. É evidente, pelo que Pausânias conta, da maneira pela qual Aristòmenes escapou e pelo que êle diz, que quando o atiraram, uma águia, voando por cima dele, sustentou-o na queda e impediu que se ferisse, ao cair, o que prova que era um lugar todo aberto por cima. Veja Pausânias, Messéniaques, cap. XVIII, pág. 524. Estrabão, livro VIII, pág. 564. C.

CAP. XLIII. pág. 371. É bem evidente que o nome de Tricca, cidade da Tessália, não pode estar aqui. Mr. Dusoul engana-se, substituindo-o pelo de Triteu, cidade situada entre a Fócida e a Lóerida Ozoliana. Heródoto, Estrabão, Pausânias, Estêvão de Bizâncio teriam podido fazê-lo lembrar-se de uma outra cidade da Acaia, chamada Tritéa, segundo Dyme. Ela era, diz Pausânias. Eliac. II, pág. 481, do número das cidades pouco importantes, que tinham sido reunidas para formar a cidade de Megalópolis. Êle acrescenta, não se encontrará outra cidade com o nome de Tritéa, a não ser esta da Acaia. É portanto desta que se trata certamente neste passo de Plutarco. Os habitantes dela chamavam-se triteanos e os de Triteu, triteenses, segundo Estêvão.

CAP. LXVI, pág. 399. Sonner d’un tambourin parmy son palais pour assembler le monde et faire du basteleur et triacleur. Esta passagem foi mal traduzida por todas, por não terem prestado bem atenção ao significado da palavra ageírein, que quer dizer esmolar, como o faziam os religiosos mendicantes. Veja-se Ruhnkenius, em sua nota sobre o Léxico de Timeu, pág. 9 e 10. Esmolava-se em honra de várias divindades, mas parece que era na Frigia e em honra de Cibele ou mãe dos deuses, que este costume tinha-se originado por primeiro. Os padres consagrados ao seu culto, conhecidos pelo nome de Galli eram os mais célebres mendigos da antiguidade; eles percorriam os vários países com uma imagem da deusa em baixo-relevo, sobre o peito, um tamborim na mão e esmolavam. Como em geral eram muito mais indivíduos, a palavra agürtes ou metregúrtes, esmoler ou esmoler da mãe dos deuses.

tomava-se para se designar os charlatães de todas as espécies. Pode-se ver a descrição de sua maneira de viver em Apuleio, Ane d’or, 1. VIII. pág. 578 e seg., edit. de Oudendorp. Eis como se deve traduzir este trecho: pois o jovem rei estava tão perdido de amor pelas mulheres e pelo vinho, que quando êle era o mais sóbrio, estava em seu juízo perfeito, as maiores das ocupações às quais se entregava, era celebrar os mistérios e esmolar no seu palácio, com um tamborim na mão. C.

SOBRE AS VIDAS DE TIBÉRIO E CAIO GRACO

CAP. XLI, pág. 462. Apiano, no seu primeiro livro das guerras civis, diz que Graco foi ajudado pelo prestígio de Fúlvio Flaco. Mas não é essa a única diferença que encontramos neste trecho da divergência entre Plutarco e Apiano; e não é, o que me parece o mais difícil: ei-la: se o primeiro tribunado de Graco concorreu com o de Metelo e seu segundo tribunado com o de Fânio, como era ainda êle tribuno, quando foi morto por Opímio. cônsul do ano seguinte? As diferenças de época para a nomeação dos cônsules e dos tribunos e para sua entrada em exercício, podem ser suficientes para se resolver esta dificuldade, de uma maneira que concorde com o trecho de Plutarco? Confesso francamente que não sei.

SOBRE A COMPARAÇÃO DE AGIS E CLEÔMENES COM TIBÉRIO E CAIO GRACO

CAP. VIII. pág. 485. Et quant aux objections que l’on fait à Tiberius, la plus griefve est d’avoir fait priver un sien compagnon du tribunat, et que luy mesme en poursuivit un second. Há no texto, ó ti tén sunárxonta tês demarkias ecsébale kai deutéran autos tõ Gais demarkian metee. Amyot pôs auto em lugar de tó Gais; mas eu creio que é preferível adotar a correção de Reiske, que propõe se leia kaí Gaiou óti deutéran autos auto demarkian méteei. "Quanto às censuras que se lhe fazem, a maior das que se fizeram a Tibério, foi de ter feito privar do tribunado um seu companheiro ; para Caio censuram-no de se ter feito decretar a êle mesmo um segundo tribunado". Isso se refere à maneira como Caio Graco, sendo tribuno se fêz nomear tribuno para o ano seguinte. Veja Appien, des Guerres civiles, livro I, cap. XXI. C.

FIM DO VOLUME SÉTIMO


Fonte: Edameris. Plutarco, Vidas dos Homens Ilustres, volume VII. Tradução brasileira de Carlos Chaves com base na versão francesa de de 1616 de Amyot com notas de Brotier, Vauvilliers e Clavier.

 

set 182010
 
Arte etrusca

Plutarco – Vidas Paralelas

COMPARAÇÃO DE TIBÉRIO E CAIO GRACO COM AGIS E CLEÔMENES

Chegamos finalmente ao termo e só nos resta comparar estas vidas, pondo-as uma diante da outra. Os dois Gracos, na verdade, foram mais propensos à virtude do que todos os romanos do seu tempo e foram bem instruídos e educados tanto que nem mesmo os seus maiores inimigos, que deles disseram toda espécie de injúrias, não o podem negar; parece que a natureza foi, porém, mais forte em Agis e em Cleômenes; pois eles foram educados insuficientemente, formados em costumes e maneiras de viver que há muito tempo haviam corrompido seus antepassados; no entretanto mostraram-se mestres e guias na sobriedade, na temperança e na simplicidade. Além disso, aqueles, vivendo num tempo em que Roma estava no auge da sua glória e esplendor e quando aí reinava mais o zelo de todas as coisas belas e boas, eles tiveram, por assim dizer, vergonha de abandonar a herança da virtude, que tinham como hereditária, das mãos de seus maiores: estes, oriundos de pais que haviam tido vontade de todo contrária, tendo encontrado seu país corrompido e enfermo, nem por isso foram mais levados a procurar os meios de o favorecer: e o maior louvor que se atribui aos Gracos, abs-tendo-se de tomar dinheiro, é que em todos os seus cargos e empreendimentos do Estado, eles conservaram sempre as mãos limpas, jamais tomaram coisa alguma injustamente; Agis até ficou irritado quando o louvaram por nada tomar de outrem, porque ele pôs em comum suas mesmas riquezas e deu aos seus cidadãos todos os seus bens, os quais em dinheiro somente chegavam a (37), seiscentos talentos. Por aí se pode ver quanto ele julgava grave pecado ganhar injustamente, considerando uma espécie de avareza possuir justamente mais do que os outros.

II. Ainda havia bem diferença de grandeza *entre as inovações que uns e outros apresentaram, pois os feitos dos dois romanos consistiam em preparar as grandes estradas, restaurá-las, reconstruir cidades, repovoá-las; o ato mais magnânimo de Tibério foi ter posto em comum as terras públicas e de seu irmão Caio, ter ampliado os tribunais, acrescentando trezentos cavaleiros romanos, que tinham poder de julgar: Agis e Cleômenes ao invés sendo de opinião de que querer corrigir as pequena faltas e remediá-las aos poucos, era o mesmo qu cortar uma cabeça da hidra, como diz Platão, poi em vez de uma, nasciam outras sete, empreendera uma renovação que podia de uma vez exterminar desarraigar todos os males de seu país, ou para falar com mais verdade, que podia eliminar a desorganização que os vícios e os males haviam introduzido no governo e nas coisas públicas, para restabelecer a cidade de Esparta na sua própria e antiga condição.

III. Quanto ao governo dos Gracos, podemos ainda dizer que os principais personagens de Roma e os maiores homens foram contrários aos seus desígnios; no que Agis, ao invés, intentou e Cleômenes realizou, eles tinham o mais belo e o mais magnífico ideal do mundo, quais as antigas leis e determinações de Esparta, relativas à igualdade, à temperança, umas instituídas outrora por Licurgo e, outras, confirmadas por Apolo.

IV. Ainda mais: pelas inovações daqueles, Roma não se tornou mais do que era; pelo que Cleômenes fez, porém, a Grécia em pouco tempo viu a cidade de Esparta sobrepor-se a todo o resto do Peloponeso e combater contra os que então eram os mais poderosos da Grécia, pela primazia, cujo fim e intenção última, era livrar a Grécia das armas dos gauleses e dos eslavos, para recolocá-la sob o honesto governo dos descendentes de Hércules.

V. Ainda parece-me, que a morte deles revela certa diferença de sua virtude: aqueles, combatendo contra seus próprios cidadãos, foram mortos, na fuga; estes, Agis por não ter querido fazer morrer nem um dos seus cidadãos, foi morto, quase voluntariamente e Cleômenes, sentindo-se injuriado e ofendido, tomou a resolução de se vingar e como a ocasião não no permitisse fazê-lo, ele matou-se, corajosamente.

VI. Pode-se, porém, em contrário, alegar que Agis jamais realizou um ato de comando, nem de general, porque foi morto antes de poder fazê-lo; às vitórias de Cleômenes, que foram muitas e belas, pode-se opor a tomada da muralha de Cartago, a qual Tibério escalou por primeiro, o que não foi um feito medíocre; a manobra que realizou diante de Numância, pela qual salvou vinte mil soldados romanos, que não tinham outro meio de escapar da morte: Caio, na mesma guerra em Numância e depois na Sardenha, praticou vários atos de bravura, de modo que eles poderiam ser comparáveis aos mais excelentes generais romanos, se não tivessem sido mortos.

 

VII. Ademais, quanto aos atos civis, parece que Agis os tomou muito friamente: deixou-se enganar por Agesilau, enganou seus cidadãos pobres com a divisão das terras, que lhes havia prometido; em suma, por falta de coragem, porque ele ainda era muito jovem, deixou as coisas imperfeitas; Cleômenes, ao contrário, procedeu um tanto áspera e violentamente na rebelião do governo, matando com crueldade os éforos, que ele podia facilmente dominar, pelas armas, sendo o mais forte: não é próprio nem de um médico sensato, nem de um bom político, lançar mão dos ferros, a não ser em extrema necessidade e quando não há outro remédio; é falta de competência num e noutro, mas muito mais ainda num porque a injustiça ali está unida à crueldade; dos Gracos, nem um, nem outro jamais procurou derramar sangue de seus cidadãos: até mesmo se diz que Caio, ainda que atacado, jamais se quis defender e nas batalhas era assaz valente, com as armas na mão, contra os inimigos, mas mostrou-se muito calmo nas sedições civis, contra seus cidadãos: pois ele saiu de sua casa sem armas, e retirou-se, quando os viu combater, cuidando mais em se precaver para lhes não causar mal algum, do que recebê-lo, e por isso não se lhes deve imputar a fuga como covardia ou medo, mas como um cuidado para não ferir a ninguém; pois era preciso que se entregassem aos que os perseguiam, ou se parassem, que se pusessem na defensiva, para não permitir que os ferissem.

VIII. Quanto às acusações que se fazem contra Tibério, a mais grave é ter ele privado do tribunado (38) a um seu companheiro e ter ele mesmo pretendido depois, um segundo: quanto a Caio, acusaram-no, injustamente, da morte de An-tílio, pois êle foi morto contra sua vontade; muito ele veio a sentir quando o soube: Cleômenes, deixando de parte a morte dos éforos, libertou todos os escravos e teve a realeza somente em efeito; aparentemente, porém, a ela associou o próprio irmão, que era da mesma família, e tendo persuadido a Arquidamo, ao qual pertencia o direito de sucedê-lo, na realeza, da outra família real, que voltasse corajosamente de Messena a Esparta, êle deixou-o matar; não tentando vingar sua morte, confirmou a opinião que se tinha, de que êle o teria mandado matar do mesmo modo; ao contrário de Licurgo, que êle queria imitar, pois que deu a realeza voluntariamente ao filho de seu irmão Carilau e temendo ainda que, se o jovem viesse de algum modo a morrer êle não viesse a ser objeto de suspeita, ausentou-se do país e andou por muito tempo errante, pelo mundo, e não voltou a Esparta antes que Carilau tivesse tido um filho para sucedê-lo no trono; mas também nenhum outro grego há que se possa comparar com Licurgo; mostramos que entre as ações de Cleômenes, ainda houve muitas outras grandes inovações e muitas outras transgressões às leis.

IX. Assim, aqueles que censuram os costumes de uns e de outros, dizem que os dois gregos a princípio tiveram uma vontade tirânica, tendente a excitar e a suscitar a guerra; ao passo que, aos romanos, os que os odiavam e lhes votavam inveja, não podiam imputar outra coisa, a não ser sua desmesurada ambição; confessavam que eles se inflamavam excessivamente, nas contendas contra seus adversários e se deixavam transportar até o despeito e a cólera, por maus ventos, chegando a praticar os atos que por fim praticaram: nada havia, porém, de mais honesto e de mais justo que sua primeira intenção; não tivessem sido os ricos, que queriam pela autoridade e ousadia rejeitar suas leis, eles não teriam entrado, contra vontade, nesta questão, um, para salvar sua vida e o outro, para vingar a morte do irmão que eles haviam matado sem processo nem condenação ou ordem de magistrado algum.

X. E assim constatamos á diferença entre eles; para dizer o que me parece, em particular, de cada um deles, penso, que Tibério foi o mais virtuoso de todos os quatro, que Agis foi o que menos pecou e que em empreendimento e ação, Caio não se aproximou muito de Cleômenes.

 

 

(37) 360.000 escudos. — Amyot. 2. 801.250 libras, em nossu moeda

(38) Veja as Observações. C.


Fonte: Edameris. Plutarco, Vidas dos Homens Ilustres, volume VII. Tradução brasileira de Carlos Chaves com base na versão francesa de de 1616 de Amyot com notas de Brotier, Vauvilliers e Clavier.

 

set 182010
 
Arte etrusca

Plutarco – Vidas Paralelas

AGIS E CLEÔMENES (Reis de Esparta)

Desde a 130." olimpíada mais ou menos, ale o secundo ano da 140.*; antes de Jesus Cristo, ano 219.

I. A tabula de Ixion é o símbolo dos ambiciosos.

 

Não é sem propósito nem sem motivo que alguns julgaram que a fábula de Ixion foi composta contra os ambiciosos, tratando-se de uma nuvem que eles julgaram ser a deusa Juno, de cujo abraço surgiram os Centauros; assim também os ambiciosos, abraçando a glória como uma imagem da verdadeira virtude, jamais fazem ato totalmente puro e simples, nem se assemelham sempre em seus atos, mas produzem efeitos, onde há sempre alguma bastardia ou mistura de permeio, segundo a diversidade dos ventos que os inspiram, sendo ora incitados pela inveja ou pelo ciúme, ora pelo desejo de agradar a uma parte de homens, como os pastores dizem, numa tragédia de Sófocles, falando de seus rebanhos:

Nós os servimos, embora sejamos senhores,
E (I), sem falar, é preciso que os ouçamos.

Isso, na verdade, pode-se também dizer daqueles, que no governo das coisas públicas não têm outro objetivo que se acomodarem aos apetites e aos caprichos do povo, porque na verdade, eles servem e obedecem em tudo e por tudo, a fim de ter o título e a aparência, somente, de magistrados e de governadores, como em um navio, os marinheiros que estão na proa vêem o que está adiante, melhor que os pilotos que manejam o timão à popa, e no entretanto, sempre se voltam para eles e fazem o que eles lhes ordenam: assim aqueles que em seu governo não visam outro objetivo que a glória, são ministros escravos do povo e somente têm o nome de governantes. Aquele que fosse inteira e perfeitamente homem de bem, jamais ambicionaria glória alguma, a não ser enquanto ela lhe desse possibilidade de executar grandes coisas, a fim de que se confiasse ainda mais nele.

II. Perigo da ambição.

II. É verdade que se deve permitir a um jovem de aspecto gentil e ambicioso de honras, que se vanglorie e se compraza com suas boas ações, porque, como diz Teofrasto, as virtudes despontam e florescem nessa idade e fnmam-se pelos louvores que se lhes atribuem; depois, vão aumentando e crescendo à medida que a razão e a coragem também crescem. Mas o excesso, por si mesmo e em toda a parte perigoso, é contagioso e mortal nas ambições daqueles que se dedicam ao desempenho de cargos públicos; pois se eles têm grande poder, fá-los cometer faltas manifestamente violentas, ações de loucos, porque não querem que a honra proceda da virtude, mas que seja ela a mesma virtude: seria pois necessário que eles dissessem ao povo o que Fócion respondeu certa vez a Antípater, que o queria obrigar a fazer algo que não era honesto: "Não poderias, disse-lhe ele, ter a Fócion por amigo e ao mesmo tempo por bajulador". Assim não podeis ter alguém que seja senhor e criado, nem que vos mande e vos obedeça, ao mesmo tempo; além do que é então necessário que sucede o inconveniente narrado na fábula da serpente, cuja cauda veio um dia queixar-se da cabeça, dizendo que ela queria, por sua vez, estar na frente e não ficar sempre atrás. A cabeça então satisfez-lhe o desejo, mas ela achou-se mal situada não sabendo nem como, nem por onde andar e sendo ainda culpada de que a cabeça ficasse toda lacerada, tendo que seguir contra o bom senso a quem não tinha vista, nem ouvido para poder conduzir-se. Vemos que o mesmo aconteceu a vários outros que no governo das coisas públicas tudo quiseram fazer segundo a vontade da multidão: pois tendo ficado preso a esse jugo de servidão, de querer em tudo e por tudo contentar ao povo, que bem freqüentemente se agita, temerariamente e sem razão, eles não souberam depois retrair-se, nem reter ou diminuir o furor e a temeridade da multidão.

III. Esta impeliu os gregos a excsssos, que eles mesmos não haviam previsto.

III. O que me levou a lalai neste assunto contra a ambição e a vã glória popular, foi a consideração do grande poder que ela tem, depois que considerei atentamente o que sucedeu a Tibério e Caio Graco, os quais, ambos de ilustre nascimento, tendo ambos sido educados muito bem, foram elevados ao governo, com muito boa intenção; no entretanto, ambos por fim perderam-se, não tanto por excessiva ambição de honra, como pelo temor da desonra, que procedia apenas de um coração grande e nobre; pois tendo recebido do povo várias demonstrações de amizade e de benevolência, tiveram vergonha de ficar, por assim dizer, devedores, e procuraram, à porfia, superar as honras que o povo lhes prestava, com novas leis e novas ordens, que davam para proveito e vantagem do povo; e o povo por sua vez também os honrava tanto mais quanto eles se esforçavam para agradá-lo. Assim com essa ambição igual, inflamando-se uns aos outros, eles, procurando sempre agradar ao povo, e o povo, honrá-los, não se puseram em guarda, prudentemente e acharam-se, por fim, assaz embaraçados em seus compromissos, não mais portanto, podendo dizer (2) este provérbio:

Ainda que, por si mesma não seja a coisa honesta,
O desistir seria já desonesto.

 

O que poderás por ti mesmo facilmente julgar, pela exposição clara da história.

IV. Plutarco os põe em confronto com Agis e Cleômenes.

 

IV. Comparamos, outros dois homens, ambos reis da Lacedemônia, Agis e Cleômenes, que querendo aumentar o poder e a autoridade do povo, como os dois romanos e restabelecer o justo e o honesto governo da Lacedemônia, que há muito estava fora de uso, incorreram ambos, do mesmo modo, na ira dos grandes, que nada queriam perder nem diminuir de sua costumada avareza. É verdade que os dois lacedemônios não eram irmãos, mas seguiram ambos um mesmo e mui semelhante modo de governar, que começou deste modo:

V. Genealogia de Agis.

 

V. Depois que a ambição e o desejo de amontoar ouro e prata penetrou na cidade de Esparta, e com as riquezas vieram também a avareza e a mesquinhez, o desejo dos prazeres e das delícias, Esparta viu-se incontinenti destituída de muitas grandes e honrosas preeminências e por muito tempo ficou humilhada e amesquinhada, até que Agis e Leônidas subiram ao trono, sendo Agis, da família dos Euritionidas (3), filho de Eudamidas, sexto em linha reta, depois de Agesilau, que tinha, sido o maior homem e o mais poderoso de toda a Grécia, no seu tempo: Agesilau teve um lillio de nome Arquidamo, que foi derrotado pelos messapianos, diante de uma cidade da Itália, que se chama Mandônio. Arquidamo deixou dois filhos, Agis, o mais velho, e Eudamidas, mais moço, que foi rei, tendo seu irmão Agis, sido morto perto da cidade de Megalópolis por Antípater, sem deixar descendência. Este, deixou um filho que se chamou Arquidamo, e Arquidamo, um outro Eudamidas, e Eudamidas, Agis, do qual nos ocupamos presentemente. Leônidas, também filho de Cleônimo, era da outra descendência real dos Agiadas (4), oitavo em linha reta depois de Pausânias, o que derrotou Mardônio, lugar-tenente do rei da Pérsia, perto da cidade de Platéia: Pausânias teve um fi-lho que se chamou Plistonax, Plistonax, também teve um filho de nome Pausânias, que fugiu de Esparta para a cidade de Tegeu e no lugar dele, foi rei seu filho mais velho, Agesipolis, que morreu também sem descendência; Cleômbroto, seu irmão mais moço, sucedeu-lhe no trono. Cleômbroto teve dois filhos, um outro Agesipolis e Cleômenes; dês-, tes, Agesipolis foi rei pouco tempo, e não teve filhos: mas seu irmão Cleômenes que foi rei depois dele, teve dois, Acrotato, o mais velho que morreu quando seu pai ainda vivia, e Cleônimo o mais moço, que viveu ainda depois dele, e no entretanto não foi rei, mas o foi seu sobrinho Areo, filho de Acrotato. Areo morreu na cidade de Corinto e seu filho, que teve também o nome de Acrotato, sucedeu-lhe no trono, o qual morreu também em batalha na cidade de Megalópolis, onde foi derrotado pelo tirano Aristodemo e deixou sua mulher grávida, que depois de sua morte deu à luz um filho, do qual Lecnidas, filho de Cleônimo, teve a tutela; tendo seu pupilo morrido em tenra idade, a sucessão ao trono por morte dele recaiu sobre ele mesmo; mas seus costumes jamais foram convenientes nem dignos de seus cidadãos. Pois, embora pela corrupção universal de todo o governo, todos os cidadãos igualmente se houvessem desencaminhado, Leônidas tinha realmente grande dose de dissolução e mais visível extravio da antiga maneira de viver dos la-cedemônios do que qualquer outro, pois ele havia também por mais tempo vivido nos palácios e freqüentado a companhia dos príncipes e sátrapas, seguindo também a corte de Selêuco, do qual havia trazido a pompa e o orgulho muito em voga naqueles salões, na Grécia, onde dominam as leis e a razão.

VI. Caráter virtuoso de Agis.

 

VI. Agis, ao contrário, sobrepujou em cortesia e gentileza, em valor e coragem, não somente a Lecnidas, mas também a todos os outros que tinham reinado em Esparta depois do grande Agesilau e não tendo ainda chegado aos vinte anos, vivendo opulentamente entre as delícias e voluptuosidades supérfluas de duas mulheres, Agesistrata, sua mãe, e Arquidamia, sua avó, que tinham mais ouro e dinheiro do que qualquer outro lacedemônio, começou no entretanto bem depressa a resistir a tais prazeres e à ânsia incontida de ser agradável, pela graça de sua beleza, eliminando todo enfeite e adorno de sua pessoa, fugindo de todos os prazeres e delícias, des-pindo-se de toda superfluidade, até mesmo chegando a se vangloriar de andar vestido com simplicidade, coberto com um manto pobre, desprezando e descuidando-se do comer, do lavar-se e de todas as conveniências do viver da antiga disciplina lacede-mônia, dizendo publicamente que só queria ser rei pela esperança de restabelecer um dia tal forma de viver, por meio da autoridade real.

VII. Novidade introduzida em Esparta por Epitadeu. Decadência da disciplina.

 

VII. Tal disciplina havia começado a se corromper e estragar, desde quando os lacedemônios tinham arruinado o poder dos atenienses, locuple-tando-se de ouro e prata: no entretanto, haviam ficado sempre o número das partes e porções das heranças que Licurgo tinha instituído e sempre tinha o pai deixado ao filho, sucessivamente o seu, tal ordem e igualdade foi de algum modo conservada, e por isso tinha-se preservado o governo de vários outros erros, até que um personagem de grande autoridade, chamado Epitadeu, homem rude, altivo e soberbo, que desempenhava o ofício de éforo, teve uma questão contra seu próprio filho, tão áspera, que por ódio a ele, promulgou uma lei que permitia a qualquer um dar sua herança ou bens, ainda em vida ou depois da morte, por testamento, a quem quisesse. Êle propusera esta lei para satisfazer uma sua raiva particular e os outros a aceitaram para servir à própria avareza, o que foi causa de se abolir e desorganizar uma tão bela instituição: pois os ricos começaram a adquirir de todos os lados, despojando os verdadeiros herdeiros de suas sucessões, e assim em pouco tempo as riquezas passaram para um pequeno número de pessoas e houve ao mesmo tempo grande pobreza na cidade de Esparta, a qual foi motivo de que cessassem todos os exerci-nos honestos e liberais e se introduzissem os mecânicos, com tal ódio e inveja contra os que possuíam bens, que ficaram ao todo apenas uns setecentos espartanos e desses, não mais de cem possuíam terias e propriedades: todos os outros eram uma multidão de pobres e sofredores que viviam na cidade, sem uma posição qualquer honrosa, marchando de má vontade e covardemente para a guerra, contra inimigos externos e não esperando outra coisa que alguma ocasião de se revoltar e de provocar uma mudança interna.

VIII. Tentativas de Agis para restaurar o gosto por aquela antiga severidade.

 

VIII. Agis, portanto, julgando que seria coisa muito boa, como de verdade seria mesmo, repovoar a cidade e restaurar a antiga igualdade, ia sondando os corações e as vontades dos homens; constatou, contra sua esperança, que os moços foram os primeiros a lhe dar ouvidos, a Be reunir do lado da virtude, trocando facilmente e mudando, como um vestuário, sua maneira de viver, para reconquistar sua liberdade, mas a maior parte dos antigos, tendo envelhecido na corrupção, temiam voltar à austeridade das leis de Licurgo, como um escravo fugitivo, treme de medo quando o levam de novo à presença de seu senhor; por isso, censuravam a Agis quando ele vinha deplorar e lamentar ante eles a infelicidade do estado presente e a lastimar a honra e a dignidade antiga que Esparta tivera no passado, exceto Lisandro, filho de Libis, e Mandroclidas, filho de Ecfanes, e ainda Agesilau, que aprovaram entusiasticamente a sua idéia e o exortaram a continuar com perseverança. Lisandro era o melhor e o mais estimado dos personagens da cidade: Mandroclidas, por sua vez, era o mais hábil para dirigir um empreendimento em toda a Grécia, sendo sua astúcia e sagacidade, acompanhadas de coragem; Agesilau era tio do rei. homem eloqüente, mas voluptuoso e avarento: e o pior pelo que se via exteriormente, foi que seu filho Hipomedon, impelia-o e o incitava a favorecer essa empresa: tinha êle combatido em várias guerras, com coragem e valor, e tinha igualmente grande poder entre os moços, pelas suas amizades; mas a verdadeira causa secreta que mais o levou a entrar na conspiração foi a multidão de suas dívidas, das quais esperava livrar-se, com as modificações do governo.

IX. Conquista sua mãe.

 

IX. Logo que Agis o conquistou, procurou por meio dele conquistar também sua mãe, que era irmã do mesmo Agesilau e mulher que gozava de grande prestígio, pelo número ingente de amigos que possuía, de servidores, de criados e de devedores da cidade, por meio dos quais ela manejava conforme sua vontade uma boa parte dos negócios do governo: tendo-lhe manifestado o seu intento, a princípio ela se admirou e disse-lhe que se calasse, se tinha um pouco de bom senso e evitasse ter na idéia coisas que não eram nem possíveis, nem úteis: mas, quando Agesilau provou-lhe e demonstrou as grandes vantagens que se poderia obter disso e de como ela poderia obtê-lo, com sua grande utilidade também, o rei Agis começou a importuná-la insistentemente com tantos rogos e pedidos, que ela determinou deixar voluntariamente suas riquezas, para conquistar glória e honra a seu filho, pois ele alegava jamais poderia chegar a ser igual aos outros reis em bens e em riquezas, visto que (5) os servidores e feitores dos reis Selêuco e Ptolomeu tinham mais haveres que todos os reis de Esparta juntos: mas se pela temperança, magnanimidade e continência, sobrepujando seus prazeres, ele viesse a restaurar os lacedemônios na comunidade e igualdade, que desfrutavam outrora, ele conquistaria glória e renome de um verdadeiro príncipe e grande rei. Depois de ter ouvido estas declarações, as senhoras, animadas ao ver tão grande magnanimidade num moço, começaram a mudar de opinião e foram repentinamente, como por inspiração divina, tomadas pelo amor da virtude, que se puseram elas mesmas a incitar e a animar Agis, mandaram chamar seus amigos, para rogá-los e animá-los em favor de seu empreendimento e o que é mais, falaram também com outras senhoras, sabendo muito bem que sempre os lacedemônios acreditaram e confiaram muito nas suas mulheres, permitindo-lhes ímis-cuirem-se mais que eles mesmos, nos negócios públicos (6), do que eles mesmos, em suas casas, nos negócios domésticos.

X. Intriga de Leónidas contra o projeto de Agis.

 

X. Deve-se notar que a maior parte das riquezas da Lacedemônia estava então nas mãos das mulheres, o que tornou mais difícil a empresa: as mulheres resistiram-lhe, não somente porque sem elas vinham a perder muito em seus prazeres e delícias, nas quais, por não terem conhecimento do verdadeiro bem, elas faziam consistir a sua felicidade: mas também, porque elas viam que a honra que se lhes fazia, o poder e a autoridade que elas tinham por causa de suas riquezas, lhes seria tirado de todo; por isso dirigindo-se a Leônidas, rogaram-no que advertisse a Agis, eomo sendo mais velho do que ele e impedisse que fizesse o que tencionava. Leônidas tinha muito desejo de favorecer os ricos, mas temendo o povo, que não pedia outra coisa que aquela mudança, nao ousava resistir-lhe abertamente, mas fazia às escondidas o que podia para impedir seus desígnios, conversando com os principais da cidade e caluniando Agis perante eles, dando-lhes a entender que ele oferecia aos pobres os bens dos ricos, a repartição das heranças e a abolição de todas as dívidas, como recompensa por lhe terem posto nas mãos a tirania e que por esse meio ele ia conquistando para si muitos adeptos, não cidadãos para a cidade de Esparta.

XI. Restabelecimento da antiga constituição proposta ao Senado e ao povo.

 

XI. Não obstante isso, Agis fez eleger a Lisandro éforo, propôs imediatamente ao conselho e fez publicar suas determinações, cujos principais artigos eram: "Que aqueles que deviam, ficavam inteiramente livres de suas dívidas: que o território da Lacedemônia, seria novamente dividido em porções iguais, de modo que desde o vale Palene (7), até o monte de Taugeto e às cidades de Malea (8), e de Selásia (9), houvesse quatro mil e quinhentas partes e fora desse limite, houvesse em todo o resto, outras quinze mil, que seriam distribuídas aos vizinhos, idôneos para usar armas e os outros, aos espartanos; cujo número seria completado com povos vizinhos e estrangeiros também, que tivessem sido bem formados e que fossem fortes e bem dispostos e na idade de servir: os quais, depois, seriam divididos em quinze convivas, que seriam uns de duzentos (10), outros de quatrocentos homens, e viveriam segundo a forma e a regra de vida que seus antepassados haviam instituído e observado". Essa determinação, tendo sido apresentada ao Senado, foi diferentemente apreciada pelos senadores, pelo que Lisandro, mesmo sem esperar outro aviso, reuniu o grande conselho de todo o povo: no qual ele mesmo falou à multidão e Mandrochdas e Agesilau também, rogando-lhes que não permitissem que para o prazer de alguns particulares, um pequeno número, a dignidade de Esparta ficasse aniquilada e arruinada; mas se lembrassem dos oráculos dos deuses, que antigamente lhes haviam respondido que eles cuidadosamente se precavessem contra a avareza e o desejo de possuir, que seria um dia a peste e a ruína de sua pátria: semelhantemente também daquele que há pouco lhe havia sido trazido do templo de Pasifae (11): havia pois um lemplo e um oráculo de Pasifae, ao qual muitos se dirigiam na cidade de Talames (12) . Dizem alguns que Pasifae era uma das filhas de Atlas, que concebeu de Júpiter e teve um filho de nome Amon; outros, dizem que foi Casandra, uma das filhas do rei Príamo, que morreu naquele lugar e foi cognominada Pasifae, porque ela revelava a todos os oráculos das coisas futuras. Mas Filarco (13), escreve que Dafné, filha de Amicla, fugindo de Apolo, que queria agarrá-la à força, foi transformada num loureiro e honrada por Apolo com o dom da profecia: dizia-se que o oráculo desse deus ordenava que os espartanos voltas-sem a ser de novo todos iguais, como havia sido determinado pelas leis de Licurgo.

XII. Controvérsia-entre Agis e Leónidas.

 

XII. Depois que todos os outros falaram, o rei Agis, por último, apresentou-se e depois de outras palavras, disse que ele participava da reforma do governo, que ele queria restaurar, com grandes contribuições; primeiramente, punha em comum todas as heranças, que eram consideráveis, tanto em terras cultiváveis tomo em pastagens; além disso, seiscentos talentos (14), em dinheiro; o mesmo fariam sua mãe, sua avó, seus parentes e amigos que eram os mais ricos de Esparta. Ouvindo isso o povo ficou atônito, pela magnanimidade do jovem rei e mui satisfeito, dizendo que há trezentos anos não existia um rei de Esparta tão digno como ele: mas Leônidas procurou contradizê-lo, o mais possível, refletindo que se a empresa de Agis se realizasse ele seria obrigado a fazer o mesmo e dever-se-ia agradecer somente a ele, porque, todos os espartanos igualmente seriam obrigados a pôr seus bens em comum, mas a honra ficaria somente para aquele que havia iniciado; perguntou então publicamente a Agis, se ele julgava que Licurgo havia sido um homem de bem. Agis respondeu-lhe que sim. "E onde viste, então, — replicou Leônidas — que cie aboliu os contratos de dívidas, ou que recebeu estrangeiros no número dos burgueses de Esparta? Muito, ao contrário, julgou que seu governo só podia ser perfeito, se todos os estrangeiros fossem totalmente exilados". Agis então retrucou, dizendo que ele não se admirava de que Leônidas, tendo sido educado num país estrangeiro, e tendo se ca-eado na corte de um sátrapa, ignorava as leis de Licurgo, o qual, banindo para fera da cidade o ouro e a prata, expulsa também o dever e o emprestar. Quanto aos estrangeiros ele odiava os que não se queriam adaptar aos costumes, maneiras e modos de viver que ele introduzia e era a esses que ele bania, não porque queria mal às suas pessoas, mas porque temia seus hábitos, costumes e maneira de viver, de medo que, misturando-se com os cidadãos, não despertassem neles um desejo de viver lambem molemente, no meio das delícias, com a ambição de enriquecer: pois afinal, Terpander, Tales e Ferecides, todos estrangeiros, foram outrora singularmente queridos, honrados e reverenciados em Esparta, porque cantavam em seus escritos as mesmas coisas que Licurgo havia estabelecido em suas leis: e tu mesmo louvas Ecprepes (15), porque, sendo éforo, cortou com um machado as duas cordas que Frinis, o Músico, tinha acrescentado à cítara, além das sete comuns, e também os que fizeram o mesmo a Timóteo: no entretanto, tu me censuras porque quero tirar de Esparta a superfluidade, as delícias, a pompa e o orgulho, como se aqueles personagens não tivessem querido obviar que essa superfluidade e excesso na música levassem a tal corrupção de vida e de costumes dos homens, como a desigualdade desmesurada e desproporcionada entre os cidadãos torna a cidade dissemelhante e inconveniente consigo mesma.

XIII. Lisandro acusa e faz depor o rei Leónidas.

 

XIII. Depois deste incidente, o povo seguia Agis e os ricos juntaram-se a Leônidas, rogando-lhe e insistindo que não os abandonasse: por rogos e pedidos tanto fizeram com os senadores, cuja autoridade consiste principalmente em consultar e estudar os assuntos, antes de serem propostos ao povo, que conseguiram que a lei fosse rejeitada, por um voto a mais, pelo menos. Por isso Lisandro, ainda magistrado, começou a perseguir Leônidas, pela justiça, por intermédio de uma antiga lei, que proibia que alguém da raça de Hércules pudesse desposar mulher estrangeira, nem gerar filhos legítimos e que determinava a pena de morte contra os que saíam de Esparta para ir morar em outros lugares: aliciou a outros, aos quais ensinou a mesma linguagem, quando ele com seus companheiros observavam o sinal do céu: era este o costume: De nove em nove anos os éforos escolhendo uma noite em que o céu estava claro e límpido, sentavam-se em algum lugar, ao ar livre, olhando para cima, o céu; se notavam alguma estrela que mudava de lugar, no firmamento, eles acusavam seu rei perante a justiça, como tendo cometido algum pecado contra os deuses e os suspendiam do governo, até que viesse ou de Delfos ou de Olimpo algum oráculo que os restaurasse. Lisandro então, dizendo que tinha visto e observado o sinal de um astro movediço, citou Leônidas ante a justiça e apresentou testemunhas contra ele, como tendo desposado uma mulher asiática, que um dos lugar-tenentes do rei Selêuco lhe havia dado em casamento e da qual tivera dois filhos: mas depois sua mulher, odiando-o, e não querendo mais viver com ele, tinha ele voltado, contra vontade, ao seu país, onde se havia apoderado do governo, na falta de outro herdeiro legítimo que o ocupasse, e pelo mesmo meio, começando esse processo pôs na cabeça de seu genro Cleômbroto, que lambem era de família real, que se dissesse candidato à realeza. Leônidas, temendo o fim desse processo, foi colocar-se a salvo, no templo de Juno, cognominado Calceocos e sua filha também, abandonando Cleômbroto, seu mando. Leônidas foi intimado a comparecer em pessoa: e não querendo fazê-lo, por sentença, foi destituído do trono o qual foi entregue a Cleômbroto.

XIV. Agis e Cleômbroto expulsam os novos éforos, que tinham restaurado Leónidas. Este foge.

 

XIV. Nesse ínterim, Lisandro deixou o car-jío, tendo terminado seu tempo: os novos éforos, que c substituíram, restauraram Leônidas e acusaram Lisandro e Mandroclidas, de que, contra as leis, tinham feito abolir os contratos das dívidas, e feito novamente dividir as terras e as heranças. Eles, vendo-se citados à justiça, persuadiram aos dois reis a entrarem em entendimentos e a nao fazer mais caso dos decretos e das determinações desses éforos, alegando que esses magistrados haviam obtido a autoridade, somente por causa da dissensão entre os dois reis, a fim de que eles dessem seus votos àquele dos dois que tinha opinião mais reta, quando o outro se quisesse obstinar contra o que era mais conveniente: mas se eles estavam de acordo, era-lhes permitido fazer tudo o que quisessem, sem que alguém lhes pudesse obstar e que era contrariar as leis, o resistir aos reis, visto que de direito só lhe competia a prerrogativa de arbitrar e decidir quando havia alguma divergência entre eles, e não, controlá-los quando eles andavam de acordo. Os dois reis, acreditando nisso, foram juntos à praça, acompanhados por seus amigos, fizeram levantarem-se os éforos dos seus assentos e puseram outros em seus lugares, um dos quais foi Agesilau: além disso, armaram um bom número de moços e tiraram os prisioneiros do cárcere: o que assustou muito aos seus adversários, porque logo pensaram que eles tinham determinado matar muita gente; mas tal não aconteceu, pois não condenaram a ninguém à morte; mas ao contrário, como Agesilau quisesse mandar matar a Leônidas, que havia fugido para a cidade de Tegeu e tivesse mandado homens para esperá-lo no caminho e executar esse seu desejo, Agis, sabendo disso, mandou outros homens que acompanharam a Leônidas e o levaram em segurança até dentro de Tegeu.

XV. Agesilau evita a partilha das terras.

 

 

XV. E stando assim a sua empresa bem encaminhada e não havendo ninguém que quisesse levantar a cabeça contra eles para obstá-los, um único homem pôs tudo a perder: Agesilau, destruindo uma belíssima e perfeita determinação lacedemcnia, por causa de um vício infame, isto é, a avareza. Possuindo muitas terras e as melhores do país e devendo muito dinheiro, êle não podia pagar suas dívidas, nem queria deixar suas terras: pelo que, deu a entender a Agis que, se eles tentassem fazer uma e outra coisa juntos, suscitariam grande perturbação e um perigoso incêndio na cidade: mas se eles conquistassem os que possuíam terras, propondo por primeiro a abolição das dívidas somente, eles obteriam depois, mais facilmente, sem dizer uma palavra em contrário, a divisão das terras. Lisandro ficou bem alerta, pois um e outro foram enganados pela malícia de Agesilau. Deram ordem a todos os credores que trouxessem à praça todos os documentos, letras, recibos, obrigações que os lacedemônios chamam de ciaria e fazendo delas um monte, atearam-lhe fogo. Quando os credores e os que emprestavam dinheiro a juros viram a chama nos ares, foram para casa muito descontentes: mas Agesilau, zombando deles, disse que nunca tinha visto um fogo tão belo nem tão luminoso.

XVI. Agis é mandado em socorro dos aqueenses contra os etólios.

 

XVI. O povo pedia que a divisão das terras se fizesse imediatamente: os reis também o desejavam; mas Agesilau sempre fazia surgir algum impedimento e alegando desculpas, procurava adiar a execução do ato, até que aconteceu que Agis teve de ir à guerra, atendendo ao pedido de socorro dos acaios, que os lacedemônios estavam obrigados a lhes fornecer, pelos estatutos da liga que haviam feito com eles, porque esperavam a cada instante que os etóhos entrassem pelas leiras dos megaria-nos, na região do Peloponeso: para obviar a isso, Arato, comandante geral dos acaios, tinha reunido seu exército e escrito aos éforos que lhe mandassem o seu auxílio; eles enviaram incontinenti o rei Agis vendo mesmo o afeto e a bondade daqueles que tinham sido escolhidos para ir à guerra, sob seu comando, a maior parte jovens e pobres que se viam livres do temor das dívidas e esperavam que lhes repartiriam as terras logo que estivessem de volta; por isso mostravam-se mui obsequiosos e obedientes ao rei Agis; as mesmas cidades que eles atravessavam os olhavam com admiração, vendo-os atravessar todo o Peloponeso de um ponto a outro, alegremente, sem causar desprazer nem prejuízo a ninguém e quase mesmo, sem o menor ruído, por assim dizer. Os gregos, porém, iam imaginando consigo mesmos, como então na luta seria belo ver-se o exército da Lacedemônia, antigamente, quando eles tinham por generais um Agesilau, um Lisandro ou um Leónidas, visto que, todos os que então estavam no exército, obedeciam tão prontamente a Agis, que era talvez o mais moço de todo o seu exército, e que se vangloriava de passar com pouco, de gostar de trabalhar bastante, e de não andar nem vestido, nem armado mais suntuosamente do que um simples soldado, e por isso era bem considerado, louvado e estimado pelo povo: mas os ricos não gostavam daquela novidade que ele introduzia, temendo que desse motivo aos outros povos de se movimentarem também e de querer fazer o mesmo em seu lugar. Agis, então, chegou ao campo de Arato, perto da cidade de Corinto, no momento em que ele deliberava se devia dar combate ao inimigo ou não: nesse particular mostrou Agis uma vontade bem determinada e uma ousadia, não temerária, nem violenta: pois ele disse que era de opinião que se devia combater e não deixar a guerra internar-se mais, abandonando a entrada do Peloponeso: todavia, ele estava pronto a fazer o que Arato decidisse ccmo melhor: porque ele era mais velho e comandante geral dos acaios, aos quais ele não tinha vindo para comandar, mas para auxiliar e socorrer. Mas, Baton Sinopiano escreve que ele não queria combater, embora Arato o quisesse: ele não tinha lido o que o mesmo Arato deixou escrito para sua defesa e justificativa, alegando que os lavradores tendo já recolhido e armazenado grande parte dos frutos da terra, ele julgava que era melhor deixar os inimigos entrar do que arriscar a batalha, onde havia a dúvida da perda de todo o Peloponeso e por isso ele despediu todos os seus aliados e dissolveu seu exército.

XVII. Leónidas torna a subir ao trono.

 

XVII. E assim Agis retirou-se também, muito estimado por todos os que estavam no acampamento, quando já as coisas estavam bastante confusas e embrulhadas na cidade de Esparta; Agesilau era éforo e sentindo-se livre do temor que o tinha subjugado antes, nada poupou nem deixou de cometer crime algum, contanto que pudesse obter dinheiro; entre outras coisas, naquele ano mandou pagar, além da dívida, os impostos e tributos devidos ao povo, por treze meses, acrescentando-lhe o décimo-terceiro, sem que a ordem do tempo nem a revolução ordinária dos anos o exigisse. Por isso, vendo que era odiado por todos e temendo aqueles aos quais fazia injustiça, tinha soldados armados que o acompanhavam como guardas, quando ia ao palácio. Dos dois reis, não fazia caso, de um, e do outro, queria que pensassem que ele fazia caso, mais pelo parentesco que tinha com ele, do que pela dignidade real: difundiu-se um boato que ele ainda seria éforo no ano seguinte; por isso os que o queriam mal, reuniram-se antes que isso acontecesse e arriscando-se ao perigo, trouxeram à viva força, publicamente, Leônidas de Tegeu, para restaurá-lo no trono; o mesmo povo presenciou este espetáculo, com real satisfação; pois estavam descontentes por se verem enganados porque não se fazia a divisão das terras, como lhes tinham prometido; quanto a Agesilau, seu filho Hipomedon, sendo muito querido de todos por sua coragem, tanto fez com seus rogos, perante o povo, que o salvou e o afastou do perigo.

XVIII. Admirável proceder de Quelonis, mulher de Cleômbroto.

 

XVIII. Dos dois reis, Agis procurou salvar-se no templo de Juno Calceocos e Cleômbroto, no de Netuno; parecia que Leônidas o queria apanhai, mais que a Agis: assim, deixou Agis, para ir contra este, acompanhado de soldados: estando com ele censurou-o porque, embora fosse seu genro, ele o tinha, no entretanto, vigiado, para privá-lo da realeza, e o tinha exilado de sua pátria. Cleômbroto não sabendo o que responder a isto, continuou sentado sem replicar; mas Quelonis, sua esposa, filha de Leónidas, que antes se sentira, ofendida pela injúria que se fizera a seu pai e se havia separado do marido Cleômbroto, que lhe havia usurpado a realeza, para ir servir seu pai na adversidade e enquanto ele esteve em segurança, se fez também suplicante como ele; depois quando ele foi a Tegea continuou a usar o luto, indignada contra seu marido: mas agora, ao contrário, trocando sua raiva pela fortuna, fêz-se suplicante, com seu mando, sentando-se perto dele, tendo-o nos braços, junto de seus dois filhos, um de um lado e outro do outro: todos os presentes comovidos choravam de compaixão, de pena e de caridade, por aquela senhora, que ostentava seu vestido de luto, seus cabelos em desalinho, sem ornamento algum; ela pôs-se a dizer: "Não é a piedade que eu sinto de Cleômbroto que me faz usar estas vestes nem esta atitude, meu pai, mas o luto que sempre conservei comigo, e que continuamente me acompanha desde o princípio de teus males, quando fôste levado ao exílio: o que, portanto, devo fazer agora, continuar a viver de luto, e usar este piedoso vestuário, agora que venceste teus inimigos e fôste restaurado em tua dignidade, ou vestir outras roupas reais e vestes de festa, vendo que queres matar o marido, ao qual tu me deste como esposa? Se ele não pode te mover à piedade e obter piedade por meio das lágrimas de sua mulher e de seus filhos, suportará ainda uma pena mais grave do seu mau conselho, do que a que tu lhe queres fazer sofrer, é que ele verá sua mulher, a quem mais ele ama, neste mundo, morrer diante dele: pois de outro modo, como poderei e com que atitude, apresentar-me diante de outras senhoras, quando com minhas lágrimas não consegui mover à piedade, nem meu pai, rogando por meu marido, nem meu marido, rogando por meu pai e que eu nasci para ser mulher e filha sempre infeliz e desprezada pelos meus? Quanto ao meu mando, se tivesse alguma razão para fazer o que fez, eu a eliminei, colocando-me ao teu lado, e protestando contra ele, pela injustiça que te fazia; e ao contrário, tu lhe dás honesto pretexto para desculpar sua falta, fazendo parecer que a realeza é coisa tão desejável e tão grande, que é permitido matar seus genros e não fazer caso algum de seus próprios filhos, por amor dela".

XIX. Cleômbroto vai ao exílio, sua mulher segue-o.

 

XIX. Quelonis, fazendo estas queixas e lamentações, pôs seu rosto acima da cabeça de Cleômbroto e lançou seus olhos fundos de dor, banhados de lágrimas, aos assistentes; Leônidas depois de tei conversado um pouco com seus amigos, ordenou .» Cleômbroto que se levantasse, que fosse para fora da cidade, ao exílio, rogando a sua filha, que ficasse com ele, não abandonando seu pai que tanto a tinha amado e que por amor dela tinha salvo a vida a seu marido: mas, nem assim pôde induzi-la a fazer o que pedia; ela, erguendo-se com seu marido, apresentou-lhe um dos filhos e tomou o outro nos braços; depois de ter feito oração no altar da deusa (16), foi para o exílio com ele, de modo que se Cleômbroto não tivesse tido o juízo depravado pela ambição e pela vanglória, ele deveria julgar que aquele exílio era maior felicidade para ele por sua mulher que o acompanhava, do que a mesma realeza, sem ela.

XX. Perfídia de Anfares, que entrega Agis aos seus inimigos.

 

XX. Leônidas, tendo então feito sair Cleômbroto, para fora da cidade, no lugar dos primeiros éforos que ele depôs, colocou vários outros; em seguida se pôs a pensar como poderia apanhar a Agis; procurou antes persuadi-lo a sair do abrigo do templo, onde ele se agasalhara e a vir ter com ele, com garantias, para governar e dando-lhe a entender que seus concidadãos haviam perdoado o seu passado, porque sabiam que ele havia sido enganado por Agesilau, jovem ambicioso de honras, como era. Tod avia, nem por isso Agis moveu-se do seu refúgio, suspeitando de tudo o que se dizia: por isso Leônidas determinou atraí-lo e enganá-lo com palavras lisonjeiras: Anfares, Democares e Agesilau iam freqüentemente visitá-lo e conversar com ele, tanto que às vezes o levavam até às termas: depois de se ter ele lavado reconduziam-no ao templo, pois todos eram seus amigos. Mas, Anfares, tendo há pouco pedido emprestado de Agesistrata alguns móveis preciosos, como tapeçarias e baixelas de prata, determinou atraiçoá-lo, sua mãe e avó, com esperança de que aqueles móveis que ele havia emprestado, lhe ficariam pertencendo. Diz-se, que foi ele que mais que qualquer outro prestou ouvidos a Leónidas, incitou e irritou os éforos, no número dos quais ele estava, contra ele. Como Agis se tivesse acostumado a ficar sempre dentro do templo, exceto quando às vezes ia às termas, determinaram surpreendê-lo quando estivesse fora do asilo. Esperaram um dia, quando ele regressava das termas, foram-lhe ao encontro e o saudaram fingindo querer acompanhá-lo, conversando com ele, como uma pessoa a quem devotaram grande amizade e estima; quando, porém, chegaram ao lugar da esquina de uma rua, que dá justamente para a prisão, Anfares deitou-lhe a mão, pois era magistrado e disse-lhe: "Eu te declaro prisioneiro, Agis, e te levo perante os éforos para prestares conta das inovações que tentaste no governo". Democares, então, que era grande e poderoso, atirou-lhe a veste em redor do pescoço e o puxou para frente e os outros o empurravam por trás, como haviam combinado. Ninguém estava perto para socorrer Agis e assim levaram-no para a prisão e imediatamente Leônidas chegou com um bom número de soldados estrangeiros, que rodearam a prisão, por fora.

XXI. É estrangulado na prisão.

 

XXI. Os éforos entraram e mandaram chamar os senadores, que eram da mesma opinião deles: depois ordenaram a Agis, em forma de processo, que dissesse por que motivo havia feito as inovações no governo do país. O moço se pôs a rir do fingimento deles: então Anfares disse-lhe, que não era o caso de rir-se e que ele devia sofrer o castigo de sua louca pretensão e temeridade. Um outro éfo-ro, fingindo querer favorecê-lo e apresentar-lhe um expediente para que pudesse evitar o processo criminal, perguntou-lhe se ele tinha sido obrigado a fazê-lo por Agesilau e por Lisandro. Agis respondeu que não fora induzido nem obrigado por ninguém; mas o havia feito unicamente para seguir o velho Licurgo, pois queria restaurar o governo, fazendo-o voltar àqueles tempos, quando outrora êle o havia organizado. O mesmo éforo perguntou-lhe se estava arrependido do que havia feito. O moço respondeu francamente que jamais se arrependeria de uma coisa tão sábia e virtuosamente empreendida, ainda que visse a morte certa diante de seus clhos. Condenaram-no então a morrer e ordenaram aos esbirros que o levassem à Década (17), que é um lugar da prisão onde se enforcam os condenados à morte. Democares vendo que os esbirros não ousavam pôr as mãos sobre ele e que os soldados estrangeiros também se recusavam e sentiam horror por aquela execução, como contrária a todo direito divino e humano, pôr as mãos sobre a pessoa de um rei, ameaçando-os e ínjunando-os, arrastou ele mesmo Agis para aquela parte da prisão: muita gente já havia ocorrido, pois se soube do ocorrido: grande alando e confusão estabeleceu-se logo à porta da prisão, onde tochas e archotes iluminavam lugubremente a rua. Acorreram também a mãe e avó do Agis, que clamavam e pediam que o rei de Esparta pudesse pelo menos ter justiça e que seu processo fcsse feito por seus cidadãos. Isso foi causa de que se apressasse a execução, porque seus inimigos tiveram medo de que durante a noite eles o arrancassem à força da prisão, se se ajuntasse mais gente. Assim foi Agis levado à força e no caminho viu um esbirro que chorava e se afligia. Disse-lhe então: "Meu amigo, não se aflija por compaixão de mim; pois eu sou mais homem de bem do que aqueles que me fazem morrer tão ignominiosamente e tão injustamente", dizendo estas palavras entregou seu pescoço à corda.

XXII. Sua mãe e sua avó estranguladas depois dele.

 

XXII. No entretanto, Anfares saiu à porta da prisão, onde encontrou Agesistrata, mãe de Agis, que se lhe lançou aos pés; ele levantou-a, mostrando-se amigo e compadecido e disse-lhe, que não se fana violência nem força alguma a Agis e que ela pedia ir vê-lo, quando quisesse: ela rogou-lhe então que deixassem também entrar sua mãe com ela: Anfares respondeu que nada o impedia e assim as introduziu ambas, mandando fechar as portas. Apenas elas se acharam no interior da prisão êle entregou Arquidamia aos esbirros, para que a executassem também, a qual era já bem idosa e tinha vivido até sua velhice grandemente honrada e muito digna de toda estima, mais que qualquer outra senhora da cidade. Depois que ela foi executada êle mandou a Agesistrata que entrasse também: ela viu o corpo de seu filho morto e sua mãe ainda pendurada na forca; ajudou o carrasco a soltá-la das cordas e cole cou-a estendida ao lado do filho: depois de tê-la ceberto cuidadosamente, lançou-se por terra perto do corpo do filho e beijando-lhe o rosto disse: "Ai! Tua excessiva bondade, doçura e clemência, meu filho, foram causa de tua morte e da nossa". Anfares, que observava da porta, o que ali se passava, ouvindo o que ela dizia, entrou e exclamou encolerizado: "Pois que tu também participaste do crime de teu filho, sofrerás a mesma pena que êle". Então Agesistrata levantando-se para ser estrangulada, disse: "Pelo menos, possa isto ser proveitoso e útil a Esparta".

XXIII. Horror que essa crueldade inspira aos lacedemônios.

 

XXIII. Este fato foi divulgado pela cidade e os três corpos foram tirados da prisão; o temor dos magistrados não foi tão grande, que os cidadãos de Esparta não se mostrassem evidentemente muito desgostosos e que não odiavam de morte a Leônidas e Anfares, julgando que jamais se havia cometido crime tão cruel, tão desumano e tão infeliz em Esparta, desde que os donos tinham vindo morar no Peloponeso: pois os inimigos, mesmo em batalha não punham de boamente as mãos sobre os reis dos lacedemônios, mas evitavam-no quanto possível, pelo temor e reverência que votavam à sua majestade, de sorte que em tantas batalhas que os lacedemônios haviam travado contra os gregos, somente Cleômbroto, antes dos tempos de Felipe, foi morto por um dardo na batalha de Leuctres (18) . É verdade que os messênios afirmam que Aristomenes matou também a Teopompo: mas os lacedemônios dizem que êle o feriu somente; todavia nisso há divergência de opiniões: mas é certo que Agis foi o primeiro dos reis que os éforos mandaram matar, por ter querido fazer reformas mui convenientes à glória e à dignidade de Esparta, estando numa idade, na qual, quando os homens erram ainda se lhes perdoa e tendo seus amigos tido mais justo motivo de se queixar dele, que não seus inimigos, porque êle salvou a vida de Leônidas e confiou nos outros, como a criatura mais doce e humana do mundo, que ele era.

XXIV. Leónidas faz seu filho Cleômenes desposar a mulher de Arquidamo, irmão de Agis.

 

XXIV. Tendo, então, Agis sido executado, Leônidas não foi bastante hábil para apanhar também a Arquidamo, seu irmão, pois esse conseguiu fugir imediatamente: mas, mandou levar à força, sua mulher para fora de casa com um filhinho, que tivera dele e a fez esposar a seu filho Cleômenes, embora ele ainda não estivesse na idade de se casar, de mêçlo que essa senhora se fosse casar em outro lugar, porque ela era herdeira de uma grande e rica fortuna, sendo filha de Gilipo, cognominado Agia-tes, além de ser a mais bela senhora, então, em toda a Grécia, a mais honesta e a mais bem conservada: ela fez tudo o que foi possível para não ser forçada; por fim, tendo-se casado com Cleômenes, continuou a votar a Leônidas ódio mortal, mas mostrou-se boa e amável para com seu jovem esposo, o qual também logo depois de a ter desposado, começou a amá-la e por compaixão tolerava de boamente o amor que ela dedicava ainda ao primeiro marido e a recordação afetuosa que conservava dele, de modo que mui freqüentemente ele mesmo lhe falava dele, perguntando-lhe como os fatos se haviam passado e sentia prazer em ouvi-la narrar que intenção e que desejos Agis havia alimentado.

XXV. Caráter de Cleômenes.

 

XXV. Cleômenes era também desejoso de honras e tinha tanta coragem como Agis, e não era menos proclive à temperança, à simplicidade e à parcimônia em seus desejos, do que ele: mas não tinha aquela bondade muito reservada e aquela grande doçura, que o outro; havia em seu natural um pequeno aguilhão de cólera e uma veemência em querer pôr em execução o que achava honesto: parecia-lhe bem, como mais conveniente e mais honesto poder colocar-se acima daqueles com os quais tinha que se haver, com seu consentimento e vontade, mas ainda julgava honesto colocar-se por cima como quer que fosse, quisessem eles ou não, forçando-os a aderir ao que era melhor. Não lhe agradava o estado da cidade de Esparta, vendo que os cidadãos estavam se aniquilando pela ociosidade e pelos prazeres desordenados, e o rei deixava que os negócios corressem como quisessem e pudessem, contanto que não o impedissem de viver a seu bel-prazer nas delícias, sem nada fazer, de sorte que ninguém cuidando do bem público, cada qual apanhava tudo o que podia, para proveito particular de sua casa; ademais, exercitar as crianças, educá-las à temperança, introduzir uma igualdade e uma reforma de vida, não era somente seguro falar-se disso, pois que Agis há pouco tinha sido morto, por esse motivo. Diz-se também que Cleômenes ainda moço, tinha ouvido algumas lições de filosofia, quando o filósofo Esfero, nativo do país de Borístenes, passou pela Lacedemônia, onde ele afetuosamente se detivera, para instruir os moços e os homens; era um dos principais e dos primeiros discípulos de Zenão, o Cítio, e sentiu prazer em considerar e amar a generosidade do natural de Cleômenes e a incentivar ainda o desejo que ele tinha de se fazer notar e de alcançar celebridade; pois, como se diz, que o velho Leônidas, interrogado que lhe parecia do poeta Tirteu, respondeu: "Bom para adular e atrair os corações dos moços", porque com tais versos, cheios de divina inspiração, quando eles iam depois ao combate, lançavam-se de cabeça baixa no perigo, sem poupar suas vidas e sua pessoa; também as razoes dos filósofos estóicos têm um não sei que de perigoso para as naturezas fortes e vigorosas, que as leva às vezes à temeridade: mas quando vêm a se introduzir em um natural grave, doce e tranqüilo, é então que mais elas mostram e apresentam o que têm de bom.

XXVI. Cleômenes propõe-se executar o projeto de Agis.

XXVI. Morrendo então, Leônidas, pai de Cleômenes, este veio a sucedê-lo no trono; os habitantes de Esparta haviam-se de todo corrompido, porque as riquezas serviam apenas para seu proveito particular e para seus prazeres; eles’ pouco se incomodavam com o povo, os pobres, encontravam muitas dificuldades para viver, não iam de boamente para a guerra e não se incomodavam com a educação de seus filhos: êle só tinha o nome de rei, e toda a autoridade estava nas mãos dos éforos; desde o seu advento ao trono ele tomou então a deliberação de modificar a situação do povo: outrora ele tivera um amigo de nome Xenares, que muito o estimava, ao qual os lacedemônios chamam de Empnistai, isto é, inspirado; começou a sondar-lhe a vontade, perguntando-lhe que espécie de rei lhe parecia ter sido Agis e de que modo e com quem ele tinha enveredado pelo caminho que então seguira. Xenares, a princípio, não se aborreceu por lembrar estas coisas e contava-lhe como tudo acontecera: mas quando percebeu que Cleômenes se entusiasmava e se interessava demais por essa inovação de Agis e queria que ele disso lhe falasse freqüentemente, censurou-o zangado, como insensato e por fim negou-se a falar-lhe, e até mesmo, a ir visitá-lo, sem no entretanto dar a razão disso a quem quer que fosse, dizendo somente aos que lha perguntavam, que ele bem sabia porque: por isso, como Xenares o evitasse, pensando que, do mesmo modo, todos os outros fariam o mesmo, resolveu arquitetar seu plano sozinho, sem ninguém: achando que lhe seria mais fácil obter o seu intento, em tempo de guerra do que na paz, ele incompatibilizou a cidade de Esparta com os acaios, os quais deram eles mesmos os primeiros motivos de queixa.

XXVII. Primeira campanha de Cleômenes.

XXVII. Arato tinha a principal autoridade no seu conselho e assim, desde o princípio sempre havia desejado reunir, em uma liga todos os habitantes do Peloponeso; era aquele o único objetivo de todos os seus empreendimentos guerreiros e de todos os seus atos na paz, julgando que não havia outro meio para fazer que os inimigos de fora não o pudessem de algum modo prejudicar. Havia ele reunido quase todos os outros povos, só lhe faltando os ehenos, os lacedemônios e alguns dos arcá-dios, que obedeciam aos lacedemônios. Logo que o rei Leónidas faleceu ele começou a provocar os arcádios e a irritá-los, também àqueles que são vizinhos dos argienses, para saber o que diriam os lacedemônios, não fazendo caso de Cleômenes, porque ainda era jovem e não tinha experiência alguma na guerra; por essa razão, os éforos da Lace-demônia mandaram-no antes apoderar-se do templo de Minerva, que está perto da cidade de Belbina (19), porque é uma das entradas da Lacônia, mas a região estava no momento em litígio entre os me-galopolitanos e os lacedemônios. Cleômenes dele se apoderou e o fortificou: disso Arato não se queixou, mas certa noite, partindo com seu exército, foi atacar a cidade de Tegeu (20), e a de Orcomena (21): todavia os traidores que estavam de inteligência com êle, tiveram medo no ato de executar a traição. Assim, Arato voltou sem nada fazer, pensando que ninguém saberia da sua intenção: mas Cleômenes, por zombaria, escreveu-lhe como a um amigo, perguntando-lhe onde levara naquela noite o seu exército: Arato respondeu-lhe que, tendo sabido que ele queria fortificar Belbina, tinha saído para observá-lo. Cleômenes então, retorquiu que acreditava deveras, como sendo verdade, mas rogava-o lhe dissesse se tinha algum interesse nisso e porque mandara levar, também, escadas e archotes. Arato se pôs a rir desta saída e perguntou que espécie de pessoa era esse rapaz. Demócrito, lace-demônio, exilado de sua pátria, respondeu: "Eu te aviso, se deves empreender alguma coisa contra os lacedemônios, é preciso que te apresses, antes que esse frango crie esporas".

XXVIII. Dá combate aos aqueenses. Arato não ousa aceitá-lo.

XXVIII. Depois, ele foi para o campo, na Arcádia, com alguns cavaleiros e somente trezentos soldados de infantaria: os éforos ordenaram-lhe que regressasse, pois temiam uma guerra: apenas regressara a Esparta, Arato apoderou-se da cidade de Cafies (22); por isso os éforos o fizeram voltar atrás, incontinenti; em seguida ele tomou a cidade do Metídno (23), e devastou teda a planície de Argos. Saíram os acaios contra cie com um exército de vinte mil soldados de infantaria e mil de cavalaria, sob o comando de Aristômaco, e defrontaram-se perto de Palancio (24), onde Cleômenes deu-lhe combate: Arato, temendo a coragem desse jovem, não quis que o seu general entrasse em luta com êle e retirou-se; por isso foi injuriado pelo: acaios, criticado e desprezado pelos lacedemcnios, os quais tinham ao todo uns cinco mil soldados: com isso Cleômenes sentiu-se mais corajoso ainda e falando aos seus cidadãos com mais ânimo, recordou-lhes uma frase que um dos antigos reis costumava dizer: os lacedemônios jamais perguntavam quantos eram os inimigos, mas somente, onde eles estavam.

XXIX. Bate os aqueenses e toma a cidade de Mantinéia.

XXIX. Pouco tempo depois, os acaios faziam guerra aos elianos, Cleômenes foi ajudá-los e alcançou o exército dos acaios perto do monte do Liceu (25), quando eles já regressavam: atemorizou-os de tal modo, que se puseram em fuga: foram mortos em grande número, e deixaram ainda muitos prisioneiros; a notícia desse acontecimento correu por toda a Grécia; dizia-se que o mesmo Arato havia sido morto; aproveitando a oportunidade que lhe dava aquela vitória êle dirigiu-se diretamente b cidade de Mantinéia (26), sem que se suspeitasse, tomou-a e ali deixou uma boa guarnição para garantir-lhe a posse.

XXX. Manda Arquidamo, irmão de Agis, voltar, mas os éforos o matam.

 

XXX. Mas os lacedemônios haviam perdido a coragem e resistiam a essas empresas; como ele queria a todo custo levá-los à guerra, ele pensou em mandar chamar a Arquidamo, irmão de Agis, que estava em Messena, ao qual competia o direito de reinar da outra família real de Esparta: êle pensava que o poder dos éforos cada vez mais cnfraquecer-se-ia, quando os dois reis juntos, lhes fizessem contrapeso: sabendo disso, os que haviam causado a morte a Agis, temendo que eles também, com o tempo, fossem castigados por aquele crime, se Arquidamo voltasse ao poder, eles o receberam secretamente na cidade, ajudaram-no a voltar, mas apenas lá chegou mandaram-no matar; talvez Cleômenes não o sabia, como Filarco o escreve, talvez também tácitamente o consentiu, deixando-se induzir por seus amigos a abandoná-lo: é certo que a maior parte da culpa foi atribuída a eles, porque parece que eles tinham forçado Cleômenes a fazê-lo.

XXXI. Obtém uma grande vitória sobre os aqueenses.

XXXI. Tcd avia, êle tinha deliberado, o mais depressa possível, modificar a situação de Esparta e tanto fêz, por meio de dinheiro, com os cfores, que cs induziu a lhe decretarem uma viagem: obteve ainda a cooperação de outros cidadãos per intermédio de sua mãe Cralesicléa que lhe dava quanto dinheiro queria e o ajudava a levar adiante o seu intento a ponto de tomar como mando o homem mais influente de Esparta, em autoridade e em fama, para servir aos desígnios de seu filho, embora ela não tivesse vontade de se casar novamente. Cleômenes levou seu exército ao campo, tomou um território perto de Megalópolis chamado Leuctra (27) : os acaios vieram imediatamente ajudar, scb o comando de Arato; travou-se uma batalha perto da mesma cidade, onde Cleômenes levou a pior, em uma parte do seu exército; Arato, não querendo permitir que os acaios passassem um abismo grande e profundo, para persegui-los, fez tocar a retirada; Lisiadas, megalopolitano, irntou-se e mandou que os cavaleiros sob seu comando prosseguissem e, perseguindo-os, não percebeu que se encontrava em um lugar cheio de vinhas, de muralhas e de fossos, onde era necessário que ele espalhasse seus soldados, do contrário, não poderiam sair. Vendo isso, Cleômenes mandou seus ta-rantinos que eram cavaleiros ágeis e seus candiotas, contra ele; Lisiadas, combatendo valentemente, foi derribado e morto. Os lacedemônios, então, recobraram coragem, de modo que com grandes gritos voltaram a atacar os acaios, com tanto furor, que cs derrotaram completamente, ficando mortos no campo grande número de soldados, cujos corpos, Cleômenes, atendendo-lhes ao pedido, restituiu, para que fossem sepultados: mandou, porém, levar o de Lisiadas, que o revestiu de um manto de púrpura, pondo-lhe uma coroa na cabeça, e assim revestido mandou-o até as portas de Megalópohs. Êle tinha eliminado a tirania de sua cidade, dado a liberdade s seus cidadãos e anexado Megalópohs à liga e à comunidade dos acaios.

XXXII. Leva a uma expedição todos os espartanos, que êle julgava mais contrários aos seus projetos.

XXXII. Depois desta derrota, Cleômenes não pensou mais em coisas grandes, tendo-se persuadido de que se pudesse dispor os interesses de Esparta como desejava, depois viria mais facilmente a dominar os acaios. Fez ver ao marido de sua mãe, Megistono, que era necessário desembaraçar-se dos éforos e pôr em comum, as heranças dos espartanos; depois quando todos fossem iguais em bens, animá-los à reconquista da soberania de toda a Grécia, como a tinham outrora seus predecessores: Megistono concordou, tomou ainda dois ou três dos seus amigos. Havia acontecido, mais ou menos naquele tempo, que um dos éforos, dormindo no templo de Pasifae, tivera um sonho extraordinário: fôra-lhe revelado que, no recinto onde os éforos costumavam ter suas reuniões, havia somente um assento e os outros quatro haviam sido retirados: ficou admirado e ouviu então uma voz, que saía do templo e dizia que assim era melhor para a cidade de Esparta. O éforo contou este sonho, no dia seguinte, a Cleômenes, o qual ficou um tanto perturbado, a princípio, julgando que êle o fazia para sondar as suas intenções, tendo sabido alguma coisa de sua deliberação: mas quando se persuadiu de que o outro não lhe mentia, então tranqüilizou-se, reani-mando-se: levou consigo todos os espartanos, que julgava serem contrários à execução de seu plano, e foi atacar Herea e Alsea (28), cidades dos acaios, abasteceu Orcomena e foi acampar diante da cidade de Mantinéia: em suma, cansou e atormentou tanto os lacedemônios, obrigando-os a grandes marchas e a outros trabalhos, que, por fim, eles pediram-lhe que os deixasse descansar um pouco na Acaia; no entretanto, ele, com os estrangeiros que tinha consigo, voltou a Esparta, tendo, pelo caminho, comunicado a sua deliberação aos amigos e àqueles em quem ele confiava, marchou facilmente, a fim de surpreender os éforos, quando estivessem à mesa, no jantar.

XXXIII. Manda matar os éforos.

XXXIII. Quando já estava perto da cidade, mandou Eunclidas, ria frente, à sala dos éforos, como para lhes comunicar alguma notícia do acampamento de onde vinha: depois dele, mandou também Terício e Febis e dois outros, que haviam sido educados com ele, aos quais os lacedemônios chamavam de Samotrácios, cem um pequeno número de soldados; estes, bem como Euriclidas, falavam com eles; nesse instante todos precipitaram-se de espada em punho, na sala dos éforos e os atacaram com violência. Agesilau foi o primeiro a ser ferido, caindo por terra; fingiu, porém, estar morto, mas depois, escapou, esgueirando-se, da sala e ocul-tcu-se numa pequena capela, consagrada ao medo, que costumava estar sempre fechada, mas por acaso naquele instante estava aberta; lá entrou e fechou a porta. Os outros quatro éforos foram mortos na mesma sala e mais de dez outros que se intrometeram na luta, procurando socorrê-los; depois, não mataram mais nenhum dos que não se moveram, nem impediram de sair da cidade, aos que queriam fazê-lo; ainda mais: perdoaram a Agesilau, que no dia seguinte saiu da capela do medo. Na cidade de Esparta há não somente um templo dedicado ao medo, mas também um à morte e outro ao riso e muitos às diversas paixões da alma; honravam o medo, não como se faz com os maus espíritos, para os afastar, como prejudiciais, mas porque pensavam que não há nada que melhor conserve um governo, que o medo: por essa razão os éforos no início de seu cargo, como escreve Aristóteles, faziam proclamar, que todos os espartanos deviam raspar o queixo e obedecer às leis, para que eles não lhes fessem severos. E faziam, segundo penso, esta proclamação, sobre os bigodes, para acostumar os moços a obedecer aos superiores, mesmo nas mínimas coisas: parece-me que os antigos julgaram que a coragem e a ousadia não eram uma privação do medo, mas um medo da censura e da recriminação e um temor de desonra, porque ordinariamente os que têm mais medo de transgredir as leis são os mais corajosos contra o inimigo e não se incomodam de sofrer todos os males os que temem ser censurados: por isso falou sabiamente quem por primeiro disse:

O medo sempre acompanha a vergonha.

Assim Homero faz Helena dizer em certa passagem, falando ao rei Príamo.

Certamente (29), caro senhor e sogro, eu te temo e ao mesmo tempo te reverencio.

E em outro lugar falando dos soldados gregos,

Sem (30) dizer palavra, eles temiam seus comandantes

porque ordinariamente os homens cultuam aqueles que eles temem. Eis porque, perto da sala dos éferos, estava em Esparta a capela dedicada ao medo, que tinha elevado a autoridade de seu cargo, a um poder quase absoluto e soberano.

XXXIV. Discurso de Cleômenes ao povo para induzi-lo a aceitar a restauração das leis de Licurgo.

XXXIV. No dia seguinte, portanto, Cleômenes, a som de trombetaT exilou oitenta cidadãos e mandou derrubar os assentos e as cátedras dos eferos, exceto uma, que êle reservou para si mesmo, quando devia dar audiência. Depois, mandou reu-nir o povo e prestou-lhe contas do que havia feito: disse que Licurgo unira os senadores aos reis e que desse modo a cidade tinha sido governada por mui-l<> tempo, sem necessidade de outro magistrado: mas, ao depois, a guerra contra os messênios prolongou-se, os reis ocupados e impedidos com essa guerra, não podiam atender às necessidades e aos interesses dos diferentes partidos; por isso havia escolhido alguns de seus amigos, que haviam deixado a cidade, para ouvi-los e julgá-los em seu lugar; estes foram chamados éforos e continuaram, depois, por muito tempo, sozinhos, como ministros dos reis: mas depois, eles haviam atribuído a si mesmos o poder supremo e tinham usurpado uma jurisdição à parte, para eles. Como prova disso, dizia, vedes ainda hoje, quando os éforos chamam o rei, pela primeira vez, ele resiste à ordem, na segunda vez, também, mas na terceira êle se levanta e vai aonde eles estão: e que é verdade, aquele que por primeiro ampliou o poder e a autoridade dos éforos, Asteropo, foi éforo vários séculos depois da instituição dos reis: mas se eles tivessem querido proceder suave e moderadamente, teria sido melhor suportá-los: mas por um poder usurpado querer suprimir os cargos legitimamente instituídos há muitos anos, a ponto de ter exilado alguns dos reis e de ter feito morrer outros, sem processo algum nem determinação da justiça e ameaçar àqueles que ainda esperam ver em Esparta um governo justo e santo, como outrora, disse ele, era coisa que não se devia mais tolerar.

 

XXXV. Se tivesse sido possível exterminar de Esparta, sem sangue, pestes do governo que haviam sido trazidas de fora, isto é, as delícias, a superfluidade, a opulência, as dívidas, as usuras e outras ainda mais antigas a pobreza e a riqueza, ele se teria considerado o mais feliz dos reis, como um médico, que sem causar dor alguma curasse as doenças do seu país: mas, se ele tivesse sido obrigado a lançar mão das armas ele teria o exemplo de Licurgo, que o justificava, o qual não sendo rei, nem magistrado, mas um simples cidadão, tomara a autoridade de rei e tivera a ousadia de sair à praça, com armas; o rei, que então se chamava Carilau, atemorizou-se e fugiu buscando asilo nos templos e nos altares: mas, sendo de boa índole e amando o bem e a honra do seu país, passou para o lado de Licurgo, ajudou-o a executar o seu plano, aprovou a mudança do governo e das coisas públicas: com isso Licurgo, de fato, mostrou que é difícil mudar um governo, sem forças e sem temor, do que ele (31) tinha usado, o mais sobriamente e o mais reservadamente possível, afastando e exilando aqueles que eram contrários ao bem e à salvação da Lacedemônia, entregando a todos os outros, as terras do país para serem repartidas igualmente em comum e perdoando as dívidas a todos os que as tinham con-traído e a elas estavam presos; e ainda mais: ele queria fazer uma prova e uma escolha de estrangeiros para dar àqueles que ele conhecia, mais merecedores, o direito de burguesia espartana, a fim de conservar a cidade de Esparta e seu território pela força das armas, para que no futuro não vejamos os etóhos e os eslavônios saquear nem devastar a região da Lacônia (32), por falta de homens que a pudessem defender.

XXXVI. Êle as restabelece, de fato.

XXXVI. Feito isto, começou ele por primei-ro a pôr seus bens em comum; depois Megistono, seu padrasto e sucessivamente todos os seus amigos: em seguida mandou fazer a divisão das terras e deu uma parte a cada um dos exilados, aos quais ele mesmo havia mandado para o desterro, prometendo recebê-los na cidade quando as coisas estivessem ajustadas e fixadas em bases firmes; tendo completado o número dos cidadãos de Esparta com seus mais honestos e virtuosos vizinhos, preparou quatro mil soldados de infantaria, ensinando-os a usar a lança, com as duas mãos, em lugar dos dardos, com uma só, fê-los trazer o escudo com uma braçadeira forte e não com uma correia presa por uma fivela. Depois organizou a alimentação e a instrução das crianças e restabeleceu a antiga disciplina, à qual chamam de lacônica: o filósofo Es fero, que estava presente, ajudou-o em muitas coisas, de modo que em pouco tempo os campos de exercícios para a juventude, e os convivas retomaram a ordem que costumavam ter nos tempos passados e a maior parte dos habitantes se pôs voluntariamente a viver como outrora, da maneira lacônica, havendo muito poucos que o fizeram, à força; depois, para que o nome da monarquia, pois havia um só rei, não os descontentasse, ele declarou seu irmão Euclidas, rei como ele. Jamais havia se dado o caso, de em Esparta haver dois reis da mesma família juntos, como então.

XXXVII. Assola as terras dos megalo-politanos.

XXXVII. Finalmente, tendo sido avisado de que os acaios e Arato eram de opinião que ele não se atreveria a sair da Lacônia, enquanto a situação não estivesse bem firme, pela grande reforma que ele tinha feito em Esparta, nem abandonaria a cidade, deixando à mercê de tão desusado movimento, êle julgou que lhe seria útil e honroso fazer conhecer, com fatos, a boa vontade e a pronta obediência de seu exército. Entrou com armas nas torras dos megalopolitanos, onde se apoderou de grandes presas de guerra; causou prejuízos consideráveis ao país e depois de tudo, tendo se encontrado com alguns artistas de farsas e músicos que vinham de

Messênia, mandou construir um palco nas terras dos mesmos inimigos e propôs um prêmio de quatrocentos escudos aos mesmos indivíduos; e ficou o dia todo divertindo-se e entretendo-se em sua companhia, não por mero prazer, mas para mostrar ainda mais despeito para com seus inimigos e fazer-lhes ver quanto êle era mais forte do que eles, dando-lhes semelhante demonstração de despeito e pouco caso. Ao contrário, dos exércitos de todos os outros gregos e reis que estavam na Grécia, somente o exército dos espartanos, é que em seu meio não tinha artistas, farsantes, músicos, palhaços, tocadores de instrumentos, menestréis, cantores, pois seu acampamento era severo e isento de toda distração, de todo gracejo, de toda a indecência, porque quase sempre os moços passavam o tempo exercitando-se na ginástica ou preparando-se cuidadosamente no manejo das armas; os velhos ocupavam-se em instruí-los e ensiná-los e se às vezes tomavam algum momento de folga e de descanso, seus divertimentos eram conversar amigavelmente entre si, trocarem reciprocamente ditos chistosos e finos à Lacedemônia. Quanto à utilidade que tal maneira de se divertir lhes trazia, já o dissemos mais amplamente na vida de Licurgo.

XXXVIII. Reputação de Cleômenes entre os gregos.

XXXVIII. Cleômenes era o mestre que ensinava e dirigia a todos, propondo sua vida como um espelho, um exemplo de temperança, onde só havia sobriedade, simplicidade, nada de delicado e de supérfluo e nem a mais que qualquer soldado de todo o acampamento; isto muito lhe serviu para os interesses da Grécia, pois os gregos que iam negociar ou falar com os outros reis, não se admiravam tanto de sua opulência e riqueza, quanto detestavam o seu orgulho e odiavam sua arrogância, porque eles tratavam altiva e soberbamente com os que lhes vinham falar de algum assunto, ao contrário, quando iam a Cleômenes, que era rei como eles e que tal se chamava, não encontravam vestes de púrpura nem outros trajes suntuosos, nem leitos e liteiras ricamente adornadas, muito menos um príncipe que tratava por meio de uma infinidade de mensageiros, mordomos e às vezes por pequenos boletins, e assim mesmo com grande dificuldade e enorme trabalho; mas, viam que ele mesmo vinha à sua presença, vestido com simplicidade para recebê-los, conversar com eles e despachar os negócios para os quais lá eles haviam ido, mui alegre e afetuosamente: sentiam conquistar-se-lhes o coração de maneira admirável; e assim eles regressavam com esse conceito, de que êle era o único rei digno do sangue e da raça de Hércules.

XXXIX. Frugalidade de sua mesa.

XXXIX. Com relação à sua mesa comum, era muito simples, muito parca, muito sóbria, à La-cedemônia, com três assentos, somente: se por acaso recebia algum embaixador, ou tinha hóspedes que iam visitá-lo, acrescentava outros dois assentos e seus criados tinham cuidado de que a mesa fosse um tanto melhorada, não porém, com molhos ou pastelaria nem guloseimas, mas que houvesse um pouco mais iguanas e um vinho melhor: certa vez ele advertiu um de seus amigos, porque, dando um jantar em sua casa, ele lhes havia servido simplesmente caldo de leite e pão ordinário, como costumava fazer com os hóspedes comuns. Disse-lhe êle: "Não se deve, quando há estranhos, observar rigidamente a disciplina lacedemônia"; depois que se retirava a mesa, traziam outra menor, de três pés, sobre a qual se colocava uma taça de cobre, cheia de vinho e duas taças de prata, contendo cada uma duas quartilhas e alguns outros vasos de prata, também, mas em pequeno número, onde bebia quem queria, pois ninguém era obrigado a beber contra a vontade; não se jogava nem se cantava para agradar aos ouvidos; também não havia necessidade disso: pois êle entretinha a todos, perguntando ou narrando coisas agradáveis e divertidas, de sorte que a gravidade de seu falar não era destituída de interesse, mas também em sua graça e jucundidade, onde nada havia de dissoluto. Êle julgava a maneira de ganhar e conquistar os homens pelo dinheiro e presentes de valor, como laziam outros reis e príncipes, grosseira, sem arte e plena de injustiça: mas, o mais honesto, o mais gentil e o mais régio dos meios, parecia-lhe conquistá-los pela cortesia, na conversa e nos passapos, nos quais houvesse graça e fé ao mesmo tempo, sendo de parecer que a única diferença entre o amigo e o mercenário, era que um se conquistava e se mantinha pela afabilidade do caráter e pelas boas maneiras e o outro, apenas pelo dinheiro.

XL. Bane os aqueenses.

XL. Os primeiros que o receberam na sua cidade foram os mantilianos, que lhe abriram as portas, uma noite e ajudando-o a expulsar a guarnição dos acaios, entregaram-se a ele; ele porém conservou suas leis e deu-lhes a liberdade de dirigir seus interesses públicos, à sua maneira; no mesmo dia ele foi para Tegeu. Pouco tempo depois, passando pela Arcádia, foi a Feres, na mesma Arcádia com intenção de dar combate aos acaios ou de indispor Arato contra eles, por lhe ter entregue as planícies, a fim de saqueá-la e devastá-la: é bem verdade que Hiperbatas era então general dos acaios, mas Arato tinha toda a autoridade. Tendo os acaios saído do acampamento com todo seu povo, em armas e tendo-o estabelecido em Dimes, perto do templo (33), de Hecatombe, Cleômenes dirigindo-se para aquele lado, foi se fixar também entre a cidade de Dimes que lhe era contrária e o acampamento dos inimigos: alguns julgaram esse seu ato, um tanto ousado, mas à força de provocai os acaios, por fim obrigou-os a aceitar o combate, onde os derrotou e desbaratou todo seu exército, tendo feito ao mesmo tempo grande mortandade e também grande número cie prisioneiros Partindo de lá, foi atacar a cidade de Langon, de onde expulsou a guarnição dos acaios e a entregou aos ébanos. Assim, estando os acaios em situação muito inferior, Arato, que estava acostumado a ser sempre eleito (34), cu pelo menos de dois em dois anos comandante geral, recusou o cargo, embora os acaios o chamassem de propósito e o rogassem a aceitá-lo: o que de fato, não ficava muito bem para ele, abandonar o timão a outro, quando a tormenta era cada vez mais forte e perigosa.

XLI. Negociações iniciadas entre Cleômenes e os aqueenses.

XLI. Por isso os acaios mandaram embaixadores a Cleômenes para pedir a paz, aos quais, parece que ele deu uma resposta dura, mas, depois lhes mandou emissários, exigindo que lhe cedessem somente a primazia da Grécia; das outras coisas ele não fazia questão, nem por isso haveria desinteligência entre eles; restituía-lhes imediatamente as praças e os prisioneiros que havia feito. Os acaios ficaram bem satisfeitos com essas condições e disseram a Cleômenes que se encontrasse na cidade de Lerna, onde se devia realizar uma grande assembléia do conselho, para se firmar o pacto. Mas aconteceu que tendo se esforçado demais, nessa viagem, ficou suando e bebeu água fria, para matar a sede (35) muito quente e perdeu grande quantidade de sangue, e por isso ficou tão rouco que não podia falar; então restituiu aos acaios os principais prisioneiros, e adiando a assembléia para outro dia, voltou à Lacedemônia.

XLII. Arato chama os macedônios a Acaia.

XLII. Somente isso causou a ruína da Grécia, a qual, de outro modo, ainda teria podido livrar-se da arrogância e da avareza dos macedônios: Arato, por temor ou desconfiança de Cleômenes, cu mesmo por inveja da sua glória, porque êle prosperara tanto em pouco tempo, julgando que lhe seria grande vergonha, depois de ter ocupado pelo espaço de trinta anos a soberania na Grécia, que aquele moço viesse embaraçá-lo, privando-o da glória e do poder que êle mesmo havia conquistado e conservado por tanto tempo; tentou então por primeiro, impedir que os acaios fizessem tal assembléia, mas, por fim, vendo que não lhe queriam dar ouvidos, pelo medo que tinham da ousadia e da solicitude de Cleômenes, e também porque julgavam o pedido de Cleômenes justo e razoável, pois queriam restaurar a situação do Peloponeso, colocando-o no estado em que se encontrava antigamente, resolveu arquitetar um plano .que não convinha a grego algum, mas, ao invés, era muito infame, para êle principalmente e muito indigno dos atos honestos e louváveis que havia praticado antes: isto é, chamar a Antígono, permitir que êle entrar na Grécia e encher todo o Peloponeso de mí. dônios, em sua velhice, quando êle mesmo os havia expulsado em sua juventude, depois de ter tirac?’ das mãos de suas guarnições a fortaleza de Corinto e de ter sempre tido por suspeito o inimigo dos reis, e mesmo de Antígono, do qual êle antes disssera tcdo o mal possível, como se depreende dos comentários e memórias dos feitos, que êle deixou, onde diz que êle mesmo tinha trabalhado tanto e se exposto a muitos perigos, para libertar a cidade de Atenas da posse dos macedônios.

XLIII. Baixeza da conduta de Arato frente a Antígono.

XLIII. No entretanto, ao depois, êle mesmo os introduziu, por sua própria mão, no país e os levou ao seu palácio, com as armas e até mesmo nos aposentos e quartos das senhoras, tendo como uma injúria, que um príncipe descendente da raça de Hércules e rei de Esparta, que pretendia restaurar a vida pública, corrompida, como um instrumento de música, afinando-o com o belo método da antiga e sóbria disciplina e vida dórica, instituída por Licurgo, fcsse chamado com seus títulos comandante geral dos siciônios e tricaianos (36), fugindo assim daqueles que se contentavam em comer pão grosseiro e vestir rudes capas de burel e queriam ainda eliminar toda riqueza, (causa principal da sêm ação contra Cleômenes) e remediar à pobreza, dai ia se submeter, ele e toda a Acaia, a um dia-poma real, a um manto de púrpura, e a ordens al-pvas e soberbas dos macedônios, de medo que se pensasse que Cleômenes lhe poderia dar ordens e teve ainda a coragem de fazer sacrifícios a Antí-iíono, cantar hincs em sua honra, com coroa de flores na cabeça, como se ele fosse um deus, quando era um simples homem, que infelizmente já tinha os pulmões apodrecidos. Todavia o que escrevemos neste ponto, não é tanto para acusar a A rato, que em muitas coisas boas se mostrou um grande personagem, digno da Grécia, como por compaixão que temos da fraqueza de nossa natureza humana: a qual não pode fazer que, embora em pessoas dotadas de qualidades excelentes e de virtudes eminentes, o dever de honra se cumpria inteiramente, sem que nada se tenha a censurar.

XLIV. Arato faz interromperem-se as negociações iniciadas com Cleômenes.

XLIV. Foram então os acaios a Argos, onde se devia reunir a assembléia do conselho de toda a sua liga; para lá foi também Cleômenes, partindo de Tegeu; todos tinham grande esperança de que haveriam de concluir uma paz propícia: mas Arato, que já estava de acordo sobre os principais pontos e artigos do acordo, com Antígono, temendo que Cleômenes, com belas palavras ou à força obrigasse o povo a concordar com tudo o que ele queria, mandou chamá-lo, dizendo que devia entrar sozinho na cidade e que para garantia de sua pessoa, dar-lhe-iam trezentos reféns ou se ele não quisesse se afastar de seu exército, que lhe dariam audiência em conselho, fora da cidade no campo dos exercícios que é denominado Cilarábio (37) . Cleômenes, sabendo disto, disse que lhe faziam uma injustiça, porque o deviam ter avisado antes que êle se tivesse posto a caminho e não no momento, quando êle já se aproximava de suas portas, mostrar que desconfiavam dele e despedi-lo, sem nada concluir: escreveu depois uma carta ao conselho dos acaios, a qual era uma acusação perfeita contra Arato: por outro lado, também Arato, falando à assembléia do povo, disse várias palavras injuriosas contra êle.

XLV. Éste declara guerra aos aqueenses. Toma Palene e Argos.

XLV. Por isso Cleômenes, partindo dali, com pressa, por um emissário, mandou declarar guerra aos acaios, não na cidade de Argos, mas em Egion (38), como Arato escreve, para surpreendê-los antes de se terem preparado. Houve então uma grande perturbação em toda a liga dos acaios; várias cidades quiseram se afastar e rebelar-se, porque o povo esperava a divisão das terras e a abolição das dívidas. Os nobres em vários lugares, queixavam-se de Arato e havia mesmo alguns irritados contra êle que o odiavam, porque êle queria introduzir os macedônios no Pcloponeso. Por esse motivo Cleômenes, contando com todas estas coisas, entrou com armas na província da Acaia, onde, logo à chegada tomou a cidade de Palene (39), ao primeiro assalto, expulsando as guarnições dos acaios que lá se encontravam e depois conquistou também Feneum (40) e Penteho: os acaios temiam uma traição nas cidades de Corinto e de Si-cícne e para lá mandaram sua cavalaria, que estava em Argos, para guardar aquelas cidades; eles, no entretanto, em Argos, divertiam-se em celebrar a festa dos jogos nemeus; Cleômenes pensando, o que era verdade, que se ele se dirigisse a Argos, encontraria a cidade cheia de povo, que viera à festa, para ver os divertimentos e jogos, e se os assaltasse de improviso, ele os poria em sérias dificuldades e grande temor, levou durante a noite seu exército até perto das muralhas da cidade de Argos e, ao primeiro assalto, apoderou-se do quarteirão que se denomina Aspis, acima do teatro, lugar forte, pela posição e difícil de se tomar.

XLVI. Grande idéia que se concebe de Cleômenes e dos lacedemònios.

XLVI. O povo ficou tão assustado com esse inesperado ataque, que nenhum homem se atreveu a se pôr na defensiva, mas receberam a guarnição e deram vinte reféns, prometendo, dali por diante ser bons aliados e confederados dos lacedemônios, sob seu comando e suas ordens; o que lhe granjeou grande aumento de fama e de poder, pois os antigos reis da Lacedemônia, por mais esforço que fizessem, jamais haviam podido conquistar com segurança a cidade de Argos: Pirro um dos maiores e dos mais valentes generais da antiguidade, tendo lá entrado à força, nao a pôde conservar, mas morreu e perdeu a maior parte de seu exército; por isso todos admiravam, com razão, a pronta solicitude e atividade extraordinária de Cleômenes; e aqueles, que antes haviam zombado dele, quando dizia que queria imitar Solcn e Licurgo, igualando os bens de seus cidadãos, abolindo as dívidas, persuadiram-se então completamente, de que aquilo era a verdadeira causa da grande mudança que se notava na coragem dos espartanes: pois, antes eles eram tão temerosos o tinham tão pouco ânimo e coragem para se defenderem que os etólios, tendo entrado com armas na Laccnia, levaram de uma vez cinqüenta mil es-craves; um dos mais velhos espartanos, disse então que os inimigos lhes haviam feito um grande favor, descarregando o país da Lacônia de um fardo tão pesado: pouco tempo depois, quando começaram a iomar de novo o caminho da antiga disciplina de Licurgo, como se ele mesmo estivesse presente para orientá-los, deram grandes provas de coragem e de cusadia, de obediência aos seus superiores, reconquistando a soberania da Grécia e a posse lambem de todo o Peloponeso.

XLVII. Cleon, Pliunte, Corinto, aliam-se com Cleômenes.

XLVII. Depois da surpresa de Argos, entregaram-se de uma vez a Cleômenes as cidades de Cleones (41) e de Fliunte (42) . Arato no entretanto estava em Corinto, onde se informava e indagava, a respeito dos que eram suspeitos de laconizar, isto é, favorecer ao partido dos lacede-momos; tendo sabido dessa rendição ficou muito admirado, pois além do mais, notou que a mesma cidade de Corinto se inclinava muito para o lado de Cleômenes e que os acaios queriam retirar-se para suas casas. Fingiu querer reunir os cidadãos de Corinto, em um conselho; no entretanto, furtivamente chegou até uma das portas da cidade, onde lhe deram um cavalo, no qual montou e fugiu a todo galope para Sicíone. Sabendo disso, os coríntios entregaram-se à porfia, correram apressadamente a Cleômenes, que estava em Argos, para levar-lhe essa notícia, com tanta pressa, que os cavalos morreram de cansaço, como o mesmo Arato escreve; mas Cleômenes os repreendeu por tê-lo deixado escapar. Todavia êle disse que Megistono iria a êle, da parte de Cleômenes, para pedir-lhe que lhe entregasse a fortaleza de Corinto, onde havia uma grande guarnição de acaios, mediante uma grande soma de dinheiro que ele oferecia Arato respondeu-lhe que ele já não tinha o governo nas mãos, mas ao contrário o governo é que o tinha nas suas.

XLVIII. Prende Antígono na passagem das montanhas Onienas.

XLVIII. Por fim, Cleômenes, partindo da cidade de Argos, submeteu os trozemanos, os epi-daunanos e os hermiomanos: depois chegou a Co-rinto, onde logo fez cercar a fortaleza de trincheiras e de paliçadas; mandou chamar seus amigos e medianeiros dos negócios de Arato, ordenou-lhes que tomassem sua casa e seus bens, para guardá-los com cuidado e mandou, novamente, Tntimalo (43) Messênio, a ele, rogando-lhe que pelo menos consentisse que aquela fortaleza fosse guardada pelos acaios e pelos lacedemônios juntamente, prometen-do-lhe particularmente o dobro da pensão que o rei Ptolomeu lhe dava (44), Arato não quis aceder, mas mandou seu próprio filho a Antígono, com os outros reféns e persuadiu aos acaios lhe entregar a fortaleza de Corinto: sabendo disso, Cleômenes entrou em armas nas terras de Sicíone, saqueou e devastou toda a planície e tomou como presa os bens de Arato, que os de Corinto, por decreto público, lhe deram. E como Antígono já tinha passado o monte de Gerania (45), com um grande e poderoso exército, êle não quis fortificar a entrada do estreito, pelo qual se passa ao Peloponeso, mas preferiu fortificar e reforçar as passagens das montanhas Onienas (46), confiar aos macedônios cada uma delas, para guardá-las e defendê-las; esperava assim pela longa dilação de tempo, vencê-los sem combater em batalha organizada, contra um exército que era mui aguerrido de longa data. Realizando esse plano, êle pôs Antígono em grande perplexidade, porque êle não tinha feito com antecedência provisão de víveres, e não era coisa fácil obter passagem pela força, pois ali estava Cleômenes, firme, para resistir-lhe: experimentou penetrar às ocultas, pelo porto de Lequeo (47) mas foi repelido e perdeu alguns homens; por isso Cleômenes e seus soldados, confiando nessa vantagem, puseram-se à mesa; Antígono desesperava-se de se ver obrigado pela necessidade a deliberações difíceis de executar; êle resolvera retirar-se ao monte, onde está o templo de Juno e de lá passar seu exército, por mar, em navios à cidade de Sicío-ne, para o que era necessário muito tempo e grandes preparativos.

XLIX. Revolta de Argos.

XLIX. Mas à tarde, chegaram alguns ar-gienses, amigos de Arato, que vindo de Argos por mar, traziam-lhe a notícia de que os argienses se haviam rebelado contra Cleômenes. Aristóteles havia provocado essa rebelião; não tivera ele grande dificuldade em induzir o povo, que estava des-contente, porque Cleômenes não lhes havia dado o perdão das dívidas, como eles haviam esperado. Arato com mil e quinhentos homens que Antígono lhe dera, foi por mar a Epidauro; Aristóteles não esperou a sua chegada; com os da cidade foi atacar a guarnição dos lacedemônios, que estava instalada na fortaleza; Timoxeno ajudou-o com os acaios, vindos de Sicíone: Cleômenes, tendo sido avisado à segunda rendição da noite, mandou imediatamente chamar Megistono e ordenou-lhe, mui untado, que fosse imediatamente socorrer os seus soldados que estavam em Argos, porque fora precisamente ele que mais havia afirmado a Cleômenes a fidelidade dos argienses e havia impelido que expulsasse da cidade, os que cie considerava suspeitos. Assim, tendo-o enviado em seguida, com dois mil homens, ele guardava-se no entretanto de Antígono, e tranqüilizava, como podia, os de Corinto, dando-lhes a entender que não era nada, mas apenas uma rebelião de poucas pessoas, que rebentara em Argos. Megistono porém foi morto lá, ao entrar na cidade, combatendo valentemente; a guarnição dos lacedemônios encontrava-se em grande dificuldade e mandara vários embaixadores a Cleômenes, pedindo-lhe auxílio urgente; temendo que seus inimigos se apoderassem de Argos e lhe fechassem a passagem, e depois fossem, sem perigo, devastar e saquear a Lacede-mônia e até sitiar Esparta, visto que ela estava totalmente sem defesa, ele levou seu exército para | trás de Corinto, que imediatamente ele perdeu, pois mal lhe havia voltado as costas, Antígono lá entrou colocando-lhe uma forte guarnição.

L. Cleômenes a retoma e é forçado a se retirar pela chegada de Antígono.

L. Cleômenes chegando à cidade de Argos, tentou subir às muralhas; e reuniu seu exército, ainda desorganizado pela viagem que tinha feito; depois destruiu as colunas e os arcos que sustenta- j vam a praça de Aspis, por onde subiu à cidade e se juntou aos seus homens, que ainda resistiam; apoderando-se de alguns quarteirões bem como de algumas escadas, limpou as ruas de tal modo, que ninguém dos inimigos se atreveu a combatê-lo, por causa dos candiotas e dos archeiros que êle fazia atirar; nesse ínterim, êle viu de longe Antígono descendo pela encosta à planície com seus soldados de infantaria; e viu também que os cavaleiros em massa se lançavam contra a cidade; perdendo a esperança de poder conservá-la, reuniu todos os seus soldados e se pôs a salvo, junto .das muralhas, retirando-se sem perder um só homem; em bem pouco tempo conquistara uma grande região e estava quase de posse de todo o Peloponeso; mas, também logo depois foi derrotado totalmente, porque, dos aliados que estavam no seu acampamento, uns retiraram-se logo ao primeiro embate da fortuna e outros, logo depois, entregaram suas cidades a Antígono.

LI. Morte de Agiatis, mulher de Cleômenes.

LI. Assim corriam os seus empreendimentos guerreiros, como sabemos; depois, ele regressou a Fegeu, com o resto do seu exército e à tarde, chegaram notícias da Lecedemônia, não menos graves do que a perda de suas conquistas: diziam-lhe que sua mulher Agiatis tinha morrido; ele a amava com tanta ternura, que no mais difícil de seus afazeres e nas grandes alegrias, não deixava de fazer uma rápida viagem a Esparta para vê-la. Foi-lhe pois grande a amargura, como se pode facilmente imaginar; êle ainda era jovem, e perdera tão bela e tão bondosa companheira, da qual estava mesmo mui apaixonado: todavia, em nada se ofuscou a sua antiga magnanimidade, nem a tristeza que o abateu pôde deprimir sua altivez, nem sua coragem; êle conservou sempre a mesma voz, a mesma palavra, a mesma atitude, o mesmo rosto que sempre tivera antes. Tendo dado ordens aos oficiais particulares, sobre o que eles tinham de fazer e providenciado para a segurança dos cidadãos de Tegeu, no dia seguinte, ao nascer do sol, foi a Esparta, onde, tendo chorado com as pessoas de sua família a morte de sua esposa, voltou a pensar nos negócios do governo.

LII. Generosidade de Cratesicléa. mãe de Cleômenes.

LII. Êle havia se entendido com Ptolomeu, rei do Egito, que prometera socorrê-lo, mas queria como reféns, sua mãe e seus filhos. Por muito tempo ele hesitou em dizer a ela o que havia combinado com o soberano, de vergonha; muitas vezes tomara a deliberação de o fazer, mas, no momento, não ousava abrir a boca: um dia, porém, ela mesma desconfiou da sua hesitação e perguntou a um dos seus familiares, se seu filho tinha alguma coisa para lhe dizer e não se atrevia a fazê-lo: um dia, porém, êle o disse e ela se pôs a rir, respondendo-lhe com a mesma simplicidade: "Como é que hesitaste tanto tempo em me dizer o que tinhas deliberado? Vamos! Põe-me num navio e manda-me para o meu destino, para que eu possa servir ao bem de Esparta, antes que a velhice acabe com minha vida sem nada eu ter feito". Quando tudo ficou pronto para a viagem, eles foram por terra até (48) Tenaro, acompanhados pelo exército armado; Cratesicléa, antes de subir ao navio, levou Cleômenes ao templo de Netuno, abraçando-o e beijando-o, sentiu que seu coração se partia de tristeza e de dor, e então disse-lhe: "Rei da Macedónia, que ninguém perceba, quando estivermos fora deste templo que nós choramos, nem fizemos algo indigno de Esparta, pois apenas isso está em ncsso poder: tudo o mais correrá de acordo com a vontade dos deuses". Ditas estas palavras, recompôs o rosto e foi embarcar, com o filho de Cleômenes, ordenando ao piloto que zarpasse ímediatamente; chegando ao Egito ela foi avisada de que o rei Ptolomeu recebia embaixadores de Antígono e estava em vias de acordo com ele. Por outro lado ela foi também avisada de que os acaios solicitavam a Cleômenes, para ter com eles uma entrevista, mas ele não se atrevia a aceder, nem a pôr fim à guerra, sem o consentimento de Ptolomeu, por causa de sua mãe: por isso ela lhe escreveu, que ele fizesse o que julgava mais conveniente para o bem c a honra de Esparta, sem temer desagradar a Ptolomeu, por causa de uma pobre velha e de uma criança; tão virtuosamente comportava-se essa se-i hora na adversidade de seu filho.

LIII. Surpreende a cidade de Megalópolis.

LIII. Por fim, Antígono tomou a cidade de Tegeu e saqueou as de Orcomena e Mantinéia; Cleômenes, obrigado a defender somente a Lacô-nia, deu liberdade a todos os ílotas, isto é, os escravos da Lacedemônia, contanto que pagassem cinqüenta escudos (49) assim ele reuniu a importância de trezentos mil escudos (50) e armou dois mil desses escravos resgatados, à Macedónia, para se opôr às tropas dos leucáspidas, isto é, escudos brancos de Antígono: depois, veio-lhe à mente tentai uma grande empresa, na qual ninguém jamais havia pensado. A cidade de Megalópolis era então mui grande, em nada menor nem menos poderosa do que Esparta e tinha ainda o auxílio da comunidade dos acaios e de Antígono, que lá estava sempre, e que os acaios, parece, tinham chamado mais por insistência dos megalopohtanos. Cleômenes concebeu a loucura de ir saqueá-la (nada há a que mais se assemelhe a rapidez desse feito, no qual ninguém jamais havia pensado, isto é, num saque) . Ordenou a seus homens que juntassem provisões para cinco dias e se pôs em marcha na direção de Selásia como se tivesse intenção de ir a Argos; mas, de aí êle voltou-se para as terras dos megalopohtanos; ceou em Recio (51) e depois encaminhou-se diretamente para a cidade, passando por Elicunte (52): quando já estava bem perto, mandou na frente, a Panteas, com dois grupos de lacedemônios, ordenando-lhes que se apoderassem de um certo trecho da muralha entre duas torres, que êle sabia estar sempre deserto, desprovido de vigilância; com o resto do exército seguiu depois; Panteas encontrou o lugar indicado e de fato, grande parte da muralha e de toda aquela redondeza estava completamente desguarnecida e sem sentinelas. Ocupou imediatamente uma paite e se pôs a derribar a outra, matando os pou-cos guardas que encontrou, até que Cleômenes chegou ; ele entrou então com todo o exército antes que os megalopolitanos pudessem percebê-lo. No entretanto não tardou que a notícia se espalhasse pela cidade: uns fugiram com o que puderam levar dos próprios bens, outros, reuniram-se armados para resistir ao inimigo: por mais esforços que fizessem, porém, para se aproximar deles e dar-lhes combate, não puderam expulsá-lo da cidade: eles, porém, facilitaram a saída dos fugitivos, que se retiraram com segurança, de sorte que na cidade ficaram somente umas mil pessoas; todos os outros, refugiaram-se com suas mulheres e filhos na cidade de Messena: salvou-se a maior parte dos que haviam querido resistir e fizeram-se poucos prisioneiros, dentre os quais, Lisandndas e Teardas, os dois mais nobres e mais poderosos dos megalopolitanos.

LIV. Propõe aos megalopolitanos entregar-lha, com a condição de fazerem aliança com Esparta.

LIV. Logo que os soldados os apanharam, levaram-nos a Cleômenes. Lisandridas, vendo-o de longe, exclamou: "Tu tens hoje, sire, rei dos lace-demônios, a ocasião de fazer um ato ainda mais nobre e mais régio do que o que acabas de fazer, e que há de te dar uma glória ainda mais célebre". Cleômenes não compreendendo o que êle queria dizer, perguntou-lhe: "Que é que queres dizer, Lisandridas? Pois certamente não me vais aconselhar que te entregue esta cidade". "É justamente a esse respeito, replicou Lisandridas, que eu quero te falar, e avisar-te de que não a destruas, mas ao invés, a povoes de amigos e aliados, que te serão fiéis e leais: o que poderás fazer, entregando a cidade aos megalopolitanos, preservando tão grande povo, que acaba de se retirar, de uma grande miséria e ruína". Cleômenes ficou uns instantes sem dizer uma palavra e depois respondeu: "É difícil acreditar nisso e ter certeza do que dizes; todavia, prevaleça sempre em nós a honra, que não o lucro . Ditas estas palavras mandou imediatamente um arauto aos que haviam fugido para Messena: dizia-lhes que estava pronto a restituir-lhes a cidade, com a condição de que fossem bons aliados e confederados dos lacedemônios, deixando a aliança dos acaios: mas Filopemen não o quis e impediu que eles aceitassem essa generosa oferta de Cleômenes e que deixassem a aliança dos acaios, dizendo que Cleômenes não lhes queria restituir a cidade mas dominar ao mesmo tempo a cidade e os habitantes. E por isso expulsou a Lisandridas e a Teardas de Messena, pois eram eles que encabeçavam esse movimento. Filopemen, depois foi o primeiro magistrado dos acaios e obteve grande glória entre os gregos, como já o dissemos mais particularmente em sua vida.

LV. Ante a recusa deles, entrega a cidade ao saque.

LV. Tud o isto foi referido a Cleômenes, que até então havia poupado a cidade e a deixara intacta; não se apoderara de coisa alguma: ficou, porém, tão irritado que a entregou ao arbítrio dos soldados, mandou transportar a Esparta os quadros, estátuas e pinturas e depois a arrasou e destruiu-lhes os mais belos quarteirões; em seguida, voltou à sua casa, temendo Antígono e os acaios: estes, porém, nada fizeram; haviam eles reunido seu conselho na cidade de Egio, onde Arato, subindo à tribuna dos oradores, lá ficou muito tempo, tendo nas mãos um pedaço de seu manto, que expunha aos olhos do povo: todos muito se maravilharam, e perguntaram-lhe onde o havia conseguido; a que ele respondeu: "Megalópolis foi tomada, destruída e arrasada por Cleômenes". Os acaios assustados de Lao grande e repentina perda, desfizeram imediatamente a assembléia do conselho e Antígono determinou ir em seu socorro, mas não conseguiu tirar seus homens, em tempo, das guarnições onde estavam aquartelados, pelo inverno; e então deu-lhes (idem que não se movessem; apenas ele foi à cidade de Argos, acompanhado de um pequeno número de soldados.

LVI. Devasta o território de Argos.

LVI. E assim, a segunda empresa de Cleômenes parece, à primeira vista, feita de temeridade e ousadia quase insensata: mas foi levada a cabo com bom senso e com grande previdência, como a descreve Políbio, Sabendo que os soldados mace-dônios estavam esparsos cá e lá pelas guarnições e que Antígono passava o inverno em Argos, com um pequeno número de soldados estrangeiros c sua família, somente, entrou com soldados nas terras dos argienses, imaginando que Antígono, levado pela vergonha saina a campo e ele o derrotaria ou se ele não ousasse sair, pelo menos pô-lo-ia em situação difícil e em má opinião dos argienses, que ao verem que se devastava o próprio país e se saqueava e destruía tudo, perderiam a paciência e reunir-se-iam diante da porta do palácio de Antígono, exigindo que êle saísse a campo para combater ou que cedesse o primado na Grécia e o cargo de comandante a outro mais valente do que êle. Mas Antígono, como general sensato e prudente, julgando desonra arriscar-se temerariamente e descuidar a vigilância, não ser ofendido por estrangeiros, não saiu a campo, mas perseverou na sua deliberação. Por isso Cleômenes levou seu exército até as muralhas de Argos, devastou e saqueou todos os arredores, sem perigo algum e depois voltou para sua casa.

LVII. Entra por fanfarronice em Argos.

LVII. Pouco tempo depois êle foi avisado de que Antígono tinha vindo até Tegeu, para de ali passar à Lacedemônia; partiu então por um outro caminho com seu exército, sem que os inimigos o percebessem, de modo que, ao alvorecer, todos ficaram admirados quando o viram já perto da cidade de Argos, devastando a planície, não cortando o trigo com foices ou com espadas, como fazem os outros, mas destruindo-o com longas varas de extremidade recurva, de modo que os soldados, passando pela estrada, sem dificuldade alguma, di-vertindo-se, cortavam todo o trigo. Quando chegaram aos arrabaldes onde está o campo dos exer-cícios que se denomina Cilabans, alguns soldados quiseram incendiá-lo, mas Cleômenes não os deixou, fazendo-lhes ver que o que ele havia feito a Megalópolis, fora mais efeito de raiva do que de dever. Antígono, porém, voltou logo, como para se dirigir a Argos, mas depois, reconsiderou sua de liberação, apoderou-se de todos os cumes dos outeiros e montanhas dos arredores: Cleômenes Fingiu não se incomodar com isso, mas mandou arautos pedir as chaves do templo de Juno e reti-rou-se, depois de ter sacrificado: assim zombou de Antígono e depois de ter sacrificado à deusa, na parte inferior do templo que estava fechado, mandou seu exército a Fliunte e de lá, depois de ter pulsado a guarnição que estava em Ologunte foi a Ortomena, onde não somente tranqüilizou seus cidadãos, mas também obteve mesmo entre seus inimigos a fama de um grande cabo de guerra, digno de dirigir grandes empresas. Todos julgavam que, na realidade, era obra de grande envergadura, de magnanimidade e de competência ímpar, bem como de exímia perícia na arte militar, com tropas de uma única cidade, fazer guerra e sustentá-la contra o poderoso reino da Macedónia, contra todos os povos do Peloponeso, contra as finanças de um rei poderoso impedindo ainda que, não somente não se tocasse na Lacônia, mas, ao contrário, foram saquear as terras dos inimigos e arrebatar-lhes tantas e tão grandes cidades.

LVIII. A falta de dinheiro arruina os negócios de Cleômenes.

LVIII. Quem disse que o dinheiro era o nervo dos negócios, disse-o, na minha opinião, referindo-se principalmente aos negócios da guerra. Disse Demades, o Orador, um dia, quando os atenienses ordenaram que se tirassem urgentemente as galeras do arsenal, para o mar e as armassem em seguida, embora não tivessem dinheiro: Aquele que guia a proa deve olhar e investigar à frente (53) . Diz-se ainda que o velho Arquidamo, como os povos aliados e confederados da Lacedemônia exigissem no começo da guerra do Peloponeso, que se lhes taxasse a cada qual sua contribuição, respondeu-lhes: "A guerra não se sustenta com preços estipulados e certos"; assim como entre os competidores dos jogos, aqueles que pelo longo exercício fortaleceram seu próprio corpo, enfraquecem-se, com o tempo, e só ganham aqueles que têm arte e perícia da agilidade e da luta, assim Antígono, que com o poder de um grande reino sustentava as despesas dessa guerra, aniquilou e por fim venceu a Cleômenes, porque ele não podia mais dar o soldo aos estrangeiros que havia contratado, nem mesmo alimentar seus cidadãos; o tempo trabalhava certamente para ele, porque os fatos que sucediam a Antígono em seu reino, chamaram-no à pátria. Os bárbaros vizinhos saqueavam e devastavam toda a Macedónia; também os eslavos do norte (54), haviam descido com grande poder; os macedônios, vendo-se saqueados e prejudicados de todos os la-dcs, mandaram chamar urgentemente a Antígono.

LIX. Batalha de Selásia.

LIX. Se as cartas lhe tivessem sido entregues um pouco antes da batalha, ele teria ido imediatamente e teria abandonado os acaios: mas a fortuna, que sempre costuma decidir os grandes atos a dois passos do final, mostrou então tanta influência e tanta eficácia de ocasião, que logo depois da l:atalha de Selásia, na qual Cleômenes perdeu seu exército e sua cidade, chegaram mensageiros que vinham chamar Antígono: isto tornou ainda mais lastimável a desgraça de Cleômenes; se êle se tivesse antecipado de dois dias para dar combate, não mais teria tido necessidade disso, mas teria feito um acordo com os acaios, nas condições que cie mesmo desejava, quando os macedônios se li vessem alaslado; mas poi falia de dinheiro, não tendo mais esperança em suas anuas, foi obrigado a travar a batalha com vinte mil combatentes contra trinta mil, como diz Políbio, onde se mostrou excelente general; tanto ele como seus concidadãos cumpriram valentemente seu dever e os estrangeiros também portaram-se com coragem: mas ele foi derrotado pela sorte das armas de seus inimigos e pela galhardia do batalhão dos soldados macedônios.

LX. Cleômenes é derrotado por traição de Demóteles.

LX. Filarco diz que ele sofreu ainda uma outra traição, que foi a causa principal da sua derrota, porque Antígono havia ordenado aos acaios e aos eslavos, que ele tinha como reféns, se infiltrarem ocultamente ao longo da ala do exército, onde estava Euclidas, irmão de Cleômenes, para envolvê-lo pela retaguarda, enquanto ele dispunha o resto de seus homens para a batalha. Cleômenes tinha subido a uma elevação para sondar o inimigo; não vendo as armas dos acarnanianos e dos eslavos suspeitou que Antígono estava tramando-lhe algum estratagema de guerra. Mandou chamar a Demó-teles, que era o encarregado da patrulha, isto é, de indagar e descobrir as manobras secretas, e ordenou-lhe que fosse observar o que se passava na retaguarda do exército e perscrutasse bem toda a redondeza. Demóteles que vinha. como se diz, sido também subornado pelo dinheiro, respondeu-lhe que não se inquietasse pela retaguarda do seu exército, porque tudo estava bem; que pensasse somente em atacar os que tinha pela frente. Cleômenes tranqüilizou-se com essas palavras, marchou diretamente contra Antígono e os espartanos que êle tinha com ele fizeram tal esforço que obrigaram o batalhão dos macedônios a retroceder mais de um quarto de légua, repelindo-os e forçando-os sempre: no entretanto Euclidas com a outra ala do exército foi envolvido pela retaguarda; Cleômenes, voltando, viu a derrota e clamou bem alto: "Ai! Meu querido irmão, estás perdido, estás perdido, mas, morres como um homem de bem e tua morte será proposta como um exemplo de bravura às crianças e cantada pelas damas de Esparta". Foram assim Euclidas e seus soldados todos mortos: os que os haviam derrotado correram imediatamente para a outra ala. Então Cleômenes, vendo seus homens tão assustados por essa manobra, que não tinham mais coragem para enfrentar o inimigo, fugiu apressadamente. Nessa batalha morreu um grande número de soldados estrangeiros e todos os lacedemônios, que eram seis mil, menos uns duzentos.

LXI. Embarca depois de ter aconselhado aos espartanos a se entregarem a Antígono.

LXl. Quando Cleômenes chegou a Esparta aconselhou aos cidadãos que vieram ter com ele, que se entregassem voluntariamente a Antígono vencedor, e quanto a ele, se pudesse fazer alguma coisa pelo bem e para a honra de Esparta, vivo ou morto, ele o faria; viu então as mulheres da cidade que iam ao encontro dos que haviam escapado da batalha como êle; ajudando-os a se descarregarem de suas armas, davam-lhes de beber; êle entrou em sua casa, onde uma jovem que êle havia aprisionado na cidade de Megalópolis, e com quem convivia depois da morte de sua esposa, veio recebê-lo como de costume e quis também refrigerar-lhe a sede, pois êle chegava todo suarento do campo de batalha; mas êle não quis beber, embora sentisse muita sede, nem mesmo sentar-se, ainda que cansadíssimo; mesmo armado como estava, apoiou a mão numa coluna, escondeu o rosto num braço e depois de ter assim descansado um pouco e de ter refletido nas várias deliberações que podia tomar, partiu com alguns amigos para o porto de Gitio (55) onde embarcou num navio que tinha expressamente preparado e zarpou imediatamente.

LXII. Antígono trata muito humanamente a cidade de Esparta.

LXll. Logo depois chegou Antígono à cidade de Esparta; tratou humanamente todos os habitantes, que lá estavam, não injuriou nem ofendeu soberbamente a antiga dignidade de Esparta, mas restituiu-lhe suas leis e seu governo; depois sacrificou aos deuses em ação de graças pela vitória conquistada; três dias depois de lá ter entrado, partiu, por ter recebido notícias de que havia rebentado uma perigosa guerra na Macedónia e os bárbaros saqueavam e pilhavam todo o país. Êle já estava sofrendo da enfermidade de que ao depois veio a morrer, a qual ‘srminou numa tísica muito forte, com um violento catarro; no entretanto, não foi essa doença que o vitimou, no momento, mas ele se manteve ainda com saúde, lutando pelos seus próprios interesses e conquistando uma belíssima vitória, com grande mortandade de bárbaros, para depois morrer mais gloriosamente, pois ele retalhou seus pulmões e seus órgãos internos, pela força empregada em gritar no ardor do combate, como se pode deduzir e como Filarco o escreveu. Todavia conta-se, nas escolas, que depois da batalha conquistada, ele ficou tão tomado de alegria, que gritando: Oh! magnífica jornada! — teve um grande derramamento de sangue pela boca e, em seguida, febre altíssima, do que veio a morrer. E a respeito de Antígono, basta isto.

LXIII. Terício propõe a Cleômenes terminar seus dias por morte voluntária.

LXIII. Voltemos a Cleômenes. Partindo da ilha de Citera (56) ele foi ancorar em uma outra denominada Egialia (57) de onde quis passar à cidade de Cirene (58), um de seus amigos de nome Terício, que sempre se mostrara cumpridor exemplar de seus deveres e mui corajoso, firme e honesto em suas palavras, levando Cleômenes à parte, disse-lhe: "Sire, fugimos da morte mais honrosa, isto é, morrermos em batalha, embora antes todos nos tivessem ouvido dizer, que jamais Antígono passaria por cima do rei de Esparta, a não ser depois de morto; resta-nos, porém, ainda outra, que sem dúvida, é, em virtude e em glória, semelhante à primeira. Para onde vamos navegando, sem destino? Por que fugimos da morte? Por que a vamos procurar tão longe, quando ela está tão perto de nós? Não sendo vergonha nem desonra para os descendentes da raça de Hércules, servir aos sucessores de Felipe e de Alexandre, enfrentemos as dificuldades e os perigos de uma longa viagem e vamos nos entregar a Antígono, o qual na verdade, deve ser melhor do que Ptolomeu, pois os macedônios valem mais que os egípcios; se nos consideramos humilhados, sendo governados por aqueles que nos venceram nas armas, como então queremos que seja nosso chefe, aquele que não nos venceu, mostrando-nos em vez de um, inferior a dois, isto é, a Antígono, do qual fugimos, e a Ptolomeu, ao qual vamos cortejar? Podemos alegar que vamos ao Egito por consideração à sua mãe que lá está? Na verdade, tu serás para ela um belo e agradável espetáculo, quando ela mostrar às damas da corte de Ptolomeu, seu filho prisioneiro e fugitivo, em vez de um rei, como antes. Não é então melhor, enquanto ainda vemos a La-cedemônia e ainda temos as armas em nosso poder, livrarmo-nos nós mesmos desta desgraça, e justifi-carmo-nos perante os que morreram em Selásia pela defesa de Esparta, em vez de irmos covardemente perder nosso tempo no Egito, esperando notícias, para sabermos quem Antígono lá deixou como lu-gai’-tenente e governador da Lacedemônia?

LXIV. Resposta de Cleômenes que considera o suicídio uma fraqueza.

LXIV. Terício disse estas palavras e Cleômenes respondeu-lhe: "Tu pensas que é magnanimidade, buscar a morte, uma das coisas mais fáceis ao homem e que ele tem à mão, sempre que quiser: e no entretanto, mau que és, empreendes uma fuga mais fraca e mais vergonhosa que a primeira. Vá-nos homens valentes mais do que nós, outrora cederam também aos seus inimigos, por alguma vicissitude da fortuna, que lhes foi adversa ou pelo número maior de soldados; mas aquele que se deixa vencer e sucumbe sob as tribulações e fadigas, sob as censuras ou louvores dos homens, deve-se confessar vencido por sua própria fraqueza; é preciso que a morte que ele se dá voluntariamente não seja para fugir dos sofrimentos, mas deve ser ela mesma um ato louvável, porque é vergonha se querer viver ou morrer por amor de si mesmo, como tu me exortas que eu faça agora, para me subtrair às tribulações em que nos encontramos no momento, sem fazer outro ato qualquer nem útil, nem honroso: por isso, eu, pelo contrário, sou de parecer que tu *e eu jamais devemos abandonar a esperança de servir ainda um dia à nossa pátria; quando então toda esperança nos vier a faltar, então nos será sempre bastante fácil morrer, quantas vezes quisermos".

LXV. Como Ptolomeu recebe e trata Cleômenes.

LXV. Terício nada respondeu, mas na primeira ocasião, quando pôde se afastar um pouco de Cleômenes, junto à praia, voltando-se para o mar, suicidou-se. Cleômenes partiu logo dali e navegou para a África, onde foi levado pelos soldados do rei até a cidade de Alexandria; lá Ptolomeu recebeu-o sem grandes manifestações de honra, mas ao depois, quando o conheceu e ele mesmo deu provas de sua inteligência e sabedoria, mostrou que na simplicidade de sua vida rude de lacedemônio havia uma graça gentil e uma coragem em nada inferior à nobreza de seu sangue e que não se dobrava à fortuna, o rei começou a apreciá-lo mais e em ter mais prazer na sua companhia do que na dos que tudo faziam e diziam para adulá-lo e agradá-lo; arrependeu-se de ter antes feito tão pouco caso dele e de tê-lo abandonado a Antígono, que, pela sua derrota, tinha aumentado muito seu poder e sua glória. Começou então a reanimá-lo com sua amizade e com gentilezas, prometendo ainda mandá-lo à Grécia, com navios e dinheiro e recolocá-lo em seu reino: dava-lhe, para sua manutenção, um rendimento de vinte e quatro talentos (59) por ano, com o que êle e seus familiares viviam sobriamente e com simplicidade e gastava o resto para ajudar e sustentar os que se retiravam da Grécia para o Egito.

LXVI. Mudança dos negócios de Cleômenes no Egito.

LXVl. Mas, infelizmente, o velho Ptolomeu, antes de poder cumprir o que havia prometido a Cleômenes, isto é, mandá-lo de novo à Grécia, morreu, e depois de sua morte, a corte caiu na dissolução de banquetes e no domínio das mulheres e a promessa feita a Cleômenes, foi esquecida; o jovem rei (60), só pensava em mulheres e vinho; se êle não estava embriagado, então a sua maior preocupação e o seu maior empenho, era dar festas e sacrifícios (61), tocar instrumentos musicais pelo palácio para reunir gente, dar espetáculos, como um artista e charlatão, enquanto Agatocléia, que era sua amiga, a mãe dela e um certo Oenante, homem da pior espécie, dirigiam os principais negócios do reino. Todavia, quando assumiu o governo, êle serviu-se um pouco de Cleômenes, porque temia seu irmão Magas, que tinha prestígio entre os soldados, por causa do apoio que sua mãe lhe dava: assim tinha êle a Cleômenes perto de si e o recebia em seu conselho privado, onde discutia os meios mais fáceis de matar seu irmão: todos os outros o aconselhavam a fazê-lo, menos Cleômenes, que o dissuadia, com veemência, fazendo-lhe ver que era preferível conseguir muitos outros irmãos para o rei, para sua segurança e para repartir entre eles os vários cargos do reino. Sosíbio, um dos mais favoritos do rei, que gozava de grande prestígio e autoridade no governo, disse, que enquanto Magas vivesse, os soldados estrangeiros, que estavam a serviço do rei não lhe seriam fiéis. Cleômenes replicou que, quanto àquilo, não se preocupasse, porque dentre os estrangeiros havia mais de três mil pelo-ponésios, que fariam tudo o que êle quisesse e que iriam com suas armas, prontamente, para onde êle os mandasse e ao menor sinal de cabeça eles o obedeceriam. Estas palavras, no momento, pareceram revelar a amizade que êle dedicava ao rei e o poder de que gozava; mas, depois, a fraqueza de Ptolomeu aumentou-lhe a desconfiança; como acontece ordinariamente, aqueles que não têm juízo julgam mais seguro temer todas as coisas e desconfiar de todos; a recordação desse fato, tornou Cleômenes temível aos que tinham prestígio na corte, porque êle tinha autoridade entre os soldados estrangeiros. Muitos diziam: "Estás vendo esse homem? É um leão entre as ovelhas". Na verdade também o parecia aos soldados do rei quando consideravam sua maneira de agir, como olhava a todos sobranceiramente, sem fazer caso de nada e tinha sempre a atitude de quem está espreitando, para ver o que faziam.

LXVII. Êle pede que o deixem ir com seus amigos.

LXVII. Cansou-se, porém, por fim, de pedir navios e soldados; soube também que Antígono tinha morrido e que os acaios estavam empenhados na guerra contra os etólios, de maneira que os interêsses da pátria chamavam-no e exigiam a sua presença, pois todo o Peloponeso estava perturbado e agitado; pediu, então, para partir, ele e seus amigos; mas não lho permitiram: o rei, de nada sabia, porque estava continuamente no meio das mulheres, dançando, cantando, bebendo e divertindo-se. So-síbio, que tinha a superintendência de tudo, julgava que reter Cleômenes, contra sua vontade, ser-lhe-ia difícil e mesmo perigoso; por outro lado, deixá-lo ir-se, sendo êle homem corajoso e aventureiro, de grande iniciativa, conhecedor dos vícios e das falhas do seu governo, não era muito seguro; nem presentes poderiam abrandá-lo. Como o boi Apis, o boi sagrado do Egito, que tem o que comer e beber a mais não poder e parece viver nas maiores delícias, no entretanto, sempre deseja a sua vida natural, liberdade de andar e de pastar a seu bel-prazer e mostra evidentemente que se aborrece de estar sempre nas mãos do sacerdote encarregado de custodiá-lo; também nada havia nas delícias da corte que agradasse a Cleômenes, mas como diz Aquiles em Homero:

(62) Êle enlanguescia por estar preso, pedindo

somente para ir à guerra.

LXVIII. Nicágoras acusa Cleômenes de uma conspiração. Encerram-no em uma casa.

LXVIII. Estavam pois Cleômenes e sua pátria neste pé, quando chegou a Alexandria um messênio de nome Nicágoras, que o odiava, intimamente, mas exteriormente mostrava ter-lhe muito afeto: outrora ele lhe havia vendido um belo lugar de recreio e não recebera o dinheiro, ou porque Cleômenes não tinha os meios de lhe pagar ou porque não tivera a oportunidade, por causa das guerras que empreendera. Um dia, quando Cleômenes por acaso passeava no cais do porto, viu Nicágoras desembarcando de um navio; reconheceu-o e o cumprimentou amigavelmente, perguntando-lhe que motivos o traziam ao Egito. Nicágoras correspondendo à saudação, respondeu que tinha trazido belos cavalos para as tropas de guerra do rei. Cleômenes se pôs a rir e disse-lhe: "Seria melhor que tivesses trazido formosas meretrizes, menestréis, músicos e comediantes; é isso que agora mais interessa ao rei". Nicágoras no momento fingiu rir-se também, mas poucos dias depois, veio lembrar-lhe o que lhe havia vendido e rogar-lhe que lhe entregasse o dinheiro, garantindo-lhe que nunca mais o importunaria, ainda que tivesse que perder toda a sua mercadoria. Cleômenes respondeu-lhe que nada mais tinha da pensão que lhe davam; Nicágoras irritou-se e foi referir a Sosíbio as palavras de zombaria que tinha ouvido Cleômenes proferir contra o rei. Sosíbio ficou contente com isso, mas desejando ter ainda uma oportunidade maior, para irritar o jovem rei contra Cleômenes, aconselhou a Nicágoras a escrever uma carta ao rei contra ele, dizendo que havia deliberado, se o rei lhe desse navios, dinheiro e soldados, apoderar-se da cidade de Cirene. Nicágoras fê-lo. Escreveu a carta e partiu; quatro dias depois Sosíbio levou a carta ao rei como se a tivesse recebido naquele momento. O rei ficou tão irritado, que determinou que Cleômenes fosse encerrado numa casa, onde viveria como de costume, mas com a proibição de sair.

LXIX. Cleômenes toma com seus amigos a resolução de se pôr em liberdade.

LXIX. Isso desagradou muito a Cleômenes; mas teve êle ainda menor esperança em seus projetos pelo seguinte: um dos favoritos do rei, de nome Ptolomeu, filho de Crisermo, antes vivera tão familiarmente com Cleômenes, que tinha a liberdade de falar livremente com êle de todos os assuntos. Cleômenes um dia mandou chamá-lo para falar com êle; Ptolomeu dirigiu-se à casa onde êle se encontrava e conversaram sozinhos; êle procurou convencê-lo da injustiça de todas as suspeitas contra êle; pediu-lhe que o desculpasse perante o rei, por tudo o que êle havia feito; depois de terem palestrado êle saiu, sem notar que Cleômenes o seguia até à porta; escondendo-se por trás desta, teve oportunidade de ouvir que Ptolomeu censurava acremente os guardas por custodiarem com tanta negligência a uma besta selvagem, tão furiosa e tão difícil de se apanhar, se por acaso viesse a fugir. Cleômenes, ante estas palavras, voltou para seu aposento, sem que Ptolomeu tivesse percebido, que êle estava atrás da porta; contou depois aos seus amigos o que tinha ouvido; assim, ele irritou a todos os que ali estavam, mais do que a si mesmo, destruindo o pouco de esperança que ainda lhes restava; eles resolveram vingar-se da injustiça e da injúria que Ptolomeu lhes fazia, morrendo como convinha a espartanos, sem esperar que os viessem partir em pedaços como carneiros, depois de os terem conservado por muito tempo no redil para engordar. Seria uma grande vergonha para Cleômenes, depois de ter recusado submeter-se a Antígono, que era guerreiro e príncipe de fato, viver na corte deste rei, farsante e luxurioso, até que lhe aprouvesse deixar seu tamborim, interromper sua dança e seus prazeres, para vir mandar matá-lo.

LXX. Como executam seu plano.

LXX. Tomaram então esta deliberação: o rei Ptolomeu fora à cidade de Canobo (63), eles então divulgaram em Alexandria a notícia de que o rei queria libertá-lo da prisão; seguindo um costume dos reis do Egito, quando concediam a um prisioneiro a sua libertação, convidavam-no na noite anterior para cear, com presentes; os amigos de Cleômenes prepararam alguns presentes e os mandaram, enganando os guardas, dando-lhes a entender que era da parte do rei que ele os mandava: Cleômenes sacrificou aos deuses e mandou aos seus guardas boa parte das iguarias que lhe haviam mandado de fora, ceou à noite, em festa, com seus amigos, coroado de flores e diz-se que ele se apressou em executar o seu projeto, antes que fosse tarde, por ter percebido que um de seus criados de quarto sabia da conspiração, o qual saía à noite, para dormir fora, com uma mulher que ele amava; tinha medo que ele manifestasse toda a trama. Pelo meio-dia, quando viu que os guardas estavam meio embriagados e dormiam, vestiu sua túnica e abrindo a costura no ombro direito, lançou-se para fora de casa com a espada desembainhada na mão; todos seus amigos vestiam-se do mesmo modo; eram em número de treze, ao todo. Dentre eles um havia de nome Hipotas, que era coxo e fugira com eles; quando viu, porém, que, para acompanhá-lo, eles andavam devagarzinho, rogou-lhes que o matassem e que não deixassem de realizar o seu empreendimento, por causa de um homem inútil. No entretanto encontraram por acaso um homem da cidade, que passava a cavalo pela porta da casa; fizeram-no apear e puseram Hipotas sobre o animal, depois correram pelas ruas, gritando para o povo: Liberdade! Liberdade! Os cidadãos, porém, sentiam-se animados a louvar e admirar a Cleômenes, mas não tiveram coragem de segui-lo; correndo pela cidade encontraram Ptolomeu, o filho de Crisermo, quando saía do palácio; três dos homens atiraram-se sobre êle e o mataram ali mesmo. Outro Ptolomeu que tinha o encargo de defender a cidade de Alexandria, ouvindo o barulho, vinha na direção deles, dentro de um carro; foram-lhe muitos ao encontro, afastaram os guardas e arqueiros que vinham na frente, tiraram-no do carro e o mataram também: depois dirigiram-se para a fortaleza com intenção de libertar todos os prisioneiros que lá estavam e servir-se do seu auxílio: mas os carcereiros que os guardavam tinham fechado as portas e defendiam bem a prisão, de sorte que Cleômenes teve de desistir desse intento.

LXXI. Morte voluntária de Cleômenes e de seus amigos.

LXXl. Depois então, vagou cá e lá pela cidade, sem que outros a ele se juntassem, nem encontrou quem lhe opusesse resistência, porque todos fugiam diante dele: por isso, depois de ter corrido bastante, voltando-se para seus amigos, disse: "Não é de admirar de que mulheres governem este povo tão vil e covarde, pois êle evita assim a sua liberdade". Rogou-lhes então que morressem todos com êle tão magnánimamente como convinha a homens formados com êle, à dignidade das coisas nobres, que êle tinha feito. O primeiro que se fêz matar foi Hipotas, ferido com um golpe de espada, que lhe desferiu um dos mais moços, a seu pedido; depois cada um deles foi se matando, sem temor; Panteu, que por primeiro havia entrado em Megalopolis, homem forte, criado na disciplina lace-demônia, melhor que outro qualquer de sua idade ficou por último; Cleômenes tinha-lhe muito afeto e ordenou-lhe que quando o visse morto e todos os outros também que ele se matasse; já todos jaziam por terra: Panteu examinou-os, um por um, expe-rimentando-os com a ponta da espada, para ver se algum ainda nao tinha morrido; quando picou Cleômenes, perto do calcanhar, percebeu que ele movera o rosto; abaixou-se e sentou-se perto dele; depois, quando viu que havia espirado, abraçando o seu cadáver, matou-se ali mesmo, perto dele.

LXXII. Morte da mãe e dos filhos de Cleômenes.

LXXII. Cleômenes foi rei de Esparta poi dezesseis anos, como nós o dissemos; deste modo terminou seus dias; a notícia desse fato espalhou-se logo por toda a cidade; Cratesicléa, sua mãe, embora mulher de espírito magnânimo, esqueceu um pouco sua generosidade, pela excessiva dor que sentiu com tal acontecimento e, abraçando os filhos de Cleômenes, pôs-se a lamentá-lo; o mais velho dos filhos, porém, sem que alguém o imaginasse, escapou-lhe das mãos e subindo ao telhado da casa atirou-se do alto de cabeça para baixo, ficando muito fendo; socorreram-no, mas ele pedia que o deixassem morrer. O rei Ptolomeu sabendo de tudo o que se passara, ordenou que pendurassem o corpo de Cleômenes, tendo-o (64) escoltado antes e que matassem seus filhos, sua mãe e todas as mulheres que estavam com ela, entre as quais estava a mulher de Panteu, uma das mais belas do seu tempo e das mais distintas. Haviam se casado há pouco quando lhe sucederam todas estas desgraças; amavam-se ainda como no dia do casamento; seus parentes não haviam querido que ela acompanhasse seu marido; tinham-na fechado num quarto para retê-la à força; pouco tempo depois, conseguindo um cavalo, certa noite, ela fugiu, galopando a toda velocidade para o porto de Tanaro, onde embarcou num navio, que partia para o Egito, para juntar-se ao seu marido, com o qual ela suportou paciente e alegremente o viver fora de casa, em país estrangeiro. Quando os guardas vieram buscar Cratesicléa para levá-la à morte, ela a acompanhou pelo braço, ajudando-a a sustentar o vestido e a resignar-se, embora ela não estivesse aterrorizada, ante a iminência da morte, mas somente pedia a graça de que a fizessem morrer na presença de seus netos; todavia, quando eles estavam no lugar costumeiro das execuções, os carrascos mataram primeiro os netos, diante de seus olhos, e a ela, depois; em tão grande angústia e dor, ela não disse outras palavras que estas: "Ai! Meus filhos! Para onde fôstes?"

LXXIII. Morte da mulher de Panteu.

LXXIII. A esposa de Panteu, forte e generosa, com suas vestes, recobriu o corpo dos que haviam sido executados, sem dizer uma palavra, nem dar sinais de perturbação; finalmente, preparou-se ela também para morrer, ajeitando cuidadosamente suas vestes no corpo, não permitindo que ninguém dela se aproximasse, nem a observasse, mas somente o carrasco, que devia cortar-lhe a cabeça; morreu com tanta firmeza como o homem mais virtuoso do mundo, sem ter nem mesmo necessidade de alguém que lhe cobrisse o corpo, depois da morte, tanto cuidado teve ela em conservar, mesmo no fim da vida, a honestidade que sempre havia guardado em toda sua existência e conservando ainda, ao morrer, o sentimento da honra, com que sempre havia adornado seu corpo, quando vivia. Assim estas damas lacedemônias, nesta piedosa tragédia, tinham desempenhado seu papel à porfia, com os homens em seus últimos dias; disputando quem mais magnânima mente sofreria a mesma morte deram provas eviden tes, de que a virtude não pode ser ultrajada pela fortuna.

LXXIV. Superstição dos egípcios ocasionada pela vista de uma serpente enrolada em torno do pescoço de Cleômenes,

LXXIV. Poucos dias depois, os que tinham sido designados para guardar o corpo de Cleômenes, suspenso na cruz, viram uma grande serpente enrolada em sua cabeça, cobrindo-lhe todo o rosto, de modo que nenhuma ave de rapina podia aproximar-se para comê-lo; isso causou espanto e temor ao rei, por ser supersticioso; êle temia ter ofendido aos deuses: por isso as mulheres de sua corte fizeram vários sacrifícios de purificação para limpá-lo do pecado, certos de que tinham feito morrer um personagem muito amado e querido da divindade e que era algo mais que um simples homem. Os cidadãos de Alexandria, passando pelo lugar, faziam-lhe orações e o invocavam como um semideus, chamando-o de filho dos deuses; os mais sábios, porém, desfizeram-lhes o erro, mostrando-lhes que assim como os bois quando apodrecem, geram as abelhas; os cavalos, as vespas, do mesmo modo os asnos, quando chegam à putrefação pululam de escaravelhos, assim também os corpos humanos, quando os líquidos internos se misturam no ventre, produzem serpentes: os antigos, sabendo disso, escolheram entre todos os animais o dragão, para transformá-lo em homem.

Notas

  • (1) Sem que eles falem. C.
  • (2) Esta frase deve ter falta de alguma coisa e muito embaraçou os sábios. Ficaria mais claro se escrevêssemos: eles só podiam dizer esse provérbio comum. etc. O que significaria que se tendo deixado l?var mais longe do que teriam desejado, voltaram-lhe a ponta contra MU mesmo sentimento interior, pela vergonha de recuar. Vauvillicrs. Veja as Observações. C.
  • (3) Veja a série dos reis de Esparta mus Observações no tomo XV e as Observações no tomo XVI (Oeuvres Morales).
  • (4) Veja a série cios reis de Esparta nas Observações no tomo XV.
  • (5) Leia-se: os escravos dos sátrupas e dos Intendentes dos reis Selêuco e Ptolomeu, etc. C.
  • (6)- Leia-se: que elas não lhes permitem a eles imiscuirem-se nos negócios domésticos. C.
  • (7) Palene. cidade da Arcádia, no território da Lacedemônia. Havia outra cidade na Acaia. cuja semelhança de nome provoca confusão com esta. mas que se deve chamar Pclene. segundo o Es-coliaste de Apolônio.
  • (8) Malea é somente um promontório no sul dfl i ,:u riicinônia.
  • (9) Selásia, perto do rio Oeno. ao oriente do verfto. com referência a Esparta.
  • (10) Veja as Observações.
  • (11) Pausãnias chama-a Pafia. em suas Lacônicas, p. 276. Mas os sábios pretendem que se deve ler nesse lugar Pasifae.
  • (12) No oriente da Lacedemõnia, ao lado da Messênia.
  • (13) Êle vivia no tempo de Ptolomeu Evergeta I e de seu sucessor Pilopator. e por conseguinte no tempo de Anis e de Cleômenes. Foi autor de diversas obras historiai:; e mitológicas. Não 86 sabe qual a sua pátria.
  • (14) Trezentos e sessenta mil escudos. Amyol. 2.801.250 libras francesas.
  • (15) É chamado Emerepes, nos Apotegma* dos laccdemônios, cap. XXIX, t. XVI.
  • (16) Leia-se: do deus. Vimos no começo do capitulo XVIII que Cleômbroto se havia refugiado no templo de Nctuno.
  • (17) Vários sábios acham que se deve ler: a Ceada, nome dado à prisão de Esparta. Vauvilliers. Veja as Observações. C.
  • (18) No segundo ano da 102.» olimpíada, antes de J. C. ano 371. É Cleômbroto I.
  • (19) Outros escrevem Blemina, Belamina, etc. Tinha feito parte da Arcádia, à qual fora tirada pelos lacedemônios.
  • (20) Grande cidade da Arcádia, perto de Alfea, a um dia mais ou menos do Eurotas, na estrada de Megalopolis a Argos.
  • (21) Também na Arcádia, perto de Tegeu e de Megalopolis, como o fato o indica.
  • (22) Na Arcádia, perlo de Onomcnii do 1’eloponeso, tpie se não deve confundir com Orccmena da Beócia.
  • (23) Uma das cidades que formavam Megalópolis.
  • (24) Cidade da Arcádia cujo nome B8 deriva de Palas, bisavó, de Evandro. Deve-se escrever Palanteó. Veja-se Virg. Aen. 1. VIII. v. 54.
  • (25) Montanha da Arcádia. – …
  • (26) Ao sul da Arcádia, perto dos limites da Lacedemònia.
  • (27) Em Políbio. esse lugar é chamado Laodicies.
  • (28) Cidades da Arcádia, sujeitas aos acaios: esta é chamada Aséa por Pausânias: é verdadeiramente a que Plínio chama Aléa.
  • (29) Ilíada. 1. III. v. 172. C.
  • (30) Ilíada, 1. IV, v. 431. C.
  • (31) Êle. Cleômenes.
  • (32) Em grego, os Ilírios, ao longo do mar Adriático, que vinha juntar-se à Macedónia. Mas essa denominação é assaz vaga. entre os antigos e compreende uma extensão mais ou menos grande da região.
  • (33) Templo não está no texto grego; e, segundo Políbio, parece que é o nome de um pequeno cantão.
  • (34) Isto está multo diferente do texto, que significa: que Arato era alternadamente pretor; de cada dois anos, um.
  • (35) Estando ao mesmo tempo.
  • (36) Veja as Observações.
  • (37) Em Plutarco enontramos Cilarabis e Cilabaris. O nome verdadeiro é Cilarabis.
  • (38) Cidade cia Anila, no norte do Pcloponeso. p-rio do koIío de Corinto, a oeste de Sicione.
  • (39) Entre Sicione e Egio, mas um pouco ao norte, a duas léguas e meia do golfo.
  • (40) Fenéa, cidade da Arcádia.
  • (41) Cidade da Argólida na estrada de Argos a Corinto.
  • (42) Na parte da Acaia, que tem o nome de Sicionéa, entre Sicíone e Cleones. Fliunte que Ptolomeu coloca perto de Nauplia na Argólida. devia ser muito insignificante, pois Estrabão não fala dela, fazendo a descrição dos ugares vizinhos a Nauplia.
  • (43) Vicia de Arato, aquele que Cleômenes manda, chama-se Tripilo.
  • (44) Evergeto I.
  • (45) Entre Megara e corinto.
  • (46) Perto de Corinto, entre a fortaleza de Solígia e Cencrés, um dos portos de Corinto, ao oriente, no golfo sarônico.
  • (47) Outro porto de Corinto, ao ocidente, no golfo de Crissa.
  • (48) Promontório. C.
  • (49) Em grego, cinco minas. 389 libras, 1 sh. e 9 d. Francese
  • (50) Em grego, Cinqüenta talentos, 233.437 libras, 10. sh franceses.
  • (51) Mais provavelmente Zecio. pequena e humilde cidade, absorvida por Megalópolis.
  • (52) Talvez também Helissunta. cidade do mesmo gênero e no mesmo caso.
  • (53) Alguns velhos exemplares dizem: té prorátou psorásal, que é o sentido por nós seguido. Outros dizem tés próras tó psurásai. isto é, a preparação vai na frente da proa, o que também é interessante, e mais agudo, pois é como se dissesse, necessita-se de precaução e prudência antes de um empreendimento qualquer. — Amyot.
  • (54) Os Ilírios.
  • (55) Pequena cidade ao sul da Lacônia. perto da embocadura do Eurotas. Servia de porto a Esparta.
  • (56) Abaixo do promontório do Peloponeso, chamado Maleu.
  • (57) Ilha situada entre o Peloponeso e Creta. Seu verdadeiro nome é Egilia.
  • (58) Na Africa.
  • (59) Quatorze mil escudos. — Amyot. 112.050 libras francesas.
  • (60) Filopator.
  • (61) Veja as Observações. C.
  • (62) Ilíada. 1. I. v. 491. C.
  • (63) Canopo. na embocadura mais ocidental do Nilo e que trazia o seu nome.
  • (64) Kremásai katabursósantas, suspendê-lo. depois de tê-lo mumificado e escoltado. Outros velhas livras dizem katamiirõsuntus. isto é, tendo-o antes mumificado, para que ficasse mais tempo intacto no cadafalso, como era costume dos egípcios, conservar os corpos. Diodoro da Sicilia. — Amyot.

Links: Agis e Cleomenes no Classics MIT (Inglês)


Fonte: Edameris. Plutarco, Vidas dos Homens Ilustres, volume VII. Tradução brasileira de Carlos Chaves com base na versão francesa de de 1616 de Amyot com notas de Brotier, Vauvilliers e Clavier.

 

jul 282009
 
Arte etrusca

SUMÁRIO   DA   VIDA   DE   LISANDRO

I. Estátua de Lisandro no templo de Delfos. II. Família, educação e caráter de Lisandro. III. As riquezas que faz entrar em Esparta. corrompem os costumes da cidade. IV. É nomeado comandante da esquadra dos lacedemônios. V. Faz aumentar, após interceder junto de Ciro, o soldo de seus marinheiros. VIL Lisandro ganha uma batalha naval. VIII. Forma nas cidade! gregas associações visando nelas estabelecer oligarquias. IX. Sim conduta para com Calicrátidas, nomeado para substituí-lo no comando. X. Viagens inúteis de Calicrátidas, que não consegue avistar-se com Ciro. Sua morte. XI. Lisandro é colocado do novo no comando da esquadra. XII. Infame conduta de Lisandro em Mileto. XIII. Facilidade com que Lisandro fazia falsos juramentos. XIV. Dinheiro a êle fornecido por Ciro. XV. Diversas expedições de Lisandro. Toma Lâmpsaco. XVI. A esquadra dos atenienses segue para a embocadura do rio Egos-Pótamos. XVII. Conduta de Lisandro. XVIII. Conselhos de Alcibíades aos capitães atenienses, que não os aceitam. XIX. Astúcia de Lisando. XXL Alcança a vitória. XXII. Prodígios que precederam este acontecimento. XXIV. Prisioneiros de Atenas condena dos a morte. XXV. Conduta de Lisandro em relação às cidades gregas. XXVIII. Tomada de Atenas. XXX. Demolição das muralhas da cidade. Estabelecimento do Conselho dos Trinta. XXXI. Gilipo rouba parte do dinheiro que Lisandro lhe entregara para levar a Esparta. XXXII. Discute-se em Esparta sobre se se deve receber dinheiro enviado por Lisandro. XXXIII. Lisandro manda fazer a sua estátua. XXXIV. Honras que lhe são prestadas. XXXV. Insolência e crueldade de Lisandro. XXXVI. É chamado a Esparta. Descrição da citai. XXXVII. Como Farnabazo o engana. XXXVIII. Pede uma licença para dirigir-se ao templo de Júpiter Amon. XXXIX. Apaziguamento da cidade de Atenas. XL. Diversos ditos de Lisandro. XLI. Auxilia Agesilau a tornar-se rei da Lacedemô-nia. XLII. Concita-o a guerrear os persas. XLIII. Rivalidade entre Agesilau e Lisandro. XLV. Intrigas de Lisandro para chegar ao trono. LI. Concita os lacedemônios a moverem guerra aos tebanos. LII. Toma a cidade de Orcomene. LIV. É morto diante das muralhas de Haliarto. LV. Sua sepultura. Oráculos que anunciaram sua morte. LVII. Descoberta de uma conspiração que havia ordido para tornar-se rei.

Do ano 278, aproximadamente, até o ano 360, de Roma, 394 A. C.

LISANDRO – Plutarco – Vidas Paralelas
Baseado na tradução em francês de Amyot, com notas de Clavier, Vauvilliers e Brotier.

Tradução brasileira de José Carlos Chaves. Fonte: Ed. das Américas

I. Existe no tesouro (1) dos habitantes de Acanto, que se acha no templo de Apoio, na cidade de Delfos, a seguinte inscrição: "Brásidas e os Acântios – Despojos dos atenienses". Estes dizeres levaram vários escritores a acreditar que a estátua de pedra existente junto à porta da capela era a imagem de Brásidas; no entanto, trata-se da estátua de Lisandro, do tamanho natural, na qual êle é apresentado- com uma abundante cabeleira e uma barba muito espessa e comprida, à maneira dos antigos. Não é verdade, como afirmam alguns, que os argivos, após terem sido derrotados numa grande batalha, mandaram rapar as cabeças, numa pública demonstração de luto, e que os lacedemônios, ao contrário, para testemunhar a sua alegria diante da vitória alcançada, deixaram crescer cs cabelos. Também não é verdade que, quando os baquíadas fugiram de Corinto para a Lacedemônia, os espartanos, vendo-os com as cabeças rapadas, acharam-nos tão feios e disformes que decidiram deixar crescer a barba e os cabelos. O certo é que este costume lhes veio de Licurgo, na opinião de quem uma longa cabeleira realça a beleza dos que são naturalmente belos e torna ainda mais feios os que já nasceram feios.

(1)    Esta palavra tesouro significa aqui  as oferendas feitas ao templo pelos habitantes de Acanto.    Vide os pormenores acerca destas oferendas no capítulo XXXIII.    A cidade de Acanto,  que foi  denominada  depois  Cassandra,  ficava  peito  do  monte  Atos.

II. Segundo se diz, Aristóclites (1), pai de Lisandro, não era da casa dos reis de Esparta, embora fosse da raça dos heráclidas; mas seu filho Lisandro foi criado num ambiente de pobreza e mostrou-se mais fiel observador das leis e dos costumes do país do que qualquer outro espartano. Sua coragem viril, à prova de todas as voluptuosidades, não conheceu outro prazer senão aquele que decorre da estima pública, a qual é o prêmio das belas ações; pois em Esparta não se considera coisa má ou desonesta o fato de os jovens se deixarem dominar por este prazer; cs espartanos querem que seus filhos se mostrem, desde a mais tenra idade, sensíveis à glória, e que encontrem prazer no elogio, e, ao contrário, motivo de pesar na censura. Eles votam desprezo àqueles que permanecem indiferentes a êsse duplo estímulo, considerando-os como homens de coração vil e covarde, incapazes de praticar o bem. Deste modo, a ambição e a paixão pela glória de que era possuído Lisandro devem ser atribuídas à disciplina e à educação lacônias, não se podendo por isso responsabilizar muito a natureza; desta êle recebeu a sua inclinação para agradar aos grandes e poderosos, de uma maneira que não era comum entre os espartanos. Além disso, era dotado de paciência bastante para suportar, sem esforço, a arrogância daqueles que possuíam maior poderio e autoridade, quando disso podia tirar algum proveito; o que, aliás, é considerado per alguns como parte importante da arte de bem dirigir os negócios do Estado. III Aristóteles (2), na passagem em que diz serem os grandes espíritos sujeitos freqüentemente à melancolia, citando os exemplos de Sócrates e Hércules, conta que Lisandro também, não em sua mocidade, mas ao aproximar-se da velhice, foi vítima do mal da melancolia. Havia no seu caráter uma qualidade que, entre todas as outras, lhe era própria e peculiar: a de que, embora se tivesse conduzido sempre honestamente em sua pobreza, sem se deixar jamais vencer ou corromper pelo dinheiro, êle encheu sua pátria de riquezas e do desejo de possuí-las, fazendo-a perder a reputação de que gozava de não as ter em grande estima; todavia apesar de nela ter introduzido grande quantidade de ouro e de prata, depois de haver vencido os atenienses, não reservou para si uma única draema. E tal era o seu desinteresse que, tendo um dia Dionísio, tirano de Siracusa, enviado às suas filhas vestidos da Sicília, ricos e belos, êle não os quis aceitar, dizendo recear que tais vestidos fizessem parecer-lhe mais feias as filhas. Entretanto, pouco tempo depois, quando os espartanos o enviaram como embaixador junto ao mesmo tirano, este apresentou-lhe dois vestidos, pedindc-lhe que escolhesse um para levar a uma de suas filhas; e êle respondeu que a interessada poderia escolher melhor, e levou os dois.

(1)    Outros  autores  o  chamam  Aristócrito,

(2)    Aristóteles, nos «Problemas», secção XXX, tomo II, p ág. 815.

IV, Entrementes, a guerra do Peloponeso prolongava-se demasiado, e a derrota do exército que os atenienses tinham enviado à Sicília fazia super que tivessem perdido completamente todo o domínio do mar; e que, em conseqüência, estariam em breve sem quaisquer recursos, Mas Alcibíades, chamado do exílio, e recolocado à frente dos negócios públicos, fêz com que toda a situação se modificasse, tornando os atenienses tão fortes no mar quanto os lacedemônios. Estes, receando pela sua sorte, puseram na direção desta guerra um ardor novo, e verificaram logo que necessitavam, mais do que em qualquer outro momento, de um maior po derio e de um comandante mais capaz. Entregaram, então, a Lisandro, o comando da esquadra (1). Chegando a Éfeso, êle encontrou na . cidade um ambiente amistoso, no que lhe dizia respeito, e verificou que a população se mostrava devotada aos interesses de Esparta. Achava-se, no entanto, numa situação lamentável, devido à sua pobreza, e em vias de adotar inteiramente os costumes bárbaros dos persas, cem quem mantinha relações constantes; com efeito, a cidade estava como que cercada pela Lídia e os capitães do rei da Pérsia nela permaneciam, em longas temporadas. Lisandro ali estabeleceu o seu acampamento, reunindo o maior número de navios de carga que pôde encontrar; mandou erguer um estaleiro para a construção de galeras, fomentou o comércio nos portos da região, os quais começaram a ser procurados pelos negociantes, e fez com que as casas particulares e as oficinas se enchessem de bens; e desde então Éfçso começou a conceber a esperança de chegar à opulência e à grandeza na qual nós a vemos hoje.

(1)    No primeiro ano da 93.ª olimpíada,  408 anos A. C.

V. Informado de que Ciro, um dos filhos do grande rei da Pérsia, havia chegado à cidade de Sardes, Lisandro para ali se dirigiu, ao seu encontro, a fim de falar-lhe sobre questões relacionadas com a Grécia e queixar-se de Tissafernes, que, tendo recebido .ordem para socorrer os lacedemônios e auxiliá-los a expulsar os atenienses do mar, conduziu-se com frouxidão, e isto devido à amizade que tinha por Alcibíades; e, como fornecesse muito pouco dinheiro à esquadra, causou-lhe a ruína. Ciro, de seu lado, ouvia com prazer queixas contra Tissafernes, gostando mesmo que se falasse contra ele, e isto porque se tratava de um homem mau a quem considerava como inimigo. Assim, Lisandro agradou-lhe muito, e não somente pelas denúncias referentes a Tissafernes, como também pelo prazer que lhe proporcionava a sua conversação. Lisandro, que sabia agradar e cortejar os poderosos, cativou o jovem príncipe, e assim encorajou-o no seu desígnio de prosseguir na guerra. Nas vésperas de sua partida, Ciro ofereceu-lhe uma ceia, depois da qual lhe pediu que não recusasse os testemunhos de sua liberalidade e que lhe pedisse com franqueza tudo o que desejasse, assegurando-lhe que nada lhe seria negado. Lisandro, diante de tais palavras, deu-lhe a seguinte resposta: "Pois que vos mostrais tão generoso para comigo, peço-vos e aconselho-vos a que aumenteis de um óbolo o soldo dos marinheiros, a fim de que, no lugar de três óbolos por dia, eles recebam quatro".

VI. Ciro, encantado com este desprendimento de Lisandro, mandou-lhe entregar dez mil dáricos, os quais foram por êle utilizados para pagar aos marinheiros um óbolo a mais por dia. Esta liberalidade fêz com que as galeras dos inimigos ficassem vazias em pouco- tempo, pois a maior parte dos marinheiros dava preferência às esquadras onde eram melhor pagos; e aqueles que permaneciam nos seus antigos navios, desincumbiam-se mal de suas obrigações e mostravam-se sempre dispostos a se rebelarem, mantendo assim em constante apreensão os seus comandantes. Entretanto, embora tendo privado o inimigo de grande número de homens, e enfraquecido desse modo as suas forças, não ousou empenhar-se   numa   batalha   naval.   Receava,   com efeito, Alcibíades, conhecido como homem de ação, e que possuía uma esquadra mais numerosa; era, além disso, um capitão que não conhecera até então* sequer uma derreta, nem em terra e nem em mar.

VII.    Entretanto, tendo Alcibíades partido de Samos para Focéia (1), cidade que fica no continente, defronte da ilha, e tendo passado o comando da esquadra, durante a sua ausência, ao seu piloto Antíoco, este, querendo dar prova de audácia, e ao mesmo tempo insultar e zombar de Lisandro, penetrou no porto de Éfeso com apenas duas galeras; e, no meio de grande ruído e gargalhadas, passou inso-lentemente diante dos estaleiros onde se achavam os navios dos lacedemônios. Lisandro, indignado ante tal audácia, mandou lançar ao mar, em primeiro lugar, algumas galeras, a fim de perseguir o inimigo; mas vendo que outros capitães atenienses vinham em socorro de Antíoco, êle empenhou no combate outros navios. Aos poucos, ambos os lados foram se reforçando, até um ponto em que as duas esquadras passaram a dispor de todas as suas forças. Lisandro saiu vitorioso da batalha, e, tendo capturado quinze  galeras  do  adversário,  transformou-as num troféu.

(1) Os antigos geógrafos colocavam Focéia, uns na Btólia e outros na Jônia asiática. Mas trata-se, sem dúvida, de uma cidade jônia. Seus moradores devem ser chamados foceenses para se distinguirem dos fócios, naturais de Fóeida,, província da Grécia. Foram os foceenses que se dirigiram â Gália, onde fundaram, em 539 A. C, Marselha, segundo Pétau.

VIII. O povo de Atenas, irritando-se ao ter conhecimento dessa derrota, afastou Alcibíades do comando da esquadra; e, como os combatentes que se encontravam no acampamento de Samos também se pusessem a desconsiderá-lo, decidiu abandonar a ilha, seguindo para Quersoneso (1), na Trácia. Esta batalha por si mesmo não apresentava grande importância; mas, em virtude da reputação de que gozava Alcibíades, teve a maior repercussão. Entre-mentes, Lisandro, depois de mandar vir das cidades da Ásia, para Éfeso, os homens que considerava como os mais corajosos e mais empreendedores, foi incutindo neles os primeiros germes das grandes transformações e inovações que introduziu depois nos governos das cidades; concitou e encorajou estes homens a formarem associações entre eles, a atraírem seus amigos e a se esforçarem para ficar com todos os negócios dessas cidades em suas mãos; prometeu-lhes que, quando ele tivesse destruído o poderio de Atenas, anularia por toda parte o domínio do povo, e cada um deles passaria a gozar em seu país de autoridade soberana. Deu-lhes, através de medidas práticas, garantias seguras de suas promessas; colocou à frente da administração aqueles que se  tinham  tornado  seus  amigos  e seus hóspedes; conferiu-lhes honradas e dignidades, . tornandorse mesmo, para satisfazer-lhes as ambições cúmplice de" suas injustiças e de suas faltas. Deste modo, esses homens, inteiramente devotados à sua pessoa, não pensavam em outra coisa senão em agradar-lhe na esperança de que tudo, mesmo as maiores coisas, poderiam dele obter quando tivesse o governo em suas mãos.

(1)    Quersoneso da Trácia, no estreito dos Dardanelos.

IX. Assim afeiçoados a Lisandro, eles não viram com bons olhos Calicrátidas, à sua chegada, quando este veio substituí-lo no comando- da esquadra; e quando verificaram, através da experiência, que era um dos homens mais justos, mais direitos e melhores do mundo, ficaram ainda mais descontentes com a sua maneira de governar, simples, correta e dórica (1), destituída de qualquer artifício. Admiravam, sem dúvida, sua virtude, mas com esta admiração que inspira a beleza de uma estátua antiga de algum herói. Quanto a Lisandro, admiravam a afeição que êle demonstrava por seus amigos e estimavam as vantagens que tiravam de seus favores. Assim quando o viram embarcar, foram tomados de grande pesar, e não puderam conter as lágrimas. E Lisandro, de seu lado, tratou de aumentar a sua má vontade contra Calicrátidas; pois, entre outras coisas, enviou para Sardes  (2)  o resto do dinheiro que Ciro lhe havia dado para pagar os marinheiros. E disse a Calicrátidas que fosse êle próprio pedir o dinheiro ao rei, e, enquanto isso não fosse feito, que encontrasse um meio de pagar seus homens. Finalmente, no momento em que ia fazer-se ao mar, declarou publicamente que entregava ao seu sucessor uma esquadra que era senhora do mar. Calicrátidas, para rebater o seu vão orgulho, que não passava de uma pretensão, disse: "Se assim é, por que não tomas à esquerda, passando por Samos, para chegar a Mileto e ali me entregares tua esquadra? Pois que somos senhores do mar, não devemos recear o inimigo que está em Samos". Lisandro respondeu-lhe dizendo que o comando não mais lhe pertencia e sim ao seu sucessor; e, sem esperar pela resposta de Calicrátidas, seguiu para o Peloponeso, deixando esse almirante na maior perplexidade. Com efeito, êle não havia trazido dinheiro da Lacedemônia, e não podia forçar as cidades a pagar contribuições, pois sabia que já se achavam muito oneradas.

(1)      Provavelmente, alus ão de Plutarco às antigas leis dóricas.

(2)      Sardes,   capital da Lídia, hoje  Sart.

X. Não lhe restava outro recurso, assim, senão ir, como tinha feito Lisandro, procurar os lugar tenentes do rei da Pérsia, a fim de pedir-lhes dinheiro. Mas ninguém menos indicado do que êle para tal missão, pois possuía um espírito elevado e um grande amor à liberdade. Na sua opinião, era menos vergonhoso e menos condenável para os gregos serem derrotados e dominados por outros gregos do que irem cortejar e lisonjear bárbaros, os quais nada tinham de bom e de honesto, mas somente o mérito de possuírem muito ouro e prata. Cedendo, enfim, à necessidade, seguiu para a Lídia, dirigindo-se, logo após a sua chegada, ao palácio de Ciro. A um guarda, que viu junto à porta, pediu fosse dizer ao príncipe que Calicrátidas, almirante dos lacedemônios, desejava falar-lhe. E o guarda respondeu-lhe: "Estrangeiro, Ciro não tem tempo agora para receber-vos,, pois se acha à mesa!" Calicrátidas disse-lhe, então, simplesmente: "Está bem, esperarei aqui até que tenha terminado". Diante destas palavras, os bárbaros, tomando-o por um rústico, zombaram dele. Calicrátidas então retirou-se. Procurou Ciro uma segunda vez, e, como ainda não conseguisse falar-lhe, irritou-se e regressou, do mesmo modo como tinha vindo, à cidade de Éfeso, maldizendo e abominando aqueles que, antes dele, se tinham aviltado a ponto de se deixarem insultar por bárbaros, levando-os, assim, a se orgulharem de suas riquezas. Perante os que o acompanhavam, fêz o juramento de que, ao chegar a Esparta, o seu primeiro cuidado seria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para pôr termo às divergências existentes entre os gregos, a fim de que, tornando-se temíveis para os bárbaros, não tivessem mais de ir mendigar o seu auxílo, para se destruírem uns aos outros. Mas Calicrátidas, que, pela nobreza dos sentimentos, pela coragem e retidão, tão dignas de Esparta,  poderia  ser  comparado  com  justiça  aos maiores homens da Grécia, foi logo depois vencido e morto num combate naval, perto das ilhas Arginusas (1).

(1)    Perto de Lesbos.

XI. Os aliados dos lacedemônios, enfraquecidos por esta derreta, enviaram uma embaixada a Esparta, com a missão de pedir ao Conselho que recolocasse Lisandro no comando da esquadra, prometendo combater com maior ardor sob sua direção do que sob a de qualquer outro almirante. Ciro também enviou embaixadores, fazendo idêntico pedido. A lei não permitia, no entanto, que o mesmo homem servisse duas vezes como almirante. Mas os lacedemônios, desejando satisfazer o desejo de seus aliados, conferiram a dignidade de almirante a um certo Araco, e fizeram seguir com êle Lisandro, o qual, com o simples título de tenente da Marinha, gozava de toda a autoridade. Aqueles que cuidavam do governo das cidades, pelas quais eram responsáveis, desejavam a sua vinda fazia muito tempo, e por isso viram-no chegar com alegria, na’ esperança de que aumentaria o seu poder, destruindo os governos populares. Mas aqueles que preferiam comandantes de costumes simples e atitudes generosas não viam em Lisandro, comparado com Calicrátidas, senão um homem astuto e ardiloso, que, na maior parte das ações de guerra, recorria ao ludibrio e à surpresa, somente fazendo caso da justiça quando esta favorecia os seus interesses; mas em todos os outros casos êle apenas considerava como belo e honesto aquilo que se lhe afigurava útil. Não acreditava que a verdade fosse em si mesma preferível à mentira, ou que fosse mais poderosa, medindo o valor de uma e de outra de acordo com as vantagens que delas tirava. Quando lhe diziam que os descendentes de Hércules não deviam empregar na guerra burlas ou ardis, êle replicava com um tom zombeteiro: "Todas as vezes que a pele do leão não se mostra adequada é preciso coser nela a da raposa".

XII Este aspecto do caráter de Lisandro foi evidenciado pela sua conduta em Mileto. Seus hóspedes e amigos, a quem havia prometido apoio para destruir a autoridade do povo e expulsar da cidade os seus adversários, mudaram de opinião, e, como se reconciliassem com o partido contrário, Lisandro fingiu, em público, estar muito contente, mas, em particular, cobria seus amigos de injúrias, chamava-os de covardes e concitava-os a se erguerem contra o povo. Quando viu que a sedição estava para irromper, acudiu subitamente como se desejasse apaziguar os ânimos; e, logo após entrar na cidade, dirigiu as maiores invectivas aos primeiros que encontrou daqueles que desejavam introduzir inovações no governo, tratando-os com a maior rudeza e ordenando-lhes que o acompanhassem, como se quisesse   puni-los   severamente;   e   aos   do   partido oposto, disse, ao contrário, que nada receassem, assegurando-lhes que nada de mal lhes aconteceria enquanto estivesse entre eles. O objetivo desta simulação’ era reter na cidade os membros mais prestigiosos do partido popular, a fim de fazer com que todos morressem depois. Foi, com efeito, o que lhes aconteceu: todos aqueles que ficaram na cidade, confiantes em sua palavra, foram degolados.

XIII.          Andróclidas narrou, por escrito, frases que Lisandro costumava proferir e as quais demonstram a facilidade com que perjurava. "É preciso, dizia êle, enganar as crianças com o jogo dos ganizes, e os homens com juramentos". Queria desse modo imitar Polícrates,, o tirano de Samos, mas não tinha razão, pois era um legítimo general e o outro um usurpador violento e despótico. Além disso, não era próprio de um verdadeiro lacônio comportar-se com os deuses do mesmo modo como com os inimigos, ou ainda pior e de maneira mais injuriosa; pois aquele que engana outrem por meio de perjúrio declara que receia seu inimigo e despreza Deus.

XIV.            Tendo resolvido enviar a Lisandro a Sardes, Ciro deu-lhe bastante dinheiro e prometeu-lhe ainda mais; e para demonstrar-lhe com liberalidade ainda maior o desejo que tinha de o. remunerar, disse-lhe que, se um dia o seu pai nada lhe quisesse fornecer, tiraria de seus próprios rendimentos aquilo que lhe fosse necessário; e acrescentou que se tudo lhe viesse faltar, mandaria fundir o trono no qual distribuía a justiça, e que era de ouro e de prata maciços. Finalmente, quando chegou o momento de partir para a Média, a fim de encontrar-se com seu pai, êle lhe delegou poderes para recolher os impostos e tributos das cidades e confiou-lhe o governo de suas províncias; e, abraçando-o rogou-lhe que não atacasse por mar os atenienses antes de seu regresso, assegurando’-lhe que voltaria com um grande número de navios da Fenícia e da Cilícia. XV, Lisandro, depois da partida do príncipe, vendo que não podia combater seus inimigos com a esquadra que possuía, e nem permanecer ocioso com navios tão numerosos, fêz-se ao mar, ocupando algumas ilhas e pilhando duas delas, Egina e Saía-mina; desembarcou em seguida na Ática, onde foi cumprimentar o rei Ágis, dos lacedemônios. Este deixara o forte de Decélia a fim de que suas tropas pudessem ver as forças navais, as quais o tornavam senhor do mar numa medida maior do que teria ousado desejar. Lisandro, todavia, tendo sido informado de que a esquadra dos atenienses estava em sua perseguição, tomou outra direção, a fim de fugir para a Ásia através das ilhas. Encontrou toda a região do Helesponto completamente sem defesa, e cercou Lãmpsaco (1) por mar, enquanto que Tórax, ali chegado ao mesmo tempo que êle, assaltou a cidade pelo lado da terra, com suas forças. Lãmpsaco foi assim ocupada pela força e abandonada à pilhagem.

(1)    Cidade da Ásia Menor, quase junto à costa, à entrada da Propôntida.    Era famosa pelos seus vinhos.

XVI. Entrementes, a esquadra dos atenienses, constituída de cento e oitenta navios, ancorara diante de Eleonte (!1), no Quersoneso; mas, diante das notícias de que Lâmpsaco tinha sido ocupada, ela se dirigiu imediatamente para Sestos (2), e, após ali reabastecer-se, subiu até Egos-Pótamos, indo postar-se diante das naus inimigas, as quais ainda se achavam ancoradas junto à cidade de Lâmpsaco. A esquadra dos atenienses tinha vários comandantes, entre cs quais Fílocles, aquele que persuadira o povo de Atenas a mandar cortar o polegar direito a todos os prisioneiros de guerra, a fim de que não pudessem mais utilizar-se da lança, mas apenas puxar o remo. As duas esquadras repousaram naquele dia, na esperança de combater no dia seguinte. Mas Lisan-dro, que havia concebido outro plane, ordenou aos pilotos e marinheiros que se mantivessem em suas galeras como se tivessem de lutar desde as primeiras horas do dia; disse-lhes ainda que evitassem fazer qualquer ruído e que aguardassem suas ordens no mais profundo silêncio. Mandou igualmente dizer às forças de terra que se conservassem em ordem de batalha, junto à costa.

(1)      Foi depois denominada Novo Castelo da Europa, estando situada no estreito dos Dardanelos.

(2)      Cidade do Quersoneso, nas costas do Helesponto.

XVII.       Ao nascer do sol, no dia seguinte, os atenienses fizeram avançar as suas galeras numa só linha, em ordem de batalha, provocando o inimigo. Os navios dos espartanos tinham as proas voltadas para o inimigo, e estavam, desde a véspera, com todos os tripulantes a bordo; mas Lisandro não fêz qualquer movimento; ao contrário, enviou pequenos barcos em direção das galeras que se encontravam mais à frente, com a ordem a elas dirigidas de se manterem em posição de batalha, mas sem fazer qualquer ruído e nem avançar ao encontro do inimigo. À tarde, os atenienses retiram-se; mas, mesmo assim, êle somente permitiu que seus soldados desembarcassem depois que duas ou três galeras, por êle enviadas para observar a esquadra de Atenas, trouxeram-lhe a notícia de que os marinheiros inimigos haviam descido à terra. Nos três dias que se seguiram, êle fêz a mesma coisa. Esta conduta, inspirou aos atenienses uma grande confiança em si mesmos, e, ao mesmo tempo, um grande desprezo pelo inimigo, pois estavam certos de que era o medo a causa de sua inação.

XVIII,       Entrementes, Alcibíades, que então se encontrava no Quersoneso, nas praças fortes por êle ocupadas, dirigiu-se a cavalo ao acampamento dos atenienses, a fim de censurar os capitães do exército pelos grandes erros que haviam cometido; em primeiro lugar, porque tinham ancorado e mantido os navios diante de uma costa desprotegida, onde não havia abrigo para a esquadra no caso de alguma tormenta; a em segundo lugar, porque não deviam ter abandonado Sestos, de onde recebiam as suas provisões. Aconselhou-os a voltarem sem perda de tempo para esse porto, tendo-se em vista que a distância não era grande. Deste modo, ficariam mais longe do inimigo que, comandado agora por um único chefe, observava uma estrita disciplina, executando, a um simples sinal, todas as ordens que lhe eram dadas. Mas os capitães atenienses recusaram-se a concordar com estas observações, e um deles, Tideu, chegou mesmo a responder a Alcibíades de maneira insultuosa, dizendo-lhe que não era ele o comandante, e que havia outras pessoas encarregadas deste encargo, Alcibíades, suspeitando de alguma traição, retirou-se sem replicar.

XIX. No quinto dia, os atenienses, uma vez mais, apresentaram-se diante do inimigo; e, à tarde, depois de se terem retirado como de costume, com uma aparência de pouco caso e de desordem, Lisandro enviou na direção do adversário alguns galeotes, para observá-los. Seus comandantes seguiram com ordem de regressar rapidamente, logo que vissem os atenienses desembarcarem. Ao atingirem a metade do estreito, deviam parar para içar, na proa, na ponta de uma lança, um escudo de cobre, sinal ante o qual toda a esquadra avançaria. Êle próprio, em sua galera, pôs-se a percorrer toda a linha de navios, animando os pilotos e os capitães; e exortou-os a manterem seus barcos, bem como os soldados e marinheiros, prontos para atenderem ao primeiro sinal, a fim de avançar sobre o inimigo, com toda a sua força.

XX. Mal o escudo de cobre se elevara no ar, e da nau-capitânea ergueu-se o som de uma trombeta, dando o sinal de partida, imediatamente a esquadra começou a movimentar-se em boa ordem; e as forças de terra apressaram-se igualmente em alcançar o promontório que dominava o mar, para assistir ao desenrolar do combate. O estreito que separava as duas costas, naquele lugar, não tem mais de quinze estádios de largura, distância que foi transposta em pouco tempo, graças aos esforços dos remadores. O primeiro dos generais atenienses a avistar, de terra, a esquadra avançando a toda vela, foi Conão; e, incontinenti, ordenou aos soldados que se dirigissem para os barcos. Acabrunhado ante a ameaça que pesava sobre os navios, êle pôs-se a chamar uns, e advertir outros, forçando todos os que encontravam a subir para as embarcações. Mas seus esforços e seu zelo foram vãos: os soldados em sua maioria estavam dispersos, pois, como nada esperavam de novo, logo após o desembarque, tinham se dirigido para pontos diversos, a fim de comprar víveres ou passear no campo. Entre os que haviam ficado, uns dormiam em suas tendas, outros preparavam a refeição.    E todos, devido à inexperiência de seus chefes, estavam bem longe de imaginar aquilo que os ameaçava.

XXI O inimigo já se aproximava, avançando com grande ímpeto, no meio de altos gritos e grande ruído de remos, quando Conão, fugindo com oito galeras, retirou-se para a ilha de Chipre, junto de Evágoras. Entretanto, os peloponésios, investindo contra as outras galeras, apoderaram-se das que se achavam vazias, e abalroaram as que começavam a se encher de soldados. Os combatentes que acorriam para defender os navios, em grupos, e sem armas, foram mortos, e os que se puseram em fuga foram massacrados pelos adversários que, descendo do promontório, lançaram-se em sua perseguição. Lisandro fêz três mil prisioneiros, entre os quais os capitães atenienses. Apoderou-se ainda de toda a esquadra inimiga, com exceção do navio- sagrado denominado Páralo e das oito galeras que se puseram a salvo, por ordem de Conão, no começo da refrega. Lisandro, depois de amarrar as galeras apresadas nas popas das suas e de pilhar o acampamento dos atenienses, voltou para Lâmpsaco, no meio de cantos de triunfo e ao som de flautas. Êle acabava de participar, sem grande esforço, de um grande feito de guerra, tendo resumido, por assim dizer, no espaço de uma hora, todo o período de duração de uma guerra (1), cheia dos mais diversos e estranhos acontecimentos, e que teve, sucessivamente, as formas mais variadas e apresentou as mais incríveis vicissitudes, com um número infinito de batalhas em terra e mar, e que custou a vida de maior número de generais do que todas as outras guerras de que a Grécia havia sido até então teatro, guerra essa que finalmente chegou ao seu termo graças à astúcia e à habilidade de um só homem.

(1)   Esta   guerra   do   Peloponeso   durou   27   anos.       Terminou no  quarto   ano  da  octogésima-terceira  olimpíada,  405   anos  A.  C.

XXII. Este fetto foi mesmo considerado como obra dos deuses; e assegurou-se que, quando a esquadra lacedemônia saiu do porto de Lâmpsaco para investir contra o inimigo, as duas chamadas estrelas de Castor e Pólux (1) foram vistas brilhar sobre a galera de Lisandro, uma de cada lado. Outros pretendem que a queda de uma pedra prognosticou aquela derrota; pois, segundo muitos afirmam, caiu do céu, naquela época, sobre a costa de Egos-Pótamos uma grande pedra, que ainda hoje ali se vê, e da qual os moradores do Quersoneso fizeram um objeto de veneração. Diz-se ainda que o filósofo Anaxágoras tinha predito (2) que um dos corpos prêsbs à abóbada celeste seria um dia arrancado  por  forte  tremor  e  abalo,   e  que  cairia sôbrè a terra. Os astros, segundo este filósofo, não ocupam hoje os espaços nos quais haviam sido colo~ cados a princípio; como são de uma substância pesada, e da natureza da pedra, não brilham senão através da reflexão e da refração do éter; são retidos nas regiões superiores do universo pela revolução rápida do mesmo, que para ali os impeliu desde a formação do mundo, quando a violência do turbilhão que provocou a separação dos corpos frios e pesados das outras substâncias existentes, impediu-os de se destacarem dessas regiões elevadas, onde os retém ainda. Mas uma hipótese mais aceitável é a de que as chamadas estrelas cadentes não são, — e essa é a opinião- de alguns filósofos, — nem fusões, nem separações do fogo etéreo; elas se extinguem nos ares no mesmo momento em que se inflamam; não são, menos ainda, um abrasamento ou combustão do ar, que, condensado numa massa muito grande, escapasse para as regiões superiores, inflamando-se: são verdadeiros corpos celestes que, destacados do céu pelos abalos a que são submetidos, pelo enfraquecimento da revolução rápida do universo, ou por qualquer outro movimento extraordinário, caem sobre a terra, não em lugares habitados, mas com maior freqüência no grande mar Oceano, motivo por que não são vistos.

(1)    Trata-se de fenômenos de eletricidade, observados em todos os séculos, mas que somente muito tempo depois se tornaram melhor conhecidos.

(2)    Plínio,  II,  58,  zomba  com  razão,   desta  pretensa  predição feita,  ao  que se afirmou,  por Anaxágoras, no segundo  ano  da  78 olimpíada.

XXIII. Todavia, a opinião de Anaxágoras é confirmada por Damaco, que, no seu "Tratado de Religião", conta que, antes da queda da pedra, viu-se, sem interrupção, no céu, durante setenta e cinco dias, um globo de fogo, semelhante a uma nuvem inflamada, que não se mantinha parado no mesmo lugar; mas que, flutuando de um lado para outro através de movimentos contrários e irregulares, era impelido com tanta violência, que dele se desprendiam partes inflamadas, as quais, caindo em vários lugares, lançavam clarões semelhantes aos das estrelas cadentes. Quando este grande corpo de fogo caiu nas costas do Helesponto, e depois que os moradores da região, recuperando-se de seu es panto, acorreram para examiná-lo, não encontraram nele nenhum indício, nenhum traço de fogo; não viram senão uma pedra imóvel, que, embora muito grande, parecia apenas uma pequena porção do globo de fogo visto antes. Ora, todos vêem aqui que Damaco necessita de leitores indulgentes; mas se seu relato fôr verdadeiro, constitui uma refutação vitoriosa da opinião daqueles que pretendem ser a referida pedra uma massa de rochedo, a qual, arrancada pela violência de um vento de tempestade do cimo de uma montanha-, elevada pelos ares enquanto perdurara a força do turbilhão, caíra logo que tal força diminuíra. Poder-se-aa também dizer que este globo luminoso, que apareceu no céu durante vários dias, estava verdadeiramente inflamado, e, em seguida, extinguindo-se e dissipando-se na atmosfera, nela provocou uma mudança extraordinária, causando ventos impetuosos e abalos violentos, que destacaram essa pedra e a lançaram sobre a terra. Mas trata-se de um assunto próprio para ser discutido, mais amplamente, em outra espécie de tratado.

XXIV, Entrementes, tendo sido condenados pelo conselho de guerra (1) os três mil atenienses aprisionados, Lisandro mandou chamar F?locles, um dos generais, e perguntou-lhe de que pena êle se considerava merecedor por haver aconselhado aos seus concidadãos, em Atenas, a adoção de um decreto cruel contra os prisioneiros (2). Fílocles, que não se deixava abater nem mesmo diante das maiores calamidades, respondeu-lhe: "Não acuseis aqueles que não contam com juizes; e, pois que os deuses vos fizeram vencedor, fazei de nós aquilo que teríamos feito de vós, se vos tivéssemos vencido". Logo após pronunciar estas palavras foi banhar-se e vestiu em seguida rico manto, como se tivesse de ir a alguma festa, e dirigiu-se ao local da matança, mostrando o caminho aos seus concidadãos, segundo a narrativa de Teofrasto.

(1)     Plutarco não conta o motivo deste julgamento. Xeno-fonte (Hist. L. II.) no-lo narra. Os atenienses foram acusados de haver lançado ao mar todos os cativos de duas galeras e terem resolvido em plena assembléia cortar as mãos de todos os inimigos que aprisionassem. Eles foram todos condenados a morte, com exceção de Adimante, que se opusera a esse decreto. Vide as sábias reflexões de Montesquieu sobre a força das penas. (Esprit des Lois, IV, 12).

(2)     Ou seja, cortar as mãos de todas os prisioneiros, segundo conta Xenofonte.

XXV, Após a execução, Lisandro percorreu com sua esquadra as cidades marítimas, e obrigou todos os atenienses que nelas encontrou a se retirarem para Atenas, dizendo-lhes que não perdoaria a nenhum daqueles a quem surpreendesse fora da cidade, os quais seriam degolados. O seu objetivo, ao encerrá-los todos em Atenas, era esfomear a população mais depressa; assim, não contando com provisões para suportar um longo sítio, os atenienses se renderiam. Em todas as cidades por onde passava, destruía a democracia ou qualquer outra forma de governo do povo, e nelas deixava um capitão’ ou governador lacedemônio, com um conselho de dez oficiais, escolhidos entre aqueles que anteriormente haviam mantido ligação ou amizade com êle. Submetia a este tratamento tanto as cidades que sempre haviam sido aliadas dos lacedemônios quanto as que eram suas inimigas. E navegando ao longo das costas, lentamente, sem nunca se apressar, foi estabelecendo como que um principado, um domínio sobre toda a Grécia; pois não era nem a nobreza nem a fortuna que o orientavam na escolha dos magistrados; êle reservava todos os cargos e honra-rias aos que pertenciam àquelas associações por êle estabelecidas, dando-lhes inteira liberdade para punir ou recompensar. Assistia com freqüência ao suplício dos proscritos, expulsava os inimigos daqueles que lhe eram devotados, e proporcionava aos gregos um antegosto pouco agradável do que seria um governo lacedemônio.

XXVI. Êste o motivo por que o poeta cômico Teopompo (1) parece gracejar quando, comparando os lacedemônios aos taverneiros, diz que, após terem feito os gregos saborear o doce licor da liberdade nele misturaram vinagre. Ao contrário, desde o começo, a sensação que proporcionaram aos gregos com o seu modo de governar foi a de amar-gor e azedume; pois Lisandro não deixou em nenhuma cidade o povo no governo, confiando sempre a autoridade nas mãos de um pequeno número, escolhidos entre os mais violentos e audaciosos, e sediciosos, que houvessem em cada cidade. Depois de terminar, em pouco tempo, estas modificações, enviou mensageiros à Lacedemônia para anunciar que para ali se dirigiria com duzentos navios. Nas costas da Ática, onde desembarcou, encontrou-se com os reis de Esparta, Ágis e Pausânias, na esperança de se tornar logo senhor de Atenas. Mas a resistência dos atenienses obrigou-o a dirigir-se, uma vez mais, para a Ásia, onde acabou de modificar a forma de governo de todas as cidades, estabelecendo conselhos de dez arcontes e condenando a morte ou ao exílio grande número de cidadãos. Expulsou os sâmios (1) de sua pátria, entregando Samos àqueles que haviam sido banidos. Apoderou-se de Sestos, que ainda se achava em poder dos atenienses, e, depois de obrigar todos os moradores a sair, deu a cidade e seu território aos pilotos e galeotes (3), que haviam estado na guerra sob seu comando. Este foi o primeiro dos atos de Lisandro que os lacedemônios desaprovaram: eles restituíram aos sestíacos sua cidade e suas terras.

(1)           N ão é do poeta, mas do historiador, discípulo de Isócrates, que estas palavras são tiradas. Vide Muret (Var. Lect VII, 17). (Brotier). Muret se baseia naquilo que Teodoro Meto chita cita de passagem como sendo de Teopompo, o historiador; mas o testemunho deste escritor não tem peso, bastante para que deva corrigir Plutarco. (C).

(2)    Plutarco inverte aqui a ordem dos fatos, pois este epis ódio de Samos só se verificou, segundo Xenofonte, após a demolição das muralhas de Atenas, de que se tratará em breve.

(3)    No grego: aos pilotes e aos celeustas. Estes últimos fiscalizavam a preparação e a distribuição dos alimentos nos navios. Suidas atribui-lhes autoridade sobre os soldados e os remadores, que eram por eles animados, seja durante as viagens, seja durante os combates.

XXVII.      Estes atos de Lisandro desagrada ram muito aos gregos, mas houve outros que lhes causaram grande prazer, entre os quais a restituição aos eginenses de suas casas e de suas terras, das quais haviam sido expulsos fazia muito tempo. A mesma coisa fêz em relação aos habitantes de Sicião e Meios, os quais recuperaram suas propriedades após  a  expulsão  dos atenienses  daquelas   cidades.

XXVIII.        Entrementes, Lisandro, informado de que os atenienses estavam lutando com uma seria escassez de víveres, rumou para o porto de Pireu, e forçou Atenas a render-se, impondo-lhe suas condições. A dar crédito aos lacedemônios, ele escreveu aos éforos de Esparta apenas estas palavras: "Atenas foi ocupada". E os éforos lhe responderam: "Basta que ela seja ocupada". Mas trata-se de uma invenção para tornar a narrativa mais bela. Na realidade, o ato de capitulação enviado pelos éforos estava redigido nestes termos: "Eis o que ordenam os magistrados da Lacedemônia: demolireis as íortificações de Pireu e as longas muralhas que unem o porto a cidade; evacuareis todas as cidades que conquistastes, e permanecereis dentro dos limites do vosso território. Mediante estas condições,- tereis a paz; pagareis igualmente aquilo que fôr julgado conveniente; e chamareis os banidos. Quanto ao número de navios, devereis conformar-vos com o que fôr resolvido". Os atenienses, seguindo o conselho de Terâmenes, filho de Agnão, aceitaram os artigos deste fatal decreto; e como um jovem orador ateniense, chamado Cleômenes, lhe perguntasse publicamente se ele ousaria dizer e fazer o contrário do que havia feito Temístocles, entregando aos lacedemônios as muralhas que o mesmo Temístocles havia construído, não obstante a oposição do adversário, êle respondeu incontinenti: "Jovem, nada faço que seja contrário ao que foi feito por Temístocles. Pois foi tendo em vista a salvação dos atenienses que êle construiu  cutrora  estas  muralhas;   assim,  é  igualmente tendo em vista a salvação dos cidadãos que agora vamos demoli-las. Se forem as muralhas que tornam as cidades felizes, Esparta, que não as possui, deve ser a mais infeliz de todas as cidades",

XXIX. Lisandro recebeu todos os navios dos atenienses, com exceção de doze, e tomou posse da cidade no dia dezesseis de março (1), dia no qual os atenienses tinham alcançado sobre os bárbaros a vitória de Salamina, contra o rei da Pérsia. Logo após a sua entrada na cidade êle propôs que se mudasse a forma de governo; como os atenienses a isso se opusessem vivamente, Lisandro mandou dizer-lhes que não tinham obedecido aos artigos do tratado assinado, pois que haviam decorrido os dez dias do prazo dado, e as muralhas da cidade ainda estavam de pé; diante disso resolvera reunir o conselho a íim de ditar-lhes outras condições, pois que as do primeiro tratado tinham sido violadas. Afirma-se que foi proposta no conselho dos aliados a escravização de todos os atenienses, e que um tebano, chamado Erianto, aconselhou que se arrasasse a cidade e que se transformasse todo o país em pastagens para os rebanhos. Esta reunião foi seguida de um festim, com a presença de todos os generais tendo um musicista fócio cantado estes versos do primeiro coro da tragédia Electra, do poeta Eurí-pides, que assim começa  (1):

Filha de Agamenon, princesa infeliz,
 Ao vosso palácio, outrora celebrado,
Chego,   para   em   ruínas   encontrá-lo,

Estas palavras comoveram os convivas, e todos exclamaram que seria horrível destruir uma cidade tão famosa, e que havia produzido tão grandes homens e tão nobres espíritos.

(1)   No grego: munychion.

XXX. Tendo os atenienses se submetido inteiramente, Lisandro mandou reunir na cidade um grande número de tocadoras de flauta, as quais se juntaram às que já se encontravam em seu acampamento, e, ao som da música, mandou arrasar as muralhas e incendiar os navios, na presença dos aliados e confederados da Lacedemônia, os quais, coroados de flores e considerando esse dia como a aurora da verdadeira liberdade, entregaram-se às maiores demonstrações de alegria. Logo depois êle modificou a forma de governo de Atenas, estabelecendo um conselho de trinta arcontes na cidade e de dez no Pireu, conselhos estes que gozavam de toda a autoridade; colocou uma guarnição na cidadela, sob o comando de .um nobre espartano chamado Calíbio (2).   Este comandante ergueu um dia o seu bastão sobre Autólico, homem robusto e disposto à luta, sobre o qual Xenofonte compôs o seu Convívio (1), Este ergueu então Calíbio pelas duas coxas, rapidamente, e, atirou-o no chão, de costas. Lisandro não somente não o puniu como censurou Calíbio, dizendo-lhe que êle devia lembrar-se de que tinham de comandar homens livres e não escravos. Todavia, alguns dias depois, os Trinta, para agradar a Calíbio, mandaram matar Autólico.

(1)        Electra, vide 167.

(2)     Pausànias  chama-o  de Eteônico,  e conta esta história  de maneira um pouco diferente. (C).

XXXI Depois de haver assim agido em Atenas, Lisandro partiu para a Trácia (2); e o que lhe restou do ouro e da prata de que se apoderara na cidade, dos presentes que recebera, das coroas que lhe haviam mandado, as quais deviam ser numerosas pois que eram enviadas ao homem mais poderoso e, de certo modo, ao senhor da Grécia, êle remeteu para Esparta, por intermédio de Gilipo, que havia comandado os siracusanos na Sicilia, Gilipo, ao que se conta, descosturou todos os sacos, pela parte debaixo, tirou de cada um uma boa soma, e em seguida os recoseu; êle não sabia que havia em cada saco uma lista com a relação de todas as peças de ouro e de prata que continha. Após chegar a Esparta, ocultou sob o teto de sua casa o dinheiro , que tinha roubado, e entregou os sacos aos éforos, mostrando-lhes   que   os selos   colocados   na   parte superior dos mesmos por Lisandro estavam intactos. Os éforos, após abrir os sacos e contar o dinheiro, verificaram que as somas não coincidiam com as listas. Não sabiam o que pensar, até que um escravo de Gilipo lhes revelou, com palavras dissimuladas, o roubo; disse-lhes, com efeito, que havia sob o telhado da casa de seu senhor um grande número de corujas, e isto porque a maior parte das moedas de ouro e prata cunhadas na Grécia tinha nelas, gravada, uma coruja, ave venerada pelos atenienses.

(1)     No grego; o-Banquete.

(2)     Xenofonte escreve que êle seguiu, não para a Trácia, mas para Samos.

XXXII. Gilipo foi banido da Lacedemônia, após ter deslustrado, com uma ação tão vil e indigna, todos os seus belos e grandes feitos de armas anteriores. Entretanto, os mais sensatos cidadãos de Esparta, impressionados com esse exemplo, e temendo o poder do dinheiro, tão forte que corrompera um de seus cidadãos mais conceituados, censuraram abertamente Lisandro, e declararam aos éforos que deviam fazer sair de Lacedemônia todo o dinheiro que para ali tinha sido enviado, como se tratasse de uma peste, perigo que se tornava maior pelo fato de revestir-se de formas sedutoras. A questão foi submetida à deliberação do conselho; e, segundo o historiador Teopompo, foi um cidadão chamado Cirafidas quem propôs o decreto. Segundo Éforo, a iniciativa foi de Flogidas, que foi o primeiro a opinar no conselho, dizendo que não se devia receber na cidade de Esparta nenhuma moeda de ouro ou de prata, e que apenas a do país devia "ser usada. Tratava-se de uma moeda de ferro, que se fazia primeiramente avermelhar no fogo, e que era em seguida temperada no vinagre, a fim de que, tornando-se áspera e quebradiça, não pudesse ser forjada nem utilizada para outros fins. Era, aliás, tão pesada que não podia ser transportada facilmente;’ e, por isso, quando o seu volume era muito grande, o valor diminuía. E, antigamente, ao que me parece, as moedas de uso corrente eram somente dessa espécie, ou seja, pequenos bastões de ferro e em alguns lugares de cobre; daí o fato de existirem até hoje pequenas peças que têm o nome de óbolo, seis das quais fazem uma dracma, assim chamada porque era tudo o que a mão podia conter. Os amigos de Lisandro opuseram-se ao decreto, e tanto insistiram que, de acordo com uma decisão do conselho, o dinheiro ficou em Esparta, com a condição de ser apenas utilizado nos negócios públicos. Todos os particulares que fossem encontrados com tal dinheiro em seu poder seriam punidos com a morte, como se Licurgo, quando elaborou suas leis, tivesse receado o ouro e a prata e não a avareza que deles resulta. Para prevenir esta paixão não adiantava muito proibir aos particulares a posse destas moedas de ouro e prata, pois que, autorizan-do-se a cidade a usá-las, contribuía-se para torná-las mais cobiçadas. Seria possível, com efeito, que os particulares as desprezassem como inúteis, quando eram publicamente estimadas?     E cada  espartano poderia, em seus próprios negócios, deixar de atribuir valer àquilo que aos seus olhos era tão procurado para os negócios públicos? Assim, devemos admitir que são os bons ou maus costumes na conduta dos negócios públicos que influenciam os costumes dos particulares; e que os erros e os vícios destes não contribuem tanto, assim, para a depravação das cidades e a má conduta da coisa pública. ,É natural que um todo viciado leve facilmente suas partes à corrupção; enquanto que, ao contrário, as afecções de uma única parte podem receber auxílio e remédio das outras partes sãs e inteiras. Os éforos, e verdade, para evitar que o dinheiro amoedado’ fosse ter às mãos dos cidadãos, colocaram como sentinelas, junto às residências deles, o temor e a lei; mas não puderam fechar o espírito dos espartanos aos desejos e paixões provocadas pelo dinheiro; ao contrário, fizeram nascer em todos eles o desejo de enriquecer, coisa que consideravam digna e respeitável. Aliás, já censuramos, em outro lugar, os lacedemônios pela sua conduta (1).

(1)   Vide a Vida de Licurgo, capítulo LXII.

XXXIII Lisandro, com o produto da presa de guerra, mandou fazer a sua estátua em bronze, bem como as de todos os comandantes das galeras; estas estátuas foram colocadas no templo de Delfos, juntamente com duas estrelas de ouro, que representavam Castor e Pólux, e que desapareceram pouco tempo antes da batalha de Leuctres, não se sabendo qual o seu destino. No tesouro de Brásidas e dos acântios havia também uma galera feita de ouro e de marfim, com dois côvados de comprimento, que Ciro havia enviado a Lisandro depois de sua vitória sobre os atenienses. Anaxandridas (1), historiador natural da cidade de Delfos, conta que Lisandro tinha depositado, no templo, um talento de prata, cinqüenta e duas minas e onze peças de ouro, deno-minadas estáteres. Mas essa afirmação não está de acordo com o que dizem os outros historiadores sobre a sua pobreza.

XXXIV. Lisandro tinha então maior autoridade e poderio do que qualquer outro grego antes dele; deixou-se, contudo, dominar por uma vaidade e orgulho que ultrapassavam os seus méritos. Como escreve o historiador Duris (2), foi o primeiro dos gregos a quem as cidades ergueram altares e ofereceram sacrifícios como a um deus; foi ainda o primeiro a ter a honra de ser objeto de hinos em seu Iquvor, um dos quais, de que há ainda hoje memória, começava assim:

Da Grécia, país dos  deuses  amado,
 Celebremos, o incomparável herói,

Que à  vitória os gregos conduziu,
Cantemos, exaltemos seus feitos!

Os sâmios ordenaram, através de um decreto público, que as festas de Juno passassem a ser deno-minadas festas de Lisandro, ou Lisândria. Êle pró-prio se fazia acompanhar do poeta Quérilo, a fim de que êle, com o encanto de sua poesia, tornasse mais bela a narrativa de suas ações. Tendo outro poeta, Antílcco, composto alguns versos em seu louvor, êle ficou tão enlevado, que lhe deu o seu chapéu cheio de dinheiro. Dois outros, Antímaco, de Colofão, e Nicerato, de Heracléia, fizeram, cada um, um poema, em sua honra, disputando diante dele o prêmio. Lisandro conferiu a coroa da vitória a Nicerato, e Antímaco ficou tão despeitado que destruiu seu poema. Platão, então muito jovem, admirava o talento poético de Antímaco; e vendo como o afetara o malogro, disse-lhe, para consolá-lo, que a ignorância é para o espírito aquilo que a cegueira é para os olhos. Finalmente, o excelente tocador de lira Aristonous, que saíra vencedor seis vezes nos jogos pítios, querendo obter as boas graças de Lisandro, prometeu-lhe que, caso saísse vencedor uma vez mais, far-se-ia proclamar seu escravo.

(1)     Também chamado Alexandridas.

(2)     Historiador da ilha de Samos, da qual foi tirano, segundo Ateneu.    Viveu na época de Ptolomeu Piladelfo.

XXXV. A ambição de Lisandro a princípio era temível e odiosa apenas para os principais cidadãos e as personagens de sua categoria; mas quando a essa paixão êle acrescentou a arrogância e a crueldade, fruto das lisonjas daqueles que o cercavam, a maneira como passou a recompensar os amigos ou a punir os inimigos não teve mais medida ou limites. O governo despótico nas cidades, um poder absoluto de vida e de morte, foram para seus amigos e hóspedes o prêmio da ligação que haviam contraído com êle. E não conheceu mais senão uma maneira de saciar sua sede de vingança, a morte daqueles a que visava, e não havia nenhum meio de a ela escapar. Em Mileto, receando que os chefes do partido popular fugissem, e querendo obrigar aqueles que se tinham escondido a sair de seus esconderijos, jurou que não lhes faria qualquer mal; mas apenas apareceram, confiando em sua palavra, êle os entregou aos ncbres, seus adversários, os quais os mandaram matar, não obstante não serem menos de oitocentos. Nas outras cidades, a mesma coisa aconteceu, e não se poderia contar o número de pessoas do povo que mandou assassinar; pois não contente de sacrificá-los ao seu ressentimento pessoal, satisfazia também o ódio, as aversões e a cobiça dos amigos que tinha em cada localidade. Etéocles, o lacedemônio, teve assim razão em dizer que a Grécia não teria podido suportar dois Lisandros. Segundo Teo-frasto, a mesma coisa já tinha sido dita a respeito de Alcibíades por Arquestrato. Mas o que chocava mais em Alcibíades era uma grande insolência, muito luxo e vaidade, que desagradavam aos homens; mas em Lisandro a excessiva dureza de seu caráter e a severidade de seus costumes tornavam o seu poderio cruel e insuportável.

XXXVI. Os lacedemônios, todavia, não deram grande importância às queixas que se faziam contra êle; mas quando Farnabazo enviou embaixadores a Esparta para acusar Lisandro pelas injustiças e injúrias de que era vítima, pois que as províncias de seu governo eram pilhadas e devastadas, os éforos, indignados, prenderam Tórax, um de seus amigos e companheiro no comando; e, verificando que êle tinha ouro e prata em sua residência particular, não obstante o decreto proibindo tal coisa, condenaram-no a morte, e enviaram a Lisandro aquilo que chamavam a citai, o que eqüivalia a dizer-lhe que devia voltar logo após tê-la recebido. Devo dizer o que é uma citai: quando um general parte para uma expedição, terrestre ou marítima, os éforos tomam dois bastões redondos, de um comprimento e tamanho tão perfeitamente iguais que, quando justapostos, não deixam entre eles nenhum vão. Ficam com um destes bastões e dão o outro ao general. Estes bastões são por eles chamados citais. Quando têm algum segredo importante a comunicar ao general, tomam uma folha de perga-minho, longa e estreita como uma correia, e a enrolam em torno da citai que conservaram em seu poder, sem nela deixar o menor intervalo, de modo que a superfície do bastão fica inteiramente coberta. Escrevem então o que desejam nesta folha assim enrolada, e, isto feito, desenrolam-na e a enviam sem o bastão, ao general. Este, ao recebê-la, nada consegue ler, porque as palavras, todas elas separadas e esparsas, não formam qualquer sentido. Toma então a citai em seu poder, e enrola em torno dela a folha de pergaminho, cujas voltas, coincidindo, recolocam as palavras na ordem que haviam sido escritas, apresentando assim todo o texto. Este pequeno rolo de pergaminho chama-se também citai, do mesmo modo como o bastão de madeira, como aquilo que é medido toma é nome da coisa que lhe serve de medida.

XXXVII. Lisandro, que se achava então no Helesponto, ficou surpreso’ e perturbado ao receber a mensagem; receava sobretudo as acusações de Far-nabazo, e, na esperança de apaziguá-lo, apressou-se em ir ao seu encontro. Quando com ele se avistou, pediu-lhe que. escrevesse aos éforos outra carta, dizendo o contrário do que fora dito na primeira, isto é, que não havia sido vítima de nenhuma injustiça e que nenhuma queixa tinha a fazer. Mas não sabia que, êle próprio cretense, tinha que se haver com outro cretense, como diz o provérbio. Farnabazo tudo prometeu, escrevendo na presença de Lisandro a carta, tal como este desejava; mas, secretamente, preparara outra, que dizia o inverso; e como as duas cartas eram perfeitamente semelhantes, êle substituiu a que escrevera por último pela que preparara antes, e, após fechá-la, confiou-lha.    Lisandro, ao chegar a Esparta, dirigiu-se, de acordo com o cos tume, ao edifício onde tinha sua sede o Senado, e entregou a carta de Farnabazo, certo de que esta o livrava das principais e mais perigosas acusações que se lhe poderiam fazer. Farnabazo era muito estimado pelos senhores lacedemônios, porque de todos os generais do rei da Pérsia, fora êle que, durante a guerra os socorrera com maior solicitude.

XXXVHL Os éforos, depois de lerem a carta, mostraram-lha, e êle verificou então a verdade do provérbio que diz:

Ulisses, entre os gregos, não era o único astuto.

Êle retirou-se confuso e perturbado. Todavia, alguns dias depois, voltou à sede do conselho à procura dos éforos, e disse-lhes que não podia deixar de ir ao templo de Júpiter Amon, a fim de ali fazer os sacrifícios que tinha prometido ao deus antes das batalhas de que saíra vitorioso. Com efeito, afirma-se que, quando assediou a cidade de Afites, na Trácia, o deus Amon apareceu-lhe em sonho; e êle, interpretando esta aparição como uma ordem de Júpiter, levantou o cerco da cidade, e disse aos afítios que fizessem sacrifícios àquele deus. Por sua vez, êle desejaria dirigir-se à Líbia, a fim de cumprir as promessas que havia feito. Mas acredita-se, geralmente, que o deus não era senão um pretexto, e que o verdadeiro motivo dessa viagem era o temor que tinha dos éforos, a necessidade que sentia em ausentar-se. Além disso, não podia suportar o jugo a que era submetido quando se encontrava em Esparta e nem tolerava ficar sob as ordens de outrem; e daí o seu desejo de viajar, de errar de um lado para outro. Podia ser comparado a um corcel que, acostumado a pular em liberdade em amplas pastagens, não mais conseguia habituar-se à sua estrebaria, nem aos seus antigos trabalhos. Éforo, entretanto, apresenta para esta viagem uma outra causa, que narrarei daqui a pouco.

XXXIX. Conseguindo, finalmente, uma licença, e não sem pena, êle fêz-se ao mar. No entanto, durante a sua ausência, os reis da Lacede-mônia, após se darem conta de que Lisandro se tornara como um senhor absoluto de toda a Grécia, pois que todas as cidades a êle prestavam obediência através da autoridade dos amigos que tinha em cada uma delas, decidiram entregar o governo dessas cidades ao povo, afastando os que nelas desfrutavam de um poder soberano. As repercussões que esta decisão provocou proporcionaram aos banidos de Atenas uma oportunidade para atacar os Trinta tiranos, após se apoderarem do castelo de Fila, e derrotá-los. Lisandro, cientificado do que acontecia, voltou apressadamente a Esparta, onde persuadiu os ; lacedemônios a sustentarem o governo dos nobres e punirem a rebelião do povo. Decidiram, então, enviar, primeiramente, cem talentos aos Trinta tiranos, para continuarem a guerra, e nomearam Lisan-dro para o posto de comandante. Mas os reis, que o invejavam, receando que ocupasse Atenas pela segunda vez, resolveram que um deles se encarregaria dessa missão. Pausânias partiu, então, aparentemente para sustentar os tiranos contra o povo, mas, na realidade, para terminar a guerra e impedir que Lisandro, apoiado pelos seus seguidores, se tornasse mais uma vez senhor de Atenas. Pausânias não encontrou dificuldades em. sua missão. Após reconciliar os atenienses, pôs termo à sedição e às divergências, e reprimiu a ambição de Lisandro. Mas pouco tempo depois, os atenienses se subleva-ram de novo contra os lacedemônios; e Pausânias foi acusado de haver deixado as rédeas soltas, como se dizia, à licenciosidade e à audácia do povo, que antes era contido pela autoridade do governo da minoria. De Lisandro, ao contrário, diziam que, no exercício da autoridade, não satisfazia apetites nem recorria a ostentação, e que tinha em vista apenas os interesses da pátria.

XL, É verdade que êle revelava orgulho em suas palavras e mostrava-se terrível diante dos que lhe opunham resistência. Certa ocasião, como os argivos estivessem disputando com os espartanos por motivo de suas fronteiras, êle lhes disse, apontando a espada: "Aquele que é mais forte com esta, raciocina melhor do que qualquer outra pessoa sobre, questão de limites".    De outra feita, um habitante de Mégara, durante uma reunião do conselho, pôs-se a falar-lhe com muita liberdade e audácia. "Meu amigo, disse-lhe êle, tuas palavras necessitariam de uma cidade", Com estas palavras quis dizer que êle era filho de uma cidade muito fraca. E aos beócics, que hesitavam em declarar-se amigos ou inimigos da Lacedemônia, mandou perguntar como queriam que êle passasse pelo seu país: se com as lanças erguidas ou abaixadas. Quando os coríntios abandonaram a sua aliança com Esparta, fêz suas tropas chegarem até às muralhas deles; e como os soldados hesitassem em dar início ao assalto, discutindo os prós e contras, êle lhes disse, no momento em que viu uma lebre sair dos fossos da cidade: "Não vos envergonhais de temer inimigos medrosos e preguiçosos a ponto de as lebres dormirem junto às suas muralhas?"

XLI. Entrementes, o rei Ágis morreu, deixando Agesilau, seu irmão, e Leotíquides, que era considerado seu filho. Lisandro, que estimava muito Agesilau, desde a sua juventude, aconselhou-o a reivindicar o trono, como único representante legítimo da raça dos heráclidas. Com efeito, suspeitavam-se de que Leotíquides era filho de Alcibíades, o qual, quando de sua estada em Esparta, após ter sido banido de Atenas, mantivera relações com Timéia, mulher de Ágis. O próprio rei, tendo em vista o tempo que estivera ausente, concluíra que não fora o causador da gravidez de sua esposa, e não demonstrara muito interesse por Leotíquides, è não ocultara, até o fim da vida, que não o reconhecia como filho. No entanto, ao contrair a enfermidade de que morreu, êle se fêz transportar para Heréía; e como estivesse à morte, instado de um lado pelo jovem, e, do cutro, pelas súplicas dos amigos, declarou, na presença de várias testemunhas, que reconhecia Leotíquides como filho, morrendo após ter pedido aos presentes que comunicassem a sua declaração aos lacedemônios. Assim, depuseram todos em favor de Leotíquides, Mas Agesiíau, que tinha a seu favor altas qualidades, e, o que era ainda mais importante, o apoio de Lisandro, já levava vantagem sobre êle, quando Diópites, homem tido como muito versado no conhecimento das antigas profecias, veio prejudicar grandemente a sua pretensão, ao anunciar um oráculo por êle aplicado ao irmão do rei, que era manco:

Toma cautela, nação espartana,
 Para que, agora, que estás no apogeu,
Uma realeza manca não venha
As tuas vitórias comprometer.

Tu, que és valente e audaciosa,
Deves evitar a má fortuna,
E os males de uma guerra demorada,
Que a vida de todos extermina.

XLII A maior parte dos espartanos, diante desse oráculo, inclinou-se para o lado de Leotíqui-des. Mas Lisandro demonstrou-lhes que Diópites não apreendera o verdadeiro sentido do oráculo, afirmando que o deus não se opunha a que um coxo ocupasse o trono da Lacedemônia; e que dera somente a entender que a realeza ficaria como manca, se bastardos, se pessoas indignas da raça de Hércules viessem a reinar sobre os heráclidas. Esta interpretação, apoiada pela autoridade, e pelo crédito de que gozava Lisandro, fêz com que todos mudassem de opinião, e Agesilau foi declarado rei da Lacedemônia. Lisandro procurou logo convencê-lo de que deveria levar a guerra à Ásia, fazendo-o conceber a esperança de que destruiria o império dos persas e de que ofuscaria a glória de todos os guerreiros que haviam existido antes dele. Ao mesmo tempo, escreveu aos seus amigos da Ásia, dizendo-lhes que pedissem, em Esparta, a nomeação de Agesilau para comandar a guerra contra os bárbaros. E eles o fizeram, sem perda de tempo, enviando embaixadores a Esparta. A honra que Lisandro proporcionava desse modo a Agesilau igualava quase a decorrente da realeza. Mas os homens por natureza ambiciosos, embora perfeitamente aptos para o comando, encontram no ciúme que lhes inspira, contra seus semelhantes, o amor da glória, um grande obstáculo às belas ações que poderiam praticar; eles não vêem senão  rivais naqueles  que  os auxiliariam   a   percorrer   com  honra   a  carreira   da virtude.

XLIII Agesilau, tendo sido escolhido para dirigir tal. empresa, levou Lisandro consigo; e dos trinta espartanos que formavam seu conselho, era êle a quem pretendia consultar com mais freqüência em todas as questões, pois o considerava como o primeiro de seus amigos. Quando chegaram à Ásia, os moradores do país, que não tinham ainda familiaridade com Agesilau, viam-no raramente e falavam pouco com êle. Mas conhecendo Lisandro havia muito tempo, todos o procuravam e o acompanhavam, por toda parte, uns como amigos, outros por o temerem e não confiarem nele. Não é raro ver-se, nos teatros, quando se representam tragédias, que o ator que faz o papel de mensageiro ou de escravo é aplaudido e considerado como a principal personagem, enquanto aquele que ostenta o diadema e segura o cetro é apenas ouvido. O mesmo acontecia em relação a Agesilau e Lisandro: a este, que não era senão um simples conselheiro, era atribuída toda a dignidade do comando, não se deixando ao rei senão um título sem nenhum poder. Era preciso, sem dúvida, reprimir esta ambição excessiva e deixar a Lisandro o segundo papel, com o qual devia contentar-se; mas rejeitar e mesmo maltratar, por ciúme e sede de glória, um benfeitor e amigo, é o que Agesilau jamais deveria ter feito. Em primeiro lugar, êle não lhe proporcionou nenhuma ocasião para assinalar-se e nem o encarregou de nenhum comando; em segundo lugar, todos aqueles por quem Lisandro demonstrava interesse eram por ele mandados para suas casas sem nada obter do que desejavam, depois de serem tratados como se fossem pessoas da mais ínfima condição. Assim agindo, foi destruindo pouco a pouco toda a autoridade de seu rival.

XLIV. Quando Lisandro viu que seus pedidos eram sempre recusados e ‘que seu interesse pelos amigos se tornava para eles prejudicial, cessou completamente de interceder em seu favor junto a Agesilau. e pediu-lhes que não mais o procurassem, que não mais permanecessem ligados à sua pessoa, dizendo-lhes que se dirigissem diretamente ao rei e que procurassem a proteção daqueles que pudessem ser-lhes mais úteis. Aceitando seu conselho, deixaram todos de procurá-lo para tratar de negócios, mas não de homenageá-lo; assim é que insistiam em acompanhá-lo em seus passeios e aos lugares onde se faziam exercícios. Esta conduta fez com que Agesilau se irritasse ainda mais, tal a inveja que tinha pela sua glória; e sua animosidade chegou a tal ponto que, depois de confiar a simples soldados comandos de grande importância e o governo de cidades, êle nomeou Lisandro para o cargo de comissário dos víveres e distribuidor de carnes. E um dia, para zombar dos jônios, disse: "Que eles prestem homenagem ao meu distribuidor de víveres". Lisandro, finalmente, julgou que devia falar com êle, e sua conversa foi breve, à moda dos lacônios. "Agesilau, disse-lhe, sabes muito bem rebaixar’ teus amigos". "Sim, respondeu-lhe o rei, quando eles desejam tornar-se maiores do que eu; mas, ao contrário, àqueles que se esforçam para aumentar o meu poderio, eu sei, como é de justiça, dar-lhes a sua parte". Talvez, replicou Lisandro, disseram-te mais do que na realidade fiz. Entretanto, não fosse por motivo dos estrangeiros que têm seus olhos voltados para nós, peço-te que me dês, no teu exército, um posto onde eu possa ser-te menos odioso e mais útil".

XLV, Depois desta conversação, Agesilau enviou Lisandro para o Helesponto, a fim de ali exercer o comando; êle ali conservou o seu ressentimento, mas executou com exatidão todos os seus deveres. Espitridates, lugar-tenente do rei da Pérsia, naquela província, era um oficial cheio de coragem, que tinha sob suas ordens um corpo de tropas considerável. Lisandro, informado de que êle era inimigo de Farnabazo, levou-o a rebelar-se contra seu rei, e levou-o com seu exército a Agesilau. Foi tudo o que Lisandro fêz nesta guerra; pouco tempo depois regressou a Esparta, sem grandes honradas, sempre irritado e indignado contra Agesilau, odiando mais do que nunca o governo, e resolvido, enfim, a executar sem demora o plano que havia concebido fazia já muito tempo e que visava a uma reforma do Estado. A maior parte dos heráclidas, que depois de se mesclarem com os dórios entraram no Peloponeso, estabeleceu-se em Esparta, onde seus descendentes prosperaram. Mas eles não gozavam de todos os direitos de sucessão à coroa, pois apenas duas casas ali reinavam: a dos Euritiônides e a dos Ágides. As outras casas, ainda que saídas do mesmo tronco, não tinham, no governo, nenhuma vantagem sobre os simples particulares; pois as honras que se adquirem pela virtude eram igualmente oferecidas a todos aqueles que se mostrassem dignos de as alcançar.

XLVI. Lisandro, que também era da raça dos heráclidas, logo que adquiriu pelos seus feitos uma reputação! brilhante, bem como um número considerável de amigos e um inegável poderio, não pôde ver sem amargor o fato de uma cidade, cuja glória tanto contribuíra para aumentar, fosse governada por reis que não valiam mais do que êíe. Pensou, então, em tirar a coroa das duas casas reinantes para torná-la acessível a todos cs descendentes da raça de Hércules. Outros dizem, no entanto, que êle não queria estender o direito à corca somente aos heráclidas, mas a todos os espartanos, a fim de que ela pudesse passar, não apenas aos descendentes de Hércules, mas a qualquer pessoa que a este se assemelhasse pela virtude, a qual o elevara, tão somente pelo seu mérito, à categoria dos deuses. Esperava que, quando a coroa ficasse subordinada à virtude, entre tcdos os espartanos seria êle o escolhido. Quis, primeiramente, fazer com que os espartanos aceitassem seu projeto, e com esse fim decorou um discurso escrito por Cleão de Halicarnasso.

XLV11. Mas, depois, considerando que uma reforma tão ousada exigia meios extraordinários, êle imitou os poetas trágicos, os quais, a fim de comover os cidadãos, recorrem a máquinas para fazer descer algum deus dos céus. Inventou, para convencer seus concidadãos, oráculos e profecias, persuadido de que é eloqüência de Cleão de nada lhe serviria, se, em primeiro lugar, não impressionasse os espíritos por meio de superstições e do temor aos deuses; em seguida, poderia convencer toda gente cem o discurso que deveria pronunciar.

XLVI1L Éforo conta que Lisandro tentou primeiramente corromper com dinheiro a sacerdotisa que anunciava os oráculos no templo de Apoio na cidade de Delfos, e depois a do templo de Dodona, a quem mandou sondar por intermédio de um certo Féreclo. Rejeitadas suas propostas por uma e outra, dirigiu-se pessoalmente ao templo de Júpiter Amon, e ofereceu grande quantidade de dinheiro aos sacerdotes, os quais, indiqnados ante sua audácia, enviaram embaixadores a Esparta, para acusá-lo de tentativa de corrupção. Lisandro foi absolvido pelo Conselho, e seus acusadores, que eram líbios, ao partir, disseram aos espartanos: "Julgaremos com mais justiça do que vós, quando vierdes, um dia, estabelecer-vos na Líbia". É que havia um antigo oráculo segundo o qual, os lace-demônios iriam habitar aquele país.

XLIX, Mas é preferível fazer agora uma exposição completa sobre toda esta intriga e narrar a habilidade com que Lisandro se houve numa ficção, na qual, longe de empregar os meios comuns e os recursos vulgares, procedeu como numa demonstração geométrica, em que se começa estabelecendo várias proposições importantes para chegar, através de raciocínios difíceis e muitas vezes obscuros, ao último termo da conclusão, Eis a trama tal como a descreve Éforo, tão hábil historiador quanto filósofo. Havia no Ponto uma mulher que pretendia estar grávida de Apoio. Muita gente se recusou, e com razão, a dar crédito a tal afirmativa; mas outras pessoas, e em grande número, acreditaram no que ela dizia. Quando deu à luz a criança, personalidades das mais importantes disputaram a honra de criá-la e educá-la, Esta criança, não sei por que razão, recebeu o nome de Sileno. Lisandro, aproveitou-se desse acontecimento para montar o primeiro ato de sua peça, e urdiu êle próprio todo o resto da intriga. Contou para o prólogo desta farsa com o concurso de várias personagens, as quais se referiam ao nascimento da criança com um ar tão natural que ninguém podia suspeitar da intenção com que espalhavam a notícia, Essas pessoas espalharam igualmente certas informações procedentes, segundo se dizia, de Delfos, de acordo com as quais os sacerdotes do templo conservavam com cuidado livros secretos, nos quais havia oráculos muito antigos.   A ninguém, e nem a eles próprios, era permitido ler ou tocar nesses livros; no entanto, um filho de Apoio, o qual deveria aparecer após uma longa seqüência de séculos, daria a esses sacerdotes, depositários dos livros sagrados, sinais certos de seu nascimento. Reconhecido como filho de Apoio, poderia levar os livros e ler as antigas revelações e profecias neles contidas.

L, As coisas assim preparadas, Sileno deveria ir a Delfos, onde, como filho de Apoio, pediria os livros aos sacerdotes, os quais, instruídos por Lisandro, simulariam ter tudo examinado cuidadosamente, e ter se informado de maneira escrupulosa acerca do nascimento de Sileno. Finalmente, certos de que se tratava realmente do filho de Apoio, êíes lhe mostrariam os livros, leriam publicamente as predições que continham, sobretudo aquela que era o objetivo desta farsa, e relativa à realeza na Lacedemônia: era muito mais vantajoso para os espartanos escolherem eles próprios os seus reis, dentre os cidadãos mais virtuosos. Sileno, adolescente, já havia chegado à Grécia para desempenhar o seu papel, quando Lisandro assistiu ao malogro de sua peça devido à timidez de um dos atores, que, cedendo ao seu grande medo, abandonou-o no momento da execução. Toda esta intriga permaneceu em segredo durante toda a vida de Lisandro, e somente foi revelada após sua morte, Êle morreu antes do regresso de Agesilau da Ásia, e quando se empenhava na guerra da Beócia, ou melhor, depois de nela haver lançado a Grécia.  Com efeito, as coisas são contadas de duas maneiras: uns acusam Lisandro, outros os tebancs. Há ainda quem acuse as duas partes. Aqueles que responsabilizam os tebancs censuram-lhes o fato de haverem derrubado, em Áulida, os altares nos quais Agesilau oferecia sacrifícios públicos: acrescentam que Andró-clides e Anfiteu, corrompidos pelo dinheiro do rei da Pérsia, tomaram as armas contra os fóctos e devastaram o seu país, com o fito de envolver os lacedemô-nios em guerras no interior da Grécia.

LI. Os que responsabilizam Lisandro dizem que êle estava muito irritado contra os tebanos, os quais, os únicos entre todos os aliados, haviam pedido a décima parte da presa de guerra tomada aos atenienses: além disso, estavam descontentes pelo fato de Lisandro ter mandado dinheiro a Esparta. Mas Lisandro se irritara contra eles principalmente porque foram os primeiros a fornecer aos atenienses os meios para recuperarem a sua liberdade e quebrarem o jugo dos Trinta Tiranos, que Lisandro havia colocada como governadores em Atenas, e que os próprios lacedemônios tinham tornado ainda mais poderosos e temíveis ao decretarem que os banidos que haviam fugido de Atenas poderiam ser presos onde fossem encontrados, e levados para a sua cidade; e todos os que a isso criassem obstáculos seriam considerados inimigos de Esparta. Os tebanos responderam a esse decreto com outro, mais de acordo com a conduta de Hércules e de Baco, seus antepassados. Dizia o decreto que todas as cidades e todas as casas da Beócia seriam abertas aos atenienses que a elas se dirigissem a fim de solicitar asilo; que todo tebano que não auxiliasse um banido de Atenas contra aquele que pretendesse detê-lo pela força, pagaria um talento de multa. Dizia ainda o decreto que, se qualquer pessoa passasse pela Beócia para levar armas a Atenas, destinadas à luta contra os tiranos, todos os tebanos deveriam fingir nada ver ou ouvir. Não contentes em elaborar decretos cheios de tanta humanidade e tão dignos da Grécia, ele os reforçavam através de sua ação; pois foi de Tebas que partiram Trasíbulo e os outros banidos, para irem apoderar-se de Fila; e foram os tebanos que lhes forneceram armas e dinheiro, bem como todos os meios para darem início à sua ação sem que fossem descobertos.

LII. Estes os motivos que levaram Lisandro a voltar-se contra os tebanos, Como era de caráter muito violento, e, além disso, como a sua melancolia aumentasse cada dia em conseqüência da velhice, tornando-o mais irritadiço, êle tudo fêz para que os é foros partilhassem de seu ressentimento, e persuadiu-os a mandarem uma guarnição à Fócida; êle próprio foi encarregado dessa expedição, e partiu à frente das tropas. Poucos dias depois, foi também para ali enviado, de Esparta, o rei Pausãnias, com o resto do exército. Mas este príncipe era obrigado a dar uma grande volta pelo Monte Citerão, para entrar na Beócia, enquanto que Lisandro, com o seu numeroso corpo de tropas, deveria ir ao seu encontro através da Fócida. Em "sua marcha, ocupou Orçomene, que se rendeu voluntariamente; apoderou-se igualmente de Lebadia, cidade que pilhou. Dali escreveu ao rei Pausânias, dizendo-lhe que, ao partir de Platéia, tomasse o caminho que conduzia a Haliarto, assegurando-lhe que êle próprio estaria no dia seguinte, ao alvorecer, junto às muralhas da cidade.

LIII O correio portador desta carta foi aprisionado por batedores inimigos, que o levaram a Tebas. Os tebanos, cientificados do que se passava, confiaram aos atenienses que tinham ido socorrê-los a guarda da cidade; e, iniciando a sua marcha à meia-noite, caminharam rapidamente chegando de manhã a Haliarto, um pouco antes de Lisandro, Uma parte de suas tropas entrou na cidade, Lisandro decidira inicialmente acampar numa elevação existente nas proximidades, e ali esperar a chegada de Pausânias; mas vendo que êle não chegava e que as horas passavam, não conseguiu mais permanecer inativo. E, depois de ordenar aos espartanos que tomassem suas armas e de animar os aliados, pôs-se em marcha, com suas tropas em ordem de batalha, ao longo do caminho que ia ter à cidade. Entrementes, os tebanos que tinham ficado fora da cidade, deixando-a à esquerda, caíram sobre a retaguarda do exército de Lisandro, perto da fonte denominada Cissusa (1), na qual, segundo as fábulas dos poetas, as nutrizes de Baco o levaram logo após o seu nascimento. A água desta fonte, embora muito clara e agradável de se beber, tem uma côr de vinho. Não longe desse lugar, crescem as canas de Creta, com as quais se fazem dardos. Os moradores de Haliartc julgam por isso ter Radamanto habitado outrorà essa região: chegam mesmo a mostrar a sua sepultura, a que deram o nome de Halea. Vê-se também, perto, o túmulo de Alcmena, que, depois da morte de Anfitrião, casou-se com Radamanto, sendo ali inumada.

LIV. Os tebanos que se achavam na cidade juntamente com os haliárcios permaneceram imóveis, prontos para a batalha, até o momento em que viram Lisandro, com suas primeiras tropas; aproximar-se das muralhas. Abriram então, subitamente, as portas, e atiraram-se sobre êle, matando-o juntamente com o seu adivinho e alguns outros inimigos, não muitos, pois o grosso das forças se retirou logo no início da batalha. Entretanto, os tebanos não lhes deram trégua, perseguindc-as com tanto ardor e de tão perto que as obrigaram a fugir através das montanhas, após terem matado três mil adversários. Do lado dos tebanos houve trezentos mortos, pois perseguiram os fugitivos com ardor demasiado em lugares escarpados e difíceis. Eram, em sua quase totalidade, aqueles que em Tebas eram suspeitos de serem ocultamente favoráveis ao partido dos lacedemônios, e que, para afastar tal suspeito e recuperar a confiança de seus concidadãos, não se pouparam na perseguição ao inimigo perdendo assim a vida.

(1) Dacier conjectura, valendo-se do testemunho de Pausânias, que se deve ler aqui Tilfuso (B). O nome de Cissusa esta perfeitamente de acordo com o que Plutarco narra a respeito dessa fonte. Assim, não acho que se deva fazer qualquer alteração.    (C).

LV. Pausânias achava-se no caminho que vai de Platéia a Téspias quando soube da derrota. Cem suas forças em ordem de batalha, êle se pôs a caminho de fialiarto, aonde chegou ao mesmo tempo que Trasíbulo, que para ali se dirigira com seus atenienses, após deixar Tebas. E como Pausânias manifestasse o desejo de pedir uma trégua ao inimigo a fira de retirar os mortos e inumá-los, os mais idosos dos espartanos que se encontravam no seu exército ficaram indignados ante tal sugestão, e foram, murmurando, procurar o rei para dizer-lhe que seria uma desonra para Esparta pretender retirar o corpo de Lisandro mediante uma autorização do inimigo; acrescentaram que era preciso combater, com as armas nas mãos, em torno de seus despojos, para enterrá-los após a vitória; e, caso fossem vencidos, ser-lhes-ia mais honroso permanecer estendidos no campo de batalha, perto do seu general, do que obter uma trégua para retirar seu corpo. Entretanto-, apesar de todas as alegações dos anciãos, Pausânias, vendo que era tarefa muito difícil derrotar os tebanos em batalha, após uma vitória tão recente, e considerando que, tendo Lisandro tombado perto de Haliarto, não poderia ser seu corpo retirado sem grandes dificuldades, mesmo que o inimigo fosse derrotado, resolveu enviar um mensageiro aos tebanos, os quais lhe concederam uma trégua de alguns dias. Retirou-se, então, com suas forças, levando o corpo de Lisandro, que foi inumado pelos espartanos, depois de haverem transposto as montanhas da Beócia, na região dos panopeus, amigos e aliados de Esparta. Ali se vê ainda hoje a sua sepultura, junto ao caminho que vai a cidade de Delfos à de Queronéia. Conta-se que, no acampamento de Pausânias, um fócio, descrevendo a batalha para um compatriota que nela não participara, disse que o inimigo atacara logo depois de Lisandro ter atravessado o Oplite. Como este homem parecesse surpreendido, um espartano, amigo de Lisandro, perguntou-lhe o que era esse Oplite a que se referiam, ccisa de que nunca ouvira falar. "É, respondeu o fócio, o lugar onde o inimigo derrotou os nossos batalhões mais avançados; o Oplite é o riacho que banha as muralhas de Haliarto". Ao ouvir estas palavras, o espartano pôs-se a chorar sentidamente, e disse: "Oh! não é possível aos homens fugirem ao seu destino!" E isto porque Lisandro tivera outrora um oráculo concebido nestes termos:

Aconselho-te, Lisandro, evitar
 Do rio Oplite as águas traiçoeiras,
 E também o dragão, da terra filho,
 Que, pelas costas, pretende ataear-te.

LVI Entretanto, há quem afirme que este riacho de Oplite não é o que passa ao longo das muralhas de Haliarto, mas a torrente que corre perto de Coronéia, e vai desaguar no rio Fliaro, perto da -cidade. Segundo se diz, chamava-se antigamente Hoplia," mas agora é denominado ísomanto. Lisan-dro foi morto por um soldado de Haliarto chamado Neocoro, que trazia pintado no seu escudo a figura de um dragão*; era a esse dragão, ao que se conjectura, que se referia o oráculo. Conta-se também que os tebanos, pouco tempo depois da guerra do Peloponeso, receberam, no Templo de Apoio Ismênio, uma resposta do oráculo, que lhes predisse ao mesmo tempo a batalha de Délio e o combate de Haliarto, que se travou trinta anos depois. É o seguinte o teor deste oráculo:

Tu, que aqui vens persegur lobos cruéis,
Evita, com cuidado, as fronteiras extremas,
 E a col na Orcálida, onde a raposa
, Permanece sempre, pra surpreender sua presa.

Com as palavras fronteiras extremas o oráculo se refere ao território existente em volta de Délio, e é nele que a Beócia se limita com a Ática; e a colina Orcálida é a que hoje se chama Alopeca, e se acha situada no lado em que a cidade de Haliarto dá para O monte Helicão. A morte de Lisandro afligiu de tal modo os espartanos que intentaram contra Pausa-laias um processo por crime capital; mas êle não quis aguardar o julgamento e fugiu para a cidade de Tégea, onde se colocou, ccmo suplicante, sob a proteção de Minerva, ali passando o resto de seus dias. A pobreza de Lisandro, reconhecida após sua morte, deu um maior lustre à sua virtude. Depois de haver passado pelas suas mãos somas tão importantes; depois de ter desfrutado de um tão grande poderio- e de tantas cidades lhe terem prestado homenagem c a êle se submetido; depois de haver, enfim, exercido sobre a Grécia: uma espécie de soberania, êle não aumentara um óbolo sequer a fortuna de sua casa. Esse é o testemunho de Teopompo, que merece maior crédito quando elogia do que quando censura, pois encontra maior prazer em maldizer do que em louvar.

LVII Algum tempo depois da morte de Lisandro, segundo conta Éforo, uma disputa entre os espartanos e seus aliados levou-os a consultarem os papéis que êle havia deixado, em sua casa; Agesilau para ali se dirigiu, e encontrou, entre outros documentos, o discurso que Cleão havia escrito para persuadir os espartanos a modificarem a forma de seu governo e mostrar-lhes as vantagens de se tirar dos Euritiônldes e dos Ágides, as duas casas reinante… o direito exclusivo ao trono, e a estendê-lo a todos; assim, os reis deveriam ser escolhidos entre os cida dãos mais virtuosos de Esparta. Agesilau quis mostrar imediatamente este discurso ao povo, para que os    espartanos o ficassem conhecendo melhor; mas Lacrátídas, homem sábio e prudente, que era então presidente dos éforos, conteve-o, dizendo-lhe que, em vez de tirar Lisandro do túmulo, o melhor era enterrar com êle também o seu discurso, o qual, escrito com muita arte e finura, era capaz de convencer. Entretanto, grandes honras lhe foram prestadas após sua morte. Dois cidadãos, de quem suas duas filhas se tinham tornado noivas, e que não haviam querido desposá-las após a morte do pai, quando se tornou conhecida a sua pobreza, foram condenados a pagar uma forte multa; pois que, tendo procurado ligar-se à família de Lisandro enquanto êle vivia, certos de que era rico’, não mais o quiseram quando a sua pobreza, comprovação de suas virtudes, foi revelada. Havia em Esparta penalidades tanto contra aqueles que não queriam casar-se, ou que se casavam muito tarde, como contra os que se casavam mal. E esta última pena recaía principalmente sobre os cidadãos que, em vez de se casarem no interior de suas famílias ou com pessoas virtuosas, procuravam unir-se às casas ricas. Eis o que tínhamos a dizer da vida de Lisandro.

jul 252009
 
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SUMÁRIO DA VIDA DE PIRRO

I. Origem do reino do Épiro. II. Genealogia de Pirro. III. Eácides, seu pai, é destronado pelos filhos de Neoptólemo. IV. Pirro, ainda criança, é subtraído às suas perseguições por Andróclidas e Ângelo. V. Gláucias,rei da Ilíria, toma-o sob sua proteção. VI. Coloca-o no trono. VII. Nova revolta no Épiro. Pirro dirige-se para junto de Demétrio. VIII. Regressa ao Épiro e partilha o trono com Neoptólemo. IX. Os dois reis tornam-se inimigos. X. Pirro faz malograr a conspiração de Neoptólemo e se desfaz dele. XI. Vai em socorro de Alexandre, contra Antípatro, mediante a cessão de uma parte da Macedônia. XII. O adivinho Teodoto dissuade-o de assinar o tratado que negociara com Lisímaco e Demétrio. XIII. Começo das divergências entre Pirro e Demétrio. XIV. Declara-se a guerra. Batalha na qual Pirro se distingue. XV. Comparação de Pirro com Alexandre, o Grande. XVI. Elogio de seu talento militar. XVII. Doçura e bondade de seu caráter. XVIII. Suas mulheres e filhos. XIX. Êle se apodera de uma parte da Macedônia, que perde logo depois. Faz as pazes com Demétrio. XX. Novo motivo de guerra. XXI. Investe de novo contra Demétrio. XXII. Motim no acampamento de Demétrio. Pirro é proclamado rei da Macedônia. XXIII. Partilha o trono com Lisímaco. XXIV. Vai a Atenas. XXV. Abandona completamente a Macedônia. XXVI. Retira-se para o Êpiro. XXVII. Pensa em auxiliar os tarentinos contra os romanos. XXVIII. Descrição do que então se passou em Tarento. XXIX. Retrato em Tarento. XXIX. Retrato de Cíneas.XXX. Conversação de Pirro com Cíneas sobre esta guerra. XXXI. Pirro parte, não obstante suas advertências. Enfrenta uma tempestade que destrói sua esquadra. XXXII. Aporta na Calábria. XXXIII. Estabelece em Tarento uma disciplina severa.XXXIV. Acampa perto dos romanos, e observa a formação de suas tropas, que provoca a sua admiração. XXXV. Empenha-se na batalha. Sua conduta reúne, a prudência de um general e toda a coragem de um infante. XXXVI. Alternativas do combate. XXXVII. Pino, finalmente, põe os romanos em fuga, e apodera-se de seu acampamento. XXXVIII. Envia Cíneas a Roma a fim de negociar a paz. XXXIX. Após Cláudio, o Cego, faz-se conduzir ao Senado, para a isso se opor. XL. Resposta do Senado às propostas de Pirro. X LI. Fabrício é enviado, com vários outros embaixadores, ao encontro de Pirro. Tentativas inúteis de Pirro para que ele aceitasse presentes, e para inspirar-lhe medo. XLII. Julgamento de Fabrício sobre Epicuro e sua doutrina. XLIII. Generosa resposta de Fabrício a Pirro. O rei confia-lhe os prisioneiros de guerra, sob palavra. XLIV. Os cônsules romanos advertem Pirro da perfídia de seu médico. XLV. Pirro envia aos romanos todos os prisioneiros de guerra, sem resgate. Empenha-se numa segunda batalha. XLVI. Sai vitorioso. XLVII. Diferença na maneira como Hierônimo narra este combate. XLVIII. Frase de Pirro por ocasião de suas vitórias. XLIX. Embaixadores da Sicília junto a Pirro. Notícias que lhe chegam da Grécia sobre a situação na Macedõnia. Segue para a Sicilia. L. Ocupa a cidade de Erix. LI. Recusa-se a conceder a paz aos cartagineses. Modifica-se a sua atitude em relação aos sicilianos. LII. Toda a Sicília se une contra êle. LIII. Volta à Itália. É atacado durante a viagem, e perde parte de sua esquadra. Aporta na Itália, onde os mamertinos o atacam de novo. LIV. Combate singular de Pirro com um bárbaro; êle o fende ao meio com um golpe de espada. LV. Ataca os romanos. LVI. É derrotado. LVII. Deixa a Itália e segue para a Macedõnia a fim de atacar Antígono, que o derrota. LVIII. Consagra os despojos dos gauleses no templo de Minerva Itonéia, com uma inscrição. LIX. Coloca na cidade de Egas uma guarnição de gauleses, que pilham os túmulos dos antigos reis da Macedõnia. LX. Segue com um forte exército para Esparta, a pedido de Cleônimo. LXI. Entra na Lacônia, e acampa perto de Esparta. LXII. Os espartanos abrem durante a noite uma trincheira diante de sua cidade. As mulheres ajudam os homens. LXIII. Começo do ataque. LXIV. Proeza de Acrotato. LXV. Feito e morte de Filio. LXVI. Pirro recomeça o ataque na manhã do dia seguinte. LXVII. Acidente que obriga Pirro a bater em retirada. LXVIII. Chegam em retirada. LXVIII. Chegam socorros a Esparta. LXIX.Pirro deixa a Lacônia e segue para Argos. Um contingente escolhido de lacedemônios ataca-o no caminho. LXX. Êle os dizima, mas seu filho é morto. LXXI. Continua em sua marcha para Argos. LXXII. Diversos presságios. Pirro entra com suas tropas em Argos. LXXIII. Combate em Argos. LXXIII. Combate noturno. Pirro é tomado de espanto ao ver figuras de cobre representando o combate de um lobo e de um touro. LXXIV. Origem desta representação. LXXV. Obstáculos que Pirro encontra em sua retirada. LXXVI. Uma mulher fere-o com uma telha e um soldado corta-lhe a cabeça. LXXXVII. Honras fúnebres que lhe são prestadas por Antígono. Envia este Heleno, filho de Pirro, ao Épiro.

Do ano 430, de Roma, ao ano 482; 272 A. C.

BIOGRAFIA DE PIRRO – Plutarco – Vidas Paralelas – Vidas dos homens Ilustres

Tradução de José Carlos Chaves. Fonte: Ed. das Américas

I. Conta-se que, após o dilúvio, Faetonte, um dos que se dirigiram para o Épiro (1) com Pelasgo, foi o primeiro rei dos tesprotos e dos molossos; porém, outros historiadores dizem que Deucalião (2) e sua mulher, Pirra, depois de construírem o templo de Dodona, no país dos molossos, ali se estabeleceram.

II. Seja como fôr, muito tempo depois, Neoptólemo, à frente de um exército numeroso, conquistou o país, deixando depois dele uma sucessão de reis, que foram chamados os pírridas, devido ao nome de Pirro, que recebera ainda em sua infância, e dado igualmente ao mais velho dos filhos legítimos que teve de Lanassa, filha de Cleódeo, filho de Hilo. Este o motivo por que Aquiles é honrado e reverenciado no Épiro como um deus, sendo ali chamado Aspetos, na língua do país. Mas como os que sucederam a estes primeiros reis caíram na barbárie, nenhuma memória deles nem de suas ações e poderio existe. O primeiro a que a história faz menção é Tárritas (1), cujo nome passou à posteridade por ter dado às cidades de seu país os costumes dos gregos, polindo-as através do cultivo das letras e estabelecendo leis e normas civis. Este Tárritas deixou um filho, chamado Alcetas, e de Alcetas nasceu Arimbas (2), e de Arimbas e Tróiade, sua mulher, nasceu Eácides; este despcsou Ftia, filha de Menão, o Tessálio, que, tendo adquirido grande renome durante a chamada guerra Lamíaca (3), gozou de maior autoridade, junto de Leóstenes, do que qualquer outro confederado.

(1 Hoje a Albânia.

(2) Segundo Eusébio, Deucalião reinou no Parnaso 1542 A. C. O dilúvio que inundou a Grécia ocorreu treze anos mais tarde. Trata-se do dilúvio de Deucalião, e não do dilúvio uni-. Yersal, que teve lugar, segundo se calcula, 2344 A. C.

III. Eácides teve de sua mulher Ftia duas filhas, Deidâmia e Tróiade, e um filho, a quem deu o nome de Pirro. Entretanto, os molossos se rebelaram, expulsaràm-no de seu reino e colocaram no trono, o filho de Neoptólemo. Todos os amigos de Eácides que não conseguiram fugir foram mortos. Pirro, que era ainda criança de peito, foi procurado por toda parte peles inimigos de seu pai, os quais queriam matá-lo, Andróclidas e Ângelo, porém conseguiram subtraí-lo às suas buscas, e fugiram. Levaram consigo alguns poucos servidores, bem como várias mulheres, para tratar e amamentar a criança. Como o grupo era numeroso, não podia caminhar rapidamente, e a fuga se tornou difícil. Andróclidas e Ângelo, vendo que cs inimigos estavam prestes a alcançá-los, entregaram o menino a Androclião, Hípias e Neandro, três jovens robustos e dispostos, em quem confiavam, e ordenaram-lhe que se dirigissem o mais depressa possível para uma cidade do reino da Macedônia chamada Mégara. E, em seguida, em parte orando, em parte, combatendo., conseguiram conter os perseguidores até à tarde. Livrando-se destes, afinal, com muita dificuldade, foram correndo ao encontro dos jovens a quem haviam confiado Pirro. Ao pôr do sol, eles supuseram ter atingido o objeto de suas esperanças, mas logo verificaram que dele estavam mais distante do que nunca. O rio existente ao longo das muralhas da cidade corria com tal rapidez que amedrontava. Procuraram um lugar onde pudessem atravessá-lo a vau, mas verificaram que isto era impraticável: com o volume aumentado em conseqüência de chuvas abundantes, suas águas lamacentas rolavam com grande violência, e a escuridão da noite tornava as coisas ainda mais medonhas.

(1) Pausánias chama-o Taripo.

(2) É o seu nome, segundo Diodoro. Pausânias chama-o Aribas.

(3) Os atenienses começaram esta guerra após a morte de Alexandre, o Grande.

IV. Desesperavam já de poder atravessar sozinhos o rio com a criança e as mulheres que a ornamentavam, quando viram, na outra margem, moradores da região, aos quais suplicaram, em nome dos deuses, que os ajudassem a conduzir Pirro através da torrente, mostrando-lhe ao mesmo tempo, de longe, o menino. Porém, o ruído forte das águas impedia que fossem ouvidos, e assim, ficaram todos muito tempo parados junto às margens do rio, uns gritando e outros prestando atenção, sem que nada pudessem entender. Finalmente, um dos membros do grupo teve a idéia de arrancar, uma casca de carvalho, na qual escreveu com o fuzilhão de uma fivela várias palavras, expondo a situação da criança e a necessidade que tinha de ser socorrida. Em seguida, enrolou a casca numa pedra, a fim de dar-lhe peso e poder atirá-la ao outro lado do rio, o que fêz. Há quem diga que êle espetou a casca na ponta de um dardo, e o arremessou. Os que estavam na outra margem leram os dizer os escritos na casca, ficando assim ao par do perigo que corria o menino, imediatamente, cortaram o mais depressa que puderam várias árvores, as quais amarraram juntas, e sobre elas atravessaram o rio. O primeiro a chegar se chamava, por acaso, Aquiles; êle pegou a criança e a levou para o lado oposto, enquanto seus companheiros fizeram o mesmo com as outras pessoas.

V. Salvos assim do perigo, e fora do alcance daqueles que os perseguiam, puseram-se todos a caminho, dirigindo-se para a Ilíria, junto ao rei Gláucias, o qual encontraram em sua casa, sentado ao lado da esposa. Colocaram a criança no chão, no meio da sala, diante do soberano. Este permaneceu pensativo durante muito tempo, sem nada falar, meditando sobre o que devia fazer, pois que temia Cassandro, inimigo mortal de Eácides. E, enquanto isso, o menino Pirro, engatinhando, alcançou com suas mãos a rcupa do rei, e tanto fez que ficou de pé, junto aos joelhos de Gláucias. Este pôs-se a rir, mas logo depois se apiedou, pois pareceu-lhe achar-se diante de um suplicante que tivesse vindo atirar-se-lhe aos braços, para salvar-se. Outros autores dizem que não foi a Gláucias que êle se dirigiu, mas ao altar dos deuses domésticos, diante do qual se ergueu, abraçando-o com os dois braços. O rei, achando que isto fora feito através de uma determinação divina, colocou o menino entre os braços de sua mulher, e ordenou-lhe que o criasse com seus filhos.

VI. Pouco tempo depois seus inimigos mandaram procurá-lo, tendo Cassandro chegado a oferecer duzentos talentos pela entrega do menino. Gláucias recusou-se a entregar Pirro, e, quando este atingiu a idade de doze anos, levou-o para o Épiro à frente de um exército, e o colocou no trono. Pirro tinha em seus traços um ar de majestade que inspirava mais terror do que respeito; e seus dentes superiores, em vez de serem separados, um do outro, formavam um osso contínuo, sobre o qual ligeiras incisões marcavam os lugares onde devia haver as separações. Atribuíam-lhe a virtude de curar as doenças do baço, para o que êle sacrificava um galo branco, e, com o pé direito deste tocava docemente a víscera do enfermo, que fazia deitar sobre o dorso. Por mais pobres que fossem as pessoas que o procurassem, ou per mais baixa que fosse a sua condição, êle não deixava de aplicar esse remédio, quando solicitado. Recebia como salário o galo sacrificado, presente que lhe era muito agradável. Afirmava-se que o dedo grande de seu pé direito tinha certa virtude divina; e, quando, após .sua morte, seu corpo foi queimado e reduzido a cinzas, foi encontrado inteiro, sem nenhum sinal da ação do fogo. Mas disto trataremos mais adiante (1).

(1) Plutareo esqueceu-se dessa referência, ou, então, o trecho cm que o fez desapareceu. Plínio, entretanto, remedeia este silêncio. Êle nos conta que o dedo de Pino foi colocado num relicário e conservado em um templo. (Plínio, VII, 2),

VII. Ao completar dezessete anos, Pirro acreditando estar assegurada a posse de seu reino, decidiu realizar uma viagem à Ilíria, a fim de assistir às núpcias de um dos filhos de Gláucias, com o qual havia sido criado. Mal se ausentara, e os molossos rebelaram-se de novo, expulsaram os seus servidores e amigos, pilharam todos os seus bens, e entregaram-se depois ao seu adversário Neoptólemo. Pirro, despojado de seus territórios, e vendo-se abandonado por todos, retirou-se para junto de Demétrio, filho de Antígono, que tinha desposado Deidâmia. sua irmã. Esta princesa, quando ainda muito jovem, fora dada como noiva a Alexandre, filho de. Alexandre, o Grande, e de Roxana, e a tratavam mesmo como sua mulher. Porém, como toda aquela família, por infelicidade, extinguiu-se inteiramente, Demétrio casou-se com ela, ao chegar à nubilidade. E na grande batalha travada perto da cidade de Hipse, (1), da qual todcs os reis participaram, Pirro, apesar de muito jovem, esteve sempre ao lado de Demétrio, distin-guindo-se como um dos melhores combatentes, pois obrigou todos os que se encontravam à sua frente a fugirem. Demétrio foi derrotado, mas êle não o abandonou, conservando-lhe, fielmente, as cidades gregas que lhe haviam sido confiadas.

(1) Na Frígia, no ano 301 A. C. Segundo alguns autores, Pode-se escrever Ipse.

VIII. Depois do tratado concluído entre Demétrio e Ptolomeu, êle foi, como refém, seguindo para o reino do Egito. Durante a sua estada nesse país, deu tanto na caça como em vários exercícios, as maiores provas de sua força, paciência e resistência às canseiras. Verificando que, de todas as mulheres de Ptolomeu, Berenice era a que gozava de maior crédito junto do marido, e era também a mais prudente e a mais sensata, começou a fazer-lhe assiduamente a corte. Êle sabia humilhar-se perante os grandes, dos quais podia tirar proveito, e insinuar-se para conquistar-lhes as boas graças; ao mesmo tempo, mostrava-se cheio de desprezo pelos que pertenciam a categoria inferior à sua. E, como fosse honesto e moderado em sua conduta, foi o preferido, entre vários outros jovens príncipes, para marido de Antígona, filha de Filipe e da rainha Berenice, e nascida antes do casamento desta com Ptolomeu. Esta aliança tornou maiores os favores e a consideração de que gozava; e, com o apoio de Antígona, a qual se mostrava boa e afetuosa para com êle, conseguiu gente e dinheiro para voltar ao reino do Épiro e reconquistá-lo. Foi ali bem recebido pelo povo, pois este odiava Neoptólemo, que costumava tratar os seus súditos cem violência e crueldade. Entretanto, receando Pirro que êle fosse à procura de outros reis para convencê-los a assumirem a sua defesa, achou melhor concluir um acordo, ficando combinado que ambos reinariam juntos.

IX. Com o passar do tempo, alguns cortesãos se puseram secretamente a irritar um contra o outro, através da desconfiança que semearam entre eles. Mas nada irritou tanto Pirro quanto, segundo se conta, este fato: os reis do Épiro tinham o costume, já muito antigo, de fazer um sacrifício solene a Júpiter Marcial, num lugar da Molóssia denominado Passarão, onde proferiam um juramento e recebiam outro dos epirotas: os reis juravam que governariam de acordo com as leis, e os estatutos do país, e os súditos que defenderiam o reino e nele viveriam de acordo, igualmente, com as leis. Os dois reis, acompanhados de seus amigos, dirigiram-se ao lugar da cerimônia, e ali trocaram presentes de grande valor. Gelão, que era um dos mais fiéis e dedicados servidores de Neoptólemo, após dar a Pirro os maiores testemunhos de amizade e afeição, presenteou-o com dois pares de bois, próprios para trabalhos agrícolas. Mirtilo, copeiro de Pirro, que por acaso, se encontrava na cidade, pediu os bois ao rei. Este negou-lhos, e deu-os a outra pessoa. A recusa magoou Mirtilo, e Gelão, percebendo-o, convídou-o para cear. Alguns autores dizem que, após embriagá-lo, Gelão abusou de Mirtilo, que era jovem e belo. Após a ceia, pôs-se a falar a princípio de coisas vagas, e em seguida concitou-o a colocar-se ao lado de Neoptó-lemo e a envenenar Pirro. Mirtilo simulou estar de acordo com essa sugestão, demonstrando contentamento. Mas logo depois procurou Pirro a quem tudo contou; o rei ordenou-lhe então que levasse Alexicrates, o chefe dos copeiros, à casa de Gelão, apresentando-o como se estivesse disposto a participar da trama. O que Pirro queria era dispor de várias testemunhas, a fim de provar a conspiração contra êle tramada.

X. Tendo sido Gelão assim enganado, Neoptólemo, que também de nada desconfiara, julgou que a conjura estivesse bem encaminhada, e tal era a sua satisfação que não conseguiu guardar o segredo, revelando-o a alguns de seus amigos. Um dia, achan-do-se em casa de sua irmã Cádmia, não conseguiu conter-se, certo de que não era ouvido por mais ninguém, e falou-lhe a respeito. Perto deles só estava Fenareta, esposa de Samão, intendente dos rebanhos do rei Neoptólemo. Deitada numa pequena cama, e voltada para o lado da parede, ela fingia dormir. Mas tudo ouviu, sem que os dois irmãos c percebessem; e, no dia seguinte, dirigiu-se a Antí-gcna, esposa de Pirro, e contou-lhe com pormenores aquilo que Neoptólemo dissera à irmã. Pirro, informado de tudo, nada disse na ocasião; mas, tendo feito um sacrifício aos deuses, convidou Neoptólemo para vir cear em sua casa, e matcu-o. Êle não ignorava que podia contar com a boa vontade das principais personalidades do reino; fazia já muito tempo que elas o exortavam a se desfazer de Neoptólemo, e a não se contentar apenas com uma pequena parte do Épiro, que lhe pertencia inteiro, concitando-o ainda a seguir a inclinação de sua natureza, a qual o destinara a grandes feitos. Diante de tudo isso, e sobrevindo a conspiração, decidiu desfazer-se de Neoptólemo, fazendo-o morrer em primeiro lugar.

out 312007
 
Arte etrusca

SUMÁRIO DA VIDA DE LICURGO

I. Diversidade de opiniões sobre o tempo em que Licurgo viveu. II. Sua origem. III. Sobe ao trono da Lacedemônia e em seguida torna-se tutor do rei Carilau, seu sobrinho. IV. Viagens. VII. Regresso. VIII. Vai a Delfos. IX. Leis que dá à Lacedemônia. Criação do Senado. XI. Autoridade dos éforos. XII. Partilha das terras. XIII. Abolição da moeda de ouro e de prata. Estabelecimento da moeda de ferro. XV. Ordenança das refeições públicas. Descontentamento dos ricos sobre essa ordenança. XVI. Alcandro fura a Licurgo um olho e se torna seu amigo. XVII. Leis e vantagens das refeições públicas. XXIII. Regulamento para as construções. XXIV. Ordenança militar. XXV. Casamentos das mulheres, educação das filhas. XXXII. Educação dos moços. XXXIX. Réplicas prontas e vivas dos Lacedemônios e de Licurgo. XLIII. Divertimentos, canções. XLV. Música. XLVL Ornamentação nos dias de batalha. LI. Vida militar. LII. Exclusão das artes mecânicas, que são abandonadas aos Hilotas. LIII. Nenhum processo. Regozijos contínuos. LIV. O deus Riso reverenciado por Licurgo. LV. Leis para a eleição dos senadores- LVI. Regulamentos para os funerais, para o luto. LVII. Para as viagens a países estrangeiros e para os estrangeiros. LVIII. Observação sobre as leis de Licurgo. LX. Faz os Lacedemônios jurarem a observação e parte para Delfos LXI. Suas leis estão em vigor durante cinco séculos. LXII. Corrupção das leis, desde que o rei Agis introduziu o ouro e a prata. LXIII. Vantagens das leis lacedemônias. LXVI. Honras divinas prestadas a Licurgo após sua morte.

Cerca do ano 884 antes de Jesus Cristo;

LICURGO
por Plutarco
Capítulo de Vidas Paralelas

Tradução brasileira de Aristides da Silva Lobo conforme a edição francesa de 1818. Notas de Brotier, Vauvilliere e Clavier.
Fonte: Ed. Das Américas.

Nada absolutamente se poderia dizer de Licurgo, que estabeleceu as leis dos Lacedemônios, em que não haja sempre alguma diversidade entre os historiadores, pois que, tanto de sua raça e do seu afastamento do país, como de sua morte e mesmo das leis e da forma de governo que instituiu, quase todos escreveram diferentemente. Mas, menos ainda do que em qualquer outra coisa se acordam eles sobre o tempo no qual viveu: porque uns, entre os quais o filósofo Aristóteles, querem que ele tenha sido do tempo de ífito e que este o tenha ajudado a ordenar a suspensão de armas que se guarda durante a festa dos jogos olímpicos: em testemunho do que alegam a placa de cobre (1) lançada nos ditos jogos, sobre a qual está ainda hoje gravado o nome de Licurgo. Ao contrário, os que contam os tempos pela sucessão dos reis da Lacedemônia, como fazem Eratóstenes e Apolodoro, o colocam muitos anos antes da primeira olimpíada (2); e Timeu suspeita que haja dois desse nome em diversos tempos, mas que, tendo sido um mais renomeado do que o outro, atribuíram-lhe os feitos de ambos, e que o mais antigo não tenha existido muito tempo depois de Homero; e ainda há os que querem dizer que ele o viu. Xenofonte mesmo nos dá bem que pensar seja ele muito antigo, quando diz que foi do tempo dos Heráclidas, isto é, dos próximos descendentes de Hércules; pois não é verossímil que tenha querido referir-se indiferentemente aos descendentes de Hércules, porque os últimos reis de Esparta foram tanto de sua raça quanto os primeiros; assim, deve ter~se referido àqueles que foram, sem interregno, do tempo mesmo de Hércules. Todavia, ainda que haja tanta diversidade entre os historiadores, não deixaremos por isso de recolher e pôr por escrito o que sobre ele se acha nas antigas histórias, elegendo as coisas em que houver menos contradição ou que tiverem mais graves e mais aprovados testemunhos.

(1)             Disco usado nos jogos de arremesso.
(2)             A primeira Olimpíada remonta o ano 776 antes de Jesus Cristo.    

I. Pois logo de início o poeta Simônides diz que seu pai foi chamado Prítanis, não Êunomo; e a maior parte escreve de outro modo a genealogia tanto do próprio Licurgo como de Êunomo, dizendo que Pátrocles, filho de Aristodemo, gerou Sous, de Sous nasceu Euritião, do qual Prítanis foi filho, de Prítanis nasceu Êunomo, de Êunomo Polidectes, que ele teve de sua primeira mulher, e de sua segunda, cujo nome era Dianasse, nasceu Licurgo; "todavia," Eutíquides, que é outro historiador, o põe sexto em uma linha direta após Poíidectes e undécimo após Hércules. Mas, entre todos os seus antepassados, o mais famoso foi Sous, do tempo em que os da cidade de Esparta subjugaram os Hilotas, que fizeram escravos, e aumentaram e alargaram várias terras que conquistaram aos Árcades. E dizem que, estando ele próprio um dia muito estreitamente assediado pelos Clitórios, em lugar áspero onde não havia água, mandou oferecer-lhes a entrega de todas as terras que conquistassem, desde que ele e toda a sua companhia bebessem numa fonte assaz próxima dali. Os Clitórios concordaram e o acordo foi assim jurado entre eles. Fêz pois reunir seus homens e declarou-lhes que, se houvesse algum deles que quisesse abster-se de beber, ele lhe cederia e daria a realeza: não houve em toda a tropa quem pudesse deixar de fazê-lo de tal maneira estavam premidos pela sede; antes beberam todos cientemente, exceto ele, que foi o último a descer e não fêz outra coisa senão apenas refrescar-se e molhar-se um pouco por fora, em presença dos próprios inimigos, sem beber sequer uma gota: de modo que não quis depois entregar as terras, como prometera, alegando que nem todos tinham bebido.

II. Mas, ainda que por seus feitos tenha sido muito estimado, o fato é que sua casa não foi chamada por seu nome, antes pelo de seu filho Euritião, pois era denominada a casa dos Euritiônides: o que se explica por haver sido seu filho Euritião o, primeiro que desejando agradar e contentar o povo, relaxou um pouco o duro e absoluto poder dos reis. Essa indulgência deu mais tarde origem a uma desordem e grande dissolução, que durou longamente na cidade de Esparta, porquanto o povo, sentindo a rédea frouxa, tornou-se audacioso; e, por isso, alguns dos reis sucessores foram odiados de morte, por haverem querido manter à força a antiga autoridade sobre o povo; os outros, para ganharem as boas graças da plebe, ou porque não se sentissem bastante fortes, foram constrangidos a dissimular. O que de tal modo aumentou a audácia e a insolência do povo que o próprio pai de Licurgo, que era rei, foi morto em consequência: pois, querendo um dia apartar alguns que se engalfinhavam, recebeu um golpe de faca de cozinha, do que morreu, deixando o reino ao filho primogénito, Polidectes, o qual morreu logo depois sem herdeiros; de maneira que todos estimavam que Licurgo devia ser rei, como também o foi, até que se conheceu que a mulher de seu irmão tinha ficado grávida: logo que ele o percebeu, declarou que o reino pertencia ao filho que nascesse, se fosse homem; e depois administrou o reino como tutor do rei somente. Os Lacedemônios chamam Pródicos aos tutores de seus réis que ficam órfãos em tenra idade. Mas a viúva de seu irmão mandou dizer-lhe que, se ele prometesse desposá-la quando fosse rei, ela trataria de abortar para perder o fruto que tinha no ventre. Licurgo ficou horrorizado com a perversidade e má índole dessa mulher, mas não rejeitou em palavras a oferta que lhe fazia, fingindo mesmo que ficara satisfeito e a aceitava; mas lhe mandou dizer que. não era necessário, por meio de beberagens ou medicinas, desimpedir-se antes do tempo, porque, assim procedendo, poderia prejudicar e pôr em perigo a si mesma, mas era preciso somente ter paciência até dar à luz: pois então ele encontraria meio de se desfazer da criança que nascesse.

III. Assim entreteve com tal linguagem aquela mulher, até ao tempo do parto, e, logo que percebeu que ela estava prestes a dar à luz, enviou guardas para assistirem ao transe, aos quais recomendou que, se nascesse uma filha, a deixassem entre as mãos das mulheres, e, se fosse filho, o levassem incontinenti a qualquer lugar onde ele se encontrasse e fosse qual fosse o negócio que tivesse. Assim aconteceu que ela deu à luz um filho, mais ou menos à hora do jantar, quando ele estava à mesa com os, oficiais da cidade, e entraram seus servidores na sala e lhe apresentaram o menino, que ele tomou nos braços, dizendo aos assistentes: «Eis um rei que nos acaba de nascer, senhores Espartanos.» Dizendo essas palavras, deitou-o no lugar do rei e deu-lhe o nome de Carilau, que equivale a dizer alegria do povo, porque viu todos os assistentes muito alegres, louvando e abençoando sua magnânima probidade e justiça. Dessa forma, embora não tendo sido rei senão durante somente oito meses ao todo, era tão reverenciado c estimado como homem de bem pelos cidadãos que havia mais os que lhe obedeciam voluntariamente por sua virtude do que porque ele fosse tutor do. rei, e não porque tivesse autoridade real nas mãos; todavia, alguns havia que o invejavam e tratavam de impedir-lhe o crescimento quando era jovem, mesmo os parentes, amigos e aliados da mãe do rei, a qual estimavam ter sido desprezada e desonrada por ele; de maneira que um irmão dela, chamado; Leônidas, entrando um dia audaciosamente a proferir grosseiras palavras contra ele, não hesitou em lhe dizer: «Bem sei que por um destes dias serás com certeza rei», querendo torná-lo suspeito e preveni-lo por essa caluniosa presunção, a fim de que, se acaso o pequeno rei viesse a falecer em idade pupilar, acreditassem que ele o tinha feito morrer secretamente. A própria mãe ia também espalhando semelhantes rumores, os quais por fim o desgostaram tanto, com o medo que o dominava pela incerteza do futuro, que resolveu abandonar o país, para evitar com sua ausência a suspeita que pudessem ter sobre ele; e assim foi errando pelo mundo, até que o sobrinho gerou um filho que o sucederia no reino.

IV. Tendo pois partido com tal intenção, dirigiu-se primeiramente a Cândia, onde observou e considerou diligentemente a forma de viver e governar a coisa pública que era ali seguida, visitando e conferenciando com os homens de bem e mais conceituados do lugar. Assim encontrou algumas leis que lhe pareceram boas e delas fez um extrato, com a deliberação de levá-las para seu país e delas servir-se no futuro; também achou outra de que não íèz conta. Ora havia entre outros um personagem considerado prudente e muito entendido em matéria de estado e de governo, e se chamava Tales (3): ao qual Licurgo fez tantas súplicas, também pela amizade contraída com ele, que o persuadiu a seguir para Esparta. Esse Tales tinha fama de ser poeta lírico e dessa arte usava o título; mas, de fato, ele fazia tudo o que poderiam fazer os melhores e mais suficientes governadores e reformadores do mundo, pois todos os seus trabalhos eram belas canções nas quais pregava e admoestava o povo a viver sob a obediência das íeis, em união e concórdia uns com os outros, sendo as palavras acompanhadas de cantos, gestos e acentos plenos de doçura e gravidade, que secretamente edulcoravam os corações endurecidos dos ouvintes e os induziam a amar as coisas honestas, desviando-os das sedições, inimizades e divisões então reinantes; de tal maneira que se pode dizer ter sido ele quem preparou para Licurgo a via pela qual este mais tarde conduziu e encaminhou os Lacedemõnios à razão.

(3)   Tales, poeta lírico é bem diferente de Tales, um dos lete Sábios da Grécia, nascido duzentos anos depois de Licurgo.

V. Ao partir de Cândia, seguiu para a Ásia, querendo, como dizem, pela comparação da maneira de viver e da polícia dos Candíotas (então austera e estreita) com as superfluidades e delícias Jônicas, considerar a diferença que havia entre os respectivos costumes e governos: nem mais nem menos que um médico que, para melhor conhecer os corpos sãos e nítidos, os comparasse aos gastos e tarados. É verossímil que ali tenha ele visto pela primeira vez a poesia de Homero entre as mãos dos herdeiros e sucessores de Cleófilo (4); e, achando nela o fruto da instrução política, não menor que o prazer da ficção poética, copiou-a diligentemente e reuniu-a num corpo para levá-la à Grécia. Verdade é que havia já alguma notícia da poesia de Homero entre os Gregos, mas era muito pouco: alguns particulares, aqui e acolá, possuíam dela peças descosidas, sem ordem nem sequência alguma e foi Licurgo quem mais a fez vir à luz nas mãos dos homens.

VI. Dizem os Egípcios que ele esteve também em seu país e que, tendo achado entre outras ordenanças aquela, singular, de que os homens de guerra são ali em tudo e por tudo separados do resto do povo, transportou-a para Esparta, onde, pondo à parte os mercadores, artesãos e gente de ofício, estabeleceu uma coisa pública verdadeiramente nobre, nítida e gentil. Os historiadores do Egito, e ainda alguns Gregos, assim o dizem. Mas, quanto ao mais, que ele tenha estado na África e na Espanha, e até nas índias, para ali ter comunicação com os sábios do país que se chamam ginosofistas, eu não sei de ninguém que o tenha escrito, senão Aristóteles, filho de Hiparco (5).

(4)    É preciso ler Creófilo, segundo Estrabão, liv. XIVr página 946. C.
(5)   Acrescente-se, conforme ao grego, de Esparta. C.

VII. Mas os Lacedemônios o lamentaram muito quando partiu e, por várias vezes, mandaram pedir que voltasse, estimando que seus reis não tinham senão a honra e o nome de reis tão-somente, sem outra qualidade que o fizesse aparecer acima do popular comum; e que ele, ao contrário, nascerá para comandar, tendo por natureza a graça e a eficácia de atrair os homens a voluntariamente lhe obedecerem; e os próprios reis não se desgostavam com sua volta, porque esperavam que sua presença refreasse e contivesse um pouco o povo, que não seria tão insolente para com eles. Eis porque, reportando-se a essa opinião e afeição de cada um para com ele, logo que chegou, pôs-se a remodelar todo o governo da coisa pública e mudar inteiramente toda a polícia, estimando que fazer somente algumas leis é ordenanças particulares não serviria de nada, do mesmo modo que a um corpo inteiramente gasto e cheio de toda sorte de moléstias, nada aproveitaria prescrever-se alguma ligeira medicina que não lhe desse ordem de purgar, resolver e consumir primeiramente lodos os maus humores, para depois lhe dar nova forma e regra de vida.

VIII. Tendo pois tomado essa resolução em seu entendimento, seguiu antes de toda obra para a cidade de Delfos, onde, após haver sacrificado a Apolo, perguntou-lhe dos seus negócios e obteve aquele tão renomeado oráculo pelo qual a profetisa Pítia lhe chama Amado dos deuses, e deus antes que homem; e, em suma, quanto ao pedido da graça de poder estabelecer boas leis no país, ela lhe respondeu que Apolo lha outorgaria e que ele ordenaria a melhor e mais perfeita forma de coisa pública que existiu em todo o mundo. Essa resposta encorajou-o ainda mais, de maneira que começou a descobrir-se a alguns dos principais da cidade e a pedir-lhes e exortá-los secretamente a ajudá-lo, dirigindo-se primeiramente aos que sabia serem seus amigos aos poucos e conquistando sempre alguns outros, que se juntavam à sua empresa. Depois, quando a oportunidade chegou, mandou buscar na praça, certa manhã, trinta dos primeiros homens da cidade, armados, para amedrontarem e conterem aqueles que tivessem vontade de opor-se ao que se havia proposto fazer. O historiador Hermipo cita vinte dos mais aparentes; mas aquele dentre todos os outros que mais o assistiu em todas as coisas, e mais o ajudou a estabelecer suas leis, foi o chamado Aritmíadas. Ora, ao começar o. movimento, o rei Carilau, pensando que fosse uma conjuração contra sua pessoa, ficou tão apavorado que se refugiou no templo de Juno sobrenomeado Calcieco, isto é, templo de bronze; todavia, depois, quando se lhe deu a conhecer a verdade, ele se assegurou, saiu do templo e favoreceu a empresa, sendo homem de boa e doce natureza, como testemunha o que Arquelau, que era na mesma época outro rei da Lacedemònia, respondeu a alguns que em sua presença o louvavam, dizendo que era boa pessoa: «E como (6) não seria bom, disse ele, quando não saberia ser mau nem para os próprios maus?»

IX. Houve, nessa modificação do estado promovida por Licurgo, muitas novidades, mas a primeira e maior foi a instituição do Senado, o qual, misturado com o poder dos reis e igualado a eles quanto à autoridade nas coisas de consequência, foi, como diz Platão, um contrapeso salutar no corpo universal da coisa pública: a qual antes estava sempre em abalo, pendendo ora para a tirania, quando os reis tinham demasiado poder, ora para a confusão popular, quando o povo comum vinha usurpar aí autoridade demais. E Licurgo pôs entre ambos esse conselho dos senadores, que foi como forte barreira mantendo as duas extremidades em igual balança e dando pé firme e seguro ao estado da coisa pública, porque os vinte e oito senadores que formavam o corpo do Senado se enfileiravam às vezes ao lado dos reis, tanto quanto necessário para resistir à temeridade popular e, também, ao contrário, fortificavam às vezes a parte do povo contra a dos reis, para impedir que estes usurpassem um poder tirânico. E diz Aristóteles que ele estabeleceu esse número de vinte e oito senadores porque, dos trinta que inicialmente haviam empreendido remodelar o governo com ele, houve dois que por medo abandonaram a empresa; todavia Esfero escreve que, desde o começo, nunca houve mais de vinte e oito que participassem da conspiração. E porventura teria ele também considerado que era um número completo, visto como se compõe de sete multiplicado por quatro, sendo alem disso o primeiro número perfeito, depois do seis, que iguala todas as suas partes reunidas e recolhidas em conjunto. Mas, quanto a mim, minha opinião é que escolheu aquele número, de preferência a outro, a fim de que o corpo inteiro do conselho fosse de trinta pessoas ao todo, ajuntando aí os dois reis. E teve Licurgo, assim, grande cautela no bem estabelecer e autorizar tal conselho, que lhe fora anunciado por um oráculo do templo de Apolo, na cidade de Delfos, Esse oráculo se chama ainda hoje Retra, como quem dissesse o decreto, e dele é a seguinte sentença: «Depois (7) que tiveres edificado um templo a Júpiter Silaniano e a Minerva Silaniana, e dividido o povo em linhagens, estabelecerás um Senado de trinta conselheiros, inclusive os dois reis; e reunirás o povo, segundo as ocorrências dos tempos, na praça que está entre a ponte e o rio de Gnácion, onde os senadores proporão as matérias e deixarão as assembléias, sem que ao povo seja permitido arengar.» Naquele tempo, as assembleias do povo se realizavam entre dois rios (8), pois não havia sala para reunir o grande conselho, nem praça que fosse de outro modo embelezada nem ornada, porque Licurgo estimava que isso de nada serviria para bem deliberar e escolher bom conselho, e sim para prejudicar, porque comumente faz que os homens, que em tais lugares se reúnem para deliberar acerca de negócios, sonhem com coisas vãs, desviando seus entendimentos no considerar estátuas ou quadros e pinturas que ordinariamente se colocam para embelezar tais lugares públicos; ou, se é um teatro, olhar para a cena, isto é, o lugar onde se representam as peças; ou, se é uma grande sala, a contemplar os lambris ou a abóbada que fôr engenhosamente trabalhada e suntuosamente enriquecida por alguma bela manufatura.

(6)   Esse trecho se acha citado em duas outras passagens Ur Plutarco:  no livro cia Diferença entre o Amigo e o Enganador e naquele Da Inveja e do ódio.   Lê-se aí como seria bom, quando não saberia, etc; e é assim que é preciso ler, omitindo a negação.
(7) Toda essa passagem está alterada e truncada. Vide as. Observações, cap. IX
(8)   Entre o Eurotas e o Gnácion, pequeno rio que se lança no Eurotas, perto de Esparta.

X. Quando todo o povo estava reunido em conselho, não era permitido, a quem o quisesse, propor e apresentar matérias para deliberar, nem emitir opinião; tinha antes o povo autoridade somente para aprovar e confirmar, se bem lhe parecesse, o que fora proposto pelos senadores ou pelos reis; mas depois, como o povo fosse frequentemente forçando ou desviando as proposições do Senado, tirando-lhes ou acrescentando alguma coisa, os reis, Poiidoro e Teopo.mpo, ajuntaram ao teor do supracitado oráculo que, quando o povo quisesse de algum modo alterar às opiniões propostas ao conselho pelo Senado, seria permitido aos reis e aos senadores abandonar o conselho e anular o referido decreto, como tendo alterado, dissimulado e modificado para pior as sentenças e proposições apresentadas pelo Senado. Esses dois reis persuadiram semelhantemente o povo de que esse acessório, do mesmo modo que o principal, vinha do oráculo de Apolo, assim como disso faz menção o poeta Tirteu, na passagem em que diz:

Pelo Deifico oráculo sagrado
Tinha-lhes Pítia ainda acrescentado:
Os reis, aos quais pertence por dever
O bem de Esparta amável promover,
Serão os chefes e moderadores
Do conselho, assim como os senadores;
Sempre de acorde, a massa popular
Deverá limitar-se a confirmar.

XI. Tendo pois Licurgo assim temperado a forma da coisa pública, pareceu contudo, aos que vieram depois dele, que esse pequeno número de trinta pessoas que formavam o Senado era ainda poderoso demais e possuía demasiada autoridade; de modo que, para mantê-los um pouco sob as rédeas, de-ram-lhes, como diz Platão, um freio que foi o poder e a autoridade dos éforos, que equivale a dizer controladores, os quais foram criados cerca de cento e trinta anos após a morte de Licurgo (9); e foi o primeiro eleito o chamado Elato, do tempo em que reinava o rei Teopompo, cuja mulher o censurou um dia, furiosa, por haver ele deixado aos sucessores o reino menor, que não recebera dos predecessores, ao que ele respondeu: «Mas será tanto maior quanto mais duradouro e mais seguro.» Pois também em verdade, perdendo o poder demasiado absoluto que lhes causava a inveja e o ódio dos cidadãos, escaparam ao perigo de sofrerem o que os vizinhos Argivos e Messenianos fizeram a seus reis, por não haverem querido relaxar nem ceder nada de sua autoridade soberana. Isso faz, como nenhuma outra coisa, conhecer evidentemente o grande senso e a longa previdência de Licurgo, a quem quiser de perto considerar as sedições e maus governos dos Agivos e Messenianos, seus próximos vizinhos e parentas, tanto dos povos como dos reis, os quais tendo tido a princípio todas as coisas semelhantes aos de Esparta, e ainda, na repartição das terras, tendo obtido melhores do que eles, todavia não prosperam longamente; ao contrário, pela arrogância dos reis e desobediência dos povos, entraram em guerras civis uns contra os outros e mostraram que efetivamente era uma graça especial haverem os deuses dado aos de, Esparta um reformador que temperasse e ordenasse tão sabiamente o estado e o governo da coisa pública, como aqui deduziremos depois.

(9) Heródoto. Xenofonte e outros historiadores dizem que os éforos foram criados por Licurgo. Eles eram então somente conselheiros dos reis. Mas, cento e trinta anos depois, quando os reis abusaram de seu poder, a autoridade dos éforos aumentou e eles se tornaram senhores dos reis.

XII. A segunda novidade de Licurgo, e a de mais ousada e mais difícil empresa, foi mandar de novo repartir as terras (10): pois, havendo no país da Lacedemônia grande dificuldade e desigualdade entre os habitantes, porque uns, e a maior parte, eram tão pobres que não tinham uma só polegada de terra, e outros, em bem pequeno número, tão opulentos que possuíam tudo, ele advertiu que, para banir e expulsar da cidade a insolência, a inveja, a avareza, as delícias e, mais a riqueza e a pobreza, que são ainda as maiores e mais antigas pestes das cidades e das coisas públicas, não havia meio mais expediente do que persuadir os cidadãos a reporem em comum todas as terras, possessões e heranças do país e de novo as repartirem igualmente entre si, para daí por diante viverem todos juntos como irmãos de maneira que um não tivesse em bens nada mais do que o outro, e a não procurarem preceder uns aos outros em nenhuma outra coisa senão na virtude: estimando não dever existir outra desigualdade nem diferença, entre os habitantes de uma mesma cidade, senão aquela que procede da censura às coisas desonestas e do louvor às coisas virtuosas e honestas. Seguindo aquela imaginação, executou de fato a repartição das terras, pois dividiu todo o resto do país da Lacônia inteiramente, em trinta mil partes iguais, as quais distribuiu aos habitantes dos arredores de Esparta; e das terras mais próximas da própria cidade de Esparta, que era capital de todo o país da Lacônia, fez outras nove mil partes, que repartiu entre os naturais burgueses de Esparta, que são os que propriamente se chamam os Espartanos. Todavia, querem alguns dizer que ele não fez senão seis mil partes e que depois o rei Polidoro acrescentou-lhes outras três mil; ~e há os que dizem ainda que dessas nove mil partes Licurgo não fez senão a metade somente e Polidoro a outra. Cada uma dessas partes era tal que podia dar a seu dono, anualmente setenta meias-minas de cevada (11) para o homem e doze para a mulher, além de uvas e outras frutas líquidas em semelhante proporção: estimando suficiente essas qualidades para manter o corpo do homem são, disposto e robusto, e que não há necessidade de nada mais. Assim, dizem que, voltando um dia dos campos e passando através das terras onde o trigo fora não muito antes ceifado, vendo os montes de grão todos iguais e tão grandes uns como os outros, pôs-se a rir e disse aos que o acompanhavam que todo o país da Lacônia lhe parecia uma herança de vários irmãos que tivessem novamente feito suas partilhas.

(10) Para conhecer o caráter de Licurgo e o espírito de suas leis, é preciso recordar as reflexões de Montesquieu. Vide as Observações, cap. XII.
(11) No grego, setenta medimnos. A avaliação de Amyot é demasiado fraca. A meia-mina de Paris vale apenas três alqueires; e o alqueire de trigo pesa vinte e uma e vinte e duas libras. O medimno continha mais de quatro alqueires, medida de Paris.

XIII. Tentou ele também, semelhantemente, mandar pôr em comum e partilhar os móveis, a fim de eliminar inteiramente toda desigualdade; mas, vendo que os cidadãos supunham muito impacientemente que se lhos tirariam a descoberto, ele nisso procedeu por via coberta, aguçando-lhes sutilmente a avareza e a cobiça: pois primeiramente depreciou toda espécie de moeda de ouro e de prata, ordenando que se usasse somente moeda de ferro, da qual ainda uma grande e pesada massa era de bem pouco preço, de tal maneira que, para se alojar dela o valor de cem escudos (12), seria preciso impedir todo um grande celeiro na casa e seria necessária uma parelha de bois para transportá-la. Ora, estando por esse meio o ouro e a prata banidos do país da Lacônia, era forçoso que vários crimes e malefícios desaparecessem também. Pois quem pretenderia roubar, tomar, sonegar, furtar ou reter uma coisa que não soubesse esconder e que não houvesse grande ocasião de desejar nem proveito em possuir, visto como não podia servir-se dela para empregá-la em outro uso? Porque, quando o ferro que se queria amoedar estava todo vermelho de fogo, deitava-se vinagre em cima, extinguindo-lhe a força e rigidez, de maneira que perdesse toda capacidade para servir na execução de outro trabalho, porque se tornava tão rude e tão brilhante que não mais podia ser batido nem forjado.

(12) No grego, dez minas, que valiam setencentos e setenta e oito libras francesas. Em moeda de ferro, deviam perfazer um peso de mais de mil e seiscentas libras.

XIV. Depois disso, baniu também todos os misteres supérfluos e inúteis, e, ainda que por édito não os tivesse perseguido, teriam assim desaparecido todos, ou a maior parte, com o uso da moeda, quando não mais encontrassem quem ficasse com seus trabalhos, porque a moeda de ferro não tinha curso nas outras cidades âa Grécia, antes zombavam dela por toda parte, e dessa forma não podiam.os Lacedemônios comprar mercadorias estrangeiras, nem lhes visitava o porto nenhum navio para ali traficar, nem entrava no país nenhum afetado retórico para ensinar a pleitear com habilidade, nem nenhum adivinho para ali dizer a boa sorte, nem sarda para ali ficar no cais, nem ourives, nem joalheiro que ali fizesse ou vendesse broches de ouro ou de prata para enfeitar as damas, visto como são coisas que se fazem somente para ganhar e acumular dinheiro, que não havia; e assim as delícias, destituídas das coisas que as nutrem e que as entretém, começavam a fanar ao poucos 6 finalmente a cair por si mesmas, não podendo os tnais ricos ter nada a mais que os mais pobres e não lendo a riqueza meio nenhum de se mostrar em público e pôr-se em evidência, antes ficando reclusa em casa, coisa, sem poder de nada servir a seu dono. E, contudo, os utensílios indispensáveis e com os quais se tem todos os dias o que fazer, como estrados, mesas, cadeiras e outros móveis que tais, se faziam miíito bem, sendo muito louvada a forma e feitio do copo Lacônico, que se chamava Cothon, também para uso de guerreiros, como costumava dizer Crítias, porque era feito de sorte que a cor poupava aos olhos conhecer a água que às vezes se é constrangido a beber num acampamento, tão turva e tão suja que, só de ver-se, provoca náusea; e, se acaso havia alguma sujeira e algum limo no fundo, ele parava nos limites do ventre e pelo gargalo, não vinha à boca de quem bebia senão a parte mais limpa. Do que foi também causa o reformador, porque os artesãos, não estando mais ocupados no mister de obras supérfluas, empregaram sua capacidade em bem produzir o necessário.