Lisandro – Plutarco – Vidas dos Homens Ilustres

Lisandro – Plutarco – Vidas dos Homens Ilustres

SUMÁRIO   DA   VIDA   DE  
LISANDRO

I. Estátua de Lisandro no templo de Delfos. II. Família, educação e caráter de Lisandro. III. As riquezas que faz entrar em Esparta. corrompem os costumes da cidade. IV. É nomeado comandante da esquadra dos lacedemônios. V. Faz aumentar, após interceder junto de Ciro, o soldo de seus marinheiros. VIL Lisandro ganha uma batalha naval. VIII. Forma nas cidade! gregas associações visando nelas estabelecer oligarquias. IX. Sim conduta para com Calicrátidas, nomeado para substituí-lo no comando. X. Viagens inúteis de Calicrátidas, que não consegue avistar-se com Ciro. Sua morte. XI. Lisandro é colocado do novo no comando da esquadra. XII. Infame conduta de Lisandro em Mileto. XIII. Facilidade com que Lisandro fazia falsos juramentos. XIV. Dinheiro a êle fornecido por Ciro. XV. Diversas expedições de Lisandro. Toma Lâmpsaco. XVI. A esquadra dos atenienses segue para a embocadura do rio Egos-Pótamos. XVII. Conduta de Lisandro. XVIII. Conselhos de Alcibíades aos capitães atenienses, que não os aceitam. XIX. Astúcia de Lisando. XXL Alcança a vitória. XXII. Prodígios que precederam este acontecimento. XXIV. Prisioneiros de Atenas condena dos a morte. XXV. Conduta de Lisandro em relação às cidades gregas. XXVIII. Tomada de Atenas. XXX. Demolição das muralhas da cidade. Estabelecimento do Conselho dos Trinta. XXXI. Gilipo rouba parte do dinheiro que Lisandro lhe entregara para levar a Esparta. XXXII. Discute-se em Esparta sobre se se deve receber dinheiro enviado por Lisandro. XXXIII. Lisandro manda fazer a sua estátua. XXXIV. Honras que lhe são prestadas. XXXV. Insolência e crueldade de Lisandro. XXXVI. É chamado a Esparta. Descrição da citai. XXXVII. Como Farnabazo o engana. XXXVIII. Pede uma licença para dirigir-se ao templo de Júpiter Amon. XXXIX. Apaziguamento da cidade de Atenas. XL. Diversos ditos de Lisandro. XLI. Auxilia Agesilau a tornar-se rei da Lacedemô-nia. XLII. Concita-o a guerrear os persas. XLIII. Rivalidade entre Agesilau e Lisandro. XLV. Intrigas de Lisandro para chegar ao trono. LI. Concita os lacedemônios a moverem guerra aos tebanos. LII. Toma a cidade de Orcomene. LIV. É morto diante das muralhas de Haliarto. LV. Sua sepultura. Oráculos que anunciaram sua morte. LVII. Descoberta de uma conspiração que havia ordido para tornar-se rei.

Do ano 278, aproximadamente, até o ano 360, de Roma, 394 A. C.

LISANDRO – Plutarco – Vidas Paralelas
Baseado na tradução em francês de Amyot, com notas de Clavier, Vauvilliers e Brotier.

Tradução brasileira de José Carlos Chaves. Fonte: Ed. das Américas

I. Existe
no tesouro (1) dos habitantes de Acanto, que se acha no templo de Apoio, na
cidade de Delfos, a seguinte inscrição: "Brásidas e os Acântios – Despojos
dos atenienses". Estes dizeres levaram vários escritores a acreditar que a
estátua de pedra existente junto à porta da capela era a imagem de Brásidas; no
entanto, trata-se da estátua de Lisandro, do tamanho natural, na qual êle é apresentado com uma abundante cabeleira e uma barba muito espessa e comprida, à maneira dos
antigos. Não é verdade, como afirmam alguns, que os argivos, após terem sido
derrotados numa grande batalha, mandaram rapar as cabeças, numa pública
demonstração de luto, e que os lacedemônios, ao contrário, para testemunhar a
sua alegria diante da vitória alcançada, deixaram crescer cs cabelos. Também
não é verdade que, quando os baquíadas fugiram de Corinto para a Lacedemônia,
os espartanos, vendo-os com as cabeças rapadas, acharam-nos tão feios e disformes que decidiram deixar crescer a
barba e os cabelos. O certo é que este costume lhes veio de Licurgo, na opinião
de quem uma longa cabeleira realça a beleza dos que são naturalmente belos e
torna ainda mais feios os que já nasceram feios.

(1)    Esta palavra tesouro significa aqui  as
oferendas feitas ao templo pelos
habitantes de Acanto.    Vide os pormenores acerca destas oferendas no capítulo
XXXIII.    A cidade de Acanto,  que foi  denominada  depois  Cassandra, 
ficava  peito  do  monte  Atos.

II.
Segundo se diz, Aristóclites (1), pai de Lisandro, não era da casa dos reis de
Esparta, embora fosse da raça dos heráclidas; mas seu filho Lisandro foi criado
num ambiente de pobreza e mostrou-se mais fiel observador das leis e dos costumes
do país do que qualquer outro espartano. Sua coragem viril, à prova de todas as
voluptuosidades, não conheceu outro prazer senão aquele que decorre da estima
pública, a qual é o prêmio das belas ações; pois em Esparta não se considera
coisa má ou desonesta o fato de os jovens se deixarem dominar por este prazer;
cs espartanos querem que seus filhos se mostrem, desde a mais tenra idade,
sensíveis à glória, e que encontrem prazer no elogio, e, ao contrário, motivo
de pesar na censura. Eles votam desprezo àqueles que permanecem indiferentes a
êsse duplo estímulo, considerando-os como homens de coração vil e covarde,
incapazes de praticar o bem. Deste modo, a ambição e a paixão pela glória de
que era possuído Lisandro devem ser atribuídas à disciplina e à educação
lacônias, não se podendo por isso responsabilizar muito a natureza; desta êle
recebeu a sua inclinação para agradar aos grandes e poderosos, de uma maneira
que não era comum entre os espartanos. Além disso, era dotado de paciência
bastante para suportar, sem esforço, a arrogância daqueles que possuíam maior
poderio e autoridade, quando disso podia tirar algum proveito; o que, aliás, é
considerado per alguns como parte importante da arte de bem dirigir os
negócios do Estado. III Aristóteles (2), na passagem em que diz serem os
grandes espíritos sujeitos freqüentemente à melancolia, citando os exemplos de
Sócrates e Hércules, conta que Lisandro também, não em sua mocidade, mas ao
aproximar-se da velhice, foi vítima do mal da melancolia. Havia no seu caráter
uma qualidade que, entre todas as outras, lhe era própria e peculiar: a de que,
embora se tivesse conduzido sempre honestamente em sua pobreza, sem se deixar
jamais vencer ou corromper pelo dinheiro, êle encheu sua pátria de riquezas e
do desejo de possuí-las, fazendo-a perder a reputação de que gozava de não as
ter em grande estima; todavia apesar de nela ter introduzido grande quantidade
de ouro e de prata, depois de haver vencido os atenienses, não reservou para si
uma única draema. E tal era o seu desinteresse que, tendo um dia Dionísio,
tirano de Siracusa, enviado às suas filhas vestidos da Sicília, ricos e belos,
êle não os quis aceitar, dizendo recear que tais vestidos fizessem parecer-lhe
mais feias as filhas. Entretanto, pouco tempo depois, quando os espartanos o
enviaram como embaixador junto ao mesmo tirano, este apresentou-lhe dois vestidos,
pedindc-lhe que escolhesse um para levar a uma de suas filhas; e êle respondeu
que a interessada poderia escolher melhor, e levou os dois.

(1)    Outros  autores  o  chamam  Aristócrito,

(2)    Aristóteles, nos
«Problemas», secção XXX, tomo II, p ág. 815.

IV, Entrementes,
a guerra do Peloponeso prolongava-se demasiado, e a derrota do exército que os
atenienses tinham enviado à Sicília fazia super que tivessem perdido
completamente todo o domínio do mar; e que, em conseqüência, estariam em breve
sem quaisquer recursos, Mas Alcibíades, chamado do exílio, e recolocado à
frente dos negócios públicos, fêz com que toda a situação se modificasse,
tornando os atenienses tão fortes no mar quanto os lacedemônios. Estes,
receando pela sua sorte, puseram na direção desta guerra um ardor novo, e
verificaram logo que necessitavam, mais do que em qualquer outro momento, de um
maior po derio e de um comandante mais capaz. Entregaram, então, a Lisandro, o
comando da esquadra (1). Chegando a Éfeso, êle encontrou na . cidade um ambiente
amistoso, no que lhe dizia respeito, e verificou que a população se mostrava
devotada aos interesses de Esparta. Achava-se, no entanto, numa situação
lamentável, devido à sua pobreza, e em vias de adotar inteiramente os costumes
bárbaros dos persas, cem quem mantinha relações constantes; com efeito, a
cidade estava como que cercada pela Lídia e os capitães do rei da Pérsia nela
permaneciam, em longas temporadas. Lisandro ali estabeleceu o seu
acampamento, reunindo o maior número de navios de carga que pôde encontrar;
mandou erguer um estaleiro para a construção de galeras, fomentou o comércio
nos portos da região, os quais começaram a ser procurados pelos negociantes, e
fez com que as casas particulares e as oficinas se enchessem de bens; e desde
então Éfçso começou a conceber a esperança de chegar à opulência e à grandeza
na qual nós a vemos hoje.

(1)    No primeiro ano da 93.ª olimpíada, 
408 anos A. C.

V. Informado
de que Ciro, um dos filhos do grande rei da Pérsia, havia chegado à
cidade de Sardes, Lisandro para ali se dirigiu, ao seu encontro, a fim de
falar-lhe sobre questões relacionadas com a Grécia e queixar-se de Tissafernes,
que, tendo recebido .ordem para socorrer os lacedemônios e auxiliá-los a
expulsar os atenienses do mar, conduziu-se com frouxidão, e isto devido à
amizade que tinha por Alcibíades; e, como fornecesse muito pouco dinheiro à
esquadra, causou-lhe a ruína. Ciro, de seu lado, ouvia com prazer queixas
contra Tissafernes, gostando mesmo que se falasse contra ele, e isto porque se
tratava de um homem mau a quem considerava como inimigo. Assim, Lisandro agradou-lhe
muito, e não somente pelas denúncias referentes a Tissafernes, como também pelo
prazer que lhe proporcionava a sua conversação. Lisandro, que sabia agradar e
cortejar os poderosos, cativou o jovem príncipe, e assim encorajou-o no seu
desígnio de prosseguir na guerra. Nas vésperas de sua partida, Ciro
ofereceu-lhe uma ceia, depois da qual lhe pediu que não recusasse os testemunhos
de sua liberalidade e que lhe pedisse com franqueza tudo o que desejasse,
assegurando-lhe que nada lhe seria negado. Lisandro, diante de tais palavras,
deu-lhe a seguinte resposta: "Pois que vos mostrais tão generoso para
comigo, peço-vos e aconselho-vos a que aumenteis de um óbolo o soldo dos
marinheiros, a fim de que, no lugar de três óbolos por dia, eles recebam
quatro".

VI. Ciro, encantado com este
desprendimento de Lisandro, mandou-lhe entregar dez mil dáricos, os quais foram
por êle utilizados para pagar aos marinheiros um óbolo a mais por dia. Esta
liberalidade fêz com que as galeras dos inimigos ficassem vazias em pouco-
tempo, pois a maior parte dos marinheiros dava preferência às esquadras onde
eram melhor pagos; e aqueles que permaneciam nos seus antigos navios,
desincumbiam-se mal de suas obrigações e mostravam-se sempre dispostos a se
rebelarem, mantendo assim em constante apreensão os seus comandantes.
Entretanto, embora tendo privado o inimigo de grande número de homens, e
enfraquecido desse modo as suas forças, não ousou empenhar-se   numa  
batalha   naval.   Receava,   com efeito, Alcibíades, conhecido como homem
de ação, e que possuía uma esquadra mais numerosa; era, além disso, um capitão
que não conhecera até então* sequer uma derreta, nem em terra e nem em mar.

VII.    Entretanto, tendo Alcibíades partido
de Samos para Focéia (1), cidade que fica no continente, defronte da ilha, e
tendo passado o comando da esquadra, durante a sua ausência, ao seu piloto Antíoco,
este, querendo dar prova de audácia, e ao mesmo tempo insultar e zombar de
Lisandro, penetrou no porto de Éfeso com apenas duas galeras; e, no meio de
grande ruído e gargalhadas, passou inso-lentemente diante dos estaleiros onde
se achavam os navios dos lacedemônios. Lisandro, indignado ante tal audácia,
mandou lançar ao mar, em primeiro lugar, algumas galeras, a fim de perseguir o
inimigo; mas vendo que outros capitães atenienses vinham em socorro de Antíoco,
êle empenhou no combate outros navios. Aos poucos, ambos os lados foram se
reforçando, até um ponto em que as duas esquadras passaram a dispor de todas
as suas forças. Lisandro saiu vitorioso da batalha, e, tendo capturado quinze 
galeras  do  adversário,  transformou-as num troféu.

(1) Os
antigos geógrafos colocavam Focéia, uns na Btólia e outros na Jônia asiática.
Mas trata-se, sem dúvida, de uma cidade jônia. Seus moradores devem ser
chamados foceenses para se distinguirem dos fócios, naturais de Fóeida,,
província da Grécia. Foram os foceenses que se dirigiram â Gália, onde
fundaram, em 539 A. C, Marselha, segundo Pétau.

VIII. O povo
de Atenas, irritando-se ao ter conhecimento dessa derrota, afastou Alcibíades
do comando da esquadra; e, como os combatentes que se encontravam no
acampamento de Samos também se pusessem a desconsiderá-lo, decidiu abandonar a
ilha, seguindo para Quersoneso (1), na Trácia. Esta batalha por si mesmo não
apresentava grande importância; mas, em virtude da reputação de que gozava
Alcibíades, teve a maior repercussão. Entre-mentes, Lisandro, depois de mandar
vir das cidades da Ásia, para Éfeso, os homens que considerava como os mais
corajosos e mais empreendedores, foi incutindo neles os primeiros germes das
grandes transformações e inovações que introduziu depois nos governos das
cidades; concitou e encorajou estes homens a formarem associações entre eles, a
atraírem seus amigos e a se esforçarem para ficar com todos os negócios dessas
cidades em suas mãos; prometeu-lhes que, quando ele tivesse destruído o poderio
de Atenas, anularia por toda parte o domínio do povo, e cada um deles passaria
a gozar em seu país de autoridade soberana. Deu-lhes, através de medidas
práticas, garantias seguras de suas promessas; colocou à frente da
administração aqueles que se  tinham  tornado  seus  amigos  e seus hóspedes; conferiu-lhes
honradas e dignidades, . tornandorse mesmo, para satisfazer-lhes as ambições
cúmplice de" suas injustiças e de suas faltas. Deste modo, esses homens,
inteiramente devotados à sua pessoa, não pensavam em outra coisa senão
em agradar-lhe na esperança de que tudo, mesmo as maiores coisas, poderiam dele
obter quando tivesse o governo em suas mãos.

(1)    Quersoneso da Trácia, no estreito dos
Dardanelos.

IX. Assim afeiçoados a
Lisandro, eles não viram com bons olhos Calicrátidas, à sua chegada, quando
este veio substituí-lo no comando- da esquadra; e quando verificaram, através
da experiência, que era um dos homens mais justos, mais direitos e melhores do
mundo, ficaram ainda mais descontentes com a sua maneira de governar,
simples, correta e dórica (1), destituída de qualquer artifício. Admiravam, sem
dúvida, sua virtude, mas com esta admiração que inspira a beleza de uma
estátua antiga de algum herói. Quanto a Lisandro, admiravam a afeição que êle
demonstrava por seus amigos e estimavam as vantagens que tiravam de seus
favores. Assim quando o viram embarcar, foram tomados de grande pesar, e não
puderam conter as lágrimas. E Lisandro, de seu lado, tratou de aumentar a sua
má vontade contra Calicrátidas; pois, entre outras coisas, enviou para Sardes 
(2)  o resto do dinheiro que Ciro lhe havia dado para pagar os marinheiros. E
disse a Calicrátidas que fosse êle próprio pedir o dinheiro ao rei, e, enquanto
isso não fosse feito, que encontrasse um meio de pagar seus homens. Finalmente,
no momento em que ia fazer-se ao mar, declarou publicamente que entregava ao
seu sucessor uma esquadra que era senhora do mar. Calicrátidas, para rebater
o seu vão orgulho, que não passava de uma pretensão, disse: "Se assim é,
por que não tomas à esquerda, passando por Samos, para chegar a Mileto e ali me
entregares tua esquadra? Pois que somos senhores do mar, não devemos recear o
inimigo que está em Samos". Lisandro respondeu-lhe dizendo que o comando
não mais lhe pertencia e sim ao seu sucessor; e, sem esperar pela resposta de
Calicrátidas, seguiu para o Peloponeso, deixando esse almirante na maior
perplexidade. Com efeito, êle não havia trazido dinheiro da Lacedemônia, e não
podia forçar as cidades a pagar contribuições, pois sabia que já se achavam
muito oneradas.

(1)      Provavelmente, alus ão de Plutarco
às antigas leis dóricas.

(2)      Sardes,   capital da Lídia, hoje 
Sart.

X. Não lhe restava outro
recurso, assim, senão ir, como tinha feito Lisandro, procurar os lugar tenentes
do rei da Pérsia, a fim de pedir-lhes dinheiro. Mas ninguém menos indicado do
que êle para tal missão, pois possuía um espírito elevado e um grande amor à
liberdade. Na sua opinião, era menos vergonhoso e menos condenável para os
gregos serem derrotados e dominados por outros gregos do que irem cortejar e
lisonjear bárbaros, os quais nada tinham de bom e de honesto, mas somente o
mérito de possuírem muito ouro e prata. Cedendo, enfim, à necessidade, seguiu
para a Lídia, dirigindo-se, logo após a sua chegada, ao palácio de Ciro. A um
guarda, que viu junto à porta, pediu fosse dizer ao príncipe que Calicrátidas,
almirante dos lacedemônios, desejava falar-lhe. E o guarda respondeu-lhe:
"Estrangeiro, Ciro não tem tempo agora para receber-vos,, pois se acha à
mesa!" Calicrátidas disse-lhe, então, simplesmente: "Está bem,
esperarei aqui até que tenha terminado". Diante destas palavras, os
bárbaros, tomando-o por um rústico, zombaram dele. Calicrátidas então
retirou-se. Procurou Ciro uma segunda vez, e, como ainda não conseguisse
falar-lhe, irritou-se e regressou, do mesmo modo como tinha vindo, à
cidade de Éfeso, maldizendo e abominando aqueles que, antes dele, se tinham
aviltado a ponto de se deixarem insultar por bárbaros, levando-os, assim, a se
orgulharem de suas riquezas. Perante os que o acompanhavam, fêz o juramento de
que, ao chegar a Esparta, o seu primeiro cuidado seria fazer tudo o que
estivesse ao seu alcance para pôr termo às divergências existentes entre os
gregos, a fim de que, tornando-se temíveis para os bárbaros, não tivessem mais
de ir mendigar o seu auxílo, para se destruírem uns aos outros. Mas
Calicrátidas, que, pela nobreza dos sentimentos, pela coragem e retidão, tão
dignas de Esparta,  poderia  ser  comparado  com  justiça  aos maiores homens
da Grécia, foi logo depois vencido e morto num combate naval, perto das ilhas
Arginusas (1).

(1)    Perto de Lesbos.

XI. Os aliados dos
lacedemônios, enfraquecidos por esta derreta, enviaram uma embaixada a
Esparta, com a missão de pedir ao Conselho que recolocasse Lisandro no comando
da esquadra, prometendo combater com maior ardor sob sua direção do que sob a
de qualquer outro almirante. Ciro também enviou embaixadores, fazendo idêntico
pedido. A lei não permitia, no entanto, que o mesmo homem servisse duas vezes
como almirante. Mas os lacedemônios, desejando satisfazer o desejo de seus
aliados, conferiram a dignidade de almirante a um certo Araco, e fizeram seguir
com êle Lisandro, o qual, com o simples título de tenente da Marinha, gozava de
toda a autoridade. Aqueles que cuidavam do governo das cidades, pelas quais
eram responsáveis, desejavam a sua vinda fazia muito tempo, e por isso viram-no
chegar com alegria, na’ esperança de que aumentaria o seu poder, destruindo os
governos populares. Mas aqueles que preferiam comandantes de costumes simples e
atitudes generosas não viam em Lisandro, comparado com Calicrátidas, senão um
homem astuto e ardiloso, que, na maior parte das ações de guerra, recorria ao
ludibrio e à surpresa, somente fazendo caso da justiça quando esta favorecia os
seus interesses; mas em todos os outros casos êle apenas considerava como belo
e honesto aquilo que se lhe afigurava útil. Não acreditava que a verdade fosse
em si mesma preferível à mentira, ou que fosse mais poderosa, medindo o valor
de uma e de outra de acordo com as vantagens que delas tirava. Quando lhe
diziam que os descendentes de Hércules não deviam empregar na guerra burlas ou
ardis, êle replicava com um tom zombeteiro: "Todas as vezes que a pele do
leão não se mostra adequada é preciso coser nela a da raposa".

XII Este aspecto do caráter de Lisandro
foi evidenciado pela sua conduta em Mileto. Seus hóspedes e amigos, a quem havia prometido apoio para destruir a autoridade do povo e expulsar da cidade os
seus adversários, mudaram de opinião, e, como se reconciliassem com o partido
contrário, Lisandro fingiu, em público, estar muito contente, mas, em
particular, cobria seus amigos de injúrias, chamava-os de covardes e
concitava-os a se erguerem contra o povo. Quando viu que a sedição estava para
irromper, acudiu subitamente como se desejasse apaziguar os ânimos; e, logo
após entrar na cidade, dirigiu as maiores invectivas aos primeiros que encontrou
daqueles que desejavam introduzir inovações no governo, tratando-os com a maior
rudeza e ordenando-lhes que o acompanhassem, como se quisesse   puni-los  
severamente;   e   aos   do   partido oposto, disse, ao contrário,
que nada receassem, assegurando-lhes que nada de mal lhes aconteceria enquanto
estivesse entre eles. O objetivo desta simulação’ era reter na cidade os
membros mais prestigiosos do partido popular, a fim de fazer com que todos
morressem depois. Foi, com efeito, o que lhes aconteceu: todos aqueles que
ficaram na cidade, confiantes em sua palavra, foram degolados.

XIII.          Andróclidas narrou, por
escrito, frases que Lisandro costumava proferir e as quais demonstram a
facilidade com que perjurava. "É preciso, dizia êle, enganar as crianças
com o jogo dos ganizes, e os homens com juramentos". Queria desse modo
imitar Polícrates,, o tirano de Samos, mas não tinha razão, pois era um
legítimo general e o outro um usurpador violento e despótico. Além disso, não
era próprio de um verdadeiro lacônio comportar-se com os deuses do mesmo modo
como com os inimigos, ou ainda pior e de maneira mais injuriosa; pois aquele
que engana outrem por meio de perjúrio declara que receia seu inimigo e
despreza Deus.

XIV.            Tendo resolvido enviar a Lisandro a
Sardes, Ciro deu-lhe bastante dinheiro e prometeu-lhe ainda mais; e para
demonstrar-lhe com liberalidade ainda maior o desejo que tinha de o. remunerar,
disse-lhe que, se um dia o seu pai nada lhe quisesse fornecer, tiraria de seus
próprios rendimentos aquilo que lhe fosse necessário; e acrescentou que se tudo
lhe viesse faltar, mandaria fundir o trono no qual distribuía a justiça, e que
era de ouro e de prata maciços. Finalmente, quando chegou o momento de partir
para a Média, a fim de encontrar-se com seu pai, êle lhe delegou poderes para
recolher os impostos e tributos das cidades e confiou-lhe o governo de suas
províncias; e, abraçando-o rogou-lhe que não atacasse por mar os atenienses
antes de seu regresso, assegurando’-lhe que voltaria com um grande número de
navios da Fenícia e da Cilícia. XV, Lisandro, depois da
partida do príncipe, vendo que não podia combater seus inimigos com a esquadra
que possuía, e nem permanecer ocioso com navios tão numerosos, fêz-se ao mar,
ocupando algumas ilhas e pilhando duas delas, Egina e Saía-mina; desembarcou em
seguida na Ática, onde foi cumprimentar o rei Ágis, dos lacedemônios. Este
deixara o forte de Decélia a fim de que suas tropas pudessem ver as forças
navais, as quais o tornavam senhor do mar numa medida maior do que teria ousado
desejar. Lisandro, todavia, tendo sido informado de que a esquadra dos
atenienses estava em sua perseguição, tomou outra direção, a fim de fugir para
a Ásia através das ilhas. Encontrou toda a região do Helesponto completamente
sem defesa, e cercou Lãmpsaco (1) por mar, enquanto que Tórax, ali chegado ao
mesmo tempo que êle, assaltou a cidade pelo lado da terra, com suas forças.
Lãmpsaco foi assim ocupada pela força e abandonada à pilhagem.

(1)    Cidade da Ásia
Menor, quase junto à costa, à entrada da Propôntida.    Era famosa pelos seus
vinhos.

XVI. Entrementes, a esquadra dos atenienses, constituída
de cento e oitenta navios, ancorara diante de Eleonte (!1), no Quersoneso; mas,
diante das notícias de que Lâmpsaco tinha sido ocupada, ela se dirigiu
imediatamente para Sestos (2), e, após ali reabastecer-se, subiu até
Egos-Pótamos, indo postar-se diante das naus inimigas, as quais ainda se
achavam ancoradas junto à cidade de Lâmpsaco. A esquadra dos atenienses tinha
vários comandantes, entre cs quais Fílocles, aquele que persuadira o povo de
Atenas a mandar cortar o polegar direito a todos os prisioneiros de guerra, a
fim de que não pudessem mais utilizar-se da lança, mas apenas puxar o remo. As
duas esquadras repousaram naquele dia, na esperança de combater no dia
seguinte. Mas Lisan-dro, que havia concebido outro plane, ordenou aos pilotos e
marinheiros que se mantivessem em suas galeras como se tivessem de lutar desde
as primeiras horas do dia; disse-lhes ainda que evitassem fazer qualquer ruído
e que aguardassem suas ordens no mais profundo silêncio. Mandou igualmente
dizer às forças de terra que se conservassem em ordem de batalha, junto à
costa.

(1)      Foi depois denominada Novo Castelo da Europa, estando
situada no estreito dos Dardanelos.

(2)      Cidade do Quersoneso, nas costas do
Helesponto.

XVII.       Ao nascer do sol, no dia seguinte, os atenienses
fizeram avançar as suas galeras numa só linha, em ordem de batalha, provocando
o inimigo.
Os navios dos espartanos tinham as proas voltadas para o inimigo, e estavam,
desde a véspera, com todos os tripulantes a bordo; mas Lisandro não fêz qualquer movimento; ao contrário, enviou pequenos barcos em direção das galeras
que se encontravam mais à frente, com a ordem a elas dirigidas de se
manterem em posição de batalha, mas sem fazer qualquer ruído e nem avançar ao
encontro do inimigo. À tarde, os atenienses retiram-se; mas, mesmo assim, êle
somente permitiu que seus soldados desembarcassem depois que duas ou três
galeras, por êle enviadas para observar a esquadra de Atenas,
trouxeram-lhe a notícia de que os marinheiros inimigos haviam descido à terra.
Nos três dias que se seguiram, êle fêz a mesma coisa. Esta conduta,
inspirou aos atenienses uma grande confiança em si mesmos, e, ao mesmo tempo,
um grande desprezo pelo inimigo, pois estavam certos de que era o medo
a causa de sua inação.

XVIII,       Entrementes,
Alcibíades, que então se encontrava no Quersoneso, nas praças fortes por êle
ocupadas, dirigiu-se a cavalo ao acampamento dos atenienses, a fim de censurar os capitães do exército pelos grandes erros
que haviam cometido; em primeiro lugar, porque tinham ancorado e mantido os navios diante de uma costa desprotegida, onde não havia abrigo para a esquadra no caso de alguma
tormenta; a em segundo lugar, porque não deviam ter abandonado Sestos, de onde
recebiam as suas provisões. Aconselhou-os a voltarem sem perda de tempo para
esse porto, tendo-se em vista que a distância não era grande. Deste modo,
ficariam mais longe do inimigo que, comandado agora por um único chefe,
observava uma estrita disciplina, executando, a um simples sinal, todas as
ordens que lhe eram dadas. Mas os capitães atenienses recusaram-se a concordar
com estas observações, e um deles, Tideu, chegou mesmo a responder a Alcibíades
de maneira insultuosa, dizendo-lhe que não era ele o comandante, e que havia
outras pessoas encarregadas deste encargo, Alcibíades, suspeitando de alguma
traição, retirou-se sem replicar.

XIX. No quinto dia, os atenienses, uma vez
mais, apresentaram-se diante do inimigo; e, à tarde, depois de se terem
retirado como de costume, com uma aparência de pouco caso e de desordem, Lisandro
enviou na direção do adversário alguns galeotes, para observá-los. Seus
comandantes seguiram com ordem de regressar rapidamente, logo que vissem os
atenienses desembarcarem. Ao atingirem a metade do estreito, deviam parar para
içar, na proa, na ponta de uma lança, um escudo de cobre, sinal ante o qual
toda a esquadra avançaria. Êle próprio, em sua galera, pôs-se a percorrer toda
a linha de navios, animando os pilotos e os capitães; e exortou-os a manterem
seus barcos, bem como os soldados e marinheiros, prontos para atenderem ao
primeiro sinal, a fim de avançar sobre o inimigo, com toda a sua força.

XX. Mal o
escudo de cobre se elevara no ar, e da nau-capitânea ergueu-se o som de uma trombeta,
dando o sinal de partida, imediatamente a esquadra começou a movimentar-se em
boa ordem; e as forças de terra apressaram-se igualmente em alcançar o
promontório que dominava o mar, para assistir ao desenrolar do combate. O
estreito que separava as duas costas, naquele lugar, não tem mais de quinze
estádios de largura, distância que foi transposta em pouco tempo, graças aos
esforços dos remadores. O primeiro dos generais atenienses a avistar, de terra,
a esquadra avançando a toda vela, foi Conão; e, incontinenti, ordenou aos
soldados que se dirigissem para os barcos. Acabrunhado ante a ameaça que pesava
sobre os navios, êle pôs-se a chamar uns, e advertir outros, forçando todos os
que encontravam a subir para as embarcações. Mas seus esforços e seu zelo foram
vãos: os soldados em sua maioria estavam dispersos, pois, como nada esperavam
de novo, logo após o desembarque, tinham se dirigido para pontos diversos, a
fim de comprar víveres ou passear no campo. Entre os que haviam ficado, uns
dormiam em suas tendas, outros preparavam a refeição.    E todos, devido à
inexperiência de seus chefes, estavam bem longe de imaginar
aquilo que os ameaçava.

XXI O inimigo já se aproximava, avançando
com grande ímpeto, no meio de altos gritos e grande ruído de remos, quando
Conão, fugindo com oito galeras, retirou-se para a ilha de Chipre, junto de
Evágoras. Entretanto, os peloponésios, investindo contra as outras galeras,
apoderaram-se das que se achavam vazias, e abalroaram as que começavam a se
encher de soldados. Os combatentes que acorriam para defender os navios, em
grupos, e sem armas, foram mortos, e os que se puseram em fuga foram
massacrados pelos adversários que, descendo do promontório, lançaram-se em sua
perseguição. Lisandro fêz três mil prisioneiros, entre os quais os capitães
atenienses. Apoderou-se ainda de toda a esquadra inimiga, com exceção do navio sagrado denominado Páralo e das oito galeras que se puseram a salvo, por ordem
de Conão, no começo da refrega. Lisandro, depois de amarrar as galeras
apresadas nas popas das suas e de pilhar o acampamento dos atenienses, voltou
para Lâmpsaco, no meio de cantos de triunfo e ao som de flautas. Êle acabava de
participar, sem grande esforço, de um grande feito de guerra, tendo resumido,
por assim dizer, no espaço de uma hora, todo o período de duração de uma guerra
(1), cheia dos mais diversos e estranhos acontecimentos, e que teve, sucessivamente,
as formas mais variadas e apresentou as mais incríveis vicissitudes, com um
número infinito de batalhas em terra e mar, e que custou a vida de maior número
de generais do que todas as outras guerras de que a Grécia havia sido até então
teatro, guerra essa que finalmente chegou ao seu termo graças à astúcia e à
habilidade de um só homem.

(1)   Esta   guerra  
do   Peloponeso   durou   27   anos.       Terminou no  quarto   ano  da 
octogésima-terceira  olimpíada,  405   anos  A.  C.

XXII. Este
fetto foi mesmo considerado como obra dos deuses; e assegurou-se que, quando a
esquadra lacedemônia saiu do porto de Lâmpsaco para investir contra o inimigo,
as duas chamadas estrelas de Castor e Pólux (1) foram vistas brilhar sobre a
galera de Lisandro, uma de cada lado. Outros pretendem que a queda de uma pedra
prognosticou aquela derrota; pois, segundo muitos afirmam, caiu do céu,
naquela época, sobre a costa de Egos-Pótamos uma grande pedra, que ainda hoje
ali se vê, e da qual os moradores do Quersoneso fizeram um objeto de veneração.
Diz-se ainda que o filósofo Anaxágoras tinha predito (2) que um dos corpos
prêsbs à abóbada celeste seria um dia arrancado  por  forte  tremor  e 
abalo,   e  que  cairia sôbrè a terra. Os astros, segundo este filósofo, não
ocupam hoje os espaços nos quais haviam sido colo~ cados a princípio; como são
de uma substância pesada, e da natureza da pedra, não brilham senão através da
reflexão e da refração do éter; são retidos nas regiões superiores do universo
pela revolução rápida do mesmo, que para ali os impeliu desde a formação do
mundo, quando a violência do turbilhão que provocou a separação dos corpos
frios e pesados das outras substâncias existentes, impediu-os de se destacarem
dessas regiões elevadas, onde os retém ainda. Mas uma hipótese mais aceitável é
a de que as chamadas estrelas cadentes não são, — e essa é a opinião- de alguns
filósofos, — nem fusões, nem separações do fogo etéreo; elas se extinguem nos
ares no mesmo momento em que se inflamam; não são, menos ainda, um abrasamento
ou combustão do ar, que, condensado numa massa muito grande, escapasse para as
regiões superiores, inflamando-se: são verdadeiros corpos celestes que,
destacados do céu pelos abalos a que são submetidos, pelo enfraquecimento da
revolução rápida do universo, ou por qualquer outro movimento extraordinário,
caem sobre a terra, não em lugares habitados, mas com maior freqüência no
grande mar Oceano, motivo por que não são vistos.

(1)    Trata-se de fenômenos de
eletricidade, observados em todos os séculos, mas que somente muito tempo
depois se tornaram melhor conhecidos.

(2)    Plínio,  II,  58, 
zomba  com  razão,   desta  pretensa  predição feita,  ao  que se afirmou,  por
Anaxágoras, no segundo  ano  da  78 olimpíada.

XXIII. Todavia,
a opinião de Anaxágoras é confirmada por Damaco, que, no seu "Tratado de
Religião", conta que, antes da queda da pedra, viu-se, sem interrupção, no
céu, durante setenta e cinco dias, um globo de fogo, semelhante a uma nuvem
inflamada, que não se mantinha parado no mesmo lugar; mas que, flutuando de um
lado para outro através de movimentos contrários e irregulares, era impelido
com tanta violência, que dele se desprendiam partes inflamadas, as quais,
caindo em vários lugares, lançavam clarões semelhantes aos das estrelas
cadentes. Quando este grande corpo de fogo caiu nas costas do Helesponto, e
depois que os moradores da região, recuperando-se de seu es panto, acorreram
para examiná-lo, não encontraram nele nenhum indício, nenhum traço de fogo; não
viram senão uma pedra imóvel, que, embora muito grande, parecia apenas uma
pequena porção do globo de fogo visto antes. Ora, todos vêem aqui que Damaco
necessita de leitores indulgentes; mas se seu relato fôr verdadeiro, constitui
uma refutação vitoriosa da opinião daqueles que pretendem ser a referida pedra
uma massa de rochedo, a qual, arrancada pela violência de um vento de
tempestade do cimo de uma montanha-, elevada pelos ares enquanto perdurara a
força do turbilhão, caíra logo que tal força diminuíra. Poder-se-aa também
dizer que este globo luminoso, que apareceu no céu durante vários dias, estava
verdadeiramente inflamado, e, em seguida, extinguindo-se e dissipando-se na
atmosfera, nela provocou uma mudança extraordinária, causando ventos impetuosos
e abalos violentos, que destacaram essa pedra e a lançaram sobre a terra. Mas
trata-se de um assunto próprio para ser discutido, mais amplamente, em outra
espécie de tratado.

XXIV, Entrementes, tendo sido
condenados pelo conselho de guerra (1) os três mil atenienses aprisionados, Lisandro mandou chamar F?locles, um dos
generais, e perguntou-lhe de que pena êle se considerava merecedor por haver
aconselhado aos seus concidadãos, em Atenas, a adoção de um decreto cruel
contra os prisioneiros (2). Fílocles, que não se deixava abater nem mesmo
diante das maiores calamidades, respondeu-lhe: "Não acuseis aqueles que
não contam com juizes; e, pois que os deuses vos fizeram vencedor, fazei de nós
aquilo que teríamos feito de vós, se vos tivéssemos vencido". Logo após
pronunciar estas palavras foi banhar-se e vestiu em seguida rico manto, como se
tivesse de ir a alguma festa, e dirigiu-se ao local da matança, mostrando o
caminho aos seus concidadãos, segundo a narrativa de Teofrasto.

(1)     Plutarco não conta o motivo deste julgamento. Xeno-fonte
(Hist. L. II.) no-lo narra. Os atenienses foram acusados de haver
lançado ao mar todos os cativos de duas galeras e terem resolvido em plena
assembléia cortar as mãos de todos os inimigos que aprisionassem. Eles foram
todos condenados a morte, com exceção de Adimante, que se opusera a esse
decreto. Vide as sábias reflexões de Montesquieu sobre a força das penas.
(Esprit des Lois, IV, 12).

(2)     Ou seja, cortar as mãos de
todas os prisioneiros, segundo conta Xenofonte.

XXV, Após a execução, Lisandro percorreu
com sua esquadra as cidades marítimas, e obrigou todos os atenienses que nelas
encontrou a se retirarem para Atenas, dizendo-lhes que não perdoaria a nenhum
daqueles a quem surpreendesse fora da cidade, os quais seriam degolados. O seu
objetivo, ao encerrá-los todos em Atenas, era esfomear a população mais
depressa; assim, não contando com provisões para suportar um longo sítio, os
atenienses se renderiam. Em todas as cidades por onde passava, destruía a
democracia ou qualquer outra forma de governo do povo, e nelas deixava um
capitão’ ou governador lacedemônio, com um conselho de dez oficiais, escolhidos
entre aqueles que anteriormente haviam mantido ligação ou amizade com êle.
Submetia a este tratamento tanto as cidades que sempre haviam sido aliadas dos
lacedemônios quanto as que eram suas inimigas. E navegando ao longo das costas,
lentamente, sem nunca se apressar, foi estabelecendo como que um principado, um
domínio sobre toda a Grécia; pois não era nem a nobreza nem a fortuna que o
orientavam na escolha dos magistrados; êle reservava todos os cargos e
honra-rias aos que pertenciam àquelas associações por êle estabelecidas,
dando-lhes inteira liberdade para punir ou recompensar. Assistia com freqüência
ao suplício dos proscritos, expulsava os inimigos daqueles que lhe eram devotados, e proporcionava aos gregos
um antegosto pouco agradável do que seria um governo lacedemônio.

XXVI. Êste o
motivo por que o poeta cômico Teopompo (1) parece gracejar quando,
comparando os lacedemônios aos taverneiros, diz que, após terem feito os gregos
saborear o doce licor da liberdade nele misturaram vinagre. Ao contrário, desde
o começo, a sensação que proporcionaram aos gregos com o seu modo de governar
foi a de amar-gor e azedume; pois Lisandro não deixou em nenhuma cidade o povo
no governo, confiando sempre a autoridade nas mãos de um pequeno número,
escolhidos entre os mais violentos e audaciosos, e sediciosos, que houvessem em
cada cidade. Depois de terminar, em pouco tempo, estas modificações, enviou
mensageiros à Lacedemônia para anunciar que para ali se dirigiria com duzentos
navios. Nas costas da Ática, onde desembarcou, encontrou-se com os reis de
Esparta, Ágis e Pausânias, na esperança de se tornar logo senhor de Atenas.
Mas a resistência dos atenienses obrigou-o a dirigir-se, uma vez mais, para a
Ásia, onde acabou de modificar a forma de governo de todas as cidades,
estabelecendo conselhos de dez arcontes e condenando a morte ou ao exílio
grande número de cidadãos. Expulsou os sâmios (1) de sua pátria, entregando
Samos àqueles que haviam sido banidos. Apoderou-se de Sestos, que ainda se
achava em poder dos atenienses, e, depois de obrigar todos os moradores a sair,
deu a cidade e seu território aos pilotos e galeotes (3), que haviam estado na
guerra sob seu comando. Este foi o primeiro dos atos de Lisandro que os lacedemônios
desaprovaram: eles restituíram aos sestíacos sua cidade e suas terras.

(1)           N ão é do poeta, mas do historiador,
discípulo de Isócrates, que estas palavras são tiradas. Vide Muret (Var. Lect VII, 17).
(Brotier). Muret se baseia naquilo que Teodoro Meto chita cita de passagem como
sendo de Teopompo, o historiador; mas o testemunho deste escritor não tem peso,
bastante para que deva corrigir Plutarco. (C).

(2)    Plutarco inverte aqui a ordem dos
fatos, pois este epis ódio de Samos só se verificou, segundo Xenofonte, após a
demolição das muralhas de Atenas, de que se tratará em breve.

(3)    No grego: aos pilotes e aos
celeustas. Estes últimos fiscalizavam a preparação e a distribuição dos
alimentos nos navios. Suidas atribui-lhes autoridade sobre os soldados e os
remadores, que eram por eles animados, seja durante as viagens, seja durante os
combates.

XXVII.      Estes atos de Lisandro desagrada ram muito aos gregos,
mas houve outros que lhes causaram grande prazer, entre os quais a restituição
aos eginenses de suas casas e de suas terras, das quais haviam sido expulsos
fazia muito tempo. A mesma coisa fêz em relação aos habitantes de Sicião e Meios, os quais recuperaram suas propriedades após  a  expulsão  dos
atenienses  daquelas   cidades.

XXVIII.        Entrementes,
Lisandro, informado de que os atenienses estavam lutando com uma seria escassez de víveres, rumou para o porto de
Pireu, e forçou Atenas a render-se, impondo-lhe suas condições. A dar crédito
aos lacedemônios, ele escreveu aos éforos de Esparta apenas estas
palavras: "Atenas foi ocupada". E os éforos lhe responderam:
"Basta que ela seja ocupada". Mas trata-se de uma invenção para
tornar a narrativa mais bela. Na realidade, o ato de capitulação enviado pelos
éforos estava redigido nestes termos: "Eis o que ordenam os magistrados da
Lacedemônia: demolireis as íortificações de Pireu e as longas muralhas que unem
o porto a cidade; evacuareis todas as cidades que conquistastes, e
permanecereis dentro dos limites do vosso território. Mediante estas
condições,- tereis a paz; pagareis igualmente aquilo que fôr julgado
conveniente; e chamareis os banidos. Quanto ao número de navios, devereis
conformar-vos com o que fôr resolvido". Os atenienses, seguindo o conselho
de Terâmenes, filho de Agnão, aceitaram os artigos deste fatal decreto; e como
um jovem orador ateniense, chamado Cleômenes, lhe perguntasse publicamente
se ele ousaria dizer e fazer o contrário do que havia feito Temístocles,
entregando aos lacedemônios as muralhas que o mesmo Temístocles havia
construído, não obstante a oposição do adversário, êle respondeu incontinenti:
"Jovem, nada faço que seja contrário ao que foi feito por Temístocles.
Pois foi tendo em vista a salvação dos atenienses que êle construiu  cutrora 
estas  muralhas;   assim,  é  igualmente tendo em vista a salvação dos
cidadãos que agora vamos demoli-las. Se forem as muralhas que tornam as cidades
felizes, Esparta, que não as possui, deve ser a mais infeliz de todas as
cidades",

XXIX. Lisandro recebeu todos
os navios dos atenienses, com exceção de doze, e tomou posse da cidade no dia
dezesseis de março (1), dia no qual os atenienses tinham alcançado sobre
os bárbaros a vitória de Salamina, contra o rei da Pérsia. Logo após a
sua entrada na cidade êle propôs que se mudasse a forma de governo; como os
atenienses a isso se opusessem vivamente, Lisandro mandou dizer-lhes que não
tinham obedecido aos artigos do tratado assinado, pois que haviam decorrido os
dez dias do prazo dado, e as muralhas da cidade ainda estavam de pé; diante
disso resolvera reunir o conselho a íim de ditar-lhes outras condições, pois
que as do primeiro tratado tinham sido violadas. Afirma-se que foi proposta no
conselho dos aliados a escravização de todos os atenienses, e que um tebano,
chamado Erianto, aconselhou que se arrasasse a cidade e que se
transformasse todo o país em pastagens para os rebanhos. Esta reunião foi
seguida de um festim, com a presença de todos os generais tendo um musicista
fócio cantado estes versos do primeiro coro da tragédia Electra, do
poeta Eurí-pides, que assim começa  (1):

Filha de Agamenon,
princesa infeliz,
 Ao vosso palácio, outrora celebrado,
Chego,   para   em   ruínas   encontrá-lo,

Estas palavras comoveram os
convivas, e todos exclamaram que seria horrível destruir uma cidade tão famosa,
e que havia produzido tão grandes homens e tão nobres espíritos.

(1)   No grego: munychion.

XXX. Tendo
os atenienses se submetido inteiramente, Lisandro mandou reunir na cidade um
grande número de tocadoras de flauta, as quais se juntaram às que já se
encontravam em seu acampamento, e, ao som da música, mandou arrasar as muralhas
e incendiar os navios, na presença dos aliados e confederados da Lacedemônia,
os quais, coroados de flores e considerando esse dia como a aurora da
verdadeira liberdade, entregaram-se às maiores demonstrações de alegria. Logo
depois êle modificou a forma de governo de Atenas, estabelecendo um conselho de
trinta arcontes na cidade e de dez no Pireu, conselhos estes que gozavam de
toda a autoridade; colocou uma guarnição na cidadela, sob o comando de .um
nobre espartano chamado Calíbio (2).   Este comandante ergueu um dia o seu
bastão sobre Autólico, homem robusto e disposto à luta, sobre o qual Xenofonte
compôs o seu Convívio (1), Este ergueu então Calíbio pelas duas coxas, rapidamente,
e, atirou-o no chão, de costas. Lisandro não somente não o puniu como censurou
Calíbio, dizendo-lhe que êle devia lembrar-se de que tinham de comandar homens
livres e não escravos. Todavia, alguns dias depois, os Trinta, para agradar a
Calíbio, mandaram matar Autólico.

(1)        Electra, vide 167.

(2)     Pausànias  chama-o  de Eteônico,  e conta esta
história  de maneira um pouco diferente. (C).

XXXI Depois de haver assim agido em Atenas, Lisandro partiu
para a Trácia (2); e o que lhe restou do ouro e da prata de que se apoderara na
cidade, dos presentes que recebera, das coroas que lhe haviam mandado, as quais
deviam ser numerosas pois que eram enviadas ao homem mais poderoso e, de
certo modo, ao senhor da Grécia, êle remeteu para Esparta, por intermédio de
Gilipo, que havia comandado os siracusanos na Sicilia, Gilipo, ao que se conta,
descosturou todos os sacos, pela parte debaixo, tirou de cada um uma boa soma,
e em seguida os recoseu; êle não sabia que havia em cada saco uma lista com a
relação de todas as peças de ouro e de prata que continha. Após chegar a
Esparta, ocultou sob o teto de sua casa o dinheiro , que tinha roubado, e
entregou os sacos aos éforos, mostrando-lhes   que   os selos   colocados  
na   parte superior dos mesmos por Lisandro estavam intactos. Os
éforos, após abrir os sacos e contar o dinheiro, verificaram que as somas não
coincidiam com as listas. Não sabiam o que pensar, até que um escravo de Gilipo
lhes revelou, com palavras dissimuladas, o roubo; disse-lhes, com efeito,
que havia sob o telhado da casa de seu senhor um grande número de corujas, e
isto porque a maior parte das moedas de ouro e prata cunhadas na Grécia tinha
nelas, gravada, uma coruja, ave venerada pelos atenienses.

(1)     No grego; o-Banquete.

(2)     Xenofonte escreve que êle seguiu, não para a Trácia,
mas para Samos.

XXXII. Gilipo foi banido da Lacedemônia,
após ter deslustrado, com uma ação tão vil e indigna, todos os seus belos e
grandes feitos de armas anteriores. Entretanto, os mais sensatos cidadãos de
Esparta, impressionados com esse exemplo, e temendo o poder do dinheiro, tão
forte que corrompera um de seus cidadãos mais conceituados, censuraram
abertamente Lisandro, e declararam aos éforos que deviam fazer sair de
Lacedemônia todo o dinheiro que para ali tinha sido enviado, como se tratasse
de uma peste, perigo que se tornava maior pelo fato de revestir-se de formas
sedutoras. A questão foi submetida à deliberação do conselho; e, segundo o
historiador Teopompo, foi um cidadão chamado Cirafidas quem propôs o
decreto. Segundo Éforo, a iniciativa foi de Flogidas, que foi o primeiro a
opinar no conselho, dizendo que não se devia receber na cidade de Esparta
nenhuma moeda de ouro ou de prata, e que apenas a do país devia "ser usada.
Tratava-se de uma moeda de ferro, que se fazia primeiramente avermelhar no
fogo, e que era em seguida temperada no vinagre, a fim de que, tornando-se
áspera e quebradiça, não pudesse ser forjada nem utilizada para outros fins. Era,
aliás, tão pesada que não podia ser transportada facilmente;’ e, por isso,
quando o seu volume era muito grande, o valor diminuía. E, antigamente, ao que
me parece, as moedas de uso corrente eram somente dessa espécie, ou seja,
pequenos bastões de ferro e em alguns lugares de cobre; daí o fato de existirem
até hoje pequenas peças que têm o nome de óbolo, seis das quais fazem
uma dracma, assim chamada porque era tudo o que a mão podia conter. Os amigos
de Lisandro opuseram-se ao decreto, e tanto insistiram que, de acordo com uma
decisão do conselho, o dinheiro ficou em Esparta, com a condição de ser apenas utilizado nos negócios públicos. Todos os particulares que fossem
encontrados com tal dinheiro em seu poder seriam punidos com a morte, como se
Licurgo, quando elaborou suas leis, tivesse receado o ouro e a prata e não a
avareza que deles resulta. Para prevenir esta paixão não adiantava muito
proibir aos particulares a posse destas moedas de ouro e prata, pois
que, autorizan-do-se a cidade a usá-las, contribuía-se para torná-las mais
cobiçadas. Seria possível, com efeito, que os particulares as desprezassem como
inúteis, quando eram publicamente estimadas?     E cada  espartano poderia, em seus próprios negócios, deixar de atribuir
valer àquilo que aos seus olhos era tão procurado para os negócios públicos?
Assim, devemos admitir que são os bons ou maus costumes na conduta dos negócios
públicos que influenciam os costumes dos particulares; e que os erros e os
vícios destes não contribuem tanto, assim, para a depravação das cidades e a má
conduta da coisa pública. ,É natural que um todo viciado leve facilmente suas
partes à corrupção; enquanto que, ao contrário, as afecções de uma única parte
podem receber auxílio e remédio das outras partes sãs e inteiras. Os éforos, e
verdade, para evitar que o dinheiro amoedado’ fosse ter às mãos dos cidadãos,
colocaram como sentinelas, junto às residências deles, o temor e a lei; mas não
puderam fechar o espírito dos espartanos aos desejos e paixões provocadas pelo
dinheiro; ao contrário, fizeram nascer em todos eles o desejo de enriquecer,
coisa que consideravam digna e respeitável. Aliás, já censuramos, em outro
lugar, os lacedemônios pela sua conduta (1).

(1)   Vide
a Vida de Licurgo, capítulo LXII.

XXXIII Lisandro, com o produto da presa de guerra, mandou
fazer a sua estátua em bronze, bem como as de todos os comandantes das galeras;
estas estátuas foram colocadas no templo de Delfos, juntamente com duas
estrelas de ouro, que representavam Castor e Pólux, e que desapareceram pouco tempo
antes da batalha de Leuctres, não se sabendo qual o seu destino. No tesouro de
Brásidas e dos acântios havia também uma galera feita de ouro e de marfim, com
dois côvados de comprimento, que Ciro havia enviado a Lisandro depois de sua
vitória sobre os atenienses. Anaxandridas (1), historiador natural da cidade de
Delfos, conta que Lisandro tinha depositado, no templo, um talento de prata,
cinqüenta e duas minas e onze peças de ouro, deno-minadas estáteres. Mas essa
afirmação não está de acordo com o que dizem os outros historiadores sobre a
sua pobreza.

XXXIV. Lisandro
tinha então maior autoridade e poderio do que qualquer outro grego antes dele;
deixou-se, contudo, dominar por uma vaidade e orgulho que ultrapassavam os seus
méritos. Como escreve o historiador Duris (2), foi o primeiro dos gregos a quem
as cidades ergueram altares e ofereceram sacrifícios como a um deus; foi ainda
o primeiro a ter a honra de ser objeto de hinos em seu Iquvor, um dos quais, de que há ainda hoje memória, começava assim:

Da Grécia, país dos  deuses  amado,
 Celebremos, o incomparável herói,

Que à  vitória os gregos conduziu,
Cantemos, exaltemos seus feitos!

Os
sâmios ordenaram, através de um decreto público, que as festas de Juno
passassem a ser deno-minadas festas de Lisandro, ou Lisândria. Êle pró-prio se
fazia acompanhar do poeta Quérilo, a fim de que êle, com o encanto de sua
poesia, tornasse mais bela a narrativa de suas ações. Tendo outro poeta,
Antílcco, composto alguns versos em seu louvor, êle ficou tão enlevado, que lhe
deu o seu chapéu cheio de dinheiro. Dois outros, Antímaco, de Colofão, e
Nicerato, de Heracléia, fizeram, cada um, um poema, em sua honra, disputando
diante dele o prêmio. Lisandro conferiu a coroa da vitória a Nicerato, e
Antímaco ficou tão despeitado que destruiu seu poema. Platão, então
muito jovem, admirava o talento poético de Antímaco; e vendo como o afetara o
malogro, disse-lhe, para consolá-lo, que a ignorância é para o espírito aquilo
que a cegueira é para os olhos. Finalmente, o excelente tocador de lira
Aristonous, que saíra vencedor seis vezes nos jogos pítios, querendo obter as
boas graças de Lisandro, prometeu-lhe que, caso saísse vencedor uma vez mais,
far-se-ia proclamar seu escravo.

(1)    
Também chamado Alexandridas.

(2)    
Historiador da ilha de Samos, da
qual foi tirano, segundo Ateneu.    Viveu na época de Ptolomeu Piladelfo.

XXXV. A
ambição de Lisandro a princípio era temível e odiosa apenas para os principais
cidadãos e as personagens de sua categoria; mas quando a essa paixão êle
acrescentou a arrogância e a crueldade, fruto das lisonjas daqueles que o
cercavam, a maneira como passou a recompensar os amigos ou a punir os inimigos
não teve mais medida ou limites. O governo despótico nas cidades, um poder absoluto
de vida e de morte, foram para seus amigos e hóspedes o prêmio da ligação que
haviam contraído com êle. E não conheceu mais senão uma maneira de saciar sua
sede de vingança, a morte daqueles a que visava, e não havia nenhum meio de a
ela escapar. Em Mileto, receando que os chefes do partido popular fugissem, e
querendo obrigar aqueles que se tinham escondido a sair de seus esconderijos,
jurou que não lhes faria qualquer mal; mas apenas apareceram, confiando em sua
palavra, êle os entregou aos ncbres, seus adversários, os quais os mandaram
matar, não obstante não serem menos de oitocentos. Nas outras cidades, a
mesma coisa aconteceu, e não se poderia contar o número de pessoas do povo que
mandou assassinar; pois não contente de sacrificá-los ao seu ressentimento
pessoal, satisfazia também o ódio, as aversões e a cobiça dos amigos que tinha
em cada localidade. Etéocles, o lacedemônio, teve assim razão em dizer que a
Grécia não teria podido suportar dois Lisandros. Segundo Teo-frasto, a mesma
coisa já tinha sido dita a respeito de Alcibíades por Arquestrato. Mas o que
chocava mais em Alcibíades era uma grande insolência, muito luxo e vaidade, que
desagradavam aos homens; mas em Lisandro a excessiva dureza de seu caráter e a severidade de seus costumes tornavam o seu poderio
cruel e insuportável.

XXXVI. Os lacedemônios, todavia, não deram
grande importância às queixas que se faziam contra êle; mas quando Farnabazo
enviou embaixadores a Esparta para acusar Lisandro pelas injustiças e
injúrias de que era vítima, pois que as províncias de seu governo eram
pilhadas e devastadas, os éforos, indignados, prenderam Tórax, um de seus
amigos e companheiro no comando; e, verificando que êle tinha ouro e prata em
sua residência particular, não obstante o decreto proibindo tal coisa,
condenaram-no a morte, e enviaram a Lisandro aquilo que chamavam a citai, o que
eqüivalia a dizer-lhe que devia voltar logo após tê-la recebido. Devo dizer o
que é uma citai: quando um general parte para uma expedição, terrestre ou
marítima, os éforos tomam dois bastões redondos, de um comprimento e tamanho
tão perfeitamente iguais que, quando justapostos, não deixam entre eles nenhum
vão. Ficam com um destes bastões e dão o outro ao general. Estes bastões são
por eles chamados citais. Quando têm algum segredo importante a
comunicar ao general, tomam uma folha de perga-minho, longa e estreita como uma
correia, e a enrolam em torno da citai que conservaram em seu poder, sem nela
deixar o menor intervalo, de modo que a superfície do bastão fica
inteiramente coberta. Escrevem então o que desejam nesta folha assim enrolada, e, isto
feito, desenrolam-na e a enviam sem o bastão, ao general. Este, ao recebê-la,
nada consegue ler, porque as palavras, todas elas separadas e esparsas, não
formam qualquer sentido. Toma então a citai em seu poder, e enrola em torno
dela a folha de pergaminho, cujas voltas, coincidindo, recolocam as palavras
na ordem que haviam sido escritas, apresentando assim todo o texto. Este
pequeno rolo de pergaminho chama-se também citai, do mesmo modo como o bastão
de madeira, como aquilo que é medido toma é nome da coisa que lhe serve de
medida.

XXXVII. Lisandro, que se achava então no
Helesponto, ficou surpreso’ e perturbado ao receber a mensagem; receava
sobretudo as acusações de Far-nabazo, e, na esperança de apaziguá-lo,
apressou-se em ir ao seu encontro. Quando com ele se avistou, pediu-lhe que.
escrevesse aos éforos outra carta, dizendo o contrário do que fora dito na
primeira, isto é, que não havia sido vítima de nenhuma injustiça e que nenhuma
queixa tinha a fazer. Mas não sabia que, êle próprio cretense, tinha que se
haver com outro cretense, como diz o provérbio. Farnabazo tudo prometeu,
escrevendo na presença de Lisandro a carta, tal como este desejava; mas,
secretamente, preparara outra, que dizia o inverso; e como as duas cartas eram
perfeitamente semelhantes, êle substituiu a que escrevera por último pela que
preparara antes, e, após fechá-la, confiou-lha.    Lisandro, ao chegar a
Esparta, dirigiu-se, de acordo com o cos tume, ao edifício onde tinha sua sede
o Senado, e entregou a carta de Farnabazo, certo de que esta o livrava das
principais e mais perigosas acusações que se lhe poderiam fazer. Farnabazo era
muito estimado pelos senhores lacedemônios, porque de todos os generais do rei
da Pérsia, fora êle que, durante a guerra os socorrera com maior solicitude.

XXXVHL Os éforos, depois de lerem a carta,
mostraram-lha, e êle verificou então a verdade do provérbio que diz:

Ulisses, entre os gregos, não era o único astuto.

Êle retirou-se confuso
e perturbado. Todavia, alguns dias depois, voltou à sede do conselho à procura
dos éforos, e disse-lhes que não podia deixar de ir ao templo de Júpiter Amon,
a fim de ali fazer os sacrifícios que tinha prometido ao deus antes das
batalhas de que saíra vitorioso. Com efeito, afirma-se que, quando assediou a
cidade de Afites, na Trácia, o deus Amon apareceu-lhe em sonho; e êle,
interpretando esta aparição como uma ordem de Júpiter, levantou o cerco da
cidade, e disse aos afítios que fizessem sacrifícios àquele deus. Por sua vez,
êle desejaria dirigir-se à Líbia, a fim de cumprir as promessas que havia
feito. Mas acredita-se, geralmente, que o deus não era senão um pretexto, e
que o verdadeiro motivo dessa viagem era o temor que tinha dos éforos,
a necessidade que sentia em ausentar-se. Além disso, não podia suportar o jugo a que era submetido quando se encontrava em Esparta e nem tolerava ficar
sob as ordens de outrem; e daí o seu desejo de viajar, de errar de um lado para
outro. Podia ser comparado a um corcel que, acostumado a pular em liberdade em
amplas pastagens, não mais conseguia habituar-se à sua estrebaria, nem aos seus
antigos trabalhos. Éforo, entretanto, apresenta para esta viagem uma outra
causa, que narrarei daqui a pouco.

XXXIX. Conseguindo, finalmente, uma licença,
e não sem pena, êle fêz-se ao mar. No entanto, durante a sua ausência, os reis
da Lacede-mônia, após se darem conta de que Lisandro se tornara como um senhor
absoluto de toda a Grécia, pois que todas as cidades a êle prestavam obediência
através da autoridade dos amigos que tinha em cada uma delas, decidiram
entregar o governo dessas cidades ao povo, afastando os que nelas desfrutavam
de um poder soberano. As repercussões que esta decisão provocou proporcionaram
aos banidos de Atenas uma oportunidade para atacar os Trinta tiranos, após se
apoderarem do castelo de Fila, e derrotá-los. Lisandro, cientificado do que
acontecia, voltou apressadamente a Esparta, onde persuadiu os ; lacedemônios a
sustentarem o governo dos nobres e punirem a rebelião do povo. Decidiram,
então, enviar, primeiramente, cem talentos aos Trinta tiranos, para continuarem
a guerra, e nomearam Lisan-dro para o posto de comandante. Mas os reis, que o
invejavam, receando que ocupasse Atenas pela segunda vez, resolveram que um
deles se encarregaria dessa missão. Pausânias partiu, então, aparentemente
para sustentar os tiranos contra o povo, mas, na realidade, para terminar a
guerra e impedir que Lisandro, apoiado pelos seus seguidores, se tornasse mais
uma vez senhor de Atenas. Pausânias não encontrou dificuldades em. sua missão.
Após reconciliar os atenienses, pôs termo à sedição e às divergências, e
reprimiu a ambição de Lisandro. Mas pouco tempo depois, os atenienses se
subleva-ram de novo contra os lacedemônios; e Pausânias foi acusado de haver
deixado as rédeas soltas, como se dizia, à licenciosidade e à audácia do povo,
que antes era contido pela autoridade do governo da minoria. De Lisandro, ao
contrário, diziam que, no exercício da autoridade, não satisfazia apetites nem
recorria a ostentação, e que tinha em vista apenas os interesses da pátria.

XL, É verdade que êle revelava orgulho em
suas palavras e mostrava-se terrível diante dos que lhe opunham resistência.
Certa ocasião, como os argivos estivessem disputando com os espartanos por
motivo de suas fronteiras, êle lhes disse, apontando a espada: "Aquele
que é mais forte com esta, raciocina melhor do que qualquer outra pessoa sobre,
questão de limites".    De outra feita, um habitante de Mégara, durante uma
reunião do conselho, pôs-se a falar-lhe com muita liberdade e audácia.
"Meu amigo, disse-lhe êle, tuas palavras necessitariam de uma
cidade", Com estas palavras quis dizer que êle era filho de uma cidade
muito fraca. E aos beócics, que hesitavam em declarar-se amigos ou inimigos da
Lacedemônia, mandou perguntar como queriam que êle passasse pelo seu país: se
com as lanças erguidas ou abaixadas. Quando os coríntios abandonaram a sua
aliança com Esparta, fêz suas tropas chegarem até às muralhas deles; e como os
soldados hesitassem em dar início ao assalto, discutindo os prós e contras, êle
lhes disse, no momento em que viu uma lebre sair dos fossos da cidade:
"Não vos envergonhais de temer inimigos medrosos e preguiçosos a ponto de
as lebres dormirem junto às suas muralhas?"

XLI. Entrementes, o rei Ágis morreu, deixando
Agesilau, seu irmão, e Leotíquides, que era considerado seu filho. Lisandro,
que estimava muito Agesilau, desde a sua juventude, aconselhou-o a reivindicar
o trono, como único representante legítimo da raça dos heráclidas. Com efeito,
suspeitavam-se de que Leotíquides era filho de Alcibíades, o qual, quando de
sua estada em Esparta, após ter sido banido de Atenas, mantivera relações com
Timéia, mulher de Ágis. O próprio rei, tendo em vista o tempo que estivera
ausente, concluíra que não fora o causador da gravidez de sua esposa, e não demonstrara
muito interesse por Leotíquides, è não ocultara, até o fim da vida, que não o
reconhecia como filho. No entanto, ao contrair a enfermidade de que morreu, êle
se fêz transportar para Heréía; e como estivesse à morte, instado de um lado
pelo jovem, e, do cutro, pelas súplicas dos amigos, declarou, na presença de
várias testemunhas, que reconhecia Leotíquides como filho, morrendo após ter
pedido aos presentes que comunicassem a sua declaração aos lacedemônios.
Assim, depuseram todos em favor de Leotíquides, Mas Agesiíau, que tinha a seu
favor altas qualidades, e, o que era ainda mais importante, o apoio de
Lisandro, já levava vantagem sobre êle, quando Diópites, homem tido como muito
versado no conhecimento das antigas profecias, veio prejudicar grandemente a
sua pretensão, ao anunciar um oráculo por êle aplicado ao irmão do rei, que era
manco:

Toma cautela, nação espartana,
 Para que, agora, que estás no apogeu,
Uma realeza manca não venha
As tuas vitórias comprometer.

Tu, que és valente e audaciosa,
Deves evitar a má fortuna,
E os males de uma guerra demorada,
Que a vida de todos extermina.

XLII A maior parte dos espartanos, diante desse oráculo,
inclinou-se para o lado de Leotíqui-des. Mas Lisandro demonstrou-lhes que
Diópites não apreendera o verdadeiro sentido do oráculo, afirmando que o deus
não se opunha a que um coxo ocupasse o trono da Lacedemônia; e que dera somente
a entender que a realeza ficaria como manca, se bastardos, se pessoas indignas
da raça de Hércules viessem a reinar sobre os heráclidas. Esta interpretação,
apoiada pela autoridade, e pelo crédito de que gozava Lisandro, fêz com que
todos mudassem de opinião, e Agesilau foi declarado rei da Lacedemônia. Lisandro
procurou logo convencê-lo de que deveria levar a guerra à Ásia, fazendo-o
conceber a esperança de que destruiria o império dos persas e de que ofuscaria
a glória de todos os guerreiros que haviam existido antes dele. Ao mesmo
tempo, escreveu aos seus amigos da Ásia, dizendo-lhes que pedissem, em Esparta,
a nomeação de Agesilau para comandar a guerra contra os bárbaros. E eles o
fizeram, sem perda de tempo, enviando embaixadores a Esparta. A honra que
Lisandro proporcionava desse modo a Agesilau igualava quase a decorrente da
realeza. Mas os homens por natureza ambiciosos, embora perfeitamente aptos para
o comando, encontram no ciúme que lhes inspira, contra seus semelhantes, o amor
da glória, um grande obstáculo às belas ações que poderiam praticar; eles não
vêem senão  rivais naqueles  que  os auxiliariam   a   percorrer   com  honra  
a  carreira   da virtude.

XLIII Agesilau, tendo sido escolhido para dirigir tal.
empresa, levou Lisandro consigo; e dos trinta espartanos que formavam seu
conselho, era êle a quem pretendia consultar com mais freqüência em todas as
questões, pois o considerava como o primeiro de seus amigos. Quando chegaram à
Ásia, os moradores do país, que não tinham ainda familiaridade com Agesilau,
viam-no raramente e falavam pouco com êle. Mas conhecendo Lisandro havia muito
tempo, todos o procuravam e o acompanhavam, por toda parte, uns como amigos,
outros por o temerem e não confiarem nele. Não é raro ver-se, nos teatros,
quando se representam tragédias, que o ator que faz o papel de mensageiro ou de
escravo é aplaudido e considerado como a principal personagem, enquanto aquele
que ostenta o diadema e segura o cetro é apenas ouvido. O mesmo acontecia em
relação a Agesilau e Lisandro: a este, que não era senão um simples
conselheiro, era atribuída toda a dignidade do comando, não se deixando ao rei
senão um título sem nenhum poder. Era preciso, sem dúvida, reprimir esta
ambição excessiva e deixar a Lisandro o segundo papel, com o qual devia
contentar-se; mas rejeitar e mesmo maltratar, por ciúme e sede de glória, um
benfeitor e amigo, é o que Agesilau jamais deveria ter feito. Em primeiro
lugar, êle não lhe proporcionou nenhuma ocasião para assinalar-se e nem o encarregou de nenhum
comando; em segundo lugar, todos aqueles por quem Lisandro demonstrava
interesse eram por ele mandados para suas casas sem nada obter do que
desejavam, depois de serem tratados como se fossem pessoas da mais ínfima
condição. Assim agindo, foi destruindo pouco a pouco toda a autoridade de seu
rival.

XLIV. Quando Lisandro viu que seus pedidos eram sempre
recusados e ‘que seu interesse pelos amigos se tornava para eles prejudicial,
cessou completamente de interceder em seu favor junto a Agesilau. e pediu-lhes
que não mais o procurassem, que não mais permanecessem ligados à sua pessoa,
dizendo-lhes que se dirigissem diretamente ao rei e que procurassem a proteção
daqueles que pudessem ser-lhes mais úteis. Aceitando seu conselho, deixaram
todos de procurá-lo para tratar de negócios, mas não de homenageá-lo; assim é
que insistiam em acompanhá-lo em seus passeios e aos lugares onde se faziam
exercícios. Esta conduta fez com que Agesilau se irritasse ainda mais, tal a
inveja que tinha pela sua glória; e sua animosidade chegou a tal ponto que,
depois de confiar a simples soldados comandos de grande importância e o governo
de cidades, êle nomeou Lisandro para o cargo de comissário dos víveres e
distribuidor de carnes. E um dia, para zombar dos jônios, disse: "Que eles
prestem homenagem ao meu distribuidor de víveres". Lisandro, finalmente,
julgou que devia falar com êle, e sua conversa foi breve, à moda dos lacônios.
"Agesilau, disse-lhe, sabes muito bem rebaixar’ teus amigos".
"Sim, respondeu-lhe o rei, quando eles desejam tornar-se maiores do que
eu; mas, ao contrário, àqueles que se esforçam para aumentar o meu poderio, eu
sei, como é de justiça, dar-lhes a sua parte". Talvez, replicou Lisandro,
disseram-te mais do que na realidade fiz. Entretanto, não fosse por motivo dos
estrangeiros que têm seus olhos voltados para nós, peço-te que me dês, no teu
exército, um posto onde eu possa ser-te menos odioso e mais útil".

XLV, Depois desta conversação, Agesilau enviou Lisandro
para o Helesponto, a fim de ali exercer o comando; êle ali conservou o seu
ressentimento, mas executou com exatidão todos os seus deveres. Espitridates,
lugar-tenente do rei da Pérsia, naquela província, era um oficial cheio de
coragem, que tinha sob suas ordens um corpo de tropas considerável. Lisandro,
informado de que êle era inimigo de Farnabazo, levou-o a rebelar-se contra seu
rei, e levou-o com seu exército a Agesilau. Foi tudo o que Lisandro fêz nesta
guerra; pouco tempo depois regressou a Esparta, sem grandes honradas, sempre
irritado e indignado contra Agesilau, odiando mais do que nunca o governo, e
resolvido, enfim, a executar sem demora o plano que havia concebido fazia já
muito tempo e que visava a uma reforma do Estado. A maior parte dos heráclidas,
que depois de se mesclarem com os dórios entraram no Peloponeso, estabeleceu-se em Esparta, onde seus descendentes
prosperaram. Mas eles não gozavam de todos os direitos de sucessão à coroa,
pois apenas duas casas ali reinavam: a dos Euritiônides e a dos Ágides. As
outras casas, ainda que saídas do mesmo tronco, não tinham, no governo, nenhuma
vantagem sobre os simples particulares; pois as honras que se adquirem pela
virtude eram igualmente oferecidas a todos aqueles que se mostrassem dignos de
as alcançar.

XLVI. Lisandro, que também era da raça dos heráclidas, logo
que adquiriu pelos seus feitos uma reputação! brilhante, bem como um número
considerável de amigos e um inegável poderio, não pôde ver sem amargor o fato
de uma cidade, cuja glória tanto contribuíra para aumentar, fosse governada por
reis que não valiam mais do que êíe. Pensou, então, em tirar a coroa das duas
casas reinantes para torná-la acessível a todos cs descendentes da raça de Hércules.
Outros dizem, no entanto, que êle não queria estender o direito à corca somente
aos heráclidas, mas a todos os espartanos, a fim de que ela pudesse passar, não
apenas aos descendentes de Hércules, mas a qualquer pessoa que a este se
assemelhasse pela virtude, a qual o elevara, tão somente pelo seu mérito, à
categoria dos deuses. Esperava que, quando a coroa ficasse subordinada à
virtude, entre tcdos os espartanos seria êle o escolhido. Quis, primeiramente,
fazer com que os espartanos aceitassem seu projeto, e com esse fim decorou um discurso escrito por Cleão de
Halicarnasso.

XLV11. Mas, depois, considerando que uma reforma tão ousada
exigia meios extraordinários, êle imitou os poetas trágicos, os quais, a fim de
comover os cidadãos, recorrem a máquinas para fazer descer algum deus dos céus.
Inventou, para convencer seus concidadãos, oráculos e profecias, persuadido de
que é eloqüência de Cleão de nada lhe serviria, se, em primeiro lugar,
não impressionasse os espíritos por meio de superstições e do temor aos deuses;
em seguida, poderia convencer toda gente cem o discurso que deveria pronunciar.

XLVI1L Éforo conta que Lisandro tentou primeiramente
corromper com dinheiro a sacerdotisa que anunciava os oráculos no templo de
Apoio na cidade de Delfos, e depois a do templo de Dodona, a quem mandou sondar
por intermédio de um certo Féreclo. Rejeitadas suas propostas por uma e outra,
dirigiu-se pessoalmente ao templo de Júpiter Amon, e ofereceu grande quantidade
de dinheiro aos sacerdotes, os quais, indiqnados ante sua audácia, enviaram
embaixadores a Esparta, para acusá-lo de tentativa de corrupção. Lisandro foi
absolvido pelo Conselho, e seus acusadores, que eram líbios, ao partir,
disseram aos espartanos: "Julgaremos com mais justiça do que vós, quando
vierdes, um dia, estabelecer-vos na Líbia". É que havia um antigo oráculo
segundo o qual, os lace-demônios iriam habitar aquele país.

XLIX, Mas é preferível fazer agora uma exposição completa
sobre toda esta intriga e narrar a habilidade com que Lisandro se houve numa
ficção, na qual, longe de empregar os meios comuns e os recursos vulgares,
procedeu como numa demonstração geométrica, em que se começa estabelecendo
várias proposições importantes para chegar, através de raciocínios difíceis e
muitas vezes obscuros, ao último termo da conclusão, Eis a trama tal como a
descreve Éforo, tão hábil historiador quanto filósofo. Havia no Ponto uma
mulher que pretendia estar grávida de Apoio. Muita gente se recusou, e com
razão, a dar crédito a tal afirmativa; mas outras pessoas, e em grande número,
acreditaram no que ela dizia. Quando deu à luz a criança, personalidades das
mais importantes disputaram a honra de criá-la e educá-la, Esta criança, não
sei por que razão, recebeu o nome de Sileno. Lisandro, aproveitou-se desse
acontecimento para montar o primeiro ato de sua peça, e urdiu êle próprio todo
o resto da intriga. Contou para o prólogo desta farsa com o concurso de várias
personagens, as quais se referiam ao nascimento da criança com um ar tão
natural que ninguém podia suspeitar da intenção com que espalhavam a notícia,
Essas pessoas espalharam igualmente certas informações procedentes, segundo se
dizia, de Delfos, de acordo com as quais os sacerdotes do templo conservavam
com cuidado livros secretos, nos quais havia oráculos muito antigos.   A
ninguém, e nem a eles próprios, era permitido ler ou tocar nesses
livros; no entanto, um filho de Apoio, o qual deveria aparecer após uma longa
seqüência de séculos, daria a esses sacerdotes, depositários dos livros
sagrados, sinais certos de seu nascimento. Reconhecido como filho de Apoio,
poderia levar os livros e ler as antigas revelações e profecias neles contidas.

L, As coisas assim preparadas, Sileno deveria ir a
Delfos, onde, como filho de Apoio, pediria os livros aos sacerdotes, os quais,
instruídos por Lisandro, simulariam ter tudo examinado cuidadosamente, e ter se
informado de maneira escrupulosa acerca do nascimento de Sileno. Finalmente,
certos de que se tratava realmente do filho de Apoio, êíes lhe mostrariam os
livros, leriam publicamente as predições que continham, sobretudo aquela que
era o objetivo desta farsa, e relativa à realeza na Lacedemônia: era muito mais
vantajoso para os espartanos escolherem eles próprios os seus reis, dentre os
cidadãos mais virtuosos. Sileno, adolescente, já havia chegado à Grécia para
desempenhar o seu papel, quando Lisandro assistiu ao malogro de sua peça devido
à timidez de um dos atores, que, cedendo ao seu grande medo, abandonou-o no
momento da execução. Toda esta intriga permaneceu em segredo durante toda a
vida de Lisandro, e somente foi revelada após sua morte, Êle morreu antes do
regresso de Agesilau da Ásia, e quando se empenhava na guerra da Beócia, ou
melhor, depois de nela haver lançado a Grécia.  Com efeito, as coisas são contadas de duas maneiras: uns
acusam Lisandro, outros os tebancs. Há ainda quem acuse as duas partes. Aqueles
que responsabilizam os tebancs censuram-lhes o fato de haverem derrubado, em
Áulida, os altares nos quais Agesilau oferecia sacrifícios públicos:
acrescentam que Andró-clides e Anfiteu, corrompidos pelo dinheiro do rei da
Pérsia, tomaram as armas contra os fóctos e devastaram o seu país, com o fito
de envolver os lacedemô-nios em guerras no interior da Grécia.

LI. Os que responsabilizam Lisandro dizem que êle estava
muito irritado contra os tebanos, os quais, os únicos entre todos os aliados,
haviam pedido a décima parte da presa de guerra tomada aos atenienses: além
disso, estavam descontentes pelo fato de Lisandro ter mandado dinheiro a
Esparta. Mas Lisandro se irritara contra eles principalmente porque foram os
primeiros a fornecer aos atenienses os meios para recuperarem a sua liberdade e
quebrarem o jugo dos Trinta Tiranos, que Lisandro havia colocada como
governadores em Atenas, e que os próprios lacedemônios tinham tornado ainda
mais poderosos e temíveis ao decretarem que os banidos que haviam fugido de
Atenas poderiam ser presos onde fossem encontrados, e levados para a sua
cidade; e todos os que a isso criassem obstáculos seriam considerados inimigos
de Esparta. Os tebanos responderam a esse decreto com outro, mais de acordo
com a conduta de Hércules e de Baco, seus antepassados.
Dizia o decreto que todas as cidades e todas as casas da Beócia seriam abertas
aos atenienses que a elas se dirigissem a fim de solicitar asilo; que todo
tebano que não auxiliasse um banido de Atenas contra aquele que pretendesse
detê-lo pela força, pagaria um talento de multa. Dizia ainda o decreto que, se
qualquer pessoa passasse pela Beócia para levar armas a Atenas, destinadas à
luta contra os tiranos, todos os tebanos deveriam fingir nada ver ou ouvir. Não
contentes em elaborar decretos cheios de tanta humanidade e tão dignos da
Grécia, ele os reforçavam através de sua ação; pois foi de Tebas que partiram
Trasíbulo e os outros banidos, para irem apoderar-se de Fila; e foram os
tebanos que lhes forneceram armas e dinheiro, bem como todos os meios para
darem início à sua ação sem que fossem descobertos.

LII. Estes os motivos que levaram Lisandro a voltar-se
contra os tebanos, Como era de caráter muito violento, e, além disso, como a
sua melancolia aumentasse cada dia em conseqüência da velhice, tornando-o mais
irritadiço, êle tudo fêz para que os é foros partilhassem de seu ressentimento,
e persuadiu-os a mandarem uma guarnição à Fócida; êle próprio foi encarregado
dessa expedição, e partiu à frente das tropas. Poucos dias depois, foi também
para ali enviado, de Esparta, o rei Pausãnias, com o resto do exército. Mas
este príncipe era obrigado a dar uma grande volta pelo Monte Citerão, para entrar
na Beócia, enquanto que Lisandro, com o seu numeroso corpo de tropas, deveria
ir ao seu encontro através da Fócida. Em "sua marcha, ocupou Orçomene, que
se rendeu voluntariamente; apoderou-se igualmente de Lebadia, cidade que
pilhou. Dali escreveu ao rei Pausânias, dizendo-lhe que, ao partir de Platéia,
tomasse o caminho que conduzia a Haliarto, assegurando-lhe que êle próprio
estaria no dia seguinte, ao alvorecer, junto às muralhas da cidade.

LIII O correio portador desta carta foi aprisionado por
batedores inimigos, que o levaram a Tebas. Os tebanos, cientificados do que se
passava, confiaram aos atenienses que tinham ido socorrê-los a guarda da
cidade; e, iniciando a sua marcha à meia-noite, caminharam rapidamente chegando
de manhã a Haliarto, um pouco antes de Lisandro, Uma parte de suas tropas
entrou na cidade, Lisandro decidira inicialmente acampar numa elevação existente
nas proximidades, e ali esperar a chegada de Pausânias; mas vendo que êle não
chegava e que as horas passavam, não conseguiu mais permanecer inativo. E,
depois de ordenar aos espartanos que tomassem suas armas e de animar os
aliados, pôs-se em marcha, com suas tropas em ordem de batalha, ao longo do
caminho que ia ter à cidade. Entrementes, os tebanos que tinham ficado fora da
cidade, deixando-a à esquerda, caíram sobre a retaguarda do exército de
Lisandro, perto da fonte denominada Cissusa (1), na qual, segundo as fábulas dos poetas,
as nutrizes de Baco o levaram logo após o seu nascimento. A água desta fonte,
embora muito clara e agradável de se beber, tem uma côr de vinho. Não longe
desse lugar, crescem as canas de Creta, com as quais se fazem dardos. Os
moradores de Haliartc julgam por isso ter Radamanto habitado outrorà essa
região: chegam mesmo a mostrar a sua sepultura, a que deram o nome de Halea.
Vê-se também, perto, o túmulo de Alcmena, que, depois da morte de Anfitrião,
casou-se com Radamanto, sendo ali inumada.

LIV. Os
tebanos que se achavam na cidade juntamente com os haliárcios permaneceram
imóveis, prontos para a batalha, até o momento em que viram Lisandro, com suas
primeiras tropas; aproximar-se das muralhas. Abriram então, subitamente, as
portas, e atiraram-se sobre êle, matando-o juntamente com o seu adivinho e
alguns outros inimigos, não muitos, pois o grosso das forças se retirou logo no
início da batalha. Entretanto, os tebanos não lhes deram trégua,
perseguindc-as com tanto ardor e de tão perto que as obrigaram a fugir através
das montanhas, após terem matado três mil adversários. Do lado dos tebanos
houve trezentos mortos, pois perseguiram os fugitivos com ardor demasiado em
lugares escarpados e difíceis. Eram, em sua quase totalidade, aqueles que em
Tebas eram suspeitos de serem ocultamente favoráveis ao partido dos
lacedemônios, e que, para afastar tal suspeito e recuperar a confiança de seus
concidadãos, não se pouparam na perseguição ao inimigo perdendo assim a vida.

(1)
Dacier conjectura, valendo-se do testemunho de Pausânias, que se deve ler aqui
Tilfuso (B). O nome de Cissusa esta perfeitamente de acordo com o que Plutarco
narra a respeito dessa fonte. Assim, não acho que se deva fazer qualquer alteração.   
(C).

LV. Pausânias achava-se no caminho que vai de Platéia a
Téspias quando soube da derrota. Cem suas forças em ordem de batalha, êle se pôs
a caminho de fialiarto, aonde chegou ao mesmo tempo que Trasíbulo, que para
ali se dirigira com seus atenienses, após deixar Tebas. E como Pausânias
manifestasse o desejo de pedir uma trégua ao inimigo a fira de retirar os
mortos e inumá-los, os mais idosos dos espartanos que se encontravam no seu
exército ficaram indignados ante tal sugestão, e foram, murmurando, procurar o
rei para dizer-lhe que seria uma desonra para Esparta pretender retirar o corpo
de Lisandro mediante uma autorização do inimigo; acrescentaram que era preciso
combater, com as armas nas mãos, em torno de seus despojos, para enterrá-los
após a vitória; e, caso fossem vencidos, ser-lhes-ia mais honroso permanecer
estendidos no campo de batalha, perto do seu general, do que obter uma
trégua para retirar seu corpo. Entretanto-, apesar de todas as alegações dos
anciãos, Pausânias, vendo que era tarefa muito difícil derrotar os tebanos em
batalha, após uma vitória tão recente, e considerando que, tendo Lisandro tombado perto de Haliarto, não poderia
ser seu corpo retirado sem grandes dificuldades, mesmo que o inimigo fosse
derrotado, resolveu enviar um mensageiro aos tebanos, os quais lhe concederam
uma trégua de alguns dias. Retirou-se, então, com suas forças, levando o corpo
de Lisandro, que foi inumado pelos espartanos, depois de haverem transposto as
montanhas da Beócia, na região dos panopeus, amigos e aliados de Esparta. Ali
se vê ainda hoje a sua sepultura, junto ao caminho que vai a cidade de Delfos à
de Queronéia. Conta-se que, no acampamento de Pausânias, um fócio, descrevendo
a batalha para um compatriota que nela não participara, disse que o inimigo
atacara logo depois de Lisandro ter atravessado o Oplite. Como este homem
parecesse surpreendido, um espartano, amigo de Lisandro, perguntou-lhe o que
era esse Oplite a que se referiam, ccisa de que nunca ouvira falar. "É,
respondeu o fócio, o lugar onde o inimigo derrotou os nossos batalhões mais
avançados; o Oplite é o riacho que banha as muralhas de Haliarto". Ao
ouvir estas palavras, o espartano pôs-se a chorar sentidamente, e disse:
"Oh! não é possível aos homens fugirem ao seu destino!" E isto porque
Lisandro tivera outrora um oráculo concebido nestes termos:

Aconselho-te, Lisandro, evitar
 Do rio Oplite as águas traiçoeiras,
 E também o dragão, da terra filho,
 Que, pelas costas, pretende ataear-te.

LVI Entretanto, há quem afirme que este riacho de Oplite
não é o que passa ao longo das muralhas de Haliarto, mas a torrente que corre
perto de Coronéia, e vai desaguar no rio Fliaro, perto da -cidade. Segundo se
diz, chamava-se antigamente Hoplia," mas agora é denominado ísomanto.
Lisan-dro foi morto por um soldado de Haliarto chamado Neocoro, que trazia
pintado no seu escudo a figura de um dragão*; era a esse dragão, ao que se
conjectura, que se referia o oráculo. Conta-se também que os tebanos, pouco
tempo depois da guerra do Peloponeso, receberam, no Templo de Apoio Ismênio,
uma resposta do oráculo, que lhes predisse ao mesmo tempo a batalha de Délio e
o combate de Haliarto, que se travou trinta anos depois. É o seguinte o teor
deste oráculo:

Tu, que aqui vens persegur lobos
cruéis,
Evita, com cuidado, as fronteiras extremas,
 E a col na Orcálida, onde a raposa
, Permanece sempre, pra surpreender sua presa.

Com as palavras fronteiras
extremas
o oráculo se refere ao território existente em volta de Délio, e é
nele que a Beócia se limita com a Ática; e a colina Orcálida é a que hoje se chama Alopeca,
e se acha situada no lado em que a cidade de Haliarto dá para O monte
Helicão. A morte de Lisandro afligiu de tal modo os espartanos que intentaram
contra Pausa-laias um processo por crime capital; mas êle não quis aguardar o julgamento e fugiu para a cidade de Tégea,
onde se colocou, ccmo suplicante, sob a proteção de Minerva, ali passando o
resto de seus dias. A pobreza de Lisandro, reconhecida após sua morte, deu um
maior lustre à sua virtude. Depois de haver passado pelas suas mãos somas tão
importantes; depois de ter desfrutado de um tão grande poderio- e de tantas
cidades lhe terem prestado homenagem c a êle se submetido; depois de haver,
enfim, exercido sobre a Grécia: uma espécie de soberania, êle não aumentara um
óbolo sequer a fortuna de sua casa. Esse é o testemunho de Teopompo, que merece
maior crédito quando elogia do que quando censura, pois encontra maior prazer
em maldizer do que em louvar.

LVII Algum tempo depois da morte de Lisandro, segundo conta
Éforo, uma disputa entre os espartanos e seus aliados levou-os a consultarem os
papéis que êle havia deixado, em sua casa; Agesilau para ali se dirigiu, e
encontrou, entre outros documentos, o discurso que Cleão havia escrito para
persuadir os espartanos a modificarem a forma de seu governo e mostrar-lhes as
vantagens de se tirar dos Euritiônldes e dos Ágides, as duas casas reinante…
o direito exclusivo ao trono, e a estendê-lo a todos; assim, os reis deveriam
ser escolhidos entre os cida dãos mais virtuosos de Esparta. Agesilau quis
mostrar imediatamente este discurso ao povo, para que os    espartanos o
ficassem conhecendo melhor; mas Lacrátídas, homem sábio e prudente, que era
então presidente dos éforos, conteve-o, dizendo-lhe que, em vez de tirar
Lisandro do túmulo, o melhor era enterrar com êle também o seu discurso, o
qual, escrito com muita arte e finura, era capaz de convencer. Entretanto,
grandes honras lhe foram prestadas após sua morte. Dois cidadãos, de quem suas
duas filhas se tinham tornado noivas, e que não haviam querido desposá-las após
a morte do pai, quando se tornou conhecida a sua pobreza, foram condenados a
pagar uma forte multa; pois que, tendo procurado ligar-se à família de Lisandro
enquanto êle vivia, certos de que era rico’, não mais o quiseram quando a sua
pobreza, comprovação de suas virtudes, foi revelada. Havia em Esparta
penalidades tanto contra aqueles que não queriam casar-se, ou que se casavam
muito tarde, como contra os que se casavam mal. E esta última pena recaía
principalmente sobre os cidadãos que, em vez de se casarem no interior de suas
famílias ou com pessoas virtuosas, procuravam unir-se às casas ricas. Eis o
que tínhamos a dizer da vida de Lisandro.

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