fev 222011
 

História da Civilização – Oliveira Lima

IDADE ANTIGA

CAPÍTULO II

A CIVILIZAÇÃO HELÉNICA

O valor da civilização grega

O tamanho do país não está neste caso em relação com a grandeza da civilização a que serviu de berço, a mais completa da antiguidade, a que maior número de idéias aventou, discutiu e disseminou, a ponto tal que ainda hoje se vai buscar no seu vocabulario a terminologia científica e filosófica e que, sob certos aspectos, jamais foram excedidas as manifestações do gênio helénico. A disposição geográfica fazia da península grega o cenário adequado dessa surpreendente atividade mental e social que brilhou radiosamente na poesia, no teatro e na eloqüência, erigiu o civismo em culto popular e elevou a política a uma arte para competentes.

Aspectos físicos e tradições da civilização grega

A Grécia é uma terra alterosa, cortada de vales, defendida por desfiladeiros, assim repelindo a tutela de invasores, com uma costa de mil anfractuosidades, como que chamando às suas enseadas calmas a colaboração estrangeira. Esta desde começo que lhe não faltou, pois segundo suas tradições fabulosas, foi o fenício Cadmo quem ensinou aos gregos o alfabeto e a arte de trabalhar os metais e quem construiu na Beócia a cidadela de Tebas, e foi o egípcio Cécrops quem, com seus companheiros, encetou a construção da Acrópole de Atenas, instituiu o tribunal do areópago e implantou na Ática o cultivo da vinha e da oliveira. Outro egípcio, Danaus, ensinou aos habitantes de Argos a arte da navegação, a qual tão bem aprenderam que os argonautas, sob o comando de Jasão, foram combater os piratas da Cólquida e franquear ao comércio grego o Ponto Euxino, de lá trazendo o velocino de ouro, símbolo da riqueza mercantil.

O período heróico da Grécia Antiga

Essas tradições fabulosas repousam sobre um fundo de realidade, referindo-se as citadas ao primitivo intercurso dos gregos com povos então mais adiantados. A história grega apenas começa no século VIII a. C, mas o período anterior, legendário e heróico, deve haver sido prolongado porque, ao começar o período histórico, já a língua grega estava perfeitamente formada e a sua mitologia aparecia tal como a conhecemos, imaginativa e risonha.

As cidades e os clãs dos gregos

Isoladas nos vales estreitos ficavam cidades de característicos diferentes, cidades-estados, às vezes compostas da cidade exclusivamente, outras vezes abraçando* as aldeias circunvizinhas. Tinham-nas fundado tribos de índole altiva, que tratavam de desenvolver seus destinos numa ciosa independência. Formava cada tribo diversos clãs, sendo o clã a família ampliada, ligada por laços de parentesco e de religião, tendo o culto do mesmo antepassado comum.

A península grega

País montanhoso e marítimo, com seus núcleos políticos a um tempo divididos entre si pelo espírito local e com a vastidão das águas a convidá-los a empresas remuneradoras, compõe-se a península grega de duas partes proporcionais — a Hélade ao norte e o Pelo-poneso ou Moréia ao sul, quase separadas as duas metades pelo Golfo de Corinto, hoje completado pelo canal, onde havia o istmo.

Os mentes Cambúnios como que resguardam a Grécia, na frase de um historiador, dos ventos frios e das tribos hostis da Macedónia. A nordeste da vasta planície da Tessália ergue-se o Monte Olimpo, cujo cume, coroado de nuvens, a 3 000 metros de altura, serve de morada ao Panteão do politeísmo helénico, personificando as forças da natureza. Descendo para o sul, ainda do lado do Mar Egeu, levantam-se como sentinelas os montes Ossa e Pelion, que os titãs da fábula colocaram um sobre o outro para escalar o céu quando moveram guerra aos deuses. Do lado do oeste a cadeia do Pindo separa a Tessália do Epiro e vai constituir o sistema orográfico da Hélade. Da planície da Tessália prolongada pela Etólia se desprende uma espécie de grande língua de terra arrendada, que é propriamente a Grécia central, onde mais ativa pulsou a civilização.

As montanhas dessa região são mais baixas e nemorosas, regan-do-as fontes abundantes. Aí habitavam as Musas, no Parnaso e no Helicon; mais para o meio-dia, perto donde floresceu o aticismo, avultam o Himeto, em cuja encosta flui o mel, e o Pentélico, célebre pelos seus mármores. A Arcádia forma no Peloponeso o planalto central fechado por montanhas; a simplicidade pastoril dos seus habitantes, por assim dizer isolados do movimento intelectual que agitou a Grécia, ficou proverbial. Projetando-se no Mar Egeu, a Ar-gólida recorda ter sido a sede de uma cultura pré-histórica. No sul, a Lacônia ou Lacedemônia encerra o vale profundo do Eurotas, onde se aninhou a cultura espartana: os rios na Grécia são antes torrentes de inverno. A oeste fica a Elida, onde se verificavam os jogos olímpicos, que tão belos modelos vivos ofereciam à estatuária grega, a qual por essa forma animavam.

O Mar Egeu

Coalhado de ilhas, o Mar Egeu apresentava fácil e já experimentada passagem aos que, de gênio mais aventuroso, se sentissem abafados dentro dos confins da sua pequenina pátria e atraídos pela costa fronteira da Ásia Menor a fundarem ali colônias e espalharem sua cultura compreensiva e sutil. A Grécia faz frente à Ásia, pois que seus mais abundantes e melhores portos se acham na costa oriental, da mesma forma que a Itália faz frente à Espanha, pois que seus mais abundantes e melhores portos ficam na costa ocidental.

Os grupos de populações. As culturas jónica e dórica

Os habitantes da Grécia intitulavam-se helenos e dividiam-se em quatro grupos — jônios, dórios, aqueus, que dominaram o Peloponeso em tempos pré-históricos e predominaram entre as tribos gregas, e eólios, dos quais se pode dizer um tanto vagamente que são os que não pertencem a nenhuma das outras divisões. Na Hélade floresceu por excelência a civilização jónica e no Peloponeso a civilização dórica, representadas uma por Atenas e outra por Esparta, sem que isso signifique que cada um desses centros absorvesse os demais, apenas que num dado momento impôs sua hegemonia — o vocábulo é grego — a uma liga de cidades livres, entre as quais aquele foco brilhava excepcionalmente. A cultura jónica significou mais espírito cosmopolita, maior largueza de vistas, mais graça de expressão, maior mobilidade intelectual; a dórica mais espírito nacionalista, mais estreiteza de concepções, mais rigidez de costumes, menos horizontes mentais.

As ilhas e a costa da Ásia Menor

Todos os helenos, descendentes de Prometeu segundo a própria crença, vieram da Ásia: os jônios por mar, através do mundo de ilhas do Egeu, os dorios tangendo seus rebanhos de pasto em pasto desde o Egito, com um pouso mais prolongado na Dórida. Os jônios desceram até a Ática; os dórios introduziram a desordem no Peloponeso, provocando o êxodo de várias tribos para a Ásia Menor; os eólios fixaram-se no centro e a oeste da península) Foi em virtude dessas deslocações de tribos que os jônios, tomando rumo por entre as Cíclades que rodeavam o santuário famoso de Apolo em Délos, fundaram Éfeso e Mileto no litoral fronteiro, dando origem à Jônia, e que os dorios, acompanhando esses movimentos de população, ocuparam Creta, alcançaram Rodes (colónia fundada por fenícios) e chegaram a Halicarnasso, na extremidade meridional da costa asiática fronteira à Hélade.

Essa costa e as ilhas que a guarnecem de perto foram teatro de uma cultura notável que precedeu mesmo a helénica e da qual são representativas a poetisa Safo, de Lesbos, que foi colónia eólia, o matemático Tales, de Mileto, que sabia calcular os eclipses, e o filósofo Pitágoras, de Samos, que precedeu Galileu na teoria do movimento da terra. Na península a civilização helénica sucedeu a outra que é chamada pelásgica, que nem por isso é menos obscura e de que entretanto há traços, entre outros lugares, nos muros ciclópicos de Corinto, de Micenas e de Tróia.

Odisseu e Nausícaa. Odisseia, canto VI. Pintura de um vaso. Séc. V a. C.

Odisseu e Nausícaa. Odisseia, canto VI. Pintura de um vaso. Séc. V a. C.

dez 032010
 
Escola de Atenas de Rafael Sanzio

Noções de História da Filosofia (1918)

Manual do Padre Leonel Franca.

12. A FILOSOFIA NA GRÉCIA — "O pequeno território da Hélade foi como o berço de quase todas as idéias que na filosofia, nas ciências, nas artes e em grande parte nas instituições vieram incorporar-se à civilização moderna" (13). Providencialmente situado entre o Oriente asiático e a Europa ocidental, liberalmente aquinhoado pela natureza de eminentes dotes espirituais — fantasia criadora e raro poder de generalização — dotado de instituições sociais e políticas que estimulavam a iniciativa individual, o povo grego recolheu os materiais das grandes civilizações, que al-voreceram nos impérios da Ásia, trabalhou-os com o seu espírito sintético e artístico e, com eles, elevou este grandioso e soberbo monumento de cultura, objeto de imitação e admiração dos séculos posteriores.

A filosofia, sobretudo, medrou na Grécia como em terra nativa. Seus grandes gênios dominaram as gerações pelo vigor incontestável do pensamento. Pode mesmo afoitamente afirmar-se que não há, no campo da especulação, teoria moderna que não encontre o seu germe nas idéias de algum pensador grego.

Este grande movimento filosófico, que abrange um período de mais de dez séculos, segue a princípio uma direção centrípeta. Parte das numerosas colônias gregas da Itália e da Ásia Menor e converge para Atenas. Neste foco de cultura atinge, no século de Péricles, o fastígio de sua perfeição, para daí dispersar-se mais tarde e irradiar pelo mundo helenizado, fundindo-se e modificando-se em contato com as idéias cristãs e com outras correntes intelectuais do pensamento.

Escola de Atenas de Rafael Sanzio
Escola de Atenas, por Rafael Sanzio

13. DIVISÃO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA GREGA — Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos:

  • I — Período pré-socrático (séc. VII-V a. C.) — Problemas cosmológicos.
  • II — Período socrático (séc. IV a. C.) — Problemas metafísicos.
  • Ill Período pós-socrático (séc. IV a. C. — VI p. C.) — Problemas morais.

O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

(13) Latino Coelho, Oração da Coroa, Introdução, p. XXXV.

BIBLIOGRAFIA .

Brandis A. Ch., Handbuch der Geschichte der griechisch-römischen Philosophie, 6 vols., in 8.°, Berlin, 1835-66; — Schweigler A., Geschichte der griechischen Philosophie, 3 ed. publ. p. K. Köstlin, 1 vol. in 8.°, Freiburg i. B., 1881; — Zeller E., Die Philosophie der Griechen, 5 vols.. 1844-25, 6.a ediç. por Nestle, 1919 e segs. (Obra capital) : — Zeller E., Grundriss der Geschichte der griechischen Philosophie, 12.a ed. por Nestle, Leipzig, 1920; — Windelband W., Geschichte der antiken Philosophie3, München, 1912; — Gomperz H., Griechische Denker, 3 vols, in 8.°, 2.a e 3.a ed. Leipzig, 1909-1912; — Döring A., Geschichte der griechischen Philosophie, 2 vols, in 8.°. Leipzig, 1903; — Ritter-Preller. Historia philosophiaë graecae, 1838, 9.a ediç. de Wellmann, 1 vol. in 8.°, Gotha, Perthes, 1913; — Baeumker Cle., Das Problem der Materie in der griechischen Philosophie. München, 1890;

— Bauch B. Das Substanzproblem in der griechischen Philosophie, Heidelberg, 1910: — Herbertz R., Das Wahrheitsproblem in der griechischen Philosophie, Berlin. 1913: — Renouvier Ch., Manuel de Philosophie ancienne2, 2 vols., Paris, 1845; — Laforet U. J., Histoire de la Philosophie, philosophie ancienne, 2 vols, in 8.°, Bruxelles. Devaux 1866-67;

— Chaignet, Histoire de la psychologie des Grecs, 5 vols, in 8.°; Paris, Hachette, 1887-92; — Benard Ch., La philosophie ancienne. Hist, peñérale de ses systèmes, 1 vol., in 8°, Paris, 1885; — Ch. Werner. La philosophie grecque, Paris, 1938; — L. Robin, La pensée grecoue2, Paris, 1928; — Btjttler W. A., Lectures on the history of ancient philosophy, Nov. ediç. por W. H. Thomson, 2 vols, in 12, London, 1874; — Benn, A. W., The greek Philosophers, 2 vols, in 8.°, London. 1882; — J. Burnet, The History of Greek Philosophy, in 8.°, London, Macmillan, 1914; — Bobba, Saggio delia filosofia greco-romana, Torino, 1881; — G. Ruggiero, La filosofia greca, Bari, 1917; — J. de Castro Nery, Evolução do pensamento antigo, Porto Alegre, 1936.

 

CAPÍTULO I

PRIMEIRO PERÍODO — (600-450 α. C.)

14. CARÁTER GERAL Ε DIVISÃO — Os filósofos deste, período preocupam-se quase exclusivamente com os problemas cos-mológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: 1.*, escola jônica; 2.*, escola itálica; 3.a, escola eleática; 4.a, escola atomística. Sem constituir escola propriamente dita, no fim do período aparecem os sofistas.

BIBLIOGRAFIA

Dos filósofos deste primeiro período não nos chegou nenhuma obra completa. Os fragmentos existentes foram conservados por Aristóteles, Platão e pelos doxógrafos gregos e latinos. Teofrasto, Pseudo-Plutarco, Hi-pólito, Stobeu, Diógenes Laércio, Cícero, Sêneca, Plutarco, Galeno, Sexto-Empírico e entre os autores cristãos, S. Justino. S. Irineu, Clemente Alexandrino, Orígenes, Tertuliano, Teodoreto, Eusébio de Cesarea e S. Agostinho. Colecionou-os modernamente A. Mullach, Fragmenta philosopho-rum graecorum, 3 vols., Paris. 1860-1881; mais recente, mais completa e mais crítica é a edição de H. Dtels, Fragmente der Vorsokratíker, 3 vols., in 8°, Berlin, Weidemann, 1922.

A. W. Eenn, Early Greek Philosophy, London, 1908; — K. Goebel, Die Vorsokratische Philosophie, Bonn, 1910; — G. Kafka, Die Vorsokratiuer, München, 1921; — S. A. Byck. Die Vorsokratische Philosophie der Griechen, in ihrer organischen Gliederung, 2 vols, in 8.°, Leipzig, Schäfer, 1876-77; — P. Tannery Pour l’histoire de la science hellène: De Thaïes a Empédocle, Paris, 1887: — A. Leceère, La philosophie grecque avant Socrate2, Paris. 1908: — J. Burnet, Early Greek Philosophy, London, 1908; — U. C. Β. Montagni. L’evoluzione pressocratíca, Cittá di Castello, 1912; — H. Schaaf, Institutiones historiae philosophiae graecae, Roma, 1912.

Aristóteles filósofo grego

§ 1.° — Escola jônica

A ESCOLA JÔNICA, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores.

15. Os jônios antigos consideram o Universo no ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são:

  • I.º) Tales (c. 624-548 a. C), de Mileto, fenicio de origem, fundador da escola. É o mais antigo filósofo grego. Levado, talvez, por alguns fatos ingenuamente observados e por lendas tradicionais, afirmou ser a água o princípio gerador de todas as coisas. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua.
  • 2.º Anaximandro (c. 611-547 a. C), de Mileto, discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza, põe como. princípio universal uma substância indefinida, ãweipov, isto é, quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Deste Επαρον primitivo, dotado de vida e imortalidade, por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens.
  • 3.º) Anaxímenes (c. 538-524 a. C), também de Mileto, colega de Anaximandro, levado talvez pela importância da respiração na economia vital, estabelece como elemento primitivo o ar, do qual por um processo de rarefação se origina o fogo, e por condensação a água, a terra, as pedras e os demais seres.

Tanto Anaximandro como Anaxímenes ensinam uma espécie de palingenèsia ou formação e destruição periódica de todas as coisas.

Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista.

16. OS JÔNIOS POSTERIORES distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos.

Heráclito (535-475 a. C.) de Éfeso é o elo de união entre os jônios antigos e os posteriores. Sua doutrina é uma reação contra as especulações dos eleatas. Parmênides, como veremos, afirmara a imutabilidade do ser. Heráclito opõe-lhe a mutabilidade de todas as coisas, -πάντα pel xal ovõh μένει tudo se acha em perpétuo fluxo, a realidade está sujeita a um vir-a-ser contínuo (14). Ε como de todos os elementos, o móvel por excelência é o fogo, do fogo fêz Heráclito o princípio fundamental de todas as coisas. È ainda a preocupação dos antigos jônios de determinar um elemento único, como origem comum de todos os seres. O fogo é dotado de um princípio interno de atividade, em virtude do qual se move continuamente, constituindo cada um dos estádios do seu perpétuo fluxo um fenômeno natural. O mundo teve origem deste fogo primitivo que se identifica com a divindade. Por um processo de "extinção" transformou-se em água e depois em terra. Por um novo processo de "ascensão" a terra volta a ser água e a água torna a fogo. Assim a "luta" separa os elementos, e a "concórdia" tende a reconduzi-los ao fogo donde provieram. Nestas vicissitudes em que a luta vai demolindo o trabalho da concórdia, o triunfo final caberá à concórdia. Mas então intervirá a divindade, construindo um novo mundo em que as duas forças antagonistas entrarão de novo em ação. Como se vê, a cosmologia de Heráclito é ainda em hilo zoísmo panteísta.

Além destas doutrinas físicas, Heráclito ensinou ainda a distinção entre a razão, a que devemos prestar fé, e os sentidos, testemunhas suspeitas da verdade quando não retamente interpretados pela razão.

(14) Por esta doutrina do vir-a-ser perpétuo quiseram alguns discípulos de Hegel ver em Heráclito um precursor do idealista alemão, inculcando-o como o primeiro pensador antigo que reconheceu a identidade do ser e do não ser, e negou o principio de contradição. O próprio Hegel referindo-se a Heráclito escreveu: "Foi este ousado pensador quem primeiro pronunciou a sentença profunda: tudo é e nada é. Aqui ô que devemos exclamar: Terra. Não há uma só posição de Heráclito que eu não admita na minha lógica".

Aristóteles, (Met. IV, 3.) porém, e com êle vários modernos (Zeller; Turner etc.) duvidam que o filósofo efesino tivesse chegado a tal extremo. Semelhança incontestável com Hegel, apresenta-a sim, Heráclito na obscuridade em que envolvia os sei conceitos. Os contemporâneos apelidaram-no "o tenebroso", o-xoreivás "clarus ob obscuram linguam" disse Lucrécio

 

2.°) Empédocles (c. 495-435 a. C.) de Agrigento, autor do poema "a natureza", no intuito de conciliar a unidade e imutabilidade do ser, ensinada pela escola eleata, com a pluralidade e o movimento local, evidentemente atestados pelo senso comum, propõe a teoria dos quatro elementos, que, abraçada por Aristóteles, reinou na ciência por quase 2.000 anos. Segundo o seu sistema todos os corpos são compostos de ar, água, terra e fogo. Estas "raízes" (15) primitivas, ingênitas, imutáveis e irredutíveis (propriedades do ente de Parmênides) entram em diferentes proporções na composição de todos os corpos. As mudanças reduzem-se a combinações ou separações destes elementos e são determinadas pelo "amor", e "ódio", forças místicas que, concebidas antropomòrficamente, regulam as alterações do mundo corpóreo.

A alma humana é também composta destes quatro elementos. Assim se explica a possibilidade do conhecimento, visto como simile simili cognoscitur.

Empédocles ensina a metempsicose e parece admitir a existência de uma Inteligência ordenadora. Mas esta idéia, mal definida em seus poemas, não lhe foi orgânicamente incorporada no sistema filosófico da natureza.

3.°) Anaxágoras (c. 500-428 a. C.). — A. Natural de Clazo-mena, escreveu uma obra "da natureza", de que nos restam preciosos fragmentos. Amigo de Péricles foi, como êle, perseguido pelo povo; acusado de ateísmo por não prestar culto aos deuses nacionais, fugiu para Lampsaco, onde faleceu. Tucídides, Temístocles, Euripides, Heráclito e Sófocles foram seus contemporâneos ou amigos.

(15) Των πάντων ς,ιξώματα O termo "elemento" στσικα é posterior, de origem platônica.

Β. Sua substância primitiva é um agregado de partículas mínimas de todas as substâncias existentes. Aristóteles chamou-as homeomerias. As propriedades específicas dum corpo dependem do predomínio das homeomerias de propriedades correspondentes. A existência das homeomerias de outras espécies, em todos os corpos, explica a possibilidade das transformações.

C. No que, porém, o sistema de Anaxágoras representa um notável progresso na evolução do pensamento grego é em ter feito apelo para uma Inteligência ordenadora a fim de explicar racionalmente a harmonia do Universo. Esta Inteligência — Noüs — é simples, imaterial, independente, toda poderosa, única e infinita, causa eficiente do movimento e da ordem cósmica. Por esta razão, do filósofo de Clazomena, disse Aristóteles que, "comparado com os que o precederam aparece como um sóbrio falando entre ébrios que devaneiam".

D. Em psicologia, Anaxágoras opõe aos sentidos, instrumentos fracos, mas não enganadores do conhecimento, a inteligência simples e imaterial que tudo percebe.

E. Com Anaxágoras dá entrada na filosofia o conceito do su-pra-sensível, afirma-se a irredutibilidade entre o material e o imaterial, delineia-se a idéia teleológica e à questão da causa material soprepõe-se a da causa eficiente do Universo. Lançando ainda os primeiros alicerces da psicologia e da teodicéia pela demonstração racional de suas teses fundamentais, Anaxágoras prepara o caminho a Sócrates e Aristóteles e conquista, na história da filosofia, títulos à imortal gratidão da posteridade.

Nota — Pelo que fica exposto, vê-se que os três filósofos acima, se bem orientados pela idéia geral dos jônios antigos, deles se separam em muitos pontos, sob o influxo de outras escolas. Melhor do que jônios poder-se-iam dizer ecléticos independentes. Isto explica a divergência de alguns autores que qs classificam entre os atomistas.

BIBLIOGRAFIA

H. Ritter. Geschichte der ionischen Philosophie, Berlin, 1821; — R. Seydel Der Fortschritt der Metaphysik innerhalb der Schule des ionischen Hylozoismus, Leipzig, 1860; — M. C. Mallet, Histoire de la philosophie ionienne, Paris, 1842.

§ 2.° — Escola itálica — Pitágoras

17. Enquanto, em plena florescência, se desenvolvia, na Ásia Menor, a escola jônica, em Crotona, na Magna Grécia, surgia outra escola — a primeira do Ocidente — de orientação bem diversa.

A. Pitágoras (sec. VI), natural de Samos e fundador da escola, é uma das mais notáveis personalidades da antigüidade. Nada deixou escrito (16) e sobre sua vida a tradição teceu inúmeras lendas. À crítica moderna chegou até a lançar dúvidas sobre a his toricidade de algumas das suas viagens ao Egito, à Pérsia, à Índia e às Gálias. Sabemos apenas que foi ilustre matemático, organizou a sua escola à maneira de congregação político-religiosa e lhe legou um corpo de doutrinas cosmológicas e morais. É-nos difícil, senão impossível distinguir entre elas os ensinamentos primitivos do mestre da contribuição posterior dos discípulos.

B. Segundo a escola itálica, o número é o fundamento de tudo, é o princípio essencial de que são compostas todas as coisas. Deus é a grande Unidade, a grande Monada, o número perfeito do qual emanam todos os outros seres do mundo, grandiosa harmonia matemática. Não sabemos ao certo que significação atribuíam os pi-tagóricos à palavra "número". Impressionados pela ordem do Universo, talvez quisessem simbolizar apenas, com este termo, a regularidade e constância dos fenômenos naturais. Se assim fosse — mas não temos provas para afirmá-lo contra Aristóteles que interpreta o termo no sentido óbvio — houvera sido esta uma intuição da possibilidade, hoje em grande parte realizada, de exprimir por fórmulas numéricas as leis físicas que presidem aos fenômenos do Cosmo.

Os corpos formados por números constam como estes de par e ímpar ou de finito ou infinito. Os números pares, por se poderem sempre dividir, são de certo modo infinitos; os ímpares, que se opõem a esta divisão, finitos.

O universo é constituído por um corpo ígneo, situado no centro e móvel em torno do próprio eixo e ao redor do qual se dispõem a terra, o sol, os planetas e a anti-terrâ, corpo que eles acrescentavam aos sete planetas então conhecidos para perfazer o número de 10. Engastados em esferas concêntricas, produzem estes astros no seu movimento uma admirável harmonia, "a harmonia das esferas", que o hábito nos impede de sentir.

C. Além destes ensinamentos de ordem cosmológica, professavam os discípulos de Pitágoras várias doutrinas religiosas e morais, características da escola. Fim último da vida e felicidade suprema do sábio é a semelhança com a Divindade. Meio necessário de atingi-la, a prática da virtude, harmonia resultante da subordinação da parte inferior à superior da nossa natureza. No intuito de alcançar este equilíbrio harmônico davam-se aos rigores das práticas ascéticas. Viviam vida comum, no celibate, praticavam o silêncio, a abstinência de certos alimentos e o exame de consciência. Guardavam entre os iniciados rigoroso segredo de doutrinas. Acreditavam na metempsicose ou transmigração das almas não de todo purificadas e tributavam ao mestre grande culto de veneração, abdicando em sua autoridade a própria razão, a ponto de considerarem a sentença dele em qualquer questão como aresto inapelável e expressão indiscutível da verdade. O ipse dixit era a última palavra de todas as discussões.

(16) Os fragmentos que se lhe atribuem são certamente espúrios. Os "versos áureos", coleção de máximas morais, parecem ser do pltagórico Lysis.

 

D. Por motivos políticos e pelas suas tendências acentuada-mente aristocráticas, depois da morte do mestre, foi a comunidade pitagórica assaltada e dispersa, numa sublevação popular. Seus membros disseminados pela Itália e pela Grécia ioram infiltrar em outros sistemas as próprias doutrinas. Como escola, o pitagorismo cessou de existir no see. IV a. C.

E. Entre os discípulos de Pitágoras os mais conhecidos são: Filolau (n. c. 480) que primeiro publicou as doutrinas da escola e de quem nos restam ainda fragmentos autênticos; Lysis, discípulo de Filolau, Hipasus, Cimias, Cebes, contemporâneos de Sócrates, que figuram como interlocutores nos diálogos de Platão; Ricetas, que ensinou o movimento da terra em torno do próprio eixo e inspirou a Copérnico a teoria heliocêntrica; Alcmeon, médico, que reconheceu no cérebro o órgão central da sensibilidade; Arquitas de Tarento, que fundou na Sicília uma escola filosófica.

F. A Pitágoras cabe a iniciativa de ter orientado a filosofia para os problemas ético-religiosos, encarando-a não só como explicação da natureza, senão ainda como regra de vida, como meio de atingir a perfeição e a felicidade. Sua moral, porém, apresenta-se a nós mais como uma tradição religiosa do que como resultado de uma investigação racional coerente com o resto do sistema filosófico. Seu, outrossim, é o merecimento de ter compreendido que o universo é realmente cosmos, isto é, ordem e harmonia. Caiu, porém, ao que parece, no erro de confundir a manifestação externa desta ordem com o seu constitutivo interno, fazendo do número não só à expressão da ordem real mas o princípio da própria realidade.

A Pitágoras, como refere Cícero (17) remonta a origem do termo "filósofo", que éle por evitar o de sábio — σ6φο$ — modestamente se atribuía, chamando-se "amigo da sabedoria".

BIBLIOGRAFIA

H. Ritter, Geschichte der pythagorischen Philosophie, Hamburg, 1826; — W. Bauer, Der ältere Pythagorismus, eine kritische Studie, Bern, 1897; — A. E. Chaignet, Phythagore et la philosophie pythagoricienne contenant les fragments de Philolaus et d’Archytas traduits pour la première fois en français, 2 vols., Paris. 1873.

§ 3.° — Escola eleática

18. Em face do problema cosmológico, a escola de Eléia, na Magna Grécia, assume uma posição francamente apriorista. Nega audazmente a multiplicidade e sucessão dos seres como ilusões dos sentidos, e, por meio. de processos dialéticos, afirma, em nome da razão, a unicidade, eternidade e imutabilidade do ser. "Firmam o universo", no dizer de Platão: " ót τον ΰλου στασιώται ‘. É o panteísmo idealista oposto ao panteísmo naturalista das escolas precedentes. Não podendo, porém, furtar-se à necessidade de explicar o mundo das aparências, inspiram-se os eleatas nas doutrinas físicas dos jônios.

(17) Cie, Tusc, V 3.

Às conclusões da escola chegaram seus diferentes adeptos por vias diversas.

1.°) Xenófanes (576-480 a. C), de Colofônio, na Ásia Menor, e fundador da escola em Eléia, é teólogo. Seu ponto de partida é a unidade de Deus que êle demonstra com bons argumentos e defende contra o politeísmo vulgar, exprobrando com veemência a Homero e Hesíodo por haverem favorecido com suas teogonias a concepção antropomórfica da Divindade. Deus é, pois, uno, eterno imóvel, imutável, perfeito, tudo abraçando e governando com o pensamento: Unus est Deus deorum, hominumque summus, sine negotio, mentis vi cuncta permovet immotus. Confundindo, porém, Deus e o Universo, dos atributos do primeiro inferiu erroneamente os atributos do segundo, concluindo pela unicidade e imutabilidade do ser.

Em física, Xenófanes explica a origem do mundo de uma ou mais substâncias primitivas — talvez a terra e a água — sem se preocupar da coerência destas doutrinas com as anteriores sobre a imutabilidade do Universo.

Em ética, censura acremente os desmandos morais de seus conterrâneos e aconselha de preferência à cultura demasiada das forças físicas, a sobriedade e o amor da sabedoria.

Do seu poema A natureza só nos restam fragmentos.

2.º) Parmênides (530-444 a. C), discípulo de Xenófanes, é metafísico, talvez o mais profundo dos filósofos pré-socráticos. Distingue duas ordens opostas de conhecimento: a sensitiva que nos leva à "opinião", τα προς δάξαν , enganadora e ilusória, e a intele-tual, fundada na evidência dialética, que nos conduz "à verdade" τα Trpòs άλήϋααρ. Os sentidos percebem o mutável, o múltiplo, o contingente; a razão vê no fundo de todas as coisas uma realidade única — o ente. Ora, o ente, não podendo vir do não ente "ex nihilo nihil", é uno, eterno, ingênito, imóvel, indivisível, imutável, homogêneo, contínuo e esférico (esfera, figura perfeita). O mundo fenomenal não passa de uma ilusão.

Na sua cosmologia do aparente, ensina Parmênides que todas as coisas são compostas de dois princípios — luz e trevas, calor e frio, isto é, de fogo e terra.

Além do defeito comum a todos os aprioristas de rejeitar a evidência experimental, confunde Parmênides a ordem lógica com a ontológica, transportando os atributos provenientes do estado de abstração de uma idéia à realidade por ela representada. Altean-do-se, porém, na esfera do inteligível até à idéia de ser, eleva-se muito acima de seus predecessores e aplaina o caminho a uma metafísica mais segura.

3.º) Zenão, de Eléia (490 a. C), é dialético. Chega às mesmas conclusões de Parmênides por via indireta, mostrando as contradições dos que prestam fé ao testemunho dos sentidos. Alguns de seus sofismas contra a pluralidade dos seres, e sobretudo contra a possibilidade do movimento (18), são célebres na história do pensamento. Zenão era um polemista erudito, sutil, mas amante de cavilações e paradoxos. Preludia os sofistas.

4.º) Melisso (meado do see. V a. C.), de Samos, não é um ta-lente original. Nada fêz senão sintetizar as teorias da escola, procurando conciliá-las com o naturalismo dos jônios. Neste trabalho de harmonização nem sempre conseguiu evitar contradições, introduzindo idéias contrárias às doutrinas capitais da escola eleata.

(18) Um dos mais conhecidos — o argumento da dicotomia, é o seguinte: Um móvel para ir de A a Β deve percorrer metade do espaço intermédio, mas antes de chegar ao ponto médio terá de vencer a metade da distancia que o separa do ponto Inicial e assim por diante. Ao argumento responde Aristóteles declarando a verdadeira natureza da extensão e do tempo. Cfr. Nys, Cosmologtc", p. 243.

 

Epicuro

Epicuro

BIBLIOGRAFIA

S. Ferrari, Gli Eleati, Roma, 1892, (Mem. delia Accad. dei Lincei) ; — J. Dörfler, Die Eleaten u. d. Orphiker, Freistadt, 1911; — G. Calogero, Studi sull’Eleatismo, Roma, 1832; — K. Riezler, Parmenídes, Frankfurt a, m. 1934.

§ 4.° — Escola atomística

19. Como Empédocles e Anaxágoras, tentam também os ato-mistas conciliar o rígido monismo dos eleatas com as exigências, do senso comum. Neste intuito, admitem como os dois filósofos precedentes que os elementos primitivos são imutáveis e dotados de movimento local, mas deles se separam afirmando a sua homogeneidade e indivisibilidade.

A. O verdadeiro fundador da nova escola é Leucipo, de quem quase nada sabemos. Demócrito (520-440 a. C), natural de Abdera, na Trácia, discípulo de Leucipo, é o seu principal organizador e representante. Foi homem muito versado na física e nas matemáticas e de maravilhosa erudição, não inferior à do próprio Aristóteles. Das suas muitas obras só restam fragmentos.

Β. O sistema mecanicista da natureza por êle proposto reduz-se aos seguintes princípios fundamentais. As grandes massas são compostas de corpúsculos insecáveis, ingênitos, eternos, chamados átomos. Substancialmente homogêneos, diferem uns dos outros pela figura, pela ordem e pela posição; pela figura como A de Ν (para o esclarecermos com o exemplo de Aristóteles, Metaphys. I, 4), pela ordem como AN de NA, pela posição como Ν de Ζ (o Ν é um Ζ deitado). A diferença de figura acarreta, outrossim, a de grandeza e de peso. Ao lado dos átomos, admite Demócrito o vácuo (contra Parmênides) para explicar a possibilidade do movimento. Daí a fórmula: os corpos são compostos de pleno e de vácuo, πληρεζ xaí χενον.

A geração, a corrução e às transformações das grandes massas explicam-se por agregações e desagregações atômicas. Das propriedades corpóreas, as de ordem quantitativa, como extensão, figura, grandeza, peso, movimento ou repouso (chamadas por Aristóteles sensíveis comuns e, pelos modernos, qualidades primárias) existem na realidade como as percebemos; as de ordem qualitativa (sensíveis próprios de Aristóteles ou qualidades secundárias dos modernos) tais a côr e o som, só existem como movimento local. Na sua formalidade qualitativa são impressões dos sentidos, na frase de Teofrasto, πάϋη ríjs άισαήσω* (De sens, et sensib., § 63).

C. A origem do mundo explica-se por um processo puramente mecânico, sem recorrer, como Anaxágoras, à intervenção de uma inteligência ordenadora. Por necessidade de natureza, os átomos movem-se no vácuo infinito com movimento retilíneo de cima para baixo e com desigual velocidade (19). Daí entrechoques atômicos e formação de imensos vórtices ou turbilhões de que se originam os mundos.

D. Na psicologia do abderita repercute a sua física mecani-cista. A alma é composta de átomos semelhantes aos do fogo, porém mais sutis, que, entrelaçados em rede descontínua, se difundem por todo o corpo. A respiração, ingerindo novos átomos ígneos, compensa a perda dos que continuamente se expelem. Quando já não é possível esta compensação sobrevem a morte.

A sensação é provocada por imagens materiais είδωλα (20) — que se destacam dos corpos e, pelo ar, vêm impressionar o órgão sensitivo. O conhecimento assim obtido é muito imperfeito, obscuro, variável e enganoso. Semelhante à sensibilidade no seu aspecto subjetivo, a inteligência de muito se lhe avantaja como faculdade de conhecimento: é mais ampla e mais segura, conhece a existência dos átomos e corrige os erros dos sentidos (aparência das qualidades secundárias). — Não há liberdade nem imortalidade.

E. Os deuses vulgares e a mitologia nasceram da fantasia popular. São entes superiores ao homem, mas compostos também de átomos e vácuos e sujeitos à lei da morte. "Deus verdadeiro e natureza imortal não existe".

F. Como físico, Demócrito é talvez o mais profundo entre os gregos. A-teoria atômica, nas suas linhas fundamentais abraçada pela’ ciência moderna, saiu-lhe quase perfeita das mãos. A inexistência fprmal das qualidades secundárias é hoje admitida pela quase unanimidade dos naturalistas. Quanto ao método, sem des-curar a observação, é um pouco apriorista. As propriedades dos seus átomos são determinadas pela necessidade de conciliar Par-mênides com a observação sensível.

(19) Criticando essa teoria, Já notava Aristóteles que no espaço infinito para cima e para baixo não têm significação alguma (Phys., IV, 8) e no vácuo todos os corpos, ainda de grandeza desigual, caem com a mesma velocidade (De coelo, IV, 2).

(20) Delas dirá mais tarde Lucrécio:

Quae quasi membranae summo de corpore rerum
Dereptae volltant, ultro citroquo per auras.

Como filósofo é somenos. Opondo-se ao dualismo irredutível, estabelecido por Anaxágoras, entre a matéria e o espírito, e negando a existência de uma inteligência ordenadora, o filósofo de Abdera aparece na história do pensamento como o primeiro re-presentante formal do materialismo e do ateísmo. "O defeito de todo o materialismo, observa Lange, é concluir as suas explicações no ponto em que começam os grandes problemas filosóficos". (21).

BIBLIOGRAFIA

V. Fazio-Almayer, Studi sull’atomismo gr eco, Palermo, 1911; — A. Dyroff, Demokritstudien, München, 1899; — L. Löwenheim, Die Wissenschaft Demokrits und ihr Einfluss auf die moderne Naturwissenschaft, Berlin. 1914; — L. Mabilleau, Histoire de la philosophie atomistique, Paris, 1895.

§ 5.° — Sofistas

20. A atitude intelectual de alguns dos pensadores precedentes havia aplainado o caminho ao ceticismo. Heráclito negara a realidade permanente. Parmênides e a escola de Eléia, opondo-se à mais evidente experiência e desvalorizando o conhecimento sensível, fiaram apenas da razão no apriorismo dos seus processos dialéticos. Concluir daí que tudo é ilusão e que a ciência é impossível era um passo fácil. As condições sociais de Atenas, que atingira o apogeu de sua glória, ofereciam ainda na abundância das riquezas, na corrução dos costumes, no abalo das tradições morais e religiosas discutidas pela critica racionalista, um ambiente favorável ao aparecimento dos sofistas.

A. Chamam-se sofistas os mestres populares de filosofia, homens venais e sem convicções, ávidos de riqueza e de glória que, nesta época de crise para o pensamento grego exploram em benefício da própria vaidade e cupidez o estado dos espíritos criado pelas especulações filosóficas e condições sociais do tempo (22). Mais retóricos que filósofos, argutos, artificiosos e eruditos, ensinavam à juventude ateniense, atraída pelos encantos da eloqüência, com a arte de defender o pró e o contra de todas as questões, o segredo de Sócrates combateu lôda a sua vida contra estes pseudo-filósofos; Platão impugna-os ainda nos seus primeiros diálogos; Aristóteles fala dos sofistas como de adversários históricos, como de um perigoso esconjurado tirar partido de qualquer situação, galgando as mais elevadas posições numa democracia volúvel e irrequieta. Serviam-se das anuas da razão para destruir a própria razão, e, sobre as ruínas da verdade, erigir o interesse em norma suprema de ação.

(21) Lange, Geschichte des Materialismus, t. I, p. 21.

(22) Nos tempos mais remotos denominaram-se sofistas todos os que se entregavam ao estudo das ciências e das artes. Assim chama Aristóteles os sete sábios da Grécia. No século V restringiu-se a significação do termo aos pedagogos e professores ambulantes de retórica que ensinavam mediante remuneração pecuniária. Pouco a pouco, pela tendência rabulista destes mestres de eloqüência o termo foi tomando o significado pejorativo que conservou até hoje. Xenofonte, Memox-ab, I, 6: "Chamam-se sofistas os que vendem a sabedoria por dinheiro". Platão, Sof. 268 D: "Sofista é o que constrange o seu interlocutor a dizer coisas contraditórias… com o prestígio das palavras enreda os seus ouvintes". Aristóteles, De elench, sophist, c. 1: "Sofista é quem aufere lucros de uma sabedoria que parece e não é". S. Tomaz, comentando Aristóteles: "ad aliud ordinat vitam suam et actiones philosophus et sophista. Philo-sophus quidem ad sciendum veritatem; sophista vero ad hoc quod videatur scire quod nésciat". In metaphys. I. 4, lect. 4.

 

B. Dentre a numerosa turba dos sofistas extremam-se como mais célebres, os dois vultos de Protagoras e Górgias.

1.º) Protágoras (c. 480-411 a. C), de Abdera, ensinou 40 anos por toda a Grécia. Acusado de ateísmo, em Atenas, fugiu para a Sicília, perecendo num naufrágio. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação, conforme as disposições subjetivas dos órgãos, inferiu Protagoras a relatividade do conhecimento. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula; o homem é medida de todas as coisas, πάντων χρημάτων μετρον άνϋρωπο%. Para ο seu autor, esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas, não na sua realidade física, mas na sua forma conhecida. Subjetivismo, relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial.

2.º) Górgias (480-375 a. C), de Leôncio, na Sicília, menos profundo, porém, mais eloqüente que Protagoras partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. É autor duma obra intitulada "Do não ser", na qual desenvolve as três teses: Nada existe; se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer; se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. A prova de cada uma destas proposições é um enredo de sofismas, sutis uns, outros pueris.

Prodicus, de Céus, autor do apólogo Hercules in bivio. Hipias, Crítias e outros figuram também como sofistas entre os interlocutores de Sócrates nos diálogos de Platão.

Protagoras e Górgias, ainda que incoerentemente, limitaram-se ao ceticismo especulativo. Os sofistas menores transpuseram as barreiras da ordem moral. Para Hipias, a "lei é o tirano dos homens", a causa de suas discórdias. Polus, Trasímaco e Cálicles preconizaram a mais desenfreada licença: "Justo, diziam, é o que é útil ao mais forte". Platão, Repl. 320 C. Ante estes superficiais demoli-dores nada ficou de pé no campo moral e religioso.

Benemerência indireta dos sojistas. Embora sendo um sintoma dd-degenerescência e anarquia intelectual, o aparecimento dos sofistas foi de incontestável utilidade para o progresso da filosofia. Analisando e criticando os sistemas precedentes, mostraram-lhe a inanidade das generalizações ambiciosas e precipitadas. Abusando da dialética, revelaram-lhe o valor e a importância de se lhe estudarem as regras e leis fundamentais. Impugnando a certeza e a veracidade das faculdades cognoscitivas, fizeram sentir a necessidade de aprofundar, ao lado das questões cosmológicas, a análise psicológica dos nossos instrumentos de conhecimento, estabelecendo-lhes o alcance e as condições de legitimidade. Desbravaram o terreno intelectual e rasgaram à filosofia novos horizontes, orientando-a para o estudo do espírito e de sua atividade, para a investigação dos métodos científicos do conhecimento e o exame dos processos dialéticos. Sem os sofistas não se compreende Sócrates. A reação dos primeiros preparou a reação do segundo com todas as suas salutares conseqüências.

BIBLIOGRAFIA

H. Stebeck, Das Problem des Wissens bei Sokrates und der Sophistik, Halle, 1870; — H. Gomperz, Sophistik und Rhetorik, Leipzig und Berlin, 1912; — CP. Gunning, De sophistis Graeciae praeceptoribus, Amsterdam, 1915; — Fünck-Brentano, Les sophistes grecs et les sophistes contemporains, Paris, 1879; — V. Brochard, Les sceptiques grecs2, Paris, 1923.

21. VISTA RETROSPECTIVA — Seguindo a ordem da evolução individual do conhecimento, a filosofia grega inaugura suas especulações com o estudo do problema cosmológico. Ora, em face da natureza, a inteligência levanta para logo dois problemas: 1.", como explicar as contínuas variações dos seres? 2.9, qual o elemento estável que permanece através de todas as transformações? O segundo destes problemas preocupa os filósofos das primeiras escolas. Depois de Heráclito, que imprimiu outra orientação aos estudos cos-mológicos, é no estudo das mudanças que se concentram as atenções. Nas respostas a estas questões inspiram-se alguns no dinamismo, admitindo um ou mais princípios primitivos (quando mais de um, qualitativamente diversos), dotados de atividade interna, outros declaram-se pelo mecanicismo, reduzindo todo o universo a matéria inerte e a movimento comunicado. A diversidade dos corpos é explicada com elementos puramente quantitativos.

Incidentemente, tocam-se as questões lógicas e psicológicas da natureza da alma e das suas relações com o corpo, q\o alcance e do valor do conhecimento, da sua distinção em conhecimento sensível e intelectual.

Com relação ao método, procedem uns (jônios e atomistas), a posteriori, buscando na experiência um apoio às suas teorias. São empiristas; Aristóteles chama-os jisiólogos ou naturalistas. Outros (pitagóricos e eleatas), mais abstratos, partem de princípios a priori e menosprezam a experiência. São mais ou menos idealistas. "Matemáticos", apelida-os o Estagirita.

Em teodicéia, com exceção de Demócrito, admitem todos um Ser Supremo e Eterno, mas identificam-no panteisticamente com a natureza. Só Anaxágoras professa explicitamente a imaterialidade e transcendência divinas.

No fim do período, o trabalho demolidor da crítica cética dos sofistas exercido sobre os muitos erros e as poucas verdades das escolas precedentes, mostra a necessidade de reerguer sobre alicerces mais firmes o edifício vacilante da filosofia.


Fonte: Livraria Agir Editora. 20ª edição.

jul 282009
 
Arte etrusca

SUMÁRIO   DA   VIDA   DE   LISANDRO

I. Estátua de Lisandro no templo de Delfos. II. Família, educação e caráter de Lisandro. III. As riquezas que faz entrar em Esparta. corrompem os costumes da cidade. IV. É nomeado comandante da esquadra dos lacedemônios. V. Faz aumentar, após interceder junto de Ciro, o soldo de seus marinheiros. VIL Lisandro ganha uma batalha naval. VIII. Forma nas cidade! gregas associações visando nelas estabelecer oligarquias. IX. Sim conduta para com Calicrátidas, nomeado para substituí-lo no comando. X. Viagens inúteis de Calicrátidas, que não consegue avistar-se com Ciro. Sua morte. XI. Lisandro é colocado do novo no comando da esquadra. XII. Infame conduta de Lisandro em Mileto. XIII. Facilidade com que Lisandro fazia falsos juramentos. XIV. Dinheiro a êle fornecido por Ciro. XV. Diversas expedições de Lisandro. Toma Lâmpsaco. XVI. A esquadra dos atenienses segue para a embocadura do rio Egos-Pótamos. XVII. Conduta de Lisandro. XVIII. Conselhos de Alcibíades aos capitães atenienses, que não os aceitam. XIX. Astúcia de Lisando. XXL Alcança a vitória. XXII. Prodígios que precederam este acontecimento. XXIV. Prisioneiros de Atenas condena dos a morte. XXV. Conduta de Lisandro em relação às cidades gregas. XXVIII. Tomada de Atenas. XXX. Demolição das muralhas da cidade. Estabelecimento do Conselho dos Trinta. XXXI. Gilipo rouba parte do dinheiro que Lisandro lhe entregara para levar a Esparta. XXXII. Discute-se em Esparta sobre se se deve receber dinheiro enviado por Lisandro. XXXIII. Lisandro manda fazer a sua estátua. XXXIV. Honras que lhe são prestadas. XXXV. Insolência e crueldade de Lisandro. XXXVI. É chamado a Esparta. Descrição da citai. XXXVII. Como Farnabazo o engana. XXXVIII. Pede uma licença para dirigir-se ao templo de Júpiter Amon. XXXIX. Apaziguamento da cidade de Atenas. XL. Diversos ditos de Lisandro. XLI. Auxilia Agesilau a tornar-se rei da Lacedemô-nia. XLII. Concita-o a guerrear os persas. XLIII. Rivalidade entre Agesilau e Lisandro. XLV. Intrigas de Lisandro para chegar ao trono. LI. Concita os lacedemônios a moverem guerra aos tebanos. LII. Toma a cidade de Orcomene. LIV. É morto diante das muralhas de Haliarto. LV. Sua sepultura. Oráculos que anunciaram sua morte. LVII. Descoberta de uma conspiração que havia ordido para tornar-se rei.

Do ano 278, aproximadamente, até o ano 360, de Roma, 394 A. C.

LISANDRO – Plutarco – Vidas Paralelas
Baseado na tradução em francês de Amyot, com notas de Clavier, Vauvilliers e Brotier.

Tradução brasileira de José Carlos Chaves. Fonte: Ed. das Américas

I. Existe no tesouro (1) dos habitantes de Acanto, que se acha no templo de Apoio, na cidade de Delfos, a seguinte inscrição: "Brásidas e os Acântios – Despojos dos atenienses". Estes dizeres levaram vários escritores a acreditar que a estátua de pedra existente junto à porta da capela era a imagem de Brásidas; no entanto, trata-se da estátua de Lisandro, do tamanho natural, na qual êle é apresentado- com uma abundante cabeleira e uma barba muito espessa e comprida, à maneira dos antigos. Não é verdade, como afirmam alguns, que os argivos, após terem sido derrotados numa grande batalha, mandaram rapar as cabeças, numa pública demonstração de luto, e que os lacedemônios, ao contrário, para testemunhar a sua alegria diante da vitória alcançada, deixaram crescer cs cabelos. Também não é verdade que, quando os baquíadas fugiram de Corinto para a Lacedemônia, os espartanos, vendo-os com as cabeças rapadas, acharam-nos tão feios e disformes que decidiram deixar crescer a barba e os cabelos. O certo é que este costume lhes veio de Licurgo, na opinião de quem uma longa cabeleira realça a beleza dos que são naturalmente belos e torna ainda mais feios os que já nasceram feios.

(1)    Esta palavra tesouro significa aqui  as oferendas feitas ao templo pelos habitantes de Acanto.    Vide os pormenores acerca destas oferendas no capítulo XXXIII.    A cidade de Acanto,  que foi  denominada  depois  Cassandra,  ficava  peito  do  monte  Atos.

II. Segundo se diz, Aristóclites (1), pai de Lisandro, não era da casa dos reis de Esparta, embora fosse da raça dos heráclidas; mas seu filho Lisandro foi criado num ambiente de pobreza e mostrou-se mais fiel observador das leis e dos costumes do país do que qualquer outro espartano. Sua coragem viril, à prova de todas as voluptuosidades, não conheceu outro prazer senão aquele que decorre da estima pública, a qual é o prêmio das belas ações; pois em Esparta não se considera coisa má ou desonesta o fato de os jovens se deixarem dominar por este prazer; cs espartanos querem que seus filhos se mostrem, desde a mais tenra idade, sensíveis à glória, e que encontrem prazer no elogio, e, ao contrário, motivo de pesar na censura. Eles votam desprezo àqueles que permanecem indiferentes a êsse duplo estímulo, considerando-os como homens de coração vil e covarde, incapazes de praticar o bem. Deste modo, a ambição e a paixão pela glória de que era possuído Lisandro devem ser atribuídas à disciplina e à educação lacônias, não se podendo por isso responsabilizar muito a natureza; desta êle recebeu a sua inclinação para agradar aos grandes e poderosos, de uma maneira que não era comum entre os espartanos. Além disso, era dotado de paciência bastante para suportar, sem esforço, a arrogância daqueles que possuíam maior poderio e autoridade, quando disso podia tirar algum proveito; o que, aliás, é considerado per alguns como parte importante da arte de bem dirigir os negócios do Estado. III Aristóteles (2), na passagem em que diz serem os grandes espíritos sujeitos freqüentemente à melancolia, citando os exemplos de Sócrates e Hércules, conta que Lisandro também, não em sua mocidade, mas ao aproximar-se da velhice, foi vítima do mal da melancolia. Havia no seu caráter uma qualidade que, entre todas as outras, lhe era própria e peculiar: a de que, embora se tivesse conduzido sempre honestamente em sua pobreza, sem se deixar jamais vencer ou corromper pelo dinheiro, êle encheu sua pátria de riquezas e do desejo de possuí-las, fazendo-a perder a reputação de que gozava de não as ter em grande estima; todavia apesar de nela ter introduzido grande quantidade de ouro e de prata, depois de haver vencido os atenienses, não reservou para si uma única draema. E tal era o seu desinteresse que, tendo um dia Dionísio, tirano de Siracusa, enviado às suas filhas vestidos da Sicília, ricos e belos, êle não os quis aceitar, dizendo recear que tais vestidos fizessem parecer-lhe mais feias as filhas. Entretanto, pouco tempo depois, quando os espartanos o enviaram como embaixador junto ao mesmo tirano, este apresentou-lhe dois vestidos, pedindc-lhe que escolhesse um para levar a uma de suas filhas; e êle respondeu que a interessada poderia escolher melhor, e levou os dois.

(1)    Outros  autores  o  chamam  Aristócrito,

(2)    Aristóteles, nos «Problemas», secção XXX, tomo II, p ág. 815.

IV, Entrementes, a guerra do Peloponeso prolongava-se demasiado, e a derrota do exército que os atenienses tinham enviado à Sicília fazia super que tivessem perdido completamente todo o domínio do mar; e que, em conseqüência, estariam em breve sem quaisquer recursos, Mas Alcibíades, chamado do exílio, e recolocado à frente dos negócios públicos, fêz com que toda a situação se modificasse, tornando os atenienses tão fortes no mar quanto os lacedemônios. Estes, receando pela sua sorte, puseram na direção desta guerra um ardor novo, e verificaram logo que necessitavam, mais do que em qualquer outro momento, de um maior po derio e de um comandante mais capaz. Entregaram, então, a Lisandro, o comando da esquadra (1). Chegando a Éfeso, êle encontrou na . cidade um ambiente amistoso, no que lhe dizia respeito, e verificou que a população se mostrava devotada aos interesses de Esparta. Achava-se, no entanto, numa situação lamentável, devido à sua pobreza, e em vias de adotar inteiramente os costumes bárbaros dos persas, cem quem mantinha relações constantes; com efeito, a cidade estava como que cercada pela Lídia e os capitães do rei da Pérsia nela permaneciam, em longas temporadas. Lisandro ali estabeleceu o seu acampamento, reunindo o maior número de navios de carga que pôde encontrar; mandou erguer um estaleiro para a construção de galeras, fomentou o comércio nos portos da região, os quais começaram a ser procurados pelos negociantes, e fez com que as casas particulares e as oficinas se enchessem de bens; e desde então Éfçso começou a conceber a esperança de chegar à opulência e à grandeza na qual nós a vemos hoje.

(1)    No primeiro ano da 93.ª olimpíada,  408 anos A. C.

V. Informado de que Ciro, um dos filhos do grande rei da Pérsia, havia chegado à cidade de Sardes, Lisandro para ali se dirigiu, ao seu encontro, a fim de falar-lhe sobre questões relacionadas com a Grécia e queixar-se de Tissafernes, que, tendo recebido .ordem para socorrer os lacedemônios e auxiliá-los a expulsar os atenienses do mar, conduziu-se com frouxidão, e isto devido à amizade que tinha por Alcibíades; e, como fornecesse muito pouco dinheiro à esquadra, causou-lhe a ruína. Ciro, de seu lado, ouvia com prazer queixas contra Tissafernes, gostando mesmo que se falasse contra ele, e isto porque se tratava de um homem mau a quem considerava como inimigo. Assim, Lisandro agradou-lhe muito, e não somente pelas denúncias referentes a Tissafernes, como também pelo prazer que lhe proporcionava a sua conversação. Lisandro, que sabia agradar e cortejar os poderosos, cativou o jovem príncipe, e assim encorajou-o no seu desígnio de prosseguir na guerra. Nas vésperas de sua partida, Ciro ofereceu-lhe uma ceia, depois da qual lhe pediu que não recusasse os testemunhos de sua liberalidade e que lhe pedisse com franqueza tudo o que desejasse, assegurando-lhe que nada lhe seria negado. Lisandro, diante de tais palavras, deu-lhe a seguinte resposta: "Pois que vos mostrais tão generoso para comigo, peço-vos e aconselho-vos a que aumenteis de um óbolo o soldo dos marinheiros, a fim de que, no lugar de três óbolos por dia, eles recebam quatro".

VI. Ciro, encantado com este desprendimento de Lisandro, mandou-lhe entregar dez mil dáricos, os quais foram por êle utilizados para pagar aos marinheiros um óbolo a mais por dia. Esta liberalidade fêz com que as galeras dos inimigos ficassem vazias em pouco- tempo, pois a maior parte dos marinheiros dava preferência às esquadras onde eram melhor pagos; e aqueles que permaneciam nos seus antigos navios, desincumbiam-se mal de suas obrigações e mostravam-se sempre dispostos a se rebelarem, mantendo assim em constante apreensão os seus comandantes. Entretanto, embora tendo privado o inimigo de grande número de homens, e enfraquecido desse modo as suas forças, não ousou empenhar-se   numa   batalha   naval.   Receava,   com efeito, Alcibíades, conhecido como homem de ação, e que possuía uma esquadra mais numerosa; era, além disso, um capitão que não conhecera até então* sequer uma derreta, nem em terra e nem em mar.

VII.    Entretanto, tendo Alcibíades partido de Samos para Focéia (1), cidade que fica no continente, defronte da ilha, e tendo passado o comando da esquadra, durante a sua ausência, ao seu piloto Antíoco, este, querendo dar prova de audácia, e ao mesmo tempo insultar e zombar de Lisandro, penetrou no porto de Éfeso com apenas duas galeras; e, no meio de grande ruído e gargalhadas, passou inso-lentemente diante dos estaleiros onde se achavam os navios dos lacedemônios. Lisandro, indignado ante tal audácia, mandou lançar ao mar, em primeiro lugar, algumas galeras, a fim de perseguir o inimigo; mas vendo que outros capitães atenienses vinham em socorro de Antíoco, êle empenhou no combate outros navios. Aos poucos, ambos os lados foram se reforçando, até um ponto em que as duas esquadras passaram a dispor de todas as suas forças. Lisandro saiu vitorioso da batalha, e, tendo capturado quinze  galeras  do  adversário,  transformou-as num troféu.

(1) Os antigos geógrafos colocavam Focéia, uns na Btólia e outros na Jônia asiática. Mas trata-se, sem dúvida, de uma cidade jônia. Seus moradores devem ser chamados foceenses para se distinguirem dos fócios, naturais de Fóeida,, província da Grécia. Foram os foceenses que se dirigiram â Gália, onde fundaram, em 539 A. C, Marselha, segundo Pétau.

VIII. O povo de Atenas, irritando-se ao ter conhecimento dessa derrota, afastou Alcibíades do comando da esquadra; e, como os combatentes que se encontravam no acampamento de Samos também se pusessem a desconsiderá-lo, decidiu abandonar a ilha, seguindo para Quersoneso (1), na Trácia. Esta batalha por si mesmo não apresentava grande importância; mas, em virtude da reputação de que gozava Alcibíades, teve a maior repercussão. Entre-mentes, Lisandro, depois de mandar vir das cidades da Ásia, para Éfeso, os homens que considerava como os mais corajosos e mais empreendedores, foi incutindo neles os primeiros germes das grandes transformações e inovações que introduziu depois nos governos das cidades; concitou e encorajou estes homens a formarem associações entre eles, a atraírem seus amigos e a se esforçarem para ficar com todos os negócios dessas cidades em suas mãos; prometeu-lhes que, quando ele tivesse destruído o poderio de Atenas, anularia por toda parte o domínio do povo, e cada um deles passaria a gozar em seu país de autoridade soberana. Deu-lhes, através de medidas práticas, garantias seguras de suas promessas; colocou à frente da administração aqueles que se  tinham  tornado  seus  amigos  e seus hóspedes; conferiu-lhes honradas e dignidades, . tornandorse mesmo, para satisfazer-lhes as ambições cúmplice de" suas injustiças e de suas faltas. Deste modo, esses homens, inteiramente devotados à sua pessoa, não pensavam em outra coisa senão em agradar-lhe na esperança de que tudo, mesmo as maiores coisas, poderiam dele obter quando tivesse o governo em suas mãos.

(1)    Quersoneso da Trácia, no estreito dos Dardanelos.

IX. Assim afeiçoados a Lisandro, eles não viram com bons olhos Calicrátidas, à sua chegada, quando este veio substituí-lo no comando- da esquadra; e quando verificaram, através da experiência, que era um dos homens mais justos, mais direitos e melhores do mundo, ficaram ainda mais descontentes com a sua maneira de governar, simples, correta e dórica (1), destituída de qualquer artifício. Admiravam, sem dúvida, sua virtude, mas com esta admiração que inspira a beleza de uma estátua antiga de algum herói. Quanto a Lisandro, admiravam a afeição que êle demonstrava por seus amigos e estimavam as vantagens que tiravam de seus favores. Assim quando o viram embarcar, foram tomados de grande pesar, e não puderam conter as lágrimas. E Lisandro, de seu lado, tratou de aumentar a sua má vontade contra Calicrátidas; pois, entre outras coisas, enviou para Sardes  (2)  o resto do dinheiro que Ciro lhe havia dado para pagar os marinheiros. E disse a Calicrátidas que fosse êle próprio pedir o dinheiro ao rei, e, enquanto isso não fosse feito, que encontrasse um meio de pagar seus homens. Finalmente, no momento em que ia fazer-se ao mar, declarou publicamente que entregava ao seu sucessor uma esquadra que era senhora do mar. Calicrátidas, para rebater o seu vão orgulho, que não passava de uma pretensão, disse: "Se assim é, por que não tomas à esquerda, passando por Samos, para chegar a Mileto e ali me entregares tua esquadra? Pois que somos senhores do mar, não devemos recear o inimigo que está em Samos". Lisandro respondeu-lhe dizendo que o comando não mais lhe pertencia e sim ao seu sucessor; e, sem esperar pela resposta de Calicrátidas, seguiu para o Peloponeso, deixando esse almirante na maior perplexidade. Com efeito, êle não havia trazido dinheiro da Lacedemônia, e não podia forçar as cidades a pagar contribuições, pois sabia que já se achavam muito oneradas.

(1)      Provavelmente, alus ão de Plutarco às antigas leis dóricas.

(2)      Sardes,   capital da Lídia, hoje  Sart.

X. Não lhe restava outro recurso, assim, senão ir, como tinha feito Lisandro, procurar os lugar tenentes do rei da Pérsia, a fim de pedir-lhes dinheiro. Mas ninguém menos indicado do que êle para tal missão, pois possuía um espírito elevado e um grande amor à liberdade. Na sua opinião, era menos vergonhoso e menos condenável para os gregos serem derrotados e dominados por outros gregos do que irem cortejar e lisonjear bárbaros, os quais nada tinham de bom e de honesto, mas somente o mérito de possuírem muito ouro e prata. Cedendo, enfim, à necessidade, seguiu para a Lídia, dirigindo-se, logo após a sua chegada, ao palácio de Ciro. A um guarda, que viu junto à porta, pediu fosse dizer ao príncipe que Calicrátidas, almirante dos lacedemônios, desejava falar-lhe. E o guarda respondeu-lhe: "Estrangeiro, Ciro não tem tempo agora para receber-vos,, pois se acha à mesa!" Calicrátidas disse-lhe, então, simplesmente: "Está bem, esperarei aqui até que tenha terminado". Diante destas palavras, os bárbaros, tomando-o por um rústico, zombaram dele. Calicrátidas então retirou-se. Procurou Ciro uma segunda vez, e, como ainda não conseguisse falar-lhe, irritou-se e regressou, do mesmo modo como tinha vindo, à cidade de Éfeso, maldizendo e abominando aqueles que, antes dele, se tinham aviltado a ponto de se deixarem insultar por bárbaros, levando-os, assim, a se orgulharem de suas riquezas. Perante os que o acompanhavam, fêz o juramento de que, ao chegar a Esparta, o seu primeiro cuidado seria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para pôr termo às divergências existentes entre os gregos, a fim de que, tornando-se temíveis para os bárbaros, não tivessem mais de ir mendigar o seu auxílo, para se destruírem uns aos outros. Mas Calicrátidas, que, pela nobreza dos sentimentos, pela coragem e retidão, tão dignas de Esparta,  poderia  ser  comparado  com  justiça  aos maiores homens da Grécia, foi logo depois vencido e morto num combate naval, perto das ilhas Arginusas (1).

(1)    Perto de Lesbos.

XI. Os aliados dos lacedemônios, enfraquecidos por esta derreta, enviaram uma embaixada a Esparta, com a missão de pedir ao Conselho que recolocasse Lisandro no comando da esquadra, prometendo combater com maior ardor sob sua direção do que sob a de qualquer outro almirante. Ciro também enviou embaixadores, fazendo idêntico pedido. A lei não permitia, no entanto, que o mesmo homem servisse duas vezes como almirante. Mas os lacedemônios, desejando satisfazer o desejo de seus aliados, conferiram a dignidade de almirante a um certo Araco, e fizeram seguir com êle Lisandro, o qual, com o simples título de tenente da Marinha, gozava de toda a autoridade. Aqueles que cuidavam do governo das cidades, pelas quais eram responsáveis, desejavam a sua vinda fazia muito tempo, e por isso viram-no chegar com alegria, na’ esperança de que aumentaria o seu poder, destruindo os governos populares. Mas aqueles que preferiam comandantes de costumes simples e atitudes generosas não viam em Lisandro, comparado com Calicrátidas, senão um homem astuto e ardiloso, que, na maior parte das ações de guerra, recorria ao ludibrio e à surpresa, somente fazendo caso da justiça quando esta favorecia os seus interesses; mas em todos os outros casos êle apenas considerava como belo e honesto aquilo que se lhe afigurava útil. Não acreditava que a verdade fosse em si mesma preferível à mentira, ou que fosse mais poderosa, medindo o valor de uma e de outra de acordo com as vantagens que delas tirava. Quando lhe diziam que os descendentes de Hércules não deviam empregar na guerra burlas ou ardis, êle replicava com um tom zombeteiro: "Todas as vezes que a pele do leão não se mostra adequada é preciso coser nela a da raposa".

XII Este aspecto do caráter de Lisandro foi evidenciado pela sua conduta em Mileto. Seus hóspedes e amigos, a quem havia prometido apoio para destruir a autoridade do povo e expulsar da cidade os seus adversários, mudaram de opinião, e, como se reconciliassem com o partido contrário, Lisandro fingiu, em público, estar muito contente, mas, em particular, cobria seus amigos de injúrias, chamava-os de covardes e concitava-os a se erguerem contra o povo. Quando viu que a sedição estava para irromper, acudiu subitamente como se desejasse apaziguar os ânimos; e, logo após entrar na cidade, dirigiu as maiores invectivas aos primeiros que encontrou daqueles que desejavam introduzir inovações no governo, tratando-os com a maior rudeza e ordenando-lhes que o acompanhassem, como se quisesse   puni-los   severamente;   e   aos   do   partido oposto, disse, ao contrário, que nada receassem, assegurando-lhes que nada de mal lhes aconteceria enquanto estivesse entre eles. O objetivo desta simulação’ era reter na cidade os membros mais prestigiosos do partido popular, a fim de fazer com que todos morressem depois. Foi, com efeito, o que lhes aconteceu: todos aqueles que ficaram na cidade, confiantes em sua palavra, foram degolados.

XIII.          Andróclidas narrou, por escrito, frases que Lisandro costumava proferir e as quais demonstram a facilidade com que perjurava. "É preciso, dizia êle, enganar as crianças com o jogo dos ganizes, e os homens com juramentos". Queria desse modo imitar Polícrates,, o tirano de Samos, mas não tinha razão, pois era um legítimo general e o outro um usurpador violento e despótico. Além disso, não era próprio de um verdadeiro lacônio comportar-se com os deuses do mesmo modo como com os inimigos, ou ainda pior e de maneira mais injuriosa; pois aquele que engana outrem por meio de perjúrio declara que receia seu inimigo e despreza Deus.

XIV.            Tendo resolvido enviar a Lisandro a Sardes, Ciro deu-lhe bastante dinheiro e prometeu-lhe ainda mais; e para demonstrar-lhe com liberalidade ainda maior o desejo que tinha de o. remunerar, disse-lhe que, se um dia o seu pai nada lhe quisesse fornecer, tiraria de seus próprios rendimentos aquilo que lhe fosse necessário; e acrescentou que se tudo lhe viesse faltar, mandaria fundir o trono no qual distribuía a justiça, e que era de ouro e de prata maciços. Finalmente, quando chegou o momento de partir para a Média, a fim de encontrar-se com seu pai, êle lhe delegou poderes para recolher os impostos e tributos das cidades e confiou-lhe o governo de suas províncias; e, abraçando-o rogou-lhe que não atacasse por mar os atenienses antes de seu regresso, assegurando’-lhe que voltaria com um grande número de navios da Fenícia e da Cilícia. XV, Lisandro, depois da partida do príncipe, vendo que não podia combater seus inimigos com a esquadra que possuía, e nem permanecer ocioso com navios tão numerosos, fêz-se ao mar, ocupando algumas ilhas e pilhando duas delas, Egina e Saía-mina; desembarcou em seguida na Ática, onde foi cumprimentar o rei Ágis, dos lacedemônios. Este deixara o forte de Decélia a fim de que suas tropas pudessem ver as forças navais, as quais o tornavam senhor do mar numa medida maior do que teria ousado desejar. Lisandro, todavia, tendo sido informado de que a esquadra dos atenienses estava em sua perseguição, tomou outra direção, a fim de fugir para a Ásia através das ilhas. Encontrou toda a região do Helesponto completamente sem defesa, e cercou Lãmpsaco (1) por mar, enquanto que Tórax, ali chegado ao mesmo tempo que êle, assaltou a cidade pelo lado da terra, com suas forças. Lãmpsaco foi assim ocupada pela força e abandonada à pilhagem.

(1)    Cidade da Ásia Menor, quase junto à costa, à entrada da Propôntida.    Era famosa pelos seus vinhos.

XVI. Entrementes, a esquadra dos atenienses, constituída de cento e oitenta navios, ancorara diante de Eleonte (!1), no Quersoneso; mas, diante das notícias de que Lâmpsaco tinha sido ocupada, ela se dirigiu imediatamente para Sestos (2), e, após ali reabastecer-se, subiu até Egos-Pótamos, indo postar-se diante das naus inimigas, as quais ainda se achavam ancoradas junto à cidade de Lâmpsaco. A esquadra dos atenienses tinha vários comandantes, entre cs quais Fílocles, aquele que persuadira o povo de Atenas a mandar cortar o polegar direito a todos os prisioneiros de guerra, a fim de que não pudessem mais utilizar-se da lança, mas apenas puxar o remo. As duas esquadras repousaram naquele dia, na esperança de combater no dia seguinte. Mas Lisan-dro, que havia concebido outro plane, ordenou aos pilotos e marinheiros que se mantivessem em suas galeras como se tivessem de lutar desde as primeiras horas do dia; disse-lhes ainda que evitassem fazer qualquer ruído e que aguardassem suas ordens no mais profundo silêncio. Mandou igualmente dizer às forças de terra que se conservassem em ordem de batalha, junto à costa.

(1)      Foi depois denominada Novo Castelo da Europa, estando situada no estreito dos Dardanelos.

(2)      Cidade do Quersoneso, nas costas do Helesponto.

XVII.       Ao nascer do sol, no dia seguinte, os atenienses fizeram avançar as suas galeras numa só linha, em ordem de batalha, provocando o inimigo. Os navios dos espartanos tinham as proas voltadas para o inimigo, e estavam, desde a véspera, com todos os tripulantes a bordo; mas Lisandro não fêz qualquer movimento; ao contrário, enviou pequenos barcos em direção das galeras que se encontravam mais à frente, com a ordem a elas dirigidas de se manterem em posição de batalha, mas sem fazer qualquer ruído e nem avançar ao encontro do inimigo. À tarde, os atenienses retiram-se; mas, mesmo assim, êle somente permitiu que seus soldados desembarcassem depois que duas ou três galeras, por êle enviadas para observar a esquadra de Atenas, trouxeram-lhe a notícia de que os marinheiros inimigos haviam descido à terra. Nos três dias que se seguiram, êle fêz a mesma coisa. Esta conduta, inspirou aos atenienses uma grande confiança em si mesmos, e, ao mesmo tempo, um grande desprezo pelo inimigo, pois estavam certos de que era o medo a causa de sua inação.

XVIII,       Entrementes, Alcibíades, que então se encontrava no Quersoneso, nas praças fortes por êle ocupadas, dirigiu-se a cavalo ao acampamento dos atenienses, a fim de censurar os capitães do exército pelos grandes erros que haviam cometido; em primeiro lugar, porque tinham ancorado e mantido os navios diante de uma costa desprotegida, onde não havia abrigo para a esquadra no caso de alguma tormenta; a em segundo lugar, porque não deviam ter abandonado Sestos, de onde recebiam as suas provisões. Aconselhou-os a voltarem sem perda de tempo para esse porto, tendo-se em vista que a distância não era grande. Deste modo, ficariam mais longe do inimigo que, comandado agora por um único chefe, observava uma estrita disciplina, executando, a um simples sinal, todas as ordens que lhe eram dadas. Mas os capitães atenienses recusaram-se a concordar com estas observações, e um deles, Tideu, chegou mesmo a responder a Alcibíades de maneira insultuosa, dizendo-lhe que não era ele o comandante, e que havia outras pessoas encarregadas deste encargo, Alcibíades, suspeitando de alguma traição, retirou-se sem replicar.

XIX. No quinto dia, os atenienses, uma vez mais, apresentaram-se diante do inimigo; e, à tarde, depois de se terem retirado como de costume, com uma aparência de pouco caso e de desordem, Lisandro enviou na direção do adversário alguns galeotes, para observá-los. Seus comandantes seguiram com ordem de regressar rapidamente, logo que vissem os atenienses desembarcarem. Ao atingirem a metade do estreito, deviam parar para içar, na proa, na ponta de uma lança, um escudo de cobre, sinal ante o qual toda a esquadra avançaria. Êle próprio, em sua galera, pôs-se a percorrer toda a linha de navios, animando os pilotos e os capitães; e exortou-os a manterem seus barcos, bem como os soldados e marinheiros, prontos para atenderem ao primeiro sinal, a fim de avançar sobre o inimigo, com toda a sua força.

XX. Mal o escudo de cobre se elevara no ar, e da nau-capitânea ergueu-se o som de uma trombeta, dando o sinal de partida, imediatamente a esquadra começou a movimentar-se em boa ordem; e as forças de terra apressaram-se igualmente em alcançar o promontório que dominava o mar, para assistir ao desenrolar do combate. O estreito que separava as duas costas, naquele lugar, não tem mais de quinze estádios de largura, distância que foi transposta em pouco tempo, graças aos esforços dos remadores. O primeiro dos generais atenienses a avistar, de terra, a esquadra avançando a toda vela, foi Conão; e, incontinenti, ordenou aos soldados que se dirigissem para os barcos. Acabrunhado ante a ameaça que pesava sobre os navios, êle pôs-se a chamar uns, e advertir outros, forçando todos os que encontravam a subir para as embarcações. Mas seus esforços e seu zelo foram vãos: os soldados em sua maioria estavam dispersos, pois, como nada esperavam de novo, logo após o desembarque, tinham se dirigido para pontos diversos, a fim de comprar víveres ou passear no campo. Entre os que haviam ficado, uns dormiam em suas tendas, outros preparavam a refeição.    E todos, devido à inexperiência de seus chefes, estavam bem longe de imaginar aquilo que os ameaçava.

XXI O inimigo já se aproximava, avançando com grande ímpeto, no meio de altos gritos e grande ruído de remos, quando Conão, fugindo com oito galeras, retirou-se para a ilha de Chipre, junto de Evágoras. Entretanto, os peloponésios, investindo contra as outras galeras, apoderaram-se das que se achavam vazias, e abalroaram as que começavam a se encher de soldados. Os combatentes que acorriam para defender os navios, em grupos, e sem armas, foram mortos, e os que se puseram em fuga foram massacrados pelos adversários que, descendo do promontório, lançaram-se em sua perseguição. Lisandro fêz três mil prisioneiros, entre os quais os capitães atenienses. Apoderou-se ainda de toda a esquadra inimiga, com exceção do navio- sagrado denominado Páralo e das oito galeras que se puseram a salvo, por ordem de Conão, no começo da refrega. Lisandro, depois de amarrar as galeras apresadas nas popas das suas e de pilhar o acampamento dos atenienses, voltou para Lâmpsaco, no meio de cantos de triunfo e ao som de flautas. Êle acabava de participar, sem grande esforço, de um grande feito de guerra, tendo resumido, por assim dizer, no espaço de uma hora, todo o período de duração de uma guerra (1), cheia dos mais diversos e estranhos acontecimentos, e que teve, sucessivamente, as formas mais variadas e apresentou as mais incríveis vicissitudes, com um número infinito de batalhas em terra e mar, e que custou a vida de maior número de generais do que todas as outras guerras de que a Grécia havia sido até então teatro, guerra essa que finalmente chegou ao seu termo graças à astúcia e à habilidade de um só homem.

(1)   Esta   guerra   do   Peloponeso   durou   27   anos.       Terminou no  quarto   ano  da  octogésima-terceira  olimpíada,  405   anos  A.  C.

XXII. Este fetto foi mesmo considerado como obra dos deuses; e assegurou-se que, quando a esquadra lacedemônia saiu do porto de Lâmpsaco para investir contra o inimigo, as duas chamadas estrelas de Castor e Pólux (1) foram vistas brilhar sobre a galera de Lisandro, uma de cada lado. Outros pretendem que a queda de uma pedra prognosticou aquela derrota; pois, segundo muitos afirmam, caiu do céu, naquela época, sobre a costa de Egos-Pótamos uma grande pedra, que ainda hoje ali se vê, e da qual os moradores do Quersoneso fizeram um objeto de veneração. Diz-se ainda que o filósofo Anaxágoras tinha predito (2) que um dos corpos prêsbs à abóbada celeste seria um dia arrancado  por  forte  tremor  e  abalo,   e  que  cairia sôbrè a terra. Os astros, segundo este filósofo, não ocupam hoje os espaços nos quais haviam sido colo~ cados a princípio; como são de uma substância pesada, e da natureza da pedra, não brilham senão através da reflexão e da refração do éter; são retidos nas regiões superiores do universo pela revolução rápida do mesmo, que para ali os impeliu desde a formação do mundo, quando a violência do turbilhão que provocou a separação dos corpos frios e pesados das outras substâncias existentes, impediu-os de se destacarem dessas regiões elevadas, onde os retém ainda. Mas uma hipótese mais aceitável é a de que as chamadas estrelas cadentes não são, — e essa é a opinião- de alguns filósofos, — nem fusões, nem separações do fogo etéreo; elas se extinguem nos ares no mesmo momento em que se inflamam; não são, menos ainda, um abrasamento ou combustão do ar, que, condensado numa massa muito grande, escapasse para as regiões superiores, inflamando-se: são verdadeiros corpos celestes que, destacados do céu pelos abalos a que são submetidos, pelo enfraquecimento da revolução rápida do universo, ou por qualquer outro movimento extraordinário, caem sobre a terra, não em lugares habitados, mas com maior freqüência no grande mar Oceano, motivo por que não são vistos.

(1)    Trata-se de fenômenos de eletricidade, observados em todos os séculos, mas que somente muito tempo depois se tornaram melhor conhecidos.

(2)    Plínio,  II,  58,  zomba  com  razão,   desta  pretensa  predição feita,  ao  que se afirmou,  por Anaxágoras, no segundo  ano  da  78 olimpíada.

XXIII. Todavia, a opinião de Anaxágoras é confirmada por Damaco, que, no seu "Tratado de Religião", conta que, antes da queda da pedra, viu-se, sem interrupção, no céu, durante setenta e cinco dias, um globo de fogo, semelhante a uma nuvem inflamada, que não se mantinha parado no mesmo lugar; mas que, flutuando de um lado para outro através de movimentos contrários e irregulares, era impelido com tanta violência, que dele se desprendiam partes inflamadas, as quais, caindo em vários lugares, lançavam clarões semelhantes aos das estrelas cadentes. Quando este grande corpo de fogo caiu nas costas do Helesponto, e depois que os moradores da região, recuperando-se de seu es panto, acorreram para examiná-lo, não encontraram nele nenhum indício, nenhum traço de fogo; não viram senão uma pedra imóvel, que, embora muito grande, parecia apenas uma pequena porção do globo de fogo visto antes. Ora, todos vêem aqui que Damaco necessita de leitores indulgentes; mas se seu relato fôr verdadeiro, constitui uma refutação vitoriosa da opinião daqueles que pretendem ser a referida pedra uma massa de rochedo, a qual, arrancada pela violência de um vento de tempestade do cimo de uma montanha-, elevada pelos ares enquanto perdurara a força do turbilhão, caíra logo que tal força diminuíra. Poder-se-aa também dizer que este globo luminoso, que apareceu no céu durante vários dias, estava verdadeiramente inflamado, e, em seguida, extinguindo-se e dissipando-se na atmosfera, nela provocou uma mudança extraordinária, causando ventos impetuosos e abalos violentos, que destacaram essa pedra e a lançaram sobre a terra. Mas trata-se de um assunto próprio para ser discutido, mais amplamente, em outra espécie de tratado.

XXIV, Entrementes, tendo sido condenados pelo conselho de guerra (1) os três mil atenienses aprisionados, Lisandro mandou chamar F?locles, um dos generais, e perguntou-lhe de que pena êle se considerava merecedor por haver aconselhado aos seus concidadãos, em Atenas, a adoção de um decreto cruel contra os prisioneiros (2). Fílocles, que não se deixava abater nem mesmo diante das maiores calamidades, respondeu-lhe: "Não acuseis aqueles que não contam com juizes; e, pois que os deuses vos fizeram vencedor, fazei de nós aquilo que teríamos feito de vós, se vos tivéssemos vencido". Logo após pronunciar estas palavras foi banhar-se e vestiu em seguida rico manto, como se tivesse de ir a alguma festa, e dirigiu-se ao local da matança, mostrando o caminho aos seus concidadãos, segundo a narrativa de Teofrasto.

(1)     Plutarco não conta o motivo deste julgamento. Xeno-fonte (Hist. L. II.) no-lo narra. Os atenienses foram acusados de haver lançado ao mar todos os cativos de duas galeras e terem resolvido em plena assembléia cortar as mãos de todos os inimigos que aprisionassem. Eles foram todos condenados a morte, com exceção de Adimante, que se opusera a esse decreto. Vide as sábias reflexões de Montesquieu sobre a força das penas. (Esprit des Lois, IV, 12).

(2)     Ou seja, cortar as mãos de todas os prisioneiros, segundo conta Xenofonte.

XXV, Após a execução, Lisandro percorreu com sua esquadra as cidades marítimas, e obrigou todos os atenienses que nelas encontrou a se retirarem para Atenas, dizendo-lhes que não perdoaria a nenhum daqueles a quem surpreendesse fora da cidade, os quais seriam degolados. O seu objetivo, ao encerrá-los todos em Atenas, era esfomear a população mais depressa; assim, não contando com provisões para suportar um longo sítio, os atenienses se renderiam. Em todas as cidades por onde passava, destruía a democracia ou qualquer outra forma de governo do povo, e nelas deixava um capitão’ ou governador lacedemônio, com um conselho de dez oficiais, escolhidos entre aqueles que anteriormente haviam mantido ligação ou amizade com êle. Submetia a este tratamento tanto as cidades que sempre haviam sido aliadas dos lacedemônios quanto as que eram suas inimigas. E navegando ao longo das costas, lentamente, sem nunca se apressar, foi estabelecendo como que um principado, um domínio sobre toda a Grécia; pois não era nem a nobreza nem a fortuna que o orientavam na escolha dos magistrados; êle reservava todos os cargos e honra-rias aos que pertenciam àquelas associações por êle estabelecidas, dando-lhes inteira liberdade para punir ou recompensar. Assistia com freqüência ao suplício dos proscritos, expulsava os inimigos daqueles que lhe eram devotados, e proporcionava aos gregos um antegosto pouco agradável do que seria um governo lacedemônio.

XXVI. Êste o motivo por que o poeta cômico Teopompo (1) parece gracejar quando, comparando os lacedemônios aos taverneiros, diz que, após terem feito os gregos saborear o doce licor da liberdade nele misturaram vinagre. Ao contrário, desde o começo, a sensação que proporcionaram aos gregos com o seu modo de governar foi a de amar-gor e azedume; pois Lisandro não deixou em nenhuma cidade o povo no governo, confiando sempre a autoridade nas mãos de um pequeno número, escolhidos entre os mais violentos e audaciosos, e sediciosos, que houvessem em cada cidade. Depois de terminar, em pouco tempo, estas modificações, enviou mensageiros à Lacedemônia para anunciar que para ali se dirigiria com duzentos navios. Nas costas da Ática, onde desembarcou, encontrou-se com os reis de Esparta, Ágis e Pausânias, na esperança de se tornar logo senhor de Atenas. Mas a resistência dos atenienses obrigou-o a dirigir-se, uma vez mais, para a Ásia, onde acabou de modificar a forma de governo de todas as cidades, estabelecendo conselhos de dez arcontes e condenando a morte ou ao exílio grande número de cidadãos. Expulsou os sâmios (1) de sua pátria, entregando Samos àqueles que haviam sido banidos. Apoderou-se de Sestos, que ainda se achava em poder dos atenienses, e, depois de obrigar todos os moradores a sair, deu a cidade e seu território aos pilotos e galeotes (3), que haviam estado na guerra sob seu comando. Este foi o primeiro dos atos de Lisandro que os lacedemônios desaprovaram: eles restituíram aos sestíacos sua cidade e suas terras.

(1)           N ão é do poeta, mas do historiador, discípulo de Isócrates, que estas palavras são tiradas. Vide Muret (Var. Lect VII, 17). (Brotier). Muret se baseia naquilo que Teodoro Meto chita cita de passagem como sendo de Teopompo, o historiador; mas o testemunho deste escritor não tem peso, bastante para que deva corrigir Plutarco. (C).

(2)    Plutarco inverte aqui a ordem dos fatos, pois este epis ódio de Samos só se verificou, segundo Xenofonte, após a demolição das muralhas de Atenas, de que se tratará em breve.

(3)    No grego: aos pilotes e aos celeustas. Estes últimos fiscalizavam a preparação e a distribuição dos alimentos nos navios. Suidas atribui-lhes autoridade sobre os soldados e os remadores, que eram por eles animados, seja durante as viagens, seja durante os combates.

XXVII.      Estes atos de Lisandro desagrada ram muito aos gregos, mas houve outros que lhes causaram grande prazer, entre os quais a restituição aos eginenses de suas casas e de suas terras, das quais haviam sido expulsos fazia muito tempo. A mesma coisa fêz em relação aos habitantes de Sicião e Meios, os quais recuperaram suas propriedades após  a  expulsão  dos atenienses  daquelas   cidades.

XXVIII.        Entrementes, Lisandro, informado de que os atenienses estavam lutando com uma seria escassez de víveres, rumou para o porto de Pireu, e forçou Atenas a render-se, impondo-lhe suas condições. A dar crédito aos lacedemônios, ele escreveu aos éforos de Esparta apenas estas palavras: "Atenas foi ocupada". E os éforos lhe responderam: "Basta que ela seja ocupada". Mas trata-se de uma invenção para tornar a narrativa mais bela. Na realidade, o ato de capitulação enviado pelos éforos estava redigido nestes termos: "Eis o que ordenam os magistrados da Lacedemônia: demolireis as íortificações de Pireu e as longas muralhas que unem o porto a cidade; evacuareis todas as cidades que conquistastes, e permanecereis dentro dos limites do vosso território. Mediante estas condições,- tereis a paz; pagareis igualmente aquilo que fôr julgado conveniente; e chamareis os banidos. Quanto ao número de navios, devereis conformar-vos com o que fôr resolvido". Os atenienses, seguindo o conselho de Terâmenes, filho de Agnão, aceitaram os artigos deste fatal decreto; e como um jovem orador ateniense, chamado Cleômenes, lhe perguntasse publicamente se ele ousaria dizer e fazer o contrário do que havia feito Temístocles, entregando aos lacedemônios as muralhas que o mesmo Temístocles havia construído, não obstante a oposição do adversário, êle respondeu incontinenti: "Jovem, nada faço que seja contrário ao que foi feito por Temístocles. Pois foi tendo em vista a salvação dos atenienses que êle construiu  cutrora  estas  muralhas;   assim,  é  igualmente tendo em vista a salvação dos cidadãos que agora vamos demoli-las. Se forem as muralhas que tornam as cidades felizes, Esparta, que não as possui, deve ser a mais infeliz de todas as cidades",

XXIX. Lisandro recebeu todos os navios dos atenienses, com exceção de doze, e tomou posse da cidade no dia dezesseis de março (1), dia no qual os atenienses tinham alcançado sobre os bárbaros a vitória de Salamina, contra o rei da Pérsia. Logo após a sua entrada na cidade êle propôs que se mudasse a forma de governo; como os atenienses a isso se opusessem vivamente, Lisandro mandou dizer-lhes que não tinham obedecido aos artigos do tratado assinado, pois que haviam decorrido os dez dias do prazo dado, e as muralhas da cidade ainda estavam de pé; diante disso resolvera reunir o conselho a íim de ditar-lhes outras condições, pois que as do primeiro tratado tinham sido violadas. Afirma-se que foi proposta no conselho dos aliados a escravização de todos os atenienses, e que um tebano, chamado Erianto, aconselhou que se arrasasse a cidade e que se transformasse todo o país em pastagens para os rebanhos. Esta reunião foi seguida de um festim, com a presença de todos os generais tendo um musicista fócio cantado estes versos do primeiro coro da tragédia Electra, do poeta Eurí-pides, que assim começa  (1):

Filha de Agamenon, princesa infeliz,
 Ao vosso palácio, outrora celebrado,
Chego,   para   em   ruínas   encontrá-lo,

Estas palavras comoveram os convivas, e todos exclamaram que seria horrível destruir uma cidade tão famosa, e que havia produzido tão grandes homens e tão nobres espíritos.

(1)   No grego: munychion.

XXX. Tendo os atenienses se submetido inteiramente, Lisandro mandou reunir na cidade um grande número de tocadoras de flauta, as quais se juntaram às que já se encontravam em seu acampamento, e, ao som da música, mandou arrasar as muralhas e incendiar os navios, na presença dos aliados e confederados da Lacedemônia, os quais, coroados de flores e considerando esse dia como a aurora da verdadeira liberdade, entregaram-se às maiores demonstrações de alegria. Logo depois êle modificou a forma de governo de Atenas, estabelecendo um conselho de trinta arcontes na cidade e de dez no Pireu, conselhos estes que gozavam de toda a autoridade; colocou uma guarnição na cidadela, sob o comando de .um nobre espartano chamado Calíbio (2).   Este comandante ergueu um dia o seu bastão sobre Autólico, homem robusto e disposto à luta, sobre o qual Xenofonte compôs o seu Convívio (1), Este ergueu então Calíbio pelas duas coxas, rapidamente, e, atirou-o no chão, de costas. Lisandro não somente não o puniu como censurou Calíbio, dizendo-lhe que êle devia lembrar-se de que tinham de comandar homens livres e não escravos. Todavia, alguns dias depois, os Trinta, para agradar a Calíbio, mandaram matar Autólico.

(1)        Electra, vide 167.

(2)     Pausànias  chama-o  de Eteônico,  e conta esta história  de maneira um pouco diferente. (C).

XXXI Depois de haver assim agido em Atenas, Lisandro partiu para a Trácia (2); e o que lhe restou do ouro e da prata de que se apoderara na cidade, dos presentes que recebera, das coroas que lhe haviam mandado, as quais deviam ser numerosas pois que eram enviadas ao homem mais poderoso e, de certo modo, ao senhor da Grécia, êle remeteu para Esparta, por intermédio de Gilipo, que havia comandado os siracusanos na Sicilia, Gilipo, ao que se conta, descosturou todos os sacos, pela parte debaixo, tirou de cada um uma boa soma, e em seguida os recoseu; êle não sabia que havia em cada saco uma lista com a relação de todas as peças de ouro e de prata que continha. Após chegar a Esparta, ocultou sob o teto de sua casa o dinheiro , que tinha roubado, e entregou os sacos aos éforos, mostrando-lhes   que   os selos   colocados   na   parte superior dos mesmos por Lisandro estavam intactos. Os éforos, após abrir os sacos e contar o dinheiro, verificaram que as somas não coincidiam com as listas. Não sabiam o que pensar, até que um escravo de Gilipo lhes revelou, com palavras dissimuladas, o roubo; disse-lhes, com efeito, que havia sob o telhado da casa de seu senhor um grande número de corujas, e isto porque a maior parte das moedas de ouro e prata cunhadas na Grécia tinha nelas, gravada, uma coruja, ave venerada pelos atenienses.

(1)     No grego; o-Banquete.

(2)     Xenofonte escreve que êle seguiu, não para a Trácia, mas para Samos.

XXXII. Gilipo foi banido da Lacedemônia, após ter deslustrado, com uma ação tão vil e indigna, todos os seus belos e grandes feitos de armas anteriores. Entretanto, os mais sensatos cidadãos de Esparta, impressionados com esse exemplo, e temendo o poder do dinheiro, tão forte que corrompera um de seus cidadãos mais conceituados, censuraram abertamente Lisandro, e declararam aos éforos que deviam fazer sair de Lacedemônia todo o dinheiro que para ali tinha sido enviado, como se tratasse de uma peste, perigo que se tornava maior pelo fato de revestir-se de formas sedutoras. A questão foi submetida à deliberação do conselho; e, segundo o historiador Teopompo, foi um cidadão chamado Cirafidas quem propôs o decreto. Segundo Éforo, a iniciativa foi de Flogidas, que foi o primeiro a opinar no conselho, dizendo que não se devia receber na cidade de Esparta nenhuma moeda de ouro ou de prata, e que apenas a do país devia "ser usada. Tratava-se de uma moeda de ferro, que se fazia primeiramente avermelhar no fogo, e que era em seguida temperada no vinagre, a fim de que, tornando-se áspera e quebradiça, não pudesse ser forjada nem utilizada para outros fins. Era, aliás, tão pesada que não podia ser transportada facilmente;’ e, por isso, quando o seu volume era muito grande, o valor diminuía. E, antigamente, ao que me parece, as moedas de uso corrente eram somente dessa espécie, ou seja, pequenos bastões de ferro e em alguns lugares de cobre; daí o fato de existirem até hoje pequenas peças que têm o nome de óbolo, seis das quais fazem uma dracma, assim chamada porque era tudo o que a mão podia conter. Os amigos de Lisandro opuseram-se ao decreto, e tanto insistiram que, de acordo com uma decisão do conselho, o dinheiro ficou em Esparta, com a condição de ser apenas utilizado nos negócios públicos. Todos os particulares que fossem encontrados com tal dinheiro em seu poder seriam punidos com a morte, como se Licurgo, quando elaborou suas leis, tivesse receado o ouro e a prata e não a avareza que deles resulta. Para prevenir esta paixão não adiantava muito proibir aos particulares a posse destas moedas de ouro e prata, pois que, autorizan-do-se a cidade a usá-las, contribuía-se para torná-las mais cobiçadas. Seria possível, com efeito, que os particulares as desprezassem como inúteis, quando eram publicamente estimadas?     E cada  espartano poderia, em seus próprios negócios, deixar de atribuir valer àquilo que aos seus olhos era tão procurado para os negócios públicos? Assim, devemos admitir que são os bons ou maus costumes na conduta dos negócios públicos que influenciam os costumes dos particulares; e que os erros e os vícios destes não contribuem tanto, assim, para a depravação das cidades e a má conduta da coisa pública. ,É natural que um todo viciado leve facilmente suas partes à corrupção; enquanto que, ao contrário, as afecções de uma única parte podem receber auxílio e remédio das outras partes sãs e inteiras. Os éforos, e verdade, para evitar que o dinheiro amoedado’ fosse ter às mãos dos cidadãos, colocaram como sentinelas, junto às residências deles, o temor e a lei; mas não puderam fechar o espírito dos espartanos aos desejos e paixões provocadas pelo dinheiro; ao contrário, fizeram nascer em todos eles o desejo de enriquecer, coisa que consideravam digna e respeitável. Aliás, já censuramos, em outro lugar, os lacedemônios pela sua conduta (1).

(1)   Vide a Vida de Licurgo, capítulo LXII.

XXXIII Lisandro, com o produto da presa de guerra, mandou fazer a sua estátua em bronze, bem como as de todos os comandantes das galeras; estas estátuas foram colocadas no templo de Delfos, juntamente com duas estrelas de ouro, que representavam Castor e Pólux, e que desapareceram pouco tempo antes da batalha de Leuctres, não se sabendo qual o seu destino. No tesouro de Brásidas e dos acântios havia também uma galera feita de ouro e de marfim, com dois côvados de comprimento, que Ciro havia enviado a Lisandro depois de sua vitória sobre os atenienses. Anaxandridas (1), historiador natural da cidade de Delfos, conta que Lisandro tinha depositado, no templo, um talento de prata, cinqüenta e duas minas e onze peças de ouro, deno-minadas estáteres. Mas essa afirmação não está de acordo com o que dizem os outros historiadores sobre a sua pobreza.

XXXIV. Lisandro tinha então maior autoridade e poderio do que qualquer outro grego antes dele; deixou-se, contudo, dominar por uma vaidade e orgulho que ultrapassavam os seus méritos. Como escreve o historiador Duris (2), foi o primeiro dos gregos a quem as cidades ergueram altares e ofereceram sacrifícios como a um deus; foi ainda o primeiro a ter a honra de ser objeto de hinos em seu Iquvor, um dos quais, de que há ainda hoje memória, começava assim:

Da Grécia, país dos  deuses  amado,
 Celebremos, o incomparável herói,

Que à  vitória os gregos conduziu,
Cantemos, exaltemos seus feitos!

Os sâmios ordenaram, através de um decreto público, que as festas de Juno passassem a ser deno-minadas festas de Lisandro, ou Lisândria. Êle pró-prio se fazia acompanhar do poeta Quérilo, a fim de que êle, com o encanto de sua poesia, tornasse mais bela a narrativa de suas ações. Tendo outro poeta, Antílcco, composto alguns versos em seu louvor, êle ficou tão enlevado, que lhe deu o seu chapéu cheio de dinheiro. Dois outros, Antímaco, de Colofão, e Nicerato, de Heracléia, fizeram, cada um, um poema, em sua honra, disputando diante dele o prêmio. Lisandro conferiu a coroa da vitória a Nicerato, e Antímaco ficou tão despeitado que destruiu seu poema. Platão, então muito jovem, admirava o talento poético de Antímaco; e vendo como o afetara o malogro, disse-lhe, para consolá-lo, que a ignorância é para o espírito aquilo que a cegueira é para os olhos. Finalmente, o excelente tocador de lira Aristonous, que saíra vencedor seis vezes nos jogos pítios, querendo obter as boas graças de Lisandro, prometeu-lhe que, caso saísse vencedor uma vez mais, far-se-ia proclamar seu escravo.

(1)     Também chamado Alexandridas.

(2)     Historiador da ilha de Samos, da qual foi tirano, segundo Ateneu.    Viveu na época de Ptolomeu Piladelfo.

XXXV. A ambição de Lisandro a princípio era temível e odiosa apenas para os principais cidadãos e as personagens de sua categoria; mas quando a essa paixão êle acrescentou a arrogância e a crueldade, fruto das lisonjas daqueles que o cercavam, a maneira como passou a recompensar os amigos ou a punir os inimigos não teve mais medida ou limites. O governo despótico nas cidades, um poder absoluto de vida e de morte, foram para seus amigos e hóspedes o prêmio da ligação que haviam contraído com êle. E não conheceu mais senão uma maneira de saciar sua sede de vingança, a morte daqueles a que visava, e não havia nenhum meio de a ela escapar. Em Mileto, receando que os chefes do partido popular fugissem, e querendo obrigar aqueles que se tinham escondido a sair de seus esconderijos, jurou que não lhes faria qualquer mal; mas apenas apareceram, confiando em sua palavra, êle os entregou aos ncbres, seus adversários, os quais os mandaram matar, não obstante não serem menos de oitocentos. Nas outras cidades, a mesma coisa aconteceu, e não se poderia contar o número de pessoas do povo que mandou assassinar; pois não contente de sacrificá-los ao seu ressentimento pessoal, satisfazia também o ódio, as aversões e a cobiça dos amigos que tinha em cada localidade. Etéocles, o lacedemônio, teve assim razão em dizer que a Grécia não teria podido suportar dois Lisandros. Segundo Teo-frasto, a mesma coisa já tinha sido dita a respeito de Alcibíades por Arquestrato. Mas o que chocava mais em Alcibíades era uma grande insolência, muito luxo e vaidade, que desagradavam aos homens; mas em Lisandro a excessiva dureza de seu caráter e a severidade de seus costumes tornavam o seu poderio cruel e insuportável.

XXXVI. Os lacedemônios, todavia, não deram grande importância às queixas que se faziam contra êle; mas quando Farnabazo enviou embaixadores a Esparta para acusar Lisandro pelas injustiças e injúrias de que era vítima, pois que as províncias de seu governo eram pilhadas e devastadas, os éforos, indignados, prenderam Tórax, um de seus amigos e companheiro no comando; e, verificando que êle tinha ouro e prata em sua residência particular, não obstante o decreto proibindo tal coisa, condenaram-no a morte, e enviaram a Lisandro aquilo que chamavam a citai, o que eqüivalia a dizer-lhe que devia voltar logo após tê-la recebido. Devo dizer o que é uma citai: quando um general parte para uma expedição, terrestre ou marítima, os éforos tomam dois bastões redondos, de um comprimento e tamanho tão perfeitamente iguais que, quando justapostos, não deixam entre eles nenhum vão. Ficam com um destes bastões e dão o outro ao general. Estes bastões são por eles chamados citais. Quando têm algum segredo importante a comunicar ao general, tomam uma folha de perga-minho, longa e estreita como uma correia, e a enrolam em torno da citai que conservaram em seu poder, sem nela deixar o menor intervalo, de modo que a superfície do bastão fica inteiramente coberta. Escrevem então o que desejam nesta folha assim enrolada, e, isto feito, desenrolam-na e a enviam sem o bastão, ao general. Este, ao recebê-la, nada consegue ler, porque as palavras, todas elas separadas e esparsas, não formam qualquer sentido. Toma então a citai em seu poder, e enrola em torno dela a folha de pergaminho, cujas voltas, coincidindo, recolocam as palavras na ordem que haviam sido escritas, apresentando assim todo o texto. Este pequeno rolo de pergaminho chama-se também citai, do mesmo modo como o bastão de madeira, como aquilo que é medido toma é nome da coisa que lhe serve de medida.

XXXVII. Lisandro, que se achava então no Helesponto, ficou surpreso’ e perturbado ao receber a mensagem; receava sobretudo as acusações de Far-nabazo, e, na esperança de apaziguá-lo, apressou-se em ir ao seu encontro. Quando com ele se avistou, pediu-lhe que. escrevesse aos éforos outra carta, dizendo o contrário do que fora dito na primeira, isto é, que não havia sido vítima de nenhuma injustiça e que nenhuma queixa tinha a fazer. Mas não sabia que, êle próprio cretense, tinha que se haver com outro cretense, como diz o provérbio. Farnabazo tudo prometeu, escrevendo na presença de Lisandro a carta, tal como este desejava; mas, secretamente, preparara outra, que dizia o inverso; e como as duas cartas eram perfeitamente semelhantes, êle substituiu a que escrevera por último pela que preparara antes, e, após fechá-la, confiou-lha.    Lisandro, ao chegar a Esparta, dirigiu-se, de acordo com o cos tume, ao edifício onde tinha sua sede o Senado, e entregou a carta de Farnabazo, certo de que esta o livrava das principais e mais perigosas acusações que se lhe poderiam fazer. Farnabazo era muito estimado pelos senhores lacedemônios, porque de todos os generais do rei da Pérsia, fora êle que, durante a guerra os socorrera com maior solicitude.

XXXVHL Os éforos, depois de lerem a carta, mostraram-lha, e êle verificou então a verdade do provérbio que diz:

Ulisses, entre os gregos, não era o único astuto.

Êle retirou-se confuso e perturbado. Todavia, alguns dias depois, voltou à sede do conselho à procura dos éforos, e disse-lhes que não podia deixar de ir ao templo de Júpiter Amon, a fim de ali fazer os sacrifícios que tinha prometido ao deus antes das batalhas de que saíra vitorioso. Com efeito, afirma-se que, quando assediou a cidade de Afites, na Trácia, o deus Amon apareceu-lhe em sonho; e êle, interpretando esta aparição como uma ordem de Júpiter, levantou o cerco da cidade, e disse aos afítios que fizessem sacrifícios àquele deus. Por sua vez, êle desejaria dirigir-se à Líbia, a fim de cumprir as promessas que havia feito. Mas acredita-se, geralmente, que o deus não era senão um pretexto, e que o verdadeiro motivo dessa viagem era o temor que tinha dos éforos, a necessidade que sentia em ausentar-se. Além disso, não podia suportar o jugo a que era submetido quando se encontrava em Esparta e nem tolerava ficar sob as ordens de outrem; e daí o seu desejo de viajar, de errar de um lado para outro. Podia ser comparado a um corcel que, acostumado a pular em liberdade em amplas pastagens, não mais conseguia habituar-se à sua estrebaria, nem aos seus antigos trabalhos. Éforo, entretanto, apresenta para esta viagem uma outra causa, que narrarei daqui a pouco.

XXXIX. Conseguindo, finalmente, uma licença, e não sem pena, êle fêz-se ao mar. No entanto, durante a sua ausência, os reis da Lacede-mônia, após se darem conta de que Lisandro se tornara como um senhor absoluto de toda a Grécia, pois que todas as cidades a êle prestavam obediência através da autoridade dos amigos que tinha em cada uma delas, decidiram entregar o governo dessas cidades ao povo, afastando os que nelas desfrutavam de um poder soberano. As repercussões que esta decisão provocou proporcionaram aos banidos de Atenas uma oportunidade para atacar os Trinta tiranos, após se apoderarem do castelo de Fila, e derrotá-los. Lisandro, cientificado do que acontecia, voltou apressadamente a Esparta, onde persuadiu os ; lacedemônios a sustentarem o governo dos nobres e punirem a rebelião do povo. Decidiram, então, enviar, primeiramente, cem talentos aos Trinta tiranos, para continuarem a guerra, e nomearam Lisan-dro para o posto de comandante. Mas os reis, que o invejavam, receando que ocupasse Atenas pela segunda vez, resolveram que um deles se encarregaria dessa missão. Pausânias partiu, então, aparentemente para sustentar os tiranos contra o povo, mas, na realidade, para terminar a guerra e impedir que Lisandro, apoiado pelos seus seguidores, se tornasse mais uma vez senhor de Atenas. Pausânias não encontrou dificuldades em. sua missão. Após reconciliar os atenienses, pôs termo à sedição e às divergências, e reprimiu a ambição de Lisandro. Mas pouco tempo depois, os atenienses se subleva-ram de novo contra os lacedemônios; e Pausânias foi acusado de haver deixado as rédeas soltas, como se dizia, à licenciosidade e à audácia do povo, que antes era contido pela autoridade do governo da minoria. De Lisandro, ao contrário, diziam que, no exercício da autoridade, não satisfazia apetites nem recorria a ostentação, e que tinha em vista apenas os interesses da pátria.

XL, É verdade que êle revelava orgulho em suas palavras e mostrava-se terrível diante dos que lhe opunham resistência. Certa ocasião, como os argivos estivessem disputando com os espartanos por motivo de suas fronteiras, êle lhes disse, apontando a espada: "Aquele que é mais forte com esta, raciocina melhor do que qualquer outra pessoa sobre, questão de limites".    De outra feita, um habitante de Mégara, durante uma reunião do conselho, pôs-se a falar-lhe com muita liberdade e audácia. "Meu amigo, disse-lhe êle, tuas palavras necessitariam de uma cidade", Com estas palavras quis dizer que êle era filho de uma cidade muito fraca. E aos beócics, que hesitavam em declarar-se amigos ou inimigos da Lacedemônia, mandou perguntar como queriam que êle passasse pelo seu país: se com as lanças erguidas ou abaixadas. Quando os coríntios abandonaram a sua aliança com Esparta, fêz suas tropas chegarem até às muralhas deles; e como os soldados hesitassem em dar início ao assalto, discutindo os prós e contras, êle lhes disse, no momento em que viu uma lebre sair dos fossos da cidade: "Não vos envergonhais de temer inimigos medrosos e preguiçosos a ponto de as lebres dormirem junto às suas muralhas?"

XLI. Entrementes, o rei Ágis morreu, deixando Agesilau, seu irmão, e Leotíquides, que era considerado seu filho. Lisandro, que estimava muito Agesilau, desde a sua juventude, aconselhou-o a reivindicar o trono, como único representante legítimo da raça dos heráclidas. Com efeito, suspeitavam-se de que Leotíquides era filho de Alcibíades, o qual, quando de sua estada em Esparta, após ter sido banido de Atenas, mantivera relações com Timéia, mulher de Ágis. O próprio rei, tendo em vista o tempo que estivera ausente, concluíra que não fora o causador da gravidez de sua esposa, e não demonstrara muito interesse por Leotíquides, è não ocultara, até o fim da vida, que não o reconhecia como filho. No entanto, ao contrair a enfermidade de que morreu, êle se fêz transportar para Heréía; e como estivesse à morte, instado de um lado pelo jovem, e, do cutro, pelas súplicas dos amigos, declarou, na presença de várias testemunhas, que reconhecia Leotíquides como filho, morrendo após ter pedido aos presentes que comunicassem a sua declaração aos lacedemônios. Assim, depuseram todos em favor de Leotíquides, Mas Agesiíau, que tinha a seu favor altas qualidades, e, o que era ainda mais importante, o apoio de Lisandro, já levava vantagem sobre êle, quando Diópites, homem tido como muito versado no conhecimento das antigas profecias, veio prejudicar grandemente a sua pretensão, ao anunciar um oráculo por êle aplicado ao irmão do rei, que era manco:

Toma cautela, nação espartana,
 Para que, agora, que estás no apogeu,
Uma realeza manca não venha
As tuas vitórias comprometer.

Tu, que és valente e audaciosa,
Deves evitar a má fortuna,
E os males de uma guerra demorada,
Que a vida de todos extermina.

XLII A maior parte dos espartanos, diante desse oráculo, inclinou-se para o lado de Leotíqui-des. Mas Lisandro demonstrou-lhes que Diópites não apreendera o verdadeiro sentido do oráculo, afirmando que o deus não se opunha a que um coxo ocupasse o trono da Lacedemônia; e que dera somente a entender que a realeza ficaria como manca, se bastardos, se pessoas indignas da raça de Hércules viessem a reinar sobre os heráclidas. Esta interpretação, apoiada pela autoridade, e pelo crédito de que gozava Lisandro, fêz com que todos mudassem de opinião, e Agesilau foi declarado rei da Lacedemônia. Lisandro procurou logo convencê-lo de que deveria levar a guerra à Ásia, fazendo-o conceber a esperança de que destruiria o império dos persas e de que ofuscaria a glória de todos os guerreiros que haviam existido antes dele. Ao mesmo tempo, escreveu aos seus amigos da Ásia, dizendo-lhes que pedissem, em Esparta, a nomeação de Agesilau para comandar a guerra contra os bárbaros. E eles o fizeram, sem perda de tempo, enviando embaixadores a Esparta. A honra que Lisandro proporcionava desse modo a Agesilau igualava quase a decorrente da realeza. Mas os homens por natureza ambiciosos, embora perfeitamente aptos para o comando, encontram no ciúme que lhes inspira, contra seus semelhantes, o amor da glória, um grande obstáculo às belas ações que poderiam praticar; eles não vêem senão  rivais naqueles  que  os auxiliariam   a   percorrer   com  honra   a  carreira   da virtude.

XLIII Agesilau, tendo sido escolhido para dirigir tal. empresa, levou Lisandro consigo; e dos trinta espartanos que formavam seu conselho, era êle a quem pretendia consultar com mais freqüência em todas as questões, pois o considerava como o primeiro de seus amigos. Quando chegaram à Ásia, os moradores do país, que não tinham ainda familiaridade com Agesilau, viam-no raramente e falavam pouco com êle. Mas conhecendo Lisandro havia muito tempo, todos o procuravam e o acompanhavam, por toda parte, uns como amigos, outros por o temerem e não confiarem nele. Não é raro ver-se, nos teatros, quando se representam tragédias, que o ator que faz o papel de mensageiro ou de escravo é aplaudido e considerado como a principal personagem, enquanto aquele que ostenta o diadema e segura o cetro é apenas ouvido. O mesmo acontecia em relação a Agesilau e Lisandro: a este, que não era senão um simples conselheiro, era atribuída toda a dignidade do comando, não se deixando ao rei senão um título sem nenhum poder. Era preciso, sem dúvida, reprimir esta ambição excessiva e deixar a Lisandro o segundo papel, com o qual devia contentar-se; mas rejeitar e mesmo maltratar, por ciúme e sede de glória, um benfeitor e amigo, é o que Agesilau jamais deveria ter feito. Em primeiro lugar, êle não lhe proporcionou nenhuma ocasião para assinalar-se e nem o encarregou de nenhum comando; em segundo lugar, todos aqueles por quem Lisandro demonstrava interesse eram por ele mandados para suas casas sem nada obter do que desejavam, depois de serem tratados como se fossem pessoas da mais ínfima condição. Assim agindo, foi destruindo pouco a pouco toda a autoridade de seu rival.

XLIV. Quando Lisandro viu que seus pedidos eram sempre recusados e ‘que seu interesse pelos amigos se tornava para eles prejudicial, cessou completamente de interceder em seu favor junto a Agesilau. e pediu-lhes que não mais o procurassem, que não mais permanecessem ligados à sua pessoa, dizendo-lhes que se dirigissem diretamente ao rei e que procurassem a proteção daqueles que pudessem ser-lhes mais úteis. Aceitando seu conselho, deixaram todos de procurá-lo para tratar de negócios, mas não de homenageá-lo; assim é que insistiam em acompanhá-lo em seus passeios e aos lugares onde se faziam exercícios. Esta conduta fez com que Agesilau se irritasse ainda mais, tal a inveja que tinha pela sua glória; e sua animosidade chegou a tal ponto que, depois de confiar a simples soldados comandos de grande importância e o governo de cidades, êle nomeou Lisandro para o cargo de comissário dos víveres e distribuidor de carnes. E um dia, para zombar dos jônios, disse: "Que eles prestem homenagem ao meu distribuidor de víveres". Lisandro, finalmente, julgou que devia falar com êle, e sua conversa foi breve, à moda dos lacônios. "Agesilau, disse-lhe, sabes muito bem rebaixar’ teus amigos". "Sim, respondeu-lhe o rei, quando eles desejam tornar-se maiores do que eu; mas, ao contrário, àqueles que se esforçam para aumentar o meu poderio, eu sei, como é de justiça, dar-lhes a sua parte". Talvez, replicou Lisandro, disseram-te mais do que na realidade fiz. Entretanto, não fosse por motivo dos estrangeiros que têm seus olhos voltados para nós, peço-te que me dês, no teu exército, um posto onde eu possa ser-te menos odioso e mais útil".

XLV, Depois desta conversação, Agesilau enviou Lisandro para o Helesponto, a fim de ali exercer o comando; êle ali conservou o seu ressentimento, mas executou com exatidão todos os seus deveres. Espitridates, lugar-tenente do rei da Pérsia, naquela província, era um oficial cheio de coragem, que tinha sob suas ordens um corpo de tropas considerável. Lisandro, informado de que êle era inimigo de Farnabazo, levou-o a rebelar-se contra seu rei, e levou-o com seu exército a Agesilau. Foi tudo o que Lisandro fêz nesta guerra; pouco tempo depois regressou a Esparta, sem grandes honradas, sempre irritado e indignado contra Agesilau, odiando mais do que nunca o governo, e resolvido, enfim, a executar sem demora o plano que havia concebido fazia já muito tempo e que visava a uma reforma do Estado. A maior parte dos heráclidas, que depois de se mesclarem com os dórios entraram no Peloponeso, estabeleceu-se em Esparta, onde seus descendentes prosperaram. Mas eles não gozavam de todos os direitos de sucessão à coroa, pois apenas duas casas ali reinavam: a dos Euritiônides e a dos Ágides. As outras casas, ainda que saídas do mesmo tronco, não tinham, no governo, nenhuma vantagem sobre os simples particulares; pois as honras que se adquirem pela virtude eram igualmente oferecidas a todos aqueles que se mostrassem dignos de as alcançar.

XLVI. Lisandro, que também era da raça dos heráclidas, logo que adquiriu pelos seus feitos uma reputação! brilhante, bem como um número considerável de amigos e um inegável poderio, não pôde ver sem amargor o fato de uma cidade, cuja glória tanto contribuíra para aumentar, fosse governada por reis que não valiam mais do que êíe. Pensou, então, em tirar a coroa das duas casas reinantes para torná-la acessível a todos cs descendentes da raça de Hércules. Outros dizem, no entanto, que êle não queria estender o direito à corca somente aos heráclidas, mas a todos os espartanos, a fim de que ela pudesse passar, não apenas aos descendentes de Hércules, mas a qualquer pessoa que a este se assemelhasse pela virtude, a qual o elevara, tão somente pelo seu mérito, à categoria dos deuses. Esperava que, quando a coroa ficasse subordinada à virtude, entre tcdos os espartanos seria êle o escolhido. Quis, primeiramente, fazer com que os espartanos aceitassem seu projeto, e com esse fim decorou um discurso escrito por Cleão de Halicarnasso.

XLV11. Mas, depois, considerando que uma reforma tão ousada exigia meios extraordinários, êle imitou os poetas trágicos, os quais, a fim de comover os cidadãos, recorrem a máquinas para fazer descer algum deus dos céus. Inventou, para convencer seus concidadãos, oráculos e profecias, persuadido de que é eloqüência de Cleão de nada lhe serviria, se, em primeiro lugar, não impressionasse os espíritos por meio de superstições e do temor aos deuses; em seguida, poderia convencer toda gente cem o discurso que deveria pronunciar.

XLVI1L Éforo conta que Lisandro tentou primeiramente corromper com dinheiro a sacerdotisa que anunciava os oráculos no templo de Apoio na cidade de Delfos, e depois a do templo de Dodona, a quem mandou sondar por intermédio de um certo Féreclo. Rejeitadas suas propostas por uma e outra, dirigiu-se pessoalmente ao templo de Júpiter Amon, e ofereceu grande quantidade de dinheiro aos sacerdotes, os quais, indiqnados ante sua audácia, enviaram embaixadores a Esparta, para acusá-lo de tentativa de corrupção. Lisandro foi absolvido pelo Conselho, e seus acusadores, que eram líbios, ao partir, disseram aos espartanos: "Julgaremos com mais justiça do que vós, quando vierdes, um dia, estabelecer-vos na Líbia". É que havia um antigo oráculo segundo o qual, os lace-demônios iriam habitar aquele país.

XLIX, Mas é preferível fazer agora uma exposição completa sobre toda esta intriga e narrar a habilidade com que Lisandro se houve numa ficção, na qual, longe de empregar os meios comuns e os recursos vulgares, procedeu como numa demonstração geométrica, em que se começa estabelecendo várias proposições importantes para chegar, através de raciocínios difíceis e muitas vezes obscuros, ao último termo da conclusão, Eis a trama tal como a descreve Éforo, tão hábil historiador quanto filósofo. Havia no Ponto uma mulher que pretendia estar grávida de Apoio. Muita gente se recusou, e com razão, a dar crédito a tal afirmativa; mas outras pessoas, e em grande número, acreditaram no que ela dizia. Quando deu à luz a criança, personalidades das mais importantes disputaram a honra de criá-la e educá-la, Esta criança, não sei por que razão, recebeu o nome de Sileno. Lisandro, aproveitou-se desse acontecimento para montar o primeiro ato de sua peça, e urdiu êle próprio todo o resto da intriga. Contou para o prólogo desta farsa com o concurso de várias personagens, as quais se referiam ao nascimento da criança com um ar tão natural que ninguém podia suspeitar da intenção com que espalhavam a notícia, Essas pessoas espalharam igualmente certas informações procedentes, segundo se dizia, de Delfos, de acordo com as quais os sacerdotes do templo conservavam com cuidado livros secretos, nos quais havia oráculos muito antigos.   A ninguém, e nem a eles próprios, era permitido ler ou tocar nesses livros; no entanto, um filho de Apoio, o qual deveria aparecer após uma longa seqüência de séculos, daria a esses sacerdotes, depositários dos livros sagrados, sinais certos de seu nascimento. Reconhecido como filho de Apoio, poderia levar os livros e ler as antigas revelações e profecias neles contidas.

L, As coisas assim preparadas, Sileno deveria ir a Delfos, onde, como filho de Apoio, pediria os livros aos sacerdotes, os quais, instruídos por Lisandro, simulariam ter tudo examinado cuidadosamente, e ter se informado de maneira escrupulosa acerca do nascimento de Sileno. Finalmente, certos de que se tratava realmente do filho de Apoio, êíes lhe mostrariam os livros, leriam publicamente as predições que continham, sobretudo aquela que era o objetivo desta farsa, e relativa à realeza na Lacedemônia: era muito mais vantajoso para os espartanos escolherem eles próprios os seus reis, dentre os cidadãos mais virtuosos. Sileno, adolescente, já havia chegado à Grécia para desempenhar o seu papel, quando Lisandro assistiu ao malogro de sua peça devido à timidez de um dos atores, que, cedendo ao seu grande medo, abandonou-o no momento da execução. Toda esta intriga permaneceu em segredo durante toda a vida de Lisandro, e somente foi revelada após sua morte, Êle morreu antes do regresso de Agesilau da Ásia, e quando se empenhava na guerra da Beócia, ou melhor, depois de nela haver lançado a Grécia.  Com efeito, as coisas são contadas de duas maneiras: uns acusam Lisandro, outros os tebancs. Há ainda quem acuse as duas partes. Aqueles que responsabilizam os tebancs censuram-lhes o fato de haverem derrubado, em Áulida, os altares nos quais Agesilau oferecia sacrifícios públicos: acrescentam que Andró-clides e Anfiteu, corrompidos pelo dinheiro do rei da Pérsia, tomaram as armas contra os fóctos e devastaram o seu país, com o fito de envolver os lacedemô-nios em guerras no interior da Grécia.

LI. Os que responsabilizam Lisandro dizem que êle estava muito irritado contra os tebanos, os quais, os únicos entre todos os aliados, haviam pedido a décima parte da presa de guerra tomada aos atenienses: além disso, estavam descontentes pelo fato de Lisandro ter mandado dinheiro a Esparta. Mas Lisandro se irritara contra eles principalmente porque foram os primeiros a fornecer aos atenienses os meios para recuperarem a sua liberdade e quebrarem o jugo dos Trinta Tiranos, que Lisandro havia colocada como governadores em Atenas, e que os próprios lacedemônios tinham tornado ainda mais poderosos e temíveis ao decretarem que os banidos que haviam fugido de Atenas poderiam ser presos onde fossem encontrados, e levados para a sua cidade; e todos os que a isso criassem obstáculos seriam considerados inimigos de Esparta. Os tebanos responderam a esse decreto com outro, mais de acordo com a conduta de Hércules e de Baco, seus antepassados. Dizia o decreto que todas as cidades e todas as casas da Beócia seriam abertas aos atenienses que a elas se dirigissem a fim de solicitar asilo; que todo tebano que não auxiliasse um banido de Atenas contra aquele que pretendesse detê-lo pela força, pagaria um talento de multa. Dizia ainda o decreto que, se qualquer pessoa passasse pela Beócia para levar armas a Atenas, destinadas à luta contra os tiranos, todos os tebanos deveriam fingir nada ver ou ouvir. Não contentes em elaborar decretos cheios de tanta humanidade e tão dignos da Grécia, ele os reforçavam através de sua ação; pois foi de Tebas que partiram Trasíbulo e os outros banidos, para irem apoderar-se de Fila; e foram os tebanos que lhes forneceram armas e dinheiro, bem como todos os meios para darem início à sua ação sem que fossem descobertos.

LII. Estes os motivos que levaram Lisandro a voltar-se contra os tebanos, Como era de caráter muito violento, e, além disso, como a sua melancolia aumentasse cada dia em conseqüência da velhice, tornando-o mais irritadiço, êle tudo fêz para que os é foros partilhassem de seu ressentimento, e persuadiu-os a mandarem uma guarnição à Fócida; êle próprio foi encarregado dessa expedição, e partiu à frente das tropas. Poucos dias depois, foi também para ali enviado, de Esparta, o rei Pausãnias, com o resto do exército. Mas este príncipe era obrigado a dar uma grande volta pelo Monte Citerão, para entrar na Beócia, enquanto que Lisandro, com o seu numeroso corpo de tropas, deveria ir ao seu encontro através da Fócida. Em "sua marcha, ocupou Orçomene, que se rendeu voluntariamente; apoderou-se igualmente de Lebadia, cidade que pilhou. Dali escreveu ao rei Pausânias, dizendo-lhe que, ao partir de Platéia, tomasse o caminho que conduzia a Haliarto, assegurando-lhe que êle próprio estaria no dia seguinte, ao alvorecer, junto às muralhas da cidade.

LIII O correio portador desta carta foi aprisionado por batedores inimigos, que o levaram a Tebas. Os tebanos, cientificados do que se passava, confiaram aos atenienses que tinham ido socorrê-los a guarda da cidade; e, iniciando a sua marcha à meia-noite, caminharam rapidamente chegando de manhã a Haliarto, um pouco antes de Lisandro, Uma parte de suas tropas entrou na cidade, Lisandro decidira inicialmente acampar numa elevação existente nas proximidades, e ali esperar a chegada de Pausânias; mas vendo que êle não chegava e que as horas passavam, não conseguiu mais permanecer inativo. E, depois de ordenar aos espartanos que tomassem suas armas e de animar os aliados, pôs-se em marcha, com suas tropas em ordem de batalha, ao longo do caminho que ia ter à cidade. Entrementes, os tebanos que tinham ficado fora da cidade, deixando-a à esquerda, caíram sobre a retaguarda do exército de Lisandro, perto da fonte denominada Cissusa (1), na qual, segundo as fábulas dos poetas, as nutrizes de Baco o levaram logo após o seu nascimento. A água desta fonte, embora muito clara e agradável de se beber, tem uma côr de vinho. Não longe desse lugar, crescem as canas de Creta, com as quais se fazem dardos. Os moradores de Haliartc julgam por isso ter Radamanto habitado outrorà essa região: chegam mesmo a mostrar a sua sepultura, a que deram o nome de Halea. Vê-se também, perto, o túmulo de Alcmena, que, depois da morte de Anfitrião, casou-se com Radamanto, sendo ali inumada.

LIV. Os tebanos que se achavam na cidade juntamente com os haliárcios permaneceram imóveis, prontos para a batalha, até o momento em que viram Lisandro, com suas primeiras tropas; aproximar-se das muralhas. Abriram então, subitamente, as portas, e atiraram-se sobre êle, matando-o juntamente com o seu adivinho e alguns outros inimigos, não muitos, pois o grosso das forças se retirou logo no início da batalha. Entretanto, os tebanos não lhes deram trégua, perseguindc-as com tanto ardor e de tão perto que as obrigaram a fugir através das montanhas, após terem matado três mil adversários. Do lado dos tebanos houve trezentos mortos, pois perseguiram os fugitivos com ardor demasiado em lugares escarpados e difíceis. Eram, em sua quase totalidade, aqueles que em Tebas eram suspeitos de serem ocultamente favoráveis ao partido dos lacedemônios, e que, para afastar tal suspeito e recuperar a confiança de seus concidadãos, não se pouparam na perseguição ao inimigo perdendo assim a vida.

(1) Dacier conjectura, valendo-se do testemunho de Pausânias, que se deve ler aqui Tilfuso (B). O nome de Cissusa esta perfeitamente de acordo com o que Plutarco narra a respeito dessa fonte. Assim, não acho que se deva fazer qualquer alteração.    (C).

LV. Pausânias achava-se no caminho que vai de Platéia a Téspias quando soube da derrota. Cem suas forças em ordem de batalha, êle se pôs a caminho de fialiarto, aonde chegou ao mesmo tempo que Trasíbulo, que para ali se dirigira com seus atenienses, após deixar Tebas. E como Pausânias manifestasse o desejo de pedir uma trégua ao inimigo a fira de retirar os mortos e inumá-los, os mais idosos dos espartanos que se encontravam no seu exército ficaram indignados ante tal sugestão, e foram, murmurando, procurar o rei para dizer-lhe que seria uma desonra para Esparta pretender retirar o corpo de Lisandro mediante uma autorização do inimigo; acrescentaram que era preciso combater, com as armas nas mãos, em torno de seus despojos, para enterrá-los após a vitória; e, caso fossem vencidos, ser-lhes-ia mais honroso permanecer estendidos no campo de batalha, perto do seu general, do que obter uma trégua para retirar seu corpo. Entretanto-, apesar de todas as alegações dos anciãos, Pausânias, vendo que era tarefa muito difícil derrotar os tebanos em batalha, após uma vitória tão recente, e considerando que, tendo Lisandro tombado perto de Haliarto, não poderia ser seu corpo retirado sem grandes dificuldades, mesmo que o inimigo fosse derrotado, resolveu enviar um mensageiro aos tebanos, os quais lhe concederam uma trégua de alguns dias. Retirou-se, então, com suas forças, levando o corpo de Lisandro, que foi inumado pelos espartanos, depois de haverem transposto as montanhas da Beócia, na região dos panopeus, amigos e aliados de Esparta. Ali se vê ainda hoje a sua sepultura, junto ao caminho que vai a cidade de Delfos à de Queronéia. Conta-se que, no acampamento de Pausânias, um fócio, descrevendo a batalha para um compatriota que nela não participara, disse que o inimigo atacara logo depois de Lisandro ter atravessado o Oplite. Como este homem parecesse surpreendido, um espartano, amigo de Lisandro, perguntou-lhe o que era esse Oplite a que se referiam, ccisa de que nunca ouvira falar. "É, respondeu o fócio, o lugar onde o inimigo derrotou os nossos batalhões mais avançados; o Oplite é o riacho que banha as muralhas de Haliarto". Ao ouvir estas palavras, o espartano pôs-se a chorar sentidamente, e disse: "Oh! não é possível aos homens fugirem ao seu destino!" E isto porque Lisandro tivera outrora um oráculo concebido nestes termos:

Aconselho-te, Lisandro, evitar
 Do rio Oplite as águas traiçoeiras,
 E também o dragão, da terra filho,
 Que, pelas costas, pretende ataear-te.

LVI Entretanto, há quem afirme que este riacho de Oplite não é o que passa ao longo das muralhas de Haliarto, mas a torrente que corre perto de Coronéia, e vai desaguar no rio Fliaro, perto da -cidade. Segundo se diz, chamava-se antigamente Hoplia," mas agora é denominado ísomanto. Lisan-dro foi morto por um soldado de Haliarto chamado Neocoro, que trazia pintado no seu escudo a figura de um dragão*; era a esse dragão, ao que se conjectura, que se referia o oráculo. Conta-se também que os tebanos, pouco tempo depois da guerra do Peloponeso, receberam, no Templo de Apoio Ismênio, uma resposta do oráculo, que lhes predisse ao mesmo tempo a batalha de Délio e o combate de Haliarto, que se travou trinta anos depois. É o seguinte o teor deste oráculo:

Tu, que aqui vens persegur lobos cruéis,
Evita, com cuidado, as fronteiras extremas,
 E a col na Orcálida, onde a raposa
, Permanece sempre, pra surpreender sua presa.

Com as palavras fronteiras extremas o oráculo se refere ao território existente em volta de Délio, e é nele que a Beócia se limita com a Ática; e a colina Orcálida é a que hoje se chama Alopeca, e se acha situada no lado em que a cidade de Haliarto dá para O monte Helicão. A morte de Lisandro afligiu de tal modo os espartanos que intentaram contra Pausa-laias um processo por crime capital; mas êle não quis aguardar o julgamento e fugiu para a cidade de Tégea, onde se colocou, ccmo suplicante, sob a proteção de Minerva, ali passando o resto de seus dias. A pobreza de Lisandro, reconhecida após sua morte, deu um maior lustre à sua virtude. Depois de haver passado pelas suas mãos somas tão importantes; depois de ter desfrutado de um tão grande poderio- e de tantas cidades lhe terem prestado homenagem c a êle se submetido; depois de haver, enfim, exercido sobre a Grécia: uma espécie de soberania, êle não aumentara um óbolo sequer a fortuna de sua casa. Esse é o testemunho de Teopompo, que merece maior crédito quando elogia do que quando censura, pois encontra maior prazer em maldizer do que em louvar.

LVII Algum tempo depois da morte de Lisandro, segundo conta Éforo, uma disputa entre os espartanos e seus aliados levou-os a consultarem os papéis que êle havia deixado, em sua casa; Agesilau para ali se dirigiu, e encontrou, entre outros documentos, o discurso que Cleão havia escrito para persuadir os espartanos a modificarem a forma de seu governo e mostrar-lhes as vantagens de se tirar dos Euritiônldes e dos Ágides, as duas casas reinante… o direito exclusivo ao trono, e a estendê-lo a todos; assim, os reis deveriam ser escolhidos entre os cida dãos mais virtuosos de Esparta. Agesilau quis mostrar imediatamente este discurso ao povo, para que os    espartanos o ficassem conhecendo melhor; mas Lacrátídas, homem sábio e prudente, que era então presidente dos éforos, conteve-o, dizendo-lhe que, em vez de tirar Lisandro do túmulo, o melhor era enterrar com êle também o seu discurso, o qual, escrito com muita arte e finura, era capaz de convencer. Entretanto, grandes honras lhe foram prestadas após sua morte. Dois cidadãos, de quem suas duas filhas se tinham tornado noivas, e que não haviam querido desposá-las após a morte do pai, quando se tornou conhecida a sua pobreza, foram condenados a pagar uma forte multa; pois que, tendo procurado ligar-se à família de Lisandro enquanto êle vivia, certos de que era rico’, não mais o quiseram quando a sua pobreza, comprovação de suas virtudes, foi revelada. Havia em Esparta penalidades tanto contra aqueles que não queriam casar-se, ou que se casavam muito tarde, como contra os que se casavam mal. E esta última pena recaía principalmente sobre os cidadãos que, em vez de se casarem no interior de suas famílias ou com pessoas virtuosas, procuravam unir-se às casas ricas. Eis o que tínhamos a dizer da vida de Lisandro.

ago 242008
 
Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

SUMÁRIO DA VIDA  DE TEMÍSTOCLES

TemístoclesI. Origem de Temístocles. II. Sua juventude ardente e aplicada. III. Seu estudo da Sabedoria, isto é, da ciência de governo. IV. Antigüidade desta ciência. V. Sua rivalidade com Aristides. VI. Sua sensibilidade à glória. VII. Ele obriga Atenas a empregar o dinheiro de suas minas na construção de navios. VIII. Seu caráter. X. Sua popularidade. XI. Ele faz banir Aristides. XII.. Sua firmeza. XIII. Ele é eleito capitão geral dos atenienses. Fá-los embarcar para ir combater contra Xerxes. XIV. Cede o comando a Euribíades, general da Lacedemónia. XV. Combate de Artemisio. XVI. Xerxes domina as Termopilas. XVIII. Subterfúgio de Temístocles para inspirar coragem aos atenienses. Ele sustenta a coragem de Euribíades. XXII. Temor dos gregos. XXIII. Temístocles os coloca na necessidade de combater. XXVII. Número dos navios de Xerxes. XXVLI. Temístocles se põe a favor do vento. XXIX. Vitória de Salamina. XXXII. Fuga de Xerxes. XXXIII. Honras prestadas a Temístocles. XXXV. Sua paixão e glória. Memoráveis palavras suas. XXXVII. Ele reconstrói as muralhas de Atenas. XXXVLI. Reconstrói o Pireu. XXXIX. Projeto de Temístocles para atribuir a Atenas a hegemonia sobre toda a Grécia, rejeitado por injusto. XL. Sua sábia política para manter o equilíbrio. XLI. O poeta Timocreonte censura-o por concussão. XLII. Ele faz sentir excessivamente os seus serviços. XLIII. É banido pelo ostracismo. XLIV. Traição de Pausânias, que confia o segredo a Temístocles. XLV. O povo quer prendê-lo. Ele foge para Corfú. XLVI. De Corfú ao Épiro. XLV. II. Na Pérsia enfim. L. Sua entrevista com o rei da Pérsia. LIII. Ele recebe honroso tratamento. O rendimento de três cidades lhe é atribuído. LVI. Revolta do Egito, excitada pelos atenienses. A Pérsia se arma contra Atenas. Temístocles suicida-se para não servir contra sua pátria. LVII. O rei da Pérsia o admira. Seus filhos. LVIII. Seu túmulo magnífico em Magnésia. LIX. Sua posteridade, homenageada até o tempo de Plutarco.

Desde a sexagésima-terceira olimpíada até a sexagésima-nona, 463 anos antes de Jesus Cristo.

 

PLUTARCO – VIDAS PARALELAS AS VIDAS DOS HOMENS ILUSTRES

GREGOS E ROMANOS
TEMÍSTOCLES

Tradução da versão francesa de Amyot por Paulo Edmur de Souza Queiroz. Fonte: Ed.das Américas

 A linhagem a que pertencia Temístocles pouco ajudou à sua glória, porque seu pai, chamado Nicocles, se bem que cidadão de Atenas, não era dos mais importantes da cidade, nativo do Burgo de Frear, da estirpe Leontida, e do lado de sua mãe ele era mestiço, como se diz, por ser ela estrangeira, como testemunham estes versos:

Abrotonon, nasci na Tracia,
Mas posso considerar-me tão venturosa
Que gerei para os gregos  
O grande e tão cantado Temístocles.

Fânias, todavia, escreve que sua mãe não era da Trácia mas nativa do país de Caria, e não a chama Abrotonon, mas Euterpe, e Neantes acrescenta que era de Halicarnasso, cidade capital do reino de Cária, razão pela qual, sendo costume que as crianças mestiças, isto é. aquelas não nascidas de pai e mãe cidadãos naturais de Atenas, se reunissem para jogar e exercitar-se em um certo lugar chamado Cinosargos, parque destinado aos exercícios dos jovens, fora das muralhas da cidade e dedicado a Hércules, que, entre os deuses, não era também legítimo, mas bastardo por causa da mãe mortal: Temístocles insistiu tanto com alguns jovens das mais nobres casas da cidade, que os acabou levando ao parque de Cinosargos, onde os fez despir, ungir e exercitar-se com ele. Agindo assim, ele aboliu habilmente a diferença que se fazia antes, entre os mestiços e os cidadãos legítimos de Atenas. Não obstante o que fica dito, é certo que ele se ligava de alguma maneira à casa dos Licomedes uma vez que a capela dessa família, situada no burgo de Fila, tendo sido incendiada e queimada pelos bárbaros, Temístocles a mandou refazer à sua custa, e a enriqueceu e ornou de pinturas, como narra Simônides.

II. É todavia, coisa aceita de todos, que desde o tempo de sua infância percebia-se já perfeitamente que ele era ardente, inquieto, avisado, de bom senso, ambicioso de grandes realizações e nascido para o manejo dos negócios. Nos dias e horas de folga nos estudos e de permissão para divertir-se, jamais brincava nem permanecia ocioso, como faziam as demais crianças, mas era sempre encontrado decorando ou compondo sozinho algum discurso cujo objeto era, na maior parte das vezes, a defesa ou acusação de um dos seus companheiros. Em razão disso dizia-lhe seu mestre freqüentemente: «Não serás jama/is pouca coisa, meu filho, mas é forçoso que sejas algum dia, um grande bem ou um grande mal.» Quando queriam, entretanto, ensinar-lhe qualquer noção, servindo apenas para reforma e civilização de costumes, ou bem uma dessas questões que se estudam por prazer e honesto passatempo, ele as aprendia com frouxidão e frieza; se era, porém, algo de sentido, servindo ao manejo dos negócios públicos, via-se ele tomar nota, querendo saber mais do que lhe permitia a idade, como alguém que se entrega à sua inclinação. Isso foi causa de que se vendo mais tarde objeto de zombaria em companhia de outros que tinham estudado essas artes de entretenimento honesto e elegante, foi levado para defender-se e revidar, a responder-lhes com palavras um pouco altivas e inamistosas, dizendo que ele, em verdade, não sabia afinar uma lira ou uma viola, nem tocar o saltério, mas que lhe pusessem entre as mãos uma cidade pequena, fraca e de pouco nome, e ele saberia bem encontrar os meios de a fazer grande, poderosa e de nobre nomeada.»

III. Escreve, todavia, Estesimbroto, que ele esteve na escola de Anaxágoras, e que estudou com Melisso, o filósofo da natureza, enganando-se nisso, profundamente, por não ter levado em conta a seqüência do tempo, porque Melisso foi capitão dos samienses contra Péricles quando este sitiou a cidade de Samos. Ora, é certo que Péricles era muito mais jovem que Temístocles e Anaxágoras se manteve em sua própria casa, morando com ele, sendo portanto, mais verossímil e mais tempestivo crer naqueles que dizem que Temístocles se propôs imitar Mnesifilo o Freariano, o qual não fazia profissão .de orador nem de filósofo da natureza, como chamavam naquele tempo, mas sim daquilo que apelidava então sabedoria, a qual não era outra coisa do que prudência no manejo dos negócios e bom-senso e discernimento em matéria de estado e de governo, profissão essa que, iniciada com Solon (.1) tinha continuado de mão em mão, até ele, como uma seita de filosofia. Mas aqueles que vieram depois, a misturaram entre as artes de debate oral, e, pouco a pouco, transferiram o exercício dos’ atos, ao das palavras nuas, e em razão disso foram chamados sofistas, como quem.dissesse, contrafação dos sábios. Quanto a este Mnesifiilo todavia, Temístocles se aproximou dele, quando já tinha começado a envolver-se no governo da coisa pública. Assim, foram os primeiros .movimentos e impulsos de sua juventude muito variáveis e diversos, como daquele que se deixa ir onde o impele a impetuosidade de sua natureza, sem discipliná-la é guiá-la pelo julgamento da razão. Advinha disso que ele revelou grandes mutações de comportamento e costumes; em uma e outra direção, orientando-se muitas vezes para a pior, como ele messno confessou depois, dizendo que os potros mais rebeldes e selvagens são os que finalmente" se tornam" os melhores cavalos, quando domados, feitos e adestrados, como convém.

(1)    A Sabedoria ou ciência do  governo começou a esse tempo entre os gregos.    Bem mais antiga foi ela no Oriente. como se vê nos livros de  Davi e  Salomão.

IV.     Quanto ao resto, todas as outras notícias que alguns vão acrescentando a isso, como a de que seu pai o deserdou, e sua mãe se deixou morrer voluntariamente de tristeza e dor ao ver os desmandos do filho, são, a meu aviso, coisas contestáveis, porque, ao contrário, há quem escreva, que seu pai mesmo, querendo dissuadi-lo de imiscuir-se no governo da coisa pública, foi-lhe mostrando ao longo da praia marítima, a carcaça de velhas galeras lançadas aqui e ali, dizendo-lhe que o povo fazia exatamente assim como os políticos (2) quando não podiam  mais servir.

(2). Em grego – os demagogos, isto é, os oradores que dirigiam   o   povo.

V. Como quer que seja, é absolutamente certo que Temístocles se afeiçoou, imediata e conscientemente pela política, e bem cedo foi atingido pelo anseio de glória, de forma que, desejando desde …o começo. levar a melhor,sobre todos os. demais,.audaciosamente, logo ao chegar, tomou a lança, contra os.homens maiores e mais poderosos dentre os que se envolviam em negócios públicos, inclusive contra Aristidcs, filho de Lísímaco, o qual em tudo e por tudo  se manteve sempre seu  adversário.     Parece entretanto, que a inimizade concebida contra este teve origem em uma causa assaz fútil: ambos se sentiram apaixonados do belo Estesilau, natural da cidade de Tios de acordo com o que narra o filósofo Ariston. Após o ciúme inicial, continuaram para sempre a tomar partidos contrários, não somente em seus assuntos privados, mas também no governo da coisa pública. Creio, contudo, que a diversidade dos seus costumes e condições, aumentou grandemente a inimizade e dissensão, mantida entre eles, porque Aristides sendo, por natureza, homem grave, reto e íntegro em sua vida, não tendendo em suas ações para a lisonja popular, nem para servir à sua própria glória, mas a fazer, dizer e aconselhar sempre o que ele considerava como melhor, mais justo e mais seguro para a coisa pública, era constrangido a se opor freqüentemente a Temístocles que ia incitando o povo a empreender sempre coisas novas, pondo todos os dias em movimento uma medida inesperada com o fim de impedir a ampliação da autoridade de Aristides.

VI. Consta que ele era tão arrebatado pela ambição de glória, e tão ardentemente atormentado pelo desejo de realizar grandes coisas, que sendo ainda bem jovem ao tempo em que a batalha de Maratona (3) foi travada contra os bárbaros, na qual não se falava em outra coisa senão no valor do capitão Milcíades, vencedor da mesma, foi ele encontrado muitas vezes sozinho, sonhando e pensando de si para si, sem poder conciliar o sono à noite, nem querer, de dia. ir aos lugares, ou freqüentar as companhias a que antes estava acostumado, dizendo aos que estranhavam uma tão grande mudança em sua maneira de agir e perguntavam-lhe o motivo, «que a vitória de Milcíades não o deixava dormir», e isso porque os outros pensavam que a derrota dos bárbaros, nesse dia de Maratona, devia resultar no término definitivo da guerra. Temístocles, entretanto, pensava, ao contrário, ser apenas um começo de choques maiores, aos quais se ia preparando cada dia, para salvação da Grécia e para esse fim, adestrou desde logo a cidade, prevendo de longe, o que iria acontecer.

Milcíades

 

(3)   Terceiro ano da septuagésima segunda Olimpíada, ano memorável em que começou o grande brilho da Grécia.

VII. Por esse motivo, antes de mais nada, em relação aos Atenienses que tinham antes o costume de distribuir entre si o rendimento anual retirado das minas de prata, localizadas em um local da Ática, chamado Laurium, foi ele o único que ousou demonstrar.ao povo a necessidade de para o futuro, suspender-se essa distribuição para empregar-se o dinheiro na construção de galeras em grande número para a guerra contra os eginetas (4) a qual, por esse tempo, era a que mais pesava sobre toda a Grécia, em virtude de terem estes todo o mar em seu poder, tal era a quantidade de seus navios. Foi assim que Temístocles persuadiu mais facilmente seus concidadãos daquilo que pretendia nesse momento, sem ameaçá-los com o rei Dario nem com. os persas, porque estes estavam muito longe, e não havia receio, ao menos perfeitamente fundamentado, de que eles estivessem para vir, mas usando, oportunamente do ódio e do ciúme"dos atenienses em relação aos eginetas. Do dinheiro em questão foram construídas cem galeras com as quais combateram e derrotaram, por mar, o rei Xerxes. E depois desse começo, atraindo aos poucos seus concidadãos e fazendo-os tender para.a marinha, mostrando-lhes como por terra eram. eles apenas bastante, fortes para enfrentar seus semelhantes, enquanto com o poder que podiam adquirir no mar, sê-lo-iam não só. para defender-se dos bárbaros, mas também para impor a lei ao resto da Grécia, conseguiu assim fazê-los marinheiros e gente do mar, como diz Platão, ao passo que antes eram bons e rudes campeões de terra firme. Isso deu matéria aos seus inimigos para censurá-lo, mais tarde, por. ter ele tirado ao povo de Atenas a lança c o pavês para reduzi-lo ao banco e ao remo, seduzindo-o, em oposição a Milcíades que o contradizia nisso, como diz Estesimbroto. Se agindo assim foi ele causa de corromper-se a nitidez e pureza da coisa pública ou não, deixo a disputa ao filósofos, mas que a preservação da Grécia foi devida, todavia, por essa vez, à marinha, e que as galeras foram causa da recuperação de Atenas, além de outras provas que se possam aduzir, o próprio Xerxes o testemunhou, quando, com seu exército de terra, ainda inteiro, fugiu ao ver o do mar rompido e desfeito, como se confessasse não estar mais bastante forte para combater os gregos, deixando, a meu aviso, na Grécia, Mardônio, seu lugar-tenente, mais para impedir que os gregos o perseguissem, do que por esperança de subjugá-los.

(4)   Em grego: "esta guerra estava por então em toda sua força e os eginetas tinham todo o mar em seu poder".

VIII. Escrevem alguns de Temístocles (5) que era avidamente interessado no ganho, preocupando-se muito com isso, porque despendia regiamente e gostava de oferecer, freqüentemente, sacrifícios e de recolher e tratar com distinção os estrangeiros, razão pela qual se fazia mister fosse diligente e ardoroso em acumular, para poder fazer face às suas despesas. Outros, ao contrário, o censuram por ter sido mesquinho e prático, ao ponto de fazer vender os presentes de comestíveis que lhe faziam. Pediu, de certa vez, um potro como donativo, a alguém de nome Dilfilides, possuidor de uma coudelaría. Recusando-lhe este, secamente, o pedido, foi Temístocles tomado de tão grande despeito, que o ameaçou de transformar-lhe a casa, antes de muito tempo, no cavalo de madeira com o qual Tróia foi tomada, querendo abertamente, dar-lhe a entender que em breve lhe suscitaria processos e choques contra seus próprios parentes e mesmo contra seus criados.

(5)   No grego: que ele procurava todos os meios de ganhar dinheiro porque,  etc

IX. Não há dúvida que ele era o homem mais ambicioso do mundo. Ao tempo de sua juventude, ainda pouco conhecido, solicitou, com grande insistência, a um excelente tocador de citara, então em voga em Atenas, chamado Epicles, natural de Hermione, que viesse à sua casa para exercer e mostrar sua arte, a fim dê que muita gente, com vontade de ouvi-lo, procurasse sua residência e viesse a ele. Tendo do certo ano a festa e assembléia dos jogos olímpicos, quis manter casa aberta a todos os adventícios, com tendas ricamente decoradas e demais brilho de vida e de equipagem, à maneira de Cimon. Isso desagradou os gregos os quais consideravam essa despesa adequada e permissível a Cimon, em virtude de sua juventude e de sua alta linhagem, mas a ele que era homem novo e se fazia grande, mais do que seus bens e faculdades autorizavam, e mais do que lhe cabia, não somente deixou isso de ser-lhe louvado, mas foi considerado vangloria e presunção. Outra vez ele custeou uma tragédia, representada publicamente, ganhando o prêmio. Sendo já a esse tempo, a honra de vencer em tais jogos muito invejada e calorosamente disputada em Atenas, fez pintar sua vitória em um quadro que dedicou e mandou pendurar   num   templo,   com   a   seguinte   inscrição:

«Temístocles Freariano custeou,
 Frínico a compôs,
Adímanto era arconte (6)»

X.      Apesar disto ele agradava ao povo comum, em parte porque saudava cada cidadão pelo nome próprio, sem que ninguém o ajudasse a nomeá-los, e em parte também porque se mostrava juiz reto nos negócios particulares, como respondeu um dia ao, poeta: Simonides, natural de Quio, que lhe requeria qualquer coisa desarrazoada, quando governador da cidade: «Não serias bom poeta se cantasses contra as regras da música, nem eu bom governador se fizesse qualquer coisa contra as leis.» Uma outra vez, zombando do mesmo Simonides, disse-lhe «que ele não era sensato em maldizer os coríntios, visto que  eram senhores de uma tão grande e poderosa cidade,
nem em fazer-se retratar ao natural uma vez que era tão feio.»  

XI.      O certo è que, adquirindo crédito, e tendo conquistado as boas graças da plebe, ele comprometeu de tal forma à Aristides, que, ao fim, fê-lo expulsar e banir da cidade de Atenas por cinco anos (7), E como o rei da Pérsia estivesse a caminho para vir fazer guerra aos gregos, e os atenienses começassem a.deliberar a quem elegeriam por chefe, conta-se que todos aqueles acostumados à política, sé recolheram temendo o perigo, e não houve senão um orador chamado Epicides, filho de Eufemides, homem eloqüente mas covarde no íntimo, e ávido de dinheiro, que se apresentasse para pleitear esse cargo, com indícios de que ia. obtê-lo. Foi por isso que Temístocles, temendo a geral perdição se a conduta da guerra viesse às mãos de uma tal personagem, comprou a dinheiro de contado, a ambição de Epicides, fazendo-o abandonar o intento.

(6).  No texto: "prevost" — em nota: — "arconte".
( 7)   É um erro de Amyot. O Decreto de ostracismo era de dez anos. Veja-se o próprio Amyot na vida de Aristides. cap. XVII,

XII.      Louva-se também grandemente o seu procedimento em relação ao intérprete que veio com os embaixadores do rei, para pedir água e terra, isto é, inteiro reconhecimento e obediência dos gregos, porque ele o fêz prender e punir de morte em decreto público, por ter ousado empregar a língua grega na transmissão de ordens dos bárbaros. Foi também uma bela coisa, que a instâncias suas, Ártmío, natural de Zeléia, fosse marcado dê infâmia cornos filhos e toda sua posteridade, por ter trazido ouro do rei da Pérsia, para seduzir e corromper homens da Grécia, Mas o maior e mais louvável de seus atos nessa ocasião, foi o de acalmar e pacificar todos os.conflitos que os gregos mantinham entre si, persuadindo às cidades que procrastinassem suas inimizades até.o após-guerra, e consta que nisso, Quileu, arcadiano, o. auxiliou mais que nenhum outro.

XIII.       Tendo então sido eleito capitão geral dos atenienses, tratou; incontinenti, de fazer embarcar seus concidadãos nas galeras, insistindo em que eles deviam …abandonar sua cidade, para; ir por mar, ao encontro do rei dos bárbaros, o mais longe possível da Grécia, alvitre que o povo não achou bom, razão pela qual Temístocles conduziu, por terra, boa tropa de combatentes ao passo do Tempé  (8), com os lacedemônios, para defender contra os bárbaros essa entrada da Tessália, a qual não se tinha ainda declarado pelos medos, nem se bandeado com eles. Depois, entretanto, de se terem retirado os gregos, sem nada fazer, e tendo os tessalianos tomado o partido do rei, de tal forma que até o país da Beócia, todos se devotaram à causa dos bárbaros, começaram então os atenienses, a achar boa a opinião de Temístocles, de querer combater por mar, e o enviaram com os seus navios à cidade de Artemísio, para guarnecer o estreito. Quiseram ali, os outros gregos que os lacedemônios e seu almirante Euribíades, tivessem a preeminência no comando de todos, recusando-se os atenienses a marchar sob a direção alheia, porque eles sozinhos, nesse exército, tinham maior número de navios do que os outros gregos reunidos.

XIV. Temístocles, porém, prevendo o perigo iminente, cedeu, voluntariamente, a Euribíades a autoridade do comando, e fez os atenienses condescenderem com isso, prometendo e assegurando-lhes que se eles se mostrassem gente de bem nessa guerra, os outros gregos, espontaneamente, se submeteriam, depois à sua obediência. Revela-se aí ter  sido ele a principal causa da salvação da Grécia, salientando a honra e a glória dos atenienses ao fazê-los vencer os inimigos em coragem e os aliados e amigos em bondade. Tendo vindo entretanto, a armada barbaresca, ancorar ao lado da ilha dos Afetes (9), e vendo Euribíádes de frente, tão grande número de barcos, espantou-se e sabendo que havia ainda outros duzentos que iam por cima, contornar a ilha de Ciate, quis imediatamente, retirar-se mais para dentro da Grécia, e aproximar-se do Peloponeso, a fim de que o exército marítimo se mantivesse perto do de terra, não considerando possível combater no mar, a força do rei Xerxes. Em virtude disso, os habitantes da ilha de Eubéia, temendo que os gregos os abandonassem, falaram secretamente com Temístocles, enviando-lhe boa soma de dinheiro, por intermédio de um certo Pelagon, dinheiro esse que "emístocles recebeu, como o escreve Heródoto, dando-o a Euribíádes. Havia, porém, entre os cidadãos um de nome Aquíteles, capitão da galera que se denominava sagrada, o qual resistia fortemente à sua orientação, e não tendo dinheiro para pagar e entreter seus marinheiros, fazia todo o possível para partirem depressa. Temístocles irritou sua gente contra ele, mais do que já estava, até que correram sobre a sua galera, e lhe tomaram à força, seu jantar. Como Arquitetes ficasse indignado e furioso, Temístocles enviou-lhe pão e carne num cesto, em cujo fundo fez’ incluir um talento de prata (10),-dizendo-lhe para cear essa tarde, preocupando-se no dia seguinte, em prover o pessoal de sua galera, senão gritaria contra ele, e o acusaria aos seus concidadãos, de ter ..recebido dinheiro dos inimigos. Assim o escreve Fanias de Lesbos.

(8)   O célebre vale de Tempé, o mais belo local da natureza, tia Tessália, cantado por todos os poetas
 (9)   É um engano de Amyot.   Aíetes que se chama hoje Fetio é uma cidade da Maenésia, e não uma ilha.

XV. Enquanto isso os recontros que se davam dentro do estreito de Eubéia, entre gregos e bárbaros, não eram de grande conseqüência para a decisão de toda a guerra. Foi porém, como um ensaio útil para os gregos, fazendo-os ver por experiência, e no perigo mesmo do combate, que a grande quantidade de navios, a pompa c magnificência do seu equipamento, os brados soberbos e os cantos de vitória dos bárbaros, não adiantavam nada contra quem têm coragem de aproximar-se e combater mão a mão com o inimigo, e que não se deve dar importância a tudo isso, mas sim avançar diretamente ao choque com os homens é lançar-se ousadamente contra eles. O poeta Pindaro parece ter entendido isso muito bem, quando diz referindo-se à batalha de Artemísio (11):

Os de Atenas plantaram o glorioso fundamento da liberdade grega. Porque, sem sombra de dúvida, a base da vitória é a firmeza, Este lugar, Artipísio, é uma costa da ilha de Eubéia (12) voltada para o Norte, acima da cidade de Estiae, fronteira â região que obedecia, outrora, a Filoctetes, exatamente diante da cidade de Olison e onde há um templo de Diana, cognominada Oriental, não muito grande, circundado de árvores e envolto por um círculo de colunas de pedras brancas que, ao atrito da mão tomam a cor e produzem o cheiro do açafrão. Há em uma delas uma inscrição em versos elegíacos nos termos seguintes:

Depois de ter, outrora em choque marcial, batido no mar, aqui em frente, nações da Ásia em número infinito, os heróis, filhos de Atenas, fizeram  edificar, em memória do fato, este monumento, à Diana, a santa,  … quanto por eles foi, de fato, destruído o exército dos orgulhosos Medos. .

Mostra-se ainda hoje naquela costa, um lugar, onde há, no meio de muita areia, um pó escuro como cinza,, avançando bem para dentro da terra, pensando-se que seja ali o local em que eles queimaram os mortos e as relíquias dos naufrágios.

(10)   Atualmente 4.668 Libras da nossa moeda.(11) Esta batalha em que os Persas foram vencidos, deu-se
no primeiro ano da septuagésima-quinta Olimpíada, 480 anos A.  C.
 (12)  " Artemísio é um promoutório da ilha de Eubéia, atualmente Negroponto
.    

XVI. Tendo, porém, chegado a notícia do que acontecera no passo  das Termópilas,  onde o rei Leônidas morrera, e de como Xerxes tinha conquistado aquela entrada por terra, retirou-se então o exército de mar, mais para dentro da Grécia, tendo-se colocado os Atenienses na retaguarda, últimos de todos, como quem tinha o coração alto, pela glória das proezas já praticadas. Passando Temístocles ao lado dos locais onde era necessário que os inimigos abordassem e se recolhessem a abrigo, gravou em letras grandes e grossas sobre as pedras que ali encontrava, por acaso, ou que fazia trazer expressamente aos mencionados lugares, onde o abrigo era bom para os navios, ou onde havia comodidade para aprovisionamento de água, palavras dirigidas aos Jônios incitando-os a voltar-se para o lado dos atenienses, que eram seus ancestrais e fundadores, e que combatiam pela liberdade, ou, pelo menos, a criar alguma dificuldade e a fazer o maior mal que pudessem ao exército dos bárbaros quando viessem a combater. Ele esperava com isso, fazer os Jônios passarem para seu lado ou, quando nada, colocar os bárbaros em situação de desconfiança frente a eles.