Temístocles – Plutarco – Vidas Paralelas

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SUMÁRIO DA VIDA  DE TEMÍSTOCLES

TemístoclesI. Origem de Temístocles. II. Sua juventude ardente e aplicada. III. Seu estudo da Sabedoria, isto é, da ciência de governo. IV. Antigüidade desta ciência. V. Sua rivalidade com . VI. Sua sensibilidade à glória. VII. Ele obriga a empregar o dinheiro de suas minas na construção de navios. VIII. Seu caráter. X. Sua popularidade. XI. Ele faz banir Aristides. XII.. Sua firmeza. XIII. Ele é eleito capitão geral dos atenienses. Fá-los embarcar para ir combater contra Xerxes. XIV. Cede o comando a , general da Lacedemónia. XV. Combate de Artemisio. XVI. Xerxes domina as Termopilas. XVIII. Subterfúgio de Temístocles para inspirar coragem aos atenienses. Ele sustenta a coragem de Euribíades. XXII. Temor dos . XXIII. Temístocles os coloca na necessidade de combater. XXVII. Número dos navios de Xerxes. XXVLI. Temístocles se põe a favor do vento. XXIX. Vitória de Salamina. XXXII. Fuga de Xerxes. XXXIII. Honras prestadas a Temístocles. XXXV. Sua paixão e glória. Memoráveis palavras suas. XXXVII. Ele reconstrói as muralhas de Atenas. XXXVLI. Reconstrói o Pireu. XXXIX. Projeto de Temístocles para atribuir a Atenas a hegemonia sobre toda a Grécia, rejeitado por injusto. XL. Sua sábia política para manter o equilíbrio. XLI. O poeta Timocreonte censura-o por concussão. XLII. Ele faz sentir excessivamente os seus serviços. XLIII. É banido pelo ostracismo. XLIV. Traição de Pausânias, que confia o segredo a Temístocles. XLV. O povo quer prendê-lo. Ele foge para Corfú. XLVI. De Corfú ao Épiro. XLV. II. Na Pérsia enfim. L. Sua entrevista com o rei da Pérsia. LIII. Ele recebe honroso tratamento. O rendimento de três cidades lhe é atribuído. LVI. Revolta do , excitada pelos atenienses. A Pérsia se arma contra Atenas. Temístocles suicida-se para não servir contra sua pátria. LVII. O rei da Pérsia o admira. Seus filhos. LVIII. Seu túmulo magnífico em . LIX. Sua posteridade, homenageada até o tempo de Plutarco.

Desde a sexagésima-terceira olimpíada até a sexagésima-nona, 463 anos antes de Jesus Cristo.

 

PLUTARCO – VIDAS PARALELAS AS VIDAS DOS HOMENS ILUSTRES

GREGOS E ROMANOS
TEMÍSTOCLES

Tradução da versão francesa de por Paulo Edmur de Souza Queiroz. Fonte: Ed.das Américas

 A linhagem a que pertencia Temístocles pouco ajudou à sua glória, porque seu pai, chamado Nicocles, se bem que cidadão de Atenas, não era dos mais importantes da cidade, nativo do Burgo de Frear, da estirpe Leontida, e do lado de sua mãe ele era mestiço, como se diz, por ser ela estrangeira, como testemunham estes versos:

Abrotonon, nasci na Tracia,
Mas posso considerar-me tão venturosa
Que gerei para os gregos  
O grande e tão cantado Temístocles.

Fânias, todavia, escreve que sua mãe não era da mas nativa do país de Caria, e não a chama Abrotonon, mas Euterpe, e Neantes acrescenta que era de Halicarnasso, cidade capital do reino de Cária, razão pela qual, sendo costume que as crianças mestiças, isto é. aquelas não nascidas de pai e mãe cidadãos naturais de Atenas, se reunissem para jogar e exercitar-se em um certo lugar chamado Cinosargos, parque destinado aos exercícios dos jovens, fora das muralhas da cidade e dedicado a Hércules, que, entre os deuses, não era também legítimo, mas bastardo por causa da mãe mortal: Temístocles insistiu tanto com alguns jovens das mais nobres casas da cidade, que os acabou levando ao parque de Cinosargos, onde os fez despir, ungir e exercitar-se com ele. Agindo assim, ele aboliu habilmente a diferença que se fazia antes, entre os mestiços e os cidadãos legítimos de Atenas. Não obstante o que fica dito, é certo que ele se ligava de alguma maneira à casa dos Licomedes uma vez que a capela dessa família, situada no burgo de Fila, tendo sido incendiada e queimada pelos bárbaros, Temístocles a mandou refazer à sua custa, e a enriqueceu e ornou de pinturas, como narra Simônides.

II. É todavia, coisa aceita de todos, que desde o tempo de sua infância percebia-se já perfeitamente que ele era ardente, inquieto, avisado, de bom senso, ambicioso de grandes realizações e nascido para o manejo dos negócios. Nos dias e horas de folga nos estudos e de permissão para divertir-se, jamais brincava nem permanecia ocioso, como faziam as demais crianças, mas era sempre encontrado decorando ou compondo sozinho algum discurso cujo objeto era, na maior parte das vezes, a defesa ou acusação de um dos seus companheiros. Em razão disso dizia-lhe seu mestre freqüentemente: «Não serás jama/is pouca coisa, meu filho, mas é forçoso que sejas algum dia, um grande bem ou um grande mal.» Quando queriam, entretanto, ensinar-lhe qualquer noção, servindo apenas para reforma e civilização de costumes, ou bem uma dessas questões que se estudam por prazer e honesto passatempo, ele as aprendia com frouxidão e frieza; se era, porém, algo de sentido, servindo ao manejo dos negócios públicos, via-se ele tomar nota, querendo saber mais do que lhe permitia a idade, como alguém que se entrega à sua inclinação. Isso foi causa de que se vendo mais tarde objeto de zombaria em companhia de outros que tinham estudado essas artes de entretenimento honesto e elegante, foi levado para defender-se e revidar, a responder-lhes com palavras um pouco altivas e inamistosas, dizendo que ele, em verdade, não sabia afinar uma lira ou uma viola, nem tocar o saltério, mas que lhe pusessem entre as mãos uma cidade pequena, fraca e de pouco nome, e ele saberia bem encontrar os meios de a fazer grande, poderosa e de nobre nomeada.»

III. Escreve, todavia, Estesimbroto, que ele esteve na escola de Anaxágoras, e que estudou com Melisso, o filósofo da natureza, enganando-se nisso, profundamente, por não ter levado em conta a seqüência do tempo, porque Melisso foi capitão dos samienses contra quando este sitiou a cidade de Samos. Ora, é certo que era muito mais jovem que Temístocles e Anaxágoras se manteve em sua própria casa, morando com ele, sendo portanto, mais verossímil e mais tempestivo crer naqueles que dizem que Temístocles se propôs imitar Mnesifilo o Freariano, o qual não fazia profissão .de orador nem de filósofo da natureza, como chamavam naquele tempo, mas sim daquilo que apelidava então sabedoria, a qual não era outra coisa do que prudência no manejo dos negócios e bom-senso e discernimento em matéria de estado e de governo, profissão essa que, iniciada com Solon (.1) tinha continuado de mão em mão, até ele, como uma seita de filosofia. Mas aqueles que vieram depois, a misturaram entre as artes de debate oral, e, pouco a pouco, transferiram o exercício dos’ atos, ao das palavras nuas, e em razão disso foram chamados sofistas, como quem.dissesse, contrafação dos sábios. Quanto a este Mnesifiilo todavia, Temístocles se aproximou dele, quando já tinha começado a envolver-se no governo da coisa pública. Assim, foram os primeiros .movimentos e impulsos de sua juventude muito variáveis e diversos, como daquele que se deixa ir onde o impele a impetuosidade de sua natureza, sem discipliná-la é guiá-la pelo julgamento da razão. Advinha disso que ele revelou grandes mutações de comportamento e costumes; em uma e outra direção, orientando-se muitas vezes para a pior, como ele messno confessou depois, dizendo que os potros mais rebeldes e selvagens são os que finalmente" se tornam" os melhores cavalos, quando domados, feitos e adestrados, como convém.

(1)    A Sabedoria ou ciência do  governo começou a esse tempo entre os gregos.    Bem mais antiga foi ela no Oriente. como se vê nos livros de  Davi e  Salomão.

IV.     Quanto ao resto, todas as outras notícias que alguns vão acrescentando a isso, como a de que seu pai o deserdou, e sua mãe se deixou morrer voluntariamente de tristeza e dor ao ver os desmandos do filho, são, a meu aviso, coisas contestáveis, porque, ao contrário, há quem escreva, que seu pai mesmo, querendo dissuadi-lo de imiscuir-se no governo da coisa pública, foi-lhe mostrando ao longo da praia marítima, a carcaça de velhas galeras lançadas aqui e ali, dizendo-lhe que o povo fazia exatamente assim como os políticos (2) quando não podiam  mais servir.

(2). Em grego – os demagogos, isto é, os oradores que dirigiam   o   povo.

V. Como quer que seja, é absolutamente certo que Temístocles se afeiçoou, imediata e conscientemente pela política, e bem cedo foi atingido pelo anseio de glória, de forma que, desejando desde …o começo. levar a melhor,sobre todos os. demais,.audaciosamente, logo ao chegar, tomou a lança, contra os.homens maiores e mais poderosos dentre os que se envolviam em negócios públicos, inclusive contra Aristidcs, filho de Lísímaco, o qual em tudo e por tudo  se manteve sempre seu  adversário.     Parece entretanto, que a inimizade concebida contra este teve origem em uma causa assaz fútil: ambos se sentiram apaixonados do belo Estesilau, natural da cidade de Tios de acordo com o que narra o filósofo Ariston. Após o ciúme inicial, continuaram para sempre a tomar partidos contrários, não somente em seus assuntos privados, mas também no governo da coisa pública. Creio, contudo, que a diversidade dos seus costumes e condições, aumentou grandemente a inimizade e dissensão, mantida entre eles, porque Aristides sendo, por natureza, homem grave, reto e íntegro em sua vida, não tendendo em suas ações para a lisonja popular, nem para servir à sua própria glória, mas a fazer, dizer e aconselhar sempre o que ele considerava como melhor, mais justo e mais seguro para a coisa pública, era constrangido a se opor freqüentemente a Temístocles que ia incitando o povo a empreender sempre coisas novas, pondo todos os dias em movimento uma medida inesperada com o fim de impedir a ampliação da autoridade de Aristides.

VI. Consta que ele era tão arrebatado pela ambição de glória, e tão ardentemente atormentado pelo desejo de realizar grandes coisas, que sendo ainda bem jovem ao tempo em que a batalha de Maratona (3) foi travada contra os bárbaros, na qual não se falava em outra coisa senão no valor do capitão , vencedor da mesma, foi ele encontrado muitas vezes sozinho, sonhando e pensando de si para si, sem poder conciliar o sono à noite, nem querer, de dia. ir aos lugares, ou freqüentar as companhias a que antes estava acostumado, dizendo aos que estranhavam uma tão grande mudança em sua maneira de agir e perguntavam-lhe o motivo, «que a vitória de não o deixava dormir», e isso porque os outros pensavam que a derrota dos bárbaros, nesse dia de Maratona, devia resultar no término definitivo da guerra. Temístocles, entretanto, pensava, ao contrário, ser apenas um começo de choques maiores, aos quais se ia preparando cada dia, para salvação da Grécia e para esse fim, adestrou desde logo a cidade, prevendo de longe, o que iria acontecer.

Milcíades

 

(3)   Terceiro ano da septuagésima segunda Olimpíada, ano memorável em que começou o grande brilho da Grécia.

VII. Por esse motivo, antes de mais nada, em relação aos Atenienses que tinham antes o costume de distribuir entre si o rendimento anual retirado das minas de prata, localizadas em um local da Ática, chamado Laurium, foi ele o único que ousou demonstrar.ao povo a necessidade de para o futuro, suspender-se essa distribuição para empregar-se o dinheiro na construção de galeras em grande número para a guerra contra os eginetas (4) a qual, por esse tempo, era a que mais pesava sobre toda a Grécia, em virtude de terem estes todo o mar em seu poder, tal era a quantidade de seus navios. Foi assim que Temístocles persuadiu mais facilmente seus concidadãos daquilo que pretendia nesse momento, sem ameaçá-los com o rei Dario nem com. os persas, porque estes estavam muito longe, e não havia receio, ao menos perfeitamente fundamentado, de que eles estivessem para vir, mas usando, oportunamente do ódio e do ciúme"dos atenienses em relação aos eginetas. Do dinheiro em questão foram construídas cem galeras com as quais combateram e derrotaram, por mar, o rei Xerxes. E depois desse começo, atraindo aos poucos seus concidadãos e fazendo-os tender para.a marinha, mostrando-lhes como por terra eram. eles apenas bastante, fortes para enfrentar seus semelhantes, enquanto com o poder que podiam adquirir no mar, sê-lo-iam não só. para defender-se dos bárbaros, mas também para impor a lei ao resto da Grécia, conseguiu assim fazê-los marinheiros e gente do mar, como diz Platão, ao passo que antes eram bons e rudes campeões de terra firme. Isso deu matéria aos seus inimigos para censurá-lo, mais tarde, por. ter ele tirado ao povo de Atenas a lança c o pavês para reduzi-lo ao banco e ao remo, seduzindo-o, em oposição a Milcíades que o contradizia nisso, como diz Estesimbroto. Se agindo assim foi ele causa de corromper-se a nitidez e pureza da coisa pública ou não, deixo a disputa ao filósofos, mas que a preservação da Grécia foi devida, todavia, por essa vez, à marinha, e que as galeras foram causa da recuperação de Atenas, além de outras provas que se possam aduzir, o próprio Xerxes o testemunhou, quando, com seu exército de terra, ainda inteiro, fugiu ao ver o do mar rompido e desfeito, como se confessasse não estar mais bastante forte para combater os gregos, deixando, a meu aviso, na Grécia, Mardônio, seu lugar-tenente, mais para impedir que os gregos o perseguissem, do que por esperança de subjugá-los.

(4)   Em grego: "esta guerra estava por então em toda sua força e os eginetas tinham todo o mar em seu poder".

VIII. Escrevem alguns de Temístocles (5) que era avidamente interessado no ganho, preocupando-se muito com isso, porque despendia regiamente e gostava de oferecer, freqüentemente, sacrifícios e de recolher e tratar com distinção os estrangeiros, razão pela qual se fazia mister fosse diligente e ardoroso em acumular, para poder fazer face às suas despesas. Outros, ao contrário, o censuram por ter sido mesquinho e prático, ao ponto de fazer vender os presentes de comestíveis que lhe faziam. Pediu, de certa vez, um potro como donativo, a alguém de nome Dilfilides, possuidor de uma coudelaría. Recusando-lhe este, secamente, o pedido, foi Temístocles tomado de tão grande despeito, que o ameaçou de transformar-lhe a casa, antes de muito tempo, no cavalo de madeira com o qual Tróia foi tomada, querendo abertamente, dar-lhe a entender que em breve lhe suscitaria processos e choques contra seus próprios parentes e mesmo contra seus criados.

(5)   No grego: que ele procurava todos os meios de ganhar dinheiro porque,  etc

IX. Não há dúvida que ele era o homem mais ambicioso do mundo. Ao tempo de sua juventude, ainda pouco conhecido, solicitou, com grande insistência, a um excelente tocador de citara, então em voga em Atenas, chamado Epicles, natural de Hermione, que viesse à sua casa para exercer e mostrar sua arte, a fim dê que muita gente, com vontade de ouvi-lo, procurasse sua residência e viesse a ele. Tendo do certo ano a festa e assembléia dos jogos olímpicos, quis manter casa aberta a todos os adventícios, com tendas ricamente decoradas e demais brilho de vida e de equipagem, à maneira de Cimon. Isso desagradou os gregos os quais consideravam essa despesa adequada e permissível a Cimon, em virtude de sua juventude e de sua alta linhagem, mas a ele que era homem novo e se fazia grande, mais do que seus bens e faculdades autorizavam, e mais do que lhe cabia, não somente deixou isso de ser-lhe louvado, mas foi considerado vangloria e presunção. Outra vez ele custeou uma tragédia, representada publicamente, ganhando o prêmio. Sendo já a esse tempo, a honra de vencer em tais jogos muito invejada e calorosamente disputada em Atenas, fez pintar sua vitória em um quadro que dedicou e mandou pendurar   num   templo,   com   a   seguinte   inscrição:

«Temístocles Freariano custeou,
 Frínico a compôs,
Adímanto era arconte (6)»

X.      Apesar disto ele agradava ao povo comum, em parte porque saudava cada cidadão pelo nome próprio, sem que ninguém o ajudasse a nomeá-los, e em parte também porque se mostrava juiz reto nos negócios particulares, como respondeu um dia ao, poeta: Simonides, natural de Quio, que lhe requeria qualquer coisa desarrazoada, quando governador da cidade: «Não serias bom poeta se cantasses contra as regras da música, nem eu bom governador se fizesse qualquer coisa contra as leis.» Uma outra vez, zombando do mesmo Simonides, disse-lhe «que ele não era sensato em maldizer os coríntios, visto que  eram senhores de uma tão grande e poderosa cidade,
nem em fazer-se retratar ao natural uma vez que era tão feio.»  

XI.      O certo è que, adquirindo crédito, e tendo conquistado as boas graças da plebe, ele comprometeu de tal forma à Aristides, que, ao fim, fê-lo expulsar e banir da cidade de Atenas por cinco anos (7), E como o rei da Pérsia estivesse a caminho para vir fazer guerra aos gregos, e os atenienses começassem a.deliberar a quem elegeriam por chefe, conta-se que todos aqueles acostumados à política, sé recolheram temendo o perigo, e não houve senão um orador chamado Epicides, filho de Eufemides, homem eloqüente mas covarde no íntimo, e ávido de dinheiro, que se apresentasse para pleitear esse cargo, com indícios de que ia. obtê-lo. Foi por isso que Temístocles, temendo a geral perdição se a conduta da guerra viesse às mãos de uma tal personagem, comprou a dinheiro de contado, a ambição de Epicides, fazendo-o abandonar o intento.

(6).  No texto: "prevost" — em nota: — "arconte".
( 7)   É um erro de Amyot. O Decreto de ostracismo era de dez anos. Veja-se o próprio Amyot na vida de Aristides. cap. XVII,

XII.      Louva-se também grandemente o seu procedimento em relação ao intérprete que veio com os embaixadores do rei, para pedir água e terra, isto é, inteiro reconhecimento e obediência dos gregos, porque ele o fêz prender e punir de morte em decreto público, por ter ousado empregar a língua grega na transmissão de ordens dos bárbaros. Foi também uma bela coisa, que a instâncias suas, Ártmío, natural de Zeléia, fosse marcado dê infâmia cornos filhos e toda sua posteridade, por ter trazido ouro do rei da Pérsia, para seduzir e corromper homens da Grécia, Mas o maior e mais louvável de seus atos nessa ocasião, foi o de acalmar e pacificar todos os.conflitos que os gregos mantinham entre si, persuadindo às cidades que procrastinassem suas inimizades até.o após-guerra, e consta que nisso, Quileu, arcadiano, o. auxiliou mais que nenhum outro.

XIII.       Tendo então sido eleito capitão geral dos atenienses, tratou; incontinenti, de fazer embarcar seus concidadãos nas galeras, insistindo em que eles deviam …abandonar sua cidade, para; ir por mar, ao encontro do rei dos bárbaros, o mais longe possível da Grécia, alvitre que o povo não achou bom, razão pela qual Temístocles conduziu, por terra, boa tropa de combatentes ao passo do Tempé  (8), com os lacedemônios, para defender contra os bárbaros essa entrada da Tessália, a qual não se tinha ainda declarado pelos medos, nem se bandeado com eles. Depois, entretanto, de se terem retirado os gregos, sem nada fazer, e tendo os tessalianos tomado o partido do rei, de tal forma que até o país da Beócia, todos se devotaram à causa dos bárbaros, começaram então os atenienses, a achar boa a opinião de Temístocles, de querer combater por mar, e o enviaram com os seus navios à cidade de Artemísio, para guarnecer o estreito. Quiseram ali, os outros gregos que os lacedemônios e seu almirante Euribíades, tivessem a preeminência no comando de todos, recusando-se os atenienses a marchar sob a direção alheia, porque eles sozinhos, nesse exército, tinham maior número de navios do que os outros gregos reunidos.

XIV. Temístocles, porém, prevendo o perigo iminente, cedeu, voluntariamente, a Euribíades a autoridade do comando, e fez os atenienses condescenderem com isso, prometendo e assegurando-lhes que se eles se mostrassem gente de bem nessa guerra, os outros gregos, espontaneamente, se submeteriam, depois à sua obediência. Revela-se aí ter  sido ele a principal causa da salvação da Grécia, salientando a honra e a glória dos atenienses ao fazê-los vencer os inimigos em coragem e os aliados e amigos em bondade. Tendo vindo entretanto, a armada barbaresca, ancorar ao lado da ilha dos Afetes (9), e vendo Euribíádes de frente, tão grande número de barcos, espantou-se e sabendo que havia ainda outros duzentos que iam por cima, contornar a ilha de Ciate, quis imediatamente, retirar-se mais para dentro da Grécia, e aproximar-se do Peloponeso, a fim de que o exército marítimo se mantivesse perto do de terra, não considerando possível combater no mar, a força do rei Xerxes. Em virtude disso, os habitantes da ilha de Eubéia, temendo que os gregos os abandonassem, falaram secretamente com Temístocles, enviando-lhe boa soma de dinheiro, por intermédio de um certo Pelagon, dinheiro esse que "emístocles recebeu, como o escreve , dando-o a Euribíádes. Havia, porém, entre os cidadãos um de nome Aquíteles, capitão da galera que se denominava sagrada, o qual resistia fortemente à sua orientação, e não tendo dinheiro para pagar e entreter seus marinheiros, fazia todo o possível para partirem depressa. Temístocles irritou sua gente contra ele, mais do que já estava, até que correram sobre a sua galera, e lhe tomaram à força, seu jantar. Como Arquitetes ficasse indignado e furioso, Temístocles enviou-lhe pão e carne num cesto, em cujo fundo fez’ incluir um talento de prata (10),-dizendo-lhe para cear essa tarde, preocupando-se no dia seguinte, em prover o pessoal de sua galera, senão gritaria contra ele, e o acusaria aos seus concidadãos, de ter ..recebido dinheiro dos inimigos. Assim o escreve Fanias de Lesbos.

(8)   O célebre vale de Tempé, o mais belo local da natureza, tia Tessália, cantado por todos os poetas
 (9)   É um engano de Amyot.   Aíetes que se chama hoje Fetio é uma cidade da Maenésia, e não uma ilha.

XV. Enquanto isso os recontros que se davam dentro do estreito de Eubéia, entre gregos e bárbaros, não eram de grande conseqüência para a decisão de toda a guerra. Foi porém, como um ensaio útil para os gregos, fazendo-os ver por experiência, e no perigo mesmo do combate, que a grande quantidade de navios, a pompa c magnificência do seu equipamento, os brados soberbos e os cantos de vitória dos bárbaros, não adiantavam nada contra quem têm coragem de aproximar-se e combater mão a mão com o inimigo, e que não se deve dar importância a tudo isso, mas sim avançar diretamente ao choque com os homens é lançar-se ousadamente contra eles. O poeta Pindaro parece ter entendido isso muito bem, quando diz referindo-se à batalha de Artemísio (11):

Os de Atenas plantaram o glorioso fundamento da liberdade grega. Porque, sem sombra de dúvida, a base da vitória é a firmeza, Este lugar, Artipísio, é uma costa da ilha de Eubéia (12) voltada para o Norte, acima da cidade de Estiae, fronteira â região que obedecia, outrora, a Filoctetes, exatamente diante da cidade de Olison e onde há um templo de Diana, cognominada Oriental, não muito grande, circundado de árvores e envolto por um círculo de colunas de pedras brancas que, ao atrito da mão tomam a cor e produzem o cheiro do açafrão. Há em uma delas uma inscrição em versos elegíacos nos termos seguintes:

Depois de ter, outrora em choque marcial, batido no mar, aqui em frente, nações da Ásia em número infinito, os heróis, filhos de Atenas, fizeram  edificar, em memória do fato, este monumento, à Diana, a santa,  … quanto por eles foi, de fato, destruído o exército dos orgulhosos Medos. .

Mostra-se ainda hoje naquela costa, um lugar, onde há, no meio de muita areia, um pó escuro como cinza,, avançando bem para dentro da terra, pensando-se que seja ali o local em que eles queimaram os mortos e as relíquias dos naufrágios.

(10)   Atualmente 4.668 Libras da nossa moeda.(11) Esta batalha em que os Persas foram vencidos, deu-se
no primeiro ano da septuagésima-quinta Olimpíada, 480 anos A.  C.
 (12)  " Artemísio é um promoutório da ilha de Eubéia, atualmente Negroponto
.    

XVI. Tendo, porém, chegado a notícia do que acontecera no passo  das Termópilas,  onde o rei Leônidas morrera, e de como Xerxes tinha conquistado aquela entrada por terra, retirou-se então o exército de mar, mais para dentro da Grécia, tendo-se colocado os Atenienses na retaguarda, últimos de todos, como quem tinha o coração alto, pela glória das proezas já praticadas. Passando Temístocles ao lado dos locais onde era necessário que os inimigos abordassem e se recolhessem a abrigo, gravou em letras grandes e grossas sobre as pedras que ali encontrava, por acaso, ou que fazia trazer expressamente aos mencionados lugares, onde o abrigo era bom para os navios, ou onde havia comodidade para aprovisionamento de água, palavras dirigidas aos Jônios incitando-os a voltar-se para o lado dos atenienses, que eram seus ancestrais e fundadores, e que combatiam pela liberdade, ou, pelo menos, a criar alguma dificuldade e a fazer o maior mal que pudessem ao exército dos bárbaros quando viessem a combater. Ele esperava com isso, fazer os Jônios passarem para seu lado ou, quando nada, colocar os bárbaros em situação de desconfiança frente a eles.

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