Temístocles – Plutarco – Vidas Paralelas

Temístocles – Plutarco – Vidas Paralelas

SUMÁRIO DA VIDA  DE TEMÍSTOCLES

TemístoclesI. Origem de Temístocles. II. Sua juventude ardente e
aplicada. III.
Seu estudo
da Sabedoria, isto é, da ciência de governo. IV. Antigüidade desta
ciência. V.
Sua
rivalidade com Aristides. VI. Sua sensibilidade à glória. VII. Ele obriga Atenas a
empregar o dinheiro de suas minas na construção de navios. VIII. Seu caráter. X. Sua popularidade. XI. Ele faz banir Aristides.
XII.. Sua firmeza. XIII. Ele
é eleito capitão geral dos atenienses. Fá-los embarcar para ir combater contra
Xerxes. XIV.
Cede o
comando a Euribíades, general da Lacedemónia. XV. Combate de Artemisio. XVI. Xerxes domina as
Termopilas. XVIII.
Subterfúgio
de Temístocles para inspirar coragem aos atenienses. Ele sustenta a coragem de
Euribíades. XXII.
Temor dos
gregos. XXIII.
Temístocles
os coloca na necessidade de combater. XXVII. Número dos navios de Xerxes. XXVLI.
Temístocles se põe a favor do vento. XXIX. Vitória de Salamina. XXXII. Fuga de Xerxes. XXXIII. Honras prestadas a
Temístocles. XXXV.
Sua paixão
e glória. Memoráveis palavras suas. XXXVII. Ele reconstrói as muralhas de Atenas.
XXXVLI. Reconstrói o Pireu. XXXIX. Projeto de Temístocles para atribuir a Atenas a
hegemonia sobre toda a Grécia, rejeitado por injusto. XL. Sua sábia política
para manter o equilíbrio. XLI. O poeta Timocreonte censura-o por concussão.
XLII. Ele faz sentir excessivamente os seus serviços. XLIII. É banido pelo
ostracismo. XLIV. Traição de Pausânias, que confia o segredo a Temístocles.
XLV. O povo quer prendê-lo. Ele foge para Corfú. XLVI. De Corfú ao Épiro. XLV.
II.
Na Pérsia
enfim. L. Sua entrevista com o rei da Pérsia. LIII. Ele recebe honroso
tratamento. O rendimento de três cidades lhe é atribuído. LVI. Revolta do
Egito, excitada pelos atenienses. A Pérsia se arma contra Atenas. Temístocles
suicida-se para não servir contra sua pátria. LVII. O rei da Pérsia o admira.
Seus filhos. LVIII. Seu túmulo magnífico em Magnésia. LIX. Sua posteridade, homenageada até o tempo de Plutarco.

Desde a sexagésima-terceira olimpíada até a
sexagésima-nona, 463 anos antes de Jesus Cristo.

 

PLUTARCO – VIDAS PARALELAS AS VIDAS
DOS HOMENS ILUSTRES

GREGOS E ROMANOS
TEMÍSTOCLES

Tradução da versão francesa de Amyot por Paulo Edmur de Souza Queiroz. Fonte: Ed.das Américas

 A linhagem a que pertencia Temístocles pouco
ajudou à sua glória, porque seu pai, chamado Nicocles, se bem que cidadão de
Atenas, não era dos mais importantes da cidade, nativo do Burgo de Frear, da
estirpe Leontida, e do lado de sua mãe ele era mestiço, como se diz, por ser
ela estrangeira, como testemunham estes versos:

Abrotonon,
nasci na Tracia,
Mas posso considerar-me tão venturosa
Que gerei para os gregos  
O grande e tão cantado Temístocles.

Fânias, todavia, escreve que sua mãe não era da
Trácia mas nativa do país de Caria, e não a chama Abrotonon, mas Euterpe, e
Neantes acrescenta que era de Halicarnasso, cidade capital do reino de Cária,
razão pela qual, sendo costume que as crianças mestiças, isto é. aquelas não
nascidas de pai e mãe cidadãos naturais de Atenas, se reunissem para jogar e
exercitar-se em um certo lugar chamado Cinosargos, parque destinado aos
exercícios dos jovens, fora das muralhas da cidade e dedicado a Hércules, que,
entre os deuses, não era também legítimo, mas bastardo por causa da mãe mortal:
Temístocles insistiu tanto com alguns jovens das mais nobres casas da cidade,
que os acabou levando ao parque de Cinosargos, onde os fez despir, ungir e
exercitar-se com ele. Agindo assim, ele aboliu habilmente a diferença que se
fazia antes, entre os mestiços e os cidadãos legítimos de Atenas. Não obstante
o que fica dito, é certo que ele se ligava de alguma maneira à casa dos
Licomedes uma vez que a capela dessa família, situada no burgo de Fila, tendo
sido incendiada e queimada pelos bárbaros, Temístocles a mandou refazer à sua
custa, e a enriqueceu e ornou de pinturas, como narra Simônides.

II. É todavia, coisa aceita de todos, que desde o
tempo de sua infância percebia-se já perfeitamente que ele era ardente,
inquieto, avisado, de bom senso, ambicioso de grandes realizações e nascido
para o manejo dos negócios. Nos dias e horas de folga nos estudos e de
permissão para divertir-se, jamais brincava nem permanecia ocioso, como faziam
as demais crianças, mas era sempre encontrado decorando ou compondo sozinho
algum discurso cujo objeto era, na maior parte das vezes, a defesa ou acusação
de um dos seus companheiros. Em razão disso dizia-lhe seu mestre
freqüentemente: «Não serás jama/is pouca coisa, meu filho, mas é forçoso que
sejas algum dia, um grande bem ou um grande mal.» Quando queriam, entretanto,
ensinar-lhe qualquer noção, servindo apenas para reforma e civilização de
costumes, ou bem uma dessas questões que se estudam por prazer e honesto
passatempo, ele as aprendia com frouxidão e frieza; se era, porém, algo de
sentido, servindo ao manejo dos negócios públicos, via-se ele tomar nota,
querendo saber mais do que lhe permitia a idade, como alguém que se entrega à
sua inclinação. Isso foi causa de que se vendo mais tarde objeto de zombaria em
companhia de outros que tinham estudado essas artes de entretenimento honesto e
elegante, foi levado para defender-se e revidar, a responder-lhes com palavras
um pouco altivas e inamistosas, dizendo que ele, em verdade, não sabia afinar
uma lira ou uma viola, nem tocar o saltério, mas que lhe pusessem entre as mãos
uma cidade pequena, fraca e de pouco nome, e ele saberia bem encontrar os meios
de a fazer grande, poderosa e de nobre nomeada.»

III. Escreve, todavia, Estesimbroto, que ele esteve
na escola de Anaxágoras, e que estudou com Melisso, o filósofo da natureza,
enganando-se nisso, profundamente, por não ter levado em conta a seqüência do
tempo, porque Melisso foi capitão dos samienses contra Péricles quando este
sitiou a cidade de Samos. Ora, é certo que Péricles era muito mais jovem que
Temístocles e Anaxágoras se manteve em sua própria casa,
morando com ele, sendo portanto, mais verossímil e mais tempestivo crer
naqueles que dizem que Temístocles se propôs imitar Mnesifilo o Freariano, o
qual não fazia profissão .de orador nem de filósofo da natureza, como chamavam
naquele tempo, mas sim daquilo que apelidava então sabedoria, a qual não era
outra coisa do que prudência no manejo dos negócios e bom-senso e discernimento
em matéria de estado e de governo, profissão essa que, iniciada com Solon (.1)
tinha continuado de mão em mão, até ele, como uma seita de filosofia. Mas
aqueles que vieram depois, a misturaram entre as artes de debate oral, e,
pouco a pouco, transferiram o exercício dos’ atos, ao das palavras nuas, e em
razão disso foram chamados sofistas, como quem.dissesse, contrafação dos
sábios. Quanto a este Mnesifiilo todavia, Temístocles se aproximou dele, quando
já tinha começado a envolver-se no governo da coisa pública. Assim, foram os
primeiros .movimentos e impulsos de sua juventude muito variáveis e diversos,
como daquele que se deixa ir onde o impele a impetuosidade de sua natureza, sem
discipliná-la é guiá-la pelo julgamento da razão. Advinha disso que ele
revelou grandes mutações de comportamento e costumes; em uma e outra direção,
orientando-se muitas vezes para a pior, como ele messno confessou depois,
dizendo que os potros mais rebeldes e selvagens são os que finalmente" se
tornam" os melhores cavalos, quando domados, feitos e adestrados, como
convém.

(1)   
A Sabedoria ou ciência do  governo começou a esse tempo entre os gregos.    Bem
mais antiga foi ela no Oriente. como se vê
nos livros de  Davi e  Salomão.

IV.     Quanto ao resto, todas
as outras notícias que
alguns vão acrescentando a isso, como a de que seu pai o deserdou, e sua mãe se
deixou morrer voluntariamente de tristeza e dor ao ver os desmandos do filho,
são, a meu aviso, coisas contestáveis, porque, ao contrário, há quem escreva,
que seu pai mesmo, querendo dissuadi-lo de imiscuir-se no governo da coisa
pública, foi-lhe mostrando ao longo da praia marítima, a carcaça de velhas
galeras lançadas aqui e ali, dizendo-lhe que o povo fazia exatamente assim
como os políticos (2) quando não podiam  mais servir.

(2). Em grego – os
demagogos, isto é, os oradores que dirigiam   o   povo.

V. Como quer que seja, é absolutamente certo que
Temístocles se afeiçoou, imediata e conscientemente pela política, e bem cedo
foi atingido pelo anseio de glória, de forma que, desejando desde …o começo.
levar a melhor,sobre todos os. demais,.audaciosamente, logo ao chegar, tomou a
lança, contra os.homens maiores e mais poderosos dentre os que se envolviam em
negócios públicos, inclusive contra Aristidcs, filho de Lísímaco, o qual em
tudo e por tudo  se manteve sempre seu  adversário.     Parece entretanto, que a
inimizade concebida contra este teve origem em uma causa assaz fútil: ambos se
sentiram apaixonados do belo Estesilau, natural da cidade de Tios de acordo
com o que narra o filósofo Ariston. Após o ciúme inicial, continuaram para
sempre a tomar partidos contrários, não somente em seus assuntos privados, mas
também no governo da coisa pública. Creio, contudo, que a diversidade dos seus
costumes e condições, aumentou grandemente a inimizade e dissensão, mantida
entre eles, porque Aristides sendo, por natureza, homem grave, reto e íntegro
em sua vida, não tendendo em suas ações para a lisonja popular, nem para servir
à sua própria glória, mas a fazer, dizer e aconselhar sempre o que ele considerava
como melhor, mais justo e mais seguro para a coisa pública, era constrangido a
se opor freqüentemente a Temístocles que ia incitando o povo a empreender
sempre coisas novas, pondo todos os dias em movimento uma medida inesperada com
o fim de impedir a ampliação da autoridade de Aristides.

VI. Consta que ele era tão arrebatado pela ambição
de glória, e tão ardentemente atormentado pelo desejo de realizar grandes
coisas, que sendo ainda bem jovem ao tempo em que a batalha de Maratona (3)
foi travada contra os bárbaros, na qual não se falava em outra coisa senão no
valor do capitão Milcíades, vencedor da mesma, foi ele encontrado muitas vezes
sozinho, sonhando e pensando de si para si, sem poder conciliar o sono à noite,
nem querer, de dia. ir aos lugares, ou freqüentar as companhias a que antes
estava acostumado, dizendo aos que estranhavam uma tão grande mudança em sua
maneira de agir e perguntavam-lhe o motivo, «que a vitória de Milcíades não o
deixava dormir», e isso porque os outros pensavam que a derrota dos bárbaros,
nesse dia de Maratona, devia resultar no término definitivo da guerra.
Temístocles, entretanto, pensava, ao contrário, ser apenas um começo de
choques maiores, aos quais se ia preparando cada dia, para salvação da Grécia e
para esse fim, adestrou desde logo a cidade, prevendo de longe, o que iria
acontecer.

Milcíades

 

(3)   Terceiro ano da septuagésima segunda Olimpíada,
ano memorável
em que começou o grande brilho da Grécia.

VII. Por esse motivo, antes de mais nada, em
relação aos Atenienses que tinham antes o costume de distribuir entre si o
rendimento anual retirado das minas de prata, localizadas em um local da
Ática, chamado Laurium, foi ele o único que ousou demonstrar.ao povo a necessidade
de para o futuro, suspender-se essa distribuição para empregar-se o dinheiro na
construção de galeras em grande número para a guerra contra os eginetas (4) a
qual, por esse tempo, era a que mais pesava sobre toda a Grécia, em virtude de
terem estes todo o mar em seu poder, tal era a quantidade de seus navios. Foi assim
que Temístocles persuadiu mais facilmente seus concidadãos daquilo que
pretendia nesse momento, sem ameaçá-los com o rei Dario nem com. os persas, porque
estes estavam muito longe, e não havia receio, ao menos perfeitamente
fundamentado, de que eles estivessem para vir, mas usando, oportunamente do
ódio e do ciúme"dos atenienses em relação aos eginetas. Do dinheiro em
questão foram construídas cem galeras com as quais combateram e derrotaram, por
mar, o rei Xerxes. E depois desse começo, atraindo aos poucos seus concidadãos
e fazendo-os tender para.a marinha, mostrando-lhes como por terra eram. eles
apenas bastante, fortes para enfrentar seus semelhantes, enquanto com o poder
que podiam adquirir no mar, sê-lo-iam não só. para defender-se dos bárbaros,
mas também para impor a lei ao resto da Grécia, conseguiu assim fazê-los
marinheiros e gente do mar, como diz Platão, ao passo que antes eram bons e
rudes campeões de terra firme. Isso deu matéria aos seus inimigos para
censurá-lo, mais tarde, por. ter ele tirado ao povo de Atenas a lança c o pavês
para reduzi-lo ao banco e ao remo, seduzindo-o, em oposição a Milcíades que o
contradizia nisso, como diz Estesimbroto. Se agindo assim foi ele causa de
corromper-se a nitidez e pureza da coisa pública ou não, deixo a disputa ao
filósofos, mas que a preservação da Grécia foi devida, todavia, por essa vez, à
marinha, e que as galeras foram causa da recuperação de Atenas, além de outras
provas que se possam aduzir, o próprio Xerxes o testemunhou, quando, com seu
exército de terra, ainda inteiro, fugiu ao ver o do mar rompido e desfeito,
como se confessasse não estar mais bastante forte para combater os gregos,
deixando, a meu aviso, na Grécia, Mardônio, seu lugar-tenente, mais para
impedir que os gregos o perseguissem, do que por esperança de subjugá-los.

(4)   Em grego: "esta guerra estava por então em toda
sua força e os eginetas tinham todo o mar em seu
poder".

VIII. Escrevem alguns de
Temístocles (5) que era avidamente interessado no ganho, preocupando-se muito
com isso, porque despendia regiamente e gostava de oferecer, freqüentemente,
sacrifícios e de recolher e tratar com distinção os estrangeiros, razão pela
qual se fazia mister fosse diligente e ardoroso em acumular, para poder fazer
face às suas despesas. Outros, ao contrário, o censuram por ter sido mesquinho
e prático, ao ponto de fazer vender os presentes de comestíveis que lhe faziam.
Pediu, de certa vez, um potro como donativo, a alguém de nome Dilfilides,
possuidor de uma coudelaría. Recusando-lhe este, secamente, o pedido, foi
Temístocles tomado de tão grande despeito, que o ameaçou de transformar-lhe a
casa, antes de muito tempo, no cavalo de madeira com o qual Tróia foi tomada,
querendo abertamente, dar-lhe a entender que em breve lhe suscitaria
processos e choques contra seus próprios parentes e mesmo contra seus criados.

(5)   No grego: que ele procurava todos os meios de
ganhar dinheiro
porque,  etc

IX. Não há dúvida que ele era o homem mais ambicioso
do mundo. Ao tempo de sua juventude, ainda pouco conhecido, solicitou, com
grande insistência, a um excelente tocador de citara, então em voga em
Atenas, chamado Epicles, natural de Hermione, que viesse à sua casa para exercer
e mostrar sua arte, a fim dê que muita gente, com vontade de ouvi-lo,
procurasse sua residência e viesse a ele. Tendo do certo ano a festa e
assembléia dos jogos olímpicos, quis manter casa aberta a todos os
adventícios, com tendas ricamente decoradas e demais brilho de vida e de
equipagem, à maneira de Cimon. Isso desagradou os gregos os quais consideravam
essa despesa adequada e permissível a Cimon, em virtude de sua juventude e de
sua alta linhagem, mas a ele que era homem novo e se fazia grande, mais do que
seus bens e faculdades autorizavam, e mais do que lhe cabia, não somente deixou
isso de ser-lhe louvado, mas foi considerado vangloria e presunção. Outra vez ele
custeou uma tragédia, representada publicamente, ganhando o prêmio. Sendo já a
esse tempo, a honra de vencer em tais jogos muito invejada e calorosamente
disputada em Atenas, fez pintar sua vitória em um quadro que dedicou e mandou
pendurar   num   templo,   com   a   seguinte   inscrição:

«Temístocles Freariano
custeou,
 Frínico a compôs,
Adímanto era arconte (6)»

X.      Apesar disto ele agradava ao povo comum, em
parte porque saudava cada cidadão pelo nome próprio, sem que ninguém o ajudasse
a nomeá-los, e em parte também porque se mostrava juiz reto nos negócios
particulares, como respondeu um dia ao, poeta: Simonides, natural de Quio, que
lhe requeria qualquer coisa desarrazoada, quando governador da cidade: «Não
serias bom poeta se cantasses contra as regras da música, nem eu bom
governador se fizesse qualquer coisa contra as leis.» Uma outra vez, zombando
do mesmo Simonides, disse-lhe «que ele não era sensato em maldizer os
coríntios, visto que  eram senhores de uma tão grande e poderosa cidade,
nem em fazer-se retratar ao natural uma vez que era tão feio.»  

XI.      O certo è que,
adquirindo crédito, e tendo conquistado as boas graças da plebe, ele comprometeu
de tal forma à Aristides, que, ao fim, fê-lo expulsar e banir da cidade de Atenas
por cinco anos (7), E como o rei da Pérsia estivesse a caminho para vir fazer
guerra aos gregos, e os atenienses começassem a.deliberar a quem elegeriam por
chefe, conta-se que todos aqueles acostumados à política, sé recolheram temendo
o perigo, e não houve senão um orador chamado Epicides, filho de Eufemides,
homem eloqüente mas covarde no íntimo, e ávido de dinheiro, que se
apresentasse para pleitear esse cargo, com indícios de que ia. obtê-lo. Foi por
isso que Temístocles, temendo a geral perdição se a conduta da guerra viesse às
mãos de uma tal personagem, comprou a dinheiro de contado, a ambição de
Epicides, fazendo-o abandonar o intento.

(6).  No
texto: "prevost" — em nota: — "arconte".
(
7)   É um
erro de Amyot. O Decreto de ostracismo era de dez anos. Veja-se o próprio Amyot
na vida de Aristides. cap. XVII,

XII.      Louva-se também grandemente o seu procedimento
em relação ao intérprete que veio com os embaixadores do rei, para pedir água e
terra, isto é, inteiro reconhecimento e obediência dos gregos, porque ele o fêz
prender e punir de morte em decreto público, por ter ousado empregar a língua
grega na transmissão de ordens dos bárbaros. Foi também uma bela coisa, que a
instâncias suas, Ártmío, natural de Zeléia, fosse marcado dê infâmia cornos
filhos e toda sua posteridade, por ter trazido ouro do rei da Pérsia, para
seduzir e corromper homens da Grécia, Mas o maior e mais louvável de seus atos
nessa ocasião, foi o de acalmar e pacificar todos os.conflitos que os gregos
mantinham entre si, persuadindo às cidades que procrastinassem suas inimizades
até.o após-guerra, e consta que nisso, Quileu, arcadiano, o. auxiliou mais que
nenhum outro.

XIII.       Tendo então sido eleito capitão geral dos atenienses,
tratou; incontinenti, de fazer embarcar seus concidadãos nas galeras,
insistindo em que eles deviam …abandonar sua cidade, para; ir por mar, ao
encontro do rei dos bárbaros, o mais longe possível da Grécia, alvitre que o
povo não achou bom, razão pela qual Temístocles conduziu, por terra, boa tropa
de combatentes ao passo do Tempé  (8), com os lacedemônios, para defender contra
os bárbaros essa entrada da Tessália, a qual não se tinha ainda declarado pelos
medos, nem se bandeado com eles. Depois, entretanto, de se terem retirado os
gregos, sem nada fazer, e tendo os tessalianos tomado o partido do rei,
de tal forma que até o país da Beócia, todos se devotaram à causa dos bárbaros,
começaram então os atenienses, a achar boa a opinião de Temístocles, de querer
combater por mar, e o enviaram com os seus navios à cidade de Artemísio, para
guarnecer o estreito. Quiseram ali, os outros gregos que os lacedemônios e seu
almirante Euribíades, tivessem a preeminência no comando de todos, recusando-se
os atenienses a marchar sob a direção alheia, porque eles sozinhos, nesse
exército, tinham maior número de navios do que os outros gregos reunidos.

XIV. Temístocles, porém, prevendo o perigo iminente,
cedeu, voluntariamente, a Euribíades a autoridade do comando, e fez os
atenienses condescenderem com isso, prometendo e assegurando-lhes que se eles
se mostrassem gente de bem nessa guerra, os outros gregos, espontaneamente, se
submeteriam, depois à sua obediência. Revela-se aí ter  sido ele a principal
causa da salvação da Grécia, salientando a honra e a glória dos atenienses ao
fazê-los vencer os inimigos em coragem e os aliados e amigos em bondade. Tendo vindo entretanto, a armada barbaresca, ancorar ao lado da ilha dos Afetes (9),
e vendo Euribíádes de frente, tão grande número de barcos, espantou-se e
sabendo que havia ainda outros duzentos que iam por cima, contornar a ilha de
Ciate, quis imediatamente, retirar-se mais para dentro da Grécia, e
aproximar-se do Peloponeso, a fim de que o exército marítimo se mantivesse
perto do de terra, não considerando possível combater no mar, a força do rei
Xerxes. Em virtude disso, os habitantes da ilha de Eubéia, temendo que os gregos
os abandonassem, falaram secretamente com Temístocles, enviando-lhe boa soma de
dinheiro, por intermédio de um certo Pelagon, dinheiro esse que
"emístocles recebeu, como o escreve Heródoto, dando-o a Euribíádes. Havia,
porém, entre os cidadãos um de nome Aquíteles, capitão da galera que se denominava
sagrada, o qual resistia fortemente à sua orientação, e não tendo dinheiro para
pagar e entreter seus marinheiros, fazia todo o possível para partirem
depressa. Temístocles irritou sua gente contra ele, mais do que já estava, até
que correram sobre a sua galera, e lhe tomaram à força, seu jantar. Como Arquitetes ficasse
indignado e furioso, Temístocles enviou-lhe pão e carne num cesto, em cujo
fundo fez’ incluir um talento de prata (10),-dizendo-lhe para cear essa tarde,
preocupando-se no dia seguinte, em prover o pessoal de sua galera, senão
gritaria contra ele, e o acusaria aos seus concidadãos, de ter ..recebido dinheiro
dos inimigos. Assim o escreve Fanias de Lesbos.

(8)   O célebre vale de Tempé, o mais belo local da
natureza, tia
Tessália, cantado por todos os poetas
 (9)   É um engano de Amyot.   Aíetes que se chama hoje Fetio
é uma cidade da Maenésia, e não uma ilha.

XV. Enquanto isso os recontros que se davam
dentro do estreito de Eubéia, entre gregos e bárbaros, não eram de grande
conseqüência para a decisão de toda a guerra. Foi porém, como um ensaio útil para
os gregos, fazendo-os ver por experiência, e no perigo mesmo do combate, que a
grande quantidade de navios, a pompa c magnificência do seu equipamento, os
brados soberbos e os cantos de vitória dos bárbaros, não adiantavam nada contra
quem têm coragem de aproximar-se e combater mão a mão com o inimigo, e que não
se deve dar importância a tudo isso, mas sim avançar diretamente ao choque com
os homens é lançar-se ousadamente contra eles. O poeta Pindaro parece ter
entendido isso muito bem, quando diz referindo-se à batalha de Artemísio (11):

Os de
Atenas plantaram o glorioso fundamento da liberdade grega. Porque, sem sombra
de dúvida, a base da vitória é a firmeza,
Este lugar, Artipísio, é uma costa da ilha de Eubéia (12) voltada para o
Norte, acima da cidade de Estiae, fronteira â região que obedecia, outrora, a
Filoctetes, exatamente diante da cidade de Olison e onde há um templo de Diana,
cognominada Oriental, não muito grande, circundado de árvores e envolto por um
círculo de colunas de pedras brancas que, ao atrito da mão tomam a cor e
produzem o cheiro do açafrão. Há em uma delas uma inscrição em versos elegíacos
nos termos seguintes:

Depois de
ter, outrora em choque marcial, batido no mar, aqui em frente, nações da Ásia
em número infinito, os heróis, filhos de Atenas, fizeram  edificar, em memória
do fato, este monumento, à Diana, a santa,  … quanto por eles foi, de fato,
destruído o exército dos orgulhosos Medos. .

Mostra-se ainda hoje naquela costa, um lugar,
onde há, no meio de muita areia, um pó escuro como cinza,, avançando bem para
dentro da terra, pensando-se que seja ali o local em que eles queimaram os
mortos e as relíquias dos naufrágios.

(10)  
Atualmente 4.668 Libras da nossa moeda.(11) Esta batalha em que os Persas foram
vencidos, deu-se
no primeiro ano da septuagésima-quinta Olimpíada, 480 anos A.  C.
 (12)  " Artemísio
é um promoutório da ilha de Eubéia, atualmente Negroponto
.    

XVI. Tendo, porém, chegado
a notícia do que acontecera no passo  das Termópilas,  onde o rei Leônidas
morrera, e de como Xerxes tinha conquistado aquela entrada por terra,
retirou-se então o exército de mar, mais para dentro da Grécia, tendo-se
colocado os Atenienses na retaguarda, últimos de todos, como quem tinha o
coração alto, pela glória das proezas já praticadas. Passando Temístocles ao
lado dos locais onde era necessário que os inimigos abordassem e se
recolhessem a abrigo, gravou em letras grandes e grossas sobre as pedras que
ali encontrava, por acaso, ou que fazia trazer expressamente aos mencionados
lugares, onde o abrigo era bom para os navios, ou onde havia comodidade para
aprovisionamento de água, palavras dirigidas aos Jônios incitando-os a
voltar-se para o lado dos atenienses, que eram seus ancestrais e fundadores, e
que combatiam pela liberdade, ou, pelo menos, a criar alguma dificuldade e a
fazer o maior mal que pudessem ao exército dos bárbaros quando viessem a
combater. Ele esperava com isso, fazer os Jônios passarem para seu lado ou,
quando nada, colocar os bárbaros em situação de desconfiança frente a eles.

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