jul 182012
 
Dr. Aluísio Telles de Meirelles.

Fonte: Manual do Executivo. 
Novo Brasil editora brasileira.
   
 

GREGOS E ROMANOS

Da Grécia ao Império Romano

NA GRÉCIA, país extremamente montanhoso, o mar penetra profundamente, pelos golfos ramificados; por sua vez a terra firme é dividida em inumeráveis ilhas e penínsulas que a protegem contra a tempestade e o furor das ondas. Essa a razão por que tal região sempre se prestou muitíssimo para a navegação.

As viagens marítimas eram já naquela época familiares aos gregos, embora eles não se arriscassem ainda a empresas mercantis de grande envergadura, devido a que o domínio do mar pertencia aos fenícios, que o asseguravam pela força.

Só mais tarde, quando os reis assírios e egípcios começaram a impor domínio sobre os fenícios, é que as

< idades gregas conseguiram se libertar das cadeias da hegemonia mercantil fenícia.

Enquanto isso, as regiões litorais da bacia mediterrânea oriental iam-se povoando de elementos gregos, o tràfico intensificando-se em todos os sentidos, os produtos gregos no estrangeiro tendo mercados assegurados. Assim, a atividade industrial tomou considerável impulso na Grécia, que se transformou de país agrícola em

Estado industrial e mercantil.

Conquista a sua hegemonia política sobre o mar, depois do levante jónico e das guerras dos persas, a Grécia conseguiu então o domínio mercantil da sua época.

Atenas passou então à invejável posição de metrópole do tráfico. Assim, ousadamente, os gregos visaram países longínquos. Cansados já das imposições fenícias, trataram de estabelecer imediato contacto com as caravanas que os mercadores fenícios haviam dirigido para

o seu Estado litoral.

As colônias fundadas no Mar Negro, as feitorias estabelecidas em Cirene e na desembocadura do rio Nilo, foram desde então a meta das expedições mercantis procedentes do interior da Ásia.

As mercadorias procedentes da Índia e da China passaram então a descrever um arco em torno dos portos fenícios, e chegando até o mar sem utilizar as funções intermediárias do mercador fenício, punham-se em mãos dos navegantes gregos.

O solo grego nunca se prestou para a agricultura, devido à sua pobreza e infecundidade. Não obstante, produziam mel, azeite e vinho que eram produtos sempre cobiçados. Igualmente os produtos artísticos adquiriram grande desenvolvimento entre os helenos.

Em Atenas, as fábricas de couros, as fundições, manufaturas de armas eram produtos fabricados para exportação. Possuía ainda grande importância a fabricação de objetos de cerâmica.

Com efeito, graças à sua magnífica argila, conseguiu Atenas conquistar os mercados estrangeiros com relativa facilidade. Com os produtos da sua variada indústria, inundaram os helenos todos os postos de comér-rio, cada vez mais os portos fenícios se iam enfraquecendo em face da competência dos gregos.

A época grega, comparada com o período fenício precedente, trouxe consigo um notável desenvolvimento «las rotas do comércio mundial. As praças do mar Negro, principalmente, ofereceram aos gregos magníficas opor-

t unidades para adquirirem toda uma série de artigos mercantis de primeira necessidade.

Com efeito, daquelas regiões Atenas recebia a madeira de construção para os seus arsenais, além dos produtos necessários para equipar suas naves como o cânhamo, o alcatrão, a cera e o couro.

À medida que fòi crescendo a atividade fabril, desempenhou um papel cada vez mais assinalado a impor-lação de escravos, principalmente da Trácia, sendo, daí por diante, maior a necessidade de trazer das colônias artigos alimentícios.

Atenas recebia dos povoados do mar Negro a maior parte dos cereais que necessitava, bem como carnes e peixes.

Em pouco tempo os gregos, à semelhança dos fenícios, JA não se contentavam e não se limitavam ao comércio do mar Egeu. Começaram também a abastecer-se com produtos orientais das localidades do Ocidente — o norte <la África, a Sicília e a Baixa Itália e ainda o sul da França.

Entre as cidades sicilianas que quase exclusivamente deveram a sua importância à abundância em produtos naturais, foi Siracusa, uma das cidades mercantis mais esplêndidas da antigüidade.

Assim, os gregos levaram até aos longínquos mercados do Ocidente mediterrâneo a sua competência, tão perigosa para os fenícios. Estes deram sua influência até  o sul da Espanha e começaram depois a explorar as regiões da desembocadura do Ródano, onde fundaram uma importante praça mercantil: Massília, hoje Marselha.

Filipe II e Alexandre Magno imprimiram um considerável progresso na estrutura do tráfico mundial elevando a Macedônia à categoria de Estado diretor da política da Grécia e criando um centro comum para as localidades geográficas e politicamente diferentes.

Alexandre abriu novos caminhos ao comércio mundial, levando os costumes e a cultura grega ao coração da Ásia. Suas expedições guerreiras foram ao mesmo tempo viagens de exploração, que permitiram o conhecimento das rotas seguidas pelas caravanas da Ásia interior.

As cidades fundadas por Alexandre com finalidades militares, converteram-se mais tarde em centros de colonização grega, pois não menor que o seu interesse estratégico, era sua posição mercantil por estarem situadas na desembocadura de grandes rios ou nas passagens de altas montanhas.

Muitos e muitos emigrantes gregos chegaram às cidades recém-fundadas, ficando assim todo o oriente incluído dentro da esfera cultural dos gregos.

A época macedônica trouxe ainda grande progresso, fazendo com que o mercador grego abandonasse o antigo sistema até então seguido, deixando de ser apenas intermediário, para penetrar por suas próprias forças até os grandes mercados do interior da Ásia.

Já nessa época se manifestava um deslocamento na situação mundial e mercantil; a Grécia não mais se achando no centro da política e do tráfico. Atenas lutando em vão por manter sua privilegiada posição mercantil e marítima.

Assim, a vida comercial do povo grego foi se modi

f ícando gradativamente, tornando-se diferente, enquanto novas praças mercantis iam surgindo em seguida.

Após a morte prematura de Alexandre, seu império mundial foi se desintegrando, muito embora não se perdesem os progressos conseguidos em sua época.

Alexandria, fundada na costa, vasta, de um país riquíssimo, na desembocadura de seu único rio, no limite de duas partes do mundo e unido por um mar mediterrâneo sumamente irregular, desenvolveu-se com extrema rapidez, convertendo-se logo, não só em magnífico centro de arte e ciência, como também na praça comercial mais grandiosa do mundo antigo.

Quanto à península italiana, seu povo dedicou-se a cultivar os vales profundos, a revestir as encostas de suas montanhas de parreiras e oliveiras e a criar cabras e ovelhas nas elevações calcárias, a agricultura e a criação servindo assim de base social aos seus habitantes.

A atividade industrial e mercantil desenvolveu-se primeiramente entre os etruscos, que imprimiram desde muito cedo um grande desenvolvimento à indústria metalúrgica e à confecção de objetos de cerâmica.

Cerca do segundo milênio antes de Cristo, os etruscos entraram em contacto com os fenícios e com o Oriente, fornecendo a esses povos vasos, armas e utensílios de bronze.

A partir dessa época, os etruscos aparecem juntamente com os fenícios e os gregos como uma das nações marítimas mais importantes da antigüidade.

O progresso dessa nação deu motivo igualmente de uma maior extensão do seu domínio político e em pouco

a Etrúria dominava toda a península itálica. Não obstante, sucumbiu, em face dos ataques conjuntos dos seus inimigos exteriores.

A Icália passou então a ser dominada por Roma e sua intervenção na Sicília deu lugar a um choque com o estado semita marítimo que ficava na costa norte da África, Cartago, que tinha-se mantido com seu esplendor colonial um último resto do domínio mercantil fenício.

Cartago, por sua situação super-favorável sobre um promontório da costa africana, no fundo do vasto golfo de Tunis, oferecia vantajosa situação para as relações mercantis.

Naturalmente que as zonas do Mediterrâneo oriental lhes estavam vedadas, pelo exclusivo domínio que ali exerciam os gregos; em compensação, na bacia ocidental seu comércio adquiriu caráter de verdadeiro monopólio. Também no interior da África penetraram as caravanas cartaginesas, trocando produtos de sua atividade fabril por marfim, ouro, sal.

Tal situação permaneceu até que surgiu o inevitável: chocaram-se os cartagineses com os romanos. Como se sabe, Cartago sucumbiu ante os romanos e a recém-for-mada frota romana foi portadora da sua grandeza mundial.

Roma pouco tinha para exportar. Somente azeite e vinho. Os artigos de consumo, em sua grande maioria, eram importados das províncias de ultra-mar e pagos com o dinheiro arrancado das populações submetidas.

Um aumento dos negócios se verificou, naturalmente. A plutocracia romana criou uma ilimitada economia monetária que abrangeu todo o mundo conhecido. E o comércio floresceu. No entanto, a falta de uma base industrial tornou a sua balança mercantil passiva, fazendo com que a prosperidade da Itália se perdesse, apesar dos tesouros que afluíam constantemente para ali.

Então, o comércio no mar Mediterrâneo conheceu um desenvolvimento inigualável, as províncias atingiram o máximo de desenvolvimento, caíram as barreiras que antes separavam os países e a plena liberdade de tráfico beneficiou a todos, de maneira estupenda.

O Mediterrâneo converteu-se então em um mar puramente latino, no qual se dava um intercâmbio universal de cultura, tanto na ordem espiritual como mercantil.

A Sicília, nessa época, constituía um verdadeiro depósito de Roma, a qual oferecia ou fornecia comestíveis de todo gênero — frutas, trigo, reses, etc.

A Espanha enviava lãs, Marselha remetia o toucinho e carnes salgadas, os países orientais enviavam vinho, mel, ostras, aves, etc. A Frigia fornecia seus mármores, que em forma de gigantescos blocos e colunas, foram empregados em magníficas construções.

A maior parte das cidades gregas de então foram caindo de importância, até mesmo Atenas, que afastada das grandes vias mercantis, não exercia outra atração que a de ser metrópole intelectual do mundo.

Alexandria, no Egito, com a conquista do país pelos romanos, adquiriu então um grande prestígio comercial. A fabricação egípcia de linhos manteve a sua fama; seus fornos de cristal adquiriram especial importância para o comércio de exportação, a mesma expansão atingindo as fábricas de papel que davam serviço a um grande número de operários.

Igualmente, os produtos da fabricação de bálsamos o inccnsos, bem como os trabalhos em granito, converteram-se em artigos de exportação muito procurados.

Assim, Alexandria se converteu em uma das capitais do império romano, uma potência quase equiparada a Roma. Todo o comércio com mercadorias asiáticas e árabes era dirigido exclusivamente por Alexandria, o que deu lugar a que perdessem sua importância os portos fenícios.

A evolução do comércio mundial acelerou-se quando o mar Mediterrâneo deixou de ser a única linha mercantil entre o Oriente e o Ocidente.

Além das regiões, antes mais ou menos exploradas dal Ásia, foram unidas pelo comércio romano as longínquas! localidades situadas ao Norte, quando as legiões romanasl se assentaram firmemente no Danúbio e no Reno e construíram todo um sistema de vias artificiais.

Ao longo de ambos os rios, estabeleceram-se em povoados, ricos comerciantes romanos, que faziam levar suas mercadorias às tribos germânicas, valendo-se de mercadores ambulantes.

A esses perigosos vizinhos só não fornecia Roma ferro e armas. Em compensação, utensílios domésticos, vestidos, objetos de cerâmica, e de vidro, assim como miudezas de toda espécie, passavam freqüentemente as fronteiras, em direção à Germânia.

Esse comércio de exportação não durou muito tempo, pois daí a pouco o Norte, embora atrasado fornecia à degenerada linhagem de Roma, certos artigos de luxo, muito cobiçados.

O principal meio de troca empregado no comércio, consistia, da parte germânica, em cavalos, vacas, ovelhas, porcos, etc. Adquiriram-se, principalmente, para os cavaleiros romanos, os cavalos da Tuvíngia, de grande resistência.

 

abr 302011
 

OS DOZE TRABALHOS DE HÉRCULES, O HERÓI TEBANO (MITOLOGIA GREGA)

HÉRCULES, ou Alcides, filho de Júpiter e Alcmena, estava ainda no berço quando  Juno, sua inimiga, enviou duas serpentes para devorá-lo. Mal ele as percebeu, agarrou-as com as suas mãos infantis, e sufocou-as.

Vários mestres teve Hércules: com Eurito aprendeu a manejar o arco, com Castor a combater todo armado, com Autólico a conduzir um carro de guerra, com Lino a tocar lira e a cantar. Confiado, a seguir, ao centauro Quíron, tornou-se o homem mais valente e mais famoso de seu século.

O ruído de sua fama depressa chegou aos ouvidos de Euristeu, rei de Micenas, ao qual Hércules, por um decreto da Sorte, encontrava-se submetido. A Sorte declarara "que aquele dos dois príncipes que nascesse por último, obedeceria o outro", e Juno, que detestava a família de Hércules, fêz avançar de dois meses o nascimento de Euristeu.

Aquele tirano chamou-o à sua corte, recebeu-o com rispidez, e deu-lhe ordens terminantes para executar doze empresas perigosas, os chamados trabalhos de Hércules, dos quais vamos fazer a descrição:

1.° — Havia, junto da cidade de Neméia, um leão que despovoava os campos. Aquele animal, nascido do gigante

Tífon, era de tamanho prodigioso, e espalhava o terror pelos arredores. Hércules, que mal fizera dezesseis anos, atacou-o, esgotou seu carcaz contra a pele impenetrável do animal, quebrou contra êle sua clava de ferro, e, por fim, sufocou-o entre os braços. A pele daquele leão serviu-lhe de vestimenta, dali por diante.

2.° — Uma hidra assustadora desolava toda a região de Lerna, .junto de Argos. Tinha aquele monstro sete cabeças, e quando uma delas era cortada, duas ou três renasciam no mesmo lugar. Hércules decepou-as todas, de um só golpe.

Os sábios acreditam que aquela Hidra de muitas cabeças não era senão uma porção de serpentes venenosas, que infestavam alguns alagadiços, próximo de Lerna, e pareciam renascer à medida que eram destruídas. Hércules imaginou deitar fogo aos juncos que lhes serviam de refúgio, e com esse expediente desembaraçou a região de tais reptis.

3.° — Euristeu ordenou-lhe que agarrasse e trouxesse, viva, uma corça de ouro, com pés de bronze, habitante do bosque do Monte Ménalo, e que corria com incrível velocidade. Hércules perseguiu-a sem cessar, durante doze meses, fê-la cair numa armadilha, e levou-a viva para Euristeu.

4.° — Teve ordem para livrar a Arcádia de um javali furioso, que devastava aquela província. Hércules agarrou-o na floresta de Erimanto, e levou-o a Euristeu, que, apavorado ao ver aquilo, foi esconder-se dentro de uma cuba de bronze.

5.° — Encarregou-se de uma empresa tão repugnante quanto difícil. Augeias, rei * da Elida, tinha um rebanho de três mil vacas, cujos currais havia trinta anos não sofriam limpeza. Hércules, para desinfetar a região, desviou o curso do rio Alfeu, e fê-lo passar através dos currais. A água arrastou as imundícies, e aquele trabalho foi, para êle, obra de um só dia.

6.° — Aves monstruosas, as Harpias, que viviam de carne humana, habitavam junto de um lago chamado Estinfalo, na Arcádia. Suas asas, sua cabeça, seu bico, eram de ferro, e suas garras mais aduncas do que as garras dos abutres. Hércules assustou-as, batendo címbalos de bronze, e expulsou-as do bosque onde elas se escondiam, abatendo-as, assim, a flechadas.

7.° — Minos, rei de Creta, via seu estado destruído por um touro selvagem, que Netuno para ali mandara, vingando-se por não ter recebido o sacrifício de um touro prometido por aquele soberano. Hércules agarrou o animal furioso, prendeu-o, e foi oferecê-lo a Euristeu.

8.° — Diomedes, rei da Trácia, possuía cavalos ferozes, cujas bocas deitavam chamas, e que seu dono nutria com carne humana. Hércules apoderou-se desses cavalos, que se chamavam Podargo, Lampo, Xanto e Dino, e deu-lhes o próprio Diomedes como alimento, sendo que eles o devoraram num abrir e fechar de olhos.

9.° — As Amazonas eram mulheres guerreiras, que viviam na Ásia Menor, ao longo das costas do Ponto-Euxino. Matavam ou estropiavam os filhos varões, e criavam cuidadosamente suas filhas nas profissões das armas. Euristeu mandou que Hércules as dominasse, e lhe trouxesse o cinto de Hipó-lita, sua rainha: expedição difícil e longínqua, para a qual Hércules desejou a companhia de Teseu, seu amigo mais valente. Chegando juntos à costa da Capadócia, atacaram aquela nação de mulheres, mataram uma parte delas, dispersaram o resto e levaram, prisioneira, a rainha Hipólita.

10.° — Gérion, rei da Bética, era um gigante de três corpos, que governava três ilhas, Ebusa, Maiorca e Minorca, e fazia com que um cão de sete cabeças guardasse, dia e noite, seus ricos rebanhos. Hércules teve ordem para ir combater aquele rei, tomar-lhe os rebanhos, e levá-los para a Grécia. Secundado por Iolas, seu parente, executou aquela nova tarefa, com pleno sucesso.

11.° — Passou, em seguida, para a Mauritânia, a fim de ali roubar as maçãs de ouro do jardim das Hespérides. As Hespérides chamavam-se Egle, Aretusa e Heseretusa. Seus jardins ficavam perto de Lixa, uma cidade da Mauritânia. Suas macieiras, que produziam pomos de ouro, ficavam confiadas à guarda de um dragão, filho de Tífon e de Equidna, que tinha cem cabeças e cem vozes. Recebendo ordem de Euristeu para roubar as maçãs, Hércules aprendeu com Prometeu o lugar exato onde elas estavam, bem como a forma de acabar com o temível dragão. Atlas, para fa-

cilitar a realização da tarefa de Hércules, adormeceu o dragão, e colheu as maçãs de ouro, enquanto Hércules, por sua vez, sustentava o céu, em lugar dele, sobre seus ombros.

12.° — O último daqueles tremendos trabalhos impostos pelo perverso Euristeu, foi também o mais rumoroso. Euristeu ordenou-lhe que descesse ao Tártaro, parte dos infernos onde os culpados recebiam seus castigos. Guardava-o o cão Cérbero, de cujas fauces corria veneno e de cujo pescoço pendiam serpentes. Hércules desceu ao pavoroso lugar, encadeou o monstro guardador do sombrio império, e arrastou-o, apesar de sua tenaz resistência, para fora do domínio dos infernos.

Através daqueles doze trabalhos adquiriu Hércules infinita glória. Todos os príncipes respeitaram-no e temeram-no. O próprio Euristeu, que o expusera a tantas provas, começou a ter medo dele. Hércules, entretanto, desdenhando uma vingança fácil, ocupou-se apenas de exterminar os celerados e os tiranos aos quais a terra estava entregue.

Busíris, rei do Egito, imolava sem piedade a Júpiter todos os estrangeiros que abordavam em seus Estados, e preparou para Hércules idêntico tratamento. O herói, sem se defender, deixou-se acorrentar e conduzir ao altar onde seu sangue deveria correr. Apenas ali chegou, entretanto, rebentou seus ferros, agarrou a faca do sacrificador, e massacrou Busíris e toda a família real.

Caco, ladrão famoso, filho de Vulcano, morava junto do monte Aventino, um dos sete da cidade de Roma. Vivia no fundo de um antro, de onde não saía senão para desolar a região com seus assaltos. Monstro, meio homem, meio sátiro, de colossal estatura, sua boca vomitava turbilhões de fogo, e sua caverna estava juncada de esqueletos humanos. Certo dia, Caco ousou zombar de Hércules, roubando-lhe alguns bois. Para que as pegadas não o denunciassem como autor do roubo, trouxe os animais, recuando, para dentro de sua caverna. Seus mugidos, porém, na manhã seguinte, orientaram Hércules, que os procurava. Caco tudo fêz para defender seu refúgio, inclusive tentando vedar-lhe a entrada com uma pedra monumental. Inútil resistência, pois que Hércules rebentou a pedra, e, apoderando-se de Caco, matou-o, livrando a vizinhança de suas ignóbeis proezas.

Anteu, filho de Netuno e da Terra, era rei da África, e tinha cem pés de altura. Emboscava-se nas areias da Líbia, e acometia os viajantes que por ali passavam, constrangendo-os a lutarem com ele, e esmagando-os com o peso de seu corpo imenso.

Era atleta tão hábil que fizera a promessa de um templo a Netuno, seu pai, templo que seria construído só com os crânios dos adversários que vencera. Hércules, provocado para o combate por aquele terrível gigante, abateu-o, mas em vão, porque a Terra, sua mãe, dava-lhe novas forças de cada vez que ele a tocava. Percebendo aquilo, Hércules levantou-o no ar, e sufocou-o entre seus braços.

Depois de luta assim penosa, Hércules, cedendo à fadiga, adormeceu sobre a areia, e foi assaltado, durante seu sono, pela tribo dos Pigmeus. Os Pigmeus, povo anão, tinham apenas um pé de altura, construíam suas casas com cascas de ovos, viajavam em carros puxados por perdizes, e cortavam seu trigo com machados, como faríamos nós com uma floresta. Quando os grous ou outros pássaros lhes faziam guerra, eles armavam-se com todas as suas peças, e, assim equipados, iam ao encontro do inimigo.

Tomaram, para atacar Hércules, as mesmas precauções que se toma para fazer o cerco de uma cidade. As duas alas daquele exército liliputeano atacaram cada um dos braços. O corpo de batalha deu assalto à cabeça, e os arqueiros dirigiram suas flechas para o peito do herói.

Acordando com aquele ruído todo, Hércules desatou a rir, e, envolvendo aquele formigueiro militar em sua pele de leão, levou-o, vivo, para Euristeu.

Enfim, tendo penetrado, em suas expedições, até Gades, nos limites da Espanha, pensou ter atingido os confins do mundo, e separou duas montanhas, Calpo e Ábila, uma das quais ficou ao lado da Espanha e a outra do lado da África, para pôr em comunicação o Oceano e o Mediterrâneo, o que hoje é o estreito de Gibraltar. No alto daquelas montanhas levantou duas colunas, as chamadas Colunas de Hércules, destinadas a mostrar às raças futuras que até ali ele levara suas vitoriosas empresas. E ali gravou a inscrição que, em palavras latinas, tornou-se proverbial: "Nec plus ultra" — "Não se pode ir mais além".

As espantosas façanhas de Hércules foram contadas a Ônfale, rainha da Lídia, que desejou ver o incomparável herói. Desde a primeira entrevista ela amou-o, e foi por êle amada. O filho de Alcmena, apaixonado pela beleza da soberana, desceu, para lhe ser agradável, à mais servil condescendência, a submissões indignas de sua glória. Ônfale manda, Hércules obedece.

Ela o -despoja de sua pele de leão, atira fora sua clava nodosa, quebra suas flechas, veste-o com roupas femininas, põe nas mãos dele a roca e os fusos, manda que trabalhe. Com aquelas mesmas mãos que venceram monstros, Hércules fia a lã para divertir a mulher caprichosa, que goza com o seu embaraço, e lhe dá pancadas com suas pantuflas de seda, de cada vez que êle tem a infelicidade de romper ou emaranhar o fio.

Mal tinha êle conseguido sacudir aquele jugo aviltante, quando concebeu violenta paixão por Djanira, filha de Baco e de Altéia, a esposa do rei Eneu, da Etólia. Djanira era noiva de Aquelóo, rei de uma parte da Etólia. Hércules e êle tiveram um duelo, disputando sua amada, e Aquelóo, vendo que seu rival era mais poderoso, transformou-se primeiro em serpente, e pensou apavorar o herói com seus silvos espantosos. Hércules agarrou-o pela garganta, e ia sufocá-lo, quando êle transformou-se em touro. Hércules, sem se emocionar, agarrou-o por um dos chifres, e não o largou enquanto não conseguiu arrancá-lo. As ninfas apanharam aquele chifre, encheram-no de flores e frutos, fazendo dele a Cor-nucópia da Abundância.

Vencedor de Aquelóo, Hércules levou Djanira para Ti-rinto, e foi detido às margens do Eveno, que as chuvas tinham engrossado. Não sabia que partido tomar, temendo expor Djanira à correnteza. O centauro Nesso, que ali se encontrava, e que conhecia os pontos vadeáveis do rio, ofereceu-se para transportar às costas a jovem princesa. Hércules confiou-lha, mas não sem inquietude. Atira para a outra margem seu arco e sua clava, conserva seu carcaz, e atravessa o rio a nado. Chega à margem oposta, quando ouve gritos de Djanira, que chama por êle, pedindo-lhe socorro. O centauro raptava-a, e empreendia a fuga.

— Temerário! — grita-lhe Hércules — a velocidade de teus quatro pés pode evitar que eu te persiga, mas não poderá evitar que as minhas flechas o façam.

Imediatamente, lança uma delas, que atravessa o outro, de lado a lado. A flecha estava envenenada. Nesso, morrendo, pensa em vingar-se: toma sua túnica, empapada de sangue e veneno, entrega-a a Djanira, persuade-a de que aquele trajo tem a propriedade de reavivar a ternura conjugal e de fazer voltar às esposas os maridos infiéis.

Alguns anos mais tarde, Djanira tenta usar aquele presente. Tendo sabido que Hércules fora retido em Eubéia, junto de Iole, filha de Eurito, enviou àquele esposo inconstante a túnica de Nesso, por intermédio de Lichas. Hércules recebe com alegria o presente inesperado. Mal, porém, a vestimenta fatal tocou seu corpo, sentiu-se devorado por um fogo interior: o veneno penetrara até o caudal de suas veias. Cheio de raiva, fora de si, agarrou Lichas e precipitou-o ao mar. As dores tornavam-se cada vez mais ardentes, e êle soltava gritos pavorosos, vomitando impecrações contra Euristeu, contra Juno e contra Djanira.

Quando viu que o mal era sem remédio e a morte aproximava-se, cortou árvores do monte Eta, levantou ali uma pira, cobriu-a com a pele do leão da Neméia, deitou-se sobre ela como sobre um leito, a cabeça apoiada sobre sua clava, e ordenou a Filoctetos que pusesse fogo ao todo. Já as chamas envolviam a pira, e os deuses, no alto do Olimpo, viam com dor perecer um herói que tantos serviços prestara a humanidade.

— Não temais — disse-lhes Júpiter. — Hércules sairá vencedor daquelas chamas. A vida que de mim recebeu não terminará. Purificado pelo fogo da pira, será colocado entre nós, nas moradas celestes, e todos vós aprovareis tal distinção, pois que ela é bem merecida.

Todos os deuses concordaram com a apoteose de Hércules, e a própria Juno deu seu consentimento, entregando-lhe por esposa sua filha Hebe, deusa da Juventude.

Iolas, sobrinho e amigo de Hércules, tinha acompanhado este último nas mais difíceis missões, combatendo junto dele, e exibindo, em todas as batalhas, tanto devotamento como coragem. Separado de Hércules, voltou sua solicitude para a família daquele semideus, então decadente e desesperada. Reuniu os descendentes do herói, os chamados Heráclides, levou-os a tomar armas, exaltou-lhes a coragem, avançou à frente deles contra Euristeu, em Argólida.

Com o reforço de um exército ateniense, Iolas deu combate terrível ao terrível Euristeu, que ali sucumbiu, com seus cinco filhos.

Fonte: Maravilhas do conto mitológico. Adaptação de Nair Lacerda. Cultrix, 1960.

fev 032011
 
maravilhas antigas da civilização

OBSERVAÇÕES – Observações de Clavier, Vauvilliers e Brotier para as Vidas de Plutarco traduzidas em francês por Amyot

SOBRE A VIDA DE DION

CAP. XXVI. — Na frase grega não seria impossível que a palavra de velhice se referisse a Dion, embora pareça naturalmente referir-se a Platão. Os sábios dividiram-se a este respeito. Mas, seguindo uma versão mais exata dos manuscritos, percebe-se que a frase de Amyot não é boa, e de preferência assim se há de traduzir: Platão não tendo querido imiscuir-se, por respeito à hospitalidade e por causa da sua velhice. Platão morreu no primeiro ano da 108.ª olimpíada, no 82º ano da sua idade. Êle tinha, portanto, nascido no 3.« ano da 87." olimpíada, e por conseguinte, êle tinha 71 anos, quando Dion começou seus preparativos de guerra contra Dionísio, no 3.º ano da 105.ª olimpíada. Era, pois, bem uma idade para não se intrometer mais em semelhante empreendimento. Quanto a Dion. eis aqui duas testemunhas decisivas. Platão diz positivamente, em uma das suas cartas, que, quando êle foi pela primeira vez ter com Dionísio, o Moço, Dion começava a ser homem feito. Dionísio subiu ao trono no 1.« ano da 103.ªolimpíada. Dion chegou à Sicília para atacá-la, no º ano da 105.º. O intervalo é só de onze anos. Êle não podia, portanto, ser um velho. Cornélio Nepos confirma fortemente nossa conclusão, dizendo-nos que Dion foi morto aos 55 anos. Ora, êle foi assassinado no 3.º ano da 106.ª olimpíada, cinco anos depois da época que aqui estamos discutindo. Êle tinha, portanto, cinqüenta anos. quando fazia seus preparativos. Assim, no Capítulo XXIX, pág. 41 no lugar dessas palavras, homem já idoso e passado, seria preciso traduzir-se: Homem que havia passado a primeira flor da idade.

CAP. XXXI. — Seria preciso, pelo menos, escrever A Puglia, o texto grego diz a Iapígia e é impossível fixarmos o lugar propriamente aqui designado por Plutarco. Os romanos chamavam, com o nome de Apúlia, toda a extensão ao longo do mar Adriático, desde a Frentânia. que era a quarta região da Itália, e que o rio Frenton separava da Apúlia, até Tarento, a oeste, e Brindisi, a leste: este nome de Apúlia compreendia a Daunia e a Peucétie. Desde Tarento e Brindisi, toda esta península, que chamamos de calcanhar da bofa, e cujos diferentes portos serviam de lugar de embarque para se ir à Grécia, até o promontório Iapix ou de Salenta, chamava-se Iapígia, em geral. Aqui, distingue-se a Calábria e o país dos salentinos. No entretanto, alguns, Estrabão dentre outros, dizem que se chama indiferentemente Iapígia, Messápia, Calábria ou Salêntia. Mas alguns historiadores gregos compreendiam sob esta denominação a Apúlia, hoje a Puglia. O vento que soprava, dessa costa para a Grécia, chamava-se Iapix, do nome da região. É por isso que, na segunda ode do primeiro livro, Horácio deseja que todos os outros ventos parem e sopre somente o Iapix, para levar seu amigo Virgílio à Grécia. Assim, é pelo menos verossímil, que Filisto estava na baía, perto de Brindisi.

CAP. XXXVI. — É com razão, diz Mr. Reiske, numa nota sobre éste trecho, que Mr. Dacier notou que este nome de campanianos está errado e que devemos procurar um nome do povo siciliano, para substituí-lo. Eu creio, então, que se deve escrever catanianos. No entretanto, acrescenta o sábio editor, Diodoro da Sicília fala, num trecho do seu 16.« livro, de campanianos em Etna. Esta última observação é alguma coisa, mas diz, também, com que precipitação Mr. Reiske trabalhava; movido por esta idéia, não se deu ao trabalho de consultar Diodoro da Sicília, sobre um ponto tão importante de crítica. Se o tivesse feito, teria encontrado aí toda a história desses campanianos, que passaram da Itália para a Sicília, servindo antes os siracusanos, contra o tirano Dionísio, depois, corrompidos pela sua munificência, tornaram-se os restauradores e defensores do seu poder: recompensados, proporcionadamente por tão grande serviço, apoderaram-se por meio de um crime atroz da cidade de Entelle; foram postos, em seguida, pelo mesmo tirano, em Catania, e de lá, na cidade de Etna, sobre a montanha vizinha, do mesmo nome; por fim, foram destruídos, alguns anos depois da época em que estamos, por Timoleão. Depois, sob Agátocles, outro tirano da Sicília, que subiu ao trono na 115.’ olimpíada, êle teria visto os restos destes, ou com mais exatidão dé outros campanianos,

CAP. XXXI. — Seria preciso, pelo menos, escrever A Puglia, o texto grego diz a Iapígia e é impossível fixarmos o lugar propriamente aqui designado por Plutarco. Os romanos chamavam, com o nome de Apúlia, toda a extensão ao longo do mar Adriático, desde a Frentânia. que era a quarta região da Italia, e que o rio Frentón separava da Apúlia, até Tarento, a oeste, e Brindisi, a leste: éste nome de Apúlia compreendia a Daunia e a Peucétie. Desde Tarento e Brindisi, toda esta península, que chamamos de calcanhar da bofa, e cujos diferentes portos serviam de lugar de embarque para se ir à Grécia, até o promontorio Iapix ou de Salenta, chamava-se Iapígia, em geral. Aqui, distingue-se a Calábria e o país dos salentinos. No entretanto, alguns, Estrabão dentre outros, dizem que se chama indiferentemente Iapígia, Messápia, Calábria ou Salêntia. Mas alguns historiadores gregos compreendiam sob esta denominação a Apúlia, hoje a Puglia. O vento que soprava, dessa costa para a Grécia, chamava-se Iapix, do nome da região. É por isso que, na segunda ode do primeiro livro, Horácio deseja que todos os outros ventos parem e sopre somente o Iapix, para levar seu amigo Virgílio à Grécia. Assim, é pelo menos verossímil, que Filisto estava na baía, perto de Brindisi.

CAP. XXXVI. — É com razão, diz Mr. Reiske, numa nota sobre este trecho, que Mr. Dacier notou que este nome de campanianos está errado e que devemos procurar um nome do povo .siciliano, para substituí-lo. Eu creio, então, que se deve escrever catanianos. No entretanto, acrescenta o sábio editor, Diodoro da Sicília fala, num trecho do seu 16." livro, de campanianos em Etna. Esta última observação é alguma coisa, mas diz, também, com que precipitação Mr. Reiske trabalhava; movido por esta idéia, não se deu ao trabalho de consultar Diodoro da Sicília, sobre um ponto tão importante de crítica. Se o tivesse feito, teria encontrado aí toda a história desses campanianos, que passaram da Itália para a Sicília, servindo antes os siracusanos, contra o tirano Dionísio, depois, corrompidos pela sua munificência, tornaram-se os restauradores e defensores do seu poder: recompensados, proporcionadamente por tão grande serviço, apoderaram-se por meio de um crime atroz da cidade de Entelle; foram postos, em seguida, pelo mesmo tirano, em Catania, e de lá, na cidade de Etna, sobre a montanha vizinha, do mesmo nome; por fim, foram destruídos, alguns anos depois da época em que estamos, por Timoleão. Depois, sob Agátocles, outro tirano da Sicília, que subiu ao trono na 115.» olimpíada, êle teria visto os restos destes, ou com mais exatidão dé outros campanianos, vindos da Itália, a seu exemplo, apoderar-se de Messina por uma traição e com crueldade semelhante à que os seus antecessores tinham praticado em Entelle: Políbio, 1. I. Enfim, estes, ou um terceiro grupo do mesmo país da Itália, servindo, segundo o mesmo Diodoro da Sicília, nas tropas dos cartagineses, estabelecidos por Amílcar ao ocidente da ilha, para defender os cantões submetidos a Cartago, e isso lhe teria sido suficiente para não buscar outro nome, que o de campanianos, que aqui ocupam um lugar tão conforme à verdade da história.

SOBRE A VIDA DE BRUTO

CAP. II. — As três cartas que Plutarco transcreve encontram-se, palavra por palavra, nas cartas atribuídas a Bruto, publicadas primeiro por Aldo Manúcio na coleção das Epístolas gregas e reimpressas naquela, à qual se juntou a tradução latina, que traz o nome de Cujas, em Genebra. 1606, in foi., o que prova que esta coleção de cartas de Bruto existia já nos tempos de Plutarco. Eu não examinarei se são dele, mas observarei que o torneio sofístico que se lhe incrimina não é uma prova de que não o sejam; este defeito é natural a todos os que escrevem em uma língua que não é a sua.

CAP. XLVI.- — É verdade que se encontra esse nome mais ou menos no sétimo livro de Estrabão; mas o geógrafo fala nesse ponto dos Palos-Meótidas. de Quersoneso Táurica e do Bósforo Cimeriano. Ora, nós vimos neste momento do Helesponto, do Quersoneso e do Bósforo da Trácia e nós estamos na Trácia, perto da cidade de Filipes. Por conseguinte, não se trata do porto de mar do qual fala Estrabão, seguindo a citação de Amyot, mas do Monte Símbolo, que, segundo Dion Cássio, 1. 47, se une ao Monte Pangeu num lugar que traz o mesmo nome de Símbolo, entre Filipes e Nápoles.

SOBRE A VIDA DE ARATO

CAP. III. — O grego diz que o ar de prudência e da nobreza de seus traços revelavam um pouco a voracidade do atleta e a enxada. Nós já dissemos em outro lugar qual era a maneira pela qual os atletas faziam o exercício com a enxada ou alvião.

IBID — Skafíon é aqui uma espécie de enxada, de que os atletas se serviam para remover a terra, para fortificar com esse exercício os ombros e o braço, como o diz o Escoliasta de Teócrito, idílio 18, v. 4. Deve-se, pois, traduzir: -Vê-se nessas estátuas algo de atlético e a majestade real. que está impressa sobre o seu rosto, não impede que aí se notem os traços da voracidade natural dos atletas e da enxada de que eles usavam", o sábio Visconti pensfl ter achado a forma dessa enxada, entre as mãos de um gênio, que se vê num baixo-relevo, gravado, tomo V, prateleira 40, do Museu Pio Clementino.

CAP. XII. — Assim se lê esta passagem na edição de Reiske, tomo V, pág. 523: óden oúk oútos dokei gegonénai fíkoi akribés ós ektrós eugnómon kaipráos, úpó tés politeías ep’anfotera tó kairó metaballo menos ómonoías étnón kaí koinonías pólein, kal sunedríou ks teátrou mían fónen áfientós ós óudenós, ali’ é ton kalón, épasés. Esta passagem está evidentemente alterada, como todos os editores o fizeram notar. Eu creio que se poderia ler assim: Metalloménos omonias etnón kaí koinonías póleon enéna. Sunedríou ks teátrou mían fonén áfientós, ós oudenós é tón kalón erases én. Eu omito o ponto depois de metabolloménos. A palavra éneka foi destruída pela última sílaba de póleon e por kaí. Quanto à palavra én que eu acrescento no fim, é absolutamente necessária e pode-se traduzir assim esta passagem: "por isso, parece não ter sido tão inteiro e tão perfeito amigo, como doce e gracioso inimigo, acomo-dando-se às duas partes, segundo o tempo, para a conservação da concórdia entre os povos e a união entre as cidades. E quer nu conselho, quer nos teatros, dizia-se, a uma voz, que Arato não era amigo senão das coisas boas e honestas". O sunédrion ou conselho era o lugar onde se reuniam os magistrados e o teatro era o lugar onde se faziam as assembléias do povo.

CAP. XIV. — Apeles, como já dissemos alhures, florescia pela 112.» olimpíada, mais ou menos 80 anos antes desta época. Êle tinha sido discípulo de Panfílio, ao qual havia pago um talento, por dez anos de lições, bem como Melanto, do qual era companheiro de estudos, e não discípulo, segundo Plínio, cuja autoridade nesta matéria, principalmente, é preferível à de Plutarco.

CAP. LX — O famoso Demétrio de Faléria tinha morrido no ano 470 de Roma e nós estamos, pelo menos, no ano 535. Este nome. Faléria, é um erro, constatado desde muito tempo pelos sábios. É de Demétrio Fariense que se fala muito em Políbio. Êle foi assim cognominado por causa do nome da sua pátria, Fares, uma das ilhas Liburnianas, fundada pelos habitantes de Paros, na 98.ºolimpíada. Sua coragem o tinha tornado ilustre entre os ilírios.

Êle tornou-se seu chefe e. tendo-se unido aos reis da Macedónia, Antígono Gonatas e Felipe, prestou-lhes grandes serviços durante a guerra. Fêz também guerra aos romanos; mas. tendo sido vencido por Paulo Emílio, no ano 535 de Roma. fugiu para a corte de Felipe, que o conservou consigo. Em seguida, tendo querido apoderar-se da cidade de Messenas, ao sul de Filipes, foi morto ao atacá-la; fim digno de sua vida, diz Políbio. Pois era, diz o historiador, um homem temerário e sem palavra. O fato de que Plutarco fala aqui encontra-se. palavra por palavra, em Políbio.

SOBRE A VIDA DE GALBA

CAP. II — Mr. Dusoul tem razão em observar que o nome da pessoa falta aqui. Mas êle engana-se. supondo que é o de Alexandre, tirano de Feres, do qual muitas vezes se falou, na vida de Pelópidas. O trecho que Plutarco refere aqui não pode ser atribuído a êle. de. nenhuma maneira, pois êle reinou onze anos. É o nome de Polifron que se deve pôr neste lugar, segundo Xenofonte. Eis o seu trecho, Hell. 1. VI: Jasão, que os tessálios tinham escolhido por seu chefe e que tinha governado com bastante sabedoria e glória, tendo sido morto numa conspiração, por sete moços, no 3.» ano da 102.;1 olimpíada, os tessálios colocaram em seu lugar dois de seus irmãos, Polidoro e Polifron. Mas, pouco depois. Polifron assassinou o seu irmão, quando este dormia; pelo menos suspeita-se que o tenha feito. Êle governou um ano, como tirano. Alexandre, o quarto irmão, matou-o, com o pretexto de vingar a morte de Polidoro, e apoderou-se do governo, do qual usou de maneira assaz tirânica. O ano de que fala aqui Xenofonte e os dez meses de Plutarco vão bem de acordo. Diodoro da Sicília não fala de Polifron. Êle diz que Jasão foi morto, segundo alguns, por seu irmão Polidoro, que não reinou mais de um ano. Mas a autoridade de Xenofonte, histórico contemporâneo, me parece indubitavelmente preferível à de Diodoro da Sicília. Ambos, afinal, estão de acordo comigo sobre este ponto, de que não é de Alexandre que se trata aqui.

CAP. XXX. . — Que tendo comprado uma casa velha êle queria ir mostrar aos mestres pedreiros aquilo em que éle não confiava. Há, em todas as edições, exceto na de Reiske, Tóis politais, o que não tem nenhum sentido: propuseram ler-se polétais, correção que Reiske adotou. Baseia-se no que Tácito, contando a mesma coisa (Histoires, liv. I, cap. 27), diz que advertiram a Oton, expectari eum ab architecto et redemtoribus. Mas parece-me que polétai significa o contrário de redemtor. Creio, entretanto, que é preciso adotar-se a correção, mas torna-se também necessário explicar esta passagem, segundo Suetônio, que, na Vida de Oton, Cap. VI, diz: Deinde liberto adesse architectos nuntiante, quod signum conuenerat, quasi uenalem domum inspecturus abscessit, . "Tendo-lhe seu liberto dito que os arquitetos haviam chegado, o que era o sinal convencional, êle se foi, dando a entender que êle ia examinar uma casa que estava à venda". Parece que Plutarco adotou mais ou menos o mesmo trecho e que se deve traduzir assim: "E que tendo comprado uma casa velha, êle queria ir mostrar aos vendedores as partes que tinham algum defeito"’.

SOBRE A VIDA DE OTON

CAP. I — Nos meses de março, maio, junho, outubro, os Idos caíam a 15 do mês e começava-se no dia seguinte, 16, a contar os dias antes das Calendas. Nos outros meses, os Idos eram a 13 e 14, era o 18 antes das Calendas.

CAP. III Esquelles ce beau nom de Néron estoit joint à celui d’Othon. Há, no grego: Tò té Nerónos teíon ónoma, o divino nome de Nero: o que é um epíteto um tanto singular, para o nome de Nero. Oudendorp, em suas notas sobre Suetônio, vida de Oton, Cap. VII, pág. 782, traz uma correção de G. Fred. Gronovio, que propõe se leia: Tetón ónoma, o que me parece evidente, e então deve-se traduzir assim: "nas quais êsté nome adotivo de Nero está unido ao de Oton".

SOBRE A VIDA DE ANÍBAL

CAP. VIII. — A posição dos Altares dos filenianos não é cerra. Alguns autores os põem ao sudeste da grande Sirta, hoje golfo de Sidra, que está entre o reino de Tripoli e de Barca. Outros os põem entre a grande e a pequena Sirta, hoje golfo de Cabes, entre os reinos de Túnis e de Tripoli, isto é, entre 30 e 35 graus de longitude. Ora, as colunas de Hércules, hoje estreito de Gibraltar, estão a 12 graus. A distância é, portanto, pelo menos cerca de 500 léguas.

SOBRE A VIDA DE CIPIÃO, O AFRICANO

CAP. VIII. — Há aqui, da parte do autor, um erro, que nos faz supor outro, grave, em Tito Lívio. O rio chamado Bétulo por Mela, Sambroca, por Ptolomeu, e hoje o Ter, está acima da província tarragonesa, perto de Ampúrias, onde Cipião tinha abordado. Mas não foi aí que se deu o combate, contra Asdrúbal, segundo Tito Lívio: foi em Bétula, que está na Bética. E eis a prova: Depois da batalha, diz Tito Lívio, Asdrúbal retirou-se, além do Tago, para os Pireneus. Ora, Bétula está aquém do Tago; mas o rio Bétulo e o cantão dos bétulos está aquém do Tago e bem mais perto dos Pireneus. Tito Lívio acrescenta que Cipião, alguns dias depois do combate, atravessou o passo de Castulo, para voltar a Tarragona. Ora, Castulo está perto do Tago, na Bética, entre Bétula e Tarragona. A cidade perto da qual foi vencido Asdrúbal, filho de Barca, é, portanto, a mesma Bétula, onde foi vencido, ro ano seguinte. Asdrúbal, filho de Gisgo. E o sábio Celário teve razão em nos dizer, falando dos bétulos: Tomai cuidado, para não confundi-los com a cidade de Bétula de que" fala Tito Lívio.

 

Fonte: Edameris. Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco. Vol 9. Trad. de Pe. Vicente Pedroso.

fev 032011
 
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Plutarco – Vidas Paralelas – OBSERVAÇÕES

SOBRE A VIDA DE AGESILAU

CAP. XX. — «Pois amou muito afetuosamente um jovem rapaz ateniense, etc». Deve traduzir: «Pois amou muito afetuosamente um jovem ateniense, atleta entre os meninos; como já estava grande e forte, correu o risco de ser recusado nos jogos olímpicos; eis porque o persa recorreu a Agesilau, etc». Para compreender isto é preciso saber que havia duas classes de atletas; uns eram homens feitos, os outros eram crianças. Cada um podia combater em sua classe; mas como podiam passar entre as crianças meninos de mais idade, o que então era uma desvantagem para os outros concorrentes, os magistrados encarregados do policiamento dos jogos examinavam todos os pretendentes, e rejeitavam aqueles que por força e sua conformação física, lhes pareciam de idade desproporcionada para serem admitidos na classe dos meninos. Como terei ocasião de examinar tudo isto muito mais detalhadamente em minhas notas sobre Pausânias, limitar-me-ei aqui ao que acabo de dizer. C.

CAP. XL. — Não se acha esse nome de Gelon em parte nenhuma. Na Vida de Pelópidas, Plutarco chama de beotárquios a Pelópidas, Caron e Melon, que Xenofonte escreve Mellon (com dois 1), o que parece indicar a correção feita neste trecho e proposta por Reiske, e antes dele, por Dodwell em seus Anais de Xenofonte, 33. É preciso observar que, falando deste assunto na própria Vida de Pelópidas, Plutarco atribui esta sugestão odiosa a Pelópidas e Gorgidas, beotárquios. Isto não dá contradição, porque havia sete beotárquios. Estes dois acontecimentos são do terceiro ano da centuagésima Olimpíada, segundo Dodwell, se bem que Diodoro coloque o caso de Esfódrias no quarto ano.

CAP. XLIII. — Há aqui no texto um erro incrível. Cleômbroto é designado como filho de Agesilau. Era com certeza de Pausânias o filho de Plistoanax; era o outro ramo dos reis de Esparta, chamado os Ágides. Procurar adivinhar o que é preciso colocar no lugar dessa palavra filho, como empreendeu o Sr. Dut>oul, é certamente perder tempo e trabalho. É preciso apagar esta palavra absurda. Quanto ao que Plutarco empresta aqui a Agesilau, Xenofonte diz expressamente que foram os éforos que convenceram Agesilau a se encarregar desta expedição, porque tinham uma idéia mais elevada a respeito de sua prudência do que da de Cleômbroto.

CAP. XLV. — Ver-se-á, algumas linhas e mais adiante, que Epaminondas, já célebre por sua sabedoria e seus conhecimentos, não era ainda conhecido pelos seus talentos militares, na ocasião desta embaixada. Não havia ainda conquistado a famosa batalha de Leutres, que abateu o poder de Esparta, fêz passar a proeminência da Grécia para os tebanos e elevou Epaminondas ao mais alto grau da glória militar. Parece portanto, evidente, que aqui não se trata senão da batalha de Tegiro, ganha por Pelópidas no primeiro ano da centuagésima-primeira Olimpíada, A. C. 376 anos. Esta conjectura de vários sábios está confirmada diversos manuscritos que citam neste trecho Tegiro em vez Leutres.

CAP. XLVII. . — Pode-se consultar Dodwell, em seus Anais de Xenofonte, caps. 39 e 40, para julgar sobre que motivos êle se apoia para suspeitar de engano este espaço de vinte dias, que Plutarco estabeleceu entre a paz concluída em Esparta e a batalha de Leutres, o que parece com efeito bem curto para conter os acontecimentos intermediários; daí se conclui que a paz da qual Plutarco fala aqui, se fêz no décimo-quarto dia do mês ático scirroforion, que havia começado aquele ano no quarto da centua gésima-primeira Olimpíada, no dia catorze de junho, razão pela qual o décimo-quarto dia do mês scirroforion estava a coincidir com o vigésimo-oitavo de junho; e que a batalha de Leutres se deu no segundo ano da centuagésima-segunda Olimpíada, no dia cinco do mês hecatombeon, que coincide nesse ano com o dia oito de julho, o mês ático tendo começado a três do mês de julho, no ano do período Juliano. Ainda mais, já se observou o engano de Amyot, com relação à comparação de nossos müses áticos. Ver as Observações, L. III, pág. 484.

CAP. LII.. — Este trecho não é fácil para explicar. Poliano, L. 2, cap. I, § 14, narra o mesmo feito. Porém, parece mudar o local da cena. «Uma sedição, tendo-se levantado em Esparta, diz êle, um grande número de soldados armados apoderou-se de uma montanha consagrada a Diana Issória, perto de Pitane». Issórium é, segundo Etiene, uma montanha da Lacônia. Pitane é uma cidadezinha da Lacônia, cuja posição não é dada de .maneira precisa por nenhum escritor antigo. Mas ela era, segundo Píndaro (olim. 6), e seguindo seu Escoliasto, sobre as margens do Eurota; e o Eurota que corria segundo Estrabão, junto de Esparta, era, segundo Políbio, Extr. L. XV, ao seu oriente, no verão. Tudo isto parece fixar o lugar que procuramos, fora da cidade, para o oriente. Mas Hesíquio nos diz que Issórium é um bairro de Esparta, com o que está de acordo Plutarco; e Pausânias coloca também o templo de Diana Issória na cidade, mas para o poente da praça pública, o que parece poder concordar com a posição junto de Pitane, dada por Poliano. O que concluir disto? Que é preciso distinguir dois objetos, o templo na cidade, e a montanha Issórium perto de Pitane, ao oriente de Esparta sobre o Eurota. Diana aí era honrada de maneira particular. Uma parte dos habitantes de Pitane, tendo se estabelecido em Esparta, para lá levou seu culto e construiu um templo para Diana Issória, perto do quarteirão chamado o Lesché, ou o conselho dos crotônios, que era uma tribo dos pitanios, segundo Pausânias; e a similitude de nome terá fornecido a um dos dois historiadores a ocasião de um descuido. Mas creio que é da mesma montanha que se trata aqui, porque os inimigos vindo atacar a cidade pelo lado do Eurota ao oriente, não teria sido possível fazer crer aos sediciosos que pudessem se desculpar de uma ordem mal ouvida, reunindo-se em tão grande número ao ocidente da cidade, que não tinha nenhuma necessidade de ser guardada, estando os inimigos além do Eurota ao seu oriente.

SOBRE A VIDA DE POMPEU

CAP. I. — Esquilo havia composto duas tragédias sob o título de Prometeu; uma de Prometeu acorrentado, é aquela que possuímos onde se desenrola um ódio amargo contra Júpiter; a outra, de Prometeu liberto por Hércules. O verso citado por Plutarco foi extraído desta que o tempo nos roubou.

CAP. XXII. — Houve, em Roma outros personagens que tiveram o sobrenome de Máximo. Plutarco aqui fala desses que o obtiveram por outras virtudes que não as virtudes militares, se bem que esses que constam neste trecho, fossem também muito ilustres desse lado, como se vê em Tito Lívio, L. II, cap. 31, com relação ao ditador Valério, que conquistou sobre os sabinos uma vitória tão brilhante, no ano de Roma 260, que além das honras do triunfo, o Senado designou-lhe um lugar distinguido para êle e para sua posteridade no circo, onde lhe colocaram uma cadeira curial; e com relação a Fábio Rulo, que outros chamam Ruliano, e o Padre Petau, Turiliano, no mesmo historiador, L. VIII, cap. 30, era então mestre da cavalaria, sob o ditador Papírio, no ano de Roma 429, e conquistou em sua ausência, apesar da pi-oibição que lhe fora imposta de combater uma vitória completa sobre os samnitas. Pode-se ler em Tito Lívio, como o Senado e o povo tiveram trabalho para salvar em seguida sua vida da severidade do ditador obstinado em castigar de morte esta infração da disciplina militar. Foi depois cônsul várias vezes, censor no ano de Roma 450, ditador no ano de Roma 453. Foi, em sua censura, que fêz no Senado e no povo a reforma da qual Plutarco fala aqui e a qual Tito Lívio refere no fim de seu nono livro, e que lhe mereceu o sobrenome de Máximo

Quanto a Valério, Cícero diz expressamente em seu Livro intitulado Brutus, L. I, pág. 211, a mesma coisa que Plutarco. Não foi êle, no entanto, que começou o trabalho de reconciliação do povo com o Senado, mas Menênio Agripa, como se lê em Tito Lívio, L. II, cap. 32. Este acontecimento da retirada do povo sobre o monte Sagrado é do ano de Roma 261.

CAP. XXXVI. A maneira pela qual o texto grego está concebido teria bastado para avisar Amyot que caía em um pesado engano. Não é questão aqui de Gêmeos, isto é, do Castor e de Pólux. O templo de Claros, diz Plutarco, o templo de Dídimo, o templo de Samotrácia. Creio que era fácil reconhecer] aqui três sítios e três templos diferentes. Dídimo é um cantão do território de Milet, cidade situada sobre a costa da Ásia chamada Jônia, onde se acha um templo famoso consagrado a Júpiter e a Apolo, e por causa disto, possivelmente chamado Didi meno, porque Dídimo no grego significa dois; Estrabão, Mela Plínio, Pausânias, Quinto Cúrsio, todos os escritores antigos, então de acordo. Estes não o apresentam senão sob o nome de Apolo Didimeno; mas Etiene e Bizâncio o dá, segundo Calímaco, como comum a Júpiter e a Apolo. O sacerdócio havia sido confiado durante muito tempo aos branquidas.

IDEM. — Aqui, o texto alterado por copistas ignorantes induziu Amyot em falta; porém, não era difícil substituir Lacínia por Lucânia. Nenhum antigo fala de um templo de Juno em Lucânia, e todos falam de um templo famoso de Juno denominado Laciniana, por causa do promontório Lacínio, que era grandemente venerado. Sobre este lado da Itália que olha o mar Jônio, havia três promontórios famosos; ao meio-dia está o Zefirano, ao norte o Iapugiano, no meio o Laciniano. Cícero conta em seu Tratado da Divindade, que Aníbal, apavorado por um sonho, não ousou retirar uma coluna de ouro que se achava nesse templo; e Fúlvio Flaco pereceu miseravelmente no ano de Roma 583, segundo Tito Lívio por tê-lo despojado no ano de Roma 581.

CAP. LX.  Hermágoras, denominado Carião, segundo Suidas, era da cidade de Temnos na Eólia da Ásia; lecionou em Roma e morreu muito velho, sob Augusto. Havia escrito vários livros sobre retórica; e Suidas não cita outros trabalhos dele. Parece-me natural concluir que esta questão geral da qual Plutarco fala aqui, era um de seus primeiros princípios sobre a arte oratória. Ora, parece então muito provável que seja precisamente aquele do qual fala Cícero em seu primeiro livro da Invenção, pág. 55: «Hermágoras, diz êle, divide a matéria do orador em duas, a causa e a questão; a causa tem por objeto uma controvérsia na qual intervém pessoas; a questão uma controvérsia sem interposição de pessoas, tal como está aqui: há nisto alguma coisa boa, excetuando o que é honesto? Os sentidos são verdadeiros? Qual é a forma do mundo? Qual é a grandeza do sol? Todas as coisas, ajunta Cícero, que se reconhecem evidentemente não ter nenhuma relação com a função do orador». Daí se conclui que esta divisão de Hermágoras nada vale.

SOBRE A COMPARAÇÃO DE AGESILAU COM POMPEU

CÁP. III. - «Pois um, querendo escravizar a cidade de Tebas, e sobre todos os pontos exterminar e destruir a de Messena, uma sendo era tudo e por tudo cidade antiga de-seu país e a outra- cidade mãe e capital de toda a nação beócia, etc» Eis como é preciso-traduzir esta passagem: «Pois um, querendo escravizar a cidade de Tebas e por todos os pontos exterminar e destruir a de Messena; esta aqui antigamente havia entrado em partilha com sua pátria, e a outra que era metrópole de sua raça, etc.» Tebas era a pátria de Hércules, de quem descendem os reis da Lacedemônia, e a Messena tinha caído por sorte a Cresfontes na partilha que os Heráclidas fizeram do Pelo poneso.

SOBRE A VIDA DE FÓCION

CAP. II.. — «Também numa cidade, na qual oa negócios não andam ao gosto dos cidadãos, o povo tem os ouvidos muito delicados e muito cautelosos, por causa de sua imbecilidade, para suportar pacientemente uma língua dizendo a verdade livremente, quando então deseja principalmente ouvir as coisas que não lhe tragam seu erro diante dos olhos». Essa passagem não foi bem transcrita por nenhum dos tradutores, e Dusoul é, a meu ver, o primeiro que pegou o sentido. É preciso traduzi-la assim: «O povo tem os ouvidos muito delicados e muito sensíveis por causa de sua fraqueza, para suportar pacientemente uma língua dizendo a verdade livremente, e isto precisamente na época em que era mais necessária, estando os negócios em tal situação que estariam sem recurso, para remediar os erros que cometeriam».

CAP. IV. — A passagem de Cícero que Plutarco cita aqui sobre a conduta de Catão, acha-se na primeira carta do Atiço, L. II. Mas o que termina esta frase, a saber, quo por esta austeridade pouco conveniente à época, fêz-se excluir do consulado, é uma adição de Plutarco, e não podia se encontrae nesta carta de Cícero. O aprisionamento do cônsul Metelo e a disputa de Cláudio para obter o cargo de tribuno, fixam a da ta da carta de Cícero no ano de Roma 694, e não foi senão oito anos depois que Catão solicitou e deixou escapar o consulado, isto é, no ano de Roma 702, como se vê em sua própria Vida, quando Plutarco nos refere que êle teve por competidor Sulpício, que foi com efeito cônsul com Metelo, no ano de Roma 703.

CAP. XXX.— O nome grego é Hermo e não Hérmio. Esse vilarejo do Atiço, era da tribo Acamântida. Estava situado um pouco acima do Pireu, um pouco mais próximo de Atenas do que de Eleusina. Talvez algum revisor indiscreto tenha inserido no texto mais uma letra, pelo que Amyot fêz o nome Hérmio

CAP. XXXIII. — Dusoul engana-se traduzindo até sessenta anos a contar desde a puberdade, o que faria setenta e oito anos, segundo sua própria explicação. As leis de Atenas dispunham que os rapazes começariam a pegar em armas com dezoito anos; eram encarregados da defesa do Ático até vinte. Nesta época serviam até os quarenta em todas as guerras, dentro ou fora do Ático; depois do que estavam isentos do serviço militar; em ocasiões extraordinárias, iam até quarenta e cinco, como se vê na terceira Olintiana de Demóstenes. Assim a publicação de Fócion já era assaz extraordinária incluindo até a idade de sessenta anos, sem prolongar até setenta e oito.

CAP. XXXLX. — Ê verdade que no texto consta nesta passagem uma palavra que significa um porto limpo, e poderia por extensão significar um porto vazio de navios. Mas desde que Amyot reconheceu que esta expressão não apresentava sentido, o que o determinou a traduzir pela palavra margem, teria podido ir mais longe’ e supor algum erro ligeiro no texto. Não haveria dificuldade em ter reconhecido o nome próprio de um dos três portos do Pireu; pois o Pireu não é chamado porto senão impropriamente. 15 um bairro do Ático ou vilarejo tornado parte de Atenas pela junção dos muros que o reuniram desde Temístocles; e havia três portos, que fechavam com uma corrente comum, dos quais um se chamava Afrodidis, um outro Zée e o terceiro Cântaro. Vede Mérsio em seu livro intitulado, O Pireu.

SOBRE A VIDA DE CATÃO DE ÚTICA

CAP. I.. — Seria difícil fazer-se uma idéia precisa da genealogia de Catão de Ütica, de acordo com o que Plutarco diz aqui, e de acordo com o que disse no fim da Vida de Catão, o Censor; Aullu-Gelle, em seu décimo-terceiro livro, cap. 19, felizmente nos esclareceu o que Plutarco não explica ou apresenta mesmo de uma maneira própria para ocasionar a confusão. Vou dá-la tal qual Aullu-Gelle nô-la apresenta:

Marcos Catão, o Antigo ou o Censor, havia tido de sua primeira mulher um filho, que morreu quando vivia seu pai, sendo designado pretor, depois de haver escrito livros muito apreciados sobre direito. Deixou um filho chamado Marcos Catão Nepos, que quer dizer neto, porque era neto de Catão, o Censor, chefe da família. Foi orador e teve reputação nesse gênero. Foi cônsul com Quinto Márcio no ano de Roma 636 e morreu em seu consulado na Africa, deixando um filho que foi edil, em seguida pretor e morreu na Gália Narbonesa.

Catão, o Censor, desposou em sua velhice a filha de Salônio e teve um filho denominado Saloniano, do nome de seu avô materno. Este teve dois filhos, Lúcio Catão e Marcos Catão, que foi tribuno do povo e pai de Catão de Ütica.

CAP. XVII.. — Não obstante isso, se bem quo tivesse feito e que fizesse todas essas coisas, ainda houve alguém que escreveu, que passou e escorreu por uma peneira as cinzas dO fogo». O texto está destruído neste trecho. Petau, em suas notas sobre Temístio, edição do Louvre, pág. 525, propõe ler: «E se bem que tivesse feito tudo isto, César não deixou de escrever, etc. o que oferece um sentido muito melhor.

CAP. XLI. — Alguns observaram antes de mim a alteração que não se pode impedir de supor aqui no texto dl Plutarco; pois certamente Catão não foi deposto nem forçado a abdicar de seu tribunato. Propuseram diversas conjecturai. Talvez se aproximassem muito perto da idéia de Plutarco, no lhe fizessem dizer que Catão, sem usar dos direitos de seu cargo, com muitos tiranos (no que o capricho de um homem, por uma palavra apenas, prevalece sobre toda autoridade e toda razão) suplantou-o, no entanto, de tal modo pelo seu ascendente pessoal, que induziu Mêmio a deixar o combate, renunciando suas acusa ções. Mas isto não é senão uma conjectura, que não exclui melhores pois vê-se um pouco mais acima, que Metelo havia acusado Catão de tirania; outros sediciosos podiam renovar esta imputação, por extravagante que fosse; assim, com uma ligeira mudança poder se-ia ler: «Catão, arrostando as imputações dos sediciosos que o censuravam de abusar tirânicamente do poder de seu cargo, puxou seu partido com tanto vigor, que conseguiu enfim, reduzir Mêmio etc».

CAP. XLIX.. — Traseas Poetus da cidade de Pádua, capital da Paduana, homem de raros méritos. Todos os escritores de Roma elogiam sua virtude. Tácito chama-o em alguma parte a própria virtude, Anais, L. XVI, cap. 21. Nero o fêz morrer; mas não o estimava menos, como se pode concluir da resposta desse monstro a um infame delator que acusava Traseas de haver pre varicado em suas funções de juiz: — «Desejava muito bem, diz o tirano, estar tão seguro de sua amizade, como estou convencido de sua integridade». Vejam-se os Preceitos de Administração, cap. 44. Havia escrito a Vida de Catão de Útica, na qual havia seguido as informações que lhe fornecia o trabalho de Munácio Rufo, contemporâneo de Catão e que havia sido. seu companheiro de viagem a Chipre, como o diz Valério Máximo, L. D7, cap. 3.

CAP. LXXIV.. — Os Psilos habitavam junto da grande Sirte, entre os nasamons e os gétules, segundo Estrabão, que diz mais ou menos a mesma coisa que Plutarco sobre esta virtude inata contra as serpentes. Atribuíam, segundo êle, aos tentiritos, habitando junto da pequena Dióspolis no Egito, a mesma faculdade nata contra os crocodilos. Muitas vezes ouvi que os negros, escravos na América, pegam e matam assim as serpentes sem recear suas mordidas; isto não é de se considerar impossível. Mas observo que as pessoas que combatem obstinadamente as coisas mais razoáveis e melhor estabelecidas, acreditam sem exame em todas as fábulas dos viajantes, em todas as imposturas dos charlatães.

(Notas dos tradutores franceses).

Tradução: Prof. Carlos Chaves. Fonte: Edameris.

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PLUTARCO – VIDAS PARALELAS

CONFRONTO ENTRE CRASSO E NÍCIAS

Para se estabelecer o confronto entre os dois, deve-se, em primeiro lugar, dizer que a riqueza de Nícias foi mais honestamente adquirida ou menos censurável que a de Crasso, embora custe, não há dúvida, louvar o ganho dos que exploram as minas de metais, valendo-se geralmente de homens perversos nas escavações, ou de escravos bárbaros, que mantêm à força, algemados uns e outros doentes e moribundos, devido às impurezas do ar destas cavernas. Mas, mesmo que se compare este meio de ganhar dinheiro com o de que se serviu Crasso, comprando as confiscações que Sila vendia e casas que se incendiavam ou que se achavam em risco de ser atingidas pelo fogo, achar-se-á o de Nícias mais razoável. Além disso, Crasso também explorava, como era público e notório, a agricultura e o empréstimo de dinheiro a juros elevados.

II. Quanto a outras faltas que algumas vezes lhe imputaram, e que êle negou forte e firmemente, como que exigia dinheiro das partes para opinar no Senado a seu favor; que êle sempre procurava desfavorecer em alguma coisa os aliados do povo romano, para tirar proveito; que adulava e acariciava mulheres para explorá-las; que protegia e ajudava a esconder malfeitores, desde que tivesse lucro, Nícias nunca foi capaz de as praticar. Pelo contrário, foi publicamente ridicularizado pelo que despendera com os caluniadores, para deixá-lo em paz. Isto, que seria vergonhoso se praticado por um Péricles ou por um Aristides, era-lhe indispensável, devido à sua timidez. Coisa que o orador Licurgo depois louvou em público, declarando que, à acusação que o povo lhe fazia quanto aos caluniadores, êle podia responder altivamente: "Tendo tão Ion-

garriente manejado vossos negócios, sinto-me muito feliz em saber que censurem o fato de eu só havei dado, ao invés de me apropriar". Quanto à prodigalidade, a de Nícias não ia além da de qualquer indivíduo da classe média, acrescida de uma ou outra doação de imagem aos deuses, ou de jogos e diversões públicas para distrair o povo. Mas todo o dinheiro por ele gasto nisto, e com a manutenção de sua casa, não passou de uma pequena parte do que Crasso despendeu no banquete que ofereceu ao público, no qual agradou milhares de indivíduos de uma vez, e ainda lhes forneceu alimentos durante algum tempo. Gastaram honestamente o que adquiriram de modo indigno.

III. Isto com relação às suas fortunas. Quanto à sua conduta na administração pública, Nícias nada praticou de ardiloso, violento ou injusto; não deu a menor mostra de animosidade ou de arrogância, e sim de excessiva simplicidade. Tanto assim que, iludido na boa-fé por Alcibíades, ele sempre se dirigiu ao público de modo muito discreto. Crasso, pelo contrário, é taxado de cobarde e desleal, por trocar facilmente de amigos e de inimigos. Êle mesmo confessava haver alcançado o seu segundo consulado pela violência, ter contratado facínoras para matar Catão e Domício, e, na assembléia havida para a escolha de governadores das províncias, muitos dos seus assalariados foram feridos e quatro mortos. E, coisa que omitimos, descrevendo a sua vida, contrariado em suas pretensões por Lúcio Análio, assentou-lhe forte murro no rosto, fazendo-o retirar-se bastante ensangüentado. Quanto Crasso foi violento e tirânico em tais coisas, Nícias mostrou-se pusilânime nas suas intervenções governamentais, a ponto de submeter-se à vontade das pessoas mais baixas e desclassificadas da cidade, o que é passível de grande censura. Nisto Crasso mostrou-se indulgente e de excelente coração, não perseguindo pessoas como Cleon e Hipérbolo, mas não cedendo à glória e esplendor de César, nem aos triunfos de Pompeu, mas procurando igualá-los em poder e autoridade, chegando mesmo a sobrepujar Pompeu na dignidade de censor.

IV. Os grandes homens tornam-se notáveis e não invejados, por suas grandes realizações na administração pública, quando destroem a inveja por meio de uma linha de conduta irrepreensível. Nícias, entretanto, preferia o descanso e a segurança da sua pessoa a tudo; e, temendo as arengas de Alcibíades na tribuna, os lacedemônios no forte de Pile, Pérdicas, na Trácia, encontrava espaço de sobra, para descansar, na cidade de Atenas, afastando-se por completo da direção dos negócios públicos, a fim de poder tecer um lindo chapeuzinho de tranqüilidade, para pô-lo à cabeça, no dizer de alguns retóricos. O desejo de intervir em favor da paz era nele uma tendência divina e um ato digno de tão ilustre personagem, que não poupou esforços para dar fim à guerra. Nisto Crasso não se compara a ele, embora haja acrescentado ao império romano todas as províncias existentes até ao mar Cáspio e até ao Oceano Índico.

V. Quando se lida com um povo que sabe dar valor e autoridade aos que agem bem e trilham o reto caminho da virtude, não se deve dar acesso aos maus, entregar cargos públicos aos indignos, nem confiar em falsos amigos, como fez Nícias, que deu oportunidade a Cleon, atrevido arengueiro e grande esbravejador, de ser eleito comandante. Também não louvo o fato de, na guerra contra Espártaco, haver-lhe Crasso dado combate com temerária precipitação, ao invés de fazê-lo com segurança, movido pela ambição, e de receio que a aproximação de Pompeu lhe destruísse a glória de quanto realizara durante toda esta guerra, como sucedeu a Metelo, que foi impedido por Múmio de tomar Corinto. O pior é que o procedimento de Nícias, no caso, apresenta-se, sob todos os aspectos, afrontoso e imperdoável, porque êle não cedeu a seu adversário as honras e o posto de comandante quando teve probabilidade de feliz êxito, ou de não correr grande risco de vida, e sim quando notou a gravidade da situação e a falta de segurança pessoal, pouco se preocupando com os mais, desde que se pusesse a salvo. Isto não fêz Temístocles, durante a guerra contra os persas; pois, para impedir que um homem de pouco valor, insensato e amalucado, eleito comandante-geral de Atenas, fosse causa da desgraça pública, deu-lhe secretamente dinheiro paia fazê-lo desistir da sua pretensão. Catão, por sua vez, sobrecarregado de serviços, vendo o perigo iminente, solicitou o auxílio de um representante do povo, para o bem geral. Nícias, pelo contrário, mantendo-se a postos para atacar a cidade de Minoa, a ilha de Cítara e os infelizes melianos, ao ter de combater contra os lacedemônios despojou-se do manto de comandante e entregou à temeridade e incapacidade de Cleon os navios, as armas e os homens, no momento em que era exigido o mais atilado e experimentado dos comandantes. Tratando-se da defesa de sua terra e não de meio para a conquista de renome, o seu ato fêz com que depois êle fosse constrangido a aceitar o posto de comandante, para ir guerrear os siracusanos na Sicília, pois o motivo pelo qual êle desaconselhava com veemência tal cometimento foi considerado pelo povo uma afronta à coisa pública, e vontade de, por mandria e cobardia, fazer perder à sua terra uma ótima oportunidade de conquistar a Sicília.

VI. Todavia, isto é um testemunho de que o juízo que faziam da sua probidade e da sua bondade era tal, que, embora êle detestasse a guerra e se apegasse aos cargos e honrarias dos negócios públicos, seus concidadãos não deixavam de elegê-lo como o mais idôneo, o mais perito e o mais honesto da cidade. Crasso, que não desejava outra coisa, só conseguiu ser eleito comandante-geral na guerra contra os escravos, e ainda assim por falta de outro, porque Pompeu e Metelo, e os dois Lúculos, se achavam ausentes, ocupados em outras guerras. Embora ele estivesse então em voga, fosse muito reputado e tivesse grande prestígio, mesmo os que o apoiavam consideravam-no, a meu ver, como diz o poeta cômico,

Homem honesto para tudo, menos para a guerra.

No entanto, o que os romanos fizeram compelidos pela ambição e pelo desejo ardente de dominar, de nada lhes valeu, porque, do mesmo modo que Nícias seguiu para a guerra contra a vontade, obrigado pelos atenienses, o fizeram os romanos, arrastados por Crasso, o que deu origem à ruína do povo por causa de um, e de outro por causa do povo. Posto que haja nisto motivo para louvar Nícias, não se pode censurar Crasso; porque, se aquele, como comandante experimentado e prudente, anteviu a impossibilidade de conquistar a Sicília, e desaconselhou sempre o tentame, sem deixar enlevar pela ilusão dos seus concidadãos, Crasso, empreendendo a guerra contra os partas, por julgar coisa fácil derrotá-los, foi, não há dúvida, iludido em sua boa-fé, mas aspirou a grandes cometimentos.

VII. Depois que Júlio César conquistou para o império romano as províncias do Ocidente, isto é, as Gálias, as Alemanhas e a Inglaterra, também desejava seguir para o Oriente e chegar ao Oceano Indico, subjugando todas as províncias da Ásia, como aspiravam Pompeu e Lúculo, ambos pessoas conceituadas, que sempre foram benevolentes para com todos, e no entanto tiveram a mesma intenção e manifestaram o mesmo desejo de Crasso. Quando a direção da guerra no Oriente foi entregue a Pompeu, por decreto do povo, o Senado não o aprovou e se opôs o mais possível. E,, tendo chegado notícias que César derrotara em combate trezentos mil alemães, Catão, referindo-se a tal acontecimento no Senado, foi de opinião que se devia deixá-lo às mãos dos alemães que ele vencera, como castigo, para que a vingança da cólera dos deuses caísse inteira sobre a cabeça de quem violou a paz estabelecida. O povo, entretanto, não ligando importância às demonstrações de Catão, durante quinze dias promoveu festas e procissões na cidade toda, regozijando-se, e fez sacrifícios públicos aos deuses, em ação de graça por tão grande vitória. Calcule-se, por aí, quão feliz se sentiria o povo, e quantos dias festejaria e faria sacrifícios, se Crasso houvesse escrito de Babilônia que fora vitorioso e conquistara todos os reinos da Média, da Pérsia, dos hircanianos, de Susa, de Bactres, tornando-os províncias e novas regências do império romano!

Pois, se é justo violar o direito,

como diz Eurípides aos que não podem viver sosse gados e contentar-se com o que é seu, não convém perder tempo com pequeninas coisas, como arrasar uma fortaleza de Escândia ou uma cidade dr Mende, nem em perseguir e dar caça aos eginos, que saíram de sua terra e foram, como pássaros desa-ninhados, meter-se em outro buraco. O que se deve é dar grande valor à violação do direito, e nem de leve e por pouco caso desprezar a justiça, como se fosse coisa sem importância. Os que louvam o propósito de Alexandre, o Grande, na sua viagem de conquistas ao Oriente, e censuram a de Crasso, não têm razão de julgar os fatos pelos acontecimentos finais.

VIII. Finalmente, quanto ao desempenho de seus cargos, Nícias praticou valiosos feitos, pois derrotou os inimigos em diversos encontros, e por pouco não tomou a cidade de Siracusa. Não se lhe pode atribuir a culpa de todos os contratempos que lhe advieram na Sicília, e sim à peste e à inveja que dele tinham os que estavam em Atenas; onde Crasso cometeu tantos erros e faltas graves, que não permitiu que a sorte o ajudasse. E a razão por que muito me admiro de haverem os partas conseguido dominar sua loucura, e esta obter as boas graças dos romanos. E, como ambos pereceram do mesmo mal, um nada omitindo do que respeita à arte de adivinhar o futuro, e o outro tendo-a desprezado por completo, dificílimo se torna julgar qual dos dois procedeu mais acertadamente. Todavia, segundo opiniões antigas e modernas, a falta mais desculpável é a que se comete por timidez, e não a praticada por temeridade ou desleixo, transgredindo as leis e costumes estabelecidos em todos os tempos.

IX.Quanto à sua morte, a de Crasso é a menos censurável, porque não se rendeu voluntariamente, nem foi a tal obrigado; cedeu às súplicas de seus amigos, e foi desleal e traiçoeiramente enganado pelos inimigos. Esperançado de poder salvar vergonhosa e torpemente sua vida, Nícias submeteu-se à vontade dos inimigos e tornou sua morte ignominiosa.


 

Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da França. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

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SUMÁRIO DA VIDA DE CRASSO

Plutarco – Vidas Paralelas

MARCO LICÍNIO CRASSO

Desde o ano 637 de Roma, aproximadamente, até o ano 701, antes de Jesus Cristo 53.

Nascimento, educação, temperança e avareza de Crasso.

Marcos Crasso era filho de um antigo censor, que conquistara grande renome, e foi criado numa casinha ocupada por dois irmãos casados, que viviam em comum e na melhor harmonia, valendo-se da mesma mesa. Isto, ao que parece, constituiu a causa principal da sua vida regrada e comedida, quando homem. Falecendo um dos dois irmãos, ele desposou a viúva, com a qual teve dois filhos. No que respeita às mulheres, ele foi a vida toda tão aferrado como nenhum outro romano de seu tempo, sendo mesmo em idade avançada, acusado pelo delator Plotino de haver mantido relações com Licínia, uma das religiosas da deusa Vesta. O que levou o delator a fazer mau juízo de Licínia foi o fato de possuir ela um lindo jardim com casa de recreio, perto da cidade, que Crasso cobiçava e visitava amiudadamente, a fim de ver se conseguia adquiri-lo a baixo preço. Convencidos de que só a avareza o arrastava àquele lugar, os juízes absolveram-no por completo do incesto de que era acusado, e ele só deixou a religiosa em paz quando conseguiu comprar-lhe a propriedade. Dizem os romanos ser a avareza o único vício que ele possuía, e que ofuscava todas as belas virtudes que o adornavam. Para mim, porém, ela constituía o seu maior vício, que deixava a perder de vista todos os outros.

Enorme riqueza de Crasso; como a adquiriu.

II. Para demonstrar a grande cobiça que o dominava, apresentam dois argumentos principais: a maneira e o meio que ele punha em prática para lucrar, e o vulto dos seus haveres, pois, de início, ele não podia ter cabedal superior a trezentos talentos. Ao tempo em que ele se ocupou dos negócios públicos, ofereceu a Hércules o dízimo de todos os seus bens, proporcionou um festim a todo o povo romano, e deu a cada cidadão romano provisão de trigo para três meses. Entretanto, ao partir para guerrear os partas, dando um balanço em todo o seu haver, achou que ele somava sete mil e cem talentos. Embora a verdade ofenda algumas vezes, cumpre-me dizer que a maior parte daquela grande riqueza ele conseguiu-a à custa de fogo e sangue, fazendo das calamidades públicas sua maior fonte de renda. Tendo tomado a cidade de Roma, Sila vendeu publicamente, em leilões, os bens dos que ele submeteu à morte, considerando-os e chamando-os seu lucro; e, para que alguns dos maiores e mais poderosos da cidade pactuassem da mesma culpa, Crasso nunca deixou de participar de tais leilões, para receber de presente os referidos bens ou para comprá-los.

Predileção de Crasso pela opulência.

III. Além disso, notando que os estragos mais comuns dos edifícios de Roma eram produzidos pelo fogo e desmonoramentos, devido ao raio e à quantidade de andares que possuíam, ele comprou uns quinhentos cativos, entre pedreiros, carpinteiros e construtores. Assim, quando o fogo da desgraça lavrava em alguma casa, ele ia logo comprá-la, bem como as que lhe eram vizinhas, cujos donos, vendo o perigo que cornam, vendiam-nas por uma insignificância. Eis porque, com o correr do tempo, grande parte das casas da cidade de Roma passaram a pertencer-lhe. Embora ele tivesse tantos cativos dedicados ao ramo de construções, a única casa que edificou foi aquela em que residia, sob o fundamento de que os que gostavam de construir destruíam-se por si mesmos, sem que ninguém os atacasse. As diversas minas de prata que possuía, as grandes e excelentes terras para a lavoura, cuidadosamente trabalhadas por avultado número de pessoas, nada significavam quanto ao valor e dedicação de seus numerosos escravos e cativos, entre os quais havia lentes, escritores, ourives, moedeiros, cobradores, mordomos, estribeiros e copeiros, que instruía pessoalmente sobre os afazeres domésticos, com clareza e concisão, a fim de ter neles elementos úteis, fiéis e dedicados. Se agia como dizia, isto é, que o manejo e administração da casa deviam estar a cargo dos serviçais, e estes diretamente subordinados à sua pessoa, não pensava mal, pois tudo o que foge daí, para apegar-se simplesmente ao ganho, é baixo e vil. Quanto à direção dos negócios públicos, porém, a sua opinião era má, pois só considerava e denominava rico ao homem que pudesse ter e sustentar um exército à sua custa. A guerra, segundo o rei Arquidamo, não se faz com quantia determinada, razão por que, para sustentá-la, há necessidade de dinheiro em quantidade ilimitada. Êle se achava, a tal respeito, muito afastado da opinião de Mário, que, tendo distribuído catorze jeiras de terra a cada indivíduo, notou que alguns descontentes queriam mais, e disse-lhes: "Admira que haja romano que considere pequena a porção de terra que lhe dará o bastante para viver".

A casa de Crasso aberta a todo o mundo.

IV. Ainda assim, Crasso era afável com os estranhos, e sua casa estava sempre aberta a todos. Emprestava dinheiro a seus amigos, sem cobrar-lhes juros; mas, vencido o prazo estabelecido, exigia-o total e rigorosamente, de modo que a sua gratuitidade muitas vezes era mais molesta do que se êle exigisse juros elevados. Quando convidava alguém para comer em sua casa, sua mesa era muito simples, trivial, sem qualquer superfluidade; mas a delicadeza com que era servida e o bom acolhimento dispensado às pessoas agradavam mais do que se o fizesse com opulência e abundância.

Aplicação de Crasso ao estudo e à eloqüência.

V. Quanto ao estudo das letras, êle dedicou-se principalmente à eloqüência, e de modo particular à oratória, tornando-se um dos melhores oradores da Roma de seu tempo, superando, pela aplicação, esforço e zelo, os que por natureza possuíam mais capacidade que ele. Dizem que nunca deixou de preparar e estudar as causas que lhe caíam às mãos, para defender, por menores e insignificantes que fossem, e que não raro Pompeu, César e o próprio Cícero vacilaram levantar-se, para contrapor-se à sua defesa. Por isso, ele era geralmente estimado como pessoa prestimosa, desvelada e caritativa.

Sua afabilidade.

VI. Sua cortesia também era muito apreciada, porque ele cumprimentava, acariciava e abraçava gentilmente todo o mundo. Indo à cidade, não havia homem que o cumprimentasse, por pobre que fosse, e de baixa condição, que ele não respondesse ao cumprimento nomeando-o. Referem também ser ele muito versado em histórias, e que dedicou-se um pouco à filosofia, mesmo à de Aristóteles, que lhe lia um Alexandre, e que provou ser de natureza suave e paciente, pela convivência que teve com Crasso. Difícil seria dizer se êle tornou-se mais infeliz quando começou a visitá-lo ou depois de havê-lo feito longamente. Alexandre era seu amigo predileto, sem o qual nunca ia para o campo. Quando o fazia, emprestava-lhe uma liteira, para cobrir-se durante o trajeto, tomando-a sem demora, ao regressar. Homem de paciência admirável! Creio mesmo que, na filosofia, que lhe servia de profissão, o pobre sofredor não colocava a pobreza no rol das coisas indiferentes. Sobre isto falaremos a seguir.

Mario e Cina fazem perecer o pai e o irmão de Crasso, que foge para a Espanha.

VII. Sendo Cina e Mário mais fortes, e repondo-se a caminho da cidade de Roma, todos perceberam logo que eles não se dirigiam para ah em benefício da coisa pública, mas sim para a desgraça e morte das pessoas mais honestas do lugar, que foram de fato sacrificadas, achando-se entre elas o pai e o irmão de Crasso. Este, ainda muito moço, salvou-se da morte no momento de sua chegada. Percebendo que eles mantinham vigias em toda parte, para apanhá-lo, e que os algozes faziam-no procurar com insistência, êle, seguido por três de seus amigos e dez criados, ocultou-se o mais possível na Espanha, onde já havia estado com seu pai, quando este a administrara como pretor, conquistando inúmeras amizades. Encontrando todo o mundo assustado ah, e temendo o ódio de Mário, como se este já lhe estivesse batendo à porta, êle não ousou dar-se a conhecer; meteu-se pelos campos, e foi esconder-se numa grande caverna, ao longo da costa, de propriedade de Víbio Paciaco, a quem mandou um dos criados perguntar por quanto lhe forneceria alimentação, pois os seus víveres começavam a escassear. Sabendo-o salvo, Víbio ficou satisfeito; e, informando-se do número de pessoas que estavam com êle, e do lugar em que se achava, êle não foi pessoalmente ao seu encontro, mas chamou o escravo e cobrador que lhe administrava tal terra, e, levando-o até bem perto do esconderijo, ordenou-lhe que diariamente preparasse e levasse a comida junto ao rochedo em que se achava a caverna, sem nada dizer, sem indagar para quem e por que, sob pena de morte; mas, que se ele cumprisse fielmente suas ordens, dar-lhe-ia a liberdade. Esta caverna fica não muito longe da costa, entre dois rochedos, tendo altura e largura excelentes, e suficiente quantidade de água e luz. Uma fonte de execelente água corre ao longo dos rochedos, e as brechas naturais, existentes no ponto em que eles se unem, transmitem a claridade externa ao interior, bem como ar puro e seco, pois toda a umidade é absorvida pela espessura das rochas e pela água.

Maneira por que êle é recebido e tratado por Víbio.

VIII. Mantendo-se Crasso em tal lugar, o cobrador de Víbio levava-lhe diariamente o que lhe era indispensável à vida, não vendo as pessoas que atendia, nem as conhecendo, sendo, entretanto, bem visto por elas, que sabiam a hora que ele costumava levar-lhes as provisões, e ficavam à espreita. Êle, porém, não se resumia ao simples fornecimento da comida indispensável à vida, e em abundância, visto haver Víbio deliberado dar a Crasso o melhor tratamento possível, sem se descuidar dos deleites próprios da sua juventude. Sim, porque provê-lo tão só do alimento necessário afigurava-se-lhe ocupação e tratamento de homem que o socorria mais por humanidade do que por admiração e afeto.

Assim, arranjou duas raparigas, e levou-as consigo para a costa; e, ao chegar perto da caverna, mostrou-lhes por onde deviam seguir, ordenando-lhes que entrassem sem receio. Ao dar com as raparigas ali, Crasso temeu haver sido descoberto, e perguntou-lhes quem eram e o que desejavam. Instruídas por Víbio, elas responderam que procuravam seu amo, ali escondido. Percebendo, então, que aquilo não passava de uma galantaria de Víbio, Crasso fê-las entrar, tratou-as o melhor possível, valendo-se delas, para fazer saber a Víbio o que desejava. Isto, escreve Fenestela, foi-lhe várias vezes narrado por uma velha, com grande carinho.

Êle toma o partido de Sila.

IX. Tendo permanecido durante oito meses escondido naquela caverna, Crasso retirou-se dali, logo que soube da morte de Cina. Dando-se a conhecer, grande número de guerreiros acercou-se dele, dos quais escolheu dois mil e quinhentos, com os quais passou por muitas cidades e saqueou a de Malaca, segundo escrevem muitos autores, que ele contesta e nega com veemência e firmeza. Depois, provendo-se de navios, êle dirigiu-se à África, a chamado de Metelo Pio, homem de grande reputação e que havia reunido ah uma grande esquadra. Tendo tido alguma divergência com êle, não se deteve ali durante muito tempo, e retirou-se para junto de Sila, que recebeu-o e homenageou-o de modo como nunca fizera a ninguém. Passando-se à Itália, e desejando servir-se de todos os moços de Famílias distintas que se achavam em sua companhia, Sila deu diversos encargos a uns e a outros, c mandou Crasso à região dos marsos, para ali recrutar guerreiros. Como Crasso lhe pedisse gente para garanti-lo, visto ter de passar por lugares próximos aos ocupados pelos inimigos, Sila respondeu-lhe zangado e brutalmente: "Dou-te por guardas teu pai, teu irmão, teus parentes e amigos, brutal e indignamente matados, que eu procuro vingar, perseguindo, a mão armada, os facínoras que lhes tiraram a vida".

Trabalhos que êle realiza.

X. Duramente ofendido e ferido com estas palavras, Crasso partiu sem demora; e, passando audaciosamente através os inimigos, reuniu boa quantidade de gente, e, a seguir, mostrou-se sempre pronto e bem disposto a Sila, em tudo quanto lhe foi atribuído. Dizem que foi daí que se originaram a rixa e a inveja de honrarias entre ele e Pompeu, que, sendo mais moço descendia de um pai mal reputado em Roma, e fora desprezado pelo povo até tornar-se adulto e saber impor-se pela virtude e pela prática de grandes ações. Eis porque Sila prestava-lhe grandes homenagens, que raramente concedia aos mais velhos e aos que lhe eram iguais, a ponto de levantar-se quando ele aparecia, de descobrir-se e de chamá-lo imperador, isto é, comandante-chefe. Isto irritava fortemente Crasso, embora Sila não fizesse a injustiça de preferir Pompeu a ele, por não ter ainda a devida experiência de guerra, e não ligasse à sua avareza, que estragava o que de bom e belo havia em seus feitos. No saque à cidade de Tuder, na Úmbria, que êle tomou, desviou em seu favor a maior parte da pilhagem sendo o fato levado ao conhecimento de Sila. Todavia, no último ataque de toda esta guerra civil, que foi o maior e o mais perigoso de quantos se realizaram, e diante da própria Roma, as forças de Sila foram derrotadas e expulsas. Crasso, porém, que comandava a ponta direita, venceu e expulsou os inimigos até alta hora da noite, e mandou dar notícias a Sila da vitória alcançada e pedir-lhe víveres para os seus soldados. Em contraposição, êle atraiu sobre si a nota infamante, na confiscação e leilão dos bens dos desterrados, comprando enormes riquezas por uma ninharia, ou exigindo-as de presente. Dizem ainda que na região dos brucianos, antigos povos calabreses, êle desterrou um, que Sila não havia ordenado, para apoderar-se de seus bens. Sabedor disso, Sila não quis mais valer-se dele em qualquer serviço público.

Reputação de Crasso; como êle a obtém.

XI. E estranho que, sendo êle grande bajulador, quando desejava cair nas boas graças de alguém, facilmente se deixasse vencer pela adulação, em qualquer empresa, e fosse dotado de pouca sorte, ao agir pessoalmente. Dizem que, sendo o homem mais avarento do mundo, êle possuía a particularidade de odiar e censurar asperamente os que lhe eram iguais. A glória que Pompeu diariamente conquistava no decorrer da guerra, e o fato de haver obtido a honra do triunfo antes de ser senador e de ser geralmente chamado pelos romanos Pompeu Magno, isto é, o Grande, desgostavam-no imenso. Tanto assim, que, um dia, ouvindo alguém dizer em sua presença, ao ver chegar Pompeu, eis o grande Pompeu, êle perguntou-lhe em ar de mofa: Que altura tem êle?" Todavia, não esperando poder igualá-lo em feitos guerreiros, Crasso entregou-se com afinco aos negócios públicos e à rabulice, defendendo os acusados, emprestando dinheiro aos que demandavam ou pediam concessões em favor do povo, adquirindo assim reputação e autoridade iguais às conquistadas por Pompeu no campo da luta. Deste modo, a fama e o poder de Pompeu eram maiores em Roma quando êle se achava ausente, porque, quando presente, mantinha certa gravidade e grandeza no seu modo de vida, evitava ser visto pelo povo, não freqüentava lugares públicos, interessava-se por reduzido número de pessoas, e ainda assim de má vontade, para só se utilizar do seu prestígio e autoridade em seu favor, quando tivesse necessidade. A presença de Crasso, pelo contrário, era vivamente louvada e desejada, por ser útil a muitos, por estar sempre a posto, por atender a todos os que desejavam valer-se dos seus préstimos, esforçando-se por tornar-se agradável e querido. Assim, devido à sua simplicidade e grande familiaridade, êle excedia, em valia e consideração, a gravidade e majestade de Pompeu.

Êle se torna fiador de César de avultada quantia.

XII. Quanto à dignidade pessoal, à facilidade e beleza do falar e à simpatia do rosto, dizem não haver disparidade entre os dois. Este ciúme, entretanto, nunca induziu Crasso a uma malquerença e inimizade declaradas. Sofria muito em ver Pompeu e César mais homenageados que ele, mas este ambicioso desgosto nunca foi acompanhado de ódio, nem de malvadez inata, embora César, surpreendido certa vez por corsários na Ásia, e detido por eles prisioneiro, gritasse: "Como ficarás satisfeito, Crasso, quando souberes que estou prisioneiro!" Apesar disso, eles foram depois bons amigos, como ficou provado quando César, achando-se de partida para a Espanha, foi inesperadamente assaltado por seus credores, que lhe apreenderam toda a bagagem, visto ele não poder pagá-los. Crasso, porém, livrou-o de tal situação, respondendo por ele pela quantia de oitocentos e trinta talentos.

Como Crasso mantém sua reputação entre César e Pompeu.

XIII. A cidade de Roma dividiu-se logo em três partidos: o de Pompeu, o de César e o de Crasso. Quanto a Catão, sua reputação e o apreço que devotavam à sua probidade eram superiores ao seu prestígio e poder, sendo a sua virtude mais admirada do que seguida. Os mais circunspectos e ajuizados alistaram-se no partido de Pompeu; mas os mais volúveis e prontos a empreender tudo temerariamente seguiram os propósitos de César. Crasso, nadando no meio, valia-se de ambos; e, mudando constantemente de partido na administração pública, não era nem amigo ferrenho, nem inimigo de morte de quem quer que fosse. Distribuía comodamente amizade e inimizade em tudo quanto pudesse tirar proveito, razão por que freqüentemente viam-no, a curto espaço de tempo, louvar e censurar, defender e condenar as mesmas leis e os mesmos homens. Sua reputação tanto provinha do temor que lhe tinham como do afeto que lhe dedicavam, conforme no-lo demonstra este simples fato: um Sicínio, que atormentava todos os governadores e árbitros dos negócios públicos de seu tempo, sendo um dia interpelado por que não se ligava a Crasso e o deixava em paz, já que conseguia moer todos os outros, respondeu: "Porque ele tem feno no chifre". Era costume em Roma, quando se desejava marcar os chifres de um boi, rodeá-los de feno, para que ele não percebesse.

Início da guerra de Espártaco.

XIV. A revolta dos gladiadores, que alguns denominam guerra de Espártaco, e as correrias e pilhagens que eles fizeram pela Itália, originou-se do seguinte: havia, na cidade de Cápua, um tal Lêntulo Batiato, cuja ocupação consistia em alimentar fartamente e manter grande número de combatentes, que os romanos denominam gladiadores, em sua maior parte gauleses e tracianos aprisionados por simples perversidade de seu chefe, que os comprara e os obrigava a combater ao extremo, uns contra os outros. À vista disso, duzentos deles deliberaram fugir. Descoberto o seu intento, setenta e oito não aguardaram qualquer ordem do chefe; dirigiram-se a uma casa de venda de carne assada, arrebatan-do-lhe espetos, machadinhas e facas de cozinha, e puseram-se às pressas fora da cidade. Pelo caminho encontraram casualmente carretas carregadas de armas usadas pelos gladiadores, que levavam de Cápua para qualquer outra cidade. Apoderando-se delas à força, armaram-se, ocuparam um lugar de excelente situação, e escolheram entre eles três comandantes. O primeiro escolhido foi Espártaco, natural da Trácia, terra dos que erram pelo país com suas bestas, sem nunca se deter definitivamente num lugar. Ele não só era robusto e de bom coração, como prudente, calmo e humanitário, qualidades pouco comuns aos indivíduos de sua terra. Dizem que a primeira vez que o levaram a Roma, para ser vendido como escravo, logo que adormeceu, uma cobra apareceu enrolada em seu rosto. Vendo tal, sua mulher, também natural da Trácia, adivinha e inspirada pelo espírito profético de Baco, prognosticou que êle conseguiria um dia grande e incontestável prestígio, que terminaria com feliz êxito. Esta mulher ainda permaneceu com êle, e acompanhou-o na fuga. Logo de início repeliram alguns homens que saíram de Cápua no seu encalço, para tornar a prendê-los; e, tendo-lhes arrebatado as armas de soldados, ficaram satisfeitos em poder substituir por elas as suas de gladiadores, que jogaram fora, como sendo bárbaras e desprezíveis.

Clódio é derrotado.

XV. Depois foi mandado contra eles um pretor romano chamado Clódio, com três mil homens, que sitiou-os em seu forte, um outeiro de subida penosa e estreita, guardada por Clódio, rodeado de altos rochedos talhados a pique, tendo no cimo grande quantidade de videiras selvagens. Os sitiados cortaram os rebentos mais longos e fortes de tais videiras, fizeram com eles compridas escadas que roçavam a planície, e, amarrando-as no alto, por elas desceram todos sossegadamente. Um deles apenas ficou em cima, para jogar-lhes as armas, findo o que, também se pôs a salvo. Os romanos não suspeitaram tal; pelo que, rodeando o outeiro, os sitiados atacaram-nos pela retaguarda, afugen-tando-os apavorados, e tomaram-lhes o acampamento. Muitos boiadeiros e pastores que guardavam seus rebanhos juntaram-se aos fugitivos, sendo uns armados por eles e outros mandados a espionar.

Diversas vantagens obtidas por Espártaco.

XVI. Nessa ocasião foi mandado a Roma outro comandante, Públio Varino, para desbaratá-los, do qual primeiramente derrotaram em combate um tenente denominado Fúrio, com dois mil homens, e a seguir um outro, denominado Cossínio, que lhe haviam impingido como conselheiro e companheiro, e com grande poder. Vendo Espártaco que êle se banhava num lugar chamado Salinas, procurou aprisioná-lo, mas o comandante conseguiu salvar-se, embora a custo. Não obstante, Espártaco apoderou-se de toda a sua bagagem, e perseguindo-o tenazmente apoderou-se do seu acampamento, com a morte de muitos dos seus homens, entre os quais Cossínio. Tendo também vencido em muitos encontros o próprio pretor-chefe, e aprisionado os sargentos que conduziam os machados à sua frente, bem como seu próprio cavalo, Espártaco adquiriu tal valor que todos o temiam. Todavia, calculando cuidadosamente suas forças, e vendo que elas não podiam superar as dos romanos, levou seu exército para os Alpes, sendo de parecer que, uma vez transpostos os montes, cada qual voltasse para sua terra, isto é, para a Gália e para a Trácia. Seus homens, porém, fiados em seu número, e prometendo grandes realizações, não o quiseram atender, e recomeçaram a percorrer e a saquear toda a Itália.

Crasso é encarregado desta guerra.

XVII. Ach ando-se o senado inquieto, não só pela vergonha e afronta de serem seus homens vencidos por escravos sublevados, como pela apreensão e pelo perigo em que se achava toda a Itália, mandou para ali os dois cônsules, como se se tratasse de uma das mais árduas e perigosas guerras que deveriam enfrentar. Gélio, um dos cônsules, atacando de surpresa uma tropa de alemães, que por altivez e desprezo, se havia separado e afastado do acampamento de Espártaco, submeteu-a toda ao fio de espada; Lêntulo, seu companheiro, com numerosas forças sitiou Espártaco e todos os que o seguiam, atacou-os, venceu-os, e apoderou-se de toda a sua bagagem. Razão por que, avançando para os Alpes, Cássio, pretor e governador da Gália do suburbio do Pó, enfrentou-o com um exército He dez mil homens. Travou-se um grande com-bate, no qual ele foi derrotado, tendo perdido inultos soldados, e conseguido salvar-se a muito custo e às pressas. Ciente disto, o senado declarou-se bastante descontente de seus cônsules; e, ordenan-do-lhes que não mais se envolssem nesta luta, atribuiu todo o encargo a Crasso, que foi seguido por numerosos moços nobres, graças à sua elevada reputação e à grande estima que lhe votavam.

Seu tenente Múmio é derrotado por Espártaco.

XVIII. Crasso foi assentar seu acampamento na Romanha, para esperar a pé firme Espártaco, que se dirigia para ali, e mandou Múmio, um dos seus tenentes, com duas legiões, envolver o inimigo pela retaguarda, ordenando segui-lo sempre no encalço, e proibindo-lhe expressamente atacá-lo e escaramuçá-lo de qualquer modo. Não obstante todas estas determinações, logo que Múmio se viu na possibilidade de fazer alguma coisa, atacou-o, sendo derrotado, com perda de muitos dos seus homens. Os que conseguiram salvar-se na fuga, apenas perderam suas armas. Crasso irritou-se bastante com ele; e, recolhendo os fugitivos, deu-lhes outras armas, exigmdo-lhes fiadores que garantissem seu melhor serviço dali por diante, coisa que nunca fora feito antes. E, os quinhentos que estiveram nas primeiras filas, e que foram os primeiros a iniciar a fuga, ele dividiu-os em cinqüenta dezenas, em cada uma das quais sorteou um, sujeito à pena de morte. Reviveu assim o antigo modo dos romanos castigarem os soldados cobardes, coisa que de há muito havia sido abandonada, por ser ignominiosa, e produzir horror e espanto à assistência, quando realizada publicamente.

Crasso cerca Espártaco na península de Régio.

XIX. Castigando assim seus soldados, Crasso lançou-os diretamente contra Espártaco, que recuou sempre e tanto que, pela região dos lucanianos, chegou à costa, encontrando alguns navios de corsários cilícios no estreito do Farol de Messina. Isto animou-o a ir à Sicília; e, tendo ali lançado dois mil homens, reacendeu a guerra dos escravos, que viviam aparentemente calmos e que de pouco precisavam para se reanimar. Tendo estes corsários prometido auxiliá-lo em sua passagem, recebendo por isso presentes dele, enganaram-no e afastaram-se para longe. Razão por que, lançando-se inesperadamente longe da praia, êle foi assentar seu acampamento na península dos régios, onde Crasso foi encontrá-lo; e, vendo que a natureza do lugar mostrava-lhe como devia agir, decidiu cercar de muralhas o istmo da península, dando assim ocupação aos seus homens e impedindo que os inimigos recebessem víveres. Trabalho demorado e difícil, que êle executou em bem pouco tempo, contra a opinião de todo o mundo, e fêz abrir uma trincheira através da península, de quinze léguas de comprimento, quinze pés de largura e quinze pés de profundidade.

Sobre a trincheira fez construir uma muralha muito alta e forte, da qual Espártaco a princípio zombou. Quando, porém, sua pilhagem começou a falhar, e se viu na impossibilidade de obter víveres em toda a península, devido àquela muralha, numa noite bastante áspera, de neve espessa e vento impetuoso, êle mandou encher de terra, pedras e galhos de árvores um trecho não muito extenso da trincheira, por onde fez passar um terço do seu exército. A princípio Crasso receou que Espártaco tomasse a resolução de seguir para Roma; logo, porém, tran-quilizou-se, pois soube haver sério desentendimento entre eles, e que uma grande tropa, amotinada contra Espártaco, separara-se dele e fora acampar junto a um lago da Lucânia, cuja água de tempos a tempos torna-se doce, e a seguir tão salgada que não pode ser bebida. Tendo-os atacado, Crasso expulsou-os dali, mas não conseguiu matar grande número, nem afastá-los para muito longe, porque Espártaco apareceu de repente com seu exército, e fez cessar a perseguição.

Êle obtém uma vitória sanguinolenta.

XX. Crasso, que havia escrito ao Senado ser necessário chamar Lúculo da Trácia e Pompeu da Espanha, arrependido de havê-lo feito, esforçava-se o mais possível de dar fim a esta guerra antes que eles chegassem, por saber que atribuiriam toda a glória da sua conclusão ao recém-chegado que lhe fosse em auxílio, e não a êle. Por isso ele resolveu primeiramente atacar os que se haviam revoltado e entrincheirado à parte, às ordens dos capitães Caio Canício e Casto. Para tal, fez seguir seis mil soldados de infantaria, para assenhorear-se de uma eminência, ordenando-lhes que tudo fizessem para não serem vistos nem descobertos pelos inimigos. O que eles procuraram realizar o melhor possível, cobrindo seus mornÕes e elmos. Não obstante, eles foram percebidos por duas mulheres que às escondidas faziam sacrifícios em favor dos inimigos, e estiveram em risco de ficar todos perdidos. Crasso, porém, socorreu-os a tempo, dando aos inimigos o combate mais áspero de quantos se realizaram naquela guerra. Na luta pereceram doze mil e trezentos homens, lutando valorosamente frente a frente, sendo encontrados unicamente dois mortos pelas costas.

Espártaco vence um destacamento do exército de Crasso.

XXI. Depois desta derrota Espártaco retirou-se para as montanhas de Petélia, perseguido e escaramuçado sem trégua, pela retaguarda, por Quinto, um dos tenentes de Crasso, e seu tesoureiro Escrofa. No fim do dia, porém, tudo mudou de repente, e Espártaco derrotou os romanos, sendo o tesoureiro gravemente fendo e salvo a custo. Esta vantagem obtida sobre os romanos deu origem à ruína final de Espártaco, porque seus guerreiros, quase todos escravos fugitivos, encheram-se de tamanho orgulho e audácia que não quiseram deixar de combater, nem obedeceram mais seu comandante. Pelo contrário, como se achavam a caminho, cercaram-nos e disseram-lhes que, quisessem ou não, era preciso que voltassem depressa e os conduzissem pela Lucânia contra os romanos, que era o que Crasso pedia, pois sabia que Pompeu se aproximava, e que muitos em Roma discutiam e brigavam por sua causa, dizendo que a vitória final desta guerra lhe era devida, e que logo que ele ah chegasse tudo seria decidido com um único combate.

O último combate. Espártaco é morto.

XXII. Por isso, procurando combater, e aproximando-se o mais possível dos inimigos, Crasso mandou um dia abrir uma trincheira, que os fugitivos procuraram impedir, carregando furiosamente sobre os que se ocupavam de tal tarefa. A luta tornou-se violenta. E, como, a todo momento, chegassem reforços de parte a parte, Espártaco viu-se obrigado a lançar mão de todos os recursos. Sen-do-lhe levado o cavalo em que devia combater, ele desembainhou a espada, e, matando-o à vista de todos, disse: "Se eu for vencido neste combate, ele de nada me servirá. E, se eu for vitorioso, muitos deles, belíssimos e excelentes, terei dos inimigos à minha disposição". Isto feito, lançou-se através da pressão dos romanos, procurando aproximar-se de Crasso, sem o conseguir, e matou dois centunões romanos que o enfrentaram. Por fim todos os que o rodeavam fugiram, e ele permaneceu firme em seu posto, completamente cercado, lutando valentemente, sendo retalhado. Embora Crasso fosse muito feliz e satisfizesse todos os seus deveres de bom comandante e de homem valente, expondo-se a todos os perigos, não pôde impedir que a honra do termo daquela guerra fosse atribuída a Pompeu, porque os que escaparam deste último combate caíram-lhe às mãos e ele aniquilou-os, escrevendo ao Senado que Crasso vencera os fugitivos em combate regular, mas ele destruíra todas as raízes desta guerra. Pompeu teve assim entrada triunfal em Roma, por haver vencido Sertório e reconquistado a Espanha. Crasso não só exigiu o grande triunfo como também o pequeno, que os latinos denominam Ovatio, por fazerem-no vencer, indigna e desumanamente, escravos fugitivos. Tratando da vida de Marcelo, já escrevemos suficientemente sobre este pequeno triunfo, por que foi denominado Ovatio, e no que difere do grande triunfo.

Crasso é nomeado cônsul com Pompeu.

XXIII. Depois disso, tendo sido Pompeu elevado ao consulado, Crasso não hesitou em pedir-lhe a ajuda, esperançado, como estava, de também ser eleito cônsul. Pompeu aquiesceu de boa vontade, porque desejava, de qualquer modo, que Crasso lhe fosse devedor de algum favor. Tanto assim que favoreceu-o com tal carinho, que declarou publicamente, perante a assembléia da cidade, ser tão grato ao povo, se lhe desse Crasso por companheiro no consulado, quanto o era por havê-lo eleito cônsul. Eles, entretanto, não prosseguiram nesta benevolência, quando na posse de seus cargos, mantendo freqüentes discussões, e divergindo em quase todas as coisas. O que fêz com que todo o seu consulado transcorresse sem qualquer fato digno de nota, a não ser o grande sacrifício que Crasso fêz a Hércules, dando um banquete de mil mesas ao povo romano e distribuindo a cada cidadão trigo para três meses. Ao findar seu consulado, ao realizar-se a assembléia da cidade, um indivíduo chamado Onácio ou Caio Aurélio, cavaleiro romano, pouco conhecido por manter-se quase sempre nos campos, alheio aos negócios públicos, assomou à tribuna durante os debates, e contou ao povo uma visão que lhe aparecera em sonho: "Tendo me aparecido Júpiter esta noite (declarou), ordenou-me que vos dissesse publicamente que não deveis admitir que Crasso e Pompeu abandonem seu consulado, sem que primeiro se hajam reconciliado". Nem bem êle terminou de proferir esta palavra, o povo ordenou-lhes que se reconciliassem. Pompeu manteve-se firme como uma estátua, sem proferir palavra. Crasso, porém, estendeu-lhe a mão, e, dirigindo-se ao povo, falou em voz alta: "Não pratico nenhuma cobardia ou indignidade, senhores romanos, sendo o primeiro a rebuscar a amizade e carinho de Pompeu, visto que vós mesmos o cognominastes grande, antes que lhe despontasse qualquer fio de barba, e lhe concedestes a honra do triunfo, antes que êle pertencesse ao Senado".

Êle nada faz durante a sua permanência na censura.

XXIV. Foi tudo quanto se realizou de notável durante o consulado de Crasso, cuja censura decorreu completamente apagada e de todo inútil, embora tivesse por companheiro o mais civil e tra-tável dos homens existentes então em Roma. Dizem que, logo de início, desejando Crasso praticar um ato violento e iníquo, o de tornar o Egito província tributária dos romanos, Catulo se opôs terminantemente, o que os tornou inimigos e fez com que renunciassem voluntariamente a seus postos.

Desconfiança de haver Crasso participado da conspiração de Catilina.

XXV. Quanto à conspiração de Catilina, que foi de grande conseqüência e quase arruinou e destruiu a cidade de Roma, Crasso foi tido como suspeito, e houve um dos cúmplices que o apontou, mas ninguém lhe deu crédito. O próprio Cícero, em um dos seus discursos, dá o maior relevo à suspeita sobre Crasso e César, mas tal discurso só foi publicado depois da morte de ambos. No que êle proferiu para dar conta dos atos do seu consulado, êle declara que certa noite Crasso procurou-o, levan-do-lhe uma missiva na qual mencionava Catilina, como a confirmar-lhe que a conspiração que pesquisavam era certa. Tanto assim, que, depois, Crasso sempre quis mal a Cícero; mas seu filho Púbho Crasso, estudioso e amante das letras, que não se afastava de Cícero, impediu-o de buscar abertamente os meios capazes de prejudicá-lo, para se vingar. De modo que, quando quiseram instaurar processo contra ele, Públio tanto pediu a seu pai, secundado por muitos moços de boa familia, que êle reconciliou-se com Cícero.

União de César, Pompeu e Crasso funesta à república.

XXVI. Por fim, achando-se César ao termo do seu governo, preparou-se para pedir o consulado; e, percebendo que Pompeu e Crasso se haviam novamente inimizado, não quis, pedindo a um que o auxiliasse em sua pretensão, incorrer na inimizade de outro, e também não esperava alcançar o seu desejo sem o auxílio de um deles. Por isso, êle procurou estabelecer um acordo entre os dois, demonstrando-lhes que a sua inimizade só conseguia aumentar o prestígio e a autoridade de um Cícero, de um Catulo e de um Catão, que nada valeriam se eles se unissem, pois, com os elementos que possuíam, podiam, unidos, manejar à vontade tudo quanto se relacionasse com os negócios públicos. Tendo-os convencido e reconciliado, César fêz dos três partidos uma força invencível, que arruinou o Senado e o povo romano. Esta fusão de partidos deu grande força e poder a Pompeu e Crasso, e foi de enorme valia a César; porque, nem bem eles começaram a protegê-lo, êle foi eleito cônsul sem a menor dificuldade. Tendo-se portado bem no consulado, findo o mesmo entregaram-lhe o comando de grandes exércitos e submeteram a Gália ao seu domínio, na esperança de poder repartir entre ambos o produto do saque a que desejavam sujeitar a cidade.

Plano dos três associados para escravizar a república.

XXVII. O que induziu Pompeu a cometei esta falta foi a sua desmedida ambição. Crasso, porém, além da sua velha e inseparável avareza, deixou-se levar pela inveja que lhe causavam os grandes feitos guerreiros de César, e que o acompanhou até à morte, pois não podia suportar que, sendo-lhe superior em tudo, não o superasse também nas armas. Tendo César descido da província de Gália à cidade de Luca, muitos romanos foram-lhe ao encontro, inclusive Pompeu e Crasso, que, conluiados com ele, deliberaram submeter ao seu domínio todo o império romano, ficando César com as forças que já possuía, encarregando-se Crasso e Pompeu de organizar outros exércitos e de apoderar-se de outras províncias. Para tal conseguir, era indispensável que Pompeu e Crasso obtivessem um novo consulado, no que César devia ajudá-los, escrevendo aos seus amigos de Roma, e mandando para ali bom número de soldados, a fim de garantirem a eleição.

Pompeu e Crasso ambicionavam novamente o consulado.

XXVIII. Devido a isso Pompeu e Crasso regressaram a Roma, onde logo desconfiaram do acontecido, correndo por toda a cidade que o encontro de Luca não fora bem intencionado, pelo que, em pleno Senado, Marcelino e Domício perguntaram a Pompeu se ele desejava o consulado, e ele respondeu-lhes que em parte sim e em parte não. Refeita a pergunta, ele respondeu que o aceitaria em favor dos bons e não dos perversos. Estas respostas não foram consideradas satisfatórias, mas sim pretensiosas e arrogantes. Crasso, porém, respondeu modestamente que, se fosse para o bem público, ele o aceitaria, caso contrário não. A estas palavras, ninguém teve a ousadia de, como Domício, manifestar-se contra. Mas depois, quando eles se declararam abertamente pretendentes, todos se manifestaram favoráveis à sua pretensão, exceto Domício, que Catão, seu parente e amigo, não conseguiu demover da sua oposição, porquanto viu nela um combate em defesa da liberdade, pois o que Crasso e Pompeu aspiravam não era propriamente o consulado, mas sim o elemento capaz de levá-los à tirania, de organizar exércitos e de arrebatar e dominar províncias.

Eles fazem-se eleger pela violência.

XXIX. Bradando sobre tais propósitos, e acreditando firmemente neles, Catão sondou à força, por assim dizer, Domício na praça, conseguindo o apoio de muita gente de bem, pois ninguém atinava a razão por que Pompeu e Crasso ambicionavam um segundo consulado, e fizessem questão de estar juntos e não com outros, quando havia ali tantos que não eram indignos de figurar em tal posto ao lado de qualquer dos dois. Devido a isso, crente de não conseguir o que almejava, Pompeu não duvidou em praticar as coisas mais desonestas e violentas do mundo. Entre elas, no dia da eleição, quando Domício e seus amigos se dirigiam, de madrugada, para o local em que devia ser realizada, o lacaio que conduzia o archote à sua frente foi morto por pessoas propositalmente colocadas de emboscada, e muitos da comitiva, entre os quais Catão, foram feridos. Os que não conseguiram fugir foram cercados e presos, e encerrados em uma casa até serem os dois eleitos cônsules. A seguir, apoderando-se da tribuna pelas armas, expulsaram Catão da praça, mataram alguns oposicionistas que não quiseram fugir, prorrogaram por mais cinco anos o domínio de César na Gália, e fizeram o povo nomeá-los governadores das províncias da Síria e da Espanha. Depois, tirada a sorte, o da Síria coube a Crasso e o da Espanha a Pompeu.

Futilidade dos projetos e dos discursos de Crasso.

XXX. Este acaso da sorte satisfez a todos, porque o povo não desejava que Pompeu fosse para longe de Roma, e ele, que amava muito sua esposa, sentiu-se feliz em poder manter-se o mais perto possível dela e de sua casa. A satisfação de Crasso foi tão grande, que, embora ele não proferisse palavra, não passou despercebida, pois ele desejava mesmo estar entre estranhos, rodeado de honrarias. Mas, na intimidade, e entre amigos, ele gabou-se tanto e disse tantas tolices, como dificilmente teria feito e proferido o jovem mais gabola; o que estava em desacordo com a sua idade e temperamento, pois fora a vida toda reservado, e comedido no falar. Engrandecendo-se desmedidamente, e afastando-se do seu hábito, ele não limitou suas esperanças à conquista da Síria, nem à dos partas, declarando que tudo quanto fizeram Lúculo contra Tigrano e Pompeu contra Mitrídates não passava de um brinquedo de crianças, pois ele estenderia as suas conquistas até Bactnana, índias e Grande Oceano, pelo lado oriental, embora o decreto sancionado pelo povo não se referisse à guerra contra os partas. Todos sabiam, porém, que Crasso nutria ardentemente tal desejo, pois o próprio César escrevera-lhe da Gália, louvando-lhe a deliberação e exor-tando-o a levá-la a efeito.

Inúteis esforços do tribuno Ateio, para impedir a partida de Crasso, na guerra contra os partas.

XXXI. Isso deu motivo a que Ateio, um dos tribunos do povo, se opusesse à sua partida, no que foi apoiado por muitos outros, por achar injusto que se fosse, sem motivo, guerrear povos que nunca molestaram nem ofenderam òs romanos, sendo-lhes, pelo contrário, amigos e aliados. Vendo em tal uma trama contra sua pessoa, Crasso pediu a Pompeu que o auxiliasse e acompanhasse até fora da cidade, dada a sua autoridade e o respeito que devotavam à sua pessoa na comuna. Embora fosse numerosa a massa popular reunida para impedir a partida de Crasso, e vaiá-lo, ao verem Pompeu marchar sorridente à sua frente, serenaram e deixaram-nos passar, sem dizer palavra. O tribuno Ateio, porém, colocou-se diante deles, e, em alta voz, proibiu Crasso de sair da cidade, protestando veementemente, se ele não o atendesse. E, vendo que, não obstante sua proibição, ele não deixou de seguir o seu caminho, ordenou a um dos seus sai gentos que lhe lançasse mão ao pescoço, para prendê-lo, o que não foi permitido pelos outros tribunos. Ateio correu então para a porta da cidade, colocou um braseiro de fogo ardente no meio da rua, e, ao chegar Crasso ah, jogou dentro alguns perfumes < fêz sobre êle algumas aspersões, proferindo blasfêmias e maldições apavorantes, e evocando deuses de nomes desconhecidos e assustadores. Dizem os romanos que tais pragas são ah muito antigas, porém, mantidas em segredo, porque são tão eficientes que as pessoas visadas não escapam delas e os que as rogam nunca mais têm paz na vida. Razão por que raros são os que as proferem, e assim mesmo nas grandes oportunidades.

Crasso põe-se a caminho.

XXXII. Ateio foi muito censurado, por haver rogado tais pragas e feito uso de tão espantosa cerimônia, que, visando Crasso, feriam os interesses públicos. Tendo seguido seu caminho, Crasso chegou a Brundúsio, onde as tempestades do inverno não haviam diminuído; mas nem por isso deixou de fazer-se de vela. Perdeu diversos navios, e, com o resto do seu exército, pôs-se a caminho, por terra, através do reino da Galácia, onde encontrou o rei Dejotaro, já muito velho, a edificar uma nova cidade. Crasso disse-lhe gracejando: "Parece-me, senhor rei, que começas muito tarde a edificar, fazendo-o na última hora do dia".

Ao que o rei dos gálatas respondeu sem demora: "Tu também não partiste cedo, pelo que vejo, senhor comandante, para ir guerrear os partas". Crasso já havia passado os sessenta anos, e aparentemente demonstrava ser muito mais velho.

Primeiros sucessos de Crasso; êle inverna na Síria

XXXIII. Tendo chegado aos lugares, a princípio os negócios correram-lhe segundo seus desejos, pois ele lançou facilmente uma ponte sobre o rio Eufrates, pela qual passou sem o menor obs-táculo todo o seu exército. Depois, entrando na Mesopotâmia, recebeu diversas cidades, que volun-làriamente renderam-se a ele. Uma houve, entretanto, sob a tirania de um Apolônio, onde cem dos seus soldados foram mortos, o que levou-o a lançar para ali todo o seu exército; e, tendo-a tomado à força, saqueou-a, e vendeu os habitantes em leião. Os gregos chamavam esta cidade Zenodócia, e a sua tomada fez com que os guerreiros denominassem Crasso de imperador, isto é, comandante supremo. O que só serviu para rebaixá-lo aos olhos de todos, que passaram a considerá-lo baixo e sem valor, incapaz de grandes feitos, visto dar tanta importância a um acontecimento insignificante como aquele. Tendo disposto sete mil soldados de infantaria e cerca de mil cavalarias em guarnições pelas cidades que se lhe renderam, Crasso foi passar o inverno na Síria, onde seu filho foi encontrá-lo, vindo das Gálias, onde estivera com Júlio César, que lhe concedera prêmios honrosos, que os comandantes romanos costumavam dar às pessoas de bem e cumpridoras do seu dever na guerra, e levou a seu pai mil dos melhores guerreiros.

Censuras à avareza que êle ali demonstra.

XXXIV. Parece-me ter sido esta a primeira falta cometida por Crasso, depois de iniciar esta guerra, considerada a maior de todas, porque êle devia ter avançado sem parar, e ter carregado contra Babilônia e Selêucia, sempre apontadas como inimigas dos partas. A sua demora permitiu que os inimigos fizessem provisões e se preparassem à vontade. Além disso, as censuráveis ocupações a que êle se entregou, durante todo o tempo em que esteve descansando na Síria, foram mais de mercador do que de comandante, pois não gastou tal tempo em ver as falhas do seu exército, em submetê-lo a exercícios, mas sim em calcular as rendas das cidades, e em somar e pesar o tesouro de ouro e prata existente no templo da deusa de Hierápolis. O pior é que êle exigiu dos soberanos, cidades e populações, determinado número de soldados, dispensando-os depois, mediante o pagamento de uma determinada quantia. Com isto, êle conquistou uma triste fama e o desprezo de todo o mundo.

Embaixada dos partas a Crasso.

XXXV. O primeiro presságio da sua infelicidade proveio-lhe desta deusa de Hierápolis, que alguns acreditam ser Vénus, outros Juno, e outros ainda acreditam ser causa e origem de todos os acontecimentos, que mostram aos homens a fonte de lodos os bens. Nem bem saíram do seu templo, o jovem Crasso foi o primeiro a cair defronte ao mesmo, e seu pai, a seguir, tropeçou-lhe no corpo, e caiu também. Nem bem Crasso começou a reunir as guarnições dos lugares em que havia invernado, para marchar para o campo, chegaram-se a ele embaixadores do rei dos partas, denominado Arsaces, que em poucas palavras puseram-no ao par da sua missão, declarando que, se tal exército fora mandado pelos romanos para guerrear seu soberano, este não manteria qualquer relação de amizade com eles, e lhes fana guerra de morte, custasse o que custasse. Mas, se, como ouvira dizer, Crasso, por simples ambição, e contra a vontade de seus concidadãos, foi de caso pensado, guerrear os partas, para apoderar-se do país, Arsaces, procederia mais moderadamente, de dó da sua velhice, contentando-se em fazer partir vivos e livres de perigo os guerreiros romanos, que considerava prisioneiros em suas cidades e não de guarda às mesmas. Crasso respondeu-lhes bravateiro que lhes daria resposta na cidade de Selêucia, pelo que o mais velho dos embaixadores, chamado Vagises, desandou a rir, e, mostran-do-lhe a palma da mão, disse: "É mais fácil nascerem pêlos na palma de minha mão, Crasso, do que ires à cidade de Selêucia". Os embaixadores partiram, e foram comunicar ao rei Hirodes ser indispensável pensar na guerra.

Notícias assustadoras levadas a Crasso por seus soldados fugidos aos inimigos na Mesopotâmia.

XXXVI. Neste ínterim, tendo-se salvo, com grande risco de vida, alguns guerreiros das guarnições das cidades da Mesopotâmia, levaram a Crasso notícias que bem mereciam cuidadoso estudo, dado o grande número de combatentes que viram no acampamento inimigo e o seu modo de combater, que patentearam em alguns ataques realizados em tais cidades. Como geralmente acontece com os escapos de qualquer perigo, que tornam as coisas mais espantosas e perigosas do que o são na realidade, eles contavam ser impossível salvar-se deles, quando perseguiam, bem como agarrá-los quando fugiam; que usavam flechas invisíveis, que trespassavam tudo quanto encontravam pelo caminho, antes de ser visto quem as desferia; que as armas ofensivas usadas pela sua cavalaria varavam todas as armaduras, por mais fortes que fossem, e que as defensivas resistiam aos maiores embates.

Êle persiste em seu propósito, apesar das representações.

XXXVII. Ouvindo tais notícias, os soldados romanos abrandaram a sua audácia, por que antes lhes haviam dito que os partas não diferiam dos armênios e dos capadócios, que Lúculo tanto derrotou e saqueou que chegou a aborrecer-se, e que as maiores dificuldades a serem vencidas em toda esta guerra eram a extensão do caminho a percorrer e o trabalho de perseguir e ir no encalço de gente que não os enfrentaria. No entanto, com as últimas notícias, compreenderam que deviam agir e combater decididamente. Por isso, mesmo alguns que tinham postos e autoridade no exército, entre os quais Cássio, questor e superintendente das finanças, foram de parecer que Crasso devia deter-se onde se achavam e confiar de novo o empreendimento à deliberação do conselho, isto é, se deviam ou não avançar. Em meio a quanto acontecia, os próprios adivinhos, ocultamente, davam a entender que os deuses, em todos os sacrifícios, prenunciaram maus acontecimentos, difíceis de aplacar. Crasso, porém, não lhes deu ouvidos, o mesmo fazendo com todos os outros, exceto os que o aconselharam a avançar. Quem mais o garantiu e encorajou foi Artabazo, rei da Armênia, que foi ter com êle no acampamento, levando-lhe seis mil cavalos, que era tudo quanto possuía, ao que diziam. Não obstante, ofereceu-lhe mais dez mil devidamente equipados, e trinta mil soldados de infantaria, aconselhando-o a entrar no país dos partas pela Armênia, devido à facilidade de provisões, que êle lhe forneceria, e porque marcharia com segurança, por ser região montanhosa, imprópria para cavalaria, que era a única força dos partas. Crasso agradeceu-lhe friamente a boa vontade manifestada e a oferta de tão belo e magnífico auxílio, e disse-lhe que retomaria a marcha pela Mesopotâmia, onde deixara muitos e excelentes guerreiros romanos, com o que o rei armênio despediu-se e retirou-se.

Maus presságios.

XXXVIII. Nem bem Crasso iniciou a pas sagem do seu exército pela ponte que fizera lançar sobre o rio Eufrates, rebentaram ali fortes e assus tadoras trovoadas, seguidas de relâmpagos, que ofuscavam a vista de seus homens. Súbito, de um pesada nuvem negra partiu formidável rajada seguida de raio, que caiu sobre a ponte, abatendo-em grande parte, e mais dois raios foram cair no lugar em que ele devia assentar acampamento Além disso, um dos seus melhores cavalos, rica mente ajaezado, foi lançar-se ao no, com quem o cavalgava, morrendo afogado, e nunca mais foi encontrado. Dizem que a primeira águia que levaram, para assinalar o acampamento, voltou sem demora para o lugar de onde a haviam levado. Aconteceu ainda, que, ao distribuírem víveres aos soldados, depois de atravessarem a ponte, o que lhes deram em primeiro lugar foi sal e lentilhas, que os romanos consideram símbolos de luto e prenúncios de morte, porque fazem uso deles nos funerais. Logo depois, arengando e exortando os soldados, Crasso proferiu uma sentença que abalou extraordinà-mente o exército todo, pois declarou que ia mandar destruir toda a ponte que lançara sobre o rio, para que nenhum deles pudesse voltar. Embora percebesse que as suas palavras, proferidas írrefletida-mente, foram mal interpretadas, e devesse repeti-las e esclarecer o seu pensamento, para tranqüilizar sua gente, teimoso como era não ligou importância ao caso. Fez, por fim, o sacrifício do costume pela felicidade do seu exército, e, ao serem-lhe apresentadas pelo adivinho as entranhas do inimigo imolado, elas caíram-lhe das mãos. Percebendo o pasmo e perturbação da assistência, êle desandou a rir, e disse: "Isto é mal da velhice; mas haveis de ver que as armas não me cairão das mãos .

Crasso segue para a frente.

XXXIX. Tudo preparado, êle iniciou a marcha pela região, ao longo do rio, com sete legiões de soldados de infantaria, pouco menos de quatro mil cavalos e uns quatro mil lanceiros. Nisso, alguns de seus precursores, que acabavam de explorar a região, comunicaram-lhe não haver homem algum em toda a campina, mas que notaram sinais de inúmeras patas de cavalos, que pareciam ter retrocedido. Isto fêz com que Crasso e sua gente nutrissem boa esperança e começassem a fazer pouco caso dos partas, certos de que eles não entrariam em combate. Cássio, entretanto, fêz-lhe ver que melhor seria reforçar um pouco as guarnições de algumas cidades que se achavam em seu poder, até receber notícias exatas dos inimigos, ou que se dirigisse à cidade de Selêucia, margeando o no, o que facilitaria o transporte de víveres ao acampamento, por meio de barcos, tendo o cuidado de evitar que os inimigos os atacassem pela retaguarda, pois, fazendo-o frente a frente, não obteriam vantagem.

Conselhos insidiosos dados a Crasso por Ariamnes.

XL. Nem bem Crasso começou a refletir c deliberar sobre tal, apareceu-lhe um comandante de árabes, chamado Anamnes, homem esperto e cauteloso, que foi a principal e a maior das desgraças que a sorte proporcionou ao mesmo tempo, para arruinar Crasso. Alguns dos que já haviam estado em luta naquelas paragens, sob o comando de Pompeu, que bem conheciam, e a quem deviam alguns favores, calcularam que, por isso, ele se houvesse afeiçoado bastante aos romanos. Êle, porém, fora subornado e encarregado de ir até eles pelos comandantes dos partas, com os quais mantinha relações, para enganar Crasso e procurar afastá-lo o mais possível do no e da região montanhosa, para lançá-lo à enorme planície, onde pudesse envolvê-lo completamente com a cavalaria, pois eles só desejavam atacar os romanos de frente, imprevistamente. Dirigindo-se a Crasso, este bárbaro começou a elogiar Pompeu como seu benfeitor (pois era muito eloqüente), e, enaltecendo o exército de Crasso, reprovava-lhe a demora da ação, prolongando e consumindo o tempo com preparativos, como se necessitasse de armamentos, ao invés de agir prontamente e com a reconhecida habilidade, contra inimigos que de há muito só pensavam em apoderar-se dos bens das pessoas mais evidentes e ir ocultá-los nos desertos da Cítia ou da Hircânia. "Se tencionais atacá-los, disse êle, a boa razão manda que os procureis, antes que seu rei reúna todas as suas forças. No momento só encontrareis pela frente dois dos seus tenentes, Surena e Silaces, que ele mandou para vos entreter, certo de que não o perseguireis. Êle, porém, não comparecerá".

Elogio de Surena.

XLI. Tudo isto era falso. Dividindo desde o início suas forças em duas porções, Hirodes destruiu com uma delas o reino da Armênia, para se vingar do rei Artabazo, e mandou Surena ao encontro dos romanos, não em sinal de pouco caso, como referem alguns, porque desdenhasse lutar contra Crasso, que era um dos principais vultos da cidade de Roma, e achasse mais honroso guerrear Artabazo na Armênia. Fê-lo a meu ver, para evitar maior perigo, em lugar onde pudesse aguardar os acpnte-cimentos com segurança, enquanto Surena tentava a sorte, e para desnortear os romanos. Surena não era homem de baixa ou pequena condição social, e sim o segundo dos partas, depois do rei, tanto em nobreza como em riqueza e reputação. Quanto ao valor, capacidade e experiência em feitos guerreiros, ocupava o primeiro lugar entre os partas do seu tempo. Ninguém o excedia em tamanho e beleza corporal. Quando seguia para o campo com a sua comitiva, cerca de mil camelos transportavam-lhe a bagagem, duzentas carruagens iam repletas de concubinas, seguidas de mil guerreiros de todas as armas, além de outros, perfazendo o total de mais de dez mil, entre subordinados e meios de transporte. Herdou dos seus antepassados o privilégio de ser o primeiro a colocar a faixa real ou diadema na cabeça do rei, por ocasião da sua ascensão ao trono; além disso, repôs o rei Hirodes no trono, do qual havia sido expulso, e conquistara-lhe a grande cidade de Selêucia, cujas muralhas fora o primeiro a galgar, derrotando seus defensores. Embora ainda não tivesse trinta anos de idade, foi considerado homem bastante ajuizado, sensato e bom conselheiro, meios que pôs em prática para derrotar Crasso, que, por sua audácia e. descuido, de início, e depois pelo receio e falta de tino a que o levaram seus infortúnios, tornou-se fácil presa, sujeito a todas as emboscadas.

Mensagem de Artabazo a Crasso; bom conselho que êle lhe dá. Resposta de Crasso.

XLII. Como o bárbaro induziu-o a crer em tudo quanto quis, afastando-o do no levou-o para a planície, onde a princípio encontraram um caminho excelente, que se tornou depois horrível, porque entraram em areiais, onde seus pés afundavam extraordinariamente, e em campos abertos, sem árvores nem água, de cujos limites a vista não alcançava começo nem fim. De modo que não só a sede e a incomodidade do caminho fatigavam os romanos, como a desolação da vista os desencorajava, por não ter onde pousar. Árvores, rio, regato, montes, ervas ou plantas verdejantes, nada disto viam nem perto, nem longe, e sim um mar infinito de desertos de areia em toda a extensão do seu acampamento. Isto começou a fazê-los pensar em traição, quando chegaram-lhes notícias de Artabazo, que mandou dizer-lhes que fora obrigado a permanecer em sua terra, devido à grande guerra que Hirodes lhe fazia, razão por que não podia mandar-lhes o auxílio prometido; que aconselhava-os a seguir com Crasso, para a Armênia, a fim de que, unindo ambas as forças, conseguissem vencer o rei Hirodes. Caso contrário, prevenia-o que prosseguisse sempre, custasse o que custasse, e fosse acampar em região montanhosa, evitando as planícies e lugares dos quais a cavalaria pudesse se valer, e que se aproximasse sempre das montanhas. Crasso, por sua estultice, nada respondeu por escrito; fê-lo verbalmente, furioso, declarando que no momento não tinha tempo para preocupar-se com o que se passava com os armênios; que depois ma à Armênia, para vingar-se da traição que Artabazo lhe fizera. Cássio ficou muito chocado com esta resposta; e, vendo que Crasso não tomava em consideração o que êle lhe dizia, em nada mais quis adverti-lo. Mas, chamando à parte o comandante árabe Ariamnes, censurou-o duramente, dizendo-lhe: "Homem miserável e perverso! Que mau espírito conduziu-te a nós, e por meio de que bruxarias e atrativos conseguiste fascinar Crasso, a ponto de convencê-lo a jogar seu exército neste abismo infernal, e a seguir este caminho que mais condiz com um árabe comandante de ladrões do que com um comandante geral do povo romano?" Sendo homem cauteloso e esperto, o bárbaro tratou de acalmá-lo delicadamente, pedindo-lhe que tivesse ainda um pouco de paciência, e, percorrendo todas as tendas, fingindo ajudar os soldados, dizia-lhes em ar de brincadeira: "Creio, companheiros, que pensáveis caminhar pela campina de Nápoles, e bem desejaríeis encontrar os belos nachos e frescas fontes, os pequenos bosques, os banhos naturais e as boas estalagens existentes nos arredores, para vos refrescar, e não vos lembrais que atravessais os desertos dos confins da Arábia e da Assíria".

Êle dispõe seu exército em ordem de combate.

XLIII. Foi assim que este bárbaro conseguiu distrair durante certo tempo os romanos. Mas, antes que fosse incontestavelmente descoberta a sua traição, êle desapareceu de repente, embora com conhecimento e permissão de Crasso, alegando ir conspirar e provocar desavenças no acampamento dos inimigos. Dizem que naquele dia Crasso saiu de sua tenda vestido de preto e não de vermelho, como costumam os comandantes romanos, e que, sendo prevenido, mudou logo de roupa. Dizem também que os porta-estandartes custaram muito a arrancar as hastes do solo, quando partiram, de tão enterradas e firmes que estavam. Não obstante todos estes acontecimentos, Crasso, zombando, estimulava-os a agir, obrigando o avanço dos soldados de infantaria e de cavalaria, até à volta de alguns dos volantes que mandara sondar o terreno, que lhe deram a notícia que todos os seus companheiros foram vencidos pelos inimigos, e que eles a muito custo conseguiram salvar-se, dado o seu número avultado e a sua disposição para o ataque. Esta notícia causou pasmo em todo o acampamento, pondo Crasso mais assombrado do que todos os outros; tanto assim que, apavorada e precipitadamente, começou a dispor seus homens em posição de combate, descontrolado como se achava. Primeiro dispôs as forças em quadrados distantes um do outro, para evitar que os inimigos os envolvessem, seguindo a opinião e conselho de Cássio, e distribuiu a cavalaria que possuía em duas alas. Depois mudou de opinião, e dispôs a infantaria em retângulos, com frente para todos os lados, enfileirando doze coortes em cada lado, e colocando ao longo de cada coorte uma companhia de cavalaria, pronta a agir, em caso de necessidade. Isto feito, entregou uma ponta ao comando de Cássio, outra a seu filho Públio Crasso, e ficou no meio. Ordenada a marcha, caminharam tanto que chegaram ao rio Balisso, o qual embora pequeno e de pouca água, serviu para mitigar a sede e o calor abrasador que os soldados haviam sofrido em todo o penoso trajeto.

É preciso combater.

XLIV. Quase todos os capitães opinaram acampar e passar a noite ah, para poderem reconhecer o mais possível os inimigos, conhecer-lhes o número e a equipagem, e ir-lhes ao encontro na manhã seguinte. Crasso, porém, instado por seu filho e pelos guerreiros que o acompanhavam, resolveu fazer o exército avançar e atacar sem perda de tempo, razão por que ordenou aos que quisessem alimentar-se que o fizessem sem demora, sem afastar-ao de suas fileiras. Depois, subitamente, antes que a ordem pudesse ser totalmente cumprida, ordenou que marchassem sem perda de tempo, como acontece quando se vai efetuar um combate, pois perceberam os inimigos, que à primeira vista não pareceram muito numerosos aos romanos, nem tão bem armados como supunham. Quanto ao número, Surena ocultara-o com algumas tropas que lançara à frente fazendo-as cobrir seus arneses com roupas e peles de animais. Ao se aproximarem uns dos outros, e ao ser dado o sinal de acometer, uma grita ensurdecedora encheu toda a campina, porque os partas não são incitados ao combate pelos sons das cornetas, trombetas e clarins, mas por tambores de couro, ao redor dos quais prendem guisos, sinetas e outras quinquilharias de latão, e soam conjuntamente e em todos os sentidos, produzindo um ruído surdo, semelhante a uma mistura do rugido de animal selvagem com o som assustador do trovão, sendo o ouvido, de todos os sentidos, o que mais depressa e fortemente emociona a alma e os sentimentos de quem o ouve, e mais depressa põe o homem fora de si.

Trava-se o combate

XLV. Achando-se os romanos com o ânimo já sobressaltado, os partas de repente puseram os arneses a descoberto, mostrando-se reluzentes, com seus elmos e couraças de ferro margiano bem forjado, que brilha e reluz como fogo, com seus cavalos igualmente dotados de armaduras de ferro e de sobre, e com Surena, comandante em chefe de todo o exército, o mais belo e o maior homem de toda a sua hoste, tido como o mais arrojado e valente de rodos, embora o seu ar um tanto efeminado não demonstrasse. Sim, porque ele pintava o rosto e usava os cabelos à moda dos medos, embora os outros par-tas ainda seguissem os tártaros, deixando-os crescer sem os lavar nem pentear, para se tornarem mais pavorosos aos olhos dos inimigos. Logo de início haviam decidido atacar os romanos com suas lanças, para tentar fender e abrir suas primeiras fileiras. Mas quando viram de perto o campo de ação tomado em toda a sua extensão por homens decididos à luta, recuaram, como se quisessem afastar-se, debandar e pôr-se a salvo. Tal faziam, entretanto, para cercar seus inimigos por todos os lados. À vista disso, Crasso ordenou aos seus flecheiros que os atacassem, o que foi feito. Mas não puderam avançar muito, porque foram subitamente contidos e submetidos a tantas flechadas, que foram obrigados a repor-se sem demora sob a proteção de suas hostes. A violência do ataque e os enormes estragos produzidos pelas flechadas inimigas, que inutilizavam-lhes as armas e varavam tudo quanto encontravam, mole ou duro, apavorou os romanos, pondo-os em desordem.

Modo por que os partas combatiam.

XLVI. Mantendo-se então um pouco afastados, os partas começaram a assetar de longe, ao mesmo tempo e por todos os lados, sem visar ponto algum preestabelecido, porque a situação dos roma nos e as suas fileiras, exageradamente espessas, eram de molde a impedir que eles deixassem de matar a um que fosse. As flechas, desferidas com arcos grandes e fortes, partiam com força e impetuosidade admiráveis, produzindo enormes estragos. À vista disso, os romanos se viram em má situação, por serem obrigados a manter-se em suas fileiras, o que muito os afligia; para partir ao encontro dos inimigos, e atacá-los, achavam que, além de não poder dominá-los receberiam sério castigo, porque à medida que se aproximassem, os partas fugiriam, e na fuga não deixariam de atirar contra eles, porquanto, depois dos citas, eram os que tinham o bom senso de, procurando salvar-se sem demora, combater sem interrupção.

Crasso destaca seu filho para expulsar os inimigos.

XLVII. Foi o que supuseram os romanos, e suportaram, certos de que os partas, depois de desferirem todas as suas flechas, cessassem de combater e chegassem aos golpes manuais. Quando souberam da existência de numerosos camelos carregados de flechas, nos quais os flecheiros renovavam suas provisões, vendo que isto não teria fim Crasso começou a desencorajar-se, e mandou avisar seu filho que se esforçasse por alcançar e atacar os inimigos, antes que fosse por eles completamente envolvido, pois era principalmente do seu lado que uma das pontas inimigas mais se aproximava e procurava envolvê-lo pela retaguarda. Levando consigo mil e trezentos cavalos, entre os quais mil dos que foram mandados por César, e quinhentos flecheiros, com oito alferes He infantaria carregando escudos o mais próximo possível do lugar em que ele se achava, o jovem Crasso afastou-se um pouco, contornando, para ir atacar os que o importunavam. Vendo-o chegar, ou porque se achassem em um charco, como dizem alguns, ou porque usassem maldosamente do ardil para afastar o jovem o mais possível de seu pai, os inimigos montaram a cavalo e fugiram. Isto fez com que o jovem Crasso gritasse: ‘Eles não nos esperarão", e partisse atrás deles, o mesmo fazendo Censorino e Megabaco, aquele senador romano e grande orador, e este homem arrojado, forte e resoluto, ambos íntimos amigos de Crasso e mais ou menos da sua idade. Tendo a cavalaria partido em perseguição aos inimigos, os soldados de infantaria não quiseram ficar-lhes atrás, nem mostrar-se menos corajosos e menos esperançosos de bom sucesso, pois consideravam-nos já vencidos e nada mais terem a fazer do que aprisioná-los. Puro engano, porém; porque, quando bem distantes, os que fingiam fugir voltaram de repente, e outros, em maior número, lançaram-se sobre eles. Os romanos fizeram alto, certos de que, vendo-os em número reduzido, os inimigos os atacassem subitamente. Eles, porém, os enfrentaram com uma primeira linha de guerreiros protegidos e armados de todas as peças, e espalharam-lhes ao redor, desordenadamente, os cavalos, que, correndo pela planície, revolveram profundamente os montes de areia, erguendo no ar tão densa nuvem de pó que os romanos mal podiam ver-se uns aos outros, e confabular. Concentrados em pequeno espaço, eram feridos a flechadas, morrendo lenta e tristemente, gritando de dor; e, revolvendo-se na areia, quebravam as flechas nas fendas, fazendo inúteis esforços por arrancá-las, pois elas mais se enterravam e aumentavam os ferimentos. Os que não morreram deste martírio tornaram-se incapazes da própria defesa.

Insucesso deste ataque

XLVIII. Tendo-lhes Públio Crasso pedido e exortado a combater disfarçados com outros soldados, eles mostraram-lhe as mãos crivadas de golpes de flechas, apesar de protegidos por escudos, e os pés igualmente feridos em parte, e em parte presos ao solo, o que os impedia de agir, fugir e mesmo defender-se. À vista disso, encorajando os seus cavaleiros, Públio Crasso foi chocar-se com os inimigos, carregando-os vigorosamente, mas com grande desvantagem tanto ofensiva como defensiva, porque ele e os seus homens combatiam com azagaias fracas e leves contra couraças de excelente aço ou de couro grosso. Os partas, ao contrário, faziam-no com grossos e pesados bordões, desferindo-os nos corpos nus ou levemente protegidos dos gauleses, que era nos que o jovem Crasso mais confiava, pois fizera com eles proezas admiráveis. Eles agarravam de mãos desarmadas os bordões dos partas, e, lutando corpo a corpo, jogavam-nos dos seus cavalos ao chão, deixando-os estendidos, sem se poderem mover, devido ao peso das suas peças defensivas. Gauleses havia que abandonavam seus cavalos e iam abrir o ventre daqueles dos inimigos a golpes de espada. Com a dor, os animais saltavam e cornam desesperadamente, pisando seus cavaleiros, até caírem mortos no lugar, de mistura com eles. Aconteceu, porém, que o calor e a sede começaram a castigar fortemente os gauleses, que não se achavam habituados a suportá-los, e que a maior parte dos seus cavalos, avançando desenfreadamente contra os partas, transpassaram-se por si mesmos em seus bordões, o que os obrigou a juntar-se à sua infantaria, com Públio Crasso, que já se achava muito mal, devido aos ferimentos recebidos. Seguindo para um monte de areia existente nas proximidades, amarraram no meio todos os cavalos, e cercaram o local com escudos, pensando, assim, ficar melhor amparados dos ataques dos bárbaros, mas aconte-ceu-lhes o contrário, porque, em região totalmente plana, os das primeiras fileiras de modo algum cobrem os que lhes ficam atrás. Ora, achando-se estes sempre em posição mais elevada, devido ao monte que aqueles contornavam, não podiam de modo algum escapar ao alvo dos inimigos, mas deviam estar sempre atentos, maldizendo a perseguição da sorte, que os fazia morrer sem demonstrar o seu valor aos inimigos.

Morte de Públio Crasso. Toda a sua tropa é feita em postas.

XLIX. Estavam, então, com Públio Crasso, dois gregos habitantes daquela zona, da cidade de Carres, chamados Jerônimo e Nicômaco, que aconselharam Públio Crasso a fugir com eles e acolher-se na cidade de Isqnes, pouco distante e partidária dos romanos. Êle, porém, não quis anuir, declaran-do-lhes que a sua pior morte seria abandonar, por medo, os que davam a vida por sua causa. Dito isto, aconselhou-os que procurassem salvar-se, e, abra-çando-os despediu-os. A seguir, não podendo utilizar-se da mão que lhe fora varada por uma flecha, ordenou ao seu escudeiro que lhe atravessasse o corpo com a espada. Dizem que Censorino fez o mesmo e que Megabaco suicidou-se por sua própria mão, sendo imitado por todas as pessoas de destaque da tropa. Quanto aos mais, transpondo o monte em sentido contrário, os partas mataram-nos com suas lanças e bordões, fazendo cerca de quinhentos prisioneiros. Isto feito, cortaram a cabeça de Públio Crasso, e dirigiram-se sem perda de tempo contra o pai, que já se achava naquele lugar, pois alguém levara-lhe a notícia que seu filho havia vencido e expulso os inimigos para bem longe, e que, os restantes destes, não poderiam opor-lhe grande resistência. Encorajado com tal notícia, e vendo suas forças unidas, êle afastou-as o mais possível numa encosta, na esperança de que seu filho não tardaria a voltar da caça. Públio, entretanto, vendo-se em perigo, havia destacado mensageiros para avisarem leu pai, a maior parte dos quais morreu às mãos dos bárbaros. Os últimos, escapando a custo, declararam-lhe que seu filho estaria irremediavelmente perdido, se ele não o socorresse sem demora, e com forças poderosas.

Exortação de Marcos Crasso a seu exército.

L. Com tais notícias, Crasso foi acometido de duas grandes mágoas: a da apreensão, vendo-se em risco de perder tudo, e a do desejo, que o impelia a socorrer seu filho. Tendo perdido por completo o uso da razão, ele resolveu, por fim, ir com todas as suas forças em socorro de seu filho. Neste momento chegaram os inimigos, de volta da derrota infligida, com um ruído e gritos de vitória mais espantosos que nunca, ouvindo-se logo, nos arredores, soar e retumbar numerosos tamboris e tambores. A seguir os romanos perceberam perfeitamente grande vozearia, e os que carregavam a cabeça de Públio fincada na ponta de uma lança, chegando perto deles, mostraram-na, perguntando-lhes em ar de ultrajosa zombaria se eles sabiam de que casa era, e quem eram seus pais, porque não acreditavam que um moço tão valente e garboso fosse filho de um pai tão desprezível e cobarde como era Crasso. Isto produziu nos romanos maior abatimento e perda de coragem do que o faria o maior perigo que tivessem de vencer em todo o combate; e, ao invés de acender-lhes ódio que os induzisse à vingança, como seria de esperar, ocasionou-lhes tremor e medo, que os abateram completamente, embora Crasso se mostrasse mais esforçado neste acontecimento como nunca o fora em toda aquela guerra, porquanto, percorrendo as tendas a cavalo, gritava: "Só a mim, meus amigos, cabe prantear e suportar a dor desta triste perda. O renome e a glória de Roma, estão em vossas mãos, e continuarão invencíveis, se estiverdes a postos. Se tendes dó de mim, pela perda do meu esforçado e valente filho, demonstrai-o, convertendo-o em ódio contra vossos inimigos; fazei com que lhes custe caro a alegria que sentiram. Vingai-vos da sua crueldade, e não vos preocupeis com a minha infelicidade, pois os que aspiram a grandes feitos devem também sofrer alguma perda. Lúculo não derrotou Tigrano, nem Cipião a Antíoco, sem perda de sangue. Nossos antepassados perderam outrora mil navios, para consolidar a conquista da Sicília, e muitos exércitos e comandantes gerais na Itália, não deixando, por isso, de agir contra os que os haviam derrotado. O império romano não chegou à possança em que atualmente se acha por obra do acaso, e sim pelo trabalho e perseverança na adversidade, sem nunca esmorecer nem ceder aos perigos".

A noite separa os combatentes.

LI. Fazendo estas exortações aos soldados, para encorajá-los a agir, Crasso não percebeu que, ao contrário do que esperava, eles se rebelassem. De modo que, tendo ordenado que emitissem o grito de guerra, ele percebeu claramente que os seus homens estavam amedrontados, porque o clamor por eles proferido foi baixo, fraco e muito desigual, e que nem todos se manifestaram. O dos bárbaros, pelo contrário, foi prolongado, forte e entusiasta. Ao pôr-se mãos à obra, os arqueiros dos partas, a cavalo, envolvendo os romanos pelas alas, arremessaram-lhes ao flanco uma infinidade de flechas; mas os guerreiros, surrando-os frente a frente com seus grossos bordões, obrigaram-nos a reunir-se o mais possível, exceto alguns, que antes de serem mortos a flechadas, lançaram-se desesperadamente contra eles, sem causar-lhes grandes danos, sendo mortos a golpes de lança, tão violentos que às vezes atravessavam dois corpos de uma vez. Tendo combatido assim durante certo tempo, a chegada da noite fê-los retirar-se, alegando que assim procediam em atenção a Crasso, para que êle pudesse lamentar e chorar a morte de seu filho, e para que, avaliando melhor os acontecimentos, se entregasse voluntariamente, para sua salvação ao rei Arsaces, em lugar de ser levado a força.

Consternação de Crasso.

LII. Detendo-se perto dos romanos, os partas esperavam derrotá-los no dia seguinte. Os romanos, pelo contrário, tiveram uma péssima noite, não se preocupando em sepultar os cadáveres, nem cuidar dos ferimentos, sofrendo dores horríveis, e lastimando cada um a sua sorte adversa, porque foram prevenidos de que não se salvaria um sequer, se teimassem em permanecer ali até o dia seguinte. Por outro lado, se quisessem pôr-se a caminho durante a noite, por aquela imensa planície, os feridos dar-lhes-iam bastante trabalho, porque, levando o consigo, isto lhes retardaria muito a fuga; e, se os abandonassem, os seus gritos e clamores chamariam a atenção dos inimigos. Embora todos considerassem Crasso o principal causador de sua desgraça, procuraram-no, para ouvir-lhe a opinião a tal respeito. Êle, porém, isolara-se em lugar escuro, cobrindo a cabeça para não ver ninguém, dando ao povo exemplos de inconstância e de sorte adversa, mas aos homens sensatos e esclarecidos meios para conhecer os resultados a que o conduziram os maus conselhos e a sua desmedida ambição de dirigir tantos milhões de homens, dos quais se considerava o mais ínfimo, embora só o fizessem inferior a dois.

Os romanos retiram-se para a cidade de Carres.

LIII. Por isso, acordaram Otávio, um dos seus tenentes, fazendo-o levantar-se, bem como Cássio, e foram reconfortá-lo. Vendo-o, porém, extraordinariamente aflito, os comandantes das legiões e os centunões reuniram-se em conselho resolvendo não permanecer mais ali, e ordenaram a partida do exército sem o menor ruído e sem toques de cornetas. Nem bem os doentes e feridos, que não podiam acompanhá-los, perceberam que iam ser abandonados, começaram a gritar de tal maneira que puseram todo o acampamento em reboliço, enchendo-o de prantos e lamúrias, o que fez com que os que haviam partido voltassem assustados, na suposição de serem os inimigos que os tornavam a atacar. Assim, apreensivos a todo instante, e dispondo-se para o combate, acomodando os feridos em carruagens ou retirando-os das mesmas, detiveram-se no lugar, exceto trezentos soldados de cavalaria ligeira, que chegaram à cidade de Carres à meia-noite. Inácio, que os conduzia, lalou em latim aos guardas que vigiavam a muralha; e, obtendo a resposta devida, encarregou-os de dizer ao governador Copônio que Crasso tivera grande combate com os partas. Nada mais adiantou, nem disse quem era, e cavalgou tanto que chegou à ponte que Crasso mandara construir. Deste modo conseguiu salvar-se com toda a sua tropa, mas ficou envergonhadíssimo de haver abandonado seu comandante. Todavia, com o que pediu aos vigias que dissessem a Copônio, ainda foi útil a Crasso; porque, percebendo que nada de bom denotavam as poucas e confusas palavras que lhe mandara dizer, o governador ordenou aos seus soldados que tomassem as armas, e, nem bem soube que Crasso se dispusera a voltar, foi-lhe ao encontro, e levou-o com seu exército para a cidade.

Varguntino, tenente de Crasso, é derrotado no caminho com sua tropa, pelos partas.

LIV. Os partas bem perceberam a retirada dos romanos, mas não quiseram molestá-los durante a noite. Na manhã seguinte, entrando no acampamento, mataram todos os que ali ainda se achavam, cerca de quatro mil, além de muitos outros, dispersos e desgarrados, que encontraram nas imediações, entre os quais Barguntino, um dos tenentes de Crasso. Barguntino, que se desviara do exército durante a noite, com quatro bandeiras mais ou menos numerosas, errando o caminho foi ter a um monte, onde os partas o sitiaram e derrotaram, apesar da heróica resistência que lhes foi oposta. Vinte dos seus homens, porém, empunhando suas espadas, lançaram-se cabisbaixos entre os partas, que pasmos da sua ousadia, deixaram-nos passar e ir para Carres, sem lhes fazer o menor mal.

Astúcia de Surena, para saber se Crasso estava em Carres.

LV. Entrementes chega a Surena a falsa notícia que Crasso e os principais elementos de sua hoste haviam fugido, e que a multidão afluída à cidade de Carres era constituída de elementos em que não havia um homem de destaque. Duvidando que tal houvesse acontecido, e desejando certificar-se da verdade, para saber se devia sitiar a cidade de Carres ou ir para junto de Crasso, Surena mandou um dos seus intérpretes às muralhas da cidade, orde-nando-lhe que dissesse a Crasso e a Cássio que Surena desejava parlamentar com eles. O intérprete cumpriu a ordem, e o convite foi aceito. Pouco depois chegaram do acampamento dos bárbaros alguns soldados árabes, que conheciam Crasso e Cássio de vista. Vendo Cássio na muralha, estes árabes disseram-lhe que Surena ficara bastante satisfeito em poder ter um encontro com eles e fazê-los retirar-se livres de perigo, como bons amigos de seu senhor, desde que eles deixassem ao rei dos partas a Mesopotâmia, o que consideravam vantajoso para ambas as partes, ao invés de lançarem-se à luta. Cássio achou bom o início do encontro, e combinou marca-tem dia e local do encontro de Crasso com Surena. Os árabes comprometeram-se a fazê-lo, e partiram.

Crasso toma Andrômaco como guia de sua retirada, sendo por êle atraiçoado.

LVI. Ouvindo isto, Surena ficou satisfeitís-simo de tê-los em lugar onde os podia cercar. No dia seguinte levou o seu exército diante da cidade, de onde os partas dirigiram mil insultos aos romanos, dizendo-lhes que precisavam entregar-lhes Crasso e Cássio amarrados de pés e mãos, se desejavam gozar de alguma benevolência ou de algum ajuste. Os romanos ficaram muito aborrecidos com este embuste, e fizeram ver a Crasso que não deviam mais contar com a prolongada e inútil esperança do auxílio dos armênios, opinando todos pela fuga, sem que pessoa alguma dos carrenianos o soubesse antes da hora da partida. Entretanto o próprio Crasso contou-o a Andrômaco, o mais desleal de quantos havia na cidade, e que, além disso, escolhera por seu guia. Este pérfido Andrômaco pôs os inimigos ao par da resolução dos romanos, com todos os pormenores. Não costumando os partas combater à noite, sendo por isso difícil induzi-los ao ataque, Andrômaco, receoso que os romanos avançassem demasiado, pondo-se fora do alcance dos inimigos, levou-os maldosamente ora para um lado, ora para outro, e, metendo-se por um caminho repleto de enormes buracos, que obrigavam a dar muitas e arriscadas voltas para transpô-los, lançou-os finalmente em um profundo charco. Isto fêz com que alguns desconfiassem da lealdade de Andrômaco e desistissem de prosseguir. Cássio, entre outros, resolveu voltar para Caries; e, como os seus guias, que eram árabes, o aconselhassem a permanecer ali até a lua transpor o signo do Escorpião, ele respondeu-lhes: "Receio muito mais o do Sagitário". E seguiu apressadamente para a Assíria, com quinhentos soldados de cavalaria. Outros, possuidores de guias fiéis, alcançaram uma região montanhosa, denominada Sinaca, acolhendo-se em lugar de segurança antes de despontar o dia. Seriam cinco mil ao todo, guiados por Otávio, um homem de bem.

Surena faz uma proposta a Crasso.

LVII. O dia surpreendeu Crasso nos penosos caminhos, nos charcos a que o havia proposital-mente levado o traidor Andrômaco, com quatro expedições de infantaria, dotadas de escudos, algumas cavalarias, e cinco sargentos que lhes iam à frente, armados de machados e vergas. Tendo já os inimigos à vista, a custo e com muito trabalho ele retomou o caminho certo, faltando-lhe apenas três quartos de légua para alcançar Otávio. Este, vendo-o em perigo num outeiro dos montes Sinacos, correu em seu auxílio, com uns poucos soldados que o acompanharam espontaneamente, no que foram a seguir imitados pelos mais, que consideraram cobardia de sua parte esquivar-se à luta. Atacando os partas, fizeram-nos recuar para atrás do outeiro; e, envolvendo completamente Crasso, defenderam-no com seus escudos, declarando, magnânimos, que flecha alguma dos partas atingiria a pessoa de seu comandante antes de os matar a todos, e que luta-riam em sua defesa até o último suspiro. Notando que os partas começavam a esmorecer, e que, se a noite os surpreendesse e os romanos conseguissem transpor as altas montanhas, impossível seria depois lê-los às mãos, Surena resolveu enganar Crasso, valendo-se de um ardil: mandou secretamente libertar alguns prisioneiros, ante os quais declarou que o rei dos partas não desejava manter guerra eterna contra os romanos, e sim, pelo contrário, conquistar-lhes a amizade, fazendo-lhes a concessão especial de tratar Crasso humanamente. Para isso, ele mandou chamar todos os seus guerreiros, e, aproximando-se pacificamente dos romanos, com os principais chefes do seu exército, estendeu a mão direita e convidou Crasso a parlamentar com ele, declarando que, se os romanos experimentaram as forças e a bravura de seu rei, fora a seu pesar, porquanto nada mais fizera do que defender-se; mas que, desejando espontaneamente demonstrar-lhes a sua bondade, clemência e humanidade, estava disposto a fazer com eles as pazes e deixá-los seguir para onde quisessem.

Êle aceita, contra a vontade, obrigado por seu exército.

LVIII. Todos os romanos ouviram satisfeitos a declaração de Surena. Crasso, porém, que diversas vezes deixara-se levar por suas lamúrias e falsidades, não vendo motivo para fazê-los mudar tão de repente de atitude, não quir agir sem ouvir seus amigos. Os soldados, porém, puseram-se a gritai que ele devia aceitar as pazes, dirigindo-lhe insultos grosseiros e declarando que ele queria expo-los à matança, mas não tinha coragem ao menos para ir falar com os inimigos desarmados. Crasso procurou acalmá-los por meio de súplicas, fazendo-lhes ver que, se eles tivessem paciência durante o resto do dia, ao chegar a noite poderiam ir satisfeitos e livres de perigo para montanhas e lugares de difícil acesso, onde os inimigos não chegariam. E, indicando-lhes o caminho com o dedo, incitou-os a não desanimar nem perder a esperança de salvação, visto já se acharem bem perto. Vendo, afinal, que eles se rebelavam e o ameaçavam se não fosse, brandindo furiosos suas armas, e certo de ser por eles ultrajado, Crasso resolveu ir ter com os inimigos, tendo antes proferido estas palavras: "Otávio Petrônio e senhores romanos que tendes postos neste exército. Sois testemunhas de que me obrigam a ir, contra a vontade, vergonhosa e violentamente, onde vou. Não obstante, se escapardes deste perigo, suplico-vos que, onde quer que vos acheis, digais sempre que Crasso morreu enganado e assaltado por seus inimigos, e nunca por haver sido levado e entregue aos bárbaros por seus cidadãos, como sou".

Êle é morto.

LIX. Otávio desceu logo do monte, mas Crasso despediu os sargentos que o acompanhavam. Da parte dos bárbaros, os primeiros que lhe foram ao encontro foram dois semi-gregos que, apeando cavalos, prestaram-lhe continência, e, saudan-do o em grego, pediram-lhe que mandasse alguns dos seus homens adiante, para certificar-se de que Surena e os que o acompanhavam estavam desarmados. Crasso respondeu-lhes que, se tivesse algum apego ou amor à vida, nunca teria ido colocar-se em suas mãos. Todavia mandou à frente dois irmãos chamados Rocios, para saber com quantas pessoas êle iria encontrar-se e com que fim. Nem bem estes dois irmãos se aproximaram de Surena, êle os fêz prender, e prosseguiu caminho a cavalo, com todos os principais personagens do seu exército. Ao chegar junto de Crasso, disse-lhe: "Que é isso!? Um comandante geral do povo romano a pé, e todos nós a cavalo!?" E ordenou aos seus homens que lhe fornecessem um animal. Crasso respondeu-lhe que, tratando-se de um encontro para parlamentar, em lugar determinado, cada um seguia o costume de sua terra. Surena declarou-lhe então que o ajuste já havia sido realizado entre o rei Hirodes e os romanos, mas que êle Crasso precisava acompanhá-lo até o rio, para redigirem os artigos, visto os romanos nunca se lembrarem das condições estabelecidas. E estendeu-lhe a mão direita. Desejando Crasso mandar comprar um cavalo, Surena disse-lhe: "Não é preciso, pois o rei te faz presente deste". E deu-lhe um com arnês dourado, no qual os escudeiros o montaram às pressas e puseram-se a acossá-lo, para fazê-lo correr desabaladamente. Vendo tal, Otávio freou o animal, ajudado por Petrônio, comandante de mil soldados de infanta ria, tendo os mais estabelecido verdadeira luta com os acossadores. Otávio desembainhou então a espada e matou o palafreneiro de um dos senhores bárbaros, mas foi morto por outro, pelas costas. Petrônio estava sem escudo; e, tendo recebido um golpe na couraça, saltou do cavalo sem ser ferido. Um parla chamado Pomaxetres matou Crasso. Dizem haver sido um outro o assassino, e que, vendo o cadáver estendido, Pomaxetres cortou-lhe a cabeça e a mão.

O resto do exército perece quase todo.

LX. Tudo isto, entretanto, não passa de suposição, pois, quanto aos que ah se achavam, uns foram mortos no local, lutando em torno de Crasso, e outros salvaram-se às pressas no outeiro. Os partas acompanharam-nos, dizendo-lhes que Crasso sofrera o castigo merecido. Por fim, Surena ordenou aos romanos que descessem sem receio, porque nada de mal lhes aconteceria. Alguns atenderam, entregando-se às mãos dos inimigos; outros, porém, fugiram à noite, sendo poucos os que conseguiram salvar-se, porque, perseguidos e caçados pelos árabes, foram passados a fio de espada. Houve nesta luta cerca de vinte mil mortos e uns dez mil prisioneiros. A seguir Surena mandou a cabeça e a mão de Crasso ao rei Hirodes, na Armênia, e fêz constar na cidade de Selêucia que levava Crasso vivo, com enorme comitiva, que ele denominava, com ar de mofa, o seu triunfo, por haver, entre os prisioneiros, um, chamado Caio Paciano, muito parecido com Crasso, que eles vestiram de mulher, à moda bárbara, habi tuando-o a responder quando o chamavam Crasso ou senhor comandante. Montaram-no a cavalo assim vestido, tendo à sua frente trombeteiros, e sar-gentos montados em camelos, carregando feixes de vergas repletas de escrotos e de machados, tendo presas cabeças de romanos decepadas de fresco. Atrás dele seguiam meretrizes e charameleiras seleu cianas, proferindo ditos picantes e gracejos ofensivos, como menosprezo à cobardia e fraqueza efeminadas de Crasso.

Muitos reis partas nascidos de cortesãs milesianas.

LXI. Além desta manifestação pública, Su-rena reuniu em assembléia o Senado de Selêucia, apresentando-lhes os livros imorais de Aristides, intitulados os Milesíacos, que não eram falsos, pois foram encontrados e apreendidos na bagagem do romano chamado Rústio, dando a Surena oportunidade para zombar ultrajosa e grosseiramente dos costumes dos romanos, dizendo-os tão desordenados que mesmo na guerra não deixavam de ler e de praticar tais indignidades. O Senado de Selêucia achou então que Esopo tivera carradas de razão, quando disse que todo homem carrega um alforge ao pescoço, colocando no compartimento da frente as faltas dos outros e no detrás as suas, porquanto exatamente isto fizera Surena: colocara no da frente o livro das devassidões milesíacas, e no detrás longa série de prazeres e voluptuosidades partanas, levando após si numerosas carretas repletas de con cubinas, de modo a tornar o seu exército semelhante a um bando de víboras e de musaranhos. Sim, porque, o que se via à frente, lanças, azagaias, arcos e cavalos, era demasiado e assustador; mas o que se seguia era um bloco de meretrizes, de ínstrumen tos musicais, danças, cantigas e banquetes dissolutos com prostitutas, a noite inteira. Não digo que Rústio não merecesse censura; mas os partas foram injustos em reprovar os livros imorais milesianos, visto terem tido vários reis do sangue real dos arsácidas oriundos de cortesãs jónicas e milesianas.

A cabeça de Crasso levada ao rei Hirodes.

LXII. Enquanto isto se passava, Hirodes firmava aliança com Artabazo, rei da Armênia, casando sua irmã com Pacoro, filho deste, e realizando ambos grandes banquetes e jantares, nos quais eram recitadas poesias gregas, idioma conhecido de Hirodes e no qual Artabazo era tão versado que escreveu algumas tragédias, orações e histórias, ainda em voga em nossos dias. Na noite em que a cabeça de Crasso foi para ali levada, as mesas já haviam sido tiradas, e ainda ali se achava o trágico Jasão, natural de Trales, que recitou a passagem da tragédia das Bacantes, de Eurípides, em que fala da infelicidade de Ágave, que decapitou seu filho. No momento em que todos se compraziam em ouvi-lo, Silace entrou na sala, fêz a mesura devida ao rei, e apresentou a cabeça de Crasso à assistência, que foi recebida com palmas e gritos de alegria. Os copeiros do rei, por sua ordem, puseram então Silace à mesa, e Jasão, fazendo as vezes de um dos bailarinos de Penteo, se pôs a dançar com a cabeça de Crasso às mãos; e, contrariando as Bacantes muito enciumadas, começou a dizer estes versos, com uma expressão, uma entoação e voz de pessoa possessa de alegria e posta fora de si:

Nós trazemos ao paço
Um touro, por golpe mortal
Nosso há pouco atingido
Na montanha, e morto.
Foi feliz empresa A caça de tal presa.

Isto agradou imenso a assistência toda, sendo depois cantados os versos que seguem, em que o coro pergunta e responde alternadamente:

Coro
Quem o matou, na caçada?

Ágave
A honra é devida a mim.

Como a morte de Crasso foi vingada a seguir.

LXIII. Ouvindo estas palavras Pomaxetres ergueu-se logo da mesa em que se achava e foi buscar a cabeça, dando a entender que a êle e não ao artista cabia o direito de proferir tais palavras de verdade. O rei gostou desta rusga, e deu a Poma-xetres o presente que é hábito do país conceder em tais casos; Jasão recebeu a quantia de seiscentos escudos. Foi este o desfecho do empreendimento e da viagem de Crasso, que mais parece o fim de uma tragédia. A vingança, porém, da crueldade de Hi-rodes, e da falsa deslealdade de Surena, recaiu afinal sobre as cabeças de ambos, e de maneira muito merecida. Hirodes mandou matar Surena, de inveja de sua glória, e, depois de haver perdido seu filho Pacoro, numa luta em que os romanos o derrotaram, foi acometido de uma moléstia que se transformou em hidropisia. Frates, seu segundo filho, desejando prolongar-lhe a vida, ministrou-lhe sumo de acônito, que produziu ótimo efeito. Vendo que seu pai melhorava mais cedo do que era de esperar, Frates estrangulou-o.


 

Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da França. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

nov 122010
 
Arte etrusca

SUMÁRIO DA VIDA DE NÍCIAS

  • Crítica do historiador Timeu.
  • II. Plano que Plutarco se propôs nesta narração.
  • III. Caráter de Nícias; como êle alcança reputação
  • IV. Magnificência e liberalidade de Nícias.
  • V. Êle liberta um dos seus escravos.
  • VI. Êle leva pomposamente a Delos o coro enviado pela cidade de Atenas, e faz grandes presentes a Apolo.
  • VII. Nícias supersticioso e tímido.
  • VIII. Política de Nícias, para garantir-se contra os sicofantas.
  • IX. Como era êle secundado por um tal Hiéron.
  • X. Nícias não se acha comprometido em nenhum dos reveses que a cidade de Atenas sofre.
  • XI. Diversos êxitos de Nícias.
  • XII. Censura que Cleon lhe faz ã respeito da ilha Esfactéria.
  • XIII. Cleon é nomeado general, para esta expedição, e realiza-a com felicidade.
  • XIV. Gracejos contra Nícias, a tal respeito.
  • XV. Nícias intervém para restabelecer a paz entre Atenas e Lacedemônia.
  • XVI. Honra que esta paz produz a Nícias.
  • XVII. Êle induz os atenienses e os lacedemô-nios a incluir entre os artigos da paz, uma liga ofensiva e defensiva.
  • XVIII. Manejos de Alcibíades para romper a paz.
  • XIX. Nícias vai à Lacedemônia, sem resultado. A guerra recomeça.
  • XX. Tribulações de Nícias e de Alcibíades quanto ao ostracismo.
  • XXI. Eles se unem, e fazem banir Hipérbolo.
  • XXII. Inúteis esforços de Nícias contra o decreto da expedição de Sicília. Êle é nomeado general com Alcibíades e Lâmaco.
  • XXIII. Diversos presságios que não demovem os atenienses do seu propósito.
  • XXIV. Metão e Sócrates conjeturam as funestas conseqüências desta empresa.
  • XXV. Fraqueza displicente de Nícias após haver recebido o comando.
  • XXVI. Os atenienses dispõem-se em combate diante do porto de Siracusa.
  • XXVII. Nícias cai em desprezo pelo modo por que conduz as operações da guerra.
  • XXVIII. Falso aviso com que Nícias engana os siracusanos.
  • XXIX. Êle se apodera do porto de Siracusa.
  • XXX. Vagareza de Nícias. Êle passa o inverno em Naxe.
  • XXXI. Êle cerca quase toda Siracusa.
  • XXXII. Lâmaco é morto.
  • XXXIII. Gilipo chega à Sicília.
  • XXXIV. Êle é recebido em Siracusa.
  • XXXV. Gilipo bate os atenienses.
  • XXXVI. Nícias bate a frota aos sivacusanos.
  • XXXVII. Estes tornam a apresentar-se ao combate.
  • XXXVIII. Os atenienses são derrotados. Demóstenes chega com uma nova frota.
  • XXXIX. Derrota sofrida por Demóstenes.
  • XL. Êle aconselha a retirada. Nícias opõe-se.
  • XLI. Nícias toma o partido da retirada.
  • XLII. Reflexões sobre o eclipse da lua que sobrevêm na ocasião.
  • XLIII. Êle impede a partida de Nícias.
  • XLIV. Ele dispõe-se ao combate.
  • XLV. Êle é derrotado.
  • XLVI. Ardil de Hermócrates, para impedir a partida de Nícias durante a noite.
  • XLVII. Os siracusanos apoderam-se de todas as passagens.
  • XLVIII. Constância e firmeza de Nícias. Demóstenes é apanhado.
  • XLIX. Nícias fica reduzido ao extremo.
  • L. Ele se entrega.
  • LI. Os siracusanos fazem Nícias e Demóstenes perecer.
  • LII. Muitos prisioneiros atenienses devem sua salvação aos versos de Eurípides, muito apreciados pelos sicilianos.
  • LIII. Como a notícia deste acontecimento foi levada a Atenas.

Desde o ano 465, mais ou menos, até o ano 413 antes de Jesus Cristo.

Plutarco – Vidas Paralelas – NÍCIAS

Parecendo-me que, com justiça, eu emparelhei Nícias com Crasso, e estabeleci igualdade entre as calamidades advindas a um contra os partas e a outro na Sicília, peço desculpas aos que se darem ao trabalho de ler estes meus escritos, se expondo os fatos como se passaram, não o faço com a discrição, vivacidade e carinho com que os descreveu Tucídides, mostrando-se tão persuasivo nesta passagem, como não o é em tantas outras, a ponto de tornar-se inimitável. Procurei agir como o historiador Timeu que, esperando exceder Tucídides em persuasão e cultura, e fazer considerar Filisto ignorante, enfadonho e despropositado, busca, em sua história, explanar os combates marítimos e terrestres, e as arengas que um e outro melhor escreveram, aproximando-se tanto deles como um pedestre de um carro de Lídia, no dizer de Píndaro, e mostrando-se homem sem valor, de pouco discernimento, ou, como diz Dífilo,

Gordo e contaminado de sebo da Sicília

Em muitos lugares ele deixa-se transbordar nos disparates de Xenarco, declarando ter sido um mau

presságio para os atenienses, o fato do comandante Nícias, cujo nome deriva da palavra Nice, que significa vitória, ter-se oposto ao ataque à Sicília; que, devido à multidão dos Hermes, isto é, das imagens de Mercúrio, os deuses preveniram-nos que naquela guerra eles sofreriam muitos males, que lhes causaria Hermócrates, comandante dos siracusanos, filho de Hermão; que, além disso, era exato que Hércules favorecesse os siracusanos, devido à deusa Prosérpina, sob cuja proteção está a cidade de Siracusa, graças ao que ela forneceu-lhe o endemoninhado e brutal Cérbero; que, ao contrário, ele desejava mal aos atenienses, por defenderem os Egestais, descendentes dos troianos, seus inimigos de morte, porque, de má fé, e pela injustiça do rei Laomedão, ele destruiu-lhes a cidade. Casualmente, porém, ele tanto tinha bom discernimento em escrever todos estes galanteios, como em censurar o estilo de Filisto, ou em injuriar Platão e Aristóteles.

II. Quanto a mim, parece-me que, em geral, toda esta contenda, e desmedida inveja de quem fala e escreve melhor que os outros, é coisa baixa, que cheira à disputa escolar, e quando ela se destina a combater o que, graças à sua excelência, não pode ser imitado, afigura-se-me rematada loucura. Por isso, sendo-me de todo impossível endossar ou omitir alguns fatos descritos por Tucídides e Filisto, mesmo os que melhor dão a conhecer o caráter e o gênio de Nícias em numerosos grandes acontecimentos, eu passarei de leve por eles, detendo-me unicamente quando a necessidade a tal me obrigue, para que não me considerem preguiçoso e negligente. Deliberei, afinal, tratar dos fatos não comuns a todos, que outros escreveram aqui e ali, e de alguns registros antigos e antiqualhas, urdindo uma narrativa que, suponho, não será inútil, e que muito contribuirá para se conhecer os usos e a natureza do personagem.

III. Antes do mais, portanto, pode-se dizer de Nícias o que Aristóteles escreveu, que houve, em Atenas, três cidadãos, muito virtuosos, que dedicaram ao povo caridade e afeto paternos. Nícias, filho de Nicerato; Tucídides, filho de Milésio; Teramenes, filho de Agnão. Este último menos que os outros dois, porque foi outrora considerado e escarnecido como estrangeiro, oriundo da ilha de Ceos, e por não ter constância e firmeza em assuntos governamentais, pendendo ora para um partido, ora para outro, sendo por isso apelidado Coturno (que é uma espécie de borzeguim, antigamente usado pelos artistas trágicos, que tanto serve para um como para outro pé). Dos outros dois, Tucídides, mais velho, praticou muitos atos bons em favor das pessoas virtuosas e honestas, contra Péricles, que procurava agradar à comuna; Nícias, mais moço, adquiriu alguma estima do próprio Péricles, em vida, obtendo o posto de comandante e outros cargos públicos. Morto Péricles, ele foi conduzido ao cargo mais elevado e de maior autoridade, por obra e graça das pessoas abastadas e de maior conceito social, embora contasse com a boa graça do povo, a fim de servir de barreira à perversidade, ousadia e audácia de Cleon, muito poderoso pelo fato de adular o vulgo, fornecendo-lhe sempre algum meio de vida. Entretanto, mesmo os que ele procurava agradar e recompensar, conhecendo-lhe a avareza, a afrontosa insolência e a temeridade, propendiam para Nícias, de aparência menos austera e enfadonha, dotado de certa timidez que fazia crer que êle temia a presença do povo, e que punha a comuna mais afeiçoada à sua pessoa. Sendo por natureza tímido e desconfiado, esta cobardia, na guerra, foi sempre encoberta pela boa sorte, que nunca deixou de favorecê-lo em todos os empreendimentos em que foi comandante. Além disso, a sua tímida conduta na cidade, de receio dos caluniadores, era considerada popular, e proporcionou-lhe grande estima no seio da população, porque o vulgo geralmente se afasta dos que o desprezam e achega-se aos que o temem, pois a maior honra, que os grandes lhe podem tributar é demonstrar que absolutamente não o desprezam. Deste modo Nícias cresceu cada vez mais no conceito público e em sua autoridade.

IV. Quanto a Péricles, por dirigir todos os negócios públicos com grande probidade, e graças à sua eloqüência, bastava-lhe dar expressão ao rosto ou usar alguma estúcia popular para cair na simpatia do povo. Não possuindo Nícias tais meios, e sim abundancia de bens, ia, por suas virtudes, conquistando a boa graça da multidão. Como Cleon se acomodava fácilmente a tudo e procurava manter a simpatia dos atenienses fazendo-lhes todas as vontades, Nícias, achando tais meios impróprios de sua pessoa, foi entrando no coração do povo por meio de donativos, de gastos com diversões públicas e outras liberalidades semelhantes, superando em gastos suntuosos e agrado de tais passatempos todos os que estiveram antes dele e os que o sucederam. Até hoje existem algumas dádivas que ele consagrou em vida aos deuses, como uma imagem de Palas, que se acha no castelo de Atenas, já sem douradura e um pequeno templo no interior do de Baco, debaixo dos vasos de três pés, que os festeiros oferecem quando conseguem o agrado público, pelos divertimentos que oferecem. Nícias conseguiu a estima pública em todos os passatempos que custeou, e nunca foi vencido.

V. Contam, a tal respeito, que, num desses folguedos por êle custeados, apresentou-se ao público, a animar os foliões, um de seus escravos, transformado em Baco. Tinha lindo rosto, belíssimo aspecto físico, e era ainda imberbe. Os atenienses, em sinal de alegria, bateram prolongadas palmas ao vê-lo, pelo que Nícias levantou-se, e disse bem alto que seria crueldade de sua parte manter na escravidão um homem que publicamente fora considerado parecido com um deus. E no mesmo instante libertou o jovem escravo. Atribuem-lhe também alguns atos de benemerência e de devoção que praticara na ilha de Delos, na qual os coros que as cidades gregas para lá mandavam, para entoar hinos de louvor a Apolo, costumavam desembarcar tumultuàriamente, em desordem, despindo-se e vestindo os trajes adequados num relance, pondo à cabeça os chapéus de flores sem qualquer cuidado. Por isso, o povo, que acorria em massa a recebê-los, obrigava-os a cantar ali mesmo, não atendendo a qualquer formalidade.

VI. Com ele deu-se o contrário, quando foi encarregado de levar o coro de Atenas: primeiro desembarcou na ilha de Rema, muito próxima à de Delos, com seus constas, suas hóstias para sacrificar, e todo o resto de sua equipagem, levando uma ponte que mandara executar em Atenas, da medida do canal existente entre as duas ilhas, ornada de pinturas, de douraduras, de festões, de ramalhetes de triunfo, e de vistosa tapeçaria; à noite êle fêz colocar a ponte no canal, que não é muito largo, e, ao romper do dia, fêz todo o corpo coral passar cantando, magnificamente vestido, e levou a multidão até o templo de Apolo. O banquete e as festas que êle realizou valeram-lhe uma bela e grande palmeira de cobre, que êle ofereceu a Apolo. Isto após o sacrifício. Também comprou ali uma propriedade do valor de mil escudos, que consagrou igualmente ao deus padroeiro da ilha, ordenando que o rendimento da mesma fosse anualmente gasto pelos delia-nos em um sacrifício e banquete público, em que deviam rogar a seu deus pela boa saúde e prosperidade de Nícias. Foi assim que ele mandou escrever e gravar numa coluna que deixou em Delos, como depositária da sua oferenda e instituição. Sendo depois esta palmeira quebrada pelos ventos, caiu sobre a grande estátua que os naxianos haviam doado, jogando-a ao chão.

VII. Há, não resta dúvida, naquele acontecimento, muita pompa, demonstração e ambição de popularidade. Contudo, tomando-se em consideração as fraquezas e a índole do personagem, con-clui-se não ser unicamente para agradar e vanglo-riar-se que ele assim agia, mas também por excesso de devoção, pois, como testemunha de Tucídides, êíe era dos que veneram com temor os deuses e que se entregam totalmente à religião. Acha-se escrito, em um dos diálogos de Pasifão, que diariamente ele imolava aos deuses e mantinha um adivinho vulgar em sua casa, dando a entender que era para avisá-lo do que iria acontecer nos negócios públicos; verdadeiramente, porém, era para inquirir sobre seus próprios negócios e sobre as grandes minas de prata que ele possuía no bairro de Laurião, e que lhe davam boa renda. Sendo as escavações muito perigosas, os escravos que as executavam eram entretidos em contínuas diversões. Sendo a maior parte dos seus haveres constituída de dinheiro de contado, numerosos eram os pedintes que se lhe achegavam, sendo todos socorridos, fossem realmente necessitados ou não. Assim sendo, a sua timidez tornara-se uma fonte de renda tanto para os maus como para os bons e realmente necessitados, conforme no-lo provam os antigos poetas cômicos. Falando de certo caluniador, Teléclidas assim se refere em uma passagem:

Caricies nunca lhe quis dar
Dez escudos, para não o criticar
De ser o mais velho dos filhos de sua mãe,
Primeiro saído de sua bolsa.
E Nicias deu-lhe quarenta.
Assim sendo, embora eu me gabe
De o saber, nada direi.
Estimo-o, e creio que seja homem de bem.

E aquele, que Eupólis põe em ridículo em sua comédia intitulada Maricas, perguntando a um homem pobre e simplório:

O caluniador:

Há quanto tempo
Não falas com Níciass?

O bom homem:

Só vi-lhe a cara Outro dia, na praça.

O caluniador:

Este homem me confessa havê-lo visto. Visto, porém, que o conhece, por que é . Que só o viu de passagem,

Se não deseja armar-nos traição? E vos fiz ouvir, meus amigos, Como considerei Níciass no caso.

O autor:

Insensatos, esperais surpreender
Um homem tão honesto em falta censurável?

Cleon, ameaçando, na comédia de Aristófanes, intitulada os Cavaleiros, diz estas palavras:

Eu pegaria os arengueiros pela garganta,
E deixaria Nícias espantado.

O próprio Frínico dá a entender que ele era tão medroso e fácil de assustar-se, quando diz, referindo-se a outrem:

Êle era bom cidadão, não indigno
Nem perverso como anda Níciass.

VIII. Sendo muito crente por natureza, e receando dar aos arengueiros qualquer oportunidade de caluniá-lo, êle retraiu-se a ponto de não ousar beber nem comer com qualquer pessoa da cidade, e muito menos matar o tempo com os companheiros em divertimentos de qualquer espécie. Quando em exercício, ele não se afastava do palácio, preocupando-se com os seus afazeres desde a manhã até à noite, sendo sempre o primeiro a chegar e o último a retirar-se. Quando ele não tinha nenhum serviço público a realizar, tornava-se inacessível, impossível de se lhe falar, porque conservava-se fechado em sua casa. Aos que iam procurá-lo, alguns dos seus amigos pediam que o desculpassem não poder recebê-los, porquanto achava-se muito atarefado com os negócios públicos. Quem mais o ajudava neste retraimento, e punha em maior destaque a sua reputação e circunspecção, era Hiéron, que fora criado por Nícias e por êle instruído em letras e na música. Êle dizia-se filho de certo Dionísio, cognominado Chalco, do qual ainda existem alguns trabalhos poéticos, e que, como comandante de um regimento que mandaram para guarnecer a Itália, fundou ali a cidade de Tunas.

IX. Este Hiéron, pois, assistiu-o e ajudou-o a indagar secretamente o que êle desejava saber dos adivinhos, espalhando pelo povo "Que Nícias levava uma vida miserável e muito estafante, pelo cuidado que dedicava aos negócios públicos, a ponto de, quer no banho, bebendo ou comendo, ter o pensamento sempre fixo em algum caso referente à cidade, abandonando seus interesses em favor dos negócios públicos, de modo que só começava a dormir quando os outros geralmente acabavam seu primeiro sono; que sua pessoa, com isso, definhava dia a dia, tornando-se intratável e grosseiro até com os seus íntimos amigos. Estes hábitos, dizia, ele os irá perdendo com seus haveres, por haver-se envolvido na direção dos negócios públicos, na qual os outros enriquecem, adquirem amigos, boa reputação, pela facilidade com que são ouvidos pelo povo, valendo-se da boa oportunidade que lhes fornece a direção dos negócios públicos". A vida de Nícias era realmente tal, que ele podia repetir o que o rei Aga-menão dissera de si mesmo, na tragédia de Eurípides, denominada Ifigênia em Áulida:

Aparentemente vivemos na grandeza,
Mas na realidade servimos ao povo.

X.Vendo que o povo, em algumas coisas valia-se da capacidade dos eloqüentes, ou dos que possuíam mais juízo, embora desconfiasse de sua capacidade e se acautelasse, diminuindo-lhes a coragem e a autoridade; e, sabedor da condenação de Péricles, do banimento de Damão, da suspeita levantada contra Antifão Ramnusiano; e do que fizeram a Paches, o que tomou a ilha de Lesbos, o qual, sendo entregue à justiça para dar contas de sua atuação, em pleno julgamento desembainhou a espada e matou-se publicamente. Nícias, considerando tudo isto, evitava os encargos muito difíceis ou muito fáceis; e, quando aceitava algum, tinha sempre o maior cuidado de nada adiantar, e dirigia-se resolutamente ao trabalho. Deste modo, como é fácil supor, a maior parte dos casos que ele chamava a si tinham feliz êxito. Contudo, êle nada atribuía à sua capacidade, sabedoria e virtude, e sim à felicidade e à proteção dos deuses, satisfazendo-se em diminuir sua glória, para fugir à inveja. Os acontecimentos havidos naquele tempo demonstram que, tendo a cidade de Atenas passado, a seu tempo, por grandes e tremendos abalos, êle não participou de nenhum deles, pois os atenienses foram derrotados uma vez na Trácia, pelos calcidianos sob as ordens de Calíades e de Xenofão, seus comandantes, e outra na Etólia, sob o comando de Demóstenes. Perto de Delião, cidade da Beócia, perderam mil homens, numa derrota, sendo seu chefe Hipócrates. Quanto à peste, atribuíram a maior parte da culpa a Péricles, que, devido à guerra, encerrou nas muralhas da cidade todos os camponeses, onde, ou devido à mudança de lugar, ou de modo de vida, faleceram de moléstia contagiosa.

XI. Disto tudo, nada se imputa a Nícias. Pelo contrário, sendo comandante, êle se apoderou da ilha de Cítera, em situação muito adequada a arruinar o país da Lacônia, habitado por lacede-mônios; reconquistou muitos lugares que se haviam rebelado na Trácia, reconduzindo-os ao domínio de Atenas; e, aprisionando os megarianos em suas muralhas, apoderou-se da ilha de Minoa. Ao partir dali, logo depois tomou também o porto de Niseia; e, desembarcando no país dos coríntios, derrotou os que lhe foram ao encontro, matando bom número deles, inclusive o comandante Licofrão. Neste encontro aconteceu esquecer-se de inumar dois dos seus homens mortos, cujos corpos não encontrou, ao recolher os outros. Prevenido disso, ele sustou a partida e mandou um arauto pedir aos inimigos permissão para recolher os corpos. Como, por uso de guerra, os que pedissem tal permissão perdiam o direito à vitória, em favor dos vencidos, possuidores dos cadáveres, ele preferiu estes ao título e honras de vencedor. Depois de percorrer e apoderar-se de toda a costa da Lacônia, e de haver derrotado alguns lacedemônios que se decidiram a atacá-lo, tomou a cidade de Tireia, então habitada por eginetas, levando estes prisioneiros para Atenas.

XII. Tendo os peloponesianos preparado grandes exércitos e armadas para atacar o forte de Pile, que o comandante Demóstenes havia fortificado, no combate marítimo aconteceu permanecerem na ilha Esfactéria quatrocentos espartanos. Os atenienses pensaram prestar-lhes um grande benefício, como de fato era, em apanhá-los vivos. Mas, sendo o sítio bastante difícil, devido à falta de água em pleno verão, e sendo necessário fazer longo trajeto, para levar-lhes víveres ao acampamento, e ainda assim só no inverno e com grande risco, eles ficaram muito aborrecidos, arrependendo-se amargamente de haver despedido a embaixada dos lacedemônios que fora ter com eles para tratar do acordo, sem nada decidir, devido à oposição de Cleon, que resistiu principalmente para desagradar a Nícias, seu inimigo, que concordava muito afetuosamente com o que os lacedemônios pediam. Cleon induziu os atenienses a recusar a oferta de paz e o acordo que eles foram apresentar. Mas depois, vendo que o sítio perdurava e que o acampamento sofria graves necessidades, o povo começou a irritar-se contra Cleon, que jogou toda a culpa a Nícias, declarando que a sua desídia e cobardia faziam os sitiados fugir, e, que se ele fosse o comandante, o caso não duraria tanto tempo. "E que esperas, até agora, que não os vais buscar?", gritaram-lhe os atenienses. Nícias levantou-se, e declarou em voz alta que voluntariamente ele cedia toda a carga daquela empresa de Pile, podendo levar quanta gente quisesse, para realizar de fato algum bom serviço à coisa pública, ao invés de gabar-se com palavras atrevidas, isentas de qualquer perigo.

XIII.A princípio Cleon recuou um tanto admirado, porque nunca supôs que o apanhassem tão de repente. Todavia, vendo que o povo o obrigava, e que Nícias gritava atrás dele, a ambição excitou-o e inflamou-o, e ele não só aceitou o posto de comandante como declarou que, vinte dias após sua chegada nos lugares, ou mataria todos os sitiados, ou os levaria prisioneiros a Atenas. Ouvindo-o, os atenienses tiveram mais vontade de rir do que de acreditá-lo, pois já se haviam habituado a levar em troça as suas bravatas e a rir-se de sua valentia. Contam que, num dia de reunião pública, em que ele devia discursar, o povo acudiu ao local desde cedo, esperando-o longamente. Chegando muito tarde, com um chapéu de flores à cabeça, ele pediu à assistência que consentisse em transferir a assembléia para o dia seguinte: "Porque, declarou, hoje sou obrigado a banquetear alguns amigos estrangeiros que vieram visitar-me, e que fizeram um sacrifício aos deuses". O povo riu-se e retirou-se. No entanto a sorte favoreceu-o então, e êle portou-se tão bem com Demóstenes nesta tarefa, que, ao fim do prazo estabelecido, apanhou todos os sitiados, menos os que foram mortos em combate, e, obrigando-os a depor as armas, levou-os prisioneiros a Atenas.

XIV. Isto depôs bastante contra Nícias porque êle não foi considerado como simples renuncia-dor das armas, mas foi julgado muito pior, como cobarde ignominioso, por ter, por falta de coragem, entregue a um seu inimigo, voluntária e pessoalmente, as honras de comandante, deixando-o praticar tão grande e belo cometimento. É a razão por que Aristófanes zomba na comédia dos Pássaros, dizendo:

Não é, com efeito, hora de cochilar,
Nem de encolher-se, como fez Nícias.

Em outra passagem da comédia dos Trabalhadores, ele diz:

Quero tornar-me trabalhador do campo.
Quem te impede de o fazer?
Vós, pois eu dou publicamente
Cem escudos de ouro, se me isentarem
De toda obrigação e jurisdição.
Aceitamos a oferta e a condição,
Pois, com os que por Nícias foram
Pagos, duzentos são honestos.

Mas o pior é que, assim procedendo, ele causou grande dano à administração pública, porque deu motivo a que Cleon adquirisse grande reputação, estima e autoridade, e se tornasse tão audaz e pretensioso que ninguém mais o deteve, causando inúmeros males à cidade, sendo Nícias a sua maior vítima. Foi ele quem, entre outras coisas, aboliu todo o decoro e acatamento antes observados nos discursos proferidos ao povo, pois foi o primeiro a vociferar, a bater com a mão na coxa, rasgando a dianteira de sua beca, correndo pela tribuna a falar numa linguagem imoderada, licenciosa, despida de toda honestidade, na qual imergiram os oradores e árbitros dos negócios, causando completa ruína à cidade.

XV. A esse tempo Alcibíades já começava a pôr-se em destaque, e a intervir nos negócios públicos, que não se achavam tão corrompidos nem tão arruinados como se poderia supor, e sim, como disseram da terra do Egito, que, por sua fertilidade,

Produzia misturas de drogas
Medicinais, ruins e boas.

Sendo Alcibíades de compleição robusta e forte em todos os sentidos, deu origem a muitos atentados, que impediram que Nícias, embora livre de Cleon, reconduzisse Atenas à paz e à tranqüilidade, e se visse de novo a braços com a guerra, devido à veemência e irrefreável ambição de Alcibíades. Os que mais embaraçavam a paz e a tranqüilidade da Grécia eram Cleon e Brásidas, porque a guerra servia de pretexto à perversidade de um e elevava a virtude de outro, dando a um justificativa e meio de praticar as maiores atrocidades e a outro de produzir belos e gloriosos feitos guerreiros. Mortos os dois em combate perto de Anfípolis, na Trácia, Nícias procurou sem demora os espartanos, que há muito almejavam a paz, e os atenienses, também enfastiados de guerra, e estudou meios de fazer com que as duas cidades, Atenas e Esparta, voltassem a ser amigas, e que todos os outros gregos ficassem igualmente livres da guerra, para que, dali por diante, vivessem em verdadeira e santa paz, e na maior felicidade. As pessoas abastadas, os velhos e toda a multidão de trabalhadores manifestaram-se sem demora favoráveis aos seus desejos, e os mais renitentes acabaram cedendo às suas razões. Deste modo, garantindo aos de Esparta que tudo estava bem disposto para a paz, se fosse esta do seu agrado, os espartanos não duvidaram da sua palavra, porque sempre o consideraram honesto, bom e pacífico, e viram o trato carinhoso e humano por ele dispensado aos prisioneiros que fizera no forte de Pile, tornan-do-lhes a amargura da prisão fácil de ser suportada.

XVI.Logo estabeleceu-se entre eles uma trégua de um ano, durante a qual voltaram novamente a visitar-se reciprocamente, e a gozar da paz e segurança de poder livremente ir ver suas hostes e amigos estrangeiros; começaram a desfrutar uma vida bastante tranqüila e agradável, sem manchar suas mãos de sangue humano, sentindo prazer em cantar, nas festas, os versos

Fique deitada minha lança no cabide,
E nela se agarre a teia de aranha.

Lembravam-se também, espontaneamente e com alegria, de quem dizia que na paz o som das trombetas não devia acordar os que dormiam, coisa que competia ao canto dos galos, e amaldiçoavam e desprezavam os que apregoavam estar escrito que a guerra duraria vinte e sete anos. Assim, entrando em ajuste sobre tudo, eles fizeram as pazes, certos de haver firmemente chegado ao termo de todos os males, e não falavam senão de Nícias, que diziam ser querido dos deuses, e graças a quem eles lhes concederam o mais belo e o maior bem do mundo, que correspondia ao seu nome querido. Não havia quem não considerasse tal paz obra exclusiva de Nícias, pois a guerra fora provocada por Péricles, que, por motivos insignificantes, induziu os gregos a graves calamidades. Nícias, pelo contrário, fê-los tornarem-se amigos e esquecer os grandes males produzidos por ambas as partes na guerra finda, pelo que aquele tratado denomina-se hoje Nícium, isto é, a paz de Nícias.

XVII. Por uma cláusula das condições de paz, eles devolveriam, reciprocamente, as cidades, terras e lugares que haviam conquistado durante a guerra, bem como os prisioneiros, devendo ser sorteado o que devia começar a fazê-lo. Escreve Teofrasto que êle aceitou a sorte à força de muito dinheiro, sob a condição de serem os lacedemônios os iniciadores da devolução das conquistas. Descontentes com isto, os coríntios e beócios declararam recomeçar a guerra, pelo que Nícias convenceu os atenienses e os lacedemônios a reforçar sua paz com uma nova aliança e liga ofensiva e defensiva, para uma união mais firme, a fim de que uns e outros pudessem agir com maior probabilidade de êxito contra os que quisessem sublevar-se ou rebelar-se contra eles.

XVIII. Tudo isto era realizado contra a vontade de Alcibíades, que, além de ser pouco propenso à paz, odiava os lacedemônios, por vê-los tão aferrados a Nícias e dedicarem-lhe a maior consideração, e não lhe ligarem, a êle Alcibíades, a menor importância, em sinal de desprezo. Por isso, desde o início êle procurou impedir a realização da paz, sem nada conseguir. Pouco depois, notando que os atenienses não se achavam tão satisfeitos com os lacedemônios como dantes, por acharem injusto fazerem nova aliança sem eles com os beócios e não entregarem, de acordo com o tratado de paz, as cidades de Panete e de Anfípolis, êle começou a atiçar e a aumentar-lhes as queixas, bem como a exasperar o povo de cada uma delas. Por fim, tendo conseguido que uma embaixada de Argos fosse a Atenas, êle desenvolveu tão bem suas artimanhas que os atenienses estabeleceram com ela a liga ofensiva e defensiva. Neste ínterim, porém, chegaram a Atenas outros embaixadores da Lacede-mônia, com plenos poderes para se opor a tal liga, os quais falando no Senado, só propuseram coisas honestas e razoáveis. Certo de que, se eles propusessem tais coisas perante o povo, fatalmente o arrastariam a seu favor, Alcibíades iludiu os pobres embaixadores, prometendo e jurando ajudá-los em tudo quanto desejavam, se demonstrassem e confessassem em público nao ter plenos poderes para agir, garantindo-lhes sei o meio mais seguro de alcançarem os fins desejados. Os embaixadores acreditaram-no, e volveram-se para ele, abandonando Nícias. Alcibíades levou-os à assembléia popular, onde perguntou-lhes alto e claramente se possuíam plenos poderes para tratar e concordar sobre todos os assuntos. À resposta negativa, ele apelou para o testemunho dos do Senado, de como lhes haviam dito o contrário, e aconselhou o povo a desconfiar de pessoas mentirosas, que a uns diziam uma coisa e a outros outra. Os embaixadores ficaram pasmos, e o próprio Nícias não soube o que dizer, confundido e enojado com tão inesperado acontecimento. O povo ficou tão revoltado que resolveu chamar à sua presença os embaixadores de Argos, para concluir com eles a liga. Súbito, porém, sobreveio um tremor de terra, que valeu a Nícias e dissolveu a assembléia. No dia seguinte, reunida de novo a assembléia, antes que o conselho tomasse qualquer deliberação, o povo exigiu que fosse concluída a liga com os argeus, até à volta do embaixador mandado aos lacedemônios, com a promessa formal de que tudo seria resolvido a contento.

XIX. Em Esparta receberam-no como pessoa distintíssima, tratando-o com o maior carinho, pois consideravam-no ser-lhes muito afeiçoado. Apesar disso, ele nada pôde fazer; e, sendo vencido pelos que favoreciam os beócios, regressou a Atenas do mesmo modo com que partira, onde não só foi mal recebido e desacatado, como correu risco de vida, devido à fúria do povo, que, a seu pedido e conselho, entregara os numerosos prisioneiros transportados de Pile, todos da melhor estirpe de Esparta, parentes e amigos dos principais personagens da cidade. Como derradeira afronta à sua pessoa, o povo obrigou-o a nomear Alcibíades comandante e a fazer aliança com os elianos e mantmianos, que se haviam rebelado contra os lacedemônios, bem como com os argeus, e mandou facínoras a Pile, para danificar a Lacônia. Razão por que a guerra recomeçou.

XX. Ora, quando a desavença e a luta entre Alcibíades e Nícias chegou ao extremo, venceu o prazo do ostracismo, isto é, de um degredo a que o povo submetia, em época determinada, durante dez anos, o cidadão que não lhe inspirasse confiança ou que fosse invejado por suas riquezas. Estes dois personagens ficaram então bastante inquietos, ante o risco que corriam, de ser um deles atingido pelo banimento, pois o povo detestava a vida de Alcibíades e temia a sua audácia, conforme amplamente declaramos em sua vida, e invejava Nícias por suas riquezas, achando-lhe estranho o modo de vida, e considerando-o insociável e orgulhoso. Nícias, além disso, tornara-se odiado, por haver-se negado, em várias circunstâncias, a satisfazer os desejos do povo, obrigando-o a retornar, a contragosto, ao que lhe era útil. Em resumo, e falando claramente, estabelecera-se uma luta entre os moços, que queriam a guerra e conseguintemente a expulsão de Nícias, e os velhos, que desejavam a paz, bem como o degredo de Alcibíades. Ora, como

Quando a discórdia reina numa cidade,
O pior elemento assume o governo,

a luta existente entre o povo de Atenas deu acesso ao poder a alguns dos elementos mais audaciosos e viciados da cidade, entre os quais havia um tal Hipérbolo, do burgo de Perito, na Ática, homem sem reputação e sem valor, que só pela audácia se impusera à estima pública, coisa que muito depôs contra sua terra.

XXI. Considerando-se bastante distanciado do perigo do desterro, embora soubesse ser, por seus méritos, mais digno de ser levado aos cepos do que de estar ao lado das pessoas de bem, e, certo de que, banido Nícias ou Alcibíades, ele ascenderia ao posto mais elevado do governo, não só demonstrava abertamente a satisfação que lhe causava a animosidade entre os dois como procurava irritar cada vez mais o povo contra eles. Conhecendo a sua maldade, Nícias e Alcibíades confabularam secretamente, harmonizaram as duas facções em luta, tornando-se mais poderosos que nunca, e o degredo a que estavam ameaçados foi cair sobre o próprio Hipérbole No momento, ô povo recebeu o caso com grandes gargalhadas e a maior demonstração de alegria; depois, porém, caiu em desaponto, considerando uma afronta à lei do banimento e uma honra para Hipérbolo aplicar-lhe tal castigo, nivelando um homem indigno a um Tucídides, a um Aristides, e a outros personagens semelhantes, dando-lhe ensejo de vangloriar-se de, por sua malvadez, sofrer o mesmo castigo das pessoas dignas e de grande valor. E o que o poeta cômico Platão diz em uma passagem:

Embora seus costumes tenham, na verdade,
Acertadamente merecido aquilo, e pior,
O certo é que ele, pessoa de tão vil
Condição, e de origem mesquinha,
Não era digno de tal, pois ideado
Para tais indivíduos não foi o Ostracismo.

Também nunca houve quem fosse exilado assim; de modo que Hipérbolo foi o último e Hiparco Colargiano o primeiro, por ser parente do tirano. Mas a sorte não é coisa com que se possa contar com segurança, nem compreender, por mais que se procure. Se Nícias se houvesse exposto abertamente à sorte deste banimento contra Alcibíades, a um dos dois aconteceria permanecer na cidade, expulsando o adversário, se o vencesse, ao invés de cair em extrema miséria, como lhe aconteceu depois; e, no caso de ser vencido, conservaria a fama de comandante muito prudente e assisado. Não ignoro que Teofrasto escreveu que Hipérbolo foi banido devido à discórdia existente entre Fárax e Alcibíades, não figurando Nícias no caso. A maior parte dos historiadores, porém, relata o que eu disse.

XXII. Tend o ido a Atenas os embaixadores dos egestães e dos leontinos, para convencer os atenienses que deviam conquistar a Sicília, Nícias foi vencido pela astúcia e ambição de Alcibíades, que, antes que o conselho se reunisse para tratar de tal assunto, subornara a comuna com vãs promessas, modificando-lhe o julgamento de tal modo que os moços, reunidos nos centros de cultura física, e os velhos, nas oficinas dos artesãos, nos retiros e jardins, outra coisa não faziam senão riscar no chão o mapa da Sicília, discutindo sobre a posição do seu mar, enumerando os portos e os lugares voltados para a África, porque a Sicília, para eles, não passaria de um arsenal, onde se concentrariam para guerrear os cartagineses e conquistar a África e o seu mar, até às colunas de Hércules. Como todos desejassem ardentemente esta guerra, Nícias, que se manifestava contra, quase não encontrou pessoas nem homens de saber que o secundassem. Os ricos, temendo a fúria popular, ou para evitar obrigações e afastar despesas a que seriam obrigados, nada diziam, embora não estivessem satisfeitos. O povo, porém, não se intimidava e não deixava de aconselhar e pregar sempre o contrário; e, mesmo depois de anulada a resolução de efetuar o empreendimento, e de haver sido ele eleito comandante-chefe para executá-lo, com Alcibíades e Lâmaco, na assembléia havida pouco depois na cidade procurou por todos os meios demover o povo de tal intento, acusando Alcibíades de, por ambição e proveito pessoal, lançar a coisa pública em tão perigosa quão longínqua guerra. Isto, porém, só serviu para elevá-lo no conceito público quanto à sua eleição para o cargo de comandante-chefe, por sua experiência e cautela, aliadas ao arrojo de Alcibíades e à calma de Lâmaco. Além disso, o orador Demóstrato, pon-do-se de pé, incitou os atenienses ao empreendimento da viagem; declarou que faria Nícias cessar de opor subterfúgios e desculpas; apresentou um decreto, pelo qual o povo dava amplos poderes aos comandantes de combinar e agir, onde quer que fosse, e aconselhou o povo a aprová-lo e pô-lo em execução.

XXIII. Dizem que os présbitas alegaram muitas coisas para obstar o empreendimento, e que Alcibíades subornara vários adivinhos, que alegavam advir grandes glórias aos atenienses na Sicília, e alguns peregrinos, que referiam ser portadores de recente profecia de Júpiter Amon, que lhes declarara que os atenienses aprisionariam todos os sira-cusanos; que, se alguém alegasse e pressagiasse o contrário, devia ser taxado de medroso, e desprezado sem dó, para não se meter a fazer maus prognósticos, pois a melhor confirmação tinham-na no esposte-jamento dos Hermes e na mutilação, certa noite, de todas as imagens de Mercúrio, exceto uma, que denominaram o Hermes de Andócidas, sendo, pela linhagem, chamada Egeida, e que se achava colocada diante da casa de um cidadão chamado Andócidas; no que aconteceu junto ao altar dos doze deuses, que um homem galgou, percorreu todo, e deu fim à vida com uma pedra; e no que foi visto no templo da cidade de Delfos, no qual havia uma pequena imagem de ouro, sob uma palmeira de cobre, cedida pela cidade de Atenas, dos despojos conquistados aos medos. Durante vários dias os corvos não cessaram de empoleirar-se nela e de bicá-la; e, tanto bicaram o fruto de ouro existente na palmeira, que o estragaram e derrubaram. Os atenienses, porém, atribuíam tal estrago aos delfos, vencidos pelos siracusanos. Uma profecia também ordenou-lhes que transportassem para Atenas uma religiosa de Minerva, que se achava na cidade de Clazomenes. Eles mandaram buscar a religiosa, chamada Hesíquia, que significa descanso, coisa que, parece, lhes aconselhavam os deuses, com esta profecia.

XXIV.Seja por acreditar no astrólogo Melão, ou porque os presságios celestes o amedrontassem, ou ainda por duvidar do bom êxito de tal viagem, ele, desesperado, por ter um posto na armada, incendiou sua casa. Há quem diga que ele assim procedeu, não por desespero, mas em pleno juízo e de caso pensado, à noite, e que no dia seguinte foi ter à praça pública, com ar bastante aflito, e suplicou ao povo que, atendendo ao que lhe ocorrera, o dispensasse da viagem, mesmo porque precisava comprar e dirigir uma galera, e estava prestes a embarcar. A sagacidade de Sócrates, porém, habituada a preve-ni-lo, dos acontecimentos futuros, revelou-lhe que tal viagem redundaria em prejuízo da cidade de Atenas, coisa que ele mesmo contou aos amigos mais achegados, e pela boca dos quais foi ter aos ouvidos da maior parte do povo. Isto contribuiu imenso para o enfraquecimento da coragem dos que embarcaram para a luta, pois fizeram-no justamente nos dias em que as mulheres celebravam a cerimônia da morte de Adônis, havendo em muitos lugares da cidade imagens de homens falecidos, que eram levadas a sepultar, seguidas dos lamentos de mulheres trajando luto carregado. Os que acreditavam em presságios, viram naquilo um aviso do que iria acontecer à admirável equipagem da armada prestes a partir, e ficaram tristes e apreensivos.

XXV. O fato de Nícias se haver sempre oposto ao empreendimento, nas reuniões do conselho deliberativo, e de nunca deixar-se levar por influências e esperanças vãs, nem seduzir e mudar de opinião pela honra do posto que lhe deram, mostrou ser êle um homem de bem, inabalável e ajuizado. Vendo, porém, que os seus bons conselhos não demoviam o povo de empreender a guerra, e que as suas súplicas, longe de conseguir a sua exoneração do posto de general, mais induziam-no a exigir que ele fosse um dos comandantes da armada, não teve remédio senão ceder, para não desencorajar seus companheiros e fazer gorar o alvo da expedição, que devia partir sem demora contra os inimigos, e tentar a sorte. Êle, porém, agiu de modo diferente. Sendo Lâmaco de opinião que, ao chegar, fossem direito a Siracusa, atacando-a o mais próximo possível de suas muralhas, e Alcibíades fosse de parecer que primeiro se fizesse a conquista das cidades aliadas dos siracusanos, Nícias declarou que o certo seria explorarem paulatinamente as costas da Sicília, para porem à mostra sua esquadra e sua força, e voltarem sem demora a Atenas, deixando apenas alguns guerreiros com os egestães para ajudá-los a se defenderem. Isto arrefeceu logo o entusiasmo e a coragem dos guerreiros.

XXVI.Pouco depois, tendo os atenienses mandado buscar Alcibíades, para processá-lo, Nícias conservou-se no posto de comandante com um outro, mas de comandante-chefe de toda a armada quanto ao poder e autoridade, retardando sempre qualquer ação, parando em toda parte, perdendo tempo em indagações, o que fez com que o ardor de seus homens arrefecesse, e o pavor dos inimigos, à vista de tão poderosa armada, desaparecesse. Todavia, antes de seguir para Atenas, Alcibíades foi còm sessenta galeras a Siracusa, dispondo cinqüenta em ordem de combate, fora do porto, e mandando dez sondar o mesmo. Aproximando-se estas da cidade, um arauto gritou muito alto que eles ali se achavam para repor os leontinos em suas terras e casas, apoderaram-se de um navio inimigo, no qual, entre outras coisas, encontraram tábuas, em que se achavam escritos, por ordem de origem e genealogia, os nomes de todos os habitantes de Siracusa. Estas tábuas eram guardadas muito longe da cidade, no templo de Júpiter Olimpiano, e haviam ido buscá-las para saber o número de pessoas em condição e idade para o serviço militar. De posse destas tábuas, os atenienses levaram-nas aos chefes da armada, aos quais os adivinhos, descontentes com o ato, declararam não corresponder aquilo ao que a profecia prometia, isto é, que os atenienses aprisionariam todos os sira-cusanos. Dizem que esta profecia foi realizada por uma outra expedição, quando Calipo Ateniense, tendo matado Dion, apoderou-se da cidade de Siracusa.

XXVII. Afastado Alcibíades da armada, toda a autoridade e poder de comando passaram a Nícias, porque Lâmaco, embora corajoso, íntegro e cioso do seu nome, era tão pobre e tão simples que se sujeitava a todas as privações, e todas as vezes que foi eleito comandante, ao prestar contas do que lhe passara pelas mãos, nunca se esquecera de levar à conta de seu débito a pequena quantia que retirara, para a compra de roupa e de pantufos. A autoridade e a reputação de Nícias, pelo contrário, eram maiores, por suas riquezas e pela glória de belíssimas ações que antes praticara. Conta-se, a tal respeito, que certa vez, em que ele era um dos comandantes, achando-se com os companheiros em conselho no palácio senhorial, em Atenas, para deliberar sobre certo negócio, ele disse ao poeta Sófocles, ali presente, que cabia-lhe o direito de ser o primeiro a dar o seu parecer, na qualidade de mais velho dos que se achavam reunidos. Sófocles respondeu-lhe: "Sou de fato, o mais velho, mas tu és o mais venerável, e aquele a quem mais acatam". Assim, pois, tendo Lâmaco sob suas ordens, embora o sobrepujasse como guerreiro e comandante, usando apàticamente as forças que possuía, e protelando sempre, foi contornar a Sicília, o mais longe possível dos inimigos, dando-lhes tempo e vagar de se precaver. Depois, detendo-se diante de Ibla, que não passava de uma péssima cidadela, e afastando-se sem tomá-la, caiu em tão grande desprezo, que mais ninguém ligou importância à sua pessoa. Retirou-se, por fim, para Catania, não tendo realizado outro cometimento além da tomada de Içara, uma péssima cidadela de bárbaros, da qual dizem ser oriunda a cortesã Laís, que, sendo ainda jovem, foi vendida com outros prisioneiros e a seguir levada para o Peloponeso.

XXVIIITendo, afinal, terminado o verão, ele foi prevenido de que os siracusanos, cheios de ódio, resolveram adiantar-se e dirigir-se contra ele, e que a sua cavalaria já se achava em escaramuças em seu acampamento, perguntando zombeteiramente, aos atenienses, se eles haviam ido à Sicília para morar com os de Catania ou para repor os leontinos em suas casas. Então, bem contra sua vontade, ele resolveu dirigir-se a Siracusa, e, desejando assentar ali seu acampamento com segurança e vagar, sem se arriscar, mandou um homem de Catania a Siracusa, a fim de avisá-los, como se fora um espião, que se eles quisessem apanhar o acampamento dos atenienses de improviso, e apoderar-se de tudo, deviam ir num dia por ele determinado a Catania, com toda a sua força, porque os atenienses permaneciam a maior parte do tempo na cidade, onde filhos do lugar, que favoreciam Siracusa, logo que perceberam a aproximação dos siracusanos haviam deliberado apoderar-se dos portos da cidade e incendiar os navios atenienses, esperando, para tal, o dia e a hora da sua chegada.

XXIXEsta foi a maior habilidade guerreira realizada por Nícias, durante todo o tempo que permaneceu na Sicília. Por meio deste ardil ele fez os inimigos sair a campo com toda a sua força e deixar a cidade completamente despovoada; e, partindo de Catania com toda a frota, apoderou-se facilmente do porto de Siracusa, e escolheu um lugar para assentar seu acampamento, onde os inimigos não poderiam causar-lhe dano, por ser o mais forte, e de onde podia correr sem embargo sobre eles, coisa em que muito confiava. E como os siracusanos, de há pouco regressados de Catania, lhe dessem combate junto às muralhas de sua cidade, ele saiu a campo, e derrotou-os. É verdade que morreram poucos inimigos na luta, por ter sua cavalaria impedido a perseguição; mas, fazendo destruir e abater as pontes existentes no no, ele deu motivo a que Hermócrates zombasse dele, pois, consolando e animando os siracusanos, declarou-lhes que Nícias era digno de ser ridicularizado, porquanto evitava a todo custo combater, como se não tivesse ido de Atenas a Siracusa expressamente para tal fim. Não obstante, o pavor dos siracusanos foi tão grande que, em lugar de quinze comandantes que precisavam, só conseguiram eleger três, aos quais o povo jurou dar plenos poderes e força para agir sobre todas as coisas.

XXX. O templo de Júpiter Olimpiano achava-se bem perto do acampamento dos atenienses, do qual eles tinham grande vontade de se apoderar, por saberem-no repleto de ricas jóias e dádivas de ouro e prata, que outrora lhe foram oferecidas. Nícias, porém, propositalmente, tanto demorou-se em dirigir-se para ali, para não arcar com a responsabilidade do sacrilégio de um saque ao templo por parte de suas tropas, que os siracusanos conseguiram enviar guarnição capaz de mantê-lo com segurança. Não querendo valer-se de uma vitória certa, coisa que correu célere por toda a Sicília, poucos dias depois ele regressou à cidade de Naxos, onde passou o inverno, consumindo muitos víveres com o grande exército que possuía e tirando pouco proveito dos sicilianos que a ele se renderam. Os siracusanos, entretanto, enfurecidos, voltaram inesperadamente a Catania, tomaram e estragaram toda a região da planície, e incendiaram o acampamento que os atenienses ali haviam estabelecido. Não houve quem não censurasse. Nícias pela demora da ação e pelo desejo de realizar as coisas com segurança, deixando fugir a oportunidade de efetuar muitos e belos feitos; pois, quando ele se decidia a pôr mãos à obra, agia com tal sorte que ninguém podia reprovar-lhe as ações, porque empreendia bem e achando-se bem humorado, ele tudo executava diligentemente. Mas era demorado nas resoluções e cobarde nos empreendimentos.

XXXI.Quando ele começou a movimentar sua armada, para voltar diante de Siracusa, conduziu-a com tal perícia, inteligência e segurança, que chegou por mar a Tapse, desembarcou, e apoderou-se do forte de Epípoles antes que os siracusanos soubessem e pudessem evitar. Tendo a elite dos siracusanos saído ao seu encontro, ele derrotou-a, aprisionou trezentos, e afugentou-lhe a cavalaria considerada invencível. O que mais espantou os siracusanos e pareceu admirável aos outros gregos, foi ofato de em pouco tempo ele cercar de muralhas toda a cidade de Siracusa, que não era menos extensa que a de Atenas, e mais difícil de fazê-lo, devido à desigualdade da região montanhosa, e tendo as marés em seu desfavor. Além disso, muitos dos seus homens foram atacados de nefrite, para levar a bom termo o trabalho, o que faz com que eu me admire extraordinariamente da diligência e solicitude do comandante e da proeza e boa vontade dos soldados, na execução de tão belo trabalho. Após sua completa derrota, Eurípides deplorou-a em versos fúnebres, dizendo:

Oito vezes derrotaram os siracusanos,
Enquanto os deuses não os castigaram injustamente.

Os siracusanos, porém, foram derrotados mais vezes ainda, antes que os deuses e a boa sorte bandeassem em seu favor.

XXXII. Forçando sua natureza, Nícias era pessoalmente encontrado na maior parte dos combates. Mas um dia, agravando-se o seu estado de saúde, êle foi obrigado a conservar-se deitado em seu acampamento, sob o cuidado de alguns dos seus lacaios, enquanto Lâmaco, que só tinha sob suas ordens a esquadra, atacava os siracusanos, que erguiam uma muralha em toda a volta de sua cidade, a fim de impedi-los de levá-los a termo e de cercá-los. Sendo os atenienses mais fortes na maior parte das escaramuças, eles perseguiam constantemente seus inimigos, que fugiam em tal desordem que Lâmaco, um dia, viu-se sozinho a enfrentar uma tropa de cavalaria, a cuja frente seguia o primeiro Calícrates, homem corajoso e amável, que desafiou-o a uma luta de homem para homem. Lâmaco aceitou o desafio, foi o primeiro a ser fendo, feriu Calícrates, e os dois caíram mortos no lugar da ação. Sendo os siracusanos mais fortes ah, transportaram seu corpo para outro lugar, e avançaram cegamente contra o forte do acampamento dos atenienses, onde se achava Nícias, doente, sem guardas e sem qualquer meio de defesa. Vendo o perigo em que se achava, ele abandonou o leito e ordenou a alguns dos seus criados que ateassem fogo à lenha que haviam amontoado diante das trincheiras do acampamento, para uso de algumas máquinas e engenhos de bateria, e de alguns engenhos que já se achavam preparados. Isto deteve os siracusanos, e salvou Nícias e o forte do acampamento, onde se achavam todo o dinheiro e bagagens dos atenienses. Vendo, de longe, entre eles e o forte, elevar-se ao ar tão grande chama, os siracusanos voltaram apressados à cidade.

XXXIII. Com tais acontecimentos, Nícias tornou-se comandante único, com grande probabilidade de produzir alguma coisa útil, pois muitas cidades da Sicília já se haviam declarado a seu favor, e ao seu acampamento chegavam navios de a parte, carregados de trigo, colocando-se às suas ordens. Como tudo lhe corresse bem, os siracusanos começaram a fazer-lhe propostas de acordo, desesperançados de poder defender sua cidade contra ele. O próprio Gilipo, comandante lacedemônio, que correra em seu auxílio, sabendo como a cidade de Siracusa estava sitiada, e fortemente bloqueada, prosseguiu viagem, sem qualquer esperança de defender a Sicília, que considerava inteiramente em poder dos atenienses, mas tencionando ao menos socorrer as cidades da Itália, se lhe fosse possível, pois já corria por toda parte a notícia que os átemenos haviam vencido e que possuíam um comandante invencível. Tendo se certificado, mais por prudência do que pelo favorecimento da sorte, e pelas narrações e notícias que secretamente lhe eram feitas pelos naturais da região, de que a cidade em poucos dias se acharia em seu poder, mediante acordo, Nícias não cuidou de impedir a chegada e desembarque de Gilipo na Sicília. Assim, este desembarcou sem que nada lhe acontecesse, tal o desprezo que lhe votavam e o pouco caso que dele faziam. Tendo desembarcado bem longe de Siracusa, Gilipo começou a reunir guerreiros antes mesmo que os siracusanos soubessem da sua chegada e esperassem a sua ida. Tanto assim que já haviam reunido a assembléia, para deliberar sobre as condições de sua capitulação a Nícias, embora houvesse alguns membros discordantes.

XXXIV. No momento exato do perigo, Gongilo, que partira de Corinto com uma galera, chegou à cidade. Ao aportar, o povo todo, como é fácil supor, correu-lhe ao encontro, ouvindo-lhe a declaração de que Gilipo não tardaria a chegar, vindo atrás dele outras galeras em seu auxílio. Os siracusanos conservaram-se incrédulos até a chegada de um mensageiro expresso, mandado pelo próprio Gilipo, que ordenou-lhes que saíssem armados à sua frente. Readquirindo então coragem, eles foram armar-se sem demora. Nem bem chegou a Siracusa, Gilipo preparou às pressas seus homens, para ir atacar os atenienses. Tendo Nícias também disposto seus homens em posição de ataque, ao defrontarem-se as forças, Gilipo depôs as armas e mandou um arauto pedir a Nícias que lhes permitisse partir vivos e livres de perigo da Sicília. Nícias não se dignou responder. Alguns soldados, porém, zombando, perguntaram ao arauto se pela simples chegada de um capêto e de um bastão da Lacede-mônia, os siracusanos se sentiam tão fortes que deviam desprezar os atenienses que, não havia muito, mantiveram acorrentados, em suas prisões, trezentos lacedemônios muito mais robustos e mais cabeludos que Gilipo, e os haviam entregue a seus cidadãos. Timeu também escreve que os próprios sicilianos não faziam o menor caso de Gilipo, nem então, nem depois, porque descobriram sua torpe presunção e sua avareza. Vendo-o de cabelos muito compridos, e trajando unicamente uma péssima capa, zombaram dele. Todavia, depois ele mesmo disse que, nem bem apareceu na Sicília, muitos dos tais zombadores foram rodeá-lo com profundo afeto, como fazem os passarinhos com as corujas. Isto me parece mais verdadeiro do que o que foi dito antes, visto que se amontoavam em torno dele, vendo naquela capa e no bastão os vestígios e a dignidade da cidade e soberania de Esparta. Muito acertadamente diz Tucídides que foi só ele quem fez tudo, o que é confirmado por Filisto, natural de Siracusa, que testemunhou tudo quanto aconteceu.

XXXV. Todavia, neste primeiro encontro os atenienses tiveram vantagem, e mataram certo número de siracusanos, entre os quais Gongilo Coríntio. Mas no dia seguinte Gilipo demonstrou quanto valem a capacidade e a experiência de um comandante assisado, pois, com as mesmas armas, os mesmos homens, os mesmos cavalos, e nos mesmos lugares, mudando unicamente a disposição do combate, derrotou os atenienses. E, tendo-os expulso, batendo-os até dentro do seu acampamento, obrigou os siracusanos a construir, com as pedras e o material que os atenienses haviam levado para construir sua prisão, muralhas de resguardo, que de nada lhes valeram. Com isto, os siracusanos readquiriram coragem, começaram a armar galeras, e, com a sua cavalaria e seus lacaios percorrendo o campo todo, lizeram numerosos prisioneiros. Gilipo, a seu turno, percorreu pessoalmente as cidades da Sicília, pedindo aos habitantes que o obedecessem de boa vontade, e aconselhando-os a tomar armas em seu favor.

XXXVI.À vista disso Nícias recaiu de novo em seu primitivo modo de agir, e, considerando a mudança de suas ações, começou a desanimar. Assim sendo, ele escreveu sem demora aos atenienses que mandassem outra esquadra à Sicília, ou melhor, que chamassem a que ali se achava, e o dispensassem e demitissem do posto de comandante, atendendo à moléstia que o perseguia. Os atenienses, que sempre se mostraram surdos às solicitações, graças à inveja que os maiorais da cidade tinham da grande prosperidade de Nícias, colocados em tal dilema, desta vez resolveram atender prontamente. Após o inverno, Demóstenes devia partir sem demora com uma grande esquadra; mas, mesmo no inverno, Eurimedão adiantou-se levando-lhe dinheiro e a notícia que o povo elegera-lhe por companheiros alguns dos que ali se achavam, Euti-demo e Menander. Entrementes, tendo sido atacado de surpresa pelo inimigo, tanto em terra como no mar, embora tivesse menos galeras que seus inimigos, Nícias enfureceu-se e meteu-lhes a pique algumas. Em terra, porém, ele não conseguiu socorrer sua gente a tempo, porque Gilipo, logo no primeiro ataque, apoderou-se do forte Plemirião, no qual se achava a equipagem de diversas galeras e boa soma de dinheiro de contado, fazendo muitas mortes de prisioneiros, e tolheu a Nícias a possibilidade de fazer chegar, por via marítima, víveres ao seu acampamento. Tomado o forte, e ancorados os inimigos diante dele, só combatendo-os e vencendo-os, poderia ele prover às necessidades do seu acampamento.

XXXVII. Tendo sido observado aos sira-cusanos que sua esquadra não havia sido derrotada, embora os inimigos fossem mais fortes, porque os haviam perseguido em desordem, eles quiseram tentar outra vez a sorte, corn melhor disposição e melhor equipagem. Nícias, porém, não quis de modo algum que os seus voltassem ao combate, alegando ser grande loucura fazê-lo com o pequeno número de navios mal equipados que possuíam, quando Demóstenes não tardaria a chegar com o reforço de uma boa esquadra. Menander e Eutidemo, ao con-trário, recentemente promovidos ao posto de comandantes, cheios de ambição e inveja dos outros dois comandantes, desejando antecipar Demóstenes, fazendo algo de belo antes de sua chegada, e exceder mesmo os feitos de Nícias, manifestaram-se favoráveis ao ataque. A desculpa por eles dada, para encobrir sua ambição, foi o da reputação da cidade de Atenas, que ficaria nulificada e desmoralizada sob todos os aspectos se eles demonstrassem ter medo dos siracusanos, que os provocavam ao combate.

XXXVIII.Deste modo, eles obrigaram Nícias a entrar em combate, no qual foram batidos e derrotados, graças aos bons conselhos dados aos siracusanos por um piloto coríntio, chamado Aristão, sendo o lado esquerdo de suas forças totalmente destruído, segundo relata Tucídides, e perdendo ali grande número de seus homens. Razão por que Nícias ficou muito aflito, considerando o imenso trabalho que tivera quando único comandante, e a grande falta cometida por culpa dos companheiros que lhe deram. No momento, porém, do seu maior desespero, descobriram, pouco acima do porto, Demóstenes, com sua frota fortemente armada c equipada, para pôr em polvorosa os inimigos. Constava ela de setenta e três galeras, contendo cinco mil soldados de todas as armas, além de arqueiros, atiradores e não menos de três mil lanceiros. As galeras eram dotadas de belos arneses e de numerosas insígnias, de grande quantidade de clarins, de couraças e de outros petrechos de marinha, tudo pomposa e triunfalmente disposto, para produzir maior temor aos inimigos. Supõe-se que os siracusanos ficaram de repente bastante abalados, considerando inútil qualquer esforço de sua parte, para livrar-se da dura situação em que se achavam. Nícias, pelo contrário, ficou radiante com a chegada de tão grande reforço, mas a sua alegria não foi de longa duração; pois, mal êle começou a entender-se com Demóstenes sobre os acontecimentos, notou que este queria ardentemente atacar os siracusanos o mais depressa possível, tomar-lhes a cidade, e regressarsem demora ao seu país. Nícias estranhou tanta pressa, e rebateu com firmeza tão estonteante arrojo; pediu-lhe que nada fizesse temerária e desesperadamente, demonstrando-lhe que, conduzindo as coisas sem afobação, agiria em favor dos seus e contra os inimigos, que, não tendo mais dinheiro e víveres, não tardariam a ser abandonados pelos aliados, e corre-riam a pedir-lhe acordo, como já haviam feito antes. Muitos habitantes de Siracusa, que secretamente mantinham entendimentos com Nícias, haviam-no prevenido que retardasse o ataque, porque os sira-cusanos achavam-se fatigados e aborrecidos da guerra, e bastante desgostosos com Gilipo, prontos a renderem-se incondicionalmente, se a carência de víveres chegasse a aumentar.

XXXIX. Expondo estas razões, parte veladamente e parte evitando expor publicamente, fez seus companheiros acreditar que só a cobardia o levava a firmar-se em tais propósitos e a recair nas primitivas delongas, até conseguir completa certeza de vencer, o que abateu o ardor e entusiasmo da sua gente, desde o início, e fez com que os próprios inimigos lhe votassem o maior desprezo. Por essa razão os outros apoiaram a opinião de Demóstenes, à qual, muito a contragosto, Nícias também aderiu. Assim, à noite, à frente dos soldados de infantaria, Demóstenes foi atacar o forte de Epípoles, antes que os inimigos notassem a sua chegada, matando alguns e afugentando os que procuraram defender-se. Não satisfeito, foi além, até encontrar os beócios, que foram os primeiros a se reunir e a avançar furiosos, de lanças em riste, e em altos gritos contra os atenienses, abatendo os primeiros no lugar. O resto do exército ficou tão desnorteado que os primeiros fugitivos foram jogar-se entre os seus perseguidores, e os que procuraram a fuga pelo monte Epípoles, atônitos, encontrando-se com os próprios companheiros, que corriam em sentido contrário, com eles se entrechocaram, supondo-os inimigos, havendo grande mortandade. A esta confusão e pavor, que os tornara desconhecidos uns dos outros, deve-se acrescentar o fato de não poderem ver claramente, por ser noite, embora não tão escura que nada pudessem enxergar, mas também de claridade insuficiente paia se distinguir com segurança o que se apresentava ao simples olhar. Além disso, a lua já estava tão baixa que a pequena claridade que emitia era ofuscada pela quantidade de armas e de homens que iam e vinham, tornando-se insuficiente para os reconhecimentos; de modo que o medo que eles tinham dd inimigo fazia-os desconfiar dos próprios amigos. A reunião de todas estas coisas tornou os atenienses perplexos, fazendo-os cair em graves inconvenientes. Ao demais, a lua ficava-lhes às costas, projetan-do-lhes as sombras para a frente, ocultando-lhes a quantidade e o esplendor dos arneses, dando-se o contrário com os inimigos, que, favorecidos pelos rarios da lua, pareciam mais numerosos e melhor armados do que na realidade estavam. Fortemente perseguidos pelos inimigos por todos os lados, eles começaram a recuar, e puseram-se em fuga desabalada, sendo uns mortos pelos inimigos que tinham às costas, outros por seus próprios companheiros, e outros ainda despenharam dos rochedos. Os que estavam espalhados pelos campos, procurando na fuga a sal^ vação, na manhã seguinte foram presos e passados ao fio da espada pelas cavalarias de Siracusa. Finda a ação, dois mil mortos ficaram no lugar, sendo poucos os que conseguiram salvar-se às pressas, levando suas armas.

XL. Eis porque Nícias, que sempre temeu que tal acontecesse, acusou e censurou a temeridade de Demóstenes, que, defendendo-se como pode, opinou que ao romper do dia embarcassem e regressassem à sua terra, pois as forças que possuíam eram insuficientes para enfrentar os inimigos, enquanto esperassem por novos reforços. Além disso, mesmo que fossem muito fortes, seriam obrigados a por-se em ação ou a fugir do lugar em que estavam acampados, o qual, segundo de há muito ouvira falar, era bastante perigoso e pestífero, mesmo no começo do outono, estação em que se achavam, conforme podia provar com numerosos doentes já ali existentes, prestes a falecer. Nícias ouviu-o contrafeito, por temer, não os siracusanos, e sim os atenienses, suas calúnias e seus julgamentos. Razão por que ele disse ao conselho não ver inconveniente algum em ali permanecer, e que, embora houvesse, mais estimaria que os inimigos o matassem, a morrer pelas mãos dos seus próprios cidadãos. Nisto ele agiu contrariamente à opinião manifestada depois por Leão Bizantino, que disse aos seus cidadãos: "Prefiro ser morto por vós do que morrer convosco". Depois, quanto ao lugar para onde deveriam transferir seu acampamento, teriam tempo de sobra para deliberar sem serem importunados.

XLI.Quando Nícias emitiu esta opinião ao conselho, Demóstenes, que em seu primeiro parecer não fora feliz, não ousou mostrar-se ofendido com a mesma. Os outros, certos que Nícias não teria tão firmemente se oposto à partida, se não confiasse em alguma coisa proveniente da cidade, concordaram com ele. Mas, ao saberem da chegada de novos reforços aos siracusanos, e notarem que a peste se alastrava cada vez mais em seu acampamento, o próprio Nícias foi de parecer que deviam partir, e ordenou aos soldados que se preparassem para o embarque. Neste comenos, quando tudo estava pronto para velejar, sem que os inimigos percebessem, houve eclipse da lua, e a noite tornou-se sumamente escura. Isto causou grande pavor a Nícias e à sua gente, que, por ignorância e superstição, temiam imenso tais fenômenos.

XLII.Desde aquele tempo o vulgo já conhecia que o eclipse e obscurecimento do sol sempre têm lugar na conjunção da lua, mas não concebia, de modo algum, que tal acontece devido ao tamanho da lua. O próprio eclipse da lua, que se dá quando ela encontra quem a obscureça mesmo em plenilúnio, transmudando-lhe a claridade nas mais variadas cores, era-lhe de difícil compreensão, esquisito e sempre considerado como sinal de grandes desgraças com que os deuses ameaçavam os seres humanos. Anaxágoras, o primeiro que escreveu com mais acerto e ousadia sobre a claridade e obscurecimento da lua, não era então idoso e sua invenção ainda não havia sido divulgada; era mantida em segrêdo, e os poucos que a conheciam só ousavam transmiti-la, cuidadosamente, às pessoas de sua in-teira confiança, porque o povo não admitia que os filósofos tratassem de coisas naturais, que denominava meteorológicas, isto é, de coisas superiores que lucedem no céu ou no ar, e a comuna achava que eles atribuíam a causas naturais e irrazoáveis, e a forças estranhas, o que só aos deuses era devido. Razão por que Protágoras foi banido de Atenas, Anaxágoras foi encarcerado, dando muito trabalho a Péricles para soltá-lo, e Sócrates foi condenadoà morte por ser filósofo, embora não se envolvesse naquela parte da filosofia. Muito mais tarde, a doutrina de Platão, publicamente recebida, graças à excelência de sua vida e por submeter a necessidade das causas naturais ao poder divino, desfez a má opinião que a comuna tinha sobre tais controvérsias, e deu curso e divulgação às ciências matemáticas. Por isso, Dion, um dos seus discípulos e familiares, não se assustou nem perturbou, com o eclipse da lua que sobreveio no momento em que levantava âncora para partir de Zacinto e ir guerrear o tirano Dionísio; velejou, e, chegando a Siracusa, expulsou o tirano.

XLIII.Ainda assim Nícias foi então infeliz, por não ter um bom e experimentado adivinho, pois o que possuía, chamado Estílbidas, que o afastava de muitas das suas superstições, havia falecido pouco antes. Este presságio de eclipse da lua, na opinião de Filócoro, era útil às pessoas que desejavam fugir furtivamente ao perigo. "Porque, diz êle, as coisas que se procura ocultar de caso pensado têm a luz como inimiga". Mesmo assim, eles se haviam habituado a não agir e a precaver-se somente durante três dias, nestes acidentes da lua e do sol, como o próprio Autóclidas estabelece no livro que escreveu sobre tais manifestações. Nícias, porém, adianta ser necessário esperar outra revolução do curso completo da lua, como se a não tivesse visto pura e nítida logo que ela transpôs a extensão do ar sombreado e obscurecido pela sombra da terra. Êle se pôs a sacrificar aos deuses coisas quase esquecidas e abandonadas, dando aso a que os inimigos voltassem a sitiar-lhe os fortes e o acampamento por terra, e por mar atacassem e se apoderassem de todo o porto, dirigindo aos atenienses pesados insultos, para provocá-los ao combate. Para isso, Heráclides, de família boa e nobre, avançou seu navio mais que os outros, sendo alcançado por uma galera de Atenas, que lhe ia ao encontro. Vendo tal, Polico, seu tio, avançou com dez caravelas de Siracusa, das quais era comandante, em seu auxílio. As outras galeras atenienses, supondo que Polico não fosse inimigo, avançaram, efetuando um grande combate naval, que os siracusanos venceram, matando o comandante Eurimedão e muitos outros. Isto assustou tanto os soldados atenienses, que eles começaram a gritar não haver mais motivo para permanecer ali, e que deviam retirar-se por terra, porque, ganho o combate, os siracusanos haviam logo fechado a entrada do porto.

XLIV. Nícias não condescendeu em tal retirada, por considerar grande vergonha entregar ao inimigo os duzentos navios e galeras que possuía. Pelo contrário, foi de opinião que se dotasse cento e dez galeras dos soldados mais valentes e dos melhores láncenos existentes na esquadra, porque as outras galeras não tinham mais remos. Pronta a esquadra, Nícias dispô-la ao longo do litoral, no porto, abandonando seu grande acampamento e suas muralhas, que iam até o templo de Hércules. Devido a isso, os siracusanos, que até aquele dia não haviam podido fazer os costumeiros sacrifícios a Hércules, encarregaram seus présbitas e comandantes de fazê-lo. Achando-se os combatentes embarcados, os adivinhos foram prevenir os siracusanos que os sinais dos sacrifícios prediziam-lhes uma gloriosíssima vitória, desde que não fossem os primeiros a atacar, e apenas se mantivessem na defesa, porque assim procedera Hércules em todos os seus empreendimentos, isto é, defendera-se, quando atacado.

XLV. Nesta doce esperança vogaram os siracusanos para a frente, produzindo o combate naval mais áspero e violento de toda esta guerra, que causou tanto sofrimento, trabalho e aflição aos que se achavam no litoral como aos que combatiam, porque, nas poucas horas de luta, eles viram muita mudança, na maior parte contrária ao que esperavam. Reunindo todas as galeras numa frota única, sobrecarregando-as demasiadamente, e conduzindo o combate pela maneira por que o fizeram, os atenienses ocasionaram-se maior mal do que o produzido pelos inimigos, de cujas galeras, leves, rápidas e esparsas, arremessavam pedras, de efeito seguro e destruidor, como não o eram os dardos e flechas da parte contrária. Aristão, piloto coríntio, que tal ensinara aos siracusanos, morreu valorosamente, quando eles já estavam vencedores.

XLVI. Derrotados no mar, com grande número de mortos e feridos, com a retirada cortada, e sem meios de salvar-se por terra, os atenienses ficaram tão apavorados e abatidos que não opuseram mais resistência aos inimigos, deixando-os levar seus navios, nem pediram permissão para retirar os mortos, a fim de sepultá-los, sentindo mais ainda abandonar os doentes e feridos. Com isto, eles se julgaram mais miseráveis e infelizes, pensando que também chegariam àquele mesmo fim, e com maior miséria e maiores males. Sabendo que eles haviam resolvido partir à noite, e vendo que os siracusanos puseram-se a sacrificar aos deuses e a banquetear-se na cidade, pelo êxito da vitória e pela festa de Hércules, Gilipo achou desaconselhável conven-cê-los e obrigá-los a tomar subitamente as armas, para correr sobre os inimigos retirantes. Hermócrates, porém, imaginou propor um ardil a Nícias. Mandou alguns dos seus amigos mais achegados dizer-lhe que iam, da parte dos que na guerra passada não se fartavam de avisá-lo secretamente, pedir-lhe que evitasse pôr-se a caminho naquela noite, para não cair nas emboscadas que os siracusanos haviam preparado, ocupando todos os estreitos e lugares por onde suas forças teriam de passar.

XLVII. Iludido por esta astúcia, Nícias não duvidou em permanecer ali a noite inteira, receoso de cair nas malhas e emboscadas dos inimigos, que, ao romper do dia, tomaram a dianteira, ocuparam os estreitos, fecharam as passagens dos rios, destruíram as pontes, e dispuseram sua cavalaria em posição de combate perto dos campos abertos, de modo a impedir a fuga dos atenienses e a obrigá-los a lutar. Por fim, depois de haver esperado todo aquele dia e a noite seguinte, eles puseram-se a caminho com grande gritaria, choros e lamentos, como se estivessem abandonando sua terra natal e não a de inimigos, devido à falta de víveres e pelo desgosto que sentiam de abandonar seus parentes e amigos feridos ou doentes, que os não podiam acompanhar, e porque esperavam coisa pior do que a que lhes estava acontecendo.

XLVIII. De tudo quanto digno de dó havia naquele acampamento, nada despertava maior compaixão que a pessoa de Nícias, que, perseguido por sua moléstia, magro e acabado, se achava completamente desprovido de medicamentos. Apesar disso, ele fazia e suportava coisas que os sãos custam a fazer e a suportar, dando a entender a todos que o fazia por eles e não em atenção à sua pessoa, e que ainda lhe restava a esperança de melhores dias. O que mais o acabrunhava era a lembrança da desonra e vergonha de tal viagem, quando todos esperavam honra e glória. Se a vista de tal miséria induzia os observadores à piedade, mais emocionados os deixava, quando se lembravam do que ele sempre dissera e pregara em suas falas, para impedir tal viagem e demover o povo deste empreendimento. E achavam, então, que ele não merecia tamanho castigo. Além disso, confabulando entre eles, estranhavam que um personagem tão devoto como Nícias não tivesse obtido a ajuda dos deuses, que o nivelaram, assim, aos homens mais viciados e piores existentes em toda a armada. Êle, entretanto, mostrando-se sempre alegre, tendo sempre uma palavra firme, e agradando a todo o mundo, dava a conhecer que não tombara ao peso da carga, nem se rendia à infelicidade. Ao longo do caminho todo, cujo percurso durou oito dias, embora fosse continuamente carregado e ínsul-tado, êle manteve por completo a tropa, até o momento em que Demóstenes, com toda a sua gente, foi feito prisioneiro na aldeia de Polizélios, onde se detivera e fora envolvido pelos inimigos, em combate. Vendo-se envolvido, êle desembainhou a espada e enterrou-a no peito. Não morreu, todavia, porque foi logo rodeado pelos inimigos, que se apossaram do corpo.

XLIX. Os siracusanos levaram a notícia a Nícias; e, como êle não lhes desse crédito, mandou algumas cavalarias certificar-se da verdade, obtendo a confirmação do acontecido. Então êle solicitou a Gilipo que permitisse aos atenienses sair a salvo da Sicília, exigindo deles os tributos que desejassem, como reembolso de todas as despesas feitas pelos siracusanos naquela guerra, que êle prometia fazê-los pagar. Os siracusanos opuseram-se a tal, ameaçando-o seriamente; e, dirigindo-lhe insultos, e vendo-o já privado de toda espécie de víveres, atacaram-no mais fortemente que nunca. Êle, entretanto, resistiu durante toda aquela noite, e marchou o inteiro dia seguinte, embora fosse continuamente dardejado, até chegar ao rio Asinaro, no qual os inimigos lançaram grande parte dos atenienses, enquanto outros, morrendo à sede, jogaram-se por si mesmos, para se dessedentar, sendo uns e outros cruelmente mortos pelos siracusanos. Isto fez com que Nícias se lançasse aos pés de Gilipo, e lhe dissesse: "Já que os deuses vos deram a vitória, tende piedade, não de mim, que conquistei glória e renome imortal graças a estas calamidades, mas destes outros atenienses, lembrando-vos que as vantagens da guerra são idênticas e que os atenienses sempre as usaram suave e moderadamente contra vós, quando a sorte lhes foi favorável".

L. Ouvindo estas palavras, Gilipo encarou Nícias e teve dó, porque sabia que ele favoreceu os lacedemônios no último ajuste; e, considerando uma grande glória levar prisioneiros os dois comandantes inimigos, recebeu cortesmente Nícias, con-fortando-o, e ordenou aos mais que não vitimassem os prisioneiros. Sua ordem, porém, demorou a ser atendida por todos, de modo que houve muito mais mortos do que beneficiados, embora soldados desconhecidos se encarregassem de salvar boa quantidade às escondidas. Por fim, reunindo publicamente os que escaparam à morte, despojaram-nos de suas armas, pendurando-as como troféus nas mais belas árvores existentes ao longo do no. Depois, pondo à cabeça chapéus de triunfo, enfeitaram triunfalmente seus cavalos, tosquiaram os dos inimigos, e regressaram vitoriosos à cidade de Siracusa, da guerra mais célebre que os gregos realizaram até então, uns contra outros, vitória perfeita e completa, obtida à custa de proezas e de virtude.

LI.Ao seu regresso houve uma assembléia de siracusanos e seus aliados, na qual um dos oradores e árbitro do governo propôs primeiramente que o dia da captura de Nícias fosse, dali em diante, solenemente festejado, sem ser permitida outra ocupação além da do sacrifício aos deuses, e que a festa se denominasse Asinána, do nome do no em que se dera a derrota. Tal dia foi o vigésimo-sexto do mês de julho, correspondente ao vigésimo-sétimo do mês Carmino, que os atenienses denominam Metagitnion. Quanto aos prisioneiros, que os aliados dos atenienses e seus lacaios fossem publicamente vendidos em leilão; e que os verdadeiros atenienses, condicionalmente livres, e seus confederados da Sicília, fossem encarcerados nas prisões das pedreiras, exceto os comandantes, que seriam mortos. Os siracusanos aprovaram tal sentença. E como o comandante Hermócrates procurasse demonstrar-lhes que o uso humanitário da vitória ser-lhes-ia mais honroso que a própria vitória, foi tumultuosa e asperamente maltratado. Além disso, como Gilipo lhes pedisse os comandantes, para levá-los vivos aos lacedemônios, não só lhe foi recusado como foi por eles injuriado, tão ciosos se achavam de sua prosperidade, pois durante a guerra se haviam encolerizado contra ele, por não poderem suportar a sua austeridade e severidade à laconiana. Para agravar a situação, diz Timeu que o acusaram de avarento e ladrão, vícios considerados hereditários, pois Cleândridas, seu pai, acusado e provado de peculato, fora banido de Esparta, e ele mesmo, após haver subtraído trinta dos mil que Lisandro enviara por seu intermédio a Esparta, e escondido sob o telhado de sua casa, foi descoberto e obrigado a exilar-se ignominiosamente, conforme declaramos amplamente na vida de Lisandro. Timeu escreve que Nícias e Demóstenes não foram lapidados pelos siracusanos, como declaram Tucídides e Filisto, mas que se sacrificaram por si mesmos, a conselho que Hermócrates lhes mandara por um dos seus homens, que os guardas deixaram entrar na prisão, antes que a assembléia popular fosse dissolvida. Seus corpos foram jogados à entrada da prisão, ficando expostos à curiosidade pública.

LII. Consta que até hoje, em um templo de Siracusa, expõem um escudo, que dizem ser o de Nícias, coberto de ouro e de púrpura lindamente tecidos e mesclados. Quanto aos outros prisioneiros atenienses, a maior parte morreu de doenças e maus tratos nas prisões das pedreiras, onde só tinham por alimento duas tigeladas de cevada e uma de água por dia. Os que conseguiram evadir-se foram apanhados e vendidos como escravos, imprimindo-lhes na lesta a figura e marca de um cavalo. A sua humildade, resignação, paciência e honestidade foram-lhes muito proveitosas, porque não poucos obtiveram logo a liberdade, e os que continuaram cativos tornaram-se queridos de seus senhores, sendo por eles muito bem tratados. Alguns foram libertados graças a Eurípides, pois os sicilianos apreciavam muito mais os versos deste poeta do que os de quaisquer outros gregos do coração da Grécia, e sentiam imenso prazer em aprendê-los e transmiti-los aos mais. Dizem que muitos dos que conseguiram livrar-se do cativeiro e regressar a Atenas foram cumprimentar e agradecer afetuosamente a Eurípides, contando-lhe uns que haviam sido libertados da escravidão por ensinarem trechos de suas obras a seus senhores, e outros que, tendo conseguido fugir depois do combate, e errando pelo campo, encontraram quem lhes desse de comer e de beber, sob condição de cantar-lhes alguns dos seus carmes. O que não admira, pois conta-se que, certa vez, perseguida por fustas de corsários, uma nau da cidade de Cauno procurou salvar-se em seus portos, sendo a princípio impedida de fazê-lo; mas, pouco depois, tendo perguntado aos que estavam dentro se conheciam alguma canção de Eurípides, e obtido resposta positiva, deixaram-nos entrar e os receberam satisfeitos.

LIII. Quando a notícia desta miserável derrota chegou a Atenas, a princípio ninguém quis acreditar, pois foi um estrangeiro, desembarcado no porto de Pireu, quem se encarregou de a propalar num salão de barbeiro, supondo-a já sabida. Ouvindo-o contar, o barbeiro correu sem demora à cidade, antes que outros ouvissem e o fizessem, e, dingin-do-se aos magistrados e governadores, espalhou a notícia por toda parte. No mesmo instante os oficiais convocaram uma assembléia das pessoas mais evidentes da cidade, para a qual levaram o barbeiro, que, interrogado de quem obtivera tal notícia, nada pôde dizer positivamente, pelo que foi tomado como um inventor de novidades, para desnortear e amedrontar o povo. À vista disso foi amarrado à roda em que torturavam os criminosos, e longamente martirizado, até à chegada de pessoas que deram notícias exatas e pormenorizaram toda a infelicidade. Mesmo assim, eles nunca quiseram acreditar em tal acontecimento, que Nícias tantas vezes predissera.


Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

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Plutarco – Vidas Paralelas

VIDA DE LÚCULO

Desde o ano 630, aproximadamente, até o ano 700 de Roma, antes de Jesus Cristo, 54.

 

Lúcio Licínio Lúculo

 

Família de Lúculo. Êle acusa o augure Servílio.

O avô de Lúculo era personagem de dignidade consular, e seu tio materno Metelo, cognominado Numídico, obteve esta alcunha por haver subjugado e conquistado a província de Numídia; seu pai, porém, foi categoricamente acusado de furto na administração das finanças públicas, e sua mãe, Cecília, adquiriu a fama de desonesta. Antes que Lúculo obtivesse qualquer cargo que o obrigasse a cuidar da administração pública, tratou, ao chegar, de acusar e submeter à ação da justiça Servílio Augúrio, acusador de seu pai, alegando haver procedido do mesmo modo em sua terra, isto é, haver ele atentado contra o erário público. Os romanos consideraram lindo este seu procedimento, não se falando de outra coisa em Roma, durante muito tempo, como se fosse coisa de grande valia. Passaram então a considerar coisa valiosa e nobre a acusação sincera e destemida a elementos perniciosos, sentindo grande prazer em ver os moços, à maneira de galgos enfurecidos atrás das lebres, perseguirem judicialmente os fraudadores. As rixas e perseguições foram tão grandes em tal processo, que houve feridos e mortos em praça pública, só terminando com a absolvição de Seivílio.

Eloqüência e habilidade de Lúculo nas línguas grega e latina.

II. Lúculo exprimia-se com tanta eloqüência, facilidade e correção nas línguas grega e romana, que Sila viu nele o único homem capaz de escrever-lhe a história completa dos seus feitos, com fidelidade e elegância, e recorreu a ele, fornecen-do-lhe os dados indispensáveis. A sua facilidade no falar não se resumia em ter resposta pronta para destruir ataques e produzir defesas unicamente, como se observa em outros, que em questões processuais, ou em audiências públicas,

Assemelham-se aos atuns, que por grande teimosia,
Vão às profundas do Oceano;

mas, que, afastados dos limites da prática e das arengas públicas,

Tornam-se áridos, enfadonhos,
E reduzem a nada a sua eloqüência.

Desde a mocidade Lúculo se dedicara com afinco ao estudo das belas-letras ou de humanidades, como dizem, e às ciências liberais. Chegado à velhice, dedicou-se, a custo, ao estudo da filosofia, avivando a parte contemplativa de sua alma, e amortecendo, ou pelo menos refreando a tempo, a parte ambiciosa e ativa, depois da pendência que teve com Pompeu. Dizem que, muito moço ainda, desejando dar maior prova do seu talento, ele fez uma aposta com o orador Hortênsio e o historiador Sisena de ser capaz de escrever um resumo da guerra Mársica (1), em prosa ou verso, em latim ou grego, de acordo com o que ficasse estabelecido por sorte. Isto, que a princípio foi tomado como pilhéria, tornou-se realidade, tendo-lhe caído, a meu ver, a prosa grega, porque de sua autoria é a pequena história que ainda hoje existe, em língua grega, da guerra que os romanos fizeram contra os marsos.

Seu afeto por seu irmão.

III. Êle era muito afeiçoado a seu irmão Marcos Lúculo, conforme demonstrou em muitas oportunidades, sobressaindo a que segue, mencionada pelos romanos: Lúcio era-lhe mais velho, mas nunca solicitou nem aceitou encargos públicos antes dele, pois preferia o bem-estar de seu irmão ao seu. Tanta bondade conquistou-lhe as mercês do povo, que, durante a sua ausência, elegeu-o edil, juntamente com seu irmão, em atenção a êle.

Sila agarra-se a êle, ocupando-o em diversas circunstâncias.

IV. O esplendor de sua mocidade manifes-ta-se durante a guerra Mársica, na qual êle praticou muitos atos sensatos e de grande audácia. Sila porém, chamou-o a si, não pelos cometimentos realizados, e sim devido à sua constância, à sua bondade e afabilidade. Feita a escolha, Sila ocupou-o sempre, de começo ao fim, nos afazeres mais importantes e de maior responsabilidade, sendo um deles o da cunhagem de moedas no Peloponeso, cuja maior parte foi despendida na guerra contra Mitrídates. Foi a razão por que as moedas tornaram-se conhecidas por Luculianas, tendo, durante muito tempo, livre circulação entre os guerreiros, que com elas adquiriam o que lhes era necessário, e ninguém se recusava em aceitá-las. Depois, sendo Sila, em Atenas, o mais forte em terra, mas o mais fraco no mar, o que fazia com que seus inimigos lhe interceptassem todos os víveres, mandou Lúculo ao Egito e à Líbia, para trazer-lhe os navios que encontrasse naquelas regiões. Embora se achassem no mais rigoroso inverno, quando foi incumbido de tal missão, ele fêz-se ao mar com três bergantins gregos e três galés rodianas, expondo-se não só aos perigos marítimos, em tão longa viagem, como aos ataques inimigos, muito mais fortes, que singravam por toda parte, sempre com excelente frota. Vencendo todas as dificuldades, êle primeiro desembarcou na ilha de Cândia, que submeteu às suas ordens, seguindo depois para a cidade de Cirene, onde encontrou os habitantes fatigados de lutas civis e das contínuas opressões a que os submetiam os tiranos. Êle abateu a tirania, estabelecendo ali uma forma de governo adequada às circunstâncias, garantindo-lhes, como fizera Platão, outrora, a seus antepassados, absoluta tranqüilidade. Como lhe solicitassem leis relativas ao melhor modo de gerir e governar os negócios públicos, ele respondeu não sentir-se à vontade, para ditar leis a pessoas tão ricas, felizes e opulentas como elas, por não haver coisa mais difícil de se frear do que o homem que tem dinheiro à sua disposição; dando-se o contrário com o que a sorte ajudou a enriquecer, que está sempre pronto a receber conselhos e ordens. Esta advertência tornou os cirênios, dali por diante, mais dóceis e mais obedientes às ordens estabelecidas por Lúculo.

Êle vai ao Egito. Honras que recebe de Ptolomeu.

V. Partindo dali para o Egito, durante a travessia êle foi inesperadamente atacado por corsários, perdendo boa parte dos navios que havia reunido. Conseguindo salvar-se, foi pomposamente recebido na cidade de Alexandria, pois toda a esquadra real foi-lhe ao encontro, em boa ordem e bem equipada, do mesmo modo que procedia com o rei, quando regressava de alguma viagem marítima. O próprio rei Ptolomeu, então ainda muito jovem, fêz-lhe o melhor acolhimento possível, pois, entre outras demonstrações de amizade, alojou-o e alimentou-o em seu castelo real, onde, até então, nunca fora hospedado nenhum capitão estrangeiro; nem poupou despesas, para homenageá-lo, coisa que nunca fez com outros. Lúculo, porém, resumiu-se ao indispensável à sua manutenção, e resolveu não aceitar presente algum do rei, por mais desvahoso que fosse; negou-se a visitar a cidade de Mênfis e qualquer das .raridades e maravilhas de renome, existentes no Egito, sob o fundamento de ser isso próprio de homem que corre o mundo só para ver e distrair-se, não já para ele, que deixara seu capitão em campo, na sede do comando, diante das muralhas dos inimigos. Finalmente, o jovem rei Ptolomeu não quis entrar em aliança com Sila, receoso de meter-se na guerra, pois bem que lhe pediu Lúculo gente e navios para levar a Chipre. Logo que ele quis embarcar, o rei disse-lhe adeus, abraçou-o, e ofereceu-lhe uma linda e preciosa esmeralda engastada em ouro, que Lúculo logo recusou; mas, como o rei lhe mostrasse a sua efígie ali gravada, acabou aceitando, receoso de que, julgando-o partir descontente com a sua pessoa, o rei lhe preparasse alguma emboscada no mar.

Por meio de que astúcia êle foge aos inimigos que o esperavam de emboscada.

VI. Tend o conseguido certo número de navios nas cidades marítimas dos arredores, que não homiziavam piratas e corsários, participando dos seus furtos e assaltos, ele foi ter a Chipre, onde recebeu a notícia que seus inimigos, ocultos em alguns cabos, aguardavam a sua passagem, para atacá-lo de surpresa. À vista disso, ele fez aportar os navios, e preveniu as cidades próximas que resolvera invernar ali, razão por que o aprovisionassem de víveres e de quanto fosse necessário a passar o inverno e esperar a nova estação. Nem bem o tempo permitiu, ele fêz-se de novo ao mar, com toda a esquadra, singrando durante o dia de velas arriadas, e à noite de velas alteadas, sendo tão bem sucedido, com este ardil, que chegou a Rodes sem perder um único navio. Os rodianos forneceram-lhe outros, e, os gnídeos e os da ilha de Co, instigados por ele, abandonaram o partido do rei Mitrídates e foram, em sua companhia, guerrear os de Samos. Ele, porém, só com sua gente expulsou de Quio as forças do rei, e libertou os colofônios, aprisionando o tirano Epígono, que os submetia à escravidão.

Fímbria propõe-lhe atacar Mitrídates por mar.

VII. Mais ou menos nessa época, Mitrídates foi obrigado a deixar a cidade de Pérgamo e a retirar-se para a de Pitana, na qual Fímbria retinha-o fortemente sitiado por terra. À vista disso, ele mandou prevenir suas forças navais e marítimas de toda a costa, sem ousar atacar nem arriscar-se a um embate terrestre com Fímbria, que sabia ser homem valente e arrojado por natureza, e que levaria vantagem sobre os seus. Fímbria bem se apercebeu disso; mas, não possuindo forças navais, mandou pedir a Lúculo que se dirigisse para ali com sua frota, a fim de ajudá-lo a derrotar o maior e mais cruel inimigo do povo romano, e impedir que tão bela e rica presa, perseguida com tanto trabalho e risco, lhes escapasse, já que por si mesma se fora lançar entre as suas reses; pediu-lhe que não deixasse de atender, porque, se Mitrídates fosse apanhado, a ninguém, senão a ele, caberia a grande honra e glória de haver-lhe impedido a fuga, proporcionando o meio de vencê-lo, e de repartirem igualmente os louvores do grande empreendimento. Além disso, a derrota de Sila fana com que os romanos se esquecessem de todas as proezas e grandes feitos de armas por ele realizados na Grécia, nas cidades de Queronéia e de Orcomene.

Duas vitórias alcançadas por Lúculo sobre as frotas de Mitrídates.

VIII. Tais foram as propostas que Fímbria lhe fizera, nas quais nada havia de extraordinário, ou pelo menos não demonstrava. Ninguém duvida que, se Lúculo tivesse atendido ao pedido, e tivesse ido, com seus navios, fechar a entrada do porto da cidade em que Mitrídates estava sitiado, a pequena distância dele, a guerra acabaria ali, e livraria o mundo da incalculável série de males que sobrevieram. Mas, ou porque Lúculo desse mais valor ao que devia a Sila, do qual era tenente, do que a qualquer outra consideração e proveito, de caráter privado ou público; ou porque odiasse e abominasse Fímbria, como verdugo, que pouco antes, por deplorável ambição, havia manchado as mãos no sangue de seu amigo e chefe; ou por qualquer providência e concessão divina, êle poupou, então, Mitrídates, para torná-lo depois um adversário digno, capaz de fazê-lo por à prova todo o seu valor. Tanto isto é verdade, que êle, ao invés de atender ao pedido de Fímbria, deu a Mitrídates tempo e espaço suficientes para fugir e zombar de todo o esforço de Fímbria. Depois, sozinho, derrotou a esquadra do rei, perto do cabo Lecto, na costa de Troada, e junto à ilha Tenedos, onde Neoptolemo, tenente da marinha de Mitrídates, que o esperava com maior número de navios, embargou-lhe inesperadamente o avanço, lançando-se sobre a nau capitânea, galera rodiana de cinco remos em cada banco, governada pelo piloto Demágoras, muito afeiçoado aos romanos e experimentado nos combates navais. Como Neoptolemo corresse ruidosamente ao seu encontro, ordenando a seu piloto um choque de proa, que seria fatal, visto ser a galera real forte e maciça, e bem armada de pontas e esporões de cobre, Demágoras fez habilmente girar a sua, e recebeu o choque na popa, sem graves danos, dada a posição baixa da mesma. Neste ínterim seus homens se aproximaram, e Lúculo ordenou ao piloto que retomasse a posição primitiva, praticando atos de grande valor; afugentou seu inimigos e expulsou Neoptolemo.

Êle ataca de surpresa os habitantes de Mitilene, e derrota-os completamente.

IX. Partindo dali, ele foi ao encontro de Sila, no momento em que este ia atravessar o mar, a caminho do Quersoneso, ajudando-o a passar sua esquadra, e assegurando-lhe a passagem. Ao ser concluída a paz, e ao retirar-se o rei Mitrídates aos seus domínios e reinos, situados ao longo do mar Maior, Sila condenou a província da Ásia, por se haver rebelado, a multa de vinte mil talentos, que correspondem a doze milhões de libras. Para haver tão elevada quantia foi comissionado Lúculo, com poderes de mandar cunhar as moedas, que foram de grande utilidade às cidades da Ásia, dado o rigor com que Sila se utilizara delas; pois, em situação tão ruinosa e odiosa para todos, ele portou-se como homem reto, honestíssimo, comedido e humano. Quanto aos mitilenos, que se rebelaram abertamente contra ele, apenas desejava que reconhecessem seu erro, e que, como castigo de haverem aderido a Mário, sofressem uma leve punição. Vendo-os, porém, excessivamente teimosos em sua infelicidade, dirigiu-se contra eles, e, derrotando-os em combate, obrigou-os a meterem-se em suas muralhas, sitiou-lhes a cidade, lançando mão deste ardil: durante o dia fêz-se ao mar, à vista de todos os moradores da cidade, singrando para a cidade de Eléia; à noite, porém, voltou secretamente, e, sem fazer o menor ruído, colocando-se de emboscada no lugar mais próximo da cidade. Os mitilenos, que nada suspeitavam, saíram na manhã seguinte, temerária e desordenadamente, para pilhar e saquear o acampamento dos romanos, certos de não encontrar ninguém ali. Lúculo saltou de improviso sobre eles, aprisionou muitos, e matou uns quinhentos dos que procuraram defender-se; ganhou seis mil escravos, além de enorme quantidade de outros despojos.

Sila nomeia-o, por testamento, tutor de seu filho.

X. Ocupado, como se achava, com os negócios da Ásia, os deuses impediram-no de participar da longa série de males e misérias de toda espécie, a que Sila e Mário submeteram a pobre Itália naquela época; o que não obstou que Sila lhe dedicasse a mesma estima e consideração concedida aos outros amigos, pois, como já dissemos, dedicou-lhe seus Comentários, e, em testamento, nomeou-o tutor de seu filho, deixando Pompeu esquecido. Foi esta, ao que parece, a origem da discórdia e do ciúme surgidos mais tarde entre os dois, jovens e ávidos de honrarias.

Êle é nomeado cônsul.

XI. Pouco depois da morte de Sila, ou seja, um ano antes do início da guerra de Espártaco e da morte de Sertório, Lúculo foi eleito cônsul. Começaram então a propalar ser indispensável recomeçar a guerra contra Mitrídates, o mesmo fazendo Marcos Cota, que dizia, em toda parte, não achar-se ela extinta nem amortecida, mas unicamente adormecida. Foi por isso que, ao serem sorteadas as províncias que os cônsules iriam governar, Lúculo ficou muito triste, ao ver que a Gália entre os Alpes e a Itália, lhe caíra por sorte. Pareceu-lhe não ser província em que pudesse fazer coisa digna de nota; e, nesta conjuntura, Pompeu, que diariamente adquiria maior fama, pelas façanhas que realizava na Espanha, seria fatalmente eleito comandante das forças contra Mitrídates, logo que concluísse a guerra ali. A esse tempo Pompeu mandou pedir que lhe remetessem com urgência, dinheiro para pagamento do soldo às tropas, escrevendo ao Senado que, caso não o atendessem sem demora, êle abandonaria Sertório e a Espanha, e reconduziria todo o seu exército à Itália. Lúculo empregou todo o seu prestígio, para que o dinheiro lhe fosse logo remetido, receoso que êle chegasse à Itália no ano do seu consulado, e, possuidor de poderoso exército, fizesse e obtivesse em Roma o que melhor entendesse, pois Cetego, muito reputado e querido ali como administrador, por fazer e dizer tudo quanto fosse do agrado do povo, estava desavindo com ele Lúculo, que reprovava seus costumes e modo de vida, próprios de pessoa viciada e dissoluta, e movia-lhe guerra aberta. Havia, além disso, outro arengueiro popular, chamado Lúcio Quíncuo, que pretendia desfazer e anular todas as ordens e atos de Sila, isto é, revolver por completo a administração pública, e pôr em polvorosa e combustão a cidade de Roma, que até então estivera em completa paz e repouso. Lúculo admoestou-o delicadamente, em caráter reservado, e, Usando da mesma cortesia em público, fê-lo desistir do mau propósito, reconduziu-o ao uso da razão, e desfez, com habilidade e sabedoria, para o bem da coisa pública, o início de um mal que poderia dar origem a inúmeras desgraças.

Êle é encarregado da guerra contra Mitrídates.

XII. Neste cómenos chegaram notícias do falecimento de Otávio, governador da Cilicia. Surgiram logo muitos pretendentes, que se puseram a brigar e a demandar por causa deste governo, e a cortejar Cetego, por ser o que melhor podia fazê-los conseguir o seu desejo. Lúculo não ligava importância ao governo da Cilicia, pelo fato de ser ela província; mas, considerando que a Capadócia estava-lhe anexa, e, certo de que, se conseguisse obter o seu governo, a ninguém, mais do que a ele, caberia a tarefa de guerrear Mitrídates, resolveu pôr em prática todos os meios para consegui-lo. Depois de haver se utilizado de todo expediente, foi, por fim, contra a sua índole, obrigado a recorrer a um meio pouco louvável e honesto, mas o mais expedito para conseguir o que almejava. Havia em Roma, naquele tempo, uma mulher, chamada Pré-cia, célebre por sua beleza, graça e encanto no falar, tão honesta como as que publicamente mercadejam seus corpos. Mas, em razão de empregar a sua valia em benefício dos que com ela mantinham relações, para o bem da coisa pública e dos que amava, adquiriu fama de bondosa e dominadora, capaz de levar a bom termo uma boa empresa. Além disso, ela conquistara Cetego, muito reputado em Roma, que manejava a bel-prazer todos os negócios públicos, e que se achava tão enamorado dela, que não podia perdê-la de vista. Assim sendo, ela enfeixava em suas mãos todo o poder e autoridade da cidade de Roma, porque nada se fazia, em favor do povo, que não emanasse de Cetego, e este a nada atendia, que não fosse solicitado por Précia. Por isso, Lúculo tratou de ache-gar-se e de conseguir-lhe o auxílio, por meio de presentes e de outros agrados que pôde imaginar, embora já fosse uma grande honra, para uma mulher ambiciosa e altiva como ela, ser procurada e solicitada por uma personagem como Lúculo, que, assim, conseguiu ter Cetego à sua disposição. Allém disso, êle não fez outra coisa senão louvar Cetego em todos comícios populares, e em pedir-lhe o govêrno da Cilicia. Alcançado este, êle não precisou mais do auxílio de Précia e de Cetego, pois o povo todo conferiu-lhe, por unanimidade, o direito de guerrear Mitrídates, considerando-o o único capaz de enfrentá-lo vantajosamente, visto ainda achar-se Pompeu às voltas com Sertório, na Espanha, e ser Metelo muito avançado em idade para um feito desta natureza. Pompeu e Metelo eram os únicos que podiam contender e lutar pela posse do cargo. Não obstante Marcos Cota, seu concorrente ao consulado, tanto pediu ao Senado, que também foi mandado, com uma armada, guardar as costas da Propôntida, e defender a Bitínia.

Êle restabelece a disciplina no seio de suas tropas.

XIII. De posse desta missão, Lúculo passou para a Ásia, com uma legião novamente recrutada em Roma. Lá chegando, arrebanhou o resto das forças que encontrou, constituída de gente corrompida e gasta pelos prazeres e pela avareza, sobressaindo os libertinos, conhecidos por libertinos fim-brianos, homens debochados e difíceis de serem submetidos à disciplina militar, por se haverem de há muito habituado a viver a vontade, sem obedecer a quem quer que fosse. Foram eles que, com Fímbria, assassinaram seu capitão Flaco, cônsul do povo romano, e depois traíram o próprio Fímbria, entre gando-o a Sila. Embora turbulentos, intratáveis e perversos, não deixavam de ser bons combatentes, valentes e perfeitos conhecedores dos trabalhos da guerra. Lúculo em pouco tempo diminuiu-lhes o atrevimento, e disciplinou igualmente os outros, que nunca tiveram a comandá-los um homem de valor, se im indivíduos que os adulavam e só faziam o que eles queriam.

Mitrídates faz novos preparativos de guerra.

XIV. Quanto aos inimigos, eles se achavam nesta situação: Mitrídates, que a princípio fora audacioso e valente, como o são geralmente os sofis-tas, a ponto de ousar guerrear os romanos com um exército aparatoso, mas inútil e nulo, depois de ser uma vez castigado e derrotado vergonhosamente, sofrendo inúmeras perdas, ao fazer segunda guerra restringiu-se ao indispensável, e fez de suas forças um verdadeiro e útil instrumento de guerra, próprio a satisfazer o fim que tinha em vista: proibiu o acúmulo desordenado de gente de toda nacionali-dade entre suas forças; deteve as arrogantes amea-ças dos bárbaros, proferidas em tantas línguas diferentes; acabou com as armas ornadas de borda-dos, ouropéis e pedras preciosas, que só serviam para enriquecer os vendedores e nenhum estímulo davam aos que as usavam. Mandou forjar espadas longas e fortes, à romana, escudos pesados e maci-ços, e reuniu os cavalos melhores e mais adestrados, sem se preocupar com o seu aparato; reuniu cento e vinte mil combatentes a pé, dispostos e aparelhados como um exército de romanos, com dezesseis mil cavalos de assalto, sem contar os que arrastavam a: carretas de artilharia, munidas de foices em toda a volta, em número de cem. Além disso, reuniu numerosas galeras e navios, desprovidos dos belod pavilhões dourados que ostentaram na primeira vez, sem banheiras e estufas, sem dormitórios e gabinetes deliciosos, destinados às senhoritas, mas repletos de armas, de flechas e de dardos, e com o dinheiro indispensável ao pagamento do soldo às tropas. Com este séquito, primeiro ele foi invadir a Bitínia, no ocidente da Ásia, em cujas cidades foi novamente bem recebido, o mesmo acontecendo em todas as do resto do continente, que haviam recaído na miséria, devido à crueldade dos rendeiros e usurá rios romanos, que as sobrecarregavam de multas e impostos, submetendo-as a toda espécie de castigos e vexames, negando até alimentos às populações. Lúculo livrou-as de tais tormentos, e, por meio de conselhos conseguiu evitar que as populações se rebelassem.

Êle vence o cônsul Cota em terra e no mar.

XV. Enquanto Lúculo assim procedia, Marcos Cota, percebendo que a ausência do companheiro dava-lhe ensejo de satisfazer seus desejos, preparou-se para combater Mitrídates. E, como, de muitos lugares, lhe chegassem notícias de achai Lúculo na Frigia, à frente do seu exército, pronto para ir ter com êle, convencido de ter em mãos, como coisa certa, a honra do triunfo, receoso de que Lúculo viesse dela participar, adiantou-se no combate, sendo derrotado tanto em terra como no mar; perdeu sessenta navios, com toda a tripulação, e quatro mil soldados, sendo acossado e sitiado na cidade de Calcedônia ou Bitínia, no Bósforo, sem esperança de poder salvar-se, a não ser que Lúculo o socorresse. Não faltaram, no acampamento de Lúculo, os que lhe pedissem e aconselhassem a deixar Cota entregue à sua sorte, e a dirigir-se para determinado lugar, no reino de Mitrídates, comple-tamente desguarnecido e sem qualquer meio de defesa; não era justo ir em socorro de quem, por sua tola temeridade e falta de tino, não só enganara e perdera os que se achavam sob suas ordens, como os impedira de vencer e terminar a guerra sem disparar um tiro. Lúculo, porém, respondeu-lhes: "Que preferia salvar um romano que fosse, a ganhar tudo o que estivesse em poder dos inimigos". Como Arquelau, que na primeira guerra fora tenente de Mitrídates e nesta segunda se pusera ao lado dos romanos, lhe garantisse que, se ele fosse ao reino de Ponto, todos ali se rebelariam contra Mitrídates e colocar-se-iam a seu lado, Lúculo disse-lhe que, se tal fizesse, "êle não se mostraria mais cobarde que os bons monteiros, que nunca largam a besta, mesmo para entrar em sua casa". Assim dizendo, fez seu exército marchar ao encontro de Mitrídates, que linha, ao todo, trinta mil soldados de infantaria e dois mil e quinhentos de cavalaria. Aproximando-se dos inimigos o mais possível, para tê-los sempre sob suas vistas, admirou-se Lúculo do elevado número de combatentes que vira em campo, e teve vontade de não travar combate, ponderando ser melhor deixar o tempo correr e delongar o embate. Um tal Mário, porém, capitão romano, que Sertório mandara da Espanha a Mitrídates, com alguns combatentes, foi-lhe ao encontro, provocando-o à luta.

Êle dispõe seu exército, em ordem de combate, diante do de Mitrídates. Um milagre impede o ataque.

XVI. Lúculo, a seu turno, pôs sua gente em posição de combate. Mas, no momento em que os dois exércitos iam entrechocar-se, o ar fendeu-se de repente, sem que ninguém notasse qualquer mudança sensível de tempo, e um grande corpo em chama, semelhante a um tonel, cor de prata fundida, desceu entre eles. Este sinal e presságio celeste assustou de tal modo os dois exércitos que eles se retiraram sem combater. Origma-se deste maravilhoso sinal, dizem, o nome Otries, dado àquele lugar da Frigia.

Êle procura ganhar tempo, sem arriscar-se a agir.

XVII. Refletindo, a seguir, não possuir Mitrídates dinheiro e abastecimento suficientes para ocorrer, durante muito tempo, às necessidades de tantos milhares de homens, que via acampados diante dele, Lúculo inquiriu a tal respeito um dos prisioneiros, e, para obter a confirmação, outros dois. Comparando a quantidade de trigo e de outros víveres armazenados com o número de homens a serem alimentados, concluiu que em três ou quatro dias tudo estaria esgotado, e decidiu manter-se no seu primeiro propósito de deixar o tempo correr, sem tentar a luta. Fêz buscar trigo em toda parte e recolhê-lo ao acampamento, bem como outros gêneros alimentícios, para que, com o seu exército ao abrigo de necessidades, melhor pudesse aguardar a ocasião propícia ao ataque aos inimigos.

Mitrídates vai sitiar Cízico.

XVIII. Mitrídates, por sua vez, estudava os meios de apoderar-se, de surpresa, da cidade de Cízica, na Propôntida, cujos cízicos, com Cota, haviam sido derrotados e afastados de diante da Calcedônia, perdendo três mil homens e dez navios. Para que Lúculo nada soubesse do seu propósito, êle partiu certa noite, logo depois do jantar, aproveitando a noite escura e chuvosa, e foi tão feliz que, pela manhã, ao romper do dia, achou-se diante da cidade, e acampou no lugar em que se ergue o templo da deusa Adrastia, isto é, de Nemésis, que é de destino fatal. Sabedor disso, Lúculo foi-lhe ao encalço; e, satisfeito de não ser apanhado desprevenido pelos inimigos, foi entrincheirar-se, com seu exército, na vila denominada Trácia, em lugar excelente, para onde convergiam todas as estradas e caminhos das regiões vizinhas, proporcionando-lhe os meios de obstar a passagem de víveres para o acampamento de Mitrídates. Notando o feliz acaso, êle não o quis ocultar à sua gente; e, ao ver o acampamento repleto de trincheiras e bem aparelhado, reuniu todas as forças, e, em rápido discurso, declarou-lhes ter absoluta certeza de proporcionar-lhes a vitória dentro de alguns dias, sem que ela lhes custasse uma gota de sangue.

Receios dos cizicenos.

XIX. Nesse decurso de tempo, Mitrídates assediou os cízicos, dispondo o seu exército em dez acampamentos, e bloqueou a costa, de ambos os lados, fechando, com seus navios, a entrada do canal que separa a cidade da terra firme. Apesar disso, os cízicos mostraram-se corajosos e decididos a suportar e vencer todas as dificuldades, em favor dos romanos. Afligia-os, porém, o fato de desconhecerem o paradeiro de Lúculo e não terem notícias dele, embora estivesse acampado em lugar facilmente visível da cidade. Os soldados de Mitrídates por sua vez, enganavam-nos por esta forma, mos-trando-lhes os romanos, vantajosamente acampados atrás deles, tão perto dali: "Vêem aquele acampamento? São os medos e os armênios, que o rei Tigrano mandou em auxílio de Mitrídates". Estas palavras punham os cízicos inquietos, porque, vendo tantos inimigos espalhados pelos arredores contra eles, e em número tão avultado, achavam que Lúculo não teria por onde passar, quando lhes fosse em auxílio. Por fim, um indivíduo chamado Demô-nax, que Arquelau lhes enviou, notificou-os da chegada de Lúculo, não sendo acreditado. Suas palavras foram consideradas um simples meio de encorajamento, para fazê-los suportar por mais tempo os sofrimentos e misérias do cerco a que estavam submetidos. Pouco depois, porém, chegou à cidade um rapazinho, que fora aprisionado pelos inimigos e que depois conseguira fugir. Como lhe perguntassem onde se achava Lúculo, o rapaz levou tudo em troça, pensando que quisessem zombar dele, fingindo desconhecer. Mas depois, notando que falavam a verdade, mostrou-lhe com o dedo o acampamento dos romanos, arrancando de todos os peitos um suspiro de alívio e de satisfação.

Prodígios que os garantem.

XX. Bem perto da cidade de Cízica há um lago denominado Dacilítido, navegável por grandes navios. Lúculo abasteceu-se no local do que julgou mais necessário e levou tudo para bordo; embarcou o maior número possível de soldados, e fê-los entrar à noite na cidade, sem serem percebidos pelos vigias inimigos. Este pequeno auxílio reconfortou extraordinariamente os sitiados. E, parece que os deuses, satisfeitos de vê-los tão corajosos, procuraram cientificá-los da vitória por meio de sinais muito evidentes que lhes enviaram, sobressaindo o seguinte: aproximava-se o dia da festa de Prosérpina, e os moradores da cidade não tinham vaca preta, para imolar no ato solene daquele dia, conforme o exigiam suas antigas cerimônias. Chegado o dia, eles levaram para junto do altar uma vaca qualquer, pois, a que criaram especialmente para ser submetida ao sacrifício pastorejava com o resto do gado da cidade na outra margem do canal. Naquele dia, porém, separando-se do resto da manada, a vaca atravessou a nado o canal, e foi apresentar-se ao sacrifício. A própria deusa Proserpina apareceu à noite, em sonho, a Aristágoras, secretário de Estado dos negócios públicos dos cízi-cos, e lhe disse: "Vim trazer-te a flauta da Líbia em oposição à trombeta pôntica. Dize, por mim, aos teus cidadãos, que eu lhe peço que tenham muita coragem". No dia seguinte, tendo o secretário divulgado sua visão, os cízicos ficaram pasmos, não chegando a compreender a significação das palavras da deusa. Mas, ao romper da aurora, desencadeou-se um furacão, que provocou tremenda tempestade marítima; as máquinas e engenhos de guerra do rei, verdadeiras maravilhas inventadas e armadas pelo engenheiro tessaliano Nicônidas, que já se haviam aproximado das muralhas da cidade para atacá-los, começaram a ranger e estalar com tal ruído, agitados pelo vento, que facilmente podia-se prever o que iria acontecer. De repente o vento sul adquiriu tal violência que despedaçou e afundou num instante todos os engenhos, inclusive uma torre de madeira de cem côvados de altura, que abalou e derrubou. Dizem ainda, que, na cidade de Ilion, a deusa Minerva apareceu em sonho a diversas pessoas, lavada em suor, e mostrando o seu véu rasgado, em conseqüência do auxílio que acabava de prestar aos cízicos, naquele instante. Em atenção a isto, os habitantes de Ilion conservam, ainda hoje, uma coluna, como perene recordação do fato.

Consideráveis vantagens obtidas por Lúculo sobre as tropas de Mitrídates.

XXI. Este acontecimento inesperado, que livrou os cízicos do ataque a que iam ser submetidos e das amarguras do sítio, acrescido dos tormentos da fome, que obrigava seus homens a fazer uso da carne humana, chamou Mitrídates à dura realidade e fê-lo desistir da sua obstinada ambição e tola teimosia de permanecer ali por mais tempo. Tanto mais que a guerra que Lúculo lhe movia, consistia em obstar a entrada de víveres em seu acampamento. Assim, num dia em que Lúculo saíra para forçar uma cidadela qualquer que o aborrecia, próxima do seu acampamento, Mitrídates aproveitou a oportunidade e mandou quase todos os seus cavaleiros em busca de víveres na Bitínia, com carretas, bestas e as sobras dos seus soldados de infantaria. Sabedor disso, Lúculo voltou na mesma noite para o seu acampamento, e na manhã seguinte, de pleno inverno, seguiu-lhe as pegadas, unicamente com dez corpos de infantaria e toda a cavalaria. A neve era tão abundante, o frio tão rigoroso, e a temperatura tão baixa, que muitos soldados pereceram pelo caminho. Lúculo, porém, não se deteve, indo alcançar seus inimigos perto do rio Rindaco, na Frigia, destroçando-os de tal modo, que até as mulheres da cidade de Apolônia foram saquear-lhes os víveres e despojar os mortos, em número elevado, como é fácil calcular. Nesta jornada Lúculo apreendeu seis mil cavalos, numerosas bestas, e fêz quinze mil prisioneiros, que levou para o seu acampamento, passando com tudo diante do acampamento inimigo. Admira-me, neste ponto, que o historiador Salústio afirme ter sido ah que os romanos viram, pela pri meira vez, camelos, coisa que nunca haviam visto antes, pois não lhes faltou oportunidade, quando venceram o grande Antíoco, comandados por Cipião, e, mais recentemente, no ataque a Arquelau, perto das cidades de Orcomene e de Queronéia.

Nova vitória de Lúculo.

XXII. Apavorado com esta derrota, Mitrí dates resolveu fugir sem demora; e, para alongar e conservar Lúculo em sua perseguição durante certo tempo, ele resolveu mandar seu almirante, com a esquadra, ao mar da Grécia. Quando ele ia fazer-se de vela, seus homens o traíram, entregando-o a Lúculo, com dez mil escudos que estavam em seu poder, para subornar, corromper e conseguir o apoio de parte do exército dos romanos. Ciente do ocorrido, Mitrídates fugiu por mar, deixando o resto do seu exército ao cuidado dos seus comandantes. Em seguida Lúculo foi até o rio Grânico, na Mísia, onde fez numerosos prisioneiros e matou vinte mil homens. Neste encontro, dizem, morreram quase trezentas mil pessoas, entre soldados, cavaleiros e adidos ao acampamento. Satisfeito com o resultado, Lúculo regressou à cidade de Cízica, onde lhe foram prestadas as maiores homenagens, e seguiu em visita à costa do Helesponto, para reunir navios e aparelhar uma esquadra. Passando pela Troada, alojaram-no no templo de Vênus, onde, à noite, apareceu-lhe em sonho a deusa, recitando estes versos:

Como podes dormir, ó leão corajoso,
Tendo a teu lado fantasmas transformados em
veados?

Êle levantou-se sem demora, reuniu seus amigos, e contou-lhes o que ouvira. Era ainda noite cerrada. Nisto, pessoas chegadas da cidade de Ihon declararam-lhe haver visto, no porto dos aqueanos, quinze galeras de cinco remos em cada assento, iguais às do rei Mitrídates, dirigirem-se para a ilha de Lemnos.

Êle apodera-se de quinze galeras de Mitrídates, em Lemnos.

XXIII. Lúculo deu logo de vela, e foi buscá-las. Ao chegar, matou o capitão Isidoro, e foi no encalço dos outros marinheiros, ancorados ao longo da costa. Vendo-o ir-lhes ao encontro, eles rumaram para a terra; e, combatendo do convés, mataram muitos soldados de Lúculo, que viu-se impossibilitado de envolvê-los pela retaguarda, devido ao lugar em que se achavam, e de forçá-los de frente, por terem as galeras flutuantes garantidas e firmemente defendidas pelas que se achavam ancoradas junto à costa. Vencendo a custo todas as dificuldades, Lúculo conseguiu desembarcar num ponto da ilha os melhores soldados que então possuía, os quais atacaram os inimigos pela retaguarda, matando alguns, e obrigando os outros a cortar os cabos que prendiam as galeras à beira-mar. Estes procuraram fugir; mas as galeras se entrechocaram e amolgaram, indo dar nas pontas e esporões das de Lúculo. Muitos dos que nelas se achavam morreram, e os outros, entre os quais o capitão romano, Mário, que Sertório enviara da Espanha a Mitrídates, foram feitos prisioneiros. Achando-se Mário embriagado, foi entregue a Lúculo, de acordo com suas ordens de não matarem inimigos embriagados, para que não tivessem a honra de morrer em combate e passassem pela vergonha e ignomínia de morrer sob a ação da justiça.

Êle persegue Mitrídates, cuja frota é destruída por uma tempestade.

XXIV. Feito isto, Lúculo apressou-se em ir pessoalmente perseguir Mitrídates, que ainda esperava encontrar na costa da Bitínia, onde Vocônio devia tê-lo detido, pois fora mandado à frente, com alguns navios, à cidade de Nicomédia, na Bitínia, para impedir-lhe a fuga. Vocônio, porém, acolheu-se à ilha de Samotrácia, em sacrifício aos seus deuses, e para ser recebido na confraria de sua religião, não conseguindo chegar a tempo de impedir a partida de Mitrídates, que já se havia feito de vela com toda a frota, esforçando-se por alcançar o reino de Ponto, antes que Lúculo voltasse do lugar em que se achava. Durante a viagem, porém, êle foi apanhado por violenta tempestade, que lhe arrebatou parte dos navios, despedaçou e afundou os mais, enchendo costas e praias, durante muitos dias, de cadáveres que as ondas lhes levavam. Mitrídates achava-se em um grande navio de carga, que, devido ao tamanho, não podia alcançar a costa nem singrar ao longo dela, e, devido à tempestade, tornara-se tão cheio de água e tão pesado que os esforços, conhecimentos e habilidade dos pilotos tornaram-se improfícuos. Assim, ante a impossibilidade de fazer-se ao mar alto, ele foi obrigado a transferir-se para um pequeno bergantim de corsários, e a pôr sua pessoa e vida nas mãos de ladrões e salteadores do mar, com a ajuda dos quais, sujeito a todos os perigos e sem qualquer esperança de salvação, ele alcançou a terra e chegou à cidade de Heracléia, no reino de Ponto. A jactância de Lúculo perante o senado romano, nessa ocasião, não o pôs, pela fúria dos deuses, de acordo com o seu pensamento. Tendo o senado deliberado mandar preparar e equipar uma grande esquadra, para pôr fim à luta, na qual seriam gastos um milhão e oitocentos mil escudos, Lúculo impediu, por meio de cartas, que tal se fizesse; escreveu, desassombradamente, que, sem tamanha despesa, e tão grande aparato, ele sentia-se bastante forte para expulsar Mitrídates do mar, servindo-se dos navios emprestados por seus aliados e confederados. E o fez, de fato, com a boa graça e ajuda dos deuses, porque, dizem, a horrível tempestade que destruiu a esquadra de Mitrídates, foi provocada por Diana, irritada com o fato de haverem os pônticos saqueado seu templo, na cidade de Príapos, e retirado e levado sua imagem.

Queixas dos soldados de Lúculo.

XXV. Muitos aconselharam Lúculo a transferir a continuação desta guerra para outra estação. Não obstante as razões apresentadas, ele embrenhou-se pelas regiões da Galácia e da Bitínia, e invadiu o reino de Mitrídates. A princípio ele lutou com a falta de víveres, pois só tinha trinta mil homens da Galácia, a acompanhar-lhe o exército, tendo, cada um, meia fanga de trigo às costas. Mas, à medida que foi avançando e conquistando tudo, conseguiu tal abundância de todas as coisas, que um boi era vendido, em seu acampamento, por uma dracma de prata, ou sejam, três soldos e seis déci mos, aproximadamente, e um prisioneiro por catorze, mais ou menos. Tão avultada era a quantidade de outros despojos que, não encontrando compradore ou quem os quisesse, punham-nos fora. Percorre ram assim a região toda, até à cidade de Temiscira e planícies do rio Termodon, sem se deter em qualquer lugar mais que o tempo necessário a saqueá-lo e pilhá-lo. Isto desagradou os soldados, que começaram a queixar-se do comandante, alegando que êle recebia as cidades todas sem luta e não lhes proporcionava meios de se enriquecerem pela pilhagem. "Neste andar, diziam, êle nos levará além de Amiso, cidade rica e forte, que tomaríamos facilmente à força e apressaria o sítio, para nos fazer acampar nos desertos dos tibarênios e dos caldeus, a fim de combater Mitrídates!"

Razões que Lúculo dá de sua conduta.

XXVI. Lúculo não ligou importância às lamúrias e queixas dos seus soldados, porque nunca OS supôs capazes de enfurecer-se e mudar de opinião, como aconteceu depois. Ao contrário, confiou mais neles do que nos que permaneciam e distraíam longamente nas cidades e aldeias, que pouco valiam, dando tempo a que Mitrídates se refizesse e prepa-rasse nova esquadra. "A razão, dizia-lhes, que me faz distrair e descansar em toda parte, é a que ele consiga tornar-se bastante forte e preparar um novo exército, capaz de nos enfrentar, ao invés de fugir. Não vedes que, atrás dele, há uma infinidade de regiões desertas, que não permitem seguir-lhe o rasto, e perto dele o monte Cáucaso, e outros inacessíveis, capazes de abrigar e refugiar não só a ele como inúmeros príncipes e reis que prefiram fugir a combater? Além disso, há poucos dias de caminho, da província dos cabirênios ao reino da Armênia, onde reside Tigrano, o rei dos reis, tão poderoso que desdenha os partas da Ásia e domina todas as cidades gregas até o reino da Média; que ocupa toda a Síria e a Palestina; que matou e exterminou os reis sucessores do grande Seleuco, e submeteu suas mulheres e filhas ao cativeiro. Este grande e poderoso rei é aliado de Mitrídates, tendo desposado sua filha, e não deixará de socorrê-lo, em caso de extrema necessidade. Ora, apressando-nos em atacar Mitrídates, correremos o risco de atrair novo inimigo em Tigrano, que de há muito busca uma aparente oportunidade para nos guerrear, e não poderia encontrá-la melhor do que esta, em defesa de um rei arruinado, seu vizinho e aliado, constran gido a jogar-se a seus braços. Que necessidade temos nós de procurar isto, e de ensinar a Mitrídates o que ele desconhece, isto é, que recorra a Tigrano, para nos guerrear? Isto ele nunca fará se não fôr constrangido, por julgar desonroso à sua pessoa. Não é melhor que lhe permitamos reunir de novo as forças do seu reino, e que se refaça, para que combatamos de preferência contra os colquianos, tibarênios, capadócios e outros povos semelhantes, que já vencemos tantas vezes, do que contra os medos e os armênios?

Lúculo vai acampar diante de Mitrídates.

XXVII Lúcul o manteve-se durante muito tempo neste propósito, diante da cidade de Amiso, prolongando o cerco, sem o forçar. Passado o inverno, êle encarregou Murena de continuá-lo, e foi com o resto do exército em busca de Mitrídates, que assentara acampamento perto da cidade de Cabira, com um exército de quarenta mil soldados de infantaria e quatro mil de cavalaria, decidido a esperar ali a chegada dos romanos. Confiando demasiado em suas forças, êle atravessou o rio Lico, e foi oferecer combate aos romanos numa campina. Houve algumas escaramuças de cavalaria, em que os romanos levaram a pior, sendo aprisionado um, chamado Pampônio, de grande reputação, e levado a Mitrídates, por achar-se gravemente ferido. Como Mitrídales lhe perguntasse se estava disposto a tornar-se seu aliado e amigo, no caso de salvar-lhe a vida, submetendo-o a tratamento, êle respondeu-lhe prontamente: "Sim, se fizeres as pazes com os romanos; no caso contrário, serei sempre teu inimigo". O rei louvou-lhe a virtude, e não lhe fez o menor mal.

Escaramuça em que, por fim, Lúculo tem vantagem.

XXVIII. Lúculo receou descer à campina, por ser o contingente de cavalaria inimigo mais forte que o seu, e ficou indeciso se devia ou não enveredar pela montanha, coberta de matas e de florestas, e camnho bastante longo e acidentado. Achava-se nesta dúvida, quando, casualmente, seus homens prenderam alguns gregos escondidos numa caverna próxima, entre os quais se achava um velho chamado Artemidoro, que prometeu a Lúculo levá-lo a lugar forte e seguro, caso nele confiasse e quisesse segui-lo, dotado de fortaleza, perto da cidade de Cabira, onde poderia assentar seu acampamento. Lúculo confiou no velho, e à noite partiu com suas forças; transpôs algumas montanhas e desfiladeiros perigosos, e pela manhã achou-se no lugar prometido. Os inimigos admiraram-se da sua chegada e de tê-lo tão perto, em posição vantajosa para atacá-los ou deixá-los entocados, sem se poderem mover. Ficara ao arbítrio de ambas as partes, entrar ou não em luta. Estavam nesta situação, quando alguém, no acampamento de Mitrídates, soltou um veado. Alguns romanos foram-lhe ao encontro, para impedir-lhe a passagem, sendo atacados pelos soldados do rei, que os puseram em debandada. Envergonhados com a fuga dos companheiros, 08 romanos pediram instantemente a Lúculo que os lançasse à luta, dando-lhes o sinal de combate. Desejando mostrar-lhe quanto vale a presença de um comandante prudente e bom, Lúculo ordenou-lhes que não se afastassem de seus postos; foi pessoalmente à planície, e determinou aos primeiros fugitivos encontrados que parassem e voltassem a luta, no que foi prontamente atendido. Os outros os acompanharam, e, sem grande esforço, envolveram os inimigos, expulsando-os a seguir, e arrasando-lhes as fortalezas. Ao voltar ao acampamento, Lúculo submeteu os fugitivos a um duro vexame, que os romanos passaram a usar em casos semelhantes: pô-los em fraldas de camisa, diante de todos oi companheiros, obrigando cada um a abrir uma cova de doze pés de comprimento.

Um dandariano tenta assassinar Lúculo, sem o conseguir.

XXIX. Havia, na hoste do rei Mitrídates, o príncipe dos dandarianos, povos bárbaros habitan tes das cercanias dos lagos Meóticos. Chamava-se Oltaco. Era nobre, valente, afeito às armas; sensato, de bons costumes e companhia agradável; empreendedor, e o mais apto, em toda a hoste, para os grandes ataques. Achando-se sempre em rixa com os outros nobres de sua terra, pela posse do lugar de favorito do rei, resolveu dirigir-se a Mitrí dates, comprometendo-se a prestar-lhe um serviço de grande valia, matando Lúculo. O rei exultou, a tal proposta, e, particularmente, elogiou-o sem reserva. Publicamente, porém, censurou-o e ofendeu-o, muito de indústria, para que ele, aparentando indignação, se apresentasse a Lúculo como aliado, e fosse bem recebido. E assim aconteceu. Lúculo recebeu-o com satisfação, por sabê-lo muito querido e respeitado em seu acampamento; e, para submetê-lo à prova, encarregou-o de uma missão, da qual êle se saiu admiravelmente, sendo muito elogiado. Com isto, a sua reputação cresceu de tal modo que, a partir de então, Lúculo passou a pedir-lhe alguns conselhos e a tê-lo como comensal. No dia em que este dandanano achou asada a oportunidade de executar o seu sinistro plano, ordenou a seus lacaios que tivessem seu cavalo preparado além das trincheiras; e, achando-se os soldados a descansar e a dormir no meio do acampamento, em pleno dia, êle foi à tenda de Lúculo, certo de não encontrar quem lhe impedisse a entrada, atendendo à intimidade e familiaridade com que o tratava, e porque tinha coisa muito importante a comunicar-lhe, segundo disse. Êle teria entrado, não resta dúvida, se o sono, que prejudica tantos outros comandantes, não tivesse preservado e salvo Lúculo, que dormia. Embora o camareiro Menedemo, que por felicidade guardava a porta, lhe dissesse ter chegado em má hora, porquanto Lúculo, fatigado de trabalhos e vigílias, se havia recolhido ao leito, Oltaco não quis retirar-se; e, a uma observação qualquer do camareiro, disse-lhe que entraria, com ou sem permissão, porque tinha coisas muito importantes a comunicar-lhe. Menedemo respondeu-lhe não haver coisa mais necessária e importante do que a conservação da vida e saúde de seu amo, que necessitava de descanso, e pô-lo fora da tenda aos empurrões. Oltaco amedrontou-se, foi, às escondidas, ao ponto marcado aos seus lacaios, montou a cavalo, e dirigiu-se ao acampamento de Mitrídates, sem ter executado o que lhe prometera. Aprendeu, assim, que a ocasião e as circunstâncias de momento produzem, nas grandes empresas, o mesmo efeito que os medicamentos ministrados aos doentes, isto é, ou salvam, ou matam os homens.

Diversas vantagens obtidas pelos oficiais de Lúculo sobre os de Mitrídates.

XXX. Decorrido algum tempo, Lúculo mandou seu capitão Sornácio, com dez batalhões, em busca de víveres. Ciente disso, Mitrídates enviou-lhe ao encalço o capitão Menander, que foi atacado e derrotado por Sornácio, com grande perda de soldados. Logo depois Lúculo destacou o tenente Adriano, com boa tropa, a fim de que levasse para o acampamento trigo em abundância. Mitrídates não os deixou à vontade; pelo contrário, mandou-lhes ao encontro os capitães Menemaco e Miron, com maior número de soldados de infantaria do que de cavalaria, sendo todos mortos, exceção feita de dois, que levaram a notícia ao acampamento. Mitrídates tratou de disfarçar o abalo que essa comunicação lhe causara, declarando ser a perda muito menor do que a que se podia prever, dada a ignorância e temeridade dos seus tenentes. Ao regressar ao acampamento, Adriano fê-lo com tanto aparato e orgulho, dado o elevado número de carroças de trigo e de espólios que levava, que Mitrídates, desesperado, vendo sua gente apavorada, resolveu não permanecer ali por mais tempo. Assim, os fidalgos mais achegados a êle começaram a abandonar secretamente o acampamento, levando suas bagagens, e procurando impedir que os outros fizessem o mesmo.

Mitrídates foge.

XXXI. Ante este procedimento dos favoritos do rei, os outros combatentes se amotinaram, atacaram-nos, mataram-nos, e se apoderaram de suas bagagens. Dorialo, um dos principais capitães de todo o acampamento, foi morto, e despojado da roupa do corpo, única coisa que possuía. Hermes, o chefe dos sacrifícios, foi pisado e morto pela turba dos fugitivos, à saída do acampamento. O próprio Mitrídates, apavorado com a atitude dos fugitivos, saiu do acampamento sem um soldado, um escudeiro ou alguém que lhe fosse buscar um cavalo. Quando o camareiro Ptolomeu descobriu-o no meio da multidão fugitiva, e apeou do seu cavalo, oferecendo-lho, já era tarde: os romanos já lhe estavam no encalço, bem próximos, e na iminência de agarrá-lo. A cobiça e concupiscência dos soldados, porém, fêz-lhes perder a presa de há muito perseguida com tanto sacrifício e riscos de combates, privando Lúculo da maior e mais completa de todas as vitórias. Com mais um pequeno avanço Mitrídates seria fatalmente detido. Mas, casual ou propositalmente, um dos muares que levavam o ouro e a prata do rei foi largado a meio do caminho, entre o fugitivo e os romanos. À vista do animal, estes se detiveram a despojá-lo do ouro e da prata, lutando entre si pela posse da pilhagem. Deste modo Mitrídates ganhou tal dianteira que conseguiu salvar-se. Além deste grande dano, a ganância dos soldados ocasionou outro a Lúculo, também relevante, como se verá pelo que segue: preso um dos principais secretários do rei Calistrato, Lúculo ordenou que o levassem ao acampamento. Chegando ao conhecimento dos que o conduziam, que ele usava um cinturão do valor de quinhentos escudos, mataram-no, para apoderar-se do objeto, e completaram a obra saqueando e pilhando o acampamento dos inimigos.

Êle faz morrer suas mulheres e suas irmãs.

XXXII. Depois desta fuga de Mitrídates, Lúculo tomou a cidade de Cabira e muitas fortalezas e praças fortes, nas quais encontrou grandes tesouros e as prisões repletas de infelizes prisioneiros gregos, e de príncipes parentes do próprio rei, de há muito considerados mortos, que libertados por Lúculo daquele mísero cativeiro, consideraram-se ressuscitados e retornados a uma nova vida. Lá, também foi encontrada Nissa, uma das irmãs de Mitrídates, para a qual a tomada da cidade foi benéfica, pois as outras mulheres e irmãs, julgadas livres de perigo e em lugar seguro, perto da cidade de Fernácia, morreram mísera e deploravelmente, assassinadas pelo camareiro Baquilidas, a mandado de Mitrída-tes. Entre outras senhoras, havia até duas irmãs do rei, Roxana e Estatua, quarentonas e solteiras, e duas de suas esposas, naturais da Iônia, Berenice e Monimé, a primeira nascida na ilha de Quio e a segunda na cidade de Mileto. Esta era muito reputada entre os gregos, porque, por mais apaixonado que o rei se mostrasse por ela, e por mais dinheiro que lhe oferecesse para conquistá-la, sendo a última oferta de quinze mil escudos, ela sempre o repeliu, dizendo que só cederia aos seus desejos quando ele a desposasse, lhe desse o diadema real e a chamasse rainha. Casou; mas, em toda a sua vida de casada com este rei bárbaro, passou por grandes desgostos, e nada mais fez do que deplorar a desditosa beleza de seu corpo, que, em lugar de um mando, lhe dera um senhor, e em lugar de damas de honra, uma guarnição de homens bárbaros, que a retinham como prisioneira, longe da sua querida Grécia. Quando Baquilidas foi ter com elas, e pediu-lhes, a mandado do rei, que lhe declarassem a maneira mais rápida e menos dolorosa por que desejavam morrer, Monimé arrancou da cabeça o diadema, e amarrou-o ao pescoço, para enforcar-se. O diadema, porém, rasgou-se, e ela falou: "Maldito e mesquinho tecido! Nem ao menos me és útil neste triste benefício?" Jogou ao chão, pisou-o, e apresentou a garganta a Baquilidas, para cortá-la. Berenice tomou de uma taça cheia de veneno, e, quando ia levá-la à boca, sua mãe, ali presente, pediu-lhe que repartisse com ela, sendo atendida. Sendo o veneno muito violento e de ação bastante rápida, a mãe, enfraquecida pela velhice, tombou logo sem vida; Berenice, porém, que não ingerira a quantidade devida, conservou-se em agonia, até ser estrangulada por Baquilidas. Quanto às irmãs solteiras, consta que Roxana envenenou-se, amaldiçoando e odiando a crueldade de seu irmão. Estatira, ao contrário, não proferiu uma palavra de reprovação ou de ressentimento contra ele; louvou-lhe o cuidado que teve, ao ver-se em perigo, de fazê-las morrer, antes que caíssem escravas às mãos dos inimigos e fossem por eles ultrajadas em sua honra.

Lúculo toma a cidade de Amiso.

XXXIII. Estas lamentáveis desgraças feriram profundamente o coração de Lúculo, que era, por natureza, compassivo e bom. Contudo, êle procurou esquecer-se do acontecido, e seguiu o rasto de Mitrídates à cidade de Talaura, onde soube que, quatro dias antes, êle havia fugido para Tigrano, na Armênia. Lúculo subjugou os caldeus e os libaremos, apoderou-se da Armênia menor, submetendo as cidades, fortalezas e praças fortes às suas ordens, e regressou. A seguir, mandou Ápio intimar o rei Tigrano a entregar-lhe Mitrídates e dirigiu-se à cidade de Amiso, que ainda se achava sitiada, graças à capacidade e experiência do comandante que defendia ali o rei Calímaco, incomodando enormemente os romanos. Mas, não obstante ser profundo conhecedor de todos os segredos de guerra, Lúculo conseguiu enganá-lo, de um modo muito simples: na hora em que fazia tocar a recolher, para o descanso, ordenou, inesperadamente, o assalto à muralha, ocupando pequena parte dela, antes que a pudessem, defender. Com isto, Calímaco, reconheceu não poder mais conservar a cidade em seu poder, e abandonou-a. Mas, antes de partir, ateou fogo à cidade, não se sabendo se para impedir que os romanos se enriquecessem com o saque à mesma, ou para ter maior facilidade de se salvar e de fugir. Ninguém ligava importância aos que fugiam por mar, por ser de enorme proporção o incêndio, que se espalhava por toda parte, até às muralhas, e por saberem que a única preocupação dos soldados romanos era a pilhagem.

Êle se entristece de vê-la destruída pelo fogo, e repara-a como pode.

XXXIV. Lúculo contristou-se, ao ver aquela enorme fogueira, e quis remediar o mal, pedindo aos soldados que a extinguissem. Ninguém o atendeu, pois todos quiseram a pilhagem, disparando suas armas com horrível gritaria. Constrangido a deixar-lhes a cidade entregue ao saque, êle esperava que ao menos os prédios fossem salvos do fogo. O que não aconteceu, porque, desejando certificar-se se nada havia oculto, os próprios soldados, procurando por toda parte, com archotes e velas acesas, queimaram tantas casas que Lúculo, ali entrando no dia seguinte, e vendo os danos ocasionados pelo fogo, desandou a chorar, dizendo aos amigos mais achegados que o rodeavam, que muitas vezes considerara

Sila um homem felicíssimo; mas nunca lhe invejara a felicidade como no dia em que, desejando salvar a cidade de Atenas, os deuses concederam-lhe a graça de poder fazê-lo. "E eu, disse êle, que desejava seguir-lhe o exemplo, e salvar esta, a sorte, contra a minha vontade, igualou-me a Múmio, que fêz queimar Corinto". Não obstante, êle fêz o que pôde, então, para reerguer esta pobre cidade. Quanto ao fogo, por graça divina uma chuva o extinguiu quase no instante em que ela foi tomada. Antes de partir, êle fêz reconstruir boa parte dos edifícios que o fogo havia consumido, nos quais alojou humanitariamente os habitantes que haviam fugido, além de alguns gregos que fizeram questão de residir ah, e aumentou a cidade, dando-lhe sete léguas e meia de território. A cidade era colônia dos atenienses, que a haviam fundado e construído no tempo em que o seu império estava em pleno desenvolvimento e dominava o mar, o que fêz com que muitos fugitivos da tirania de Aristião ali se acolhessem, gozando de iguais direitos dos filhos da região. Tiveram assim a felicidade de, em paga dos bens perdidos, adquirir e gozar os bens alheios. Aos da cidade, que conseguiram escapar de tal desolação, Lúculo forneceu boa roupa, deu a cada um duzentas dracmas, e fê-los voltar para a sua terra. O gramático Tirânio foi então preso, a mandado de Murena, porém Lúculo libertou-o, censurando o uso incivil e despótico que o seu subalterno fazia dos poderes que lhe concedera.

Prendendo um homem muito querido e acatado por seu saber, e praticando outros atos censuráveis, Murena deu mostras de não possuir os requisitos indispensáveis a um homem de bem e a um bom chefe.

Êle visita as cidades da Asia, e freia a liberdade dos oficiais romanos.

XXXV. Partindo dali, Lúculo foi visitar as cidades da Ásia, para dar-lhes algum lenitivo nas leis e na justiça, durante o tempo em que não estivesse ocupado nos afazeres da guerra. Não sendo de há muito administradas, e achando-se totalmente entregues à cobiça dos rendeiros, cobradores e usu-rários romanos, que as devoravam e mantinham cativas, achavam-se em tal estado de aflição e de miséria, que não há palavras capazes de descrever. Os quadros dedicados aos templos, as estátuas dos deuses, e outras preciosidades das igrejas, passavam para as mãos dos credores; os pais eram constrangidos a vender seus filhinhos e suas filhas casadoiras, para poderem pagar capital e juros do dinheiro tomado de empréstimo, e acabavam sendo também escravizados. Antes de serem adjudicados como escravos, eles eram encarcerados, metidos na geena, estendidos na polé, colocados em cepos, expostos nus sob o sol ardente, no verão, e no inverno atolados na lama ou sob o gelo. De modo que a escravidão, para eles, era uma quitação de misérias e o descanso de sofrimentos.

Êle regulamenta os lucros monetários.

XXXVI. Lúculo encontrou as cidades da \sia repletas de tais opressões, mas em pouco tempo libertou as injustamente castigadas. Primeiramente ele ordenou que se calculasse, como juro, a ser pago mensalmente, a centésima parte da dívida real, e não mais; a seguir anulou todos os juros e exigências que excedessem do verdadeiro haver. Por fim, e foi este o ponto principal, estabeleceu que o credor e usurário só gozaria da quarta parte dos lucros e das rendas de seu devedor, ficando sujeito à perda total quem quisesse cobrar juros dos juros. Com estas disposições todos os débitos foram pagos em menos de quatro anos, e as terras e propriedades restituídas a seus proprietários, livres e desembaraçados de todas as dívidas. Esta sobrecarga de juros provinha dos vinte mil talentos a que Sila condenara a região da Ásia, importância que já havia sido paga duas vezes aos rendeiros e cobradores romanos, que a fizeram aumentar, acumulando juros dos juros, até à quantia de cento e vinte mil talentos, equivalentes a setenta e dois milhões de moedas ouro. Isto fez com que os rendeiros e cobradores fossem esbravejar em Roma contra Lúculo, taxando-o de perseguidor e injusto, e, à força de dinheiro, movimentassem alguns arengueiros habituais contra ele. Lúculo, porém, não se tornara muito querido nas regiões que beneficiara, como bastante cobiçado nas que não tinham a felicidade de possuí-lo como governador.

Apio Clódio arranca Zer-bieno da obediência de Tigrano.

XXXVII. Por fim, Ápio Clódio, cunhado de Lúculo, que este havia mandado ter com Tigrano, confiando demasiado na maldade de alguns agentes deste rei, deixou-se conduzir pela região montanhosa do país, vencendo grande percurso, com um inútil desperdício de dias de sacrifícios. Como um dos seus escravos libertos, natural da Síria, lhe ensinasse o verdadeiro caminho, ele dispensou seus guias bárbaros, e, desviando-se da rota que eles lhe traçaram, em poucos dias transpôs o rio Eufrates, e chegou à cidade de Antioquia, cognominada Epidafne, onde devia esperar a volta de Tigrano da Fenícia; subjugou algumas cidades que ainda lhe restava conquistar, e conseguiu o apoio secreto de muitos príncipes e fidalgos, que só pela força contra a vontade prestavam obediência ao rei da Armênia. Entre eles achava-se Zarbieno, rei da província Gordiana. Ápio Clódio garantiu a todos o auxílio de Lúculo, pedindo-lhes que nada divulgassem no momento. Os gregos não só detestavam o domínio dos armênios, como não toleravam o orgulho e a petulância do rei, que, devido à sua grande prosperidade, tornara-se tão soberbo e presunçoso, que tudo quanto o homem possui de mais precioso e mais preza, êle considerava de nenhum valor, e se julgava superior a tudo e a todos no mundo, esquecido de que chegara ao que era bafejado unicamente pela sorte.

Exaltação e insolência de Tigrano.

XXXVIII. De início Tigrano pouco possuía; e, com este pouco a que ninguém ligava, êle subjugou diversas grandes nações, e abateu o poder dos partas, coisa que homem algum conseguira fazer antes dele. Encheu a Macedónia de habitantes gregos, levados à força da Cilicia e da Capadócia, obrigando-os a fixar residência ali, mudou o modo de vida dos árabes, apelidados cenitas ou tendeiros, por ser um povo errante, cujas casas não passavam de tendas, que levavam consigo, a fim de vendê-las. Tinha sempre, em sua corte, muitos reis para servi-lo. Quatro deles estavam-lhe sempre ao lado, como guardas ou lacaios, acompanhando-o a pé e de túnica, quando êle saía a cavalo pelos campos; quando dava audiência, sentado em sua cadeira, eles conservavam-se de pé, ao redor, de mãos entrelaçadas, numa postura que bem denunciava o seu servilismo, como a dizer-lhe que lhe davam inteira liberdade de ação, e que podia dispor dos seus corpos como melhor entendesse.

Ápio pede a Tigrano que lhe entregue Mitrídates.

XXXIX. Ápio Clódio não se admirou do aparato trágico que observara, ao ser-lhe concedida audiência; e, não o temendo, disse-lhe, de cara, que ali se achava para exigir-lhe a entrega de Mitrída-tes, cujo aprisionamento êle devia-o à vitória de Lúculo, caso contrário declarar-lhe-ia guerra. Os que assistiram a esta intimação, perceberam muito bem que Tigrano, embora se esforçasse por aparentar cara alegre, com um sorriso fingido e alvar, sentiu apertar-se-lhe o coração, ante a coragem e franqueza do moço; pois, nos seus vinte e cinco anos de reinado, ou melhor, de tirania ultrajante, nunca ouvira palavras tão sinceras e espontâneas como aquelas. Não obstante, êle respondeu a Ápio que não entregaria Mitrídates, e que, se os romanos o guerreassem, ele se defenderia. E, despeitado com o fato de havê-lo Lúculo, nas cartas que lhe escrevera, tratado simplesmente de rei, e não de rei dos reis, nas respostas que lhe dera tratou-o de capitão. Ao despedir-se Ápio, o rei mandou-lhe belos e ricos presentes, que ele recusou; apesar disso, enviou-lhe outros melhores, dos quais Ápio ficou apenas com uma taça, receoso de que o rei tomasse a sua obstinada recusa como uma prevenção pessoal contra ele, e devolveu-lhe o resto. A seguir voltou para junto do seu comandante, depois de longas e penosas jornadas.

Entrevista de Mitrídates e de Tigrano.

XL. Tigrano, que até então nunca quisera ver Mitrídates, seu aliado tão achegado, que devido à guerra perdera seu grande e poderoso império, e conservava-o orgulhosamente como prisioneiro, em lugar pantanoso e malsão, mandou buscá-lo com todas as honras, e recebeu-o com as maiores demonstrações de carinho. No palácio real, eles se isolaram dos mais, para poderem conversar em particular, justificando-se e desculpando-se das suspeitas que um tivera do outro, em prejuízo dos seus assistentes e amigos, que eles desprezaram, entre os quais Metro-doro, o Cepciano, homem de grande saber, que dizia jocosamente o que quena, e a quem Mitrídates dedicara tão grande amizade que o chamava o pai do rei. No início das suas lutas Mitrídates mandara-o pedir auxílio a Tigrano, contra os romanos, e Tigrano perguntou-lhe: "Que me aconselhas tu, Metro doro?" Ou porque preferisse o proveito de Tigrano, ou porque não quisesse que Mitrídates fugisse, ele respondeu-lhe: "Como embaixador, senhor, acon selho-te que o atendas, mas, como conselheiro, que não o faças". Tigrano relatou o caso a Mitrídates, supondo não o desgostar, e no entanto fez com que Metrodoro fosse logo submetido a pena de morte, Isto não só fez com que Tigrano se arrependesse de haver sido o causador de tal morte, como o tornou conhecedor da malquerença que de há muito Mitri dates nutria contra a sua vítima, com a descoberta de documentos secretos, em um dos quais era determinada a morte de Metrodoro. Em compensação, Tigrano não poupou suntuosidade no sepultamento do corpo de quem traíra em vida. Também foi morto, na corte de Tigrano, o orador Anfícrates, natural de Atenas. Dizem que, tendo sido expulso de sua terra, ele fugiu para a cidade de Selêucia, à margem do Tigre; e, como os habitantes da cidade lhe pedissem que ensinasse ali a arte da eloqüência, ele recusou-se, respondendo pretensiosamente ser o prato muito pequeno para conter um golfinho, como a dizer que a cidade era muito insignificante para detê-lo ali. Retirando-se de Selêucia, êle tratou de acercar-se de Cleópatra, filha de Mitríáates e esposa de Tigrano. Tornando-se logo suspeito, foi denunciado, sendo-lhe proibido visitar e conversar com os gregos. Isto ocasionou-lhe tamanho desgosto que êle deixou-se morrer por inanição, sendo honrosamente sepultado pela rainha Cleópatra, num lugar denominado Safa, como dizem naquela região.

Lúculo apodera-se da cidade de Sínope.

XLI. Lúculo, depois de ter reposto toda a Ásia em boa paz e tranqüilidade, e estabelecido boas normas em materia de justiça, não se esqueceu dos passatempos e diversões. Pelo contrário, enquanto esteve em descanso na cidade de Éfeso, promoveu inúmeras festas, lutas romanas e assaltos de esgrima, em regozijo à vitória obtida, causando grande satisfação em todas as cidades da província. Tanto assim, que, em sinal de reconhecimento, instituíram uma festa solene em sua homenagem, a que denominaram Lucúlia, celebrando-a com grande alegria, sincera e não fingida amizade e benquerença, e que deixou-o mais satisfeito do que as maiores homenagens que lhe houvessem prestado. Com o regresso de Ápio, considerando e concluindo ser indispensável guerrear Tigrano, ele voltou ao reino de Ponto, onde movimentou o exército que ali havia deixado de guarnição, levando-o para a cidade de Sínope, a fim de sitiá-la, ou antes, para cercar alguns cilícios, que nela se haviam internado em favor de Mitrída-tes. Ao verem Lúculo dirigir-se contra eles, os cilícios, certa noite, mataram grande parte dos habitantes, incendiaram a cidade, e fugiram. Avisado do ocorrido, Lúculo entrou na cidade, fez passar ao fio da espada oito mil cilícios que ainda ali se achavam, e devolveu aos habitantes quanto lhes pertencia. O que o induziu a apoderar-se desta cidade foi uma visão que tivera durante a noite, que aproximou-se do seu leito e lhe disse: "Segue um pouco além, Lúculo, pois Autólico deseja falar-te, Este sonho despertou-o, mas ele não conseguiu atinar com o sentido do que a visão lhe dissera Foi nesse dia da tomada da cidade de Sínope que, perseguindo os cilícios fugitivos, ele achou uma está tua estendida ao chão, à beira-mar, que eles, precipitação da fuga, não conseguiram transportar para bordo. Dizem que era um dos mais belos e grandiosos trabalhos do estatuário Estênis, e há quem afirme ser a imagem de Autólico, o fundador de Sínope. Autólico foi um dos príncipes que par tiram da Tessália, com Hércules, contra as Ama zonas, e era filho de Demaco. Fala-se que, ao voltar desta viagem, o navio em que êle embarcara com Demoleão e Flógio deu de encontro a um escolho na costa do Quersoneso, submergindo. Tendo-se salvo com suas armas e seus homens, Autólico tanto fez que chegou à cidade de Sínope, que arrebatou a alguns sírios, assim chamados por descenderem do Siro, filho de Apolo, e da ninfa Sínope, filha de Asopo. Com esta informação, Lúculo lembrou-se de uma advertência de Sila, que, em seus comentários escritos, declarou não haver nada mais certo, e em que a gente devia piamente acreditar, do que o que nos é transmitido pelo sonho.

Êle recebe aviso da aproximação de Tigrano e de Mitrídates.

XLII. Nesta ocasião, ele foi prevenido que Tigrano e Mitrídates estavam prestes a chegar na Liaônia e na Cilicia, para serem os primeiros a apoderar-se da província da Ásia. Admirou-se muito da solução de Tigrano, pois sabia ser sua intenção marchar contra os romanos, mesmo que não fosse auxiliado por Mitrídates, visto achar-se perfeita-mente aparelhado para a luta. Entretanto, não podendo admitir que se atacasse povos indefesos, e ciente de que tudo não passasse de um ardil de ambas as partes, preparou-se para enfrentá-los.

Êle se põe em marcha, para ir-lhes ao encontro.

XLIII. A esse tempo, Machares, filho de Mitrídates, senhor do reino do Bósforo, mandou-lhe uma coroa de ouro do valor de mil escudos, pedin-do lhe que o considerasse amigo e aliado dos roma-nos. Lúculo considerou isso como o fim de sua primeira guerra, e, deixando Sornácio na defesa do reino de Ponto, com seis mil combatentes, partiu-lhes ao encontro, com doze mil soldados de infantaria e pouco menos de três mil de cavalaria. A grita foi geral, pois acharam ser grande temeridade de sua parte lançar-se, mal aconselhado, com tão pouca gente, contra exércitos belicosos, dotados de milha-res e cavalarias, em lugar tão vasto e afastado, sulcado de inúmeros e profundos rios, repleto de montanhas o ano todo cobertas de neve, o que fêz com que os seus soldados, pouco disciplinados e obedientes, o seguissem receosos e desatendessem as suas ordens. Os arengueiros, em Roma, não cessavam de gritar contra ele, declarando ao povo que ele semeava uma guerra após outra, sem o menor proveito à coisa pública, provocando-as com o único fito de ter sempre exércitos sob suas ordens e par satisfazer às suas necessidades particulares, à custa e prejuízo do erário público. Com o decorrer d tempo eles viram satisfeitos os seus desejos, qu eram os de afastar Lúculo do comando das forças, fazendo-o substituir por Pompeu.

Êle passa o Eufrates.

XLIV. Apesar de toda a grita, Lúculo não deixou de comandar e fazer seguir o seu exército o mais que pode, e em poucos dias chegou ao rio Eufrates, que encontrou transbordante, agitado impetuoso, como acontece no inverno. Lúculo ficou muito aborrecido, certo de ser obrigado a permanecer ali durante muito tempo, e de ter o aborrecimento de procurar navios e de mandar fazer jangadas para a construção de uma ponte, a fim de poderem atravessar. A noite, porém, a água começou a baixar, e desceu tanto que, pela manhã, o rio achou-se reduzido ao seu curso normal. Os filhos do lugar, ao verem ilhotas aparecer ao longo do curso das águas, e o rio calmo, como um pântano, em torno delas, adoraram Lúculo como um deus, porque nunca viram acontecer tal coisa até então, pois o rio submeteu-se logo a ele, tornando-se manso e obediente, para dar-lhe passagem fácil e segura. Não querendo perder a oportunidade, ele fez seu exército passar sem demora, e, na outra margem, deu com este achado de feliz presságio: algumas vacas consagradas à deusa Diana, cognominada Persiana, que os habitantes bárbaros de além do rio Eufrates veneram e glorificam acima de todos os outros deuses, pastavam por ali. Estas vacas, exclusivamente destinadas a imolação em louvor à deusa, erram à vontade por toda a região, sem qualquer espécie de amarra ou de prisão, tendo a distingui-las uma lâmpada gravada no corpo, que é a marca de Diana, e só são apanhadas em caso de necessidade, com muito trabalho. Uma delas, depois da passagem de todo o exécito, foi voluntariamente colocar-se numa rocha também consagrada à deusa, abaixando a cabeça e estendendo pescoço, como fazem as que são amarradas e submetidas ao sacrifício, dando a entender a Lúculo que ali fora para ser imolada: o que foi feito. Em seguida, ele também imolou um touro em louvor ao Eufrates, por haver-lhe dado tão fácil passagem.

Êle entra na Armênia.

XLV. Nesse primeiro dia Lúculo só se ocupou em acampar além do rio. Nos dias seguintes internou-se no país por Sofena, sem produzir o menor mal ou descontentamento às pessoas que iam entregar-se a ele, ou que recebiam com satisfação seu exército. Tendo seus soldados mostrado desejo de atacar e tomar uma fortaleza, na qual diziam haver muito ouro e prata, ele mostrou-lhes ao longe a montanha de Taurus, dizendo-lhes: "É aquilo que vos cabe ir tomar, pois, o que está dentro desta fortaleza, pertence aos vencedores". E, prosseguindo em suas longas jornadas, transpôs o no Tigre, e entrou com seu exército na Armênia.

Como Tigrano recebe a notícia de sua aproximação.

XLVI. Quanto a Tigrano, o primeiro que ousou levar-lhe a notícia da chegada de Lúculo, não teve sorte, pois ele o fez decapitar. À vista disso, ninguém mais se atreveu a falar-lhe a tal respeito. Assim, ignorando achar-se completamente cercado pelos inimigos, ele deleitava-se com os elogios que lhe faziam seus favoritos, declarando que Lúculo seria de fato um grande comandante, se tivesse a coragem de esperá-lo unicamente na cidade de Éfeso, e não se tivesse espalhado por tcda a Ásia, como fez, nem bem percebeu a sua aproximação com um exército triunfante, de tantos milhares de homens. Vê-se, por aí, que, não possuindo todos os corpos e todos os cérebros igual resistência para suportar excesso de vinho, também não possuem compreensão bastante, nem bom senso, para julgar os outros como merecem. Mitrobarzane, um dos favoritos, que ousou dizer a verdade, foi por Tigrano mandado ao encon tro de Lúculo, com três mil cavaleiros e bom número de soldados de infantaria, e ordem de levar lhe o comandante vivo, embora tivesse de passar por cima do ventre de todos os seus soldados.

Sextílio vence as tropas de Tigrano, comandadas por Mitrobarzane, que é morto.

XLVII. Achava-se Lúculo com parte do sen exército já acampada e a outra parte prestes a chegar, quando os seus batedores deram-lhe a notícia da chegada do capitão bárbaro. Êle calculou logo que, se o inimigo o atacasse na situação em que se achava, com as forças dispersas, e em condição de não poder combater, ser-lhe-ia impossível enfrentá-lo e derrootá-lo. Assim sendo, êle permaneceu no acam-pamento, tratando de fortificá-lo e restaurá-lo, e mandou Sextílio, um dos seus tenentes, com mil e seiscentas cavalarias e um número pouco maior de soldados de infantaria, com munição escassa, reco-mendando-lhe que se aproximasse o mais possível do inimigo, sem combater, unicamente para entre-tê-lo e contê-lo, até ser avisado achar-se todo o exército reunido no acampamento. Sextílio procurou executar as ordens recebidas, mas foi constrangido, contra a vontade, a entrar em combate, visto ter sido vigorosa e audaciosamente atacado por Mitrobar-zane. Este, porém, morreu valorosamente na luta, e seus homens foram acossados e mortos, salvando-se apenas uns poucos, que conseguiram fugir.

Lúculo assedia Tigranoeerta.

XLVIII. Com esta derrota, Tigrano aban-donou sua grande cidade real de Tigranocerta, assim batizada por êle mesmo, e retirou-se para o monte Taurus, onde concentrou gente de toda parte. Lúculo, porém, não lhe deu oportunidade de prepa-rar-se, mandando Murena obstar-lhe a saída e Sextílio impedir a entrada de grande reforço de árabes mandado em seu auxílio, e que foi quase totalmente morto. Seguindo o rasto de Tigrano, Murena esperou a sua passagem por um vale longo e estreito, em cujo fundo havia um péssimo camu nho, impróprio para um grande exército. Valeu do-se da oportunidade, atacou-o pela retaguarda Tigrano pôs-se logo em fuga, fazendo jogar toda a bagagem no meio do caminho, para retardá-lo, perdendo, nesta derrota, numerosos armênios, entre mortos e prisioneiros. Conseguindo isto, Lúculo diri-giu-se à cidade de Tigranocerta, na Armênia, sitiando-a completamente. Havia ali numerosos gregos, transportados à força da Cilicia, o mesmo acontecendo com numerosos bárbaros, adiabênios, assírios, gordiênios e capadócios, cujas cidade Tigrano arruinou, para obrigá-los a ir morar ah. Por este meio, êle conseguiu que a cidade ficasse repleta de ouro e prata, de medalhas, estátuas, quadros e pinturas de subido valor, pois todo o mundo, desde os particulares aos príncipes e fidalgos, estudavam a maneira de agradá-lo, enriquecendo e embelezando-lhe a cidade com o que possuíam de mais belo e mais precioso. Isto fêz com que Lúculo apressasse o mais possível o sítio, certo de que Tigrano, enfurecido, nao se conformasse com a tomada da cidade e lhe desse combate. Tal aconteceria fatalmente, se Mitrídates, por meio de cartas e de mensageiros, não o desaconselhasse calorosamente de se aventurar à luta, instigando-o a impedir a entrada de toda espécie de víveres aos romanos, com sua gendarmería, Reforçando tais. conselhos, Taxiles, capitão que Mitrídates lhe enviara, pediu-lhe instantemente que evitasse enfren-tar as forças dos romanos, que eram invencíveis.

Tigrano avança, decidido a combater.

XLIX. Tigrano ouviu pacientemente todas as razoes apresentadas, até à chegada, em seu auxílio, de numerosas forças de armênios, de gordiênios, de árabes do mar de Babilônia, de albanos do mar Cáspio, de iberos seus vizinhos, de povos habitantes do no Araxes, que acorreram em seu socorro, espontâneamente uns, para agradá-lo, outros devido às pensões e soldo que êle lhes dava; além dos reis dos medos e dos adiabênios, com todo o seu poder. à vista de tanta força, êle desprezou conselhos, para seguir a resolução tomada pelos seus conselheiros, de dar combate. Taxiles, que tacitamente se opôs a tal resolução, esteve em perigo de vida. Houve quem dissesse que invejando a glória do rei, Mitrí-dates procurava dissuadi-lo da luta. À vista disso, Tigrano não só o desatendeu, receoso da sinceridade de suas palavras, como, para evitar que êle chegasse a participar de sua vitória, se pôs em campo com seu grande exército, dizendo, aos seus amigos mais achegados, que a única coisa que o desgostava era ter de combater unicamente contra Lúculo, quando o seu desejo era fazê-lo contra todos os comandantes romanos. Esta tola bravata, isenta de todo bom senso, não teria lugar, se êle não se visse cercado de tantos povos diferentes, de tantos reis que o seguiam, de tantos batalhões de artilharia e de tantos milhares de cavalarias, pois contava em seu exército: vinte mil lanceiros e atiradores, cinqüenta e cinco mil cavalarias, das quais dezessete mil de todas as armas, conforme o próprio Lúculo comunicou ao Senado; cento e cinqüenta mil soldados de infantaria, de todas as armas, distribuídos por bandeiras e esquadrões; pioneiros, carpinteiros, pedreiros e outros trabalhadores, para aplainar os caminhos, construir pontes, limpar os rios, cortar matas e executar outros trabalhos semelhantes, num total de trinta e cinco mil, que seguiam à retaguarda, em ordem de guerra, dando um aspecto poderoso e descomunal.

Gracejos de Tigrano e de seus cortesãos sobre o reduzido número dos romanos.

L. Quando ele chegou ao cume do monte Taurus, e foi visto nitidamente, pelos da cidade, com tão grande exército, e ele mesmo pôde ver o de Lúculo, que sitiava a sua Tigranocerta, os bárbaros exultaram, ameaçando do alto das muralhas os romanos, mostrando-lhes o exército dos armênios. Lúculo reuniu seus conselheiros, para saber como agir, sendo uns de parecer que êle levantasse o sítio e despejasse todo o seu exército contra Ti grano, e outros que êle não devia arcar com o peso de tão avultado número de inimigos, e muito menos levantar o sítio. Lúculo declarou-lhes que todos lhe deram bons conselhos, mas que decidira não ouvi-los. Dividiu seu exército, deixou Murena sitiando a cidade com seis mil combatentes, e, com vinte e quatro coortes, num total de uns dez mil soldados de infantaria, e toda a sua cavalaria, que não ia além de mil homens, entre lanceiros e caçadores, foi enfrentar Tigrano, detendo-se numa grande e espaçosa planície ao longo do no. O acampamento dos romanos pareceu insignificante a Tigrano, e durante algum tempo serviu de zombaria e de passatempo aos seus bajuladores. Uns pilheriavam, outros tiravam a sorte, e jogavam a parte dos seus despojos, como se já houvessem ganho o combate, e cada um dos reis e comandantes apresentou-se ao rei, pedindo-lhe instantemente que lhe concedesse a graça de fazê-lo dirigir a luta, e que êle se abstivesse de o fazer e fosse sentar-se em um lugar qualquer, para assistir o embate. Desejando mostrar que não era menos espirituoso que os outros, e que também sabia usar palavras adequadas às situações, Tigrano proferiu algo bastante vulgar: "Se eles vêm como embaixadores, são muitos; mas, se vêm como inimigos, são pouquíssimos". Era assim que eles zombavam e se divertiam.

Resposta de Taxiles a Tigrano, que exigia a retirada dos romanos.

LI. No dia seguinte, ao romper do dia, Lúculo dispôs sua gente, perfeitamente armada, em posição de combate. O acampamento dos bárbaros achava-se na outra margem do rio, voltado para o sol nascente, e, casualmente, o curso do rio desviava-se de repente para o poente, onde podia ser transposto com maior facilidade. Lúculo fêz seu exército descer em ordem de combate, seguindo o curso do rio, para encontrar passagem, e a pressa com que o fêz deu a Tigrano a impressão de uma retirada. Esta doce ilusão fez com que ele chamasse Taxiles e lhe dissesse rindo: "Vês como fogem, os belos legionários romanos, que tanto gabavas de invencíveis?" Taxiles respondeu-lhe: "Faço votos, senhor, que a tua boa sorte te conceda hoje algum milagre, pois seria de admirar que os romanos fugissem. Eles não costumam enfeitar-se com arneses, quando saem a passeio pelo campo, nem deixam à mostra seus broquéis e escudos, seus capacetes, como agora se observa, e sim cobertos de couro. O apresto com que os vemos brilhar é sinal seguro de que querem combater, e que marcham ao nosso encontro".

Lúculo dá sinal de atravessar o rio.

LII. Taxiles não havia ainda concluído a sua fala, quando Lúculo, à vista de seus inimigos, fêz o sinaleiro que levava o primeiro estandarte virar imediatamente, e as forças prepararam-se para atravessar em ordem de combate. Tigrano, como que retornando a custo de uma embriaguez, gritou então alto, duas ou três vezes: Eles vêm a nós! Houve grande confusão e tumulto, quando se tratou de dispor tanta gente para o combate. O rei Tigrano encarregou-se de comandar as forças do centro, entregando as da esquerda às ordens do rei dos adia-bênios e as da direita ao comando do rei dos medos, havendo nestas, que deviam enfrentar o primeiro embate, homens de todas as armas.

Êle marcha para os inimigos.

LIII. Quando Lúculo ia atravessar o rio, alguns dos seus capitães preveniram-no que devia evitar qualquer combate naquele dia, por ser um dos que os romanos consideravam aziagos, e que denominavam Atri ou lutuosos, correspondendo exata-mente àquele em que Cipião fora derrotado pelos cimbros, com todo o seu exército. Lúculo deu-lhes esta resposta, que depois tornou-se célebre: "Eu o tornarei feliz, hoje, para os romanos". Era o déci-mo-sexto dia do mês de outubro. Assim dizendo, e exortando-os a ter coragem, êle transpôs o rio e foi o primeiro a marchar ao encontro dos inimigos, armado de uma couraça de aço, trabalhada em escamas reluzentes, coberta por uma cota de armas franjada em toda a volta, e empunhando a espada desembainhada, dando a entender aos seus soldados que deviam ir alcançar os inimigos e atacá-los de surpresa, visto já se haverem habituado aos combares frente a frente; que êle venceria tão rápida e rigorosamente a distância a ser percorrida, que não lhes daria tempo de atirar. Notando que o grosso das forças inimigas estava disposto em posição de combate na base de uma colina, de cume pouco aguçado e plano, e que as encostas, de um quarto de légua, aproximadamente, não eram íngremes, nem de difícil acesso, mandou cavalarias tracianas e gaulesas, que tinha a soldo, atacá-los pelos flancos, a fim de desnorteá-los e fazê-los terçar suas lanças com suas espadas, pois todo o poder daqueles guerreiros resumia-se na lança; mais não podiam fazer a seu favor, e contra o inimigo, dado o peso e incomodidade da armadura que os envolvia, deixando-os como que metidos numa prisão de ferro. Êle, a seu turno, conduzindo, vez por vez, duas companhias de infantaria, esforçava-se por alcançar o alto da colma, sendo corajosamente seguido pelos soldados, orgulhosos de vê-lo caminhar a pé e de ser o primeir a galgar a encosta.

Completa vitória de Lúculo.

LIV. Ao chegar ao alto, êle se deteve, e bradou: "A vitória é nossa, companheiros, a vitória é nossa!" Dito isto, levou-os direito contra os inimigos, ordenando-lhes que não se detivessem a lançar dardos, mas que tomassem das espadas e lhes golpeassem as pernas e as coxas, únicas partes do corpo que se apresentavam descobertas. Entretanto, não houve necessidade de assim proceder, porque eles não esperaram os romanos; fugiram sem demora, gritando apavorados, e foram covardemente lançar-se, com seus cavalos, entre as tropas de infantaria, sem haverem desferido um único golpe. Deste modo, numerosos milhares de homens foram derrotados sem luta, não havendo um único ferido, e sem o derrame de uma gota de sangue. A fuga, porém, ocasionou-lhes inúmeras mortes, dada a afobação com que foi realizada, o vultoso número de seus batalhões, e a enorme extensão por eles ocupada. Tigrano, igualmente, tratou de fugir com sua companhia; e, vendo seu filho também em fuga, arrancou da cabeça a banda real, entregou-lha chorando, e ordenou-lhe que procurasse salvar-se a todo custo, seguindo outro rumo. O jovem príncipe não ousou pô-la à cabeça, entregando-a ao cuidado do mais fiel dos seus lacaios, que teve a infelicidade de ser preso e levado, com outros prisioneiros, à presença de Lúculo, a quem precisou entregar o emblema real. Consta que, nesta derrota, morreram mais de cem mil soldados de infantaria, e que bem poucas cavalarias conseguiram salvar-se. Do lado dos romanos houve uns cem feridos e cinco mortos.

Considerações sobre a conduta de Lúculo

LV. Referindo-se a este combate, em um tratado que escreveu sobre os deuses, Antíoco declarou que nunca o sol vira coisa semelhante; Estrabo, também filósofo, em alguns rápidos relatos que traçou, disse que os romanos se envergonharam da vitória e zombaram de si mesmos, por haverem usado suas armas contra escravos tão cobardes; Tito Lívio relata que nunca os romanos se acharam em luta com tão pouca gente e contra tão avultado número de inimigos, pois os vencedores constituíam a vigésima parte dos vencidos. Os chefes romanos mais velhos e experimentados louvaram extraordinariamente Lúculo, por haver derrotado os dois maiores e mais poderosos príncipes do mundo, um numa ação bastante prolongada e outro fulminantemente; destruiu e consumiu Mitrídates lentamente, devido à distância, e Tigrano num ímpeto. Fez o que comandante algum conseguira realizar antes dele.

Mitrídates recolhe Tigrano, em sua fuga.

LVI. O que fez com que Mitrídates não se achasse no acampamento de Ti grano no dia do encontro, foi supor que Lúculo, como de hábito, dilataria o prazo de seu ataque. Como só aparecia de vez em quando, no dia da fuga encontrou alguns armênios assustados e horrorizados, que o puseram ao par do ocorrido. Duvidou da derrota; mas encontrando logo depois outros, mais numerosos, nus e cobertos de chagas, convenceu-se da realidade, e partiu à procura de Tigrano, encontrando-o sozinho, em estado lastimável, completamente abandonado por todos os seus. Ao contrário do que lhe fizera Tigrano na adversidade, que o tratara com arrogância e desprezo, Mitrídates apeou do cavalo, para confortá-lo e deplorar-lhe a infelicidade, e ofereceu-lhe todos os lacaios para servi-lo e os trens e comestíveis que conduzia; reconfortou-o, exortan-do-o a ter muita coragem dali em diante, e a confiar no futuro. A seguir, os dois puseram-se a aliciar e reunir guerreiros de toda parte.

Lúculo toma a cidade de Tigranoeerta.

LVII. Entrementes houve uma sedição na cidade de Tigranocerta, de gregos e bárbaros, pol se oporem estes que aqueles entregassem a cidade a Lúculo, como desejavam. À vista disso, Lúculo apoderou-se dela, e assenhoreou-se dos bens do rei ali existentes, entregando depois a cidade à pilhagem dos soldados velhos, na qual, além de outras riquezas, ,Jforam encontradas moedas, num total de oito mil talentos. Dos despojos ganhos ao inimigo, ele deu oitocentas dracmas a cada guerreiro. Sa-bendo haver ali músicos, comediantes, cantores e outros indivíduos semelhantes, contratados para festas públicas, que Tigrano mandara buscarem toda parte, para ocupar o teatro que mandara cons-truir, Lúculo serviu-se deles para festejar a sua vitó-ria. Isto feito, reenviou os gregos ao seu país, dando-lhes dinheiro para as despesas de viagem, fazendo o mesmo com os bárbaros levados para ali à força. Assim, da desolação e destruição de uma cidade abandonada, muitas foram reedificadas e repovoadas. Tendo recobrado seus habitantes naturais, amaram e veneraram Lúculo como seu benfeitor e fundador. Tudo o que praticava, neste sentido, estava de acordo com a sua índole, pois ele amava e preferia os louvores procedentes da bondade, da justiça e da clemência, aos provindos dos grandes feitos guerreiros; sim, porque estes dependiam do eu exército e de felicidade, e aqueles eram exclusivamente obra sua.

Várias nações submetem-se a Lúculo.

LVIII. Êle demonstrava, nisto, ser possuidor de uma boa alma, bem formada e muito afeita à virtude, pelo que recebia a recompensa merecida. Por estas qualidades, êle conquistou os corações dos bárbaros com tal veemência que os reis dos árabes foram colocar-lhe às mãos suas pessoas e bens. Os sofênios também submeteram-se a êle; e os gordiênios habituaram-se de tal modo com o seu sítio que, na ocasião, abandonariam cidade, casas, tudo, para acompanhá-lo, voluntariamente, com suas mulheres e filhos. Zarbieno, rei dos gordiênios, havia, como dissemos, feito aliança com Lúculo, por intermédio de Ápio Clódio, por não mais poder suportar a tirania de Tigrano. Isto foi levado ao conhecimento de Tigrano, que mandou matá-lo, com sua mulher e filhos, antes que os romanos se apoderassem da Armênia. Lúculo não o esqueceu, pois, ao passar por seu reino, fêz-lhe funerais reais: mandou preparar uma bela fogueira, magnificamente enfeitada com tapetes dourados e prateados, e outros ricos despojos de Tigrano, e quis pessoalmente atear-lhe fogo; fêz-lhe os funerais com as honras devidas, presentes os parentes e amigos, concedendo-lhe o título de amigo e aliado do povo romano; e forneceu elevada soma de dinheiro, para ser-lhe erguida sepultura condigna, pois foi encontrada em seu castelo grande quantidade de ouro e prata, bem como farta provisão de trezentas mil minas de trigo. Isto enriqueceu os soldados, e fêz com que Lúculo sustentasse vantajosamente a luta, sem receber uma única dracma de Roma.

Propósito sedicioso das tropas de Lúculo.

LIX. A esse tempo, também o rei dos partas expressou-lhe, por embaixadores, sua amizade e aliança, que Lúculo recebeu de bom grado, man-dando-lhe embaixadores que, ao voltar, comunicaram-lhe achar-se o rei dos partas indeciso quanto ao lado por que devia propender, mas que secretamente pedia a Tigrano o reino da Mesopotâmia, para decidir-se a socorrê-lo contra os romanos. Obtida confirmação, Lúculo decidiu abandonar Tigrano e Mitrídates, como adversários fatigados e inócuos, e sondar e experimentar um pouco as forças e o valor dos partas, indo atacá-los, conquistando, assim, a glória de haver, num só arranco, abatido e desbaratado três reis tão poderosos, campeões de lutas, e transposto os países dos três maiores príncipes que o sol aclara, vitoriosos sempre, e nunca vencidos. Escreveu sem demora a Estornácio, e aos outros seus capitães que deixara de guarda ao reino de Ponto, que lhe levassem às pressas as forças que lhes estavam subordinadas, calculando partir contra os partas, saindo da província gordiana. Mas aconteceu o contrário. Seus tenentes, que diversas vezes, antes, acharam seus soldados amotinados e rebeldes às suas ordens, tiveram então certeza da sua má vontade e incorrigível desobediência, não lhes sendo possível arrancá-los dali, nem exortando-os ao cumprimento do dever, nem à força. A tudo isto, os soldados respondiam, gritando e protestando, que não ficariam nem mesmo onde se achavam, e que voltariam para suas casas, deixando o reino de Ponto sem guarnição e sem defesa. O pior é que, ao serem levadas tais notícias ao acampamento de Lúculo, elas induziram os outros a seguir-lhes o exemplo e a audácia de também se amotinar, graças à boa vida que gozavam; pois, cheios de dinheiro, e habituados aos prazeres, achavam-se cansados de lutas e queriam descansar. Assim, ao terem conhecimento da resolução dos outros, qualificaram-nos de homens e gente de bom coração, declarando seguir-lhes o exemplo, pois muito já haviam trabalhado e mereciam ser dispensados com vida e em condição de poder descansar.

Êle vence os armênios em muitos encontros.

LX. Sabedor deste propósito, e de outros piores e mais alarmantes, Lúculo suspendeu a saída dos partas e partiu ao reencontro de Tigrano, em pleno verão. Ao chegar ao cume do monte Taurus, ficou muito aborrecido ao ver os campos e o trigo ainda verdes, pois as estações são prolongadas, naquelas paragens, devido à umidade do ar. Desceu à planície, e, em dois ou três encontros, derrotou os armênios que se atreveram a esperá-lo. Depois percorreu e assenhoreou-se de toda a planície sem qualquer oposição, apoderando-se do trigo armazenado para Tigrano, pondo os inimigos desprovidos de víveres e provocando-os por todos os meios a entrar em luta; cercou-lhes o campo todo de trincheiras, para deixá-los esfaimados, desbastou e destruiu toda a planície, sob suas vistas. Eles, porém, que já haviam sido derrotados tantas vezes, não se moveram.

Êle vai sitiar a cidade de Artaxata.

LXI. Ante isto, Lúculo levantou acampamento, e foi assentá-lo diante da cidade de Arta-xata, capital do reino da Armênia, onde se achavam as esposas legítimas e filhinhos de Tigrano, à espera que este se aventurasse a um combate, a fim de não perder a cidade. Dizem que Aníbal de Cartago, depois da derrota do rei Antíoco pelos romanos foi ter com Artaxes, ao qual induziu e ensinou a fazer muitas coisas úteis e proveitosas ao seu reino, sobressaindo, como das mais belas, mais agradáveis e mais úteis da província, que jazia abandonada, o plano de uma cidade, que ele traçou e decidiu o rei a mandá-la edificar e povoar. O rei não hesitou, e encarregou-o de dirigir o grande empreendimento. Foi como surgiu a bela, grande e triunfante cidade, que foi chamada do nome do rei, Artaxata, e foi transformada em capital do reino da Armênia. Advertido que Lúculo ia assediá-la, Tigrano nao se conteve e pôs-se a seguir os romanos, com todo o seu exército, e no quarto dia acampou perto deles, tendo a separá-los o no Arsânias, que os romanos eram obrigados a transpor, para chegar a Artaxata.

Vitória alcançada por Lúculo.

LXII. Depois de haver imolado aos deuses, para garantir a vitória e considerando-a já em seu poder, Lúculo fez o seu exército atravessar em posição de combate, pondo doze coortes à frente e as outras atrás, de receio que os inimigos, tendo à frente grande e séria gendarmería, os envolvesse. Havia ainda diante deles arqueiros a cavalo, mardianos e hibenanos armados de lanças, nos quais Tigrano depositava absoluta confiança, por serem os melhores e mais ardorosos dos combatentes que tinha a seu soldo. Não houve grandes combates, porque, tendo escaramuzado um pouco contra os romanos, eles não ousaram esperar os legionários que vinham atrás, e fugiram acossados pela cavalaria romana. Vendo-a dispersa os guerreiros que rodeavam Tigrano marcharam contra a infantaria. Vendo o avultado número dos que lhe iam ao encontro, bem armados e equipados, Lúculo teve medo, e mandou avisar as cavalarias que perseguiam os fugitivos. Sem perda de tempo, marchou ao encontro dos fidalgos e sátrapas que se achavam diante dele, com os melhores elementos de sua hoste, causando-lhes tal pavor que, antes que os pudesse ter ao alcance da mão, eles se puseram em fuga. Havia três reis em combate, um a seguir a outro; mas o que fugiu mais vergonhosa e cobardemente foi Mitrídates, o rei de Ponto, que não teve a coragem de atender aos gritos e clamores dos romanos. A caçada, que foi longa, durou toda a noite, até que os romanos se estafaram de matar, de aprisionar, e de armazenar despojos de toda espécie. Diz Tito Lívio, que no primeiro combate morreram numerosos combatentes, mas neste segundo foram mortos os personagens mais eminentes, sendo aprisionados os principais inimigos.

Sedição nas hostes de Lúculo.

LXIII. Depois deste combate, cheio de coragem, e nada mais temendo, Lúculo decidiu avançar pelo país, para acabar de arruinar e destruir o bárbaro rei. Achando-se, porém, no equinócio do outono, o tempo tornou-se tão rígido (coisa que nunca lhe passou pelo pensamento) e fêz tanto frio que nevou quase todos os dias; se o céu se aclarava, geava e endurecia tão depressa que os cavalos não podiam tomar água nos rios, por ser excessivamente gelada e fria, e ninguém se atrevia a atravessar por cima do gelo, porque este fendia-se e as lascas cortavam-lhe os pés. Além disso, achando-se a região coberta de árvores, de matas e de florestas, e sendo os caminhos estreitos, eles não podiam ir pelos campos, sem serem maltratados pela neve que caía; no alojamento a situação era pior ainda, porque eram obrigados a deitar em lugares fofos e úmidos. Razão por que, os soldados, só muitos dias depois do combate, puderam ir além. Primeiro mandaram seus coronéis e capitães pedir-lhe que se abstivesse de tal empresa; reuniram-se depois em tropas mais audaciosas, e começaram a murmurar e a gritar à noite em suas tendas, o que era sinal de exército amotinado e pronto a rebelar-se contra seu chefe, embora Lúculo tudo fizesse, pedindo encarecidamente que tivessem um pouco de paciência, pelo menos até à tomada da cidade de Cartago, na Armênia, isto é, da cidade de Artaxata, para poderem arruinar a obra e a memória do maior inimigo que os romanos tiveram até então no mundo, referindo-se a Aníbal.

Êle entra na Migdônia, e apodera-se de Nísibis.

LXIV. Vendo que, apesar disso, eles nada queriam fazer, fê-los recuar, e repassou o monte Taurus, por outros caminhos; desceu depois na província de Migdônia, terra quente e fértil, onde há uma grande cidade, muito povoada, que os habitantes do país chamaram Nísibis, e os gregos Antioquia de Migdônia. A cidade tinha como autoridade suprema Gouras, irmão verdadeiro de Tigrano, mas como comandante, perfeito conhecedor dos engenhos de guerra, o Calímaco que tanto trabalho dera a Lúculo no cerco à cidade de Amiso. Lúculo foi assentar acampamento em frente, e fê-la assaltar por todos os meios empregados para vencer uma cidade; e agiu com tal ímpeto, que em pouco tempo ela foi tomada de assalto. Gouras, que se pôs à mercê de Lúculo, foi muito bem tratado; Calímaco, porém, que não o quis ouvir, embora prometesse revelar os esconderijos de grandes tesouros, somente dele conhecidos, contanto que não o matassem, foi algemado, por haver incendiado a cidade de Amiso, e impedido que Lúculo demonstrasse a sua amizade aos gregos, o seu afeto e liberalidade para com eles.

Considerações sobre a mudança de sorte que Lúculo sofreu "a partir de então, e as faltas que cometeu.

LXV. Até aqui, pode-se dizer que a boa sorte seguiu e favoreceu Lúculo em todos os seus empreendimentos e em todas as suas ações. Mas, a seguir, parece que o bafejo da felicidade começou a diminuir, pois tudo quanto realizou foi feito a muito custo, e tudo lhe saiu contrário aos seus desejos. É verdade que ele sempre demonstrou a virtude, a resignação e a coragem próprias de um bom e valente comandante de exército; mas as suas ações e cometimentos não tiveram a mercê da facilidade, nem o esplendor de glória que seriam de esperar, ficando em risco de perder tudo quanto conquistara no passado, devido às adversidades que o acometeram e às rixas que injustamente manteve com seus homens. O pior é que tudo quanto acontecia era-lhe atribuído, visto não saber ou não querer manter-se nas boas graças dos soldados, preferindo dar valor a qualquer capitão ou graduado, para conquistar-lhes as simpatias, originando, assim, antipatias e desrespeito à sua autoridade. O que mais o fez cair em desagrado foi o fato de não respeitar as pessoas qualificadas, tratando os nobres com desprezo e como inferiores à sua pessoa. Dizem que, apesar das virtudes que o adornavam, ele possuía este vício e imperfeição. Tinha bela aparência e belo porte; era bem falante, sensato e reto nos negócios governamentais, bem como nos afazeres da guerra, tanto na direção dos simples cidadãos, como na dos soldados em campo de batalha.

Discursos espalhados em Roma contra Lúculo.

LXVI. Escreve Salústio que desde o início desta guerra, os soldados. começaram a descontentar-se dele, porque os fizera passar dois invernos rigorosos no acampamento, um diante da cidade de Cízico, e outro diante da de Amiso. Outros invernos, a seguir, agastaram-nos e irritaram-nos, pois os passaram em terras inimigas ou de aliados e amigos, sobre tendas armadas o no acampamento, sem nunca penetrar em cidade grega ou confederada. Se os soldados estavam tão desavindos com Lúculo, os arengúenos, em Roma, seus inimigos declarados, invejosos dos seus triunfos e de sua glória, viam na desavença a melhor oportunidade para agir contra ele, perante a massa popular, alegando que êle prolongava e perdurava a guerra com o único fim de dominar e de acumular haveres, tendo em mãos quase toda a Cilicia, a Ásia, Bití-ma, Paflagônia, Galácia, o reino de Ponto, a Armênia, e todas as províncias existentes até o rio Fasis; afirmando que, não havia muito, saqueara as casas reais de Tigrano, como se só para saquear e despojar houvesse sido mandado, e não para abater e subjugar aqueles reis. Dizem que um dos arengueiros que fêz uso de tal linguagem foi Lúcio Quíncio, bem como o que mais induziu o povo a exigir que Lúculo fosse destituído do seu cargo e que o substituíssem no governo das províncias sob o seu poder. Pelo mesmo meio, foram dispensados de suas ocupações muitos dos que se achavam sob suas ordens, com permissão de voltar da guerra quando bem lhes parecesse.

Clódio aumenta o exército contra Lúculo.

LXVII. Além de todas estas enormes dificuldades, havia peste mais perigosa, que, mais do que todos os males reunidos, estragava os trabalhos de Lúculo: era Públio Clódio, homem insolente, difamador e temível, irmão da mulher de Lúculo, tida como tão desavergonhada e devassa, que mantinha relações carnais com seu próprio irmão. Indo Clódio ao acampamento de Lúculo, não recebeu as homenagens a que se julgava com direito, por haver ali, antes dele, outros considerados superiores, por não serem devassos e gozarem de boa reputação. À vista disso, por vingança, ele começou a subornar e a manejar as tropas fimbrianas, excitando-as contra Lúculo, com agradáveis promessas. Estes soldados, que se haviam habituado a elogios, e faziam questão de ser adulados, eram os mesmos que Fímbria induzira a matar o cônsul Flaco e a elegê-lo seu comandante. Razão por que prestaram-se de boa vontade aos propósitos de Clódio e passaram a chamá-lo de capitão gentil, amante dos seus soldados, ao ouvir-lhe esta fingida arenga: "Nunca vos achais ao fim de tantas fadigas e lutas, e gastais miseravelmente os dias, a guerrear ora uma nação, ora outra, errando por todos os climas, sem a menor recompensa, servindo únicamente de guardas às carroças e camelos de Lúculo, carregados de ouro, de prata e de pedras preciosas. Entretanto, os guerreiros às ordens de Pompeu já se acham descansando em suas casas, ao lado de suas esposas e filhos, sendo possuidores de boas terras, residindo em belas cidades, como grandes e ricos burgueses, sem precisar expulsar Mitrídates e Tigrano de seus reinos para desertos inabitáveis, sem precisar destruir e arrasar as casas dos reis da Ásia, mas com uma simples e pequena guerra na Espanha, contra degredados, e na Itália, contra escravos fugitivos. Devemos nós, perguntava êle, permanecer a vida inteira com os arneses às costas? Não é preferível, já que até agora escapamos da morte, que reservemos nossos corpos e nossas vidas àquele excelente comandante, que, à sua maior glória, prefere enriquecer a quantos se submetem ao seu comando?"

Triário é batido por Mitrídates.

LXVIII. Com estas sedições e calúnias, o exército de Lúculo ficou tão corrompido que os soldados não o quiseram mais acompanhar nem contra Tigrano, nem contra Mitrídates, que partiu sem demora para o seu reino de Ponto, e começou a reconquistá-lo, enquanto os soldados romanos, amotinados contra seu chefe, resolveram não agir na província gordiana, alegando o inverno, certos de que Pompeu ou qualquer outro comandante não demoraria a levantar o sítio, em substituição a Lúculo. Ao saberem, porém, que Mitrídates já havia derrotado Fábio, um dos tenentes de Lúculo, e que se dirigia contra Sornácio e contra Triário, envergonharam-se e fizeram-se conduzir por Lúculo. Triário, porém, muito presumido, ao saber que Lúculo se aproximava, quis arrebatar-lhe a vitória, considerando-a como certa; e, antes que ele chegasse, entrou em luta, sendo derrotado. Neste grande encontro morreram mais de sete mil soldados romanos, entre os quais cento e cinqüenta centunÕes, e vinte e quatro capitães de mil homens. Além disso, Mitrídates tomou-lhes o acampamento.

Os soldados de Lúculo recusam-se a segui-lo.

LXIX. Dias depois da derrota chegou Lúculo, que precisou esconder Triário, pois os soldados, furiosos, queriam matá-lo. Lúculo experimentou atrair Mitrídates à luta, coisa que este evitou, por achar-se à espera de Tigrano, que descia com poderosa força. À vista disso, Lúculo resolveu ir de novo ao encontro de Tigrano, para atacá-lo antes que ele se unisse às forças de Mitrídates. Mas, nem bem se pôs a caminho, as hostes fimbrianas rebelaram-se de novo, negando-se a segui-lo, alegando que, por decreto do povo, estavam licenciadas e quites com o seu juramento; que, à vista disso, não lhe cabia mais comandá-las, mesmo porque o governo das províncias que ele conquistara já havia sido entregue a outros. Lúculo procurou demovê-las, humilhando-se o mais possível, a ponto de implorá-las, com lágrimas nos olhos, que cumprissem o seu dever. Surdos, porém, a todas as súplicas, os fim-brianos jogaram-lhe aos pés as bolsas vazias, dizendo-lhe atrevidamente que fosse sozinho combater os inimigos, já que o seu cuidado sempre fora enriquecer à custa dos seus despojos. Todavia, graças à intervenção e pedido de outros soldados, os fimbria-nos prometeram permanecer a postos durante o verão, sob condição de, não sendo atacados até então, terem liberdade de dirigir-se para onde quisessem.

Insultos que lhe dirigem.

LXX. Colocado no duro dilema de aceitar a condição imposta ou ficar sozinho e entregar o país aos bárbaros, Lúculo reteve-os sem constrangimento e sem levá-los à luta, contentando-se com a sua permanência, embora se visse obrigado a permitir que Tigrano corresse e saqueasse a Capadócia, e que Mitrídates novamente o desafiasse, quando, sobre este, já havia escrito ao Senado que o exterminara por completo e pedido a presença de deputados e comissários de Roma, para cuidarem dos negócios do reino de Ponto, que considerava uma província seguramente conquistada para o império romano. Ao chegarem ao local, os deputados e comissários acharam não estar Lúculo em seu juízo perfeito, pois os próprios soldados zombavam dele por todos os modos, dirigindo-lhe insolências e insultos bastante pesados. Tão atrevidos se mostraram com seu comandante, e tamanho desprezo lhe demonstraram, que, ao chegar o fim do verão tomaram de suas armas, desembainharam escarnecedoramente as espadas e desafiaram os inimigos ao combate, sabendo que eles já haviam levantado acampamento. Depois, emitindo os gritos usados para entrar em luta, agitaram as espadas ao ar, fingindo combater, e retiraram-se do acampamento, alegando que o tempo prometido a Lúculo, de sua permanência ali, havia expirado.

Entrevista de Lúculo e Pompeu.

LXXI. Pompeu, por sua vez, escreveu aos veteranos que ainda se conservavam no acampamento que fossem ter com êle, pois já havia sido nomeado comandante em lugar de Lúculo, para guerrear Mitrídates e Tigrano, por mercê do povo, e pela indicação e louvores dos arengueiros de Roma. Isto desagradou imenso ao Senado e a todas as pessoas de bem e honestas, por acharem que faziam grande injustiça a Lúculo, mandando-lhe um sucessor, não das fadigas e riscos da guerra, mas sim da honra e da glória do triunfo, e obrigando-o a ceder a outrem, não o posto de comando, e sim o prêmio e as honras que lhe pertenciam, pelos trabalhos realizados. O fato, porém, pareceu ainda mais iníquo e mais indigno aos habitantes das regiões conquistadas, porque, nem bem chegou à Ásia, Pompeu cassou-lhe o direito de castigar ou recompensar quem quer que fosse, por bons ou maus serviços prestados nesta guerra à coisa pública, e proibiu, por meio de avisos fixados em lugares públicos, que se dirigissem a Lúculo e que obedecessem ao que êle e os dez comissários enviados para administrar as províncias conquistadas determinassem ou ordenassem. Pompeu foi por êle temido, por achar-se com um exército maior e mais poderoso que o seu. Todavia, os amigos de ambos resolveram intervir; reuniram-se em um burgo da Galácia, onde acolheram os dois, que se cumprimentaram amavelmente e rememoraram os belos feitos e as gloriosas vitórias por eles alcançadas.

Eles separam-se muito mal entendidos.

LXXII. Lúculo era mais velho, porém, Pompeu separava-o em importância, por haver sido comandante-geral do povo romano em várias guerras, nas quais triunfara duas vezes. Os feixes de varas que os sargentos carregavam diante deles, achavam-se rodeados de ramos de louro, pelas vitórias que haviam obtido; os dos sargentos de Pompeu achavam-se secos, porém, devido ao longo trajeto realizado por regiões áridas e quentes; os dos de Lúculo apresentavam-se verdes e foram colhidos de fresco, coisa que os amigos de Pompeu consideraram de bom aviso e feliz presságio. E não se enganaram, porque os feitos de Lúculo deram lugar às vantagens conquistadas por Pompeu a seguir. Não obstante tudo isso, o fato de haverem confabulado juntos não os tornou melhores amigos; pelo contrário, separaram-se mais indiferentes que dantes. Pompeu, por um édito, cassou e anulou todas as ordens de Lúculo; e, retirando-lhe todos os guerreiros, deixou-lhe apenas mil e seiscentos homens para acompanhar seu triunfo, coisa que, assim mesmo, fizeram de má vontade. Seja por natureza ou por capricho da sorte, Lúculo era falho no que concerne a um grande comandante, para tornar-se querido dos seus subordinados. Se possuísse esta perfeição, de par com tantas outras excelentes virtudes de que era dotado, como a magnanimidade, a prudência, o bom senso, a diligência e a justiça, o no Eufrates não teria sido o limite derradeiro do império romano do lado da Ásia, e ter-se-ia estendido até ao fim do mundo, embora Tigrano já tivesse vencido as outras nações situadas além, exceto a dos partas, que não era tão poderosa nem tão unida como se mostrara ao tempo de Crasso, e sim fraca e desunida, devido aos dissídios reinantes entre os seus habitantes, às guerras que os seus vizinhos lhe faziam, e à impossibilidade de enfrentar as provocações dos armênios.

Digressões sobre a posterior expedição de Crasso contra os partas.

LXXIII. Considerando as coisas como elas se apresentam, parece-me que Lúculo, com as suas conquistas, causou mais prejuízos que lucros ao seu país; porque, os troféus e vitórias que êle alcançara na Armênia, tão perto dos partas, a cidade de Tigranocerta, a de Nísibis, que êle saqueara, fazendo transportar as riquezas para Roma, o diadema de Tigrano, que foi levado em triunfo como prisioneiro, instigaram Crasso a transferir-se para a Ásia, convencido de que os bárbaros não passavam de simples despojos e de presas postas à disposição de quem as quisesse apanhar. Mas, vendo-se, ao chegar, desbaratado pelas flechas dos partas, êle serviu de testemunha e prova que Lúculo não os venceu por falta de senso ou cobardia dos mesmos, e sim por ser corajoso e sensato. É o que se verá depois.

Lúculo obtém a custo a honra do triunfo.

LXXIV. De regresso a Roma, Lúculo deu com seu irmão Marcos acusado, por um tal Gaio Mênio, de faltas cometidas como questor, ao tempo de Sila e por ordem deste, e das quais fora plenamente absolvido, por sentença unânime dos juizes. Irritado com isto, Mênio despejou sua cólera contra Lúculo, sublevando o povo, sob a alegação que o grande cabo de guerra havia retido e roubado grandes riquezas que deviam ser entregues ao erário público, e que só para satisfazer às suas necessidades prolongara a guerra. E incitou o povo a recusar-lhe, unanimemente, as honras do triunfo. Lúculo esteve em risco de ser desdenhado. Mas as pessoas honestas da cidade, e de maior autoridade, misturaram-se com a plebe, quando esta teve de opinar, e tanto suplicaram e instaram que, por fim, a custo, o povo permitiu-lhe entrar na cidade triunfalmente.

Descrição do seu. triunfo.

LXXV. A entrada triunfal de Lúculo na cidade não teve o aparato enfadonho, nem a quantidade de pessoas e coisas notadas, até ali, em solenidades tributadas a outros comandantes. O parque das pelejas, que em Roma denominam de Circo Flamínio, ele fizera enfeitar com numerosas armas tomadas aos inimigos, e com máquinas e instrumentos de bateria do rei, muito agradáveis à vista, sob o cuidado de certo número de seus guerreiros, devidamente armados, vendo-se dez carros de guerra, dotados de foices usadas, e sessenta dos principais amigos e comandantes dos dois reis, que foram levados prisioneiros para ali. Notavam-se ainda: cento e dez galeras, tendo na proa grandes esporões de cobre; uma estátua de Mitrídates, toda de ouro, de seis pés de altura, com um rico escudo crivado de pedras preciosas; vinte casinholas cheias de baixelas de prata; trinta e duas casinholas cheias de arneses e vasos de ouro, bem como de moedas de ouro, que alguns homens carregavam seguidos de oito mus conduzindo leitos de ouro; cinqüenta e seis outros mus, que carregavam prata fundida em quantidade; além de outros cento e sete destes animais, que levavam moedas de prata num total de dois milhões e setecentas mil dracmas. Havia, além disso, registros discriminados das quantias que ele fornecera a Pompeu para a guerra aos corsários, e aos questores e tesoureiros gerais, para serem depositadas nos cofres do erário público; e, a seguir, em documento separado, a entrega, que ele fizera, de novecentas e cinqüenta dracmas a cada gerreiro.

Êle despreza Clódia para casar com Servília, que despreza a seguir.

LXXVI. Depois da demonstração deste triunfo, ele realizou uma festa geral, com o concurso de toda a cidade e das aldeias dos arredores, que os romanos denominam Viços. Em seguida ele divorciou-se de sua mulher Clódia por sua desonestidade e mau comportamento, e casou com Servíha, irmã de Catão, com a qual não foi mais feliz; porque, exceção feita de não ser acusada de haver sido poluída e incestada por seus próprios irmãos, ela era tão desonesta, voluptuosa e dissoluta como a primeira. Todavia ele conformou-se em aturá-la durante algum tempo, pela estima que consagrava a seu irmão. Mas, por fim, ele abandonou-a e divorciou-se.

Êle abandona os afazeres, para descansar.

LXXVII. Tendo, por fim, inspirado admirável confiança ao Senado, que pensou valer-se dele para enfrentar a tirania de Pompeu e obrigar o povo a respeitar a autoridade e nobreza do Senado, graças à autoridade e grande reputação que conquistara por seus elevados feitos guerreiros, não foi sem profunda admiração que o viram alhear-se por completo dos negócios públicos e recolher-se à vida privada. Houve quem lhe aprovasse a resolução, atendendo ao estado de decadência em que se achava a administração pública, bem como quem a atribuísse ao excesso de honrarias que lhe foram prestadas, e à injustiça da sua substituição, depois de tanto trabalho e sofrimento. Embora não procedesse como Mário, nem lhe seguisse o exemplo, o seu procedimento não deixou de ser considerado justo por muitos. Mário, depois das belas vitórias alcançadas contra os cimbros, e de outros elevados e felizes feitos de armas, não quis recolher-se à vida privada e gozar das honras da glória; ao contrário, sedento de mando, ligou sua velhice à cobiça desenfreada de jovens que o compeliram a praticar violências estranhas e mesmo desumanas. Cícero também teria envelhecido mais feliz, se, depois de haver extinto a conspiração de Catilina, se tivesse recolhido ao descanso; o mesmo aconteceria a Cipião, se o houvesse feito depois de haver acrescentado a tomada da cidade de Numância à de Cartago. Dizem, com razão, que, atingida uma determinada idade, o homem sensato não deve mais imiscuir-se nos negócios públicos, porque passada a flor da idade e o vigor do corpo, êle não está mais apto para as disputas, para a luta e outros afazeres semelhantes.

Considerações sobre a magnificência e as delícias em que passou o resto de sua vida.

LXXVIII. Crasso e Pompeu zombaram de Lúculo, por entregar-se aos prazeres e à volúpia, como se a vida voluptuosa e prazenteira não fosse mais estafante aos de sua idade que o comando de um exército ou a direção dos negócios públicos. Lendo-se a vida de Lúculo, tem-se a impressão de se estar lendo uma comédia antiga, de começo muito laborioso e fim alegre. Sim, porque, de início são encontrados belos feitos de armas, em guerra, e de governo, em tempo de paz; mas no fim só há festas e banquetes, pouco faltando que não apareçam também macaquices, danças com archotes, e outros folguedos próprios de rapazes. Coloquem-se ainda, na relação das coisas aprazíveis, seus soberbos edifícios, seus belos passadiços para passeios, suas estufas, além de seus quadros e pinturas, suas estátuas, e a grande admiração que ele tinha por tais artes e trabalhos, provindos de toda parte, em profusão e a preços elevados, valendo-se, desmedidamente, da riqueza que conquistara a mancheias em cargos que exercera e guerras que conseguira vencer. Agora, que a abastança cresceu de maneira assombrosa, notam-se também os jardins que Lúculo mandou executar, tão lindos e encantadores como os possuídos pelos imperadores. Ao ver os admiráveis trabalhos que ele mandou executar ao longo da praia, perto de Nápoles, escavando vales e perfurando montanhas, para fazer o mar contornar-lhe as casas e poder criar peixes, e os edifícios que ele mandou alicerçar dentro do próprio mar, o filósofo estóico Túbero denominou-o Xerxem Togatum, como a chamá-lo Xerxes Romano, porque Xerxes fez perfurar o monte de Ato e abrir um canal, para a passagem dos seus navios.

LXXIX. Havia outros lugares aprazíveis em Roma, perto de Túsculo, onde Lúculo possuía grandes aposentos e galerias, de onde se descortinavam todos os panoramas dos arredores da cidade. Tendo ah estado algumas vezes, Pompeu reprovou-lhe o gosto, alegando que tudo aquilo condizia muito bem para o verão, nunca, porém, para o inverno. Lúculo desandou a rir, e respondeu-lhe: ‘Achas, então, que eu tenha menos juízo e inteligência que as cegonhas e os grous, e não saiba, de acordo com as estações, mudar de residência?" Outra ocasião, promovendo ali diversões para entreter o povo, certo pretor romano pediu-lhe que lhe emprestasse mantos de púrpura, para enfeitar os folgazões, e Lúculo respondeu-lhe que ia mandar ver se os possuía. No dia seguinte perguntou-lhe de quantos precisava, recebendo, em resposta, necessitar de algumas centenas. Lúculo, então declarou-lhe que lhe forneceria até cinco mil, se os possuísse. Fazendo o cálculo, o poeta Horácio emite uma bela exclamação contra a superfluidade, declarando que se dá valor à casa pequena e modesta, unicamente dotada dos móveis indispensáveis, onde o dono só sabe o que possui do que lhe está sob os olhos e não do que está escondido.

Boas palavras de Lúculo sobre os gastos e a fartura de sua mesa.

LXXX. Lúculo também eia pródigo nas suas refeições vulgares. A mesa era forrada de ricas Icalhas purpurinas, e ele era servido em baixelas de ouro e de prata, enriquecidas de pedras preciosas, sendo as refeições geralmente alegradas por danças, músicas, comédias e outros passatempos semelhantes. Diariamente serviam-lhe toda espécie de carnes muito bem preparadas, manjares de forno, doces deliciosos e sobremesas, o que o tornavam admirado pelas pessoas de pouca cultura e de baixa condição social. Eis porque Pompeu foi muito louvado pelo que disse ao médico, quando doente, ao ser-lhe ordenado que comesse um tordo ou peixe labróide. Como os criados lhe dissessem que tal peixe só poderia ser obtido com Lúculo, que os criava o ano todo, visto, acharem-se no verão, Pompeu proibiu-os que lho fossem pedir, e falou ao médico: "Como!. . . Se Lúculo não o tivesse, Pompeu deixaria de viver?" E ordenou que lhe preparassem outra qualquer coisa, das facilmente encontradas.

Êle dá ceia a Cícero e a Pompeu na sala de Apolo.

LXXXI. Catão era seu amigo e aliado, mas detestava tanto a sua maneira de viver e os seus gastos comuns, que um dia, tendo um moço proferido uma longa e fastidiosa arenga no Senado, fora de tempo e descabida, a respeito da simplicidade, sobriedade e temperança no modo de vida dos indi víduos, não podendo mais suportá-lo, pôs-se de pé e disse-lhe: "Não acabarás, hoje, de nos censurar tu que és rico como um Crasso, que vives como um Lúculo, e falas como um Catão?" Há os que dizem que isto foi proferido, não, porém, por Catão. O que não deixa dúvidas, porém, atendendo às alega çôes de Lúculo, é que ele sentia imenso prazer em viver na opulência, e vangloriava-se disso. Contam a tal respeito, que, tendo êle festejado durante vários dias, em sua residência, alguns personagens gregos que foram da Grécia a Roma, eles, habituados à vida simples e sóbria de sua terra, negaram-se a voltar para ah, quando os foram convidar, convencidos de que era em sua homenagem que Lúculo despendia tanto dinheiro nos banquetes. Avisado disso, Lúculo disse: "Não deixeis, senhores, de vir ver-me, por isso, embora se faça alguma coisa mais que o do costume, em vossa honra. Quero, entretanto, que saibam, que a maior parte dos gastos é feita em atenção a Lúculo". Certa vez, que êle jantou sozinho, os criados não se esmeraram no arranjo da mesa. Êle zangou-se, mandou chamar o criado que assim procedeu, e que lhe disse: "Como o senhor não mandou convidar ninguém, julguei desnecessário grande aparato no jantar". A isto Lúculo observou-lhe: "Então não sabias que Lúculo jantaria hoje com Lúculo?"

Biblioteca de Lúculo.

LXXXII. A rapidez era coisa tão difícil na cidade de Roma, que causava admiração vê-la existir na casa de Lúculo, em meio a tanta pompa e magnificência, e era assunto forçado em todas as rodas. Querendo tirar a prova do que se dizia, Cícero e Pompeu, vendo-o um dia na praça, a espairecer, foram-lhe ao encontro. Cícero era um dos seus maiores e íntimos amigos, e Pompeu, apesar das divergências que tiveram em assuntos de guerra, não deixava de visitá-lo e de confabular com êle muito amavelmente. Depois dos cumprimentos de praxe, Cícero perguntou-lhe se era do seu agrado que eles o fossem visitar. "Do maior agrado do mundo, respondeu-lhe êle, peço-lhes encarecidamente que o façam". "Nós desejamos então, disse Cícero, Pompeu e eu, jantar hoje contigo, sob condição de nada mandares preparar de extraordinário. Queremos a comida usual". Lúculo respondeu-lhe que iriam passar muito mal, e que melhor seria deixarem a visita para o dia seguinte. Eles não concordaram, e não consentiram que êle falasse com seus criados, para impedir que ordenasse o preparo de mais alguma coisa, embora para seu uso. Todavia, a seu pedido, eles só permitiram que, em sua presença, e em voz alta, êle dissesse a um dos seus criados que jantaria, aquela tarde, na Apolo. Era como se chamava uma das mais suntuosas e magníficas salas do seu domicílio. Com estas poucas palavras, e sem que eles percebessem, êle enganou-os muito delicadamente, porque cada sala tinha uma dotação determinada e certa da despesa que devia ser realizada, sempre que ah se jantava, seus móveis próprios e toda a ordem do serviço. De modo que, declarada a sala em que ele desejava jantar, os criados sabiam quanto deviam gastar no mesmo, e a ordem que deviam observar. E, como ele costumava despender a quantia de cinqüenta mil dracmas, quando dava banquete naquela sala, e o jantar, naquele dia, custou tal importância, Pompeu ficou pasmo de ver como um jantar, de custo tão elevado, tivesse sido tão rapidamente preparado.

Apego de Lúculo à antiga seita dos acadêmicos.

LXXXIII. Se, nisto, Lúculo desperdiçava desordenada e reprovàvelmente a sua riqueza, tornando-se um verdadeiro escravo da ostentação, muito honesta e louvável era a despesa que fazia com a aquisição e encadernação de livros, que conseguiu reunir em grande quantidade, e dos melhores escritos, para fim muito elevado e digno dos maiores elogios. Suas bibliotecas estavam sempre abertas a todos os visitantes, sendo permitida a entrada aos gregos, sem exceção, nas galerias, pórticos e outros lugares disputados, onde os homens doutos e estudiosos geralmente se encontravam e passavam o dia a discorrer, como na casa das musas, felizes de poderem se desvencilhar dos seus afazeres para ir para ali. Êle mesmo freqüentemente misturava-se com os visitantes nas galerias, sentindo prazer em comunicar-se com eles, e em ajudar aos que tinham ocupações, em tudo quanto lhe pedissem. Sua casa tornou-se logo o retiro e amparo de quantos iam da Grécia a Roma.

Pompeu reúne-se a Crasso e César, para expulsar da praça pública Catão e Lúculo

LXXXIV. Êle apreciava todas as espécies de filosofia e nao desprezava nenhuma seita. Desde o início, porém, apreciou e dispensou mais consideração à seita acadêmica, não à nova, embora estivesse muito em voga, devido às obras de Carneades, que Filo valorizava, e sim à antiga, que tinha por defensor Antíoco, filósofo natural da cidade de Ascalão, eloqüente e de palavra fácil, que Lúculo procurou conquistar e mantê-lo em sua casa, como amigo íntimo. Isto para contrapô-lo aos ouvintes e aderentes de Filo, entre os quais se achava Cícero, que escreveu um belíssimo livro contra a seita dos velhos acadêmicos, no qual figura Lúculo sustentan-do-lhes a opinião de que todo homem sabe e compreende alguma coisa, que denomina Catalepsin.

Cícero sustenta o contrário. O livro intitula-se Lúculo, pois, como já dissemos alhures, eles eram bons e grandes amigos, e tendiam ao mesmo fim, na direção dos negócios públicos. Cedendo lugar a Crasso e a Catão, e retirando-se à vida privada, Lúculo não o fêz no firme propósito de nunca mais se envolver em postos de mando e nem querer ouvir falar neles; apenas ambicionou dedicar-se a afazeres de sua exclusiva alçada, isentos de perigos e de grandes indignidades.

Subornam um patife, para declarar que Lúculo havia-o induzido a assassinar Pompeu.

LXXXV. Tendo Lúculo recusado este primeiro posto de confiança e de autoridade, o Senado valeu-se de Crasso e de Catão, para deter e moderar o enorme poder de Pompeu, que era tido como suspeito. Lúculo, porém, sempre que solicitado, comparecia às reuniões e julgamentos populares, para satisfazer a seus amigos. Também ia ao Senado, quando se tratava de pulverizar qualquer intriga ou de reprovar qualquer atuação ambiciosa de Pompeu, pois este anulara todos os atos e decretos que ele emitira depois da derrota dos reis Mitrí-dates e Tigrano, e, auxiliado por Catão, proibiu a divisão e distribuição de dinheiro, que ele havia determinado fosse feita aos seus guerreiros. À vista disso, Pompeu precisou valer-se da amizade, ou melhor, da trama de Crasso e de César, com o auxílio dos quais encheu Roma de armas e de soldados, expulsou dali Lúculo e Catão, por meios violentos, e obrigou o povo a aprovar e validar tudo quanto quis.

Morte de Lúculo.

LXXXVI. Ante a indignação causada às pessoas dignas e honestas, pela expulsão afrontosa daqueles dois personagens, os partidários de Pompeu subornaram um tal Bruciano, declarando havê-lo surpreendido de tocaia, à espera de Pompeu, para matá-lo. Interrogado a respeito no Senado, Bruciano acusou algumas pessoas, e perante o povo apontou Lúculo como mandante do assassínio de Pompeu. Ninguém lhe deu crédito, pois todos perceberam haver sido ele subornado pelos partidários de Pompeu para acusar falsamente Lúculo e outros adversários daquele cabo de guerra. Isto tornou-se mais patente ainda, quando, dias depois, jogaram o cadáver de Bruciano a rua, fora da prisão, alegando que sua morte fora natural, originada por moléstia; mas, os sinais visíveis do seu estrangulamento, e das pancadas que lhe desferiram, não deixaram dúvida de que foram os próprios subor-nadores que o mataram.

LXXXVII. Isto induziu Lúculo a afastar-se ainda mais dos negócios públicos; e, ao ver exilarem indignamente Cícero, e afastarem Catão do governo, sob o fundamento de ser indispensável numa missão especial na ilha de Chipre, abandonou-os definitivamente. Escrevem alguns que ele assim procedeu porque, pouco antes de sua morte, devido à idade, ele foi perdendo aos poucos o juízo. Diz Cornélio Nepos que não foi por velhice nem por doença que ele se transtornou, mas sim por peçonha que lhe ministrou um dos seus escravos libertos, chamado Calístenes, que o fez não mal intencionado e sim convencido de que tal veneno tivesse o poder de torná-lo mais querido a seu amo. O caso é que Lúculo ficou com o juízo tão perturbado, que seu irmão Marcos, enquanto ele viveu, tornou-se seu curador e administrou-lhe os bens. A sua morte foi muito sentida pelo povo, que acorreu em massa aos funerais, a fim de prestar-lhe as últimas homenagens. O corpo foi levado ao túmulo pelos jovens mais nobres da cidade, exigindo o povo que fosse inumado no campo de Marte, do mesmo modo por que o foi Sila. Como ninguém tivesse pensado nisso, e os preparativos indispensáveis não fossem fáceis, Marcos pediu ao povo que os funerais fossem realizados em terras que possuía perto da cidade de Túscuío, onde sua sepultura havia sido preparada, e que ele mesmo escolhera. Sepultado Lúculo com todas as honras merecidas, seu irmão, que sempre o amara muito, não lhe sobreviveu durante longo tempo.


Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

nov 082010
 
Arte etrusca

VIDA DE CIMON por Plutarco – Ebook parte das Vidas Paralelas

 

CÍMON

(em grego: Κίμων, transl. Kímon, Atenas, c. 510 a.C. – Cítio, 449 a.C.) estadista e general ateniense, Grécia Antiga)

Desde o ano 500 até o ano 449 antes de Jesus Cristo.

O profeta Peripoltas estabelece-se em Queronéia.

O profeta Peripoltas, que conduziu de Tessália à Beócia o rei Ofeltas (1) com os povos que lhe estavam subordinados, deixou uma celebridade que perdurou no país, principalmente na cidade de Queronéia, por ter sido a primeira que conquistaram aos bárbaros, que eles expulsaram. Sendo os indivíduos desta raça muito corajosos e naturalmente propensos às armas, tanto se arriscaram nas lutas invasoras dos medos pela Grécia e nas guerras contra os gauleses, que sucumbiram quase todos, escapando apenas um òrfãozinho de pai e mãe, chamado Damão, e sobre-nomeado Peripoltas, que sobrepujou todos os outros jovens de seu tempo em estatura e coragem, ainda que tão fortes, tão violentos e tão severos como êle.

Damão conspira contra o capitão de uma guarnição romana em Queronéia, e mata-o.

II. Aconteceu que, ao sair da infância, um romano, capitão de umas tropas que se achavam na cidade de Queronéia, para ali passarem o inverno, agradou-se dele; e, não conseguindo atraí-lo por meio de súplicas e de donativos, resolveu conquistá-lo pela força, certo de que a cidade de Queronéia, fraca e pobre como era, não se revoltaria. Receoso de que tal acontecesse, o que seria desonroso para ele, Damão resolveu preparar-lhe uma emboscada; e, agindo com a maior cautela, conseguiu que alguns companheiros, em número reduzido, conspirassem com ele contra o capitão. Foram dezesseis ao todo. Certa noite borraram o rosto com fuligem, e na manhã seguinte, ao romper do dia, lançaram-se sobre o romano, que executava um sacrifício na praça, matando-o com bom número de pessoas. Isto feito fugiram da cidade, que ficou bastante alvoroçada com o acontecido. Reunido o conselho pelo prefeito de Macedónia, Damão e seus cúmplices foram condenados à morte, como testemunho de desagravo e de satisfação aos romanos. Na mesma noite, porém, quando todos os magistrados e oficiais da cidade ceavam juntos no palácio, como de costume, Damão e seus partidários entraram de improviso no lugar em que eles estavam, mataram todos, e de novo fugiram da cidade.

Êle mesmo é morto a traição.

III. Mais ou menos nessa ocasião, aconteceu passar pela cidade de Queronéia, à frente de seu exército, Lúcio Lúculo, para uma diligência qualquer: e, como o acontecimento era de data recente, ele deteve-se alguns dias, para se inteirar do fato e conhecer a verdade. Chegou à conclusão que a população da cidade nenhuma culpa tinha no caso, e que, pelo contrário, também ela havia sido ultrajada. Razão por que prendeu todos os soldados que se achavam fora da guarnição, levando-os consigo. Enquanto isso, Damão vagueava tranqüilamente pelos arredores da cidade. Por fim, os habitantes resolveram mandar pessoas ao seu encontro; e, com boas maneiras e sentenças favoráveis, conseguiram fazê-lo voltar. Nomearam-no gina-siarca, isto é, professor de exercícios da mocidade. Pouco depois, num dia em que, completamente nu, ele se fazia untar de óleo em um banheiro, mataram-no a traição. Como durante muito tempo aparecessem espíritos naquele lugar, ouvindo-se gemidos e suspiros, conforme relatam nossos pais, foi ele interditado, sendo murada a porta do banheiro. Todavia, os que moram nas imediações dizem ver visões e ouvir palavras e gritos assustadores. Os descendentes deste Damão (pois ainda os há de sua raça na Fócida, perto da cidade de Estíris, que conservam o modo de agir e a língua dos eólios) são chamados abolomênios, isto é, os lambuzados de fuligem, por terem Damão e seus companheiros lambuzado o rosto de fuligem, quando se lançaram sobre o capitão romano.

Os orcomênios acusam os de Queronéia ao prefeito da Macedónia do assassinato cometido por Damão; o testemunho de Lúculo absolve-os, e eles levantam-lhe uma estátua.

IV. Sendo os orcomênios vizinhos dos que-rônios, mas vizinhos inimigos, elogiaram um advogado romano, caluniador, que acusou a população toda da cidade do assassínio de romanos, praticado por Damão e seus cúmplices. Como os romanos ainda não tivessem governadores na Grécia, instaurado o processo a causa foi contestada perante o governador da Macedónia, e os advogados, que defendiam os habitantes de Queronéia apelaram para o testemunho de Lúcio Lúculo, alegando ser ele perfeito conhecedor do ocorrido. O governadcr escreveu-lhe, obtendo dele o relato da verdade. Foi como nossa cidade venceu a causa, que de outro modo levá-la-ia à ruína. Tendo escapado de tão grande perigo, graças ao testemunho de Lúculo, os habitantes de Queronéia quiseram demonstrar-lhe o seu reconhecimento, e ergueram-lhe uma estátua próxima à de Baco.

Plutarco escreve a vida de Lúculo, em sinal de gratidão dos seus concidadãos ao grande benefício que lhes prestara.

V. Embora estejamos muitos anos e séculos afastados daqueles tempos, presumimos que o seu benefício se estenda até nós, que somos da época atual; e, embora sejamos de opinião que a imagem e o retrato que perpetuam o caráter e as virtudes das pessoas falam mais do que na realidade merecem, enfeixaremos nesta obra das Vidas dos Homens Ilustres, comparando-os, seus atos e seus feitos; escrevendo unicamente a verdade. Acreditamos que eles mesmos reprovariam qualquer narração falsa e controvertida que se fizesse, ainda que fosse em seu favor. Entretanto, como acontece com os retratos, que às vezes enfeiam as pessoas mais belas e outras embelezam as feias, se o acaso lhes fizer deparar feiuras e imperfeições nos nossos estudos, não as desprezem de todo, lembrando-se de que não há no mundo personagem de vida totalmente inocente e irrepreensível. Eles têm por fim pôr em relevo as virtudes realmente praticadas, para que nos sirvam de exemplo. As faltas e os erros que apareçam de permeio às suas boas ações, às suas paixões ou aos seus constrangimentos em bem da coisa pública devem ser considerados como defeitos e imperfeições de virtude mal apurada, ao invés de produtos de perversidade e de malícia. A natureza não produziu, até hoje, um homem tão perfeito e tão virtuoso do qual nada se tenha a reprovar.

Êle comparou-o a Damão, por não encontrar melhor comparação. Diversos traços de semelhança entre o grego e o romano.

VI. Pensando, pois, a quem eu poderia comparar Lúculo, pareceu-me dever fazê-lo a Cimon, porque ambos foram valentes e belicosos contra os inimigos, tendo praticado belos e grandes feitos de armas sobre os bárbaros; ambos foram clementes e afáveis para com seus concidadãos, sendo os principais fatores da pacificação das guerras e lutas civis em seus países, e vencedores de três gloriosas lutas contra os bárbaros. Nenhum comandante grego, antes de Cimon, nem romano antes de Lúculo, foi guerrear tão longe. Pelo menos, exceção feita dos monumentos comemorativos das façanhas de Baco e de Hércules, dos sucessos de Perseu contra os etíopes, medos e armênios, e dos de Jasão, nenhum outro existe, oriundo daqueles tempos, que prove o contrário. Eles têm ainda de comum, o fato de haverem conduzido a termo suas empresas, vencendo e enfraquecendo os adversários, sem arruiná-los nem destruí-los completamente. Nota-se entre ambos grande semelhança de sentimentos quanto à honestidade, cortesia e deveres de humanidade com que agiam, ao receberem e tratarem os estrangeiros em suas casas, e na magnificência, suntuosidade e opulência de sua vida e conduta usual. Outros traços de semelhança serão dados no decurso de sua história.

Nascimento, mocidade e caráter de Cimon.

VII. Cimon era filho de Milcíades e de Hegesípila, de origem traciana e filha do rei Oloro, conforme referem algumas composições poéticas, escritas por Melâncio e Arquelau sobre Cimon. O pai do historiador Tucídides, parente de Cimon, também chamava-se Oloro, o que demonstra ser o rei um dos seus ancestrais. Possuía minas de ouro na Trácia, no lugar denominado floresta coveira, onde foi assassinado. Suas cinzas e seus ossos foram transportados para a Ática, vendo-se ainda seu túmulo entre as sepulturas da família de Cimon, junto da de Elpinice, irmã deste. Todavia, Tucídides era do burgo de Alimo e Milcíades do de Lácia. Tendo sido condenado ao pagamento da multa de cinqüenta talentos (1), na falta de pagamento Milcíades foi encarcerado e morreu na prisão, deixando Cimon na orfandade, criança ainda, com sua irmã, pouco mais idosa que êle. Nos seus primeiros anos de mocidade, Cimon conquistou má fama na cidade, sendo considerado dissoluto, beberrão, tal qual seu avô, também chamado Cimon, que, por suas asneiras, era apelidado Coalemos, isto é, o Maluco. Estesimbroto, do mesmo modo que Tasiano, que existiu na época de Cimon, escreveu que Cimon nunca aprendeu nem a música, nem qualquer das outras artes que costumavam ensinar às crianças de boa família na Grécia, e que ele não possuía nem a vivacidade de espírito, nem a graça de falar, características das crianças nascidas na Ática: não obstante, ele era de índole generosa, magnânima, em que não havia nenhuma simulação nem fingimento, e a sua maneira de agir tinha mais de pelo-ponésio do que de ateniense. Era o que o poeta Eurípides disse de Hércules:

Um tanto monstruoso e sem nenhum adorno,
Homem de bem, no mais, inteiramente.

Má conduta de Cimon e de sua irmã; casamento desta.

VIII. Isto pode ser acrescentado ao que, muito acertadamente, Estesimbroto escreveu dele. Todavia, em sua primeira mocidade desconfiou-se que ele tivesse relações carnais com sua irmã, que não tinha boa reputação, pois pecava em sua honra com o pintor Pol ignoto, que resolveu pintar as senhoras troianas escravas nas paredes do Pórtico, então denominado Plesianação e atualmente Peciíe, isto é, enriquecido de diversas pinturas. E, ao que dizem, ele reproduzia o rosto de Laodice inspirado em Elpinice. Não sendo mercenário, prestou gratuitamente este benefício à coisa pública, conforme testemunharam todos os historiadores da época e o próprio poeta Melâncio declarou nestes versos:

À sua custa, sem qualquer auxílio,
Êle enfeitou nossa praça pública,
E adornou os santos templos dos deuses,
Ali pintando os feitos dos semi-deuses.

Todavia há os que dizem que Elpinice não morava clandestinamente e sim às escâncaras com seu irmão Cimon, como sua mulher, legitimamente desposada, visto não ter ela encontrado marido de posição tão nobre como a sua, devido à sua pobreza: mas que depois, um tal Cálias, que era dos mais ricos e opulentos da cidade, pediu-a em casamento, prontificando-se a pagar a multa a que fora condenado seu pai Milcíades, se lhe cedesse a mulher. Cimon aceitou a proposta e entregou-a em casamento. Contudo, é inegável que Cimon tenha estado um tanto preso ao amor e às mulheres. O poeta Melâncio, gracejando, em algumas elegias refere-se a uma Astéria, natural de Salamina, e à outra denominada Mnestra, pelas quais Cimon se enamorou. E fora de dúvida, porém, ser êle muito afeiçoado a sua legítima esposa Isodice, filha de Euriptolemo e neta de Mégacles, que teve uma morte muito penosa, conforme se depreende das elegias que lhe foram dedicadas após o falecimento.

O filósofo Panécio afirma que tais elegias, muito de acordo com a época, foram escritas pelo físico Arquelau.

Belas qualidades de Cimon.

IX. Quanto ao mais, os costumes e o temperamento de Cimon eram dignos dos maiores louvores, pois ele, não sendo inferior a Milcíades em audácia, nem a Temístocles em bom senso e sabedoria, foi mais justo e mais honesto que ambos; não sendo inferior a eles, como guerreiro e valoroso comandante, excedeu-os extraordinariamente como bom governador e administrador dos negócios da cidade, embora muito moço e não experimentado na guerra. Quando, à chegada dos medos, Temístocles, aconselhou o povo de Atenas a sair da cidade, a abandonar suas terras e o seu país, para embarcar em gôndolas e ir combater os bárbaros através do estreito de Salamina, como todos se mostrassem pasmos de tão ousado quão arriscado conselho, Cimon foi o primeiro a seguir, pela rua do Cerâmico, para o castelo, de cara alegre, com outros jovens e amigos, empunhando um pedaço de rédea, a fim de consagrá-lo e oferecê-lo à deusa Minerva. Quis, assim, significar, que a cidade por enquanto não precisava de cavaleiros, e sim de marinheiros. Depois de fazer sua oferenda, tomou um dos escudos que se achavam dependurados nas paredes do templo, dirigiu sua prece a Minerva, foi ao porto, e animou e decidiu a maior parte dos cidadãos a deixar a terra e seguir para o mar. Além disso, êle era bonito, conforme declara o poeta Ion, de belo porte, de cabelos ondulados e espessos. Portou-se tão bem e tão valentemente no dia do combate, que logo adquiriu grande fama, consideração e estima de todos; tanto assim que não poucos seguiam-lhe os passos, a incutir-lhe coragem e a induzi-lo a praticar atos condizentes com a glória conquistada por seu pai na jornada de Maratona.

Entrada de Cimon na administração.

X. Logo que ele começou a intervir na direção dos negócios públicos, o povo recebeu-o com grande alegria, pois já estava enfastiado de Temís-tocles. Cimon foi sendo progressivamente elevado aos postos de maior destaque e responsabilidade da cidade, tornando-se muito querido do povo, graças à sua bondade e à sua modéstia. Seja por ter visto nele um caráter reto e inabalável, ou porque quisesse contrapô-lo ao astuto e audaz Temístocles, Aristides foi-lhe de grande valia nos rápidos acessos. Quando os medos fugiram da Grécia, deixando a cidade de Atenas desgovernada, e visivelmente submetida às ordens de Pausânias e dos lacedemônios, Cimon, escolhido pelos atenienses para comandante da marinha, em todas as viagens realizadas manteve os seus subordinados em admirável boa ordem, bem equipados e sempre prontos a agir. Pausânias desde logo procurou entendimentos com os bárbaros, para trair a Grécia, e escreveu nesse sentido ao rei da Pérsia, tratando, nesse ínterim, grosseira e atrevidamente os aliados e confederados de sua terra, pratticando muitas arbitrariedades, atendendo à grande autoridade de que estava revestido. Cimon, pelo contrário, recebia bondosamente os que Pausânias maltratava, ouvindo-os humanamente e falando-lhes com delicadeza, sem se preocupar com o fato de ter sido ele quem arrancou a soberania da Grécia das mãos dos lacedemônios, entregando-a aos atenienses, não pela força das armas, mas pela meiguice, pela maneira sensata de agir, e por sua bondade. Não podendo mais suportar o orgulho e os maus tratos de Pausânias, a maior parte dos aliados submeteu-se voluntariamente às ordens de Cimon e de Aristides, que não só os receberam como escreveram aos membros do conselho dos lacedemônios que chamassem Pausânias, porque ele desonrava Esparta e punha toda a Grécia em confusão e desordem.

História de Pausânias e de Cleonice.

XI. Contam, a tal respeito, que Pausânias, certo dia, na cidade de Bizâncio, mandou buscar uma jovem chamada Cleonice, de boa família e de nobre descendência, para satisfazer aos seus desejos. Os pais não ousaram opor-se, temendo a sua perversidade, e deixaram-na levar. A jovem pediu aos seus criados de quarto que levassem todas as luzes; mas, procurando aproximar-se do leito de Pausânias, que já havia pegado no sono, achando-se no escuro, e sem fazer o menor ruído, ela encontrou casualmente uma lucerna, que jogou ao chão. Êle acordou sobressaltado; e, supondo logo tratar-se de algum dos seus desafetos, que o quisesse atacar a traição, apanhou o punhal que tinha debaixo do travesseiro, e apunhalou-a de tal modo que a infeliz caiu morta a seus pés. Pausânias nunca mais dormiu sossegado, porque a alma da jovem aparecia-lhe todas as noites, nem bem ele ia pegar no sono, reci-tando-lhe furiosa uns versos heróicos, que podem ser resumidos no que segue:

Procede direito e honra a justiça:
Sofrimento e miséria a quem pratica injustiça.

Esta afronta irritou de tal modo os aliados, que cheios de ódio, e sob as ordens de Cimon, cercaram-no na cidade de Bizâncio, da qual ele conseguiu salvar-se, fugindo sorrateiramente. Como o espírito da jovem não o deixasse em paz, perseguindo-o sem cessar, ele fugiu para a cidade de Heracléia, onde havia um templo destinado a exorcismar os espíritos, e esconjurou o de Cleonice, pedindo-lhe que abrandasse a sua cólera. Ela apareceu-lhe sem demora, e disse-lhe que antes de chegar a Esparta ele ficaria livre dos seus tormentos: o que, a meu ver, veladamente ela quis referir-se à morte que o esperava. E o que dizem diversos historiadores.

Êle expulsa os persas de Iônia, e apodera-se de todo o cantão.

XII. Cimon, então, apoiado pelos aliados e confederados gregos, que se haviam afastado de Pausânias, foi avisado de que alguns altos personagens persas, parentes do próprio rei, residentes na cidade de Iônia, situada na Trácia, na margem do no Estrimão, perseguiam e causavam graneles danos aos gregos que habitavam os arredores. Fêz-se ao mar com a sua esquadra, atacou, venceu e aniquilou os bárbaros, e expulsou todos os habitantes da cidade; depois correu contra os tracianos situados além do no Estnmão, que forneciam víveres aos habitantes de Iônia, e, fazendo-os abandonar a região, apoderou-se totalmente dela. Antes, porém, vendo-se perdido, em ato de desespero o tenente persa Butes incendiou a cidade, perecendo queimado com seus amigos e bens. Deste modo, os despojos da cidade conquistada não foram de grande valia, porque os bárbaros queimaram o que de mais belo e valoroso ali havia. Em compensação, a conquista forneceu aos atenienses uma região muito amena e fértil. Para memorar o feito, o povo fez erigir três Hermes ou pedestais de pedra com a estátua de Mercúrio, nos quais foram gravados dizeres enaltecendo o valor da sua gente.

Êle torna-se senhor da ilha de Ciros.

XIII. Se o nome de Cimon não aparece em tais inscrições é porque esta honra extraordinária nunca foi concedida nem mesmo a Milcíades e a Temístocles. Que o povo era inimigo de individualizar, demonstra-o este simples fato: tendo Milcíades pedido um dia ao povo que lhe fosse permitido usar na cabeça uma coroa de oliveira, um tal Sófa-nes, natural da aldeia Decélia, levantou-se no meio da assembléia, e se opôs, proferindo palavras que muito agradaram ao povo, embora fossem ingratas e mal agradecidas aos bons serviços que ele havia prestado à coisa pública. "Quando tiveres, Mil-cíades, vencido sozinho os bárbaros em combate, disse ele, poderás pedir que te honrem somente a ti". Qual a razão por que a atuação de Cimon tornou-se mais querida aos atenienses do que a dos outros capitães? Foi, a meu ver, porque os outros capitães agiram em defesa do seu território, dentro do próprio país, e Cimon e sua gente atacaram e destroçaram os inimigos em sua terra, conquistando as cidades de Iôma e de Anfípolis, que povoaram, e mais a ilha de Ciros. Os dolopianos, que a possuíam, inimigos do trabalho e do cultivo da terra, desde remota antiguidade não passavam de corsários, que viviam do que pilhavam no mar, não poupando nem mesmo os passageiros e mercadores que demandavam seus portos. Alguns tessalianos que ali apareceram para comerciar foram roubados, castigados e aprisionados. Conseguindo fugir, eles recorreram ao parlamento dos anfictiões, que é um conselho geral de deputados das cidades gregas. Julgado o feito, os anfictiões condenaram todos os arianos ao pagamento de elevada multa, que eles se negaram a satisfazer, sob a alegação de que não eram responsáveis pelos atos praticados pelos corsários; que se dirigissem a estes, e eles que pagassem, se quisessem. Para castigar este ato de rebeldia, e obrigá-los a pagar, Cimon foi encarregado de atacá-los e de apoderar-se da cidade, o que foi feito.

Conquistada a ilha, Cimon expulsou os dolopianos, e livrou o mar Egeu dos corsários.

Êle leva os ossos de Teseu para Atenas.

XIV. Sabia-se que o velho Teseu, filho de Egeu, fugindo de Atenas fora ter à ilha de Ciros, onde o rei Licomedes, suspeitando dele, mandou matá-lo a traição. Como, por um oráculo e profecia, as suas cinzas e os seus ossos deviam ser levados para Atenas, por ser considerado um semi-deus, negando-se os habitantes da ilha a dizer-lhes onde fora ele inumado, os conquistadores procuraram teimosa e inutilmente a sepultura. Por fim, depois de obstinada busca, Cimon conseguiu encontrar o túmulo; colocou os ossos na nau capitânea, magnificamente paramentada, e levou-os para a sua pátria. Isto quatrocentos anos depois da saída de Teseu de sua terra natal.

Os atenienses mostraram-se sumamente gratos a Cimon; e, para perpetuarem o grande acontecimento, os poetas escreveram poemas trágicos que se tornaram célebres. Tendo o jovem poeta Sófocles apresentado sua primeira tragédia, Afepsião, que significa primeiro magistrado, o preboste, notou grande divergência e cabala entre os espectadores, e não quis sortear os que deviam escolher os julgadores dos trabalhos apresentados, para dar o prêmio ao poeta vencedor.

Achando-se Cimon e os outros capitães no teatro, fêz a oferta devida ao deus em cuja honra se realizam tais torneios, sorteou-os e fê-los jurar que escolheriam com ânimo desprevenido os julgadores do poeta merecedor do prêmio. Feita a escolha, todos se esforçaram em serem justos no julgamento, sendo Sófocles declarado vencedor. Ésquilo, segundo dizem, ficou tão aborrecido e triste com o acontecido que abandonou Atenas, retirando-se para a Sicília, onde faleceu, sendo sepultado perto da cidade de Gele.

Como Cimon distribuiu os despojos, depois da tomada de Sestos e de Bizâncio

XV. Escreve Ion, que, sendo ainda muito jovem, recém-chegado a Atenas, proveniente de Quio, ceou certa noite com Cimon, ria hospedaria de Laomedão, e que ao fim da ceia, depois das efusões.costumeiras aos deuses, Cimon foi convidado pelos presentes a cantar. Ele não se fêz de rogado, sendo muito aplaudido. Todos foram unânimes em declará-lo mais civil e atencioso que Temístocles, que, em caso semelhante, sendo convidado a tocar cítara, respondeu que nunca aprendera a cantar nem a tocar cítara, mas que sabia fazer de uma pequena e pobre aldeia uma rica e poderosa cidade. Depois disto, como é natural, o assunto e as conversas dos presentes giraram sobre feitos e gestos de Cimon, enumerando os principais. Ele mesmo relatou um. que considerava superior a quantos havia realizado. Como os atenienses e seus aliados tivessem aprisionado numerosos bárbaros nas aldeias de Sestos e de Bizâncio, como homenagem conferiram-lhe o direito de repartir entre eles a presa. Aceitando o encargo, êle pôs num quinhão todos os bárbaros completamente nus, e no outro todas as suas roupas e despojos. Os aliados acharam a partilha muito desigual, mas Cimon deu-lhes o direito de escolha, deixando o resto para os atenienses. Um capitão samiano, apelidado Herófito, aconselhou os aliados a ficar com as roupas e despojos dos persas, o que foi feito. Cimon foi logo taxado por todos de péssimo distribuidor, por dar aos aliados, aljavas e pulseiras de ouro, bem como lindas e riquíssimas vestes de púrpura, sistema persa, e aos atenienses corpos nus, de homens indolentes, não afeitos ao trabalho e ao sofrimento. Tempos depois, parentes e amigos dos prisioneiros, provenientes da Frigia e da Lídia, deram-lhe tanto dinheiro, que Cimon manteve, durante quatro meses as galeras à sua custa, e entregou o resto ao governo de Atenas, reservando uma parte para si.

Liberalidade de Cimon.

XVI. Tendo Cimon enriquecido, gastou os bens honestamente recebidos dos bárbaros do modo mais honesto, atendendo às necessidades dos seus cidadãos: fez retirar todas as cercas de suas terras e patrimônios, para que os estrangeiros em viagem, e os seus cidadãos, que tivessem necessidade, pudessem servir-se dos produtos ali existentes, como e quanto quisessem, se’m risco de qualquer espécie. Em sua casa, além disso, havia sempre uma posta para numerosas pessoas; não de petiscos, porém, farta, sendo os pobres burgueses que a ela acorriam muito bem recebidos e muito bem tratados. Deste modo, eles não tinham necessidade de trabalhar para viver e melhor podiam preocupar-se com os afazeres públicos. Entretanto, o filósofo Aristóteles escreveu não ser para todos os atenienses, indistintamente, que ele mantinha assim sua casa, mas üni-mente para os do burgo de Lácia, onde nascera. Além disso, ele tinha sempre a seu lado alguns moços, seus criados, muito bem vestidos. Se, ao ir pela cidade, acontecesse encontrar algum velho pobremente trajado, ele fazia um dos moços despir-se e trocar a roupa com o necessitado. Isto, longe de ser levado a mal, era considerado por todos coisa venerável. Mas há mais: estes mesmos moços levavam sempre consigo boa importância em dinheiro; e, ao encontrarem, na praça ou na rua algum necessitado de fato, colocavam-lhe à mão, às escondidas, e sem nada dizer, alguma moeda de prata. Parece ser a isto que o poeta Cratino se refere, em sua comédia os Arquiloques. Górgias Leontino dizia que Cimon conquistou bens para usá-los, e que usava-os com honestidade. Crítias, um dos trinta tiranos de Atenas, em suas elegias deseja e pede aos deuses:

A opulência dos herdeiros de Escopas,
O nobre coração e a liberalidade
Do valoroso Cimon, e os gloriosos Troféus conquistados por Agesilau.

Ela era absolutamente desinteressada.

XVII. O nome de Liças Espartiata foi muito exaltado e celebrado, entre os gregos, pelo simples fato de, em dia de festa solene, em que os jovens faziam exercícios e dançavam nus na cidade de Esparta, ele receber festivamente os estrangeiros que iam assistir a tais folguedos. A grandeza dalma de Cimon excedia, porém, a liberalidade, humanidade e hospitalidade dos antigos atenienses, que foram os primeiros a ensinar aos homens em toda a Grécia, como deviam semear e usar o trigo para se alimentarem, qual o uso que deviam fazer das águas das fontes, e como deviam acender e manter o fogo. Cimon, entretanto, fazendo de sua própria casa um hcspital, onde todos os pobres eram fartamente alimentados e socorridos, e onde os viajantes estrangeiros podiam livremente colher os frutos de cada estação, brotados em suas terras, reconduzia ao mundo, por assim dizer, a comunidade de bens que os poetas dizem haver estado outrora sob o domínio de Saturno. Quanto às objeções dos que caluniavam esta honesta liberalidade, dizendo ter por fim adular a comuna e ganhar as boas graças da plebe, elas eram desfeitas e vencidas pelo seu modo de vida onde residia, pois pertencia à nobreza e vivia como os lacedemônios. Demonstra-o o fato de ter sido sempre contrário a Temístocles, que aumentava excessivamente a autoridade e o poder do povo, e de ter-se ligado, com Aristides, a Efialtes, que, em favor do povo, procurou deter e abolir o parlamento do Areópago. E, onde todos os governadores do seu tempo, exceto Aristides e Efialtes, se mostraram violentos e corrompidos, ele se manteve a vida inteira incorruptível quanto à coisa pública, tendo sempre as mãos limpas, fazendo, dizendo e aconselhando com sinceridade, justeza e honestidade, em matéria de administração, sem nunca ter-se aproveitado do dinheiro de quem quer que seja. Acha-se escrito, a este respeito, que um senhor persa, chamado Resaces, traindo seu soberano, o rei da Pérsia, fugiu um dia para Atenas. Ali, diariamente aborrecido pelos apupos e gritarias dos maldizentes, que o apontavam publicamente, recorreu a Cimon, levan-do-lhe duas dornas cheias, uma de dáricos de ouro e outra de dáricos de prata, moedas assim chamadas por conterem o nome de Dario. À vista das dornas Cimon desandou a rir, e perguntou-lhe o que preferia que ele fosse, seu amigo ou seu assalariado. O bárbaro respondeu preferi-lo por amigo. "Leva então o teu ouro e a tua prata, e retira-te, disse-lhe Cimon. Se sou teu amigo, sei que eles estarão sempre ao meu dispor, para usá-los quando se tornem necessários".

Política de Cimon com relação aos confederados dos atenienses.

XVIII. Por esse tempo, os aliados e confederados dos atenienses começaram a enfastiar-se da guerra contra os bárbaros, desejando dali em diante descansar da luta e entregar-se ao trabalho, ao seu tráfego e ao lar, visto haverem já expulso os inimigos de sua terra e não serem por eles aborrecidos. Assim sendo, eles preferiram cotizar-se e pagar a grande indenização que lhes foi exigida, a fornecer homens e navios para a guerra, como dantes. A vista disso, os outros comandantes atenienses constrangiam-nos de toda a forma, submetendo a processo os que deixassem de pagar as elevadas multas a que eram condenados. O rigor com que agiam e o exagero da penalidade tornaram a soberania e o domínio dos atenienses odiosos aos aliados. Cimon, porém, seguia rumo diametralmente oposto: não obrigava nem constrangia ninguém; satisfazia-se em receber dinheiro e embarcações dos que não queriam ou não podiam servir pessoalmente, e em deixá-los embrutecer e tornarem-se indolentes em suas casas, sob os atrativos do descanso, certo de que, fartos da sua estupidez, eles acabariam sendo bons guerreiros, trabalhadores, mercadores e mensageiros dedicados. Fazendo seguir em suas galeras grande número de atenienses, uns após outros, e enrijan-do-os no trabalho por meio de contínuas viagens, em pouco tempo tornou-os senhores e instrutores dos que os assalariaram e mantiveram, porque pouco a pouco se habituaram a enganar e a evitar os próprios atenienses, que viam constantemente em guerra, com os arneses às costas e armas na mão, a guerrear à sua custa, valendo-se da soda e do dinheiro que eles lhes forneciam. De modo que, no fim, eles se viram sujeitos e tributários, ao invés de companheiros e aliados, como de início.

Êle prossegue na guerra contra os persas.

XIX. Também nunca houve capitão grego que abatesse e refreasse a altivez e o poder do grande rei da Pérsia como Cimon. Depois de havê-lo expulso de toda a Grécia, não lhe deu descanso, perseguindo-o a pontapés, como se costuma dizer; antes que os bárbaros pudessem recobrar fôlego, ou dar maior atenção aos seus propósitos, êle procedeu de tal modo, que apoderou-se de algumas de suas cidades pela força e de outras por meio de ardis, fazendo-as rebelar-se contra o rei e pôr-se ao lado dos gregos. Assim, em toda a Ásia, desde a Iônia até Panfília, não havia um guerreiro favorável ao rei da Pérsia. Avisado de que os capitães do rei achavam-se na costa da Panfília com uma grande esquadra e poderoso exército naval, a fim de assustá-los e impedir que ousassem aparecer aquém das ilhas Caledônias, Cimon partiu da ilha de Gnidos e da cidade de Triópio com duzentas galeras, que desde o início haviam sido muito bem construídas e distribuídas por Temístocles, tanto para singrar com facilidade, como para girar com rapidez. Cimon, porém, mandou alargá-las e tirar-lhes o soalho de um costado a outro, para que pudessem transportar maior número de combatentes, para atacar os inimigos. Primeiro foi ao encontro dos fasé-litos, que, não obstante serem gregos de nascimento, negavam-se a auxiliá-los e opunham-se à entrada de suas esquadras em seus portos. Chegou inesperadamente e apoderou-se de toda a planície da região e a seguir achegou suas forças às muralhas. Havendo, na armada de Cimon, antigos amigos dos fasélitos, naturais de Quio, eles procuraram aplacar a cólera de seu chefe, e deram notícias suas, aos que se achavam na cidade, por meio de cartas que amarravam a flechas e jogavam por cima das muralhas. Por fim eles entraram em acordo, obrigando-se os fasélitos a pagar uma multa de dez talentos, correspondentes a seis mil escudos, aproximadamente, e a segui-los, combatendo com eles e para eles, contra os bárbaros.

Êle alcança sobre eles uma vitória naval junto do rio Eurimedão.

XX. Diz Éforo, que o capitão persa que comandava a armada chamava-se Titraustes, e o que dirigia o exército Ferendates. O filósofo Calístenes, porém, primo e discípulo de Aristóteles, escreve que Ariomandes, filho de Góbrias e tenente do rei, tendo a maior autoridade sobre toda a esquadra ancorada junto ao rio Eunmedão, não se decidia a entrar em ação por estar à espera de um reforço de oitenta navios fenícios, que lhe deviam chegar de Chipre. Procedendo de modo contrário, Cimon tratou de atacá-los, antes que as naus fenícias pudessem lá chegar, para obrigá-los à defesa, caso não se decidissem a ir-lhe ao encontro voluntariamente. Percebendo isto, os bárbaros recolheram-se à embocadura do rio Eunmedão, para não serem envolvidos pela retaguarda, nem obrigados a entrar em combate contra vontade. Mas, ao verem os atenienses irem-lhes ao encontro, rumaram para eles com uma frota de seiscentas naus, segundo relata Fenodemo, ou de trezentas e cinqüenta somente, no dizer de Éforo. Nada fizeram, porém, em combate marítimo, que correspondesse ao avultado número de navios postos em ação; pelo contrário, voltaram sem demora as proas para o no, e os que conseguiram alcançá-lo a tempo passaram-se para as forças de terra, que não estavam longe, em posição de combate; os outros, que foram apanhados no trajeto foram mortos, e as suas galeras, de fato numerosas, postas a pique ou aprisionadas. Os atenienses também fizeram duzentos prisioneiros.

Uma segunda contra o exército.

XXI. Isto não impediu que o exército se aproximasse da costa, porque Cimon mostrou-se indeciso se devia ou não ordenar o desembarque de sua gente. Parecia-lhe difícil e perigoso desembarcar contra a vontade dos inimigos, e expor os gregos, fatigados e fartos do primeiro combate, aos bárbaros que se achavam íntegros, em boa forma, descansados e em muito maior número. Todavia, vendo que sua gente confiava nas próprias forças, e que, entusiasmada com a primeira vitória, desejava ir ao encontro dos inimigos, ordenou o desembarque. Os atenienses correram então cheios de incontido ardor e em altos brados, contra os bárbaros, que os esperaram a pés firmes, e sustentaram valentemente o primeiro embate. Neste encontro, áspero e cruel, pereceram os melhores e maiores elementos do exército atacante; os outros, porém, combateram com tal denodo, que se tornaram senhores do campo e puse-ram os bárbaros em fuga, matando muitos e apri-siondo numerosos outros, com suas tendas e pavilhões repletos de toda espécie de bens e de riquezas.

Uma terceira contra a frota fenícia que vinha em auxílio dos persas.

XXII. Cimon já havia adquirido renome como campeão das lutas sagradas, na qualidade de atleta, e, como guerreiro, nas brilhantes vitórias alcançadas pelos gregos no canal de Salamina e na cidade de Platéia, tanto no mar como em terra, quando foi avisado de que as vinte e quatro naus fenícias, vindas muito tarde para enfrentar o primeiro combate, haviam chegado ao cabo de Hidra. Sem perda de tempo, singrou para lá. Os comandantes fenícios nada sabiam de positivo sobre o desastre de sua armada principal, e duvidavam que ela houvesse sido destroçada. De modo que ficaram surpreendidos, ao verem aparecer ao longe a esquadra vitoriosa de Cimon. Travada a luta, os fenícios perderam todas as naus e a maior parte de sua gente, entre afogados e mortos em combate.

Tratado de paz entre o rei da Pérsia e os atenienses.

XXIII. Este feito de armas abateu e venceu de tal modo o orgulho do rei da Pérsia, que ele fez o tratado de paz mencionado pelas histórias antigas, pelo qual prometeu e jurou que, dali em diante, suas armadas não se aproximariam mais do mar da Grécia com velocidade superior à de um cavalo, e que suas galeras e outros vasos de guerra não iriam além das ilhas Caledônias e Cianéias. O historiador Calístenes declara que semelhante coisa não foi lançada no tratado, mas que o rei determinou, pelo pavor que a grande derrota lhe causou; que, a seguir, manteve-se distante do mar da Grécia, que Péricles, com cinqüenta galeras, e Efialtes com trinta, navegaram além das ilhas Caledônias, sem nunca encontrar qualquer frota dos bárbaros. E a razão por que, entre os atos públicos de Atenas, referidos por Crátero, se encontram as cláusulas desta paz, tão longamente ocultada, como coisa realmente existente. Sabe-se que, nessa ocasião, os atenienses ergueram o altar da Paz, e homenagearam extraordinariamente Cálias, que serviu de embaixador junto do rei da Pérsia, para fazê-lo jurar tal tratado.

A cidade de Atenas enriquecida dos despojos dos persas.

XXIV. Ao serem postos em leião os despojos dos inimigos, encontrou-se tanto ouro e prata nos cofres de economias, que cobriu todas as despesas e para a construção do lanço de muralha do castelo, que dá para o sul. Dizem que a ereção das grandes muralhas que ligam a cidade ao porto de Jambes foi construída e concluída depois, mas que os primeiros alicerces foram feitos com o dinheiro que Cimon forneceu dos seus próprios haveres. Como o trabalho foi executado em lugares pantanosos e sujeitos às marés, foi preciso contê-las com pedras de todo tamanho, jogadas a esmo à beira-mar. Logo, foi êle quem primeiro ornou e embelezou a cidade de Atenas, dotando-a de lugares de fácil acesso e deleitoso passatempo, que se tornaram logo muito recomendados; quem mandou plantar plátanos na grande praça; quem dotou a academia, sitada em terreno baldio, de um jardim encantador, semeado de fontes e de ruas para passeios e corridas.

Êle apodera-se do Quersoneso de Trácia, e da ilha de Tasos.

XXV. Tempos depois, ele soube que alguns persas que ocupavam o Quersoneso, ou seja, meia ilha da região de Trácia, não queriam abandoná-la e pediam aos habitantes da alta Trácia que os ajudassem na defesa contra ele, embora não o temessem, pois sabiam haver partido de Atenas com poucos navios. Cimon, de fato, avançou sobre eles com quatro galeras apenas, e tomou-lhes treze. Expulsos os persas, e subjugados os tracianos, ele conquistou para o seu país todo o Quersoneso de Trácia. A seguir, dirigiu-se contra os habitantes da ilha de Tasos, que se haviam insurgido; e, derrotando-os no combate naval, em que se apoderou de trinta e três navios, bloqueou e apoderou-se da cidade, conquistando-lhes as minas de ouro existentes nos arredores e todas as terras.

Acusação, defesa e absolvição de Cimon.

XXVI. Esta conquista facilitou-lhe imenso a passagem para a Macedónia e a possível ocupação de grande parte da mesma. Não querendo fazê-lo, inimigos invejosos de sua glória coligaram-se contra êle, acusando-o de haver recebido dinheiro para tal e de haver se deixado subornar por presentes do rei Alexandre. Chamado à justiça, defendeu-se perante os juízes, justificando-se nestes termos: "Não contraí amizade, nem qualquer relação afetuosa com os jônios ou com os tessalianos, povos abastados e opulentos, nem me encarreguei de defender-lhes as causas, como fizeram outros, para serem por eles venerados e bem remunerados. Aceitei-lhes a hospitalidade, porque admiro e quero imitar-lhes a temperança, a sobriedade e simplicidade do seu modo de viver, que eu prefiro a todos os bens e a toda riqueza, embora me sinta feliz, quando atraio a opinião pública com os despojos dos nossos inimigos".

Referindo-se a esta acusação, narra Estesim-broto que Elpinice, irmã de Cimon, foi ao gabinete de Péricles, o mais severo e o mais veemente de todos os acusadores, para pedir-lhe que não perseguisse tão tenazmente seu irmão, e que ele lhe disse sorridente: "Estás muito velha, Elpinice, muito velha, atualmente, para conseguires demandas como esta". Entretanto, quando a causa entrou em julgamento, êle foi o mais moderado dos acusadores, levantando-se uma única vez para falar contra o acusado, como que distraidamente, o que fez com que Cimon fosse absolvido e declarada caluniosa e improcedente a acusação.

O povo revolta-se contra os nobres na ausência de Cimon. Êle é difamado, ao voltar

XXVII. Depois disto, durante a sua permanência na cidade, Cimon freou a insolência do povo, que não cessava de zombar da autoridade das pessoas honestas, e chamou a si todo o poder e mando. Mas, nem bem êle partiu para a guerra, não tendo mais quem a combatesse, a comuna revolveu de alto a baixo o governo da cidade, instigada e guiada por Efialtes, e desordenou todas as leis e costumes antigos, que sempre estiveram em uso. A corte de Areópago foi impedida de julgar quase todas as causas, porquanto tal direito foi atribuído ao povo, o que transformou o estado em pura democracia, isto é, em governo em que o povo manda e domina. Péricles pôs-se logo em destaque, por apoiar o partido da comuna.

Ao regressar, vendo a autoridade do senado e do conselho tão vergonhosamente diminuída, Cimon tratou de atribuir-lhes o mesmo direito antigo, e de reconduzir ao poder as pessoas de bem, como fora estabelecido desde o tempo de Clístenes. Com isto voltaram os inimigos a gritar contra ele, renovando as difamações antigas de manter relações jlícitas com sua própria irmã, e caluniando-o de favorecer as causas dos lacedemônios. E ao que se referem os versos do poeta Eupólis, muito divulgados, contra Cimon:

Êle não é mau, mas é negligente,
Mais amante do vinho do que do dinheiro;
E algumas Vezes desaparece,
Para ir dormir às noites em Esparta,
Deixando sua irmã em casa, a pobrezinha
Elpinice, dormir sozinha.

Afeto que os lacedemônios dedicam a Cimon

XXVIII. Se, preguiçoso e amante do vinho, ele tomou tantas cidades e venceu tantas batalhas, sendo sóbrio e vigilante não existiria, nem antes, nem depois dele, capitão grego que o excedesse na glória dos feitos guerreiros. É exato que êle sempre apreciou os costumes dos lacedemônios, pois, a dois filhos gêmeos que teve com uma mulher clitoriana, deu a um o nome de Lacedemônio e a outro o de Eleo, segundo relata Estesimbroto, adiantando que foi a razão por que Péricles sempre exprobrou-lhes a linhagem materna. Todavia, o geógrafo Diodoro escreve que, tanto estes como um terceiro filho chamado Tessálio, êle os tivera com Isodice, filha de Euriptólemo, natural de Mégacles. Seja como for, o certo é que a sua reputação, confiança e estima cresceram extraordinariamente entre os lacedemônios, que passaram a considerá-lo, embora moço ainda, mais prestigioso e poderoso que Temístocles, em Atenas. Disto, e do ódio que votavam a este último, bem depressa se aperceberam os atenienses, mas não ligaram grande importância, porque a afeição dos lacedemônios a Cimon forneceu-lhes grandes proveitos e levou-os a induzir, secretamente, os aliados gregos a abandonar os lacedemônios, para se unirem a eles. Sabendo que só em consideração a eles é que Cimon dirigia quase todos os combates dos gregos, e portava-se humana e benevolamente para com os aliados, os lacedemônios não se agastaram com o perverso procedimento dos atenienses, continuando a proferir louvores ao seu grande amigo, em altas vozes. Vendo que a sua deslealdade pôs Cimon a pique de unir-se aos lacedemônios; que ele, quando desejava repreendê-los por qualquer falta cometida ou quando queria induzi-los a fazer alguma coisa, limitava-se a dizer-lhes: "Os lacedemônios não devem proceder assim"; notando as relações que êle mantinha com os seus protegidos, os atenienses, diz Estesimbroto, enciumados, passaram a ter-lhe inveja e ódio.

Tremor de terra em Esparta. Guerra dos hilotas. Os espartanos pedem socorro aos atenienses.

XXIX. A principal carga que lhe fizeram, porém, e que mais o aborreceu, teve lugar em determinada ocasião. No quarto ano do reinado de Arquidamo filho de Zeuxidamo, rei de Esparta, a cidade de Lacedemônia e seus arredores foram vítimas do maior e mais espantoso terremoto de que se tem lembrança até hoje, pois a terra abriu-se em muitos lugares, e afundou à maneira de abismos. A montanha Taigete foi tão fortemente abalada que enormes rochedos desmoronaram. A cidade toda foi abatida e reduzida a um montão de ruínas, exceto cinco casas, que se mantiveram de pé. Dizem que, pouco antes do fenômeno manifestar-se, os moços e moças da cidade faziam exercícios físicos, completamente nus, sob um pórtico e galeria cobertos, quando apareceu-lhes uma lebre. Vendo-a, os moços correram-lhe no encalço, a persegui-la, nus e untados como se achavam, e às gargalhadas. Nem bem haviam partido, o telhado da galena caiu sobre as moças, matando-as todas. Como lembrança do triste acontecimento, o túmulo em que foram sepultadas chama-se até hoje Sismatias, isto é, túmulo das que o terremoto matou. Avisado prontamente do perigo iminente, e vendo que os seus súditos só cuidavam de salvar seus preciosos móveis, pondo-o fora de suas casas, o rei Arquidamo mandou corneteiros tocar caloroso alerta, como se os inimigos estivessem atacando de surpresa, para que os moradores da cidade abandonassem tudo e corressem armados contra eles. Isto salvou, sem dúvida, a cidade de Esparta, porque os hilotas, seus camponeses, e os habitantes das aldeias dos arredores acorreram, armados, de toda parte, para apanhar o inimigo de surpresa e saquear os que houvessem escapado do terremoto. Mas, encontrando todos bem armados, e em posição de combate, voltaram do mesmo modo como haviam chegado, começando depois a fazer-lhes guerra declarada, aliados a alguns vizinhos, e mesmo aos messênios, que, com eles, atacaram deliberadamente os espartanos. É a razão por que os lacedemônios mandaram Periclidas pedir auxílio a Atenas, coisa que, visando Lisístrato, o poeta Aristófanes ridiculariza assim:

Fale, sempre erguido aos altares,
Pede socorro, de opa vermelha.

Efialtes opôs-se resolutamente, declarando que não se devia auxiliar nem engrandecer uma cidade inimiga de Atenas, e sim deixá-la rastejar e ver calcar-se aos pés o orgulho e a arrogância de Esparta.

Cimon vai em seu auxílio.

XXX. Cimon, porém, segundo relata Crítias, preferindo o bem de Esparta ao desenvolvimento de sua pátria, tanto fez, que, a seu pedido, o povo atendeu ao auxílio solicitado, mandando-o com bom número de guerreiros. Ion reproduz-lhe fielmente as palavras proferidas, para induzir o povo a acompanhá-lo, pois pediu-lhe que não permitisse que a Grécia manquejasse, como se a Lace-demônia fosse um de seus pés e Atenas outro, nem admitisse que sua cidade fosse privada de sua companheira, em caso de defesa da Grécia. Obtido os socorros para levar aos lacedemônios, ele seguiu com suas forças pelas terras dos coríntios, dando motivo a que Lacarto, capitão de Corinto, se enfurecesse e lhe declarasse que não devia ter penetrado em suas terras sem o consentimento prévio das autoridades da cidade; porque, quando se bate à porta de uma residência particular, não se entra sem que o dono da casa convide a fazê-lo. Ao que Cimon objetou: "Mas os coríntios não bateram às portas dos cleônios, nem às dos megarianos, para lá entrar; arrombaram-nas, e entraram à força de armas, alegando que tudo devia ser aberto aos mais fortes". Com esta audaciosa resposta ao capitão corintio, que estava precisando dela, Cimon passou com seu exército por Corinto.

Êle vai para o exílio

XXXI. Tempos depois, os lacedemônios pediram novamente socorro aos atenienses, contra os messênios e os hilotas, seus lavradores e escravos, que haviam se apoderado da cidade de Itome. Receosos, porém, da força enviada, por ser muito numerosa, forte e arrojada, preferiram não se utilizar dela, e despediram-na, antes que entrasse em ação. Os atenienses regressaram bastante descontentes e furiosos, decididos a nunca mais satisfazer às necessidades dos lacedemônios; e, procurando vingar-se de Cimon, pela afronta sofrida, exilaram-no de sua terra, condenando-o ao ostracismo. Nestes dez anos de exílio, a que Cimon foi condenado, os lacedemônios decidiram-se a livrar a cidade de Delfos do cativeiro dos focianos, e a tirar-lhes a guarda e superintendência do templo de Apolo, existente na referida cidade. Para tal conseguir, foram acampar junto à cidade de Tanagre, na Fócida, onde os atenienses os foram encontrar, para combatê-los.

Êle se prepara para guerrear na ilha de Chipre e no Egito

XXXII. Sabendo disto, Cimon, ainda no exílio, dirigiu-se armado ao acampamento de Atenas, a fim de cumprir o seu dever, combatendo ao lado dos seus, contra os lacedemônios, arregimen-tando-se nas forças da linha de Oeneida, onde se achava. Seus inimigos começaram a gritar contra êle, dizendo que o seu desejo era perturbar a luta, para depois levar os lacedemônios até à cidade de Atenas. À vista disso, o grande conselho dos quinhentos homens, receoso, proibiu os capitães de recebê-lo como combatente, e êle foi obrigado a retirar-se. Mas, antes de partir, êle pediu a Eutipo Anaflisteano, e a outros amigos em evidência, que participavam de suas idéias e também eram acusados de favorecer os lacedemônios, que cumprissem o seu dever e combatessem denodadamente os inimigos, para que aquela jornada lhes servisse de alívio e de justificação de sua inocência perante seus compa-triotas. O que foi realizado, porque, de posse de suas armas, eles organizaram uma pequena companhia de cem homens, que combateu tão corajosa e obstinadamente, que não restou um único com vida. Este fato causou grande mágoa e arrependimento entre os atenienses, que, falsa e injustamente, che-garam a duvidar da sua lealdade à pátria. À vista disso, eles não guardaram por muito tempo o seu resentimento contra Cimon, em parte, suponho, lembrando-se dos bons serviços que êle lhes prestara no passado, e em parte, creio, porque as circunstân-cias do momento a isso obrigavam. Derrotados em grande combate diante de Tanagre, eles esperavam que os peloponésios os atacassem com numerosas forças. À vista disso, revogaram o banimento de Cimon, por um decreto baixado pelo próprio Périeles, pois a inimizade dos homens, que eram civis e moderados naqueles tempos, suas fúrias, sempre prontas a serenar em se tratando do bem público, e a ambição, que é a mais forte e a mais veemente de todas as paixões que perturbam o espírito humano, cediam e se adaptavam às conveniências e às necessidades da coisa pública.

XXXIII. Logo que Cimon regressou, ele abafou a guerra e conciliou as duas cidades. Vendo, porém, que os atenienses não podiam viver em paz, preferindo estar continuamente em ação e enriquecer e engrandecer pelas guerras, receoso que eles se ligassem a algum povo grego, ou que, girando ao redor do Peloponeso e das ilhas da Grécia, com a grande esquadra que possuíam, chegassem a provocar a guerra civil entre os gregos, ou queixas dos seus aliados contra eles, Cimon armou e equipou duzentas galeras, para ir novamente guerrear em Chipre e no Egito, a fim de habituar os atenienses à guerra contra os bárbaros, e de quando em quando enriquecê-los dos despojos dos que realmente eram seus inimigos. Mas, achando-se tudo pronto para a partida, e as tropas preparadas para o embarque, à noite Cimon teve, dormindo, uma visão, que prevê-mu-o que uma cadela de caça, muito furiosa, latia contra êle, e no meio do seu latido proferia palavras humanas, dizendo:

Vem ousadamente, pois meus filhos e eu,
Se vieres, teremos nisso o maior prazer.

Sendo esta visão difícil de ser resolvida e interpretada, Astífilo, natural da cidade de Possidônia, pessoa bem exercitada em tais conjecturas, e íntimo amigo de Cimon, declarou-lhe que tal visão predizia-lhe a morte, usando destas palavras: "O cão é geralmente inimigo daquele contra quem late, e quer-lhe mal. Tua morte, para o inimigo, seria motivo de grande satisfação. Além disso, a mistura da voz humana com o latido de uma cadela denota um inimigo medo, cujas forças são constituídas de uma mescla de bárbaros e gregos". Depois de esclarecê-lo sobre a visão e sobre a maneira por que êle cedia ao deus Baco, o adivinho abriu a vítima que acabava de imolar, e, em torno do sangue que caiu ao chão, reuniu-se logo grande quantidade de formigas, que aos poucos levaram o sangue coagulado e cobriram com êle toda a volta do grande artelho do pé de Cimon, sem que ninguém percebesse. Seja como for, Cimon ficou ciente da aventura e de como devia proceder. Por fim, o ministro do sacrifício mostrou-lhe o fígado do animal imolado, tendo a extremidade mais volumosa já em decomposição, o que fazia antever um funesto presságio.

Êle vence a frota dos persas.

XXXIV. Todavia, como os acontecimentos avançassem mais rapidamente do que se esperava, êle não pôde furtar-se a esta viagem, e fêz-se ao mar, enviando sessenta de suas galeras ao Egito, e foi, com as restantes, bloquear a costa de Panfíha, onde destroçou a esquadra do rei da Pérsia, consti-tuída de galeras fenícias e cilícias, e conquistou as cidades limítrofes, na esperança de, assim, conseguir penetrar no Egito. Cimon não cogitava de pequenos empreendimentos; o que queria era destruir por completo o império persa, por saber ser Temístocles muito louvado e querido entre os bárbaros, pelo fato de haver prometido a seu rei comandar-lhe as forças e prestar-lhe os maiores auxílios, sempre que ele se decidisse guerrear os gregos. Foi por isso, dizem, que Temístocles, não conseguindo conduzir os negócios da Grécia ao ponto prometido, por ser-lhe difícil vencer a virtude e a sorte de Cimon, que conservava sua armada ao longo da ilha de Chipre, para grandes aventuras, entregou-se voluntariamente à morte. Neste cómenos ele mandou alguns dos seus homens ao oráculo de Júpiter Amon, para consultá-lo sobre coisas de caráter reservado, nunca se sabendo, nem antes, nem depois, para que os mandara. Eles não obtiveram qualquer resposta à consulta, pois, nem bem chegaram, o oráculo ordenou-lhes que voltassem, declarando-lhes que Cimon ali estivera antes deles. A esta resposta, os enviados fizeram-se logo ao mar.

De volta ao campo dos gregos, que se achavam no Egito a fim de auxiliá-los, souberam da morte de Cimon; e, só então perceberam que, veladamente, o oráculo de Júpiter lhes havia comunicado a sua morte, e de achar-se ele entre os deuses.

Sua morte.

XXXV. Êle pereceu no assédio à cidade de Cicio, em Chipre, na opinião de alguns, ou, segundo outros, de um golpe que recebeu em um recontro; ao morrer recomendou aos seus comandados que se afastassem sem comunicar a sua morte. Todos cumpriram as suas ordens, regressando sãos e salvos, sem que os aliados e mesmo os inimigos se apercebessem. De modo que, durante trinta dias, as forças gregas foram dirigidas e governadas por Cimon, embota morto, conforme relata Fanodemo, não havendo, depois dele, capitão grego que fizesse coisa memo-rável contra os bárbaros, porque os arengueiros e os governadores das principais cidades da Grécia lançaram seus súditos uns contra os outros, não havendo pessoa capaz de os apaziguar. As guerras civis, que muito aproveitaram aos persas, arruinaram o poderio dos gregos, tão grande que não há palavras que possam descrevê-lo.

Suas cinzas levadas para a Atiça. Os habitantes de Cicio honram seu sarcófago.

XXXVI. Muito depois, Agesilau levou as forças gregas à Ásia. Antes, porém, que êle conseguisse realizar algum feito memorável, foi obrigado a regressar à sua terra, para abafar as novas perturbaçôes e guerras civis, novamente desencadeadas entre os gregos. Ao fazê-lo, deixou os tesoureiros e financistas do rei da Pérsia encarregados de arrecadar tributos e benefícios das cidades gregas da Ásia, embora fossem aliadas e confederadas da Lacedemônia. Durante o governo de Cimon, nenhum comissário, beleguim ou guerreiro, mesmo com ordem ou mandato do rei, ousava aproximar-se da costa mais de vinte e quatro ou vinte e cinco léguas. As sepulturas, até hoje chamadas Címônia, atestam que suas cinzas e seus ossos foram transportados para a Ática. Todavia, os da cidade de Cicio ainda honram uma sepultura, que dizem ser o túmulo de Cimon, erguido, segundo escreveu o orador Nausicrates, porque, por ocasião da grande penúria e esterilidade da terra, um oráculo ordenou ao povo que não desprezasse Cimon, mas que o venerasse e honrasse como um deus. Tal foi a vida do capitão grego.


Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

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Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

Capítulo 27

A primeira guerra mundial

Edward McNall Burns in História da Civilização Ocidental

As raízes da guerra nas tendências políticas do século XIX

A gloriosa era de ciência, democracia e reforma social discutida nos capítulos precedentes terminou numa das mais horrorosas guerras de toda a história.   À primeira vista isso pode parecer um paradoxo.   Não obstante, devemos lembrar que o período compreendido entre 1 830 e 1 914 tinha certos  característicos absolutamente alheios ao progresso politico, social ou intelectual,   sendo uma época de democracia, o foi também de imperialismo. Se é verdade que nunca se despendeu tanto dinheiro no interesse do bem-estar social, as verbas militares e navais também aumentaram enormemente. A despeito dos notáveis avanços no campo da ciência e da educação, superstições cruéis e insensatas continuaram a medrar onde menos seria de esperar. O nacionalismo agressivo e belicoso alastrou-se como uma peste. Líderes intelectuais da França, inclusive o romancista Zola, instigaram um ódio apaixonado contra a Alemanha. Do outro lado do Reno, poetas e professores divinizavam o espírito alemão e cultivavam um arrogante desprezo pelos eslavos. Ensinava-se aos ingleses que eles eram o povo mais civilizado da terra e que o seu direito de estabelecer "o domínio sobre palmeiras e pinheiros" provinha de uma autoridade nada menos que divina. Diante disso, não parecerá talvez estranho que os Jovens Turcos, educados nas universidades da Europa Ocidental, tivessem, de volta à sua pátria, massacrado o "gado cristão" do sultão na Macedónia.

1. As causas subjacentes Da guerra

Causas econômicas: A rivalidade industrial entre inglaterra e alemanha

Desde que Tucídides escreveu a sua narrativa clássica da luta entre Esparta e Atenas, tornou-se hábito dos historiadores dividir os fatores responsáveis pela guerra em causas imediatas e causas subjacentes.   Algumas das causas subjacentes ou remotas da Primeira Guerra Mundial remontam à história européia  de um século atrás.   A maioria delas, porém, data de cerca de 1870.   Isto se aplica particularmente as  causas econômicas, que muitos historiadores consideram como bases de todas as demais.   A causa econômica que geralmente colocam no cabeçalho da lista é a rivalidade industrial e comercial entre a Alemanha e a Inglaterra. No capítulo sobre a Revolução Industrial mostramos que a Alemanha, após a fundação do império em 1 871, atravessou um período de desenvolvimento econômico pouco menos que milagroso. Em 1 914, estava produzindo mais ferro e aço do que a Inglaterra e a França juntas. Em produtos químicos, corantes de anilina, e, na manufatura de instrumentos científicos achava-se à frente do mundo inteiro. Os produtos da sua indústria desalojavam os congêneres ingleses de quase todos os mercados da Europa continental, bem como do Extremo Oriente e da própria Inglaterra. Talheres com o dístico "Made in Germany” eram vendidos até em Sheffield, o maior centro de cutelaria inglesa, e lápis fabricados na Baviera eram encontrados sobre a mesa da Câmara dos Comuns. Além disso, o império dos kaisers tinha começado a desafiar a supremacia britânica nos transportes. Em 1 914 a Hamburg-Amerika Linie e o Lloyd Norte-Alemão contavam-se entre as maiores linhas de navegação do mundo. Dois de seus navios tinham arrebatado sucessivamente o campeonato de velocidade do Atlântico aos barcos britânicos e o Imperator, lançado à água em 1912, era o maior navio do mundo.

Há indícios de que certos interesses britânicos começavam a alarmar-se seriamente com a ameaça da competição alemã. Esse sentimento chegou ao paroxismo por volta do fim do século, quando a Saturday Review de Londres estampou a seguinte opinião: "Se a Alemanha fosse extinta amanhã, não haveria depois de amanhã um só inglês no mundo que não fosse mais rico do que é hoje. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou por um direito de sucessão; e não se deve lutar por um comércio de duzentos e cinqüenta milhões de esterlinos?. . . A Inglaterra despertou afinal para o que é inevitável e constitui ao mesmo tempo a sua mais grata esperança de prosperidade. Germaniam esse delendam" (1). Conquanto essa opinião não fosse nem oficial nem representativa do pensamento da nação como um todo, refletia a exasperação de alguns cidadãos influentes. Depois de 1 900 o ressentimento diminuiu por algum tempo, mas tornou a inflamar-se nos anos que precederam o  deflagrar da guerra. Parecia reinar a forte convicção de que a Alemanha estava movendo à Inglaterra uma guerra econômica deliberada e implacável, visando tomar-lhe os mercados por meios fraudulentos e escorraçar os seus navios dos mares. Permitir que a Alemanha saísse vitoriosa dessa luta significaria para a Inglaterra o fim da sua prosperidade e urra jrave ameaça à sua existência nacional (2). Os cidadãos britânicos que se preocupavam com tais assuntos viam a sua pátria como vitima inocente da agressividade alemã e sentiam-se plenamente justificados em tomar quaisquer medidas que se fizessem necessárias para defender a sua posição.

(1) The Saturday Review, 11 de set. 1897; citado por John Bakeless em The Economic  Causes of Modem  Wars,  p.   145   (nota).

2)   Uma exposição  completa    da   rivalidade   econômica    anglo-germànica   pode  ser encontrada em R.  J.   S.  Hoffmann,  Great Britain  and  the  German  Trade Rivalry.   O autor,  todavia, absolve  os   ingleses  de  qualquer  intenção  de  fazer  guerra  à  Alemanha com o fim de destruir-lhe o comércio.

Outros exemplos de antagonismo econômico

Também os franceses estavam alarmados com a expansão industrial alemã.   Em 1 870 a França fora despojada dos extensas depósitos de ferro e carvão da Lorena, que passaram a contribuir para o crescimento industrial da Alemanha. É verdade que os franceses ainda tinham ferro em abundância nas ricas jazidas de Bney, na fronteira oriental, mas receavam que a sua inimiga viesse um dia a arrebatar-lhes também isso. Acresce que a França se via na necessidade de importar carvão, o que lhe feria o orgulho quase tanto quanto a perda do ferro. Havia ainda várias outras causas de atrito econômico que muito contribuíram para provocar a guerra. A ambição russa de obter o controle de Constantinopla e de outras porções do território turco entrava em conflito com os planos dos alemães e austríacos, que queriam para si o Império Otomano como um paraíso de privilégios comerciais. Rússia e Áustria também rivalizavam entre si na obtenção do monopólio comercial dos reinos balcânicos da Sérvia, da Rumânia, da Bulgária e da Grécia. A Áustria estava tão ansiosa de evitar que esses países caíssem na órbita russa quanto desejosa estava a Rússia de estender o seu poder a todos os eslavos da Europa Oriental. Havia, por fim, um agudo antagonismo econômico entre a Alemanha e a França com respeito ao direito de explorar os recursos minerais e as oportunidades comerciais do Marrocos.

 

 A estrada de ferro Berlim-Bagdá

Até ‘certo ponto, a construção da estrada de ferro Berlim-Bagdá foi uma causa econômica da guerra, embora tivesse efeitos políticos não menos importantes.   A conclusão dessa estrada envolvia, como é de ver. o assentamento de uma    linha do Bósforo a Bagdá pelo rio Tigre, uma vez    que já existia a ligação ferroviária entre Berlim e Constantinopla.   De Bagdá talvez pudesse ser estendida até o Golfo Pérsico, abrindo assim um caminho mais curto para a índia.   Os planos da estrada de ferro tinham sido traçados por uma companhia alemã desde 1 890. Considerando os riscos demasiadamente grandes para ser empreendidos por eles sós, os capitalistas alemães convidaram banqueiros ingleses e franceses para cooperarem. O capital seria dividido igualmente entre os três países e a Inglaterra e a França teriam a mesma representação que a Alemanha na diretoria. O ciúme e a desconfiança, contudo, fizeram com que a proposta fosse rejeitada pelos governos britânico e francês. Os ingleses parecem ter receado que as linhas vitais do seu império corressem perigo, bem assim como os seus interesses econômicos na Pérsia e na Mesopotâmia. Os políticos franceses, por seu lado, parecem ter cedido à pressão por parte da Rússia, a qual temia que uma estrada de ferro a atravessar a Turquia ressuscitasse a "enferma do Levante" e adiasse indefinidamente a partilha dos seus bens. Em 1 913-14 foi concluída uma série de acordos entre ingleses, franceses e alemães para a construção de ferrovias turcas sobre a base de uma divisão do Império Otomano em esferas de influência. A essas alturas, porém, a amizade internacional estava ferida de morte, sobretudo porque a Alemanha já havia completado cerca de 600 quilômetros da linha de Bagdá.

O perigo de exagerar as causas econômicas

É impossível aquilatar o verdadeiro valor das causas econômicas subjacentes da guerra.   Tiveram certamente influência, mas não tão importante, talvez, quanto em gera! se acredita.

 Para começar, a rivalidade entre a Inglaterra e a Alemanha tem sido provavelmente exagerada. Em 1914  a Inglaterra não corria perigo de ser reduzida ao nível de uma potência industrial de terceira categoria. É verdade que o seu comércio exterior já não crescia tão rápidamente como o da Alemanha, mas assim mesmo crescia. Durante os quarenta anos subseqüentes à guerra franco-prussiana o comércio alemão expandiu-se na proporção de 130%, enquanto para a sua rival o crescimento não passou de 40%. Ainda em 1 913 os ingleses exportaram mercadorias no valor de 525 milhões de libras e os alemães, de 495 milhões (3). Do mesmo modo, devemos abster-nos de de atribuir demasiada gravidade à competição entre a Rússia e a Alemanha. A Rússia não era ainda uma grande nação capitalista, com um excesso de produtos que tivesse necessidade de vender no exterior.   Dependia muito  mais  da importação.   Em  1 912. por exemplo, seus embarques de produtos acabados constituíram apenas 2% do total das exportações, ao passo que o volume das mercadorias manufaturadas foi mais de dez vezes maior (4). E é significativo que proviesse da Alemanha uma porção considerável  destas últimas. Por outro lado, não devemos esquecer que sempre há indivíduos poderosos que são prejudicados pela concorrência estrangeira.   Tais pessoas invariavelmente exerceu; a maior pressão possível para forçarem os seus governos a uma ação agressiva. Convém lembrar também qué as rivalidades económicas resultam amiúde em atrito político. Os ingleses temiam, por exemplo, que o gigantesco desenvolvimento industria] da Alemanha ocidental tornasse indispensável ao império do kaiser o controle de Antuérpia e Amsterdã. O resultado total seria a anexação da Bélgica e da Holanda pela Alemanha, com sério prejuízo para a posição estratégica da Inglaterra.

(3 )   B. E..  Schmitt, England and Germany, p.  102.

(4)   Clive Day, Bconomic Developmcnt in Modem Europe, p. 387.

Nacionalismo e Movimento pela Grande Sérvia.

Entre as causas politicas da Primeira. Guerra Mundial desempenhou papel proeminente o nacionalismo.   Esse fator, como explicamos anteriormente, tinha raízes que remontavam pelo menos à Revolução Francesa.   Nos começos do século XX, porém, êle passou a assumir uma var de formas particularmente perigosas.   As principais dentre elas eram o plano da Grande Sérvia, o paneslavismo na Rússia, o movimento de revanche na França e •  :v. mento pangermânico.   Os dois primeiros relacionavam-se intimamente entre si.   Pelo menos desde o começo do século XX a pequena Sérvia sonhava estender a sua jurisdição sobre todos os povos que passavam por ser da mesma raça e cultura que os seus próprios cidadãos. Alguns desses povos habitavam as então províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina.   Outros incluíam os croatas e eslovenos das províi meridionais da Áustria-Hungria.   Depois de 1 908, quando a Austria repentinamente anexou a Bósnia e a Herzegovina, o plano da Grande Sérvia dirigiu-se exclusivamente contra o império dos Habsburgos. Assumiu a forma de uma agitação para provocar o descontentamento entre os súditos eslavos da Austria, na esperança de afastá-los desta e unir à Sérvia os territórios que eles habitavam.   Daí adveio uma série de perigosas conspirações contra a paz e a integridade da Monarquia Dual, e o clímax fatídico dessas conspirações foi o assassínio do herdeiro do trono austríaco em 28 de junho de 1 914.

 O pan-eslavismo

Em muitas de suas atividades os nacionalistas sérvios foram auxiliados e instigados pelos pan-eslavistas da Rússia.   O pan-eslavismo baseava-se na teoria de que todos os eslavos da     Europa Oriental constituíam uma grande família. Argumentava-se  por  conseguinte  que  a  Rússia,  como o mais poderoso dos estados eslavos, deveria ser guia e protetora das suas pequenas irmãs dos Balcãs.   Era preciso encorajar estas últimas a voltar os olhos para a Rússia sempre que os seus interesses corressem perigo.   Os sérvios, búlgaros e montenegrinos, nas suas lutas contra a Áustria ou a Turquia, deviam saber que sempre teriam um amigo poderoso e simpatizante no outro lado dos Cárpatos.   O pan-eslavismo não era apenas o ideal interessado de alguns nacionalistas ardentes, mas fazia verdadeiramente parte da política oficial do governo russo.   Muito contribui para explicar a atitude agressiva da Rússia em todas as disputas que surgiram entre a Sérvia e a Áustria.

O movimento de desforra da França

 Outra das formas malignas de nacionalismo que contribuíram para a guerra de 1 914 foi o movimento francés pela revanche. Desde 1 870 os patriotas exaltados da França vinham almejando um ensejo de vingar a derrota sofrida na guerra franco-prussiana. É quase impossível, para quem nao é europeo, formar uma concepção justa do ascendente que tinha essa ideia sôbre o espírito de milhões de franceses. Era cuidadosamente cultivada pela imprensa amarela e servida aos escolares como iguaria cotidiana da sua nutrição intelectual. O conhecido político Raymond Poincaré devia não ver para que a sua geração continuasse a viver, a não ser a de reaver as provincias perdidas da Alsácia e da Lorena. Deve-se compreen der, no entanto, que essa idéia nunca passou, provavelmente, de opi nião de uma minoria do povo francês. Por volta de 1 914, era for temente combatida pelos socialistas e por muitos líderes liberais.

O movimento pangermanisia

É difícil avaliar a influência do pangermanismo como uma modalidade de nacionalismo antes de 1 914.   O nome do movimen; em geral, por derivar da Liga Pangermânica, fundada por volta de 1 895.   Essa liga advogava particularmente a expansão da Alemanha, que deveria incorporar todos os povos teutónicos da Europa Central.   Os limites do império seriam estendidos até abranger a Dinamarca, a Holanda, o Luxemburgo, a Suíça, a Áustria e a Polônia até Varsóvia.   Alguns líderes não se contentavam sequer com isso, exigindo também um grande império colonial e uma ampla expansão para leste, até os Balcãs e a Ásia Ocidental.   Faziam questão de que povos como os búlgaros e turcos se tornassem pelo menos satélites do Reich.   Embora a Liga Pangermânica fizesse muito ruído, dificilmente poderia alimentar a pretensão de representar a nação alemã.   Ainda em 1912 não contava mais de 17 000 membros e as suas violentas críticas ao governo eram mal recebidas por muita gente.   Não obstante, certas doutrinas suas tinham vivido em estado latente por mais de um século no pensamento alemão.   O filósofo Fichte ensinara que os alemães, em virtude da sua superioridade espiritual, tinham a missão de impor a paz ao resto da Europa.   Conceitos de arianismo e de supremacia nórdica também contribuíram para a idéia de que os alemães eram divinamente predestinados a persuadir ou obrigar as "raças inferiores" a aceitarem a sua cultura.   Por fim, os esforços de filósofos como Heinrich von Treitschke para divinizar o estado e glorificar o poder como instrumento de política nacional ajudaram a incutir no espírito de muitos alemães das classes média e superior a intolerância para com as outras nações e a crença no direito da Alemanha a dominar os seus vizinhos mais fracos.

Os efeitos do sistema de Alianças Múltiplas

O nacionalismo dos tipos que acabamos de descrever teria sido quase suficiente de per si para mergulhar um número considerável de nações européias na voragem da guerra.   Mas o  conflito dificilmente teria assumido as proporções  que assumiu se não fosse o sistema de alianças multiplas.   Foi esse sistema que transformou a contenda local entre a Áustria e a Sérvia numa guerra geral. Quando a Rússia interveio em favor da Sérvia, a Alemanha sentiu-se obrigada a acudir em defesa da Áustria. A França estava ligada à Rússia por laços estreitos e a Inglaterra foi arrastada ao conflito devido, pelo menos em parte, aos seus compromissos com a França.

O sistema de alianças, além disso, era uma fonte de suspeita e de medo. Impossível esperar que a Europa continuasse indefinidamente dividida em campos opostos de força mais ou menos igual. As condições não podiam deixar de mudar com a passagem do tempo. Os motivos que originalmente tinham levado determinadas nações a associar-se a outras perdiam a sua importância, desaparecendo assim a base da aliança. Veremos, por exemplo, a Itália abandonar praticamente a aliança com a Alemanha e a Áustria, às quais parecera, de começo, tão ansiosa por juntar-se. O resultado foi unir mais fortemente as suas antigas aliadas e aumentar-lhes a obsessão de estarem cercadas por um anel de potências hostis.

A evolução do sistema de alianças

A evolução do sistema de alianças múltiplas remonta à década de 1 870 e seu arquiteto inicial foi Bismarck.   Em essência, os objetivos do Chanceler de Ferro eram pacíficos.   A  Prússia e os seus aliados alemães tinham saído vitoriosos da guerra com a França e o recém-criado império germânico era o estado mais poderoso do Continente. Almejava Bismarck, acima de tudo, preservar os frutos dessa vitória: nada indica que êle estivesse a planejar novas conquistas. Não obstante, perturbava-o o receio de que a França pu-desse iniciar uma guerra de desforra.   Era pouco provável que tentasse sozinha uma tal coisa, mas podia fazê-lo auxiliada por uma outra potência. Conseqüentemente, Bismarck resolveu isolar a França ligando todos os seus possíveis amigos à Alemanha. Em 1 873 conseguiu formar unia aliança simultânea com a Áustria e a Rússia — a chamada Liga dos Três Imperadores. Essa combinação era entretanto de caráter precário. Desfez-se depois do Congresso de Berlim, em 1 878, quando a Rússia acusou a Alemanha e a Áustria de escamotear-lhe os frutos da guerra que acabava de ter com a Turquia. Extinta a Liga dos Três Imperadores, Bismarck cimentou uma nova aliança, agora muito mais forte, com a Áustria. Em I 882 essa parceria expandiu-se na célebre Tripla Aliança, com a adesão da Itália. Os italianos não aderiram por amor aos alemães ou aos austríacos, mas sim levados pela cólera e pelo medo.   Despeitava-os o fato de ter a França anexado a Tunísia (188I), um território que consideravam como legitimamente seu. Além disso, os políticos italianos ‘ ainda andavam às testilhas com a igreja e receavam que os clericais da França subissem ao poder e enviassem um exército francês para defender o papa. Nesse meio tempo foi ressuscitada a Liga dos Três Imperadores. Conquanto durasse apenas seis anos (1881-87), a Alemanha conseguiua amizade com a Rússia até 1890.

A Revolução diplomática em 1899 – 1907

Destarte, ao cabo de pouco mais de uma década de manobras políticas Bismarck kigrara realizar as suas ambições.   Por volta de 1 882 a França estava praticamente impossibilitada de obter o auxílio de amigos poderosos.   A Áustria    e a Itália achavam-se unidas à Alemanha pela Trí-plice Aliança e a Rússia, após três anos de ausência, havia retornado ao arraial bismarckiano.   O único auxilio possível era o da Inglaterra; mas, com respeito aos assuntos continc: ingleses tinham voltado à sua política tradicional de "esplêndido isolamento".   Por conseguinte, no que dizia respeito ao perigo de uma guerra de vingança a Alemanha pouco tinha a temer.   Mas, se Bismarck ou qualquer outra pessoa imaginava que tal segurança era permanente, estava-lhe reservada uma triste decepção.   Entre 1 890 e 1 907 a Europa passou por uma revolução diplomática que aniquilou praticamente a obra de Bismarck.   É verdade que a Alemanha ainda tinha a Áustria ao seu lado, mas perdera a amizade tanto da Rússia como da Itália, ao mesmo tempo que a Inglaterra saíra do seu isolamento para entrar em ajustes com a Rússia e a França.   Esse deslocamento do equilíbrio de poderes teve resultados fatídicos.   Convenceu os alemães de que estavam rodeados por um anel de inimigos e, portanto, tinham de fazer o que estivesse ao seu alcance para conservar a lealdade da Áustria, ainda mesmo que fosse preciso prestar apoio às temerárias aventuras desta no estrangeiro.   Seria difícil encontrar melhor ilustração da futilidade de se confiar num sistema de alianças para preservar a paz.

Não é necessário procurar muito longe as causas dessa revolução diplomática. Em primeiro lugar, desavenças entre Bismarck e o novo kaiser, Guilherme II, determinaram o afastamento do chanceler em 1 890. Seu sucessor, o Conde Caprivi. estava interessado principalmente numa tentativa de cultivar a amizade da Inglaterra e por isso deixou caducar o tratado com a Rússia. Em segundo lugar, o desenvolvimento do pan-eslavismo na Rússia colocou o império do czar em conflito com a Áustria. Na contingência de escolher entre a Áustria e a Rússia, a Alemanha muito naturalmente preferiu a primeira. Em terceiro lugar, o estabelecimento de laços financeiros entre a França e a Rússia abriu caminho inevitavelmente para uma aliança politica. Em 1 888-89 tinham sido lançados, na Bolsa de Paris, empréstimos russos no valor-aproximado de 500 milhões de dólares.   As obrigações, oferecidas a preço convidativo, foram prontamente compradas pelos capitalistas franceses. A partir de então, grande número de cidadãos influentes da França passaram a ter um interesse direto nos destinos políticos da Rússia. Uma quarta causa foi o abandono do isolacionismo pela Inglaterra, mudança essa devida a várias razões: uma delas foi a preocupação causada pelo crescente poder econômico da Alemanha; outra, o fato de terem os ingleses e os franceses descoberto, por volta de 1 900, uma base de cooperação para a partilha da Africa do Norte. Uma última causa da revolução diplomática foi a mudança de atitude da Itália em relação à Tríplice Aliança. Pelas alturas de 1 900 estavam os republicanos franceses consolidados no poder, não tendo pois a Itália mais que temer uma intervenção monárquico-clerical em favor do papa. Além disso, a maioria dos italianos tinha-se conformado com a perda da Tunísia e tratava apenas de reaver os territórios em poder da Áustria e de ganhar o apoio da França para a conquista de Trípoli. Por essas razões a Itália perdeu o interesse em manter a lealdade à Tríplice Aliança.

Resultados da revolução diplomática: Formação da Tríplice Entente

O primeiro resultado importante da revolução diplomática foi a Triple Entente.   Chegou-se a ela por uma série de estágios.   Em um ação política que aos poucos amadureceu numa aliança. O convênio militar secreto assinado pelos  dois países estabelecia que uma das partes iria em auxílio da outra em caso de ataque pela Alemanha, ou pela Áustria ou Itália apoiada pela Alemanha; e que, em caso de mobilização por parte de qualquer dos componentes da Tríplice Aliança, tanto a Rússia como a França mobilizariam imediatamente todas as suas forças e as colocariam tão próximo das fronteiras quanto possível. Essa Aliança Dual entre a Rússia e a França foi seguida pela Entente Cordiale entre a França e a Inglaterra. Durante as duas últimas décadas do século XIX, ingleses e franceses haviam tido amiudadas e sérias altercações a respeito de colônias e comércio. As duas nações quase chegaram às vias de fato em 1 898, em Fachoda, no Sudão Egípcio. Subitamente, porém, a França abandonou todas as suas pretensões a essa parte da África e iniciou negociações para um entendimento amplo em relação a outras contendas. O resultado foi a conclusão, em 1 904. da Entente Cordiale. Não era uma aliança formal, mas um acordo amigável sobre muitos assuntos. O que continha de mais importante eram certos artigos secretos referentes à partilha do Norte da África. A França concordava em dar carta branca à Inglaterra no Egito, e em troca a Inglaterra consentia na aquisição de quase todo o Marrocos pelos franceses. O passo final na formação da Triple Entente foi a conclusão de um entendimento mútuo entre a Inglaterra e a Rússia.   Também aqui não houve aliança formal.   As duas potências chegaram simplesmente, em 1 907, a um acordo relativo às suas ambições na Ásia. O núcleo desse acordo consistia na divisão da Pérsia em esferas de influência- A Rússia ficaria com a parte do norte e a Inglaterra, com a do sul. Uma porção mediana seria conservada, pelo menos temporariamente, como zona neutra sob o governo do seu soberano legitimo, o  xá.

Destarte, em 1907 as grandes potências da Europa achavam-se alinhadas em dois campos hostis —  Tríplice Aliança e a Triple Entente.   Enquanto, porém, esta última ia em vias de desenvolvimento, a primeira foi muitíssimo enfraquecida pela defecção da Itália.   Já vimos que por volta de 1 900 os motivos que levaram a Itália a juntar-se à Tríplice Aliança haviam perdido a sua importância.   Xão somente se observava uma decidida frieza as relações italo-austríacas mas também os nacionalistas italianos clama vam incessantemente por um império na África.   Por isso, em 1 900 o governo firmou um acordo secreto com a França, estipulando que em troca da plena liberdade de ação em Trípoli a Itália se absteria de qualquer interferência nas ambições francesas sobre o Marrocos.  Em 1 902 os dois países concluíram outro pacto secreto, pelo qual cada um se comprometia a manter a neutralidade em caso de ataque por uma terceira potência. A obrigação subsistia mesmo que alguma das partes, por motivo de uma ameaça à sua honra ou à sua segurança, se visse obrigada a "tomar a iniciativa da declaração de guerra". Sendo os termos ”honra" e "segurança" suscetíveis de ampla interpretação, é evidente que a Itália estava, na realidade, comprometendo-se a permanecer neutra em quase qualquer guerra que viesse a estalar entre a França e a Alemanha. Sua obrigação anterior, decorrente da Tríplice Aliança, de ajudar a Alemanha no caso de um ataque francês ficava assim praticamente anulada. O auge da deslealdade foi alcançado pela Itália no "Acordo de Racconigi" de 1 909. com a Rússia. Por esse acordo o governo de Roma prometia "encarar com benevolência" as pretensões russas ao controle dos Estreitos e de Constantinopla, em troca do apoio diplomático à conquista de Tripoli.

A instabilidade da Triple Entente

A fortuna da Triple Entente esteve também sujeita a flutuações. Foi ela um tanto fortalecida entre 1 905 e 1912 por uma série de "conversações" militares e de acordos não-oficiais entre a Inglaterra e a França.   Consistiam estes    mormente em planos pormenorizados dos estados-    maiores britânico e francês para uma ação conjunta dos dois exércitos, na eventualidade de ser a França atacada pela Alemanha.   Mais tarde foram assumidos certos compromissos de cooperação naval entre a Inglaterra e a França, de um lado, e a Inglaterra e a Rússia do outro.   Alas a coalizão foi seriamente enfraquecida em 1 909. em conseqüência da recusa da Inglaterra e da França a apoiar a Rússia na sua disputa com a Áustria em torno da anexação da Bósnia-Herzegovina por esta última. Outra ameaça à integridade da Triple Entente surgiu em 1 913, quando a Inglaterra colaborou com a Alemanha e a Áustria no desígnio de forçar a Sérvia a abandonar suas pretensões à Albânia. Embora as Potências Centrais pretendessem ver na Triple Entente uma poderosa coligação contra elas, na realidade era tão instável quanto a Tríplice Aliança. As ambições russas sobre Constantinopla entravam em conflito com os interesses britânicos na mesma localidade. Os próprios ingleses pareciam por vezes afagar a idéia de lançar as potências continentais umas contra as outras. Daí a sua tendência a vacilar entre o apaziguamento da Alemanha e o encorajamento à França. Até quase os fins de julho de 1 914, nem os inimigos da Inglaterra nem os seus aliados podiam ter absoluta certeza sobre a decisão que ela tomaria.

A Série de Crises Internacionais

A última das causas subjacentes da Primeira Guerra Mundial a ser considerada foi uma série de crises internacionais que puseram em perigo a paz européia entre  1 905 e  1 913.  Houve, ao todo, cinco crises de grave importância:  três   suscitadas pela questão marroquina e duas relacionadas com disputas na Europa Oriental. Conquanto a maioria delas tivesse sido afastada por meio de compromissos, todas deixaram um legado de suspeita e ressentimento. Em alguns casos, a guerra só foi evitada por estar na ocasião demasiadamente fraca uma das partes para oferecer resistência. Daí o sentimento de humilhação, o rancor reprimido que em ocasião futura teria de explodir. Outro efeito dessas crises foi lançar alguma luz sobre as verdadeiras simpatias das grandes potências. Destarte se evidenciou, durante a terceira crise marroquina, que a Inglaterra reconhecia uma comunhão de interesses com a França. Do mesmo modo, a atitude assumida pela Itália mostrou que esse país estava longe de ser um membro seguro da Tríplice Aliança.

O Conflito de Interesses de Marrocos

A crise marroquina nasceu de um entrechoque de interesses económicos franceses e alemães.   No começo do século XX era o Marrocos um país independente, governado por um sul-     tão. Seu território, porém, era relativamente rico   em minerais e produtos agrícolas, que as nações  européias cobiçavam. O que despertava principalmente a cupidez dos franceses e alemães eram as jazidas de ferro e manganês e as excelentes oportunidades de comércio. Em 1880 as principais potências do mundo haviam assinado a Convenção de Madrid, estabelecendo que os representantes de todas as nações teriam privilégios econômicos iguais no Marrocos. Mas os franceses não se satisfizeram por muito tempo com tal combinação. Em 1 903 o seu comércio marroquino ultrapassava o de qualquer outro país e a França almejava nada menos que um monopólio. Além disso, cobiçavam o Marrocos como uma reserva de tropas e como um baluarte na defesa da Argélia. Por conseguinte, em 1 904 a França entrou em acordo com a Inglaterra para estabelecer uma nova ordem no território do d sultão. Os artigos do acordo que foram dados à publicidade enunciavam a louvável resolução das potências signatárias de manter a independência de Marrocos. Os artigos secretos previam justamente o contrário. Em época oportuna, o Marrocos seria desmembrado. Uma pequena porção fronteira a Gibraltar serio, dada à Espanha e o resto caberia à França. A Grã-Bretanha, como vimos, tinha como recompensa a liberdade de ação no Egito.

Foi esse acordo de 1 904 que precipitou a a encarniçada disputa entre a França e a Alemanha. Em 1 905, alguns funcionários do governo alemão farejaram a trapaça. Resolveram obrigar a França a desistir de suas pretensões sobre Marrocos, ou então oferecer compensações. Em 1 905 o chanceler von Bülow induziu o kaiser a desembarcar no porto marroquino de Tânger e pronunciar ali un: discurso declarando que a Alemanha estava pronta a defender a independência de sultão. O resultado foi uma crise que levou a Europa a dois passos da guerra. A fim de resolver a disputa reuniu-se em 1 906, na localidade espanhola de Algeciras, um congresso internacional. Embora confirmasse a soberania do sultão, a conferência reconhecia ao mesmo tempo os interesses especiais da França nos dominios daquele. Esse resultado convinha admiravelmente aos franceses, que podiam agora penetrar na terra dos mouros sob o manto da legalidade. Em 1 908 deu-se uma segunda crise e em 1 911 uma terceira, ambas resultantes de tentativas dos alemães para proteger o que consideravam seus legítimos direitos no Marrocos. A terceira crise revestiu-se de particular importância por causa da atitude positiva assumida pelos ingleses. Em julho de 1911 David Lloyd George, no seu célebre discurso da Mansion House (Prefeitura de Londres), virtualmente ameaçou de guerra a Alemanha se esta tentasse estabelecer uma base na costa marroquina. A controvérsia em torno de Marrocos foi resolvida nos fins de 1911, quando a França concordou em ceder uma porção do Congo Francês à Alemanha. O governo do kaiser abandonou então todas as pretensões sobre Marrocos e informou os franceses de que podiam fazer o que entendessem com esse país. Pouco depois todo o território, com exceção da estreita nesga concedida à Espanha, foi adicionado ao império colonial da França. Nenhuma das partes, todavia, esqueceu os ressentimentos nascidos da contenda. Os franceses afirmavam ter sido vítimas de uma chantagem pela qual lhe fora arrebatado um território valioso. Os alemães alegavam que a porção do Congo cedida pela França não era compensação suficiente para a perda de privilégios econômicos em Marrocos. sultão.   Os artigos do acordos que criavam a louvável resolução das independência do Marrocos.

As crises balcânicas: 1) a anexação da Bósnia-Herzegovina

Mais sérias ainda que o caso marroquino foram as duas crises balcânicas.   A primeira foi a crise da Bósnia, em 1908.   Pelo Congresso de Berlim, em 1 878, as duas províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina tinham sido colocadas sob o controle administrativo da Austria, se bem que o Império Otomano conservasse ainda a posse legítima.   A Sérvia também cobiçava esses territórios, que duplicariam a extensão do seu reino e lhe colocariam as fronteiras nas imediações do Adriático.   Subitamente, era 5 de outubro de 1 908, a Áustria anexa as duas províncias, numa franca violação ao Tratado de Berlim.   Os sérvios ficaram furiosos e apelaram para a Rússia.   O governo do czar ameaçou com a guerra até que a Alemanha enviou uma áspera nota a S. Petersburgo, anunciando a sua firme intenção de apoiar a Austria.   Como a Rússia ainda não se houvesse refeito inteiramente da guerra com o Japão e não estivesse em condições de guerrear com a Alemanha e a Áustria unidas, acabou por informar os sérvios de que eles teriam de esperar um momento mais favorável.   A opinião dominante na Europa Ocidental era de crítica veemente à Áustria.   Censuravam-na por ter violado o direito internacional e por perturbar temerariamente o equilíbrio de poderes.   Não se sabia então que a responsabilidade da crise também recaía, em boa parte, sobre os ombros do ministro russo do Exterior, Alexandre Izvolski.   Em setembro de 1908 Izvolski firmara um acordo secreto com o Conde Aerenthal, seu colega austríaco, no castelo deste em Buchlau, prometendo a não-interferência da Rússia na anexação das duas províncias se a Áustria desse seu apoio à ambição russa de abrir os Estreitos.   Izvolski foi. porém, impedido de levar a efeito a sua parte do pacto pela oposição da Inglaterra e da França.   Quando Aerenthal consumou a anexação, Izvolski voltou-se contra êle numa atitude de inocência ofendida.   A crise da Bósnia foi, indubitavelmente, uma das causas mais importantes da Primeira Guerra Mundial.   Seria quase impossível mencionar um outro fator isolado que tivesse provocado tanta malquerença entre as nações.   Insuflou a ira dos sérvios contra a Austria e encorajou-os a solicitar o apoio da Rússia.   Convenceu os imperialistas de S. Petersburgo de que teriam de lutar eventualmente não só contra a Áustria, mas também contra a Alemanha.   Efeito não menos importante foi o de levar a França a uma aproximação mais estreita com a Rússia.   Depois de ver frustrados os seus planos em 1 908, Isvolski renunciou ao cargo de ministro e aceitou a sua nomeação como embaixador em Paris.   Ali, de 1 910 a 1 914, trabalhou com magistral habilidade para fazer da França uma aliada leal da Rússia.   Parece ter exercido considerável influéncia junto a Poincaré.

A Guerra dos Balcãs

A inimizade austro-sérvia foi ainda mais intensificada pelas guerras dos Balcãs.   A primeira dessas guerras foi. em parte, um fruto do programa de otomanização posto em prática pelos Jovens Turcos. Relatos de atrocidades cometidas pelo governo do sultão contra os eslavos da Macedónia despertaram as simpatias dos povos

balcânicos da mesma raca e serviram de pretexto para um ataque ao teritório turco. Em  1 912, a Sérvia, a Bulgária, o Montenegro e a Grécia, com o encorajamento da Rússia, formaram a Liga Balcânica para a conquista da Macedónia. A guerra iniciou-se em outubro de 1 912 e em menos de dois meses a resistência turca foi completamente desmantelada. Surgiu então o problema da divisão dos despojos. Por estados secretos, negociados antes do início das hostilidades, fora prometida ã Sérvia a Albânia, além de uma generosa fatia da Macedónia ocidental. Mas então a Áustria, receosa como sempre de qualquer aumento do poder sérvio, interveio na conferência de paz e obteve o apoio da Inglaterra e da França para o reconhecimento da Albânia como estado independente. Para os sérvios isso foi a última gota. Dir-se-ia que o governo dos Habsburgos estava disposto a bloquear-lhes sistematicamente todas as tentativas de expansão, pelo menos na direção de oeste. Desde então tornou-se ainda mais rancorosa a agitação anti-austríaca na Sérvia e na província vizinha da Bósnia. Conquanto os sérvios tivessem conseguido forçar os búlgaros a ceder uma porção das suas conquistas na Macedónia, isso não era compensação suficiente para a perda da Albânia, que teria oferecido uma saída para o mar (5).

(5)   A guerra que a Sérvia moveu à Bulgária é conhecida como a Segunda Guerra  Balcânica  (junho-julho de 1913).   A Sérvia tinha como aliados a Grécia, o Montenegro, a  Rumânia  e  a  Turquia. O  principal  resultado  dessa  guerra  foi  levar  a  Bulgária  à Primeira Guerra Mundial ao lado das Potências Centrais, na esperança de se desforrar da Sérvia.

2. O  CAMINHO DE HARMAGEDON

O Assassinato de Francisco Fernando

Como todos sabem, a causa imediata da Primeira Guerra Mundial foi o assassínio do Arquiduque Francisco Fernando, em 28 de junho de 1 914.   Foi a faísca lançada ao barril de pólvora das suspeitas e ódios acumulados.   Sem embarro.   não foi um fato tão trivial como muita gente pensa. Na realidade teve um significado muito mais profundo do que geralmente se imaginava fora da Europa Central. Francisco Fernando não era simplesmente uma figura inútil da nobreza austríaca; era um homem que em breve se tornaria imperador. O monarca reinante, Francisco José, atingira os oitenta e cinco anos e a sua morte era esperada a cada momento. Por isso. o assassínio do herdeiro do trono foi considerado muito justamente como um ataque ao estado.   A reação dos austríacos foi, de certo modo, semelhante ao que teria sido a dos americanos se, por exemplo, o vice-presidente dos Estados Unidos fosse assassinado, durante uma visita ao Texas, por um bando de nacionalistas mexicanos.

Motivos do Assassinato de Francisco Fernando

O assassino de Francisco Fernando foi um estudante bosníaco chamado  Princip.   Isto, porém, não  é nem metade da história.

Princip não passava de um instrumento dos nacionalistas sérvios.   O assassínio, embora tenha ocorrido em Sarajevo, capital da Bósnia, resultou de uma conspiração urdida em Belgrado. Os conspiradores eram membros de uma sociedade secreta oficialmente conhecida como "União ou Morte", mas comumente chamada "Mão Negra". Documentos importantes vieram à luz ultimamente, mostrando que o governo sérvio tinha conhecimento da conspiração (6). Nem o primeiro ministro nem qualquer dos seus colegas, porém, tomou medidas eficazes para impedir-lhe a execução ou, pelo menos, alertar o governo austríaco. Isto leva, naturalmente, a indagar dos motivos que levaram a agir os assassinos. O principal deles parece ter sido o plano de reorganização do império dos Habsburgos, que se sabia estar sendo arquitetado por Francisco Fernando. Esse plano, denominado trialismo, incluía uma proposta no sentido de transformar a Monarquia Dual numa monarquia tríplice. Além da Áustria alemã e da Hungria magiar, já então praticamente autônoma, haveria uma terceira unidade semi-independente composta pelos eslavos. Tal coisa era exatamente o que os nacionalistas sérvios não desejavam. Temiam que, se tal acontecesse, os seus consanguíneos croatas e eslovenos se conformassem com o domínio dos Habsburgos. Decidiram, portanto, eliminar Francisco Fernando antes que se tornasse imperador da Áustria-Hungria.

(6)   Ver S. B. Fay,  The Origins of the  World  War, vol. II, pp.  61 e seguintes.

Ainda depois de terminada a guerra, pensava-se na Europa e nos Estados Unidos que o assassínio do arquiduque tivesse sido obra de bosníacos descontentes.   Mas nas semanas que se seguiram imediatamente à tragédia as autoridades austríacas procederam a um inquérito que confirmou as suas suspeitas quanto à origem sérvia da conspiração.   Por conseguinte, no dia 23 de julho enviaram ao governo sérvio um severo ultimato que continha onze exigências.   Entre outras coisa:-, a Sérvia devia fechar os jornais anti-austriacos, liquidar as sociedades patrióticas secretas, excluir do governo e do exército todas as pessoas culpadas de propaganda anti-austriaca e aceitar a colaboração das autoridades austríacas na eliminação do movimento subversivo contra o império dos Habsburgos.   A 25 de julho, dentro do prazo-limite de quarenta e oito horas, o governo sérvio transmitiu a sua resposta.   Era um documento ainda hoje sujeito a variada? interpretações.   Do total de onze exigências, somente uma era  categoricamente repelida e cinco eram aceitas sem reservas. O chanceler alemão considerou-o como uma capitulação quase completa e o kaiser afirmou que todos os motivos para a guerra tinham desaparecido. A Áustria, no entanto, declarou insatisfatória a resposta sérvia, rompeu as relações diplomáticas e mobilizou parte de seu exército. Os próprios sérvios não parecem ter nutrido ilusões de agradar à Áustria, visto que três horas antes de transmitir a resposta haviam dado ordem de mobilizar as tropas.

Neste ponto, a atituie de outras nações assume extrema importância.   Com efeito, algum tempo antes disso, diversos governantes de grandes potências haviam assumido atitudes bem definidas.  

Já em 18 de julho Sazonov, ministro russo do exterior, avisara a Áustria de que a Rússia não toleraria qualquer tentativa de humilhar a Sérvia.   Ao tomar conhecimento do ultimato à Sérvia      belicosa o governo russo ordenou uma série de preparativos para pôr o país em pé de guerra.   Foram canceladas as licenças I -oficiais, recolhidas as tropas aos quartéis, acumularam-se estoques de provisões e declarou-se o estado de guerra nos setores limítrofes Alemanha e à Áustria.   Em 24 de julho Sazonov disse ao embaixador alemão:   ”Eu não odeio a Áustria, desprezo-a.   A Áustria está procurando um pretexto para engolir a Sérvia, mas nesse caso a Rússia fará guerra à Áustria" (7).   O governo de Moscou contava com o apoio da França ao assumir essa atitude beligerante.   Mais ou menos a 20 de julho Raymond Poincaré, que se tornara presidente da República Francesa, fêz uma visita a S. Petersburgo.   Insistiu com Sazonov para que "fosse firme" e evitasse qualquer compromisso capaz de resultar em perda de prestigio para a Triple Entente. Preveniu o embaixador austríaco de que "a Sérvia contava com amigos .sinceros entre o povo russo e a Rússia tinha uma aliada, a França" (8).

A atitude da Alemanha nesses dias críticos foi aparentemente mais moderada.   Se bem que o kaiser ficasse chocado e enfurecido com o assassínio do arquiduque, o seu governo não formulou qualquer ameaça nem tomou deliberações  especiais para a guerra senão depois de dar motivo para alarma a atitude da Rússia.   Infelizmente, porém, tanto o kaiser como o chanceler von Bethmann-Holhveg adotaram a premissa de que uma punição severa deveria ser aplicada sem mais delongas à Sérvia.   Esperavam com isso colocar as potências diante de um fato consumado e evitar assim uma guerra geral.   Em 30 de junho o kaiser declarou:   "Agora ou nunca!   Devemos pôr tudo em "pratos limpos com os sérvios, c isso já." A 6 de julho Bethmann-Hollweg prestou ao ministro das relações exteriores da Austria um compromisso que foi interpretado por ê.ste último como um cheque em branco. O governo austríaco era informado de que o kaiser "estaria ao lado da Austria, de acordo com as obrigações assumidas em tratado e com a sua antiga amizade". Ao dar essa garantia, Bethmann e o seu imperial chefe estavam jogando com a esperança de que a Rússia não interviesse em auxílio da Sérvia, ficando assim a disputa limitada ao âmbito local. Mais tarde, quando descobriram ser vã tal esperança, procuraram conter a Áustria. Tentaram persuadi-la a que limitasse sua ação a uma ocupação temporária de Belgrado, como garantia de que os termos do ultimato seriam observados. Como isso falhasse, Bethmann chegou até a ameaçar a Áustria com o rompimento da aliança caso Berchtold persistisse em não aceitar os seus conselhos. Todos esses esforços, porém, chegaram muito tarde, pois a guerra entre a Áustria e a Sérvia já havia começado.

(7) S.  B.  Fay, obra citada,  vol.  II,  p.  300.

(8) Ibid., vol. II, p. 281.

A mobilização  russa

A Áustria declarou guerra à Sérvia em 28 de julho de 1914. Por um efêmero e ansioso momento, houve a tênue possibilidade de circunscrever-se o conflito. Foi êle, todavia, rapidamente transformado numa guerra de maiores proporções pela ação da Rússia. A 29 de julho, Sazonov e a clique militar persuadiram o czar a emitir uma ordem de mobilização geral, não só contra a Austria mas também contra a Alemanha. Antes, porém, que fosse a ordem executada, Nicolau mudou de idéia ao receber um apelo urgente do kaiser para que o ajudasse a preservar a paz. A 30 de julho, Sazonov e o general Tatichtchev trataram de fazer com que o czar mudasse mais uma vez de idéia. Durante mais de uma hora procuraram convencer o relutante autócrata de que todo o sistema militar deveria ser posto em movimento. Por fim, o general Tatichtchev comentou: "Sim, é difícil tomar uma decisão", ao que Nicolau retrucou, com mostras de irritação: "Eu decidirei", e assinou a ordem de mobilização imediata. Sazonov correu ao telefone para comunicar a notícia ao chefe do estado-maior. Dessa vez tinham sido tomadas todas as precauções para evitar um arrependimento de última hora por parte do czar. Providenciara-se para que a ordem fosse imediatamente telegrafada a todo o pais e para que o chefe do estado-maior quebrasse o seu telefone e se sumisse durante todo o dia. Na manhã seguinte, numa remota aldeia siberiana, um viajante inglês foi despertado por uma comoção diante de sua janela, seguida  pela alvoroçada pergunta de um campônes: "Sabe da noticia? Estamos em guerra" (9).

(9)   Ibid.,  vol.  II,  pp.  472-;

Os ultimatos alemães à Rússia e à França.

Já não havia possibilidade de recuar diante do abismo.   Os alemães estavam alarmados com os preparativos de guerra dos russos. A última medida tomada pelo governo do czar tor-   nava a situação muito mais crítica, uma vez que nos     círculos militares alemães, assim como  nos franceses     e russos, mobilização geral significava guerra.   A     menos que o czar pudesse de algum modo suspender o processo de-

pois de iniciado, tanto a Alemanha como a Áustria seriam obrigadas a pegar em armas contra a Rússia. E se a Alemanha entrasse no conflito, a França indubitavelmente faria o mesmo. Ao saber que o decreto do czar tinha sido posto em execução o governo do kaiser expediu um ultimato a S. Petersburgo, exigindo que a mobilização cessasse dentro de doze horas. Na tarde de 1° de Agosto o embaixa dor alemão solicitou uma entrevista com o ministro russo das relações exteriores. Rogou a Sazonov que desse uma resposta favorável ultimato alemão. Sazonov respondeu que a mobilização não podia ser detida, mas que a Rússia estava disposta a entrar em negociações. O embaixador reiterou o seu pedido uma segunda e uma terceira vez. acentuando as terríveis conseqüências de uma resposta negativa. Sazonov terminou dizendo: "Não tenho outra resposta para lhe dar." O embaixador entregou então uma declaração de guerra ao ministro e, sem poder conter as lágrimas, retirou-se da sala.

 (10). Nesse meio tempo, os ministros do kaiser tinham também enviado um ultimato à França, exigindo que ela desse a conhecer as suas intenções. O primeiro ministro Viviani respondeu, em 1.° de agosto, que a França agiria "de acordo com os seus interesses" e ordenou imediatamente a mobilização. Em 3 de agosto a Alemanha declarou guerra à França.

A atitude da Inglaterra

Todos os olhares voltaram-se então para a Inglaterra. Que faria ela agora, ao ver que os dois outros membros da Triple Entente se haviam atirado à guerra?   Durante algum tempo, depois de ter-se tornado crítica a situação no Conto nente, a Inglaterra vacilou. Tanto o gabinete como a nação estavam divididos. Sir Edward Grey e Winston Churchill advogavam uma atitude resoluta em favor da França, com o recurso às armas se os interesses britânicos fossem ameaçados. Alguns de seus colegas, porém, encaravam com pouco entusiasmo uma intervenção da Inglaterra nas disputas continentais. Por todo o país havia também uma oposição considerável contra a participação em conflitos que não fossem de interesse vital para a Inglaterra. Conquanto Grey tivesse em várias ocasiões animado os russos e franceses a contar com o auxílio inglês, só depois de ter recebido promessas de apoio dos líderes do partido conservador é que tomou compromissos formais. Em 2 de agosto informou os franceses de que "se a esquadra alemã entrasse na Mancha ou cruzasse o Mar do Norte para realizar operações hostis contra a costa ou o.s navios franceses, a esquadra britânica dispensaria toda a proteção que estivesse a seu alcance" (11):

(10)   G. P. Gooch, Before the War: Studies in Diplomacy, vol.  II, p. 368.

A Inglaterra entra na Guerra

Diante dessa promessa feita à França, era difícil acreditar qu" a Inglaterra pudesse permanecer muito tempo fora da guerra, mesmo que a neutralidade da Bélgica não tivesse sido vio-     lada. Com efeito, ainda 29 de julho Sir Edward  Grey advertira o embaixador alemão em Londres,  de maneira "amistosa e privada", de que se a França fosse arrastada ao conflito a Inglaterra lhe seguiria os passos (12). Não obstante, foi a invasão do território belga que forneceu o motivo imediato para que a Inglaterra desembainhasse a espada. Em l 839, juntamente com as outras grandes potências, assinara ela um tratado garantindo a neutralidade da Bélgica. Além disso, havia um século que a Grã-Bretanha seguia a política de impedir o domínio dos Países-Baixos, que lhe ficavam fronteiros no outro lado do estreito, por qualquer nação poderosa do Continente. Mas o famoso Plano Schlieffen dos alemães dispunha que a França fosse atacada pela Bélgica. Por conseguinte, pediram ao governo belga permissão para enviar tropas através do seu território, prometendo respeitar a independência da nação e indenizar os belgas de todas as depredações causadas às suas propriedades. Como a Bélgica recusasse, as tropas alemãs começaram a atravessar a fronteira. O ministro britânico do Exterior compareceu imediatamente ao Parlamento e declarou que o seu país devia acorrer em defesa do direito internacional, protegendo as pequenas nações. Argumentou que a paz em tais circunstâncias seria um crime moral e que a Inglaterra perderia o respeito dos países civilizados se deixasse de cumprir os seus compromissos de honra nessa ocasião. Os aplausos com que foi recebido o seu discurso na Câmara dos Comuns não lhe deixaram dúvidas quanto à atitude desse órgão. No dia seguinte. 4 de agosto, o gabinete resolveu mandar um ultimato a Berlim, exigindo que a Alemanha respeitasse a neutralidade belga e desse até a meia-noite uma resposta satisfatória. Os ministros do kaiser não tiveram outra resposta a dar senão que se tratava de uma necessidade militar e que era questão de vida ou de morte para a Alemanha poderem os seus soldados alcançar a França pelo caminho mais fácil e mais rápido. Quando o relógio bateu meia-noite, estavam em guerra a Inglaterra e a Alemanha.

(11) S. B. Fay, obra citada, vol. II pág. 540.
(12) B. E. Schmitt, "July, 1914: Thirty Years Afterv, em Journal of Modern History, vol. XVI  (1944), p.  193.

Alastra-se a conflagração

Outras nações foram rapidamente lançadas no terrível sorvedouro. Em 7 de agosto os montenegrínos juntaram-se aos seus consanguíneos sérvios na luta contra a Áustria.   Duas semanas depois o Japão declarou guerra â Alemanha, em   parte devido a sua aliança com a a Inglaterra, mas sobretudo com o objetivo de conquistar as possessões alemãs do Extremo-Oriente.   Em 19 de Agosto a Turquia negocia uma aliança com a Alemanha e em outubro iniciou o bombardeio dos pactos russos do Mar Negro. Destarte, a maioria das nações primeiramente ligadas por alianças ingressaram no conflito em sua fase inicial quer de um lado, quer do outro.   A Itália, no entanto, embora aimda  fosse  oficialmente um membro da Tríplice Aliança, proclamou a sua neu tralidade. Insistiam os italianos em que a Alemanha não estava fazendo uma guerra defensiva e, por conseguinte, não tinham a obrigação de auxiliá-la. Nada diziam, está claro, sobre o seu acordo secreta com a França, firmado em 1902. A Itália manteve-se neutra até maio de 1 915, quando, seduzida por promessas secretas da cessão de territórios austríacos e turcos, lançou-se à guerra ao lado da Triple Entente.

A Questão da Responsabilidade pela Guerra

O tumulto e a excitação que acompanharam o início da grande hecatombe de 1 914 há muito que se extinguiram, mas continua de pé a importante questão de saber-se quem foi o responsável pela horrível conflag ração. Os histo- riadores que examinaram os fatos declaram com unanimidade quase absoluta que não se pode con- siderar como culpada nenhuma nação em particular. A culpa deve ser dividida entre a Sérvia, a Austria, a Rússia, a Alemanha, a França e, talvez, a Inglaterra e a Itália também. É impossível determinar, todavia, qual a parte que cabe a cada um desses países. Parece justo afirmar que nenhuma das grandes potências desejava realmente uma guerra geral, mas a política adotada por algumas delas tornavam tal guerra inevitável. A Alemanha, por exemplo, considerou essencial aos seus interesses apoiar a Austria na temerária decisão desta de punir a Sérvia, embora estivesse lançando com isso um desafio à Rússia. Os alemães aparentemente esperavam que a Rússia negasse ouvidos ao desafio, mas não tinham certeza e estavam disposto a jogar no escuro, com risco de provocar uma guerra geral. Os próprios russos talvez não tivessem nenhuma intenção de guerrear a Alemanha ou mesmo a Austria, mas não vacilaram em ameaçar o status quo conspirando para obter o controle dos Estreitos, nem em favorecer o nacionalismo sérvio ao ponto de fazer perigar a segurança da Austria-Hungría. Do mesmo modo a França, no tocante à sua política marroquina, visava objetivos que sem dúvida lhe pareciam razoáveis, mas que não poderiam ser alcançados senão à custa dos interesses alemães.   E assim por diante.   A ambicão econômica e a preocupação com a segurança ou com a grandeza nacional levaram muitos estados europeus a adotar linhas de ação que colocaram o continente à beira da guerra. A guerra em si mesma não era o objetivo, mas foi o resultado inevitável quando se tornou impossível conciliar as ambições nacionais antagônicas.

A culpa dos indivíduos

Considerar a Grande Loucura de 1 914 como obra de um único indivíduo é ainda mais absurdo do que encará-la como a conspiração diabólica de uma só nação. Atualmente está mais  provado que o kaiser, tantas vezes representado como o Anjo das trevas, ioi menos culpado do que geralmente se crê. É verdade que gostava de fazer discursos jactanciosos, gabando-se, por exemplo, de ter permanecido ao lado da Áustria, na sua "armadura resplandecente", por ocasião da crise da Bosnia e referindo-se a si mesmo como o "Altíssimo". Mas o seu controle sobre o governo alemão diminuía de mês para mês. Raramente consagrava mais de duas horas por dia aos negócios públicos e em geral fazia apenas uma vaga idéia do que estava ocorrendo. Os verdadeiros negócios de estado eram dirigidos pelos seus ministros. Nenhum destes, porém, pode ser acusado de planejar deliberadamente a guerra. O chanceler von Bethmann-Holhveg foi tomado de profunda prostração nervosa nos trágicos dias finais. Tinha sido um dos tiltimos estadistas europeus a abandonar as esperanças de paz. Quando por fim compreendeu que a horrível catástrofe já não podia ser evitada, por pouco não enlouqueceu. Outros estadistas, talvez, mostraram mais sangue-frio, mas a maioria deles simulou, pelo menos, tentar impedir o conflito.

Na realidade, a Primeira Guerra Mundial foi um movimento de proporções demasiado vastas para ter sido causado em seu todo por planos individuais. Conquanto a maior parte dos políticos então no poder tenham sido de certo modo responsáveis, a culpa que lhes coube consistia antes da estupidez do que nas intenções criminosas. Provavelmente, poucos deles desejaram de fato a guerra, mas deixaram-se arrastar a situações difíceis e tiveram de recorrer a expedientes perigosos para evitar uma perda de prestígio. A maioria acreditava, como acreditam ainda hoje os estadistas, na fanfarronada e na ameaça como métodos de forçar um governo rival a ceder. Por vezes tais táticas surtiam efeito, como em 1909, quando o chanceler von Bülow fez a Rússia recuar da posição assumida na crise da Bósnia. Mesmo nas circunstâncias mais favoráveis, porém, o blefe entre nações está repleto de tremendos riscos. Em grande parte, também, os indivíduos que ocupavam os postos de mando em l 914 não passaram de instrumentos de forças muito mais poderosas que eles. Sazonov e Izvolski não criaram o pan-eslavismo na Rússia, do mesmo modo que o movimento de revanche na França não foi invenção de Poincaré. A Primeira Guerra Mundial foi um produto do chauvinismo, de ambições de prestígio nacional, da competição capitalista pelos mercados e por novos campos de investimento, dos ódios seculares entre as nações e dos temores suscitados pelas crises e pelas corridas armamentistas. Quando tais fatores se combinam para governar a constelação dos acontecimentos, primeiros-ministros e ministros do Exterior pouco mais são do que meros joguetes do destino.

Num sentido ainda mais amplo, a conflagração de 1914 foi a conseqüência virtualmente inevitável do sistema de política de poder que havia cerca de trezentos anos vinha fazendo a infelicidade do continente europeu. Esse sistema baseava-se na doutrina de que cada estado é absolutamente soberano e, por conseguinte, tem o direito de seguir a politica exterior que parecer mais adequada aos seus interesses. Se um estado, a fim de obter matérias-primas ou melhorar as suas defesas, achava conveniente lançar as suas garras sobre o território de um vizinho fraco, fazia-o sem trepidar e não havia ninguém para lhe negar tal direito. A maioria das grandes nações da Europa procurava conseguir a segurança para si estabelecendo uma espécie de equilíbrio de forças. Infelizmente, porém, cada uma tentava inclinar a balança em seu favor, em geral formando alianças para depois fortalecê-las ao máximo. Isso conduzia, entre as nações não incluídas nessas alianças, ao receio de serem cercadas, à formação de contra-alianças e aos esforços para anular qualquer coisa que se assemelhasse a uma liga de inimigos. Pelas alturas de 1 914 as nações do mundo se encontravam quase num estado de natureza, sem nenhuma autoridade eficaz para refreá-las ou para julgar-lhes as contendas. Era, virtualmente, uma condição de anarquia internacional.

3. A PROVA DE SANGUE

A guerra Santa das potências da Entente

No evangelho profético conhecido como o Apocalipse conta-se que as forças do bem e do mal se concentrarão no ”grande dia de Deus"   para  travarem  batalha  em  Harmagedon.

Dir-se-ia que o autor desconhecido estava pensando  no titânico conflito em que se engolfaram as nações europeias em 1 914.   Isso porque poucos admitiam que aquela guerra fosse uma luta entre potências imperialistas rivais ou um produto dos ciúmes nacionalistas; era, ao invés, representada pelos porta-vozes de ambos os campos como uma cruzada contra as forças do mal. Mal havia começado o conflito, os líderes políticos da Inglaterra e da França caracterizaram-no como um denodado esforço para salvaguardar os direitos dos fracos e preservar a supremacia do direito e da moral internacionais. Em 6 de agosto de 1914, o primeiro ministro Asquith declarou que a Inglaterra entrara na luta para defender "o princípio de que as nacionalidades menores não devem ser esmagadas pela vontade arbi traria de uma potência forte e dominadora*’. Do outro lado do Canal da Mancha, o presidente Poincaré asseverava pomposamente aos seus compatriotas que a França não tinha outro objetivo senão o de defender "’perante o universo a Liberdade, a Justiça e a Razão". Mais tarde, em conseqüência da pregação de escritores e oradores eloqüentes como H. G. Wells, Gilbert Murray e Woodrow Wilson, a cruzada da Entente converteu-se numa guerra "para acabar com todas as guerras", ”assegurar a democracia no mundo" e redimir a humanidade da maldição do militarismo. No campo adversário, os subordinados do kaiser faziam tudo que podiam para justificar os esforços militares da Alemanha. A luta contra os Aliados era representada ao povo alemão como uma cruzada em prol de uma Kidtur superior e como uma batalha para proteger a pátria contra a perversa política de cerco das potências da Entente (13).

Características Singulares da Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial foi singular sob vários aspectos. Não só inaugurou dezenas de armas novas mas também introduziu métodos de luta que diferiam radicalmente dos usa-      dos na maioria dos conflitos anteriores.   Salvo bre- ves ataques de infantaria, a guerra aberta desapareceu quase desde o início.   Depois das primeiras  semanas os exércitos antagonistas se instalaram numa vasta rede de trincheiras, das quais partiam assaltos, comumente ao lusco-fusco da madrugada, a fim de desalojar o inimigo. De um modo geral a luta foi um prélio de resistência em que a vitória dependeu principalmente dos recursos naturais e da possibilidade, para os Aliados, de obterem do outro lado do Atlântico provisões quase ilimitadas de dinheiro, alimentos e munições. Xão erraremos talvez se dissermos que a Primeira Guerra Mundial se distinguiu por uma selvajaria maior do que qualquer outra luta armada anterior dos tempos modernos. O uso dos gases venenosos, da metralhadora, do lança-chamas e das balas explosivas cobrou um tributo de mortes e de medonhos ferimentos absolutamente inédito, sem precedentes mesmo nas longas campanhas de Napoleão. Muito característico dessa selvajeria foi o fato de ter excedido o número de civis mortos nos bombardeios aéreos, nos massacres, peia fome e pelas epidemias, o número de soldados que pereceram em combate. Por fim  a Primeira Guerra Mundial levou a palma a tóelas as demais pelo enorme tamanho dos seus exércitos.   Ao todo, cerca de 65 000 000 de homens lutaram, durante períodos mais ou menos longos, sob as bandeiras das diversas nações beligerantes. Foi o clímax da tendência progressiva para a guerra em massa, tendência que datara dos tempos da Revolução Francesa.

(13) As citações deste parágrafo foram tiradas de J. S. Ewart. The Roots and Causes of the Wars, vol. I, pp. 16 e 104. Ver também T. C. Willis, England’s Holy- War.

Por que os Estados Unidos se juntaram aos Aliados: razões  culturais

à medida que o conflito se prolongava por quatro pavorosos anos, um número cada vez maior de nações se empenhava na luta, de um lado ou do outro. Vimos que a Itália retardou a sua entrada até a primavera de 1 915. A Bulgária juntou-se às Potências Centrais em setembro de 1 915 e a Rumania aliou-se ao campo oposto cerca de um ano depois. Mas o acontecimento que por fim fêz pender a balança em favor da vitória da Entente foi a declaração de guerra dos Estados Unidos à Alemanha, em 6 de abril de 1 917. Os Estados Unidos entraram na guerra por diversas razões. A maioria dos seus cidadãos eminentes eram de origem britânica. Isso sucedia em geral com os reitores de univer sidades, os principais ministros protestantes, os magnatas da imprensa e os altos funcionários públicos. As tradições culturais do país, a) sua teoria jurídica e política e as bases da sua literatura vinham sobretudo da Inglaterra. As agências britânicas de propaganda tiraram o máximo proveito desses laços étnicos e culturais e fomentaram habilmente entre os americanos a crença de que as nações da Entente estavam lutando em defesa da civilização. A propaganda alemã, pelo contrário, era tosca e inepta; e quando ela falhou, os agentes alemães e austríacos tentaram provocar greves e sabotagem nas fábricas de munições norte-americanas. A Alemanha vinha sendo alvo do temor e da desconfiança dos americanos desde a guerra de 1 898 com a Espanha, quando um almirante alemão passou por ter criado obstáculo à tomada de Manilha pelo comodoro Dewey. O seu sistema de fazer guerra em 1914, e em particular a violação da neutralidade da Bélgica, faziam recrudescer esse temor e essa desconfiança. Poucas semanas depois de se iniciarem as hostilidades alguns americanos entraram a chamar os alemães de "hunos".

Causas Econômicas

Poderosas forças econômicas também muito contribuíram para despertar a simpatia do povo americano para com a causa da Entente. Em 1915 os Estados Unidos tinham-se tornado o

principal fornecedor de munições e de outros materiais bélicos a Inglaterra, a Rússia e a branca. Esse tráfico alcançou tais proporções que transformou uma depressão, iniciada em 1 913, em resplandecente prosperidade.   A maioria dos artigos não era comprada a dinheiro mas a crédito, ou paga por meio de empréstimos lançados nos Estados Unidos.   Em abril de 1 917, pelo menos um bilhão e meio de dólares em obrigações dos governos aliados tinham sido vendidos ali.   Conquanto não haja provas de que os compradores dessas obrigações tenham exercido pressão direta sobre o presidente Wilson para levar a nação à guerra, não deixa de ser verdade que um número considerável de cidadãos influentes  estavam  financeiramente  interessados numa vitória  da Entente.

Wilson deseja uma Nova Ordem Mundial

Outra causa fundamental que induziu os Estados Unidos a se tornarem uma nação beligerante  foi a decisão  final do  presidente Wilson, cie que o seu país devia desempenhar um papel dominante na reestruturação do mundo quando terminasse a guerra.   Sonhava estabelecer uma nova  ordem mundial baseada numa Liga de Nações que preservasse no futuro a justiça e punisse os agressores. Durante a maior parte da guerra recusara-se a acreditar que um campo ou o outro tivesse a razão exclusivamente do seu laco. Ainda em dezembro de 1 916 havia declarado que os objetivos de guerra de ambos os grupos de beligerantes lhe pareciam ser essencialmente os mesmos. Ainda estava convencido de que a "paz sem vitória" e sem humilhações nem penalidades drásticas seria o fundamento necessário do novo regime de concórdia duradoura entre as nações. No fundo, porém, acreditava que a "autocracia" e o "militarismo" germânicos constituíam grandes obstáculos à realização do seu ideal. Como o governo alemão repelisse os seus esforços em prol da paz e mostrasse uma decisão crescente de ganhar a guerra pela implacabilidade e pelo desprezo ao direito internacional, essa convicção fortaleceu-se enormemente. Não tinha ainda nenhum motivo de disputa com o povo alemão, mas acreditava que as tendências recentes do governo daquele país não lhe deixavam outra alternativa senão esmagá-lo pela força.

A preocupação com o equílibrio de poderes

Uma causa subjacente final foi a preocupação do governo americano com a manutenção do equilíbrio de poderes na Europa.   Durante anos, fora doutrina dominante no Departa  mento de Estado e entre os oficiais do exército e da marinha que a segurança dos Estados Unidos dependia  de  um  equilíbrio  de   forças  no Velho Mundo.   Não era admissível que uma potência estabelecesse a sua supremacia sobre toda a Europa.   Enquanto a Grã-Bretanha fosse bastante forte para impedir essa supremacia, a Amé rica não corria perigo.   Crêem alguns entendidos que as autoridades americanas estavam acostumadas a encarar a marinha britânica com o  o  escudo da segurança deste continente e não podiam conceber uma mudança de tal situação.   A Alemanha, por outro lado, não só desejava a supremacia naval britânica mas ameaçava levar o povo inglês  à  rendição  pela fome e tornar-se senhora de toda a Europa.

A Guerra Submarina dos Alemães

A causa direta da participação americana na Primeira Guerra Mundíal foi a guerra submarina dos alemães. Foi. porém, muito mais do que uma causa imediata ordinária. Consideram-na alguns historiadores como o mais importante de todos os fatores, alegando que sem ela os americanos nunca teriam entrado na guerra. Quando esta começou a Alemanha possuía apenas uma pequena frota de submarinos, mas aumentou-lhes rapidamente o número.   Em 4 de fevereiro de 1 915 o governo do kaiser anunciou que os navios neutros que se dirigissem para os portos britânicos seriam torpedeados sem aviso prévio.   O presidente Wilson replicou a esse desafio declarando que os Estados Unidos considerariam a Alemanha "estritamente responsável sável" por qualquer dano causado  a vida ou aos bens de norte-americanos. A advertência não produziu efeito. Os alemães estavam convencidos de que o submarino era una das suas armas mais valiosas e consideravam-se justificados em usá-lo como represália ao bloqueio britânico. Violaram os compromissos de respeitar os direitos dos americanos e continuaram a afundar de quando em quando navios de passageiros, causando por vezes a morte de cidadãos americanos. Como os ministros do kaiser anunciassem que a 1.° de fevereiro de 1 917 dariam início a uma guerra submarina irrestrita, Wilson rompeu as relações diplomáticas com o o governo de Berlim. A 2 de abril compareceu perante uma sessão conjunta das duas casas do Congresso e solicitou uma declaração de guerra. A declaração foi aprovada quatro dias depois, contra apenas seis votos negativos no Senado e cinqüenta na Câmara de Representantes.

A Guerra na Frente Ocidental

Num livro como este não é possível nem desejável fazer um relato completo da história militar da Primeira Guerra Mundial. Como todos sabem, o teatro principal da guerra foi a frente ocidental, que incluía a Bélgica e o leste da França, desde os Vosgos até o Mar do Norte. Aí, por um breve período, os alemães varreram tudo que encontravam pela frente, avançando até 22 quilômetros de Paris em apenas um mês de guerra. Não conseguiram, porém, tomar a cidade. Os franceses descobriram um ponto fraco nas linhas alemãs e rechaçaram as hostes do kaiser para o vale do rio Marne, onde, nos começos de setembro de 1 914, se deu uma série de combates conhecida como a primeira batalha do Marne. Embora nenhum dos campos pudesse anunciar uma vitória decisiva, era evidente que o avanço alemão tinha sido sustado. Essa batalha também é importante por ter assinalado o fim da guerra aberta. Ambos os exércitos construíram um complicado sistema de trincheiras e alojaram-se atrás de redes de arame farpado. Dessa data até a primavera de 1 918 a guerra na frente ocidental ficou, por assim dizer, empatada. Conquanto os ingleses e franceses conseguissem vantagens consideráveis, não puderam alcançar uma vitória esmagadora que obrigasse a Alemanha a pedir a paz. Mas em março de 1 918 os alemães lançaram um poderoso ataque que ameaçou, por certo tempo, levar de vencida a resistência dos exércitos aliados. Seguiu-se uma contra-ofensiva dos franceses, ingleses e americanos que continuou por todo o verão, entrou pelo outono a dentro e finalmente pôs termo à guerra.

A guerra nas frentes oriental e meridional

Nas frentes oriental e meridional as Potências Centrais mantiveram-se vitoriosas durante muito mais tempo.   No fim de agosto de 1 914 o avanço russo foi repentinamente detido em Tannenberg, na Prússia Oriental, e pouco depois os generais do czar iniciaram uma retirada ao longo de toda a frente. Em 1 915 os alemães e austríacos tomaram quase toda a Polônia russa e a Lituânia, transformando todos os contra-ataques russos em derrotas desastrosas. Depois que o czar foi destronado pela revolução de março de 1917, a Rússia retirou-se praticamente da guerra. O governo provisório envidou tentativas para renovar a luta, mas o povo estava tão descoroçoado que nada se conseguiu. Em março de 1 918 o governo bolchevique concluiu um tratado de paz. Nesse meio tempo a România tinha sido conquistada pelos alemães e a Sérvia fora reduzida à impotência pelos austríacos e búlgaros. Na frente meridional, os italianos conseguiram manter os austríacos encurralados por mais de dois anos e até conquistar pequenas porções do escabroso território do litoral nordeste do Adriático. Mas, pelos meados de 1 917, começaram a se cansar da estrénua luta. O derrotismo grassava tanto no governo como entre as tropas. Em outubro os austríacos romperam as defesas da fronteira e desbarataram o desmoralizado exército italiano em Caporetto. Foram feitos 200 000 prisioneiros, sem falar de imensa quantidade de armas e munições. Foi um golpe que abalou profundamente os italianos, e do qual mal conseguiram re fazer-se antes do fim da guerra.

Propostas de Paz

Enquanto ia ainda acesa a luta nas várias frentes, fizeram-se várias tentativas para iniciar as negociações de paz.   Na primavera de 1 917, socialistas holandeses e escandinavos re- solveram convocar uma conferência socialista internacional a reunir-se em Estocolmo, tencionando traçar planos para terminar a luta, os quais pudessem ser aceitos por todos os beligerantes. O soviete de Petrogrado abraçou a idéia e, a 15 de maio, emitiu um apelo aos socialistas de todas as nações para que mandassem delegados à conferência e persuadissem os seus governos a aceitar uma paz "sem anexações nem indenizações, sobre a I ase da autodeterminação dos povos". Os partidos socialistas de todos os países principais, tanto de um campo como do outro, acolheram entusiasticamente essa fórmula e estavam ansiosos por enviar delegados ã conferência, mas o projeto foi abandonado quando os governos inglês e francês negaram permissão a qualquer de seus súditos para participar dela. A prova de que os governantes dos estados da Enterite não temiam essas propostas unicamente por terem emanado de socialistas está no fato de haverem rejeitado com a mesma veemência uma fórmula semelhante sugerida pelo papa. Em 1.° de agosto desse mesmo ano o papa Bento XV fêz um apelo aos vários governos para que renunciassem a quaisquer indenizações, para que as disputas internacionais fossem resolvidas no futuro por arbitragem, os armamentos fossem reduzidos, restituídas as zonas ocupadas aos seus donos, e se convocassem plebiscitos para decidir sobre o destino de territórios como a Alsácia-Lorena. a Polônia e o Trentino. Ninguém se mostrou disposto a tomar a sério essas propostas. Woodrow Wilson, como porta-voz dos Aliados, declarou que seriam impossíveis as negociações de paz em quaisquer condições enquanto a Alemanha permanecesse sob o governo do kaiser. As Potências Centrais diziam encarar com bons olhos as sugestões do Sumo Pontífice, mas recusavam comprometer-se no tocante a indenizações e restituições, especialmente a restauração da Bélgica.

Os  14  pontos de Wilson

A mais famosa de todas as propostas de paz foi o programa de Wilson, constante de quatorze itens, que o presidente norte-americano incorporou na sua mensagem ao Congresso em 8 de janeiro de 1 918. Em resumo, os 14 Pontos eram os seguintes: 1) ”acordos públicos, negociados publicamente", ou seja a abolição da diplomacia secreta: 2) liberdade dos mares; 3) eliminação das barreiras econômicas entre as nações; 4) limitação dos armamentos nacionais "ao nível mínimo compatível com a segurança"; 5) ajuste imparcial das pretensões coloniais, tendo em vista os interesses dos povos atingidos por elas: 6) evacuação da Rússia; 7) restauração da independência da Bélgica; 8) restituição da Alsácia e da Lorena à França; 9) reajustamento das fronteiras italianas, "seguindo linhas divisórias de nacionalidade claramente reconhecíveis"; 10) desenvolvimento autônomo dos povos da Austria-Hungría; 11) restauração da Rumania, da Sérvia e do Montenegro, com acesso ao mar para a Sérvia; 12) desenvolvimento autônomo dos povos da Turquia, sendo os estreitos que ligam o Mar Negro ao Mediterrâneo "abertos permanentemente"; 13) uma Polônia independente, "habitada por populações indiscutivelmente polonesas" e com acesso para o mar; e 14) uma Liga de Nações. Em diversas outras ocasiões, no decorrer de todo o ano de 1 918, Wilson reafirmou em discursos públicos que esse programa formava a base da paz pela qual trabalharia. Milhares de cópias dos 14 Pontos foram espalhadas pelos aviões aliados sobre as trincheiras alemãs e atrás das linhas, num esforço de convencer tanto os soldados quanto o povo de que as nações aliadas se estavam esforçando por estabelecer uma paz justa e duradoura.

Ao terminar o verão de 1 918 a longa e horrível carnificina aproximava-se do fim. A grande ofensiva lançada em julho pelos ingleses, franceses e americanos desferiu sucessivos golpes esmagadores contra os batalhões alemães, obrigando-os a recuar quase até a fronteira belga.   No fim de setembro, a causa das Potências Centrais estava perdida.   A Bulgária retirou-se da guerra a 30 desse mês.

Aproxima-se o fim da luta

Nos primeiros dias de outubro o novo chanceler alemão, o Príncipe Max de Baden, um liberal, apelou para o presidente  Wilson propondo negociações de paz na base dos 14 pontos.   Mas a luta continuou, porque Wilson tinha voltado à sua primitiva exigência de que os alemães apeassem o kaiser do trono. Pouco depois, os aliados restantes da Alemanha viram-se à beira do colapso. A Turquia rendeu-se no fim de outubro. O império dos Habsburgos estava sendo desintegrado pelas revoltas dos eslavos. Além disso, uma ofensiva austríaca não só fora infrutífera mas incitara os italianos a uma contra-ofensiva que resultou na tomada de Trieste e na captura de 300 000 prisioneiros. A 3 de novembro o imperador Carlos, que sucedera em 1 916 a Francisco José, assinou um armistício que pôs a Áustria fora da guerra.

A Assinatura do Armistício

A Alemanha ficou então com a impraticável tarefa de continuar  sozinha a luta.   O moral das tropas decaía rapidamente.   O bloqueio causava tamanha escassez de alimentos que o povo corria o perigo de ser dizimado pela fome.   Os abalos revolucionários que se vinham fazendo sentir desde havia algum tempo transformaram-se em violento terremoto. Em 8 de novembro foi proclamada uma república na Baviera. No dia seguinte, quase toda a Alemanha estava convulsionada pela revolução. Publicou-se em Berlim um decreto anunciando a abdicação do kaiser e bem cedo na manhã do dia 10 o neurótico imperador embarcou para o exílio na Holanda. Entrementes, o governo da nação havia passado para as mãos de um conselho provisório chefiado por Friedrich Ebert, líder dos socialistas no Reichstag. Ebert e os seus colegas tomaram medidas imediatas para concluir as negociações de um armistício. As condições impostas pelos Aliados estabeleciam a aceitação dos 14 Pontos, com três modificações. Primeiro, o ponto referente à liberdade dos mares fora riscado, de acordo com o pedido da Inglaterra. Segundo, a restauração das zonas invadidas devia ser interrompida de modo a incluir reparações.   Terceiro, não se exigia  mais autonomia para os povos vassalos da Áustria-Hungria. mas independência. Além disso, tropas das nações aliadas ocupariam certas cidades do vale do Reno; o bloqueio continuava em vigor; e a Alemanha devia entregar 5 000 locomotivas, 150 000 vagões ferroviários e 5 000 caminhões, tudo em bom estado. Duras como eram essas condições, o governo alemão não teve outro remédio senão aceitar. Às cinco horas da manhã de 11 de novembro dois delegados da nação derrotada encontraram-se na escura floresta de Compiègne com o Marechal Foch e assinaram os papéis que punham termo oficialmente à guerra. Seis horas mais tarde foi dada ás tropas a ordem de cessar fogo.   Nessa noite, milhares de pessoas dançaram nas ruas de Londres, Paris e Roma, presas do mesmo delírio com que haviam saudado as declarações de guerra.

 O preço da vitória

A vitória fora finalmente conquistada, mas que trágica vitória! De um total de mais de 42 milhões de homens mobilizados pelos Aliados, pelo menos 7 milhões tinham perdido a vida; 5 milhões morreram em ação ou em conseqüência de    ferimentos; os restantes tinham sido dados como "desaparecidos" depois das batalhas.   Mais de 3 milhões de outros ficaram totalmente incapacitados, muitos deles com mutilações tão horríveis que melhor seria tivessem perecido.   Vê-se. destarte, que quase um quarto dos soldados alistados nos exércitos foram

vitimados pela guerra.   Isso teria sido um preço terrivel mesmo que se concretizassem todos os ganhos que, por hioótese. deteriam decorrer de uma vitória da Entente.   Mas poucos foram, na realidade os ganhos permanentes.   A guerra que seria "o fim de todas as guerras"   ão Eêz mais do que lançar as sementes de um novo e pavoroso conflito no futuro.   A autocracia do kaiser foi certamente destruída, mas estava preparado o terreno para novos despotismo -que fariam o império de Guilherme II parecer um paraíso de liberdade.   Além disso, a Primeira Guerra Mundial nada fêz para reprimir quer o militarismo, quer ó nacionalismo.   Vinte anos depois de finda a luta havia quase duas vezes mais homens em armas do que em 1 913 e as rivalidades nacionais e ódios raciais estavam mais profundamente arraigados do que nunca.   Esses fracassos não se deveram ao fato de terem os Aliados ganhado a guerra, mas sim, como veremos, ao de terem perdido a paz.

4. A PAZ DOS VENCEDORES

Caráter da Paz com a Alemanha e seus Aliados

A chamada paz, que se firmou nas várias conferências realizadas em 1 919 e 1920, quase não tem precedentes nos anais das nações modernas.   Foi  antes  uma  paz  imposta do que negociada.   Ao invés de ser um acordo entre vencedores e vencidos, concluído em redor de uma mesa de debates, pretendia assumir o caráter de “uma sentença imposta por um tribunal". Nenhum alemão ou austríaco foi admitido às conferências, até que os documentos ficaram completos e prontos para receber as assinaturas dos culpados. Os motivos desse procedimento quase inédito devem ser procurados na torrente de paixões desencadeadas durante a guerra. As massas tinham sido levadas a acreditar que toda a razão e a justiça estavam de um lado e, portanto, que cumpria tratar os inimigos como criminosos. Esse sentimento não se restringia aos países da Entente.   Se as Potências Centrais tivessem conquistado a vitória,  dificilmente teriam concedido maiores oportunidades para a negociação de um acordo.

A Conferência de Paris

A conferência convocada em Paris ( 4) para estabelecer as condições de paz com a Alemanha esteve teoricamente reunida de janeiro a junho de 1 919. Só se realizaram, porém, seis sessões plenárias.   A maioria dos delegados poderia muito bem ter ficado em casa. Todos os assuntos importantes da conferência foram tratados por pequenas comissões. A princípio havia um Conselho dos Dez, formado pelo presidente e pelo secretário de estado dos Estados Unidos e pelos primeiros-ministros e ministros do Exterior da Grã-Bretanha, da França, da Itália e do Japão. Pelos meados de março, como esse órgão parecesse de manejo excessivamente difícil, foi reduzido a um Conselho dos Quatro, do qual faziam parte o presidente dos Estados Unidos e os primeiros-ministros da Inglaterra, da Itália e da França. Um mês depois o Conselho dos Quatros transformou-se num Conselho dos Três. quando o primeiro-ministro Orlando se retirou abespinhado da Conferência porque Wilson recusara conceder à Itália tudo que ela exigia.

Os “Três Grandes”

O caráter definitivo do Tratado de Versalhes foi fixado quase que inteiramente pelos chamados "Três Grandes’" — Wilson, Lloyd George e Clemenceau.   Seria quase impossível encontrar três estadistas com personalidades mais diferentes entre si.   Wilson era um idealista inflexível, acostumado a dar ordens e convencido de que as forças da eqüidade estavam do seu lado.   Quando se defrontava com realidades desagradáveis, como eram os tratados secretos entre os governos da Entente para a divisão dos despojos, tinha o hábito de pô-las de parte como coisas destituídas de importância e acabava esquecendo-as como se nunca tivesse ouvido falar nelas.   Embora conhecesse pouco – tortuosas maquinações da diplomacia européia, o seu temperamento inflexível não lhe permitia aconselhar-se com os seus colegas nem ajustar os seus pontos de vista aos destes.   David Lloyd George era um astuto advogadozinho de Gales que sucedera a Asquith como primeiro ministro da Inglaterra em 1 916.   Sua habilidade e seu humor céltico valeram-lhe o sucesso em muitas ocasiões em que Wilson fracasson; mas era acima de tudo um político — matreiro, ignorando as condições européias e indiferente mesmo aos seus mais graves enganos.   Clemenceau dizia dele :    "Imagino que esse homem saiba ler, mas duvido que jamais leia alguma coisa."

O terceiro componente do grande triunvirato era o velho e céptico primeiro-ministro francês. Georges Clemenceau.   Nascido ainda na década de 1 830, Clemenceau fora jornalista nos Estados Unidos logo depois da Guerra Civil. Mais tarde angariara a alcunha de "Tigre" como inimigo implacável dos clericais e monarquistas. Pugnara pela república nos tempestuosos dias do episódio boulangista, do caso Dreyfus e da luta pela separação entre a igreja e o estado. Por duas vezes tinha visto a França invadida e a sua existência correr grave perigo. Agora a situação se reverteria e os franceses, no pensar de Clemenceau, deviam tirar todas as vantagens da oportunidade. Somente conservando debaixo de rígido controle a Alemanha prostrada é que a França poderia garantir a sua segurança.

(14) Essa conferência realizou a maior parte de seus trabalhos em Paris. O tratado de paz com a Alemanha, no entanto, recebeu o nome de Tratado de Versalhes itor ter sido assinado  nesse subúrbio parisense.

A castração dos 14 pontos

Desde o começo, os principais arquitetos do Tratado de Versalhes tiveram pela frente dois problemas bastante embaraçosos. Um neles era o que fazer com os 14 Pontos. Não podia haver dúvida de que eles tinham sido a base da rendição da Alemanha em 11 de novembro. Era igualmente indiscutível que Wilson os apresentara como o programa da Entente para uma paz permanente. Os povos do mundo tinham, por conseguinte, todo o direito de esperar que os 14 Pontos constituíssem : modelo do Tratado de Versalhes, sujeitos tão-somente às três emendas introduzidas antes da assinatura do armistício. Mas qual foi o resultado? Entre os mais altos dignitários da conferência, nem um só homem, com exceção do próprio Wilson, levara a sério os 14 Pontos. Conta-se que Clemenceau dissera em ar de mofa: "Al Deus se contentou com dez mandamentos, mas Wilson precisa de quatorze". No final das contas o presidente dos Estados Unidos só pôde salvar, e assim mesmo sob uma forma modificada, três artigos do seu famoso programa: o sétimo, que prescrevia a restauração da Bélgica; o oitavo, que exigia a restituição da Alsácia-Lorena à França; e o último, que instituía a Liga das Nações. Os outros foram desdenhados ou modificados a tal ponto que perderam a sua significação original. Citemos dois exemplos: o ponto 4, que exigia a redução dos armamentos, foi aplicado somente às nações derrotadas; e o ponto 11, pelo qual eram restauradas a Rumania, a Sérvia e o Montenegro, foi alterado de modo a permitir que a Rumania dobrasse o seu território e que a Sérvia engolisse o Montenegro!

Os tratados secretos

A segunda questão embaraçosa era a da atitude a tomar com respeito aos tratados secretos.   Enquanto a guerra seguia o seu curso, diversas transações clandestinas tinham sido negociadas pelos governos da Entente, relativas à divisão    dos despojos.   Em março de 1 915 ficara assentado que a França recuperaria a Alsácia-Lorena e controlaria a margem esquerda do Reno e que a Grã-Bretanha e a França dividiriam entre si as colônias alemãs da África, enquanto a Rússia se apoderaria de Constantinopla e da Polônia alemã e austríaca.   Em abril desse mesmo ano a Itália foi induzida a entrar na guerra ao lado dos Aliados pela promessa de lhe serem concedidos territórios austríacos e turcos, inclusive Trieste, o sul do Tirol e uma porção da Dalmácia. Depois desses, ainda houve acordos para dar a Armênia à Rússia e quase todo o resto do Império Otomano à Inglaterra e à França, sem falar na entrega, ao Japão, das concessões alemãs na China e das ilhas oceânicas alemãs situadas ao norte do equador. É impossível dizer por quanto tempo esses tratados teriam permanecido secretos se não fosse a revolução na Rússia. Ao galgarem o poder em novembro de 1 917 os bolcheviques resolveram desacreditar a guerra por todos os meios possíveis. Devassaram, portanto, os arquivos do czar, trazendo a público certos documentos interessantíssimos. Pouca depois os tratados secretos eram estampados pelo Manchester Guardian e pelo Neiv York Evening Post. Os estadistas da Entente reunidos na Conferência de Versalhes viram-se, pois, na impossibilidade de negar a existência de tais tratados. Durante algum tempo Wilson esforçou-se para que eles fossem repudiados e chegou a negar permissão para que a Itália tomasse o porto de Fiúme, no Adriático; mas no tocante à maioria dos outros acordos acabou por ceder. O resultado foi que a distribuição dos territórios tomados às nações vencidas seguiu com notável precisão as linhas traçadas pelos acordos secretos. Wilson permitiu até que o Japão se apoderasse das concessões alemãs na China, a despeito de terem os chineses feito a guerra do lado dos Aliados.

A Alemanha recebe suas sentença.

Nos fins de abril de 1 919 estavam prontos para ser submetidos ao inimigo os termos do Tratado de Versalhes e a Alemanha recebeu ordem de enviar seus delegados para ouvi-los.   A         29 desse mês uma delegação chefiada pelo Conde von  Brockdorff-Rantzau, ministro do Exterior do governo republicano provisório, chegou a Versalhes e foi encarcerada sem tardança num hotel, sendo virtualmente tratada como prisioneira. Uma semana depois os membros da delegação tiveram ordem de comparecer perante os representantes dos Aliados, a fim de conhecerem a sentença imposta à sua nação. Como von Brockdorff-Rantzau protestasse dizendo que os termos eram duros demais, ir. formou-o Clemenceau de que a Alemanha teria exatamente três semanas para resolver se assinaria ou não. Entretanto, foi preciso prolongar o prazo, pois os chefes do governo alemão preferiram demitir-se a aceitar o tratado. Sua atitude foi resumida pelo chanceler Philip Scheidemann numa frase incisiva: "Qual a mão que não secaria depois de tentar prender a si mesma e a nós nestes grilhões?" Os Três Grandes fizeram então alguns arranjos subsidiários, principalmente a instâncias de Lloyd George, e a Alemanha foi notificada de que às sete horas da tarde de 23 de junho proceder-se-ia à invasão do país se este não tivesse aceito o tratado. Pouco depois das cinco horas, um novo governo provisório anunciou que se rendia ante a ”força esmagadora" e acedia aos termos dos vencedores. Em 28 de junho, quinto aniversário do assassínio do Arquiduque Francisco Fernando, representantes do governo alemão e dos Aliados reuniram-se no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes e apuseram suas assinaturas ao Tratado.

Disposições Principais do Tratado de Versailles.

As disposições do Tratado de Versalhes podem ser esboçadas em linhas gerais.   A Alemanha devia entregar a Alsácia-Lorena à França, Eupen e Mahnédy à Bélgica, o Schleswig setentrional à Dinamarca e a maior parte da Posnânia e da Prússia Ocidental à Polônia.   As minas de carvão da bacia do Sarre seriam cedidas à França, que teria o direito de explorá-las durante quinze anos. Ao terminar esse prazo o governo alemão poderia tornar a comprá-las. Quanto ao próprio território do Sarre, seria adminis trado pela Liga das Nações até 1935, data em que se realizaria um plebiscito para decidir se êle continuaria submetido à Liga, se voltaria para a Alemanha ou se seria concedido à França. Em conseqüência dessas disposições territoriais a Alemanha era despojada de um sexto das suas terras aráveis, dois quintos do seu carvão, dois terços do seu ferro e sete décimos do seu zinco. A Prússia Oriental ficava separada do resto do território alemão e o porto de Danzig, quase inteiramente teutónico, era submetido ao controle político da Liga das Nações e ao domíni^ econômico da Polônia. Além disso, a Alemanha era forçada a entregar à Inglaterra, à França e à Bélgica praticamente todos os seus navios mercantes de algum valor, um oitavo do seu gado e enormes quantidades de carvão, materiais de construção e máquinas. Foi, naturalmente, desarmada. Entregou todos os submarinos e toda a marinha de superfície, com exceção de seis couraçados pequenos, seis cruzadores ligeiros, seis destróieres e doze torpedeiros. Foi-lhe proibido ter qualquer aviação militar ou naval e limitou-se o seu exército a 100 000 homens, entre oficiais e soldados, os quais seriam recrutados por alistamento voluntário. A fim de prevenir qualquer novo ataque futuro à França ou à Bélgica, não se lhe permitiu manter soldados nem construir fortificações no vale do Reno. Por último, a Alemanha e seus aliados foram responsabilizados por todas as perdas e danos sofridos pelos governos da Entente e seus cidadãos "em conseqüência da guerra que lhes fora imposta pela Alemanha e pelos seus aliados". Era essa a chamada cláusula da culpa da guerra do tratado (artigo 231), mas foi também a base para as reparações alemãs.

O problema de saber quanto teria de pagar a Alemanha em reparações foi tratado com ardilosa astúcia. O total das perdas e danos sofridos pelos governos da Entente e seus cidadãos em resultado direto da guerra não ultrapassava provavelmente dez bilhões de dólares.   Tal soma, porém, nunca teria contentado os Aliados.

A conta de "perdas e danos"

Os franceses, em particular, faziam questão de arruinar a Alemanha ce modo tão completo que esta nunca mais pudesse recuperar o seu poderio económico e militar. Por conseguinte, re- solveu-se incluir nas "perdas e danos" despesas tais  como as pensões pagas às famílias dos soldados, os  empréstimos belgas de guerra e o custo da manutenção dos exércitos aliados que ocuparam o vale do Reno. Deixou-se a uma Comissão de Reparações nomeada pelos governos aliados o problema de fixar o total que a Alemanha deveria pagar. Em 1 921 a comissão apresentou o seu relatório, fixando o montante na soma colossal de 33 bilhões de dólares, o triplo da quantia sugerida pelos peritos economistas da Conferência de Versalhes. É claro que em toda a Alemanha não havia tanto dinheiro, mas os vencedores esperavam que no espaço de alguns anos fosse possível cobrar a maior parte dele.

O Tratado de St Germain.

De um modo geral, o Tratado de Versalhes aplicava-se unicamente à Alemanha.   Pactos separados foram redigidos para ajustar  contas com os seus aliados — a Áustria, a Hungria,    a Bulgária e a Turquia.   A forma definitiva desses tratados menores foi dada principalmente por um Conselho dos Cinco, composto de Clemenceau como presidente e de um delegado dos Estadas Unidos, um da Inglaterra, um da França e um da Itália.   O ajuste com a Áustria, firmado em setembro de 1 919, é conhecido como o Tratado de St. Germain. Impunha à Áustria o reconhecimento da independência da Hungria, da Tchecos-lováquia, da Iugoslávia e da Polônia e a cessão de grandes porções do seu território a esses novos países.   Era, ademais, obrigada a entregar à Itália Trieste, o Tirol meridional e a península da Istria.

Ao todo. a porção austríaca da Monarquia Dual foi despojada de três quartos da sua área e de três quartos da sua população. Alguns dos territórios cedidos eram habitados em grande parte por alemães — como. por exemplo, o Tirol e a região das montanhas dos sudetos, concedida à Tchecoslováquia. A nação austríaca ficou reduzida a um estado pequeno, sem acesso para o mar, com quase um terço da sua população concentrado na cidade de Viena. A única esperança de prosperidade para o país residia numa união com a Alemanha, mas isso era estritamente proibido pelo tratado. As disposições do Tratado de St. Germain poderiam resumir-se numa única sentença: "A Áustria renuncia a viver."

O Tratado de Neuilly e o de Trianon

O segundo do.- tratados menores foi o de Neuilly, com a Bulgária, assinado em novembro de 1 919. Na suposição, sem dúvida, de que ela não tomara parte ativa na provocação da guerra, a Bulgária foi tratada com mais brandura do que as outras Potências Centrais.   Não obstante, teve de entregar quase todos os territórios que adquirira desde a primeira guerra balcânica.   A Dobrudja voltou para a Rumania, a Macedónia ocidental para o novo reino da Iugoslávia e a Trácia ocidental para a Grécia.   Todas essas regiões eram habitadas por numerosas minorias búlgaras.   Como a Hungria fosse agora um estado independente tomava-se necessário impor-lhe um tratado separado; foi ele o Tratado do Trianon, assinado em junho de 1920.   Exigia que a Eslováquia fosse cedida à república da Tchecoslováquia, a Transilvánia à Rumania e a Croácia-Eslavônia à Iugoslávia.   Há poucos exemplos de tão flagrante violação do princípio de autodeterminação dos povos.   Numerosas partes da Transilvánia tinham uma população composta de mais de 50% de húngaros.   A Eslováquia incluía não somente os eslovacos mas quase um milhão de magiares e aproximadamente 500 000 rutenos.   Daí o ter irrompido na Hungria, depois da guerra, um fanático movimento irredentista orientado para a recuperação dessas províncias perdidas. É oportuno acrescentar que o Tratado do Trianon reduziu o território da Hungria de 325 000 para 90000 quilômetros quadrados e a sua população de 22 para 8 milhões.

Os tratados de Serves e de Lausrane com a Turquia.

O ajuste final de contas com a Turquia resultou de circunstâncias excepcionais. Os tratados secretos haviam cogitado da transferência de Constantinopla e da Armênia para a Rússia e da divisão, entre a Inglaterra e a França, da maior  parte do que restava da Turquia.   Mas a retirada da Rússia do campo da guerra apos a revolução bolchevique, juntamente com as exigências da Itália e da Grécia no sentido de obterem o cumprimento das promessas que lhes tinham sido feitas, impunham uma revisão considerável do plano primitivo. Por fim, em agosto de 1 920 assinou-se em Sèvres, perto de Paris, um tratado que foi submetido ao governo do sultão. Estabelecia êle que a Armênia fosse organizada como uma república cristã, que a maior parte da Turquia européia fosse entregue à Grécia, que a Palestina e a Mesopotâmia se convertessem em mandatos britânicos, que a Síria se tornasse um mandato da França e que a Anatólia meridional fosse reservada como esfera de influência da Itália. Do velho Império Otomano não restariam mais que a cidade de Constantinopla e as partes setentrional e central da Ásia Menor. Intimidado pelas forças aliadas, o decrépito governo do sultão concordou em assinar esse tratado. Mas um governo revolucionário, constituído de nacionalistas turcos e organizado em Angora sob a chefia de Mustafá Kemal, resolveu impedir que fosse posto em execução o Tratado de Sèvres. As forças de Kemal riscaram do mapa a república da Armênia, enxotaram os italianos da Anatólia e reconquistaram a maior parte do território turco europeu que fora dado à Grécia. Por fim. em novembro de 1922, ocuparam Constantinopla, depuseram o sultão e proclamaram a república. Consentiram então os Aliados numa revisão da paz. Em 1 923 um novo tratado foi concluído em Lausanne, na Suíça, permitindo aos turcos conservar praticamente todo o território que haviam conquistado. Embora bastante reduzida no tamanho em comparação com o antigo Império Otomano, a república turca tinha ainda uma área de cerca de 780 000 quilômetros quadrados e uma população de 13 milhões.

A Liga das Nações

Em cada um dos cinco tratados que puseram termo à guerra com as Potências Centrais figurava o Convênio da Liga das Nações.   A criação de uma liga em que todos os estados, tanto         grandes como pequenos, cooperassem para a preservação da paz, era o velho sonho dourado do presidente Wilson. Fora essa, na verdade, uma das principais razões que o levaram a entrar na guerra. Acreditava que a derrota da Alemanha seria um golpe mortal vibrado no militarismo e que seria possível estabelecer então o controle das relações internacionais por uma comunidade de poderes, ao invés do complicado e ineficiente equilíbrio de pores. Mas. para conseguir que a Liga fosse aceita, viu-se obrigado a transigir em numerosos pontos. Permitiu que a sua idéia primitiva de uma redução dos armamentos ”ao nível mínimo condizente com a segurança interna" fosse formulada de maneira que lhe dava um sentido completamente diverso, dizendo "segurança nacional" em lugar de "segurança interna". Para induzir os japoneses a aceitar a Liga. concordou em deixar-lhes as antigas concessões alemãs «a China. A fim de agradar aos franceses, sancionou a exclusão tanto da Alemanha quanto da Rússia, a despeito de sua velha insistência de que ela deveria incluir todas as nações. Esses inconvenientes eram bastantes sérios, mas a Liga recebeu um golpe mais grave ainda quando foi repudiada pela própria nação cujo presidente a havia criado.

Instalada sob auspícios tão desfavoráveis, a Liga jamais conseguira êxitos brilhantes na consecução dos objetivos do seu fundador.

Somente em poucos casos logrou afastar o espectro da guerra, e em todos eles as partes litigantes eram nações   pequenas.     Concertou,   em   1 920,   uma disputa entre a Suécia e a Finlândia a respeito das ilhas Aland.   Em 1 925 impediu um ataque grego à Bulgária, graças ã ameaça de boicote econômico.   Em 1 932 evitou que o Peru e a Colômbia entrassem em guerra por causa da província de Letícia. Mas em todas as disputas em que se envolviam uma ou mais grandes potências a Liga não obteve sucesso.   Nada fêz no caso da usurpação de Vilna pela Polônia, em 1 920, porque a Lituânia, a nação esbulhada, não tinha amigos, enquanto a Polônia contava com o poderoso auxílio da França.   Quando, em 1 923, houve uma ameaça de guerra entre a Itália e a Grécia, os italianos recusaram submeter-se à intervenção da Liga e o litigio teve de ser arbitrado por unia mediação direta da Inglaterra e da França. Além disso, em todas as grandes crises dos últimos anos a Liga foi desafiada oa desdenhada.   O Japão zombou da sua autoridade ao tomar a Manchúria em 1931 e o mesmo fez a Itália, ao conquistar, em 1935, a Etiópia. Em setembro de 1938, quando surgiu a crise da Tchecoslováquia, o prestígio da Liga era tanto que quase ninguém pensou em recorrer a ela. Por outro lado, é preciso salientar que o a sua existência de outras maneiras menos espetaculares. Reprimiu otráfico internacional de ópio e  ajudou países pobres e atrasados na profilaxia das molésticas contagiosas. Suas agências coligiram valiosas estatísticas sobre as condições do trabalho e da economia mundial. Realizou plebiscitos  em zonas disputadas, superintendeu a administração de cidades internacionalizadas, ajudou a acomodar refugiados políticos e raciais e iniciou, com grande eficiciência, a codificação do direito internacional. Realizações como essas devem certamente ser consideradas como formando uma base sólida para uma futura cooperação entre nações.


Fonte: Ed. Globo. de Porto Alegre. Tradução de Lourival Machado, Lourdes Machado e Leonnel Vallandro.

ago 212010
 
mapa roma itália
Catyão de Útica, o moço

CATÃO DE ÚTICA

SUMÁRIO DA VIDA DE CATÃO DE ÚTICA

Nascimento e primeiros traços do caráter de Catão. II. Gênero de seu espírito, sua docilidade. III. Sua intrepidez e constância. IV. Defende o pudor de uma criança de sua idade. V. Estima que as crianças tinham por êle. VI. Lastima não lhe terem dado uma espada para matar Sila. VII. Sua amizade por seu irmão. VIII. Entrega-se ao estudo da filosofia moral e política. IX. Sobe pela primeira vez à tribuna. X. , Enrijece seu corpo para defendê-lo de toda sorte-, de fadigas. XI. Passa uma grande parte da noite conferenciando^com filósofos. XII. Afeta uma maneira de viver toda oposta aos costumes e usos de seu tempo. XIII. Desposa Atília. XIV. Campanhas de Catão sob a direção do pretor Gélio. XV. Como disciplina a legião que comanda. XVI. Procura o filósofo Atenodoro. XVII. Honras fúnebres que rende ao seu irmão Cipião. XVIII. Visita a Asia; sua maneira de viajar. XIX. É testemunha das honras que rendem a Demétrio, liberto de Pompeu. XX. Acolhida que Pompeu faz a Catão. XXI. Recusa os presentes do rei Dejotaro. XXII. É nomeado questor. XXIII. Severidade de sua administração nesse cargo. XXV. Paz condenar aqueles que haviam morto os cidadãos proscritos por Sila. XXVI. Assiduidade de Catão em suás funções. XXVII. Anula uma doação registrada por Marcelo. XXVIII. Fiscaliza os livros onde estavam as contas da renda pública desde Sila. XXDX. Declara que não trataria de nenhum negócio nos dias de funcionamento do Senado. XXX. Sua grande reputação; o nome de Catão passa aos provérbios. XXXI. Vai a Lucânia. XXXII. Volta a Roma para solicitar o tribunato. XXXIII. Acusa Murena. XXXIV. Serviços que presta a Cicero no caso de Catilina.

XXXV. Determina o Senado a pronunciar a morte contra os jurados.

XXXVI. Irmãs e mulheres de Catão. XXXVII. Catão declara no Senado que não suportaria nunca a entrada de Pompeu com seu exército em Roma. XXXVIII. Intrepidez com a qual se apresenta perante a assembléia do povo. XXXIX. Murena leva-o ao templo de Castor e de Pólux. XL. Metelo, não tendo conseguido fazer passar seu decreto, vai encontrar Pompeu na Ásia. XLI. Catão faz conceder o triunfo a Lúculo. XLII. Recusa casar suas duas sobrinhas com Pompeu e com seu filho. XLIII. Aliança e intrigas de César e de Pompeu. XLIV. Catão jura, à solicitação de Cicero, a execução de uma lei agrária. XLV. César faz prender Catão para levá-lo à prisão e o faz pôr em liberdade por um tribuno. XLVI. Catão é enviado a Chipre. XLVII. Bons conselhos que dá a Ptolomeu, rei do Egito. XLVIII. Paz vender os móveis de Ptolomeu, rei de Chipre. XLIX. Indispõe-se com Municio. L. Reconcilia-se com este. LI. Como Catão traz a Roma o dinheiro proveniente da venda em Chipre. LII. Honras que lhe fazem à sua chegada. LIII. Contradiz Cícero, que pretende anular o tribunato de Cláudio. LIV. Catão anima Domício a pedir o consulado em concorrência com Pompeu e Crasso. LV. Pede-o êle mesmo, mas não obtém a pretoria. LVI. Opõe-se à divisão das províncias que Trebônio queria outorgar a Pompeu e a Crasso. LVII. Inúteis representações de Catão a Pompeu. LVIII. Decreto que faz passar pelo Senado para verificar os meios empregados para se fazerem eleger. LIX. Condição que faz estabelecer aos candidatos para os impedir de comprar os sufrágios. LX. Inveja que excita a virtude de Catão. LXI. Catão acusa abertamente Pompeu de aspirar o poder soberano. LXII. Faz nomear Faônio edil e o faz observar maior simplicidade nos jogos que proporciona ao povo. LXIII. É favorável à nomeação de Pompeu como cônsul, sozinho. LXIV. Severidade de Catão nos julgamentos. LXV. Põe-se na fila para solicitar o consulado; mas tem mau êxito. LXVI. Revela ao Senado todos os projetos de César. LXVII. Aconselha a repor todos os negócios nas mãos de Pompeu. LXVIII. Pompeu e Catão saem de Roma. LXIX. Bons conselhos que Catão dá a Pompeu. LXX. Porque Pompeu não lhe dá o comando de sua frota. LXXI. Vitória de Pompeu devida às exortações de Catão. LXXII. Pompeu deixa Catão em Dirráquio para guardar suas bagagens. LXXIII. Depois da batalha de Parsália, Catão passa à Africa, LXXIV. Vai se reunir a

Cipião e Varus. LXXV. Encarrega-se de guardar a cidade de Útica. LXXVI. Recebe a notícia da derrota de Cipião. LXXVII. Reanima a coragem dos romanos que estavam em sua companhia. LXXIX. A maioria muda logo de opinião. LXXX. Recusa a proposição de matar ou expulsar todos os habitantes de Útica. LXXXI. Cuidados e passos de Catão para salvar os senadores que estão com êle. LXXXII. Recusa a diligência que trezentos comerciantes romanos estabelecidos em Titica queriam tentar em seu favor junto de César. LXXXIII. Faz partir os senadores e provê a segurança de sua fuga. LXXXIV. Recusa o oferecimento que Lúcio César lhe faz, em solicitar graças a César por êle. LXXXV. Entretenimento filosófico de Catão durante seu jantar. LXXXVI. Reclama sua espada. LXXXVII. Indigna-se contra os esforços que fazem para o animar a conservar sua vida. LXXXVIII. Mata-se. LXXXIX. Belas palavras de César tomando conhecimento da morte de Catão. XC. Morte de Catão, seu filho.

Desde o ano 660 até o ano 708 de Roma; A. C. 46.

CATÃO DE ÚTICA

A casa de Catão (1) recebeu o início de sua glória e de sua fama, de seu bisavô Catão, o Censor, que por suas virtudes foi um dos mais poderosos e dos mais estimados personagens de Roma em seu tempo conforme escrevemos mais amplamente era sua vida. Este, sobre o qual escrevemos presentemente, ficou órfão de pai e mãe, com um seu irmão chamado Cipião, e Pórcia, sua irmã. Servília era também irmã de Catão, mas por parte de mãe somente; mas todos juntos eram criados na casa de Lívio Druso, seu tio do lado materno, que possuía então grande autoridade no governo, porque era muito eloqüente e homem de bem, e quanto à grandeza de coragem, não cedia lugar a nenhum dos romanos. Dizem que Catão, desde a sua infância, tanto em seu modo de falar, como em todos seus jogos e passatempos, demonstrou sempre uma natureza constante, firme e inflexível, pois queria chegar ao fim de tudo o que empreendia fazer e obstinava-se mais do que sua idade permitia; e mostrava-se intratável com aqueles que procuravam adulá-lo, e ainda se tornava mais frio contra os que julgavam fazê-lo ceder com ameaças. Era difícil vê-lo nr, embora o vissem muitas vezes com o rosto alegre; também não era colérico nem fácil de se irritar; mas se chegava a este ponto, dava muito trabalho para se acalmar.

(1) Ver as Observações.

II. Quando começou a aprender as letras, tinha a cabeça muito dura e era tardio para compreender; mas uma vez que havia compreendido, retinha muito bem, com a memória firme, como acontece ordinariamente a todos os outros; pois aqueles que têm o espírito pronto e vivo, têm comumente falta de memória e os que aprendem dificilmente e com dificuldade, retêm melhor o que aprenderam, porque aprender é como aquecer e iluminar a alma. Mas, além disso, não julgava superficialmente e parece que isso o tornava também tardio para compreender; porque é evidente que aprender é receber alguma impressão, como acontece com aqueles que resistem menos e que são os que mais cedo julgam; portanto os jovens são mais fáceis de se persuadir do que os velhos, os doentes do que os sãos e, geralmente, quanto mais fraco é o que discute e duvida, tanto mais fácil para se conseguir o que quer. Todavia Catão, ao que dizem, obedecia ao seu professor e fazia tudo o que êle lhe ordenava mas perguntava-lhe a causa de tudo e sempre queria saber o porquê de todas as coisas; também este era um homem honesto e tinha a razão mais pronta para demonstrar ao seu aluno, do que o braço levantado para bater, e chamava-se Sarpedão.

III. Em suma, sendo Catão ainda pequenino, os povos da Itália aliados dos romanos, pretendendo obter o direito de cidadania dentro de Roma peloê quais pugnava Pompádio (2) Silo, guerreiro, pessoa valente e de grande autoridade entre os aliados, sendo amigo particular de Druso, foi alojado alguns dias em sua casa, durante os quais, tendo tomado grande familiaridade com seus filhinhos, um dia lhes disse: — "Ora, meus belos meninos, intercedereis por nós junto a vosso tio, para ajudar a obter o direito de cidadãos que solicitamos?" Cipião, sorrindo fêz-lhe sinal com a cabeça que sim; Catão não respondeu nada, apenas olhou esses estrangeiros no rosto com um olhar fixo, sem pestanejar. Então Pompádio, dirigindo-se a ele, à parte: — "E tu, disse êle, o belo filho, que dizes? Não queres implorar a teu tio para favorecer aos seus hóspedes, como vai fazer teu irmão?" Catão nada respondeu, mas pelo seu silêncio e pelo seu olhar, demonstrou que rejeitava o pedido. Nessa ocasião Pompádio, agarrando-o, colocou-o fora da janela, como se quisesse jogá-lo, dizendo-lhe em voz mais áspera e mais rude do que de costume e, sacudindo-o diversas vezes no ar, fora da janela: — "Promete-nos, portanto, ou te atirarei lá em baixo". Catão suportou isto muito tempo sem demonstrar pavor nem se espantar (3). Pelo que Pompádio, repondo-o no chão, disse então, virándose para os que estavam com êle: — "Que honra será um dia este menino para a Itália, se viver! Ainda é menino; pois se fosse homem, creio que não teríamos uma só voz a nosso favor".

(2) Popédlo Silo, como observei na Vida de Mário, cap. 59.

IVDe certa feita, um de seus parentes, que festejava o seu aniversário, convidou diversos meninos, entre os quais Catão. Esses meninos, não sabendo o qiie fazer enquanto esperavam o jantar ficar pronto, puseram-se a brincar, pequenos e grandes, num local afastado da casa; seu jogo consistia em imitar os pleitos, acusando-se uns aos outros e conduzindo à prisão os que eram condenados; houve um desses, belo menino, que condenado, foi conduzido a um quartinho, por um dos maiores. Vendo-se fechado, pôs-se a gritar chamando Catão, o qual, desconfiando do que acontecia, correu logo e afastando à força os que se punham à sua frente para impedi-lo de entrar no quarto, tirou o rapazinho e levou-o furioso a sua casa, enquanto os outros o acompanhavam.

V. Era Catão tão famoso entre os meninos, que Sila, querendo realizar o jogo da exibição e corrida dos meninos a cavalo, que os romanos chamam troia (4), adestrando-os antes, a fim de que ficassem mais hábeis no dia da demonstração e tendo reunido todas as crianças de casas nobres, deu-lhes dois capitães, dos quais os meninos aceitaram um por causa de sua mãe, que era Metela, esposa de Sila, mas não quiseram o outro, se bem que fosse sobrinho do grande Pompeu, e chamava-se Sexto, nem quiseram se exercitar sob seu comando, nem o seguir. Pelo que Sila perguntou-lhes qual queriam, portanto; gritaram todos: Catão! O próprio Sexto, de bom grado, cedeu-lhe esta honra como ao mais digno.

(3) Não podia ter então mais do que quatro anos, pois nasceu no ano de Roma 660, e Druso, em casa de quem esta cena se passou, morrera no ano de Roma 663, e a guerra dos Martes na qual esse Popédlo foi general começou neste ano 663, A. C. 91.

VI. Ora, Sila, que havia sido amigo de seu pai, por essa ocasião, algumas vezes mandava buscá-los e falava com eles; esse agrado fazia a bem poucas pessoas devido a magnificência e elevação do cargo que ocupava e do poder que possuía. E Sarpedão, considerando que isto era de grande conseqüência, pelo progresso e também pela segurança de seus discípulos, levava comumente Catão à casa de Sila, a qual nesse tempo assemelhava-se propriamente a um inferno ou uma jaula, pelo grande número de prisioneiros que aí levavam e que ordinariamente incomodavam. Catão já estava com catorze anos e vendo ali as cabeças que diziam pertencer a personagens notáveis, de sorte que os assistentes suspiravam e gemiam vendo-as, perguntou ao seu mestre como era possível não encontrassem algum homem que matasse esse tirano: — "Porque, respondeu-lhe Sarpedão, todos o temem ainda mais do que o odeiam". — "Por que, então, replicou-lhe, não mo entregaste a fim de que eu o matasse, para livrar nosso país de tão cruel servidão?" Sarpedão, ouvindo esta palavra e vendo sua fisionomia e seus olhos cheios de furor, ficou admirado e depois ficou cuidadosamente de olho sobre êle, conservando-o perto, com receio de que temeràriamente atentasse alguma coisa contra Sila.

(4) Ver a narração no quinto livro da Eneida de Virgílio, desde o verso 545 até o verso 603.

VII. Mas, sendo ainda criança, alguns lhe perguntaram quem era aquele a quem mais amava. Respondeu que a seu irmão; e como o outro continuasse a lhe perguntar a quem depois, respondeu igualmente que era seu irmão; e pela terceira vez, seu irmão ainda; até que aquele que o interrogava ficou cansado de lhe perguntar tantas vezes. E quando alcançou a idade, então confirmou com efeito esta amizade para com seu irmão, pois tinha vinte anos e nunca tinha jantado sem seu irmão Cipião; jamais saíra de casa para ir à praça nem aos campos, sem êle; mas se por acaso seu irmão se fazia untar com óleos de perfumes, jamais fêz o mesmo; e era, em tudo o mais em seu viver, assim austero e severo,, de tal modo que seu irmão Cipião, que era elogiado pela temperança, honestidade e sobriedade de sua vida, confessava que era verdadeiramente -sóbrio e moderado em comparação com outros: —- "Mas quando, dizia êle, venho a comparar minha maneira de viver com a de Catão, verifico que não sou diferente de um Sípio". Esse Sípio era nesse tempo, um que por sua delicadeza e maneira de viver mole e afeminada, era apontado por todos.

VIII. Depois, tendo sido Catão eleito sacerdote de Apolo, separou-se de seu irmão e recebeu a parte dos bens de seu pai, que subiu à soma de (5) cento e vinte talentos; e então apertou mais do que nunca sua maneira de viver e freqüentou as aulas de Antípatro Tiriano, filósofo estóico, dedicando-sc principalmente ao estudo da filosofia moral e política e abraçando o exercício da virtude, com um tão grande amor, que parecia propriamente ser levado por alguma divina inspiração; mas acima de qualquer virtude, amava a severidade da justiça, que não se dobra, nem por graça, nem por favor algum. Estudava também e exercitava-se na eloqüência, para poder falar em público, querendo que no trato civil, nem mais, nem menos, como numa fortaleza, houvesse forças sustentadas para a guerra; todavia não se exercitava na presença dos outros, nem houve nunca pessoa alguma a ouvi-lo discursar quando estudava; mas como um de seus amigos o admoestasse um dia, que achavam ruim por falar tão pouco em sua companhia: — "São todos iguais, respondeu, contanto que não queiram falar contra minha conduta; só começarei a falar quando souber dizer coisas dignas de não serem silenciadas".

(5) Sessenta e dois mil escudos. Amyot.

IX. Ora, havia bem próximo à praça, um palácio público, que vulgarmente chamavam a Basílica Pórcia, que Pórcio Catão (6) havia feito construir durante o tempo em que foi censor, onde os tribunos do povo davam audiência e como havia ah uma coluna que atrapalhava as cadeiras de seu estrado, quiseram retirá-la ou mudá-la para outro local. Isto foi a primeira coisa que fêz Catão ir, contra a vontade, à praça, e subir à tribuna para os contradizer, quando, tendo mostrado esse primeiro ensaio de sua eloqüência e de sua magnanimidade, foi grandemente estimado porque sua linguagem não tinha nenhum arrebique nem afetação da juventude, mas era seca, cheia de senso e de veemência; e no entanto, entre a concisão de suas sentenças, havia uma graça que dava prazer aos ouvintes e seu natural, mostrando-se através da palavra, grave e venerável que lhe trazia um não sei quê de agradável afeto que convidava a rir. Sua voz era cheia, forte e suficiente para se fazer ouvir por uma grande multidão e possuía um vigor e firmeza tais, que não se quebrava nem se alterava nunca, pois muitas vezes passava o dia todo sem cessar de falar e não se cansava.

(6) Catão, o Antigo, cuja Vida encontra-se no terceiro livro.

X. Tendo, entretanto, ganho seu processo contra os tribunos, pôs-se ríspido a conservar um estreitíssimo silêncio e enrijecer sua pessoa nos laboriosos exercícios físicos, habituando-se a suportar o Calor, o frio e a neve, sem cobrir a cabeça e andar em qualquer tempo a pé pelos campos, enquanto seus amigos, que o acompanhavam, iam a cavalo e êle ia, aproximando-se, ora de um, ora de outro, para conversar, andando com eles. Possuía também uma paciência e abstinência maravilhosas em suas enfermidades, pois quando tinha febre, ficava sozinho lodo o dia e nao suportava que pessoa alguma fosse visitá-lo até que sentisse mudança na doença e visse assegurada a volta à convalescença. Quando jantava com seus parentes e amigos chegados, tiravam a sorte para saber quem escolheria as partes, e se a sorte de escolher não lhe caía, seus amigos, no entanto, defe-nam-lhe a honra, mas êle não aceitava, dizendo que isto não era razoável, pois que êle não era agradável à deusa (7) Vénus.

XI.A princípio, não gostava de ficar muito tempo à mesa, mas depois de haver bebido uma vez, levantava-se; depois, porém, aprendeu a ficar demoradamente, de modo que muitas vezes aí ficava com seus amigos toda a noite até o amanhecer, pelo que seus familiares e amigos diziam que os negócios e ocupações da república eram a causa, porque aí vagava durante o dia todo, razão porque não tinha descanso para estudar, e quando a noite chegava, tinha prazer em conferenciar e discutir à mesa com os literatos e os filósofos; pelo que, como em algumas reuniões Mêmio dissesse que Catão não fazia senão embebedar-se todas as noites, Cícero, tomando a palavra respondeu-lhe: — "Por que não ajuntas também que durante todo o dia nada faz senão jogar dados?"

(7) Era assim porque a sorte se tirava com ossinhos, os quall quando se encontravam com o V para cima, o lanço chamava-se Vénus. Amyot.

XII. Em suma, Catão, considerando que os costumes e maneira de viver de seu tempo estavam corrompidos e tinham grande necessidade de mudança, que para andar direito precisava ele tomar um caminho todo contrário em todas as coisas, porque via que a púrpura, a mais vermelha e de cor mais forte, custava preço muito maior e era mais requisitada, êle preferia usar tirantes sobre o preto; e muitas vezes, após o jantar saía em público sem sapatos, os pés nus e sem saio (8), não que procurasse a glória por meio de tais novidades, mas para se acostumar e repelir as coisas vergonhosas e desonestas e desprezar aquelas que não eram reprovadas senão pela opinião dos homens. Tendo herdado cem talentos pela morte de um de seus primos que se chamava Catão como êle, reduziu a herança a dinheiro de contado para emprestar a quem precisasse dentre seus amigos, sem receber juros, e havia os que empenhavam para seus próprios negócios, em público, suas terras e posses, ou seus escravos, que êle mesmo lhes dava para empenhar ou bem confirmava o penhor depois.

(8) Antiga veste militar.

XIII. Afinal, quando julgou haver chegado a idade que devia se casar, ficou noivo de Lépida, não tendo nunca antes conhecido mulher. Esta Lépida fora primeiramente prometida e tinha sido noiva de Metelo Cipião; mas deixou-o depois e foi desfeito o noivado, de tal modo que estava comple-lamente livre quando Catão a pediu; todavia, antes de esposá-la, Cipião, arrependido de a ter recusado, fez tudo o que pôde para reavê-la e o conseguiu de fato; pelo que Catão ficou tão indignado e furioso, que resolveu solicitá-la judicialmente, mas seus amigos o desviaram desse propósito. Por essa razão, para conter um pouco sua cólera e ardor de sua juventude, pôs-se a escrever versos ambíguos contra Cipião, nos quais lhe dizia todas as injúrias que podia, usando da aspereza e amargor que encontrava nos versos de Arquíloco, mas nunca impudicos, sujos, nem também as pueris reclamações que aí se encontram. Depois desposou Atília, filha de Sorano, e foi ela a primeira mulher que conheceu, mas não a única, como havia feito Lélio, o amigo de Cipião que foi mais feliz nesse sentido, mesmo porque viveu mais tempo, pois nunca conheceu outra mulher a não ser aquela que desposou primeiramente.

XIVEm suma, a guerra servil, por outro modo chamada a guerra dos espartanos, estando em eclosão, houve um Gélio que foi eleito pretor para a conduzir, sob as ordens do qual Catão participou de boa vontade, apenas por amor de seu irmão Cipião, o qual estava naquele exército encarregado de mil homens da infantaria; se Catão aí não pôde demonstrar aptidão ou empregar sua virtude, como queria, pela falta e insuficiência do chefe que conduzia mal os combates, no entanto, mostrando no meio das delícias efeminadas e da dissolução mole desses que estavam no campo, ser homem regrado em todos os seus feitos, corajoso quando era preciso, seguro em tudo e cheio de bom senso, foi considerado por todos não ser em nada inferior ao antigo Catão, razão por que o pretor Gélio concedeu-lhe diversas honras e prêmios de valor, que se costumam conferir às pessoas de bem, os quais todavia, não quis receber, dizendo que não fizera nada digno de tais honras. Essas coisas faziam-no parecer um homem estranho, e ainda mais tendo dado uma ordem pela qual ficava proibido aos que disputavam algum cargo da república, que não observassem nas assembléias nenhum protocolo para anunciar os nomes dos cidadãos particulares; êle sozinho, pleiteando o cargo de capitão de mil infantes, obedeceu à ordem, procurando reter em sua memória os nomes dos referidos cidadãos, para os nomear e saudar a todos por seus nomes, de sorte que se tornava impertinente a esses mesmos que o elogiavam; pois mesmo porque sabiam o quanto eram louváveis as coisas que êle fazia, ainda mais se aborreciam por não poderem imitá-lo.

XV. Assim, sendo eleito capitão sobre mil homens, foi enviado à Macedónia perante o pretor Rúbio, e dizem que à sua partida, sua mulher, estando triste por vê-lo partir, houve um de seus amigos, Munácio que lhe disse: — "Não te preocupes Atília, não chores mais, pois prometo-te que guardarei bem leu mando". — "É bem dito", respondeu Catão. Depois, quando estavam a um dia de viagem de Roma, depois do jantar disse êle a esse Munácio: — "É preciso que cuides de manter a promessa que fizeste a Atília, que me guardes bem, e para isso não me abandones nem de dia, nem de noite"; e ordenou aos seus soldados que de ali por diante preparassem sempre dois leitos em seu quarto para aí dormir Munácio, que era, brincando, mais guardado por Catão, do que Catão por êle. Levava com êle quinze servidores, dois libertos e quatro de seus amigos, os quais iam a cavalo e êle caminhava a pé, aproximando-se ora de um e ora de outro, para conversar com eles pelo caminho. Tendo chegado ao campo, onde havia várias legiões romanas, o pretor deu-lhe incontinenti o comando de uma. Julgou então que fosse coisa leve mostrar-se apenas virtuoso, atendendo que não era senão uma única pessoa; mas estudava para tornar todos esses que estavam sob suas ordens, semelhantes a êle. Para chegar a isso, não lhes inspirou temor pela sua autoridade, mas aí juntou a razão, admoestando-os e instruindo-os sobre cada ponto, acompanhando sempre, no entanto, suas admoestações, de compensações aos que agiam bem, e de castigo aos que agiam mal; de maneira que não souberam dizer se êle os havia tornado mais pacíficos ou mais aguerridos, mais valentes, ou mais justos, tanto se mostravam na prova rudes e ásperos aos inimigos e delicados e graciosos aos amigos; temerosos em proceder mal e prontos em adquirir honra; pelo que aconteceu que por isso êle se preocupava menos se bem que ganhasse mais, isto é, glória com amor e boa vontade, pois os soldados que o honravam soberanamente e o estimavam singularmente, pelo fato de que êle mesmo punha em primeiro lugar a mão para fazer o que ordenava e igualava-se em seu vestuário, em seu viver comum, em seu caminhar pelos campos, antes aos simples soldados, do que aos capitães e, do contrário, em gentileza, grandeza de coragem, veemência e eficácia da palavra, superava todos os que se faziam chamar coronéis e capitães. Pois o verdadeiro zelo da virtude, isto é, o desejo de imitar, não se imprime nos corações dos homens a não ser com uma singular benevolência e reverência pelo personagem que causa a impressão; mas esses que elogiam os homens virtuosos sem os amar, esses reverenciam apenas sua fama, mas não sentem afeto pela sua virtude, nem se preocupam em imitá-lo.

XVI. Aproximadamente nesse tempo, Catão, sendo avisado que Atenodoro, denominado Cordi lião, personagem que era há muito tempo versado na filosofia estóica, encontrava-se então na cidade de Pérgamo, sendo já velho e tendo sempre obstinadamente recusado ir para a corte dos senhores, dos príncipes e dos reis que procuravam tê-lo ao seu lado, pensou em escrever-lhe para que viesse à sua presença, porque tendo pelas ordens romanas, descanso de dois meses, durante os quais podia ficar ausente do acampamento para seus próprios negócios, subiu ao mar para ir a Ásia encontrá-lo, confiante de que viria, ao fim daquela caçada, dadas as grandes e virtuosas qualidades que o ornavam. Falou com êle, discutiu e apresentou tais razões, que finalmente o tirou de sua resolução, trazendo-o consigo para o acampamento, alegrando-se por esta vitória e estimando-a mais do que todas as conquistas de Lúculo ou de Pompeu, que iam então subjugando pelas armas todas as províncias e reinos do Oriente.

XVII. Mas, como estava ainda exercendo o comando, como capitão de mil homens, seu irmão, preparando-se para fazer uma viagem à Ásia, caiu doente na cidade de Eno (9) no país da Trácia, do que foi incontinenti avisado por cartas e, de repente, se bem que fizesse mau tempo sobre o mar e não podendo prontamente encontrar navio bastante grande para fazer essa viagem com segurança, embarcou sobre um naviozinho mercante da Tessalônica (10) com dois de seus amigos e três servidores somente e pouco faltou para que não se afogassem com a tormenta, tendo afinal escapado por estranha sorte e chegou pouco depois que seu irmão havia falecido. Sentiu essa morte um pouco mais impacientemente do que parecia ser conveniente a um filósofo; o que demonstrou não somente pelo grande luto que trouxe e as lamentações que proferiu abraçando o cadáver e a dor grave que sentiu em seu coração, mas também pela despesa supérflua que fez em seus funerais com perfumes, plantas odoríferas e suntuosos panos que foram queimados com o corpo e também na estrutura e construção de seu monumento, que mandou fazer em mármore tassiano (11) sobre a grande praça dos enianos, e que custou a soma de oito talentos (12). Houve quem censurasse essa despesa, dadas suas sobriedade e simplicidade em todas as outras coisas, não considerando até o fundo a bondade e caridade inocentes para com os seus, que nele estavam embaralhadas entre sua frieza firme, e inflexível dureza contra as volúpias, os temores e os pedidos ilícitos e desonestos. Diversas cidades, príncipes e senhores enviaram-lhe então grande quantidade de presentes para honrar os funerais de seu irmão, mas ele não aceitou dinheiro de nenhum, apenas especiarias, drogas odorantes e paramentos com que se honram as exéquias dos falecidos e ainda pagou o valor a esses que haviam trazido, sem que quisesse, no entanto, pôr em categoria de conta, nem uma moeda de Iodos os gastos que teve no enterro, na partilha da sucessão de seu irmão, que o havia instituído seu herdeiro com igual porção, com uma filhinha sua; não obstante isso, o que quer que tenha feito, (e fez todas essas coisas), ainda houve alguém (13) que escreveu que ele passou e escorreu por uma peneira as cinzas do fogo onde seu irmão havia sido consumido, para retirar o ouro e a prata fundidos; assim pensava ele que não iam controlar e nem sindicar o que escrevera com a pena, como o que fizera com a espada.

(9) Outrora chamada Abissinta, junto da embocadura oriental do Ebro, no cantão dos ciconianos.

(1O) Na Macedónia, sobre o golfo Termaico.

(11) Na ilha de Tassos, próximo da costa meridional da Trácia. Esse mármore de várias cores era então muito apreciado.

(12) Quatro mil e oitocentos escudos. Amyot.

(13) Isto parece se referir a César, em seu livro que chamou Anti-Catão. Amyot. Ver as Observações. C.

XVIII. Mas, depois que o tempo de seu cargo expirou, Catão, ao partir do campo foi seguido não somente com elogios, votos e orações aos deuses pela sua salvação, o que é comum, mas também com abraços, lágrimas e choros infindos dos soldados que estendiam suas vestes sobre a terra na qual devia passar e beijavam-lhe as mãos, o que era então uma honra que os romanos prestavam a bem poucos capi-tães-generais. E querendo, antes de voltar a Roma, para se pôr de novo nos negócios, ir visitar a Ásia, em parte para ver de visu os costumes, os hábitos e as forças de cada província e em parte também para favorecer com isto o rei Dejotaro, que tendo sido hóspede e amigo de seu pai, o convidara e o solicitara a ir a seu país, pôs-se a caminho e fêz a viagem desta maneira: enviava na frente, logo cedo, ao clarear do dia, seu padeiro e seu cozinheiro para o local onde devia pernoitar, os quais, entrando na cidade ou vilarejo, simples e modestamente, procuravam encontrar algum hóspede, amigo ou conhecido de Catão e se não encontravam nenhum, então preparavam sua hospedagem em alguma hospedaria, sem atrapalhar ninguém; e se não houvesse hospedaria, então dirigiam-se aos magistrados e oficiais do lugar, aos quais solicitavam casa e se contentavam com a primeira que lhes indicavam; mas, muitas vezes, não acreditavam que os tais fossem servidores de Catão e não faziam caso porque não faziam barulho e não ameaçavam os oficiais, de tal modo que acontecia Catão chegar sem que tivessem ainda nada pronto; e quando êle mesmo chegava, faziam ainda menos caso, porque o viam sentado sobre a bagagem, sem dizer uma palavra, e pensavam que devia ser algum homem de classe baixa e humilde, temeroso e sem coragem; todavia, chamava-os algumas vezes e admoestava-os dizendo: — "Ó pobre gente, aprendei a ser mais corteses ao receber os romanos caminhantes ; não serão sempre Catões que passarão por vossas terras portanto, avisai-vos em fazer-lhe cortesia e gracioso tratamento, sem o que limitareis o termo da licença que terão sobre vós; pois haverá muitos que não esperarão mais do que alguma desculpa para vos retirar à força o que desejarão possuir, se vós não o tiverdes, de bom grado, oferecido e entregue".

XIX. A este propósito narram que na Síria deu-se um fato hilariante. Foi que, chegando a Antioquia, encontrou diante da porta da cidade grande multidão dividida em duas filas de um lado e outro da rua; os rapazes à parte, vestidos com belos mantos e as crianças à parte também em bela ordem e outros, vestidos com belas roupagens novas, trazendo chapéus de flores sobre suas cabeças que eram os sacerdotes ou oficiais da cidade. Catão pensou incon-tinenti que fora a cidade que fizera esta procissão para o honrar, já demonstrando má vontade para com os servidores que enviara à frente não terem impedido que esta demonstração se fizesse. Fêz seus amigos, que o acompanhavam, descer dos cavalos e caminhar a pé com êle; mas quando chegaram bem junto à porta da cidade, o mestre de cerimônias que conduzia toda esta recepção e que tinha toda a multidão em ordem, homem já idoso, trazendo em sua mão uma vara e uma coroa, dirigiu-se a Catão na frente dos outros e, sem o saudar, apenas lhe perguntou onde haviam deixado Demétrio e quando êle chegaria. Esse Demétrio havia sido escravo de Pompeu, e portanto, como todo o mundo lançava os olhos sobre o senhor, o servidor era também honrado e agradado mais do que merecia, por causa do crédito que tinha à volta de seu senhor. Os amigos de Catão, ouvindo isto, puseram-se a rir tão alto, que não puderam mais se conter passando através da multidão, mas Catão sentindo grande vergonha, não fêz senão dizer na hora: — "Ó cidade desgraçada!" e nenhuma outra coisa. Mas depois quando contava o fato a outros ou pensava sozinho, punha-se a rir.

XX. Todavia, Pompeu marcou aqueles, que por ignorância, deixaram assim de honrar Catão. Pois, tendo chegado à cidade de Éfeso, Catão foi à sua presença para saudá-lo como sendo o mais idoso, de maior dignidade e maior reputação e que então comandava um poderoso exército; porém, Pompeu, percebendo-o de longe, não esperou que viesse até ele, nem ficou sentado em sua cadeira, mas levantou-se, indo ao seu encontro como a um dos principais personagens de Roma e, tomando-o pela mão, depois de o haver saudado e abraçado, proferiu na hora grandes louvores à sua virtude, em sua presença e ainda mais em sua ausência, depois que se retirou, de sorte que depois todo o mundo deu muita importância e o tiveram em extraordinária consideração pelas mesmas coisas que antes faziam desprezá-lo, quando vieram a considerar de perto sua clemência e sua magnanimidade ; os assistentes reconheceram evidentemente que a boa acolhida de Pompeu era própria de um homem que o reverenciava e observava isto por obrigação mais do que pela estima, e perceberam facilmente que sentia grande honra enquanto estava ao seu lado; no entanto, ficou satisfeito quando partiu; pois sempre se esforçava em reter junto dele todos os gentis-homens romanos que iam vê-lo, mas não insistiu absolutamente com Catão, pois com êle presente lhe parecia ter alguém que lhe controlasse sua autoridade, ficou bem à vontade deixando-o ir, recomendando-lhe sua mulher e seus filhos, o que não havia feito a nenhum dos que voltavam à Roma; se bem que tivessem algum parentesco. Depois, todas as cidades por onde passou, estudavam-se com inveja uma das outras, a ver quem lhe daria mais honra, preparando-lhe banquetes e festins, dos quais solicitava aos seus amigos que ficassem atentos e procurassem dispensá-lo, confirmando assim o que lhe dissera outrora Curião, o qual zangando-se por ver Catão, que era seu amigo íntimo, assim austero, perguntou-lhe um dia se não tinha vontade de ir ver a Ásia, depois que o tempo de seu cargo houvesse expirado. Catão respondeu-lhe que estava bem resolvido. — "Farás muito bem, replicou-lhe Curião; pois voltarás um pouco mais alegre e mais domesticado do que és". Pois usou uma expressão romana que significa propriamente isto.

XXI. Dejotaro, rei da Galácia, estando já muito velho, mandou convidá-lo para ir vê-lo em seu país, a fim de lhe recomendar seus filhos e sua casa; na qual logo que ele chegou, esse rei deu-lhe belos e ricos presentes de todas as espécies, pedindo e solicitando por todos os meios que os recebesse. Isto desagradou a Catão, irritando-o tanto que, tendo chegado à noite, depois de haver ficado um dia apenas, partiu às três horas da manhã seguinte; mas não havia caminhado um dia, quando encontrou na cidade de Pessinunta (14), outros presentes ainda maiores que o esperavam com cartas de Dejotaro, pelas quais pedia-lhe insistentemente aceitá-los e se não quisesse, pelo menos permitisse aos seus amigos recebê-los, atendendo que o valiam e mereciam por todas as razões, mas especialmente por amor dele, ainda mais que seus bens não eram grandes que pudessem chegar para todos seus amigos. Todavia Catão jamais quis permitir, como antes, que nada aceitassem, embora percebesse que havia alguns dentre eles amolecidos pelo desejo e queixando-se por não deixá-los receber as dádivas; pois os admoestou a jamais receber o fruto da corrupção com a desculpa de honestidade; e ainda, pensando bem, seus amigos teriam sempre parte nos bens que ele possuiria honestamente. Assim, mandou de volta a Dejotaro todos os seus presentes. E como estivesse pronto para embarcar e passar de volta a Brundúsio, houve alguns de seus amigos que o admoestaram que era melhor pôr as cinzas e os ossos de seu irmão Cipião dentro de um outro navio; mas ele lhes respondeu que preferia perder sua vida, do que aquelas relíquias; e incontinenti pôs-se à vela, quando dizem que passou grande perigo, ao passo que os outros navios tiveram travessia bastante cômoda.

(14) Cidade da província da Asia chamada Galácia ou Galo-Grécia, próxima do rio Sangare.

XXII.Tendo voltado a Roma, estava sempre ou em sua casa a conferenciar sobre filosofia com o filósofo Atenodoro, ou na praça para dar prazer aos seus amigos. Pois insistiam, para quando seu tempo terminasse, solicitar o lugar de questor (15) mas nao o quis, sem que primeiramente houvesse lido diligentemente os editais e ordens concernentes àquele cargo e nao houvesse particularmente inquirido, sobre todos os pontos, àqueles que tinham mais longa experiência, para saber qual era o poder e a autoridade do dito cargo. Logo que tomou posse, introduziu uma grande mudança quanto aos oficiais do tesouro e escreventes, os quais, tendo sempre entre suas mãos os papéis e registros das contas e os editais sobre finanças e mais, tendo que trabalhar com rapazes, que elegiam como questores, os quais tinham por sua ignorância e falta de experiência, antes necessidade de mestres que os ensinassem, do que de suficiência para dirigir, acontecendo que os escreventes, não lhes reconhecendo autoridade, eram eles mesmos os magistrados, até que Catão, tomando conscientemente as matérias a peito e não se contentando em ter apenas o título e a honra de magistrado, mas tendo também o senso, o coração e a palavra, quis que os oficiais e notários se portassem como tais, isto é a saber, somente auxiliares dos magistrados, verificando, demonstrando-lhes as malvadezas que cometiam em seus cargos e mostrando-lhes os erros que cometiam por ignorância. Mas, vendo alguns audaciosos e soberbos, que iam adulando e ganhando os outros questores, procurando resistir à sua autoridade, cometida na divisão de uma sucessão entre co-her-deiros e conseqüentemente privou-o de poder jamais exercer algum cargo nas finanças.

(15) Magistrado romano encarregado das finanças ou da justiça criminal.

XXIII. Levou também perante a justiça um outro, acusando-o de falsificação de testamento e Catulo Lutácio, sendo então censor, encontrava-se no julgamento para defendê-lo; este era uma personagem de grande dignidade, não somente pela autoridade de magistrado que êle possuía, como também mais ainda por sua própria virtude, porque êle era tido por um dos mais justos e maiores homens de bem que houvessem no seu tempo em Roma. Era êle um dos que mais elogiavam Catão, convivendo com êle, pela honestidade de sua vida; e vendo que não podia defender seu constituinte pela razão, requereu abertamente que o perdoassem por êle. Catão não quis permitir; mas ainda insistiu calorosamente e disse-lhe então com franqueza: — "É uma vergonha, Catulo, levando em conta que és censor, e deveria examinar rigorosamente nossas vidas, deixar-te assim atirar fora do dever (16) de teu cargo, para favorecer aos nossos ministros". Tendo Catão pronunciado estas palavras, Catulo olhou-o bem, como para lhe responder, mas não lhe disse nada, e ficou furioso ou envergonhado, retirando-se todo confuso, sem dizer palavra. Todavia, o acusado não foi condenado, pois aconteceu que os votos dos juízes que o condenavam eram mais do que os que o absolviam; porém, Marcos Lólio, um dos companheiros de Catão como questor, não tendo podido assistir ao processo, porque se encontrava enfermo, Catão mandou pedir-lhe para vir, a fim de ajudar esse pobre homem; e ele, fazendo-se conduzir dentro de uma liteira, após o julgamento, deu o último voto que o absolveu judicialmente; todavia Catão não quis nunca mais que êle servisse de notário nem consentiu que pagasse sua caução e, ainda mais, não quis contar o voto de Lólio entre os demais.

(16) Grego: "em te expor fazendo-te expulsar pelos nossos sargentos".

XXIV. Assim, tendo diminuído a audácia dos notários, escreventes e peritos das finanças, pois que os colocou na razão, teve em suas mãos todos os registros e papéis à sua vontade dentro de pouco tempo, para agir à vontade e tornou (17) o tribunal das contas mais venerável e mais reverenciado do que o próprio Senado, de maneira que todo o mundo opinava e dizia que Catão havia anexado ao cargo de questor a dignidade do consulado. Descobrindo êle que vários cidadãos eram, desde tempos passados, devedores do Estado e, como também a república o era a alguns particulares, deu ordem para que não se causasse mais dano a ninguém e que pessoa alguma também lesasse os cofres públicos, constrangendo severamente aos que deviam pagando também pronta e voluntariamente àqueles a quem era devido; de tal modo que o povo mesmo tinha vergonha de ver alguns pagarem quando esperavam não pagar nada e, em oposição, também reembolsar outros que julgavam nunca mais receber nada de suas dívidas. Entretanto, alguns apresentavam no gabinete dos questores, cartas e quitações não legais, que muitas vezes seus predecessores forneceram deferindo solicitações e requerimentos falsos; mas, durante sua gestão, jamais se deu isto, pois estando um dia em dúvida sobre uma ordem que lhe foi apresentada para saber se era verdadeira, ainda que diversos testemunhassem que sim, não a quis acreditar nem admitir, até que os cônsules, pessoalmente, viessem testemunhar e jurar que havia sido ordenado.

(17) O cargo de questor.

XXV. Ora, havia diversos a quem Lúcio Sila, na segunda proscrição, havia dado (18) doze mil dracmas de prata por cabeça de cada cidadão proscrito que tinham morto por suas próprias mãos, os quais eram odiados e malditos de todo o mundo, como assassinos e excomungados, mas ninguém ousava agir contra eles para fazer vingança; Catão levou-os todos perante a justiça, por estarem detendo indevidamente o dinheiro público, obrigando-os a entregá-lo e censurando-os furioso, não sem razão, pelo ato malvado que haviam cometido. Nem bem haviam entregue esse dinheiro, foram por outros acusados de homicídio; e como já estavam condenados por dano, ao saírem do julgamento, foram conduzidos diretamente para outro, onde pagaram a pena que haviam merecido, com grande conten-lamento e sossego de todos os romanos, os quais consideraram então que toda a tirania desse tempo estava apagada, e o próprio Sila castigado.

(18) Um mil e duzentos escudos. Amyot.

XXVI. Além disso, ainda era muito agradável ao povo a diligência e assiduidade contínuas de Catão, porque era sempre o primeiro a chegar ao gabinete dos questores e o último a sair; jamais faltou a uma assembléia do povo, nem a uma reunião do Senado, receando e tendo cuidadosamente os olhos abertos para que aparentemente e por favor não recebessem algum dinheiro devido ao Estado ou que concedessem desconto aos arrendatários ou que fizessem entrega de dinheiro, senão aos que o tinham justamente merecido. Assim, limpo dos caluniadores e tendo enchido de moedas a arca do tesouro, demonstrou que a república podia ser rica, sem prejudicar nem causar dano a ninguém. É verdade que no início dessa administração, foi ele desagradável a alguns de seus companheiros, porque pareceu-lhes muito rude, mas afinal foi querido por todos porque se submetia sozinho a sustentar a gritaria e malevolencia que levantavam contra êle; porque não deixava por favor rodar as moedas do dinheiro público e assim os demais que ocupavam postos na administração tinham facilidade de se desculpar diante daqueles que reclamavam e importunavam com pedidos, dizendo que era impossível fazer qualquer coisa contra a vontade de Catão.

XXVII. E no último dia de exercício de seu cargo, tendo sido reconduzido por quase todo o povo até sua casa, foi avisado de que Marcelo estava dentro da câmara do tesouro assediado e envolto por vários de seus amigos, pessoas de autoridade, que o apertavam para fazer registrar alguns pagamentos, como sendo devidos pelo público. Marcelo era seu amigo desde a infância e desempenhava muito bem o seu cargo quando estava com êle; mas, quando estava só, deixava-se levar pelos pedidos dos que reclamavam, e sendo de natureza delicada, tinha vergonha de despedir alguém e era muito pronto a conceder tudo o que reclamavam. Catão voltou rapidamente e vendo que havia um importuno feito registrar um pagamento, mandou trazer o registro e o apagou em sua presença, sem que o outro dissesse uma só palavra contra; depois disto feito, o próprio prejudicado reconduziu-o e acompanhou-o até sua casa, e não se queixou jamais, nem na ocasião, nem depois deste ato, mas perseverou sempre em sua amizade e familiaridade, como antes.

XXVIIIMas, mesmo fora do cargo de questor, não deixou a câmara do tesouro sem vigia nem guarda; pois fazia-a assistir todos os dias por seus servidores, os quais redigiam por escrito tudo o que se passava. E êle mesmo, tendo recuperado pelo preço a soma de cinco talentos (19) os livros nos quais estava compreendida toda a situação da renda pública e da administração desde o tempo de Sila até o ano de sua gestão, tinha-os sempre entre as mãos, entrando sempre em primeiro lugar no Senado e saindo por último. E ah, muitas vezes, enquanto os outros senadores se reuniam para descansar, ia sentar-se em algum canto e ficava lendo baixinho, pondo sua túnica à frente e jamais ia para os campos nos dias que sabia haver assembléia no Senado.

XXIX.Pompeu e seus partidários, vendo que era impossível forçá-lo e ainda mais ganhá-lo para que os favorecesse naquilo que solicitavam injustamente, iam procurando meios de distraí-lo para que não assistisse no Senado, impedindo-o de defender as causas de alguns de seus amigos e julgar algumas arbitragens ou outros negócios; mas êle, tendo imediatamente percebido sua cilada e armadilha, denunciou, uma vez por todas, a esses que desejavam se servir dele, declarando que não faltaria nunca mais em outros casos, quaisquer que fossem, nos dias em que se reunia o Senado; pois não viera se intrometer nos negócios da república para se enriquecer, como faziam alguns outros, nem para fortuitamente adquirir reputação; mas tendo, por madura deliberação, escolhido a intervenção no governo, como exercício próprio de um homem de bem, considerava dever ficar cuidadosamente de olho aberto mais do que faz a abelha quando constrói seus casulos de cera ou faz o mel; tomava interesse, com sacrifício, em todos os casos que vinham às suas mãos, por meio de seus hóspedes e amigos, residentes em cada província do império romano, isto é, editais, decretos, sentenças ou julgamentos de maior importância.

(19) Três mil escudos. Amyot.

XXX. Fez oposição uma vez a Públio Cláudio, orador sedicioso, que estava suscitando princípios de grandes novidades, para agradar ao povo acusando perante os sacerdotes e as religiosas vestais, entre as quais Fábia Terência, irmã da mulher de Cícero, que foi chamada à justiça; Catão, tendo tomado sua proteção e defesa, causou tão grande vergonha ao acusador Cláudio, que o obrigou a sair fora da cidade, pelo que Cícero, agradecen-do-lhe, Catão respondeu-lhe que era à causa pública que devia agradecer, porque era por amor dela que dizia, fazia e aconselhava todas as coisas; nessa ocasião chegou a alcançar tal reputação, que algumas vezes, num litígio em que pediam a deposição de uma única testemunha, o advogado que pleiteava em favor da parte adversa disse aos juízes que não deviam de modo algum dar crédito ao dizer de uma só testemunha, mesmo que fosse Catão, e já era um provérbio comum, quando falavam de coisas estranhas e inverossímeis de acreditar, o dizer: — "Isto não é crível, embora seja Catão mesmo que o diga". E como um dia no Senado um personagem de má reputação, supérfluo e dissoluto nas despesas, fizesse um longo discurso em louvor e recomendação da sobriedade, temperança e economia, houve um senador chamado Anaus, que não se pôde conter e lhe disse: — "Deusa, meu amigo, quem julgas tu que pode ter paciência de te ouvir, se tens uma mesa como Crasso, constróis como Lúculo e nos pregas como Catão (20) ?" Também chamavam comu mente, em tom de zombaria, Catões, àqueles que eram graves e severos nas palavras e desordenados e viciados nos atos que praticavam.

XXXI. Vários de seus amigos o incitavam e admoestavam para solicitar o cargo de tribuno do povo, mas êle não foi de acordo, dizendo que não precisava empregar nem exercer o poder de tal magistratura e de tão grande autoridade, senão no tempo e nas coisas necessárias; e obtendo descanso dos negócios públicos, foi para a Lucânia, onde possuía casas de descanso agradáveis, levando com êle muitos livros e filósofos para fazer-lhe companhia ; mas pelo caminho encontrou muitos centunões, grande quantidade de bagagens e um comboio de pessoas; perguntou quem era e disseram-lhe que era Metelo Nepos que voltava a Roma para solicitar o cargo de tribuno. Parou de súbito e, depois de pensar um pouco consigo mesmo, ordenou à sua gente que voltasse atrás. Pelo que seus amigos, ficando admirados, respondeu-lhes: — "Não sabeis que Metelo por si mesmo é de temer por sua loucura? E agora, que vem com instruções de Pompeu, ati rar-se-á através dos negócios, como um raio que estraga tudo; por esta causa agora não é tempo para descansar, nem de férias, mas é preciso vencer ou morrer honradamente pela defesa da liberdade".

(20) Na Vida de Lúculo, este propósito é atribuído ao próprio Catão. L. V, cap. 81.

XXXII. Tod avia, à persuasão de seus amigos, foi primeiramente um instante até a sua casa de campo, onde nada fez, mas voltou incontinenti a Roma. E aí, tendo chegado uma noite, no dia seguinte cedo desceu à praça, solicitando o cargo de tribuno do povo, expressamente para resistir à empreitada de Metelo, porque essa atribuição confere muito mais força para impedir do que para fazer; pois se todos os outros tivessem decretado uma coisa juntos de acordo, e que ele sozinho se opusesse, essa oposição seria maior que todos os outros (21). Ora, Catão não teve de início grande número de seus amigos a seu lado; mas, quando souberam da intenção pela qual fazia esta solicitação, todas as pessoas de bem se colocaram a seu favor e o confirmaram em sua deliberação, encorajando-o para pretender o cargo, não tanto por si, mas pela república, pois o pedia em ocasião oportuna, atendendo que, tendo podido obtê-lo por várias vezes sem dificuldade, quando não tinha negócio algum, não quisera solicitá-lo; mas reservou-se para pretendê-lo quando era preciso, não sem perigo, e combater pelo bem da república e pela proteção da liberdade. Dizem que houve grande multidão que veio para assistir sua disputa e com tão calorosa afeição que pensou sufocar e não acreditou jamais poder chegar até à praça, pelo aperto da multidão que o acompanhava.

(21) Os tribunos podiam vetar as decisões dos cônsules.

XXXIII.Assim, tendo sido declarado tribuno (22) com Metelo e outros, percebeu que iam mercadejando e comprando votos do povo, quando chegasse a eleição dos cônsules e fêz um discurso, no qual repreendeu e censurou asperamente por este mercado nojento e sujo, ao fim do qual protestou com juramento, que acusaria e levaria à justiça aquele que tivesse dado dinheiro para se fazer eleger, excetuando apenas Silano, porque era seu aliado, tendo desposado Servília, sua irmã, e por isso o excluiu; mas acusou e deu parte formal contra Lúcio Murena, o qual, por dinheiro, tanto fizera, que havia obtido o consulado juntamente com Silano. Ora, havia uma ordem que permitia ao acusado ter um guarda junto com o acusador para ver o que este ia propor e do que se serviria em sua acusação, a fim de que o acusado não fosse achado desprevenido; dessa forma, aquele que Murena havia mandado a Catão para observá-lo, seguindo-o por toda a parte, e considerando de perto tudo o que fazia, quando viu que êle não estava agindo maliciosamente, mas abertamente seguia o caminho reto do acusador justo, sentiu tão grande confiança na magnanimidade e bondade simples, naturais de Catão que, sem de modo algum espioná-lo, não fazia mais do que perguntar, em praça pública ou em sua casa, se naquele dia havia deliberado fazer alguma coisa concernente à acusação e se dizia que não, ia embora, confiando plenamente. Quando chegou o dia do julgamento, Cícero, que era cônsul (23) nesse ano, defendendo Murena, criticou tão prazerosamente os filósofos estóicos e suas estranhas e extravagantes opiniões, que fêz rir os juízes, de sorte que Catão, mesmo sorrindo, disse aos que estavam a seu lado: — "Vede como temos um cônsul agradável, que faz rir as pessoas". Murena, tendo sido absolvido nesse julgamento, não se mostrou mais daí em diante homem mau nem estouvado para com Catão, mas enquanto durou seu consulado (24) governou-se sempre por seu conselho nos principais negócios e continuou a honrá-lo e seguir seu conselho com relação aos seus deveres como magistrado; de sorte que Catão não era terrível nem temível, senão no Conselho e em seus discursos diante do povo, pela defesa do direito e da justiça somente; pois, pensando bem, mostrava-se humano, delicado e benigno para com todo o mundo.

(22) No ano de Roma 691, A. C. 63.

(23) No ano de Roma 691.

(24) No ano de Roma 692.

 

XXXIV. Mas, antes de entrar no exercício como tribuno, sendo Cícero ainda cônsul, ajudou-o a cumprir os deveres de seu cargo em várias coisas e mesmo a pôr fim à conjuração de Catilina, que foi um belo e grandioso feito; pois esse Catilina maquinava uma mudança universal para arruinar e revirar de cima para baixo toda a república, excitando as sedições civis internas e guerras abertas no exterior, do que, sendo acusado por Cícero, foi obrigado a salvar-se para fora de Roma, mas Lêntulo, Cetego e diversos outros cúmplices dessa conjuração, censurando Catilina por se haver vergonhosa e friamente nessa obra de destruição, haviam por seu lado empreendido queimar a cidade de Roma completamente e pôr em combustão todo o império romano por meio de guerras e rebeliões de nações e províncias estrangeiras; mas, tendo sido descoberta sua conspiração, assim como declaramos mais amplamente na Vida de Cícero, a coisa foi levada ao julgamento do Senado para saber o que se devia fazer; e Silano, a quem primeiro foi perguntada a opinião, disse ser sua opinião que deviam fazê-los sofrer pena extrema e, conseqüentemente, todos esses que deram parecer depois dele, disseram o mesmo, até César, o qual sendo bom orador e que desejava antes alimentar e entreter as agitações, sedições e mudanças na coisa pública, como matéria própria ao que de longa data havia projetado em seu enten dimento, fez um discurso cheio de palavras doces atraentes, no qual demonstrava que fazer morrer assim esses personagens, sem que fossem judicialmente condenados, parecia-lhe razoável, mas que antes deviam mantê-los presos. Isto mudou de tal modo a opinião do resto dos senadores, pelo receio que tiveram do povo, que Silano mesmo deu novamente sua opinião e disse que não havia aconselhado fazê-los morrer, mas retê-los em prisão fechada, porque para um cidadão romano, a prisão era um dos maiores infortúnios.

XXXV.Assim, tendo conseguido mudar as opiniões e inclinado os demais senadores para uma sentença mais humana e mais suave, quando chegou a vez de Catão dar o seu parecer, este começou furioso, com grande força de eloqüência, a censurar Silano, arremetendo-se depois, grandemente irritado e de maneira áspera, a César, o qual, debaixo de uma aparência popular e sob a capa de seu falatório suave e maneiroso, ia arruinando a república e intimidando o Senado, quando devia estar temeroso e considerar-se feliz em não ser atacado nas ocasiões que dava para suspeitar; pois, querendo assim, claramente arrancar das mãos da justiça, traidores inimigos da república, demonstrava não ter nenhuma piedade nem compaixão pela cidade de seu nascimento, tão grande e tão nobre, que havia estado tão perto do extermínio final, para sentir e lamentar a sorle desses homens desgraçados, que não deviam jamais ter nascido e cuja morte preservaria Roma de assassínios, males e perigos infinitos. De todos os discursos que Catão pronunciou, só este ficou preservado para a posteridade porque Cícero, naquele dia, dirigiu os escriturários do Senado, que tinham a mão mais leve, aos quais havia com vantagem ensinado a fazer certas anotações e abreviações, que em poucos traços valiam e representavam muitas letras, colocando-os esparsos em vários lugares na sala; pois então ainda não usavam e não sabiam o que eram os notários (25) , isto é, escrivães que por meio de anotações de letras abreviadas significam toda uma sentença ou uma palavra, como se fêz depois; e segundo se diz, foram os primeiros, começando daí o sistema. Catão ganhou e fêz de tal modo mudar as opiniões, que os homens foram condenados à morte. E para não omitir nada do que pudesse servir para representar ao vivo a imagem de seu natural até nos mínimos detalhes, dizem que nesse dia, havendo grande debate e litígio muito veemente contra César, de tal modo que todo o Senado estava atento aos oradores, trouxeram de fora um papelzinho que foi entregue a César. Isto despertou imediatamente a suspeita de Catão, o qual denunciou o fato, dando ensejo a que os diversos senadores se amotinassem e ordenassem fosse lido bem alto e claramente o escrito. César estendeu a carta a Catão, que não estava sentado longe dele. Este, tendo lido, viu que era uma carta de amor de sua irmã Servília a César, de quem estava enamorada, tendo sido por ele seduzida; atirou o papel a César, dizendo-lhe: — "Toma, bêbado"; feito isto, continuou a proposição que havia começado antes.

(25) Equivalentes aos atuais taquígrafos.

XXXVI. Em suma, parece que Catão foi pouco feliz ao lado das mulheres; pois esta Servília, como dissemos, estava sendo alvo de comentários pelo amor a César, mas a outra Servília, que era também sua irmã, foi ainda mais difamada; porque sendo casada com Lúculo, um dos primeiros homens de Roma, de quem teve um filho, foi afinal por ele expulsa e repudiada por sua impudicicia; e, o que é ainda mais vergonhoso, sua própria mulher Atília não foi ela mesma imune de tal vício; pois se bem que tivesse tido dois filhos, foi obrigado a repudiá-la, tanto se portou mal; e depois desposou a filha de Filipe, chamada Márcia, a qual parece ter sido dama muito honesta. Pois esta parte da vida de Catão, tal como numa fábula ou comédia, é bem embaraçada para se compreender, mas a coisa se deu como escreve Traseas, que baseia suas afirmações sobre Munácio, amigo íntimo de Catão. Entre diversos que apreciavam e admiravam as virtudes de Catão, alguns havia que as demonstravam e descobriam mais do que os outros, como Quinto Hortêncio, personagem de grande autoridade e homem de bem, o qual desejando ser não somente amigo particular e familiar de Catão, mas também seu aliado de qualquer forma, como também unir sua casa à de Catão, procurou persuadi-lo a que lhe desse em casamento sua filha Pórcia, casada com Bíbulo (26) e com o qual já possuía dois filhos, para semear também como em terra fértil, a sua semente e ter uma ascendência enobrecida, pois embora isso parecesse estranho à primeira vista, quanto à opinião dos homens, quanto à natureza era honesto e útil à república que uma jovem mulher, bela e honesta, na flor da idade, não permanecesse em fertilidade ociosa, deixando apagar-se a sua natural aptidão de conceber, com o que também não prejudicaria seu marido, dando-lhe mais filhos do que deveria manter. Também ajuntou que, comunicando assim uns com os outros as mulheres idôneas para a geração, a pessoas de bem e homens que fossem dignos, a virtude viria a multiplicar-se ainda mais e espalhar-se em diversas famílias, e a cidade, conseqüentemente a misturar, unir e incorporar-se em si mesma pela aliança; mas, se por acaso Bíbulo amava tanto sua mulher que não quisesse deixá-la completamente, êle a entregaria incontinenti, depois que lhe tivesse dado um filho e que haveria um estreito laço de amizade, mediante esta comunicação de filhos, entre Bíbulo e êle. Catão fêz responder que estimava muito Hortênsio e acharia bem agradável sua aliança, mas estranhava que falasse de lhe entregar sua filha para procriar crianças, visto que sabia muito bem que ela estava casada com outro. Então Hortênsio, descobrindo seu propósito, não simulou descobrir-lhe sua afeição e pedir-lhe sua própria mulher, a qual era ainda muito jovem para ter filhos e Catão já os tinha suficientemente; não se sabe se Hortênsio fêz esta solicitação porque percebeu que Catão não fazia caso de Márcia, pois estava grávida dele na ocasião; mas tanto fêz, que vendo o grande desejo e a grande afeição de Hortênsio, êle não a recusou, mas respondeu-lhe que precisava que também Filipe, pai de Márcia, consentisse, o qual, compreendendo que Catão concordava, não quis no entanto conceder-lhe sua filha, sem que Catão pessoalmente estivesse presente no contrato e estipulando pessoalmente as condições com êle (27). Essas coisas foram feitas muito tempo depois; todavia porque caí sobre o assunto das mulheres de Catão, pareceu-me bem apressar esta história e colocá-la antes do tempo neste lugar.

(26) Marcus Culpurnius Bibulus, cônsul.junto com César, partidário de Pompeu, cuja morte se deu durante a guerra civil.
(27) Catão a retomou depois da morte de Hortênsio," no ano de Roma 705, como se verá no capítulo 68.

XXXVII. Tendo, portanto, Lêntulo e seus comparsas na conjuração de Catilina, sido condenados à morte e executados, César, para se cobrir das acusações e imputações que Catão lhe fêz no Senado, recorreu à salvaguarda do povo e colocou a seu lado todos aqueles que sabia terem má vontade e que não podiam senão revolver e estragar tudo, amotinando e incitando o povo. Catão receando que tal maneira de agir suscitasse algum tumulto, persuadiu o Senado a ganhar a plebe, que nada possuía, fazendo distribuir-lhe algum trigo para viver; o que foi feito e subiu esta despesa por ano a dois mil duzentos e cinqüenta talentos (28). Esta largueza abrandou manifestamente as ameaças de levantes. Mas, de outro lado, Metelo, tomando posse de seu cargo de tribuno, realizava assembléias e discursos sediciosos nos quais propunha ao povo um decreto, pelo qual Pompeu devia ser, no primeiro dia, chamado com seu exército de volta, a fim de que a república não caísse em risco com o perigo de Catilina. Isto não era senão uma desculpa com belas palavras, mas o alvo e intenção verdadeiras de que pendia esse edital, era pôr todos os negócios da república e as forças do império romano entre as mãos de Pompeu. O Senado reuniu-se para tratar disso e Catão, de início, não falou acerbamente nem com muita veemência contra Metelo, como estava habituado a fazer contra os que se conduziam mal como êle; mas o admoestou delicada e moderadamente, até suplicar-lhe, chegando afinal a elogiar enormemente a casa dos Metelos, que havia sempre seguido o partido do Senado e das pessoas de bem; mas isto elevou ainda mais em audácia e em glória Metelo, e fez com que começasse a ter Catão em desprezo, porque considerou que ele lhe cedia assim, pelo medo, de tal modo que se esqueceu, chegando até a dizer palavras presunçosas e usar de altivas ameaças, que faria o que havia empreendido com a boa ou má vontade do Senado. Então Catão mudou de fisionomia, de voz e de palavras e depois de lhe falar muito asperamente, afinal protestou duramente que enquanto tivesse vida no corpo, não suportaria que Pompeu entrasse com armas na cidade de Roma. Ouvindo isto, o Senado foi de opinião que nem um, nem outro, tinha bom senso, nem o juízo bem são, pois que o mau comportamento de Metelo se transformava em fúria, o qual procedendo com extrema malícia e malvadez, queria pôr todas as coisas de baixo para cima e, ao contrário, o que se dava com Catão era como que um êxtase e arroubo de virtude transportada, fora de si, querendo defender as coisas justas e razoáveis.

(2.8) Setecentos e cinqüenta mil escudos. Amyot.

XXXVIII. Quando chegou o dia no qual deviam fazer passar este decreto pelos sufrágios do povo, Metelo não faltou com sua gente em ordem na praça, parte de estrangeiros, parte de escravos e parte de (29) esgrimistas a mais não poder, todos em armas e assim uma boa parte da comuna desejava a volta de Pompeu, com a esperança de alguma mudança, aspiração essa grandemente favorecida e fortificada da parte de César, que então era pretor. E em oposição, do outro lado, as mentores pessoas da cidade enfureciam-se juntamente com Catão e diziam como êle que aquilo era uma grande perversidade, mas isto não o ajudava; nessa ocasião seus parentes e domésticos estavam com grande cuidado e grande abatimento, de sorte que aconteceu passarem a noite juntos, sem descansar e sem beber nem comer, devido ao perigo em que viam sua vida, e mesmo sua mulher e suas irmãs não faziam outra coisa senão chorar e preocupar-se, quando êle, ao contrário, falava com segurança e confortava todo o mundo; e depois de haver ceiado como de costume, foi-se deitar e dormiu um sono profundo até de manha, quando Munácio Termo, um de seus companheiros como tribuno, veio acordá-lo; foram juntos à praça para onde se dirigiram acompanhados por pouca gente mas encontraram diversos pelo caminho que vinham à frente para avisá-los a que se mantivessem com cuidado.

(29) Gladiadores. C.

XXXIX. Quando chegaram à entrada da praça, Catão percebeu imediatamente o templo de Castor e Pólux tendo à sua volta homens armados, e os degraus totalmente ocupados pelos esgrimistas, e Metelo, que se achava no ponto mais alto, sentado junto de César. Virou-se então para seus amigos e disse: — "Vede aquele covarde ali, que contra um só homem desnudo reuniu tanta gente armada". E dizendo isto, marchou direito daquele lado com Termo, separando-se os que estavam sobre os degraus para os deixarem passar, mas não consentiram que subisse mais nenhum outro, ocasião em que Catão muito trabalho teve para tirar Munácio de suas mãos. Tendo subido, foi direito sentar-se entre Metelo e César, para evitar que falassem ao ouvido um do outro. Aliás, não souberam o que dizer; mas as pessoas de bem que viram e observaram com admiração o rosto, a segurança e a coragem de Catão, aproximaram-se mais e, gritando, o exortaram a que não temesse nada, encorajando-se uns aos outros para se manterem firmes e unirem-se para a defesa da liberdade comum, opondo-se àquele que combatia contra ela; houve um sargento que, tomando na mão o edital por escrito, como para lê-lo ao povo, Catão proibiu-o de fazer isso, pelo que Metelo o tomou êle mesmo e começou a ler. Catão retirou-o à força de suas mãos; no entanto Metelo, sabendo o conteúdo de cor, tentou falar assim mesmo, porém, Termo pôs-lhe a mão diante da boca para evitar que falasse; Metelo, vendo esses dois homens obsti nados e dispostos a impedir, por todos os meios, que não fizesse passar seu edital e que o povo, descobrindo o véu, se colocava ao lado da razão, fòz sinal a sua gente, e alguns soldados armados que mantinha expressamente para esse fim em sua casa, acorreram com grandes gritos; desse modo o povo, de pavor, afastou-se, fugindo por todos os lados e luto ficou na praça senão Catão sozinho, no qual atiravam quantidade de pedras e paus; Murena, porém, aquele mesmo que ele havia acusado de haver comprado o consulado, não o abandonou neste perigo, e cobrindo-o com sua longa veste, gritava aos que jogavam as pedras, que deviam cessar; e mostrando-lhe o perigo ao qual se expunha, tanto fez, que tendo-o sempre ao seu lado, levou-o para dentro do templo de Castor e Pólux.

XL. Então, Metelo, vendo a tribuna vazia e seus adversários fugindo de todos os lados para fora da praça, julgou haver ganho tudo e ordenou nos seus soldados armados que se retirassem e êle, saindo habilmente, experimentou fazer passar e auto rizar seu edital; mas seus adversários, tendo cessado o pavor e voltado à praça, recomeçaram a gritar contra Metelo, mais forte e mais corajosamente do que antes, de sorte que se encontrou êle mesmo em grande perturbação e com grande medo e seus ade rentes também, julgando que seus adversários houvessem recuperado as armas em alguma parte, sendo isso que os fazia voltar assim tão valentes contra êle; de tal modo, não houve um que parasse, mas Voltaram-se todos para trás da tribuna. Assim, tendo os aliados de Metelo se afastado, Catão apresen tou-se sobre a tribuna elogiando grandemente o povo pela boa vontade que havia demonstrado, exortando-o a perseverar sempre para melhor, de ta forma que a plebe mesmo bandeou então, ficand contra Metelo; e o Senado, reunido, ordenou qu socorressem Catão mais do que nunca e que resistissem por todos os meios ao edital de Metelo, como sendo pernicioso por estar introduzindo sedição e guerra civil na cidade de Roma. Quanto a Metelo, obstinava-se ainda em continuar sua empreitada e não queria entregar-se; todavia, vendo afinal que seus aderentes admiravam-se espantosamente e temiam a constância de Catão, como coisa invencível e inexpugnável, correu um dia, subitamente, à praça, e reunindo o povo, alegou diversas razões julgando pôr a comuna em desavença com Catão e leu, entre outras coisas, que desejava sair da dominação tirânica de Catão e de sua conspiração contra Pompeu, e logo veriam a cidade se arrepender por ter assim recusado um tão grande personagem. Isto dito, partiu logo depois para ir à Ásia fazer suas queixas a Pompeu. Foi Catão grandemente estimado por este feito, por haver descarregado a república do pesado fardo do cargo de tribuno de um tal louco e por ter, como se diz, desfeito em Metelo, o poder de Pompeu; mas ainda foi elogiado e considerado com vantagem, quando impediu o Senado, que o queria a viva força, de marcar Metelo com a nota de infâmia, privando-o de seu cargo; pois opôs-se e solicitou que nada se fizesse nesse sentido. A comuna tomou como grande argumento de natureza branda, benigna e humana, o fato de não querer, como se diz, calcar sob os pés o inimigo, depois de o haver abatido, nem de o ultrajar depois de havê-lo vencido à força; mas os homens sábios julgaram com vantagem, que havia prudente e utilmente agido, não irritando Pompeu.

(30) Ver as Observações.

XLI. Aproximadamente nesse tempo, voltou Lúculo da guerra, da qual parecia que Pompeu lhe havia usurpado a glória de tê-la completamente terminado e esteve até bem perto de ser desviado das honras do triunfo, pela contradição que lhe fêz Caio Mêmio, acusando-o de vários casos diante do povo, mais em favor de Pompeu, do que por inimizade que lhe tivesse. Catão, porém, tanto porque era seu aliado, atendendo que havia desposado sua irmã Servília, como também porque o caso em si lhe parecia iníquo, fêz frente a esse Mêmio e impugnou as várias calúnias e imputações, até que, finalmente, sendo atirado (30) fora de seu cargo, como de uma dominação tirânica, ainda obrigou Mêmio por si mesmo a desistir das acusações e fugir da liça. Porque Lúculo, tendo obtido as honras da entrada triunfal, conviveu mais do que nunca com Catão, considerando ter nele uma grande praça forte e muralha segura contra o poder de Pompeu, o qual, voltando algum tempo depois, glorioso por suas conquistas e confiante que à sua chegada nada lhe seria recusado do que pedisse aos seus concidadãos, no seu regresso, requereu ao Senado a que, por amor dele, protelasse a eleição dos cônsules até estar em Roma, a fim de que, estando presente, pudesse favorecer a pretensão de Piso, que solicitava o consulado; ao que, como a maior parte do Senado se deixasse anuir, Catão, opondo-se, contradisse, não porque considerasse esse adiamento ser coisa de tão grande conseqüência, mas porque desejava cortar a Pompeu toda a esperança de esperar algo novo e extraordinário, e fêz de tal modo mudar de opinião o Senado, que na mesma hora foi negada tal solicitação.

XLII.Isto irritou bastante Pompeu, o qual, percebendo que teria Catão contrário em muitas coisas, se não encontrasse meios de ganhá-lo, mandou Munácio, que lhe era muito familiar, por intermédio do qual fêz solicitar a Catão duas sobrinhas que estavam prestes a casar, a mais idosa para êle e a mais jovem para seu filho primogênito. Outros dizem que não foram suas sobrinhas, mas suas próprias filhas. Munácio levou a mensagem a Catão, à sua mulher e às suas irmãs, as quais desejavam singularmente esta aliança pela grandeza e dignidade do personagem que a solicitava; porém, Catão, sem dilatar mais, nem consultar com calma, mas como que zangado, respondeu na hora: — "Volte Munácio, volte à presença de Pompeu e diga-lhe que Catão não é conquistável por meio das mulheres", acrescentando que embora tivesse por outro modo em consideração sua estima, pois quando quisesse fazer ou pretender coisas justas, encontraria nele amizade mais segura e mais certa do que nenhuma outra aliança de casamento; mas por enquanto não entregava jamais penhores para o apetite de Pompeu contra a república . . . As mulheres ficaram na hora bem descontentes com essa recusa e mesmo seus amigos censuraram a resposta, como soberba e inci vil; mas depois Pompeu, pretendendo fazer eleger cônsul um de seus amigos, enviou dinheiro às linhagens para comprar e corromper os votos do povo, sendo esta corrupção bastante notória, porque o dinheiro foi distribuído dentro mesmo dos jardins de Pompeu; Catão então demonstrou às mulheres de sua casa, que se fosse obrigado à aliança do casamento com Pompeu, teria sido constrangido a tomar parte todos os dias na infâmia de tais atos, o que tendo ouvido elas mesmas, confessaram então que havia mais sabiamente feito recusar tal amizade do que elas em desejar. Todavia, se se deve julgar pelo resultado dos acontecimentos, parece-me que Catão cometeu uma grande falta em recusar esta aliança, dando em resultado conjugar e unificar o poder de César e o de Pompeu, o que quase arruinou até as raízes todo o império romano, ou, pelo menos, mudou inteiramente toda a situação do governo da república; e nada disto aconteceria, se Catão, temendo as faltas leves de Pompeu, não tivesse sido causa de deixá-lo fazer com que se tornassem muito pesadas, aumentando o poder dos dois rivais; mas isto estava então para acontecer.

jul 102010
 
vaso-grego

A Grécia – Arte Grega Antiga

Pierre du Columbier – História da Arte

Tradução de Fernando de Pamplona .Fonte Livraria Tavares Martins, Porto, 1947.

Reserva feita da opinião dos que sustentam — será acaso um paradoxo? — que a arte grega nunca cessou de viver pois que inspira ainda hoje toda a Europa, esta arte teve uma existência bastante breve. Durou praticamente do vil século até cerca do ano 150 antes de Jesus Cristo, até à conquista romana. O seu domínio também foi relativamente limitado: Grécia propriamente dita. Asia Menor e Grande Grécia.

Mas a sua duração global dá uma ideia bastante imperfeita dos fenómenos ocorridos: importa ter em consideração épocas em que o movimento se acelera; menos de cem anos bastam para passar do Triplo ATereuáo Hecatompédon às esculturas de Parténon.

Ainda que haja sempre algum artifício em nos exprimirmos desta maneira (porque supomos implicitamente nos predecessores, um trabalho preparatório de que não têm consciência e nos sucessores uma noção de decadência que lhes é estranha), a arte grega, por consenso unânime, atingiu uma época de apogeu que se situa no século v e mais especialmente na sua segunda metade, em que se construiu e decorou o Parténon de Atenas. Aqui, tal linguagem justifica-se, porque a Grécia foi, antes de tudo, criadora de tipos em número restrito, e, para bem apreender esses tipos há que fixá-los no instante em que revelam o seu carácter mais completo e mais puro.

Como as dos Egípcios, as suas criações pertencem à arquitectura e à escultura, à falta da pintura, cujo reflexo só podemos surpreender vagamente nas superfícies dos vasos.

Templos gregos 

O templo grego é um edifício extraordinariamente simples. Esquematicamente, é constituído por uma caixa paralelipipédica {naos em grego; cella em latim) e por uma colunada (peristasis) que o rodeia. O edifício é recoberto por um telhado de duplo declive, que confina, à frente e atrás, com dois frontões. Existem, sem dúvida, variantes: sobretudo quando o templo é pequeno, a colunada pode desenvolver-se apenas numa das fachadas (templo prostilo); por vezes, situa-se entre as longas alas laterais, ou antes do naos (templo m antis). No entanto, encontramos aqui o essencial.

As dimensões deste templo são modestas. Na mesma escala que Nossa Senhora de Paris ou São Pedro de Roma, o Parténon é muito pequeno. Os Gregos não sofreram a atracção do colossal e os seus edifícios mais vastos encontram-se sobretudo nos confins, na Sicília ou na Asia por exemplo.

Estes edifícios brotaram pois dum jacto, em poucos anos, completos e fechados em si mesmos. As ampliações, os acrescentos são raros, e uma irregularidade de planta como a do Erechtéion justifica-se por condições excepcionais: forma do terreno ou necessidade de conservar algum antigo santuário.

A planta habitual, das mais elementares, não brilha sobretudo pela lógica, qualquer que seja a opinião dos nossos contemporâneos. Querer explicar a colunada pelas necessidades do culto não passa dum gracejo, porque esta colunada não faculta espaço suficiente para uma procissão. Colunada e naos são aliás construtivamente separadas e a ruína duma não acarreta a ruína da outra, como é fácil de verificar. O interior da naos é dividido em naves por colunas, muitas vezes sem grande necessidade e sem que, do exterior, isso se note.

O sistema de construção não obrigou a grandes estudos: é a arquitrave, trave de pedra horizontal, que se coloca ao cimo de colunas verticais. Em contrapartida, a técnica adoptada revela-se em extremo cuidadosa: uma talha perfeitíssima das pedras permite obter juntas extremamente lisas e delgadas.

Distingue estes edifícios um sentido requintado das proporções. Problema misterioso como nenhum outro. Esses pesquisadores apaixonados que foram os Gregos tiveram a preocupação de lhe dar expressão matemática — e o cálculo parece ter-lhes importado mais do que a construção gráfica. Todas as partes dos edifícios são geralmente comensuráveis em relação a uma comum medida, o módulo, que é muitas vezes o raio médio da coluna. Importa também não exagerar este rigor, como o fez Vitrúvio, cujos informes não oferecem garantias: há templos em que a teoria modular falha por completo; ela pode salvar-se em todo o caso, graças a um hábil arredondamento dos números. No sentimento de satisfação que nos dá o edifício, não se deverão ter também em conta as suas dimensões absolutas? Porque um templo, com o mesmo sistema de proporções, não se deixa ampliar arbitrariamente. Demais, o que nós consideramos absoluto é apenas relativo no que respeita às nossas próprias relações. No entanto, se se sustentar que o homem é a medida da arte grega, não se deve também tomar esta ideia num sentido estrito: os degraus que rodeiam o templo são muitas vezes demasiado elevados para que nós possamos subi-los sem custo.

A subtileza é aliás levada muito além da simples rebusca das proporções: certos requintes gregos são por assim dizer clássicos: o perfil das colunas, a sua inclinação para o interior, o aumento do diâmetro das que estão nos ângulos, a ligeira inflexão das linhas horizontais. Procurou-se explicar tudo isto pela necessidade de corrigir certas ilusões de óptica: esta teoria preguiçosa, encontrámo-la já em Vitrúvio. Mas, em fim de contas, a pretendida correcção ultrapassa largamente o que seria preciso, é mais aparente que real. Somos pois obrigados a tomá-la pelo que ela é, •pela manifestação duma vontade de artista que produz talvez essa impressão de «vida» que irradiam todos os monumentos gregos.

Estes templos são decorados muito sobriamente. Só admitem •escultura de figuras em pouquíssimos pontos: nos frontões e numa parte do entabelamento. Mas aquilo a que se poderia chamar o -relevo ornamental é objecto de cuidado extremo: nervuras e enquadramentos de perfis muito variados (molduras de cornija) modulam a luz. Os elementos de decoração propriamente ditos devem mais à geometria do que ao reino natural: a « grega » pertence à primeira categoria, as palmetas e as rosáceas à segunda, mas a transformação, a estilização são tão fortes que quase se -esquece o modelo vegetal.

Que a arquitectura grega fosse uma arquitectura pintada, eis o que admitimos muito dificilmente, acostumados como estamos a saborear a severa beleza da pedra nua. Não há, porém, outro remédio senão aceitar tal ideia. Sabemos ao menos que a pintura dos templos não era uma pintura imitativa: adoptava grande simplicidade de elementos e tons simples também, o vermelho, o azul, o ocre principalmente. Não esqueçamos ainda os metais e essa espécie de «suco» muito discreto, a que se chamava a ganosis e se aplicava em particular nas carnações.

Ordens

Os dois tipos essenciais da arquitectura grega e, por assim dizer, da arte grega inteira, que tudo neles se contém — são o tipo dórico e o tipo jónico. Tem seu quê de sedução ver neles a oposição de duas raças, que se podem, em bloco, localizar mais ou menos geograficamente: os Dórios, invasores vindos do Norte e espalhados sobretudo na Grécia propriamente dita e em particular no Peloponeso; e os Jónios, escorraçados por eles e instalados de preferência nas regiões marítimas da Asia# Em rigor, isto é bastante relativo: havia, por exemplo, muitos Dórios na Asia Menor. E não se deve exagerar uma antítese, em que se quis com demasiada insistência encontrar a chave da arte grega, entre o espírito jónio, amante do ornato, um tanto feminino, tocado de moleza asiática, e o espírito dório, mais rude, mais duro, mais seco. Haveria grande embaraço para encontrar a expressão pura dum e doutro. As contaminações são numerosas. Mas a distinção entre as duas tendências será sempre cara aos historiadores, pois lhes dá facilidades de exposição consideráveis.

Artisticamente falando, trata-se de duas ordens, isto é, de dois sistemas coerentes, em que as diferenças de elementos pesam talvez menos que o seu modo de associação. E, se se definem pela com binação coluna-entabelamento, é porque aí a diferença se torna particularmente acentuada.

A ordem dórica (fig. 7) é de carácter condensado. A coluna canelada, geralmente sem base, tem largura bastante considerável em relação à altura. O capitel alarga-se num equino, espécie de coxim intermédio, encimado por uma placa ou ábaco quadrado. O entabelamento consta duma arquitrave nua, dum friso composto duma alternância de superfícies quadradas e triglifos, e duma cornija. Os triglifos são, sem dúvida, uma reminiscência das antigas traves de madeira que se encontravam no aprumo das colunas. Elas têm divisões verticais tripartidas, abaixo das quais estão suspensos pequenos ornatos esféricos. Assim, de arquitectura de madeira, os gregos extraíram um motivo que transpuseram admiravelmente na pedra. Quanto às superfícies quadradas, dispostas isoladamente, é nelas que se concentra a escultura. O uso do enta-belamento dórico acarretou para os Gregos problemas delicados como era do seu gosto resolvê-los: o da superfície quadrada do ângulo e da sua sobreposição à coluna.

 

Mais ornado e sobretudo mais esbelto pelas proporções das suas colunas providas duma base bastante alta, a ordem jónica apresenta um capitel com volutas; estas, de princípio, desenvolvem-se em dois planos paralelos e, mais tarde, dispõem-se também segundo as diagonais dum quadrado. O entabelamento está longe de possuir a constância do dórico; nem sempre tem friso; mais frequentemente, e sobretudo na Asia, apresenta um friso contínuo.

Houve muito tempo o costume de distinguir ainda uma terceira ordem, a coríntia, mas ela não deve de forma alguma ser separada da jónica, de que não difere nitidamente nem pelas proporções nem pelo sistema geral. Para a caracterizar devidamente, não há senão o seu capitel riquissimamente ornado de folhas de acanto, as mais altas das quais se enrolam em volutas.

O capitel sofreu aliás, sobretudo nas épocas de decadência, • outras modificações mais ou menos felizes, de que só resultou uma sobrecarga ornamental.

FiG. 8

ordem Jónica (segundo Auguste Choisy)

Enfim, em alguns monumentos, as colunas foram substituídas por figuras femininas chamadas Cariátides, que apareciam já em tempos muito antigos em pequenos edifícios como o tesoiro de Sifnos, para atingir a sua mais bela expressão no Erectéion.

Se se tiver em conta a faculdade de imaginação num povo artista e curioso, tais variantes suscitam pouca estranheza. Esta resulta antes da preponderância dos tipos puros; demais ô trabalho das pesquisas, levado ao extremo, efectuou-se de preferência dentro de estreitos limites.

Arquitectura Clássica Grega Antiga

Para escrever a história da arquitectura grega, restam bem poucos monumentos. A evolução que fez derivar o templo do «megáron» micénico é conjectural, apesar da sua verosimilhança. O facto é que esse «megáron» parecia-se já muito com o templo in antis, mas, anteriormente ao século vi, não possuímos senão restos quase informes. Pode verificar-se todavia que, antes de 700, no Heraeon de Olímpia, cujas colunas de madeira foram pouco a pouco substituídas por colunas de pedra, o templo dórico achava-se mais ou menos constituído.

Não é na Grécia propriamente dita que se devem procurar os primeiros monumentos poupados pelo tempo, mas na sua colónia da Grande Grécia, onde se encontra um grupo homogéneo de templos dóricos, os mais antigos dos quais datam do século VII: — os de Selinonte e sobretudo os que se distinguem pelas letras C e D, maciços, de dimensões relativamente consideráveis, são os mais antigos. Demais, as construções continuam até pleno século v, sem grandes modificações, a não ser a maior altura dos edifícios, seja em Selinonte (templos A e B), em Segesto, em Agrigento na Sicília, seja em Paestum (templo de Poséidon), na costa italiana.

O que resta na Grécia encontra-se muito mais mal conservado: o templo de Apolo em Corinto, por exemplo. Mas. no lugar sagrado de Delfos, ergueram-se então pequenos edifícios ou« Tesouros», que são, em suma, reduções de templos. Citámos já o de Sifnos. com as suas Cariátides e os seus importantes frisos. O dos Atenienses foi piedosamente reconstituído. Propriamente em Atenas, o primeiro Hecatompédon (o que quer dizer: templo de cem pés) só subsiste pelas suas esculturas.

Para acompanhar a primeira evolução do estilo jónico na Ásia Mener, os nossos documentos são também tão raros como pobres e acontece justamente que o templo mais bem conservado é o de Assos, que pertence à ordem dórica, mas que contém, por excepção, um friso contínuo.

Desde o princípio do século V, a Grécia propriamente dita afirma a sua proeminência com os templos de Afaia em Egina (cerca de 490), de Zeus em Olímpia (cerca de 460), hoje arruinados, e de Apolo Epikómios em Figália, o que melhor se preservou da acção do tempo. E, muito pouco depois, Atenas, a Atenas de

Péricles (461-429), levanta na colina da Acrópole os edifícios que a tornaram para sempre ilustre: o templo dórico do Parténon (447-432), cujos arquitectos foram Calícatres e Ictinos; os Propileus (437-432), devidos a Mnésicles, que formavam a majestosa entrada dum conjunto ao mesmo tempo irregular e único no Mundo; o pequeno templo jónico da Vitória Aptera; e enfim o Erectéion (421-407), cuja demorada construção se explica por um incêndio.

Observou-se muitas vezes, que o Parténon, esse modelo do estilo dórico, figura aqui a título de monumento um pouco excepcional, pelo número das suas colunas (são oito na fachada), pela esbelteza delas, pelo friso contínuo que corre no exterior da naos. enquanto o friso da colunada conserva a alternância das superfícies quadradas e dos triglifos.

A preponderância ateniense é então indiscutível. Na própria cidade, levantam-se então ainda o Odéon, que desapareceu, e o Pseudo-Teséion, quase contemporâneo do Parténon, mas sem o fulgor de génio que ilumina este. Ao redor, encontram-se os templos que se podem dizer do grupo ático — o de Elêusis; o do Cabo Súnion, consagrado a Poséidon e cujas colunas enobrecem ainda hoje uma admirável paisagem.

Mas, no século iv, diminui o papel de Atenas, enfraquecida pelas guerras. O das cidades da Ásia Menor, mais poupadas, aumenta, e, com as conquistas de Alexandre, as influências orientais, ir-se-ão avolumando. Tornam-se fatigantes as formas rígidas do templo clássico e ensaia-se a forma redonda, que se encontra, por volta de 335, no Filipéion de Olímpia. Porque as obras mais felizes da época não são de forma alguma templos, mas sim edifícios com destino diferente: o teatro de Epidauro, o mais majestoso e mais bem conservado de todos, ou, ao invés, pequenos monumentos votivos, como o de Lisícrates em Atenas (334). As grandes empresas pertencem sobretudo à Ásia e nelas se nota uma grande desarmonia, do todo estranha aos Gregos da grande época. A massa gigântea do Mausoléu de Halicarnasso encheu de assombro os contemporâneos. Priena, Magnésia do Meandro, Trales cobriram-se de templos. Efeso, incendiada, viu levantar-se. depois de 356, o vasto Artemísion.

Escultura na Grécia Antiga

Poder-se-iam escrever duas histórias muito diferentes da escultura grega. Uma delas ocupar–se-ia dos testemunhos de escritores e de guias, dos informes biográficos, a outra far-se-ia em torno dos melhores monumentos que chegaram até nós. Elas encontrar-se-iam em pouquíssimos pontos, por exemplo no Parténon, e quando se trata de obras que decoraram alguns edifícios ilustres. A primeira, conhecemo-la quase exclusivamente por cópias romanas. E forçoso confessar que há nisso algo de insólito. Habitualmente, em arte, pedem-se às cópias informes sobre a época em que foram executadas e não sobre uma época anterior. Por isso a escultura grega conhecida através dos textos nos causa numerosas decepções. Ora a outra é quase estritamente anónima. E uma surpresa quando a identificamos e tal identificação nem sempre é feliz, como se viu relativamente ao Hermes de Praxíteles.

Os méritos essenciais das estátuas gregas residem incontestavelmente no seu movimento e no seu modelado. Mas importa explicar o que se entende por movimento. Trata-se tanto do movimento «actual» que não tem necessidade de ser definido como do movimento «potencial», isto é, duma espécie de movimento «no repouso», da qualidade dum corpo susceptível de se mover; trata-se, em suma, também desses desiquilíbrios subtis que respeitam ao tónus muscular. Certos estetas empregaram a palavra ritmo, que evoca especialmente uma analogia. Compreendemos, por exemplo, que o corpo nunca repousa igualmente sobre as duas pernas. Há uma delas que suporta mais peso e daí resultam, quanto à posição duma das ancas e quanto à tensão de todos os músculos, concordâncias que os Gregos souberam observar e exprimir.

No que respeita ao modelado, não se deve perder de vista que os Gregos não tiveram, como os Egípcios, a paixão das matérias duras; como pedra, eles trabalharam sobretudo o calcáreo mole e um mármore finíssimo, dócil ao ferro dos lavrantes. Para eles, a matéria privilegiada e de certa maneira aristocrática da escultura é, sobretudo, o bronze e, por consequência também, o barro ou a cera mole, sobre os quais se opera a fundição.

Embora as suas estátuas e os seus baixos-relevos tenham sido concebidos muitas vezes para edifícios, não se pode sustentar que a rebusca do efeito monumental tenha marcado predomínio. Conquanto a arquitectura lhes sirva de enquadramento, os Gregos não admitem que a escultura deva sacrificar-se-lhe: importa que ela se integre no conjunto sem constrangimento e sem ter de se deformar. Ou, pelo menos, a deformação, quando a ela recorrem, não deve perceber-se. Por isso triunfaram na arte difícil do baixo-relevo, em que o pouco afastamento do plano do fundo obriga a recorrer a efeitos de ilusão que não diferem extremamente dos da pintura.

A sua curiosidade tem por objecto exclusivamente o homem. Relativamente aos Egípcios, eles são animalistas medíocres ou negligentes, excepção feita para o cavalo, que completa o homem e cuja nobreza eles traduziram, Mas pensaram que o homem nu, mais tarde a mulher nua, constituíam um reservatório inesgotável de formas. Enriqueceram-no no entanto pelas roupagens, cuja união com 0 corpo é, nas suas obras, algo de absolutamente novo. Fizeram destas as companheiras submissas do movimento, que sublinham e por vezes completam. Para que o vínculo seja mais íntimo, imaginaram empregar tecidos muito leves e molhados, de tal sorte que os colassem às formas, desenhando pregas muito finas, o que representa uma convenção escultural muito mais rebuscada do que a dos Egípcios, para os quais o vestuário ora se cingia servilmente ao corpo, ora por completo se desligava dele. Quem queira verificar, num relance de olhos, os recursos que o escultor grego pode tirar das roupagens não tem senão que olhar uma das duas obras–primas: a Vitória a atar a sandália, com o feixe harmoniosamente inflectido das pregas que unem a perna assente no chão e a perna levantada, ou a Vitória de Samotrdcia e o glorioso frémito de voo do seu vestido flutuante.

Enfim, sem insistir demasiado no carácter impessoal da escultura grega, seríamos incompletos se a não mostrássemos mais ávida do geral que do particular, menos curiosa de exprimir os traços individuais dum homem ou de mulheres do que de criar um tipo de homem ou de mulher e, por consequência, tão atenta e talvez até mais atenta ao corpo do que ao rosto.

Seria tentador admitir que a relativa calma de que gozou a Ásia, protegida da invasão dórica, permitiu que a herança minóica se transmitisse aos Gregos. Mas nenhum documento permite formular tal hipótese e, demais, a cadeia dos monumentos mostra-nos um povo que parte do zero e que tudo «recomeça3».

A falta de conexão entre as artes plásticas e a arte literária não é assunto de pequenas surpresas. Por volta do século VII, quando Homero já maneja uma língua firme e plasma personagens, aplicando-lhes epítetos que os diferençam mal, os escultores esboçam o informe Apolo Tyszkiewicz. Há que esperar até ao século vi, para que a escultura saia do limbo.

Sem negar de forma alguma o carácter mágico indubitável das antigas estátuas, convém observar que a religião grega, que fez nascer as primeiras representações plásticas, não entravou nem por sombras, ao contrário de muitas outras, o seu desenvolvimento. O seu antropomorfismo é tão resoluto que não se poderiam, na Grécia, distinguir os homens dos deuses.

Outro factor favorável consiste na consideração em que em breve foram tidos os artistas. Modelar uma estátua não é trabalho de escravo, mas de homem livre.

Curos e Coré 

Será esta a razão por que o desejo de aperfeiçoamento de requinte anatómico se manifestou aqui mais rapidamente do que noutros pontos? As pesquisas da estatuária mostram certa independência, ou melhor, uma espécie de gratuidade. Não é de forma alguma evidente que o templo tenha precedido a estátua e que a segunda haja sido destinada a decorar o primeiro. Dois tipos evoluem simultaneamente, ao que parece, para o exclusivo prazer daqueles que os criam e daqueles que os olham: o Curos, mancebo nu, a Coré, jovem mulher vestida. Nenhuma rebusca de originalidade na atitude: o Curos tem os braços estendidos ao longo do corpo e estaria na posição de alerta se o avançar duma perna lhe não fizesse esboçar um movimento de que os Gregos hão-de tirar melhor partido do que os Egípcios, com as estátuas dos quais se aparentam certas obras helénicas primitivas. Porque o desequilíbrio criado pela desigualdade de função das duas pernas, a que suporta o peso do corpo (a que os Alemães chamam «Standbein») e a que se encontra aliviada desse peso (chamada «Spielbein» pelos mesmos) será a origem verdadeiramente decisiva das observações do artista. Graças a elas, este poderá quebrar a lei da frontalidade. Destes mancebos esbeltos, de largas espáduas, cujo contorno, quando os olhamos de frente, é feito de uma linha contínua que se alarga para o alto como uma ânfora, existem numerosíssimos exemplares em quase todos os museus. Classificam-se (conquanto se não devam de forma alguma desprezar os avanços e os atrasos de escolas) segundo a execução constantemente melhorada de certos pormenores anatómicos, como a rótula ou a virilha, ou o peito, que, primeiramente esquematizado pela gravura, se modela pouco a pouco, à medida que o jogo dos músculos se torna mais verdadeiro e que a simetria se aligeira. Os melhores destes Curos devem ter vindo das ilhas; nenhum aparece anteriormente ao começo do século vi e a respectiva série prossegue até ao romper do século v. O belo Moscóforo, de mármore do Himeto (Museu da Acrópole), que data do segundo quartel do século vi, pode considerar-se quase como sendo um deles. Os seus braços soberbamente musculados, musculados até em demasia, quase com ostentação, erguem-se simetricamente para segurar as patas dum bezerro destinado ao sacrifício. O rosto, desenhado com vigor impessoal, dá todavia forte impressão de vida, emoldurado pelos cabelos anelados e pela barba lisa. Muito mais expressiva, cheia duma espécie de alegria e até de jactância, é a Cabeça Rampin do Louvre, que recuperou toda a sua altivez desde que a repuseram no seu antigo lugar, sobre o torso dum cavaleiro.

Quanto às Cores, o que se sabia a respeito delas perdeu todo o interesse, desde o miraculoso achado de 1886, na Acrópole, que trouxe à luz um vasto grupo quase intacto. Vestidas em geral à antiga, com uma túnica Ou «chiton» e um chaile ou «himation», as mais velhas provêm, sem dúvida, das Cidades, as mais recentes da Ática. Quanto à feminilidade do seu corpo, que parece ter sido negada com alguma imprudência, o tecido forma pregas que se desprendem com alguma secura e cujo aspecto, em si, não é mal compreendido; no entanto, tra-a-se dum ornato, realçado ainda pelas cores que as estátuas conservaram, e não dum acompanhamento da atitude: a notação do movimento não foi levada tão longe como nos Curos.

O que nelas parece ter mais seduzido são os rostos. Estes conservam ainda muitas convenções do arcaísmo e, em primeiro lugar, o famoso sorriso, a que haviam chamado eginético antes de se conhecerem as experiências anteriores. Ele é comum aos homens e mulheres e, sem dúvida, constitui apenas uma primeira aparência da vida. Mas esta convenção de forma alguma torna as suas expressões uniformes. Há-as rústicas, frias ou tocadas de espiritualidade e uma das mais recentes, a que se chamou «a enfadada», tem já o perfil das estátuas áticas da grande época.

O progresso do Curos e da Coré faz lembrar um estudo de laboratório. A decoração dos edifícios, a elaboração do grupo monumental suscitaram problemas que foram resolvidos ao mesmo tempo. Já se disse que os escultores gregos nunca admitiram que o monumento os escravizasse. Ornar uma superfície, sim, mas não à custa da verdade que eles procuravam. As superfícies de forma longa — frisos ou padieiras — eram, afinal, relativamente fáceis de encher de desfiles repetidos, análogos aos desfiles orientais. O que se encontra a este respeito no templo de Prínias. em Creta (Museu de Cândia), onde se vêem um friso de cavaleiros e uma padieira ornada de animais, é em extremo grosseiro e monótono. O que nos deu a Ásia Menor, tanto no monumento das Harpias (Museu Britânico) como no templo de Assos (Museu do Louvre), não é superior, a despeito dum aborrecido desejo de correcção. Muito mais notáveis são as esculturas dos dois tesoiros encontrados em Delfos, embora de origem muitíssimo diferente. Um deles, o de Siciónia, decorado, sem dúvida, por volta de 550, revelou-nos algumas superfícies quadradas ou métopes, a melhor das quais mostra os Disscuros e as Idas com os bois da Messénia. Apesar do excesso de paralelismo, a franqueza agrada e o movimento de marcha é traduzido com felicidade. Muito lavrado, como um cofre de ourivesaria, o tesoiro dos Sifnianos é um dos monumentos mais bem conservados da Grécia. O seu friso testemunha o cuidado de variar a composição e também de narrar uma história. O grupo da Assembleia dos Deuses, a despeito da magreza de algumas figuras, deixa prever a obra-prima que será o friso do Parténon.

Em Selinonte, a segunda série das métopes tem ar caricatural ao pé desta arte requintada dos Jónios. Perseu e a Gorgona sua vítima, monstro hilare, estão um e outro colocados de frente, como diante do fotógrafo. Era tratar com muita audácia e quase com inconsciência dificuldades que o escultor seria incapaz de resolver. Não lhe falta contudo energia, até turgidez de estilo, e há que reconhecer-lhe o mérito de ter compreendido que, numa métope, a composição devia ordenar-se em relação a um centro.

O aspecto cómico é mais acentuado ainda nas estátuas de pedra macia com iluminuras do primeiro Hecatompédon (cerca de 570). O corpo tortuoso duma serpente sugere motivos fáceis para guarnecer os ângulos agudos dum frontão. Este monstro de três cabeças, sem nada de aterrador, constitui um bom espécime de arte popular.

Se tivéssemos podido conservar fragmentos mais importantes da Gigantomaquia que ornou, cinquenta anos depois, o segundo Hecatompédon, o progresso da escultura ática surgiria sem dúvida ante os nossos olhos de maneira mais satistatória, porque o Encelade abatido por Atena é já um belo nu, embora um pouco rígido, e a composição piramidal do grupo dá mostras duma ciência adiantada (Museu da Acrópole).

Por volta do princípio do século V, dá-se um grande passo. Tão importante como aquele que franqueia o intervalo entre esta época e a de Fídias. O primeiro dos dois dá-nos todavia a impressão de ter um carácter mais colectivo.

Período pré-clássico 

Surgem então magníficos conjuntos monu mentais, dois dos quais, relativamente bem conservados, testemunham a favor dos outros: o de Egina (cerca de 480) e o de Olímpia (cerca de 460). Os frontões de Egina encontram-se, na sua quase totalidade, na Glipoteca de Munique. A despeito de algumas diferenças entre os dois frontões — o de leste é um pouco mais recente — o mesmo espiritó os informa. Subsistem certas dúvidas acerca da designação dos temas, mas, no fundo, pouco importa que Atenas assista à luta entre Gregos e Troianos ou entre Laomédon e Heracles. E impressionante o contraste entre os rostos, que conservaram a impassibilidade arcaica ou o sorriso eginético, e os corpos secos, e nervosos, pouco modelados no pormenor, duma tão extraordinária precisão de movimentos. Certa magreza de perfis, certa pequenez resultam sem dúvida das próprias dimensões, inferiores às do homem. No estado actual das coisas e se se tiverem em conta restaurações muitas vezes arbitrárias, torna-se difícil apreciar a composição. Vê-se todavia o bastante para adquirir a certeza de que cada personagem é tratada por si própria e completamente separada das outras, mas o artista prima já em escolher na diversidade das atitudes (guerreiros que correm, se ajoelham para disparar o arco, tombam mortos) as que melhor guarnecem a superfície triangular.

O conjunto de Olímpia divide-se desigualmente entre o Museu desta cidade, que guarda os restos dos dois frontões e uma parte das métopes, e o Museu do Louvre, que possui a outra parte destas. Representam elas as façanhas de Heracles, enquanto os frontões tratam dos preparativos do concurso de carros entre Pelops e CEnomaos e o rapto pelos centauros das mulheres dos Lapitos. Tudo é movimento, e movimento que se prolonga na imaginação, em vez de se deter, de se imobilizar numa atitude, como sucede em Egina. Além disso, a arte do agrupamento é levada muito mais longe; até quando o artista passa a cultivar a estatuária, as personagens empenham-se em acções que as ligam entre si e cavalgam umas sobre as outras. Membros de musculatura quase túrgida, volumes simplificados talvez pór causa da cor que os recobria. Os peitorais dilatam-se, como se os heróis tivessem um excedente de força a dispender. E todavia o mais belo fragmento desta obra–prima é ainda o Apolo do frontão oeste, cujo braço ordena tão solenemente que parece ao mesmo tempo querer apaziguar.

Este primeiro período, ainda agreste, do classicismo grego é na verdade muito rico em trechos de qualidade excepcional. De entre os destroços de monumentos, são as métopes, com seus altos-relevos quase estatuários do Tesoiro dos Atenienses (Museu de Delfos), consagrado logo após a Maratona e sobretudo os baixos-relevos do Heraeon de Selinonte (Museu de Palermo), em que um resto de rigidez não exclui a singular felicidade da composição. Se nós não conhecemos senão por uma cópia, aliás bastante notável (Museu de Nápoles), o grupo de Harmodius e Aristo-giton, «Os Tiranoctones», erigido em 477, e se mal temos assim a concepção geral dum grupo em volta, do qual se pode girar, o certo é que conseguimos pelo menos descobrir alguns bronzes preciosíssimos — incontestáveis quanto ao seu valor de originais. Eles vão desde o Apolo de Piomòino, do Louvre, cujo gordo modelado tem certa vulgaridade e que data do princípio do século v, ao Auriga (Museu de Delfos), que é, pelo contrário, duma elegância seca (cerca de 475), ao prodigioso Zeus Tonante de Histieia, de majestade verdadeiramente olímpica, saído recentemente das profundezas marinhas, e ao encantador, talvez demasiado encantador, Idolino de Florença, que já não denuncia nenhum vestígio de arcaísmo. Quanto ao Homem que tira os espinhos, o «Spinario», já exerceu demasiada sedução por sua graça requebrada, a tal ponto que só o vemos através das imitações de gesso que se vendem por toda a parte.

Importa fazer menção particular de alguns baixos-relevos que prolongam o estilo das Cores da Acrópole, estilo a que se chamou jónico, um pouco tocado de moleza asiática, e que vai revestir a apurada elegância da Atiça. No Louvre encontra-se o fragmento a que se deu o título delicioso e erróneo de Exaltação da Flor. O relevo é pouco vincado. Um paralelismo exagerado das dobras, o carácter quase cortante do desenho, não destroem a poesia desta multidão de mãos que lembra uma oferenda. Certamente muito mais tardia (data-se em geral das proximidades de 460), a obra–prima chamada o Trono Ludovise (Museu das Termas em Roma), oferece-nos um tema misterioso e plenamente feminino. A arte de ilusão que é o baixo-relevo não poderá nunca ir mais longe, em particular na figura nua da tocadora de flauta, cujas pernas o escultor teve a audácia de cruzar, brincando assim com a dificuldade — e admirar-se-á também como as linhas da almofada em que se apoia a mulher acompanham o movimento do seu corpo. A despeito da precisão do desenho, as passagens duns planos aos outros fazem-se com extrema doçura.

Data-se hoje mais ou menos da mesma época a Vénus Esquilma (Palácio dos Conservadores, era Roma). Mas esta pequena Vénus das encruzilhadas, esta linda codorniz, decaída aliás por obra dos arqueólogos da sua qualidade de deusa, com o seu modelado gordo, não deverá porventura muito ao copista tardio que no-la conservou ?

Neste meado do século v, na época que precede imediatamente o apogeu, os dois artistas de maior nomeada chamam-se Miron e Policleto. Mas a homenagem que nós lhes prestamos é na verdade uma homenagem histórica, porque nenhum original da sua maneira artística logrou ganhar o nosso assentimento com inteira franqueza. Diferiam muito um do outro: Miron de Eleutero afirma-se sobretudo escultor de movimento. O seu Discóbulo, cuja popularidade é atestada por inumeráveis cópias, dir-se-ia uma façanha perante a qual somos forçados a inclinar-nos, mas sem grande entusiasmo. Policleto de Argos constitui o perfeito coroamento dos estudos dos Curoi. Grande rebuscador de proporções, de medidas, ele soube dar ao éfebo toda a vida que uma posição estável pode comportar. Infelizmente nenhuma das cópias do seu Diadumeno ou do seu Doríforo emana dum grande artista.

Fídias

Enfim, chegou Fídias e podemos confrontar os textos com obras. Uma só vez, é certo. Com este mestre, o trabalho de reconstituição das estátuas mais célebres graças à utilização das cópias esbarra com dificuldades ainda maiores do que com qualquer outro. Não poderemos nunca fazer reviver a Lémnia, nem a colossal Atena Promacos (combatente, nem o Zeus de Olímpia, mais apreciado pelos contemporâneos do que todas as outras obras. E, se tivéssemos de fazer um juízo através das imitações reduzidas que chegaram até nós, a própria Atena Pártenos, a famosa estátua de marfim e ouro, não suscitaria, de forma alguma, o nosso entusiasmo. Mas temos as esculturas do Parténon. Se este enorme conjunto, executado de 447 a 432 aproximadamente, não pode tomar-se como obra dum só e se apresenta demais certas desigualdades, é contudo bastante homogéneo para nos fazer admitir com certeza a direcção constante e atenta e provavelmente até — em muitos pontos — a intervenção manual dum génio único.

Esta decoração abrangia, nos dois frontões, grupos de estátuas: Nascimento de Atena e Luta entre Atena e Poseidon. O Museu Britânico guarda o que deles resta: corpos, com uma única excepção, decapitados, enquanto uma cabeça, a «cabeça Laborde», está no Louvre. Em volta da naos, sob a colunada, corria um friso contínuo, a Procissão das Panateneias, cuja maior parte se encontra também no Museu Britânico. Enquanto, no local, resta ainda um fragmento, outro fragmento veio parar a França. Quanto às métopes, no exterior, que mostram os combates dos Centauros e dos Lapitos, desapareceram em grande parte e o que delas resta encontra-se no próprio monumento ou nos museus.

A dificuldade que tinham tido os artistas arcaicos para se adaptar ao formato triangular do frontão é facilmente dominada pelo recém-vindo, como se este não tivesse sequer consciência de que tal dificuldade pudesse existir ou como se ela só contribuísse para sobre-excitar a sua faculdade criadora. Basta contemplar as três mulheres sentadas tradicionalmente e falsamente chamadas as três Parcas: possuem o movimento ascendente, no espaço como no tempo, se assim ousarmos exprimir-nos; passam da posição deitada à posição sentada, como se despertassem pouco a pouco. A desenvoltura da atitude iguala a amplidão dos corpos. As roupagens, ondulam como a vaga, em dobras apertadas mas ainda assim bastante amplas e, em caso nenhum, coladas ao corpo. O desenho da excepcional cabeça Laborde constitui esse definitivo triunfo: o nariz prolonga directamente a fronte, a distância entre o perfil e a orelha é considerável, o lado superior descreve um arco absolutamente puro, enquanto o inferior, largo sem ser gordo, fica ligeiramente contraído, as massas de cabelos agrupam-se com tanta força expressiva e com tanta simplicidade como as dobras dum panejamento.

O friso representa a juventude. Em todos estes mancebos que se preparam para se escarranchar nas suas montadas e cavalgam em grupos separados para chegar ao galope final em atitudes bem erectas, lê-se uma expressão de segurança e, a bem dizer, de conquista do Mundo. A teoria das donzelas que se chamam as Ergas-tinas (Museu do Louvre) permite-nos compreender melhor que Fídias tenha sido proclamado mestre do estilo severo. Há em toda a largueza do movimento justo um mínimo de rigidez para que nada fique desordenado, uma preocupação do paralelismo das dobras e do paralelismo dos membros, um gosto de repetição quase cadenciada.

Destes baixos-relevos do Parténon é costume aproximar alguns trechos escultóricos de qualidade aproximada e sensivelmente contemporâneos.

Talvez ligeiramente anterior (mas estas classificações cronológicas têm apenas um valor relativo e pode acontecer que um temperamento de artista baste para alterar por completo tais noções), o grupo de Demetér, Triptolemo e Coré, que provêm de Elêusis (Museu Nacional de Atenas) ; posterior pelo contrário, o grupo Hermes, Euridice e Orfeu (Museu de Nápoles), de composição já mais psicológica e dramática.

E no mesmo ramo, enfim, que se incluem certas obras encantadoras e de ambição modesta, em que se revela o signo duma época incomparável: as esteias funerárias, a mais ilustre das quais é a de Hegeso (no Museu da Cerâmica ), trecho que não tem o poder individualizado das grandes obras, mas vale pela pureza do estilo e pela justeza do sentimento.

A arte do Parténon frutificou maravilhosamente em Atenas, embora a supremacia política não tenha sobrevivido a Péricles. Filhas duma época sombria, as Cariátides do Erectéion, que devem ter sido esculpidas por volta de 415, nada ficaram a dever às melhores estátuas. Com a robustez necessária para assinalar a sua posição de suportes (de frente, inseri-las-íamos quase exactamente num rectângulo), elas permanecem no entanto vivas, graças ao belo desiquilíbrio provocado pelo avanço da perna exterior, cuja coxa e cujo joelho armam docemente o vestido.

Mais garridas mas menos majestosas, as Vitórias do Templo de Atena Niké. Talvez nelas os efeitos de sombra careçam de discreção, mas o movimento da que aperta a sandália é um achado de génio, pela ideia de partida que invencívelmente desperta.

Fora de Atenas, a escultura desta segunda parte do século v nem sempre se mantém num nível elevado. Todavia, as escavações de Olímpia revelaram uma admirável estátua e tanto mais preciosa quanto é uma das raríssimas estátuas gregas cujo autor nós tenhamos a certeza de conhecer: a Vitória esculpida cerca de 425 por Peónios de Mendé. A convenção da roupagem molhada é aqui adoptada francamente. O leve tecido cola-se a um corpo robusto, sem que um excessivo alongamento acentue por artifício as características do voo. Haverá quem a aproxime da Nióbide ferida do Museu das Termas em Roma. Em contra-partida, o importante conjunto proveniente de Bassae, no Peloponeso, e que se vê no Museu Britânico não deixa, até certo ponto, de desiludir: o friso, com o combate de Amazonas, apesar de todo o esforço do escultor para diversificar os grupos, é bastante monótono e a arte do baixo–relevo desce aqui a um nível vulgaríssimo.

Arte na Grécia no Século IV a. C

Para os antigos, três nomes dividem entre si a glória no século vi: Scopas, Praxíteles, Lisipo. Scopas foi talvez o introdutor do patético nos rostos e existe um tipo de rosto que se chama escopásico: lábio superior contraído, lábio inferior a ressaltar numa expressão de amuo. Estamos já talvez próximos de Scopas nas ruínas do templo de Tegeu e, com maior certeza, nos despojos mais importantes, recolhidos hoje no Museu Britânico, do Mausoléu de Halicarnasso, do qual Scopas foi um dos decoradores, na companhia de Timoteos, Briáxis, Leocares. O sátrapa cariano Mausolo tinha morrido em 353 e a sua mulher Artemisa em 351. Não chegaram pois a ver o acabamento dum dos maiores túmulos que existem. Mas a qualidade das esculturas deixa um tanto a desejar: no friso, movimentado em demasia, as figuras são tratadas com muita mesquinhez. Quanto às duas personagens principais, provavelmente Artemisa e Mausolo, pretende-se atribuir-lhes o mérito de bons retratos, mas, na verdade, são em extremo banais. Ninguém pense aliás em reconhecer nelas a mão de Scopas.

Quanto a Praxíteles, que foi certamente, a julgar pelo número enorme de cópias que das suas obras se executaram, o tipo do artista popular, graças à lindeza excessiva, à moleza das carnes, à maneira demasiado suave de acariciar o mármore, terá porventura sido excessivamente atraiçoado pelos seus imitadores? E caso para o perguntar, se admitirmos que o Hermes do Museu de Olímpia provém da sua mão, e há fortes probabilidades para que assim seja. O grácil Sauróctono ou o Sátiro constituem aflitivos assuntos de relógios de sala e Praxíteles, com a sua Afrodite de Cnide, parece ter engendrado a sequela inumerável das Vénus Púdicas, cujos exemplares pululam pelos mais modestos museus, que, sem eles, se julgariam deshonrados. Não sejamos todavia injustos: o mármore do Capitólio apresenta, sobretudo de costas, um modelado gordo e voluptuoso que não deixa de ter seus méritos e importa em especial apreciar o feliz achado duma atitude que tanto agradou e que tanto há-de agradar ainda.

O mais jovem dos três, Lisipo, que foi o retratista oficial de Alexandre, parece haver sido dotado de temperamento mais viril. Todavia, não o conhecemos também senão por cópias, cuja fidelidade se torna difícil verificar.

Ainda neste capítulo, algumas obras anónimas ultrapassam largamente em valor absoluto estes reflexos de arte, a que só o nosso desejo de reconstituir a personalidade de alguns mestres nos fez atribuir crédito: o Demetér de Cnide (Museu Britânico) conserva a entoação gravemente religiosa da grande época. Quanto à Vénus de Milo (Museu do Louvre), certa indecisão na roupagem que veste a estátua das ancas para baixo de forma alguma impede que o torso flexível sem maneirismo, duma largueza de processos fora do comum, seja uma obra-prima dum modelado carnudo, sem molezas gordurentas. Uma comparação com a Vénus de Aries, obra praxiteliana em parte estragada pelo restauro que dela fez Girardon no século xvii, não é muito lisonjeira para esta. E, se estátuas que suscitaram uma admiração sem limites, como o Apolo do Belvedere (Museu do Vaticano) ou a Vénus de Medíeis (Museu dos Ofícios, em Florença), perderam o dom de nos emocionar, nem por isso ficamos menos sensíveis às suas qualidades de elegância. Quanto às famosas Nióbides de Florença, cuja celebridade as expôs a restauros muitíssimo discretos, nunca foram mais do que pesadas cópias de originais que nós imaginamos muito confusamente. E não devemos julgar-nos obrigados a admirações que se explicam facilmente pela penúria de originais de que dispunham os nossos maiores.

Período Helenístico

A morte de Alexandre o Grande, em 323, é geralmente olhada como o princípio duma decadência irremediável. Se a arte grega, graças às conquistas deste príncipe, se espalha até muito mais longe do que sucedera até então, certo é que se contamina ao contacto dos gostos estrangeiros, que passa muitas vezes para mãos de artistas menos requintados e que, para lisonjear um público pouco instruído, se rebaixa na procura de efeitos mais fáceis de pitoresco. Demais, possuímos talvez demasiadas obras deste período, que muitas vezes se mostro a inferior à época clássica e a imitou até ao esgar arcaizante. Os coleccionadores fazem a sua aparição e assim os príncipes de Pérgamo, de 197 a 159, mandaram executar como envasamento de altar o prodigioso conjunto da Gigantomaquia, orgulho do Museu de Berlim. Impossível apreciá-lo em função da arte de Fídias. Por certo há demasiadas complicações e demasiadas sobrecargas nesta obra desmedida, concavidades do mármore que originam manchas negras excessivamente brutais, um abuso dos movimentos violentos, das musculaturas hipertrofiadas. Não pode no entanto negar-se que há nele um grande sopro épico, uma força ostentatória mas esmagadora. Sentimo-nos mais impressionados por ele do que por um trecho isolado, embora da mesma veia, como o Gladiador ou Gaiata ferido (Museu do Capitólio), cuja origem é análoga, mas cinquenta anos anterior.

Evidentemente estas tendências escabrosas poderão ir até ao extremo mau gosto na confusa acumulação de elementos do Toiro Farnese (Museu de Nápoles) ou levar ao pior academismo no ilustre Lacoonte (Museu do Vaticano), que deixa vaticinar Lessing. E todavia não faltam nos nossos museus autênticas obras-primas que datam desta época relativamente tardia. Citemos, no dealbar do século III, a Vitória de Samotrácia (Museu do Louvre), arrastada por um impulso imortal e que não é indigna da sua antepassada, a de Peónios. Poderemos esquecer a Vénus de Cirene (museu das Termas), que denota uma sensibilidade muito superior à de um copista ? Como não lembrar enfim o vigor excessivo mas lírico do Torso do Belvedere (Museu do Vaticano), de que Miguel Angelo tirou boa parte do seu génio?

Depois, há uma modalidade técnica do período helenístico merecedora de atenção superior à que geralmente se lhe atribui, a do pequeno baixo-relevo. De ressalto muito moderado, gracioso como um poema da Antologia, ele lembra, por sua graça ligeira, as deusas da balaustrada do Templo de Atena Niké. Em Roma, em Madrid, certas bacantes que ornavam pedestais têm um lado «artístico», demasiado artístico talvez, que no-las torna queridas.

Dentro desta inspiração um tanto limitada, nada iguala as estatuetas de terra-cota, modeladas, sobretudo nos séculosIV e V, em oficinas como a de Tanagra, na Beócia, que se tornou tão popular que a sua reputação acabou por absorver todas as outras. Sem dúvida, a preocupação de grandeza que todos os verdadeiros escultores alimentam nem sempre faltou a estes artífices modestos; inegavelmente, a arqueologia nota a justo título, com o maior cuidado, nas suas estatuetas, semelhanças de estilo com a escultura monumental e tenta encontrar nelas os reflexos das obras de categoria superior que desapareceram. Todavia, valem por si próprias e o que nelas mais impressiona é o aspecto duma vida familiar que, não sendo de modo nenhum dissimulada por preocupações plásticas, se exprime com toda a liberdade e não hesita diante de certos exageros atinentes a acentuar a gracilidade dum perfil, sem que jamais sejam ultrapassados os limites dum gosto incorruptível.

Com mais severo rigor, reencontramos este gosto nas moedas. Assim como aceitaram, sem parecer sentir-lhe a tirania, o condicionalismo do frontão, os Gregos sujeitaram-se com a mesma facilidade às condições estritas dos trabalhos monetários, que exigem grande simplicidade de composição, saliência muito pouco acentuada, desenho rigoroso e um modelado que desafie a usura. As mais belas moedas de Atenas e de Siracusa, no século V, nada têm a invejar às esculturas contemporâneas, na sua grandeza de concepção.

Vasos 

A cerâmica primeiramente — e isto não deve esquecer-se—uma produção utilitária cuja abundância salta aos olhos de quem visitar o mais pequeno museu. A despeito da fragilidade da matéria, chegou com efeito até nós, uma enorme quantidade destes vasos, cujos nomes — ânforas, crateras, lecitos, enocoés — distinguem formas muito pouco numerosas. Eles constituíam um artigo de exportação extremamente apreciado, tanto pelo conteúdo — azeite ou vinho — como pelo continente. Neste ponto ainda, os Gregos limitaram estreitamente e com felicidade o seu génio inventivo. Raras vezes e só bastante tarde empregaram a decoração em relevo e apenas na época helenística encontramos monstros como as ânforas de Canossa, em que cavalos empinados ou estatuetas inteiramente esculpidas irrompem da sua superfície. Por outro lado, a gama das cores sempre foi pobre: o vermelho e o preto, um e outro obtidos com sais de ferro, constituem as cores básicas, embora existam também, mas sempre um tanto excepcionalmente, fundos dum branco leitoso como os de certos vasos atenienses. Alguns realces a azul e a vermelho violáceo bastam para enriquecer estes tons fundamentais.

Depressa o ornato é subordinado às personagens — e as personagens sofrem em pequeníssimas porporções as deformações e as simetrias aparentes dos estilos asiáticos. Trata-se antes aqui dum equilíbrio de essência mais subtil. Em parte alguma melhor do que nestes vasos apreciamos o encanto narrativo, e sobretudo o desenho dos artífices. Pottier ousou comparar a sua paixão desinhística à dos Japoneses. Trata-se dum desenho cuja essência é primeiramente um contorno linear muito leve e contínuo, traçado dum só jacto. O mesmo arqueólogo mostrou que, originariamente, o operário se serviu por certo, como meio auxiliar, da sombra dos objectos. Todavia, não se deve exagerar a importância deste subterfúgio: o verdadeiro desenhador, o desenhador nato, nunca se contenta com ele e põe-no de parte logo que atinge destreza suficiente e conhecimento profundo do corpo humano. Além disso, desde o princípio do século vi, aparece frequentemente um desenho interior para a execução do qual a sombra dos objectos não seria de nenhuma utilidade. Quanto ao claro-escuro, encontra-se sob a forma de cruzamentos de linhas, bastante tardiamente. Em matéria de perspectiva, os seus aspectos mais simples são já muito antigos. Efectuar-se-ão sem dúvida progressos técnicos: ver-se-ão escorços e até verdadeiras perspectivas, mas os Gregos resistirão em geral ao desejo de manifestar a sua habilidade, e só por volta do século iv encontraremos formas confusas e labirínticas obtidas em detrimento do estilo.

Não passando embora, aos olhos dos antigos Gregos, de obra secundária, nem por isso os vasos deixarão de ser algo de marcadamente pessoal. Muitos-deles estão assinados; mas, a bem dizer, nem sempre é fácil distinguir o nome do oleiro e o do desenhador.

A história regista primeiramente antiquíssimos exemplares dum estilo geométrico a que se chama estilo Dipylon, nome do cemitério ateniense onde foram encontrados; neles figuram vários personagens, que se integram na geometria do conjunto. No século vil e no princípio do século vi, floresce grande número de oficinas na Jónia, em Rodes, em Itália (onde os artistas parecem ser sobretudo Jónios) e, em particular, em Corinto. Tudo isso mostra talento, desenvoltura e, por vezes, em alguns vasos de Caere, uma veia caricatural curiosa. Contudo, bastante depressa, desde meados do século VI, estas oficinas são eclipsadas pelas de Atenas, que, manterão no futuro uma espécie de monopólio. A sua produção divide-se em duas épocas, por virtude duma transformação ao mesmo tempo técnica e artística, que se produz por volta de 500. Antes desta data, as figuras sobressaem a preto do fundo, que é vermelho. Depois dela, são pelo contrário as figuras que se representam a vermelho sobre um fundo preto. Isto não provoca aliás de forma alguma o completo desaparecimento das figuras pretas e as ânforas panatenaicas, por exemplo, mantêm a antiga tradição.

Nos vasos de figuras vermelhas, distingue-se em geral um estilo severo, depois um estilo livre e, enfim, um estilo florido: Eufórios, Duris e Brigos são característicos do primeiro; Sotadés do segundo; Meidias do terceiro, por volta do fim do século v. Mas a cerâmica resiste muito melhor à decadência do que a escultura, embora a desordem vá invadindo pouco a pouco a decoração. No século iv, as Oficinas da grande Grécia, cuja produção é aliás de segunda ordem, procuram rivalizar com as de Atenas.

Que a pintura tenha desempenhado um papel considerável na antiga Grécia, não sofre sombra de dúvida: lá estão os textos para no-lo dizer, e nomes como os de Polignoto, Zêuxis, Parrásio não eram menos ilustres do que os de Fídias, Scopas e Lisipo. No século V conheciam-se já, além das decorações murais, numerosas pinturas de cavalete. De tais obras não resta estritamente nada. E por isso a arqueologia procura curiosamente nos vasos o reflexo desta pintura requintada. Lá o encontra, é certo, mas não acalentemos grandes ilusões. Pottier compara os elementos que se podem colher nos vasos aos que, para a pintura moderna, nos forneceriam os esmaltes. Ora precisamente que ideia fariamos nós dos grandes artistas da Renascença somente através dos esmaltes? Conheceríamos alguma coisa dos seus métodos de composição, mas tudo o que é essencial — qualidade do desenho ou da cor — nos escapava. Seria ainda mais arriscado procurar vestígios das obras-primas nos poucos trechos de pintura de época romana que se vêem no Vaticano ou em Pompeia, embora alguns deles possuam mérito bastante elevado. Seria como se pedíssemos informes sobre a pintura aos papeis de forrar paredes — e, para mais, feitos por estrangeiros. Um dos raros documentos que podem considerar-se sem dúvida autenticamente cópias de quadros célebres, o mosaico da batalha de Issus, do Museu de Nápoles, demonstra, pelo menos no que respeita à composição, à perspectiva, à arte do esboço, que a pintura de cavalete do século iv devia ser alguma coisa de extremamente complexo.

OBRAS CARACTERÍSTICA DA ARTE GREGA

ARQUITECTURA

Atenas (Parténon, Propileus, Erectéion, Templo da Vitória Aptera, Teséion, Olimpieion, Teatro de Dionísios, Odéon de Herodes Ático, Monumento Corágico de Lisícrates, Torre dos Ventos) / Egina (Templo de Afaia) / Elêusis (Grandes e pequenos Propileus, Telestérion) / Cabo Súnio (Templo de Poséidon) / Delfos (Templo de Atena Pronaia, Tolos, Fonte Castália, Tesoiros de Siciónia, de Sif-neenses dos Atenienses, Teatro, Estádio) / Olímpia (Heraéon, Fili-péion, Templo de Zeus) / Corinto (Templo de Apolo) / Figalia-Bas-sae (Templo de Apolo Epikómios) / Epidauro (Teatro) / De/os (Escavações).

ÁSIA MENOR — Pérgamo (Agora, Teatro) / Efeso (Teatro) / Priena (Teatro) / Aspendos (Teatro).

ITÁLIA DO SUL E SICÍLIA — Paestum (Templos de Poséidon e de Demetér, Basílica) / Segesto (Templo e Teatro) / Selinonfe (Templos) / Agrigento (Templos) / Taormina (Teatro) / Catênia (Teatro) / Siracusa (Teatro).

ESCULTURA

Atenas (Parténon ; Erectéion; Teséion ; Cerâmica; M. da Acrópole ; Moscóforo, Cores, Esculturas do 1.° e 2.° Hecatompédon, Atena com a Lança, Efebo Loiro, Esculturas do Parténon, Esculturas da balaustrada do templo da Vitória Áptera; M. Nacional: Curói de Súnio e de Orcomeno, Niké de Delos, Zeus de Histiea, Soldado de Maratona, Demetér, Coré e Triptolemo, Cabeças do Templo de Atena em Tegea, Esculturas do Hiéron de Asklépios em Epidauro, Témis de Ramnonte, Dançarinas do Teatro de Diónisos, Musas, Apolo e Mársias de Mantineia, Gaulês no Combate, Esteias Funerárias, Estatuetas de terra-cota) / Elêusis / Delfos (Cléobis, Auriga,

Esfinge dos Naxeenses, Esculturas dos Tesoiros de Siciónia, de Sifnos, dos Atenienses) / Olímpia (Frontões e Métopes do Templo de Zeus, Cabeça de Hera, Vitória de Peónios, Hermes de Pra-xíteles) / Corinto / Caleis (Teseu e Antíope) / D elos (Afrodite e Pan) / Cândia (Esculturas do Templo de Prínias) / Mileto (Estátuas dos Brânquidas) / Constantinopla (Dançarinas, Sarcófago de Alexandre).

Berlim (Deusa sentada de Locres, Amazona ferida c. r. (1), Altar de Pérgamo) / Munique (Apolo de Tenea, Frontões do Templo de Afaia em Egina) / Dresda / Londres (Túmulo das Harpias, Frontões, Friso e Métopes do Parténon (ver Paris e Atenas), Esculturas do Templo de Figália, Monumento das Nereidas de Xantos, Esculturas do Mausoléu de Halicarnasso, do Artmísion de Efeso) / Copenhague / Paris (Hera de Samos, Cabeça Rampin, Apolo de Piombino, Exaltação da Flor, Friso do Templo de Assos, Métopes do Templo de Zeus em Olímpia (ver Olímpia), Cabeça Laborde, Friso do Parténon (ver Londres e Atenas), Vitória de Samotrácia, Vénus de Milo) / Roma (M. das Termas: Trono Ludo-visi, Cabeça gigântea de Hera c., Donzela de Antium, Efebo de Subiaco, Nióbide, Vénus de Cirene c. r.; M. do Vaticano, que contêm sobretudo cópias romanas muito restauradas: Corredora olímpica; Torso, Apolo do Belvedere, Lacoonte; M. do Capitólio: Gaulês Moribundo, Vénus do Capitólio c. r.; M. dos Conservadores: Homem que tira o espinho, Vénus Esquilina c. r.; M. Barracco)/ Florença (M. Arqueológico: Idolino) / Nápoles (Orfeu e Euridice c, Toiro Farnese, Bronzes) / Palermo (Métopes dos Templos C e E de Selinonte).

Argel I Cherchel / Tunes.

Nova-Yorque (Apolo Tyszkiewicz) / Boston.

VASOS

Os vasos gregos são tão numerosos em todos os grandes museus que não há interesse em dar a este respeito indicações especiais. Mencionemos, em virtude da quantidade de certas peças, as colecções de Paris, de Florença, de Madrid, de Wurtzburgo, etc.

(1) cr.: cópia romana.

 
jun 082010
 
Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

AS OBRAS-PRIMAS DA ESCULTURA

Henry Thomas

O misterio da esfinge

"Ela é êle". Isso se diz frequentemente a alguém para confundi-lo a respeito de quem seja a esfinge e mesmo de onde seja. Gerações e gerações depois dos Faraós, os gregos usaram uma esfinge, com figura feminina, mas isso não é motivo para que o mundo não soubesse que, no Egito, a Suprema Esfinge é um homem. Não, não um homem, mas o homem, homem maravilhoso, homem todo-poderoso, Faraó, senhor do Alto e do Baixo Egito, filho do sol em cuja imagem foi infundido o espírito da antiga divindade, Harmakis.

Deveis aproximar-vos, portanto, da Esfinge, não com levianos gracejos, mas em silêncio. O camelo que vos conduz trota vagarosa e silentemente pelas areias de Gizeh. Sombria, ao longe, ergue-se a cidade do Cairo. O camelo levou-vos até a orla do plateau, do qual contemplais a face do mais maravilhoso mistério do mundo. Enquanto assim estais, olhando de frente a grande Esfinge, as pirâmides de Cheops e Chefren avistam-se do plateau. Que espetáculo de majestade e de mistério! Há 5.000 anos a imensa imagem da Esfinge foi esculpida na rocha. A princípio foi uma estátua completa, erguendo-se no espaço a uma altura de mais de 22 metros. Mas, pouco a pouco, o corpo da Esfinge se foi submergindo era Oceanos de areia, que tão completa e persistentemente têm os ventos de Gizeh lançado sobre o deserto, durante cinco mil anos. Somente algumas tentativas foram feitas para deter a areia. Em 1.400, antes de Cristo, quando o príncipe Tutmés foi caçar nas areias de Gizeh, adormeceu à sombra da Esfinge. A grande cabeça falou: "Tutmés, afasta as areias que quase me cobrem e fica sabendo que serás Faraó". E Tutmés obedeceu à ordem. Afastou as areias da Esfinge. Foi recompensado. Tornou-se Faraó. Em 1818, de nossa era, houve outra tentativa para retirar a areia dos "membros ocultos" da Esfinge. Mas, de novo, os anos que passaram carrearam montes e montes de sepultante areia, até que, afinal, em 1926, uma limpeza completa se fez. 

Contemplai agora a Esfinge em toda a sua glória, não toda, rigorosamente falando, porque perdeu um metro e oitenta e três centímetros de barba. Quebrou-se e está agora no Museu Britânico. O nariz, também foi mutilado. A despeito disso, a grande ansiosidade do rosto é aparente. O Faraó deve ter sido um homem de pensamentos tristes. Observando cuidadosamente os olhos, fundamente cavados, tereis a sugestão da côr da íris, no branco de cada olho. Há vestígios fragmentários de côr sãs bochechas. As grandes garras dianteiras quase atingem o templo do Faraó, onde foram encontrados muitos de seus retratos esculpidos. Um retrato esculpido de Faraó tinha de ser fiel, de modo que os poderes do alto pudessem reconhecê-lo e ao mesmo tempo aformoseado, de modo que seus súbditos terrestres o reverenciassem. Havia definidas leis de proporção a que os antigos egípcios se submetiam. Na maior parte das esculturas do antigo império existe grande equilíbrio de realismo, dignidade e interpretação ideal. As estátuas egípcias são uma estranha combinação do real e do fantástico. A Esfinge tem a cabeça de um homem e o corpo de um leão, símbolo do poder divino. Se olhardes cuidadosamente, percebe-reia a cauda do leão, enrolada de um lado.

Qual a côr da grande imagem? Parece mudar, de acordo com a côr das areias. À tarde, tem uma delicada côr rósea, cheia de eloquência silenciosa: o grande deus e rei fala para aqueles que bem escutam, fala de seu poderoso domínio sobre os homens, de sua lealdade, de seus deuses. Ao cair da noite, as feições da Esfinge sofrem grande transformação. O rosto e a cabeça tornam-se escuros e misteriosos, de encontro a um céu, de quieto azul acinzentado, iluminado profusamente pelas estrelas cintilantes. E’ então que somos mais profundamente empolgados pelo grande Enigma da Esfinge.

Estátua do rei arthur

Rainha Nefertiti – A mais bela mulher do mundo

QUEM era ela? Em 1913, uma expedição alemã no Egito, fazendo escavações em Tel-El-Amarna, não muito distante de Tebas, encontrou uma cabeça de nobre beleza. O pescoço é esbelto, a cabeça altamente mimosa e erguida com a altivez duma rainha. Os olhos, embora excessivamente acentuados a carvão, são expressivos e inteligentes. O formato da cabeça é admirável. A fronte é reta e vigorosa, encimada pelo alto toucado, firmemente ajustado, que sugere o ankh, em forma de cruz, símbolo da vida eterna. Seus lábios são cheios porém não demasiado grossos, e dum vermelho bem escuro. Sua pele é mais corada que a das mulheres das primitivas esculturas egípcias. Seu olho é maravilhoso e não pode ser igualado. O branco é de quartzo e o preto, de uma pedra semipreciosa. Um olho, direis? Sim, porque infelizmente o outro está danificado e não pode ser substituído. Mas, não obstante esse defeito, a cabeça é a mais régia que existe. O toucado alto, firme, dum verde atenuado, é contrabalançado por um colar de custosas jóias. Em tudo e por tudo, uma brilhante figura de altiva beleza egípcia.

O mundo inteiro reconheceu o mimoso exotismo e a aristocrática beleza de Nefertiti. Nos últimos anos, muitas reproduções excelentes de suas feições foram feitas no moseu de Berlim, onde a estátua está localizada. Sua cabeça tem inspirado a velhos e moços, a conservadores e extremistas, a positivos e imaginosos, a serenos e a inquietos! Toda a gente se sente fascinada pelas feições de Nefertiti.

Mas quem era Nefertiti? Trata-se, segundo tudo quanto foi possível recolher, de uma rainha que tinha uma tarefa extremamente difícil a executar, isto é, compreender e amar um marido, que era demasiado grande para ser amado e compreendido por seu povo. Esse homem, o rei Aquenaten, ou Aquenaton, tentou ensinar a seus súbditos o novo e nobre ideal de Um Só Deus. Mas os egípcios preferiam adorar seus velhos deuses-animais, deuses-aves, deuses-estrêlas. Não estavam ainda maduros para uma nova religião. Por isso rejeitaram os ensinamentos de seu bondoso rei-poeta. Obrigaram-no a abandonar seu palácio real de Tebas e ir morar em Tel-El-Amarna. A única pessoa que o compreendeu e seguiu foi sua formosa rainha, Nefertiti. Foi-lhe fiel a seu culto de Um Só Deus. Essa fidelidade está estampada em seu rosto. O escultor real, Tutmosis, que deu grande delicadeza à figura do rei, sobrepujou-se quando modelou a cabeça de Nefertiti, a mais bela mulher do mundo.

De Deusa Serpente a Deusa do Amor

MUITO antes do tempo de Sócrates, o litoral da Grécia e suas encantadoras ilhas eram povoados de hábeis artífices, talentosos inventores e verdadeiros amantes da beleza. Divindades naturais eram cultuadas. Entre essas divindades naturais contava-se a fascinante Deusa Serpente, conservada atualmente no Museu de Belas Artes de Boston. Não existe mais delicada ou mais primorosa mulherzinha em todo o reino da arte, nem mais admirável, do que a pequena Deusa Serpente, em ouro e marfim. Tem apenas uns quinze centímetros de altura. Faixas de ouro embelezam-lhe a leve e bem feita saia. Sua cintura é esbelta e seu rosto pequeno e atrevido. Em seu brilhante diadema vêem-se covinhas, que mostram os traços dos fios de ouro que outrora o costuraram para formar um belo objeto. Essa mulherzinha deve ter sido adorada em 1500, antes de Cristo. Foi, tanto literária como artisticamente, uma Idade de Ouro.

E depois, durante muitas centenas de anos, houve declínio. O sentido da beleza parecia ter desaparecido da Grécia. Mas não para sempre. No sétimo e no sexto séculos, os artistas gregos começaram a aprender tudo de novo. A escultura daquele período mostra uma rigidez empolgante. Sugere a expressão física do constrangimento espiritual que algumas almas sofrem. Os braços das estátuas não se afastam do corpo, como se receassem ser dele destacados. Os sorrisos nos rostos são forçados. Contudo, há em tudo isso uma solidez de concepção e um sentido de proporção, começo de grande escultura.

Em princípios do século quinto, percebe-se novo tom nas figuras do templo de Egina. Vê-se agora ação nos músculos das estátuas. Mas é uma ação tosca, como de boneca. As figuras não parecem estar vivas. Os escultores gregos estão ainda tacteando no escuro.

E subitamente, esplende sobre o mundo o brilho da escultura de Miron. Que figura poderia ser mais rítmica, mais verdadeiramente viva, mais ativa, mais "fisicamente adequada", do que O Discóbulo, de Miron?

Leva-nos então a obra de Miron ao ponto culminante da escultura grega? Não. Há ainda algo de mais elevado. Para lá do desejo da perfeição física, os artistas filósofos estão buscando exprimir a perfeição do espírito. Mas como pode o espiritual ser expresso em termos do físico? Poderia isso parecer de-fato uma tarefa impossível, se não tivéssemos provas do contrário. Essas provas estão nas incomparáveis figuras do Partenão. Cabe a Fídias a responsabilidade dessas figuras. Contemplai a longa procissão da frisa do Partenão, especialmente na parte oriental, com os magistrados, as divindades, o próprio Zeus, Hefaístos, Poseidon e Atenas, com uma admirável túnica flutuante. Nessa procissão, não há manifestação de presença física, mas uma completa expressão espiritual através de elementos físicos. Notai a beleza da composição, o ritmo, a interrelação dos planos e o gracioso, embora contido, movimento das figuras, que parecem quase respirar como criaturas vivas. Embora haja delicadeza, há também vigor naquelas figuras. E’ Fídias, e Fídias é o gênio do 5.° século antes de Cristo.

Ao passo que a escultura do século 5.° era espiritual, a do século 4." foi realista. No século 5.°, os artistas só esculpiam para os deuses. No 4.° século, começaram a modelar para os mortais. Decidiram fixar, não as glórias do céu, mas as alegrias da terra. A escultura se tornou mais apaixonada, como na obra de Scopas e ao mesmo tempo mais delicada, como nos trabalhos de Praxíteles c seus continuadores. Todas as figuras de Praxíteles encostam-se a uma árvore ou a outro qualquer suporte, como se a beleza de sua pessoa fosse tão pesada que só a pudessem aguentar com auxílio. Somente um original da obra de Praxíteles existe ainda hoje. E’ o esplêndido, delicado e sonhador Hermes, de feições perfeitas e atitude lânguida. Carrega um menino, que se supõe seja Diôniso, nome grego de Baco. A estátua foi descoberta em Olímpia, jacente com o rosto inclinado para baixo. Em Olímpia ainda o encontrareis hoje. Embora não exista outro original da mão do mestre, há delicadas cabeças e figuras de seus discípulos. O quarto século está bem representado nos museus de arte do mundo, modelar para os mortais. Decidiram fixar, não as glórias.

No terceiro e no segundo séculos, as escolas arte se desenvolveram com mais extravagância de expressão. Na bela ilha de Rodes, os escultores retrataram as paixões de deuses e de homens. Notável entre as obras dos artistas de Rodes é o vasto e impressionante altar erigido aos deuses. Na balaustrada do altar vemos os deuses em ação, e que ação, que violência, que força, que falta de contenção! De Rodes, também, emergem grupos de figuras humanas, com demasiada emoção. O espectador maravilha-se diante da possibilidade física de suportar aquilo tudo.

A nota dominante do terceiro e do segundo séculos não foi mais a tranquila majestade da era fidiana, mas a do movimento, da ação, da violência. Essa nota ressalta até mesmo na esplêndida Vitória Alada, de Samotrácia. Foi ereta depois da batalha contra os egípcios, em 306. Essa estátua é um estudo de ação violenta, mas é uma ação esplêndida. Todo visitador de galerias, por mais fatigado que esteja, ao alcançar a metade das escadarias do Louvre, em Paris, sente nova energia, nova vitalidade, novo entusiasmo, logo que avista a Vitória de Samotrácia. A cabeça perdida parece realmente não fazer falta. Ela voa, exulta, remonta alto no contagioso "êstase de viver".

Essa impetuosa exaltação encontra-se em quase todas as esculturas daquele período. Contudo há uma exceção, que evoca a serena paz da era fidiana. Sua calma e quase perfeita beleza tem sido admirada no mundo inteiro. Dificilmente se encontra uma criança de escola que não conheça a Vénus de Milo. Supõe-se que tenha sido esculpida no segundo século. Foi encontrada numa caverna da ilha de Milo em 1820. Serena dignidade, não só física como moral, emana da figura dessa Deusa do Amor. Se alugardes um guia no Louvre, êle vos levará antes de tudo à presença da Vénus de Milo, porque é a mais famosa estátua do mundo.

Michelângelo – O Shakespeare da escultura

NASCEU numa época de tremendo despertar, uma era de expressão individualista, de afirmativas pessoais, de crença nas artes, na vida do prazer e na importância do momento. A grande família de banqueiros, os Medici, havia posto aos ombros as alegrias e as responsabilidades do governo de Florença. A corte de Florença era perdulária e alegre. O interesse dos cidadãos se dividia entre uma vida de cultura e uma vida de frivolidade. Usavam-se trajes de custosas sedas, veludos e brocados. Os ourives da cidade viviam ocupados com encomendas de colares, tiaras, braceletes, e anéis para as belezas femininas.

Foi uma era de grande esplendor. Contudo foi também um tempo de grandes paixões. A riqueza dos Medici despertou a inveja de seus menos afortunados concidadãos. Um dia, Lourenço, o Magnífico, Medici senhor de Florença, foi mortalmente ferido, e seu irmão Juliano, figura proeminente da sociedade, amante da bela música e amado pelas belas mulheres, apunhalado mortalmente.

Nesse período de ousadas aventuras e moral fácil, (1475), nasceu Miguel Ângelo Buonarotti, em Caprera, perto de Florença, onde seu pai ocupava uma posição política. Se estudardes o rosto de Miguel Ângelo descobrireis energia, sinceridade e tristeza nele escritos. A energia de, propósitos foi evidente desde o começo. Seu pai, orgulhoso do nobre nome de Buonarotti, desejava que seu filho fosse tudo menos artista. Todavia Miguel Ângelo era um rapaz persistente. E por isso seu pai decidiu que, se o rapaz tinha de ser artista, pelo menos lhe daria os melhores professores. Mas abanou a cabeça tristemente. Uma vida dedicada à arte, advertiu êle a seu filho, era uma vida de pobreza. Seu pai não tinha, porém, razão. Foi Miguel Ângelo, e não seu irmão menos artista, quem pôde sustentar, na velhice, o velho Buonarotti.

Aos catorze anos, Miguel Ângelo se tornou aprendiz do melhor desenhista de Florença, Ghirlandaio. Esse famoso artista era um realista da nova escola. Estava constantemente a fazer retratos de senhoras da sociedade, embora continuassie ainda a tradição conservadora de não chamá-los retratos, mas pinturas bíblicas. E’ estranho pensar que pintor tão mundano tivesse como aluno um jovem com interesses e ideais nada consentâneos com a mundanidade.

Desde o começo, s’eu mestre Ghirlandaio reconheceu o gênio do jovem Miguel Ângelo. Lourenço, o Magnífico, havia convidado Ghirlandaio a enviar alguns discípulos mais bem dotados, ao Palácio dos Medici, afim de fazerem algumas esculturas para êle. Miguel Ângelo foi escolhido entre outros.

Certa vez, quando Miguel Ângelo estava esculpindo a cabeça de um velho fauno, nos jardins dos Medici, aconteceu que Lourenço, o Magnífico, por ali passou. Olhando para o fauno, observou a Miguel Ângelo, com cordial jovialidade: "Vejo que deixou seu velho fauno com todos os dentes. Será que êle não perdeu nenhum?" Vereis depois o rapaz, com sincera atividade, talhando a cabeça de mármore, afim de brocar os buracos para os dentes. Lourenço, o Magnifico, ficou encantado. Pediu a Buonarotti que deixasse o rapaz ir para o seu palácio, trabalhar lá, comer à sua mesa, e conhecer os dignatarios literários, artistas e musicais da corte.

Miguel Ângelo permaneceu na corte dos Mediei de 1489 a 1492. Foram os anos mais felizes de sua vida. Depois ocorreu a morte de Lourenço, em 1492, e se seguiu um período de árduo labor para o jovem escultor. Em 1500, executou êle sua primeira escultura notável, em mármore de Carrara, de que gostava tanto: a Piedade. Podereis vê-la hoje, na primeira capela, à direita, ao entrardes na igreja de S. Pedro. E’ uma delicada obra, feita por um sisudo rapaz de vinte e cinco anos, um jovem dotado de visão. Um dia, um crítico assinalou faltas na Piedade, na sua presença. "A Madona parece demasiado jovem", disse êle. Imediatamente Miguel Ângelo observou: "As mulhere bondosas não envelhecem".

Miguel Ângelo tinha o instinto de verdadeiro artista. E artista mais verdadeiro jamais existiu. Transformava os fracassos dos outros em seus próprios êxitos. Um bloco de mármore de 4,11 m. fora abandonado como inútil e disforme, nos terrenos da catedral de Florença. Um escultor o havia estragado. Não poderia Miguel Ângelo fazer alguma cousa com êle? Podia. Esse pedaço de mármore inútil foi a base do famoso Davi: Forte e potente, permaneceu durante anos em frente ao palácio. Agora está na Academia e uma cópia se vê, de guarda ao palácio.

Miguiel Ângelo não foi somente um artista supremo, mas um homem piedoso. A poesia e a piedade intensificaram a vida solitária do nosso Pensador em Pedra. Suas grandes esculturas têm sido, de fato, chamadas "poemas religiosos em pedra". Um desses sublimes poemas religiosos está esculpido no túmulo dos Medici. A Noite e o Dia vêem-se ali representados, como sentinelas de Juliano Medici. O Dia, com a máscula figura neclinada, não está acabado. A grande figura feminina da Noite inclina a cabeça. Seus membros são grandes. Seu vigor não é feminino, é assexuado. Reclina-se, como um espírito imortal, mergulhado em profundo pesar. Tão empolgante é essa figura que um dos amigos de Miguel Ângelo escreveu: "Desperta, Noite, um Anjo é que te fez". Imediatamente a Noite responde: "Enquanto a vergonha e a miséria estiverem na terra, fala baixo, por favor, ie deixa-me dormir".

Aos setenta e dois anos, Miguel Ângelo foi convidado para completar a obra da nova catedral de S. Pedro. Alegremente aceitou, mas recusou-se a receber uma simples moeda pelo seu trabalho amorosamente feito. O estupendo zimbório, com seu arcaboiço interno e externo, é uma das maiores criações de Miguel Ângelo.

Em seguida, justamente antes de sua morte, criou sua última Piedade. Aqui não se encontram as suaves curvas de sua primeira Piedade, o exultante trabalho dum jovem artista esperançoso, mas os rigidos ângulos que exprimiem a tragédia, desiludido trabalho de um triste velho. As Marias sentam-se, em completa consternação, aos pés do Senhor morto. Seu corpo é suportado por José de Arimatéia. Mas reparai bem. Não é José de Arimatéia, mas o próprio Miguel x\ngelo, quem está oferecendo apoio ao Cristo.

Foi este o derradeiro trabalho do supremo escultor do mundo, Miguel Ângelo Buonarotti. Quando terminou a Piedade, estava com noventa anos.

Impressionismo e modernismo na escultura

AUGUSTO RODIN, nascido em 1840, foi talvez o primeiro dos modernos que tentou ser universal, mais do que realista. Seu gênio era estranho. Sua escultura emerge dum rude bloco. Ergue-se dentre um oceano de ondas de mármore. Suas figuras parecem ser esmagadas em sua luta para se levantar à superfície e libertarem-se das massas de pedra que as aprisionam. Há agonia naquelas figuras, e há também apaixonado anseio de vivfer e de amar.

Esta é, porém, uma fase apenas de seu gênio. Aos que objetam contra o sentimento de O Beijo ou do Ídolo Eterno, podemos muito bem dizer: "Já viste A Mão, aquela grande Mão de Deus no Seu divino ato de criar o homem e a mulher? Do nada criou os Êle, de uma imensa e informe massa de argila fez Êle Suas amadas criaturas humanas, perfeito assunto para o gênio imaginativo e místico de Rodin".

A mais conhecida, e talvez a mais perfeita, das esculturas místicas de Rodin, é a grande estátua de bronzie, O Pensador. Embora seja chamada O Pensador, sugere não apenas pensamento, mas a própria vida: desejo, ambição, poder, virilidade, dúvida e, até certo ponto, esperança. O poder da vida embaraçada pela dúvida, e a própria dúvida cedendo a uma rude aspiração — tudo isso produz um estado de anseio, mistério e perplexidade.

Na forma e no tratamento, essa obra-prima de Rodin lembra um tanto o trabalho do ainda vivo e ativo Jacó Epstein. Nenhum homem nas artes é talvez mais vasta-mente incompreendido do que esse escultor individualista, americano nato, que estabeleceu seu lar na Inglaterra. Os críticos de arte dizem que a arte não deve ser explicada. Mão deveria, mesmo, necessitar explicação. Quando o público se tornar mais liberal e compreensivo, não haverá necessidade de explicação para a obra de Epstein. Atualmente, porém, o livro de conversações entre Haskell e Epstein é esclarecedor. Esse trabalho é totalmente sincero. "Toda boa obra de arte, explica Epstein, deve produzir no espectador um choque emocional". Acha que deve deixar o bronze retratar a aspereza das massas rudimentares de argila, sem atenuar os traços. Suas figuras religiosas aterrorizaram a muita gente, mas o terror pode ser incitante.

Essa idéia de forçar a atenção pelo terror, ou pelos contornos propositadamente exagerados, é levada a maior extensão, na obra de Gastão Lachaise. Suas interpretações da figura feminina são tão ásperas e tão maciças, que despertam nosso espanto e nossa derrisão. Encontramos eido escultor francês, Pompon. Seu Urso Polar em tamanho natural é "manso", quer no sentido habitual quer no da gíria. Alguns desses modernos escultores retornam aos a mesma espécie de exagero nas figuras animais do fale-egípcios primitivos, com suas cruas idéias de imensidão e de mistério para sua inspiração.

Em alguns dos modernistas, pareae que descemos do sublime ao ridículo. São as "Gertrudes Steins" da arte mundial. Notável entre todas é a obra de Brancuse, coleção de sólidos geométricos ou simples aparelhos de metal. Não tomeis demasiado a sério essa espécie de trabalho. Ride, porque o próprio escultor ri convosco.

O Aleijadinho

(O. M.)

A ESCULTURA no Brasil, ao tempo em que era colônia portuguesa, se limitou ao trabalho dos santeiros, dos entalhadores e dos fazedores de altares e de púlpitos. Avulta entre todos, porém, uma figura estranha e genial, a do mestiço Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, cujas obras realizadas em cidades diversas de Minas Gerais, especialmente em Ouro Preto, Mariana, S. João dei Rei e Congonhas do Campo, são ainda hoje motivo de admiração e de prazer artístico.

Como a realçar a grandeza desse talento instintivo e liberto de restrições acadêmicas de escolas e sistemas, avulta a tragédia de sua vida. De boa saúde até os 47 anos, Antônio Francisco Lisboa passa a sofrer uma doença de caráter lepróide, que lhe vai corroendo o corpo, mutilan-do-lhe as mãos e os pés. E tempo chegou em que somente restavam os polegares ao artista. Arrastava-se pelo chão, pois os pés eram uma chaga. Fiel ie dedicado escravo seu atava-lhe aos punhos o macete ou o cinzel, e o Aleijadinho ia desbastando a pedra, criando as suas figuras de santos e de profetas, pondo em relevo nas portadas das igrejas, nos retábulos dos altares, nas frentes e sobrecéus dos púlpitos flores, volutas, caras de anjos, ondas revoltas, símbolos litúrgicos, etc, etc,

Durou o suplício do grande artista trinta e sete anos. Mas a-pesar-da doença, sua atividade criadora não esmoreceu. O escravo Maurício transportava ao lugar de trabalho aquiela massa de carne sofredora. E o artista deformado, o monstro mutilado ia tirando da pedra as figuras de santos e de anjos, ia criando beleza imorredoura, fazendo perdurar o seu espírito criador nas obras de arte realizadas, enquanto o corpo se lhe desfazia em sânie. Poucos artistas terão na história um destino tão trágico e tão cruel. Sua escultura não terá a perfeição da obra dos grandes mestnes, mas são duma força, duma vida, dum realismo, que maravilham a quantos a contemplam. Não teve mestres conspícuos, não cursou academias de arte, não conheceu de teorias estéticas e de questões de estilo, mas lia a Bíblia, contemplava a natureza, observava os homens e fazia brotar da madeira ou da pedra as figuras impressionantes dos seus santos, dos seus profetas, dos seus mártires, das suas madonas.

Trabalhou enquanto lhe restou um pouco de força. E morreu aos 84 anos, na miséria, êle que enriquecera com as maravilhas de seu talento os templos de sua terra.

Alguns escultores brasileiros

(O. M.)

NA missão artística que D. João VI mandara vir de " França para o Brasil se incorporara o escultor Augusto Taunay. Dos seus ensinamentos, na Escola de Belas Artes, iria surgir todo o grupo de artistas do mármore que enche a história de nossas artes plásticas. Infelizmente, por falta de estímulo do meio ambiente, poucos são os escultores que figuram com relevo nos anais de nossas artes.

Destaca-se, de pronto, a figura dum grande artista. Rodolfo Bernardelli. Beneditino da arte, a ela se dedicou totalmente, não tendo querido mesmo que os encargos de um lar pudessem desviar-lhe a atenção do seu trabalho e da realização da obra que idealizara. Sua obra-prima talvez seja o grupo iem mármore denominado Cristo e a adúltera em que o artista fixou um dos mais emocionantes e dos mais belos momentos da vida pública do Cristo, ao verberar a hipocrisia dos fariseus que desejavam apedrejar uma adúltera, quando suas almas eram mais negras e mais pecaminosas do que a mísera pecadora.

A cidade do Rio de Janeiro conta nas suas principais praças admiráveis estátuas, que sagram a memória dos grandes homens da história do Brasil, devidas ao talento de Rodolfo Bernardelli: Osório, Caxias, Alencar, Pedro Alvares Cabral, Mauá, Teixeira de Freitas, Francisco de Castro e Cristiano Ottoni.

Outro grande nome da escultura é o de Correia Lima, autor do monumento ao Almirante Barroso, ereto no Flamengo, no Rio de Janeiro. Pela sua imponência, pelo número copioso de figuras que nele se encontram, avulta, na Praça Paris, o monumento ao marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da República Brasileira. Foi seu autor Modestino Kanto.

Entre os chamados modernistas destaca-se, pela estranheza e pelo revolucionarismo de sua arte, a figura discutida e interessante de Brecheret.

 


Fonte: Maravilhas do Conhecimento Humano, 1949. Trad. e Adap.de Oscar Mendes.

mai 222010
 
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A LITERATURA DA GRÉCIA E DE ROMA

Henry Thomas

Por que eram cegos os poetas gregos?

QUASE todos os mais antigos dos poetas gregos eram cegos. o primeiro déles, Tamiris, segundo dizem, vangloriou-se de ser melhor cantor que as Musas, filhas de Zeus. As Musas zangaram-se com esse alarde, "e na sua cólera, tornaram-no cego".

O poeta seguinte, Demódoco, também foi cegado, como nos narra Homero, "pelas Musas. Tiraram-lhe a luz dos olhos, mas concederam-lhe o dom do doce cantar."

Da mesma maneira, Dafnis, Teiresias, Estesícoro, e até o próprio Homero, ficaram cegos antes que lhes fosse permitido cantar.

Isto é mais do que uma coincidência. Havia um motivo definido, embora cruel, para privar da vista aqueles poetas. Não eram as Musas que os cegavam, mas os reis gregos. Esses reis tinham ciúmes de seus poetas, ou antes, de seus reais rivais de outros países. Faziam questão fechada de conservar os poetas para si, justamente como os magnatas do cinema de hoje, que tudo empreendem para conservar só para si suas "estrelas" da tela. Os atuais magnatas do cinema realizam seu intento, prendendo suas "estrelas" por meio de contratos. Este método tão simples não ocorreu aos antigos reis da Grécia. Prendiam seus poetas, arrancando-lhes os olhos.

O rapto de Helena de Tróia

HELENA tem sido considerada "a mais fascinante mulher de toda a literatura". Dela eram os olhos que lançavam ao mar milhares de navios. Sua fuga deu causa à guerra que os antigos achavam ter sido a mais terrível do mundo. Homero, fazendo do nome dela um trocadilho — êle era doido por trocadilhos — a ela se refere como "a funesta Helena, Inferno de homens, Inferno de cidades, Inferno de navios." (*)

Ela era tão encantadora quanto perversa. Quando Paris, o soberano de Tróia, foi hospedado pelo rei Mene-lau, marido de Helena, sentiu-se cativo de sua beleza. Deixou o palácio cedo, de madrugada, quando o sol "estendia suas vestes açafroadas sobre a terra," Helena seguiu com êle.

Esse rapto de Helena foi o começo duma série de sofrimentos para gregos e troianos. Causou uma guerra de dez anos; causou a morte de milhares de homens e a dissolução de dezenas de milhares de lares. Causou, finalmente, a destruição de Tróia e a morte de Agamenão, por ocasião do regresso a seu palácio. E contudo, tão poderoso era seu encanto, que nem um grego sequer, ou um troiano, jamais censurou sua maneira de agir. Era uma dessas raras mulheres a quem tudo se perdoa. Mesmo os anciãos de Tróia, que já não estavam em idade de se deixar impressionar e perturbar à vista de uma bela mulher, não lhe conservavam ressentimento pelos transtornos que lhes acarretara. Na verdade, só sentiam admiração por ela. Um dia, ao verem-na atravessando sua sitiada e devastada cidade, cofiaram as vetustas barbas e observaram um para o outro: "Por Zeus, ela é digna desse preço!"

E nós, também, podemos dizer, com aqueles velhos sábios de Tróia, que ela era certamente digna do preço. Porque sua beleza e sua fuga de Argos deram origem a dois dos mais perfeitos de todos os poemas épicos, a Ilíada e a Odisséia, de Homero.

Conta-se interessante e estranha história a respeito do colar de pérolas de Helena, que lhe fora dado pela deusa Venus, fisse rolar se perdeu na ilha de Delfos. Muitos anos mais tarde foi achado c dado a unia formosa moça grega. Ao botar no pescoço o colar, apaixonou-se por um rapaz e fugiu com êle. E até hoje, assegura-nos a lenda grega, existe esse colar, em alguma parte. E quem quer que o use tem a sorte de abandonar seu marido e fugir com outro homem.

Por isso, jovens senhoras minhas, acautelai-vos com O colar de Helena !

Que aconteceu a Helena depois do sítio de Tróia? A lenda grega nos conta que voltou tranquilamente para Argos com seu marido, c que os druses, perdoando suas imprudências, da mesma forma que os mortais haviam feito, pouparam a ambos, marido e mulher, a aflição da morte. Transportaram o famoso casal, ainda vivos, para os abençoados Campos Elíseos, onde "os dois vivem juntamente felizes até hoje".

As extraordinárias aventuras de Ulisses

AS viagens de Ulisses, cujo nome grego é Odisseu, es tão descritas na Odisséia, de Homero. Ulisses era um dos combatentes gregos no sítio de Tróia. A princípio, nao estava Ulisses querendo unir-se à expedição contra

Tróia. Fingiu-se atacado do juízo e, portanto, incapaz dc-usar armas. Mas os oficiais recrutadores do exército grego imaginaram um hábil expediente para verificar a loucura dele. Estando Ulisses a arar seu campo, puseram-lhe o filho Telêmaco, dentro dum dos sulcos. O pai provou seu perfeito juízo recusando-se a ferir seu filho com o arado. Teve de juntar-se ao exército.

Uma vez chegado a Tróia, porém, provou ser o mais astuto, como o mais bravo, dos soldados gregos.

Quando Tróia foi tomada, Ulisses prontamente tratou de voltar para casa. Era uma viagem de três dias, de Tróia à sua nativa ilha de ítaca. Ulisses levou sete anos longos a alcançá-la. Porque seu navio estava sujeito a um encanto maligno. Netuno, o deus do mar, se zangara com êle e fizera voto de perseguí-lo até os confins da terra. E assim, logo que Ulisses velejou, furiosa tempestade se levantou do norte e levou seu navio para a estranha terra dos Comedores de Loto. Quem provasse desse mágico fruto se esquecia de tudo quanto dissesse respeito a seu lar, sua esposa, seus filhos, seus deveres e seus amigos.

Mas Ulisses era mais sábio que os mais sábios dos homens. Por isso, absteve-se de comer o loto mágico e aconselhou seus companheiros a seguir-lhe o exemplo. Muito a contragosto seus companheiros obedeceram-lhe as ordens, e o navio afastou-se da terra dos encantados Comedores de Loto.

Mas suas viagens tinham apenas começado. Logo que o "navio alado" deslizou sobre as ondas do mar, ergueu-se outra tempestade. Desta vez Ulisses escapou do perigoso mar para uma terra ainda mais perigosa, a dos Ciclopes. Porque os Ciclopes eram uma selvagem raça de gigantes. Tinham apenas um olho no meio da fronte e um apetite voraz de carne humana. Quando Ulisses e seus homens avistaram esses gigantes, correram a abrigar-se numa escura caverna. Imediatamente Polífemo, rei dos Ciclopes, empurrou uma pesada pedra contra a entrada da caverna e começou em seguida a matar e devorar os amigos de Ulisses, um por um.

Em breve chegaria a vez do próprio Ulisses. Mas justamente, no momento oportuno, descobriu êle um feliz modo de escapar. O gigante Polífemo, empanturrado de comida e pesado de bebida, caíra em profundo sono. Sorrateiramente, para não despertá-lo, Ulisses ordenou a seus homens que apanhassem o tronco duma tenra árvore que Polífemo estivera usando como bengala. E depois moven-do-se cautelosamente nas pontas do pés, Ulisses e seus amigos aguçaram a árvore em ponta, endureceram-na no fogo e enterraram-na profundamente no olho de Polífemo.

E assim escaparam das garras do ciclope cego. Mas não haviam escapado ainda da cólera de Netuno. Dessa outra vez o deus do mar conduziu-lhe o navio à misteriosa ilha de Circe. Ora, Circe era uma feiticeira. Quando alguém chegava à sua ilha, entretinha-o com os mais apetitosos alimentos e os mais fragrantes vinhos. Mas o vinho era mágico. Porque quem o bebia perdia sua forma humana e se transformava imediatamente num porco.

Quando os amigos de Ulisses desembarcaram na ilha de Circe, ela os convidou para um banquete. Sentaram-se eles em vinte tronos de ouro, com a boca cheia d’água e de olhos cintilantes à vista do vinho, da carne e dos bolos postos diante de si. Sentiam-se verdadeiros reis, mas portavam-se como porcos. Quanto mais comiam e bebiam, mais gulosos e mais patetas se tornavam. Finalmente caíram de seus tronos e começaram a rastejar de quatro pés, a rojar-se e grunhir como porcos num chiqueiro.

A princípio Ulisses não se ‘encontrava entre eles. Recusara o convite de Circe, mas permaneceu a bordo, pensando tristemente em sua mulher Penélope e em seu filho Telêmaco.

Mas logo que soube dos apuros de seus companheiros, no palácio de Circe, correu para lá, de espada em punho. A perversa feiticeira tentou transformá-lo também em porco. Mas êle não cedeu a seu mágico encanto. Ameaçando matá-la com sua espada, obrigou-a a transformar novamente seus companheiros em seres humanos. E mais uma vez navegaram eles à procura da terra natal.

 

Durante muitos dias navegaram sem nenhum contratempo, até que de súbito o vento desapareceu e eles se viram em plena calmaria. De longe, suave estranha, canção flutuava sobre as ondas. Ulisses sabia o significado daquela canção e um grande temor se assenhoreou dele. Porque era a Canção das Sereias, aquelas virgens que, com suas mágicas vozes, eram capazes de atrair os homens para longe de tudo quanto lhes fosse querido. E se um mortal, seduzido pelo seu canto, tentava aproximar-se da terra das sereias, seu navio era lançado contra os rochedos e seu corpo ia servir de pasto aos peixes do mar.

Tudo isso Ulisses sabia. Daí o grande temor que dele se apoderara. Mas novamente sua prudência lhe veio em auxílio e concebeu um plano por meio do qual poderia proteger-se e aos seus companheiros, contra o Canto das Sereias. Entupiu de cera os ouvidos de seus amigos, de modo que som algum os alcançasse e ordenou-lhes que o amarrassem fortemente ao mastro do navio. Deixou, porém, os próprios ouvidos livres, pois estava ansioso por ouvir o canto daquelas mágicas Donzelas do Mar.

Imediatamente a canção o envolveu em todo o seu encantamento. Nunca ouvira êle coisa semelhante até então. Os sons que vinham flutuando sobre o mar eram como fortes e invisíveis dedos que o agarravam e arrancavam de Penélope, de Telêmaco e de sua querida terra natal de ítaca.

Estorcia-se desesperadamente entre as cordas e pedia a seus marinheiros que o soltassem. Mas estes não lhe prestavam atenção. Lentamente o navio velejou através do encantado mar, até que pouco a pouco o Canto das Sereias se misturou com a música do vento e o estrondo da ressaca. E então eles o desataram do mastro e Ulisses viu-se mais uma vez livre para viajar em demanda de sua casa natal

Seu lar, porém, achava-se, como sempre, ainda muito distante. Porque a cólera de Netuno contra êle estava aquecida ao rubro. E assim, ajuntando-se a todos os outros infortúnios seus, sobreveio então um naufrágio. A custo conseguiu êle salvar-se numa jangada, mas apenas por um instante. Tremenda onda descarregou-se sobre a jangada e Ulisses foi lançado ao mar.

Durante dois dias e duas noites, lutou contra o oceano. Afinal, no terceiro dia, ferido, ensanguentado e quase morto de fadiga, alcançou a Feácia. Arrastando-se pesadamente até um matagal, caiu, exhausto, no sono.

E aqui começa uma das mais famosas cenas da literatura grega. Nausica, a encantadora filha do rei da Feácia, ajunta seus vestidos, coloca-os num carro e desce a lavá-los, à beira-mar. Acompanha-a um grupo de amigas, as mais lindas donzelas da terra.

Lavada a roupa, banham-se elas, untam-se e começam a jogar bola, rindo e cantando enquanto jogam. Estão prestes a terminar o jogo, quando a princesa lança demasiado alta a bola, que vai cair nas moitas onde se encontra Ulisses.

O barulho desperta Ulisses. Arranjando uma coberta de folhas para a cintura, caminha na direção das donzelas. Aquela selvagem aparição enche-as de terror e elas debandam aos gritos em todas as direções. Nausica,, porém, não. Compadece-se dele e diz-lhe que a acompanhe até o palácio de seu pai.

Chegam lá à tardinha. Depois de banhado, descansado e confortado de comida, Ulisses retribue a hospitalidade do rei narrando-lhe a história de suas estranhas aventuras.

Terminada a sua história, o rei ordena que aprestem um navio para Ulisses. Tripula o navio com os melhores marinheiros feácios, enche-o de presentes e despacha seu hóspede para sua Ítaca natal.

Mas antes que êle pudesse chegar a casa, outro infortúnio o espera. Netuno transforma-lhe o navio em pedra e mais uma vez Ulisses dificilmente escapa com vida. Chga a ítaca sozinho, sem amigos. Vestido como um mendigo, pede pousada na cabana de seu velho guardador de porcos, Eumeu.

Ninguém reconhece Ulisses. Isto é, nenhum ser humano o reconhece. Mas seu cão Argos reconhece o dono. Velho, semicego e mal podendo arrastar as pernas, esse cão fiel lança um alegre latido de reconhecimento, lambe as mãos de seu amado dono, e cai morto a seus pés.

E é como um mendigo, de bordão em punho e de sacola às costas, que Ulisses volta a seu palácio.

Quando chega ao palácio, está sendo realizado um grande banquete. Os príncipes de todas as regiões vizinhas, acreditando-o morto, estavam tentando obter a mão e a fortuna de sua mulher Penélope. Ela os havia recusado a todos. Mas eles, nada intimidados se haviam estabelecido no palácio, comendo e bebendo à vontade, para grande desgosto e tristeza dela.

À vista daqueles barulhentos príncipes, que se embriagavam como animais, em seu próprio palácio, Ulisses inflamou-se de cólera. Contudo, conteve sua raiva e propôs que todos demonstrassem sua habilidade com o arco e a flecha.

Rindo, concordaram com o estranho pedido do mendigo. E suas risadas se tornaram mais estrepitosas e mais prolongadas quando o mendigo, por sua vez, pegou a flecha, retesou o arco e aprontou-se para atirar.

Mas quando sua seta voou mais rápida e mais certeira ao alvo que a de qualquer dos outros, as risadas se transformaram em aplausos. E quando êle gritou em altos brados que era Ulisses, seus aplausos se transformaram num grito de espanto e de desespero.

Depois, com o auxílio da deusa Minerva, que viera ficar a seu lado, empunhou uma espada e uma lança de ponta dupla e matou um por um os pretendentes.

E então naquele instante, a fiel Penélope verifica que o mendigo não é outro senão o seu amado rei e marido. Porque nenhum outro homem a não ser Ulisses possuía a força de braço e a segurança de olhar para derrubar, como esse estrénuo guerreiro fizera, aqueles maus príncipes que haviam infestado o palácio dela durante tantos anos.

E assim, já que a família está afinal reunida, partamos tranquilamente daquela mágica terra de ouro e púrpura, a que a história de Ulisses contada por Homero nos levou, durante alguns preciosos instantes de empolgante beleza.

Imagens e Ilustrações de Literatura

O burlesco na antiga Grécia

OS gregos gostavam imensamente de teatro. E principalmente de ver tragédias, mas vê-las um tanto açucaradas, temperando o pranto com um pouquinho de riso. De acordo com isso, os escritores teatrais da Grécia compunham certa espécie de drama, que começava como tragédia e acabava como comédia. Suas peças eram em quatro atos. Os três primeiros, trágicos e o último, grotesco. Frequentemente, o último ato muito pouco tinha que ver com os anteriores. Podia-se ficar para vê-lo ou deixar o teatro, à vontade. Mas os escritores achavam que deviam satisfazer a seus auditórios. Tinham de deixar-lhes na boca um gosto açucarado.

E a propósito, há uma história. As tragédias gregas eram produzidas em concursos, e os autores dessas tragédias sabiam que até mesmo os auditórios mais inteligentes se fatigavam diante do espetáculo de excessivos sofrimentos. E por isso, afim de ganhar o aplauso dos espectadores e garantir o prêmio, os dramaturgos finalizavam suas produções sérias com uma farça. E não poucas vezes aconteceu que o premiado do concurso de tragédia obteve a láurea, não pela melhor tragédia, mas pela farça mais divertida.

Os antigos gregos, como vedes, estavam muito bem familiarizados com os processos teatrais de Broadway e Hollywood 1

Visita a um teatro grego

VAMOS a um teatro grego. Mas para isso, devemos ir de manhã bem ceclmiio, porque as representações gregas começavam, não logo depois do pôr-do-sol, mas imediatamente ein seguida à madrugada.

Muito tempo gastaremos para chegar ao teatro, porque há nada menos de 20.000 pessoas que se dirigem para o mesmo lugar — um público quase tao numeroso como a multidão de "fans" de unia moderna partida de bassebalh Para os gregos era o teatro um dos favoritos esportes do ar livre.

O teatro grego era um edifício sem cobertura. Construíam-no na encosta duma colma, com o céu azul por telhado.

Estamos agora no teatro ateniense, na Acrópole. Em torno de nós, se acha a imensa e barulhenta multidão de gregos folgazões e acima, no topo da colina, erguem-se as tranquilas estátuas dos deuses, que parecem ter descido dos céus para formar íntima parte da assistência.

Entrámos pela passagem entre o auditório e o palco. Escolhemos um lugar no alto, porque dessa posição podemos ver tão bem os espectadores quanto os atores.

Os espectadores formam uma multidão irrequieta, turbulenta, bem humorada. As representações vão durar de manhã à noite, e assim todos trataram de trazer consigo sua comida. O ar está saturado de acre odor de ervilhas cozidas, salsichas, azeitonas em conserva, queijo e alho. É sem dúvida um tanto incômodo para nosso olfato moderno, mas não podemos negar que era assaz picante e apetitoso.

Os lugares mais altos foram-se enchendo pouco a pouco. Os mais baixos, porém, estão ainda vazios. Reservam-se para a nobreza e os nobres, como sabeis, gostam de dormir até mais tarde.

Mas agora, afina!, os aristocratas estão começando a chegar. À proporção que cada um entra, a multidão se ergue, assobiando, vociferando e batendo com as mãos. Mas também, quando acontece chegar algum personagem impopular, ficamos surpresos em ouvir um barulho que se assemelha estranhamente à nossa "torcida".

Os antigos gregos pareciam exigir de seus aristocratas não só uma origem nobre, mas também um caráter nobre.

O preço de entrada de um teatro grego era de cerca de Cr$ 1,20. Por esse preço, compravam-se dois bilhetes que davam, direito, a assistir às representações durante dois dias inteiros. Mas supondo que não se tivesse dinheiro. Ficar-se-ia privado de ir ao teatro? De certo que não. O governo grego promulgara uma lei um tanto curiosa, que favorecia os cidadãos amantes do teatro, mas sem meios de comprar entradas. Antes de cada representação, todos os cidadãos de Atenas recebiam do Estado a quantia de Cr$ 1,20.

Essa espécie de liberalidade, por parte dum governo moderno, provavelmente esgotaria o tesouro, no período de uma única temporada teatral. A temporada teatral em Atenas era, porém, felizmente muito curta. Durava apenas dois dias no inverno e dois dias na primavera.

Eurípedes – O primeiro feminista da História

HISTORICAMENTE, o primeiro homem que se in teressou pela questão feminista foi o teatrólogo grego Eurípedes. Como raça, considerava as mulheres seres humanos; individualmente, porém, odiava a todas sem distinção.

Era um completo individualista. Alguns dos críticos modernos o chamaram de "Ibsen antigo". Ou, então, chamavam Ibsen de "Moderno Eurípedes".

A morte de Eurípedes está envolta em mistério. De acordo com uma lenda, foi êle morto por uma matilha de cães; outra, porém, diz que foi uma chusma de mulheres. "Êle tentou auxiliá-las, e elas lhe pagaram com maldições. Ofereceu-lhes alimento, e elas morderam a mão que as alimentou."

Eurípedes escreveu noventa e duas peças. Dezoito delas chegaram até nossos dias. Contam-se entre as mais preciosas do tesouro dos maiores dramas do mundo. Nessas peças há toda uma galeria de mulheres heróicas e trágicas: Alceste, que sacrificou a vida pelo marido; Hécuba, tainha de Tróia, que pranteou a destruição de sua cidade e a degradação de seus filhos; Maçaria, que morreu voluntariamente para que sua terra pudesse ser salva; ainda Hécuba, cujo filho foi morto pelo rei Polimestor e que, para vingar-se, atraiu o rei à sua tenda e arrancou-lhe os olhos (cena que nos lembra a história de Jael e Sisara, da Bíblia); e as tristes velhas de Tebas, mães dos sete chefes que tinham sido mortos em combate.

Talvez o mais trágico de todos os tipos por êle criados seja Medéia. Essa infeliz princesa é a irmã de Circe, aquela encantadora feiticeira que podia transformar seres humanos em porcos. Medéia é mais desventurada que sua irmã. Em vez de atraiçoar os outros, é ela mesma atraiçoada. Jasão, o descobridor do Velocino de Ouro, enganou-a com suas promessas e depois abandonou-a. Está prestes a casar-se com outra princesa. Mas Medéia não ficará ociosa a contemplar o espetáculo da felicidade deles. Seu coração despedaçado há de tirar vingança. E selvagem vingança será. Envia à sua rival, como presente de núpcias, um vestido de noiva, embebido de veneno. E depois, para completar sua vingança, mata seus próprios filhos, porque Jasão é o pai dessas crianças e sua morte é o último e mais amargo golpe em todas as esperanças dele.

Medeia, é a mais popular das peças de Eurípedes, e Eurípedes o mais popular dos trágicos gregos. Consideram-no o mais humano de todos. Conta-se que os sicilianos libertaram um prisioneiro ateniense, por ser capaz de recitar um trecho de Eurípedes. Mas coube ao poeta Filemon prestar a maior das homenagens ao gênio de Eurípedes. "Se tivéssemos certeza de que os mortos conservam ainda a sua conciencia, dizia êle, eu me enforcaria para ver Eurípedes".

As maravilhosas histórias de Heródoto

HERÓDOTO foi chamado o "Pai da História". Era um grande viajante e em suas frequentes excursões aos mais afastados lugares da terra, recolheu delicioso cabedal de histórias curiosas e maravilhosas. Para contá-las todas, seria preciso um outro volume. Podereis encontrá-las todas reunidas nas deliciosas narrativas de sua História. Provam o velho adágio que a verdade — se, de fato, Heródoto está contando a verdade — é mais estranha que a ficção. Citemos, por exemplo, alguns dos "curiosos fatos, costumes e acontecimentos verdadeiros" relatados por Heródoto.

"Um dos reis persas, conta-nos êle, ostentava uma guarda-pessoal de sessenta de seus próprios filhos".

"Os budini (tribu da Ásia) se asseavam e matavam a fome ao mesmo tempo, comendo seus piolhos".

"Nos banquetes egípcios, os escravos traziam esculpida em madeira a imagem dum cadáver. Fazia-se isso para lembrar aos hóspedes que naquele dia deviam comer, beber e ficar alegres, pois no dia seguinte poderiam estar mortos".

"Os citas bebiam o sangue dos inimigos mortos e usavam-lhes as cabeleiras como guardanapos".

"Os transi (tribu da Trácia) tinham costumes de nascimento e de morte que descreverei agora. Quando nascia uma criança, todos os seus parentes sentavam-se, circularmente, em torno dela e choravam pelos pesares que ela teria de suportar agora que viera ao mundo… Quando, por outro lado, morria um homem, enterravam-no com risadas e regozijos, dizendo que agora êle estava livre de um ror de sofrimentos, gozando da mais completa felicidade".

"Quando Dario estava pronto a levar a guerra contra os gregos, um de seus agentes, Oiobazus, apresentou-se diante dele com o seguinte pedido: "Tenho três filhos, ó Rei. Não os tomeis a todos, eu te peço, mas consente que eu conserve um deles aqui em casa". "Pois não, respondeu Dario, gentilmente. E mais do que isso. Consentirei que conserves em casa todos três." E fiel à sua promessa, mandou matar os três filhos daquele homem".

Heródoto descreve numerosas e espantosas façanhas de valor, não como maravilhas, mas como fatos comuns. E, com a generosidade do historiador sem preconceitos, é tão imparcial para com o inimigo como para com seus próprios partidários. Efetivamente, conta-nos êle que "o mais heróico ato digno de menção" foi o de um soldado persa que lutava contra os atenienses. Esse soldado fora capturado e acorrentado por um pé ao chão de sua prisão. Só havia um meio possível de fuga e o soldado o executou. Cortou o próprio pé.

Uma das mais interessantes histórias de Heródoto é a de Creso, o homem mais rico do mundo. Creso considerava-se o mais feliz dos mortais. Mas Sólon, sábio filósofo, disse-lhe que não tinha êle razão para se ensoberbecer tanto. "Não deve o homem, lembrava-lhe êle com brandura, considerar-se feliz antes de morrer." E antes de morrer, teve Creso a infeliz oportunidade de verificar a sabedoria das palavras de Sólon. "Porque Creso tinha dois filhos — um, vítima dum defeito natural, sendo surdo e mudo, e o outro, que se distinguia dentre todos seus companheiros, em todas as ocupações e estudos. Chamava-se este último Atis. A seu respeito, teve Creso um sonho: que êle morreria de um golpe de lança de ferro".

Quando Creso despertou do sonho, sentiu-se grandemente alarmado. Mandou retirar do palácio todas as armas de ferro e deu estritas ordens a seu filho para que jamais se metesse em caçadas ou em guerras.

Veio então a acontecer que um príncipe vizinho fez uma visita ao palácio de Creso. Chamava-se Ádrasto esse príncipe. Atis e Ádrasto tornaram-se amigos íntimos.

Um dia chegou ao conhecimento de Creso que seu reino estava sendo infestado por um javali. Um grupo de rapazes foi despachado a matar o javali. Atis pediu a seu pai licença para acompanhá-los. "Não tenhais medo, meu pai — disse êle. —-Vosso sonho vos advertiu de que eu seria morto por uma lança de ferro e não pelo colmilho de um javali".

Creso consentiu com relutância. Pediu a Ádrasto, porém, para acompanhar seu filho e servir-lhe de protetor especial.

O bando de moços selecionados partiu para a caçada. Não demoraram a encontrar o javali. Os caçadores o cercaram e arremessaram as armas contra êle. Ádrasto também atirou sua lança contra o javali. Não atingiu o alvo e involuntariamente matou Atis, o filho de seu hospedeiro e seu mais querido amigo.

E dessa forma realizou-se o sonho de Creso e, justificou-se a sabedoria de Sólon. "Porque os planos dos deuses e a sabedoria do sábio são maravilhas além de nosso alcance; e aqueles de, nós que se olham como os mais ricos provam na verdade que são os mais pobres dos mortais."

A vida do próprio Creso, conta-nos Heródoto, foi certa vez alva de maneira miraculosa. Aprisionado em combate por Ciro, rei da Pérsia, foi posto sobre a pira funerária, juntamente com muitos outros prisioneiros de guerra. Acenderam a fogueira e as chamas saltaram no espaço. Creso, que havia sido um homem piedoso, começou a rezar em voz alta, e eis que "um aguaceiro caiu do céu e extinguiu as chamas."

Uma das mais encantadoras entre as maravilhosas histórias de Heródoto intitula-se O ladrão que casou com uma princesa. Foi a primeira história de detetive do mundo. Trata duma série de roubos tão hábeis que iludiam o rei do Egito e seus mais sábios conselheiros. Esse rei, achando-se de posse de vasto tesouro em ouro e pedras preciosas, ordenou a seu arquiteto que lhe edificasse, um quarto de pedra sem janelas, com uma pesada porta de ferro. Dentro desse quarto ocultou o rei seu tesouro e depois ordenou que a porta fosse fechada com duas voltas e aferrolhada. Conservava a chave dessa porta em seu poder.

Parecia que nenhuma criatura humana seria jamais capaz de penetrar naquele quarto, sem permissão do rei. E contudo, uma manhã descobriu o rei que o quarto fora visitado e parte do tesouro subtraída. O rei dobrou as fechaduras e ferrolhos da porta e colocou uma sentinela de confiança diante dela. Mas sem proveito, porque, no dia seguinte, descobriu que o quarto impenetrável fora novamente violado e quantidade maior de seu tesouro roubada. 0(rei e.seusvsábios conselheiros estavam espantados. Quem penetrava naquele quarto de.tesouro tão cuidadosamente guardado e quem era capaz de praticar semelhante proeza?

Afim de resolver o mistério, deixemos os detetives do rei e vamos ao encontro do próprio ladrão. Há na realidade, dois: Ladronius e seu irmão. São filhos do arquiteto que construiu o quarto-tesouro. Esse arquiteto, pensando no futuro de, seus filhos, pusera no edifício uma pedra falsa, colocada de modo a poder deslizar e deixar um buraco bastante largo para dar passagem a um homem que andasse de rastros, e contudo tão habilmente arranjada que nenhuma diferença apresentava das outras. No seu leito de morte, o arquiteto revelou o segredo a seus filhos, como herança. E fora assim que Ladronius e seu irmão tinham podido penetrar no quarto do tesouro, noite após noite, sem serem apanhados.

Mas o rei e seus detetives estavam dispostos a apanhar o ladrão. Para isso colocaram uma armadilha no quarto do tesouro. Uma noite, como o irmão de Ladronius penetrasse no quarto, seu pé foi colhido pela armadilha, Afim de ocultar sua identidade ao rei, implorou a Ladronius que lhe cortasse a cabeça. Muito a contragosto Ladronius consentiu em satisfazer-lhe o pedido.

Na manhã seguinte, foi descoberto o corpo degolado do ladrão. O rei examinou a porta de ferro e as fechaduras e ferrolhos, e ficou mais intrigado do que nunca. Mas decidiu pôr em execução um plano que, como esperava, faria cair em suas mãos o cúmplice daquele ladrão decapitado. Ordenou que o corpo fosse suspenso duma árvore, perto da casa do tesouro, e. disse aos guardas que levassem à sua presença quem quer que demonstrasse tristeza ao ver aquele morto.

Ladronius suspeitou da traça. Por isso, trouxe uma carroça cheia de odres de vinho para os guardas, mergu-lhando-os num estupor de embriaguez e libertou o corpo de seu irmão, enquanto os guardas estavam adormecidos.

O rei, agindo a conselho de seus detetives, resolve jogar a última cartada. Manda publicar uma proclamação, anunciando que oferecerá a mão de sua filha ao rapaz que provar sei o mais hábil maroto do Egito. A princesa, sentada num trono, recebe os candidatos e faz papel de único juiz. Secretamente, o rei ordena à sua filha que se alguém lhe falar a respeito do roubo do tesouro, ela o agarre pela mão e o mantenha preso até que os guardas cheguem.

Ladronius está disposto a obter a mão da bela princesa. Em consequência, chega ao palácio, usando ricas sandálias, resplandescentes calções e um manto de veludo. A princesa fica completamente seduzida pelo seu aspecto. Porém tem um solene dever a cumprir.

"Dize-me, rapaz, qual foi a coisa mais perversa e mais habilidosa que já fizeste?"

Ousadamente deu Ladronius sua resposta: "ó a mais bela das princesas, a coisa mais perversa que jamais pratiquei foi cortar a cabeça de meu irmão, quando roubámos o tesouro de vosso pai. E a coisa mais habilidosa que já fiz foi roubar o oorpo de meu irmão, nas barbas de todos os guardas reais".

Ouvindo essas palavras, a princesa desceu de seu trono e agorrou-lhe a mão. Mas, com grande estupefação sua, um milagre, se realizou à sua vista. O belo e jovem maroto pulou para trás, deixando-lhe na mão o manto e o braço. Fazendo uma profunda inclinação, correu para a porta e se afastou do palácio antes que ela pudesse refa-zer-se da surpresa.

Como aconteceu isso? Muito simplesmente. O patife, suspeitando do plano, ocultara debaixo do manto o braço dum cadáver.

Quando o rei soube da proeza, rindo, perdoou a La-dronius. Seu reino, achava êle, necessitava bastante de homens tão hábeis. Por isso, ofereceu a mão de sua filha a Ladronius e o nomeou chefe da real secretaria de polícia.

O orador que perdeu a cabeça

ESTE título não é apenas figurado, mas literalmente verdadeiro. Cícero foi, na opinião de muitos, o maior orador de todos os tempos. Tinha, como o afirma um de seus admiradores, "a mais fluente língua da história humana". E foi isso justamente que o perdeu. Sua língua, infelizmente, era mais hábil que seu pensamento. Embora fosse importante filósofo, tinha muito pouco de filósofo e demasiado de orador. Sua grande desgraça foi ter tentado ser filósofo e político ao mesmo tempo. Como filósofo, via em geral os dois lados de uma questão. Como político, era forçado a tomar só um lado. Em consequência, não sabia que lado tomar, e isso o conservou constantemente em apuros.

Primeiramente, o problema foi saber se tomaria o partido de Pompeu ou de César, na guerra civil entre os dois. Incapaz de tomar uma decisão, proferiu brilhantes discursos ora em favor de um, ora em favor do outro. Resultado : dois inimigos, em vez dum inimigo e dum amigo.

Quando César matou Pompeu e se tornou senhor de Roma, Cícero pronunciou um grande discurso em honra de César. Mais tarde, quando César foi assassinado, Cícero fez igualmente um grande discurso contra êle. Esse último discurso foi a conta. Encheu de raiva o amigo e pratidário de César, Marco Antônio. Por causa disso, Cícero perdeu a cabeça (ainda figuradamente falando). Pensava que Antônio estaria em breve privado do poder, e, em conformidade, encetou uma série de, belas mais infelizes invectivas contra Antônio. Em linguagem nobre, convidou Antônio a mandá-lo matar:

"Conduze-te para comigo como quiseres, Marco Antônio, mas compadece-te de tua terra. Quanto a mim, falarei claramente Defendi a pátria, na minha mocidade; não a renegarei na minha velhice. Desprezei as espadas de Catilina; jamais me abaterei diante das tuas.

"Há quase vinte anos neste mesmo templo disse que estava pronto, se fosse preciso, a ir ao encontro da morte. Hoje, meus senhores, a morte é ainda mais desejável, depois das honras que obtive, e dos deveres que cumpri."

Patéticas e talvez loucas, mas ousadas palavras! Marco Antônio prestou ouvidos ao desafio do velho orador — Cícero tinha sessenta anos então —; prendeu-o e mandou decapitá-lo. A cabeça e as mãos do incomparável Cícero foram pregadas por cima da porta do Senado.

As curiosas aventuras do jumento de ouro

A HISTÓRIA DO JUMENTO DE OURO é obra de Apuleio, homem cuja vida é quase tão estranha como seu livro. Nascido na África, seguiu ainda rapaz para Roma. Ficara, por herança do pai, milionário, mas dentro de poucos anos tornou-se pobre. Gastou todo seu dinheiro com seus estudos e, seus amigos. Depois encontrou uma viúva riquíssima e casou-se com ela. Mas os parentes o mandaram prender, sob a acusação de que êle havia utilizado meios mágicos para captar-lhe o afeto. Não sabemos se êle foi ou não absolvido dessa acusação. Mas daquele tempo em diante, sua fama de mágico cresceu. Mesmo os sábios de seu tempo, e depois posteriores gerações, acreditavam que êle tinha estranhos e mágicos poderes. Êle próprio nunca negou esses poderes. Efetivamente, afirmava que a espantosa história do jumento de ouro era a história de suas próprias aventuras — "cada linha dela era tão verdadeira quanto a própria verdade".

Era a história realmente verdadeira ou apenas uma hábil invenção imaginosa? Pois bem, ei-la: julgai-a vós mesmos. Verdadeira ou não, é uma história inegavelmente interessante. Para citar o próprio breve prefácio dele ao Jumento de Ouro, "presta atenção, leitor; vais di-¥ertir-te".

Somos apresentados ao herói desta história, Lúcio, na casa duma famosa feiticeira, onde êle se encontrava hospedado. A criada da feiticeira, linda jovem, porém não muito virtuosa, apaixona-se, por Lúcio. Descreve-lhe um sortilégio secreto, em consequência do qual sua patroa é capaz de transformar-se, à vontade, em um pássaro. Lúcio mostra-se muito interessado por esse sortilégio. Também êle está ansioso por transformar-se em pássaro. Induz a criada a obter o necessário unguento mágico, unta-se êle mesmo da cabeça aos pés, pronuncia as palavras do encantamento e aguarda que as asas e as penas cresçam-lhe no corpo.

Mas para espanto seu, não sente penas crescendo no seu corpo, mas duas longas orelhas crescendo-lhe na cabeça. Em vez de em um pássaro, vê-se transformado em um jumento. Devido a um pequeno engano, a descuidada criada havia apanhado o unguento errado para êle.

Está desapontado, mas não perde o ânimo. Porque há um simples antídoto, em resultado do qual pode êle mudar-se, mais uma vez em ser humano. Tudo que terá a fazer é comer rosas.

Mas aqui é que está a dificuldade. Tudo no mundo conspira para afastá-lo das rosas. Todos, julgando-o um jumento, espancam-no, batem-lhe e deixam-no sem comer até que seu pobre coração humano está prestes a partir-se dentro de suas costelas asininas. Sua sorte é a mais cruel de todas porque êle ainda pensa como homem, enquanto que é tratado como animal.

Logo depois de, sua transformação em jumento, a criada coloca-o na estribaria e promete trazer-lhe algumas rosas pela manhã. Mas, durante a noite, é êle furtado por um bando de ladrões. Tenta zurrar seus protestos, mas eles não lhe compreendem a linguagem.

Os ladrões levam-no para seu covil nas montanhas. Ali comem eles, bebem e contam alegres histórias — algumas não muito divertidas — de suas proezas e aventuras. Eis uma delas:

Os ladrões estavam planejando roubar a casa de um homem rico, chamado Demócares. Este resolvera exibir uns ursos para divertir seus amigos. Mas os ursos morreram e Demócares lançou suas carcaças na rua. Isto deu uma idéia aos ladrões. Apanharam um dos ursos mortos, tiraram-lhe a pele e, vestiram com ela um de seus companheiros, Trasilo. Depois apresentaram o "urso" numa jaula a Demócares. Estava combinado que, noite morta, Trasilo abriria a porta de dentro, de modo que os outros ladrões pudessem entrar e roubar a casa.

Tudo teria corrido muito bem, se um dos criados não houvesse visto o "urso" fora da jaula, durante a noite. Deu o alarme. Os criados se reuniram com lanças, clavas e archotes. Os cães de caça foram soltos. Com fogo, dentes, clavas e ferro foi o urso atacado. Até o final lutou e rosnou como um autêntico urso. Porque não queria trair seus companheiros.

Somente no dia seguinte vieram a saber os criados que haviam matado, não um urso, mas um homem.

Tal era a coragem dos ladrões, no Jumento de Ouro.

No dia seguinte à narração dessas histórias, os ladrões trouxeram para seu esconderijo uma noiva que haviam raptado. Uma velha bruxa, que tomava conta do antro, divertiu a jovem noiva com uma encantadora história do casamento e desventuras de Cupido e Psique. Terminada a história, a bruxa coloca a noiva no lombo do jumento roubado (Lúcio) e ambas tentam escapar.

A moça e o jumento são recapturados pelos ladrões. Os captores estavam prestes a matar os dois, quando chega outro ladrão. E’ um belo e galhardo vagabundo, que cativa os outros ladrões com a história de suas proezas, sendo por cies aceito como seu novo chefe. Propõe uma rodada de bebida. E quando, um por um, mergulham eles em sopor, revela-se como o disfarçado marido da noiva roubada. Mata os ladrões e leva sua mulher para casa. nas costas do jumento.

Lúcio, o jumento, está quase a ponto de ser recompensado com a liberdade. Mas seu mau fado ainda o persegue. Desta vez, cai nas mãos dum grupo de vaqueiros, pastores e condutores de juntas. Numa vila próxima, ouve o fim da história da noiva raptada. Um rapaz, tendo-se apaixonado por ela, matou-lhe o marido e lhe fez depois propostas. A infeliz viúva, protestando retribuir a afeição do assassino de seu marido, convida-o a ir à sua alcova, dá-lhe uma droga que o mergulha em profundo sono, e arranca-lhe os olhos. Depois dirige-se ao túmulo de seu marido e apunhala-se sobre o seu corpo.

Terminada esta trágica história, encontramos Lúcio, o jumento, ainda suspirando pelo alimento de rosas que lhe dará de novo a forma humana. Mas de novo intervém o fado. Êle cai em poder de um grupo de bandidos sírios. Como seus antigos donos, eles lhe batem e sobrecarregam-lhe o lombo com pesadas cargas. Mas de novo, como dantes, sua vida se torna suportável pelas histórias maravilhosas que ouve dos ladrões: histórias de feiticeiras que arrancam corações humanos e põem em seu lugar esponjas; de cadáveres que se assentam em seus ataúdes e falam; de demônios que arrancam os narizes dos homens adormecidos, pondo-lhes no lugar narizes de cera; da mulher que escondeu seu amante debaixo duma tina; de um pastor que foi torturado por ura enxame de formigas; e do mágico que ergueu um homem do túmulo, quando seu testemunho foi necessário para um julgamento criminal. Quando ouvia todas aquelas maravilhosas histórias, conta-nos Lúcio, ficava contente por ter orelhas de asno, Porque aquelas orelhas eram tão compridas que êle, não perdia uma só palavra.

 

Finalmente, a despeito da vigilância de seus donos, Lúcio, o jumento escapou. Foi dormir à beiramar, e ali teve estranho sonho. A deusa Isis ergue-se das ondas e oferece-lhe comida de rosas. Êle desperta, e oh! o sonho se torna realidade.

Come as rosas, retoma sua forma humana, e é admitido entre os sacerdotes de Isis. Os dias de suas aventuras já passaram. Começa o período da meditação. Como resultado de suas passadas experiências, está pronto a advertir aqueles cujas experiências ainda estão por vir. E podemos ouvir sua solene, embora sorridente voz através de dezoito séculos:

"Da concupiscência dos sentidos e das armadilhas das mulheres, ó jovens, conservai-vos afastados. Porque as carícias duma mulher pecadora podem transformar, até mesmo o mais sábio dos homens, num perfeito asno."


Fonte: Globo 1949. Trad. e Adap. Oscar Mendes

jan 052010
 
mapa roma itália

SUMÁRIO DA VIDA DE RÔMULO

I. Diversidade das opiniões sôbre a origem de Roma. III. Nascimento de Rômulo e de Remo, seu irmão. VI. São aleitados por uma lôba. VII. Suas primeiras inclinações. XII. Fundação de Roma. XV. Remo é morto por Rômulo. Cerimônias observadas para traçar o recinto de Roma. XIX. Ordenanças militares de Rômulo. Formação da Legião. Criação do Senado. XX. Rapto das Sabinas. XXIV. Vitória alcançada sôbre Ácron, rei dos Gênicos. XXV. Origem do Triunfo. XVI. Primeiras conquistas dos Romanos. Tomada do Capitólio pelos Sabinos. XXVIII. Rômulo invoca Júpiter Estator. XXIX. As Sabinas sustentam o partido dos Romanos. XXX. Associação dos Romanos e dos Sabinos. Começo e número das Tribos. XXXIII. Festas. XXXIV. Instituições das Vestais e do fogo sagrado. XXXV. Leis. O parricídio desconhecido em Roma durante seiscentos anos. XXXVI. Querela de Tácio, rei dos Sabinos. Sua morte. XXXVII. Rômulo apodera-se da cidade de Fidena e forma ,ali uma colônia. Peste violenta em Roma, XXXVIII. Derrota dos Camerinos. XXXIX. Guerras dos Veien-ses. XLI. Rômulo vitorioso começa a exercer um duro império. XLIII. Desaparece. XLV. Honras divinas que lhe foram prestadas sob o nome de Quirino.

Desde o ano 769 até o ano 715 antes de Jesus Cristo; 39.º ano desde a fundação de Roma.

Plutarco – Vidas Paralelas – RÔMULO

Baseado na versão francesa de Amyot. Tradução de Aristides Lobo. Fonte: Edameris.

 

Os historiadores não se acordam em escrever por quem nem por que causa o grande nome da cidade de Roma, do qual a glória se estendeu por todo o mundo, lhe fôra primeiramente imposto: porque sustentam uns que os Pelasgos, após haverem corrido a maior parte da terra habitável e terem dominado várias nações, finalmente se detiveram no lugar onde ela está no presente fundada; e que, por sua grande’ potência em armas, impuseram o nome de Roma à cidade que construíram, o qual em linguagem grega significa potência. Dizem outros que, após a tomada e destruição de Tróia, houve alguns Troianos que, uma vez salvos da espada, embarcaram em navios ocasionalmente encontrados no pôrto e foram lançados pelos ventos à costa da Toscana, onde puseram âncoras perto do rio Tibre; e ali, como suas mulheres se achassem já,tão mal que de modo algum podiam mais suportaria fúria do mar, houve uma, a mais nobre e mais prudente de todas, chamada Roma, que aconselhou as companheiras a porem fogo nos barcos, o que fizeram e com o que os maridos no comêço ficaram muito descontentes, mas depois, constran-gidos pela necessidade ao pé da cidade de Palâncio, quando viram que os negócios prosperavam ali melhor do que teriam ousado esperar, achando a terra fértil e os povos vizinhos doces e obsequiosos, pois os receberam amigavelmente, entre outras honras prestadas como recompensa àquela dama, deram à cidade o nome de Roma, por ter sido ela a causa de a terem edificado. E dizem que daí começou o costume, que ainda hoje dura em Roma, de saudarem as mulheres seus parentes e maridos beijando-os na boca, porque então essas damas Troianas saudavam e acariciavam os maridos, depois de lhes haverem queimado os navios, pedindo-lhes que acalmassem sua cólera e má disposição contra elas.

II. Dizem outros que Roma era filha de Ítalo e de Lucária, ou de Télefo, filho de Hércules, e mulher de Enéias, segundo outros de Ascânio, filho de Enéias: a qual deu seu nome à cidade. Outros há que sustentam ter sido Romano, filho de Ulisses e de Circe, quem fundou Roma; querem outros dizer que foi Romo, filho de Emátion, que Diomedes para ali enviara de Tróia. Escrevem outros que foi certo Rômis, tirano dos Latinos, que expulsou daquele distrito os Toscanos, os quais, partindo da Tessália, passaram primeiramente à Lídia e, depois, da Lídia à Itália.

III. E, mais, aqueles mesmos que sustentam que Rômulo (como há mais aparência) foi aquele que deu o nome à cidade, não estão de acordo no tocante aos seus antepassados, porque uns escrevem que êle era filho de Enéias e Dexítea, filha de Forbas, e que foi levado recém-nascido para a Itália com seu irmão Remo, mas que então o rio Tibre, tendo transbordado, todos os outros navios ali afundaram, exceto o escaler onde estavam as suas crianças, o qual afortunadamente foi deter-se docemente num trecho do rio que era unido e plano; e que, tendo-se dêsse modo salvo os meninos contra tôda a esperança, foi o lugar chamado mais tarde Roma. Dizem outros que Roma, filha daquela primeira dama Troiana, foi casada com Latino, filho de Telêmaco, do qual teve Rômulo. Outros escrevem que foi Emília, filha de Enéias e de Lavínia, a qual foi engravidada pelo deus Marte. Contam outros uma coisa referente ao nascimento de Rômulo, onde não há nenhuma verossimilitude: pois dizem que houve outrora um rei de Alba chamado Tarquécio, homem muito mau e cruel, em cuja casa com licença dos deuses apareceu a visão seguinte: surgiu-lhe no lar uma forma de membro viril que ali ficou durante vários dias; e dizem que nessê tempo havia na Toscana um oráculo de Tétis, do qual se levou a êsse mau rei Tarquécio uma resposta predizendo que sua filha ( 1 ), que ainda estava para se casar, teria a companhia do dito monstro, para que daí nascesse um filho que seria muito famoso pela valentia e que, em força de corpo e prosperidade de fortuna, ultrapassaria todos os do seu tempo. Tarquécio comunicou êsse oráculo a uma de suas

(1) No grego: que uma filha. C.

filhas e lhe ordenou que se aproximasse do monstro: o que ela desdenhou de fazer, enviando em seu lugar uma de suas criadas. Com isso Tarquécio ficou tão acremente enfurecido que mandou prender as duas para fazê-las morrer; mas, à noite, quando dormia, a deusa Vesta lhe apareceu e proibiu-o de assim proceder; em virtude dessa ocorrência, êle ordenou-lhes que urdissem uma peça de tela na prisão, sob a condição de que se casariam quando a terminassem. Essas jovens assim faziam durante o dia inteiro, mas à noite vinham outras, por ordem de Tarquécio, que desfaziam tudo o que elas tinham feito e tecido de dia. Entretanto, a criada que fôra engravidada pelo monstro deu à luz dois belos filhos gêmeos, os quais foram entregues por Tarquécio a certo Terãcio, com a injunção de fazê-los morrer. Êsse Terácio levou-os para a beira do rio, onde veio uma lôba que lhes deu de mamar, e pássaros de tôda espécie levaram-lhes migalhas e puseram-lhas na bôca, até que um boiadeiro os percebeu, maravilhou-se grandemente com o fato e teve a ousadia de se aproximar e carregar consigo os meninos; os quais, tendo sido preservados, quando chegaram mais tarde à idade de homens, atacaram Tarquécio e o derrotaram, É um chamado Promátion, que escreveu uma história Itálica, quem faz êsse relato; mas, quanto ao propósito que tem mais aparência de verdade e que é também confirmado por outros testemunhos, coube a Díocles de Pepareto, que Fábio Pictor segue em várias coisas, a primazia de o divulgar entre os Gregos, ao menos quanto aos principais pontos.

IV. E, conquanto nesse propósito mesmo haja ainda algumas variedades, todavia em suma o discurso que dêle se faz é o seguinte: a linha dos reis de Alba, descontentes de Enéias por sucessão de pai a filho, veio afinal cair em dois irmãos, Numitor e Amúlio; dos quais Amúlio, quando veio a fazer suas respectivas partilhas, fêz dois lotes de todos os bens, cabendo a um o reino e a outro todo o ouro e o dinheiro de contado, e todo o tesouro que fôra levado de Tróia. Numitor escolheu o reino por sua parte, mas Amúlio, achando-se o ouro e o dinheiro em suas mãos, e sentindo que era o mais forte, facilmente lhe tirou o reino; e, temendo que sua filha tivesse filhos que pudessem um dia despojá-lo dêle, entregou-a religiosa à deusa Vesta, para usar seus dias em virgindade e jamais se casar: dão-lhe uns o nome de Réia, outros o de Sílvia, e outros o de Ília. Todavia, pouco tempo depois, foi ela encontrada grávida, contra a regra e a profissão das religiosas Vestais. Assim, não houve nada que a salvasse de ser prontamente posta à morte, senão as súplicas da filha do rei Amúlio, chamada Anto, que por ela intercedeu junto a seu pai; não obstante isso, foi estreitamente encerrada, sem que ninguém a visitasse nem falasse com ela, de medo que desse à luz sem o conhecimento de Amúlio. Por fim, nasceram-lhe dois filhos gêmeos, maravilhosamente belos e grandes, causando ainda maior mêdo do que na presença de Amúlio. Ordenou-se então a um de seus servidores que tomasse os dois meninos e os fizesse desaparecer. Dizem alguns que êsse servidor se chamava Fáustulo, enquanto outros afirmam ter sido aquêle que os levou; como quer que seja, aquele que teve o encargo de lhes dar sumiço colocou-os dentro de um tina e foi para o rio com a intenção de atirá-los, mas o encontrou tão cheio e correndo com tamanha força que não ousou aproximar-se do nível da água e colocou-os à margem. Entretanto, crescendo sempre, o rio acabou transbordando, de tal maneira que a água penetrou até debaixo da tina, fê-la emergir docemente e levou-a a um lugar unido e plano, que se chama agora Cermano e antigamente Germano, como acredito, porque os Romanos chamam germanos aos irmãos de pai e de mãe.

V. Ora, havia ao pé desse lugar uma figueira selvagem que se chamava Ruminalis, do nome de Rômulo, como a maior parte estima, ou porque os animais que pastavam tinham o costume de abrigar-se debaixo dela quando fazia muito calor, para ali ruminarem à sombra, ou ainda porque os dois meninos ali foram aleitados pela lôba, porque os antigos Latinos davam à mama o nome de Ruma e ainda hoje chamam Rumília (2) à deusa que se reclama

(2) Nas Demandas Romanas, Dem. LVII, chama-lhe Plu-tarco a deusa Rumina, para nutrir as crianças de peito: em seus sacrifícios, não se usa vinho, antes nêles se oferece leite e (3) água misturada com mel.

VI. Estando os dois meninos assim deitados, escreve-se que sobreveio uma lôba que lhes deu de mamar, tendo também um picanço ajudado a nutri-los e guardá-los. Estima-se que êsses dois animais são consagrados ao deus Marte, e os Latinos honram e reverenciam singularmente o picanço, O que ajudou grandemente a acreditar-se no dizer da mãe a, qual afirmou ter concebido do deus Marte as duas crianças; todavia, dizem alguns ter ela adotado essa opinião por êrro, porque Amúlio, que a desvirginou, foi encontrá-la todo armado e a forçou. Sustentam outros que o nome da nutriz que deu de mamar aos dois meninos ocasionou o rumor comum em tôrno dessa fábula, por causa da ambigüidade de sua significação, porque os Latinos chamam pelo mesmo nome de Lupas, isto é, lôbas, às fêmeas dos lôbos e às mulheres que abandonam o corpo a todos os que aparecem, como fazia aquela nutriz, mulher de Fáus-tulo, que levou as crianças para casa. Chamava-se ela por seu nome direito Aca Larência, a quem os Romanos ainda hoje sacrificam; e lhe oferece o pres-bítero de Marte, no mês de abril, as efusões de vinhô e de leite que se usam nos funerais; e a festa mesma tem o nome de Larência. 33 bem verdade que êles

 

(3) E água misturada com mel não está no grego. C.

honram ainda outra Larência, em tal ocasião. O sacristão do templo de Hércules, não sabendo um dia em que passar o tempo, como é verossímil, convidou de coração alegre o deus a jogar os dados com ele, sob a condição de que, se ganhasse, Hércules teria de enviar-lhe alguma felicidade; e, se perdesse, prepararia muito bem um jantar para Hércules e lhe conduziria uma bela mulher para deitar-se com ele. Assim articuladas as condições do jôgo, o sacristão lançou os dados primeiro para Hércules e depois para si mesmo. Aconteceu que Hércules ganhou, e o sacristão, reconhecendo de boa-fé e estimando ser razoável o cumprimento do pacto que êle próprio fizera, preparou um belo jantar e alugou essa cortesã Larência, que era muito bela, mas ainda não famosa; e, tendo festejado dentro do templo mesmo, ali fêz descer um leito e a encerrou dentro dele, como se Hércules devesse vir deitar-se com ela; e dizem que na verdade êle veio e lhe ordenou que ela fôsse de madrugada para a rua, saudando o primeiro homem que encontrasse e retendo-o como amigo. Ela assim fêz e encontrou primeiro certo Tarrúcio, homem já muito idoso, que havia acumulado muitos bens e não tinha filhos, bem como nunca fôra casado. Êle se ligou a essa Larência e de tal maneira a amou que mais tarde, vindo a morrer, a fêz herdeira de vários bens importantes, a maior parte dos quais ela mesma deixou por testamento ao povo Romano; e dizem que, sendo então muito famosa e honrada, como sendo aquela que se estimava ser a amiga de um deus, desapareceu no mesmo lugar onde fôra enterrada a primeira Larência. O lugar chama-se hoje Velabro, do mesmo modo que o rio que aí vem desembocar e freqüentemente se era constrangido a passar de barco para ir por êsse lugar até à rua, tendo-se dado o nome de Velatura a essa maneira de passar de barco. Dizem outros que aquêles que realizavam jogos e passatempos públicos, para ganhar o favor do povo, tinham o costume de cobrir de véus e de telas a passagem pela qual se vai da praça às liças (4) onde se realizam as corridas de cavalos, que tiveram começo naquele lugar; e os Romanos, em sua língua, dão a um véu o nome de velum. Eis a causa pela qual aquela segunda Larência é honrada em Roma.

VII. Fáustulo, pois, mestre porqueiro de Amúlio, roubou os dois meninos sem que ninguém soubesse nada, conforme dizem uns, ou, como contam outros com mais semelhança de verdade, após haver disso Numitor tomado conhecimento e inteligência, pois secretamente forneceu dinheiro aos que os nutriram. Pois dizem mesmo que foram levados para a cidade dos Gábios, onde aprenderam as letras e tôdas as outras cpisas honestas que se costuma mandar ensinar às crianças de boa e nobre casa; e dizem que se chamaram Remo e Rômulo porque foram

(4) O grande Circo.

encontrados mamando” na teta de uma lôba, Assim logo se mostrou a beleza de seus corpos e, somente de se lhes verem o talhe e os traços do rosto, viu-se também de que natureza seriam; mas, à medida que foram crescendo, a coragem lhes cresceu também, e tornaram-se homens seguros e ousados, de- sorte que não se perturbavam, nem se espantavam de modo algum com qualquer perigo que se lhes apresentasse diante dos olhos. Todavia, afigurava-se que Rômulo tinha mais senso e entendimento do que o irmão, pois em todas as coisas que precisavam decidir com os vizinhos, no tocante à caça ou aos limites das pastagens, dava evidentemente a conhecer que nascera para comandar e não para obedecer. Por isso, eram ambos muito estimados por seus semelhantes e por aqueles de mais baixa condição do que êles; mas, quanto aos que tinham a superintendência dos rebanhos do rei, disso não faziam êles conta, dizendo que em nada eram melhores do que êles, sem preocupar-se com as suas fúrias nem com as suas ameaças; antes se entregavam a todos os exercícios e a tôdas as ocupações honestas, não estimando que viver em ociosidade e sem trabalhar fôsse coisa bela nem boa, bem ao contrário de exercitar e endurecer o corpo em caçar, correr, combater os bandidos, perseguir os ladrões e socorrer aqueles aos quais se fizesse mal. Por essas razões, tornaram-se em pouco tempo muito famosos; e, quando ocorria algum debate ou diferença entre os pastores de Amúlio e os de Numitor, de maneira que os de Numitor ameaçassem pela força parte do gado dos outros, êles não podiam tolerá-los, mas os perseguiam e derrotavam; e, após os pôr em fuga, reconduziam a maior parte dos animais que êles haviam levado; com isso muito se enfurecia Numitor, mas êles não se preocupavam e, ao contrário, reuniam em torno de si grande número de vagabundos sem lar nem lugar, e servos fugitivos que êles próprios incitavam, dando-lhes ousadia e coragem para escaparem dos senhores.

VIII. Mas um dia, enquanto Rômuío estava impedido em algum sacrifício, porque era homem devoto, gostava de sacrificar aos deuses e se empenhava na arte de adivinhar e predizer as coisas futuras, os pastores de Numitor encontraram casualmente Remo mal acompanhado: precipitaram-se então subitamente sôbre êle e houve golpes dados e gente ferida de uma parte e outra; todavia, os de Numitor foram por fim os mais fortes e, tomando-o consigo, levaram-nos imediatamente à presença de Numitor, e alegaram várias queixas e acusações contra êle. Numitor não ousou mandar puni-lo com sua autoridade privada, porque lhe temia o irmão, que era homem terrível; mas foi perante êle e pediu-lhe com grande instância que lhe fizesse justiça, não permitindo que êle, que era seu próprio irmão, fôsse assim ultrajado por sua gente. Não havia aquêle na cidade de Alba que não achasse muito mau o agravo de Numitor dizia haver-lhe sido feito e que não dissesse publicamente que não era um personagem que se devesse assim ofender; de maneira que Amúlio, levado por essas razões, entregou-lhe nas mãos Remo, para puni-lo tal como bem lhe parecesse. Por isso, levou-o Numitor consigo, mas, ao chegar em casa, pôs-se a considerar melhor, e não sem admiração, aquêle belo jovem que em altura e em fôrça corporal ultrapassava todos os outros; e, per cebendo-lhe no rosto uma segura constância, uma ousadia e firmeza de coragem tais que não se dobrava nem se espantava por nenhum perigo que visse diante dos olhos, e ouvindo também contar suas obras e feitos correspondentes ao que via, mas principalmente, em minha opinião, incitado por alguma secreta inspiração dos deuses, que lançavam o fundamento de grandes coisas, começou, parte por conjectura e parte por casualidade, a suspeitar da verdade: perguntou-lhe, assim quem era e quem eram seu pai e sua mãe, falando-lhe com voz mais doce e semblante mais humano do que antes, para assegurá-lo e dar-lhe boa esperança.

IX. Remo respondeu-lhe ousadamente: «Certamente não te ocultarei nada da verdade, pois me pareces, senhor, mais digno de ser rei que teu irmão Amúlio, porque inquires e escutas, antes de condenar, e êle condena antes de ouvir as partes. Até aqui nós pensamos ser filhos de dois servidores do rei, a saber, Fáustulo e Larência; digo nós, porque so-mos dois irmãos gêmeos. Mas, depois que falsamente nos acusaram junto a ti e por tais calúnias nos puseram injustamente em perigo de vida, ouvimos dizer coisas estranhas de nós, das quais o perigo era que estamos presentemente esclarecerá a verdade; pois dizem que fomos engendrados miraculosamente, e nutridos e aleitados de modo ainda mais estranho, tendo sido nos primeiros dias de nossa infância alimentados pelos pássaros e pelos animais selvagens aos quais nos expuseram como prêsa. Pois uma lôba nos deu de mamar (dizem) e um picanço nos levou migalhas à bôca na beira do grande rio onde tínhamos sido lançados dentro de uma tina, a qual ainda hoje está inteira, bandada de lâminas de cobre, sobre as quais há algumas letras gravadas e meio apagadas que porventura servirão um dia de insígnias de reconhecimento inúteis para os nossos pais, quando não mais houver tempo para isso, após havermos sido destruídos.» Numitor, pois, relacionando essas palavras ao tempo e à idade que o jovem mostrava ter, ao considerar-lhe o rosto, não rejeitou a esperança que lhe sorria, mas fêz de sorte que achou meio de a êsse respeito falar secretamente à filha; a qual então estava ainda estreitamente guardada.

 

X. Nesse ínterim, Fáustulo, advertido de que Remo estava prisioneiro e de que o rei o entregara às mãos de seu irmão Numitor, para fazer justiça, foi solicitar a Rômulo. que o socorresse, dando-lhe então a entender de quem êles eram filhos, porque antes nunca lhes havia dito senão em palavras cobertas e não lhes declarara isso senão de passagem, só na medida bastante para elevar-lhes um pouquinho o coração; e foi então quando, tomando êle próprio a tina, saiu apressadamente à procura de Numitor, muito assustado com o perigo presente em que pensava achar-se Remo. Isso deu motivo a suspeita entre os guardas do rei que estavam à porta da cidade, e ainda mais suspeito se tornou êle quando se perturbou no responder aos interrogatórios que lhe fizeram, com o que se descobriu a tina que trazia sob o manto. Ora, havia por acaso, entre êsses guardas, um que era aquêle ao qual as crianças tinham sido entregues para que lhes desse sumiço e estivera presente quando foram expostas à mercê da fortuna: reconhecendo a tina, tanto pela forma como pelas letras gravadas em cima, desconfiou incontinent! do que era verdadeiro. Assim, não desprezou a coisa, mas foi comunicá-la ao rei, levando Fáustulo em sua companhia, para fazê-lo confessar a verdade. Fáustulo, achando-se nessa perplexidade, não pôde manter-se de todo invencível que não confessasse alguma coisa, mas também não se deixou levar de todo: pois reconheceu que as crianças estavam vivas, mas disse que bem longe da cidade de Alba, onde se vigiavam os animais nos campos; e, quanto à tina, ia levá-la a Ília, porque ela por várias vezes pedira que a deixasse ver e tocar, a fim de melhor poder assegurar-se de sua esperança, que lhe prometia que reveria um dia os filhos.

XI. Assim aconteceu a Amúlio o que ordinariamente acontece aos que se perturbam e que fazem alguma coisa por medo ou cólera: ficou tão aturdido que mandou um emissário, homem de bem e grande amiga de seu irmão Numitor, perguntar-lhe se ouvira dizer que os filhos de sua filha estavam vivos. Êsse personagem, chegando à residência de Numitor, encontrou-o quase a ponto de abraçar e beijar Remo, e por seu testemunho lhe confirmou sua esperança, recomendando-lhe ainda que pusesse prontamente mãos à obra; e desde então ficou do seu lado.

XII. De outra parte, também a ocasião não lhes dava lazer para diferirem a emprêsa, ainda que o tivessem querido, pois Rômulo já estava muito perto da cidade e iam juntar-se a êle vários cidadãos de Alba, que temiam ou odiavam Amúlio; além dêsses, levava êle ainda bom número de combatentes distribuídos por centenas, cada uma das quais era conduzida por um centenário que marchava à frente da tropa levando um feixe de erva ou de madeira miúda, ligado à extremidade de uma percha. Os Latinos chamam a êsses feixes manípulos, de onde vem que ainda hoje, em um exército de Romanos, os soldados que estão sob a mesma insígnia se denominam manipulares. Assim, com Remo solicitando os de dentro da cidade e Rômulo conduzindo gente de fora, viu-se o tirano Amúlio tão perturbado e ame-drontado que, sem prover-se de alguma coisa que lhe pudesse ser salutar, foi surpreendido em palácio e morto. Eis como aproximadamente o relatam Fábio Pictor e Díocles de Peparetos, que em minha opinião foi o primeiro que escreveu sôbrè a fundação da cidade de Roma; todavia, há os que estimam tratar-se inteiramente de fábulas e contos recreativos. Parece-me, porém, que não se deve rejeitá-los nem descrer de todo, se queremos considerar os estranhos efeitos muitas vezes provocados pela fortuna e também a grandeza do império Romano, o qual jamais teria atingido a potência em que se acha atualmente se os deuses nisso não se tivessem envolvido desde o comêço e se êle não tivesse tido alguma origem estranha e um miraculoso fundamento.

XIII. Tendo assim Amúlio sido morto, depois que tôdas as coisas se acalmaram e foram repostas em boa ordem, Remo e Rômulo não quiseram ficar na cidade de Alba não sendo seus senhores, nem tampouco assenhorear-se dela enquanto o avô materno fôsse vivo. Porque, após o terem reposto em seu estado e terem feito à sua mãe a honra que lhe cabia, propuseram-se construir uma cidade no lugar onde primeiramente haviam sido nutridos; pois era a mais honesta côr que podiam tomar para partirem de Alba; mas acontecia que eram constrangidos a fazê-lo, quisessem ou não, por causa do grande número de banidos e servos fugitivos que se haviam reunido em tôrno dêles, nos quais consistia tôda a sua força, a qual se perderia se acaso debandassem e partissem sem êstes homens. Assim, era preciso que habitassem à parte, em algum lugar separado, para retê-los: pois que seja verdade que os habitantes da cidade de Alba não queriam que tais banidos e fugitivos se misturassem entre êles, nem recebê-los em sua cidade para serem seus concidadãos, aparece logo pelo fato de haverem tais proscritos roubado mulheres: o que não fizeram por insolência, antes por expressa necessidade, pois não achavam quem lhas quisesse entregar, o que se pode conhecer porque, muito honraram àquelas que foram roubadas. Ademais, quando sua cidade começou um pouco a tomar pé, fizeram um templo de refúgio para todos os aflitos e fugitivos, que êles chamaram de templo do deus Asileu (5), onde havia liberdade para tôda espécie de gente que. pudesse alcançá-lo e nêle ingressar: pois não entregavam o escravo fugitivo ao senhor, nem o devedor ao credor, nem o homicida ao justiceiro, alegando por tôda defesa que o oráculo de Apoio em Delfos, lhes prescrevera expressamente que dessem liberdade e segurança a todos os que recorressem aos gêmeos; de maneira que em pouco tempo sua se diz que, na primeira fundação, não houve mais de mil casas, como diremos aqui depois.

(5) Havia um asilo e um templo. Mas Plutarco é o único que fala de um deus Asilo.

XIV. Quando se veio pois a fundar sua cidade, os dois irmãos debateram juntos sôbre o lugar em que devia ser erguida, por isso que Rômulo construiu o que se chama Roma quadrada e quis que ela ficasse no lugar que escolhera; mas Remo, seu irmão, escolheu outro lugar assentando sôbre o monte Aventino, que em seu nome foi chamado Remônio e agora se chama Rignário; afinal, puseram-se de acordo decidindo a divergência pelo vôo dos pássaros que dão feliz presságio das coisas vindouras. Tendo-se assim sentado em diversos lugares à parte para contemplá-los, dizem que apareceram a Remo seis abutres e a Rômulo doze. Dizem outros que Remo verdadeiramente viu seis e que Rômulo fingiu no comêço ter visto duas vêzes tanto; mas que, quando Remo se achegou a êle, então é que em verdade lhe apareceram doze. É a causa pela qual os Romanos até hoje, nas significações e prognósticos do vôo dos pássaros, observam muito os abutres. Verdade é que o historiador Heródoto do Ponto escreve que Hércules se regozijava quando lhe aparecia um abutre no momento em que êle começava uma emprêsa; porque é no mundo o animal menos malfazejo, que não prejudica nem arruina coisa nenhuma que os homens semeiam, plantam ou nutrem; visto como se alimenta somente de carniça e não fere nem mata jamais o que tenha vida; do mesmo modo não toca nos pássaros mortos pela conformidade do gênero existente entre êles, ao passo que as águias, os mo-chos e os falcões assassinam, matam e comem aqueles mesmos que são de sua própria espécie; e, em suma, como diz Esquilo:

«Pode ser puro o pássaro que come
O próprio semelhante, em sua fome? »

Ademais, os outros pássaros estão sempre, por assim dizer, diante dos nossos olhos, e se nos apresentam ordinariamente onde o abutre é coisa bem rara e difícil de ver-se, pois não se encontra facilmente nos ares. O que deu ensejo a formarem alguns a falsa opinião de que os abutres são pássaros de passagem, provindo de algum país estranho, E os adivinhos sustentam que tais coisas que não são ordinárias e, se acontecem com muito pouca freqüência, não são naturais, antes enviadas miraculosamente pelos deuses para prognosticar alguma coisa.

XV. Quando Remo soube do engano a que seu irmão o induzira, enfureceu-se com razão; e, como Rômulo mandasse fazer um fôsso ao redor do recinto, que êle queria cercar de muralhas, não somente zombou disso com desprêzo, mas ainda impediu a obra e, por fim, à guisa de escárnio, saltou-lhe por cima: Em suma, tanto fêz que finalmente foi morto pela própria mão de Rômulo, como dizem uns, ou, como sustentam outros, pela mão de um dos seus homens, que se chamava Céler. Nessa contenda morreram também Fáustulo e seu irmão Plis-tino, que o ajudara a nutrir e criar Rômulo. Como quer que seja, esse Céler ausentou-se de Roma e se retirou para o país da Toscana; e dizem que por ele os homens prontos e decididos foram depois chamados Céleres, como entre outros Quinto Metelo, o qual após a morte de seu pai, tendo em poucos dias feito ver ao povo um combate de esgrimistas extremados, que os Romanos chamam de gladiadores, foi sobrenomeado Céler, porque os Romnos se maravilharam com o fato de haver êle podido fazer seus preparativos e em tão pouco tempo.

XVI. Entrementes, tendo Rômulo enterrado o irmão e seus dois nutridores no lugar que se chama Remônia, pôs-se a construir e fundar sua cidade, mandando buscar na Toscana homens que lhe enumeraram e ensinaram tôdas as cerimônias que precisava ali observar segundo os formulários existentes, exatamente como se fôsse algum mistério ou algum sacrifício. Assim fizeram logo de início uma fossa redonda no lugar que se chama agora Comício, dentro do qual puseram primícias de tôdas as coisas que os homens usam legitimamente como boas e naturalmente como necessárias; depois lançaram ali também um pouco da terra de onde cada um dêles tinha vindo e misturaram tudo (essa fossa tem em suas cerimônias o nome de Mundo, nome pelo qual os Latinos chamam também o Universo) e ao redor dessa fossa traçaram o recinto da cidade que desejavam edificar, exatamente com quem descreves-se um círculo ao redor de um centro. E, isso feito, o fundador da cidade toma uma charrua, à qual liga uma rêlha de bronze, e atrela-lhe um touro e uma vaca, e êle próprio, conduzindo a charrua por tôda a volta do recinto, faz um profundo sulco, enquanto os que o seguem têm o encargo de derrubar para dentro da cidade os torrões que a relha da charrua vai retirando e de não deixar por fora nenhuma volta. Êsse traço do sulco é o circuito que deve ter a muralha: o que êles chamam de Pomoerium (6) em latim, por um encurtamento de sílabas, como quem dissesse post murum, isto , atrás dos muros ou junto aos muros. Mas, no lugar onde pensaram fazer uma porta, tiram a rêlha e levam a churrua, deixando um espaço da terra sem lavrar: de onde vem que os Romanos estimam santo e sagrado todo o recinto das muralhas, excetuadas as portas, porque, se fossem sagradas e santificadas, ter-se-ia tomado consciência de por elas não levar nem trazer de fora da cidade alguma coisa que não são puras, embora necessárias à vida do homem.

XVII. Ora, sustenta-se que a cerimônia de fundação se realizou com certeza no dia vinte e um de abril, motivo por que os Romanos festejam ainda

(6) Eu expliquei numa Dissertação tudo o que respeita ao recinto de Roma: tamanho, população, desde os primeiros tempos até ao seu maior esplendor. Comparei sua população com a de Paris, Londres, Pequim. Vide Taciti Opera, tomo II página 375, edição in-4º.

êsse dia e lhe chamam festa da natividade de seu país; no qual dia não sacrificavam outrora coisa nenhuma que tivesse vida, estimando que era preciso que o dia consagrado ao nascimento da cidade ficasse puro e limpo, sem estar manchado nem contaminado de sangue; todavia, tinham êles, antes de Roma ser fundada, outra festa pastoral, que celebravam naquele mes. mo dia e denominavam Palília. São agora os começos dos meses dos Romanos inteiramente diferentes dos dos Gregos: assim é que se tem por certo que o dia no qual Rômulo fundou a cidade foi seguramente aquêle a que os Gregos chamam Trícada, isto é, o trigésimo, no qual houve eclipse da lua (7), que se estima ter sido visto e observado pelo poeta Antímaco, natural da cidade de Teos, no terceiro ano da sexta olimpíada (8)

XVIII. Mas, ao tempo de Marco Varro, homem douto e que lera tanto as antigas histórias como jamais nenhum outro Romano, havia um de seus amigos chamado Tarrúcio, grande filósofo e matemático, que se entregava ao cálculo da astrologia pelo prazer da especulação somente, no que era tido por excelente: propôs-lhe Varro o tema de procurar a hora e o dia do nascimento de Rômulo, coligindo-o

(7) E’ um êrro de Amyot: êle devia traduzir um eclipse do sol. A conjuração ecliptica da lua com o sol é que foi expressa no grego de Plutarco. Não pode haver eclipse da lua no trigésimo dia de um mês lunar.
(8) O ano 553 antes de Jesus Cristo.

como conseqüência de suas aventuras, exatamente como se faz nas resoluções de algumas proposições geométricas, porque dizem êles que por um mesmo artifício se pode predizer o que deve advir a um homem na vida, quando é conhecida a hora do nascimento; e conhecer também a hora do nascimento, quando se sabe o que lhe aconteceu na vida. Tarrú-cio, pois, fêz o que Varro lhe propôs e, tendo bem considerado as aventuras, os feitos e os gestos de Rômulo, quanto viveu e como morreu, tudo reunido e conferido em conjunto, pronunciou ousadamente que por certo êle fôra concebido dentro do ventre materno no primeiro ano da segunda olimpíada, no dia vinte e três do mês que o Egípcios chamam de Choeac (9) (que é o mês de dezembro), cêrca das três horas do dia, na qual hora houve eclipse total do sol (10); e que dali tinha saído aos vinte e um do mês de Tote, que é o mês de setembro, próximo do sol levante; e que Roma foi por êle fundada no dia nove do mês que os Egípcios chamam de Farmuti, que corresponde ao mês de abril, entre duas e três horas do dia, pois querem êles dizer que uma cidade tem sua revolução e seu tempo de duração prefixado, do mesmo modo que a vida do homem, e que se conhece isso pela situação dos astros no dia do

(9) O que está entre parênteses, nesta página, não figura no grego.
(10) O cálculo astronômico não dá eclipse solar neste dia, o que mostra ser falso o cálculo de Tarrúcio, seu nascimento. Essas coisas e outras semelhantes agradarão porventura mais aos leitores pela novidade e curiosidade de que ofenderão pela falsidade.

XIX. Mas, depois que fundou a cidade, dividiu primeiramente por tropas todos os que estavam em idade de pegar em armas. Havia em cada uma dessas tropas três mil homens a pé e trezentos a cavalo; e foram chamadas legiões, porque eram compostas de homens eleitos e escolhidos entre todos os outros, para combater; e o restante da comuna foi chamado Populus, o que vale tanto como dizer povo. Depois disso, criou cem conselheiros dentre os de mais aparência e os melhores da cidade, aos quais chamou Patrícios, e a tôda a companhia Senātus, que propriamente significa o conselho dos antigos. Assim foram chamados Patrícios, como querem alguns dizer, porque eram pais de filhos legítimos, ou, como estimam outros, porque podiam mostrar seus pais, o que poucos dos primeiros habitantes teriam podido fazer. Não é que se queria dizer que êsse nome lhes foi imposto de Patrocinium, que eqüivale a patronagem ou proteção, palavra da qual ainda hoje se usa com o mesmo significado, porque um daqueles que seguiram Evandro na Itália cha-mava-se Patrono, o qual era homem socorredor, que sustentava os pobres e pequenos, tendo por isso dado seu nome a êsse ofício de humanidade. Mais verossímil, contudo, parecer-me-ia dizer que Rômulo os teria assim chamado porque estimava que os mais graúdos e mais poderosos deviam ter cuidado e solicitude paternal para com os miúdos; além de que era para ensinar os pequenos a não terem mêdo da autoridade dos grandes, nem deplorarem suas honras e preeminência, mas a usarem de seu porte e favor nos negócios com tôda a benevolência, nomeando-os e tendo-os como pais; pois até hoje os estrangeiros dão aos do Senado o nome de senhores ou capitães, mas os naturais Romanos os chamam de Patres conscripti, que é um nome de grande honra e de grande dignidade, sem inveja. É verdade que no comêço êles foram chamados somente Patres, mas depois, porque houve vários acrescentados aos primeiros, passaram, a ser denominados Patres conscripti, como quem diria pais ajuntados, que é o nome mais venerável que se teria podido inventar para pôr diferença entre os senadores e o povo. Entrementes, êle separou ainda os outros cidadãos poderosos do povo baixo e miúdo, chamando a uns Patronos, que eqüivale a defensores e protetores, e a outros Clientes, que significa aderentes ou recebidos em salvaguarda; e criou entre êles uma admirável benevolência, que os ligou uns aos outros por diversas grandes obrigações recíprocas, porque os patronos declaravam aos seus aderentes asileis, defendiam-lhes as causas em julgamento, davam-lhes conselhos e tomavam em mãos todos os seus negócios; e reciprocamente também os aderentes faziam a côrte aos seus patronos, não somente prestando-lhes tôda a honra e reverência, mas também socorrendo-os com dinheiro para ajudá-los a casar as filhas ou a pagar as dívidas, se eram pobres; e não havia nem lei nem magistrado que pudesse constranger o patrono a dar testemunho contra o seu aderente ou segundo, nem o segundo contra o seu patrono; e depois, todos os outros direitos de aliança foram bem estabelecidos entre êles, exceto somente que se achou odioso e vil que os grandes e poderosos tomassem dinheiro aos pequenos.

XX. Mas já falamos bastante sôbre essa matéria: em suma, quatro meses (11) depois que a cidade foi fundada, assim como escreve Fábio, foi feito o rapto das mulheres; e alguns há que dizem ter sido Rômulo, o qual sendo homem belicoso por natureza e confiando em algumas profecias e respostas dos deuses, que o diziam predestinado, que sua cidade se tornaria muito grande e poderosa, elevando-se em guerras e acrescendo-se em armas, procurou essa côr para ultrajar os Sabinos; e que seja isso verdade, dizem êles que não mandou raptar muitas, mas trinta raparigas somente, como se pedisse mais ocasião de guerra do que tinha necessidade de casamentos: o que todavia não me parece verossímil. Mas, ao contrário, vendo que a cidade ficara incontinenti repleta de gente de tôda espécie, com muito poucas mulheres, porque era gente reunida de todos os países

(11) Dionísio de Halicarnasso e a maior parte dos historiadores colocam o rapto das Sabinas no quarto ano da fundação de Roma.

e a maior parte pobres necessitados que não se conheciam, de maneira que os seus vizinhos os tinham em grande desprezo e não se esperava que por muito tempo continuassem juntos, êle esperou por meio dêsse rapto que lhes fôsse dado entrar em aliança com os Sabinos e começar a misturar-se de algum modo com êles, quando as mulheres fossem tratadas com doçura. Assim empreendeu executar o rapto desta maneira: fêz primeiro correr por tôda parte o rumor de que encontrara o altar de um deus escondido dentro da terra, e a êsse deus chamaram Conso, ou porque fôsse um deus de conselho, e os Romanos ainda hoje em sua língua chamam Consilium ao conselho, e Cônsules aos primeiros magistrados da cidade, como quem dissesse Conselheiros, ou porque fôsse Netuno, sobrenomeado o Cavaleiro, ou ainda o Patrono dos cavalos, porque êsse altar está hoje dentro das grandes liças, coberto e oculto todo o resto do tempo, exceto quando se fazem os jogos das corridas de cavalos. Dizem outros que porque é preciso que um conselho seja ordinariamente mantido secreto e coberto, êles emprestaram à boa causa êsse altar do deus Conso, oculto dentro da terra; mas, quando foi descoberto, Rômulo fez um sacrifício de magnífica alegria e mandou publicar por tôda parte que ém certo dia prefixado se realizariam em Roma jogos públicos e se faria uma festa solene, onde todos os que desejassem comparecer seriam recebidos. Grande multidão de povo ali acorreu de tôdas as partes; e assentou-se êle no mais honroso lugar das liças, vestido cora uma bela túnica de púrpura, acompanhado dos principais homens da cidade ao redor de si, e tinha dado o sinal para começar o rapto, quando se levantou de súbito, dobrou uma aba de sua túnica e depois a desdobrou. Seus homens estavam de atalaia, armados de espadas; e, logo que perceberam o sinal, puseram-se a correr de um lado para outro, empunhando as espadas, com grandes gritos, e raptaram e levaram as jovens Sabinas, deixando fugir os homens, sem causar-lhes outro desprazer. Dizem alguns que houve somente trinta raptadas, cujos nomes foram dados às trinta linhagens do povo Romano; todavia, Valério Âncio escreve que houve quinhentas e vinte e sete; e Juba, seiscentas e oitenta e três. Grandemente notório, como descargo de Rômulo, é que êle tomou apenas uma, chamada Hersília, a qual depois foi causa de mediação e acordo entre os Sabinos e os de Roma: o que mostra não ter sido para fazer injúria aos Sabinos, nem para satisfazer nenhum desordenado apetite, que êles empreenderam êsse rapto, antes para conjugar dois povos entre si com os mais estreitos laços existentes entre os homens. Essa Hersília, como dizem alguns, foi casada com um Hostílio, o mais nobre que então havia entre os Romanos, ou, como escrevem outros, com o próprio Rômulo, que teve dela dois filhos: o primeiro foi uma filha com o nome de Prima, porque era a primeira; o outro foi um filho que se chammou Aólio, por causa da aglomeração de povo que reunira em sua cidade, e depois foi sobrenomeado Abílio. Assim escreve Zenódoto de Trezena: no que, todavia, vários o contradizem.

XXI. Mas, entre os que raptavam então as jovens Sabinas, dizem que houve algumas pessoas de pequeno estado, que dentre elas retiraram uma maravilhosamente bela e robusta. Encontraram êles casualmente em seu caminho alguns dos principais da cidade, que lha quiseram tirar pela fôrça; e, como , o tivesem feito, puseram-se a gritar que a levavam a Talássio (12), jovem bem estimado e querido de todos, porquanto, ao ouvirem os outros que era para êle, fizeram grande festa e os louvaram por isso; de sorte que houve alguns que voltaram sem mais aquela com êles e os acompanharam por amor a Talássio, gritando em altas vozes e repetindo freqüentemente seu nome: de onde veio o costume de até hoje em suas núpcias os Romanos cantarem Talássio, exatamente como os gregos cantam Himeneu, porque se diz que êle foi feliz por ter encontrado essa mulher Mas Séxtio Sila de Cartago, homem de gentil espírito e de bom saber, disse-me outrora que era o grito e o sinal que Rômulo dera à sua gente para começar o rapto: naquela ocasião, os que roubavam iam gritando essa palavra Talássio, e daí ficou o costume de ser cantado ainda nas núpcias. Todavia, a

(12) No grego, Talásio.

maior parte dos autores, do mesmo modo que Juba, estima que se trate de uma admoestação, para advertir as recém-casadas a pensar em fazer bem a sua tarefa de fiar, a que os Gregos dão o nome de Talássia (13), não existindo ainda na época as palavras italianas misturadas entre as gregas. E, se isso é verdade, que então os Romanos usassem desse têrmo Talássia como nós outros Gregos, poder-se-ia por conjectura dar outra razão na qual haveria mais aparência: pois, quando os Sabinos, após a batalha, fizeram a paz com os Romanos, puseram êles no tratado, em favor das mulheres, um artigo pelo qual elas não seriam obrigadas a servir os maridos em outro mister senão o de fiar a lã. Daí veio depois o costume de que aquêles que dão suas filhas em casamento, ou que conduzem as recém-casadas, ou que estão presentes às núpcias, gritam por brincadeira aos recém-casados, rindo, Talássio como que testemunhando que a esposa é conduzida para a casa do marido não com o encargo de outro serviço que o de fiar a lã.

XXII. Daí ficou também até hoje o costume de que a recém-casada não atravessa por si mesma a soleira da porta da casa do marido, mas a levam para dentro, por isso que então as Sabinas foram assim raptadas e levadas pela força, E dizem ainda que o costume de repartir os cabelos das recém-casadas

(13) No grego, Talásia.

com o ferro de uma lança vem também daí, sendo sinal de que essas primeiras núpcias se realizaram pela força das armas e, por assim dizer, à ponta de espada, como escrevemos mais amplamente no livro em que damos as cousas das maneiras de agir e costumes de Roma. Êsse rapto foi executado aproximadamente no dia dezoito do mês que então se chamava Sextil e agora se denomina Augusto: dia no qual é ainda celebrada a festa que tem o nome de Consália.

 

XXIII. Ora, eram bem os Sabinos homens de guerra e tinham povo grandemente numeroso, mas habitavam pequenos burgos não cercados de muralhas, sendo coisa pertinente à sua magnanimidade não temer nada, como aquêles que descendiam dos Lecedemônios; todavia, vendo-se penhorados e obrigados através de reféns que lhes ficavam tão perto, e temendo que suas jovens fossem maltratadas, enviaram embaixadores a Rômulo, por intermédio dos quais lhe fizeram ofertas e observações muito razoáveis: «Que mandasse entregar-lhes as jovens sem usar de fôrça nem de violência; e depois mandasse pedi-las em casamento aos pais, assim como a razão e as leis o exigiam, a fim de que, por vontade e consentimento das partes os dois povos viessem a contratar amizade e aliança recíprocas». Ao que respondeu Rômulo que não entregaria as jovens que sua gente raptara mas pedia com empenho aos Sabinos que tratassem de ter por agradável sua aliança»

(14) Essa festa, que se chamava Consuália, é marcada para o dia 13 do mês de agosto, nos antigos calendários romanos.

XXIV. Ouvida essa resposta, enquanto os outros príncipes e comunais dos Sabinos se entretinham em consultar e em preparar-se, Ácron, rei dos Cênicos, homem corajoso e bem entendido em matéria de guerra, e que desde o comêço suspeitara das ousadas emprêsas de Rômulo, vendo ainda de novo êsse rapto das jovens, estimou que êle devia já ser temido por todos os vizinhos, não sendo tolerável que não fôsse castigado. Foi assim o primeiro que marchou contra êle, para fazer-lhe a guerra com um poderoso exército. Rômulo, do outro lado, lhe foi também ao encontro. Quando ficaram tão perto um do outro que puderam entrever-se, desafiaram-se reciprocamente a combater de homem para homem no meio de seus dois exércitos, sem que êstes se mexessem. E Rômulo dirigindo a Júpiter sua prece, prometeu-lhe e votou que lhe faria oferenda das armas do inimigo, se êle lhe desse a graça de o derrotar. Assim o fêz, pois o matou em seguida e depois deu batalha à sua gente, desbaratando-a, e afinal tomou-lhe a cidade, onde não causou mal nem desgosto algum aos que encontrou no interior, senão que lhes ordenou a demolição e destruição de suas casas, para irem habitar em Roma, onde teriam todos os mesmos direitos e os mesmos privilégios que os primeiros ha-bitantes. Não há nada que tenha mais aumentado a cidade de Roma do que essa maneira de juntar e incorporar sempre consigo os que vencia.

XXV- Mas Rômulo, querendo cumprir seu voto, de sorte que sua oferenda fôsse muito agradável a Júpiter e muito deleitável aos olhos de seus cidadãos, cortou uma bela, grande e direita carvalheira afortunadamente encontrada no lugar onde seu acampamento estava situado e enfeitou-a em forma de troféu, pendurando e ligando em volta, pela ordem as armas do rei Ácron; depois, cingiu a túnica e, pondo uma coroa de louros por cima de sua longa peruca (15), carregou sôbre o ombro direito a carvalheira, com a qual se pôs a marchar para a frente, na direção de sua cidade, começando a entoar uma canção real de vitória, seguido por todo o exército em armas até dentro de Roma, onde os concidadãos o receberam com grande alegria e grandes louvores. Essa pomposa entrada deu comêço e reputação para se fazer desejar, aos triunfos que se fizeram depois, mas a oferenda do troféu foi dedicada a Júpiter sobrenomeado Ferétrio, porque essa palavra latina Fe rire significa bater e matar; e a prece que havia Rô mulo feito era que ele pudesse ferir e matar o inimigo. -Tais despojos se chamam em latim Spolia opima, por isso que, diz Varro, Opes significa riqueza; todavia,

(15) E’ o nome que se dava, no tempo de Amyot, a umu longa cabeleira.

mais verossímil me pareceria dizer que tinham sido chamados por essa palavra opus, que significa obra ou ato, porque é preciso ser o próprio chefe do exército, que matou com sua própria mão o comandante-chefe dos inimigos, para poder oferecer tal oblata de despojos, que se chama Spolia opima, como quem dissesse despojos principais. O que ainda não aconteceu senão a três capitães romanos somente: dos quais o primeiro foi Rômulo, que matou Ácron, rei dos Cênicos; e segundo foi Cornélio Cosso, que matou Tolumnio, capitão-geral dos Toscanos; e o terceiro foi Cláudio Marcelo , que com sua mão abateu Britomarto, rei dos Gauleses. E, quanto aos dois últimos, Cosso e Marcelo, entraram êles na cidade levando os troféus sôbre carrêtas triunfantes: mas Rômulo, não. E, portanto, falhou nesse ponto o historiador Dionísio, ao escrever que Rômulo entrou em Roma sôbre uma carrêta de triunfo: pois foi Tarqüínio, filho de Demarato, o primeiro que elevou os triunfos a essa soberba magnificência; sustentam outros que foi Valério Publícola quem entrou primeiro em cima de uma carrêta triunfal. Quanto a Rômulo, vêem-se ainda em Roma suas estátuas levando êsse troféu inteiramente a pé.

XXVÏ. Após essa luta dos Cênicos, os habitantes das cidades de Fidena, Crustumério, Antemnas, bandearam-se todos contra os Romanos, enquanto os outros Sabinos ainda se preparavam. Assim houve batalha, na qual êles foram derrotados; e abandonaram suas cidades em poder de Rômulo e suas terras para repartir a quem êle quisesse, deixando-se êles próprios transportar para Roma. Rômulo distribuiu as terras a seus cidadãos, exceto as que pertenciam aos pais das jovens raptadas. Pois quis que êstes as retivessem. Gravemente indignados com isso, os outros Sabinos elegeram capitão-general um chamado Tácio e avançaram com um poderoso exército até à cidade de Roma, a qual era então de difícil acesso, tendo por terrapleno o castelo onde está hoje o Capitólio; e havia dentro uma grande guarnição de que era comandante Tarpéio, e não sua filha Tarpéia, como querem alguns dizer, fazendo de Rômulo um tolo; mas a filha do camandante, Tarpéia, vendeu a praça aos Sabinos, por desejar possuir os braceletes de ouro que êles traziam em volta dos braços; e pediu-lhes para alugar a traição, o que êles levavam nos braços esquerdos. Tácio lho prometeu, e ela, à noite, abriu-lhes uma porta pela qual introduziu os Sabinos no castelo. Antígono, pois, não ficou só, ao dizer que amava os que traíam e odiava os que haviam traído; nem César Augusto, que disse a Remetalces da Trácia que amava a traição, mas odiava os traidores: é antes uma comum afeição que se tem pelos maus enquanto se tem negócio com êles, exatamente com os que têm negócio com o fel e o veneno de alguns animais venenosos, pois ficam satisfeitos quando os encontram e os tomam para servirem-se dêles em seus desígnios; mas, uma vez atingido o que desejavam, odeiam-lhes a malícia. Assim fez então Tácio: pois, quando se viu dentro da fortaleza, ordenou aos Sabinos que, de acordo com a promessa que fizera a Tarpéia, não lhe poupassem nem retivessem nada de tudo quanto traziam nos braços esquerdos; e, tirando primeiro êle próprio de seu braço o bracelete que levava, atirou-lho assim como depois o escudo: todos os outros fizeram outro tanto, de sorte que, lançada por terra a golpes de braceletes e de paveses, ela morreu sufocada pelo fardo; todavia, Tarpeio foi também atingido e convencido de traição no processo de Rômulo, como diz Juba que Sulpício Galba. escreveu. Entrementes, os que de outro modo escrevem sôbre essa Tarpéia, dizendo que era filha de Tácio, comandante dos Sabinos, e que era forçada a deitar-se com Rômulo; e que, após haver feito a traição que descrevemos, foi assim, punida pelo próprio pai — êsses, digo eu, entre os quais está Antígono, não merecem nenhum crédito. E ainda mais sonha o poeta Símile, ao dizer que Tarpéia vendeu o Capitólio, não aos Sabinos, mas ao rei dos Gauleses, do qual se enamorara; e o diz nestes versos:

Tarpéia (16), a jovem que morava então
No alto do Capitólio, à traição
Fêz tomar Roma, pela cupidez
(16) Nas Observações se encontrará uma tradução mais fiei dêsses dois fragmentos.
De ter um dia o amor do rei Gaulés, Ao qual, naquela fútil esperança, Entregou de seu pai a própria herança.
E, um pouco depois, falando da maneira de sua morte, diz ainda:
Mas os Gauleses, que na praça entraram,
Dentro do Pó o corpo não lançaram,
Preferindo cobri-lo belicosos,
Com seus belos broquéis, tão numerosos
Que dessa forma a pobre criatura
Debaixo dêles teve sepultura.

Essa jovem, pois, tendo sido enterrada no mesmo lugar, todo o monte foi mais tarde chamado Tarpéio e conservou esse nome até que o rei Tarqüínio dedicou tôda a praça a Júpiter, pois então foram transportados seus ossos para outro lugar, e mudou seu nome; de modo que ainda hoje se dá a uma rocha situada nesse monte de Capitólio o nome de Rupes Tarpeia (17), da qual era costume antigamente precipitar embaixo os malfeitores.

XXVII. Quando, pois, os Sabinos ficaram senhores da fortaleza, Rômulo se encolerizou e mandou desafiá-los a entrarem em batalha: o que Tácio não recusou, vendo que, se porventura fossem forçados, tinham uma segura retirada, pois o lugar en-

(17) Rocha Tarpéia

tre os dois exércitos, no qual deviam combater, era em tôda a volta cercado de pequenas montanhas; de sorte que era aparente que o combate ali seria áspero e penoso, por causa da incomodidade do lugar, no qual não se poderia nem fugir nem repelir para longe, tão constrita era a praça. Ora, acidentalmente, alguns dias antes o rio Tibre transbordara, daí resultando um atoleiro mais profundo do que parecia visto de cima, porque ficava em lugar plano, no ponto mesmo onde está a grande praça de Roma: tal não se reconhecia à primeira vista, porque a parte superior formava uma crosta, de modo que era fácil cair dentro e difícil sair, pois a parte inferior afundava. Assim, teriam os Sabinos dado diretamente dentro, não fôra o perigo por que passara Cúrcio, que afortunadamente os livrou disso. Era êle um dos mais nobres e mais valentes homens dos Sabinos, e tendo montado um corcel, marchava bem distante, em frente à tropa dos outros. O corcel foi lançar-se dentro do atoleiro e êle, que estava em cima, sentindo-o afundar, tratou logo de o fazer sair dali, à força de o picar e fatigar; mas, por fim, vendo que não podia livrar-se, deixou-o e se salvou. O lugar onde isso aconteceu é ainda hoje chamado por seu nome, Lacus Curtius. Os Sabinos, pois, evitando esse perigo, começaram a batalha, que foi áspera e durou longamente, sem que a vitória se inclinasse mais para uma parte do que para a outra; e, não obstante, houve grande número de mortos, entre os quais Hostílio, que se diz ter sido marido de Hersília e avô de Hostílio, que foi rei dos Romanos após Numa Pompílio.

XXVII. Houve depois ainda vários outros recontros em poucos dias, como se pode imaginar; faz-se menção, porém, do último de todos, no qual Rômulo recebeu uma pedrada na cabeça, tão forte que pouco faltou para tombar por terra (18) e de tal maneira que foi constrangido a retirar-se um pouco para trás da refrega; nessa ocasião, os Romanos recuaram também e fugiram para o monte Palatino, tendo sido expulsos da planície. Rômulo começava já a refazer-se do golpe que recebera e quis retornar ao combate, gritando tanto quanto podia à sua gente, para que resistisse e fizesse face ao inimigo; mas nem por isso deixavam êles de fugir sempre ao longo da estrada, e não havia nenhum que ousasse voltar. Então, levantando as mãos para o céu, pediu a Júpiter que lhe permitisse deter a fuga de seus homens e não deixasse que os negócios dos Romanos se arruinassem daquela maneira, antes os restabelecesse. Bem não tinha acabado a prece, vários dos seus homens que escapavam começaram a ter vergonha de fugir diante do seu rei e de repente lhes veio uma segurança em lugar de mêdo, de sorte que pararam primeiramente no lugar onde é agora o templo de Júpiter Estator, o que vale tanto como dizer Parador; depois, zombando uns dos outros, repeliram os Sabinos até ao lugar que no presente se cha-

(18) O grego: como já não resistisse aos Sabinos, foi. C.

ma Régia e até ao templo da deusa Vesta, onde, como os dois batalhões se preparassem para recomeçarem a combater de novo, apresentou-se diante deles uma coisa estranha de se ver e mais maravilhosa do que poderia narrar, que os livrou disso. Pois os Sabinos que os Romanos tinham raptado acorreram, umas de um lado, outras de outro, com prantos, gritos e clamores, lançando-se através das armas e dos mortos que jaziam por terra, de maneira que pareciam fora de si ou possessas de algum espírito; e em tal estado foram encontrar seus pais e maridos, umas levando entre os braços filhinhos que ainda mamavam, outras descabeladas, e todas chamando ora os Sabinos e ora os Romanos, pelos mais doces nomes existentes entre os homens; o que enterneceu os corações de uns e de outros, de maneira que êles se retiraram um pouco e lhes fizeram praça entre as duas batalhas. Foram assim os seus gritos e lamentos ouvidos claramente por todos e não houve aquêle a quem elas não causassem grande piedade, tanto por vê-las em tal estado como por ouvir as palavras que diziam, acrescentando aos francos enunciados de suas razões as mais humildes preces e súplicas de que podiam advertir-se.

XXIX. «Pois que ofensa (diriam elas) ou que desgosto vos fizemos para merecermos tantos males que já sofremos e que nos fazeis ainda sofrer agora? Fomos violentamente e contra as leis raptadas por aquêles com quem estamos atualmente; mas nossos pais, nossos irmãos, nossos parentes e amigos nos abandonaram tão longamente que a extensão do tempo, tendo-nos ligado com os mais estreitos laços do mundo àqueles que odiávamos mortalmente, nos constrangeu agora a ter mêdo vendo combater e a lamentar vendo morrer os que então nos raptaram injustamente, Pois não viestes procurar-nos quando estávamos ainda intactas e retirar-nos das mãos dos que nos detinham iniquamente, e vindes agora para tirar as mulheres aos maridos e as mães às crianças, de sorte que a socorro que vós cuidais trazer-nos agora nos é mais penoso do que o abandono no qual então nos deixastes e que não foi tão doloroso: tal é a amizade que eles nos demonstraram e tal a piedade que tendes agora de nós. Se, pois, combatêsseis por alguma outra causa, diferente de nós, ainda seria razoável que cessásseis o combate por amor a nós, por quem vos fizestes sogros, avós, aliados e cunhados daqueles contra os quais combateis. Mas, se assim, é que tôda esta guerra não foi empreendida senão por nós, então vos suplicamos de todo o coração que nos queirais receber como vossos genros e netos, sem nos querer privar dos nossos maridos e dos nossos filhos, nem nos querer entregar cativas e prisioneiras mais uma vez.»

XXX. Ouvidas tais súplicas e reprimendas de Hersília e das outras damas Sabinas, os dois exércitos depuseram as armas e os dois chefes falaram um com o outro; durante o qual parlamento, elas conduziram os maridos e os filhos aos seus pais e irmãos, levaram de comer e de beber aos que o desejaram, pensaram os feridos e, introduzindo-os em suas moradias, mostraram-lhes como eram donas das casas de seus maridos e como êstes as- tinham em grande conta, prestando-lhes tôdas as honras com amizade conjugal; de maneira que, finalmente, houve um acordo pelo qual ficou estabelecido que as Sabinas que desejassem ficar com aquêles que as possuíam ali permanecessem, isentas de qualquer outra incumbência e de qualquer outro serviço, como dissemos antes, senão o de fiar a lã; e também que os Sabinos e os Romanos habitariam juntamente dentro da cidade, a qual seria chamada Roma, do nome de Rômulo; e os habitantes seriam chamados Quiri-tes, do nome (19) da cidade onde Tácio era rei dos Sabinos; e que ambos reinassem e governassem de comum acordo. O lugar onde se firmou tal pacto é ainda hoje chamado Comitium, porque Coíre (20), em linguagem latina, significa reunir-se. Assim aumentada a cidade da metade, ajuntaram-se cem novos patrícios Sabinos aos cem primeiros Romanos, e foram pois feitas as legiões de seus mil homens a pé (21 ) e de seiscentos a cavalo, e se distribuíram todos os habitantes em três linhagens, sendo os de Rômulo

(19) Chamavam-se Curetos os habitantes de Curos, antiga capital dos Sabinos. — N. do ed. bras.
(20) No grego: Comire.
(21) Vide as Observações, cap. XXX.

chamados Ramnenses, de seu nome; os do lado de Tácio, Tacienses; e os da terceira, Lucerenses, por causa do bosque ao qual acorreu grande número de pessoas de tôda espécie, desde que ali se deu livre acesso a todos os que vinham, os quais foram depois feitos cidadãos Romanos, pois em latim os bosques são chamados Lucos. Ora, que no começo houvesse em Roma três linhagens somente, e não mais, a própria palavra tribus, que significa linhagem, o testemunha, pois assim lhes chamam os Romanos ainda hoje, e tribunos aos seus chefes; mas cada uma dessas linhagens principais tinha sob si mais dez outras particulares, as quais alguns estimam haverem sido chamadas pelos nomes das damas Sabinas, mas isso é falso, porque várias trazem os nomes de alguns lugares.

XXXI. Todavia, houve várias coisas estabelecidas e ordenadas em honra das damas, como ceder-lhes e dar-lhes o lugar mais elevado quando encontradas pelo caminho; não dizer nada de sujo nem de desonesto em sua presença; não se despir (22) diante delas; não poderem ser chamadas à justiça perante os juizes criminais que conhecem dos homicídios; que seus filhos trouxessem ao colo uma espécie de baga que se chamava Bulla, por isso que é quase como essas garrafinhas que se formam em cima da água quando começa a chover; e que suas saias fossem bordadas de púrpura.

(22) No grego; não se mostrar nu, C,

XXXII. Assim não conferenciavam os dois reis logo que as questões sobrevinham, mas cada qual deliberava primeiramente à parte, com seus cem senadores, e depois se reuniam todos. Tácio residia no lugar onde é agora o templo de Juno Monēta, e Rômulo no lugar a que hoje se dá o nome de Degraus de bela margem, que ficam na descida do monte Palatino, assim como se vai ao parque das grandes liças (23), onde dizem que outrora estava a santa sorveira (24), do que se conta o seguinte: Rômulo, querendo um dia experimentar sua fôrça, atirou (dizem) ‘do monte Aventino até lá uma lança cujo cabo era de sorveira: o ferro penetrou de tal modo a terra, forte e gorda, que ninguém pôde arrancá-la, ainda que vários o tentassem e nisso pusessem todo o esforço. A terra, sendo própria para nutrir árvores, cobriu a ponta do cabo, que criou raiz e começou a dar ramos, de tal maneira que com o tempo se tornou uma bela e grande sorveira, que os sucessores de Rômulo cercaram de muralha em tôda a volta, reverenciando-a e preservando-a como coisa muito santa; e, se porventura, alguém ia vê-la e não ia achava fresca e verdejante, antes como árvore que vai fenecendo e secando por falta de nutrição, dizia-o amedrontado a todos os que encontrava, e êles, nem mais nem menos do que se tratasse de extinguir um fogo, iam gritando por tôda

(23) O grande Circo.
(24) No grego: cornalheira.

parte: «Água, água»; e de tôda parte se acorria com vasos creios de água, para regá-la e embebê-la. Mas, no tempo de Caio César, que mandou refazer esses degraus, os operários, segundo se diz, cavando e esburacando tudo à volta da sorveira, por desleixo lhe ofenderam as raízes, de modo que a árvore secou inteiramente.

XXXIII. Ora, receberam os Sabinos os meses dos Romanos, com referência aos quais escrevemos suficientemente na vida de Numa; mas também Rômulo usou de seus escudos e mudou o feitio das armas de que antes usavam tanto êle como seus homens: pois levavam pequenos escudos, à maneira dos Argianos. E, quanto às festas e sacrifícios, êles as comunicavam entre si, e não aboliram nenhuma daquelas que ambos os povos observavam antes, mas lhes acrescentaram outras novas, como a que se denomina Matronália (25), que foi instituída em honra das damas, porque estas haviam sido causa de se fazer a paz; e também a de Carmentália (26), a qual alguns estimam ser a deusa fatal, que domina e preside ao nascimento do homem, razão por que as mães a reclamam e a honram. Dizem outros que era a mulher de Evandro de Arcádia, a qual, sendo profe-

(25) Essa festa era celebrada no primeiro dia de março e no primeiro dia de abril.
(26) Celebrava-se em 11 de janeiro. Realizava-se ainda uma segunda festa a 15. Carmenta era a mãe e não a mulher de Evandro. O próprio Plutarco o diz nas Demandas Romanas, Dem. LVI.

tisa inspirada pelo deus Febo, transmitia os oráculos em versos, pelo que foi sobrenomeada Carmenta, porque Carmina em latim significam versos: pois é certo que seu próprio nome era Nicóstrata. Todavia, há quem dê outra derivação e interpretação mais verossímil a essa palavra Carmenta, como se fôsse Carens mente, que significa fora do senso, pelo furor que domina os que são inspirados de espírito profético. Pois em latim Carere significa ser privado e Mens significa o senso e o entendimento. Quanto à festa de Palília, falamos dela precedentemente (27); mas a de Lupercália (28), considerado o tempo no qual é celebrada, parece ter sido instituída para uma purificação, pois se realiza em dias desencontrados do mês de fevereiro, nome que, interpretado, significa o mesmo que purificativo; e ao dia em que era celebrada se dava antigamente o nome de Februata. Mas o nome próprio da festa vale tanto como dizer a festa dos Lôbos, causa pela qual parece ser muito antiga’, tendo sido instituída pelos Árcades que vieram com Evandro, conquanto o nome seja comum tanto às lôbas como aos lôbos, podendo ter sido imposto por causa da lôba que nutriu Rômulo, pois vemos que os que nesse dia correm pela cidade, chamados Luperci, começam a corrida no próprio lugar em que se diz ter sido Rômulo exposto. Mas então se fa~

(27) Vide o cap. XVII.
(28) Celebrava-se no dia 15 de fevereiro em honra do deus Pã, que se chamava Luperco porque afastava os lôbos, zem coisas cuja causa e origem seria bem difícil conjecturar: matam-se cabras e conduzem-se dois jovens de nobre casa, aos quais se toca a fronte com a faca tinta do sangue das cabras imoladas, e depois são eles enxugados com lã temperada no leite, e é preciso que os jovens se ponham a rir depois que lhes enxugam a fronte; isso feito, cortam-se as peles das cabras e com elas se fazem correias que eles tomam nas mãos, e vão correndo pela cidade inteiramente nus, tendo apenas um pano cingido diante da natureza; e batem com as correias nos que encontram em caminho; mas as jovens não os evitam, antes ficam satisfeitas quando são batidas, estimando que isso lhes. sirva para ficarem grávidas e darem à luz com facilidade. Há ainda outra particularidade nessa festa: é que os Lupercos, isto é, os que correm, sacrificam um cão. Mas um poeta chamado Butas, em certas elegias que escreveu, onde apresenta causas fabulosas para os costumes e cerimônias de Roma, diz que Rômulo, após haver derrotado Amúlio, pôs-se a correr, com grande alegria, no mesmo lugar em que a lôba dera de mamar a seu irmão e a êle; em memória dessa corrida, diz êle, a festa de Lupercália é celebrada, e jovens de nobre casa correm então pela cidade^ batendo e ferindo os que encontram no caminho, para recordar que Remo e Rômulo correram desde Alba até àquele lugar, tendo as espadas seguras nas mãos; e que se lhes toca a fronte com uma faca tinta de sangue, como lembrança do perigo de serem mortos em que então estiveram; e, depois de tudo, que se lhes enxuga a fronte com leite, para comemorar a maneira como foram aleitados. Mas Caio Acílio escreve que Remo e Rômulo antes de haver sido Roma construída, extraviaram um dia seus animais e, para procurá-los, após terem dirigido preces a Fauno, puseram-se a correr inteiramente nus em várias direções, de medo que o suor os impedisse; e que é a causa pela qual hoje os Lupercos correm inteiramente nus. E, se é verdade que tal sacrifício se faça para uma purificação, poder-se-ia dizer que êles imolam um cão com êsse fim, exatamente como os Gregos levam (29) para fora os cães e em vários lugares observam aquela cerimônia de expulsar os cães, o que tem o nome de Periscilacis-mos; ou melhor, se é para dar graças à lôba que alei-tou e evitou que Rômulo perecesse que os Romanos solenizam essa festa, não é sem propósito que se sacrifique um cão, porque é o inimigo dos lôbos; se porventura não se quisesse dizer que foi para castigar essa fera, que prejudica e impede os Lupercos quando êles correm.

XXXIV. Dizem também alguns que foi Rômulo o primeiro que instituiu a religião de guardar o fogo santo e que ordenou as virgens sagradas que se chamam Vestais; atribuem-no outros a Numa

(29) No grego: levam para fona os cães e observam ainda essa cerimônia, chamada Periscilacismo. Vide, como explicação dessa passagem, as Questões Romanas, Quest. 68. C.

Pompílio. Como quer que seja, é bem certo que êle foi homem muito devoto e bem entendido na arte de adivinhar as coisas futuras pelo vôo dos pássaros, que era a causa pela qual levava ordinariamente o bastão augurai, que em latim tem o nome de Lituus. É uma vêrga curvada pela extremidade, com a qual os adivinhos, quando se assentam para contemplar o vôo dos pássaros, designam e marcam as regiões do céu, Ficava cuidadosamente guardada dentro do palácio, mas se extraviou no tempo da guerra dos Gauleses, quando a cidade de Roma foi tomada; e, depois que os bárbaros foram expulsos, tornaram a encontrá-la intacta, segundo se diz, dentro de um alto montão de cinzas, sem que de nenhum modo estivesse prejudicada, ao passo que tôdas as outras coisas ao redor tinham sido consumidas ou arruinadas pelo fogo.

XXXV. Fez êle também algumas ordenanças, entre as quais uma existe que parece um pouco dura, a qual não permite que a mulher deixe o marido e dá licença ao marido para deixar a mulher quando acaso ela tenha envenenado os filhos, ou falsificado as chaves, ou cometido adultério; e, se por outro motivo a repudiasse, a metade dos bens era adjudicada à mulher e a outra à deusa Ceres; e mandava que aquêle que repudiasse a mulher sacrificasse aos deuses da terra. Mas isso é próprio e particular em Rômulo, que, não tendo estabelecido nenhuma pena contra os parricidas, isto é, contra os que matam o pai ou a mãe, chama contudo parricídio a todo homicídio, como sendo execrável um, e o outro impossível. Assim pareceu longamente que êle tinha razão de pensar que jamais tal maldade acontecesse, pois não se achou ninguém em Roma que cometesse tal crime no espaço de seiscentos anos; e o primeiro parricida foi Lúcio Óstio, depois da guerra de Aníbal. Mas já se falou bastante sôbre o assunto.

XXXVI. Entrementes, no quinto ano. do reino de Tácio, alguns de seus parentes e amigos encontraram incidentalmente em seu caminho alguns embaixadores vindos da cidade de Laurento a Roma, sôbre os quais se precipitaram e trataram de lhes tirar o seu dinheiro; e, porque êsses embaixadores não lho quisessem entregar, antes se puseram em defesa, êles os mataram. Assim cometido êsse vil delito, foi Rômulo avisado de que deviam imediatamente aplicar-lhes punição exemplar; mas Tácio a adiava, usando sempre de alguma desculpa, o que foi exclusivamente a causa de entrarem em dissensão aparente, pois até então se estavam comportando o mais honestamente possível um para com o outro, conduzindo e governando tôdas as coisas de comum acordo e consentimento. Mas os parentes daqueles que haviam sido mortos, vendo que não podiam obter justiça, por causa de Tácio, espiaram-no um dia em que êle sacrificava na cidade de Lavínio com Rômulo, e o mataram, sem nada pedir a Rômulo: antes o louvaram como príncipe direito e justiceiro. Rômulo fêz transportar o corpo de Tácio e o inumou muito honrosamente no monte Aventino, perto do lugar que se chama agora Armilústrio (30); mas, quanto ao resto, não deu mostra alguma de querer vingar-lhe a morte. Há historiadores que escrevem que os da cidade de Laurento, horrorizados com esse crime, entregaram-lhe os que o haviam cometido, mas que Rômulo os deixou ir embora, dizendo que um crime tinha sido justamente vingado por outro. Isso deu ocasião a que se dissesse e pensasse que êle ficara muito satisfeito por se ter livrado do companheiro; todavia, os Sabinos não se impressionaram com isso nem se amotinaram, ao contrário, uns pela amizade que já lhe dedicavam, outros por lhe temerem o poder e outros porque o adoravam como a um deus, perseveraram em prestar-lhe sempre tôda a honra e obediência.

XXXVII. Vários estrangeiros mesmo reverenciavam também a virtude de Rômulo, como entre outros, aquêles que então se chamavam os antigos Latinos, os quais lhe mandaram emissários e com êle trataram de fazer amizade e aliança. Êle tomou também a cidade de Fidena, que era muito vizinha de Roma; e dizem alguns que a ocupou de assalto, tendo enviado antes alguns homens a cavalo para romperem os gonzos que sustentavam as portas; e depois sobreveio com o remanescente do seu exército,

(30) Fazia-se ali uma festa e uma corrida militar no dia 19 do mês de outubro.

antes que os da cidade o suspeitassem. Escrevem outros que os Fidenatas correram e foram os primeiros a devastar seu país até aos subúrbios de Roma, onde causaram grandes males, mas que Rômulo levantou-lhes emboscadas no caminho, quando regressavam, matando grande número dēles; e assim tomou ainda sua cidade, a qual todavia não demoliu, antes fêz dela uma colônia, isto é, cidade dependente de Roma, para ali enviando dois mil e quinhentos (31 ) burgueses que a habitassem. O que fêz no dia treze do mês de abril, que os Romanos chamam de Idos. Algum tempo depois, surgiu em Roma uma peste tão violenta que os homens morriam súbita-mente, sem estarem doentes; a terra não produzia frutos, os animais não davam crias e choravam-se gotas de sangue (32) dentro da cidade; de tal maneira que, além dos males que é forçoso que os homens sintam em tais acidentes, ainda tinham êles um terror muito grande da ira e furor dos deuses. E, quando tal se viu acontecer aos habitantes da cidade de Laurento, então não houve aquêle que não julgasse que era expressa vingança divina que perseguia e afligia essas duas cidades, pelo assassínio cometido na pessoa de Tácio, e semelhantemente nas pessoas dos embaixadores que tinham sido mortos, Porque os homicídios de uma parte e de outra foram justiçados e, feita a punição, os males evidentemente cessaram em uma cidade e outra. Rômulo purificou as cidades com alguns sacrifícios de purgação, que ainda hoje se fazem (33) junto à porta que se chama Ferentina.

(31) Segundo Dionísio de Halicarnasso, Rômulo enviou somente trezentos. Êsse número parece fraco, se fôr considerado o que Plutarco narra no capítulo seguinte.
(32) Essas chuvas de sangue, tão terríveis para os antigos, são produzidas naturalmente por insetos ou por exalações tintas de vermelho, como se observou várias vêzes no último século e no presente.

XXXVÏÏÏ. Mas, antes que a pestilência cessasse, os de Camerino tinham vindo assaltar os Romanos e percorrido todo o seu país, estimando que eles não poderiam defendê-lo, por causa do inconveniente da peste que os atormentava. Todavia, Rômulo contra êles avançou incontinenti com o seu exército e os derrotou em batalha, na qual (34) morreram seis mil homens; e, tendo-lhes tomado a cidade, dela transportou para Roma a metade dos habitantes que tinham sobrado do desbarato; depois, mandou vir de Roma duas vêzes tanto o que montava o resto dos naturais Camerinos, para habitar com êles em Camerino, e foi isso feito no dia primeiro de agosto: tão grande era a multidão dé habitantes em Roma, apenas dezesseis anos após haver ela sido edificada. Mas, entre outros despojos que êle ganhou, trouxe uma carrêta de cobre a quatro cavalos, a qual mandou erigir no templo de Vulcano e pôr em cima (35) sua estátua cingida por Vitória com uma coroa de triunfo.

(33) No grego: que se fazem ainda hoje, segundo dizem. C.
(34) No grego: êle matou-lhes seis mil homens. C.
(35) A expressão grega é mais natural: e colocou sôbre êsse carro sua estátua coroada pela Vitória.

XXXIX. Tendo assim acrescido seu poder, os mais fracos dobravam-se debaixo dêle e se contentavam de com êle viver em paz; màs os poderosos tinham medo e lhe invejavam o crescimento, estimando que não seria prudente deixá-lo assim crescer a olhos vistos e que era preciso logo impedir-lhe o crescimento e aparar-lhe as asas. Os primeiros Tos-canos que para isso se esforçaram foram os Veienses, os quais dominavam um grande país e habitavam uma vasta e poderosa cidade; e, para lhe começarem a guerra, mandaram-no intimar a entregar-lhe a cidade de Fidena, como pertencente a êles; o que não somente era desarrazoado, mas também digno de sarcasmo, visto como, quando os Fidenatas se achavam em guerra e estavam em perigo, êles não os tinham socorrido; ao contrário, tinham tolerado a matança das pessoas, e depois vinham reclamar as terras quando outros a possuíam. Portanto, tendo-lhes Rômulo dado também uma resposta cheia de sarcasmo e de irrisão, êlês dividiram seu exército em dois e enviaram uma parte contra os habitantes de Fidena e com a outra foram ao encontro de Rômulo. O que avançou contra a cidade de Fidena ganhou a batalha, ali matando dois mil Romanos; mas o outro foi também derrotado por Rômulo e ali morreram oito mil homens dos Veienses,

XL. Depois, tornaram a encontrar-se ainda outra vez perto da cidade de Fidena, onde houve batalha, na qual todos confessam que a principal laçanha foi executada pela própria mão de Rômulo, o qual nesse dia mostrou ali tôda a astúcia e ousadia que poderia existir num bom capitão e pareceu haver ultrapassado grandemente o ordinário dos homens em fôrça corpórea e disposição pessoal; mas, não obstante o que a esse respeito dizem alguns, é bem difícil acreditá-lo, ou, para melhor dizer, inteiramente íora de crédito e de verossimilitude, pois escrevem que, tendo sido mortos nessa batalha catorze mil homens, mais da metade sucumbiu às próprias mãos de Rômulo, visto como todos estimam ser uma vã qabolice o que os Messenianos contam de Aristômenes (36), que ele imolou aos deuses trezentas vítimas por tantos Lacedemônios que matara numa batalha. Tendo sido pois batido o exército adversário, deixou Rômulo fugir os que apressadamente puderam salvar-se e avançou diretamente contra a sua cidade; mas os que dentro dela se achavam, após haverem sofrido tão pesada perda, não esperaram o assalto, .mtes se adiantaram com humildes súplicas, pedindo-lhe paz e aliança, que lhes foi outorgada por cem

(36) No grego: “que êle ofereceu três vêzes o sacrifício chamado Hecatônfonis, por haver matado de cada vez cem homens aos Lacedemônios.” Pausânias, Messeníacas, cap. 19. Ç,

anos, uma vez perdida como indenização boa parte de seu território, que se chama Septemagium (37), quer dizer, a sétima parte, deixadas aos Romanos as salinas junto ao rio e entregues como reféns cinqüenta dos principais entre êles. Rômulo triunfou ainda sôbre êles no dia dos idos de outubro, “que é o décimo-quinto do mês, levando em triunfo vários prisioneiros de guerra e, entre outros, o capitão-general dos Veienses, homem já ancião que loucamente se lançara à carga e mostrara com efeito ser menos experimentado nos negócios da guerra do que o requeria a sua idade. Daí vem que ainda hoje, quando se sacrifica aos deuses para render-lhes graças por alguma vitória, leva-se ao Capitólio, através da praça, um velho vestido com uma túnica de púrpura, com a baga chamada Bulla, que as criancinhas de boa casa trazem ao colo,.-e há um arauto que marcha depois, pondo em leilão os Sardos,. porque se sustenta que os Tos-canos se originaram dos Sardos (38), e a cidade de Véios está situada no país da Toscana.

XLI. Essa guerra foi a última que teve Rômulo, após a qual não pôde evitar lhe acontecesse o que costuma acontecer a quase todos aquêles que, por extraordinários favores da fortuna, são elevados a alto estado e grande poder: pois, confiando na prosperidade de seus negócios, começou a tornar-se

(37) No grego Septempagium, isto é, sete burgos, ou aldeias, ou cantões.
(38) Vide as Observações, caps XI.

presunçoso e a ter mais gravidade do que costumava antes, saindo dos têrmos de príncipe cortês e acessível a tôda a gente e desviando-se nas maneiras de fazer monarquia soberba e odiosa a cada um, primeiramente pelos hábitos e pelo porte e continência que tomou, pois trazia sempre um saio tinto de púrpura (39) e por cima uma longa túnica também de púrpura, e dava audiência sentado numa cadeira de costas inclinadas para trás, tendo sempre ao redor jovens que se chamavam Céleres, isto é, rápidos, pela grande prontidão e celeridade com que executavam suas ordens, e outros que marchavam diante dêle empunhando bastões com que faziam retirar-se a multidão do povo e cingidos de correias com que ligavam e garroteavam incontinenti os que êle mandava. Ora, os Latinos diziam antigamente ligare para ligar, mas agora dizem alligare, de onde vem que os ostiários e acólitos são chamados Lictores; todavia, parecer-me-ia verossímil dizer que houve acréscimo de um c e que antes se chamavam Litores sem c, porque são os mesmos a que os Gregos chamam Li-turgos, isto é, oficiais públicos; e ainda hoje Leitos, ou Laos, em língua grega, significa o povo.

XLIL Mas, depois que seu avô Numitor faleceu na cidade de Alba, permitindo-lhe apoderar-se do reino, como a êle pertencente por direito de

(39) O vestuário de Rômulo era o sagum de púrpura. Em cima do sagum trazia o paludamentum ou chlamys de púrpura, bordado com púrpura mais preciosa e ligado sobre o ombro.

sucessão, êle transmitiu o govêrno à comuna, assim fazendo para ganhar a graça do povo; e todos os anos elegia um magistrado para legislar e administrar justiça aos Sabinos (40). Isso ensinou os nobres de Roma a desejarem e procurarem um govêrno livre, que não estivesse sujeito ao querer de, >um só rei e onde cada um mandasse e obedecesse por seu turno. Pois os que se nomeavam Patrícios nada manejavam, antes tinham somente o nome e o hábito honroso, e se reuniam em conselho mais para constar do que para se conhecer sua opinião; pois, quando estavam reunidos, precisavam escutar o comando e a ordenança do rei sem dizer palavra, e depois se retiravam, não tendo acima do povo miúdo outra vantagem além de serem os primeiros a saber o que se fazia; e ainda lhes ficavam tôdas as outras coisas menos graves, mas quando êle próprio, com sua autoridade, distribuiu aos velhos soldados as terras conquistadas aos inimigos e entregou os reféns aos Veienses sem lhes falar sôbre isso, era manifesto que fazia grande injúria ao Senado.

XLIII. Deu isso ocasião a que os senadores fossem depois suspeitos de o haverem feito morrer, quando poucos dias após, êle desapareceu tão estranhamente que jamais se soube o que lhe sucedeu, (o que foi no sétimo dia do mês que se chama agora julho, que então se nomeava Quintilis), sem deixar

(40) É um êrro de Plutarco ou de seus copistas; é preciso corrigir: aos Albinos, ao menos um vestígio para que se pudesse assegurar de sua morte, senão o tempo, tal como dissemos; pois naquele dia (41) se fazem ainda agora muitas coisas em comemoração do acidente que então lhe adveio, E é preciso não se maravilhar demasiado da incerteza de sua morte, visto como Cipião o Africano, tendo sido após o jantar encontrado morto em sua casa, jamais se soube verificar nem saber como morrera. Pois uns dizem que, sendo doentio por compleição, desfaleceu e morreu subitamente; dizem outros que se fêz morrer êle próprio com veneno; outros cuidam que os inimigos entraram secretamente à noite em sua casa e o sufocaram no leito: todavia, ao menos se achou seu corpo bem estendido, que cada um pôde considerar à vontade, para ver se lhe encontraria algum indício pelo qual se pudesse conjecturar a maneira como teria morrido. Mas Rômulo tendo desaparecido subitamente, não se achou nem parte nenhuma de seu corpo, nem peça nenhuma de suas roupas, E, no entanto, têm alguns estimado que os senadores se precipitaram juntos sôbre êle dentro do templo de Vulcano e, após o haverem pôsto em pedaços, cada. qual levou um dentro da dobra da própria túnica.

(41) Além das cerimônias de 7 de julho, celebrava-se ainda uma festa chamada Quirinalia, em 17 de fevereiro.

XLIV. Pensam outros que essa desaparição não ocorreu dentro do templo de Vulcano, nem na presença dos senadores somente: antes dizem que Rômulo, àquela hora, estava fora da cidade, perto do lugar chamado Brejo da Cabra, onde pregava ao povo, e que de súbito o tempo mudou e se moveu o ar tão horrivelmente que não se poderia exprimi-lo nem crê-lo; pois primeiramente o sol perdeu inteiramente a luz, como se fôsse noite inteiramente negra; e as trevas não foram doces nem tranqüilas, antes houve trovões horríveis, ventos impetuosos e borrascas de todos os lados, que fizeram fugir o poviléu e o afastaram aqui e acolá, enquanto os senadores se abrigavam juntos. Depois, quando a tempestade passou, o dia ficou de novo claro e o céu sereno como antes, o povo tornou a reunir-se e pôs-se a procurar o rei e a perguntar o que lhe acontecera, mas os senhores não quiseram que êles inquirissem mais, antes os admoestaram a honrá-lo e reverenciá-lo como aquêle que fôra roubado ao céu e que, daí por diante, em lugar de bom rei, lhes seria deus propício e favorável. O poviléu, em sua maior parte, deu-se por pago e se regozijou de todo com ouvir essas notícias, passando de coração a adorar Rômulo com boa esperança; mas houve alguns que, investigando áspera e acremente a verdade do fato, muito perturbaram os patrícios, exigindo-lhes que absolvessem a rude multidão de vãs e loucas persuasões, por isso que êles mesmos com suas próprias mãos é que haviam assassinado o rei.

XLV. Estando pois as coisas nessa perturbação, dizem que houve um dos mais nobres patrícios, Júlio Próculo, muito estimado como homem de bem e que havia sido grande amigo familiar de Rômulo, tendo vindo da cidade de Alba com êle, que se apresentou na praça a todo o povo e afirmou, pelos maio res e mais santos juramentos que se poderiam fazer, que encontrara Rômulo em seu caminho, maior o mais belo do que jamais o vira, vestido de branco com armaduras claras e luzentes como fogo, e que, aterrorizado por vê-lo em tal estado, lhe pergun tara: «Majestade, por que crime nosso e com qim intenção nos deixaste expostos às falsas calúnias imputações iníquas que nos tornaram suspeitos por tua partida? e por que abandonaste tua cidade órl.i em luto infinito?» Ao que Rômulo lhe respondem «Próculo aprouve aos deuses, dos quais eu viera, que-eu ficasse entre os homens tanto tempo quanto fiqtin e que, após haver construído uma cidade, que cm glória e em grandeza de império será um dia a primeira do mundo, voltasse a morar, como antes, no céu. Portanto, faze boa cara e dize aos Romano-, que, exercendo proeza e temperança, atingirão o cimo da potência humana; e, quanto a mim, eu serei doravante vosso deus protetor e patrono, que chamareis de Quirino.» Essas palavras pareceram críveis aos Romanos, tanto pelos costumes daquele qti< as dizia como pelo grande juramento que fizera, m;r; ainda houve não sei que emoção celeste, semelhante a uma inspiração divina, que a isso ajudou: pois ninguém o contradisse, ao contrário, foram esquecidas as suspeitas e calúnias e cada qual se pôs a invocar, suplicar e adorar Quirino.

XLVI. Êsses discursos certamente se parecem muito com o que os Gregos contam de Arísteas de Proconeso e de Cleômedes de Astipaléia: pois dizem que Arísteas morreu na oficina de um pisoeiro e que os amigos vieram para levar-lhe o corpo, mas não se soube o que lhe aconteceu e, naquela mesma hora, houve algumas pessoas voltando dos campos que afirmaram havê-lo encontrado e ter falado com êle, que estava a caminho da cidade de Crotona. Dizem também que Cleômedes foi homem de tamanho e fôrça fora do natural, mas além disso irascível e insensato: pois, após haver feito várias outras violências, finalmente entrou um dia numa escola cheia de crianças, cuja cumeeira era sustentada por um pilar, e deu com a mão contra o pilar tão grande golpe que o rompeu pelo meio, de tal maneira que tôda a cobertura caiu, esmagou e matou tôdas as crianças. Correram incontinenti atrás dêle para o prenderem, mas êle se atirou dentro de um grande cofre, que fechou sôbre si e segurou a tampa por dentro tão firme que vários juntos, tendo-se esforçado para abri-lo, absolutamente nada puderam fazer; razão por que romperam todo o cofre, mas, quando êste ficou em pedaços, não encontraram o homem dentro, nem vivo nem morto; com o que ficaram muito espantados e se dirigiram a Apoio Pítico, cuja profetisa lhes respondeu êste verseto:

Dos semideuses o último, Cleômedes.

XLVII. Diz-se também que o corpo de Alcmena desapareceu quando o levavam para a sepultura e que, em seu lugar, encontraram uma pedra dentro do leito. Em suma, contam os homens várias outras maravilhas tais, onde não há aparência nenhuma de verdade, querendo deificar a natureza humana e associá-la com os deuses. É bem verdade que seria vil e mau reprovar e negar a divindade da virtude; mas também querer misturar a terra com o céu seria grande tolice. Portanto, é preciso deixar aí tais fábulas, sendo coisa bem segura o que diz Píndaro:

O corpo morre, certamente:
Viva fica a alma, tão-somente,
Como sinal da eternidade.

Pois veio do céu e para lá retorna, não com o corpo, mas antes quando, mais distanciada e separada do corpo, está nítida e santa, nada mais possuindo da carne. É o que desejava dizer o filósofo Heráclito, quando afirmava que a (42) luz sêca é a melhor alma, que se evola fora do corpo, nem mais nem menos que o raio fora da nuvem; mas aquela que se destempera com o corpo, cheia de paixões corporais, é como um vapor grosseiro, pesado e tenebroso, que não se. pode inflamar nem elevar. Portanto, não há necessidade de querer, contra a natureza, enviar ao céu os corpos dos homens virtuosos, juntamente com as almas; mas é preciso estimar e crer firmemente que suas virtudes e suas almas, segundo a natureza e segundo a justiça divina, os tornam, de homens, santos; e de santos, semideuses; e de semideuses, após terem sido nitidificados e purificados perfeitamente, como nos sacrifícios de purgação, estando livres de tôda possibilidade e de tôda mortalidade, tornam-se, não por nenhuma ordenança civil, mas em verdade e segundo razão verossímil, deuses completos e perfeitos, recebendo um fim muito feliz e muito glorioso.

(42) No grego: a alma sêca é a melhor alma. C.

XLVIII. Em suma, quanto ao sobrenome de Rômulo, que depois foi chamado Quirino, dizem uns que significa tanto como belicoso; outros sustentam que foi assim chamado porque os próprios Romanos se chamaram Quirites. Escrevem outros que os antigos davam à ponta de um dardo ou ao próprio dardo o nome de Quiris: em razão do que a estátua de Juno sobrenomeada Quirítide estava assentada sôbre um ferro de lança, e a lança consagrada ao palácio real se chamava Mars; e, mais, que àqueles que numa batalha cumprem bem o dever era costume honrar dan-do-lhes uma lança ou um dardo; e que, por essas razões, Rômulo foi sobrenomeado Quirino, como quem dissesse deus das armas e das batalhas. Edificaram-lhe depois um templo no monte que, por isso, se denomina Quirinalis; e o dia em que desapareceu se chama a Fuga do povo (43), ou de outro modo as Nonas Capratinas, porque se vai nesse dia fora da cidade sacrificar no lugar chamado Brejo da Cabra; e os Romanos chamam à cabra Capra e, indo ali, se acostumaram a chamar com altos gritos vários nomes romanos, como Marco, Cneu, Gaio, em lembrança da fuga que houve então e do modo por que entre si se chamaram uns aos outros, fugindo com grande pavor e em grande confusão.

XLIX. Todavia, dizem outros que isso não se faz para representação de fuga, mas de pressa e diligência, relacionando-o à seguinte história: depois que os Gauleses tomaram Roma e foram dali expulsos por Camilo, a cidade ficou tão debilitada que mal podia convalescer e manter-se de pé: razão por que vários povos se aliaram e, com grande e poderoso exército, foram atacar os Romanos, tendo por capitão Lívio Postúmio, o qual foi acampar o mais perto possível da cidade de Roma e mandou, por uma trombeta, fazer saber aos Romanos que os Latinos queriam, por novos casamentos, renovar e refrescar a antiga aliança e parentesco existente entre êles, porque já começava a enfraquecer; e, portanto, se os Romanos quisessem enviar-lhes algum número de suas filhas casadouras ou de suas jovens mulheres, viúvas, teriam paz e amizade com êle, como por êsse meio tiveram outrora com os Sabinos.

(43) A festa chamada Poplifugium é marcada para o dia 5 de julho nos antigos calendários.

Os Romanos, ouvidas tais notícias, ficaram bastante desgostosos, estimando que entregar assim suas mulheres não seria outra coisa senão render-se e submeter-se à mercê dos inimigos; mas, quando estavam nessa perplexidade, uma serva chamada Filótis, ou, como outros lhe chamam, Tutola aconselhou-os a não fazerem nem uma coisa nem outra, antes usassem de um ardil mediante o qual escapariam ao perigo da guerra e não ficariam empenhados nem obrigados por meio de reféns. Consistia o ardil em que ela, enviada com certo número de outras escravas, as mais belas, enfeitadas como burguesas e filhas de boa casa, à noite lhes levantaria no ar um archote alumiado, a cujo sinal êles viriam armados atacar os inimigos, quando êstes estivessem dormindo» O que foi feito. Os Latinos cuidaram fossem verdadeiramente as filhas dos Romanos; e Filótis não deixou, à noite, de lhes erguer no ar e lhes mostrar um archote ardente de cima de uma figueira selvagem, estendendo atrás alguns tapêtes e coberturas, a fim de que os inimigos não pudessem ver-lhes a luz e ao contrário, os Romanos a vissem mais claramente. Logo, pois, que o perceberam, saíram com diligência, chamando-se entre si várias vêzes uns aos outros por seus nomes, ao passarem as portas da cidade, pela grande pressa que tinham, e foram surpreender os inimigos de improviso, derrotando-os: em memória da qual derrota, solenizam ainda essa festa a que.chamam Nonas Capratinas, por causa da figueira selva-gem que em latim se chama Caprificus, e festejam as damas fora da cidade, sob ramadas feitas com galhos de figueira; e as servas procuram, andando de um lado para outro, e brincam juntas, depois se batem entre si e atiram pedras umas às outras, assim como quando socorreram os Romanos que combatiam; mas poucos historiadores aprovam êsse relato. E, por estar esclarecido que êles chamam assim os nomes uns dos outros e que vão ao lugar que se denomina Brejo da Cabra como a um sacrifício, isso parece convir melhor à primeira história, não sendo por acaso que os dois episódios ocorreram em diversos anos no mesmo dia. Em suma, diz-se que Rômulo desapareceu dentre os homens com a idade de cinqüenta e quatro anos, no trigésimo-oitavo de seu reino. (44)

out 102009
 
Arte etrusca

SUMÁRIO DA VIDA DE DEMÉTRIO

Relações e diferenças entre as operações dos sentidos e as da inteligência. II. Porque Plutarco escreveu a história de homens viciosos. III. Perfil de Demétrio. IV. Sua ternura para com seu pai. V. Sua dedicação para com os amigos. VI. Perde uma batalha contra Ptolomeu. VII. Desforra-se. VIII. Outros êxitos de Demétrio em diversas guerras. IX. Seu pai e êle determinam dar liberdade à Grécia. X. Vai a Atenas para daí expulsar as tropas de Ptolomeu. XI. Sai-lhe mal o empreendimento. XII. Restabelece a democracia em Atenas. XIII. Bajulação exagerada dos atenienses para com Demétrio. XIV. Caráter de Estratocles. XV. Sinais da cólera divina contra as honras extravagantes decretadas a Demétrio. XVI. Versos de Felipides contra Estratocles. XVII. A loucura dos atenienses levada ao auge, em um decreto que Democlides os faz aceitar. XVIII. Mulheres de Demétrio. XIX. Vai a Chipre fazer guerra a Ptolomeu. XX. Obtém contra êle uma grande vitória. XXI. Como Aristodemo comunica a notícia a Antígono. XXII. O nome de rei dado pela primeira vez a Antígono e a Demétrio. XXIII. Nova expedição de Antígono e de seu filho Demétrio. contra Ptolomeu; sem resultado, porém. XXIV. Libertinagem de Demétrio. XXV. Descrição da sua grande máquina de guerra, denominada Elépolis. XXVI. Porque se obstinou êle no cerco de Rodes. XXVII. Paz a paz com os rodianos. XXVIII. Põe em liberdade todos os gregos que habitam aquém das termópilas. XXIX. Infame libertinagem cie Demétrio. XXX. Democles lança-se numa caldeira fer-vente para fugir à sua brutalidade. XXXI. Demétrio eleito comandante geral de toda a Grécia. XXXII. Inicia-se nos mistérios de Céres. XXXIII. Enorme contribuição que êle exige dos atenienses. XXXIV.   Digressão   sobre   uma   concubma   de   Demétrio,   chamada Lâmia. XXXV. O mesmo sobre uma cortesã egípcia chamada Tonís. XXXVI. Liga de vários sucessores de Alexandre contra Antígono e Demétrio. XXXVII. Presságios desagradáveis para ambos. XXXVIII. São vencidos; Antígono é morto. XXXIX. Os atenienses negam a Demétrio a entrada em sua cidade. XL. Como se deve desconfiar da adulação do povo. XLI. Saqueia as terras de Lisímaco. XLII. Casa süa filha Estratonice com Selêuco. XLIII. Separação entre Selêuco e Demétrio. XLIV. Demétrio cerca Atenas. XLV. Apodera-se da cidade. XLVI. Vence os lacedemònios. XLVII. Funesta revolução na sorte de Demétrio. XLVIII. Alexandre chama-o cm seu auxílio. XLIX. Conjuração de Alexandre para assassinar a Demétrio. L. Demétrio fá-lo matar. LI. É nomeado rei da Macedônia. LII. Como o médico Erasístrato descobre a paixão de Antíoco por Estratonice. LIII. Como êle induz a Selêuco a dá-la por esposa. LIV. Demétrio apodera-se da cidade de Tebas. LV. Revolta de Tebas. Demétrio cerca-a e a toma novamente. LVI. Guerra entre Demétrio e Pirro. LVII. Luxo de Demétrio. LVIII. Orgulhosa dureza de Demétrio. LIX. A justiça é a virtude própria dos reis. LX. Grandes preparativos de guerra e vastos projetos de Demétrio. LXI. Ptolomeu, Selêuco e Lisímaco unem-se contra êle. T.XII. O exército de Demétrio; se amotina contra êle. LXIII. Êle foge. LXIV. Reflexões sobre as vicissitudes da fortuna de Demétrio. IiXV. Dispõe o cerco diante da cidade de Atenas e o levanta. TiXVI. Extremos a que o reduz Agátocles. LXVII. Tentativas inúteis de Demétrio para conseguir o auxílio de Selêuco. LXVIII. Selêuco marcha contra êle. LXIX. Doença de Demétrio. LXX. O exército de Demétrio passa para o lado de Selêuco. LXXI. Demétrio entrega-se a Selêuco. LXXII. Selêuco o desterra para Quersoneso da Síria. LXXIII. Como Antígono recebe a notícia do cativeiro de seu pai. LXXIV. Morte de Demétrio. LXXV. Exéquias fúnebres que lhe presta seu filho Antígono.

Desde o primeiro  ano da 110.ª olimpíada aproximadamente, até O segundo  ano da 123»,  antes   de  Cristo,  ano 287.

 

 

Vida de DEMÉTRIO

Plutarco – Vida Paralelas (Bioi Paralleloi)

Tradução de Padre Vicente Pedroso a partir da versão em francês de Amyot

Os primeiros autores desta opinião, que as ciências e as artes se assemelham aos sentidos da natureza, segundo a minha opinião, entendiam muito bem aquela força de julgar, pela qual tanto as ciências como os sentidos nos dão discernimento e conhecimento das coisas contrárias; pois ela é comum a ambos. Há, porém, esta diferença, que os sentidos naturais não atribuem as coisas, das quais nos dão conhecimento e discernimento, ao mesmo fim, que as ciências; pois o sentido é uma potência natural de discernir e conhecer tanto o branco como o preto, o doce como o amargo, o mole e o líquido como o duro e o sólido: mas é somente seu próprio, quando as coisas que são seus objetos naturais lhe são apresentadas, ser por elas movido e mover também o discernimento, referindo-o ao entendimento, quando ele se encontra preparado.  Mas as artes e ciências, que estão constituídas com a razão, para escolher e optar pelo que é bom, e para recusar e evitar o que é mau, consideram principalmente um dos contrários e por amor de si mesmo, e o outro, acidentalmente, e para precaver-se dele. Pois a medicina trata casual e acidentalmente da doença e assim a música, dos falsos acordes, a fim de melhor poder fazer o contrário, isto é, cuidar da saúde e produzir bons acordes. E assim a temperança, a justiça, a prudência, as ciências mais perfeitas de todas, não nos dão somente conhecimento do que é honesto, justo e proveitoso, mas também do que é desonesto, injusto e prejudicial: e mm longe está que elas louvem aquela tola e singela simplicidade, que se glorifica como de uma coisa importante, de não saber o que é mal, que elas julgam uma estupidez, e ignorância das coisas que devem principalmente saber os que querem viver retamente e como pessoas de bem; assim é que os antigos espartanos, nos dias de festas solenes, obrigavam os escravos, a que chamavam de Ilotas, a beber vinho puro em grande quantidade, e depois os levavam, embriagados, aos lugares onde se davam banquetes públicos, para que seus filhos vissem, com exemplos, que grande vileza é a embriaguez .

II. Eu, porém, acho que essa maneira de querer corrigir e orientar, deprimindo e desencaminhando a outrem, é incivil e desumana; talvez, porém, não seja mal inserirmos entre os exemplos destes grandes personagens, dos quais estamos escrevendo a vida, alguns que, embora altilocados e em postos de autoridade soberana, abusaram um tanto inconsideradamente de sua licença, a ponto de seus vícios serem conhecidos de todos: não certamente para causarmos deleite e mais interesse aos leitores, apresentando-lhes como um quadro onde se vê toda sorte de pintura, mas, ao contrário, para imitar a Ismenias, o Tebano, que, mostrando aos seus discípulos, os que tocavam bem flauta, lhes dizia: assim é que se deve tocar e em seguida, apresentando-lhes os que tocavam mal, repetia: assim não se deve tocar: dizia ainda Antigenidas que os moços sentem mais prazer em ouvir um exímio musicista, depois de terem ouvido um mau: e assim, também me pareceu a mim, que nós nos animaríamos mais à leitura da vida dos homens virtuosos e a sua imitação, depois de termos conhecido também a vida daqueles que por suas faltas e vícios com muita razão são censurados: neste tratado teremos as vidas de Demétrio, apelidado Poliorcetes, isto é, tomador de cidades, e de Antônio, imperador (1), pois ambos deram bom testemunho daquilo que Platão deixou escrito — isto é, as grandes naturezas, assim como produzem grandes virtudes assim também produzem grandes vícios; ambos, na verdade, deram-se ao amor, ao vinho, foram valentes na guerra, munifi centes, supérfluos, insolentes, e tiveram as mesmas vicissitudes na fortuna; ambos tiveram em toda sua vida gloriosas vitórias como vergonhosas derrotas, levaram a cabo os maiores empreendimentos, e em outros, igualmente, fracassaram; e tendo sido arruinados contra a opinião e a expectativa de todos, foram igualmente contra toda a esperança restaurados em suas primitivas posições; mas terminaram o curso de suas vidas quase da mesma maneira, um caindo prisioneiro nas mãos dos seus inimigos, o outro quase vindo a sofrer idêntica desgraça.

(1)   Marco  Antônio   jamais   foi   imperador,   mas  sim   triunviro com Otávio e Lépido, no ano 711 de Roma.

 

III. Vamos, porém, à história. Antígono teve dois filhos de sua esposa Estratonice, filha de Correus; a um deles deu o nome de seu irmão Demétrio, e ao outro o de seu pai, Felipe: nisto está de acordo a maior parte dos escritores: no entretanto, alguns ainda afirmam que Demétrio não era filho de Antígono, mas seu sobrinho; pelo seguinte, porque quando seu pai faleceu ele ainda era muito pequenino e sua mãe casou-se imediatamente com Antígono, e daí se julgou que ele era filho do mencionado Antígono: como quer que seja Felipe que era pouco mais moço do que Demétrio, morreu; quanto a Demétrio, porém, embora fosse de bela e grande estatura, não era tão alto como seu pai: tinha também um ar e uma beleza de rosto tão acentuadas e tao atraentes que nenhum pintor nem escultor jamais pôde reproduzi-lo, ao vivo, com perfeição: via-se em seu semblante unidas, a dor e a gravidade, a reverência e a graça; brilhava em todo o exterior a heróica aparência da majestade real, dificílima de se representar, acompanhada de vivacidade e alacridade próprias da juventude: seu natural e seus modos eram tais que causavam admiração e prazer aos que dele se aproximavam e privavam com ele; embora ele fosse alegre e comunicativo em suas relações, e nos seus passatempos, embora fosse o mais supérfluo nas reuniões, fosse delicado em seu modo de viver, dissoluto em todas as espécies de voluptuosidade e de prazeres, como jamais rei algum, não obstante, tinha uma atividade assaz grande, um cuidado atento e uma contínua solicitude em seus deveres. Por isso ele louvava muito a Dionísio e esforçava-se por imitá-lo, isto é, Baco, entre todos os outros deuses, por ter sido o mais astuto e valente comandante na guerra e que bem havia sabido mudar a guerra em paz e naquela, ainda passar alegremente o tempo e ter sempre boas disposições.

IV. Ele amava singularmente seu pai, e parece que a grande reverência e obediência que ele prestava à sua mãe, era devida a ele, por sua honra, mais por causa do verdadeiro amor filial que lhe consagrava, do que para conquistá-lo por causa do seu poder, nem pela esperança de sucessão. A este propósito narra-se que um dia, voltando da caça, ele foi ter com seu pai Antígono, quando dava ele audiência a alguns embaixadores, e depois de lhe ter feito a saudação de costume e tê-lo beijado, sentou-se perto dele, vestido como estava, durante a caçada, tendo ainda na mão alguns dardos, que havia levado consigo; Antígono então, disse ainda em voz alta, aos embaixadores que se retiravam, depois de terem sido atendidos: "Senhores! Podeis ainda formar mais este juízo de mim e de meu filho, de como vivemos um com o outro". Como se lhes quisesse fazer ver que serviam de segurança para os deveres de um rei e eram testemunho de grande poder, as boas relações de concórdia e confiança entre pai e filho: porquanto um império e toda autoridade são sempre seguidos de toda sorte de desconfianças, de suspeitas e de malquerenças: e assim o maior e o mais antigo de todos os sucessores de Alexandre se vangloriava de não temer seu próprio filho, mas permitia que se aproximasse da sua pessoa, mesmo tendo um dardo na mão. No entretanto somente esta família, por assim dizer, dentre todas as outras da Macedônia, conservou-se isenta de baixezas até vários degraus de sucessão: e para dizer-se a verdade, jamais houve na descendência de Antígono, senão um Felipe que matou seu próprio filho   (2) :  porquanto quase  todas  as outras famílias e descendências reais têm mais de um exemplo de alguém que fêz morrer seu próprio filho, esposa e mãe: matar o irmão era coisa comum e para isso não se fazia muita dificuldade. Os geô-metras às vezes querem que se admitam certas proposições que eles supõem, sem provar, assim era também isto quase como um princípio, que esses reis a si mesmos permitiam, para a segurança e conservação do seu estado.

(2) Foi este Felipe quem fâz guerra aos romanos e foi vendido por Tito Quinto Flamínio, como vimos na Vida desse romano. E fèz envenenar e estrangular, no ano 574 de Roma. um de seus filhos chamado Demétrio. por causa das calúnias de um outro seu filho, Perseu, que o sucedeu, fêz também a guerra aos romano, e foi vencido e levado em triunfo por Paulo Emílio, no ane 587 de Roma.

 

V. Para mostrarmos ainda que o natural de Demétrio era benigno e bondoso, e que ele tinha um grande afeto por seus amigos, podemos ainda citar este exemplo: Mitrídates, filho de Ariobarzanes, era seu amigo íntimo, pois eram ambos quase da mesma idade e freqüentava êle ordinariamente a corte de Antígono, sem maquinar contra êle traição alguma, nem imaginar algo de mal, nem ser tido como um tal indivíduo. No entretanto, Antígono começou a suspeitar dele, por causa de um sonho, assim: parecia-lhe passar por um campo, grande, belo, onde êle semeava grãos de ouro; dessa semente surgiu depois o trigo, em lindas espigas douradas; voltando, porém, ao campo, pouco depois, nada mais encontrou, senão as hastes vazias, despojadas das espigas; muito admirado ficara e raivoso, ao ouvir alguns dizerem que o autor daquele ato tinha sido Mitrídates, que cortara as espigas de ouro e aa havia levado aos países do Ponto. Muito perturbado com este sonho, Antígono, depois de ter feito seu filho jurar que nada diria, a ninguém, contou-lho todo o sonho, e de como tinha determinado matar esse moço. Demétrio ficou grandemente aflito e quando no dia seguinte o amigo chegou para, como sempre, passar com ele algumas horas, por causa do juramento, nada lhe disse, mas levando-o à parte, longe dos demais, ele escreveu na terra com a ponta de um dardo: Fuja, Mitrídates! O moço compreendeu o que ele queria dizer e naquela noite mesma dirigiu-se à Capadócia; e, na realidade, pouco tempo depois realizou-se a visão que Antígono havia tido no sonho, pois o rapaz conquistou muitas terras e por primeiro instalou a descendência e a família dos reis do Ponto, que os romanos, porém, destruíram ao depois, perto da oitava sucessão. Com este exemplo pode-se claramente fazer uma idéia da doçura e da bondade natural de Demétrio.

VI. Segundo a opinião de Empedocles, há sempre, entre os elementos, disputa e altercação (3) mas principalmente entre os que vivem juntos e têm entre si diversas relações. Assim, embora entre os sucessores de Alexandre, universalmente, houve guerra e malevolência contínuas, todavia foram ela:, mais  claras  e  mais  ardentes,  entre  aqueles  cuja: terras e propriedades eram limítrofes, e que por causa dessa proximidade, sempre tinham questões a resolver, como entre Antígono e Ptolomeu (4) . Antígono residia ordinariamente na Frígia: tendo sabido que Ptolomeu passava por Chipre, assaltando e depredando toda a Síria, reduzindo por bem ou à força, todas as cidades e aldeias ao seu domínio, para lá enviou seu filho, Demétrio, que então tinha somente vinte e dois anos, e pela primeira vez ocupava o cargo de chefe e comandante, numa empresa de tanta importância. Sendo, porém, muito jovem e assaz inexperiente na arte da guerra, tendo pela frente um velho comandante, mui experimentado e valoroso, feito à escola e sob a disciplina de Alexandre, o Grande, e por si mesmo e em seu nome tinha já dirigido outras e grandes batalhas, foi o rapaz vencido e seu exército desbaratado perto da cidade de Gaza:, nessa derrota morreram cinco mil homens, oito mil foram feitos prisioneiros perdendo ainda Demétrio suas tendas e pavilhões, seu ouro e prata, afinal, toda a sua bagagem e tudo o que lhe. pertencia: Ptolomeu, porém, devolveu-lhe tudo isto, bem como os amigos que tinham sido aprisionados durante a batalha, com uma palavra graciosa e cortês, isto é, que não era de mister combater outra ele, por muitas coisas juntamente, mas apenas pela honra e pelo império.

(3)   Pois que êle dizia, que acordo e devsacôrdo eram as causas eficientes da geração e da corrupção de todas’ as coisas. — Amyot.

(4)   Filho de Lago, fundador do reino do Egito.

 

VII. Demétrio então, ante este fato, rogou incontinenti aos deuses que não o fizessem ficar por muito tempo devedor destes favores a Ptolomeu, mas que lhe fosse possível, quanto antes, retribuí-los. Êle não se admirou, como qualquer outro jovem não se admiraria, de ter no princípio de sua carreira sofrido uma tal derrota, mas como um antigo e valente general, que já havia experimentado as vicissitudes da sorte, se pôs logo a reunir homens, forjar armas, e submeter ao seu domínio cidades e aldeias, treinando no manejo das armas os soldados que podia recrutar. Antígono, tendo sabido deste fracasso, nada mais disse senão, que por ora, Ptolomeu tinha apenas vencido os que não tinham barba, mas que de ora em diante êle haveria de combater com homens feitos e barbados. Não querendo, porém, abater nem menosprezar a coragem de seu filho, que lhe rogava a permissão para tentar uma segunda vez a guerra contra Ptolomeu não lha recusou, mas mui prontamente lhe fez a vontade. Pouco tempo depois, Cilas, general de Ptolomeu, veio com um poderoso exército para expulsá-lo e afastá-lo de toda a Síria: pois não se fazia mais muito caso dele, por ter sido já derrotado, uma vez; Demétrio, ao invés, surpreendeu-o, improvisamente, enchendo-o e aos seus homens de tal espanto, que conseguiu apoderar-se de todo o acampamento e dos oficiais, bem como de sete mil soldados, obtendo ainda uma enorme soma de dinheiro; com isto muito se alegrou, não tanto pelas riquezas que podia assim levar consigo, como por ter então a oportunidade e os meios de pagar a sua dívida, nem tanto lhe causaram satisfação o pensamento das riquezas e da glória conquistadas com tal vitória, como por ter os meios de retribuir a gentileza e a honestidade de que Ptolomeu havia usado para com ele: no entretanto, não o quis fazer por própria autoridade, mas escreveu ao pai sobre o seu intento; quando então recebeu dele inteira permissão e seu consentimento, ele enviou Cilas a Ptolomeu bem como todos os seus grandes amigos, com muitos e generosos presentes que largamente lhes fez.

VIII. Este insucesso fez Ptolomeu desistir totalmente da Síria e tirou Antígono da cidade de Celene, pela grande alegria que ele experimentou com tal vitória, e pelo grande desejo de ver seu filho, que logo depois mandou contra os povos da Arábia, chamados nabatianos, para subjugá-los e reduzi-los à obediência, onde ele correu grandíssimo perigo, encontrando-se certa vez em um lugar deserto, onde não havia água: não deu ele, porém, sinal algum de medo nem de temor; e conseguiu deste modo, causar tal admiração aos bárbaros, que teve a facilidade de se retirar para um lugar seguro, levando ainda grandes despojos e sete mil camelos. Mais ou menos nesse tempo, Selêuco (5), que tinha sido expulso da Babilônia por Antígono, e depois para lá voltara, reconquistando-a, apenas com os próprios recursos, partiu com grandes reforços contra os povos e nações que estão nos limites da Índia e províncias, que se localizam em redor do Cáucaso, a fim de conquistá-las. Demé trio, esperando encontrar a Mesopotâmia sem defesa alguma, passou logo o rio Eufrates, penetrando em Babilônia, antes que alguém o tivesse percebido; aí afastou a guarnição de Selêuco que defendia uma das fortalezas da cidade, pois havia duas, e deixou sete mil soldados para guardá-la: depois ordenou aos demais homens que agarrassem o que pudessem e levassem o mais possível do país; feito isto, encaminhou-se para o mar deixando o estado e o reino de Selêuco mais forte e mais bem firmado do que quando ali êle entrara. Parecia, pois, que êle deixara o país a Selêuco, como quem nada tinha, saqueando-o e assaltando-o também. À sua volta soube que Ptolomeu tinha cercado a cidade de Helicarnasso; para lá dirigiu-se bem depressa, a fim de obrigá-lo a levantar o cerco, e assim conseguiu tirar-lhe a cidade das mãos.

IX. Com esta empresa bem sucedida, granjearam ambos, Antígono e Demétrio, uma fama assaz gloriosa, e sentiram então vivíssimo o desejo de libertar toda a Grécia, que Ptolomeu e Cassandro ainda conservavam sob seu domínio e sujeição. Jamais príncipe ou rei empreendeu guerra mais gloriosa, mais honrosa e mais justa do que essa; pois todo o poder e toda a riqueza que ele conseguia armazenar, oprimindo e vencendo os bárbaros, delas usava unicamente para dar a liberdade aos gregos e com isso granjear mais glória ainda. Assim estavam eles em conversações de como continuar e prosseguir na empresa encetada e imaginavam em seus planos que deviam começar por Atenas; um dos principais amigos de Antígono lhe dissera, mesmo, que era necessário, apoderar-se antes daquela cidade, colocando lá um bom número de soldados, pois, dizia ele, se conseguissem apoderar-se dela, teriam um ótimo trampolim para daí saltarem sobre toda a Grécia. Antígono não o quis escutar, e ainda disse que a amizade e a benevolência dos homens era um trampolim bem mais fácil e melhor, e que a cidade de Atenas era como uma sentinela de toda a terra, a qual imediatamente faria brilhar por todo o orbe a glória dos seus feitos, como um archote que arde do alto de uma torre.

(5)   Selêuco Nicanor,  fundador  do reino  da Síria.

 

X.    Pôs-se então Demétrio ao mar, com cinco mil talentos em dinheiro (6) e uma frota de duzentos e cinqüenta navios, navegando para Atenas, na qual ainda se encontrava Demétrio, o Falério, que a dominava e governava em nome de Cassandro, de fendendo-a, com uma guarnição numerosa, tanto no porto como na fortaleza de Muníquia. Tendo bom tempo e vento favorável, conforme sua previsão, e belo empenho que empregou em realizar a viagem, pôde chegar ao porto do Pireu no dia vinte e cinco de maio (7), antes que alguém o tivesse podido imaginar. Quando da cidade se avistou a frota que vinha em sua direção, pensando que eram navios de Ptolomeu, todos se dispuseram a recebê-los. Muito tarde porém, os comandantes perceberam o engano e cuidaram em reparar o erro, avançando, para impedir-lhe o desembarque. Houve então grande tumulto e confusão, como bem se pode imaginar, pois eram obrigados a combater em desordem, para impedir que eles desembarcassem, e afastá-los, uma vez que tinham sido apanhados de improviso. Demétrio, tendo encontrado abertas as entradas do porto, imediatamente precipitou-se para elas, e assim ficou logo bem à vista de todos; de sua galera, fêz sinal com a mão, pedindo silêncio, pois queria dirigir-lhes a palavra. A multidão acalmou-se e ele então por meio de um de seus homens, comunicou-lhes que seu pai o havia mandado, para, ainda em tempo, afastar de Atenas toda ocupação militar e restituir aos seus habitantes a liberdade e as antigas regalias, dando-lhes suas leis, seu governo e sua polícia, como no tempo dos seus antepassados. Ouvindo isto, todo o povo depôs as armas; colocaram em terra escudos e paveses para poder bater palmas em aclamações de alegria rogando-lhe que viesse a terra, e chamando-o de benfeitor e salvador . Os que ainda estavam com Demétrio, o Falério, julgaram mais conveniente recebê-lo, deixá-lo entrar na cidade, pois se mostrava o mais forte, embora nada fizesse do que havia prometido e no entretanto enviaram embaixadores a ele. Demétrio os ouviu atenciosamente e para tranqüilizá-los enviou-lhes um dos melhores amigos de seu pai, Aristodemo Milesiano; não se preocupou com a salvação e a segurança de Demétrio, o Falério, o qual, por causa da reviravolta, no governo e na polícia, tinha mais receio do próprio povo de Atenas do que dos seus inimigos. Considerando, porém, a fama e a virtude de tal personagem, respeitando-a e reverenciando-a, Demétrio mandou levá-lo a Te bas, como êle queria, com numerosa guarda. Êle porém, embora tivesse grande desejo de ver a cidade, disse, que nela não entraria, sem previamente lhe haver dado e concedido plena e inteira imunidade, e retirado a guarnição que lá se encontrava: por isso mandou cavar fossos em redor da fortaleza de Muníquia bem como rodeá-la de paliçadas: no entretanto, para não perder tempo, partiu para a cidade de Megara, onde Cassandro tinha ainda soldados.

(6)   Três milhões em ouro. — Amyot. 23.343.750 libras em nossa moeda.

(7)   Em   grego,  26   do   mês  targelion,   que   corresponde   a   esse ano, o 2.º da 118.ª olimpíada, ano 447 de Roma, a 11 de maio.

 

XI. Nesse meio tempo, porém, disseram-lhe que Cratesipolis, que fora mulher de Alexandre, cognominado Poliperchon, mulher de grande beleza e fama, que então se encontrava na cidade de Pa-tras, recebê-lo-ia com prazer; deixou então o exército no território dos megarenses e dirigiu-se incontinenti àquela cidade, com poucos homens, os mais decididos e mais ligeiramente equipados: mas, ao depois, desfez-se ainda desses mesmos, e mandou preparar seu aposento em separado, para que não se percebesse a presença dessa senhora, quando ela viesse vê-lo. Alguns de seus inimigos foram logo avisados disso, e então decidiram-se a atacá-lo de surpresa; Demétrio, sabendo do que se tramava, sentiu-se amedrontado, e mal teve tempo de tomar um agasalho, o primeiro que encontrou, com o qual se salvou apressadamente, pois bem pouco faltou que por causa de sua incontinência, não fosse vergonhosamente agarrado por seus adversários: conseguiram porém, eles ainda levar-lhe a tenda e todos os seus haveres. Depois a cidade de Megara foi tomada aos homens de Cassandro, e os soldados de Demétrio a queriam assaltar e saquear; mas os atenienses com rogos humildes pediram-lhe, intercedendo por ela, que não fosse abandonada ao saque. Pelo que Demétrio, depois de ter afastado a guarnição de Cassandro, restituiu-lhe toda a liberdade. Nessa ocasião lembrou-se êle do filósofo Estilpo,  grande homem e assaz afamado, embora tivesse escolhido um gênero de vida longe dos afazeres, na paz e tranqüilidade: mandou perguntar-lhe e saber, se algum de seus homens lhe havia tirado algum objeto ou coisa que lhe pertencesse. Estilpo respondeu-lhe que não, pois — disse ele —  pessoa alguma eu vi que me tivesse levado a minha ciência" . No entretanto os servos e os escravos da cidade tinham quase todos sido levados. E visto que uma outra vez, Demétrio o havia tratado com gentileza, dizendo-lhe ao partir: "Olhe, Estilpo, deixo a sua cidade livre" respondera-lhe ele: "Diz a verdade, Sire, pois nela não deixou nem um servo".

 

XII. Voltou em seguida, novamente a Atenas, fazendo o cerco (8) diante da fortaleza de Muníquia, da qual se apoderou e dominou a guarnição que nela se encontrava; depois arrasou-a completamente. Em seguida, a rogo dos atenienses que o convidavam a vir descansar em sua cidade, para lá se dirigiu, mandou reunir o povo, ao qual deu a antiga liberdade, e ao mesmo tempo o governo dos negócios públicos, prometendo-lhe ainda que lhe faria entregar, por meio de seu pai, cinqüenta mil medidas de trigo, e madeira e aduelas suficientes para poderem construir cento e cinqüenta (9) galeras. Assim os atenienses, por meio de Demétrio, reconquistaram a democracia, isto é, o govêrno do Estado popular, quinze anos após o terem perdido, vivendo porém, mais ou menos dois anos depois da guerra a que chamaram de Lamiaca, e da batalha que se travou perto da cidade de Cranon, como oligarquia, isto é, governo de um pequeno número de homens, pelo menos na aparência, mas na verdade, como monarquia, isto é, sob o domínio de um só, que tem todo poder, pela grande autoridade de Demétrio, o Falério.

(8)     Ó  cerco  já  tinha sido  feito,   como  acabamos  de  ver.   O grego diz, tendo estabelecido o seu acampamento.

(9)     Há no  grego:   de  cem  galeras.

 

XIII. Eles, porém, tornaram o seu benfeitor, Demétrio, odioso e invejado de todos, ele, que parecia ter conquistado tanta glória e honra por suas benemerências, e justamente por causa das honras exageradas e demasiadas que lhe decretaram: primeiro, chamando de reis a Demétrio e Antígono, que antes haviam rejeitado e sempre recusado esse título; aqueles mesmos que haviam dividido e repartido o império de Felipe e Alexandre, nele não tinham ousado tocar nem o usurparam dentre todos 08 outros privilégios, prerrogativas e preeminências. Foram ainda os únicos que lhes deram o título de deuses salvadores e aboliram o cargo anual, a que chamavam de Epônimo (10), porque desde os tempos mais remotos costumavam denominar os anos pelo nome daquele que o era: e no lugar dele determinaram, em conselho da cidade, que todos os anos, por votação popular, um seria eleito, a que chamariam de sacerdote dos deuses salvadores, cujo nome seria escrito em todos os contratos e em todos os atos públicos, para especificar o ano: além disso nos estandartes e bandeiras sagradas, nos quais estavam as imagens dos deuses, patronos e protetores da cidade, em retratos ou em bordados, aí também seriam fixadas suas imagens. Além disso, consagraram o lugar onde por primeiro Demétrio pisara, ao descer de seu carro, e aí erigiram um altar, ao qual denominaram da descida de Demétrio: e às suas linhagens (11) acrescentaram duas: a Antigonida e a Demetríade. Seu grande conselho, que antes se criava todos os anos, e era de quinhentos homens, foi então, primeiro elevado a seiscentos, pois que era necessário que cada linhagem fornecesse e criasse por si mesma cinqüenta conselheiros: ainda, o mais estranho e a mais esquisita invenção de adulação de Estratocles, (pois era ele quem inventava e propunha todas as adulações em suas várias formas) foi um decreto que ele imaginou, pelo qual se ordenava que aqueles que eles mandassem a Antígono e a Demétrio, publicamente, seriam chamados de Teori, em vez de embaixadores, o que significava comissários de sacrifícios: as sim eram igualmente chamados os que eram envia dos, em Delfos, a Apoio Pítio, ou na Elida a Júpiter Olímpico, nas festas e solenidades publicai de toda a Grécia, para fazerem os sacrifícios e as oblações ordinárias pela salvação das cidades.

(10)   Veja as Observações.

(11)   Veja as Observações.

 

XIV. Estratocles em todas as coisas era um homem temerário, o qual sempre havia levado vida má e desordenada, e pela sua impudência desavergonhada parecia imitar bastante a louca ousadia e a temerária insolência de que antigamente Cleon linha usado para com o povo. Êle conservava publicamente em sua casa uma concubina de nome Filacíon. Um dia, quando ela comprara para o jantar, umas cabeças de animais (12), que se costumam comer, êle lhe disse: "Como? Você comprou as bolas com que nós jogamos e nos divertimos nos negócios públicos?" Outra vez, tendo a esquadra ateniense sido derrotada perto da ilha de Amor-gos (13) êle apressou-se em anteceder os que traziam a notícia e veio pela rua Cerâmica toda, coroado de flores, como se os atenienses tivessem ganho a batalha; foi autor de um decreto pelo qual e sacrificou aos deuses, em ação de graças pela vitória, e distribuiu-se carne pelas famílias, como sinal de público regozijo. Logo depois chegaram os que traziam os restos do naufrágio daquela der-rota; o povo amotinou-se logo, e fêz chamá-lo, irritado, e êle teve ainda a desfaçatez de se apresentar e enfrentar com grande arrogância o desconten-tamento do povo, dizendo-lhe com altivez:  "Ora! Que mal vos fiz, se vos tive alegres durante dois dias?" Tal e tão grande era a temeridade e a insolência de Estratocles.

(12)        Em grego: miolos.

(13)        Uma das Esporadas. perto  de Naxos.   É a pátria de  Simônidas, não o lírico, que foi contemporâneo de Píndaro, e o poeta jãmbico, e segundo Suidas, o inventor dos jambos, que floresciam.  pela  29.ª   olimpíada.

XV.     Mas,  como diz o poeta Aristófanes,

havia coisa ainda mais ardente

que não o fogo, o qual tudo faz arder e devora.

Pois, houve ainda um outro, que sobrepujou a Estratocles em impudência, propondo um decreto, pelo qual, todas as vezes que Demétrio viesse à cidade, fosse recebido com as mesmas cerimônias e as mesmas solenidades das festas de Ceres e de Baco, e àquele que sobrepujasse a todos os demais em magnificência e suntuosidade de aparato, quando Demétrio entrasse na cidade, o público lhe desse tanto dinheiro, que fosse suficiente para se fazer uma estátua, ou outra oferta que se dedicaria aos templos em memória de sua liberalidade. Além disso, trocaram o nome do mês de janeiro e o chamaram Demetriano, e ao último dia do mês, que antes chamavam de lua antiga e lua nova, passaram a chamar Demetríade: as festas de Baco, que se denominavam Dio nísia, foram chamadas Demétrias. Mas os deuses mostraram com vários sinais e presságios que eles estavam ofendidos: pois a bandeira na qual, como havia sido determinado, se tinham pintado os retratos de Antígono e de Demétrio, com os de Júpiter e Minerva, quando era levada em procissão pela rua

Cerâmica, ao levantar-se de repente um tremendo vendaval, tão impetuoso foi partida ao meio; em redor dos altares que tinham sido erguidos em honra de Demétrio e de Antígono, a terra produziu tanta quantidade de cicuta, que por via natural, dificilmente poderia ter crescido tanto naquele lugar; e no mesmo dia em que se celebra a festa de Baco, foi-se obrigado a transferir a pompa ou procissão, que se faz naquela circunstância, tanto havia baixado a temperatura, fora do tempo e da estação: e caiu tanta garoa e saraiva que não somente as vmhas e as oliveiras gelaram, mas também a melhor e a maior parte do trigo que ainda estava crescendo.

XVI. Nessa contingência, o poeta cômico Felipides, inimigo de Estratocles, numa comédia, escreveu contra ele estes versos:

Aquele que por sua impiedade, contra os deuses foi causa de que a saraiva prejudicasse as nossas vinhas, e que o santo estandarte se partisse em dois, pela impetuosidade do vento, atribuindo aos homens aquilo que unicamente é devido à natureza divina, é ele somente e ninguém mais quem arruma a autoridade do povo, embora ele diga, sem razão, que é a pobre comédia.

Felipides era íntimo e muito benquisto do rei Lisímaco de modo que, por amor dele, este rei havia feito muitos benefícios e favores à causa pública em Atenas: tanto ele o apreciava, que todas as vezes que o via ou encontrava no começo de uma guerra ou de qualquer outro empreendimento de importância, parecia-lhe que aquilo lhe trazia boa sorte: era ele estimado e muito amado, não só pela excelência de sua arte, mas também por suas boas e louváveis qualidades, pois não era aborrecido, nem dominado pela curiosa afetação da corte, como muito bem mostrou um dia em que o rei o lisonjeava e lhe dizia com o rosto alegre: "Que queres que eu te conceda dos meus bens, Felipides?" — "O que bem lhe aprouver, majestade, — respondeu ele — contanto que não seja dos teus segredos". Quisemos dizer dele estas coisas, para bem colocarmos em confronto com este desavergonhado arengador do povo, um honesto intérprete de comédias  (14) .

XVII. Houve ainda um certo Democlides, da aldeia de Esfeto, que imaginou uma esquisitíssima e estranha maneira de honra, referindo-se à consagração e oferenda dos escudos, que se entregavam ao templo de Apoio, em Delfos, isto é, que se fosse perguntar o oráculo a Demétrio; citemos, porém, os mesmos termos do decreto, tal como foi promulgado: "Assim: o povo determinará que seja eleito um cidadão de Atenas, que irá ter com o nosso  salvador:   e  depois  de  lhe  ter  divinamente sacrificado, perguntará a Demétrio, nosso Salvador, de que modo o povo poderá mais devota e mais santamente fazer a oferenda dos santos dons: e segundo o oráculo que lhe aprouver revelar, o povo o porá em execução". Assim, atribuindo todas estas e outras coisas tão tolas e ridículas a este homem que afinal era pouco sensato, eles o estragaram ainda mais e o fizeram perder a cabeça.

(14)   Intérprete, não;  o grego não o diz, mas, autor.

 

XVIII. Estando então em Atenas, desposou uma viúva de nome Eurídice, da nobre e antiga família de Milcíades, que tinha sido casada com um certo Ofeltas, príncipe da província da Cire-naíca, e depois da sua morte havia voltado a Atenas: muito se alegraram os atenienses com este casamento, julgando mesmo que era uma grande honra para a sua cidade, e que êle o havia feito por amor deles: êle, porém, estava sempre pronto para contrair núpcias, e já havia mesmo desposado a várias mulheres, ao mesmo tempo, entre as quais, todavia, Filia era a que desfrutava de maior honra e de maior autoridade, quer por causa de seu pai, Antípater, quer porque ela tinha sido casada em primeiras núpcias com Cratero, a quem os macedônios haviam amado em vida, e lamentado depois da morte mais que qualquer outro dos sucessores de Alexandre. Seu pai a havia feito casar, a meu ver, à força, embora ela não fosse de uma idade conveniente a êle, pois êle era muito jovem, e ela já superadulta: como Demétrio mostrasse não estar muito satisfeito com isso, seu pai disse-lhe baixinho ao ouvido:

Casar-se, de mau grado, convém,
contra a natureza, quando há proveito nisso.

Muito a propósito modificava os versos de Eurípides:

Convém servir de mau grado,
contra a natureza, quando há proveito nisso.