jan 092012
 

Oliveira Lima

EPISTOLA A UM DE CARUARU

NÃo costumo replicar a todas as críticas. A algumas seria fazer demasiada honra; as mais das vezes nada se adiantaria e sempre consumiria vagar que poderia ser muito melhor aplicado. De Caruaru não tinha porém recebido crítica alguma: pela novidade tentou-me responder. Há dias em que a gente sente a nostalgia dos campos.

Conhecia Caruaru pela sua produção agrícola e pastoril; já um dia palmilhei suas ruas largas e parei diante da sua branca matriz. O que não conhecia era sua produção jornalística. Fradique Mendes dizia que não lia os jornais portugueses porque apresentavam sintomas de degenerescência mental. Eu li com prazer esse da caatinga pelo entusiasmo partidário que transuda. É uma transpiração que o golpe de ar frio das conveniências políticas pode fazer sustar, sem perigo porem, mas que antes se ativa no caldarium das graças do poder.

De resto, como não havia de 1er com prazer se o jornalzinho me trata de Molière? Excusez du peu... Talvez num ponto, num só, tenha razão o publicista nessa afinidade que descobriu. Molière satirizava os ridículos da corte de Luís XIV, um emproado de grande cabeleira que disse um dia: L’Etat c’est moi! Se o não disse — porque a história contém muitos carapetões —, pensava-o, o que vem a dar na mesma, e é precisamente o que estamos censurando ao Sr. Dr. Manuel Borba: pensar que o Estado é êle. Sem lembrar que depois daquele veio Luís XV, com quem se havia de parecer o Sr. Senador José Rufino, se o deixassem chegar a governador, porquanto atribuem ao rei a frase: Après moi, le déluge. O candidato oficial porventura diria em linguagem menos bíblica: Depois de mim que se arranjem.

No que não quero perder tempo é em contestar que fui candidato à deputação federal. O Sr. Dr. Manuel Borba sabe melhor do que ninguém que não é exato, e se dissesse o contrário não falaria verdade. Nunca lhe manifestei diretamente nem por terceiros semelhante desejo, que continuo a não nutrir, bastando-me perfeitamente ser o que sou. Nunca freqüentei o café do Governo c do Paço me afastei por completo quando tive a prova de que o governador não era justiceiro, que era tão bom como os outros, cedendo a empenhos e a imposições cm vez de fazer triunfar o direito. Refiro-me ao caso do concurso para a cadeira do Ginásio, para que foi nomeado um padre que pode saber Latim mas que nem engrola Inglês.

Continuo portanto simples político amador, e como poderia ser outra coisa se o jornalzinho de Caruaru diz textualmente que eu não entendo patavina de política? E daí talvez entenda. Olhe lá, sempre vou meter-me a dizer-lhe o que é política. Política é como se fosse uma albarda que se coloca sobre o lombo do povo; sobre a albarda vão dois alforjes que pelo caminho adiante se vão enchendo da forma que a Deus ou ao diabo aprouver; pendentes do arção os coldres com as pistolas que são para afastar os concorrentes nas estradas. Para outros, contudo, em muito menor número, política em vez de ser cangalha, é um selim de que se usa para executar exercícios elegantes de alta escola. Todo o Governo emprega a sela: só os bolsheviki montam em pêlo. De qualquer modo porém "se fazem fosquinhas e se consegue fazer ruído" — do que me acusa o de Caruaru. Bastaria aliás que o animal escouceasse na baia, se não fosse um animal de boas maneiras.

O jornalzinho de Caruaru confere subida honra aos que apregoa como imortais, negando-lhes a aptidão política que porventura monopoliza o seu diretor. Se o Sr. Dr. Rui Barbosa é, como de fato acontece, um gênio, e se eu tenho "sabença" como reza o vocabulário dessa folha, e se nenhum de nós dois poderia ser governo sem fazer fiasco, é porque a política é uma arte inferior que só aos palhaços é lícito abordar. E nesse caso, quanto mais palhaço melhor. .. Eu sou de fato o primeiro a empregar no materialismo da política uma condição subalterna com relação ao idealismo da ética, quando as duas se desassociam e de um lado se faz filosofia e do outro. .. negócios.

Há um tópico final no artigo que eu não posso deixar passar sem sublinhar, e mesmo sem reproduzir porque acredito que seja limitado, fora de Caruaru, o número dos leitores desse delicioso jornalzinho. Escreve êle a meu respeito:

"Antes queremos vê-lo a deliciar-nos com os profundos trabalhos de críticas social e de história, mas, por Deus, aconselhem a este homem ilustre que não trate da política do nosso Estado…"

Mal compreendo esse pavor de que cu penetre nesses mistérios: nem os de Eleusis. O que haverá lá dentro que não se possa trazer para fora? Enfim, vamos para diante:

Que nos delicie com umas belas crônicas sobre seu passeio à Argentina, que nos fale das muchachas guapas da nossa vizinha amiga e do seu preparo bélico. Está aí um assunto palpitante.

Convenho em que seja palpitante, mas protesto contra o gênero de informações que de mim reclama esse cavalheiro: umas porque lhas não poderia fornecer sem valer-me de espionagem, nem freqüentei arsenais ou outros depósitos de canhões; outras porque tão pouco freqüentei as casas em que os homens públicos da Grécia — e todos o eram naquelas democracias — se reuniam em redor das hetairas para discorrerem não só sobre as coisas do espírito, segundo querem fazer acreditar os livros. Poder-lhe-ia eu dizer, isto sim, que as moças da sociedade argentina são vivas, inteligentes, interessantes, distintas e no geral muito bonitas, mas não é a essas que se refere maliciosamente o jornalzinho. Êle lá diz como quer as muchachas guapas — palpitantes. Entendo sem querer porém entender. O cavalheiro que se dê ao trabalho de ir até Buenos Aires e colher impressões.

O que pode acontecer é ficar no meio do caminho.

Contava-me o Senador Soares Brandão — senador do Império — que um sertanejo se abalara um dia para vir visitar o Recife. Chegado a Vitória, que então ainda se chamava Santo Antão, deteve-se uns dias, viu, gozou e resolveu retroceder porque, segundo declarou, "de grandeza já bastava".

Na Lapa há muito mais distrações do que na Flórida, pelo que se pode ver. O melhor será mesmo ficar no Rio. A representação nacional freqüenta mais o High-Life do que o Monroe.

Fonte: Oliveira Lima – Obra Seleta – Conselho Federal de Cultura, 1971.

jan 062012
 

Oliveira Lima

NO JAPÃO*

DIREÇÃO E INSPIRAÇÃO NACIONALISTA

Destarte, quando chegou o momento em que o Japão teve, per fas aut nefas, de entreabrir seus portos à influência ocidental, a revolução nos espíritos, precursora da revolução pelas armas, estava parcialmente realizada, ainda que numa direção nacionalista, a qual veremos que não foi afinal sacrificada na febre da adaptação, antes veio a vingar sob a pesada invasão das ideias estrangeiras. O terreno achava-se predisposto para outras culturas que não a exclusiva e extensiva que lhe destinara o despotismo dos Xoguns. Foram aquelas culturas mais variadas e intensivas do que o poderiam calcular os mais peritos e esperançosos agrônomos sociais. A arrogância particularista dos dáimios, com desinteresse, magnanimidade e patriotismo aprendidos na dura escola da honra e do dever, cedeu a primazia ao regenerado poder teocrático-militar do Micado, mas este por seu turno se ofuscou voluntariamente diante da organização parlamentar, que no Ocidente somente vingou sobre escombros de nações. O campo havia sido preparado para produzir uma fanga de milho e veio a recolher-se um carroção de trigo sem muito joio. Os efeitos excederam a potência da causa, no que pese à física; a conclusão estalou as premissas, no que custe à lógica.

Onde previamente costumavam de ordinário só trabalhar a memória e reinar o empirismo, entraram a exercer-se o raciocínio e a imperar a análise científica. De limitada e comum tornou-se a ciência pasto da pesquisa individual, para daí subir de novo às mais sólidas generalizações. A compreensão dos problemas sociais e políticos dos outros povos passou a ser. de um livro selado, uma Vulgata cujos dizeres a princípio se recebiam sem debate, nascendo dela uma surpreendente adaptação material, espiritual e moral, consumada em trinta anos, e que é a assimilação mais rápida e paralelamente mais completa de civilização, portanto o maior milagre da inteligência humana que a História registra.

Vejamos como se explica esse milagre, cuja moral se nos depara exarada de antemão num popular apólogo japonês ou haibun do século XVIII, o qual celebra a liberdade do saco de lona, que toma sem hesitar a forma do seu conteúdo c tanto pode crescer mais do que um homem como caber, escondido, no peito deste, comparando tal elasticidade com a obstinação do vaso de barro, que luta por ajeitar qualquer coisa à sua capacidade invariável. Muito melhor, finaliza o apólogo, é sujeitar o coração às variadas influências da natureza sempre em mutação, como a lua e as flores, do que pretender, numa concentração egoísta, obrigar tudo a passar pela fieira de uma concepção estreita. O Japão seguiu o apólogo de Yokoi Yayu, e ainda bem que o pôde seguir.

* Excertos tirados do livro No Japão publicado por Laemmert & C, Rio (Impressões da Terra e da Gente), de Janeiro-São Paulo-Recife, 1903.

 

Após duzentos e cinqüenta anos de rigorosa solidão, em que o intercurso, o único permitido, com os holandeses de Deshima (Nagasaki) era pautado por um meticuloso cerimonial e rodeado de mil dificuldades, ainda assim dando ensejo a alguns médicos japoneses de estudarem o holandês e desta forma penetrarem um pouco nos arcanos da ciência européia; em que uma incorruptível burocracia militar proibia até os juncos do tamanho adequado à navegação no alto-mar, para não poderem os habitantes afastar-se das costas, e fiscalizava os atos e quase os pensamentos do resto da população por meio do mais sutil e disseminado sistema de espionagem; em que a instrução era vasada nos moldes chineses, aferrada aos seus clássicos emperrados, o Meiji só foi porém possível porque várias circunstâncias de caráter permanente o favoreciam e impediram o embrutecimento nacional.

Em primeiro lugar a indiferença quase agnóstica dos japoneses cultos implicava a ausência de preconceitos inabaláveis contra a infiltração de idéias estrangeiras, e que fossem baseados na religião, como os que vingam no mundo muçulmano. Esta indiferença, que se traduz tanto ou ainda mais do que pelo ateísmo, aliás recôndito no Budismo e no Confucianismo, pela facilidade de adaptação a qualquer religião sugestiva que não vá de encontro, antes se coadune com a natural suavidade da sua índole, explica muito o veloz e pas-moso progresso do Catolicismo nos séculos XVI e XVII, fazendo em cinqüenta anos, como disse, um milhão -de prosélitos. Se hoje, com tamanha liberdade de expressão, as conversões são pelo contrário diminutas, e Catolicismo e Protestantismo vegetam mais do que prosperam no Japão, é porque não só os tempos mudaram e com eles tanto o zelo desinteressado dos missionários quanto a benévola predisposição dos pagãos, como a cobiça e brutalidade européias, amplamente manifestadas e conhecidas, prejudicaram naturalmente no extremo a atividade evangelizadora.

À parte a descendência divina do Micado e a ligação desta crença com a inquebrantável fidelidade dinástica, a religião foi sempre para o japonês uma questão mais de ordem privada do que política. Todo o cerimonial e todas as práticas exteriores tais como os jejuns, a mortificação da carne e os ex-votos, que materializaram a levantada concepção de aperfeiçoamento individual do Budismo, mais confinaram esta religião à sua esfera de devoção, da qual não puderam arrancá-la os esforços dos xoguns da dinastia Tokugawa a fim de opô-la, como religião do Estado, intolerante e dogmática, ao Xintoís-mo, base da autoridade do Micado.*

* Baron A. de Siebold. L’Accession du Japon an Droit des Gens Européen, Paris, 1901.

Depois, todo o japonês, o mais pobre dentre eles, sabia ler e escrever, o que quer dizer que, mau grado a ignorância e as superstições inseparáveis do povo e próprias de um povo privado do contato com outros, o seu espírito estava de antemão aberto ao ensino e à convicção inteligente de que alheias civilizações, por mais odiosas que se façam, ont du bon.

Em terceiro lugar a capacidade de trabalho do japonês, não obstante a sua aparência indolente ou antes pachorrenta, é simplesmente prodigiosa, e, tendo em conta a densidade da população, o esforço de cada um, por mais desajudado que estivesse dos petrechos fornecidos pela invenção humana para minorar a intensidade individual daquele esforço, obraria, somando com os demais, verdadeiras maravilhas. É o caso dos formigueiros, cm que cada animalzinho, arrastando com fadiga o seu grão, contribui para o abastecimento de celeiros subterrâneos, que com razão se nos representam como um empreendimento colossal de coletivismo. O trabalhador japonês, com seus modos geralmente brandos e descansados, é discreto e industrioso como a formiga — de uma indústria morosa e todavia ativa, que é diferente do vagar industrioso, mas apático do Chinês. O japonês é nervoso, embora calmo, ao passo que o chinês é linfático, embora buliçoso. Diz-se que um japonês produz menos trabalho do que um europeu, e talvez seja verdade, mas a desproporção parece-me antes provir da falta da coadjuvação dos maquinismos modernos eda diversidade dos modos do trabalhador, que fazem reputar indolência o que apenas é suavidade. Os mesmos populares que neste momento vemos numa chaya, rindo e conversando jovialmente — mais rindo do que conversando —; fumando despreocupados os seus longos cachimbinhos de madeira e metal, coroados de uma pitada de tabaco louro que dois tragos consomem, e saboreando aos goles taçazinhas fumegantes do chá mais inofensivo do mundo pela fraqueza da infusão, ou contemplando num embevecimento sentimental a pompa quase real de uma cerejeira em flor — vê-lo-emos cinco minutos depois chafurdando quase nus na lama, negra de estrume, do arrozal, ou pelos atalhos ínvios das montanhas, transportando, sozinhos e em fila, fardos pesados dependurados das duas extremidades da grossa vara de bambu, ou, aos pares, carregando viajantes reclinados, de pernas cruzadas, no kango ou palanquim nacional.

O homem é no Japão a besta de carga por excelência, e nenhuma o iguala em resistência. Pelas estradas fora são menos freqüentes as carroças, como as que se vêem por toda a Ásia do Sul, puxadas pelos duros boizinhos singaleses ou javaneses, de bossa no pescoço e enormes pontas; e menos comuns os cavalos, como os que na China se encontram ajoujados de cestas. O lugar desses animais de trabalho é pela maior parte preenchido por enfiadas de japoneses, pequenos de estatura, curtos de pernas, mas todos músculos e tendões, que passam velozes, correndo, nos pés amarrados os waraji ou sandálias de corda e uma simples cinta de algodão branco presa nos rins, ou, quando o frio aperta, nas pernas enrolados os momohiki ou perneiras de pano escuro c no busto pendente o haragake ou bibe de azulão; levando às costas ou em carros puxados a pulso, c ao som de eternas e monótonas cantigas, todas as mercadorias imagináveis, desde o arroz enfardado em palha e as frutas mais formosas que saborosas de Yezo até os rolos de seda e os móveis incrustados de Yumoto.

Em quarto lugar devem mencionar-se a prontidão na assimilação e a perícia na imitação que, na falta de originalidade da concepção e de sublimidade do ideal, distinguem o artífice como o literato ou o sábio japonês, e não impedem que o produto da imaginação estrangeira receba na transplantação e perfilhação uma marca particular e inconfundível. Foram semelhantes predicados que, sem falar na recente e definitiva comprovação, amplamente se revelaram nos primeiros tempos da cultura japonesa pela introdução e imediato aperfeiçoamento da cerâmica, do fabrico da seda, da arte de bordar, uma palavra em todas as artes, importadas da China pela Coréia; e ainda no século’ XVII, quando o mundo europeu se pôs em pleno contacto com o asiático, pela rápida propagação das armas de fogo, manufaturadas sur place aos milhares segundo um modelo de mosquete trazido por um aventureiro português, companheiro de Fernão Mendes Pinto. Ainda hoje se usa para exprimir uma espingarda do termo tanegashima, nome da ilha onde desembarcara o dono da arma e donde se divulgou o seu uso.

As idéias e invenções de fora são absorvidas sem que se perca o cunho nacional, como parece ser o receio do patriotismo chinês, ao assustar-se com as inovações. A poesia clássica japonesa, manifestação toda particular, floresceu sobretudo no período de importação da civilização continental búdica, e as damas da corte imperial, cuja tradição de gosto poético até hoje se manteve, foram as intérpretes desse conservafitismo literário que se coadunava perfeitamente com a animação dispensada a todas as indústrias de luxo originadas da convivência coreana. O sentimento jacente sob essa aclimatação era então na essência o mesmo que atualmente predomina. O Japão introduziu estradas de ferro, telégrafos, telefones, todo o material civilizador moderno, mas, na sua vontade deliberada de conservar os estrangeiros a respeitosa distância, quer tudo isso japonês, na propriedade quando não possa ser no aspecto, e com afã e rara e característica confiança nos próprios recursos, procura na expansão da sua indústria, cm vez de buscá-los no uso e abuso do crédito público, os capitais, que somente lhe faltam para serem os seus filhos absolutamente independentes.

Faltava-nos justamente registrar como condição e explicação do êxito do Meiji — last buí not the least — o patriotismo japonês. Virtude porventura egoísta e bárbara quando encarada à luz do socialismo humanitário, é ela por certo inspiradora de belos feitos c conselheira de grandes ações. O patriotismo, cuja veemência particularmente distingue esta nação insular porque melhor pôde alimentá-lo no seu voluntário recolhimento, constituía dantes no Japão mais uma aspiração à unidade política, como a que na Europa lavrara n;i

Alemanha antes de dissolvido o Santo Império em 1806, do que um sentimento definido, compacto e agressivo. Não seria lícito esperar qualquer afirmação consciente de uma nacionalidade feita de retalhos, nominalmente sujeitos a um só suserano, de fato dependentes dos seus príncipes respectivos. A paz otaviana ditada pelos Tokugawa aproximou porém da realidade, ao ponto de quase tocá-la, aquela aspiração à unidade territorial, isto é, política, que traria como legítima, embora inesperada conseqüência, a abolição das castas e a unidade social, e que anteriormente se submergia, fragmentando-se cada vez mais, no rancor dos conflitos entre os senhores de províncias praticamente soberanos e servidos por bandos destemidos dos, quando o eram, mais leais subordinados que ilustram os fatos do feudalismo.

A CRISE AGUDA DA EUROPEIZAÇÃO

O país todo usa, no moral, geta e chapéu de coco. A crise aguda da europeização, no decorrer da qual pareciam querer fazer do Japão antigo uma tabula rasa, está terminada, para bem dos amadores da diversidade. O Japão amoldou-se à civilização ocidental, importando o que nela achou de melhor ou de mais conveniente, e combinando-o com os seus usos tradicionais e costumes caseiros. O produto pode não estar ainda amalgamado nem fundido, e oferecer as disparidades c mesmo os grotescos de um contraste imprevisto. O tempo corrigirá no entanto essa, como tem corrigido outras desigualdades históricas, e os japoneses não virão afinal a parecer mais esdrúxulos do que os germanos ou os gauleses quando se apropriaram da cultura romana sem cortarem as suas cabeleiras ou sacudirem os seus borzeguins felpudos.

É possível que a fusão nunca venha a ser tão perfeita que deixe de trair a dualidade da proveniência. Pode ser que as duas civilizações se hajam afinal aproximado, unido e frutificado, mas que os seus frutos comuns conservem estampadas as diversidades da origem. Aconteceria com tais resultados sociais o mesmo que com os mestiços de europeus e japoneses, os quais herdam dos dois lados traços que se ajuntam sem se ajustarem, que coexistem sem se harmonizarem, ofendendo o ideal estético tanto de um como do outro dos fatores do produto.

Semelhante repulsão constitui uma defesa da tradição contra o excessivo amor da novidade. Presentemente com efeito o que se nota no Japão é antes uma crise de carinho pelo estupendo passado heróico, o passado dos Micados, imperantes, depostos ou abdicados, envoltos sempre em idêntico mistério num fundo de sedas e charões, no seu palácio abarracado de Kioto ou no romântico recesso de um mosteiro budista, oculto entre árvores gigantescas; dos xoguns dominando o arquipélago do alto da torre da sua cidadela de Yeddo, rodeada de pinheiros esgalhados, de fossos cheios d’água onde se banhavam milheiros de patos bravos e de garças reais, e de pontes levadiças sobre que se abriam portões de grossas madeiras chapeadas de ferro; dos dáimios e samurais empapando os campos de arroz com o sangue das suas rixas fratricidas e amedrontando as povoações com a passagem das suas comitivas luxuosas, as quais a feroz e onipotente pragmática japonesa mandava desenrolarem-se num silêncio de morte, cerradas as habitações marginais da estrada e sopitado todo sinal de vida, até o fumo das lareiras, a fim de não empestar o ar, que só os vulcões tinham licença para escurecer. Semelhante reação alguma coisa oferece forçosamente de comum, mas não deve confundir-se com o espírito agressivamente nativista que não desapareceu com a derrota dos rebeldes de Satsu-ma; que não se apagará enquanto persistir a lembrança do Japão feudal, e é o mesmo despeito que, dispersos, arruinados e desauto-rados os hatamoto ou dependentes pessoais do xoguns, referve agora em sua vil decadência na alma ambiciosa e intolerante dos soshi, impacientes de mando e repletos de brutalidade.

A outra, a que me refiro, não é uma reação brutal: é uma reação inteligente, de estudiosos, de eruditos, ‘de apaixonados de arte e de religião, de patriotas esclarecidos e não obcecados, que admitem, sem repugnância, e sem exceção querem a europeização do Japão, sem o abandono e perda porém dos característicos nacionais, e sem a importação inconsciente e indiscriminada de tudo quanto ostenta o rótulo ocidental. A valia deste rótulo baixou aliás consideravelmente na estimação dos japoneses desde que obtiveram um conhecimento mais íntimo dos bastidores europeus, e especialmente depois dos episódios conexos com a insurreição dos boxers. Os saques vergonhosos e sangrentos de Tientsin e de Pequim, compreendendo o morticínio de mulheres e crianças e a destruição desnecessária e bárbara de obras de arte impossíveis de transportar, como os Daibutsus de bronze, feitos voar em estilhaços com pólvora, e os pagodes de porcelana, quebrados a coronhadas, deram aos japoneses — que todos reconhecem terem-se comportado, senão impecavelmente, pelo menos com moderação e disciplina absolutamente diversas — uma fraca idéia do poder moralizador do Cristianismo. Desta impressão aproveitou-se logo, com habilidade toda oriental, o Grande Lama de Pequim, vindo ao Japão, a título de recobrar livros sagrados, arrecadados com devoção, realmente para pôr em relevo, numa demonstração pública, a tolerância e gentileza de modos que o Budismo é capaz de insuflar nos seus adeptos.

A febre do modernismo ameaçara um momento consumir nos japoneses aquele carinho pelo que lhes pertence, o qual felizmente reviveu, mesmo porque o patriotismo lhes está na massa do sangue e, no âmago, os nacionais mais enfarpelados à londrina nunca deixaram de ser fundamentalmente japoneses. Uma vez reanimado, o carinho pelas coisas tradicionais a tudo se estendeu: do vestuário, cuja transmutação ficou paralisada, aos divertimentos, que des graçadamente estavam querendo ser o insípido lawn-tennis e as en fadonhas corridas de cavalos, em vez dos dias despendidos nos teatros, a rever em carne e osso o passado impressivo da nação, e a excursões aos parques e jardins em que as ameixeiras e os crisântemos deslumbram a vista com a magnificência das suas flores cencias.

É sabido quanto de tal carinho foi recipiente a religião nacional ou xintó, cujos templos baixos e pobres de enfeites, verdadeiras cabanas na arquitetura, esmagados pelos bosques verdes e bastos que os circundam, dão ao quadro uma nota tão rústica, famliiar e mística, com seus torii francos, que parecem simbolizar a fácil admissão na teogonia cm cuja honra são erguidos; suas elevadas escadarias que paralelamente conduzem o corpo às ‘eminências donde se desfrutam os panoramas formosos, e convidam o espírito aos golpes de vista de conjunto, indistintos, independentes e indulgentes; seus gohei * c mealheiros que indicam que uma religião não afeta pira mente a alma, mas comporta laços temporais e envolve interesses mundanos.

Quando mesmo o velho Japão sc tivesse afundado no vórtice do ocidentalismo, uma coisa restaria entretanto para eecordá-lo através dos tempos, para fazê-lo imortal entre os admiradores do Belo: uma coisa que os dormentes de madeira e os trilhos de aço, os postes e fios telegráficos, e os próprios anúncios à americana em tabuletas grotescas reclinadas sobre campos viçosos, não puderam nem poderão estragar nem desmerecer. Refiro-me à Natureza, a encantadora natureza nipônica, misto de grandiosidade e de graciosidade, combinação de alterosas que são torrentes ruidosas mais do que rios serenos, e lagos plácidos refletindo na sua superfície espelhenta crateras em ebulição,** natureza cuja diversidade impressiona, estonteia e fascina, e cuja única nota uniforme é o esplendor da vegetação, um esplendor inexcedido cm terras tropicais. O Japão político e social mudou muito do seu aspecto, mas essa natureza, cua pompa é avivada pela elegância das formas, é a mesma exatamente que serviu de fundo as composições satíricas do pincel firme e vertiginoso de Hokusai, e que assistiu impassível ao galopar furioso dos cavalos de Yontomo e seus companheiros na perseguição inexorável da facção contrária dos Taira, da qual deriva a intermnável sucessão dos feitos do feudalismo nacional.

O conhecimento da mesma natureza explica cabalmente dois traços do caráter japonês que ferem todos os observadores: a sua admiração e filial ternura pela terra do seu berço e o seu gosto artístico, gosto feito de singeleza, de delicadeza, de sobriedade e de acabado, cujo sentimento de proporção é igualado pela discrição, e que em tudo se manifesta, nas decorações funerárias representativas do culto ancestral, como nos arranjos domésticos, espelhos da ordem e do asseio. Há com efeito tanto gosto aplicado aos túmulos dos xoguns, colocados ao abrigo de todos os ruídos mundanos, em plena comunhão com a Natureza, ao cabo de uma enfiada de capelas e pórticos ornados de flores e animais primorosamente esculpidos em madeiras caras, quanto gosto espalhado nos frisos entalhados de uma casa de campo; nos ferrolhos macios de uma habitação de cidade; nas panelas, chaleiras e outros utensílios de cozinha, sempre de contornos graciosos; nos jardinzinhos arrebicados que reproduzem paisagens silvestres e cujos repuxos borrifam d’água hortênsias colossais e jacintos vistosos.

* Pedaços de papel branco cortados de certo jeito e dependurados em pencas numa vara colocada horizontalmente à entrada do templo. No interior encontram-se por vezes gohei de ouro, ofertas dos Micados. Segundo o Professor Chamberlain, representam os gohei as antigas ofertas de pano, feitas aos deuses e colocadas nas árvores em dias de festa.

Segundo M.tford, servem essas ofertas para arredar influências nefasta ou de mau agouro.

** O Fujyyama é um vulcão em re-pouxao desde o começo do século XVIII, mas o reflexo do seu cone si_ XVIII, mas o rcflexlago de Hakone é métrico e altivo no l*Jfialmcnlc formo. um espetáculo proverbialmente famoso so (Hakone no sake-Fuji).

 

O gosto artístico dos japoneses é tão profundo e característico que, segundo narra um livro recentíssimo*r no saque das cidades chinesas, ao passo que os soldados e marinheiros ingleses se atiravam sobre as sedas e as jóias, e os russos se lançavam sobre as caixas de música e os relógios de repetição, os japoneses recolhiam os kakemonos e makimonos e as veÜias porcelanas, com tal mimo estimando estes objetos que, em vez de destruírem as peças que não podiam carregar, como sem exceção praticavam os das outras nacionalidades, cuidadosamente as repunham nos seus lugares. O escritor britânico chama por este motivo tropas artísticas a essas forças, aliás recrutadas muito mais entre a população inculta dos campos do que entre os descendentes dos polidos samurais.

O cunho do verdadeiro gosto é a sobriedade, e esta contagia os próprios colecionadores nacionais. Um amador japonês nunca se entrega ao delírio no amontoar e à prosápia no exibir de que se tornam infelizmente culpados os amadores europeus. As suas coleções compõem-se de peças mais escolhidas do que numerosas, primando pela qualidade e não pela quantidade, e que não se acumulam na celebrada "desordem artística", fatigando e ofuscando. A forma mesmo por que se efetua um leilão japonês denota a fundamental diferença de concepção. No leilão europeu acotovelam-se, espremem-se os licitantes numa excitação febril, cada qual procurando arrebanhar mais e mais barato, invejando as pechinchas dos concorrentes e babando sobre tudo a sua ganância e o seu despeito. O leilão à japonesa é pelo contrário um modelo de tranqüila dignidade, com o toque de mistério que distingue as coisas do país e que lhes aumenta o sabor. Diante de cada objeto coloca-se uma urna de votar, e o licitante, após examinar pausadamente aquilo que o tenta, deposita na urna com todo o seu sangue-frio um papel assinado indicando o preço que, sem consideração pelas ofertas de outro, está disposto a pagar pelo lote. No fim do tempo estipulado, oito ou quinze dias, percorrem-se as propostas, e o objeto é adjudicado ao maior licitante.

* A. Henry Savage-Landor, China and the AMes, London, 1901.

Em todas as relações sociais imperam nesta terra análoga reserva e idêntico decoro. Um rico japonês, que nos convide um dia a jantar, mostrar-nos-há algumas armas soberbamente temperadas e tauxiadas. Se meses depois repetir o convite, íar-nos-á (e para tanto é mister que certa intimidade se haja podido estabelecer) alguns charões de caprichosos desenhos e inimitável perfeição no envernizado, que de ordinário estão cuidadosamente arrecadados, longe da umidade, do pó e dos espanadores domésticos, e pelos quais quiçá deu somas fabulosas, pois já os jesuítas falavam em peças muito singelas, de ferro e de barro, para as cerimônias do chá, terçados de aço e kakemonos de papel, do valor, cada um, de milhares de cruzados. Nunca nos forçará a atenção ou despertará o tédio, transformando as suas salas em museu de velharias e dando aos seus hóspedes, credores da mais requintada amabilidade, ares de excursionistas pilotados com enfado. Os olhos, para regalarem-se, precisam de não ser cansados ou distraídos: têm de lixar-se e em-beber-se num determinado objeto, que seja digno de exame repousado. Vá-se lá apreciar deveras um esplêndido jarrinho de Satsuma ou umas delicadas figurinhas de Imari num aglomerado de porcelanas e faianças de todas as idades e de todos os países, depois de ter consumido horas e fatigado o cérebro na contemplação de trabalhos artísticos de todo o gênero! Nas casas ricas japonesas não se corre semelhante perigo. O ostentoso jamais se nos depara: a modéstia é o bom-tom, a simplicidade prova de um gosto educado, como o é de senso prático. Nas casas medianas, c com maior razão nas pobres, a mobília é representada pelas esteiras fofas, as almofadas c a bela vista sobre a nesga de jardim, rebuscado e simbólico.

Esse naco de verdura, enfeitado c até contrafeito, os japoneses nunca o dispensam, porque a natureza é aqui, mais do que em outra qualquer parte, a grande inspiradora, a grande educadora, a grande confidente, a grande consoladora. A poesia japonesa, que é toda ela lírica, deixa-se influenciar incomparavelmente mais pelas belezas da natureza do que pelas ansiedades do amor, pelo "delicioso pungir" da saudade, pelas frivolidades cortesãs ou pelos arroubos patrióticos. Restrito como é o seu campo, escassos como são os assuntos de que se ocupa, impessoal como é o seu hábito, essa poesia de poemas geralmente muitos curtos — tanka de 31 sílabas, sem rima — nem anima de vida os objetos inanimados, nem personifica as qualidades abstratas,* mas consente em que banhem plenamente o seu estro os eflúvios perfumados da Natureza. Verdade é que em parte alguma esta se reveste de mais seduções. O pinheiro, o trivial pinheiro, que na Europa e América é uma árvore geralmente angulosa, triste, quase lôbrega, aparece-nos no Japão como uma bonita árvore decorativa, cujos galhos se dispersam com donaire e formam uma silhueta cheia de curvas e assimetria, arrojada e incomparável, como um desenho japonês. Na Natureza como na Arte a medida, porém, conserva-se sempre. As formas das árvores nunca degeneram nesta terra no descabelado e no sinistro, assim como as formas mimosas das mulheres nunca degeneram na obesidade. As velhas ficam vergadas e encarquilhadas, sem perderem o seu encanto franzino. Há gigantes vegetais como há lutadores corpulentos, mas os primeiros salvam-se pelo garbo como os segundos pela agilidade. A graça, sempre e de qualquer forma, é o distintivo capital desta natureza singular e complexa.

* W. G. Aston, A History of Japanese Literature, London, 1899.

 

A complexidade é de resto um dos seus maiores atrativos. Tudo quanto nos parece de longe convencional ou idealizado — esses pássaros luminosos bordados sobre um* fundo douro nas preciosas colchas de seda; essa tênue reverberação do luar na neve que polvilha as encostas, negras de lava, das montanhas; essas borboletas das cores mais brilhantes e dos reflexos mais irisados que pousam de leve sobre o caolim transparente das porcelanas;-essas rosas bravias, esse lírios carnudos, essas orquídeas complicadas que se enroscam no negrume dos bronzes — tudo se encontra, tudo comporta natureza tão opulenta e tão facetada, que chega mesmo a suportar as feições artificiais.

Porque o artificialismo, que vai das árvores anãs às crianças empoadas e paramentadas como ídolos, é um traço peculiar ao Japão, onde a imaginação não prima pela espontaneidade. Também a Natureza oferece tantos e tão variados e sedutores modelos, que o copiar sempre pareceu mais fácil, mais expedito e mais producente do que o criar. Os jardineiros japoneses até roubam à Natureza a ocasião e o mérito da naturalidade. As suas concepções hortícolas são imitações de cenários mais largos e pitorescos em que as flores desempenham papel secundário ou passageiro, aparecendo no seu tempo e hora naturais para aformosearem o placo, cujo pano de fundo e bastidores são permanentemente constituídos pelas pon-tezinhas arqueadas, pelas cascatinhas que se despenham de roche-dozinhos, pelos cedros e criptomerias em miniatura, pela redução de arte, trabalhada e fadigosa, da grande e livre Natureza. Tais concepções, quando realizadas em maior escala, seguem fielmente a obra das forças naturais, mas muitas vezes simbolizam na sua disposição ou execução idéias abstratas, que as árvores, a água e as pedras podem aliás representar com certa propriedade, já que, na opinião corrente, servem de habitação a espíritos bons e maus que as animam.

O traço de artificialismo é comum ao mundo cósmico e ao mundo das idéias. Já sabemos que a escrita, as indústrias em que mais primam os japoneses, a religião búdica, única de alcance metafísico, foram importadas: não são produtos da inteligência nacional. Os entendidos vão ao ponto de afirmar que, nas produções clássicas do gênio artístico japonês, a inspiração da Natureza não é as mais das vezes direta, mas de segunda mão, sugerida pelos modelos estrangeiros. O céu e a terra são chineses, assim como nas composições poéticas dos nossos árcades o céu era pagão e a terra grega ou romana. A pintura sofreu efetivamente no Japão os mesmos efeitos gerais de ação e reação que noutros lugares. A princípio, exclusivamente dominada pela influência chinesa, tornou-se nacionalista e heróica por volta do século XIII, dando-se com a escola de Tosa ao cultivo da epopéia pátria. No século XV sobreveio a reação clássica que determinou a conhecida escola de Kanô, de novo guiada pela orientação chinesa, mas nos fins do século XVI a reação nativista e popular de Iwasa Matahei fêz surgir, ao lado das paisagens c figuras religiosas e tradicionais do continente, a reprodução dos interiores e costumes locais. Este naturalismo, logo acentuado pela escola de Chijo, porém hostilizado pelas recordações clássicas, derivou recentemente no ecletismo peculiar à nossa época.

Vê-se que no Japão, como em todos os outros países e em todos os tempos, uma luta se travou entre a tradição e a espontaneidade, o convencional e real. O ecletismo contemporâneo excede todavia os limites nacionais e pretende nada menos do que congraçar os processos europeus com os assuntos japoneses e os velhos métodos com os novos ideais. As exposições bi-anuais de Uyeno, com seus milhares de telas e kakemonos, revelam à saciedade semelhante tendência, cujos resultados são por enquanto moderadamente felizes. A história pátria e os mundos animal e vegetal continuam a constituir os campos prediletos em que se exercita o artista japonês, mas o manejar da palheta, das tintas e dos óleos europeus não faz senão recordar com saudade o traçar do pincel embebido em tinta da China, do tempo em que os artistas locais, seguindo somente suas regras e convenções, não tinham olhos senão para os próprios mestres e para a própria Natureza, zelando as qualidades e até os defeitos consagrados pelo tempo e pelo uso. A diferença que vai de um biombo sobre cujos painéis dourados um pintor puramente tradicional lançou o debuxo de uma peregrinação às cerejeiras ou aos bordos, à vista de um mar violeta e de um horizonte cinzento, a um quadro de seda, de pano ou de papel, sobre o qual um pintor eclético dos nossos dias pretendeu representar, com feições acadêmicas, à Ge-rôme, o assassinato de li Kamonno-Kami, ou com o toque quente de Rousseau um canto de vegetação nipônica, é a mesma que vai de um músico japonês que deixasse de querer entoar no koto ou no kokiu os acompanhamentos invariáveis aos seus cantos rouquenhos e suas melopéias trêmulas, para forçar as cordas de seda desses instrumentos a ressoarem sob a vibração de uma valsa de Strauss ou de uma sonata de Beethoven.

PAISAGEM JAPONESA

A paisagem japonesa é vista com singular vantagem e parece melhor do que nunca em setembro e outubro, quando ao período das mornas chuvas estivais e às semanas de calor tórrido sucede o outono com suas frescas bátegas d’água entrecortadas de dias luminosos e balsâmicos. Entre as montanhas reluzentes, sobre cuja folhagem se não descobriria um átomo de poeira, desdobra-se nesse tempo um extenso, fofo e luxuriante tapete vegetal tecido pelos arrozais maduros, cujos tons de amarelo são avivados pelo verde desmaiado das canas-de-açúcar, pelo verde clássico das filas das amoreiras, semelhantes a videiras na côr das folhas largas e no modo de crescimento dos arbustos, pelo verde rrviis carregado de dez legumes e tubérculos diferentes — feijão, batata, nabos, beringelas etc. —, pelas flores esbranquiçadas do trigo mourisco e pelo vermelho ferrugem de outras gramíneas. Do extremo Norte ao extremo Sul da comprida Ilha de Hondo, de Aomori a Kobe, o mesmo tapete se desenrola, com os mesmos desenhos caprichosos, as mesmas nuanças delicadas, as mesmas gregas vistosas, as mesmas franjas sutis, sem contudo haver dois trechos da paisagem que se assemelhem ao ponto de se confundirem.

A Natureza parece ter-se convertido no Japão em um caleidoscópio gigantesco, numa lanterna mágica em rotação, que projetasse sem descanso milhares de vistas diversíssimas. O imprevisto reina despoticamente sem que no entanto se quebre nunca a harmonia. Aqui, o mar mete-se não com violência, mas persuasivamente pela terra dentro, para cavar uma enseada profunda e fazer destacar uma península coberta de pinheiros ramalhudos e fantásticos ou uma rocha eriçada de urzes. Além, montículos revestidos de árvores viçosas semeiam irregularmente a planura como que para cortar-lhe a monotonia da superfície chata, alguns separados, deixando estender-se à vontade entre eles um vale cultivado, outros quase pegados, apenas permitindo à relva alcatifar a viela que os divide. As plantas cultivadas participam de tamanha sedução. A seara ondulante do arroz não possui a* esbelteza aristocrática do trigo nem a exuberância democrática do milho, mas tem uma gracilidade sua, que se coaduna perfeitamente com todo o meio japonês. As outras produções do arquipélago contribuem todas elas com traços peculiares e encantadores para a beleza geral do quadro. Conhecemos todos no Brasil a elegância arisca da cana-de-açúcar. O chá, podado em arbustos escuros, de copa arredondada, alinhados em fileiras regulares, empresta a alguns trechos campestres ares de jardim de ruas de buxo, um jardim plantado por Le Nôtre.

A Natureza afigura-se-nos toda ela ter sido manipulada pelo homem, em sua simetria nunca banal, em seu talento das proporções, em sua ciência da combinação das cores e dos cambiantes. Nem falta jamais ao cenário um grandioso pano de fundo — seja este o mar de côr variável até o infinito, ou o espinhaço de montanhas que a distância torna azuladas e indecisas. Dentre esta ossatura monstro de montanhas quase iguais, uma destaca-se no entanto a qualquer distância compatível com o olho nu, levantando-se solitária da planície, como que a querer entestar com o céu donde um dia baixaram os velhos deuses japoneses. Quando mesmo fosse uma das vértebras do espinhaço, o esqueleto não se apresentaria corcovado, porque a sua forma piramidal é rigorosamente geométrica. Ela porém só amplifica a gentileza do conjunto. De qualquer ponto que o encaremos, o cone do Fuji sobrepuja as demais montanhas, erguendo-se isolado da cordilheira com suas linhas que se diriam traçadas a compasso.

O nobre poeta Narihira, amante da famosa Komachi, a beleza decaída da literatura e arte japonesa, a qual expiou na miséria e no opróbrio a frieza do seu coração e a insensibilidade da sua vaidade, é sempre representado nos netsukés e nos copos cinzelados das espadas cavalgando de costas para a cabeça do animal, a fim de na passagem não perder até à última a vista do espetáculo incomparável do Fujiyama. Compreendo tanto melhor o entusiasmo dessa alma japonesa de poeta, quanto eu próprio nunca consegui passar ao alcance da montanha sagrada, sem encostar-me à janela do vagão até ela sumir-se no horizonte. Nunca me fatiguei de contemplar a imensa encosta suave que de todos os lados igualmente ascende ao seu cume e se assemelha, vista de perfil, a uma ciclópica ponte suspensa que Izanagi houvesse lançado, quando criou o Japão, para tornar mais fácil a subida da deusa Scngcn, a divindade tutelar do Fuji. Nunca me fatiguei de admirar aquela cratera que as nuvens, as brumas e os gelos tornam misteriosa à força de circundá-la, de enevoá-la, de branqueá-la, e de ocultá-la, nem aquele manto sombrio de lava e folhas, listrado de neve, no qual o gigante anda envolto e com que parece querer resguardar-se na sua marcha para o oceano, calcando a alfombra que lhe forra o caminho e cujo tom verde-nilo contrasta alegremente com o tom verde-bronze da montanha impassível

Alguma coisa há que acrescenta extraordinariamente à sedução exercida pela natureza japonesa, e é constante associação dos lugares por que transitamos com episódios dramáticos e com mitos, lendas e contos do folclore nacional. Sem falhar existe uma história, verdadeira ou fabulosa, conexa com a paisagem que admiramos ou o ponto de vista que descortinamos: a uma e a outro acha-se sempre ligada uma interessante legenda popular ou uma conhecida expressão poética. Aquela língua de terra arenosa, por exemplo, que uma porção de pinheiros enfeita, e penetra intrepidamente no mar que além vedes, quase negro do reflexo de uma nuvem côr de chumbo, nada vos traz à memória? Pois foi nem mais nem menos naqueles pinheiros que esteve dependurada a vestimenta de penas encontrada pelo pescador e restituída à fada, sua dona, em troca de uma dança celestial executada para gáudio dos espectadores do que reproduz esse incidente. Aquelas pedras tumulares, sozinhas as duas no meio de um campo de arroz, sombreadas por dois pinheiros enormes, guarnecidas em volta de flores silvestres e recobertas de ofertas de chá e incenso, sabeis o que relembram? Uma trágica história de amor, dois irmãos que cruzaram enciumados o ferro fratricida e caíram ambos vítimas da sua nefasta paixão por uma peregrina beldade. Aquele pinheiro, que acolá se esgalha em frente ao templo de Yakushi, em Nara, vergado sob o peso de séculos, amparado por muletas de madeira, mais ainda cobrindo maior superfície do que vinte pinheiros novos, julgais por acaso que nada recorda? Pois plantou-o um santo budista para que o Buda do santuário, que na outra vida corrige as muitas misérias da vida terrestre, tivesse perenemente uma oferta de verde folhagem e se compadecesse dos camponeses maltrapilhos, que labutam contra tantas desvantagens e ali vêm’ implorar bens e satisfações temporais, porque as outras fiam-nas da justiça divina. Naquele lagozinho turvo, vizinho ao pinheiro, onde nadam cardumes de carpas e cuja água vêm beber os veados do parque, tão mansos que acodem a comer nas mãos dos forasteiros, afogpu-se por uma noite sombria uma apaixonada donzela da Corte, cuja formosura serviu de passageira distração à ociosidade sensual de um Micado. Aquele sino de bronze meio oculto, apesar das suas dimensões, no bosque que reveste a encosta de Miidera sobre o lago de Biwa, não deveis ignorar que já foi uma vez arrastado até o cume de Hieizan pelo gigante Bentei, o qual só se decidiu a repô-lo no seu lugar e deixar de martirizar os tímpanos dos sacerdotes budistas da montanha com o tanger incessante do grosso badalo, a troco de um possante caldeirão de sopa de feijão. Este ichô finalmente, cujas folhas se douram no outono, e se levanta altaneiro na sua decrepitude, conservando verdes os galhos nodosos e enroscados, serviu de esconderijo ao assassino covarde que, na escuridão da noite, decepou de um golpe a cabeça do jovem ogum Sanetomo, quando este filho degenerado de Yoritomo, de volta das suas orações, descia a larga escadaria que da avenida de pinheiros e lanternas conduz ao templo de Hachiman em Kamakura.

Dir-se-ia realmente que cada sítio embelezado pela Natureza — e contam-se tais sítios por milhares no Japão — viu-se num espírito de emulação, ilustrado pelo drama ou pela imaginação. Não que precisasse deste realce para ser admirado pelos filhos da terra: bastava-lhe o encanto físico. Todos os lugares formosos do Japão acham-se desde tempos imemoriais inventariados, catalogados e descritos na sua própria literatura. Com efeito, a partir dos primeiros séculos da sua existência como nação ou antes como sociedade, os japoneses viajaram com os olhos abertos às belezas naturais do seu arquipélago, enumerando e esboçando com conhecimento e carinho todos os locais pitorescos, todas as bonitas cachoeiras, todas as árvores mesmo fora do comum que se lhes deparavam. As cinqüenta e três estações do Tokaido, nas quais se deleitaram à porfia as broxas de vários artistas célebres dos tempos modernos, contavam desde os tempos mais remotos os seus modelos escritos, a sua manifestação literária. A fantasia popular nem a religião excetua destas associações com as belezas naturais que a instigam. Rihaku, um dos Rishis ou Sennins, espécie de aspirantes a santos, que começam por ficar isentos da morte e das transmigrações, é sempre representado no ato de contemplar uma cascata, uma das inúmeras que aformo-seiam o Japão, onde um Niágara estaria fora de lugar por estar-fora de proporção, mas onde as diferenças abruptas do nível e a impetuosidade das correntes formam centenares de belas quedas-d’água, algumas eretas e elegantes com altíssimas e esguias colunas de aljôfar, outras desdobrando em toda a largura o seu lençol líquido, outras ainda tão tênues que parecem cobrir com um véu de renda branca a rocha escura e escorregadiça sobre que deslizam.

Nunca cheguei até uma dessas cachoeiras — e não poucas foram as que visitei — sem encontrar pelo menos uma dúzia de japoneses na chaya que invariavelmente se abre em todos os pontos de vista ou sítios pitorescos, oferecendo aos amadores do belo o conforto dos seus estrados de pinho abrigados do sol por alpendres de esteira de bambu e guarnecidos de cobrejÕes e almofadas; do seu tanquezinho de repuxo que levanta bolhas na água em que nadam gordos peixes vermelhos e dourados; das suas prateleiras carregadas de bebidas fortes da Europa. .. para os Europeus, e da sua chaleira de água sempre quente posta sobre as brasas do hibachi para refa-zer-se a infusão à chegada do bando de passeantes e servi-la com os confeitos e docezinhos de feijão. Aqueles japoneses não despregavam os olhos do espetáculo que tinham vindo contemplar: gozavam num fervoroso silêncio das glórias da sua natureza. Pelo caminho, indo ou regressando, muitos mais encontrava: excursionistas de sandálias de corda, com a farpeia ao ombro na ponta da bengala ou o quimono, arregaçado, a carteira de fumo e o estojo do cachimbinho dependurados da cinta; estudantes de uniforme europeu, piugas e perneiras pegadas de azulão, ou de hakama*, o ar a um tempo grave, enérgico e feliz; famílias do campo, o chefe da casa na frente, de lenço amarrado por baixo do queixo ou chapéu de vime do feitio de campânula, as mulheres mais distanciadas de sobrancelhas rapadas à navalha e dentes enegrecidos, se casadas, as jovens, quando faceiras, com o lábio inferior tinto de vermelho no centro, como se fosse uma marca de sangue vivo, e as faces alvejadas com pó de sementes de bonina.

A ternura pela natureza é comum aos japoneses de todas as idades e de quaisquer condições. Uma criança de dez anos despregará os olhos do seu papagaio de papel, que volteia creto no ar sobre a sua armação de bambu, para embebê-los num cacho de delicadas glicínias roxas pendendo airosas da latada, e contra cujas grossas hastes torcidas e entrelaçadas êle tenha ido bater de encontro, empenhado em reter a corda do seu brinquedo favorito. Um velho barqueiro, que desça o rio empurrando à vara a sua barcaça carregada de lenda e de fardos de arroz, interromperá a sua faina para ter a voluptuosidade de agarrar na margem do rio uma mão cheia das pétalas da flor de cerejeira, que no fim da primavera voejam como flocos de neve rosada.

* Saia aberta em calças largas, muito do feitio de algumas saias para damas biciclistas, que constitui entre os japoneses um traje mais cerimonioso do que os simples quimono e haori, e é vestimenta obrigatória para os estudantes dos dois sexos nas escolas do Governo e para os raros empregados públicos que preferem em serviço trajar à japonesa. No palácio imperial a hakama é igualmente de rigor com o vestuário japonês.

 

Durante o inverno não se vêem mais do que palmeiras resguardadas da geada por armaduras de palha como as capas que os camponeses do Japão usam para abrigar-se da chuva e do frio, e pinheiros recobertos por uma tenda de cordinhas irradiando a igual distância de um mastro central a prenderem-se nos ramos, que assim ajudarão a suportar o peso das cargas de neve. Não só nos parques da cidade como nas matas dos templos campesinos, encontram-se velhas árvores amparadas com carinho por estacas de madeira, bordões enormes sobre que se apoiam os seus galhos quase ressequidos. Um ministro da Fazenda conheci que, abarbado com uma operação financeira da qual se dizia depender a sorte do gabinete, atacado pelos jornais, surdamente hostilizado pela maioria parlamentar, encontrou vagar e sossego de espírito para dedicar toda uma noite, até o romper do sol, a arranjar com gosto e arte milhares de crisântemos — singelos, dobrados, decuplados — com o fim de exibi-los aos amigos do modo o mais vantajoso para o renome da sociedade de horticultura de que aquele financeiro é presidente. Nessa alma de político não secara a meiguice pelas flores. Não fosse este o país em que os sorrisos da Natureza são tidos por sorrisos da fortuna.

RENOVAÇÃO NACIONAL

A mera notação dessa radical transformação de aspectos não dará a um país o direito de ser um poucochinho vanglorioso? A guerra com a China, guerra arriscada e penosa, motivando, com pasmo do mundo inteiro, assinalados triunfos para os japoneses, naturalmente mais lhes incensou o amor-próprio, que se deu largas e se tornou fonte de grandiosas esperanças e ilusões. O japonês teve por aquela ocasião alegrias de criança, mesmo porque é como a criança, imitativo, despreocupado e espontâneo. A renovação nacional rejuvenesceu-o, como a tudo quanto o rodeia, ou melhor, acentuou-lhe, a meio de todo seu moderno afã de homem feito, o temperamento pueril — curioso, buliçoso e generoso. Não caiu em segunda meninice, antes readquiriu em toda a plenitude a vivacidade e enlevo da primeira infância.

Como as crianças, que generalizam à outrance e descobrem numa aplicação desconhecida na véspera uma panaceia universal, o japonês culto enxerga no importado método científico europeu a chave para todos os problemas, mesmo éticos, o remédio para todas as dificuldades, mesmo políticas, e arde por fazer uso constante e geral dos instrumentos de que aprendeu a servir-se. Um publicista japonês, discorrendo sobre questões sociais, invoca Spencer e Haeckel e recheia as suas páginas de termos alemães e citações escandinavas (Ibsen já foi traduzido para japonês) como qualquer bacharelando atacado de indigestão intelectual. Como para êle tudo nesse gênero é novidade, imagina sê-lo também para os outros, e não os poupa à inspeção de canto algum das suas leituras.

O paquete em que vim para o Japão foi três vezes minuciosamente visitado pelos facultativos da saúde, em Nagasaki, Kobe e Yokahama, e em Kobe detido por nove horas por causa de um chinês de Hong Kong, cujo pulso se mostrava um pouco desassossegado, porventura com o susto do aparatoso exame médico, feito por nada menos de sete clínicos. O vapor só teve livre prática depois que o exame microscópico do sangue do chinês, realizado no hospital japonês por outro cortejo de bacteriologistas, demonstrou ser malária e não peste bubônica o seu mal. O microscópio ganhou o seu dia. Num delicioso lugar de campo em que veraneei, apareceu como andaço uma ligeira erupção cutânea, da natureza da que vulgarmente se chama sangue novo. Não sabendo como explicá-la cientificamente ou a que atribuí-la, e coincidindo o aparecimento da moléstia com uma recrudescência das mariposas, abundantes naquelas montanhas, os médicos do lugar agarraram gravemente numa porção dos pobres bichinhos e mandaram proceder ao seu exame microscópico, para ver se deles derivava a propagação do mal. Pois não parece verificado que os mosquitos transmitem o impaludismo e mesmo a febre-amarela? Por que não transmitiriam as mariposas erupções de pele? A ciência, porém, proclamou a inocência das mariposas. Entretanto, o microscópio cumpriu o seu dever, c mais uma vez reconheceram os japoneses a utilidade do portentoso invento aplicado às ciências naturais.

Estou muito longe de querer com estes fatos insinuar que os japoneses parecem crianças a fazerem dixes de instrumentos acima da sua compreensão ou educação. Quero apenas mostrar quanto é disseminada e sôfrega — tão sôfrega que chega a ser infantil — a sua tendência para servirem-se dos processos experimentais que importaram e fazerem uso das lições que receberam. A observação redunda toda em abono da sua inteligência e vontade, e para formar uma justa idéia do grau de solidez do fundamento científico do Japão, país que alguns dizem achar-se somente lambuzado de civilização, nada mais é preciso do que atender à organização do seu ensino público, com 26.824 escolas primárias, freqüentadas por mais de quatro miíhões de alunos dos dois sexos.* Os que desejarem levar mais longe suas pesquisas neste campo farão bem em visitar e estudar a organização da Universidade Imperial de Tóquio, o primeiro estabelecimento de ensino superior do país c templo onde a Ciência é alvo do culto mais fervoroso. A sua freqüência era em 1899 de 2.724 alunos.

Esta instituição do Governo, que se evolveu da fusão de antigas escolas japonesas fundadas pelos Tokugawa e modernas criações ditadas pela europeização das idéias, ou antes dos processos, abrange as seis faculdades de Direito, Medicina, Letras, Ciências, Engenharia e Agronomia. Dela dependem vários hospitais, um observatório astronômico, museus, laboratórios, um laboratório marítimo de biologia, um jardim botânico, uma herdade e magníficas florestas, tudo em vista do ensino prático sabiamente aliado ao teórico. A Faculdade de Direito inclui as cadeiras de Direito Constitucional e Público, Direito Administrativo, Direito Internacional, Direito Romano, Direito Inglês, Direito Francês, Direito Alemão, códigos Civil, Criminal e Comercial e respectivos códigos de processo, Economia Política, Finanças, Estatística, Política, história da política, história das instituições e sua respectiva comparação e jurisprudência. A Faculdade de Medicina inclui as cadeiras de Anatomia, Fisiologia, Patologia e Anatomia Patológica, Química Médica, Medicina Legal, Clínica Médica, Farmacologia, Ginecologia e Obstetrícia, Cirurgia, Pediatria, Oftalmologia, Dermatologia e Sífilis, Psiquiatria, Higiene c Farmácia. A Faculdade de Engenharia inclui as cadeiras de Engenharia Civil e Marítima, Mecânica, Construção Naval, Tecnologia das Armas, Eletricidade, Arquitetura, Química Aplicada, Tecnologia dos Explosivos, Minas, Metalurgia e Resistência dos Materiais e das Construções. A Faculdade de Letras inclui as cadeiras de Língua, Literatura e História do Japão, Língua e Clássicos Chineses, História e Geografia, Filosofia e História da Filosofia, Psicologia, Ética e Lógica, Sociologia, Pedagogia, Estética, Filologia, Língua e Literatura Inglesas, Língua e Literatura Alemãs, Língua e Literatura Francesas. A Faculdade de Ciências inclui as cadeiras de Matemática, Matemática Aplicadas, Astronomia, Física, Química, Zoologia, Botânica, Geologia, Paleontologia, Mineralogia, Seismologia e Antropologia. A Faculdade de Agronomia inclui as cadeiras de Agricultura Química e Química Agrícola, Botânica, Zoologia, Entomologia e Sericicultura, Horticultura, Silvicultura, Zootecnia, Geologia e Terrenos, Física Agrícola, Florestal e Meteorológica, Administração Agrícola e Economia Política, Anatomia Veterinária Fisiologia, Medicina Veterinária e Cirurgia Veterinária.

* Résumé Statistique de YEmpire du Japon, Tóquio, 1901.

 

Registram-se ainda, agregados à Faculdade de Direito, cursos livres sobre falências, prisões, antigo sistema judiciário japonês e dívida nacional; agregados à Faculdade de Engenharia, cursos de Desenho, Química Orgânica, Torpedos, Legislação das Obras Públicas, Estética e Vias Férreas; agregados à Faculdade de Letras, cursos de Sânscrito, Grego, Latim, Iitaliano, Holandês, Russo, Coreano e Aino, Budismo, Ciência das Religiões, História da Arte, Teoria do Conhecimento e Filosofia Oriental.

O corpo docente da Universidade poucos professores estrangeiros conta atualmente: apenas os de cadeiras especiais, como as de literaturas européias e direitos europeus. Na Faculdade de Medicina, o Professor Baelz, sábio alemão, acabou de ver festejado o 25.° aniversário do seu professorado, com o qual cessou sua ligação com a Universidade. Muitos dos catedráticos japoneses estudaram porém na Europa e Estados Unidos, e raro é o que pelo menos não visitou ou aperfeiçoou seus conhecimentos nos grandes centros de cultura como Paris, Berlim, Viena, Londres, Harvard etc. O edifícios são excelentes, dignos de qualquer capital européia, e acham-se quase todos reunidos nos terrenos do yashiki ou solar urbano do dâimio de Kaga. Como que para ligar indissoluvelmente o presente ao passado nacional, a porta de entrada da Universidade Imperial continua a ser o akamon ou portão vermelho de largo teto entalhado, recurvo e alpendrado, com duas construções laterais análogas em ponto menor, da desaparecida habitação senhorial. Entre os exercícios físicos dos estudantes enumeram-se a natação, regatas c sports atléticos. * Sobretudo não esqueçam os que percorrerem, surpresos, esses laboratórios dotados dos mais modernos instrumentos, essa biblioteca composta de 224.000 volumes, essas oficinas de engenharia, esses observatórios em que se estudam os fenômenos atmosféricos e as convulsões subterrâneas, que esta nação era, há pouco mais de um quarto de século, governada tão-somente pelo empirismo e pelo esoterismo, transmitindo-se de pais a filhos ou discípulos adotados os segredos de todo gênero, de arte médica como de arte industrial. Tampouco esqueçam, na sua admiração, que tudo quanto ela há consumado e alcançado o tem sido a despeito de uma língua, que é um instrumento complicado e imperfeito de aquisição e fixação de noções, sendo muito diferente a linguagem clássica da coloquial e esta da escrita, e tendo tido que tomar emprestado ao chinês mais da metade do seu vocabulário, inclusive quase todos os termos significando abstrações e exprimindo cambiantes do dizer.

ANIMOSIDADE CONTRA O ESTRANGEIRO

Afora a ausência de boa-fé comercial e a prosápia, o que os estrangeiros no geral notam c verberam entre os japoneses é a animosidade contra o indivíduo de raça européia, hoje não mais manifestada por atentados que a polícia local reprimiria com severidade, a bem do renome nacional, mas, ocasionalmente, por dichotes ou atos que ou resvalam sobre a nossa susceptibilidade por falta de compreensão ou não podem ser facilmente castigados. Eles, em todo caso, tornam a existência, numa das mais formosas e agradáveis terras do mundo, um verdadeiro tormento para aqueles que se agastam com tais exibições, posto que não cotidianas nem gerais, de uma rudeza um tanto primitiva e mais espontânea que intencional. É todavia inegável que semelhante aversão existe. Ficou da educação rancorosa recebida sob os Tokugawa; constitui a conseqüência da política então seguida de isolamento e desconfiança, com a instrução tresandando toda as máximas chinesas, e o vestígio persistente do desenvolvimento através da sua história, do caráter impetuoso da raça.

Desta impetuosidade que, com o favor das circunstâncias, pode degenerar em brutalidade, fornece tristes documentos, compensados pelas muitas reformas morais realizadas, tais como a guerra ao ópio, e melhoramentos materiais empreendidos, como estradas de ferro, fábricas etc, história recente da colonização da Formosa e Coréia. A primeira, cedida pela China após a guerra, tem sido, no dizer dos próprios japoneses, sujeita em boa parte a um governo duro e corrupto de carpet-baggers. Na Coréia, onde pretendem dominar, são os japoneses odiados pelos naturais, a quem maltratam, e lutarão sempre, se quiserem captar-lhes a confiança, com a recordação de algumas páginas de sangue, particularmente o assassinato da resoluta e patriótica rainha, que é corrente haver sido concertado na legação japonesa. O militarismo e a burocracia, pilares do extinto regímen, e que, passados a cal, sustentam o atual edifício, não seriam por certo capazes de engendrar um povo de uma suavidade sem fibra, como por exemplo o havaiano. O que ao militarismo faltasse em impertinência, abundaria na burocracia, e o que a esta falecesse em ousadia, cresceria no militarismo. A suavidade do japonês é um predicado todo adquirido, um produto da educação ainda mais do que da índole, nunca um indício de debilidade física ou moral.

* Calendrier de l’Université Impériale de Tokio, 1899.

 

Tanto assim é que com o estrangeiro o japonês não emprega no geral nem a décima parte da urbanidade de que faz gala para com os seus compatriotas. As maneiras rudes ou desdenhosas dos Europeus encontram o seu contrapeso e o seu corretivo numa sc-quidão intencional dos naturais, a qual jamais é grosseira, mas opõe uma barreira de gelo às pretensões de intimidade. Dois japoneses, pelo contrário, que se encontram, curvam-se repetidas vezes até o chão, esfregam os joelhos com as mãos, sorvem o ar, trocam os sorrisos mais melífluos, desfecham as frases mais amáveis do seu vastíssimo repertório de fórmulas cerimoniosas e de dizeres requintados, variando ao extremo segundo o grau social de cada um dos interlocutores. Esse repertório, eles o usam em todas as ocasiões, nas mais comuns como nas mais trágicas. Mandando um presente recoberto do clássico furoshiki de seda ou algodão, com bordados ou emblemas, o oferente pedirá humilde perdão do seu atrevimento. Vibrando uma estocada, no bon vieux temps dos xoguns, um samurai pediria desculpa do seu ato e suplicaria o desgraçado que se dignasse morrer. O certo é que a polidez constitui no japonês uma segunda natureza, ou antes já se tornou a sua natureza mesmo, e que para descorá-la foi precisa uma grande dose de grosseria ocidental. Por isso, digamo-lo sem rebuço, a aversão nacional às pessoas dos estrangeiros representa em boa parte o reflexo do desprezo e da exploração de que os europeus têm feito ou procurado fazer vítima o Japão.

Amor com amor se paga. … o rifão deve existir em todas as línguas, se é fato que os provérbios denotam a sabedoria popular. Com ser atencioso e cumprimentador, o japonês, convençamo-nos bem disto, não é mole nem vil, e o seu caráter suscetível e pundonoroso não pode ter sido transmudado com facilidade igual à do cenário em que se move. A referida antipatia não provém contudo, somente de um justificado despeito. Provém igualmente de uma predisposição à suspeita, que algumas vezes vai de encontro às melhores intenções. Dela sentem-se não raro objeto as senhoras estrangeiras que, heroicamente arrostando o animal fero e despótico que é a sogra japonesa — a qual deve ter fundado a fama universal da espécie —, hão desposado japoneses. A maior parte dessas senhoras nunca chegam a ser tratadas com desanuviada familiaridade de despreocupada intimidade pelos compatriotas dos seus maridos, verdade é que as mais das vezes por culpa própria, procurando cada pretexto para fazer sentir sua superioridade de raça e desdenhar dos costumes da sua pátria de adoção. Não é assim para estranhar que o lar japonês, o mais difícil de penetrar e observar entre as sociedades cultas lhes seja de algum modo sempre esquivo. Exemplos contam-se de carreiras políticas embaraçadas, senão cortadas por semelhantes consórcios, ou antes por falta de verdadeiro talento da mulher estrangeira, e à boca cheia cita-se como modelo de admirável inteligência e extraordinário tato uma senhora inglesa que adotou sem reserva os costumes e modos de ver japoneses, cujo esposo ocupa na Corte uma das primeiras posições, a qual tem logrado manter contra pouco disfarçadas inimizades, fundadas em preconceitos nacionalistas.

A má vontade japonesa ao estrangeiro cresce, ou pelo menos torna-se mais visível à medida que desce, não direi o nível nacional da dignidade, mas a reserva que costuma revestir e caracterizar essa dignidade. O japonês do limiar do século XX não é natural-ralmente mais o japonês súdito do Taikun, que odiava e, quando insultado, trucidava o forasteiro, mas, desprezando-o muito embora, nunca o escarnecia abertamente porque isso seria contrário ao seu código de polidez e de honra. O japonês rir-se-á, sim, com bonomia do estrangeiro em outros tempos, quando ingenuamente lhe queria bem e não havia ainda experimentado sua bruteza. Nesses tempos a filha do rei do Bango (um dos dâimios da Ilha de Kiuxiu) inventava uma inofensiva e espirituosa farsa para meter a ridículo Fernão Mendes Pinto e seus companheiros, por motivo de comerem eles com as mãos:

Porque como toda esta gente costuma a comer com dous paos, tem por muito grande çugidade fazel-o com a mão como nós costumamos.

A troça, segundo a relata o divertido cronista e por vezes fantasioso viajante, foi verdadeiramente real, e a descrição dada é tão gráfica que nos parece ver os dentinhos bem alinhados e ouvir o rizinho irônico das chamadas damas da Corte, que seriam as mekakés ou concubinas do dáimio e as serviçais, recrutadas entre as mulheres e filhas dos samurais.

Desde o tempo da Peregrinação ocorreu muita coisa e as mudanças foram numerosas. O japonês ri do estrangeiro com menos bonomia e mais rancor, depois de ter saído, do que antes de ter entrado na sua reclusão severa e no seu isolamento quase hierático. Na sua primeira convivência, sem resultados políticos, com os europeus, aprendeu êle a desconfiança. Da sua reclusão derivou a confiança extrema cm si próprio, que foi a mais sólida alavanca do Meiji e agora é o que mais eficazmente resguarda o país dos estrangeiros. Da segunda convivência com a civilização ocidental, prenhe de transformações radicais, retirou porém o japonês, com o aumento do chauvinismo, que é sempre um sentimento mórbido, a alteração de alguns característicos que lhe eram peculiares. Assim foi que a sua sobranceria baixou à medida que subiu a sua impudência.

Desde que em Colombo comecei, em minha viagem, a ver e servir-me dos jinrickshás ou carrinhos puxados por cúlis, que este ofício se me afigurou dever acarretar para os que o exercem o lugar ínfimo da escala social, e muito me surpreendia saber que os japoneses, reputados tradicionalmente tão altivos, se prestavam a assim servir de animais. Porque o jinrickshá degrada a criatura. Na Europa o trabalhador que move um carrinho, impele-o; no jinrickshá o indivíduo está atrelado aos varais, como uma besta, puxando-o. A abjeção é palpável. Só mais tarde averiguei que o jinrickshá não data dos tempos heróicos do Japão, quando o palanquim e a cadeirinha reinavam sem partilha, carregando-se como fardos: é uma invenção que data de 1870. Por outro lado verifiquei que os que vivem dessa profissão, apesar de só em Tóquio serem 50.000 e recrutarem-se muito entre os camponeses atraídos pelo viver mais folgado das cidades, se acham classificados entre a ralé da população. Diz-se hoje de um declassé, e os há, que desceu à miséria de semelhante ofício, o que se diria antigamente de um dos eta — párias cujas cabanas tinham de ser levantadas fora das cidades e cujas ocupações compreendiam o executar criminosos e abater animais, ato este repugnante à consciência búdica.

A comparação deve ser tomada com o grande desconto da diferença das épocas. É claro que hoje não existem mais no Japão desqualificações sociais provenientes do nascimento; apenas as oriundas do comportamento individual. Os eta foram considerados em 1871 cidadãos com iguais direitos políticos, se bem que a velha antipatia popular não desaparecesse com a ação do decreto imperial, persistindo sob um aspecto infinitamente mais brando. Noutro tempo os samurais distinguiam-se pela bondade que dispensavam a esses réprobos, cuja origem e motivo de reprovação pública são ainda agora objeto de variadas hipóteses. Nos dias de hoje a altivez murchou entre os que se dedicam ao mister aviltante de animal de tiro. Sobrevive, porém, a tácita reprovação dos demais: nem toda a seara foi crestada pelo vento ardente da humilhação.

Para ver que a agravação da mofa coincide e corresponde a uma diminuição geral da urbanidade na educação nacional, debaixo do influxo das idéias e costumes estrangeiros, basta lembrar que a educação feminina, mais conservadora e japonesa, ainda encerra grande proporção de ensino de cortesania, mas que os rapazes já não recebem nos estabelecimentos de instrução lições de etiqueta, que dantes até abrangiam o modo silencioso e distinto de fechai uma porta, ou antes uma corrediça. Tenho até por certo que alguns japoneses tratam de imitar, tanto quanto lhes permite a sua sua vidade, o desabamento europeu om suas relações com os estrangeiros por julgá-lo de bom-tom no Ocidente, no que não andam de todo enganados. É entretanto preciso nunca perder de vista que a muito celebrada polidez japonesa, mesmo nos seus tempos áureos, não significava tanto amenidade de trato, se bem que fosse esta geral, e exuberância de demonstrações de afeto, popularmente muito usadas em família, mas pouco em harmonia com o intransigente formalismo, o prurido estético e a estudada dignidade predominantes entre as classes altas, como significava a extrema dissimulação dos sentimentos com o intuito supercortês de não melindrar com sua exibição, quiçá inoportuna, a corrente ou disposição dos sentimentos alheios.

Assim, a impassibilidade na alegria e na dor, que nos dilata ou aperta o coração acusa o mais elevado grau da boa educação e fornece a prova mais indiscutível da nobreza de raça ou da fortaleza de ânimo, que eventualmente a pode suprir. Tal retraimento de sentimentos pessoais, que chega ao absurdo de nos comunicarem com o sorriso nos lábios uma desgraça fatal ou se referirem com quase hilaridade à enfermidade de um amigo, representa o cultivo de um característico decidamente nacional. A reserva habitual dos japoneses vai do terreno privado, a família, assunto sobre o qual, escreve uma observadora inteligente como Miss Bacon,* é quase impossível determiná-los a falarem e que o estrangeiro só a muito custo e ao cabo de longo tempo logra discutir com um nacional, até o terreno público ou social. Lembro-me que, ao mostrar-me algumas velhas estampas representando os suplícios e tratos usados no Japão há trinta e cinco anos, dizia-me o Sr. Chamberlain que era em extremo difícil levar um japonês a referir-se a semelhantes torturas, que muitos deles ainda presenciaram, dependendo todas as informações oculares a recolher sobre elas da memória dos velhos residentes europeus. Se essas e outras velhas e abolidas usanças nacionais não constassem dos documentos artísticos do tempo e não estivessem descritas nos livros contemporâneos da queda do xogunato. como o relatório da viagem de Perry. a narração do ministro inglês Sir Rutherford Alcok e o Diário do ministro americano Townsend Harris. ** o seu conhecimento correria, para aqueles que não podem folhear os livros e códices vernáculos, grave risco de obliterar-se, porquanto os japoneses tentam envolvê-las no maior mistério.

Tratar-se-á aí porventura de um acanhamento de povo recém-civilizado à ocidental, que se envergonha de suas passadas desu manidades. Também evitando tocar em questões domésticas no seu intercurso com estranhos, não é tanto que pense o japonês em ser propositalmente arisco e menos ainda grosseiro. Pelo contrário, desse modo trata êle de demonstrar uma vez mais a sua concepção particular da cortesia, a qual o manda abster-se de referir-se a coisas que não devem interessar o seu interlocutor, e calar ou esconder impressões agradáveis e sobretudo dolorosas, que só dizem respeito à própria pessoa. Em vista disto escreve-se porém vulgarmente que é o japonês um ente sem nervos, quando a verdade está em que ele é um ente dotado do mais extraordinário domínio sobre si mesmo. Anunciando-nos a morte de um parente querido, pai ou esposa, sem dúvida terá, como qualquer outro homem sensível, o coração sem grando de mágoa: todavia o sorriso lhe estará pairando nos lábios, a fim de não importunar ou incomodar a outrem.

* Miss Bacon é uma senhora americana que lecionou no Colégio das Meninas Nobres de Tóquio, estabelecimento imediatamente dependente da Mordomia da Casa Imperial, e que escreveu dois singelos trabalhos que, resumidos como são, dizem mais, o primeiro especialmente, do que muitos compactos volumes pretensiosamente escritos sobre o Japão. Os títulos desses trabalhos são: Japanese Girls and Women e A Japanese Interior.

** Editado por Griffis, o autor do Mikado’s Empire,

 

Semelhante impassibilidade acha-se muito longe de traduzir indiferença. Quando muito, indica estoicismo. Indica no entanto mais que tudo a fina têmpera de uma alma coletiva, que isolando-se nas suas alegrias e penas, busca simplesmente esquivar-se a contatos profanos, ao tesouro sagrado dos seus sentimentos. As impressões que nos são reveladas não correspondem à realidade íntima, despida de artifícios. Pensamos nos espelhos das damas da Corte de Kioto, feitos de prata polida, a um tempo resistentes e delicados, refletindo na sul superfície sólida mas de um brilho que um sopro embaciaria, rostos mascarados de traços vermelhos e de uma crosta branca, os quais são mais formosos no seu natural do que debaixo do disfarce impôs to pela moda. Aquela alma, se decomposta pela análise espectral, daria uma civilidade que não se limita às exterioridades e é ba nhada de simpatia humana; uma concepção do dever social priman do mesmo o sagrado dever filial, e uma coragem cívica cuja dureza é mitigada pela piedade ética.

Contudo o espelho é de metal, e carece de fragilidade. A alma é saturada de obrigações e, se possui compaixão, não abunda em ternura fora do círculo familar, dentro mesmo do qual a morte tinha por missão eventual salvar da deslealdade e da desonra. Essa alma viril encerra na sua síntese orgânica a principal condição de vitalidade do Japão transformado em grande potência asiática, quase em grande world power, da mesma forma que a consciência do samurai, agindo como um imperativo categórico, encerrava a fórmula química do antigo composto nacional, cujo intenso colorido tonificava todo o preparado. Asim é que os otoko-datc ou chefes por sugestão e aclamação espontânea das baixas camadas da população, guardas zelosos das liberdades populares, tinham ademanes de cavaleiros, apuros de cortesãos, posto que falando aos grandes com o desassombro dos cumniuneros defronte do poderoso Carlos V.

A coesão do caráter japonês, tal como o modelaram os séculos, anda porém ameaçada, mais do que isto, minada por várias infhj ências que buscam desagregá-lo e entre as quais já mencionei, em primeiro lugar, a disseminação das teorias ocidentais de luta pela vida e sobrevivência dos mais fortes. Como o principal segredo dfl fortaleza das nações parece ser a sua riqueza, o Japão procura ser rico. A prévia sociedade feudal estava organizada de forma a não precisar quase de dinheiro. Se era toda ela pobre, o isolamento fazia com que se bastasse a si própria. Desconheciam-se necessidades supérfluas, ou por outra, só os grandes, os muitos grandes, as podiam nutrir. As dádivas estabeleciam uma gradação. O xogum dava terras aos dáimios; estes davam rações de arroz aos samurais e faziam viver, pelo trabalho braçal, pelo trabalho artístico, limitado mas bem recompensado, e pela compra c venda de mercadorias o camponês, o artífice e o comerciante. Artistas e homens de letras viviam nas pequenas cortes provincianas, agregados às pessoas dos dáimios, para quem, e exclusivamente para quem, em agradecimento à munificiência dispensada, executavam suas pinturas e burilavam seus escritos. Pode dizer-se que entre as classes inferiores somente, sobretudo na última apontada, existia fome de dinheiro.

O desprezo deste era ingênito no fidalgo. As suas mãos não se tisnavam com o óxido do vil metal, e tanto entrava na arca do castelo ou do yashiki (palácio da cidade) quanto saía em liberalidades. Kiuso, um dos mais afamados kangakusha ou sinólogos, desses que no século XVII tanto fizeram por propagar o gosto da cultura chinesa, deixou escrito que para o samurai vinha em primeiro lugar a retidão, depois a vida, e por fim a prata e o ouro. O xogun tinha sede de mando, não de riquezas, reservando as opulências para as capelas funerárias dos seus antepassados. O Micado, esse vegetava numa pobreza que nunca lhe acarretou opróbrio, antes lhe elevou o prestígio.

Do velho para o novo Japão a maior diferença reside em que a moderna sociedade carece de dinheiro, e que não existe elemento mais dissolvente. Como, sem capitais, fazer face às exigências do progresso, que mandam possuir frotas e armamentos, renovados cada dez anos porque outras invenções tornaram obsoletas as primeiras; que mandam despertar novas necessidades entre o povo, para abrir válvulas de expansão à indústria; que mandam desdenhar as nações, como se desdenham os indivíduos pobres, pelo único fato da sua pobreza improdutiva? Por tudo isso o Japão quer ter capitais. Em seu patriotismo preferiria muito criá-los a pedi-los emprestados, no que hesita, tanto mais quanto abomina quaisquer nações que fundarem uma prosperidade vistosa e enganadora sobre a bancarrota da sua honradez, estouvadamente brincando com a sua independência. Os capitais não crescem, no entanto, espontaneamente como os bambus, embora sejam precisos para fomentar e tornar universais as indústrias utilitárias, que hoje mais valem do que as indústrias de luxo. Os maquinismos requerem largo emprego de capital, e é por meio dos maquinismos que a produção logra decuplar-se centu-plicar-se, e ao mesmo tempo permanecer ao alcance de todas as bolsas.

Fonte: Oliveira Lima – Obra Seleta – Conselho Federal de Cultura, 1971.

out 012011
 

 

Biblioteca Academia Paulista de Letras – volume 7.

História da Literatura Brasileira TOMO I. vol 3.

 LIVRO PRIMEIRO Época de Transformação (século XIX) 2º período (Fase Patriótica)

Artur Mota ( Arthur Motta) (1879 – 1936)

CAPÍTULO IV (continuação)

OUTROS FAUTORES DA INDEPENDÊNCIA

DOMINGOS ALVES BRANCO MUNIZ BARRETO

Nasceu na Bahia, na segunda metade do século XVIII, e faleceu no Rio de Janeiro a 19-6-1831. Era filho do capitão do regimento de infantaria do Estremoz, de quem herdou o nome completo.

No entanto, o pregador de 1822 foi o mesmo revolucionário republicano de 1817 e o separatista democrático de 1824.

A "Gramática" é condensada em 38 páginas de admirável concisão e de método original e proveitoso.

O "Tratado de eloqüência" e as "Tábuas sinóticas do sistema retórico", de Fábio Quintiliano, são obras de caráter meramente didático, como a anterior. Subordina-se à experiência conseguida no magistério, durante seis anos de regência das cadeiras de Retórica e Poética, Filosofia racional e moral, e de trinta e dois anos de aplicação às letras.

Os versos subordinam-se, rigorosamente, ao classicismo. Refletem imagens mitológicas e estão adstritos à métrica, aos processos e aos gêneros dos clássicos. São repassados de melancolia e revelam artificialismo de sentimento, porque não se coadunam com a índole do prosador e o temperamento do homem.

Interessante se torna apreciá-lo nos pareceres dados ao presidente Manoel de Carvalho Pais de Andrade, como membro do conselho convocado para se pronunciar sobre a posse de Francisco Pais Barreto, presidente nomeado pelo imperador, após a dissolução da Assembléia Constituinte. Pronunciou-se, em voto bem fundamentado, contrário à posse e efetividade de Pais Barreto.

Outro voto bem discutido e sustentado é o que explanou, favorável à invasão de Alagoas, a fim de evitar a reação contra a atitude de Pernambuco.

Terceiro voto enérgico e positivo deu ele, em forma de parecer, contrariando o juramento da Constituição, segundo o projeto elaborado pelo ministério e conselho do Estado, por emanar de poder incompetente e ser contrário à liberdade, independência e direitos do Brasil.

Resta referir-me, finalmente, ao "Itinerário" à província do Ceará e sua volta, prisioneiro, a Recife.

É um relato circunstanciado e bastante expressivo da retirada das forças remanescentes, a partir de Olinda, sempre perseguidas pelas forças fiéis ao monarca. Louvável pelo estilo e pela sinceridade, o "Itinerário ao Ceará" constitui um capítulo interessante da malograda revolução para se proclamar a Confederação do Equador.

Houve quem a continuasse após a prisão de Frei Caneca no calabouço e relatasse os últimos episódios do infeliz patriota. Revelou calma na defesa, durante o processo, e, sereno, ouviu a sentença

BIBLIOGRAFIA

1) índice militar de todas as leis, alvarás, cartas régias, decretos, resoluções estatutos e editais promulgados desde o ano de 1752 até 1807, em que sua alteza o príncipe regente embarcou para os Estados do Brasil; igualmente o que se há promulgado depois da feliz chegada do mesmo augusto senhor a este continente, até 1810, com as curiosas declarações das ordens, cartas régias e provisões expedidas para o Brasil de 1806 em diante. Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1812, 350 págs. in 4.°.

2) índice pelas matérias civil, criminal, orfanológica, e de finanças, das leis, alvarás, decretos, cartas régias, avisos, regimentos, provisões régias, forais, editais, resoluções, sentenças, tratados de paz e de comércio e assentos da Casa da Suplicação e do Porto; oferecido, etc, com dois apêndices: 1.° da legislação promulgada na corte do Brasil; 2.° que contém um roteiro do processo com a norma das petições que se devem fazer, não só quando se propõem as demandas, mas pelo decurso delas e com algumas notas instrutivas a respeito do foro. Obra muito necessária, etc. — Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1815, 690 págs., in fl., com as do rosto, dedicatória, advertências, etc, n.° 10.045 e 10.046 do Cat. da Exp.

3) Apêndice das petições mais necessárias no foro do contencioso, segundo o costume até agora seguido no do cível, crime, órfãos e finanças, com algumas advertências instrutivas para maior inteligência dos senhores juízes, advogados e solicitadores, Rio de Janeiro, 1815, 150 págs. in foi.

4) Voto que, como eleitor da paróquia do Sacramento da corte do Rio de Janeiro, há de apresentar no dia 25 do corrente na junta eleitoral para a instalação do governo desta província. Rio de Janeiro, Tip. Nacional, 1822. No ano seguinte foi refutado esse escrito, em Lisboa, como "contrário ao fato social da nação portuguesa e aos direitos e liberdade das províncias do Brasil" (n.° 1.726 da Bib. Bras.).

5) Justificação patriótica, demonstrada em duas cartas dirigidas ao Sr. D. Pedro I, dedicada aos povos da província da Bahia, sua pátria. Rio de Janeiro, Tip. Nacional, 1823, 31 págs. in 4.° (n.° 1.727 da Bib. Brasileira).

6) Sustentação do voto que prestou como vogal do conselho de guerra, que por ordem de S. M. I. se fez ao Brigadeiro Pedro Labatut. Rio de Janeiro, 1824, in foi. Esse escrito também foi contestado.

7) Resposta ao diálogo intitulado "Nova edição da sustentação do voto que prestou o Brigadeiro D. A. B. M. B. como vogal do conselho de guerra, etc. Rio de Janeiro, 1824, 27 págs. in 4.°.

8) Aos habitantes da província da Bahia: proclamação ao povo baiano a fim de repelir com firmeza as pérfidas sugestões dos inimigos do sistema constitucional que juramos, etc. Rio de Janeiro, Silva Porto & Cia., 1824, 4 págs. in foi., n.° 7.368 do Cat. da Exp.

9) Proposição que deve ser agradável a todos os bons cidadãos do império do Brasil. Rio de Janeiro, Tip. de Silva Porto & Cia., 1824, in foi. Versa sobre o levantamento de uma estátua a D. Pedro I. N.° 7.138 do Cat. da Exp.

10) Participação do redator do "Despertador Constitucional" que no dia 14 do presente mês de maio devem todos concorrer na casa da residência do tenente–general, governador das armas da corte e província para nomearem a comissão que deve cuidar do andamento e conclusão da inauguração da estátua eqüestre do Sr. D. Pedro I. Rio de Janeiro, 1825, in 4.°, n.° 7.140 do Cat. da Exp.

U) Apologia da religião no espiritual e dos impérios no temporal. Rio de Janeiro, 1825, in 4.°.

12) Discurso proferido no Grande Oriente do Brasil, na qualidade de grande orador, na ocasião em que o senhor D. Pedro I tomou posse do malhete de grão-mestre. Vem inserto no "Brasil Histórico", n. 45.

13) Memória sobre abolição do comércio de escravatura. Rio de Janeiro, Tip. Imparcial de F. de Paula Brito, 1837, 46 págs. in 4.°. É publicação póstuma, empreendida por Antonio Alves Branco Muniz Barreto, filho do autor. N.° 15.174 do Cat. da Exp.

14) Observações sobre a prosperidade do novo império do Brasil. Essa obra permanece inédita. Consta de uma relação de manuscritos estrangeiros, a qual se acha na "Rev. do Inst. Hist.", tomo 4.°, págs. 394 a 398.

15) Plano sobre a civilização dos índios do Brasil, principalmente para a capitania da Bahia, com uma breve notícia da missão que entre os mesmos índios foi feita pelos proscritos jesuítas, dedicado ao sereníssimo senhor D. João VI, príncipe do Brasil, etc. Saiu na "Rev. do Inst. Hist.", tomo 19.°, págs. 33 a 91 e 64.°, pág. 27. Existem diversas cópias desta obra. A Bib. Nacional do Rio de Janeiro possui uma de 50 fls. com uma estampa e com a declaração de ser de novo correta e aumentada pelo autor em 1794, a qual foi conferida com a do Instituto Histórico por A. Gonçalves Dias, que notou as variantes encontradas. Há outra cópia na Bib. Eborense, como se verifica no catálogo de manuscritos de Cunha Rivera. N.° 6.308 do Catálogo da Exposição. Acha-se, também, no n.° 9.170 do mesmo catálogo.

16) Requerimento feito a S. M. em nome dos índios domesticados da capitania da Bahia, etc. Vem em seguida da obra precedente, na "Rev. do Inst. Hist.", de págs. 91 a 98. Nesse requerimento os índios pedem, não somente missionários de boa vida e novos diretores, como também várias medidas tendentes ao culto religioso, à instrução e civilização.

17) Observações relativas à agricultura, comércio e navegações no continente do Rio Grande de S. Pedro do Brasil, dedicadas ao Sr. Bispo titular do Algarve, etc. O manuscrito de 14 fls. in foi. pertence ao Instituto Histórico. N.° 12.908 do Cat. da Exp.

18) Observações que mostram, não só o crime de rebelião que temerário sacrilegamente intentaram alguns moradores da capitania de Minas Gerais, a legítima posse que têm os senhores reis de Portugal aquelas conquistas, Lisboa, 16-11-1793. Cópia de 17 fols., idem, n.° 6.542 do Cat. da Exp.

19) Apendix que se promete na quinta demonstração do discurso forma sobre a premeditada conspiração de alguns réus, moradores na capitania Minas, o qual mostra os abusos que se têm introduzido na administração justiça e governo da capitania da Bahia. Existe o manuscrito na Bib. Nacional, 52 fls. N.° 6.306 do Cat. da Exp.

20) Notícia da viagem e jornadas que fez entre os índios sublevados nas vil e aldeias das comarcas de Ilhéus e Norte, da capitania da Bahia. O original 17 fls. de 1792, com cinco estampas coloridas, feitas a mão, pertence à Bibliot ca Nacional. N.° 1.032 do Cat. da Exp.

21) Representação feita à Assembléia acerca das ocorrências políticas, relat vas à independência do Brasil. O autógrafo de 24 fls. pertence a D. Joana T. d Carvalho e esteve na Exposição de História Pátria, com os outros citados. N. 7. 000 do Cat. da Exp.

22) Discurso que foi repetido na presença do povo indiano da Vila de Santarém, na capitania da Bahia, depois da missa que, em louvor do Santíssimo Coração de Jesus, foi celebrada pelo reverendo vigário, etc. O original de 7 fls. pertence à Biblioteca Nacional. N.° 6.307 do Cat. da Exp.

23) Memória dos sucessos acontecidos na cidade de Lisboa, desde 29-11-1807 até 3-2-1808, escrita e dirigida ao Sr. D. João VI. Fazia parte dos manuscritos da coroa de Portugal, sob a guarda do Visconde de Vila Nova da Rainha, que passaram do Brasil a Portugal com a corte.

24) O Despertador Constitucional Extraordinário — Rio de Janeiro, 1825 e 1826, in foi., Tip. de Silva Porto & Cia. e na Tip. Nacional. Foi redigido por Muniz Barreto. N.° 4. 056 do Catálogo da Exposição.

FONTES PARA O ESTUDO CRÍTICO

Rev. do Inst. Hist, e Geog. Bras. — Os Munizes Barretos na Bahia, tomo 52 — Sacramento Blake — Die. Bibliog. brasileiro, vol. 2.°, pág. 189.

NOTÍCIA BIOGRÁFICA

Era um militar ilustre, que prestou serviços à causa da Independência. Distinguiu-se como publicista de espírito combativo e político de firmes convicções.

A sua ação principal como propagandista da autonomia nacional se exerceu na maçonaria, de que era figura preeminente, como orador eloqüente e homem de cultura variada. Foi quem teve a primazia de propor, em uma das sessões da loja maçónica do Grande Oriente, que se desse ao Príncipe D. Pedro o título de imperador em vez de rei, como se pretendia.

Esteve comprometido nos sucessos de 30-10-1822 da referida associação secreta; e, por esse motivo, recebeu ordem de prisão, foi submetido a processo e sofreu o vexame das inconvenientes devassas.

Reconhecida a sua inocência, ou por falta de provas que justificassem a acusação, conseguiu a liberdade.

O escritor distinguiu-se pelas obras de utilidade e pela manifestação de um espírito eminentemente liberal. Assim, coligiu toda a legislação da época, de 1752 a 1810, organizando um repertório de leis e atos da administração pública, em dois alentados volumes: o primeiro concernente a assunto militar e o segundo a matéria civil, criminal, orfanológica, etc. Além disso, preparou um formulário para as petições forenses.

O político escreveu várias peças, definindo atitudes e opiniões. Mas a sua feição mais apreciável reside nas idéias avançadas do economista, sobre a abolição do tráfico de escravos, a civilização dos índios e a prosperidade do país.

O militar distinguiu-se pela carreira que fez, atingindo o posto de marechal de campo do exército e desempenhando as funções de vogal do conselho supremo militar. Mas revelava espírito jurídico, pela observância das leis, obediência aos atos emanados da autoridade e respeito a todos os preceitos de ordem e de justiça.

O homem de letras distribuiu a sua atividade entre várias corporações literárias.

O político era positivo em suas decisões e corajoso ao emitir as suas idéias, conforme comprovou em sua campanha jornalística em "O Despertador Constitucional Extraordinário" e em vários opúsculos.

De sua erudição deixou sobejas provas, afirmadas pelo Instituto Histórico, quando, por proposta de Januário da Cunha Barbosa, adquiriu a coleção de inéditos que ele deixou.

Foi agraciado com a comenda da ordem de S. Bento de Avis.

 

set 302011
 

Cônego Fernandes Pinheiro (1825 – 1876)

CURSO DE LITERATURA NACIONAL

LIÇÃO XV

LIÇÃO XVI

historiografia

(Ninguém desconhece a importância do estudo da história, magistra vita, testis temporis, na frase de Cícero. Com o fio de Ariane conduz-nos ao labirinto do passado, e faz-nos assistir pela imaginação a fatos ocorridos em estranhos climas e remotas eras. Fez-nos classificá-la nas belas letras o encanto que nos causa a sua leitura, por isso que não poucas vezes a pena do historiador se converte em pincel, e descrevendo, ou narrando, deslumbra-nos pelo brilhantismo do colorido.

De duas diversas maneiras pode-se escrever a história: ou como testemunha impassível dos acontecimentos, registrando-os sem fazer-lhes o menor comentário; ou apreciando as causas donde dimanam os sucessos, e procedendo à rigorosa autópsia das circunstâncias que mais ou menos atuaram sobre eles. O primeiro destes métodos produz a crônica, que rejeita a crítica, e, interrogando as tradições populares, apressa-se em enfeixá-las em um ramalhete de maior ou menor fragrância. Foi Heródoto o patriarca dessa escola, que contou ilustres adeptos, sendo Fernão Lopes o que em Portugal maior nomeada granjeou. Submete a segunda escola todos os fatos à luz da crítica, e nunca conta sem que moralize e racircme. É mais filosófico e infinitamente mais útil o segundo destes métodos: cumpre porém reconhecer que exige ele da parte dos escritores e dos leitores certo grau de adiantamento que lhes permita estudar com imparcialidade o passado, cortando não raro por legendas que sobremodo lisonjeiam o orgulho e a vaidade nacionais.

É evidente que antes do século manuelino não podia existir em Portugal a história, como a compreenderam Tucídides e Tácito; porque não estavam preparados os ânimos para ouvi-la e apreciá-la. Coube a João de Barros a glória de inaugurar a era histórica, impedindo o seu hiperbólico patriotismo e exagerada admiração por Tito Lívio de atingir à perfeição, que do seu talento e dos meios de que dispunha se faziam esperar. .

Forma João de Barros a transição entre a crônica e a história, participando a sua obra de ambas as naturezas. Havia ele empreendido a gigantesca tarefa de narrar as façanhas de seus compatriotas nas quatro partes do mundo então conhecidas; circunstâncias porém que não chegaram ao nosso conhecimento impediram-lhe tão louvável desejo. Resta-nos apenas uma parte da vasta enciclopédia histórica que delineara, e para a qual consta que juntara grande cabedal de documentos.

Já em outro lugar demos algumas noções biográficas deste exímio escritor que com Camões, Sá de Miranda e Ferreira tanto contribuiu para o aperfeiçoamento do idioma português: consideremo-lo agora como historiador e analisemos a sua

Ásia, ou Década dos Feitos que os Portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente.

Em quatro seções, denominada Décadas, a exemplo de Tito Lívio, dividiu ele a sua história, as quais foram separadamente publicadas, vindo à luz a primeira em 1552, e a segunda em 1553, a terceira em 1563 e a quarta em 1615. Asssvera o abade Barbosa Machado que as duas primeiras décadas foram traduzidas em italiano por Antonio Ulloa. Faltou a vida a Barros para a conclusão desta obra, cuja última parte foi impressa depois da sua morte e saiu dos prelos de Madri. Para terminar o glorioso padrão que ele se propusera ergusr aos altos feitos lusitanos, foi designado Diogo do Couto, com o qual nos ocuparemos na quarta época da literatura, a que pertence.

Já exprobramos a Barros a sua parcialidade para com todas as ações de seus compatriotas e a injustiça com que trata os inimigos do seu país. Em suas páginas são os orientais pintados com tétricas cores, e pouco faltou para que fossem representados como antropófagos. A diferença de culto arrastou também o douto historiador a inexatas apreciações: e, consagrando implacável ódio aos sectários do Korão, ou aos adoradores de Brama e de Buda, obstinou-se em desconhecer neles a menor partícula de virtude. Com que arte, com que singular talento, busca ele atenuar os erros, e até os crimes, de seus compatriotas! Não eram eles patriarcados por esses heróicos peregrinos que iam às regiões de aurora dilatar as fronteiras da fé? Aos seus olhos, obcecados por um falso zelo religioso, tanto bastava para justificá-los.

Pretende Sismondi que a parcialidade de Barros era necessária para que a sua obra fosse verdadeiramente nacional, para que aprouvesse aos seus conterrâneos. "Era parcial, diz ele, – verdade, mas tanto quanto o deve ser um historiador nacional para que interesse. Para que tomaria a pena, se não tencionava alçar um glorioso monumento à sua pátria? Não a teria traído, se, consultado sempre como advogado, a condenasse como juiz? Poderá animar, eletrizar os leitores pelo entusiasmo que produz os grandes feitos quem os dissecar para amesquinhá-los, com afã buscar os vergonhosos motivos das ações ilustres, sufocar os sentimentos pela dúvida, ou comunicar ao seu livro o gelo que enerva o coração? Mais vezes acontece o descobrir-se a verdade pelos escritores parciais para com o seu país do que pelos que por ele nada sentem; porquanto, privado do sentimento, são incapazes de apreciar coisa alguma com exatidão." 1

Discordamos da opinião do distinto escritor, cujas palavras acabamos de citar; pois entendemos que a missão do historiador é semelhante à do juiz, que, com os olhos fitos na justiça, pouco se deve importar que agradem, ou deixem de agradar, as suas sentenças, só esperando da posteridade a sua confirmação. Avantajam-se no conceito dos homens sensatos os autores que melhor lutaram com os preconceitos dos seus contemporâneos, e cujas vistas perspicazes lobrigaram os horizontes longínquos da verdade. Perderam coisa alguma do seu patriotismo D. Jerônimo Osório e Damião de Góis, por haverem estigmatizado as carnificinas dos judeus, e as cruéis medidas contra eles ordenadas? — Eram no entanto essas idéias populares; e a aversão aos infiéis parecia fazer parte integrante do caráter nacional.

Honrosas para Portugal e úteis à civilização foram as façanhas dos Almeidas, Albuquerques, Pachecos e Castros; cumpre porém não perder de vista que defendiam os asiáticos os seus lares, injustamente agredidos por esses audazes navegadores, que dos confins da Ibéria vinham às margens do Ganges e do Indo avassalar os reis e impor-lhes sua pesada aliança.

1 De la littérature du midi de l’Europe, T. II, Ch. XXXTX.

 

Desses abusos, dessas violências contra todo o direito divino e humano, que artificiosamente cculta Barros debaixo do esplêndido ouropel do seu poético estilo, fazem menção Castanheda, Couto, Jacinto Freire, e outros, que não recearam nodoar a opa do triunfo lusitano com a confissão da verdade.

Preferiu porém Barros a tuba épica ao buril da história, e assim como precedera Heródoto a Homero, publicou ele a sua primeira década no mesmo ano em que Camões partia para a índia. A pompa do seu estilo, o entusiasmo que inspira as suas narrativas, faziam-no digno de preludiar a epopéia. Eis como a tal respeito se exprime um dos mais conceituados críticos portugueses, o distinto Francisco Dias Gomes: "Pelo longo estudo que fiz das suas obras convenci-me que preparou esse grandíloquo estilo de que mais tarde se serviram os nossos poetas épicos."

O despeito de Barros por não se terem os portugueses aproveitado da oferta de Colombo, cujo feliz descobrimento reverteu todo em proveito de seus êmulos, revela-se na maneira por que descreve a volta do almirante a Lisboa.

Procedendo por esta manera (diz ele) as cosas deste descobrimento, estando El-Rei o ano de quatrocentos e noventa e três a seis de Março em Val do Paraíso junto do Mosteiro de N. S. das Virtudes, termo de Santarém; por razão da peste, que andava por aquela Comarca foi-lhe dito que ao porto de Lisboa era chegado um Cristóvão Coiom, o qual dizia que vinha da Ilha de Cipango e trazia muito ouro e riqueza da terra. El-Rei porque conhecia este Colom, e sabia que por El-Rei D. Fernando de Castela fora enviado a este descobrimento, mandou-lhe rogar que qusesse vir a ele pera saber o que achara naquela viagem; o que ele fez de boa vontade, não tanto por prazer a El-Rei quanto por o magoar com sua vista. Porque primeiro que fosse a Castela, andou com ele mesmo Rei D. João, que o armasse pera este negócio, o que ele não quis fazer por as razões que abaixo diremos. Chegando Colom ante El-Rei, pero que o recebeu com agasalhado, ficou mui triste, quando viu a gente da terra, que com ele vinha, não ser negra, de cabelo revolto, e do vulto como a de Guiné, mas conforme em aspecto, cor e cabelo, como lhe diziam ser a da índia, sobre o que ele tanto trabalhava. E porque Coiom falava maiores grandezas e coisas da terra do que nela havia, e isto com uma soltura de palavras, acusando e repreendendo a El-Rei em não aceitar a sua oferta, indignou tanto esta maneira de falar a alguns fidalgos, que ajuntando este aborrecimento de sua soltura com a mágoa que viam ter El-Rei de perder aquela empresa ofereceram-se deles que o queriam matar, e com isto se evitaria ir homem a Castela. Cá verdadeiramente lhe parecia que a vinda dele havia de prejudicar a este Reino, e causar algum desassossego a S. Alteza, por razão da conquista que lhe era concedida pelos Sumos Pontífices, da qual conquista parecia que este Co.om traz.a aquela gente. As quais ofertas El-Rei não aceitou, antes as repreendeu como Príncipe Católico, pcsto que desse feito de si mesma tivesse escândalo; e em lugar disso fez mercê a Colem, e mandou dar de vestir de grã aos homens que trazia daquele novo descobrimento, e com isso o expediu.

Ninguém deixará de estranhar a frieza com que Barros menciona o nefando projeto de alguns fidalgos portugueses: não achando uma só expressão de censura, limita-se a dizer que D. João II não aceitara o oferecimento por ser príncipe católico! Cremos que, se desgraçadamente se tivesse consumado o crime, não deixaria o historiador de atenuá-lo, pin-tando-o como justo desforço pela soltura de palavras com que se exprimia Colombo, ou ainda por ter dado a outrem o que Portugal rejeitara.

Nem menos injusto é João de Barros para com os dois ilustres portugueses que desgostos particulares levaram a prestar a Carlos V o poderoso auxílio de seu gênio e pasmosa audácia. Jamais louvaremos tais ates de desespero; e os Temístocles, Alcibíades e Coriolanos não podem encontrar nada que justifique as suas defecções. Cumpre porém não lhes caluniar a memória, bastante onerada pelo peso da verdade. Fernão de Magalhães e Rui Faleiro não merecem, quanto a nós,- os afrontosos epítetos que lhes prodigaLza o autor da Ásia Portuguesa.

Como seu modelo (Tito Lívio) acolhia Barros as tradições com pouco discernimento; e uma vez que fossem elas favoráveis aos seus dava-lhes carta de cidade. Demasiadamente retórico aprazia-se em fazer discursos, que nem sempre são apropriados aos personagens a quem são atribuídos.

Tais são no nosso entender os principais defeitos de Barros como historiador; considerando-o porém como panegirista, ou encomiasta, convertem-se eles em belezas.

Se como escritor o submetermos à crítica, pede a eqüidade digamos que poucos em nosso idioma como ele compuseram. Inúmeras são as passagens de rara perfeição de estilo que em sua obra encontramos; obrigando-nos a estreiteza do espaço a pouquíssimas transcrições.

Logo no capítulo XVI da primeira Década deparamos com o retrato do infante D. Henrique, notável pela perfeição dos costumes e regularidade de traços:

Este excelente Príncipe foi fiiho terceiro d’El-Rei D. João, o primeiro, de gloriosa memória, e da Rainha D. Filipa, sua mulher, filha do duque João d’Além-Castro, e irmã d’El-Rei D. Henrique, o quarto, da Inglaterra. E como da excelência do sangue pela maior parte procedem todas as inclinações da pessoa podemos crer que sobre este fundamento Deus edificou nele as outras almas, que enquanto viveu mostrou em suas obras. Dizem que a estatura do seu corpo era de compassada medida, e de largos e fortes membros, acompanhados de carne, a cor da qual era branca e corada, em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabelos algum tanto levantados, e acatamento, à primeira vista (por gravidade de sua pessoa), um pouco temeroso a quem dele não tinha conhecimento: e quando era provocado à ira mostrava uma vista esquiva, e isto poucas vezes; porque na maior força de qualquer desprazer que lhe fizessem, estas eram as mais escandalosas palavras que dizia: Dou-vos a Deus, sejais de boa ventura. A continênc!a do seu vulto era sossegada, a palavra mansa, e constante no que dizia, e sempre eram castas e honestas; e esta religião da honestidade guardou não somente em as obras, mas ainda nos vestidos, trajes da sua pessoa e serviço de casa.

Como amostra do quanto prima Barros nas descrições, copiaremos o começo da que traça do sítio em que está edificada a cidade de Ormuz.

A cidade de Ormuz está situada em uma pequena ilha chamada Gerum, que jaz quase na garganta de dentro do estreito do mar Pérsio, tão perto da costa da terra de Pérsia, que haverá de uma à outra três léguas, e dez da outra Arábia, e terá em roda pouco mais de três léguas, toda mui estéril, e a maior parte uma maneira de sal e enxofre, sem naturalmente ter um ramo, ou erva verde. A cidade em si é mui magnífica em edifícios, grossa em trato, por ser uma escala onde concorrem todas as mercadorias orientais e ocidentais a ela e as que vem da Pérsia, Armênia e Tartaria que lhe jazem ao norte, de maneira que não tendo a Ilha em si coisa própria, per carreto tem todas as estimadas do mundo. Porque até água, coisa tão comum, tirando alguma de três poços e cisternas, toda lhe vem da terra firme da Pérsia, parte dela em vasilhas, e a outra solta em barcas com toda a hortaliça, verdura, frutas verdes, sorôdia que despende que é em abastança assi da comarca a que eles chamam Mogortão, como destas Ilhas que têm por vizinhas, Queixome, Larec e outras; com o que a cidade é tão viçosa e abastada que dizem os moradores dela, que o mundo é um anel, e Ormuz uma pedra preciosa engastada nele.

Modelo de simplicidade é a narração da tomada de Malaca pelo grande Afonso de Albuquerque, de que daremos um fragmento:

Recolhido Afonso d’Albuquerque às naus, mandou logo El-Rei Mahamed com grão diligência reformar suas estâncias e dobrá-las em artilharia e resistência. E porque viu que no dia da entrada dos nossos começaram seguir a rua larga, além de novamente fazer na boca dela uma tranqueira mandou minar toda a rua, e enterrar nela umas canas grossas cheias de pólvora, e semeá-la de abrolhos de ferro com peçonha, e assi os lugares por onde podiam os nossos fazer entrada, para os encravar e queimar. Fez também além desta uma coisa mui nova, que em sua vida em quantas guerras teve nunca fez, pagar soldo aos Jaus, porque soube que naquela entrada que os nossos fizeram na cidade não pelejaram também como eles costumam e puderam fazer…

Finalmente em algumas consultas que Afonso d’Albuquerque teve com os Capitães, assi por parte deles, como sua ocorriam tantas cousas umas em contrário de outras té que por derradeiro vieram a concluir que acabassem de ver o fim desta empresa, que foram buscar por tão comprido caminho. Porque Deus não moveu o ânimo dele Alonso d’A buquerque por acabar no que tinham feito, e nos inconvenientes que punham, mas para fim e glória de sua Santa Fé, porque dali se fosse estendendo por aquelas grandes regiões Orientais tão safaras dos méritos da sua Redenção, e apagar aquele fogo de Mahamed que se começava acender por todas aquelas partes; da comunicação que o Gentio dela tinha com os Mouros daquela cidade, a qual era já feita uma casa d’abominação de infernal doutrina.

Do estilo florido e derramado serve de exemplo a narrativa da chegada d3 Albuquerque à cidade de Goa; da qual também faremos este extrato.

Chegando Afonso d’Albuquerque à barra de Goa com toda a sua frota , deixou embaixo as naus grandes da carga, e levou acima ao porto de Goa as de pequeno porte, que podiam levemente ir pelo rio. Na saída do qual em terra a cidade lhe tinha feito um solene recebimento, e quando foi a entrada da porta da cidade, um Mestre Afonso, homem letrado, Físico, que servia de Juiz Ordinário, lhe fez uma oração. A substância da qual era, como ele ganhara aquela cidade aos Mouros, com que acerca dos Reis e Príncipes da Índia, por ser ela uma das mais notáveis daquelas partes, a nação Portuguesa, não somente tinha ganhado grão nome, mas ainda em ser sua era um duro jugo, que cada um destes Príncipes tinha sobre o seu pescoço…

E em d’zendo estas palavras o Capitão da cidade, lhe entregou as chaves dela, e ele depois lhas tornou a dar, e de si foi a Sé dar graças a Deus da mercê que lhe tinha feito em o trazer àquela cidade, onde estavam todos os seus desejos, e dai ao seu aposento. Passados dos dias da sua chegada, começou ele a entender nas cousas de sua obrigação e oficio, pedindo razão a cada um do que tinha feito, começando primeiro naqueles a que ante da sua partida tinha mandado alguma cousa, assi como a Diogo Fernandes de Beja, que mandara desfazer a fortaleza de Socotará…

Com grande eloqüência enumera o ilustre historiadcr os perigos arrostados por seus compatriotas, quando por ocasião do naufrágio de Afonso de Albuquerque nos baixos de Aru, na costa ds Sumatra, diz:

Entre muitas cousas de grande admiração, que esta nossa conquis-ta Oriental tem, e muito para ponderar com dscurso de prudência, é, que além de contendermos acidentalmente per armas com homens de tão várias nações e seitas, como nela há, temos perpétua contenda com as elementos sendo cousa mais bruta, fera e impetuosa que Deus criou, que até nosso tempo não temos visto, em alguma gente. Porque se lemos guerras de Persas, Gregos, Romanos ou de outras nações desta nossa Europa, nas quais houve grandes perigos no rompimento d’exército com exército, trabalhos de fome e sede e vigília na continuação de algum comprido certo, frio e ardor do sol na variação dos tempos e climas, grandes enfermidades na corrupção dos ares, ou mantimentos e outros mil gêneros d’acidentes que chegam a estado de morte, todos estes perigos e trabalhos passa a nossa gente portuguesa em suas navegações e conquistas. E sobretudo peleja com a fúria do vento, ímpeto do mar, dureza da terra, temendo seus baixos e encontros; e finalmente têm posta a vida e morte esse tão breve termo como são três dedos de tábua às vezes com’esta do Busano, e no descuido de cair em uma pevide de candeia em lugar onde se possa atear, e em outros muitos particulares e miúdos casos de que resulta tão grande cousa, como vemos em tanto número de naus que são perdidas. Em cada uma das quais podemos afirmar que se perde uma mui nobre Vila deste Reino em substância de fazenda e em nobreza de gente. E o que mais devemos lamentar por parte dele, é, que vêm os homens daquelas Orientais regões salvos do fogo e ferro de tanto Mouro e Gentio, como nelas habitam, trazendo as naus carregadas dos seus despojos; e um tão pequeno perigo como este que apontamos, confunde tudo no abismo do grande Oceano, principal sepultura dos portugueses, depois que começaram seus descobrimentos.

Na passagem que acabamos de citar vence o espírito filosófico ao ânimo belicoso que ditou a Ásia Portuguesa: arranca-lhe o naufrágio de um dos protagonistas do grande drama indiano a sincera confissão dos males e perigos inerentes a essas longínquas e perigosas conquistas.

Para rematar os excertos que havemos feito da inevitável obra de João de Barros, transcreveremos o primoroso quadro que traçou dos últimos momentos do vencedor de Malaca e de Ormuz.

Afonso dAlbuquerque lida a carta, temendo que estas novas podiam fazer alguma mudança no que ele deixava ordenado em Ormuz para onde a nau ia, tomou-lhe quantas cartas levavam de Dio, e para isso lhe mandou dar juramento, e deu-lhes outras para seu sobrinho Pero d’Albuquerque dando-lhe aviso do que devera fazer. Expelidos esses Mouros com mercê que lhes fez, ficou só com D ogo Fernandes, e Pero dAlpoem, e tornando ler a carta de Cide Alie, quando veio a dizer que vinha Lopo Soares por Capitão-Mor, disse: Lopo Soares por Capitão-Mor à Índia! este é, e não podia ser outro: e Diogo Mendes, e D:ogo Pereira, que eu mandei presos ao Reino por culpas que tinham, El-Rei Nosso Senhor os torna cá mandar, um por Capitão e Feitor de Cochij e outro por Secretário! tempo é de acolher à Igreja; e assi fico mal com El-Rei por amor dos homens, e mal com os homens por amor d’El-Rei. E levantando as mãos a Deus, disse que lhe dava muitas graças, pois em tal tempo El-Rei mandava Capitão-Mor, porque (segundo o estado em que ele se achava) sua vida seria mui breve. E com isto começou tomar uma contínua de palavras dizendo:

Tempo é de acolher à Igreja; e quanto gosto tinha de dizer isto tanto lhe Aborrecia comer, e todas as cousas de folgar e prazer, que Diogo Fernandes e Pero d’Alpoem lhe representavam, por lhe verem enfra-quecer muito o espirito, assi com a enfermidade, como com as novas que lhe deram, esperando eles outras cousas de seu galardão. E o que mais o enfraqueceu, foi junto de Dabul, onde achou uma nau que fora em companhia de Lopo Soares, na qual ia por Capitão e armador um Joannes Impole, o qual per mandado de Lopo Soares ia a Dio a vender mercadoria, e fazer roupa para levar a Malaca, onde por seu contrato havia de ir carregar. O qual Joannes mui particularmente lhe contou cousas que pera sua saúde foram veneno, e pera quietação do seu espirito mui danosas; porque vendo ele as que El-Rei cá ordenara para o governo da índia, tão contrárias ao que ele entendia que deviam ser, e do que lhe tinha escrito, foram pera ele uma abreviação da morte. Expedido Joannes, chegou sobre a barra de Dabul já com sinais dela, onde não fez mais detença que enquanto lhe trouxeram uns poucos de figos, rabãos, e outras verduras, as quais fizeram nele pouco alvoroço, por tudo lhe aborrecer, e de nenhuma cousa tinha mais sede que de chegar a Goa. A qual chamava terra da sua promissão, por a grande esperança que sempre teve de lhe El-Rei nela dar algum galardão de seus serviços com acrescentamento de honra; cá em algumas cartas que lhe El-Rei escrevia acerca do contentamento que tinha das vitórias que lhe Deus dava, isto lhe dava entender. E posto que as novas que ele houve de Lopo Soares lhe quebraram o animo desta esperança, ainda confiado na grandeza de seus servços, desejava em extremo ver cartas d’El-Rei, porque nelas podia ver cousa que lhe desse mais vida do que a enfermidade prometida. Indo assi com esta agonia do espírito, e morte que já com eie começava lidar, porque Diogo Fernandes e Pero d’Alpoem viam que muita parte daquele trabalho em que estava, era por não ver em sua vida algum galardão de seus serviços, pelo aliviar daquela dor do ânimo fizeram com ele que escrevesse alguma carta para El-Rei, quase como nisso em alguma maneira podia desabafar. O qual importunado deles mandou escrever estas regras, que já mal assinou: Senhor, esta é a derradeira que com soluços de morte escrevo a Vossa Alteza, de quantas com es~ pírito de vida lhe tenho escrito, pola ter livre da confusão desta derradeira hora e muito contente na ocupação do seu serviço. Nesse Reino deixei um filho, por nome Brás d’Albuquerque, ao qual peço a Vossa Alteza que faça grande, como lhe meus serviços merecem. Quanto às cousas da índia elas falarão por si e por mim. Chegando a barra de Goa, onde eram todos os seus desejos, parece que permitiu Deus pera sua salvação não sair em terra; cá não houve mais espaço que enquanto o Padre Frei Domingos, Vigário-Geral, que ele já per o bargantim tinha mandado buscar, esteve com ele nas cousas da sua alma, a qual deu a Deus da chegada à barra cinco horas, um Domingo pela manhã, dezesseis de Dezembro de quinhentos e quinze, em idade de sessenta e três anos.

Puríssima é sempre a linguagem de Barros com razão nomeado como um dos mestres da língua. Peca porém não poucas vezes contra a clareza e concisão pelo seu demasiado amor aos hipérbatons e perífrases que fazem quase que intermináveis os seus períodos. Era porém esse o gosto da época, cuja ação nunca deixa de manifestar-se nos escritos, ainda dos mais eminentes engenhos.

FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA

Ignora-se o ano em que nascera este distinto escritor, sabendo-se unicamente que vira a luz em Santarém, sendo filho natural de Lopo Fernandes de Castanheda, primeiro ouvidor de Goa, em cuja companhia passara à índia em 1528. Aí ideou a obra que o imortalizou, e na qual empregou o espaço de vinte anos, estudando o teatro dos acontecimentos, cuidadosamente pesquisando os dccumentos, e interrogando as tradições. De volta à pátria, rico de notícias, e pobre de fazenda, viu-se obrigado a aceitar o emprego de bedel do colégio das artes na universidade de Coimbra e guarda do respectivo arquivo, no desempenho de cujas funções faleceu a 23 de Março de 1559, como consta do seu epitáfio que a4é pouco tempo existia na igreja paroquial de S. Pedro de Coimbra. A única obra deste desditoso escritor de que temos conhecimento é a

História do Descobrimento e Conquista da índia pelos Portugueses, da qual apenas se publicaram oito livros entra os anos de 1551 e 1561, ficando inéditos os nono e décimo, apesar de concluídos.

Temos à vista a nova edição, feita em Lisboa em 1833 pelo impressor Rolland em oito volumes in-4°, a qual se diz colecionada pela primeira de Coimbra, a que acima nos referimos.

Mereceu esta excelente história a honrosa distinção de ser traduzida em espanhol, francês, inglês e italiano, sendo citada pelos mais distintos escritores nacionais e estrangeiros como o melhor guia para entrar-se no verdadeiro conhecimento da Ásia Portuguesa.

Posto que não possuía Castanheda a majestade do estilo de Barros, nem a sua erudição, leva-lhe contudo a palma em ser quase testemunha ocular do que narra pelo acurado estudo que fez dos homens e das cousas da índia.

Da dedicatória endereçada a el-rei D. João III colige-se qual o plano que adotara:

E sentindo eu tamanha perda como fora perder-se a memória de feitos tão amáveis que os portugueses fizeram, e pelas mais razões que d:go me dispus a tamanho trabalho, como levei em fazer, para o que me ajudou muito ir a índia, onde fui com Nuno da Cunha em

companhía do licenciado Lopo Fernandes de Castanheda, meu pal mil por mandado de V. A. foi o primeiro ouvidor da cidade de Goa. E a riqueza que lá trabalhei por alcançar foi saber muito par-ticularmnte o que até aquele tempo fizeram os portugueses no des-cobrlmento c conquista da India, e isto não de pessoas quaisquer, senão de Capitães e Fidalgos que o sabiam muito bem por serem presentes nos conselhos das cousas e na execução delas, e por cartas e sumários que examinei com estas testemunhas. E assi vi os lugares em que se fizeram as cousas que havia de escrever para que fossem mais certas: porque muitos escritores fizeram grandes erros no que escreveram por não saberem os lugares de que escreveram. V. não somente fiz esta diligência na índia, mas ainda depois em Por-tugal, por não achar nela quem me dissesse tanta diversidade de cousas e tão particularmente como queria saber. E além de todos me afir-marem com juramento o que me disseram me deram licença para os alegar por testemunhas. E estas pessoas com quem falei em Portugal andei buscando por diversas partes, com muito trabalho da minha pessoa e gasto, desse pouco que tinha: no que gastei vinte anos, que foi o maior tempo da minha idade, e nele fui tão perseguido da sua fortuna e fiquei tão doente e pobre, que por não ter outro remé+ dio com que me mantivesse aceitei servir uns ofícios na univeresidade dc Coimbra, onde no tempo que me ficava desocupado do serviço deles com assaz fadiga do corpo e do espírito acabei de compor esta história, que reparti em dez livros, que ofereço a V. A., a quem Deus Nosso Senhor depois de muitos e prósperos anos, ficando em seu lugar o Príncipe nosso senhor, leve do senhorio da terra ao do céu.

Por vezes o colorido da frase iguala, senão excede, ao de Barros, e quando pinta as cenas que presenciara dir-se-iam os seus quadros fotografias. Sirva de exemplo o do sacrifício das viúvas malabares:

Os ricos casam com quantas mulheres podem manter e os pobres com uma só; as mulheres se queimam vivas depois da morte dos maridos alguns dias, nos quais fazem grandes convites a parentes e amigos, e dão sua fazenda aos seus herdeiros, ou a outrem se não os têm, e depois vão em cima de um cavalo branco por todo o lugar onde moram com trombetas e muitos cantares, e muitos jogos; e adiante chocarreiros que vão louvando a honra que aquela mulher faz ao seu marido: e isto faz três dias com grande festa. E ao terceiro se veste dos melhores panos que têm e das melhores jóias, e depois de andarem pelo lugar vão-se ao lugar onde o marido foi queimado: e aí está feita uma cova, na qual está ardendo muita lenha: e junto com esta cova está feito um cadafalso de três degraus, no qual se descem estas mulheres. E estando ao derrador toda aquela gente que vem com ela, diz às mulheres que se lembrem do quanto devem aos seus maridos, pera lhe darem aquela honra, porque a fama dela durará pera sempre, e a dor que elas podiam receber passará em um momento: e des pindo-se lançam suas jóias e panos a quem querem, e ficando nuas dão três voltas ao redor do cadafalso chorando com as mãos levantadas, e na derradeira lhe dão um cântaro cheio de manteiga, e posto na cabeça’olha pera o sol, encomendando-se aos seus ídolos: e virando-se pera ó fogo lançam nele o cântaro e depois a si. Em se lançando seus parentes que estão ao redor do fogo lançam nele multo azeite, e manteiga para que acrescentem a fortaleza do fogo que logo as faz em cinza, e as que não podem fazer esta cerimônia por serem pobres queimam-se logo com os maridos, e as que não se querem queimar ficam desonradas, como que fizessem adultério; porque ninguém as obriga a queimarem-se senão suas honras.

Nem menos primorosas são as duas descrições dos vários países por onde peregrinara, e onde se haviam passado os principais sucessos da história luso-indiana. Citemos para prova do que dizemos a descrição da ilha de Ceilão:

E esta (a ilha de Ceilão) querem alguns dizer que é aquela a que antigamente chamavam Taprobana, que está setenta e cinco léguas de Cochim; e parta-se da terra firme por um paul chamado Chiláo, em que há muitos baixos por entre os quais se faz um canal muito estreito, e por este passo passam todas as naus que vão da índia para Coramandel, e dele para a índia, e perdem-se sempre muitas nestes baixos por ser o canal tão estreito que com dificuldade se pode acertar; e por isso os mercadores índios um dos perigos que rogam a Deus que os guarde é dos baixos de Chilão. Dizem que tem esta ilha de redor perto de CCC léguas. Os mouros Arábios e Pérsios lhe chamam Ceilão, que em sua língua quer dizer cousa de canal. Este nome lhe puseram por amor do canal que há cerca da banda da terra firme. Os malabares e outros índios lhe chamam Hebenaro, que quer dizer terra viçosa: e assim o é ela de muitas e mui boas águas, e de muito e diverso arvoredo, de que grande parte é de árvores de que se tira a canela, e que tem a folha como dos louros, e a casca é a canela que vem cá, que se tira dos ramos depois de encapotados e secos, e isto faz a gente baixa que a vende por mui pouco preço. Há também muitas laranjeiras doces que têm a casca tão doce como o gomo: e assi há todas as árvores de espinho, e outras muitas muito diferentes das nossas que dão diversas frutas, e todo o mato é dessas árvores: em que há também multas ervas cheirosas, assi como magericães, alfavacas e outras. E criam-se nos matos muitos e muitos grandes elefantes que tornam com outros mansos que prendem pelos pés em árvores, e fazem-lhe derredor grandes covas que cobrem com a rama onde caem ós bravos que se vêm pera os outros.

Mais parco do que Barros em discursos e alocuções, sabia-os Castanheda fazer com arte, revelando perfeito conhecimento das regras de retórica. Dentre os mais belos escolheremos o que dirigiu o mouro de Túnis, em nome de el-rei de Ormuz, ao capitão-mor Afonso de Albuquerque, cujo exórdio, no gênero insinuativo, pode ser apontado como modelo:

E pera todos desta terra e doutras, mui esforçado e invencível capitão, tamanha novidade de tua sobrenatural vitória, que estou . em duvida se folgue mais de escapar com a vida pera viver, se pera ver tua excelente pessoa; mas já que a vida é a todos tão aprazível, digo que tanto a estimo pera te ver como pela causa que a todos estimamos; porque segundo vejo não somente nos devemos de espantar do esforço e valentia que hoje mostraste que tens, mas a beninidade com que recebes os teus vencidos; devem-te todos de haver por tão estranha, quanto pela maior parte ela o é que naqueles que os homens têm por esforçados e valentes. E cuidava eu que a ufania de lua vitória te ensoberbeceria de maneira que nem as alimárias dessa cidade quererias ver, quanto mais os homens; e depôs que vi a piedade com que me recebeste acabei de crer que estavas no mais alto grau de valentia, pois é acompanhada de piedade que El-Rei d’Ormuz e Cojeatar te pedem que hajas dessa tão nobre e populosa cidade; porque já o fogo começa a lavrar, segundo podes ver do fumo que se nela levanta, ó mui grande capitão, dó:-te da angústia e afrição em que tens posto a seus moradores. E cesse já a tua ira, e não mandes fazer mais destruição nela, nem nas naus que estão varadas, porque elas são o enobrecimento da cidade por causa das mercadorias que trazem. E olha que não é tanto alcançar vitóra como sabê-la conservar, e conservando-a durará para sempre a tua fama, porque destruindo esta cidade acabará com ela a tua glória, porque não ficará quem diga que tu sojigaste, que sendo El-Rei d’Ormuz tamanho príncipe e Senhor de tanta terra e gente, e de muito tesouro, e Cojeatar que todo o governa querem ser teus vassalos, se lhe quiseres conceder paz; e ficarão debaixo da obediência del-Rei de Portugal, e como o capitão de seu Rei e Senhor te darão posse de todo o reino. E ainda farão mais se ma’s quiseres, porque já têm experimentado é necessário que assi o façam.

Era porém o estilo simples o que mais aprazia a Castanheda, e nele escreveu a maior parte da sua obra. Buscava-o de preferência para as narrações, em que raras belezas se manifestam, como v. g. na do funeral de Afonso de Albuquerque, de que daremos um extrato:

Depois que aprouve a Nosso Senhor de levar desta vida este tão esforçado e famoso capitão, foi aberto o seu testamento, em que se achou que mandava que seu corpo fosse enterrado em Nossa Senhora da Serra, que está na cidade de Goa, onde logo foi recado para que os clérigos e leigos se percebessem pera derradeiras honras que haviam de fazer a quem ganhou aquela cidade, onde o rebate de novas tão tristes deu assaz de torvação, especialmente ouvindo dobrar os sinos, que a todos certificaram ser a nova verdadeira, que ainda alguns a não podiam crer. E como todos tinham amor de pai ao Governador uns poios casar e lhes dar fazenda para sustentamento de suas vidas, cutros porque por natureza se inclinavam a isso polas virtudes que havia nele, não houve nenhum que não mostrasse no rosto a mágoa que tinha no coração, e uns com os outros faziam ajuntamentos por essas ruas falando na morte de Afonso de Albuquerque, que trazia a memória a muita honra e louvor que ganhara na vida, assi em servir a Nosso Senhor, como a El-Rei, afirmando que nunca iria à índia outro tal. E nisto chegou o seu corpo a Cais, onde o es+avam esperando os clérigos e frades cm suas cruzes e todas as confrarias com sua cera, e o Capitão da cidade com todos os fidalgos e gente outra que havia nela. E tirado do batel no catle em que ia foi posto em terra pera o encomendarem. E como vinha vestido no hábito

de Santiago, e uma rede d’òuro na cabeça com uma carapuça e beca de veludo negro, e barba branca que lhe chegava até a cinta, e o rosto descoberto com os olhos meios abertos parecia vivo; e quando assi o viram todos que conheceram o desamparo que o estado da índia recebia por sua morte foi tamanho o choro que todos a evantaram que mais foram lágrimas que os clérigos choraram que palavras que pronunciaram para o encomendar. E tomando-o com este pranto debaixo de um pálio que levaram fidalgos começaram de camirhar para Nossa Senhora da Serra. E entrando pela cidade parecia que se fundia toda com gritos das mulheres que ele casara, que todas saíram a vê-lo. E postas todas em cabelo e dizendo umas que perdiam pai, e outras senhor; e assi o choravam comumente cristãos, gentios e mouros, e em toda a cidade se não ouvia outra cousa senão choros, soluços, e com eles foi aquele corpo levado a N. S. da Serra, onde depois de se dizerem em uma pregação seus grandes louvores foi sepultado e posta sobre a sua sepultura uma eça de veludo negro e damasco, por se não achar veludo que abastasse, e sobre a eça foi dependurada a bandeira que levava nas batalhas, e suas exéquias duraram um mês, e daí por diante se lhe disse cada dia uma Missa, que ele deixou pera sempre…

Para não multiplicar as transcrições, deixamos de citar muitos outros lugares recomendáveis pela graça e elegância; bastando os espécimens que exibimos para que forme o leitor o seu conceito a respeito do autor da História do Descobrimento e Conquista da índia pelos Portugueses.

Não é a obra de Castanheda estreme de defeitos; e faltam-lhe muitos dos requisitos exigidos para o historiador. Grosseiro é o crisol da sua crítica, e apesar dos esforços que fez para possuir a verdade, numerosas fábulas se introduziram em suas páginas; mais imparcial porém do que Barros, aponta os erros e mesmo os crimes dos seus compatriotas, e tateando as chagas da índia feriu por certo mais de uma susceptibilidade.

A demasiada extensão dos períodos e o gosto pelas inversões das frases, que já notamos nas Décadas de Barros, encontram-se igualmente na História de Castanheda. Parece-nos contudo menos pretensioso e sistemático este último autor, ocupando-se mais com o assunto do que com as galas com que o devera arrear.

Algumas incorreções de linguagem, e extraordinária confusão ortográfica são máculas que a justiça pede se não dissimulem; talvez porém possam ser elas atribuídas à ignorância dos copistas, e ao atraso em que ainda então se achava a arte tipográfica em Portugal.

Finalizamos esta lição recomendando a assídua leitura e cuidadoso estudo dos dois historiadores cujas obras rapidamente analisamos.

Fonte: editora Cátedra – MEC – 1978

set 292011
 

Cônego Fernandes Pinheiro (1825 – 1876)

CURSO DE LITERATURA NACIONAL

 

LIÇÃO IX

 

GÊNERO DIDÁTICO

 

ESPÉCIE DIDÁTICA E EPIGRAMÁTICA

 

ESPÉCIE  DIDÁTICA

F. DE SÁ DE MIRANDA

 

Distinguiu-se este grande poeta na espécie didática; por isso que seu espírito naturalmente inclinado às cogitações fi­losóficas, a experiência que adquirira em suas peregrinações, e o retiro em que se lhe escoava a plácida existência, eram mui azados a esta poesia. Da sua carta escrita a el-rei D. João III, tantas vezes citada, como modelo do estilo epistolar, copiare­mos algumas quintilhas para prova do’ seu discernimento e da franqueza com que se expressava.

É admirável o seguinte quadro das* seduções e enganos que rodeiam os tronos:

Sobre obrigações tamanhas, Valem-se contudo os reis Dos rostos falsos, das manhas Com que lhe querem das leis Fazer teias d’aranhas.


Que se não pode fazer Per arte, per força, ou graça, Salvo o que a justiça quer, Senhor, não chamam valer, Salvo ao que lhes vai na praça.

E por muito que os reis olhem, Vão por fora mil enchaços Que ante vós, senhor, se encolhem Duns gigantes de cem braços, Com que dão e com que tolhem.

Quem graça ante rei alcança, E aí fala o que não deve, Mal grande de má privança, Peçonha na fonte lança, De que toda a terra beve.

Quem joga, onde engano vai, Em vão corre | e torna atrás, Em vão sobe, a face cai, Mal hajam as manhãs mas, Donde tanto dano sai.

Homem dum só parecer, Dum só rosto, uma só fé, Dantes quebrar que torcer, Ele tudo pode ser, Mas de corte homem não é.

Nem menos bela é a pintura do amor e fidelidade que os portugueses votavam a seus reis, e justamente apontada como um dos mais lindos pedaços dessa interessante epístola. Jul­guem-na por si os leitores:

Aqui não vemos soldados; Aqui não soa o tambor; Outros reis os seus estados Guardam de armas rodeados, Vós rodeado d’amor.

Achar-nos-ão as divinas No meio dos corações, Entalhadas vossas quinas; Estas são as guarnições De vós e dos vosscs dinas.

Tem na verdade o Francês A seu rei amor aceso, Não lho nega o Português, Porém traz guarda escocês, Que não é de pouco peso.

O Padre-Santo assi faz, A quem certo se devia Alto assossego, alta paz, Mas tem guarda todavia Com que vai seguro e jaz.

Que se pode ir mais avante
Com quanto alcança o sentido,
Sem ferro ou fogo que espante:
               Com duas canas diante

                                                                                                                                                                                                                                Is amado, e is temido.

ANTONIO FERREIRA

É opinião geralmente seguida entre os críticos que o pri­meiro lugar na poesia didática da terceira época pertence ao doutor Antônio Ferreira. Imitador de Horácio, leva vantagem a Sá de Miranda na elevação dos pensamentos, na pureza e correção de linguagem. Para bem confrontar esses dois exí­mios poetas escolhamos nas obras de Ferreira um assunto análogo ao que já extraímos das de Miranda; e seja a epístola endereçada.a el-rei D. Sebastião, onde se lêem estes concei-tuosos versos, modelos da respeitosa liberdade com que um magistrado do décimo sexto século falava ao seu soberano:

CD

Em duas partes iguais repartido

Te deu Deus seu poder, em prêmio e pena

Dê-se a cada um o que lhe fôr devido.

Aquele que suavemente ordena

Todas as causas, olha com amor

Paga o bem logo e devagar condena.

Não se acha ali respeito, não favor;

Tanto vai cada um quanto merece;

Iguais ante ele são servo e senhor.

Olha-te bem, grã rei, e a ti conhece,

Nascido só para reger a tantos.

E dessa grande alteza ao teu fim desce.

Ver-te-ás igual na humanidade a quantos

Mandas; verás o fim tão duvidoso

Como quem também morre e nasce em prantos.

Que presta ser na terra poderoso?

No alto fim do céu se põe em sorte

Que até ao filho de Deus foi tão custoso.

Corte o bom rei primeiro por si, corte;

Mais vence o exemplo bom que o ferro e fogo;

Não pode errar quem contra si é forte.

Nem a própria afeição, nem brando rogo

Tire a força a razão e a igualdade

Não se lhe faça sempre falso jogo.

Somente em Deus razão é a vontade:

Absoluto poder não há lia terra,

Que antes será injustiça e crueldade.

Que vontade mortal, senhor, não erra, Se a lei justa, e a razão a não enfreia, De que nasce a injustiça e a cruel guerra?

 

DIOGO BERNARDES

Menos erudito e menos pensador do que Ferreira, vence-o Bernardes em melodia, e na extrema veracidade com que descreve os quadros da vida campestre, que tão bem conhecia. Melhor colorista do que seus mestres, acha grande número de admiradores nos que preferem a forma à substância. Existem porém entre as suas epístolas algumas de subido mérito em que soube reunir qualidades que raramente se ajuntam. Sirva de exemplo a que nos descreve as doçuras e vantagens da vida do lavrador:

Em selva escura andamos às escuras, Sem ver do grã planeta claro e puro O lume que dá luz às luzes puras. Oh! bem-aventuardo o que seguro No campo vive com os seus bois lavrando, A dura terra com arado duro. Ou vai o longo rego semeando, Ou o monda, ou rega dês que nasce, Ou com foucinha torta o vai segando. Ou enquanto no prado o gado pasce, A videira sem mimo infrutuosa Co’o álamo sombrio espose e abrace. Ou em planta silvestre e amargosa, Enxerta com mão destra, e ferro agudo, Outra de melhor gosto e mais mimosa. Bem se pode chamar ditoso em tudo O que tamanho bem do céu alcança, Que gasta assim seu tempo e seu estudo; Que da fortuna adversa asp’ra mudança Não teme, nem dos homens mil enganos, Nos quais ter-se não deve confiança. Nunca dana ninguém, nunca vê danos Que causem na sua alma tal tristeza, Que mais asinha veja o fim dos anos. Goza dos puros dons da natureza, De mil suaves frutos, de mil flores, Que parte a primavera com largueza. Nunca se queixa em vão de vãos amores, Nem vê cuidados doidos quais eu tive, Quando sentia a dor das suas dores. Finalmente que vive, ah! como vive! Pois vive d’esp’eranças e receios, Tão livre que não tem quem o cative. Digo, por concluir estes rodeios, Que confesso de mim que tenho inveja

A quem de seus bens vive e não d’alheios.

Pelo que rogo ao céu que inda me veja,

Onde possa viver com liberdade

O pouco que da vida me sobeja.

Onde siga razão, negue vontade,

A minha, com as mais que errado sigo,

O trabalho perdendo após a idade.

Para não alongar demasiado esta lição deixamos de men­cionar aqui alguns outros poetas que se ilustraram na espécie didática, principalmente Pero de Andrade Caminha, e Luiz de Camões, que, sobre os demais, se avantajaram.

ESPÉCIE  EPIGRAMÁTICA

FRANCISCO DE SÁ DE MIRANDA

Primeiro introdutor da poesia italiana e um dos patriarcas da escola petrarquista em Portugal, não podia este poeta dei­xar de compor sonetos, necessário pórtico de todas coleções de rimas nessa época publicadas. De fato deparamos nas poesias de Sá de Miranda com vinte e cinco sonetos, dos quais alguns são escritos em castelhano. Dentre os primeiros o que nos pareceu mais sentencioso, e por isso mais próprio para ser oferecido como modelo, é o seguinte, dando-se todavia des­conto a alguns defeitos de metrificação:

O sol é grande; caem com a calma as aves De tempo em tal sazão, que sói ser fria; Esta água que d’alto cai, acordar-me-ia, Do sono não, mas de cuidados graves.

Oh! cousas todas raras, todas mudavesl Qual é o coração que em vós confia? Passando um dia vai trás outro dia, Incertos todos, mais que ao vento as naves!

Eu já vi por aqui sombras e flores, Vi águas e vi fontes, vi verdura, As aves vi cantar todas d’amores.

Mudo e seco é já tudo e de mistura, Também fazendo-me eu fui d’outras cores, E tudo mais revive, isto é sem cura!

ANTONIO FERREIRA

Pagando tributo às idéias do seu tempo, consagrou este poeta o seu estro a uma infinidade de sonetos, os quais, ainda que consideremos como pequenos poemas, na frase de Boileau, prestam-se infelizmente a banalidade, sendo por isso mui poucos os que dignos se tornam de honrosa menção. Pertence certamente ao número dos privilegiados o que abaixo transcre­vemos, pela frescura das imagens e harmonia do metro, com que descreve o poeta os cabelos da sua amada:

Enquanto solto, ao sol brando ar movia,’ O ouro, que o Amor da sua mão fia e tece/ De amorosos esp’ntos o ar se enchia,     ^’ –      ‘ De que amor doce em toda a parte cresce. •

Um lhe dava o nó crespo, outro tecia Laço, em que toda a alma livre empece, Outro o soltava ao vento e parecia Descer então o sol mais do que desce.

Namorava-se o claro sol da terra, Já crescendo o dia mais formoso, Minha alma de si mesmo estava fora,

Mas, recolhendo o amor, eis que se cerra Triste o céu, escuro o dia, o sol queixoso E minha alma dali sempre em vão chora.

DIOGO BERNARDES

Também nesta espécie seguiu o discípulo as pegadas dos mestres, também alistou-se nas bandeiras petrarquistas, e centúrias de sonetos saíram de sua pena. Como há pcuco dissemos, serviam eles de refúgio às banalidades, e custa a catar nesses palheiros algumas pérolas para engastar no nosso repertório. Julgamos o mais belo soneto de Bernardes aquele em que, com delicado pincel, pinta a luta de Leandro contra as vagas do Helesponto. Ei-lo:

Leandro em noite escura indo rompendo

As altas ondas delas rodeado,

No meio do Helesponte já cansado

E o fogo já na torre morto vendo,

E vendo cada vez ir mais crescendo O bravo vento, e o mar mais levantado, De suas forças já desconfiado Os rogos quis provar não lhe valendo.

Ai, ondas! suspirando começou; Mas delas sem lhe mais alento dar, A fala contrastada atrás tornou.

Ai, ondas! (outra vez diz) vento, mar, Não me afogueis, vos rogo, enquanto vou: Afogai-me ctepo.s quando tornar

LUIS DE CAMÕES

Querendo talvez mostrar a pasmosa fertilidade do seu en­genho, ensaiou o preclaro cantor do Gama todos os gêneros de sulco. Sobrepujou também no soneto a todos os que o haviam composições poéticas, deixando em todos impresso luminoso sulco. Sobrepujou também no soneto a todos os que o haviam precedido, e seria ainda hoje o primeiro nesta especialidade se não tivesse aparecido Bocage. Embaraçado na escolha de tantos primores, citaremos unicamente para espécimen aquele em que faz a pintura do Amor:

Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É um não contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade;

É servir a quem vence o vencedor;

É um ter, com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode o seu favor Nos mortais corações conformidade, Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?

Longe iríamos se quiséssemos mencionar todos os belos sonetos, glosas, epitáfios e epigramas que se encontram nos poetas desta época. Pensamos que para despertar o gosto da sua leitura basta o que deixamos apontado.

Fonte: editora Cátedra – MEC – 1978

set 072011
 

HISTÓRIA DA ARTE DE ERNEST GROSSE (1893)

CONCLUSÃO

CAPÍTULO XI

Andamos pelo domínio da arte primitiva como viajantes por um país recém-descoberto. Sem caminho traçado, vimo–nos obrigados a abri-lo nós mesmos. Em toda a parte, encontramos obstáculos. Em mais de um lugar, depararam–se-nos espessuras inextrincá-veis semelhantes aos brejos australianos impossíveis de atravessar e deles, portanto, tem que sair-se forçosamente, contornando-os. Em outros sítios, atravessamos abismos profundos sobre pontos vacilantes. Países inteiros escaparam a nossas pesquisas, ocultos por impenetráveis neblinas, e amiúde os cumes que pensamos divisar nos horizontes eram provavelmente nuvens apenas. Os mapas que se trazem de semelhantes expedições mostram necessariamente numerosos espaços em branco. Não obstante, devemos consolar-nos pelo fato de que os conhecimentos adquiridos, por pobres que sejam, são, contudo, conhecimentos.

Antes de iniciarmos o estudo da arte primitiva, procuramos esclarecer-nos de uma maneira geral acerca da natureza da arte. E dissemos: "Uma atividade artística é uma atividade destinada a despertar sentimentos estéticos pelo seu resultado ou em seu exercício".

Agora, que conhecemos as criações artísticas dos primitivos, vemo-nos obrigados a confessar que essa definição não está inteiramente de acordo com os fatos reais. As produções artísticas dos povos primitivos, na maioria, não devem sua origem a preocupações puramente estéticas. Ao mesmo tempo, têm de servir a um fim prático que, com freqüência, parece o motivo principal, ao passo que a satisfação estética vem somente em segundo lugar. Os ornamentos primitivos, por exemplo, originariamente não são ornamentos, mas símbolos e sinais práticos. Em outros casos, a intenção estética é manifesta, mas, pelo menos de uma maneira geral, só se revela em matéria de música, como a causa única da atividade artística. Os povos superiores são, a esse respeito, iguais aos inferiores: nestes, encontram-se igualmente poucas obras artísticas — com abstração da música e dos ornamentos — que devam sua origem unicamente a um interesse estético.

Mas, se a atividade artística dos povos inferiores não se manifesta quase nunca de uma maneira absolutamente pura, contudo, em toda parte é evidente e assume as mesmas formas que entre os povos superiores. Só há uma arte conhecida inteiramente dos primitivos: a arquitetura. Os abrigos, tetos e choças que os resguardam das intempéries só satisfazem às necessidades práticas mais simples. Em compensação, todas as mais artes dos civilizados já existem entre os caçadores. Vimos que os três gêneros principais da poesia não possuem, como se pensava, origem em uma suposta "poesia primitiva não diferenciada", mas, sim, que já existem entre os povos mais primitivos, independentes um do outro.

Essa semelhança entre as criações artísticas dos povos mais rústicos e mais civilizados é enorme. Por estranhas e pouco artísticas que nos pareçam à primeira vista as obras dos primitivos, um exame profundo demonstrará sempre que foram criadas segundo as mesmas leis que presidem à criação de nossas sublimes obras de arte. Os australianos e os esquimós, da mesma forma que os atenienses e os florentinos, não põem unicamente em prática os grandes princípios estéticos da euritmia, da simetria, do contraste, do reforça-mento e da harmonia. Tivemos ocasião de verificar1 também que os próprios detalhes, em geral tomados como um capricho pessoal do artista, são uma propriedade comum dos povos mais afastados entre si. Isto não deixa de ter certa importância para a estética. Nossas pesquisas demonstraram o que a estética se havia limitado a pretender até agora: que existem para o gênero humano condições gerais em que se produz o prazer estético, isto é, que há leis gerais de criação artística. Nessas condições, as diferenças entre a arte dos povos primitivos e a dos civilizados nos parecem mais quantitativas que qualitativas. Os sentimentos que desperta a arte primitiva são mais grosseiros, os motivos, mais pobres; as formas, mais monótonas e rudes; mas, em seus motivos, fins e meios essenciais, a arte dos tempos primitivos forma uma só unidade com a de todas as épocas.

Não nos limitamos a estudar a natureza particular da arte primitiva. Também procuramos esclarecer as condições de que depende. A primeira condição de uma atividade artística qualquer é um instinto artístico. É verdade que não existe mais instinto artístico único que atividade artística única. Se, apesar disso, empregamos o termo em questão, é para resumir nele esse elemento comum a toda espécie de instinto artístico2. Esse instinto artístico, essencialmente idêntico ao instinto do jogo, isto é, instinto que compele o indivíduo para a atividade — sem fim aparente, quer dizer, estético — de suas faculdades físicas e intelectuais, e que se combina mais ou menos com o instinto de imitação3, é, sem dúvida, uma propriedade comum da humanidade e talvez mais antiga que esta. O instinto artístico não resulta, portanto, de uma forma particular de civilização. Mas só recebe dela uma forma especial.

Os produtos artísticos dos diversos povos caçadores dis-tinguem-se por sua uniformidade extraordinária. Em toda a parte, tanto na arte ornamental como na poesia, e dança e a pintura, encontramos os mesmos traços que antes havíamos encontrado em outras partes. Essa uniformidade demonstra que o caráter da raça não tem importância decisiva para o desenvolvimento da arte. A unidade da arte primitiva contrasta com a diversidade das raças primitivas. O australiano e o esquimó são tão diferentes do ponto de vista antropológico que podem sedo duas raças humanas. Todavia, os ornamentos de uns se parecem amiúde com os de outro, de modo que seria difícil determinar, na maioria das vezes, a origem de um objeto adornado, se a forma e o material não permitissem apreciar uma origem definida. Todos quantos comparam uma só vez os desenhos dos rochedos dos australianos com os dos bos-quimanos, e em seguida, os próprios australianos e bosqui-manos, autores deles, não se atreveriam a defender a teoria de Taine, de que a arte de um povo é, antes de tudo, resultado de seu caráter étnico. Quando menos lhe atribuiriam o valor geral que seu autor quis dar–Ihe. Não negaremos que o caráter étnico de um povo pode exercer influência no desenvolvimento da arte desse povo. Mas, é impossível determinar exatamente a natureza dessa influência. Pretendemos somente — e, ao dizer isto, ba-seamo-nos nos resultados de nossas investigações — que essa influência não determina nos povos primitivos o caráter geral da arte. Sua importância é, além disso, secundária. Talvez possua uma importância maior para o desenvolvimento da música. Mas, nosso conhecimento da música primitiva é excessivamente precário para que possamos transformar nossa suposição em hipótese.

Tampouco podemos responder à pergunta sobre se a influência do caráter étnico na arte diminui ou aumenta à medida que a arte e a civilização avançam. Tendo em vista que a individualidade dos homens e dos povos se desenvolve à medida que a evolução prossegue, sentimo-nos levados a admitir a possibilidade de semelhante marcha das coisas. De outra parte, também não seria conveniente esquecer que o caráter étnico dos povos superiores é muito menos uniforme que o dos inferiores.

O caráter uniforme da arte primitiva, deve-se sem dúvida, a uma causa uniforme: essa causa encontramo-la nesse fator da civilização que é o mesmo entre todos os povos caçadores e que exerce ao mesmo tempo poderosa influência na civilização de todos os povos: referimo-nos à produção. É verdade que não podemos estudar completamente as relações que existem entre a produção e as formas de arte. Mas, conseguimos demonstrar de modo geral a importância que tem para a arte a vida do caçador. Com efeito, é considerável, e não se pode deixar de observada. Com exceção da música, todas as artes permitem reconhecer imediatamente a influência direta ou indireta que exerce em seus materiais e seus assuntos a vida errante e pobre dos caçadores. Em nenhuma parte vimos essa influência de modo tão nítido quanto em matéria de escultura ou pintura. A reprodução fiel de formas humanas e animais, em que sobressaem os povos caçadores, é para nós a manifestação estética de faculdades que a luta pela vida devia desenvolver fortemente nos povos caçadores.

A forma de produção de um povo depende, em primeiro lugar, das condições geográficas e meteorológicas em que vive. Os povos caçadores permaneceram povos caçadores, não porque careçam, como se poderia supor, das qualidades que tornam possível o progresso, e, portanto, condenados de antemão à imobilidade, como acreditou a etnologia de nossos pais, mas porque a natureza de seu país constituía uma oposição a qualquer progresso. Nossas pesquisas sobre a arte dos povos primitivos permitem–nos lançar agora um olhar sobre as relações entre o clima e a arte, relações de que tanto se tem falado, e que as especulações dos estetas, limitados sempre a estudar a arte dos povos superiores, tornaram obscuras. As influências do clima na arte, tal como agora conhecemos, são de natureza diferente da que Taine e Her-der pensaram ter descoberto como se exercendo na arte dos povos primitivos. Herder e Taine referiram-se a uma influência direta sobre o espírito dos povos e o caráter da arte. Nós, ao contrário, pensamos que essa influência é indireta e que se exerce por meio da produção. Mas, não cremos ter dado com uma lei de valor geral. É duvidoso que semelhante influência exista igualmente no que se refere aos povos civilizados, não porque nestes as coisas sejam muito menos simples, mas porque, melhor aparelhados, tornaram-se de certo modo independentes do clima. O progresso da civilização subtrai os povos da servidão à natureza para conduzi–los ao seu domínio. Deve acreditar-se, pois, que essa mudança influíra também na evolução da arte.

Não existe povo sem arte. Vimos que ainda os mais rústicos empregam grande parte de seu tempo e de suas forças em interesse da arte, dessa arte que do alto de seus progressos práticos e científicos, os povos civilizados consideram cada vez mais como um jogo ocioso. Mas, precisamente quando nos colocamos no ponto de vista científico, parece incompreensível que uma função que custa tanto esforço não possa exercer influência na conservação e desenvolvimento dos organismos sociais, pois se a energia que se emprega em favor da arte fosse realmente tempo perdido para as tarefas sérias e essenciais da vida, já a seleção natural teria, indubitavelmente, feito desaparecer há muito os povos que gastaram seus esforços desse modo, e não teria sido possível à arte desenvolver-se de maneira tão prodigiosa como fez. De antemão, podemos, pois, acreditar que a arte primitiva possui, prescindindo de sua importância estética, um valor prático para a vida dos povos caçadores. Os resultados de nossas pesquisas confirmaram nossa hipótese. As artes primitivas influem na vida primitiva de diversas maneiras. A arte ornamental, por exemplo, desenvolve a técnica.

O adorno e a dança desempenham importante papel nas relações de ambos os sexos. Sua influência na seleção sexual tem, provavelmente, como resultado, uma melhora da raça humana. De outra parte, o adorno, que espanta o inimigo, e a poesia, a dança e a música, que exaltam o guerreiro, aumentam a força de resistência do grupo social em face dos ataques dos adversários. Mas, somente consolidando e ampliando os grupos sociais, exerce a arte sua maior e benéfica influência na vida dos povos. Nem todas as artes são igualmente capazes de fazê-lo.

Enquanto a dança e a poesia parecem destinadas a esse papel, a música é quase incapaz de produzir um efeito dessa espécie. Existem também razões puramente exteriores que decidem esta questão: que arte deve, em determinado povo e numa época certa, realizar a função socializadora? A dança, por exemplo, perde sua influência tão logo os grupos sociais se tornem demasiado numerosos para poder reunir–se com o objetivo de dançar. De outro lado, a poesia deve seu poder incomparável à invenção da imprensa. Portanto, as artes adquirem a hegemonia umas após as outras. Nos povos caçadores, a dança é a arte que exerce maior influência social. Entre os gregos, foi a escultura. Na Idade Média, a arquitetura unia as almas e os corpos sob as naves de suas catedrais gigantescas. No Renascimento, a pintura fala aos povos europeus e é compreendida por todos. Nos tempos modernos, a voz conciliadora da poesia apazigua poderosamente o fragor das armas dos povos e das castas inimigas. Mas, se a importância social das diversas artes se transformou no decurso dos tempos, a importância social da arte aumentou sempre. O poder educador que tem, embora nas tribos mais grosseiras, aumentou e elevou-se sempre. Se a função mais sublime da arte primitiva consiste em unir os desunidos, a arte civilizada e suas obras mais ricas e individuais já não servem tão-somente para unir, mas também para a educação dos espíritos. A ciência enriquece nossa vida intelectual, e a arte, nossa vida emocional. A arte e a ciência são os melhores educadores da humanidade. Portanto, a arte não é um jogo, mas uma função social indispensável. Uma das melhores armas da luta pela vida. Deve, portanto, desenvolver-se cada vez com mais riqueza. Sé, a princípio, os povos exercem a atividade artística por seu valor estético imediato, a história a conserva e desenvolve, antes de tudo, pelo seu valor social mediato. Além disso, não é provável que em todos os tempos se haja tido idéia do valor da arte para o bem social. Poderia citar-se uma longa série de filósofos, artistas e homens de Estado que demonstraram claramente quanto a arte servia ou devia ‘servir para a educação dos povos. Com efeito, existe o direito de exigir da arte que se manifeste no sentido da finalidade social (Zweckmässigkeit), isto é, em um sentido moral, pois a arte é uma função social, e toda função social deve ter por fim a conservação e o desenvolvimento do organismo social. Mas, não há razão para exigir da arte que seja moral, isto é, que moralize. Isto equivale a exigir-lhe que deixe de ser o que é. Servindo aos interesses artísticos é como melhor serve a arte aos interesses sociais.

Limitando nossas pesquisas à arte primitiva, demos-lhe um limite à parte da tarefa histórica que denominamos sociológica. Na civilização primitiva, a arte é para nós um fenômeno social, por isso estudamos suas condições e seus efeitos sociais. Não porque não quiséssemos reconhecer outros, mas porque não os encontramos nos povos que serviram de objeto de nosso estudo. Nas civilizações superiores além da influência que exerce sobre a vida social, vimos a arte adquirir um valor sempre crescente para o desenvolvimento da vida individual. As criações

mais sublimes dos gênios artísticos que se colocam acima do vulgar só produzem imediato efeito em alguns indivíduos. Esta circunstância demonstra que o efeito da arte no indivíduo, a quem impressiona e desenvolve, não é menor que o efeito social que procuramos apreciar em seu justo valor.

Para nós, convencidos que estamos de que todo progresso social só serve para desenvolver o indivíduo, esse efeito individual é ainda mais elevado que o efeito social. Se quiséssemos explicar em que consiste a importância da arte para o desenvolvimento individual, deveríamos realizar um estudo que, provavelmente, seria mais vasto e difícil que o que conseguimos efetuar. Mas, basta haver dito em poucas palavras que, no conceito expresso, a arte não é um passatempo agradável, mas uma das missões mais elevadas da vida. Contudo, ou precisamente em virtude disso, existe profunda diferença entre a função social e a função individual da arte. Enquanto a arte social une sempre mais estreitamente os homens num todo, a arte individual desliga o homem dos vínculos sociais, desenvolvendo sua individualidade. À arte educadora dos povos de Platão antepõe-se desse modo a arte redentora do homem de Schopenhauer.

(1) Veja-se o capítulo sobre o adorno do corpo.

(2) Não pretendemos, pois, de nenhum modo, que haja um instinto artístico único ("cinheitlich. Afirmamos o contrário. É um erro supor que todos os indivíduos dotados para a arte possuam os mesmos instintos e sentimentos artísticos e que só dependem de circunstâncias exteriores para se manifestar sob a forma de música, pintura ou poesia. Só para a linguagem existe um instinto artístico. Na realidade, unicamente há instintos de poeta, de pintor, de músico, de arquiteto. Os diversos instintos, sentimentos e atividades são absolutamente independentes uns dos outros. O músico não possui um instinto musical geral que satisfaz por meio da música, mas vive, sente e cria de improviso por meio de seus sentimentos musicais, que são completamente estranhos aos demais domínios da arte e da vida.

(3) Unicamente em matéria de música não desempenha papel algum o instinto de imitação ou pelo menos, é de todo secundário.

Fonte: Ed. Formar ltda.

set 022011
 
A LENDA DA IPECACUANHA
A LENDA DA IPECACUANHA

A LENDA DA IPECACUANHA

Ipecauanha, Ipeca ou Poaia — "Cephaelis ipecacuanha" (Rubiáceas). — Esta planta preciosíssima habita as matas virgens e sombrias do município, que é, incontestavelmente, o maior habitat, neste Estado, desta famosa ru-biácea. O seu caule, em parte subterrâneo, eleva-se à altura de palmo e meio, mais ou menos fora da terra e é quase quadrangular e ligeiramente pubescente na parte superior, que apresenta normalmente seis a oito folhas e às vezes mais, opostas, curtamente pecioladas e ovais, estreitando-se insensivelmente para a base, como nervos laterais e quase glabros. As suas flores são pequeninas e pequeninos são também os seus frutos, roxos, reunidos èm cachos, com sabor adocicado e um tanto vomitivo. As raízes, ordinariamente, em número de duas a cinco e às vezes mais, são tortuosas e ao serem extraídas têm a grossura de um lápis comum. São pouco ramificadas e apresentam anéis salientes, desiguais e muito próximos, separados por sulcos menores. O centro é lenhoso, esbranquiçado e fino, e mais resistente do que a camada cortical, espessa, compacta, quebradiça, pesada, de côr cinzenta, um tanto enegrecida por fora e de aspecto resinoso por dentro. 0 seu sabor é amargo e bastante acre, o cheiro é agradável, mas muito forte, causando náuseas a certas pessoas. Assim é a poaia uma planta riquíssima e vem sendo objeto do mais m animador comércio desta região há mais de cem anos, e o seu custo tem atingido, algumas vezes, Cr| 750,00 por arroba. Esse vegetal admirável é um dos de maiores aplicações na terapêutica oficial e nos remédios populares tem sempre um lugar de destaque e a medicina emprega-o diariamente no tratamento de muitas enfermidades dos aparelhos digestivo e respiratório e bem assim no tratamento das disenterias, sendo ainda empregado como ótimo e poderoso vomitivo. O seu princípio activo é a emetina, mas a sua raiz contém ainda cera, goma, matéria gorda odo-rífica, amido e indícios de ácido tânico, contendo também outras substâncias preciosas e medicinais. Pode ser ainda aproveitada pela tinturaria, porque é um poderoso fixante e como tal conhecido nesta região.

Tão grande é a sua fama que até uma interessante e linda história se formou a seu respeito:

"Conta uma lenda indígena que um cão chamado Guará, de tempos a tempos^adoecia e, em vez de ficar na taba, procurava a floresta e lá, em certo sítio, cavava a terra e tirava a raiz de uma planta que comia; depois vomitava muito e voltava à taba restabelecido e forte por muito tempo. O pajé notou que o cão só adoecia quando bebia águas impuras de pântanos e a exemplo seu usou, como os da sua tribo, da raiz que o animal usava quando doente, que era a ipecacuanha, e ficaram curados de uma disenteria, que todos os anos os acometia".

Esta encantadora lenda, com ou sem o famoso cão Guará, não é senão a verdadeira história do descobrimento milagroso das propriedades terapêuticas e industriais deste precioso vegetal. Não só os indígenas da região, como também os civilizados que vivem na cidade e no seio fecundo desta portentosa natureza, desde longínquas épocas, vem fazendo uso desta famosa rubiácea, bem cognominada — Ouro Negro — do município.

É incontestavelmente um poderoso medicamento para várias enfermidades, mormente para disenteria, que é comum nas populações ribeirinhas, sobretudo na época das enchentes, quandos as águas pluviais, procurando o seu curso natural, o leito dos rios, vêm carregadas das impurezas do solo, bem assim da potassa das cinzas, provenientes das vastíssimas queimadas dos sertões.

Graças à sabedoria natural e o penetrante instinto de conservação destes bravos e inteligentes sertanejos, livres como a saudável e perfumada aragem das florestas que Deus lhes deu, esta enfermidade não lhes causa pavor, porque bem junto, às vezes, dos seus ranchos humildes, mas tranquilos e felizes está o remédio poderoso, que combate com presteza e energia, o mal que bem poucos aniquila.

Logo no início da indústria extrativa da poaia, esta era vendida nesta cidade à razão de Rs. 30$000 a 50$000 por arroba. A medida, porém, que este precioso vegetal foi-se tornando mais conhecido e feitas as primeiras exportações, também o preço foi-se elevando.

Toda a exportação desta famosa rubiácea era feita, nos primeiros tempos, para Londres e depois, como o seu comércio foi-se alargando, para outras’ praças da Europa e da América, começaram também a importá-la e essa exportação era feita outrora em fardos de couro de gado vaccum, quando nesta região não se conhecia bem o valor desta pele, ou pouco ou nenhum valor tinha, talvez mesmo com valor menor do que um metro de chita.

E deste modo não só ganhavam os consignatários ou compradores de poaia na revenda deste produto, como também recebiam de graça milhares de couros, sempre os maiores, anualmente, para esta embalagem original.

Asseguravam estas transações extraordinários lucros, quer na venda da ipeca, que era colocada pelos intermediários quando lhes convinha, quer na armazenagem, sempre fabulosa, e noutras comissões e ainda nos envoltórios valiosos, que recebiam sem nenhuma despesa.

Mas, à medida que este produto ia sendo conhecido e procurado, e do mesmo modo o couro, esta embalagem foi sendo substituída pela aniagem de superior qualidade ou algodão trançado, como ainda acontece.

Os compradores desta praça, sempre bem avisados, nos primeiros carregamentos guardaram o maior sigilo, porque éste é a alma do negócio, sobre o valor da ipeca no estrangeiro. Mas um, menos previdente, ao receber, de Londres, o produto da venda da sua exportação, quase que enloquece e sai pela cidade inteira a contar do valor fantástico deste vegetal no estrangeiro, e assim despertou ela desde logo maior interesse e maior cobiça.

Gabriel Pinto de Arruda: Um Trecho do Oeste Brasileiro. Rio de Janeiro, 1938, pp. 71-73.

Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962

ago 312011
 
indias peladas

A LENDA DO SUMÉ

Dentre as numerosas nações selvagens que ocupavam o território goiano antes das invasões paulistas, a mais dócil e inteligente, a que menos mal fazia e menores pretensões de mando tinha naqueles remotos sertões, era a dos Goiás, que, no entanto, não deixava de ser temida pelas outras do mesmo território — mais numerosas e aguerridas como eram as do Xavantes, Coroados, Canoeiros e Caiapós.

Os Goiás veneravam a um ser benéfico que chamavam de Sumé, ao qual atribuíam sua colocação naquelas paragens, onde os reunira e educara para a vida nas aldeias, constituindo-se em primeiro chefe que teve essa nação.

Contam que Sumé — lenda que ainda hoje corre em Goiás passando de boca em boca com ligeiras variantes — indo um dia visitar a sepultura de sua mulher no alto da serra do Arari (serra Dourada), aparecera-lhe e sem saber como um velho pajé da tribu Caiapó, que assim lhe falou:

— Sumé, teus dias estão contados: urge que tomes as tuas últimas disposições, garantindo o futuro da tua nação. Velho e prestes a fazer a viagem que todos fazem para as terras além das montanhas azuis, não poderás por certo, por ti só, conjurar o perigo que a ameaça. Acabo de ver, da minha gruta do deserto, a caminho do ponto em que o sol morre, um bando de homens brancos e barbados, uns a pé outros montados em grandes animais possantes e que parece os compreender, pois se movem à sua vontade, obe-decendo-lhes cegamente.

Em sua marcha, esses entes misteriosos vão devastando as nossas florestas e campos, incendiando as tabas que encontram, matam com o trovão que está ao serviço deles aos que lhes ousam resistir para não se tornarem seus escravos e perseguem mesmo aos que tentam fugir, atiçando contra eles uns animais ferozes, muito corredores, que os alcançam e dilaceram.

Já passaram pelas terras dos Xavantes, dos Caiapós, e a esta hora devem estar pelas dos Araés, que unidos àqueles estão resolvidos a repeli-los com todas as forças, não obstante suporem-nos dirigidos pelo próprio Anhã, grande gênio do mal que dirige Tupã e os Anhangás. É natural, portanto, que apareçam também por estas terras e, como o mal será comum convém que em comum sejam os esforços de todos para a repulsa completa desses entes daninhos que pretendem nos escravizar, roubando-nos a liberdade e independência.

E dizendo isto desapareceu do mesmo modo como viera, deixando Sumé mergulhado na mais profunda meditação pelo que acabara de ouvir; regressando à sua taba que ficava nas fraldas da serra de Arari, à margem do Cambuva (hoje rio Vermelho), reuniu logo depois os chefes das aldeias da sua nação, referindo-lhes tudo quanto ouviu do pajé, e fazendo-lhes ver diante de semelhante fato, que realmente era grave; entendia entretanto, que os Goiás deviam se manter na mais estrita defensiva, procedendo no assunto conforme lhes conviesse na ocasião, sem se aliarem com Qualquer outra nação para esse fim. Que dizia isso porque* não confiava nos Caiapós e nos Xavantes, alé porque tais revelações, do pajé, bem podiam não passar de um embuste urdido pelos chefes daquelas nações para atirá-lo contra esses entes poderosos e depois se servirem desse pretexto para se unirem com os mesmos e conseguirem assim o que tanto desejavam, isto é, a conquista e terras de Goiás. Que se semelhante invasão se desse enquanto êle fosse vivo, seria essa atitude, acrescentando que até procuraria recebê-los em suas terras, mais como amigos do que como estranhos, pois, já os vira em outras terras, e bem os conhecia. Que, finalmente, desejava que qualquer que fosse o chefe na ocasião dirigindo os seus, procedesse de igual modo, por isso que a estes convinha mais a amizade desses homens relativamente superiores e mais adiantados que a dos Xavantes e Caiapós e outros vizinhos ambiciosos e falsos.

Tempos depois morreu este velho cacique dos Goiás, recomendando sempre aos seus a observância daquelas disposições; e Apu, seu filho, que o substituiu, prometeu cumpri-las inteiramente. Bem depressa, porém, se esqueceu do prometido a seu pai, não só naquele sentido como no seu casamento com Aruiara, filha do valente chefe Jara-guaí de sua nação.

Os Xavantes e Caiapós, conhecendo bem o caráter e qualidades do novo chefe dos Goiás, que era um guapo rapaz, valente e destemido, mas, sem experiências na arte dé governar, além disso algum tanto efeminado e caído pelas mulheres, julgaram oportuno, ao saberem da morte de Sumé e elevação de Apu, mandar a este uma embaixada, solicitando a sua adesão à causa pela qual pugnavam, juntamente com os Araés. Foi escolhido para chefe dessa embaixada o velho e valente Mucunã, cacique Caiapó, que além de grande séquito, levava em sua companhia a gentil e formosa Ipoã, hospedando-se todos na taba de Apu, que os recebeu condigna e carinhosamente.

Ipoã, que era uma morenita de olhos pretos, grandes e tentadores, bem feita de corpo, airosa e engraçada, possuía igualmente maneiras distintas, que realçavam com seu sorriso e modos atraentes, que cativavam a todos que dela se aproximavam. Não causou pois admiração a ninguém a atitude de Apu, diante da linda jovem caiapó, pela qual se enfeitiçara.

Daí ao casamento de ambos foi questão de tempo e do casamento à solução favorável que obteve Mucunã na missão de que fora incumbido, a consequência lógica foi essa, não obstante a opinião unânime em contrário de todos os Goiás que reclamavam a observância do compromisso tomado com Sumé.

Apu, cego pela paixão que tinha por Ipoã, se esquecera de tudo, satisfazendo a todas as exigências desta e de seu pai; celebrou-se prontamente seu casamento com Ipoã, e resolvida ficou a entrada dos Goiás para a aliança contra os misteriosos estrangeiros que invadiam o país, devendo os de sua nação fornecer logo um contingente poderoso para reforço das forças da aliança. Aruiara, porém, ofendida no seu amor próprio pela realização desse casamento, soube aproveitar do descontentamento geral dos Goiás, para revoltá-los contra Apu, e no dia marcado para a partida desse reforço que devia acompanhar Mucunã, apresentou-se à frente dos guerreiros exprobrando o procedimen’o de Apu e concitando os seus a vingá-la.

Não foi preciso mais outro qualquer incentivo: os guerreiros Goiás conduzidos por Jaraguaí marcham contra a aldeia do Arari, onde se achavam Apu e Mucunã, atacam–no, matam Apu, que ousadamente resiste à frente de poucos; colocam no governo da nação Goiá — um outro filho de Sumé. Mucunã, vendo morto Apu, logrou fugir com seu séquito e Ipoã; e Goiá, de posse do governo desfez tudo que praticara o irmão de encontro à vontade expressa de seu pai, e até se casou com Aruiara.

Pouco depois que se deram essas ocorrências, entre os Goiás, apareciam os paulistas invadindo as terras dos Xavantes e Caiapós. Estes íncolas e os Araés, sempre unidos, procuram repeli-los, lançando mão de todos os recurscs para esse fim, e nada conseguindo, porque nem ao menos puderam evitar que .tais invasores chegassem às terras dos Goiás, onde foram recebidos por Goiá até com festas e com eles estabelecendo uma aliança permanente contra as demais nações indígenas daquele território.

Estavam satisfeitas as predições de Sumé, mas os fatos foram que não corresponderam às suas previsões. O procedimento dos Goiás trouxe como consequência a conquista e colonização das terras que ocupavam essas nações selvagens, sendo eles próprios as primeiras vítimas desses ousados aventureiros, desaparecendo por completo na mais cruel escravidão, e não tendo em ao menos o consolo de morrerem com as armas na mão a combaterem pela liberdade e independência do seu país, como os Xavantes, Coroados, Carajás, Canoeiros, Javaés e outros: Ingloriamente e sob o azorrague do conquistador ambicioso extinguiram-se nas suas próprias terras nos trabalhos das minas, aos quais não eram afeitos.

Hoje, dessa generosa nação que tão grandes serviços prestou aos invasores, restam tão somente a lembrança de suas desditas e o nome que legou ao grande território encravado entre os rios Paranaiba, Tocantins e Araguaia, e isto mesmo deturpado de Goiá ou Goiáses para Goiás.

Os Caiapós sempre ousados, altivos e heróicos, vendo com os Araés, seus aliados, que os esforços que empregavam contra os invasores de suas terras eram inúteis, abandonaram-nas, e retiraram-se para as brenhas de além Araguaia e rio das Mortes, donde em sortidas mais ou menos frequentes, fazem ainda toda a guerra que podem aos brancos, como chamam eles aos paulistas e seus descendentes; jamais submetendo-se a estes, ou prestando-se à catequese, apesar dos esforços feitos nesse sentido em diversas épocas para chamá-los à civilização. O procedimento do bom Goiá, deixando de hostilizar os brancos quando entre os seus estiveram de outra vez, recebendo-os em suas tabas e até com festas e outras demonstrações amistosas, agazalhando e permitindo mesmo que eles deixassem entre os seus alguns dos companheiros, que solicitaram ficar, quando regressaram, provocou contra êle o ódio e a guerra dos Caiapós e Coroados, seus inimigos.

Logo após a retirada dos brancos, Mucunã e Japuri, este chefe dos Coroados, e aquele, dos Caiapós, vieram entender-se com Goiá, fazendo-lhe sentir a inconveniência do seu procedimento para com os brancos, exortando-o à guerra contra os mesmos, e intimando-o a expulsar de suas terras aos que nela ficaram, sob pena de guerra de extermínio se a isso não anuísse.

Goiá, como era de esperar, repeliu energicamente semelhante afronta, mandou pô-los fora de suas terras, e não deu assim ouvidos às suas imposições, tendo por isso de aceitar a guerra com que eles o ameaçavam.

Diante deste fato começaram todos a se preparar para a luta que parecia formidável, pois que de um lado estavam os Goiás, nação poderosa e grande, e que, além disso, contava com o auxílio dos brancos que viviam entre eles, e que pelo armamento que usavam infundiam certo terror; de outro lado os Caiapós e Coroados, que eram também poderosos e, além disso, aguerridos e ardilosos, lançando mão de todos os meios para conseguirem seus fins.

O auxílio poderoso dos brancos com que os Goiás contavam não passou despercebido dos Caiapós e Coroados, que por isso trataram logo de procurar um meio de tirar essa força aos Goiás; e para esse fim, por meio de intrigas e promessas, tentaram corromper alguns chefes Goiás que souberam repelir semelhante tentativa. Acontece, porém, morrer Amburá, o valente chefe da taba dos Ferreiros, sendo designado para substituí-lo nessa chefia um tapuia em quem Goiá depositava muita confiança e que se chamava Camarequê. Este tapuia, no entanto, era inimigo oculto de Goiá, por ter êle se casado com Aruara, com a qual pretendia fazer o mesmo se ela não tivesse se esquecido das promessas que lhe havia feito nesse sentido, preferindo depois Goiá a êle. Ambicioso e vingativo, aguardava portanto a ocasião para se vingar de ambos; e esta afinal se lhe deparou, entrando em negociações secretas com os Caiapós e Coroados que, conhecedores daquele fato e, sobretudo, do seu caráter ambicioso, propuseram-lhe o casamento com Ipoã, filha de Mucunã e também a chefia geral dos Goiás caso êle os ajudasse na guerra que iam levar a Goiá, encarregando-se de revoltar sua taba em ocasião ajustada, e matar aquele e igualmente os principais chefes, inclusive os brancos que ali viviam.

Aceita a proposta por Camarequê, os Caiapós e Coroados combinaram com êle a execução do plano tenebroso, e em uma noite escura e tempestuosa, quando todos dormiam tranquilos em suas ocas, o infame chefe da taba dos Ferreiros, acompanhado de um pequeno grupo que conseguiu aliciar entre os seus, aproveitando-se da estada de Goiá na sua taba, para onde o atraíra manhosamente com seus apaniguados no aposento èm que êle dormia, matou-o covardemente, como a todos que ali encontrara.

Era seguida dirigiu-se ao arraial dos brancos, fazendo o mesmo aos que lá achou e incendiando seus ranchos; a revolta assim explodia propagando-se por toda a parte, sendo presos e perseguidos os que ousaram fazer qualquer resistência.

Dos brancos apenas escapou das garras de Camarequê o que era muito valente e conhecido por Pedro Juraci, e isso porque nessa noite terrível não se achava no arraial com seus companheiros, e sim na taba do Arari, onde fora a passeio com alguns amigos.

Ao mesmo tempo que tais coisas se passavam, os Caiapós e Coroados que se achavam convenientemente emboscados nas circunvizinhanças dos Ferreiros e do Arari, a um sinal feito e anteriormente combinado com os revoltosos, caíram de improviso e simultaneamente sobre ambas as tabas, apoderando-se delas e subjugando inteiramente os Goiás, que surpreendidos e amedrontados nem puderam lançar mão das armas para se defenderem.

Foi um desastre horrível, porque os que não foram mortos ficaram prisioneiros dos inimigos e por eles escravizados, estando infelizmente no número destes a desditosa Aruiara, que foi conduzida amarrada como escrava de Ipoã, que isso exigira; poucos, bem poucos foram os que lograram a salvação, fugindo para os recônditos das serras e matarias vizinhas.

Camarequê foi elevado, como ambicionava, à alta dignidade de chefe dos Goiás, nomeou a seu filho Apurinã para chefe da taba dos Ferreiros, passando a residir na de Arari, e desposou Ipoã, que veio para seu poder acompanhada de muitos guerreiros caiapós, que eram de fato os que passaram a governar os Goiás com a força de que dispunham.

Passados alguns anos de triste submissão, os Goiás, vivendo no mais duro cativeiro, sem esperanças de uma reação por parte de Camarequê, começaram a sair do torpor em que jaziam para recobrarem a sua independência; e assim, na impossibilidade de reagirem à mão armada contra os seus opressores por causa dos Caiapós e Coroados que os vigiavam em suas tabas, procuraram na fuga a liberdade que tinham perdido.

Não havia um só dia em que pelas serras e florestas vizinhas, não tivessem eles o prazer de ver progressivamente o aumento que iam tendo as suas fileiras com mais um amigo de Goiá, sedento de vingança e liberdade, pronto mesmo a todos os sacrifícios para conseguir esse almejado fim. E assim caminhavam as coisas num crescendo prometedor de dias mais felizes, sem contudo cuidarem de dar uma direção mais conveniente aos elementos que já possuíam para a consecução do que tanto desejavam. Um incidente inesperado, porém, arrancou-os desse torpor em que viviam; em um belo dia, entre muitos goiás que os procuravam no seu refúgio veio a gentil e formosa Aruiara com o corpo todo coberto de cicatrizes, com os cabelos cortados, chorando e pedindo vingança dos ultrajes e sevícias de que foi vítima por parte de Ipoã, a cujo serviço se achava como escrava, e de que só pôde se livrar com a fuga, graças a compaixão que por ela teve um goiá, também escravo, que muito a auxiliou para isso como vigia que era de sua pessoa, prestando-se a guiá-la ao lugar em que os seus se achavam. Este fato que a todos contristou e revoltou com indignação, serviu entretanto, de incentivo para a reação que os Goiás tratavam de levar a efeito, combinando os seus comuns esforços nesse sentido; os elementos de que dispunham foram organizados convenientemente e assim, dentro de pouco tempo ficaram prontos para na primeira oportunidade que se desse, atacarem Camarequê, e os seus, vingando a morte de Goiá e dos brancos, como também os ultrajes feitos a Aruiára.

Essa oportunidade que tardou bastante, afinal sempre se lhes deparou com a notícia que lhes dera um fugitivo. Disse este, que os Caiapós e os Coroados que protegiam e garantiam a autoridade de Camarequê entre os Goiás, devido talvez ao reaparecimento dos brancos nas suas terras, fizeram retirar todos os guerreiros seus que se achavam nas tabas dos Goiás, deixando assim Camarequê entregue aos seus poucos amigos; e que em consequência desse fato os Goiás que ainda lá se achavam conspiravam para a deposição de Camarequê, contando para esse fim com o concurso dos fugitivos, com os quais procuravam entrar em acordo. À vista desta notícia foram ao encontro desses amigos, procuraram entrar em combinação secreta com eles, e conseguiram preparar tudo para um assalto à taba em que se achava Camarequê.

E assim, antes que a passarada da floresta saudasse o dia com seus trinados e despertasse os traidores, foi ouvido três vezes o piado estridente da canã, e, ato contínuo, caíram de surpresa sobre a taba, incendiando-a e exterminando a todos que nela encontraram, desde que não correspondiam ao sinal previamente ajustado com os conspiradores. O traidor e os seus nem tiveram tempo de se armarem para a resistência, sendo Camarequê morto logo no princípio da ação por um golpe de murucus que lhe arre-meçou Aruiara, quando, delirante, o procurava. O infame vinha em fuga com Ipoã, e morreu mesmo nos braços desta, pedindo à Aruiara que a poupasse, mas Ipoã replicava que não, que queria morrer também, e portanto a matasse igualmente com seu marido, cujo cadáver deixou cair dos seus braços.

Foi então que se deu uma cena assaz tocante entre as duas antagonistas. Aruiara, pisando o cadáver de Cama-requê, diz a Ipoã: — Digna filha do valente Mucunã, desculpai este excesso a que sou levada pelo ódio que voto a este miserável que para vos possuir, não duvidou trair os seus, nem vacilou de se prestar infame e covardemente a ser o assassino do seu chefe e benfeitor, atirando-me na mais dura e negra escravidão, juntamente com a nação que pertencíamos. Eu sou, pois, a vingança que veio cumprir o seu dever, e essa vingança não pode se estender à esposa leal e dedicada que, se culpa tem, é a de ter consagrado o seu amor a um ente vil e abjeto que certo não era digno da filha de um valente Caiapó. Não me é dado nem lícito, portanto, fazer à vítima o mesmo que fiz ao algoz. Sois livre, e garanto-vos todo o respeito de que sois digna pelo vosso proceder; não devo matar-vos, pelo contrário, estenderei a mão de amiga àquela que bem merece ser lastimada pelo seu infortúnio, esquecendo-me completamente de quaisquer ressentimentos que porventura possa guardar no coração.

Ao ouvir isto, exclamou Ipoã, revoltada: — Tu abusas, Aruiara, da minha posição; eu não te pedi e nem aceito as tuas garantias: julgar-me-ia vilipendiada e indigna dos meus se assim o fizesse: Não quero saber o que, em tua opinião, fora Camarequê, a quem insultas depois de morto, tripudiando sobre seu cadáver: neste momento só vejo diante de mim esse cadáver querido e uma covarde assassina a desrespeitá-lo, ao mesmo tempo que procura fingir-se de generosa para aquela que o amava extremamente em vida, e saberá honrar a sua memória, orgulhando-se, não de ter sido a sua vítima, mas de ter tanto ou maior responsabilidade em tudo que ele praticou ou fez praticar quando vivo. Atiras-me essas afrontas porque, inerme, não as posso repelir, castigando devidamente à infame que se prevalece das circunstâncias para amesquinhar a sua vítima, que só sente não ter tido a felicidade de sucumbir ao lado do seu estremecido esposo para não estar passando agora por esta revoltante humilhação. Guarda, pois, a tua comiseração para os indivíduos da tua laia; quanto o mim, em vez dela, melhor seria forneceres-me uma arma qualquer para em duelo de morte desagravar-me da afronta que me lançaste em rosto, embora muito me.custe descer da minha posição para bater-me com uma covarde escrava fugida.

Aruiara não se pôde conter diante desta provocação: irritada, arremeçou para um lado o mucurus ainda tinto de sangue que empunhava, como para mostrar que queria ficar em igualdade de condições e avançou furiosa para Ipoã à qual tenta agarrar e estrangular a pulso. Ipoã, porém, que tranquila observava os seus movimentos, fingia aguardá-la, mas, em momento oportuno, desvia-se facilmente de suas mãos, e apanhando-o mucurus que se achava junto ao cadáver de Camarequê, mata-a com um golpe certeiro, e em seguida, virando a arma contra si, cravou-a no coração, caindo inane sobre o cadáver do esposo, proferindo estas palavras: É assim que procede uma caiapó!

Com esse trágico acontecimento e desfecho alguns amigos de Camarequê, que ainda resistiam, submeteram-se incondicionalmente, os ânimos serenaram-se, e vingada ficou assim a nação dos Goiás, sendo Pedro Juraci, o mameluco paulista deixado pelo Anhangüera na aldeia dos Ferreiros, aclamado chefe da mesma. Como tal procurou prepará-la para resistir e repelir a qualquer agressão possível dos Caiapós e seus aliados, os quais clamavam vingança, não esquecendo o insucesso de seus planos e sobretudo a morte de Ipoã.

Certo é que, ou porque temessem a força dos Goiás, ou por outro motivo, a generosa nação nunca mais teve que defender-se de seus rancorosos inimigos; e assim foram vivendo em paz, melhorando suas tabas, cultivando suas terras, sem todavia deixarem de estar prontos e vigilantes para o que desse e viesse.

Coriam as coisas nesse pé quando, certo dia, uns índios que andavam caçando e procurando mel nos arredores da serra do Arari, e que haviam chegado até às vizinhanças das terras dos Carajás, vieram dar parte aos seus que uma índia Caiapó encontrada por eles naquelas alturas avisara-os que os de sua nação, juntamente com os Coroados e Carajás, tinham feito uma aliança para exterminar os Goiás, e nesse sentido preparavam-se, parecendo-lhe até que os Carajás já se achavam em marcha de guerra, pois que, vira há dias. seguindo em sentido contrário à corrente dos Ferreiros, uma multidão de guerreiros, que naturalmente não eram dessa nação.

Pedro Juraci não ligou muito apreço a este aviso, por julgá-lo mui vago, sem fundamentos, pois não podia acreditar, além disso, na aliança dos Carajás, .que eram mais amigos dos Goiás do que dos Caiapos, e depois, dificilmente se abalançavam a deixar as margens do Araguaia; mas, dias depois, um outro índio que também andava caçando na serra do Arari, veio dizer-lhe que do alto da mesma serra avistava-se muito ao longe um numeroso bando de índios que marchavam vagarosamente na direção da serra.

Esta notícia pareceu-lhe mais séria; levou-o a ir em pessoa verificá-la, e chegando ao Arari não conseguiu avistar mais nada, naturalmente porque tal bando se internara nas matas próximas, as quais as colunas de fumaça que se levantavam em vários pontos, bem indicavam essa circunstância.

Na dúvida portanto de serem inimigos, os que se aproximavam, tratou Pedro Juraci de tomar as providências necessárias para evitar surpresas às suas tabas. Assim sendo, como era bastante desabrigada a sua posição dos Ferreiros, resolveu abandoná-la, destruindo tudo quanto nela existia; fez reforçar a caiçara da taba de Arari com fortes contingentes dirigidos pelo chefe Uburitã, e com o resto dos Goiás seguiu para a posição que outrora ocuparam além da serra, tomando conta da bocaina que dá entrada nela.

Distribuindo assim seu pessoal, combinou com Uburitã que dirigia o Arari, para no caso do inimigo atacar aquela taba, opor-lhe, por todos os meios, séria e prolongada resistência para dar tempo a que fosse em seu auxílio, hosti-lizando-o pela retaguarda e obrigando-o a abandonar o campo; e no caso de ser sua posição atacada, seria ele quem devia ter tal procedimento, auxiliando a defesa do posto, o que faria a todo transe.

Combinara mais, que para esse fim deviam manter bandos de exploradores que observassem as intensões do inimigo, no caso de reconhecerem sua disposição de estabelecer no lugar da antiga taba dos Ferreiros, ou outro qualquer da vizinhança, demonstrar hostilidade alguma, fariam um ataque simultâneo à posição que ocupasse, procurando desalojá-lo.

Estavam nessa anciosa expectativa da chegada do inimigo previsto, que ameaçava ocupar a taba dos Ferreiros. Destarte, os Goiás tinham, consoante combinação prévia, de levar a efeito o ataque simultâneo a essa posição e preparavam-se para esse fim quando outro dos seus exploradores veio dizer a Juraci que, entre as gentes que se achavam nos Ferreiros, viu muitos brancos, barbados, com trajes idênticos aos que usavam os outros, que outrora ali estiveram e mais, ainda, uns individuos pretos, que andavam meio nus, a vigiarem uns animais grandes, que pastavam nos arredores do acampamento.

A vista desta informação ao chefe dos Goiás que não eram nem os Caiapós, nem os Coroados, nem os Carajás os inimigos que ali estavam, e sim os mesmos outros iguais aos que lá estiveram com o grande Anhangüera, cuja volta àquelas paragens, esperavam.

O cacique dos Goiás transmitiu essa tão auspiciosa nova aos seus, e o regosijo foi geral no acampamento. Em seguida mandou sustar o ataque que tencionavam levar a efeito, e, só, inteiramente desarmado, Pedro Juraci foi à presença do Anhangüera, para ainda uma vez, em nome dos Goiás, afirmar-lhe que os mesmos, sempre leais e dedicados, continuavam a ser seus amigos.

Ao alvorecer do dia, chegando às avançadas das forças paulistanas, o cacique Goiá a elas se apresentando, pediu permissão para falar aos chefes dos brancos de parte dos Goiás.

Concedida a permissão solicitada, com as cautelas do costume, Bueno, em sua tenda de campanha, e cercado dos principais chefes da bandeira, aguardou ali a vinda do tal índio. Daí a pouco, este, convenientemente escoltado e desarmado, apresenta-se ao chefe dos brancos; era um índio bastante idoso, trajava-se à moda dos chefes selvagens em dias de festa, tinha um porte sereno e respeitável, e caminhava de cabeça erguida e com desembaraço. Ao aproximar-se de Bueno, encarou-o com respeito e depois, curvan-do-se até quasi ao chão como sinal de cortesia e submissão, e ao que Bueno procurou corresponder com a gentileza e fidalguia que lhe eram peculiares, permitiu que o velho cacique falasse.

Bueno, que ouviu com atenção a narrativa do índio, ao vê-lo terminar, estendeu-lhe a mão de amigo e disse: — Que não era o Anhangüera, por que o tinha tratado, e sim o filho dele, tendo estado ali com seu pai quarenta anos passados; que as gentes que o acompanhavam, eram todas da mesma procedência daqueles que tão gratos eram aos Goiás pelo agasalho que lhes deram em tempo nas suas terras; e que, portanto, os de hoje saberiam imitar o procedimento dos de ontem, trazendo-lhe a paz e os benefícios de que eram dignos pela amizade demonstrada e serviços prestados a seu pai.

Exortava-o, pois, a voltar à floresta em que se achava com os seus, e a dizer a estes, que restabelecida estava a aliança de outrora, podendo por isso voltar às suas ferras e tabas, cuja posse lhes assegurava e garantia.

— Cumprirei as vossas ordens, retorquiu-lhe o índio; mas antes de o fazer, quero dar-vos uma boa notícia que me escapou na narrativa que fiz.

Refere-se ela a Pedro Ortiz de Camargo, ou por alcunha Pedro Juraci, o único dos nossos que escapou às garras de Camarequê.

Pedro, o amigo querido dos Goiás, ainda vive, se bem que velho e acabado; esquecido dos seus, que parecia terem-no abandonado nestes sertões entre os que eles chamam de selvagens, fez-se também selvagem, e como tal, diz desejar morrer. Estou porém certo, de que se êle aqui estivesse agora, a fitar, como eu, o filho de seu grande chefe, esquecer-se-ia de tudo, até de que se chama hoje Tapirapoã, para dar-lhe um abraço, como ora o faz…

E ambos os aventureiros cairam nos braços um do outro, chorando de satisfação.

Por este acontecimento tido como auspicioso em ambos os acampamentos, foram celebradas festas prolongadas, em que paulistas e indígenas se confraternizaram; mas um carai-bê-bê, passando à noite do último dia de festa no acampamento dos Goiás, vendo estes assim alegres e satisfeitos, a dançarem ao som das inúbias e borés, chamou a atenção deles para a côr escura que Jaçu (a lua) havia tomado na ocasião, e para os piados agourentos das corujas que não cessavam de esvoaçar por cima de suas cabeças…

Henrique Silva: Sumé e o Destino da Nação Goiás. Tipografia do Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 1910, pp. 7-51.

Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962

indias peladas
ago 192011
 

UM TIRO À MEIA-NOITE

— Fui desfeiteado, Mané Luís, pelo Zé Baiano, aquele negro sem-vergonha, unicamente porque quer que eu retire a mansinha, a vaca pintada, lá da beira do riacho do Ca-poeirão, onde está pondo em nada o seu arrozal. Não faz cerca que preste. Se êle tem um punhado de terras eu sou o maior condômino da Fazenda e minha vaca de estimação não sairá. O negro me disse com toda ousadia e má-criação, que, se encontrá-la na roça outra vez, a matará na certa. Que desaforo! Vou acabar com essa pen-denga! Você é a única pessoa da minha inteira confiança e hoje mesmo irá virar o pé daquele atrevido, para êle saber respeitar homem.

Falava assim a Manoel Luís, seu afilhado e filho de criação, o coronel Terêncio Pontes, homem de muitos haveres e senhor supremo e absoluto da Fazenda do Barreiro Vermelho.

Manoel Luís sabia que seu padrinho tinha por hábito não ser contrariado nas suas decisões, por mais absurdas que elas fossem. Mal respondeu:

— Inhor sim.

— Tenho ali, no canto, o meu clavinote paraguaio, carregado com uma boa carga de chumbo reúno e uma bala de cobre, curada dia de Sexta-feira da Paixão. Examine bem a cassoleta, pra vêr se o ouvido está escorvado e, ao escurecer, vá ficar na beira do riacho do Capoeirão, no caminho da casa da Rosinha do Retiro, para onde êle vai todas as noites. Mandigueiro só quebra a pauta quando pisa nágua. Quando o negro entrar no riacho despeja-lhe sem pena a carga do paraguaio, que nunca mentiu fogo.

— Inhor sim.

Manoel Luís, criado sob o regime da mais absoluta obediência, não obstante ser de boa índole e incapaz de, por si só, fazer o menor mal a seus semelhantes, não discutiu.

Pegou da arma, examinou-a se de fato estava bem carregada e, turvando o dia, com sua capanga a tiracolo, dirigiu-se para o riacho do Capoeirão, em cujo barranco se postou, junto ao tronco roliço de um copado buranhém, meia légua boa da Fazenda. A lua-cheia parecia um grande queijo de prata.

O coronel que, apesar de prepotente e genioso, nunca teve o menor desejo de tirar ou mandar tirar a vida ao próximo, porquanto a sua religião mesclada de catolicismo e superstição proibia terminantemente matar, ao cair da noite, começou a sofrer terrívíel remorso, conjeturando quais seriam as consequências de tamarilla insensatez.

Mandar matar um pai de familia numerosa, por causa de urna simples vaca, para quem possuía centenas ou milhares !

Como ficariam essas crianças sem pai e sem mãe, pois esta falecera de maleita, ainda não fazia um ano?

Nada que se faz em cima da terra fica oculto. 0 seu crime seria, mais hoje ou mais amanhã, faltamente descoberto.

Êle que nunca fora processado nem preso, pelo contrário, sempre funcionou como jurado, dos bons, lá na Vila do Queimado, teria que passar pela maior das vergonhas de se assentar no banquinho duro dos réus, ombro a ombro com o seu criado, moleque sem qualidade, que mal servia para limpar-lhe as botas.

Todos os habitantes da Vila e do Município se abalariam, a fim de assistir ao espetáculo doloroso do julgamento do sisudo e opulento coronel Terêncio. Que escândalo!

O promotor público, antes tão respeitoso para com êle, iria dar-lhe os mais insultuosos epítetos. Classifica-lo-ia de indivíduo lombrosiano, de covarde assassino, homem sem entranhas, que, por uma torpe vingança, deixa ao desamparo, em completa miséria, umas infelizes crianças, etc., etc., etc..

Seus adversários políticos iriam gozar da sua desdita.

Sua família, uma das mais respeitadas, sofreria as maiores humilhações, seria uma vítima certa da maldade dos seus inimigos.

Poderia sair livre com algum prestígio que desfrutava no seu partido, mas tal mancha ficaria para sempre.

Não! Isto não poderia acontecer!

Pensou em correr, ir atrás de Mané Luís, mas teve receio de alarmar a sua mulher e de chegar ao ponto tarde demais.

Só mesmo um milagre poderia salvá-lo, salvando da morte o pobre do Zé Baiano. E pediu, pediu muito, de coração, a Nossa Senhora da Abadia do Muquém que o socorresse, que desviasse os passos do seu desafeto do caminho infalível da morte. Prometeu doar todos os anos, enquanto vivesse, uma vaca das mais gordas aos pobres da Vila.

Deitou-se, mas não conseguiu dormir um minuto, rolando na cama, como se estivesse sobre espinhos.

D. Genoveva, sua digna consorte, pensando que seu marido estivesse sofrendo de algum mal do estômago, propôs levantar-se e ir à cozinha fazer-lhe uma mezinha, mas êle se opos, dizendo que não havia de ser nada, apenas uma pequena indisposição e dormiria logo. Fingiu depois que dormia.

Enquanto a sua companheira, com a consciência tranquila das boas donas de casa, ressonava profundamente, o coronel pestanejava, com o cérebro em brasa, como se fosse um condenado a morrer no dia seguinte na cadeira elétrica.

Esperava a cada momento o anúncio da sua ruína para sempre.

Um galo cantou no galho da goiabeira do fundo do curral. Outro respondeu, mais outro e, além muito longe, outros galos dos vizinhos também cantaram.

E tudo entrou no mais profundo silêncio, rompido de vez em quando pelo grito lamentoso do gavião-de-penacho no meio da mata. Não, demorou muito, um tiro redondo, como o de uma roqueira, reboou das margens do Capoeirão e se espalhou de quebrada em quebrada até se perder pelos lados do morro da furna grande.

Novo silêncio, mais profundo, mortal, envolveu o mundo. Até o gavião-de-penacho ficou mudo.

Ao ouvir o grito dos quero-queros e o chio dos gonzos da cancela do vaquejador, o coronel correu pressuroso ao encontro do seu cúmplice:

— Fez o serviço?

— Inhor sim. Quando o negro pisou nágua, barri-lhe fogo e ouvi o baque. Sei que não será outro, porque ainda ontem o vi de camisa branca e casaco preto, bem assim como apareceu no ponto de algodão do paraguaio. Vim para vancê me ajuda a esconde o bicho antes do sol sair, para o povo não descobrir.

Ao chegarem ao local do crime, lá estava, de pernas para o ar, escornada, a vaca pintada de estimação, que, nesse mesmo dia, foi distribuída em postas aos pobres da Vila do Queimado.

José Décio (pai): Revista "Oeste" n.° 7 — 1943, Goiânia, Goiás.

 

Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962

ago 152011
 

Dicionário Filosófico de Voltaire – verbetes selecionados

PRECONCEITOS

O preconceito é uma opinião sem julgamento. Assim, em toda a terra, inspiram-se às crianças todas as opiniões que se desejam, antes que elas possam julgá-las.

Há preconceitos universais necessários, que constituem a própria virtude. Em todo país ensina-se às crianças a reconhecer um deus recompensador e vingador, a respeitar e a amar o pai e a mãe, a encarar o furto como um crime, a mentira interessada como um vício, antes que elas possam adivinhar o que é um vício e uma virtude.

Há bons preconceitos: são os que o juízo ratifica, quando raciocinamos. Sentimento não é simples preconceito, é qualquer coisa de mais forte. Uma mãe não ama o filho porque lhe dizem ser preciso amá-lo: ama-o, extremosamente, mesmo sem querer. Não é por preconceito que correis em socorro de uma criança desconhecida, prestes a tombar num precipício ou a ser devorada por um animal. Mas por preconceito respeitais um homem revestido de certos trajes, caminhando gravemente e falando de igual forma. Vossos pais vos disseram que devíeis vos inclinar diante desse homem: vós o respeitais antes de saber se ele merece vosso respeito. Crescei em idade e em conhecimentos; percebeis que o homem é um charlatão, cheio de orgulho, de interesse e de artifícios; desprezais o que tínheis reverenciado, e o preconceito cede assim lugar ao julgamento. Acreditastes por preconceito nas fábulas com que vos embalaram ao berço, na infância: disseram-vos que os titãs fizeram guerra aos deuses, Vénus se apaixonara por Adónis; tomais, aos doze anos, essas fábulas por verdades e as encarais aos vinte anos como alegorias engenhosas.

Examinemos em poucas palavras as diferentes espécies de preconceitos, a fim de pô-los em ordem em nossas questões. Somos, talvez, como aquelas pessoas do tempo do sistema de Law, que descobriram ter calculado com riquezas imaginárias.

Preconceitos dos sentidos

Não é uma coisa engraçada que nossos olhos nos enganem sempre, mesmo quando vemos muito bem, e que o contrário aconteça com os nossos ouvidos? Se vosso ouvido bem conformado ouve: "És bela, eu te amo", é bem certo que não vos dizem: "Odeio-te, és feia". Mas vede um espelho liso e ele demonstra que vos enganais, é uma superfície muito grosseira. Vede o Sol com dois pés, mais ou menos, de diâmetro; e está demonstrado ser um milhão de vezes maior do que a Terra.

Parece Deus ter posto a verdade em vossos ouvidos e o erro em vossos olhos; mas estudai a óptica e vereis que Deus não vos enganou e que é impossível os objectos vos parecerem de outra maneira, se os vedes no estado presente das coisas.

Preconceitos físicos

O Sol ergue-se, a Lua também, a Terra é imóvel: estão aí preconceitos físicos naturais. Mas que os caranguejos sejam bons para o sangue, porque cozidos, tornam-se vermelhos como ele; as enguias curem a paralisia, porque se agitam; a Lua influa sobre as doenças, porque um dia se observou haver tido um enfermo uma alta de temperatura na minguante; essas ideias e muitas outras são erros de antigos charlatães que julgaram sem raciocinar e tendo-se enganado, enganaram os outros.

Preconceitos históricos

A maior parte das histórias formaram-se sem exame e tal crença é um preconceito. Fabius Pictor conta que vários séculos antes de ele existir, uma vestal da cidade de Alba indo buscar água com seu jarro, foi violada e deu a luz a Rómulo e Remo, sendo eles alimentados por uma loba, etc. O povo romano acreditou nessa fábula; não examinou, absolutamente, se naquele tempo havia vestais no Lácio; se era verossímil a filha de um rei sair do convento com seu jarro; se era provável uma loba aleitar duas crianças em lugar de devorá-las. O preconceito firmou-se.

Um monge escreve que Clóvis, estando em grande perigo na batalha de Tolbiac, fez a promessa de tornar-se cristão se dela se salvasse; mas é natural que se dirija alguém a um deus estrangeiro em tal ocasião? Não é quando a religião em que nascemos age mais poderosamente? Qual o cristão, numa batalha contra os Turcos, não se dirigirá antes à Virgem Santa do que a Maomé?

Acrescenta-se haver um pombo trazido os santos óleos no bico para ungir Clóvis e um anjo vindo com a auriflama para conduzi-lo. O preconceito adoptou todas as historietas desse género. Os que conhecem a natureza humana sabem muito bem que o usurpador Clóvis e o usurpador Rolão ou Raul se fizeram cristãos para governar com mais segurança os cristãos, assim como os usurpadores turcos se haviam feito muçulmanos para governar com mais segurança os muçulmanos.

Preconceitos religiosos

Se a vossa ama vos diz que Ceres preside o crescimento do trigo ou que Vichnu e Xaca se fizeram homem várias vezes, ou que Sammonocodone veio derrubar uma floresta, ou que Odin vos espera em seu salão do lado na Jutlândia, e Maomé ou algum outro fez uma viagem ao céu; enfim se vosso preceptor vem em seguida aprofundar-vos no cérebro o que a vossa ama ali gravou, conservareis isso tudo para o resto da vida. Vosso juízo quer erguer-se contra esses preconceitos; vossos vizinhos, e sobretudo, vossas vizinhas gritam pela impiedade e vos assustam; vosso derviche, receando ver diminuir a respectiva renda, vos acusa ao cádi e esse cádi vos faz empalar se puder, porque só quer comandar tolos e julga que os tolos obedecem melhor do que outros. Isso durará até vossos vizinhos, o derviche e o cádi começarem a compreender que a tolice não serve para coisa alguma e a perseguição é abominável.

 

Fonte: Voltaire, Clássicos Jackson. Trad. De Brito Broca

ago 152011
 

Dicionário Filosófico de Voltaire – verbetes selecionados

MILAGRES

Um milagre, pela força da palavra, é uma coisa admirável. No fundo, tudo é milagre. A ordem prodigiosa da natureza, a rotação de cem milhões de globos em torno de milhões de sóis, a actividade da luz, a vida dos animais, são milagres perpétuos.

Segundo as ideias aceitas, chamamos milagre a violação dessas leis divinas e eternas. Que haja um eclipse do sol durante um plenilúnio, que um morto faça duas léguas a pé, levando a cabeça debaixo do braço, chamaremos a isso milagre.

Vários físicos sustentam que, nesse sentido, não há milagres; e eis aqui seus argumentos. Um milagre é a violação das leis matemáticas, divinas, imutáveis, eternas. Pelo exposto, um milagre encerra uma contradição nos seus termos. Uma lei não pode ser imutável e violada. Mas uma lei, lhes diremos, tendo sido estabelecida pelo próprio Deus, não pode ser sustada pelo seu autor? Eles vão à ousadia de responder que não, é impossível um ser infinitamente sábio ter criado leis para violá-las. Não poderia, dizem eles, desarranjar sua máquina para fazê-la funcionar melhor. Ora, é claro que Deus fez esta imensa máquina tão boa quanto pôde; se lhe notou qualquer imperfeição resultante da natureza da matéria, removeu-a desde o começo; não precisará mudar mais nada.

Além disso, Deus nada pode fazer sem razão; ora, que razão o levaria a desfigurar por algum tempo sua própria obra?

É em favor dos homens, dir-lhes-emos. Será então em favor de todos os homens, respondem eles, pois é impossível conceber a natureza divina trabalhando por alguns homens em particular e não para todo o género humano, ainda mesmo seja o género humano bem pouca coisa: este não passa de um pequeno formigueiro em comparação com todos os seres que enchem a imensidão. Ora, não parecerá a mais absurda das loucuras imaginar o Ser supremo, invertendo em favor de três ou quatro centenas de formigas desse pequeno monte de lodo, o jogo eterno das molas imensas que fazem mover o universo?

Mas suponhamos Deus querendo distinguir um pequeno número de homens por favores particulares: ser-lhe-á necessário mudar o que estabeleceu para todos os tempos e todos os lugares? Ele não tem, decerto, nenhuma necessidade dessa modificação, dessa inconstância, para favorecer suas criaturas; seus favores estão nas próprias leis. Tudo previu, tudo determinou nelas; todas obedecem, irrevogavelmente, à força transmitida por Deus, para sempre, à natureza.

Por que faria Deus um milagre? Para cumprir certo desígnio com relação a algumas criaturas humanas? Diria Ele, pois: "Não pude chegar pela fabricação do universo, por meus decretos divinos, minhas leis eternas, a cumprir um certo propósito; vou mudar minhas ideias eternas, minhas leis imutáveis, a fim de executar o que não consegui por meio delas." Seria uma confissão de fraqueza e não do seu poder. Seria, parece, a mais inconcebível contradição. Assim, ousar atribuir a Deus milagres, é insultá-lo (se podem os homens insultar Deus), é dizer-lhe: "Sois um ser fraco e inconsequente". É, pois, absurdo acreditar em milagres; equivale a desonrar, de qualquer forma, a Divindade.

Apertamos esses filósofos, dizendo-lhes: "Podeis exaltar a imutabilidade do Ser supremo, a eternidade de suas leis, a regularidade de seus mundos infinitos; mas nosso peda-cinho de lama esteve sempre cheio de milagres; as histórias se acham tão cheias de prodígios quanto de acontecimentos naturais. As filhas do grande sacerdote Agno transformavam tudo que queriam em trigo, em vinho ou em óleo; Atália, filha de Mercúrio, ressuscitou várias vezes; Esculápio ressuscitou Hipólito; Hércules arrancou Alceste à morte; Hera voltou ao mundo, depois de haver passado quinze dias nos infernos; Rómulo e Remo nasceram de um deus e de uma vestal; o Paládio caiu do céu na cidade de Tróia; a cabeleira de Berenice tornou-se um feixe de estrelas; a cabana de Baucis e Filemon foi transformada num soberbo templo; a cabeça de Orfeu transmitia oráculos, depois da morte deste; as muralhas de Tebas construíram-se por si mesmas ao som da flauta, na presença dos gregos; as curas feitas no templo de Esculápio são inumeráveis, e temos ainda monumentos cheios dos nomes das testemunhas oculares dos milagres de Esculápio.

"Nomeai um povo entre o qual não se tivessem operado prodígios incríveis, sobretudo no tempo em que não se sabia ler nem escrever".

Os filósofos não respondem a estas objecções senão rindo e sacudindo os ombros; mas os filósofos cristãos dizem: "Acreditamos nos milagres operados em nossa santa religião; acreditamos pela fé e não pela razão que nos preservamos de escutar, pois quando fala a fé, estamos fartos de saber que a razão não deve pronunciar uma palavra. Temos uma crença firme e íntegra nos milagres de Jesus Cristo e dos apóstolos, mas permiti-nos duvidar um pouco dos outros; concordai, por exemplo, que suspendamos o nosso julgamento no que se refere a um homem simples a quem se deu o nome de grande. Assegura ele que um pequeno monge estava tão acostumado a fazer milagres, que o prior o proibiu de tal, a fim de utilizar-se do seu talento. O mon-gezinho obedeceu, mas tendo visto um pobre pedreiro prestes a cair do alto de um tecto, hesitou entre o desejo de salvar-lhe a vida e a santa obediência. Ordenou somente ao pedreiro que ficasse no ar até nova ordem, e correu depressa a dar parte da situação ao prior. O prior deu-lhe absolvição do pecado que havia cometido, começando a fazer um milagre sem licença, e permitiu-lhe completá-lo, uma vez que se resumisse nisso e não voltasse a praticar outro. Concordamos com os filósofos: é preciso suspeitar um pouco desta história."

Mas como ousais negar, dizem eles, a aparição de São Gervásio e São Protásio, em sonho, a Santo Ambrósio, ensi-nando-lhe o lugar onde estavam suas relíquias, e de as ter Santo Ambrósio desenterrado e com elas curado um cego? Santo Agostinho se achava, então, em Milão; é ele quem nos reporta essse milage: "Immenso populo leste", diz na sua Cidade de Deus, livro XXII. Eis um milagre dos mais provados. Os filósofos protestam não acreditar em nada; que Gervásio e Protásio não apareceram a ninguém; que pouco importa ao género humano saber onde estão os restos de suas carcassas; que não têm mais fé nesse cego do que no de Vespasiano; que se trata de um milagre inútil e Deus não faz nada de inútil; e se conservam assim firmes nos seus princípios. Meu respeito por São Gervásio e São Protásio não me permite ser da opinião dos filósofos; dou conta somente da incredulidade deles. Fazem grande mossa desta passagem de Luciano na Morte do Peregrino: "Quando um malandro hábil torna-se cristão está certo de enriquecer." Mas como Luciano é um autor profano não deve possuir nenhuma autoridade entre nós.

Tais filósofos não se resolvem a crer nos milagres ope-rados no século segundo. Testemunhas oculares houveram por bem escrever que o bispo de Esmirna, São Policarpo, tendo sido condenado à fogueira e atirado nas chamas, Ouviu-se uma voz do céu a gritar: "Coragem, Policarpo! Sois forte, mostrai-vos homem!", e então as labaredas da fogueira se afastaram do corpo e formaram um pavilhão de fogo acima da cabeça, enquanto do meio das chamas saía uma pomba. Afinal, foram obrigados a cortar a cabeça dePolicarpo. "Que prova esse milagre? — dizem os incrédulos — por que as chamas teriam perdido sua natureza e o machado do executor não perdera a sua? De onde vem que tantos mártires tenham saído sãos e salvos do óleo fervente e não pudessem resistir à lâmina do gládio?" Respon-de-se-lhes: é a vontade de Deus. Mas os filósofos desejariam ter visto tudo isso com seus próprios olhos, antes de crer. Os que fortificam o raciocínio com a ciência, vos dirão que os padres da Igreja confessavam, frequentemente, não ocorrerem mais milagres no seu tempo. São Crisóstomo diz expressamente: "Os dons extraordinários do espírito tinham sido concedidos mesmo aos indignos, porque então a Igreja necessitava de milagres; mas hoje não são dados mesmo aos dignos, porque a Igreja já não os necessita." Em seguida, confessa não haver mais pessoa que ressuscite os mortos ou cure os enfermos.

O próprio Santo Agostinho, apesar do milagre de Gervásio e Protásio, diz na Cidade de Deus: "Por que esses milagres que se faziam outrora não se fazem mais hoje?" E dá a mesma razão: "Cur, inquiunt, nunc ilia miracula quae praedicatis jacta esse non fiunt? Possem quidem dicere necessária prius fuisse quam crederet mundus: ad hoc, ut crederet mundus."

Objecta-se aos filósofos que Santo Agostinho, apesar desta confissão, fala de um velho remendão que, tendo perdido a roupa, foi orar na capela dos vinte mártires; e ao voltar encontrou um peixe, dentro do qual havia um anel de ouro e que o cozinheiro ao preparar o peixe disse ao homem "Eis o que os vinte mártires vos dão".

A isso os filósofos respondem nada existir nesta história capaz de contradizer as leis da natureza: a física não foi absolutamente atingida pelo facto de um peixe engolir um anel de ouro e de um cozinheiro dar esse anel a um remendão, e não há em tal coisa nenhum milagre.

Se fizermos lembrar a esses filósofos que, segundo São Jerónimo, na Vida do Eremita Paulo, este eremita teve várias conversas com sátiros e faunos, e um corvo lhe trouxe todos os dias, durante trinta anos, a metade de um pão para o jantar e um pão inteiro no dia em que Santo António veio vê-lo, eles poderão responder ainda tudo isso não ser absolutamente contra a física; os sátiros e faunos podem ter existido, e em todo caso se o conto não passa de uma puerilidade, isto nada tem de comum com os milagres do Salvador e dos apóstolos. Alguns bons cristãos combateram a história de São Simão Estelita, escrita por Teodureto. Muitos milagres, tidos por autênticos na Igreja grega, foram postos em dúvida por vários latinos, da mesma maneira que os milagres latinos têm sido suspeitos pela Igreja grega; e em seguida, vieram os protestantes, negando os milagres de uma e de outra Igreja.

Um sábio jesuíta, tendo pregado muito tempo nas índias, lamenta-se de que nem seus confrades nem eles conseguissem jamais fazer um milagre. Xavier lamenta-se em várias cartas de não possuir o dom de aprender línguas; diz que, entre os Japoneses, fica mudo como uma estátua. Entretanto, os jesuítas escreveram que ele havia ressuscitado oito mortos; é muito, mas devemos considerar haver Xavier feito essas ressurreições a seis mil léguas daqui. Encontramos depois pessoas pretendendo ter sido a dissolução dos jesuítas na França um milagre muito maior do que os de Xavier e de Inácio.

De qualquer forma, todos os cristãos concordando serem os milagres de Jesus Cristo e dos apóstolos de uma verdade incontestável, acham que podemos duvidar, com toda firmeza, de alguns milagres feitos nestes últimos tempos e que não tiveram uma autenticidade definitiva.

Desejar-se-ia, por exemplo, para um milagre ser bem constatado, fosse ele feito na presença da Academia das Ciências de Paris ou da Sociedade Real de Londres e da Faculdade de Medicina, assistidos por um pelotão do regimento de guardas, para conter o povo, capaz, por indiscrição, de impedir a execução do milagre.

Perguntou-se, certo dia, a um filósofo, o que ele diria se visse o Sol parar, isto é, se o movimento da Terra em torno desse astro cessasse, se todos os mortos ressuscitassem, todas as montanhas em conjunto fossem se atirar ao mar, e tudo para provar alguma verdade importante, como, por exemplo, a graça versátil. "O que eu diria?" — respondeu o filósofo. — Tornar-me-ia maniqueu, diria haver um princípio que desfaz o que outro fez.

Fonte: Voltaire, Clássicos Jackson. Trad. De Brito Broca

jun 072011
 
voltaire

Dicionário Filosófico de Voltaire

PRECONCEITOS

O preconceito é uma opinião sem julgamento. Assim, em toda a terra, inspiram-se às crianças todas as opiniões que se desejam, antes que elas possam julgá-las.

Há preconceitos universais necessários, que constituem a própria virtude. Em todo país ensina-se às crianças a reconhecer um deus recompensador e vingador, a respeitar e a amar o pai e a mãe, a encarar o furto como um crime, a mentira interessada como um vício, antes que elas possam adivinhar o que é um vício e uma virtude.

Há bons preconceitos: são os que o juízo ratifica, quando raciocinamos. Sentimento não é simples preconceito, é qualquer coisa de mais forte. Uma mãe não ama o filho porque lhe dizem ser preciso amá-lo: ama-o, extremosamente, mesmo sem querer. Não é por preconceito que correis em socorro de uma criança desconhecida, prestes a tombar num

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precipício ou a ser devorada por um animal. Mas por preconceito respeitais um homem revestido de certos trajes, caminhando gravemente e falando de igual forma. Vossos pais vos disseram que devíeis vos inclinar diante desse homem: vós o respeitais antes de saber se ele merece vosso respeito. Crescei em idade e em conhecimentos; percebeis que o homem é um charlatão, cheio de orgulho, de interesse e de* artifícios; desprezais o que tínheis reverenciado, e o preconceito cede assim lugar ao julgamento. Acreditastes por preconceito nas fábulas com que vos embalaram ao berço, na infância: disseram-vos que os titãs fizeram guerra aos deuses, Vénus se apaixonara por Adónis; tomais, aos doze anos, essas fábulas por verdades e as encarais aos vinte anos como alegorias engenhosas.

Examinemos em poucas palavras as diferentes espécies de preconceitos, a fim de pô-los em ordem em nossas questões. Somos, talvez, como aquelas pessoas do tempo do sistema de Law, que descobriram ter calculado com riquezas imaginárias.

Preconceitos dos sentidos

Não é uma coisa engraçada que nossos olhos nos enganem sempre, mesmo quando vemos muito bem, e que o contrário aconteça com os nossos ouvidos? Se vosso ouvido bem conformado ouve: “És bela, eu te amo”, é bem certo que não vos dizem: “Odeio-te, és feia”. Mas vede um espelho liso e ele demonstra que vos enganais, é uma superfície muito grosseira. Vede o Sol com dois pés, mais ou menos, de diâmetro; e está demonstrado ser um milhão de vezes maior do que a Terra.

Parece Deus ter posto a verdade em vossos ouvidos e o erro em vossos olhos; mas estudai a óptica e vereis que Deus não vos enganou e que é impossível os objectos vos parecerem de outra maneira, se os vedes no estado presente das coisas.

Preconceitos físicos

O Sol ergue-se, a Lua também, a Terra é imóvel: estão aí preconceitos físicos naturais. Mas que os caranguejos sejam bons para o sangue, porque cozidos, tornam-se vermelhos como ele; as enguias curem a paralisia, porque se agitam; a Lua influa sobre as doenças, porque um dia se observou haver tido um enfermo uma alta de temperatura na minguante; essas ideias e muitas outras são erros de antigos charlatães que julgaram sem raciocinar e tendo-se enganado, enganaram os outros.

Preconceitos históricos

A maior parte das histórias formaram-se sem exame e tal crença é um preconceito. Fabius Pictor conta que vários séculos antes de ele existir, uma vestal da cidade de Alba indo buscar água com seu jarro, foi violada e deu a luz a Rómulo e Remo, sendo eles alimentados por uma loba, etc. O povo romano acreditou nessa fábula; não examinou, absolutamente, se naquele tempo havia vestais no Lácio; se era verossímil a filha de um rei sair do convento com seu jarro; se era provável uma loba aleitar duas crianças em lugar de devorá-las. O preconceito firmou-se.

Um monge escreve que Clóvis, estando em grande perigo na batalha de Tolbiac, fez a promessa de tornar-se cristão se dela se salvasse; mas é natural que se dirija alguém a um deus estrangeiro em tal ocasião? Não é quando a religião em que nascemos age mais poderosamente? Qual o cristão, numa batalha contra os Turcos, não se dirigirá antes à Virgem Santa do que a Maomé?

Acrescenta-se haver um pombo trazido os santos óleos no bico para ungir Clóvis e um anjo vindo com a auriflama para conduzi-lo. O preconceito adoptou todas as historietas desse género. Os que conhecem a natureza humana sabem

muito bem que o usurpador Clóvis e o usurpador Rolão ou Raul se fizeram cristãos para governar com mais segurança os cristãos, assim como os usurpadores turcos se haviam feito muçulmanos para governar com mais segurança os muçulmanos.

Preconceitos religiosos

Se a vossa ama vos diz que Ceres preside o crescimento do trigo ou que Vichnu e Xaca se fizeram homem várias vezes, ou que Sammonocodone veio derrubar uma floresta, ou que Odin vos espera em seu salão do lado na Jutlândia, e Maomé ou algum outro fez uma viagem ao céu; enfim se vosso preceptor vem em seguida aprofundar-vos no cérebro o que a vossa ama ali gravou, conservareis isso tudo para o resto da vida. Vosso juízo quer erguer-se contra esses preconceitos; vossos vizinhos, e sobretudo, vossas vizinhas gritam pela impiedade e vos assustam; vosso derviche, receando ver diminuir a respectiva renda, vos acusa ao cádi e esse cádi vos faz empalar se puder, porque só quer comandar tolos e julga que os tolos obedecem melhor do que outros. Isso durará até vossos vizinhos, o derviche e o cádi começarem a compreender que a tolice não serve para coisa alguma e a perseguição é abominável.

Fonte: VOLTAIRE. Clássicos Jackson vol XXII. Tradução de Brito Broca.

mai 182011
 

CARTAS FILOSÓFICAS DE VOLTAIRE – CARTA XXIII

Sobre a consideração que se deve aos homens de letras

Nem na Inglaterra nem em qualquer outro país do mundo encontramos instituições em prol das belas-artes como na França. Há universidades em quase todas as partes, mas só na França se observam esses úteis estímulos à astronomia, a todas as ciências matemáticas, à medicina, às investigações da antiguidade, à pintura, à escultura e à arquitectura.

Luís XIV imortalizou-se por tudo que nesse sentido instituiu, e essa imortalidade custou-lhe apenas duzentos mil francos por ano.

Confesso que muito me espanta o Parlamento da Inglaterra, que decidira conceder vinte mil guinéus a quem fizesse a descoberta impossível das longitudes, não haver jamais pensado em imitar Luís XIV quanto à sua magnificência para com as artes. O mérito encontra, em verdade, na Inglaterra, outras recompensas mais honrosas para a nação. Tal é o respeito desse povo por todas as formas de talento, que um homem de mérito ali faz sempre fortuna. Addison, na França, teria pertencido a alguma academia e talvez obtido, pelos favores de alguma mulher, uma pensão de mil e duzentas libras, ou então lhe teriam criado embaraços sob o pretexto de haverem percebido na sua tragédia Catão certas alusões ao porteiro de um homem em evidência. Na Inglaterra, Addison foi secretário de Estado; Newton, intendente do Tesouro Real; Congrève ocupava um cargo importante; Prior foi ministro plenipotenciário; o doutor Swift é deão na Irlanda e muito mais considerado ali do que o

primaz. Se a religião de Pope 11 não lhe permite ter um cargo público, não impede que a sua tradução de Homero lhe renda duzentos mil francos. Vi, na França, o autor de Rhadamiste 12 prestes a morrer de fome; e o filho de um dos maiores homens que a França já tivera 13, e que começava a seguir as pegadas do pai, ficaria reduzido à miséria, não fora o auxílio de Fagon.

O que mais estimula as artes na Inglaterra é a consideração que as cerca. O retrato do primeiro ministro encontra-se sobre o fogão do seu gabinete de trabalho; mas vi o de Pope em vinte casas particulares. Newton foi coberto de honrarias em vida, e o foi também depois de morto: os principais da nação disputaram a honra de carregar o esquife do sábio à sua última morada. Entrai em Westminster: não são os túmulos dos reis que ali são admirados; são os monumentos que a gratidão da nação erigiu aos que contribuíram para a sua maior glória. Vereis ali suas estátuas, como se viam em Atenas as de Sófocles e Platão; e estou persuadido de que a simples vista desses gloriosos monumentos terá estimulado mais de um espírito e formado mais de um grande homem.

Chega-se mesmo a censurar os Ingleses por terem ido muito longe nas honras prestadas ao simples mérito; há quem diga que eles enterraram em Westminster a célebre comediante Oldfield com quase as mesmas honras prestadas a Newton.

11 Pope era católico, e é sabido que, de 1673 até 1828, o juramento do Test, imposto a todos os funcionários ingleses, excluía os católicos dos cargos públicos.

12 Crébillon, poeta trágico francês, com o qual Voltaire deveria alimentar uma rivalidade célebre.

13 Luís Racine.

Fonte: VOLTAIRE. Clássicos Jackson vol XXII. Tradução de Brito Broca.

mai 042011
 

Egito

É um conto popular, ingênuo e simples, que transcreve, provavelmente, uma lenda religiosa dos deuses Anúbis e Bata, adorados na cidade Saka, do Alto Egito. O conto pertence à época do Império novo e acha-se no papiro de Orbiney, descoberto em 1852 por de Rougé. O papiro está assinado pelo escriba Ennana, que viveu sob os reis Mer-en-ptah e Setos I, nos fins da 19.a dinastia (1220 A. C).

CONTO DOS DOIS IRMÃOS

ERA UMA VEZ dois irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe. O mais velho chamava-se Anúbis e o menor Bata. Anúbis tinha casa e esposa, e seu irmão vivia com êle como se fosse um filho. Fazia as roupas, guardava o gado, trabalhava e colhia, e se encarregava de todas as tarefas do campo. Aquele irmão menor era bom lavrador, sem igual em toda a região, e a força de um deus nele se albergava.

Muitos dias depois daquele dia, o irmão menor guardava o gado, como de costume, e todas as noites vinha para casa carregado com todas as ervas do campo, com leite e lenha, e depositava tudo diante de seu irmão mais velho, que estava sentado com sua mulher. Depois, comia, bebia e deitava-se no estábulo, para cuidar do gado.

E quando chegava o dia seguinte, preparava a comida para seu irmão mais velho, que lhe dava pão para o campo, e tirava os bois a fim de que pastassem. Ia atrás do gado, e este lhe ia dizendo: "Aqui e ali há boa erva". Êle ouvia quanto lhe diziam e levava-os a pastar a boa erva que desejavam. Deste modo, as vacas prosperavam, brilhantes, e tinham muitos bezerros.

. Certa vez, na época de arar, seu irmão mais velho lhe disse:

— Prepara uma junta de vacas, pois a terra já está boa para arar, porque a água da inundação já se retirou. E depois vai ao campo com a semente, pois amanhã cedo vamos arar.

Assim disse, e o irmão mais moço fêz tudo quanto o outro mandava. Quando o dia amanheceu foram para o campo com sua junta e trabalharam com ardor, fazendo de coração alegre suas tarefas.

Muitos dias depois, porém, faltou-lhes semente, no campo, e o irmão mais velho mandou o mais moço à casa, dizendo-lhe:

— Vai buscar semente na aldeia.

O irmão menor chegou à casa e encontrou a mulher de seu irmão penteando-se. E disse:

— Levanta-te e dá-me sementes, pois volto para o campo. Meu irmão me espera, anda logo.

Ela respondeu:

— Abre tu mesmo o celeiro e tira a semente de que precisas, que eu não vou deixar meu penteado sem terminar.

O rapaz foi ao estábulo e trouxe uma grande medida, já que desejava levar boa quantidade de grãos. Encheu-a com aveia e trigo e saiu com ela. A esposa do irmão disse-lhe:

— Quanto levas aí sobre os ombros? Êle respondeu:

— Levo três medidas de trigo e duas de aveia, no total cinco.

Então, ela disse:

— Como és forte! Vejo, diariamente, como tua força aumenta.

E desejou conhecê-lo, como se conhece um rapaz. Levantou-se, pegou nele pelo braço, e disse-lhe:

— Vem, vamos descansar juntos um pouco. Se me con-cederes isso, farei para ti roupas muito bonitas.

Aquela perversa proposta fêz com que o moço ficasse raivoso como um leoparcfo, e ela sentiu grande medo. Êle falou-lhe, dizendo:

— És para mim como uma mãe e teu marido como um pai; pois, como mais velho, educou-me. Não compreendes 0 horror do que me disseste? Não repitas tal coisa, e eu nada contarei a ninguém, e ninguém o saberá pela minha boca.

Tomou sua carga e caminhou para o campo, e, quando chegou onde estava seu irmão, trabalharam com ardor em sua tarefa.

À tarde, o irmão mais velho regressou à casa, enquanto o mais moço ficava com o gado. Vinha este carregado com toda a espécie de coisas do campo, e trazia os animais diante de si, para que dormissem no estábulo da aldeia. Mas a mulher de seu irmão mais velho, temendo o que dissera, apanhou gordura e fêz como se a tivessem batido brutalmente, para dizer a seu marido: "Foi teu irmão mais moço quem me bateu". Quando o marido chegou à casa, nas horas da tarde, como todos os dias, encontrou a mulher na cama, e dolorida. Não lhe derramou água nas mãos, como de costume, não tinha acendido a luz e a casa estava às escuras. E a mulher jazia, terrivelmente maltratada. Seu marido lhe disse:

— Quem falou contigo? Ela respondeu:

— Ninguém falou comigo, a não ser teu irmão mais moço. Quando veio buscar a semente, ao encontrar-me sentada, sozinha, disse-me: "Vem, vamos repousar um pouquinho, juntos. Veste teu melhor vestido". Não lhe dei atenção. "Não sou tua mãe, e teu irmão mais velho não é para ti como um pai?", disse-lhe. Então êle ficou com medo, e bateu-me, para que eu nada dissesse. Mas se o deixares viver, mato-me, pois quando chegar em casa, ao saber que te contei sua maldade, já podes supor o que fará.

Então, o irmão mais velho ficou raivoso como um leopardo, afiou sua faca e ficou com ela na mão, pondo-se atrás da porta do estábulo para matar o irmão menor quando viesse para casa, trazendo o gado. Mas a primeira vaca, ao entrar no estábulo, disse ao seu pastor:

— Tem cuidado. Ali está teu irmão mais velho com uma faca para matar-te. Põe-te a salvo.

Ouviu êle o que lhe dizia a primeira vaca, depois a outra, ao entrar, disse-lhe o mesmo. Então, olhou por baixo da porta e viu os pés de seu irmão, que estava atrás dela, com a faca na mão. Vendo aquilo, largou sua carga no chão e se pôs a correr com todas as suas forças. O irmão mais velho saiu em perseguição dele, com sua faca.

O irmão mais moço invocou Ra-Harachti, e disse:

— Meu bom senhor! Tu és quem julga o iníquo e o justo!

Ra escutou suas súplicas e fez aparecer entre os dois irmãos uma imensa extensão de água, que estava cheia de crocodilos, ficando um deles de um lado e o segundo do outro. De raiva por não ter matado o mais moço, o irmão mais velho feriu-se duas vezes na mão.

O irmão mais moço gritou lá do outro lado, dizendo:

— Fica aí até que o dia nasça. Quando o sol sair pleitearei contigo, a fim de que o justo vença o iníquo. Pois não mais voltarei a morar contigo nem a ficar em lugar onde estejas. Vou para o Vale dos Cedros.

Quando a terra se iluminou e foi outro dia, saiu Ra–Harachti e os dois irmãos se viram. O jovem dirigiu a palavra a seu irmão, dizendo-lhe:

— Como acontece que me persigas para matar-me por falsidade, sem antes ouvir-me? Não sou eu teu irmão mais moço, e não eras para mim como um pai e tua mulher como uma irmã? Não é isso? Quando me mandaste buscar os grãos, tua mulher me disse: "Vem, vamos repousar um pouquinho, juntos". Mas já vejo que te contaram de outra maneira o que sucedeu.

E contou tudo quanto se havia passado entre êle e a mulher do outro.

Jurou por Ra-Harachti, e disse:

— Que tenhas querido matar-me por falsidade, com um punhal na mão, pelas palavras de uma mulher imunda!

Agarrou uma faca de cortar plantas, cortou o próprio membro e atirou-o à água, onde um crocodilo devorou-o.

Começou a cair e desfalecer e o irmão mais velho sentiu uma grande dor e pôs-se a chorar amargamente. Mas, por causa dos crocodilos não pôde passar para a margem, onde estava seu irmão.

O irmão menor gritou-lhe:

— Já que pensaste uma coisa má, não queres também pensar numa boa ou em uma das que eu faria por ti? Vai à tua casa e cuida tu mesmo de teu gado, pois eu não viverei mais onde estiveres. Vou para o Vale dos Cedros. O que te peço que faças por mim é que venhas cuidar-me quando aconteça algo. O que acontecerá é que apanharei meu coração e colocá-lo-ei sobre a flor do cedro. Quando cortarem o cedro e meu coração cair ao chão, vem buscá-lo, e ainda que passes sete anos sem encontrá-lo, não te canses. Quando o encontrares, coloca-o num jarro de água fresca, e ressuscitarei para responder à iniqüidade que se fêz comigo. Saberás que algo me aconteceu quando te derem um copo de cerveja que deite espuma: não fiques quieto, então, pois aquilo é importante para ti.

Foi-se para o Vale dos Cedros, e seu irmão mais velho voltou para casa com a mão na cabeça, e cheio de pó. Matou a mulher, atirou-a aos cães, e ficou de luto pelo seu irmão mais moço.

Muitos dias depois disto, o irmão mais moço continuava no Vale dos Cedros. Ninguém vivia com êle, que passava seu tempo caçando os animais do deserto e à noite dormia sob o cedro em cuja flor depositara seu coração. Mas muitos dias depois disso levantou com suas mãos um palácio no Vale dos Cedros, cheio de coisas boas, pois desejava montar casa.

Saindo um dia de sua casa, encontrou-se com os nove deuses que andavam inspecionando a terra. Os nove deuses falaram ao mesmo tempo, e disseram-lhe:

— Oh! Bata! Touro dos nove deuses! Estás aqui sozinho e abandonaste teu país por causa da mulher de Anúbis, teu irmão mais velho. Eis que este último matou a mulher, pois tu fizeste com que êle visse a iniqüidade que cometera para contigo.

Os deuses ficaram com muita pena dele, e Ra-Harachti disse a Chnum:

— Dá uma mulher a Bata, para que não viva tão sozinho.

Chnum fez para ele uma companheira de membros mais formosos do que os de qualquer outra mulher sobre a terra, pois levava em si os germes de todos os deuses.

As sete Hatores vieram vê-la, e disseram em coro:

— Morrerá de morte violenta.

Bata enamorou-se dela. Ela ficava em casa enquanto êle passava o tempo caçando no deserto, para trazer-lhe caça. E disse-lhe:

— Não saias, não vá o mar carregar-te. Eu não poderia salvar-te, pois sou uma mulher como tu. Meu coração está sobre a flor do cedro, e se alguém o encontrar, ficarei sob seu poder.

Abriu à mulher o coração em tudo quanto lhe dizia respeito.

Muitos dias depois disto, saiu Bata de casa, como de costume. A moça foi a caminho do cedro, que ficava junto da casa, quando percebeu que o mar vinha para ela, com suas ondas. Pôs-se a correr e meteu-se em casa. O mar gritou para o cedro:

— Segura-a para mim!

E o cedro arrancou-lhe uma trança dos cabelos. O mar arrastou a trança até o Egito, e depositou-a no lugar em que estavam os lavadores do Faraó.

O cheiro da trança meteu-se pela roupa do Faraó. E disseram:

— A roupa do Faraó cheira a pomada.

Todos ralhavam com os lavadores, que não sabiam o que fazer.

Nisto, o chefe dos lavadores do Faraó, que estava muito aborrecido com as contínuas rixas, seguia pela amurada do rio. Deteve-se junto de um banco de areia, em frente da trança que estava na água. Mandou que descessem ao rio e trouxessem a trança, que foi considerada de muito bom cheiro. Agarrou-a e levou-a ao Faraó.

Foram evocados os escribas e sábios, que disseram ao Faraó:

— Esta trança pertence a uma filha de Ra, em quem se encerra a essência de todos os deuses. Já que ela te foi mandada de terra estranha, envia emissários a todos os paises, para buscar a mulher. Mas o emissário que mandares ao Vale dos Cedros, manda-o com muita gente, para trazê-la.

Sua Majestade disse:

— O que dissestes está bem.

E enviou os emissários.

Passados muitos dias voltaram os emissários que tinham ido para países estrangeiros a fim de trazer notícias a Sua Majestade; mas não vieram os do Vale dos Cedros, pois Bata os matara, não deixando senão um com vida, para que fosse informar Sua Majestade.

Então, Sua Majestade enviou muitos soldados e gente de carro para trazer a moça, e com eles ia uma mulher que levava consigo formosas jóias femininas. A mulher veio com eles para o Egito, e todo o país regozijou-se com aquilo.

Sua Majestade amou-a muito e nomeou-a grande princesa do harém. Perguntaram-lhe quem era seu marido, e ela disse a Sua Majestade:

— Que cortem e destruam o cedro.

Mandaram soldados com armas para tirar o cedro. Chegaram ao cedro, cortaram a flor sobre a qual estava o coração de Bata, e este caiu morto no mesmo momento.

Quando amanheceu e veio um segundo dia, depois de cortado o cedro, Anúbis, o irmão mais velho, entrou em casa, sentou-se e lavou as mãos. Deram-lhe um copo de cerveja, e estava passada; deram-lhe um copo de vinho e tinha estragado. Então, apanhou seu bastão e suas sandálias, suas roupas e suas armas e encaminhou-se para o Vale dos Cedros. Chegou à casa de seu irmão mais moço e encontrou-o estendido no leito, e viu que estava morto. Chorou ao ver morto seu irmão e logo começou a procurar o coração de seu irmão no cedro a cujo abrigo se deitava, ao entardecer. Procurou-o durante três anos sem nada achar, e quando começava o quarto ano, sentiu desejos de ir ao Egito e disse em seu coração:

— Amanhã irei.

Quando amanheceu e chegou o outro dia, foi até o cedro, e esteve o dia inteiro procurando. À tarde já desistira de procurar quando, ao olhar pela última vez, viu uma fruta. Levou-a para casa, e abriu-a, e viu que era o coração

de seu irmão. Apanhou uma taça de água fresca, nela colocou a fruta, e sentou-se, como era de seu hábito diário.

Mas quando se fez noite e o coração tinha absorvido toda a água, Bata estremeceu em todos os seus membros e começou a olhar para seu irmão, enquanto seu coração ainda estava na taça. Então, Anúbis apanhou a taça de água fresca onde estava o coração de seu irmão, deu-lha a beber e quando o coração voltou para seu lugar êle tornou a ser o mesmo que tinha sido antes. Os irmãos abraçaram-se e falaram.

Bata disse ao irmão mais velho:

— Ouve, eu me transformarei num grande touro, com todas as belas cores do touro sagrado e cuja natureza será desconhecida. Tu te sentarás sobre minhas costas, e, quando o sol sair, estaremos lá onde mora minha mulher, a fim de que eu lhe dê uma resposta. Tu me levarás à presença do rei, que te cobrirá de presentes. Vão carregar-te de prata por me haveres levado à presença do Faraó, pois eu serei um grande milagre e todo o país fremirá de júbilo. Depois, voltarás à tua aldeia.

Quando amanheceu e chegou outro dia, tomou Bata a figura que anunciara a seu irmão. Anúbis colocou-se sobre as costas dele, e pela aurora chegou à presença do rei. Peram notícia dele a Sua Majestade, que, ao vê-lo, manifestou grande prazer. Fêz-lhe dois grandes sacrifícios, e disse:

— Eis que um grande milagre se produziu.

Por êle todo o país encheu-se de júbilo.

Deram muito ouro e prata ao irmão mais velho, que se estabeleceu em sua aldeia com muitos escravos e objetos, pois o Faraó amava-o mais do que a qualquer outro homem sobre a terra.

Muitos dias depois disto, o touro entrou no harém, e ao chegar onde estava a princesa pôs-se a falar com ela, dizendo-lhe:

— Olha, ainda estou vivo.

Ela perguntou:

— Quem és? Êle respondeu:

— Sou Bata. Quando mandaste que o Faraó cortasse o cedro, sabias perfeitamente que eu não viveria mais. Entretanto, vês que continuo vivendo, sob o aspecto de um touro.

A princesa ficou amedrontada diante do que o marido lhe dissera.

A princesa saiu de seu harém e Sua Majestade passou o dia com ela. A princesa servia-lhe o vinho e ele se mostrava muito amável. Nisto, diz ela a Sua Majestade:

— Jura-me por Deus que cumprirás o que eu te diga. E ele prometeu obedecer ao que ela dissesse. E ela disse:

— Deixa-me comer o fígado daquele touro, pois não serve para nada.

Todos se afligiram muito com o que ela pediu, e Sua Majestade teve grande compaixão do touro.

Quando amanheceu e chegou o outro dia, dispôs-se um grande sacrifício, e como oferenda figurava o touro. Mandou-se chamar um dos primeiros magarefes de Sua Majestade para que matasse o touro. Porém, depois de morto, e quando ia carregado por aquela gente que o levava, sacudiu o pescoço e deixou cair duas gotas de sangue na porta de Sua Majestade, e uma das gotas caiu de um lado da porta grande e a outra caiu do lado oposto. No mesmo momento nasceram ali duas grandes perseas, cada qual mais bela.

Foram dizer a Sua Majestade:

— Esta noite nasceram duas grandes perseas, com grande milagre, de ambos os lados da porta de Sua Majestade.

Todo o país encheu-se de júbilo, e fizeram-se oferendas.

Sua Majestade sentou-se sob uma das perseas. Nisto, Bata disse à sua mulher:

— Oh! Pérfida! Sou Bata. Vivo ainda, apesar de ti. Sabias que eu morreria quando aconselhaste ao Faraó que cortasse o cedro. Converti-me num touro, e fizeste com que me matassem.

Muitos dias depois disso estava a princesa com Sua Majestade; servia-lhe o vinho e ele se mostrava muito amável. A princesa disse a Sua Majestade:

— Jura-me por Deus que cumprirás o que eu te diga.

Êle prometeu cumprir o que ela quisesse, e ela disse:

— Manda cortar as duas perseas para fabricar belos móveis com elas.

O que ela dizia foi ouvido.

Muitos dias depois mandou Sua Majestade hábeis obreiros a fim de que derrubassem as perseas: o Faraó assistia ao ato, vendo o que faziam, junto com sua régia esposa, a princesa. Saltou uma lasquinha que foi ter à boca da princesa, que a engoliu, ficando imediatamente grávida. E com as árvores fêz-se o que ela desejava.

Muitos dias depois disso a princesa deu à luz um filho e anunciaram a Sua Majestade:

— Nasceu-te um filho.

Trouxeram-no onde êle estava e deram-lhe ama e pajens. Todo o país encheu-se de júbilo e houve festas com grandes diversões para o povo. A criança educou-se no palácio e Sua Majestade amou-a muito desde o primeiro instante. E para honrá-lo, foi nomeado filho do rei da Etiópia. Poucos dias depois, foi proclamado herdeiro de todo o país.

Muitos dias depois, quando há muitos anos êle já era herdeiro de todo o país, Sua Majestade subiu ao céu. O novo rei disse:

— Que se reúnam meus grandes conselheiros reais a fim de que eu lhes instrua sobre tudo quanto me aconteceu.

Trouxeram sua mulher e êle falou-lhe diante de todos, que se mostraram de acordo em castigá-la. Trouxeram-lhe seu irmão mais velho, e êle o proclamou príncipe herdeiro de seu país. Ocupou o trono do Egito durante trinta anos, e, ao morrer, sucedeu-lhe seu irmão mais velho, no dia dos seus funerais.

Fonte: Maravilhas do conto popular. Adaptação de Nair Lacerda. Cultrix, 1960.

jan 252011
 
greenhouse1

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES DA GEOGRAFIA HUMANA

EM RELAÇÃO AO AQUECIMENTO GLOBAL ANTROPOGÊNICO: UM MUNDO SEM CATRACAS É POSSÍVEL?

 

lucianoagra@hotmail.com[1]

 

 

Resumo: O que é o Efeito Estufa? Será que o aquecimento Global é o Fenômeno Natural ou é o Efeito da Atividade Humana? Outra questão que se coloca é se o aquecimento global observado é natural ou antropogênico? Muitas perguntas, Muitas respostas… Este artigo propõe analisar sobre o aumento da temperatura global, a Intensificação do efeito-estufa, as Limitações dos modelos de clima global a Variabilidade climática natural e a responsabilidade pela natureza. Percebe-se que este artigo trata-se de uma pesquisa analítica descritiva, com análise dos textos pelos Estudos da linguagem e da Análise do discurso, buscando-se observar e desenvolver a presença dos discursos utilizados nas matérias referentes ao aquecimento global e seus usos de linguagem simples, destacada o contexto filosófico, sociológico, histórico, geográfico e outras áreas afins, enfatizando as causas, conseqüências e os interesses políticos integrados as organizações sociais, políticas, econômicas, cultural e assim sucessivamente. Portanto, contextualizamos e intertextualizamos uma pesquisa arraigada em livros, sites e revistas a fim de expor um trabalho concreto e vir a esclarecer as dúvidas sobre este tema de caráter social e polissêmico. Destaco Hans Jonas, porque tem como ponto de apoio uma ontologia fundada numa finalidade da natureza.

 

Palavras chave: Aquecimento Global – variabilidade climática – modelos climáticos – Efeito Estufa.

 

 

 

SOME CONSIDERATIONS OF THE HUMAN GEOGRAPHY

REGARDING THE GLOBAL HEATING ANTROPOGÊNICO: IS A WORLD WITHOUT CATRACAS POSSIBLE?

 

 

Abstract: What is the Greenhouse effect? Will it be that the Global heating is the Natural Phenomenon or is the Effect of the Human Activity? Is another question that is put if the global observed heating is natural or antropogênico? Many questions, Many answers… This article proposes to analyse on the increase of the global temperature, the Intensification of the greenhouse effect, the Limitations of the models of global climate to climatic natural Variability and the responsibility for the nature. it is realized that one treats this article as an analytical descriptive inquiry, with analysis of the texts by the Studies of the language and of the Analysis of the speech, when for to observe be looked and developing the presence of the speeches used in the matters referring to the global heating and his uses of simple, outstanding language the philosophical, sociological, historical, geographical context and other similar areas, emphasizing the causes, consequences and the political interests integrated the social, political, economical organizations, culturally and so successively. So, contextualizamos and intertextualizamos an inquiry rooted in books, sites and magazines in order to expose a concrete work and come to explain the doubts on this subject of social character and polissêmico. I detach Hans Jonas, because it takes as a point of support an ontology been based on a finality of the nature.

 

Key words: Global heating – climatic variability – climatic models – Greenhouse effect.

 

 

CONSIDERATIONS UNES PAR RAPPORT AUX GÉOGRAPHIE HUMAINE DU RÉCHAUFFEMENT CLIMATIQUE ANTHROPIQUE: UN MONDE SANS CLIQUET EST POSSIBLE?

 

 

Résumé: Quel est l’effet de serre? Ce que le réchauffement climatique est un phénomène naturel ou est l’effet des activités humaines? Une autre question qui se pose est de savoir si le réchauffement observé est naturelle ou anthropique? Beaucoup de questions, beaucoup de réponses … Cet article vise à analyser sur l’augmentation de la température mondiale, l’intensification de l’effet de serre, les limites des modèles du climat mondial à la variabilité naturelle du climat et de la responsabilité de la nature. Il est remarqué que cet article, il est une recherche descriptive analytique, l’analyse de textes pour l’étude de la langue et analyse du discours, en essayant d’observer et de développer la présence des discours utilisés dans les questions relatives au réchauffement de la planète et de ses usages un langage simple, a souligné le contexte philosophique, sociologique, historique, géographique et d’autres domaines connexes, en insistant sur les causes, les conséquences et les intérêts politiques inclus organisations sociales, politiques, économiques, culturelles et ainsi de suite. Par conséquent, une recherche et contextualisée intertextualize enracinée dans les livres, magazines et sites Web afin d’exposer un travail précis et viennent pour répondre aux questions sur le sujet d’un environnement social et polysémique. Mettez en surbrillance Hans Jonas, parce que son point de l’ontologie de soutien basé sur un but de la nature.

 

Mots-clés: réchauffement de la planète – la variabilité du climat – les modèles climatiques – Effet de serre.

 

 

1. INTRODUÇÃO

 

 

                   Neste artigo percebemos que o efeito estufa é o aquecimento gradual do planeta provocado pelo acúmulo de certos gases na atmosfera, principalmente dióxido de carbono ou gás carbônico (CO2). Os gases à base de carbono são conhecidos como gases estufa. O efeito estufa tem um lado bom. A camada de gases em torno da Terra serve para manter a temperatura do planeta nos limites adequados para a vida. Sem essa "manta" que retém o calor, a atmosfera seria cerca de 18 graus Celcius mais fria. As maiores emissões de CO2, segundo dados de 1997 expressos em milhões de toneladas anuais, são, pela ordem, dos Estados Unidos, China, Federação Russa, Japão, Índia, Alemanha, Reino Unido e Canadá. Especificamente, os países desenvolvidos assumiram o seguinte compromisso no âmbito do artigo 3.1 do Protocolo de Quioto, Consuelo yatsuda moromizato Yoshida mostrou em seu texto: mudanças climáticas, protocolo de quioto e o princípio da responsabilidade comum, mas diferenciada. A posição estratégica singular do Brasil. Alternativas energéticas, avaliação de impactos, teses desenvolvimentistas e o papel do judiciário, dizendo que:

 

As Partes incluídas no Anexo I devem, individual ou conjuntamente, assegurar que suas emissões antrópicas agregadas, expressas em dióxido de carbono equivalente, dos gases de efeito estufa listados no Anexo A não excedam suas quantidades atribuídas, calculadas em conformidade com seus compromissos quantificados de limitação e redução de emissões descritos no Anexo B e de acordo com as disposições deste Artigo, com vistas a reduzir suas emissões totais desses gases em pelo menos 5 por cento abaixo dos níveis de 1990 no período de compromisso de 2008 a 2012. (YOSHIDA, 2008, p. 6)

                   O aspecto negativo do efeito estufa está relacionado à ação do homem. A atmosfera da Terra formou-se lentamente, em bilhões de ano. De repente, em poucas décadas, a grande produção de gases estufa pelo homem ameaça alterar seu equilíbrio, tornando-a cada vez mais espessa, o que resultaria na retenção de mais calor sobre a superfície da Terra. Não há dúvida sobre o papel dos gases no aquecimento global. Mas ainda há discussões sobre o verdadeiro papel do dióxido de carbono emitido por atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis como no caso o petróleo, carvão e a fumaça das queimadas, e é por isso que foram provados os aumentos da temperatura média do planeta nos últimos anos e ainda também já foi exposto o aumento da emissão de gases estufa por atividades humanas. Mas não se estabeleceu ainda uma clara relação de causa e efeito entre esses dois fatos. O aumento da temperatura poderia ser uma oscilação natural do planeta. Estuda-se também o papel dos oceanos. Eles cobrem três quartos da superfície do planeta. Grande parte do carbono é produzido nos oceanos através do fitoplâncton, minúsculos organismos vegetais. Qual a verdadeira capacidade de o mar servir de "depósito " de carbono? É mais um tema em discussão. Mesmo com tantas incertezas, é melhor tomar medidas de redução dos gases estufa antes que seja tarde.

 

 

2. AQUECIMENTO GLOBAL: A CONVENÇÃO-QUADRO, O PROTOCOLO DE QUIOTO E O PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE COMUM.

 

 

 

Nós estamos na era do esclarecimento ambiental e aquecimento global é visto como a maior ameaça ao bem estar da população mundial. Hoje em dia muitos investigadores especulam que com o aquecimento global da atmosfera irá haver um aumento das falhas de colheitas relacionadas com a seca em áreas já por si afectadas por esta. Eles acham que as áreas secas ficarão mais secas e as áreas humidas ficarão mais húmidas. Ainda assim tem-se observado que as pessoas estão a mudar-se para regiões que são relativamente menos produtivas, com respeito à produtividade da agricultura do que as terras de que emigraram. Este livro desafia a vista que as secas futuras serão causadas pela alteração do clima ao contrário das actividades humanas e da mudança demográfica. O autor prevê problemas futuros nestes ambientes frágeis, quer ocorra ou não alteração do clima. Este livro intriga investigadores na biologia ambiental, em ciências ambientais, ciência popular, e em agricultura, bem como fabricantes de política e estudantes. ( DOMBROWSKI, 2006, p. 01)

 

 

                  Segundo Dombrowski, o Aquecimento global é um fenômeno climático de larga extensão um aumento da temperatura média superficial global que vem acontecendo nos últimos 150 anos. Entretanto, o significado deste aumento de temperatura ainda é objeto de muitos debates entre os cientistas. Isto quer dizer que as causas naturais ou antropogênicas têm sido propostas para explicar o fenômeno. Assim, acredita-se que a grande parte da comunidade científica acredita que o aumento de concentração de poluentes antropogênicos na atmosfera é causa do efeito estufa. Em conseqüência disto, a Terra recebe radiação emitida pelo Sol e devolve grande parte dela para o espaço através de radiação de calor, isso significa dizer que os poluentes atmosféricos estão retendo uma parte dessa radiação que seria refletida para o espaço, em condições normais, mas essa parte retida causa um importante aumento do aquecimento global.

                  Percebe-se aqui, portanto, uma questão fundamental quando se fala em aquecimento global, ou seja, pode-se dizer que é o aumento da temperatura média dos oceanos e do ar perto da superfície da Terra ocorrido desde meados do século XX e que deverá continuar no século XXI. Além disso, segundo o Quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, a temperatura na superfície terrestre caracterizou-se um aumento entre 0,74 para 0,18 °C durante o século XX, ou seja, um aumento nas temperaturas globais pode, em contrapartida, causar outras alterações, incluindo aumento no nível do mar, mudanças em padrões de precipitação resultando em enchentes e secas. No entanto, espera-se que o aquecimento global seja mais intenso no Ártico, e estaria associado ao recuo das geleiras, permafrost e gelo marinho. Particularmente os outros efeitos prováveis incluem alterações na freqüência e intensidade de eventos meteorológicos extremos, extinção de espécies e variações na produção agrícola. Dessa forma o aquecimento e as suas conseqüências variarão de região para região, apesar da natureza destas variações regionais ser incerta.

                  A crescente complexidade dos fenômenos ambientais, a ocorrência global concomitante com o aquecimento global que já se verifica e que se prevê continuar no futuro, é a acidificação oceânica, que é também resultado do aumento contemporâneo da concentração de dióxido de carbono atmosférico. É importante chamar atenção para o fato de que o consenso científico é que o aquecimento global antropogênico está a acontecer. Todavia, o debate público e político sobre o aquecimento global ainda continuam. Ainda ficamos uma indagação: Mas, afinal o que foi Protocolo de Quioto? Contudo, entende-se que o Protocolo de Quioto é um acordo internacional que estabelece as metas de redução de gases poluentes para os países industrializados. Ressalte-se, ainda, que o protocolo foi finalizado em 1997, baseado nos princípios do Tratado da ONU sobre Mudanças Climáticas, de 1992, ou seja, visa à estabilização da concentração de gases de efeito estufa para evitar uma “interferência antropogênica perigosa. Como se pode percebe, foi em Novembro de 2009 era composto por 187 estados que assinaram e ratificaram o protocolo. Por esta razão, Consuelo Yatsuda Moromizato Yoshida colocou que a Convenção-Quadro e o Protocolo de Quioto estabeleceram como objetivo final e ele dizia que”:

 

alcançar a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera num nível que impeça uma interferência antrópica perigosa no sistema climático. Esse nível deverá ser alcançado num prazo suficiente que permita aos ecossistemas adaptarem-se naturalmente à mudança do clima, que assegure que a produção de alimentos não seja ameaçada e que permita ao desenvolvimento econômico prosseguir de maneira sustentável. (YOSHIDA, 2004, p. 112)

 

 

                  É preocupante a crescente complexidade dos fenômenos ambientais, que a maior parte do aumento de temperatura observado desde meados do século XX foi causada por concentrações crescentes de gases do efeito estufa, como resultado de atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis e a desflorestação. Considerando, então, que o escurecimento global, uma conseqüência do aumento das concentrações de aerossóis atmosféricos que bloqueiam parte da radiação solar antes que esta atinja a superfície da Terra, mascarou parcialmente os efeitos do aquecimento induzido pelos gases de efeito de estufa. Em outras palavras os modelos climáticos referenciados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [IPCC], das Nações Unidas, projetam que as temperaturas globais de superfície provavelmente aumentarão no intervalo entre 1,1 e 6,4 °C entre 1990 e 2100. Como observou o renomado astrofísico inglês Stephen Hawking, afirmando que: “durante anos, parte da comunidade científica se enganou atribuindo o aquecimento aos ciclos naturais do planeta e às mudanças na atividade solar. Hoje existe uma quase unanimidade de que o problema é causado por nós mesmos” (HAWKING, 2001, p. 92). Segundo o IPCC, o efeito estufa, percebe-se por essa leitura que a variação dos valores reflete o uso de diferentes cenários de futura emissão de gases estufa e resultados de modelos com diferenças na sensibilidade climática. A partir daí podemos entender que a maioria dos estudos ter seu foco central no período até o referente ano 2100 espera-se que o aquecimento e o aumento no nível do mar continuem prosperando por mais de um milênio, mesmo que as concentrações de gases estufa se estabilizem. O que seria então o termo aquecimento global?

                  Antes de prosseguirmos com nossa hipótese, é preciso destacar que o termo aquecimento global é um exemplo específico de mudança climática à escala global, ou seja, o termo significa ainda mudança climática, mas, também pode se referir ao esfriamento global. Como se vê, é certo que no uso comum, o termo se refere ao aquecimento ocorrido nas décadas recentes e subentende-se uma influência humana. É a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima que enfatiza, entre outros aspectos, que os países desenvolvidos são os principais responsáveis pelas emissões históricas e atuais, ou seja, essa articulação se concretizou na Convenção Quadro das Nações Unidas para Mudança do Clima [UNFCCC] usa o termo mudança climática para mudanças causadas pelo Homem, e variabilidade climática para outras mudanças. Nesse mesmo enfoque é possível situar que o termo alteração climática antropogênica é por vezes usado quando se fala em mudanças causadas pelo Homem. Nesse contexto de interpretação entre as evidências do aquecimento do global incluem-se o aumento observado das temperaturas globais do ar e dos oceanos, o derretimento generalizado dos glaciares e a subida do nível médio do mar gradual das neves eternas e das camadas de gelo dos pólos, aumento do volume dos oceanos, mais chuvas em algumas regiões, mais seca em outras, aumento do número e intensidade de furacões, tufões, tempestades, inundações, desertificações e do fenômeno El Niño, que altera o clima no mundo.

                 Outra perspectiva, mais importante é a principal evidência do aquecimento global vem das medidas de temperatura de estações meteorológicas em todo o globo desde 1860, mas os referentes dados com a correção dos efeitos de ilhas urbanas demonstrou que o aumento médio da temperatura foi entre 0.6 a 0.2 °C durante o século XX. É aqui que se demonstra, com todo o vigor os maiores aumentos foram em dois períodos, a saber, primeiramente em 1910 à 1945 e 1976 à 2000, sendo que De 1945 à 1976, houve um arrefecimento que fez com que temporariamente a comunidade científica suspeitasse que estava a ocorrer um arrefecimento global. Partido dessas ponderações, o aquecimento verificado não foi globalmente uniforme. É preciso destacar ainda que durante as últimas décadas, foi em geral superior entre as latitudes de 40°N e 70°N, todavia em algumas áreas, como a do Oceano Atlântico Norte, tenha sucedido um arrefecimento. É provavelmente que os continentes tenham aquecido mais do que os oceanos. Há, portanto, que referir que alguns estudos parecem indicar que a variação em irradiação solar pode ter contribuído em cerca de 45–50% para o aquecimento global ocorrido entre 1900 e 2000.

                  Vale salientar que a principal evidência do aquecimento global vem das medidas de temperatura de estações metereológicas em todo o globo desde 1860, no entanto, os dados com a correção dos efeitos de ilhas urbanas expõem que o aumento médio da temperatura foi mais de 0.6 – 0.2 C durante o século XX, inclusive os maiores aumentos foram em dois períodos, a saber, sendo que o primeiro foi de 1910 à 1945 e o segundo foi de 1976 à 2000. É importante perceber que as evidências secundárias são obtidas através da observação das variações da cobertura de neve das montanhas e de áreas geladas, do aumento do nível global dos mares, do aumento das precipitações, da cobertura de nuvens, do El Niño[2] e outros eventos extremos de mau tempo durante o século XX, exemplos, a saber, os dados de satélite demonstra um espaço restrito de 10% na área que é coberta por neve desde os anos 60 deste referido século. Nota-se que a área da cobertura de gelo no hemisfério norte na primavera e verão também ficou restrito em cerca de 10% a 15% desde 1950 e houve retração das montanhas geladas em regiões não polares durante todo o século XX. Vale ressaltar que as causas das mudanças climáticas ocorreram devido a fatores internos e externos. Esses fatores internos são aqueles associados à complexidade derivada do fato dos sistemas climáticos serem sistemas caóticos não lineares. Fatores externos podem ser naturais ou antropogênicos.

                  Historicamente, o principal fator externo natural é a variabilidade da radiação solar, que depende dos ciclos solares e do fato de que a temperatura interna do sol vem aumentando. Fatores antropogênicos são aqueles da influência humana levando ao efeito estufa, o principal dos quais é a emissão de sulfatos que sobem até a estratosfera causando depleção da camada de ozônio. Com base neste ponto, os cientistas concordaram que fatores internos e externos naturais podem ocasionar mudanças climáticas significativas. No último milênio dois importantes períodos de variação de temperatura ocorreram: um período quente conhecido como Período Medieval Quente e um frio conhecido como Pequena Idade do Gelo. Ainda discorrendo sobre isto, David APPEL, colocou que o "o Período de Aquecimento Medieval, entre 800 e 1300, e a Pequena Idade do Gelo, de 1300 a 1900 – ocorreram globalmente e numa época em que a emissão de gases industriais com efeito estufa ainda não se tinha tornado abundante" (APPELL, 2003, p. 10-11).

                  É nessa passagem extraída de David Appell que podemos perceber que a variação de temperatura desses períodos tem magnitude similar ao do atual aquecimento e acredita-se terem sido causados por fatores internos e externos somente. Em seguida a Pequena Idade do Gelo é atribuída à redução da atividade solar e alguns cientistas concordam que o aquecimento terrestre observado desde 1860 é uma reversão natural da Pequena Idade do Gelo. Por conseguinte as grandes quantidades de gases tem sido emitidos para a atmosfera desde que começou a revolução industrial, a partir de 1750 as emissões de dióxido de carbono aumentaram 31%, metano 151%, óxido de nitrogênio 17% e ozônio troposférico 36%. Vale lembrar que a maior parte destes gases são produzidos pela queima de combustíveis fósseis, como no caso o carvão, petróleo e gás, queima das florestas tropicais, e assim sucessivamente.

                  Partindo dessa interpretação da sociedade, destaco que os cientistas pensam que a redução das áreas de florestas tropicais tem contribuído, assim como as florestas antigas, para o aumento do carbono. No que diz respeito, as florestas novas nos Estados Unidos e na Rússia contribuem para absorver dióxido de carbono e desde 1990 a quantidade de carbono absorvido é maior que a quantidade liberada no desflorestamento, porém nem todo dióxido de carbono emitido para a atmosfera se acumula nela, metade é absorvido pelos mares e florestas. Além disso, apresentam a real importância de cada causa proposta pode somente ser estabelecida pela quantificação exata de cada fator envolvido. Observe-se ainda, que os fatores internos e externos podem ser quantificados pela análise de simulações baseadas nos melhores modelos climáticos. Como bem se expressa, James Lovelock,  a respeito:

 

O ambientalista que gosta de acreditar que a vida é frágil e delicada e que está em perigo diante da brutalidade do homem, não gosta do que vê quando olha o mundo através de Gaia. A donzela desamparada que ele esperava resgatar, surge como uma mãe canibal saudável e robusta (LOVELOCK, 2001, p. 89-90).

 

 

                  Nessa passagem, nota-se claramente, que a influência de fatores externos pode ser comparada usando conceitos de força radioativa. Com esta afirmação a força radioativa positiva esquenta o planeta e uma negativa o esfria. Paralelamente as emissões antropogênicas de gases, depleção do ozônio estratosférico e radiação solar têm força radioativa positiva e aerossóis têm os seus uso como força radioativa negativa. Contudo, os modelos climáticos são simulações climáticas mostram que o aquecimento ocorrido de 1910 até 1945 podem ser explicado somente por forças internas e naturais, mas o aquecimento ocorrido de 1976 a 2000 necessita da emissão de gases antropogênicos causadores do efeito estufa para ser explicado. Vale destacar que a maioria da comunidade científica está atualmente convencida de que uma proporção significativa do aquecimento global observado é causada pela emissão de gases causadores do efeito estufa emitido pela atividade humana. Concluímos que dependemos da exatidão dos modelos usados e da estimativa correta dos fatores externos e é por isso que a maioria dos cientistas concordou que as importantes características climáticas estejam sendo incorretamente incorporadas nos modelos climáticos, mas eles também pensam que modelos melhores não mudariam a conclusão.

                  Outro ponto importante é que os críticos, os irônicos dizem que há inúmeras falhas nos modelos e que fatores externos não levados em consideração poderiam modificar as conclusões acima, mas, esses críticos dizem que as simulações climáticas não têm capacidades de modelar os efeitos resfriadores das partículas, ajustar a retroalimentação do vapor de água e levar em conta o papel das nuvens. Os críticos também expõem que o Sol pode ter uma maior cota de responsabilidade no aquecimento global atualmente observado do que o aceite pela maioria da comunidade científica, enquanto que alguns efeitos solares indiretos podem ser muito importantes e não são levados em conta pelos modelos. Assim, à parte do aquecimento global causado pela ação humana poderia ser menor do que se pensa atualmente.

                  Devido aos efeitos potenciais sobre a saúde humana, economia e meio ambiente o aquecimento global tem sido fonte de grande preocupação. Percebe-se que algumas importantes mudanças ambientais tem sido observadas e foram ligadas ao aquecimento global. Tomamos por exemplo as evidências secundárias mencionadas como no caso a diminuição da cobertura de gelo, aumento do nível do mar, mudanças dos padrões climáticos, e assim sucessivamente, ou seja, são exemplos das conseqüências do aquecimento global que podem influenciar não somente as atividades humanas, mas também os ecossistemas, inclusive o aumento da temperatura global permite que um ecossistema mude; algumas espécies podem ser forçadas a sair dos seus habitats devido a mudanças nas condições enquanto outras podem espalhar-se, invadindo outros ecossistemas. Em contrapartida, o aquecimento global também pode ter efeitos positivos, uma vez que aumentos de temperaturas e aumento de concentrações de CO2 podem aprimorar a produtividade do ecossistema, sendo que as observações de satélites mostraram que a produtividade do hemisfério Norte aumentou desde 1982, mas por outro lado é fato de que o total da quantidade de biomassa produzida não é necessariamente muito boa, uma vez que a biodiversidade pode no silêncio diminuir ainda mais um pequeno número de espécie que esteja florescendo.

                  É importante evidenciar que a outra grande preocupação é o aumento do nível do mar. Desde então, o nível dos mares está aumentando em 0.01 à 0.02 metros por década e em alguns países insulares no Oceano Pacífico são expressivamente preocupantes, porque cedo eles estarão debaixo de água. Nesta óptica podemos perceber claramente a influência do aquecimento global provoca subida dos mares principalmente por causa da expansão térmica da água dos oceanos, mas alguns cientistas estão preocupados que no futuro, a camada de gelo polar e os glaciares derretam. Em conseqüência haverá aumento do nível, em muitos metros. No presente momento, os cientistas não esperam um maior derretimento nos próximos 100 anos, quando o clima fica mais quente, a evaporação aumenta, e isto provoca pesados aguaceiros e mais erosão, e é por isto que inúmeras pessoas pensam que isto poderá causar os resultados mais extremos no clima como progressivo aquecimento global.

                  Assim, o aquecimento global também pode apresentar efeitos menos óbvios, por exemplo, a Corrente do Atlântico Norte, provocada por diferenças entre a temperatura entre os mares. Contudo, aparentemente ela está diminuindo conforme as médias da temperatura global aumentam, isso significa dizer que áreas como a Escandinávia e a Inglaterra que são aquecidas pela corrente devem mostrar climas mais frios a despeito do aumento do calor global, mas por outro lado o aquecimento global pode trazer conseqüências graves para todo o planeta incluindo plantas, animais e seres humanos, enquanto que a retenção de calor na superfície terrestre pode influenciar fortemente o regime de chuvas e secas em várias partes do planeta, afetando plantações e florestas.

                  Notadamente algumas florestas podem sofrer processo de desertificação, enquanto plantações podem ser destruídas por alagamentos, e com isso o resultado é o movimento migratório de animais e seres humanos, escassez de comida, aumento do risco de extinção de várias espécies animais e vegetais, e aumento do número de mortes por desnutrição. O outro grande risco do aquecimento global é o derretimento das placas de gelo da Antártica, mas esse derretimento já vinha processando há milhares de anos, por um lento processo natural, mas a ação do homem e o efeito estufa aceleraram o processo e o tornaram imprevisível.

                  A calota de gelo ocidental da Antártida está derretendo a uma velocidade de 250 km cúbicos por ano, elevando o nível dos oceanos em 0,2 milímetro a cada 12 meses. O degelo desta calota pode fazer os oceanos subirem até 4,9 metros, cobrindo vastas áreas litorâneas pelo mundo e ilhas inteiras. Os resultados também são escassez de comida, disseminação de doenças e mortes. O aquecimento global também acarreta mudanças climáticas, o que é responsável por 150 mil mortes a cada ano em todo o mundo. Só no ano passado, uma onda de calor que atingiu a Europa no verão matou pelo menos 20 mil pessoas. Os países tropicais e pobres são os mais vulneráveis a tais efeitos. A Organização Mundial da Saúde [OMS] atribui à modificação do clima 2,4% dos casos de diarréia e 2% dos de malária em todo o mundo. Esse quadro pode ficar ainda mais sombrio: alguns cientistas alertam que o aquecimento global pode se agravar nas próximas décadas e a OMS calcula que para o ano de 2030 as alterações climáticas poderão causar 300 mil mortes por ano.

                 O aquecimento global é o aumento da temperatura terrestre em todo o planeta, e tem preocupado a comunidade científica cada vez mais. Acredita-se que seja devido ao uso de combustíveis fósseis e outros processos em nível industrial, que levam à acumulação na atmosfera de gases propícios ao Efeito Estufa, tais como o Dióxido de Carbono, o Metano, o Óxido de Azoto e os CFCs. Há muitas décadas que se sabe da capacidade que o Dióxido de Carbono tem para reter a radiação infravermelha do Sol na atmosfera, estabilizando assim a temperatura terrestre por meio do Efeito Estufa, mas, ao que parece, isto em nada preocupou a humanidade que continuou a produzir enormes quantidades deste e de outros gases de Efeito Estufa. Desmatamento, queimada de florestas e matas também colabora para este processo.

                  Segundo as medições da temperatura para épocas anteriores a 1860, desde quando se tem feito o registro das temperaturas em várias áreas de globo, as medidas puderam ser feitas a partir dos anéis de árvores, de sedimentos em lagos e nos gelos, o aumento de 2 a 6 ºC que se prevê para os próximos 100 anos seria maior do que qualquer aumento de temperatura alguma vez registrado desde o aparecimento da civilização humana na Terra. Desta forma torna-se assim quase certo que o aumento da temperatura que estamos enfrentando é causado pelo Homem e não se trata de um fenômeno natural. Conseqüências do aquecimento global Aumento do nível dos oceanos: com o aumento da temperatura no mundo, está em curso o derretimento das calotas polares. Ao aumentar o nível da águas dos oceanos, podem ocorrer, futuramente, a submersão de muitas cidades litorâneas; Desertificação: o aumento da temperatura provoca a morte de várias espécies animais e vegetais, desequilibrando vários ecossistemas.

                  Somado ao desmatamento que vem ocorrendo, a tendência é aumentar cada vez mais as regiões desérticas em nosso planeta; Aumento de furacões, tufões e ciclones: o aumento da temperatura faz com que ocorra maior evaporação das águas dos oceanos, potencializando estes tipos de catástrofes climáticas; Ondas de calor: regiões de temperaturas amenas têm sofrido com as ondas de calor. No verão europeu, por exemplo, tem se verificado uma intensa onda de calor, provocando até mesmo mortes de idosos e crianças. O protocolo de quioto que é um acordo internacional que visa a redução da emissão dos poluentes que aumentam o efeito estufa no planeta. Entrou em vigor em 16 fevereiro de 2005. O principal objetivo é que ocorra a diminuição da temperatura global nos próximos anos. Os E.U.A, infelizmente, país que mais emite poluentes no mundo, não aceitou o acordo, pois afirmou que ele prejudicaria o desenvolvimento industrial do país. No caso de não se tomarem medidas drásticas, de forma a controlar a emissão de gases de Efeito Estufa é quase certo que teremos que enfrentar um aumento da temperatura global que continuará indefinidamente, e cujos efeitos serão piores do que quaisquer efeitos provocados por flutuações naturais, o que quer dizer que iremos provavelmente assistir às maiores catástrofes naturais causadas indiretamente pelo Homem, alguma vez registradas no planeta. A criação de legislação mais apropriada sobre a emissão dos gases poluentes é de certa forma complicada por também existirem fontes de Dióxido de Carbono naturais, o qual manteve a temperatura terrestre estável desde idades pré-históricas, o que torna também o estudo deste fenômeno ainda mais complexo. As analogias mais próximas que se podem estabelecer são com mudanças provocadas por alterações abruptas na circulação oceânica ou com o drástico arrefecimento global que levou à extinção dos dinossauros. O que existe em comum entre todas estas mudanças de clima são extinções em massa, por todo o planeta tanto no nível da fauna como da flora. Esta analogia vem reforçar os modelos estabelecidos, nos quais prevêem que tanto os ecossistemas naturais como as comunidades humanas mais dependentes do clima venham a ser fortemente pressionados e postos em perigo.

 

 

 CONCLUSÃO

 

                   Concluímos que a responsabilidade do homem que tem pela natureza humana é de tal monta, que a proteção implica automaticamente a proteção do outro, ou seja, nós temos que respeitar a natureza humana; a atividade antrópica, da mesma forma que vem sendo decisiva para a degradação da qualidade ambiental e da vida no planeta, ela é também decisiva para a reversão deste processo, cuja manifestação mais preocupante são as drásticas mudanças climáticas em nível global, com grandes questões importantes que  merecer a atenção dos Poderes Públicos e da sociedade brasileira para a adequada formulação dos rumos das políticas públicas relativas às alternativas energéticas, a saber, a hidroenergia, termoenergia e agroenergia, em especial, ponto crucial das políticas de desenvolvimento nacional em tempos de mudanças climáticas globais e vigência do Protocolo de Quioto. De fato, Karl-Otto Apel frisou que: “[...] a responsabilidade de principio dos seres humanos uns pelos outros é uma relação potencial que só se torna atual em conformidade com efetivo avanço de poder” (APEL, 1988 p. 146). É nesta linha de raciocínio que segundo Hans Jonas, argumentava que:

 

Precisamos da ameaça a imagem humana – e de tipos de ameaça bem determinados – para, com o pavor gerado, afirmarmos uma imagem humana autentica. Enquanto o perigo for desconhecido não se saberá o que há para se proteger e por que devemos faze-lo: por isso, contrariando toda lógica e método, o saber se origina daquilo contra o que devemos nos proteger (…) só sabemos o que esta em jogo quando sabemos que isto ou aquilo esta em jogo. (JONAS, 2006, p.71).

 

                   Portanto, “ O futuro é, ao mesmo tempo, condição de possibilidade de continuidade da humanidade e também o espaço dos efeitos possíveis e longínquos da ação humana” (SANTOS, 2009 p.6).

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

  • APEL, K O. Responsabilidade hoje – Já Somente Principio da Autoconservação e Autolimitação e Realização da Humanidade?. In: Ética e Responsabilidade: o problema da passagem para a moral pós-convencional. Lisboa: Instituto Piaget, 1988.
  • APPEL, David. Bate-boca – Afirmação de que Aquecimento Global não é induzido pelo homem reacende debate. Revista Scientific American, agosto de 2003, número 15, p. 10-11.
  • DOMBROWSKI, Daniel A. Aquecimento Global, Qual O Futuro?. Publicado em: fevereiro 19, 2006. Disponível em: << http://pt.shvoong.com/books/125192-aquecimento-global-qual-futuro/>>. Acesso: 23/01/2011.
  • EGOSHI, Koiti. A verdade sobre o aquecimento global. Publicado no Infobibos em 06/08/2007. Artigo em Hypertexto. Disponível em: <<http://www.infobibos.com/Artigos/2007_3/aquecimentoglobal/Index.htm>>.Acesso em: 23/1/2011.
  • HAWKING, Stephen. A natureza contra-ataca. Revista Veja, São Paulo, n. 15, p. 92, 18 abr. 2001.
  • JONAS. H. O Principio Responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de janeiro: Contraponto: ED PUC-RIO, 2006.
  • LOVELOCK, James. Gaia – Um Modelo para a Dinâmica Planetária e Celular. In: THOMPSON, William Irwin e Outros. Gaia – Uma Teoria do Conhecimento. São Paulo: Gaia, 2001.
  • YOSHIDA, Consuelo Yatsuda Moromizato. O Protocolo de Kyoto e o princípio da responsabilidade comum, mas diferenciada. A experiência e a contribuição japonesas. In: FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de (Coord.). Direito ambiental em debate. Rio de Janeiro: Esplanada, 2004, v.2. p. 109-120.
  • YOSHIDA, Consuelo Yatsuda Moromizato. Mudanças climáticas, Protocolo de Quioto e o Princípio da Responsabilidade comum, mas diferenciada. A posição estratégica singular do Brasil. Alternativas energéticas, avaliação de impactos, teses desenvolvimentistas e o papel do Judiciário. 2008. BRASIL Disponível em: <<http://www.planetaverde.org/mudancasclimaticas/index.php?ling=por&cont=artigos>>. Acesso: 23/01/2011.
  • SANTOS, R. O Problema da Técnica e a Critica à Tradição na Ética de Hans Jonas. In: Dissertatio, Pelotas: EDGUFPEL, 2009.
  • SCARBELLI & DARÓS. Vivência e descoberta em geografia, 7ª série – Ed. renov. – São Paulo : FTD, 1996.


[1]Graduado em Licenciatura em História pela Universidade Estadual da Paraíba [UEPB] e Graduando em Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Estadual da Paraíba [UEPB].

[2] O El Niño é uma alteração significativa de curta duração, que varia de 12 a 18 meses em torno da distribuição da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico, com profundos efeitos no clima. Em conseqüência disto, estes acontecimentos modificam um sistema de flutuação das temperaturas daquele oceano chamado Oscilação Sul e, por essa razão, são referidos muitas vezes como OSEN (Oscilação Sul-El Niño), mas o seu papel no aquecimento e arrefecimento global é uma área de intensa pesquisa, ainda sem um consenso.

 

set 032010
 

LUÍS CARLOS MARTINS PENA – biografia e obras (Rio de Janeiro, 1815-1848). órfão e educado por seus tutores, perfez em 1835 o curso da Aula de Comércio, e, arrastado por manifestas tendências artísticas freqüentou a Academia Imperial de Belas-Artes, adquirindo noções de Pintura, Escultura, Arquitetura e Música. Urgido pela necessidade, aceitou o emprego de amanuense da Mesa do Consulado no Rio de Janeiro, onde serviu desde 1838 até ser transferido em 1843, com igual categoria para a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros. Em 1847 partiu para a Europa como adido à Legação Brasileira em Londres.

Não lhe sendo aí favorável o clima, deliberou regressar ao Brasil, mas em meio da viagem faleceu na cidade de Lisboa, em fins de 1848.

Aplicando-se à Literatura dramática, escreveu muitas comédias e alguns dramas. Folhetins e crônicas, no Jornal do Comércio completam o seu espólio literário.

Não passam de nove as comédias de Mautins Pena que foram impressas, e depois reunidas em uma edição da casa Garnier, com estudos históricos e críticos de Melo Morais Filho e Sílvio Romero. O Juiz de Paz da Roça, o Judas em Sábado de Aleluia e O Noviço são as mais conhecidas de tais produções, que sobretudo primam pela naturalidade das situações, singeleza da frase e bom desenho de tipos nacionais.

O Juiz de Paz da Roça – Texto de Martins Pena

Juiz — Sr. Escrivão, leia outro requerimento.

Escrivão, lendo — "O abaixo assinado vem dar os parabéns a Vossa Senhoria por ter entrado com saúde no novo ano financeiro. Eu, ilustríssimo Senhor Juiz de Paz, sou senhor de um sítio que está na beira do rio, aonde dá muito boas bananas e laranjas, e, como vem de encaixe, peço a Vossa Senhoria o favor de aceitar um cestinho das mesmas, que eu mandarei hoje à tarde; mas, como ia dizendo, o dito sítio foi comprado com o dinheiro que minha mulher ganhou nas costuras… E vai senão quando, um meu vizinho, homem da raça de Judas, diz que metade do sítio é dele. E então que lhe parece, Sr. Juiz, não é um desaforo? Mas, como ia dizendo, peço a Vossa Senhoria para vir assistir à marcação do sítio (28) — Manuel André. — P. R. M.".

 

Juiz — Não posso deferir por estar muito atravancado com um roçado; portanto, requeira ao Suplente, que é o meu compadre Pantaleão.

Manuel André — Mas, Sr. Juiz, êle também está ocupado com uma plantação.

Juiz — Você replica? Olhe que o mando para a cadeia.

Manuel André — Vossa Senhoria não pode prender-me à toa (29); a Constituição não manda.

Juiz — A Constituição! Está bem! Eu, o Juiz de Paz, hei por bem derrogar a Constituição! Sr. Escrivão, tome por termo que a Constituição está derrogada, e mande-me prender este homem.

Manuel André — Isto é uma injustiça! Juiz — Ainda fala? Suspendo-lhe as garantias! Manuel André — É desaforo!

Juiz, levantando-se — Brejeiro! (Manuel André corre, e o Juiz vai atrás.) Pega! Pega!… Lá se foi, que o leve a breca. (Assenta-se). Vamos às outras partes.

Escrivão, lendo — "Diz João de Sampaio que, sendo êle senhor absoluto de um leitão (30), que teve a porca mais velha da casa, aconteceu que o dito acima referido leitão furasse a cerca do Sr. Tomás, e, com a sem-cerimônia que tem todo porco, fossasse a horta do mesmo senhor. Vou a respeito de dizer, Sr. Juiz, que o leitão, carece agora advertir, não tem culpa, porque nunca vi um porco pensar como um cão, que é outra qualidade de alimária (31), e que pensa às vezes como um homem. E para que Vossa Senhoria não pense que minto, lhe conto uma história. A minha cadela Tróia, aquela mesma que escapou de morder a Vossa Senhoria naquela noite, depois que lhe dei uma tunda (32), nunca mais comeu na cuia com os pequenos; mas vou a respeito de dizer que o Sr. Tomás não tem razão em querer ficar com o leitão, só porque lhe comeu duas ou três cabeças de nabos. Assim, peço a Vossa Senhoria que me mande entregar o leitão. — P. R. M."

Juiz — É verdade, Sr. Tomás, o que diz o Sr. Sampaio?

Tomás — é verdade que o leitão era dele, porém agora é meu.

Sampaio — Mas se era meu, e o Sr. nem mo comprou nem eu lho dei, como pode ser seu?

Tomás — é meu, tenho dito.

Sampaio — Pois não é, não, senhor… (Agarram ambos no leitão e puxam cada um para seu lado).

Juiz, levantándose — Larguem o pobre animal! Não o matem!

Tomás — Deixe-me senhor!

Juiz — Sr. Escrivão, chame o meirinho. (Os dois apartam-se.) Espere, Sr. Escrivão, não é preciso. (Assenta-se.) Meus senhores, só vejo um modo de conciliar esta contenda, que é darem os senhores este leitão de presente a alguma pessoa… Não digo com isto que mo dêem.

Tomás — Lembra Vossa Senhoria bem. Peço licença a Vossa Senhoria para lhe oferecer.

Juiz — Muito obrigado. é o senhor um homem de bem, que não gosta de demandas… E que diz o Sr. Sampaio?

Sampaio — Vou a respeito de dizer que, se Vossa Senhoria aceita, fico contente.

Juiz — Muito obrigado, muito obrigado. Faça o favor de deixar ver… Oh! homem! está gordo! tem toucinho de quatro dedos! Com efeito! Ora, Sr. Tomás, eu que gosto tanto de porco com ervilhas…

Tomás — Se Vossa Senhoria quer, posso lhe mandar algumas (33).

Juiz — Faz-me muito favor. Tome o leitão, e bote no chiqueiro quando passar. Sabe onde é?

Tomás, tomando o leitão — Sim, senhor. Juiz — Podem-se retirar. Estão conciliados.

(Comédia, ed. Garnier, pp. 11-13)

 

(28) assistir à marcação = estar presente, comparecer, com obj. indir.: — assistir ao casamento, à festa, às sessões, aos trabalhos. — Assistir o chefe ou ao chefe = acompanhá-lo, ajudá-lo, assessorá-lo: "Quem assistiu ao primeiro imperador na obra de criar a nacionalidade brasileira? (Latino Elogio de J. Bonifácio, 1877, p. 45). "Não o ver e amá-lo, não o ver e assisti-lo, não o ver e acompanhá-lo sempre". (Vieira, apud Laudelino e Campos, Diclon., s. v.). — Assistir ao doente, assistir o enfermo = tratá-lo, medicá-lo, confortá-lo: "…eu mesmo em pessoa lhe assistirei por enfermeiro e médico". (Man. Bernardes, últimos Fins do Homem); "Leonor assistiu-lhe na enfermidade"… (Camilo, apud Mário Barreto, Factos da L. Fort., p. 209). — Assistir aos necessitados — socorrê-los, ampará-los: Deus os assistia a todos naquelas aperturas. — Assistir em Petrópolis = morar, residir. — Assistir razão, assistir direito a alguém = caber, pertencer: …"nem lhe assistiam razões de querer mal ao Império"… (Rui, Queda do Império, introd., p. XI). (29) à toa — expressão adverbial, cujo sentido originário equivale à locução a reboque. Toa era a corda que se prendia à embarcação para puxá-la à sirga, ou rebocá-la; atoar, o verbo correspondente. A locução ampliou-se da linguagem marítima à geral, com o sentido de a esmo, ao acaso, sem causa ou intenção, sem reflexão: êle vive à toa; ali esteve à toa alguns minutos. O povo adjetivou a expressão: uma cousa atoa, uma doença atoa, um trabalho atoa, isto é, sem préstimo, insignificante, fácil, desprovido de valor ou utilidade: Machado de Assis usou o verbo no sentido translatício de ir a esmo, ser levado ao acaso, ao léu: "…deixava-me atoar de idéia em idéia." Figueiredo tira toa do inglês tow, corda; JoÃo Ribeiro, de tona, do galês *tunna (Nascentes) ou, talvez, de ton, casca, pele (Körting e G. Viana). (30) Leitão exprime, como mamão, o animal que ainda mama ou se aleita; particularizou o sentido aplicando-se apenas ao bácoro enquanto mama. Diz-se também bezerro mamão. (31) alimária — alteração da forma latina animalia, que evolveu em *alimalia e alimária. São fatos semelhantes de dissimilação consonantal entre m, n, l; alma, de an(i)ma; lembrar, de nembrar- (este do lat. mem(o)rare); nível (are. olivel) do lat. libellu etc. (32) tunda = sova; da raiz do verbo lat. tundírt (bater), de cu>a forma do supino tusum saiu o nosso verbo tosar, dar pancada, sovar; e daí o substantivo tosa, sinônimo de tunda. Tosar e tosa significam também cortar e corte e procedem do verbo latino tondere, pelo supino tonsum, com igual sentido; e da raiz de tonsum promanam: tonsura, a coroa do padre, e tonsurar; o adjetivo tonsoria, que se substantivou em tosoira e tesoura, instrumento de cortar; intonso, não cortado, tosão, o velo da tosquia, tonsurado. tonsurante, tosador tosado etc. (33) Esse lhe deve estar preso por hífen ao auxiliar ou posposto ao infinitivo: posso-lhe mandar ou posso mandar-lhe. Com a negação ou outro elemento que imponha a próclise: não lhe posso mandar ou não posso mandar-lhe (antes do auxiliar ou depois do infinitivo). No final do trecho acima lê-se certo: Podem-se retirar.


 

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

set 022010
 
maravilhas das antigas civizações

O agir moral à luz da liberdade e da responsabilidade

Edir Martins Moreira

 

Introdução

            Paulo já lançara as bases de uma ética para a vida[1]. No alvorecer do cristianismo, a originalidade da proposta desenvolvida por Paulo consistiu em aliar a liberdade à responsabilidade: "tudo me é permitido, mas nem tudo convém"[2]. Todos os seres humanos prezam a liberdade, tendo sido criados para ela. Para não diminuí-la ou até destruí-la, no entanto, requer-se que se viva com responsabilidade.

            Em tempos mais recentes, o Vaticano II resgatou essa intuição, sobretudo, com a Gaudium et Spes, atribuindo grande valor à consciência: "a consciência é o sacrário das pessoas"[3]. Vê-se aí a enorme importância dada às decisões individuais. Até então, o que trazia tranqüilidade moral às pessoas de fé era o seguimento às normas. O importante era "enquadrar-se" nas leis. O que vigorava era a heteronomia moral. De agora em diante, as leis passam a funcionar como importantes subsídios, mas nunca como elementos decisórios às pessoas. A última palavra é sempre dada pela pessoa, em consonância com seu contexto vital (Sitz im Leben), seu desenvolvimento psíquico e sua situação particular. O que passa a vigorar é a defesa da autonomia moral.

            Por conseguinte, permeando o horizonte da ética, é possível encontrar um grande desafio lançado a todo ser humano: saber discernir quais são os melhores caminhos a serem percorridos no dia-a-dia. "O sentido da responsabilidade é uma atitude do homem total que o impele a colocar-se em situação de radical disponibilidade quanto aos imperativos morais"[4].É assim que a pessoa se realiza e edifica o mundo à sua volta.

            A liberdade se exerce no relacionamento entre os seres humanos. Dessa forma, toda pessoa tem o direito natural de ser reconhecida como ser livre e responsável[5]. "Quanto mais pratica o bem, mais a pessoa se torna livre. Não há verdadeira liberdade a não ser a serviço do bem e da justiça. A escolha da desobediência e do mal é um abuso de liberdade e conduz à ‘escravidão’"[6].

            Em tempos de pensamento fraco e de relativismo, nesse contexto do século XXI, onde até o amor é tido como líquido, é mais do que oportuno revisitar as intuições éticas que nos foram legadas na Tradição.

 

1. O amor: fundamento da liberdade responsável

            Antes de tudo é preciso explicitar o que se entende por liberdade. Para esta nossa reflexão podemos entender que “liberdade consiste em permanecer aberto e disponível para escolher o que há de melhor, de mais conveniente em cada circunstância. O Espírito torna a pessoa apta para uma verdadeira opção e suprime a necessidade de buscar sempre a própria vantagem ou a própria segurança”[7].

            A categoria da responsabilidade é uma das mais mais importantes em termos de moralidade. "Somente um comportamento responsável é comportamento moral"[8]. Trata-se de um tema complexo, visto que toda a pessoa, de forma integral, deve ser levada em conta na hora de estudar a categoria antropológica da responsabilidade.

            Frente a uma situação sócio-cultural, eclesial e societária onde vive-se a falta de liberdade criativa e de uma ação ousada, alternativa e esperançosa, queremos encontrar caminho para uma experiência nova e concreta. Sabemos que é imprescindível assumir a vida com responsabilidade e superar toda “escravidão”, em outras palavras, o que vale é viver em liberdade na experiência do amor diante do império da impotência e da morte. Toda reflexão tem que levar ao agir ético que revele uma vida livre e construtora de uma nova realidade, de relacionamento e de compromisso no atual contexto[9].

            Faz-se necessário, com certa urgência, que sejam encontrados critérios ético-filosófico-teológicos para um repensar à moral. Daí, é possível uma reorientação do comportamento humano em vista de uma práxis mais humana, alternativa e libertadora, sobretudo frente a um contexto fundamentalista, conservador e acomodado, no intuito de trazer luz e novidade para o agir. Significa ter a lucidez de traduzir e testemunhar em concreto o cerne da reflexão ética.

            A verdadeira liberdade nada mais é que um sinal eminente da consciência no homem, pois ela inclusive deixa ao homem o poder de decidir. Diante de uma proposta nova e radical para a experiência existencial dos seres humanos, a liberdade, que relativiza as normas e exige que a pessoa humana assuma com responsabilidade a vida, dá uma perspectiva nova e ousada de como viver uma verdadeira não escravidão. A liberdade é um dos elementos éticos fundamentais do ser humano.

            Trata-se realmente da valorização da liberdade, por outro lado, chama-se a atenção para determinados comportamentos que, desencadeados pelo próprio ser humano podem torná-lo escravo. Alerta, então, para a vigilância. Somente quem é vigilante mantém sólida sua liberdade e nela cresce: "tomai cuidado para que a vossa liberdade não se torne ocasião de queda para os fracos"[10], afirma Paulo. A recomendação é a de que se mantenha sempre a sadia humildade e o respeito, em todas as dimensões, perante as outras pessoas. Liberdade com responsabilidade! Isso significa uma verdadeira adesão e compreensão de uma maneira nova de pensar a si mesmo, aos outros e às relações humanas.

            A partir do momento em que se consente em viver segundo as proposições da vontade, o sujeito vai se capacitando a descobrir por si mesmo o caminho a seguir no cotidiano de sua vida. Muitas vezes, mesmo o autêntico pensador se vê preso à cultura das imagens na qual nos encontramos. Uma forma de ver o mundo "que trocou a reflexão pela emoção, o espírito crítico pelo espetáculo animado"[11]. Essa cultura estimula o individualismo, desarticulando iniciativas éticas dos que procuram se organizar para atender às necessidades dos outros.

            Em meio ao crepúsculo do dever de um mundo hiperindividualista, também deve haver lugar para iniciativas de pessoas mais ousadas. "Ousar é mover-se e agir com destemor. Ousar é desprender-se do lugar onde se está. Ousar é desamarrar-se, é lançar-se, é atirar-se a um projeto. É atitude corajosa, é ímpeto arriscado… Ousar é promover a dignidade da pessoa humana que está sendo violentada pela crueldade e envergonhada pela miséria. Ousar é abrir clareiras que permitem enxergar horizontes fecundos para o futuro da humanidade"[12].

            Portanto, o fundamental é construir uma vida alicerçada no amor, e não num sistema (de preceitos, leis, normas, estruturas, costumes, etc.). O fundamental para que as relações pessoais e comunitárias possam gerar a vida é o amor. Toda lei fica aquém da experiência do amor.

2. A experiência de fé e o agir ético

            Uma vivência marcada pelo compromisso amoroso, o qual acolhe incondicionalmente, e que deseja a mudança para o bem da pessoa, e não para satisfazer estruturas, autoridades, vai encontrando forças para um "salto qualitativo" da ação ética. A práxis ética é a escolha de um modo de ser que é essencialmente social, ou seja, uma nova maneira de ser com os outros e contribui com um novo modus vivendi.

            Nesse sentido, para que cada indivíduo cumpra com mais solicitude o seu dever, ele deve ser educado com diligência para tal. O homem dificilmente chega a um sentido de responsabilidade se as suas condições de vida não lhe possibilitam tomar consciência da  dignidade da pessoa humana, tanto em relação a si mesmo quanto a outrem. Por isso, ao analisar as fontes da ética filosófica, temos comprovado que o ideal de perfeição moral nelas contido apresenta um caráter prático. Sendo assim, a pessoa, com seus comportamentos, vai realizando o ideal de perfeição que lhe é peculiar: fazer o bem[13].

             A experiência vai apontando para atitudes positivas e maduras, que assumem os "riscos" da liberdade. Inclusive, para não haver desvios em nome da fé, como tem acontecido na história, é importante entender qual o lugar da fé na experiência cristã. A fé é um aspecto dum sistema de vida e do mundo que "supera a lei": uma maneira de se viver que não favorece uma submissão a um sistema de opressão ou de morte. Ou seja: “é a fé na força de Jesus que supera toda lei, cria no homem uma liberdade nova pela qual o homem se torna capaz de agir por amor. A fé é aquela que atua pela caridade não somente a partir da lei ou da obediência à mesma, mas da espontaneidade e da liberdade do amor. A fé é o caminho que desemboca na liberdade”[14].

            Viver é lançar-se à experiência do novo, do risco e da incerteza. Dentro dos diversos contextos, é o Espírito que inspira e leva a pessoa humana a um discernimento, tornando-a apta para escolher de acordo com o bem de toda a humanidade. Não há sistema ou estrutura que sejam portadores do Espírito por si próprios, por isso o Espírito capacita, à luz do discernimento, para a escolha do que edifica. Enfim, não cabe a ninguém receber um sistema pré-fabricado de preceitos, normas. A exigência é discernir em todos os momentos da história pessoal, familiar, eclesial e societária, quais são as possibilidades mais convenientes, as que estão de acordo com a promoção da vida do povo de Deus[15].

Conclusão

            O essencial, moralmente afirmando, é agir segundo a voz da própria consciência, tendo sempre presente que enquanto se vive há a obrigação de aperfeiçoar essa voz, em consonância com o querer de Deus para o presente histórico de cada pessoa. Encontramos aí uma das "exigências" para o cristão verdadeiro.

            Nos últimos anos, alastra-se mundo afora determinada cultura defensora do indiferentismo. Livros que defendem o ateísmo são bastante veiculados. Se à nossa volta a imensa maioria das pessoas afirmam crer, na prática vive-se uma fé infantil. Essa postura reflete-se, também, na moral cristã. Declarações oficiais da Igreja são relativizadas ou ignoradas até mesmo por pessoas que têm prática religiosa com certa regularidade. A superficialidade religiosa reflete-se na superficialidade dos comportamentos morais.

            A vida não pode ser pautada simplesmente por um preceito obrigatório. O risco é cair na inautenticidade, pelo fato de que uma vida a partir da legislação pode levar à “uniformidade da ação”. Torna-se uma ação por obrigação, não por livre escolha, isso não é liberdade, mas escravidão. Contudo, o preço da liberdade é a obrigação de escolher e, portanto, de assumir responsabilidades.

            A verdadeira liberdade ética é fruto de uma experiência comunitária e de uma responsabilidade social. A comunidade é o “verdadeiro sujeito moral”. Viver a partir de uma atitude individualista e irresponsável diante do outro é morrer para uma experiência de autenticidade.

             A fé é um lançar-se para frente, é conquistar a estrada da liberdade diante das injustiças. A fé é um risco e uma aposta, não se sabe o que vem depois e acredita-se no caminho da vida. A partir da fé tudo recebe nova iluminação, profundidade, valor e sentido. É um ato ligado ao agir, nele o ser humano é provocado a descobrir a presença do outro, e ter compaixão do que sofre, a viver a tensão dialética entre o pessoal e o social.

            Nesse sentido, ainda que num contexto de interrogações, para o cristão deve permanecer clara a consciência de que o fato de crer em Jesus Cristo interessa à vida da pessoa na sua totalidade e perpassa inteiramente toda a responsabilidade, nos vários níveis de suas livres decisões. O comportamento moral, então, apresenta-se como uma situação favorável para a verificação da sinceridade da adesão à fé[16].

            Um agir moral que humaniza e liberta tem que nascer de uma experiência de fé que abre os olhos, dá sensibilidade e comunhão com cada realidade, e faz acreditar que é possível mudar tudo aquilo que discrimina e escraviza a vida. Uma sociedade só é sólida se os membros que a formam forem portadores de valores sólidos. Para isso, é necessária a preocupação com os valores éticos que oxigenam a vida da sociedade.

Referências bibliográficas

ARDUINI, Juvenal. Antropologia: Ousar para reinventar a humanidade. São Paulo: Paulus, 2002.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. 5º impressão. São Paulo: Paulus, 2008.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Trad. da CNBB. São Paulo: Loyola, 1999.

COMBLIN, José. A liberdade cristã. Petrópolis: Vozes, 1977.

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LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade da decepção. Barueri: Manole, 2007.

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VIDAL, Marciano. Dicionário de Teologia Moral. São Paulo: Paulus, 1997.

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WOJTYLA, Karol. Max Scheler e a ética cristã. Trad. de: Diva Toledo Pisa. Curitiba: Champagnat, 1993.

 

 

 

 

Edir Martins Moreira, bacharel em filosofia pela FAM – Dom Luciano, Mariana-MG (2008), estudante de Teologia no Instituto Teológico São José



[1] MATTOS, Luiz Augusto de. Paulo e a ética da liberdade. Disp. in: http://www.teologia-assuncao.br/reeletronica/numeros/n3/n3_luizaugusto.html

[2]             BÍBLIA DE JERUSALÉM. 1Cor 6,12.

[3]             CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Gaudium et Spes, nº 16.

[4]             HORTELANO, Antonio. Moral responsável, p. 268.

[5]             CIC, 1738.

[6]             CIC, 1733.

[7]             COMBLIN, José. O espírito no mundo, p. 65.

[8]             VIDAL, Marciano. Moral de atitudes, p. 187.

[9]             HORTELANO, Antonio. Moral responsável, p. 268-269.

[10]           BÍBLIA DE JERUSALÉM. 1Cor 8,9

[11]           LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade da decepção, p. 57.

[12]           ARDUINI, Juvenal. Antropologia: Ousar para reinventar a humanidade, p. 40.

[13]           WOJTYLA, Karol. Max Scheler e a ética cristã, p. 93.

[14]           COMBLIN, José. A liberdade cristã, p. 23.

[15]           COMBLIN, José. O espírito no mundo, p. 66.

[16]           VIDAL, Marciano. Dicionário de Teologia Moral, p. 400.

ago 152010
 
irmãs invejosas
irmãs invejosas

The Jealous Sisters from Arabian Nights Collected and edited by Andrew Lang Illustrated by Vera Bock Copyright 1960 illustration from the tale 'The Jealous Sisters'

AS IRMÃS INVEJOSAS

UM rei mancebo, de idade de vinte e dois anos, virtuoso e casto, que até esta idade não tinha conversação de mulher alguma, requerido dos seus que casasse, para que houvesse filhos que sucedessem no reino, e desejoso de achar na sua própria terra mulher para isso, recusava o casamento de muitas mulheres forasteiras que lhe traziam.

Queria êle que a mulher fosse de virtuosos costumes, claro sangue e boa vista, sem ter respeito à fazenda. Porque, como rei, já que a queria de seu reino, entendia que não podia ser desigual a seu merecimento, pelo qual, por dote, queria que ti-vease estas três cousas.

E andando, com esta imaginação, passeando um dia por uma rua, saíam as gentes, como é costume, a ver El-rei. E assim saíram certas mulheres, todas formosas, a uma janela; e quando El-rei passou ficaram falando umas com outras.

El-rei, que as ouviu, por saber o que era, chamou a si fidalgos que estiveram, mais perto, e as ouviram e entenderam, e perguntou-lhes que ficaram dizendo.

Foi-lhe respondido:

— Senhor: uma disse que, se casasse com Vossa Alteza, se atreveria a fazer, de suas mãos lavores de ouro e seda, tão ricos e tanto em vosso ser viço, que, se se avaliassem, valessem tanto dinhei ro, que basta-se para gasto da mesa. Outra respon deu que aquilo era muito; mas, se ela tivesse tal dita que casasse com El-rei, lhe faria camisas e outras cousas, de que tivesse necessidade, que o fei tio delas valesse tanto como o mais que sua Alteza vestisse e calçasse. E a outra respondeu a ambas:

 Não sabeis o que dizeis, nem vale todo vos so lavor, tão estimado, tanto que baste para vossa mantença. Eu vos digo o que faria, se Deus me chegasse a este estado de casar com El-rei meu se nhor; de seu ajuntamento, querendo Deus, lhe daria dois filhos formosos como o ouro e uma filha mais formosa que a prata. A qual promessa, ajudadas de Deus, as mulheres podem cumprir; e essoutroras que vós, senhoras, dizeis, são palavras de vento!..

 Isto era o que as mulheres diziam. El-rei folgou de o ouvir; e, notando as considerações em que elas estavam, propôs de casar com uma delas, se Deus lho ordenasse, sendo pessoas para isso.

Chamou quem as conhecia e, perguntando por elas, foi-lhe dito que eram da nobreza e fidalguia mais antiga do Reino, e cada uma por si mui formosa. E quanto aos costumes, não se achou que dissesse bem nem mal, porque com ninguém tinham, conversação.

El-rei, visto isto, mandou chamar donas de título, e senhoras, a quem deu conta, e diante das quais quis falar com estas donzelas, para se determinar qual tomaria por mulher.

E logo fêz vir ante si a mais velha, que, vista, foi julgada por muito formosa, sem esperança que outra o seria mais, nem tanto.

El-rei lhe perguntou:

— O que prometestes fazer, estando na vossa janela, se eu casasse convosco, atraveis-vos a cumpri-lo?

Ela se envergonhou, e, mudada a côr, disse:

 Senhor, de palavras de moças não lance Vossa Alteza mão. Se quere servir-se de mim, ainda que o não mereço, farei em seu serviço tudo o que minhas forças bastarem.

A todos pareceu bem a resposta; El-rei a fêz recolher, e vir a segunda. A qual, depois de apartada a primeira, por todos foi estimada por mais formosa que a irmã. Porém nas perguntas, o que a esta aconteceu foi assim como à primeira; pelo que El-rei a fêz recolher, e vir a menor, que, vista dos presentes, ficaram admirados de sua grande formosura, que claramente mostrou ser ela a mais formosa de todas.

El-rei lhe perguntou se se atrevia a cumprir o que prometera passando êle por ante as suas janelas; e ela, muito envergonhada, respondeu:

 Senhor, sim, com as condições que então disse.

E fazendo-se de uma côr tão viva, que acrescentou muito em sua grande formosura, lhe fêz El-rei que dissesse o que prometera, e ela disse:

 Senhor: prometi que, querendo Deus, e sendo ditosa que com Sua Alteza casasse, lhe daria dois filhos formosos como o ouro e uma filha mais formosa que a prata. Isto disse confiada em Deus,primeiramente sobretudo, e em Vossa Alteza e em mim mesma. Porque quererá Deus que os filhos sejam conformes a nós; e, sendo tais, serão mais formosos que o ouro.

Coube isto em tanta graça a El-rei, que a rece beu por mulher, e se fizeram grandes festas que duraram muito, e El-rei trouxe para casa da Rai nha as suas duas irmãs, que a acompanhassem e servissem, e elas fossem servidas e tratadas como irmãs da Rainha sua mulher.

Na verdade, elas, por suas presenças, parecia que mereciam toda a honra; e assim vieram ao Paço, e El-rei fêz vida mui amorosa com a mulher,, tratando-a com tanta veneração e honra como se fora filha do maior rei do mundo, o que ela por suas muitas virtudes lhe merecia.

Porém durou pouco tempo: porque, como o demônio tem por costume em semelhantes lugares danar e meter cizânia, assim o fez entre as irmãs da Rainha com ela.

Vendo que, sendo menor, era a mais honrada, elas não tinham paciência para o sofrer; e não olhavam que, estando assim menos que sua irmã, estavam em maior grandeza que nenhuma da sua geração antes delas; e que dali podiam casar altamente.

Com a inveja que tinham do estado da Rainha, ambas de um conselho buscavam todo o dano, e como a pudessem empecer, e tirar da alteza a honra em que estava, não agradecendo a Deus e a ela as grandes honras e mercês que cada dia lhes fazia.

Ensinadas pelo demônio, que é pai de toda a maldade, de sua industria e com falsas testemunhas publicaram com falsidade que a Rainha dera A luz monstros peçonhentos, e não criaturas; do que o Reino todo se alterou. E El-rei aborreceu tanto a sua mulher que, lançando-a fora de casa, não lhe permitiu em todo o Reino lugar algum em que tivesse repouso nem quietação.

As irmãs lhe buscavam tanto mal, que o faziam a quem a recolhia ou lhe queria bem; de modo que, de Rainha, veio a ser a mais pobre e abatida mulher de serviço que em seu tempo houve na terra. Porém, como virtuosa permaneceu em toda a limpeza; e para melhor o poder fazer se fingiu forasteira; e por mulher de serviço novamente vinda à terra a recolheram em um mosteiro de freiras para servir dentro de casa; porque a sua presença, e a honestidade com que ela o foi pedir, mostraram ser ela de mais merecimento do que dizia.

Ali esteve recolhida, depois que El-rei a lançou fora, por muitos dias. E ainda que nos primeiros serviu como ela sempre quisera, as madres piedosas não lho consentiram ao diante, porque logo se suspeitou entre elas que devia ser pessoa de muita qualidade, ainda que sempre o negou.

E, por esta presunção que as Religiosas tinham, a recolheram entre si, escusando-a de serviços, e mandando que fosse servida igualmente como uma delas, porque sempre se achou nela que o merecia.

E esteve em este encerramento mais de quatro anos.

* * *

Neste tempo que a Rainha era fora do Paço, as irmãs procuraram ilicitamente ver se podiam agradar a El-Rei, de maneira que, esquecido da Rainha, se afeiçoasse a alguma delas, procurando isso cada uma por si o mais que podia, o que El rei entendeu.

Dissimulando e apartando-se da conversação delas, fazia El-rei que as não entendia; e quando se achava só, dizia mal da fortuna, que lhe apar tara da sua presença a cousa do mundo que ele mais amava, que era a Rainha sua mulher, orde nando que houvesse causa para êle a apartar de si.

Com esta dor viveu todo este tempo, em o qual, ainda que lhe lembrava quão bem estava com a Rainha e que lhe dava pena seu apartamento, to davia parecendo-lhe que tinha razão para isso, nun ca permitiu que fosse buscada, nem quis saber no vas dela.

Para consolação do desgosto que trazia consigo não tinha outra recreação senão ir muitas vezes em um barco pelo mar, ao longo da terra, por espairecer. Algumas vezes pescava, e outras ia caça, ao longo de umas ribeiras que se vinham ali meter no mar, e onde por vezes achava garças e outras aves que lhe davam algum contentamento.

Costumando isto, aconteceu que um dia, ao longo de um ribeira acima, viu à borda da água uma casa feita de novo, ao parecer dos olhos formosa, e posta em um sítio para gozar dos ares, e vista do mar e terra.

Chegando perto, e desejando saber cuja era, viu a uma janela um menino que seria de sete anos, de muito formoso rosto, pobremente vestido. E perguntou-lhe:

 Filho: quem mora nesta casa? E o menino, com muita discreção, disse:

 Senhor: mora meu pai, que agora não está aqui. Se Vossa Mercê quer que chame minha mãe, vitá logo.

E neste tempo outro menino, de menos idade dizia dentro:

 Senhora mãe: está aqui um fidalgo à nossa porta…

A essa conjunção saiu uma mulher à porta da rua com uma menina pela mão, pequenina, e disse:

 Senhor: que manda Vossa Mercê?

El-rei, que tinha pregados os olhos e coração nos meninos que via, tendo no sentido que, se Deus fora servido dar-lhe filhos da Rainha sua mulher, já houveram de ser daquele tamanho, lhe disse:

 Vejo estas casas ao longo desta ribeira e estes meninos tão formosos… Folgaria de saber cujo isto é.

Ela respondeu:

 Senhor: as casas e os meninos são meus e de meu marido, para servir a Vossa Mercê.

El-rei, que tinha os olhos fitos neles, disse:

 Dona: as casas creio, que são vossas; mas os meninos… Sois já de dias, que parece não deveis ter tão pequeninos filhos. Porém, antes que me parta daqui saberei a verdade. Por isso chamai vosso marido.

E ela, turbada, lhe disse:

 Senhor: diz Vossa Mercê isto com tanta autoridade, que suspeito que é pessoa de maior merecimento do que eu imagino. E, porque não erre falando, antes de passar adiante me faça mercê de dizer-me quem é, que pode ser pessoa que eu lhe diga o que me pregunta, e não esperará a vindo do meu velho, que é no mar a pescar.

A El-rei pareceu mui bem a fala desta mulher, e lhe disse:

— Dona honrada: sou El-rei, e quero saber cujas são estas casas e estes meninos. Ainda que venha só, não duvideis do que digo e respondei-me ao que vos pregunto.

Ela se humilhou muito, e com os joelhos no chão pediu que lhe perdoasse não lhe haver falado até ali com a cortesia que devia; e, ao que pregun tava, soubesse que as casas eram suas, para ser vir a Sua Alteza; mas que os meninos ela não sabia cujos filhos eram; não sabia mais que ter-lhos trazi do seu marido, um a um, pequeninos, nascidos da quele dia, p’ra que os criasse. E ela, por sua in dústria, e com ajuda de uma outra mulher de outro pescador, que era companheiro de seu marido na barca, os criara. Que o marido lhe podia dar razão; que fora aquela manhã fora, e viria à noite. Deus querendo.

Então disse El-rei:

— Pois dizei-lhe que amanhã ao jantar vá tei comigo ao Paço, e leve estas crianças para me dir zer o que sabe delas, que o heide esperar sobre mesa.

E ela assim lho prometeu.

Ido. El-rei, como se meteu ao longo da ribeira, li acompanhado de muitos dos seus, e iam buscando se descobriam alguma caça, como ali costumavam achar, viu Sua Alteza umas lapas, que parecia que outro tempo foram pedreiras de tirar pedraria. E de dentro saiu uma mulher que trazia os cabelos muitos grandes, soltos e pretos, e os vestidos muito rotos.

Assim como ela saiu, e viu a El-rei, e que êle a vira a ela, com muita diligência se tornou a me ter para dentro, por se esconder. Mas, como foi vista, El-rei a seguiu; e como ia em um bom cava lo, asinha a alcançou.

Chamando por ela, que já se metia entre aque las lapas, não pôde ela menos que sair e responder ao que lhe preguntava El-rei:

 Quem sois, e porque estais neste ermo? Ela, que conheceu muito bem que era El-rei que lhe falava, lhe disse:

 Senhor: para que quer V. A. saber a vida de uma mulher desventurada, que em penitência de seus pecados faz desta maneira que agora vê? Recolha-se, pelo amor de Deus. E deixe-me acabar a vida e a minha penitência…

E com isto chorava tão fortemente, que era maravilha. El-rei, que viu que era conhecido dela, e que, por muito que lhe rogou, não quis dizer quem era, nem porque estava em tão solitário lugar, desejoso de o saber a fez tomar por dois homens. E, queixando-se ela que não era honesto ser deles maltratada, El-rei lhe mandou dar uma capa-de-água sua e um sombreiro, com que se cobrisse; e que a pusessem em ancas de uma mula e que um escudeiro com muito resguardo e honra a levasse ao Paço, e sem que fosse vista de outra pessoa alguma a vesse, até que êle chegasse.

O que se fez assim. E, chegando El-rei, man dou algumas donas de que se confiava muito que a vestissem, como ela se quisesse vestir, para lhe falar ao outro dia aó jantar. Porém que até então não a deixassem ver, nem falar com outra pessoa.

Ao outro dia, chegadas as horas de recolher a mesa, trouxeram aquela mulher por mandado de El-rei, que de novo lhe perguntou quem era, e por que andava daquela sorte.

E ela, cheia de lágrimas e soluços, disse:

 Senhor: saberá V. A. que eu nasci em casa da mãe da Rainha minha senhora. Criei-me com ela e com suas irmãs, e em sua companhia vim ao Paço — o que não devera, pois minha vinda foi para tanto mal como eu fiz…

A este tempo esmoreceu, e caiu, que não po dia falar, nem bulir pé, nem mão. Acudiram-lhe as donas com remédios, e El-rei se chegou a ela e a esforçou, rogando-lhe que se consolasse em qualquer tribulação que fosse a sua, e que lhe desse conta do que lhe perguntava, que êle lhe faria mercês.

Lançando-lhe água no rosto, com amorosas pa lavras a esforçaram; e ela, tornando em si e suspirando, tornou à pratica, e disse:

 "Estando eu nesta casa em muito vício, fa vorecida da Rainha minha senhora e de suas irmãs, elas me apartaram um dia, e me disseram que | S. A. ia ter o primeiro menino e que elas tinhamdeterminado mostrar a El-rei um grande sapo, e dizer-lhe que este era o filho da Rainha.

"Que tomasse eu com diligência a criança, que alas ma dariam envolta em panos, e a fosse lançar ao mar. Que isso faziam, para que não acertasse a ter filho, como prometera; que elas não podiam sofrer que a menor irmã fosse senhora das mais velhas.

"E eu, desaventurada de mim, por lhes ganhar a vontade, sem atentar o muito que nisso perdia, quis fazer o que mandavam. Aceitei aquilo; tomei a criança acabada de nascer, a mais formosa que vi em meus dias. Envolto em uma mantilha, com outras toalhas ricas debaixo, mo deram, encarecen do-me que importava muito lançá-lo no pego do mar; e que não tivesse cobiça da mantilha, ainda que era rica e com barras de veludo verde atorça ladas de ouro, porque elas me dariam jóias ricas, e tantas, que não tivesse saudade daquilo.

"E logo, em minha presença, tiraram um grande sapo que tinham em uma panela, e o embrulharam; e, isto feito, gritaram, fingindo que era do medo do sapo, e lançaram a fugir, e eu juntamente com elas. Com esta revolta tive tempo de me sair do Paço, levando a criança comigo sem que ninguém me sentisse, deixando na câmara e na sala tantos gritos e alvoroços espantosos, que era pasmo o que todos faziam. Uns diziam que o filho da Rainha era um sapo, outros diziam outra cousa.

"De tudo V. A. se lembrará, que era presente. Quando me vi na rua, encaminhei para o mar; e como todos corriam para o Paço, não se atentou para mim, e fui ter àquele lugar onde Vossa Alteza me achou. Desembrulhei a criança que era varão, formoso como um anjo. Temi de lança-lo no mar, emulo que Deus me castigaria gravemen te, e aguardei, a ver se vinha por ali alguém; e nisto vi vir um velho pescador. Deixei a criança embrulhada, nos fatos, como vinha, e lancei a cor rer, fugindo. Êle, como me viu deixar aquele vulto vermelho, foi ver o que era; é eu, que esperava o que êle fazia, como lho vi erguer do chão, e levá-lo para casa tornei ao Paço com o rosto ledo, e disse às senhoras que o lançara no mar fora. Porém, o menino ficou em poder do pescador, que não sei o que faria.

"As senhoras foram contentes do que eu disse que fizera, fizeram-me grandes mercês, e esteve êste segredo encoberto nelas e em mim. E desta manei ra que contei aconteceu outra vez, quando levei o segundo Infante, formoso como um serafim, em um mantéu branco com barras de veludo azul, lavradas de trochados de seda laranjada; e parece que, com a pressa, foram atadas as toalhas dentro com umas trançadeiras de encordoar os cabelos, que eram mui ricas. Ao sobressalto que mostraram ter, quando disseram que o segundo filho da Rainha era uma cobra, fugindo todas, fugi, eu também; e levei o In fante ao próprio lugar aonde levara o outro; e, em eu chegando, o pescador me apareceu diante, e eu, que o vi, lancei a fugir, deixando o que levava, como já fizera de outra vez.

"O velho me viu, e quisera que o esperasse, cha mando-me com meiguices. Eu fiz que o não entendia; e êle, tomando a segunda criança, se foi aonde nunca mais soube déle. Tornei-me ao Paço

i disse que o lançara no mar, como o primeiro; pelo fiuú também me fizeram mercês. E neste tempo es-iiwa neste Paço V. A. e todos os seus leais) vassalos In o tristes pelos filhos da Rainha serem alimárias tçonhentas, e não criaturas racionais, que não havia contentamento em nada, do que V. A. mesmo tode ser boa testemunha. Porém, antes de. outro Vito, ou nele, veio a Rainha a ter uma meninja; e forque não posso, com a dor de alma, especificar já mais pelo miúdo isso, o direi em suma. Chegada a hora que Deus foi servido, me deram a criança, envolta em uma mantilha de cetim verde, forrada de veludo de Bragança branco, chã, sem guarnição alguma, com ricas toalhas debaixo, atadas com um cordão de retroz azul, que tinha uns nós muito curiosos de ouro e aljôfar. E fingiram, como de antes, haver a Rainha tido uma toupeira, que tinham para isto prestes; e no espanto e alvoroto disto, quando fugiram, fugi eu, e fui ter à borda da água, ao lugar onde deixei seus irmãos; e vi que levava uma menina, cuja beleza e formosura não sei encarecer.

"Estando contemplando comigo a grandeza de Deus, que tal criara, $ como eu o ofendia e era algoz de inocentes, e que por. mim se perdia tanto bem na terra — esmoreci. Quando acordei, achei o pescador comigo, que me tomava a criança, e pegando em mim, quisera-me deter. Mas, como êle era velho, e eu moça e valente, tirei por mim tão rijo, que lhe fugi das mãos, ãeixando-lhe a criança. E porque me temi que me buscasse no Paço, não quis tornar a êle e meti-me naquelas lapas onde Vossa Alteza me a-chou, e em que, haverá bem quatro anos,

estou comendo das ervas que nascem ao longo ribeira, e bebendo da água do rio. E isto fiz agora, com intenção, que, se nunca fosse descob to meu delito para ser castigada como mereço, menos para com Deus Nosso Senhor tivesse fe’ alguma penitência dele, pois cometi contra sua vina majestade tais e tão feios pecados, e con V. A. tão grande maldade…"

* * *

El-rei, acabando de ouvir isto, ficou espantado da traição que as irmãs fizeram contra sua irmã As quais ambas foram chamadas, e viram a don zela, e entenderam tudo o que ela tinha dito; e como tudo era verdade, não tiveram boca com que o negar, nem rosto para aparecer. E como que que riam falar uma com outra — se chegaram a uma janela daquela sala, que ia ter ao mar; e abraçan do-se ambas, se lançaram dela sem lho poderem estorvar.

Ainda que El-rei mandou gente que as fosse favorecer e tirar, não se afogassem, quando chegaram e as tiraram fora, acharam que eram mortas. Todavia se lhes fizeram muitos benefícios e remédios, mas nada lhes aproveitou; porque, do grande golpe que deram, e da água que haviam bebido morreram; do qual pesou muito a El-rei, que era tão benigno, que, se elas, arrependidas, lhe pediram perdão, lhes perdoara.

Mas permitiu Deus que pagassem |o grande mal e dano que fizeram à Rainha sua irmã, e aos Príncipes e Infantes seus sobrinhos.

Ainda a gente do Paço não estava de todo sos segada deste alvoroto, quando entrou pela porta o velho pescador e sua mulher, e a mulher do companheiro que andava com êle na barca.

Os dois velhos traziam no colo os dois infantes, e a outra mulher a infante. E, chegando ante El-rei, o velho se adiantou de sua companhia e disse alto, que todos o ouviram:

— Senhor: eu vivo meia légua desta cidade, pouco mais; e de meu ofício, que é pescador, me mantenho com uma pobre barca em que andamos, tu e outro companheiro, marido desta mulher que aqui está, o qual fica olhando pela barca. Disseram-me que ontem passara V. A. pela porta da casa em que vivo, e, vendo estes meninos, pregun tou cujos filhos eram. E porque minha mulher lhe não deu razão suficiente, V. A. mandou que viesse eu aqui, e que os trouxesse, que queria saber cujos eram tão formosos meninos. Pelo que eu vim, e os trago comigo, como V. A. vê; porém ainda que lhe diga tudo o que deles sei, por derradeiro não sei dizer-lhe cujos filhos são.

Saberá que este é o mais velho, e eu o achei ao longo da praia, nascido daquele dia, que não sei por que desventura o lançou ali uma donzela, que o pôs e fugiu. Êle vinha envolto em ricas toalhas e numa mantilha fina de escarlate, que tudo lhe tive guardado; e a mantilha a trago aqui, que é esta.

E logo mostrou a mantilha em que a donzela disse que fora envolto o primeiro filho da Rainha. Mostrando o outro menino, disse:

Daí a pouco mais de ano aquela mulher, o outra, trouxe ao mesmo lugar outro menino, envol to em estoutro fato, que minha mulher traz.

E mostrou o mantéu branco bordado de velu do azul, e as toalhas, tudo assim como a donzela dis se que o levara com o segundo filho. E depois, mos trando a menina que a mulher do companheiro tra zia, disse:

 E daí a outro ano, pouco mais, passando pelo próprio lugar, achei aquela donzela com esta menina no regaço. Ela estava esmorecida, eu lan cei mão dela, por saber quem lhe mandava fazer tanto mal. Pôs-se-me em defesa; e eu, por acudir à menina, que a esta hora chorava muito, a dei xei ir. Tomada a menina ao colo, a levei para minha casa, como costumava fazer aos outros; e a cada um a seu tempo fiz batizar. Trouxe esta mulher para minha casa, desde o dia que achei o primeiro menino, a qual lhes deu leite a todos três, que naquele tempo tinha um filho de um mês. E ela traz ali o fato que trazia consigo a menina.

E logo desenvolveu e mostrou a mantilha de cetim verde, forrada de felpa branca, e o cordão azul, e as toalhas, assim como a donzela disse que levava a filha da Rainha. E, depois de mostrada, tornando à sua prática, disse:

 Do meu trabalho e do marido desta mulher nos mantivemos sempre graças a Deus, que nos fez continuadamente tantas mercês, que não nos faz míngua cousa alguma, antes temos já casa de nosso, e na barca as redes com que pescamos…

Ouvindo isto, e visto o que a donzela dissera, todos os circunstantes a uma voz diziam que todos

aquêles três eram filhos de El-rei; e confirmou-se mais, em que naturalmente se pareciam os machos com El-rei, e a filha era muito em extremo formo sa, que diziam se parecia com sua mãe.

A este tempo seria já de quatro anos; e, ain da que vinha no colo da ama, a que chamava mãe, tanto que a puseram no chão fugiu dela, e se meteu entre as pernas de El-rei, dizendo:

 Ah! ah! agora sim, que está aqui meu pai! Não quero ir convosco.

Nestas palavras atentou bem El-rei, e abraçou-a, e teve-a consigo. As pessoas que estavam presenteei, e as donas todas de casa, vieram, e conheceram todo o fato era que os infantes foram envoltos, que tudo eram peças conhecidas do Paço, e das senhoras irmãs da Rainha. E a morte desastrada que elas tomaram por si acabou de confirmar ser verdade o que a donzela disse, e que aqueles, todos três, eram irmãos, filhos de El-rei e da Rainha.

El-rei assim o teve logo por certo; e virando-se para a donzela, que ali estava chorando, crendo que lhe dariam cruel morte pelo delito que fizera, El-rei lhe disse:

 Erguei-vos, e recolhei-vos com estas donas e senhoras, que em dia de tantas festas como se devem’fazer por descobrimento de tais filhos, não convêm lembrar os delitos passados. Eu vos perdôo tudo!

E ao velho pescador, e a sua mulher, e à pobre, ama dos infantes, recolheu consigo no Paço. E, mandando chamar ao amo, fez a todos grandes mercês, e os teve sempre em muito estado e honra.

Logo El-rei mandou por todo o Reino em bus ca da Rainha e que se publicassem as novas do acha mento dos três filhos infantes, e da traição irmãs da Rainha, o da sua morte.

Foi ter esta nova ao mosteiro onde a Raínha estava, e as Religiosas fizeram por esta festa dolene procissão por dentro do seu mosteiro, com Te Beum laudamus.

Todas estavam ledas do contentamento que El rei tinha; mas sobre todas mostrava o rosto da Rainha tanta alegria em si, que, ainda que o não publicava pela boca, todas viam nela mais alegria que em nenhuma pessoa. E foi tanta, que a Madre Abadessa, com outras donas e religiosas, suspeita ram o que era; e, apartando-a, com grandes jura mentos inquiriram dela que era mais do que elas sabiam.

A Rainha, vendo que já não era tempo de se encobrir, lhes manifestou e declarou a verdade. A qual sabida, a Madre Abadessa mandou pedir a El-rei, por mercê, que ao outro dia fosse ouvir missa àquela casa, que tinha que lhe dizer.

El-rei, crendo que lhe queria pedir esmola para a casa, por ser tempo de tanta festa, determinou de lha dar; e com essa intenção foi lá, e dita a missa se recolheu dentro na casa. As Madres religiosas, todas, saíram a recebê-lo em procissão; e a Madre abadessa lhe apresentou a Rainha pela mão, dizendo:

— Senhor, esta jóia tínhamos cá conosco, com a qual sempre vivemos ledas e contentes; que as mais das vezes, o que o mundo tem por mau, isso é o que Deus tem por bom. Esta é a Rainha. Dai

graças que vo-la deparou, que tal Senhora não merecíamos nós por nossos pecados. Honre-a, estime-a, Vossa Alteza, como é razão, como nós confiamos que o fará.

El-rei, que a viu, quisera-lhe fazer grande cortesia, pedindo-lhe perdão do passado. E ela se pôs em giolhos, pedindo lhe fizesse mercê de esquecer que já fora, que tudo o havia por bem passado, pois Deus Nosso Senhor o permitia. Ao qual dava muitas graças, que teve por bem mostrar a ver dade das ofensas que lhe fizeram; e mostrava pe sar-lhe da morte de suas irmãs.

El-rei mandou chamar toda a fidalguia da Corte, e a muitos senhores que trouxessem suas mulheres. E com todos eles e elas, levou a Rainha dali para o Paço com tanto alvoroço de ale gria, como se então casaram de novo.

A Rainha viu seus filhos, alegrou-se com eles, c com os velhos e a ama que os criaram, e a todos fez mercês. Mandou mais esmolas ao mosteiro onde estivera, e toda sua vida foi bem agradecida a Deus pelas mercês que lhe fez, em lhe guardar os filhos e torná-la a seu estado.

A donzela que levou os infantes ao mar foi metida em um mosteiro, pedindo-o ela; onde fez grande penitência e muito boa vida.

As irmãs da Rainha floram enterradas sem pompa, por sua desesperação.

Gonçalo Fernandes Trancoso, Histórias de proveito e exemplo, edição do prof. Agostinho de Campos, XV, 101, Lisboa, 1921. ‘

Trancoso retirou o conto da tradição oral e desnudou-o de todos os elementos de encanta mento, tornando-o narrativa moral, um exempl ético. Versões populares foram incluídas na coleções de José Leite de Vasconcelos e Teófilo Braga, e no Brasil na de Sílvio Romero, Contos Populares do Brasil, IIo, Os três coroados. Rei nhold Kohler e Stanislau Prato estudaram minuciosamente as variantes européias do cont em sua expressão corrente, com as occorência sobre-naturais. A página de Trancoso é uma utilização literária, guardando o frasco e perdendo o perfume.

Antti Aarne e Stith Thompson fixaram o’ motivos, Mt. 707, The Three Golden Sons, mas; trata da versão popular e não da que Trancoso escreveu. Straparola, "XIII Piacevoli Notte", noite 3, Fábula IV, regista o conto com seu enredo miraculoso. (CASCUDO)


 

Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora.

jul 112010
 
Arte Românica

Arte Românica

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Pierre du Columbier – História da Arte 

A Arte Românica

Os Preliminares

O Império do Oriente mantinha, durante algum tempo pelo menos, a sua supremacia numa parte do mundo civilizado, o Império do Ocidente sucumbira, tanto em consequência de sua própria decomposição como em resultado dos golpes dos invasores. No fim do século V, cessou a autoridade romana na Gália. Mas a organização administrativa de Roma não desapareceu do mesmo modo e muitas vezes forneceu quadros de funcionários, que todos aceitaram de comum acordo, à falta de quem os substituísse. E, sobretudo, compreende-se hoje cada vez melhor que a irradiação de Bizâncio não cessou de atingir os países que marginam o lago mediterrâneo e até os próprios recém-vindos. Muitas vezes, esta arte sumptuosa parece seduzi-los bem mais do que as ruínas imponentes de Roma. E é também do Oriente bizantino que veio o monaquismo, cuja acção devia ser decisiva para a civilização do Ocidente.

 Arte dos Nômadas

Teriam os próprios povos migradores trazidos para os territorios em que se espalhavam, alguma coisa mais do que a desordem ? Se, na qualidade de nómadas, são desprovidos de arquitectura, possuem, em contra–partida, uma ourivesaria bastante surpreendente para o mundo ‘ aonde chegam e que é bem conhecida por numerosos achados feitos nos túmulos. Entre outros tesoiros notáveis, apareceram os de Childerico (fim do século v), em parte hoje perdido, de Petróssa na Valáquia, de Guarragar, perto de Toledo, pertencente aos reis visigodos. Esta ourivesaria caracteriza-se por peças de oiro com encaixes que prendem pedras mais ou menos preciosas ou simples vidri-lhos de côr. O conjunto consta de um desenho geométrico, de que. a figura humana está praticamente excluída e em que a fauna, relativamente rara, é muito estilizada.

A bem dizer, verificou-se que estas obras, chegadas à Europa ocidental, são pouco originais e constituem apenas uma forma abastardada daquilo a que se chamou, à falta de um termo mais perfeito, a arte dos Nómadas, na qual há a distinguir duas modalidades principais, a sita e a sarmata. Os Sitas fazem-se notar pelo hábil estudo do reino animal; as suas jóias de oiro reproduzem veados, panteras, ursos, águias, adaptados sem dúvida à sua função ornamental e submetidos frequentemente a regras de simetria, mas esta elaboração deixa, apesar de tudo, transparecer muita vida e espontaneidade; o artífice não hesita em representar os seus modelos empenhados em lutas violentas. Quanto aos Sarmatas, são os mestres da ourivesaria com engastes.

Esta arte dos nómadas suscita muitos problemas. Estas gentes errantes das estepes tiveram forçosamente relações com as civilizações vizinhas: a persa, a grega, a china. Quem deu? Quem recebeu? E provável que tais perguntas não comportem respostas simples. A existência, na ourivesaria persa, de belas peças com engastes, como a taça de Chosroés, permitira supor que a Pérsia dera talvez em grande parte origem à arce dos Nómadas. Hoje há tendência para proceder à revisão de tal parecer, mas deve confessar-se que os indícios são muito vagos e as balzias pouco numerosas.

Arte Irlandesa

Há tendência para ligar também à inspiração das tribos migradoras — à falta, em suma, de melhor hipótese a aventar — a curiosíssima ornamentação linear que se desenvolveu quase exclusivamente na Irlanda, nos séculos vil e viu, nos manuscritos dos conventos e, de maneira secundária, na pedra. Daí, a decoração irlandesa, sem dúvida transportada pelos monges, espalhou-se no continente, onde, embora atenuada, exerceu alguma influência na iluminura, no mosteiro de Saint Gall por exemplo. Na sua feição mais exuberante (evangeliario de Kelles ou bíblia de Lindisfarne), esta caligrafia, que dir–se-ia brotar ao acaso, mas que é dum equilíbrio muito habilidoso e subtil, cobre a página com uma apertada rede que não permite nenhum repouso nem nenhum vazio. A figura humana, aliás pouquíssimo frequente, reduz-se aqui a simples ornato gráfico.

Do que se construiu até ao século IX, quase nada resta, o que não quer dizer que não houvesse alguma coisa. Observaram até alguns que constitui um erro olhar em bloco essas épocas como épocas de barbárie: o século vil, por exemplo, alcançou uma prosperidade’bastante considerável. Mas a fúria dos homens e a sua devoção, que aniquilaram os monumentos para os substituir por outros reputados mais belos, obriga-nos a recorrer com certo perigo aos textos. Deles se conclue clarissimamente que florescia então uma arquitectura de tipo bizantino, isto é, concebida quase apenas para a ornamentação, o que explica perfeitamente, sem necessidade de recorrer a hipóteses arriscadas dum pretenso eclipse da técnica, o material de construção medíocre, constituído por pedras miúdas, que se encontra nas ruínas muito incompletas dos edifícios. Pelo contrário, os conhecimentos parecem ter sido muito superiores ao que, durante muito tempo, se pensou. Os principais tipos de abóbadas (de berço, de aresta) eram empregados, pelo menos, em pequena escala, e a cúpula estava bastante espalhada.

a importância, senão quanto ao período que imediatamente a precedeu e que foi com efeito um período perturbado, pelo menos quanto ao conjunto dos séculos anteriores. Ela manifestou-se, entre

Renascença Carolíngia

No século IX, produziu-se — para empregar a palavra consagradr pelo uso — a renascença carolíngia, de que se exagerou provavelmente outros aspectos, por um regresso as antigo, cujos efeitos se fazem sentir mais no domínio das letras do que no das artes plásticas.

Dois monumentos quase inteiramente conservados, embora um deles haja sido muitíssimo desfigurado pelos restauros, dão testemunho desta renascença carolíngia no princípio do século IX: a Catedral de Aix-la-Chapelle (796-814) e a Igreja de Germigny-les-Prés (699-818), perto de Chateauneuf-no-Loire. A bem dizer, são um e outro de tipo bastante excepcional, construídos ambos sobre planta central. Em Aix, achamo-nos perante uma capela palatina com tribunas, para cuja construção Carlos Magno seguiu a moda do tempo, que consistia em despojar das suas colunas os monumentos antigos. Apesar de tudo quanto se disse recentemente, o arquitecto, Eudes de Metz, inspirou-se por certo em São Vital de Ravena ou em qualquer edifício análogo. Em Germigny, é um oratório de quatro lóbulos, com torre quadrada ao centro. São grandes os pontos de relação com certas igrejas da Arménia, mas não está de forma nenhuma provado que a transmissão tenha sido directa.

Por infelicidade, não subsistiu nenhuma igreja importante do tipo basilical, ainda que estas igrejas estivessem por certo muito mais espalhadas do que as outras. Pode, até certo ponto, remediar-se esta lacuna graças à planta muitíssimo pormenorizada e muitíssimo clara que se fez, em 819, da Abadia de Saint Gall, cuja igreja tem duas ábsides, uma a leste e outra a oeste, disposição que subsistirá por muito tempo nas regiões renanas.

Primeira Arte Românica

.Os historiadores mais recentes da arte românica, atribuem, na sua formação, importância considerável a um conjunto de igrejas edificadas no século x e no princípio do século XI nos países situados ao norte do Mediterrâneo: Catalunha, Astúrias, Lombardia, Sabóia, Borgonha e até a Suíça. São edifícios de dimensões em geral modestas, bastante rústicos na sua composição, maciços e robustos, abobadados ou não e cuja ábside se recorta muitas vezes num bloco de alvenaria de ângulos rectos. Apresentam elas características de construção e de decoração curiosamente constantes: por um lado, são feitas com inferior material de construção, constituído por pedras miúdas; por outro lado, encontra-se, no seu exterior, um sistema de arcaturas cegas, que engrinaldam a parte inferior das cornijas e descem a intervalos regulares, como faixas lisas verticais. Esta ornamentação chamou-se lombarda, porque o seu principal centro de difusão foi a Itália do norte. De lá irradiaram os mestres «Comacine», cujo nome se não sabe ao certo se é um nome de origem ou se provém duma espécie de jogo de palavras, «Cum maximes», mas que, em qualquer caso, eram chamados dos pontos mais distantes da Europa. No entanto, parece que, pelas datas, a Catalunha levou talvez a dianteira à Itália. Nesta região, e sobretudo no norte de Espanha, as características da arte a que se chama agora «primeira arte românica» concordam com certos usos visigóticos como o arco ultrapassado, e com práticas moçárabes, à medida que a reconquista progride e que os artífices que trabalharam sob as ordens de mestres muçulmanos e que se designam por aquele nome se refugiam nos territórios cristãos. E na Catalunha também que a primeira arte românica toma excepcionalmente aspecto monumental, por exemplo na igreja de Santa Maria de Ripoll, consagrada em 1031. O que se não deve todavia esquecer é que a passagem dos pequenos edifícios da pequena arte romana para as grandes igrejas nem sempre reveste grande nitidez. Depois, se, em raros países, esta passagem é provável, há que ter em conta todos os outros, e o emprego de alguns motivos não basta para nos persuadir de que eles devam muito a tais tentativas. E caso para perguntar se, também aqui, os arqueólogos não abusaram do sistema discutível que consiste em considerar os pequenos monumentos como esboço e ensaio dos grandes.

O Florescimento

O grande impulso produz-se na segunda metade do século XI e sobretudo na época de transição entre este século e o imediato. Surgem então em toda a Europa os vastos templos: Cluny III (1088-1109), Santo Hilário de Poitiers (1045-1080), Saint-Eoy de Conques (1050-1108), Santo Estevão de Caen (1064-1087), Saint Sernin de Tolosa (1076–1119), Santiago de Compostela (1078-1 128), Santa Maria no Capitólio, de Colónia (consagrada em 1065), Espira (1030-1106), Lincoln (1^072-1092), Durham (1093-1 130), Pisa (1063-1118).

Depois, chega, mais ou menos sem interrupção, a segunda vaga, a do século xn, que compreende edifícios não menos admiráveis como Vézelay (1104-1132), São Lázaro de Autun (1 120-1178), Saint Front de Périgueux (reconstrução: 1120-1173), a velha Catedral de Salamanca (1120-1178), a Catedral de Parma (1130-1150), a de Worms (1171-1234), a Sé Velha de Coimbra (meados do século XII).

 

Quando se procuram definir as características comuns destas diversas igrejas, começam as dificuldades. Precisamente, por comparação com a arte gótica, a arte românica distingue-se por uma grande variedade e pela manifestação de numerosas iniciativas locais.

Pode dizer-se no entanto que à predominância do ornato sucede o primado da pedra. Há a preocupação de construir melhor, porque já se não esconde o que se constrói. Por outro lado, o edifício tomou formas muito menos elementares, articulou-se em superfície como em altura. Se a forma basilical consegue impor-se a tal ponto que só em monumentos de pequenas dimensões se adopta o plano central, esta evolução não se produz sem que o plano central se combine com a planta axial na ábside da igreja. O deambulatório com capelas radiantes dispostas em torno do coro, que era já adoptado em São Martinho de Tours, sem dúvida antes de 1014, espalha-se cada vez mais e permite com efeito, pelo emprego duma série de elementos arredondados justapostos, grande variedade, tanto no interior como no exterior. Depois, em altura, a ascensão, progressiva dos vários elementos é estudada com grande cuidado; a ábside de certas igrejas do Auvergne, como São Paulo de Issoire, mostra a que perfeição podem chegar os arquitectos românicos na disposição das massas.

O sistema geral de proporções está longe de se opor radicalmente ao da Antiguidade. Salvo na escola normanda, as dimensões verticais não se exageram nunca à custa das horizontais. E sem dúvida por esta razão que as igrejas românicas possuem uma harmonia muito sedutora, até quando as suas dimensões são medíocres (diferentemente, muitas vezes, das pequenas igrejas góticas): não visam a surpreender mas a satisfazer e encontram-se verdadeiras obras-primas entre as «belas camponesas» (como dizia Miguel Angelo a propósito dum pequeno templo florentino), no Auvergne em Orcival, em Saintonge no Aulnay, nos confins do Bourbonnais em Veance. Poderiam citar-se aqui mil testemunhos.

Por certo, o problema da cobertura desempenha papel considerável e exerce grande influência na estrutura do monumento; no entanto, tal consideração não deve ser olhada como exclusiva, porque a Itália conservou o tecto em certos edifícios capitais e porque uma das escolas românicas mais importantes, aquela sem dúvida cuja acção foi preponderante na sequência da história da arquitectura, a escola normanda, não usou da abóbada nas suas mais belas igrejas.

Não deve tampouco perder-se de vista que o problema da cobertura com abóbada está inteiramente ligado ao da iluminação e que tal problema não consistia apenas em dar às igrejas um modo de cobertura apto a diminuir a frequência dos incendios, mas também em obter este resultado sem as escurecer excessivamente. Quase sempre, as soluções adoptadas constituem compromissos entre estas duas exigências.

 

Se é certo que se conheciam antes da época românica os diversos métodos para cobrir de pedra um edifício, cabe no entanto aos construtores românicos a glória de os ter aplicado a extensões cada vez maiores, de os ter aperfeiçoado e de haverem mostrado nestedomínio uma audácia que vai até ao exagero.

Os sistemas foram muito diversos (ver fig. 12). O mais simples e o mais frequente na época românica é o das abóbadas obtidas por uma ou várias curvas que se deslocam perpendicularmente ao plano em que são traçadas, de forma tal que o eixo de deslocamento é o eixo longitudinal da igreja. Obtém-se desta maneira a abóbada de berço, que é de pleno cintro quando a curva geratriz é uma semi-circunferência ou quebrado quando provém de duas curvas, em geral de dois arcos de circunferência, que se cortam, determinando uma aresta (fig. 12 A e B).

As abóbadas de berço exercem, ao longo das paredes paralelas ao eixo que as suporta, um esforço de deslocação. A não querer contentar-se com paredes maciças, é na maneira de neutralizar esses esforços que se manifesta o engenho do construtor; tal neutralização faz-se em princípio por meio de naves laterais, que tem por vezes sensivelmente a altura da nave principal (caso frequente no Poitou e na Provença) e que são aliás divididas em rés-do-chão e tribunas (fig. 12). Aparte algumas janelas parcimoniosamente distribuídas à nascença da abóbada, a luz não chega senão pelas naves laterais, cujas paredes exteriores, reforçadas por contrafortes, têm apenas aberturas bastante estreitas.

Com a abóbada de berço fizera-se também uma tentativa cujas vantagens práticas pareciam consideráveis mas que, de facto, não teve imitadores: foi em Tournus. Consistia em adoptar, para o deslocamento dos arcos cuja curva produzia o berço, eixos perpendiculares ao eixo principal da igreja. Tinha-se, dessa maneira, uma série de berços que se contrapunham mutuamente e não era necessário opor-lhes forte resistência senão nas duas extremidades da nave. Nada impedia de rasgar janelas nas paredes laterais que não suportassem qualquer esforço de deslocação. O que decerto se opôs à generalização do processo foi uma razão estética, porque tais ondulações vinham desagradàvelmente cortar o comprimento da igreja.

Suponhamos agora que a nave é dividida em certo número de rectângulos adjacentes (que podem ser quadrados). Cada um destes rectângulos poderá ser coberto por uma abóbada de aresta ou por uma cúpula. A primeira é obtida teoricamente pelo encontro dos dois berços, um paralelo e o outro perpendicular ao eixo principal da nave, e cuja intersecção desenha duas arestas (fig. 12 C). Neste sistema, os impulsos acham-se localizados nas extremidades das arestas, em quatro regiões bem determinadas. Eis uma solução quase ideal, porquanto a parede vertical que medeia entre dois pontos de apoio pode ser rasgada de aberturas à vontade ou quase. Duas escolas empregam largamente a abóbada de aresta para cobrir grandes edifícios: a escola renana, em que, como sucede em Espira, as abóbadas de aresta abrangem duas arcadas, pois o pilar intermédio é um pilar «fraco», e a escola da Borgonha, em que a cada arcada corresponde uma abóbada de aresta. Nesta época, porém, a arte de aplicar contrafortes para amparar as abóbadas nem sempre ia de par com a arte de as construir. Em Vézelay, as abóbadas ameaçavam ruína e, na época gótica, foi necessário muni-las de arcos botantes.

Quanto à subdivisão duma nave alongada em certo número de quadrados recobertos de cúpulas (fig. 12 D e E), tem ela contra si certo ilogismo que já fizemos notar a propósito de Tournus. No entanto, obteve êxito, mas só num território muitíssimo restrito, cujo centro é o Périgord e que se estende até Augoumois e Sain-tonge. Com efeito, estas elegantes cúpulas sobre pendentes (que frequentemente não são visíveis do exterior) deveriam impor uma planta diferente, mais centrada, como a de Saint-Front de Péri-gueux, imitação muito provável de São Marcos de Veneza.

Acrescente-se ainda que, salvo na Borgonha, Onde o arco quebrado está muito difundido, adopta-se geralmente o pleno cintro não só nas abóbadas mas tambémn o traçado dos arcos, a tal ponto que, para muita gente, ele caracteriza falsamente a arquitectura românica.

Uma das belezas das igrejas românicas reside nas suas torres — torres lanterneiras ou torres sineiras — quadradas ou poligonais em França, piramidais ou muitas vezes redondas na Alemanha onde a sua multiplicidade muito contribui para o pitoresco dos edifícios, de que fazem parte orgânica, enquanto a Itália mantém de preferência a tradição do seu isolamento, como se vê por exemplo em Pisa, cuja célebre torre inclinada merece admirar-se por motivos bem diversos da sua inclinação perigosa.

Torna-se difícil falar em geral das fachadas românicas, cuja variedade é extrema; no entanto, salvo na escola normanda, em que a verticalidade é muito vincada, as divisões horizontais são muitíssimo acentuadas e possuem uma empena cuja inclinação não parece excessiva.

Decoração Escultórica  

Mas este assunto das fachadas leva-nos a tratar da sua decoração, porque, no edificio, e a parte em que ela se encontra quase exclusi-mente. Frequentemente em Itália e excepcionalmente em França, no Puy, por exemplo, o colorido das pedras toma certa importância ; todavia a decoração românica é, antes de tudo, uma decoração, escultórica.

E aliás impossível indicar qualquer regra quanto à sua extensão: vai-se de Notre-Dame-la-Grande de Poitiers. em que a decoração tudo invadiu, a Santo Estevão de Caen, cuja fachada é nua e muda.

Esta decoração concentra-se frequentemente em volta das aberturas e sobretudo em torno das portas que se rasgam ao fundo dum portal cuja parte anterior e mais larga apresenta colunas verticais e voltas de abóbada.

Abstracção feita das figuras, de que preferimos falar mais adiante, o repertório ornamental da arte românica é de extrema riqueza. Compreende primeiramente uma vasta colecção de ziguezagues, de torçais, de estrelas, de asnas, de dentes de serra, em suma, de motivos inanimados. Também não falta o ornato vegetal, mas muito elaborado e transformado, de tal forma que, quando se observam, por exemplo, os numerosíssimos capitéis românicos filiados no coríntio, se tem a impressão de que o artífice, ao deformar um modelo já esculpido, mais procurou afastar-se do que aproximar-se do tipo natural deste capitel.

Embora, na elaboração deste ornato, a arte antiga tenha podido desempenhar um papel que está longe de ser insignificante — cita-se, como exemplo clássico, a catedral de Autun, em que o motivo duma porta romana foi copiado quase servilmente, e sobretudo as igrejas da Provença, que dela conservaram o espírito mais do que a letra — foi ao Oriente que coube a parte preponderante: a pululação dos monstros proclama-o. Convém sublinhá-lo: por vezes, esses monstros podem ter um nome, o dum vício, o do diabo, ou possuir uma significação alegórica, e os iconógrafos têm dispendido com eles o melhor da sua subtileza; mas, na maior parte dos casos, são inteiramente gratuitos. Esta decoração, cuja origem não pode ser discutida, embora se mantenha muitas vezes obscuro o seu modo de transmissão, conseguiu chegar até à arte românica por diversas vias: manuscritos, marfins, tecidos, etc. Em Bayeux, nota-se até a imitação precisa de objectos chinos. Impossível confundi-la com algumas sugestões directas da arte árabe, como os modilhões com motivos de cavacos ou aparas, muito espalhados em Espanha e em certas igrejas de França que balizam mais ou menos a estrada de Santiago de Compostela.

No portal, a escultura orna sobretudo o tímpano e as voltas da abóbada. Em muitos casos, os artistas românicos tiveram a feliz ideia de recobrir as voltas da abóbada de uma decoração puramente ornamental. Outras vezes, decoraram-nas com figuras e parecem hesitar entre a disposição perpendicular à volta da abóbada ou radiante e a disposição paralela. Embora a primeira pareça mais lógica, ela capitulará ante a segunda que há-de prevalecer mais ou menos exclusivamente no período gótico. E também durante a época românica, em Saint-Denis (cerca de 1135) e mais tarde em Chartres, que se observa a transformação das colunas que emolduram as portas. Figuras esculpidas apoiam-se nelas, depois formam as chamadas estátuas-colunas, a princípio rígidas, como que a recordar o suporte que substituem, depois já menos hirtas.

Assim, a arquitectura levóu-nos necessariamente às fronteiras da escultura. Seria porém erróneo julgar que toda a escultura românica é monumental.

Não foi sequer pela escultura monumental que começou uma nova primavera da figura humana. Primavera que é o fenómeno mais característico desta época.

De facto, observam-se duas correntes distintas, uma das quais a mais antiga, diz respeito ao metal, enquanto a outra, a mais recente e a mais completa, diz respeito à pedra.

Escultura de Metal

A primeira irrompe no noroeste da Europa, na região do Mosa, na do Reno e nas regiões vizinhas da Alemanha. Neste país, existiam exce-

lentes fundidores de bronze, e as cabeças de leão das portas Aix–la-Chapelle demonstram uma habilidade já consumada em fundir o metal. Ora, por alturas do princípio do século XI, aparece em Hil-desheim uma quase obra-prima: as portas de bronze da igreja de São Miguel, que datam de 1015. Nelas se vêem modeladas pequenas cenas, com uma liberdade extrema, que sugere o impressionismo. O nu — a bem dizer mais adivinhado do que imitado — é aqui expresso com franqueza nas personagens de Adão e Eva. Enquanto os corpos são esculpidos em baixos-relevos, as cabeças desprendem-se do fundo e muitas vezes tornam-se dele independentes. Os membros podem ter o aspecto de fósforos, alongar-se desmedidamente, mas tudo se salva, graças a um sentido vivíssimo do movimento e a uma observação incompleta, mas, por assim dizer, chocarreira. O estilo lembra muito os esboços, em extremo livres que se encontram nos manuscritos de veia mais ou menos popular.

Relativamente pouco depois, no mesmo lugar, sob a inspiração do Bispo Bernevvart funde-se um monumento de espécie muito diferente: o simile dum círio pascal recoberto de baixos-relevos em espiral, inspirados nos da Coluna de Trajano. O estilo é por completo diferente, mais aristocrático, mais esmerado. Encontrar-se-á todavia nele o mesmo espontâneo encanto ?

Em boa verdade, são obras de ourives. Temos a certeza da intervenção constante destes nos bronzes que se encontram, perto de um século mais tarde, na região do Mosa: um dos mais antigos em data e dos mais belos pela nobreza tranquila dos movimentos é a piabaptismal de São Bartolomeu de Liège, executada por Rénier de Huy. Estes ourives da região do Mosa, os mais célebres dos quais são Nicolas de Verdun e Godefroy de Huy, espalharam por outro lado, através da Europa, os seus relicários, ao mesmo tempo vigorosos pela modelagem e preciosos pelos esmaltes que os ornavam.

Ora esta escultura de bronze, que começara com tanto brilho e que não pecava, ao que parece, pelo amaneirado, não conseguiu libertar-se completamente da ourivesaria. Os trechos de grandes dimensões, de forma estatuaria, como o leão de Brunswick (cerca de 1166), são excepcionais. A falta, sem dúvida, de haver resolvido o problema da fusão das estatuas, a arte do bronze não conseguiu então, como o tinham feito os Gregos criar, uma verdadeira escultura. O que ela fez, mesmo até ao fim do século XV, careceu de grandeza, foi sempre um tanto acanhado.

Não é todavia de forma alguma certo que não seja igualmente a ourivesaria que encontramos nas origens da escultura monumental de pedra ou estuque, Sabemos pelo menos que, em certas circunstâncias, o estuque foi a ourivesaria do pobre e que, em particular na Catalunha, certos frontais de altar desta matéria macaqueiam obras de metal. E, se pensarmos na perfeição quase clássica de obras como a coluna de São Bernward, os primeiros balbúcios da escultura de pedra parecem extremamente bárbaros. Por outro lado, o Sr. Bréhier chamou a atenção para as cabeças e para as estátuas-relicários de metal, bastante espalhadas no Auvergne e no Limousin, cuja obra-prima é, sem dúvida, a de Sainte-Foy de Conques (antes do ano 1000).

Escultura de Pedra

 A Renascença das figuras de pedra parece produzir-se em França mais ou menos simultaneamente em duas regiões: no .Languedoc e na Borgonha. No Languedoc, se se fizer abstracção de tentativas informes, como a padieira de Saint-Genis-des-Fontaines (cerca de 1020), que não é aliás, na região catalã, única no seu género, vê-se, por alturas de 1096, surgir as esculturas de Saint–Servin de Tolosa, e, tanto nesta igreja como no Museu dos Agostinhos, onde se reuniram os restos de .edifícios destruídos, esta cidade apresenta uma série ininterrupta de obras que culminam com o magnífico tímpano de São Pedro de Moissac (1 125-1 130). Mas de cerca de 1095 são também os admiráveis capitéis de Cluny, nos quais se figuram os tons da música e que atingem repentinamente o nível de obra-prima, pela nobreza e naturalidade de atitudes, a tal ponto que se pretendeu, durante muito tempo, remoçá–las vinte e cinco ou trinta anos, até que as razões extrínsecas mais ponderosas levaram a adoptar uma data que nada tem de inverosímil, se se admitir nessa grande oficina a presença dum homem de génio.

 

Quando se quis determinar a própria essência da escultura românica, atribuiu-se, não sem justeza, grande importância àquilo a que o Sr. Focion chamou a lei do enquadramento: o enquadramento arquitectónico submete as formas a si próprio. Que significa isto, senão que os escultores românicos possuem raro talento decorativo e que o põem à prova em superfície e linearmente (porque a época românica é relativamente pobre em estatuária) ? Tais artífices são desprovidos da plasticidade que caracterizava os Gregos e que permitia a estes guarnecer uma superfície determinada conservando às figuras naturalidade perfeita. Não é menos verdade que esta escultura merece igual e por vezes maior admiração quando tenta libertar-se do enquadramento, por exemplo num tímpano, em que é mais livre do que num capitel (e, ainda assim, os capitéis de Cluny testemunham uma liberdade acentuada).

Há-de observar-se então que, se as proporções parecem bastante indiferentes ao escultor românico (o que é uma herança do homem-ornato), já não sucede o mesmo com o movimento. Este é expresso ao mesmo tempo com uma audácia e uma inabilidade que se conjugam em exageros saborosos, A Eva de Autun rasteja como um réptil e o São Pedro e o Isaías de Moissac e mais ainda 0 Isaías de Souillac parecem dançar. Depois, estes escultores falhos da experiência ousam abalançar-se a um dos mais difíceis problemas do baixo-relevo: a representação de personagens sentadas, colocadas de frente. Nada de surpreendente que esbarrem com dificuldades.

Como não aprofundaram o estudo do homem ao passar do vestuário ao corpo, é sobretudo à roupagem que se atêm para exprimir o movimento. Conhecem eles um tipo de roupagem, mais ou menos largo e pesado, que devem ter achado nos modelos romanos (primeiras esculturas de Saint-Sernin de Tolosa, igrejas provençais), mas preferem outro de pequenas pregas muito juntas. Quanto a este, é licito admitir de preferência que tira a sua origem de manuscritos, pois dir-se-ia muitas vezes com efeito traçado à pena em volta de centros que marcam as saliências. Certamente, esta arte da iluminura, uma das mais adiantadas, senão a mais adiantada da época, foi objecto de atento estudo da parte dos escultores. Serviu de modelo à composição de certos tímpanos, como o Sr. Mâle o demonstrou quanto ao de Moissac.

Esta composição é, por vezes, na sua maneira, tão hábil como a dum Grego. Por infelicidade, rápidamente os escultores românicos resvalaram na deplorável facilidade de que os seus sucessores góticos tanto abusaram, recortando a superfície deste tímpano em faixas horizontais e até por vezes verticais, a fim de o fragmentar em vários campos elementares. Assim, o tímpano de Carennac, posterior ao de Moissac, marca, em relação a este último, uma regressão decorativa. Um dos temas favoritos é o Cristo de majestade, rodeado dos símbolos dos Evangelistas, o tema apocalíptico da visão de São João rodeado dos vinte e quatro anciãos. Mas, enquanto em Moissac estava em comunicação livre com o resto da cena, em que, apesar da sua estatura superior, participava, ele encerra-se estritamente, em Carennac, no Mans, em Chartres ou em Saint-Trophime de Aries, na chamada moldura em forma de amêndoa.

Outro motivo bastante espalhado, a Ascensão, que se vê em particular em Mauriac ou em Angoulême e que, precisamente por causa do isolamento da personagem principal, não difere muito do Cristo de majestade Enfim, o Juízo Final, bastante mediocremente tratado em Conques, toma uma vida poderosa na Catedral de Autum, mais tardiamente (cerca de 1130), embora o próprio Cristo não tenha aqui a beleza majestosa do de Beaulieu, que estende audaciosamente o seu braço de juiz, como se afastasse as próprias convenções que o tinham detido.

Por vezes, estas convenções, às quais se submete o escultor, permitem-lhe obter, entre a arquitectura e a sua própria arte, um entendimento de esquisito sabor. Eis o que se observa em particular nas estátuas-colunas. Aqui, a queda vertical das dobras do vestuário, o próprio esquematismo do corpo, cuja largura varia insensivelmente até ao seu alongamento, acentuam a função da estátua que, em suma, é quase apenas um apoio. No portal oeste de Chartres, no Portal dos Reis, uma grande doçura vem acariciar os rostos, tirar-lhes essa expressão rude que as cabeças românicas apresentam com excessiva frequência e que se torna fatigante. Atinge-se aqui, na verdade, um equilíbrio maravilhoso e instável: a estátua, é humana sem deixar de lembrar a sua função. Dum lado e do outro dos portais góticos, ver-se-ão obras-primas mais livres e desenvoltas. Produzirão elas porventura uma impressão superior a esta serenidade ainda rígida?

Pintura

É-nos necessário certo esforço para imaginar, nos edifícios românicos, o revestimento pintado que cobria o interior das paredes. Com efeito, ele foi-nos conservado apenas, na sua integridade, em raros casos, e nós habituámo-nos à aspereza e à tonalidade da pedra, que teriam decerto parecido frios aos contemporâneos. No entanto, estes fragmentos são bastante numerosos para que nós distingamos, nas paredes como nos manuscritos — que parecem ter desempenhado, relativamente à parede mural, um papel semelhante à escultura — duas tendências que apontávamos já na época bizantina, Primeiramente, uma arte oficial, cuja magnificência lembra muito a arte «áulica» dos Imperadores do Oriente: abundância de púrpura e de oiro, personagens hieráticas, composição rígida e rebuscada. Este género, na iluminura, beneficiou largamente com os esforços de Carlos Magno, que mantinha a chamada Escola do Palácio e cujos herdeiros, neste domínio, foram quase sempre as escolas alemãs da dinastia otoniana. Téveros e Reichnau foram centros importantes dum estilo luxuoso e cuidado, que muito influenciou, segundo parece, o que se praticava em Cluny durante o século XI e de que testemunham não somente os manuscritos mas ainda as pinturas murais da capela vizinha de Berzé-la-Ville.

Mas, paralelamente, não cessou de se desenvolver a corrente popular, talvez de origem síria, em cujas obras o movimento endiabrado e o sentido vivo e rápido do esboço resgataram uma negligência acentuada e uma ordenação deficiente. Eis o que se observa nó Livro dos Salmos de Utrecht (século ix), em que a espontaneidade parece por vezes tocada de humor. Que esta juventude um pouco selvagem, um pouco ácida, amadureça e se tempere um tanto e ter-se-á uma obra-prima como o Hortus Deliciarum da Abadessa Herrad de Landesberg, cujo original foi infelizmente destruído e que, por datar da segunda metade do século xii, pertence já evidentemente ao período gótico.

Há ainda a considerar uma escola em extremo curiosa, que em vão se tentaria ligar às precedentes e cuja importância e originalidade profunda o Sr. Mâle evidenciou: a escola catalã — cheia de influências moçarabes, também muito movimentada’e que, pelas suas tintas violentas e profundas, aplicadas à maneira de esfregaço, com um sentido extraordinariamente poderoso da imaginária, é na verdade incomparável. Cerca de 1050, ela produziu uma estranha obra-prima, o Apocalipse de São Severo, que se gravou poderosamente na imaginação dos homens até muitíssimo longe do lugar da sua origem. A França não é particularmente rica em pinturas murais, mas a Alemanha conservou bastantes até aos nossos dias. Na ilha de Reichnau, o estilo hierático e o estilo familiar justapõem-se. Enquanto em Oberzell, por alturas do ano 1000, o segundo deles leva a melhor, em Niederzell, em meados do século xii, é o primeiro que triunfa. Quando, em Prufüing, perto de Ratisbona, a composição é muito equilibrada, o esboço torna-se cada vez mais familiar em Linz, na Renânia. Do mesmo modo, em França, Berzé–la-Ville, dependência de Cluny, de gosto bizantino, opõe-se a Saint–Savin de Gartemp, cuja veia exuberante faz desculpar todas as mesquinhezes de forma.

Quanto ao vitral, irmão da pintura e por vezes irmão inimigo, não subejam dúvidas de que o seu uso era corrente nos séculos X e XI, mas só nos restam dele pobres e raros testemunhos.

As Grandes Escolas Românicas

A necessidade de agrupar geograficamente as grandes construções românicas impôs-se constantemente e as divergências neste particular só dizem respeito ao número e à extensão de tais escolas. Seria tão inútil negar-lhes a existência como multiplicar-lhes excessivamente o número.

Um dos grupos mais homogéneos e mais imponentes é o das igrejas normandas e^anglo-normandas, cuja obra capital, Santo Estevão de Caen ou Abadia-dos-Homens, foi começada em 1064, pela mesma ocasião que a Abadia-das-Damas — e cuja construção foi conduzida mais rapidamente.

A abadia de Jumièges, mais antiga e que devia ser igualmente majestosa, subsiste ainda, mas em estado de ruína. Em Inglaterra, nova possessão dos conquistadores normandos, Durham começou a ser edificada em 1093.

Abstendose de dar uma solução ao problema da abóbada e contentando-se com o tecto de madeira, a escola normanda evitava sem dúvida muitas dificuldades: podia construir naves ao mesmo tempo espaçosas e elevadas e iluminá-las largamente por janelas altas. Nestas naves, adopta-se muitas vezes a alternância dum pilar forte e dum pilar fraco, que dá ao interior um ritmo sem monotonia, muito agradável, mas que se explica dificilmente numa arquitectura tresabobadada, pois os apoios têm funções equivalentes.

No interior, a sobriedade é extrema: quase não há escultura nem ornatos. Em Santo Estêvão de Caen, a fachada é dividida por quatro contrafortes, que, sem corte horizontal, se erguem do nível da terra até aos cimos, acentuando assim o movimento ascensional desenhado pelas altas torres de flechas agudas: esta igreja não destoaria entre os edifícios góticos.

 

A Borgonha possuiu uma das mais vastas igrejas da Cristandade, tão grande como São Pedro de Roma, a famosa Abadia de Cluny, construída, na sua última forma, de 1088 a 1109 e cujos restos, onde se anichou uma parte da pequena cidade moderna, nos enchem de assombro. Cluny, metrópole cristã, tem uma autoridade espiritual que não é ultrapassada por nenhum poder religioso e, se a arquitectura românica possui um carácter monástico muito acentuado, é sobretudo aos Clunicienses que ela o deve, embora se torne difícil distinguir, como o pretenderam alguns, uma arte que lhes seja própria. Mas estes grandes construtores da Borgonha querem precisamente o que se faz de melhor: igrejas amplas, bem iluminadas, abobadadas. Os que trabalham para eles não receiam nenhuma audácia, nenhuma novidade, não hesitam em rasgar janelas nas paredes, nos pontos de nascença das abóbadas. Em Cluny e nas igrejas que a imitam, Paray-le-Monial ou Saulieu, estas abóbadas são de berço quebrado. Em Vézelay (1104-1132), a abóbada de aresta fornecerá a solução que será a da época gótica e que se tornará de todo perfeita quando se souber utilizar mais amplamente os contrafortes para apoio das abóbadas.

Além disso, a Borgonha rivaliza com o Languedoc no que respeita aos grandes conjuntos escultóricos: Vézelay e Autun não serão ultrapassados. Mais reflectido, o tímpano de Vézelay possui maior equilíbrio e perfeição, mas o de Autun vale pelo seu verdor: grandes personagens desajeitadas, demónios caricaturais que pesam as almas.

Penetrando em toda a Europa pelas suas abadias filiais, pelos seus priorados, muito contribuiu Cluny para difundir a influência dos arquitectos franceses; todavia, estava reservado a outro ramo, um ramo reformado da família beneditina, construir uma doutrina artística, bastante negativa em fim de contas, mas que contribuiu para uniformizar o estilo cisterciense: quase sem ornatos, de altar–mor despido de enfeites, as igrejas da Ordem de Cíteaux reconhecem-se sobretudo por estes caracteres, que conservaram aliás no período gótico, porque os próprios Cistercienses foram grandes propagadores desta arte. O sentido da grandeza não lhes faltava aliás de nenhum modo e a Abadia de Fontenay, construída por eles de 1130 a 1147, constitui um conjunto puramente arquitectónico, notavelmente articulado e concentrado.

O Languedoc, ocupa o segundo lugar nos conjuntos escultóricos. Não se pode separá-lo do Norte de Espanha. A evolução nestas regiões segue dois caminhos tão exactamente paralelos que surgiram muitas vezes conflitos quanto à data das respectivas obras, resolvidos em geral, ao que parece, em favor da França (x). Se os escultores de Sain-Sernin de Tolosa, que, nos últimos anos do século xi, atestam esforços apaixonados, tanto para um calmo poder plástico como para a mais rigorosa definição das atitudes, se dispersaram bastante, resta, em contrapartida, a prodigiosa maturidade de Moissac, o fantástico pilar de Souillac, sonho oriental materializado na pedra de França. Conques, no Rouergue, inesquecível pelo seu local, não possui a mesma distinção. Do outro lado dos Pirinéus, são os capitiés do claustro de Silos, de data muito discutida, e sobretudo a ilustre basílica de Santigo de Compostela, lugar priviligiado de peregrinação para toda a Cristandade, que oferece à nossa vista a sua «Porta dos Ourives», cuja decoração é infelizmente construída por pedaços justapostos, por vezes admiráveis, e o seu «Pórtico da Glória», que data do fim do século xii e cujo autor, um certo mestre Mateus, por excepção conhecemos. Na Catalunha, em Ripoll, toda a fachada é decorada de baixos-relevos imitados das miniaturas da Bíblia de Farfa.

(1) Tal solução será definitiva? A atitude da escola francesa de arqueologia perante os trabalhos do americano Kingslay Porter não deixa de surpreender um pouco.

O Languedoc adoptou a abóbada de berço, mas já apontámos a singularidade arquitectónica aqui verificada e que abrange as regiões vizinhas: a série de igrejas de cúpula que, de Cahórs e Sain-tes, passando por Périgueux e Angoulême, se distribuem numa faixa estreita, com alguns edifícios isolados no exterior, como Soli-gnac e, mais tarde, Fontvrault. A mais antiga é a de Cahors, consagrada em 1119 ; a mais célebre Saint-Front de Périgueux (reconstruída depois do incêndio de 1120). Embora estas cúpulas não sejam construídas como cúpula orientais, é difícil admitir que o desejo de obter efeitos análogos não tenha influído muito na adopção desta forma. Concluir duma diferença de estrutura uma ausência de imitação seria desconhecer o mecanismo desta. Assim, sabe-se hoje que a cúpula era usada na época merovíngia: não é, pois, necessário procurar uma origem única às cúpulas da Aqui-tânia. Quanto a Saint-Front, a analogia da sua planta com a de São Marcos de Veneza é clamorosa. E, sem dúvida, estas explicações de ordem estética têm muito mais probabilidades de ser verdadeiras do que a explicação materialista que fez depender a construção destas cúpulas dum calcáreo especial — de que mais ninguém se ocupou depois. Porque, após um facto puramente local e que não durou mais de um século, as enfiadas de cúpulas desaparecem, por haverem passado de moda. A sua adopção não tinha sido aliás muito franca, pois, salvante em Saint-Front, elas não desempenhavam exteriormente nenhuma função no aspecto da igreja.

Somos assim levados ao Poitou, a Saintonge e, de modo gera^ ao resto da França. Nesta região, adoptaram-se raramente os edifícios muito vastos. Muitos são desprovidos de naves laterais e, quando estas existem, sobem por vezes tão alto como a nave central, que não é iluminada directamente, mas desse modo, dispõe no entanto de luz bastante profusa. Manifesta-se por vezes aqui um gosto pronunciado pela abundância decorativa: uma fachada como a de Notre-Dame-la-Grande, em Poitiers, limitada pelos seus poderosos pináculos entumescidos, com as aberturas profundas das suas arcaturas e dos seus portais e os lavores que a recobrem, mostra uma exuberância quase indu. Todavia, a escultura é aqui de qualidade bastante medíocre e vale muito mais tal igreja de Saintonge, como de Aulnay. O êxito destes santuários de Saintonge, até dos mais pequenos, resulta da mestria no emprego dos elementos não humanos. Há, entre eles, obras-primas de abundância, e, ao mesmo tempo, de segurança e vigor.

Mais tarde, a Provença ergueu igrejas estreitas, apoiando as abóbadas, que são muitas vezes de berço quebrado, ora em pilares muito próximos uns dos outros, com naves laterais abobadadas em quarto de círculo, ora em grossas paredes. Quanto aos conjuntos escultóricos, existem poucos tão equilibrados como a fachada de Saint-Gilles e o claustro de Saint-Trophime — um dos mais deliciosos de toda a época românica — e nos quais a inspiração antiga se tenha conservado tão pura. Na Provença, a palavra «românico»» com tudo o que implica de dependencia relativamente à civilização latina, assume o seu mais amplo sentido.

 

No Auvergne e certamente em parte por causa da dureza das pedras que aí se empregam, triunfa uma sobriedade escultórica que vai por vezes até à pobreza. Na arquitectura, o sólido Auvergne não é de forma alguma o país das aventuras. Constrói-se ali muito bem, mas sem audácia: sobre as naves laterais, alcandoram-se tribunas que reforçam tão bem a nave central que esta fica mergulhada em sombra; mas, na elevação exterior das igrejas, esta região é incomparável e o crescendo dos volumes da ábside em Issoire, por exemplo, ou em Saint-Nécnaire, a maneira como se combinam com a torre-lanterna, a ligação ao corpo central das capelas em ressalto — problema tão delicado — tudo isso é tratado com perfeita mestria. Uma decoração colorida: um friso azul, negro e vermelho faz muitas vezes ressair as cornijas.

Todavia, o monumento mais impressionante e mais teatral do Auvergne, a Catedral do Puy, não se integra em nenhuma categoria bem determinada, edifício único quase oriental, que ergue a sua fachada de riscas alternativamente brancas e pretas por sobre a campina que o rodeia e deve à sua construção sobre uma escarpa abrupta boa parte da sua originalidade.

Com a França, as duas partes essenciais da arte românica são a Itália e a Alemanha, quanto à arquitectura, bem entendido, porque nenhum destes dois países conheceu um florescimento de escultura monumental comparável ao nosso pela abundância e pela qualidade.

Itália

A Itália tivera o privilégio de ser um dos lugares de eleição da primeira arte românica; por outro lado, as tradições das basílicas cristãs primitivas tinham-se mantido ali mais vivazes do que em nenhuma outra parte. O primeiro encontro produz-se em Santo Ambrósio de Milão, igreja muitíssimo antiga, mas reconstruída na segunda metade dó século XI e no começo do século XII. O carácter pesado e hesitante das antigas construções desapareceu, cedendo o lugar à majestade especial, ao arejamento da mais antiga concepção basilical, à afirmação segura das linhas, enquanto o átrio acompanha com as suas arcadas uma fachada de largas aberturas. Os pedreiros lombardos não deixa todavia a tradição perder das igrejas de dimensões mais modestas. As de Pavia podem ser citadas como exemplo e particularmente San Pietro in Ciel d’Oro possui uma fachada de maravilhosa harmonia, com a sua larga empena muito simples, aligeirada pelas janelas justapostas que a acompanham. E um motivo vizinho daquele que se encontra muito na Lombardia e que se coloca frequentemente abaixo das faixas lombardas: as galerias de circulação, separadas do exterior por colunelos e arcadas. Muito características são ainda as colunas suportadas por leões. A província de Emília distingue-se com as Catedrais de Modena e de Parma, muito semelhantes aos edifícios lombardos, embora com menos finura, mas Parma tem o mais notável escultor românico, talvez de toda a Itália, Antelarni. Na Venécia, São Zenão de Verona é de grande simplicidade. Na Toscana, a multiplicação das galerias dá uma elegância leve às igrejas de Luca: Catedral, São Frediano ou São Miguel. Mas, antes de tudo, Pisa pode gabar-se dum dos mais soberbos conjuntos arquitectónicos de toda a arte românica, com a Catedral, o Baptistério e o Campanário isolado ou Torre inclinada, que formam um agrupamento ao mesmo tempo frágil e sumptuoso pelo esplendor dos mármores em que são construídos.

Não é em Roma que se deve procurar a grande arquitectura românica: São Clemente tem um ar quase tão arcaico como a encantadora Igreja de Santa Maria in Cosmedin. Um foi reconstruído, a outra restaurada no começo do século xii. Roma deu-nos talvez então as suas obras-primas em pequenos trechos muito cuidados, como os claustros de policromia discreta que serão sempre caros aos espíritos sonhadores, em São João de Latrão ou em São Paulo Extra-Muros.

Por causa do seu carácter predominantemente bizantino, houve que apartar da produção desta época o maravilhoso grupo das igrejas sicilianas. Apresentam belezas mais severas as catedrais românicas da Itália meridional: Amálfi, Tróia, Bitonto ou Bári, não devem de forma alguma ser-lhes sacrificadas.

Alemanha

 A Alemanha otoniana considerou-se mais ou menos legitimamente herdeira de Carlos Magno. A posse da dignidade imperial associava-se para ela às recordações bizantinas, tão vivazes na sua miniatura; e as suas pretensões romanas, manifestadas mais explicitamente por altura da coroação do imperador, punham-na em relações estreitas com a Itália. Ela é riquíssima em igrejas românicas primitivas, como São Miguel de Hildesheim ou Gernrode, basílicas com cobertura de madeira, e, por outro lado, nunca esqueceu o santuário de planta central, o monumento palatino de Aix-la-Chapelle. Foi muito cedo buscar à Itália as faixas lombardas e as galerias exteriores. Por outro lado, mais tardiamente, sofreu em larga escala a influência dos cluni-cienses, que edificaram no seu solo importantes abadias como Hir-sau, e a dos cistercienses a quem se deve em particular a abadia de Maulbronn.

Ela mostrou grande predilecção por uma disposição muito particular da planta, a da dupla ábside que se encontrava já em Saint–Gall e que resolve, suprimindo-o, o problema da fachada, mas que tem o defeito de tornar bastante confusa a orientação por assim dizer espiritual dum edifício alongado. Parece que, em boa lógica, este gosto deveria ter antes dado origem a igrejas de planta central. Tal tendência não se tornou, todavia, muito acentuada senão em Colónia, onde a adopção, nos Santos Apóstolos, duma ábside tri-concheada com uma nave curta cria um modelo, aliás muitíssimo atraente de que esta metrópole não mais se afastará, seja em Santa Maria do Capitólio, seja em São Martinho o Grande.

Embora cidades como Hildesheim, que apresentam ao visitante um conjunto de edifícios românicos quase intactos talvez único no Mundo reservam ao artista alegrias incomparáveis, a glória popular, a glória insigne da Alemanha medieval são as suas catedrais renanas. Sucedem-se, mais ou menos, distantes do rio com os poderosos bispados que coroavam: Basileia, Estrasburgo (que o período gótico inteiramente transformou), Espira, Worms, Mogúncia. As suas dimensões são vastas; frequentemente, adoptam no interior o sistema da alternância do pilar forte e do pilar fraco, de que tiram, porém, conclusões mais lógicas do que os Normandos. E provável que, em 1059 e nos anos seguintes, a Catedral de Espira haja sido recoberta das suas abóbadas de aresta, à razão de uma por cada grupo de dois arcos. Espira deve, aliás, a sua precocidade à afeição particular dos imperadores. Em geral, as grandes catedrais são tardias e a de Worms, inteiramente românica, foi começada numa época em que o estilo gótico estava já com-

pletamente elaborado em França. Isto em nada diminui a sua magnificência, sobretudo no exterior: a multiplicidade das suas torres, as galerias que as aligeiram dão-lhes majestade e pitoresco e ninguém se deve admirar que os Alemães se tenham apegado com tanta tenacidade a esta arte românica que não era sua criação própria mas que tinham recebido com entusiasmo e elaborado com originalidade.

OBRAS CARACTERÍSTICAS

ARQUITECTURA

FRANÇA — Normandia: Jumièges (Ruínas) / Caen (Santo Estevão, Trindade) / Lessay / S. Martin-de-Boscherville (Abadia de São Jorge de B.). — Borgonha: Cluny (Abadia, arruinada) / Paray-le-Montai / Autun / Vézelay / Avallon / Fontenay (Abadia cisterciense). — Poitou e Santonge : Poitiers (Santo Hilário, N.-D.-la-Grande) / Le Dorat / Saintes (São Pedro, Santa Maria das Damas, Santo Eutrópio) / Aulnay / Aifvault / Parthenay-le–Vieux. — Auvergne: Clermont-Ferrand (N.-D.-du-Port) / Mozac (perto de Riom) / Orsival / Issoire / S. Nectaire / Le Puy.— Languedoc : Conques / Tolosa (S. Sernin) / Périgueux (S. Front) / Angolema’ / CaJwrs(estas três últimas com cúpulas). — Provença: Saint-Gilles / Aries (S. Trophime) / Montmajour (Abadia) / S. Paiã–de-Mausole / Saintes-Maries-de-la-Mer / Le Thoronet (Abadia cisterciense). — Loire (escolas diversas): Fontevrault (Abadia, com cúpulas) / Cunault / S. Benoíl-s.-Loire (Abadia) / La Charité-s.–Loire (Abadia) / Nevers (Santo Estevão, tipo do Auvergne).

ESPANHA Ripoll (Abadia) / Santiago de Compostela f Jaca I Salamanea (Antiga Catedral) Zamora / Avila (São Vicente).

PORTUGALCoimbra / Évora / Porto / Braga / Lisboa.

INGLATERRA — S. Albans / Ely / Durham / Petesborough / Gloucester / Norwich j Waltham (Abadia) / Malmessbury (Abadia).

BÉLGICA Journal

ALEMANHAGernrode I Quedlimburgo / Hildesheim (S. Miguel, S. Godehard) / Brunswick / Co/ón/a (Santos Apóstolos, Santa Maria do Capitólio, Santa Ursula, São Martinho o Grande) / Maria Laach (Abadia) / Worms / Espira iMogúncia f Limburgo a. d. Haardt (Ruínas) / Maulbronn (Abadia cisterciense).

SUÉCIALund.

ITALIA — Lombardia: Como (S. Abbondio, S. Fedele) / Milão (Santo Ambrósio) / Chiaravalle (Abadia, perto de Milão) / Pavia (S. Pietro in Ciei d’Oro, S. Miguel). — Emília : Parma / Modena / Placência I Ferrara (Catedral e Abadia de Pomposa). —

Venéza : Verona (S. Zenão). — TOSCANA: Pisa (Catedral, S. Paolo a Ripa d’Arno) / Luca (Catedral, S. Frediano, S. Miguel) / Florença (S. Miniato). — Lácio: Toscanella (São Pedro, Santa Maria Maior) / Roma (São Clemente, Claustros de São João de Latrão, e São Paulo Extra-Muros). — Itália do Sul : Amálfi / Tróia / Bári / Bitonto I Trani / Barletta.

ESCULTURA

FRANÇA — Borgonha : Cluny (Museu Ocher) / Vézelay / Autun (Catedral e Museu) / Chariieu / Neuüly-en-Donjon. — Lan-guedoc: Tolosa (S. Sernin e Museu dos Agostinhos) / Moissac / Conques / Souillac / Beaulieu / Cahors / Angolema / Carennac. — Poitou e Saintonge: Poüiers (N.-D.-la-Grande) / Aulnay / Blasimon / Parthenay-le- Vieicx. / Civray. — Provença : S.-Gilles / Aries (S. Trophime). — Região Parisiense: Chartres (Pórtico Real) / S.-Loup-de-Naud / Paris (Museu dos Monumentos Franceses: Moldagens).

ESPANHASilos (Claustro) / Santiago de Compostela / Leão (Santo Isidoro) / Ripoll / Ávila (São Vicente).

ALEMANHA, ÁUSTRIA — Hildesheim (Catedral: Portas’ Colunas) / Augsburgo (Catedral: Portas) / Klosterneuburgo, perto de Viena (Relicário).

BÉLGICA Liège (São Bartolomeu: Pia baptismal).

RÚSSIA — Novgorod (Catedral: Portas).

ITÁLIA Parma (Catedral e baptistério : Obras de B. Ante-lami) / Modena.

PINTURA MONUMENTAL

FRANÇA — S. Savin-s.-Gartempe / Berzé-la- Ville. ALEMANHA — Prüfening (perto de Ratisbona) / Reichenau (Oberzell, Niederzell).

ESPANHABarcelona (Museu: Reconstituição de capelas).

VITRAIS

FRANÇA Poüiers (Catedral). ALEMANHA — Augsburgo (Catedral).

Tradução de Fernando de Pamplona .Fonte Livraria Tavares Martins, Porto, 1947.

jul 102010
 
vaso-grego

A Grécia – Arte Grega Antiga

Pierre du Columbier – História da Arte

Tradução de Fernando de Pamplona .Fonte Livraria Tavares Martins, Porto, 1947.

Reserva feita da opinião dos que sustentam — será acaso um paradoxo? — que a arte grega nunca cessou de viver pois que inspira ainda hoje toda a Europa, esta arte teve uma existência bastante breve. Durou praticamente do vil século até cerca do ano 150 antes de Jesus Cristo, até à conquista romana. O seu domínio também foi relativamente limitado: Grécia propriamente dita. Asia Menor e Grande Grécia.

Mas a sua duração global dá uma ideia bastante imperfeita dos fenómenos ocorridos: importa ter em consideração épocas em que o movimento se acelera; menos de cem anos bastam para passar do Triplo ATereuáo Hecatompédon às esculturas de Parténon.

Ainda que haja sempre algum artifício em nos exprimirmos desta maneira (porque supomos implicitamente nos predecessores, um trabalho preparatório de que não têm consciência e nos sucessores uma noção de decadência que lhes é estranha), a arte grega, por consenso unânime, atingiu uma época de apogeu que se situa no século v e mais especialmente na sua segunda metade, em que se construiu e decorou o Parténon de Atenas. Aqui, tal linguagem justifica-se, porque a Grécia foi, antes de tudo, criadora de tipos em número restrito, e, para bem apreender esses tipos há que fixá-los no instante em que revelam o seu carácter mais completo e mais puro.

Como as dos Egípcios, as suas criações pertencem à arquitectura e à escultura, à falta da pintura, cujo reflexo só podemos surpreender vagamente nas superfícies dos vasos.

Templos gregos 

O templo grego é um edifício extraordinariamente simples. Esquematicamente, é constituído por uma caixa paralelipipédica {naos em grego; cella em latim) e por uma colunada (peristasis) que o rodeia. O edifício é recoberto por um telhado de duplo declive, que confina, à frente e atrás, com dois frontões. Existem, sem dúvida, variantes: sobretudo quando o templo é pequeno, a colunada pode desenvolver-se apenas numa das fachadas (templo prostilo); por vezes, situa-se entre as longas alas laterais, ou antes do naos (templo m antis). No entanto, encontramos aqui o essencial.

As dimensões deste templo são modestas. Na mesma escala que Nossa Senhora de Paris ou São Pedro de Roma, o Parténon é muito pequeno. Os Gregos não sofreram a atracção do colossal e os seus edifícios mais vastos encontram-se sobretudo nos confins, na Sicília ou na Asia por exemplo.

Estes edifícios brotaram pois dum jacto, em poucos anos, completos e fechados em si mesmos. As ampliações, os acrescentos são raros, e uma irregularidade de planta como a do Erechtéion justifica-se por condições excepcionais: forma do terreno ou necessidade de conservar algum antigo santuário.

A planta habitual, das mais elementares, não brilha sobretudo pela lógica, qualquer que seja a opinião dos nossos contemporâneos. Querer explicar a colunada pelas necessidades do culto não passa dum gracejo, porque esta colunada não faculta espaço suficiente para uma procissão. Colunada e naos são aliás construtivamente separadas e a ruína duma não acarreta a ruína da outra, como é fácil de verificar. O interior da naos é dividido em naves por colunas, muitas vezes sem grande necessidade e sem que, do exterior, isso se note.

O sistema de construção não obrigou a grandes estudos: é a arquitrave, trave de pedra horizontal, que se coloca ao cimo de colunas verticais. Em contrapartida, a técnica adoptada revela-se em extremo cuidadosa: uma talha perfeitíssima das pedras permite obter juntas extremamente lisas e delgadas.

Distingue estes edifícios um sentido requintado das proporções. Problema misterioso como nenhum outro. Esses pesquisadores apaixonados que foram os Gregos tiveram a preocupação de lhe dar expressão matemática — e o cálculo parece ter-lhes importado mais do que a construção gráfica. Todas as partes dos edifícios são geralmente comensuráveis em relação a uma comum medida, o módulo, que é muitas vezes o raio médio da coluna. Importa também não exagerar este rigor, como o fez Vitrúvio, cujos informes não oferecem garantias: há templos em que a teoria modular falha por completo; ela pode salvar-se em todo o caso, graças a um hábil arredondamento dos números. No sentimento de satisfação que nos dá o edifício, não se deverão ter também em conta as suas dimensões absolutas? Porque um templo, com o mesmo sistema de proporções, não se deixa ampliar arbitrariamente. Demais, o que nós consideramos absoluto é apenas relativo no que respeita às nossas próprias relações. No entanto, se se sustentar que o homem é a medida da arte grega, não se deve também tomar esta ideia num sentido estrito: os degraus que rodeiam o templo são muitas vezes demasiado elevados para que nós possamos subi-los sem custo.

A subtileza é aliás levada muito além da simples rebusca das proporções: certos requintes gregos são por assim dizer clássicos: o perfil das colunas, a sua inclinação para o interior, o aumento do diâmetro das que estão nos ângulos, a ligeira inflexão das linhas horizontais. Procurou-se explicar tudo isto pela necessidade de corrigir certas ilusões de óptica: esta teoria preguiçosa, encontrámo-la já em Vitrúvio. Mas, em fim de contas, a pretendida correcção ultrapassa largamente o que seria preciso, é mais aparente que real. Somos pois obrigados a tomá-la pelo que ela é, •pela manifestação duma vontade de artista que produz talvez essa impressão de «vida» que irradiam todos os monumentos gregos.

Estes templos são decorados muito sobriamente. Só admitem •escultura de figuras em pouquíssimos pontos: nos frontões e numa parte do entabelamento. Mas aquilo a que se poderia chamar o -relevo ornamental é objecto de cuidado extremo: nervuras e enquadramentos de perfis muito variados (molduras de cornija) modulam a luz. Os elementos de decoração propriamente ditos devem mais à geometria do que ao reino natural: a « grega » pertence à primeira categoria, as palmetas e as rosáceas à segunda, mas a transformação, a estilização são tão fortes que quase se -esquece o modelo vegetal.

Que a arquitectura grega fosse uma arquitectura pintada, eis o que admitimos muito dificilmente, acostumados como estamos a saborear a severa beleza da pedra nua. Não há, porém, outro remédio senão aceitar tal ideia. Sabemos ao menos que a pintura dos templos não era uma pintura imitativa: adoptava grande simplicidade de elementos e tons simples também, o vermelho, o azul, o ocre principalmente. Não esqueçamos ainda os metais e essa espécie de «suco» muito discreto, a que se chamava a ganosis e se aplicava em particular nas carnações.

Ordens

Os dois tipos essenciais da arquitectura grega e, por assim dizer, da arte grega inteira, que tudo neles se contém — são o tipo dórico e o tipo jónico. Tem seu quê de sedução ver neles a oposição de duas raças, que se podem, em bloco, localizar mais ou menos geograficamente: os Dórios, invasores vindos do Norte e espalhados sobretudo na Grécia propriamente dita e em particular no Peloponeso; e os Jónios, escorraçados por eles e instalados de preferência nas regiões marítimas da Asia# Em rigor, isto é bastante relativo: havia, por exemplo, muitos Dórios na Asia Menor. E não se deve exagerar uma antítese, em que se quis com demasiada insistência encontrar a chave da arte grega, entre o espírito jónio, amante do ornato, um tanto feminino, tocado de moleza asiática, e o espírito dório, mais rude, mais duro, mais seco. Haveria grande embaraço para encontrar a expressão pura dum e doutro. As contaminações são numerosas. Mas a distinção entre as duas tendências será sempre cara aos historiadores, pois lhes dá facilidades de exposição consideráveis.

Artisticamente falando, trata-se de duas ordens, isto é, de dois sistemas coerentes, em que as diferenças de elementos pesam talvez menos que o seu modo de associação. E, se se definem pela com binação coluna-entabelamento, é porque aí a diferença se torna particularmente acentuada.

A ordem dórica (fig. 7) é de carácter condensado. A coluna canelada, geralmente sem base, tem largura bastante considerável em relação à altura. O capitel alarga-se num equino, espécie de coxim intermédio, encimado por uma placa ou ábaco quadrado. O entabelamento consta duma arquitrave nua, dum friso composto duma alternância de superfícies quadradas e triglifos, e duma cornija. Os triglifos são, sem dúvida, uma reminiscência das antigas traves de madeira que se encontravam no aprumo das colunas. Elas têm divisões verticais tripartidas, abaixo das quais estão suspensos pequenos ornatos esféricos. Assim, de arquitectura de madeira, os gregos extraíram um motivo que transpuseram admiravelmente na pedra. Quanto às superfícies quadradas, dispostas isoladamente, é nelas que se concentra a escultura. O uso do enta-belamento dórico acarretou para os Gregos problemas delicados como era do seu gosto resolvê-los: o da superfície quadrada do ângulo e da sua sobreposição à coluna.

 

Mais ornado e sobretudo mais esbelto pelas proporções das suas colunas providas duma base bastante alta, a ordem jónica apresenta um capitel com volutas; estas, de princípio, desenvolvem-se em dois planos paralelos e, mais tarde, dispõem-se também segundo as diagonais dum quadrado. O entabelamento está longe de possuir a constância do dórico; nem sempre tem friso; mais frequentemente, e sobretudo na Asia, apresenta um friso contínuo.

Houve muito tempo o costume de distinguir ainda uma terceira ordem, a coríntia, mas ela não deve de forma alguma ser separada da jónica, de que não difere nitidamente nem pelas proporções nem pelo sistema geral. Para a caracterizar devidamente, não há senão o seu capitel riquissimamente ornado de folhas de acanto, as mais altas das quais se enrolam em volutas.

O capitel sofreu aliás, sobretudo nas épocas de decadência, • outras modificações mais ou menos felizes, de que só resultou uma sobrecarga ornamental.

FiG. 8

ordem Jónica (segundo Auguste Choisy)

Enfim, em alguns monumentos, as colunas foram substituídas por figuras femininas chamadas Cariátides, que apareciam já em tempos muito antigos em pequenos edifícios como o tesoiro de Sifnos, para atingir a sua mais bela expressão no Erectéion.

Se se tiver em conta a faculdade de imaginação num povo artista e curioso, tais variantes suscitam pouca estranheza. Esta resulta antes da preponderância dos tipos puros; demais ô trabalho das pesquisas, levado ao extremo, efectuou-se de preferência dentro de estreitos limites.

Arquitectura Clássica Grega Antiga

Para escrever a história da arquitectura grega, restam bem poucos monumentos. A evolução que fez derivar o templo do «megáron» micénico é conjectural, apesar da sua verosimilhança. O facto é que esse «megáron» parecia-se já muito com o templo in antis, mas, anteriormente ao século vi, não possuímos senão restos quase informes. Pode verificar-se todavia que, antes de 700, no Heraeon de Olímpia, cujas colunas de madeira foram pouco a pouco substituídas por colunas de pedra, o templo dórico achava-se mais ou menos constituído.

Não é na Grécia propriamente dita que se devem procurar os primeiros monumentos poupados pelo tempo, mas na sua colónia da Grande Grécia, onde se encontra um grupo homogéneo de templos dóricos, os mais antigos dos quais datam do século VII: — os de Selinonte e sobretudo os que se distinguem pelas letras C e D, maciços, de dimensões relativamente consideráveis, são os mais antigos. Demais, as construções continuam até pleno século v, sem grandes modificações, a não ser a maior altura dos edifícios, seja em Selinonte (templos A e B), em Segesto, em Agrigento na Sicília, seja em Paestum (templo de Poséidon), na costa italiana.

O que resta na Grécia encontra-se muito mais mal conservado: o templo de Apolo em Corinto, por exemplo. Mas. no lugar sagrado de Delfos, ergueram-se então pequenos edifícios ou« Tesouros», que são, em suma, reduções de templos. Citámos já o de Sifnos. com as suas Cariátides e os seus importantes frisos. O dos Atenienses foi piedosamente reconstituído. Propriamente em Atenas, o primeiro Hecatompédon (o que quer dizer: templo de cem pés) só subsiste pelas suas esculturas.

Para acompanhar a primeira evolução do estilo jónico na Ásia Mener, os nossos documentos são também tão raros como pobres e acontece justamente que o templo mais bem conservado é o de Assos, que pertence à ordem dórica, mas que contém, por excepção, um friso contínuo.

Desde o princípio do século V, a Grécia propriamente dita afirma a sua proeminência com os templos de Afaia em Egina (cerca de 490), de Zeus em Olímpia (cerca de 460), hoje arruinados, e de Apolo Epikómios em Figália, o que melhor se preservou da acção do tempo. E, muito pouco depois, Atenas, a Atenas de

Péricles (461-429), levanta na colina da Acrópole os edifícios que a tornaram para sempre ilustre: o templo dórico do Parténon (447-432), cujos arquitectos foram Calícatres e Ictinos; os Propileus (437-432), devidos a Mnésicles, que formavam a majestosa entrada dum conjunto ao mesmo tempo irregular e único no Mundo; o pequeno templo jónico da Vitória Aptera; e enfim o Erectéion (421-407), cuja demorada construção se explica por um incêndio.

Observou-se muitas vezes, que o Parténon, esse modelo do estilo dórico, figura aqui a título de monumento um pouco excepcional, pelo número das suas colunas (são oito na fachada), pela esbelteza delas, pelo friso contínuo que corre no exterior da naos. enquanto o friso da colunada conserva a alternância das superfícies quadradas e dos triglifos.

A preponderância ateniense é então indiscutível. Na própria cidade, levantam-se então ainda o Odéon, que desapareceu, e o Pseudo-Teséion, quase contemporâneo do Parténon, mas sem o fulgor de génio que ilumina este. Ao redor, encontram-se os templos que se podem dizer do grupo ático — o de Elêusis; o do Cabo Súnion, consagrado a Poséidon e cujas colunas enobrecem ainda hoje uma admirável paisagem.

Mas, no século iv, diminui o papel de Atenas, enfraquecida pelas guerras. O das cidades da Ásia Menor, mais poupadas, aumenta, e, com as conquistas de Alexandre, as influências orientais, ir-se-ão avolumando. Tornam-se fatigantes as formas rígidas do templo clássico e ensaia-se a forma redonda, que se encontra, por volta de 335, no Filipéion de Olímpia. Porque as obras mais felizes da época não são de forma alguma templos, mas sim edifícios com destino diferente: o teatro de Epidauro, o mais majestoso e mais bem conservado de todos, ou, ao invés, pequenos monumentos votivos, como o de Lisícrates em Atenas (334). As grandes empresas pertencem sobretudo à Ásia e nelas se nota uma grande desarmonia, do todo estranha aos Gregos da grande época. A massa gigântea do Mausoléu de Halicarnasso encheu de assombro os contemporâneos. Priena, Magnésia do Meandro, Trales cobriram-se de templos. Efeso, incendiada, viu levantar-se. depois de 356, o vasto Artemísion.

Escultura na Grécia Antiga

Poder-se-iam escrever duas histórias muito diferentes da escultura grega. Uma delas ocupar–se-ia dos testemunhos de escritores e de guias, dos informes biográficos, a outra far-se-ia em torno dos melhores monumentos que chegaram até nós. Elas encontrar-se-iam em pouquíssimos pontos, por exemplo no Parténon, e quando se trata de obras que decoraram alguns edifícios ilustres. A primeira, conhecemo-la quase exclusivamente por cópias romanas. E forçoso confessar que há nisso algo de insólito. Habitualmente, em arte, pedem-se às cópias informes sobre a época em que foram executadas e não sobre uma época anterior. Por isso a escultura grega conhecida através dos textos nos causa numerosas decepções. Ora a outra é quase estritamente anónima. E uma surpresa quando a identificamos e tal identificação nem sempre é feliz, como se viu relativamente ao Hermes de Praxíteles.

Os méritos essenciais das estátuas gregas residem incontestavelmente no seu movimento e no seu modelado. Mas importa explicar o que se entende por movimento. Trata-se tanto do movimento «actual» que não tem necessidade de ser definido como do movimento «potencial», isto é, duma espécie de movimento «no repouso», da qualidade dum corpo susceptível de se mover; trata-se, em suma, também desses desiquilíbrios subtis que respeitam ao tónus muscular. Certos estetas empregaram a palavra ritmo, que evoca especialmente uma analogia. Compreendemos, por exemplo, que o corpo nunca repousa igualmente sobre as duas pernas. Há uma delas que suporta mais peso e daí resultam, quanto à posição duma das ancas e quanto à tensão de todos os músculos, concordâncias que os Gregos souberam observar e exprimir.

No que respeita ao modelado, não se deve perder de vista que os Gregos não tiveram, como os Egípcios, a paixão das matérias duras; como pedra, eles trabalharam sobretudo o calcáreo mole e um mármore finíssimo, dócil ao ferro dos lavrantes. Para eles, a matéria privilegiada e de certa maneira aristocrática da escultura é, sobretudo, o bronze e, por consequência também, o barro ou a cera mole, sobre os quais se opera a fundição.

Embora as suas estátuas e os seus baixos-relevos tenham sido concebidos muitas vezes para edifícios, não se pode sustentar que a rebusca do efeito monumental tenha marcado predomínio. Conquanto a arquitectura lhes sirva de enquadramento, os Gregos não admitem que a escultura deva sacrificar-se-lhe: importa que ela se integre no conjunto sem constrangimento e sem ter de se deformar. Ou, pelo menos, a deformação, quando a ela recorrem, não deve perceber-se. Por isso triunfaram na arte difícil do baixo-relevo, em que o pouco afastamento do plano do fundo obriga a recorrer a efeitos de ilusão que não diferem extremamente dos da pintura.

A sua curiosidade tem por objecto exclusivamente o homem. Relativamente aos Egípcios, eles são animalistas medíocres ou negligentes, excepção feita para o cavalo, que completa o homem e cuja nobreza eles traduziram, Mas pensaram que o homem nu, mais tarde a mulher nua, constituíam um reservatório inesgotável de formas. Enriqueceram-no no entanto pelas roupagens, cuja união com 0 corpo é, nas suas obras, algo de absolutamente novo. Fizeram destas as companheiras submissas do movimento, que sublinham e por vezes completam. Para que o vínculo seja mais íntimo, imaginaram empregar tecidos muito leves e molhados, de tal sorte que os colassem às formas, desenhando pregas muito finas, o que representa uma convenção escultural muito mais rebuscada do que a dos Egípcios, para os quais o vestuário ora se cingia servilmente ao corpo, ora por completo se desligava dele. Quem queira verificar, num relance de olhos, os recursos que o escultor grego pode tirar das roupagens não tem senão que olhar uma das duas obras–primas: a Vitória a atar a sandália, com o feixe harmoniosamente inflectido das pregas que unem a perna assente no chão e a perna levantada, ou a Vitória de Samotrdcia e o glorioso frémito de voo do seu vestido flutuante.

Enfim, sem insistir demasiado no carácter impessoal da escultura grega, seríamos incompletos se a não mostrássemos mais ávida do geral que do particular, menos curiosa de exprimir os traços individuais dum homem ou de mulheres do que de criar um tipo de homem ou de mulher e, por consequência, tão atenta e talvez até mais atenta ao corpo do que ao rosto.

Seria tentador admitir que a relativa calma de que gozou a Ásia, protegida da invasão dórica, permitiu que a herança minóica se transmitisse aos Gregos. Mas nenhum documento permite formular tal hipótese e, demais, a cadeia dos monumentos mostra-nos um povo que parte do zero e que tudo «recomeça3».

A falta de conexão entre as artes plásticas e a arte literária não é assunto de pequenas surpresas. Por volta do século VII, quando Homero já maneja uma língua firme e plasma personagens, aplicando-lhes epítetos que os diferençam mal, os escultores esboçam o informe Apolo Tyszkiewicz. Há que esperar até ao século vi, para que a escultura saia do limbo.

Sem negar de forma alguma o carácter mágico indubitável das antigas estátuas, convém observar que a religião grega, que fez nascer as primeiras representações plásticas, não entravou nem por sombras, ao contrário de muitas outras, o seu desenvolvimento. O seu antropomorfismo é tão resoluto que não se poderiam, na Grécia, distinguir os homens dos deuses.

Outro factor favorável consiste na consideração em que em breve foram tidos os artistas. Modelar uma estátua não é trabalho de escravo, mas de homem livre.

Curos e Coré 

Será esta a razão por que o desejo de aperfeiçoamento de requinte anatómico se manifestou aqui mais rapidamente do que noutros pontos? As pesquisas da estatuária mostram certa independência, ou melhor, uma espécie de gratuidade. Não é de forma alguma evidente que o templo tenha precedido a estátua e que a segunda haja sido destinada a decorar o primeiro. Dois tipos evoluem simultaneamente, ao que parece, para o exclusivo prazer daqueles que os criam e daqueles que os olham: o Curos, mancebo nu, a Coré, jovem mulher vestida. Nenhuma rebusca de originalidade na atitude: o Curos tem os braços estendidos ao longo do corpo e estaria na posição de alerta se o avançar duma perna lhe não fizesse esboçar um movimento de que os Gregos hão-de tirar melhor partido do que os Egípcios, com as estátuas dos quais se aparentam certas obras helénicas primitivas. Porque o desequilíbrio criado pela desigualdade de função das duas pernas, a que suporta o peso do corpo (a que os Alemães chamam «Standbein») e a que se encontra aliviada desse peso (chamada «Spielbein» pelos mesmos) será a origem verdadeiramente decisiva das observações do artista. Graças a elas, este poderá quebrar a lei da frontalidade. Destes mancebos esbeltos, de largas espáduas, cujo contorno, quando os olhamos de frente, é feito de uma linha contínua que se alarga para o alto como uma ânfora, existem numerosíssimos exemplares em quase todos os museus. Classificam-se (conquanto se não devam de forma alguma desprezar os avanços e os atrasos de escolas) segundo a execução constantemente melhorada de certos pormenores anatómicos, como a rótula ou a virilha, ou o peito, que, primeiramente esquematizado pela gravura, se modela pouco a pouco, à medida que o jogo dos músculos se torna mais verdadeiro e que a simetria se aligeira. Os melhores destes Curos devem ter vindo das ilhas; nenhum aparece anteriormente ao começo do século vi e a respectiva série prossegue até ao romper do século v. O belo Moscóforo, de mármore do Himeto (Museu da Acrópole), que data do segundo quartel do século vi, pode considerar-se quase como sendo um deles. Os seus braços soberbamente musculados, musculados até em demasia, quase com ostentação, erguem-se simetricamente para segurar as patas dum bezerro destinado ao sacrifício. O rosto, desenhado com vigor impessoal, dá todavia forte impressão de vida, emoldurado pelos cabelos anelados e pela barba lisa. Muito mais expressiva, cheia duma espécie de alegria e até de jactância, é a Cabeça Rampin do Louvre, que recuperou toda a sua altivez desde que a repuseram no seu antigo lugar, sobre o torso dum cavaleiro.

Quanto às Cores, o que se sabia a respeito delas perdeu todo o interesse, desde o miraculoso achado de 1886, na Acrópole, que trouxe à luz um vasto grupo quase intacto. Vestidas em geral à antiga, com uma túnica Ou «chiton» e um chaile ou «himation», as mais velhas provêm, sem dúvida, das Cidades, as mais recentes da Ática. Quanto à feminilidade do seu corpo, que parece ter sido negada com alguma imprudência, o tecido forma pregas que se desprendem com alguma secura e cujo aspecto, em si, não é mal compreendido; no entanto, tra-a-se dum ornato, realçado ainda pelas cores que as estátuas conservaram, e não dum acompanhamento da atitude: a notação do movimento não foi levada tão longe como nos Curos.

O que nelas parece ter mais seduzido são os rostos. Estes conservam ainda muitas convenções do arcaísmo e, em primeiro lugar, o famoso sorriso, a que haviam chamado eginético antes de se conhecerem as experiências anteriores. Ele é comum aos homens e mulheres e, sem dúvida, constitui apenas uma primeira aparência da vida. Mas esta convenção de forma alguma torna as suas expressões uniformes. Há-as rústicas, frias ou tocadas de espiritualidade e uma das mais recentes, a que se chamou «a enfadada», tem já o perfil das estátuas áticas da grande época.

O progresso do Curos e da Coré faz lembrar um estudo de laboratório. A decoração dos edifícios, a elaboração do grupo monumental suscitaram problemas que foram resolvidos ao mesmo tempo. Já se disse que os escultores gregos nunca admitiram que o monumento os escravizasse. Ornar uma superfície, sim, mas não à custa da verdade que eles procuravam. As superfícies de forma longa — frisos ou padieiras — eram, afinal, relativamente fáceis de encher de desfiles repetidos, análogos aos desfiles orientais. O que se encontra a este respeito no templo de Prínias. em Creta (Museu de Cândia), onde se vêem um friso de cavaleiros e uma padieira ornada de animais, é em extremo grosseiro e monótono. O que nos deu a Ásia Menor, tanto no monumento das Harpias (Museu Britânico) como no templo de Assos (Museu do Louvre), não é superior, a despeito dum aborrecido desejo de correcção. Muito mais notáveis são as esculturas dos dois tesoiros encontrados em Delfos, embora de origem muitíssimo diferente. Um deles, o de Siciónia, decorado, sem dúvida, por volta de 550, revelou-nos algumas superfícies quadradas ou métopes, a melhor das quais mostra os Disscuros e as Idas com os bois da Messénia. Apesar do excesso de paralelismo, a franqueza agrada e o movimento de marcha é traduzido com felicidade. Muito lavrado, como um cofre de ourivesaria, o tesoiro dos Sifnianos é um dos monumentos mais bem conservados da Grécia. O seu friso testemunha o cuidado de variar a composição e também de narrar uma história. O grupo da Assembleia dos Deuses, a despeito da magreza de algumas figuras, deixa prever a obra-prima que será o friso do Parténon.

Em Selinonte, a segunda série das métopes tem ar caricatural ao pé desta arte requintada dos Jónios. Perseu e a Gorgona sua vítima, monstro hilare, estão um e outro colocados de frente, como diante do fotógrafo. Era tratar com muita audácia e quase com inconsciência dificuldades que o escultor seria incapaz de resolver. Não lhe falta contudo energia, até turgidez de estilo, e há que reconhecer-lhe o mérito de ter compreendido que, numa métope, a composição devia ordenar-se em relação a um centro.

O aspecto cómico é mais acentuado ainda nas estátuas de pedra macia com iluminuras do primeiro Hecatompédon (cerca de 570). O corpo tortuoso duma serpente sugere motivos fáceis para guarnecer os ângulos agudos dum frontão. Este monstro de três cabeças, sem nada de aterrador, constitui um bom espécime de arte popular.

Se tivéssemos podido conservar fragmentos mais importantes da Gigantomaquia que ornou, cinquenta anos depois, o segundo Hecatompédon, o progresso da escultura ática surgiria sem dúvida ante os nossos olhos de maneira mais satistatória, porque o Encelade abatido por Atena é já um belo nu, embora um pouco rígido, e a composição piramidal do grupo dá mostras duma ciência adiantada (Museu da Acrópole).

Por volta do princípio do século V, dá-se um grande passo. Tão importante como aquele que franqueia o intervalo entre esta época e a de Fídias. O primeiro dos dois dá-nos todavia a impressão de ter um carácter mais colectivo.

Período pré-clássico 

Surgem então magníficos conjuntos monu mentais, dois dos quais, relativamente bem conservados, testemunham a favor dos outros: o de Egina (cerca de 480) e o de Olímpia (cerca de 460). Os frontões de Egina encontram-se, na sua quase totalidade, na Glipoteca de Munique. A despeito de algumas diferenças entre os dois frontões — o de leste é um pouco mais recente — o mesmo espiritó os informa. Subsistem certas dúvidas acerca da designação dos temas, mas, no fundo, pouco importa que Atenas assista à luta entre Gregos e Troianos ou entre Laomédon e Heracles. E impressionante o contraste entre os rostos, que conservaram a impassibilidade arcaica ou o sorriso eginético, e os corpos secos, e nervosos, pouco modelados no pormenor, duma tão extraordinária precisão de movimentos. Certa magreza de perfis, certa pequenez resultam sem dúvida das próprias dimensões, inferiores às do homem. No estado actual das coisas e se se tiverem em conta restaurações muitas vezes arbitrárias, torna-se difícil apreciar a composição. Vê-se todavia o bastante para adquirir a certeza de que cada personagem é tratada por si própria e completamente separada das outras, mas o artista prima já em escolher na diversidade das atitudes (guerreiros que correm, se ajoelham para disparar o arco, tombam mortos) as que melhor guarnecem a superfície triangular.

O conjunto de Olímpia divide-se desigualmente entre o Museu desta cidade, que guarda os restos dos dois frontões e uma parte das métopes, e o Museu do Louvre, que possui a outra parte destas. Representam elas as façanhas de Heracles, enquanto os frontões tratam dos preparativos do concurso de carros entre Pelops e CEnomaos e o rapto pelos centauros das mulheres dos Lapitos. Tudo é movimento, e movimento que se prolonga na imaginação, em vez de se deter, de se imobilizar numa atitude, como sucede em Egina. Além disso, a arte do agrupamento é levada muito mais longe; até quando o artista passa a cultivar a estatuária, as personagens empenham-se em acções que as ligam entre si e cavalgam umas sobre as outras. Membros de musculatura quase túrgida, volumes simplificados talvez pór causa da cor que os recobria. Os peitorais dilatam-se, como se os heróis tivessem um excedente de força a dispender. E todavia o mais belo fragmento desta obra–prima é ainda o Apolo do frontão oeste, cujo braço ordena tão solenemente que parece ao mesmo tempo querer apaziguar.

Este primeiro período, ainda agreste, do classicismo grego é na verdade muito rico em trechos de qualidade excepcional. De entre os destroços de monumentos, são as métopes, com seus altos-relevos quase estatuários do Tesoiro dos Atenienses (Museu de Delfos), consagrado logo após a Maratona e sobretudo os baixos-relevos do Heraeon de Selinonte (Museu de Palermo), em que um resto de rigidez não exclui a singular felicidade da composição. Se nós não conhecemos senão por uma cópia, aliás bastante notável (Museu de Nápoles), o grupo de Harmodius e Aristo-giton, «Os Tiranoctones», erigido em 477, e se mal temos assim a concepção geral dum grupo em volta, do qual se pode girar, o certo é que conseguimos pelo menos descobrir alguns bronzes preciosíssimos — incontestáveis quanto ao seu valor de originais. Eles vão desde o Apolo de Piomòino, do Louvre, cujo gordo modelado tem certa vulgaridade e que data do princípio do século v, ao Auriga (Museu de Delfos), que é, pelo contrário, duma elegância seca (cerca de 475), ao prodigioso Zeus Tonante de Histieia, de majestade verdadeiramente olímpica, saído recentemente das profundezas marinhas, e ao encantador, talvez demasiado encantador, Idolino de Florença, que já não denuncia nenhum vestígio de arcaísmo. Quanto ao Homem que tira os espinhos, o «Spinario», já exerceu demasiada sedução por sua graça requebrada, a tal ponto que só o vemos através das imitações de gesso que se vendem por toda a parte.

Importa fazer menção particular de alguns baixos-relevos que prolongam o estilo das Cores da Acrópole, estilo a que se chamou jónico, um pouco tocado de moleza asiática, e que vai revestir a apurada elegância da Atiça. No Louvre encontra-se o fragmento a que se deu o título delicioso e erróneo de Exaltação da Flor. O relevo é pouco vincado. Um paralelismo exagerado das dobras, o carácter quase cortante do desenho, não destroem a poesia desta multidão de mãos que lembra uma oferenda. Certamente muito mais tardia (data-se em geral das proximidades de 460), a obra–prima chamada o Trono Ludovise (Museu das Termas em Roma), oferece-nos um tema misterioso e plenamente feminino. A arte de ilusão que é o baixo-relevo não poderá nunca ir mais longe, em particular na figura nua da tocadora de flauta, cujas pernas o escultor teve a audácia de cruzar, brincando assim com a dificuldade — e admirar-se-á também como as linhas da almofada em que se apoia a mulher acompanham o movimento do seu corpo. A despeito da precisão do desenho, as passagens duns planos aos outros fazem-se com extrema doçura.

Data-se hoje mais ou menos da mesma época a Vénus Esquilma (Palácio dos Conservadores, era Roma). Mas esta pequena Vénus das encruzilhadas, esta linda codorniz, decaída aliás por obra dos arqueólogos da sua qualidade de deusa, com o seu modelado gordo, não deverá porventura muito ao copista tardio que no-la conservou ?

Neste meado do século v, na época que precede imediatamente o apogeu, os dois artistas de maior nomeada chamam-se Miron e Policleto. Mas a homenagem que nós lhes prestamos é na verdade uma homenagem histórica, porque nenhum original da sua maneira artística logrou ganhar o nosso assentimento com inteira franqueza. Diferiam muito um do outro: Miron de Eleutero afirma-se sobretudo escultor de movimento. O seu Discóbulo, cuja popularidade é atestada por inumeráveis cópias, dir-se-ia uma façanha perante a qual somos forçados a inclinar-nos, mas sem grande entusiasmo. Policleto de Argos constitui o perfeito coroamento dos estudos dos Curoi. Grande rebuscador de proporções, de medidas, ele soube dar ao éfebo toda a vida que uma posição estável pode comportar. Infelizmente nenhuma das cópias do seu Diadumeno ou do seu Doríforo emana dum grande artista.

Fídias

Enfim, chegou Fídias e podemos confrontar os textos com obras. Uma só vez, é certo. Com este mestre, o trabalho de reconstituição das estátuas mais célebres graças à utilização das cópias esbarra com dificuldades ainda maiores do que com qualquer outro. Não poderemos nunca fazer reviver a Lémnia, nem a colossal Atena Promacos (combatente, nem o Zeus de Olímpia, mais apreciado pelos contemporâneos do que todas as outras obras. E, se tivéssemos de fazer um juízo através das imitações reduzidas que chegaram até nós, a própria Atena Pártenos, a famosa estátua de marfim e ouro, não suscitaria, de forma alguma, o nosso entusiasmo. Mas temos as esculturas do Parténon. Se este enorme conjunto, executado de 447 a 432 aproximadamente, não pode tomar-se como obra dum só e se apresenta demais certas desigualdades, é contudo bastante homogéneo para nos fazer admitir com certeza a direcção constante e atenta e provavelmente até — em muitos pontos — a intervenção manual dum génio único.

Esta decoração abrangia, nos dois frontões, grupos de estátuas: Nascimento de Atena e Luta entre Atena e Poseidon. O Museu Britânico guarda o que deles resta: corpos, com uma única excepção, decapitados, enquanto uma cabeça, a «cabeça Laborde», está no Louvre. Em volta da naos, sob a colunada, corria um friso contínuo, a Procissão das Panateneias, cuja maior parte se encontra também no Museu Britânico. Enquanto, no local, resta ainda um fragmento, outro fragmento veio parar a França. Quanto às métopes, no exterior, que mostram os combates dos Centauros e dos Lapitos, desapareceram em grande parte e o que delas resta encontra-se no próprio monumento ou nos museus.

A dificuldade que tinham tido os artistas arcaicos para se adaptar ao formato triangular do frontão é facilmente dominada pelo recém-vindo, como se este não tivesse sequer consciência de que tal dificuldade pudesse existir ou como se ela só contribuísse para sobre-excitar a sua faculdade criadora. Basta contemplar as três mulheres sentadas tradicionalmente e falsamente chamadas as três Parcas: possuem o movimento ascendente, no espaço como no tempo, se assim ousarmos exprimir-nos; passam da posição deitada à posição sentada, como se despertassem pouco a pouco. A desenvoltura da atitude iguala a amplidão dos corpos. As roupagens, ondulam como a vaga, em dobras apertadas mas ainda assim bastante amplas e, em caso nenhum, coladas ao corpo. O desenho da excepcional cabeça Laborde constitui esse definitivo triunfo: o nariz prolonga directamente a fronte, a distância entre o perfil e a orelha é considerável, o lado superior descreve um arco absolutamente puro, enquanto o inferior, largo sem ser gordo, fica ligeiramente contraído, as massas de cabelos agrupam-se com tanta força expressiva e com tanta simplicidade como as dobras dum panejamento.

O friso representa a juventude. Em todos estes mancebos que se preparam para se escarranchar nas suas montadas e cavalgam em grupos separados para chegar ao galope final em atitudes bem erectas, lê-se uma expressão de segurança e, a bem dizer, de conquista do Mundo. A teoria das donzelas que se chamam as Ergas-tinas (Museu do Louvre) permite-nos compreender melhor que Fídias tenha sido proclamado mestre do estilo severo. Há em toda a largueza do movimento justo um mínimo de rigidez para que nada fique desordenado, uma preocupação do paralelismo das dobras e do paralelismo dos membros, um gosto de repetição quase cadenciada.

Destes baixos-relevos do Parténon é costume aproximar alguns trechos escultóricos de qualidade aproximada e sensivelmente contemporâneos.

Talvez ligeiramente anterior (mas estas classificações cronológicas têm apenas um valor relativo e pode acontecer que um temperamento de artista baste para alterar por completo tais noções), o grupo de Demetér, Triptolemo e Coré, que provêm de Elêusis (Museu Nacional de Atenas) ; posterior pelo contrário, o grupo Hermes, Euridice e Orfeu (Museu de Nápoles), de composição já mais psicológica e dramática.

E no mesmo ramo, enfim, que se incluem certas obras encantadoras e de ambição modesta, em que se revela o signo duma época incomparável: as esteias funerárias, a mais ilustre das quais é a de Hegeso (no Museu da Cerâmica ), trecho que não tem o poder individualizado das grandes obras, mas vale pela pureza do estilo e pela justeza do sentimento.

A arte do Parténon frutificou maravilhosamente em Atenas, embora a supremacia política não tenha sobrevivido a Péricles. Filhas duma época sombria, as Cariátides do Erectéion, que devem ter sido esculpidas por volta de 415, nada ficaram a dever às melhores estátuas. Com a robustez necessária para assinalar a sua posição de suportes (de frente, inseri-las-íamos quase exactamente num rectângulo), elas permanecem no entanto vivas, graças ao belo desiquilíbrio provocado pelo avanço da perna exterior, cuja coxa e cujo joelho armam docemente o vestido.

Mais garridas mas menos majestosas, as Vitórias do Templo de Atena Niké. Talvez nelas os efeitos de sombra careçam de discreção, mas o movimento da que aperta a sandália é um achado de génio, pela ideia de partida que invencívelmente desperta.

Fora de Atenas, a escultura desta segunda parte do século v nem sempre se mantém num nível elevado. Todavia, as escavações de Olímpia revelaram uma admirável estátua e tanto mais preciosa quanto é uma das raríssimas estátuas gregas cujo autor nós tenhamos a certeza de conhecer: a Vitória esculpida cerca de 425 por Peónios de Mendé. A convenção da roupagem molhada é aqui adoptada francamente. O leve tecido cola-se a um corpo robusto, sem que um excessivo alongamento acentue por artifício as características do voo. Haverá quem a aproxime da Nióbide ferida do Museu das Termas em Roma. Em contra-partida, o importante conjunto proveniente de Bassae, no Peloponeso, e que se vê no Museu Britânico não deixa, até certo ponto, de desiludir: o friso, com o combate de Amazonas, apesar de todo o esforço do escultor para diversificar os grupos, é bastante monótono e a arte do baixo–relevo desce aqui a um nível vulgaríssimo.

Arte na Grécia no Século IV a. C

Para os antigos, três nomes dividem entre si a glória no século vi: Scopas, Praxíteles, Lisipo. Scopas foi talvez o introdutor do patético nos rostos e existe um tipo de rosto que se chama escopásico: lábio superior contraído, lábio inferior a ressaltar numa expressão de amuo. Estamos já talvez próximos de Scopas nas ruínas do templo de Tegeu e, com maior certeza, nos despojos mais importantes, recolhidos hoje no Museu Britânico, do Mausoléu de Halicarnasso, do qual Scopas foi um dos decoradores, na companhia de Timoteos, Briáxis, Leocares. O sátrapa cariano Mausolo tinha morrido em 353 e a sua mulher Artemisa em 351. Não chegaram pois a ver o acabamento dum dos maiores túmulos que existem. Mas a qualidade das esculturas deixa um tanto a desejar: no friso, movimentado em demasia, as figuras são tratadas com muita mesquinhez. Quanto às duas personagens principais, provavelmente Artemisa e Mausolo, pretende-se atribuir-lhes o mérito de bons retratos, mas, na verdade, são em extremo banais. Ninguém pense aliás em reconhecer nelas a mão de Scopas.

Quanto a Praxíteles, que foi certamente, a julgar pelo número enorme de cópias que das suas obras se executaram, o tipo do artista popular, graças à lindeza excessiva, à moleza das carnes, à maneira demasiado suave de acariciar o mármore, terá porventura sido excessivamente atraiçoado pelos seus imitadores? E caso para o perguntar, se admitirmos que o Hermes do Museu de Olímpia provém da sua mão, e há fortes probabilidades para que assim seja. O grácil Sauróctono ou o Sátiro constituem aflitivos assuntos de relógios de sala e Praxíteles, com a sua Afrodite de Cnide, parece ter engendrado a sequela inumerável das Vénus Púdicas, cujos exemplares pululam pelos mais modestos museus, que, sem eles, se julgariam deshonrados. Não sejamos todavia injustos: o mármore do Capitólio apresenta, sobretudo de costas, um modelado gordo e voluptuoso que não deixa de ter seus méritos e importa em especial apreciar o feliz achado duma atitude que tanto agradou e que tanto há-de agradar ainda.

O mais jovem dos três, Lisipo, que foi o retratista oficial de Alexandre, parece haver sido dotado de temperamento mais viril. Todavia, não o conhecemos também senão por cópias, cuja fidelidade se torna difícil verificar.

Ainda neste capítulo, algumas obras anónimas ultrapassam largamente em valor absoluto estes reflexos de arte, a que só o nosso desejo de reconstituir a personalidade de alguns mestres nos fez atribuir crédito: o Demetér de Cnide (Museu Britânico) conserva a entoação gravemente religiosa da grande época. Quanto à Vénus de Milo (Museu do Louvre), certa indecisão na roupagem que veste a estátua das ancas para baixo de forma alguma impede que o torso flexível sem maneirismo, duma largueza de processos fora do comum, seja uma obra-prima dum modelado carnudo, sem molezas gordurentas. Uma comparação com a Vénus de Aries, obra praxiteliana em parte estragada pelo restauro que dela fez Girardon no século xvii, não é muito lisonjeira para esta. E, se estátuas que suscitaram uma admiração sem limites, como o Apolo do Belvedere (Museu do Vaticano) ou a Vénus de Medíeis (Museu dos Ofícios, em Florença), perderam o dom de nos emocionar, nem por isso ficamos menos sensíveis às suas qualidades de elegância. Quanto às famosas Nióbides de Florença, cuja celebridade as expôs a restauros muitíssimo discretos, nunca foram mais do que pesadas cópias de originais que nós imaginamos muito confusamente. E não devemos julgar-nos obrigados a admirações que se explicam facilmente pela penúria de originais de que dispunham os nossos maiores.

Período Helenístico

A morte de Alexandre o Grande, em 323, é geralmente olhada como o princípio duma decadência irremediável. Se a arte grega, graças às conquistas deste príncipe, se espalha até muito mais longe do que sucedera até então, certo é que se contamina ao contacto dos gostos estrangeiros, que passa muitas vezes para mãos de artistas menos requintados e que, para lisonjear um público pouco instruído, se rebaixa na procura de efeitos mais fáceis de pitoresco. Demais, possuímos talvez demasiadas obras deste período, que muitas vezes se mostro a inferior à época clássica e a imitou até ao esgar arcaizante. Os coleccionadores fazem a sua aparição e assim os príncipes de Pérgamo, de 197 a 159, mandaram executar como envasamento de altar o prodigioso conjunto da Gigantomaquia, orgulho do Museu de Berlim. Impossível apreciá-lo em função da arte de Fídias. Por certo há demasiadas complicações e demasiadas sobrecargas nesta obra desmedida, concavidades do mármore que originam manchas negras excessivamente brutais, um abuso dos movimentos violentos, das musculaturas hipertrofiadas. Não pode no entanto negar-se que há nele um grande sopro épico, uma força ostentatória mas esmagadora. Sentimo-nos mais impressionados por ele do que por um trecho isolado, embora da mesma veia, como o Gladiador ou Gaiata ferido (Museu do Capitólio), cuja origem é análoga, mas cinquenta anos anterior.

Evidentemente estas tendências escabrosas poderão ir até ao extremo mau gosto na confusa acumulação de elementos do Toiro Farnese (Museu de Nápoles) ou levar ao pior academismo no ilustre Lacoonte (Museu do Vaticano), que deixa vaticinar Lessing. E todavia não faltam nos nossos museus autênticas obras-primas que datam desta época relativamente tardia. Citemos, no dealbar do século III, a Vitória de Samotrácia (Museu do Louvre), arrastada por um impulso imortal e que não é indigna da sua antepassada, a de Peónios. Poderemos esquecer a Vénus de Cirene (museu das Termas), que denota uma sensibilidade muito superior à de um copista ? Como não lembrar enfim o vigor excessivo mas lírico do Torso do Belvedere (Museu do Vaticano), de que Miguel Angelo tirou boa parte do seu génio?

Depois, há uma modalidade técnica do período helenístico merecedora de atenção superior à que geralmente se lhe atribui, a do pequeno baixo-relevo. De ressalto muito moderado, gracioso como um poema da Antologia, ele lembra, por sua graça ligeira, as deusas da balaustrada do Templo de Atena Niké. Em Roma, em Madrid, certas bacantes que ornavam pedestais têm um lado «artístico», demasiado artístico talvez, que no-las torna queridas.

Dentro desta inspiração um tanto limitada, nada iguala as estatuetas de terra-cota, modeladas, sobretudo nos séculosIV e V, em oficinas como a de Tanagra, na Beócia, que se tornou tão popular que a sua reputação acabou por absorver todas as outras. Sem dúvida, a preocupação de grandeza que todos os verdadeiros escultores alimentam nem sempre faltou a estes artífices modestos; inegavelmente, a arqueologia nota a justo título, com o maior cuidado, nas suas estatuetas, semelhanças de estilo com a escultura monumental e tenta encontrar nelas os reflexos das obras de categoria superior que desapareceram. Todavia, valem por si próprias e o que nelas mais impressiona é o aspecto duma vida familiar que, não sendo de modo nenhum dissimulada por preocupações plásticas, se exprime com toda a liberdade e não hesita diante de certos exageros atinentes a acentuar a gracilidade dum perfil, sem que jamais sejam ultrapassados os limites dum gosto incorruptível.

Com mais severo rigor, reencontramos este gosto nas moedas. Assim como aceitaram, sem parecer sentir-lhe a tirania, o condicionalismo do frontão, os Gregos sujeitaram-se com a mesma facilidade às condições estritas dos trabalhos monetários, que exigem grande simplicidade de composição, saliência muito pouco acentuada, desenho rigoroso e um modelado que desafie a usura. As mais belas moedas de Atenas e de Siracusa, no século V, nada têm a invejar às esculturas contemporâneas, na sua grandeza de concepção.

Vasos 

A cerâmica primeiramente — e isto não deve esquecer-se—uma produção utilitária cuja abundância salta aos olhos de quem visitar o mais pequeno museu. A despeito da fragilidade da matéria, chegou com efeito até nós, uma enorme quantidade destes vasos, cujos nomes — ânforas, crateras, lecitos, enocoés — distinguem formas muito pouco numerosas. Eles constituíam um artigo de exportação extremamente apreciado, tanto pelo conteúdo — azeite ou vinho — como pelo continente. Neste ponto ainda, os Gregos limitaram estreitamente e com felicidade o seu génio inventivo. Raras vezes e só bastante tarde empregaram a decoração em relevo e apenas na época helenística encontramos monstros como as ânforas de Canossa, em que cavalos empinados ou estatuetas inteiramente esculpidas irrompem da sua superfície. Por outro lado, a gama das cores sempre foi pobre: o vermelho e o preto, um e outro obtidos com sais de ferro, constituem as cores básicas, embora existam também, mas sempre um tanto excepcionalmente, fundos dum branco leitoso como os de certos vasos atenienses. Alguns realces a azul e a vermelho violáceo bastam para enriquecer estes tons fundamentais.

Depressa o ornato é subordinado às personagens — e as personagens sofrem em pequeníssimas porporções as deformações e as simetrias aparentes dos estilos asiáticos. Trata-se antes aqui dum equilíbrio de essência mais subtil. Em parte alguma melhor do que nestes vasos apreciamos o encanto narrativo, e sobretudo o desenho dos artífices. Pottier ousou comparar a sua paixão desinhística à dos Japoneses. Trata-se dum desenho cuja essência é primeiramente um contorno linear muito leve e contínuo, traçado dum só jacto. O mesmo arqueólogo mostrou que, originariamente, o operário se serviu por certo, como meio auxiliar, da sombra dos objectos. Todavia, não se deve exagerar a importância deste subterfúgio: o verdadeiro desenhador, o desenhador nato, nunca se contenta com ele e põe-no de parte logo que atinge destreza suficiente e conhecimento profundo do corpo humano. Além disso, desde o princípio do século vi, aparece frequentemente um desenho interior para a execução do qual a sombra dos objectos não seria de nenhuma utilidade. Quanto ao claro-escuro, encontra-se sob a forma de cruzamentos de linhas, bastante tardiamente. Em matéria de perspectiva, os seus aspectos mais simples são já muito antigos. Efectuar-se-ão sem dúvida progressos técnicos: ver-se-ão escorços e até verdadeiras perspectivas, mas os Gregos resistirão em geral ao desejo de manifestar a sua habilidade, e só por volta do século iv encontraremos formas confusas e labirínticas obtidas em detrimento do estilo.

Não passando embora, aos olhos dos antigos Gregos, de obra secundária, nem por isso os vasos deixarão de ser algo de marcadamente pessoal. Muitos-deles estão assinados; mas, a bem dizer, nem sempre é fácil distinguir o nome do oleiro e o do desenhador.

A história regista primeiramente antiquíssimos exemplares dum estilo geométrico a que se chama estilo Dipylon, nome do cemitério ateniense onde foram encontrados; neles figuram vários personagens, que se integram na geometria do conjunto. No século vil e no princípio do século vi, floresce grande número de oficinas na Jónia, em Rodes, em Itália (onde os artistas parecem ser sobretudo Jónios) e, em particular, em Corinto. Tudo isso mostra talento, desenvoltura e, por vezes, em alguns vasos de Caere, uma veia caricatural curiosa. Contudo, bastante depressa, desde meados do século VI, estas oficinas são eclipsadas pelas de Atenas, que, manterão no futuro uma espécie de monopólio. A sua produção divide-se em duas épocas, por virtude duma transformação ao mesmo tempo técnica e artística, que se produz por volta de 500. Antes desta data, as figuras sobressaem a preto do fundo, que é vermelho. Depois dela, são pelo contrário as figuras que se representam a vermelho sobre um fundo preto. Isto não provoca aliás de forma alguma o completo desaparecimento das figuras pretas e as ânforas panatenaicas, por exemplo, mantêm a antiga tradição.

Nos vasos de figuras vermelhas, distingue-se em geral um estilo severo, depois um estilo livre e, enfim, um estilo florido: Eufórios, Duris e Brigos são característicos do primeiro; Sotadés do segundo; Meidias do terceiro, por volta do fim do século v. Mas a cerâmica resiste muito melhor à decadência do que a escultura, embora a desordem vá invadindo pouco a pouco a decoração. No século iv, as Oficinas da grande Grécia, cuja produção é aliás de segunda ordem, procuram rivalizar com as de Atenas.

Que a pintura tenha desempenhado um papel considerável na antiga Grécia, não sofre sombra de dúvida: lá estão os textos para no-lo dizer, e nomes como os de Polignoto, Zêuxis, Parrásio não eram menos ilustres do que os de Fídias, Scopas e Lisipo. No século V conheciam-se já, além das decorações murais, numerosas pinturas de cavalete. De tais obras não resta estritamente nada. E por isso a arqueologia procura curiosamente nos vasos o reflexo desta pintura requintada. Lá o encontra, é certo, mas não acalentemos grandes ilusões. Pottier compara os elementos que se podem colher nos vasos aos que, para a pintura moderna, nos forneceriam os esmaltes. Ora precisamente que ideia fariamos nós dos grandes artistas da Renascença somente através dos esmaltes? Conheceríamos alguma coisa dos seus métodos de composição, mas tudo o que é essencial — qualidade do desenho ou da cor — nos escapava. Seria ainda mais arriscado procurar vestígios das obras-primas nos poucos trechos de pintura de época romana que se vêem no Vaticano ou em Pompeia, embora alguns deles possuam mérito bastante elevado. Seria como se pedíssemos informes sobre a pintura aos papeis de forrar paredes — e, para mais, feitos por estrangeiros. Um dos raros documentos que podem considerar-se sem dúvida autenticamente cópias de quadros célebres, o mosaico da batalha de Issus, do Museu de Nápoles, demonstra, pelo menos no que respeita à composição, à perspectiva, à arte do esboço, que a pintura de cavalete do século iv devia ser alguma coisa de extremamente complexo.

OBRAS CARACTERÍSTICA DA ARTE GREGA

ARQUITECTURA

Atenas (Parténon, Propileus, Erectéion, Templo da Vitória Aptera, Teséion, Olimpieion, Teatro de Dionísios, Odéon de Herodes Ático, Monumento Corágico de Lisícrates, Torre dos Ventos) / Egina (Templo de Afaia) / Elêusis (Grandes e pequenos Propileus, Telestérion) / Cabo Súnio (Templo de Poséidon) / Delfos (Templo de Atena Pronaia, Tolos, Fonte Castália, Tesoiros de Siciónia, de Sif-neenses dos Atenienses, Teatro, Estádio) / Olímpia (Heraéon, Fili-péion, Templo de Zeus) / Corinto (Templo de Apolo) / Figalia-Bas-sae (Templo de Apolo Epikómios) / Epidauro (Teatro) / De/os (Escavações).

ÁSIA MENOR — Pérgamo (Agora, Teatro) / Efeso (Teatro) / Priena (Teatro) / Aspendos (Teatro).

ITÁLIA DO SUL E SICÍLIA — Paestum (Templos de Poséidon e de Demetér, Basílica) / Segesto (Templo e Teatro) / Selinonfe (Templos) / Agrigento (Templos) / Taormina (Teatro) / Catênia (Teatro) / Siracusa (Teatro).

ESCULTURA

Atenas (Parténon ; Erectéion; Teséion ; Cerâmica; M. da Acrópole ; Moscóforo, Cores, Esculturas do 1.° e 2.° Hecatompédon, Atena com a Lança, Efebo Loiro, Esculturas do Parténon, Esculturas da balaustrada do templo da Vitória Áptera; M. Nacional: Curói de Súnio e de Orcomeno, Niké de Delos, Zeus de Histiea, Soldado de Maratona, Demetér, Coré e Triptolemo, Cabeças do Templo de Atena em Tegea, Esculturas do Hiéron de Asklépios em Epidauro, Témis de Ramnonte, Dançarinas do Teatro de Diónisos, Musas, Apolo e Mársias de Mantineia, Gaulês no Combate, Esteias Funerárias, Estatuetas de terra-cota) / Elêusis / Delfos (Cléobis, Auriga,

Esfinge dos Naxeenses, Esculturas dos Tesoiros de Siciónia, de Sifnos, dos Atenienses) / Olímpia (Frontões e Métopes do Templo de Zeus, Cabeça de Hera, Vitória de Peónios, Hermes de Pra-xíteles) / Corinto / Caleis (Teseu e Antíope) / D elos (Afrodite e Pan) / Cândia (Esculturas do Templo de Prínias) / Mileto (Estátuas dos Brânquidas) / Constantinopla (Dançarinas, Sarcófago de Alexandre).

Berlim (Deusa sentada de Locres, Amazona ferida c. r. (1), Altar de Pérgamo) / Munique (Apolo de Tenea, Frontões do Templo de Afaia em Egina) / Dresda / Londres (Túmulo das Harpias, Frontões, Friso e Métopes do Parténon (ver Paris e Atenas), Esculturas do Templo de Figália, Monumento das Nereidas de Xantos, Esculturas do Mausoléu de Halicarnasso, do Artmísion de Efeso) / Copenhague / Paris (Hera de Samos, Cabeça Rampin, Apolo de Piombino, Exaltação da Flor, Friso do Templo de Assos, Métopes do Templo de Zeus em Olímpia (ver Olímpia), Cabeça Laborde, Friso do Parténon (ver Londres e Atenas), Vitória de Samotrácia, Vénus de Milo) / Roma (M. das Termas: Trono Ludo-visi, Cabeça gigântea de Hera c., Donzela de Antium, Efebo de Subiaco, Nióbide, Vénus de Cirene c. r.; M. do Vaticano, que contêm sobretudo cópias romanas muito restauradas: Corredora olímpica; Torso, Apolo do Belvedere, Lacoonte; M. do Capitólio: Gaulês Moribundo, Vénus do Capitólio c. r.; M. dos Conservadores: Homem que tira o espinho, Vénus Esquilina c. r.; M. Barracco)/ Florença (M. Arqueológico: Idolino) / Nápoles (Orfeu e Euridice c, Toiro Farnese, Bronzes) / Palermo (Métopes dos Templos C e E de Selinonte).

Argel I Cherchel / Tunes.

Nova-Yorque (Apolo Tyszkiewicz) / Boston.

VASOS

Os vasos gregos são tão numerosos em todos os grandes museus que não há interesse em dar a este respeito indicações especiais. Mencionemos, em virtude da quantidade de certas peças, as colecções de Paris, de Florença, de Madrid, de Wurtzburgo, etc.

(1) cr.: cópia romana.

 
jul 042010
 

O príncipe encantado

Era uma vez uma velha ambiciosa que tinha três filhas, cada qual mais feia. Perto da casa da velha, morava uma moça muito bonita que, apesar de pobre, andava com lindos vestidos e ricas jóias. Desconfiando de tanta riqueza, a velha visitava, freqüentemente, a casa da moça para ver se descobria alguma coisa. Mas, por mais que procurasse, nada conseguia saber.

Resolveu então sua filha mais velha tentar descobrir o segredo. Dirigiu-se à casa da moça e, depois de muitos rodeios, pediu a esta para passar a noite em sua casa. A moça consentiu, mas, quando foi na hora de dormir, pôs no café da vizinha um remédio muito forte, que a fêz dormir a noite toda, sem nada ver ou ouvir.

Enquanto ela dormia, bateu na janela da moça um belo papagaio. A moça abriu a janela, e a ave entrou no seu quarto, onde já estava preparada uma bacia com água. O papagaio tomou um banho, sacudindo as penas. Cada pingo que caía fora da bacia era um lindo diamante, que a moça recolhia e guardava. Quando o papagaio acabou de se banhar, transformou-se num belo príncipe.

A moça abriu a janela, e a ave entrou no seu quarto.

A moça abriu a janela, e a ave entrou no seu quarto.

 

Depois de passar a noite com sua noiva, o príncipe, logo que clareou o dia, transformou-se num papagaio e voou para longe.

A filha da velha, que nada vira, voltou para casa dizendo que era mentira o que se dizia da moça. Mas a velha, desconfiada, mandou a outra filha para passar a noite na casa da vizinha. Aconteceu então a mesma coisa: ela tomou café com remédio e roncou a noite toda.

Diante disso, a velha, sempre desconfiada, mandou a sua filha mais moça. Esta, que era muito esperta, quando lhe foi dado o café, fingiu que ia bebê-lo e o derramou sobre um lenço que levava escondido. Deitou-se na cama e fingiu que estava dormindo. Pôde, assim, ver o que aconteceu durante a noite. Quando amanheceu, correu para casa e contou tudo à sua mãe.

A velha ficou ralada de inveja e, assim que anoiteceu, colocou no peitoril da janela da vizinha, uma porção de cacos de vidro e pedaços de navalha. Quando o papagaio chegou e foi passar pela janela ficou ferido, com o sangue a escorrer. A moça, espantada, correu para cuidar do papagaio, mas este, batendo as asas, exclamou:

— Ah! ingrata! Estou perdido! Nunca mais me verás, a não ser que mandes fazer uma roupa de bronze e andes com ela até o Reino do Limo Verde, onde moro! Dizendo isso, bateu asas e desapareceu no espaço.

A moça ficou muito triste e compreendeu o motivo das visitas das filhas da velha. Mas não desanimou. Mandou fazer uma roupa de bronze, vestiu-a e saiu pelo mundo à procura do Príncipe do Limo Verde.

Depois de dois anos de viagem, chegou ao reino da Lua e perguntou a esta se lhe poderia dar notícias do Reino

do Limo Verde. A Lua respondeu que nunca ouvira falar nesse reino, mas que talvez o Sol soubesse alguma coisa a esse respeito. A moça despediu-se e, na saída, a Lua lhe deu de presente uma almofada de fazer rendas, com bilros e alfinetes de ouro.

A moça seguiu viagem e, depois de andar dois anos, chegou à casa do Sol. Este disse também que jamais ouvira falar no Reino do Limo Verde. Mas que talvez o Vento Grande pudesse dar alguma informação sobre êle. A moça despediu-se e, na saída, o Sol lhe deu de presente uma galinha com pintos, todos de ouro, vivos e andando.

A moça viajou mais dois anos e, afinal, chegou à casa do Vento Grande. Este ouviu o que ela disse e respondeu: — Conheço o Reino do Limo Verde. Ainda ontem passei por lá. A moça então suplicou ao Vento que a levasse até lá. O Vento Grande lhe respondeu: — Amanhã monte em mim e, quando encontrar uma árvore muito grande e muito copada, na frente de um palácio muito rico, segure-se nos galhos, que é ali.

No dia seguinte, lá foi a moça montada no Vento Grande. Ao avistar a árvore, agarrou-se à mesma e desceu. E ficou, embaixo, imaginando o que havia de fazer para entrar no palácio e ver o príncipe.

Nesse momento, chegaram três rolinhas, pousaram na árvore e começaram a conversar. Disse uma delas: — Não sabem? O príncipe do Limo Verde está para morrer. A segunda perguntou: — O que será bom para êle? E a terceira respondeu: — As feridas que êle tem no peito não saram mais; só se nos pegarem, tirarem nossos corações, torrarem, moerem e deitarem o pó nas feridas.

A moça, que ouvira toda a conversa, armou um laço e pegou as três rolinhas. Tirou-lhes os corações, torrou-os e fêz um pòzinho que guardou cuidadosamente. Em seguida partiu à procura do príncipe.

Fêz tudo para entrar no palácio, mas não conseguiu. Então, tirou a almofada de ouro que a Lua lhe havia dado, e começou a fazer renda. Daí a pouco, veio passando uma criada do palácio que ficou maravilhada com a beleza da almofada. Foi contar o que vira à rainha e esta mandou perguntar à moça quanto queria pela almofada. E a moça respondeu: — Darei de presente a almofada, se me deixarem dormir no quarto do príncipe.

A rainha ficou ofendida e quis mandar prender a moça, mas a criada lhe disse: — Ora, minha senhora, o príncipe está tão doente que não conhece mais ninguém. Que mal faz que aquela tola durma no chão de seu quarto ? A rainha, então, consentiu e ficou com a almofada de ouro.

A moça foi dormir no quarto do príncipe e logo na primeira noite lavou-lhe as feridas e pôs nelas o pó das rolinhas. Mas, desta vez, o rapaz não a reconheceu.

No dia seguinte, a moça foi, novamente, para debaixo da árvore e soltou a galinha e os pintos de ouro. Passou a criada e ficou admirada com o que viu. Foi correndo contar à rainha. Mandou esta perguntar quanto custava a galinha e os pintos. A moça respondeu que daria de graça aquelas preciosidades se a deixassem dormir duas noites no quarto do príncipe.

A rainha, a princípio, não queria deixar, mas, a conselho da criada, acabou consentindo. Na segunda noite, o príncipe melhorou muito e, na terceira, ficou completamente

bom e reconheceu a moça. Abraçou-a, ternamente, e pediu-a em casamento.

E claro que a moça aceitou. Então, o príncipe apresentou-a a seus pais como sua noiva. Dias depois, realizou-se o casamento com grande pompa. Houve muitas festas, não só no palácio, como em todo o Reino do Limo Verde.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jun 062010
 
Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

LIVRO TERCEIROO LIVRO DAS MARAVILHAS DA RELIGIÃO

Henry Thomas

ESTRANHAS CRENÇAS DO HOMEM ANTIGO

Crença primitiva em fantasmas

A CRENÇA nos fantasmas começou logo que o ho mem principiou a sonhar. Quando um homem sonhava, via certas figuras. Quando despertava, as figuras desapareciam. Que figuras eram essas que vira quando dormia, perguntava ele a si mesmo, e onde estavam elas agora, após seu despertar? E sua mentalidade primitiva achou uma tosca resposta a essa pergunta. Essas "figuras de sonho" eram as almas dos mortos, que o assombravam de noite e que à luz do dia se ocultavam no mundo subterrâneo ou inferno.

Nossos primitivos antepassados sentiam-se um tanto acamaradados com os fantasmas, de seus parentes e amigos falecidos. Uma vez por ano, justamente antes da chegada do inverno, convidavam todos os mortos a visitarem os vivos. Preparavam suntuosos festins e acendiam alegres fogueiras, para revigorar os frios e famintos fantasmas, contra as rajadas vindouras do inverno. Esse costume primitivo chegou até nossos dias com o nome de Véspera do Dia dos Finados.

Os antigos amavam bastante seus fantasmas, embora deles se arreceassem. Por que quem senão os fantasmas eram os portadores daquelas tempestades, secas e doenças que atormentavam os vivos? Tinham inveja dos vivos, essa é que era a verdade! Por isso procuravam causar-lhes toda a espécie de danos. Estavam sempre ansiosos por poder arrastá-los para a escuridão do inferno. Eram vis e poderosos, e deviam ser de qualquer forma aplacados, de modo a porem paradeiro aos seus malefícios. E foi assim que surgiu a prática dos sacrifícios humanos. Os sacrifícios eram dádivas ou subornos para os espíritos maus.

Singulares deuses animais dos antigos

OS antigos olhavam os animais como coisas sagradas.

Os animais, diziam eles, eram seus irmãos. Partilhavam a própria vida com os seres humanos. Quando uma criança nascia, recebia somente parte de sua vida. O resto ia para um morcego, uma coruja, um peixe, um cachorro ou uma serpente. Era prática comum entre os primitivos, dirigirem-se a um homem como se fosse um morcego, e a uma mulher como se fosse uma coruja.

Quando um selvagem primitivo dava a si mesmo um nome de animal e o chamava seu irmão, esse animal se tornava seu totem. Esse totem era precioso para êle e tinha-o como a menina de seus olhos. Desgraçado daquele que ousasse matá-lo! Porque o totem era seu amigo, seu irmão, seu deus. Acreditava-se que a vida de um totem e a de seu irmão humano estavam tão estreitamente ligadas, como a dos irmãos siameses. Se um totem morria, seu companheiro de vida humana tinha a certeza de morrer ao mesmo tempo. Há muitos anos um aborígene australiano chamado Boortwa (corvo) adoeceu. Um homem branco, que vivia nas vizinhanças, matou infelizmente um corvo. Nesse mesmo dia morria Boortwa. Os nativos estavam tão certos de que o homem branco era responsável pela morte de Boortwa que o executaram imediatamente.

Alguns dos primitivos acreditavam possuir várias vidas, ou almas, residentes em diferentes partes do corpo. Cada uma dessas vidas era representada por um animal diferente. Assim, o braço de um homem era uma serpente, sua perna um lobo, sua cabeça uma raposa, seu coração um leão, suas costas uma lontra e assim por diante. Todos esses animais eram seus totens pessoais ou deuses. Os índios do Laus tinham trinta de tais totens, cada um representando diferentes partes do corpo.

Como era bastante natural, mostravam-se os selvagens muito solícitos pela vida e conforto de seus deuses animais ou totens. Alimentavam, abrigavam e cultuavam esses deuses e em troca supunham que os deuses os preservavam de todos os males. Acreditavam mesmo que, no momento próprio, seus totens poderiam dar-lhes novamente vida. Conta-se a história de um caçador africano que foi morto por um tigre. Aconteceu que um leão, que era totem, desse com o cadáver. O leão exalou sua própria alma no caçador. O caçador voltou à vida, ao passo que o leão caía morto.

Sacerdotes e mágicos primitivos

O PRIMITIVO selvagem vivia cercado de numerosos perigos. A chuva, o vento, o trovão, as setas invisíveis da doença e a lança do raio, que ziguezagueava no espaço, tudo lhe parecia estar constantemente conspirando contra sua vida. Alguma coisa tinha de ser feita para pôr termo a isso. Deveria descobrir-se algum encanto mágico para afastá-los. Não podeis lutar corpo a corpo contra tais coisas, do mesmo modo que lutais contra um homem ou contra um animal. Deveis tentar dominá-las por meios mais sutis.

Mas quais eram esses meios sutis? Talvez uma dan ça selvagem e mágica afugentasse aqueles poderes maléficos? Ou algumas palavras estranhas fossem eficaz estratagema? Deveria indagar do homem sábio da tribu. Talvez pudesse auxiliá-lo.

Os homens sábios diziam que podiam. E se punham a preparar encantamentos mágicos e danças rituais, indicadas como aptos a desviar o mal. E foi assim que surgiram no mundo os primeiros sacerdotes mágicos.

Esses primitivos sacerdotes-mágicos chamavam-se curandeiros ou shamans. Os métodos que empregavam para banir a má sorte e atrair a boa sorte eram característicos e pitorescos. dançavam, lançavam gritos agudos, caíam em convulsões, batiam em tantas, dilaceravam o corpo com as próprias unhas, e se cobriam de excrementos. Quanto mais selvagens suas contorsões, tanto mais eficientes pareciam a seus companheiros de olhos arregalados. Com mágicas dessa espécie, poderiam seguramente atemorizar quaisquer espíritos maus que estivessem presentes. Eram homens-miraculosos.

Mas seus milagres podiam agir de duas maneiras. O shaman podia não somente afugentar, mas também atrair os maus espíritos. Se não gostasse de vós, podia causar-vos um grande dano. E dessa forma tornou-se o shaman o chefe de sua tribu. Todos começaram a temê-lo, e admirá-lo, a prestar-lhe homenagem. Afim de conservar essa situação privilegiada, tinha o shaman de manter certo aparato. Quanto mais habilmente lograsse seu público, tanto mais longamente manteria seu poder. Por outras palavras, tinha de mostrar-se hábil político.

Os primeiros políticos do mundo, portanto, foram os homens-mágicos dos antigos selvagens.

Curiosas práticas pagãs

CERTAS coisas não podiam ser tocadas pelos antigos. Essa proibição chamava-se tabu (que significa marcado ou intocável). Entre essas coisas que o homem não podia tocar, contavam-se: a carne de porco, um cadáver, uma mistura de algodão e lã, fogo nos dias santificados e a mulher de outro homem em qualquer dia. Transgredir qualquer desses tabus significava morte.

* * *

O visgo foi sempre olhado como planta mágica. Nos dias do paganismo, era tirado do carvalho com uma foicinha de prata e conservado numa urna sagrada. Consideravam-no remédio seguro para epilepsia, envenenamento e câncer. Era usado para afugentar feiticeiras e tornar fecundas as mulheres estéreis. Tinham-no particularmente como romântico filtro amoroso. E até hoje muito romance nasce debaixo das folhas do visgo.

* * *

Os camondongos eram tidos como sagrados em alguns países da antiguidade. Era ilegal matá-los. Se infestavam um campo ou uma casa, vários métodos "amigáveis" se empregavam para afugentá-los. Alguns desses métodos eram um tanto excepcionais. Na Grécia, solicitava-se aos camondongos por uma carta escrita e colocada sobre uma pedra, "ter a bondade de abandonar aquele campo e passar ao campo vizinho". Na índia, quando os camondongos devastam os arrozais, os nativos apanham dois deles, vestem-nos de linho branco, festejam-nos suntuosamente e rogam-lhes, de joelhos, que emigrem com seus companheiros para algum outro lugar.

* * *

Os antigos celtas realizavam curioso festival cada cinco anos. Chamavam-no a festa do fogo. A característica dessa celebração era uma imensa fogueira de prisioneiros vivos. Enquanto as vítimas morriam queimadas, os nativos cantavam e dançavam em redor da fogueira. E quando terminava a festa, utilizavam os ossos e as cinzas das vítimas como adubo.

* * *

Os gregos costumavam pôr uma moeda nas mãos de seus mortos pouco antes do enterro. Essa moeda servia para pagarem sua passagem no Stix, rio mitológico do inferno.

* * *

Os romanos, depois de cada refeição, lançavam um bolo na lareira. Servia de jantar a Vesta, deusa da tetra.

* * *

Os antigos zulus costumavam comer os olhos de seus inimigos mortos, juntamente com as sobrancelhas, na crença de que poderiam adquirir o poder de olhar sem temor para seus adversários.

* * *

Havia entre os antigos mexicanos estranha cerimônia, que eles chamavam "comer o deus". Faziam um imenso bolo representando seu deus Huitzilopochtil, e cada homem recebia um pedaço para comer. Mas a mais curiosa e a mais revoltante parte da cerimônia estava na preparação do tal bolo. A massa era preparada de farinha de milho, misturada com sangue de crianças.

* * *

Os primitivos romanos usavam um extraordinário remédio para picada de escorpião. Sentavam a vítima num jumento, voltada para a cauda do animal. O veneno do escorpião, escreviam os antigos físicos, se transferiria seguramente do homem para o jumento.

* * *

Se um romano sentia febre, os doutores usavam "remédio infalível" para ele. Cortavam as unhas do paciente e pregavam as aparas com cera, sobre a porta da casa do vizinho, antes do sol nascer. A febre passava dessa forma do homem doente para seu vizinho.

 

Primitivo culto do sexo

CULTO do sexo entre os antigos surgiu de seu desejo de estimular o crescimento de suas colheitas. O selvagem acreditava que os espíritos davam nascimento às colheitas, da mesma forma que êle próprio dava nascimento às crianças. Afim de estimular os espíritos tímidos, saía para os campos e lhes dava lições com seu próprio exemplo. E dessa forma, a lascívia se tornou, como cria o selvagem, um dever religioso. Entre as raças mais primitivas toda a população saía para os campos, afim de se entregar à orgia sexual. Mais tarde, com o progresso da civilização, o sacerdote e uma virgem iam ao templo para executarem a cerimônia fálica, diante da imagem de seu ídolo.

Os antigos hindús conservavam uma noção peculiar a respeito do culto do sexo. Detestavam a paixão e por isso mesmo se abandonavam a ela. Agiam de acordo com a teoria de que se pode matar o fogo com o próprio fogo. Afim de "purificar" suas almas, mergulhavam os corpos nas mais vis espécies de excessos. Somente desse modo, inclinavam-se a crer, podiam cumprir as sagradas exigências de seu deus Shiva.


Fonte: Maravilhas do conhecimento humano, 1949. Tradução e Adaptação de Oscar Mendes.

 

jun 052010
 

O Homem Medíocre (1913)

José Ingenieros (1877-1925)

 

Capítulo VII – A MEDIOCRACIA

I. O clima da mediocracia. — II. a pátria. — III. a política das piaras. — IV. os arquetipos da mediocracia.— V. a aristocracia do mérito.

I — O clima da mediocridade

Em raros momentos, a paixão caldeia a história, e se exaltam os idealismos; quando as nações se constituem, e quando elas se renovam. Antes, é secreta ânsia de liberdade, luta pela independência; mais tarde, crise de consolidação institucional a seguir e, depois, veemência de expansão, ou pujança de energias. Os gênios pronunciam palavras definitivas; os estadistas plasmam os seus planos visionários; os heróis põem o seu coração na balança do destino.

É, porém, fatal que os povos tenham longas inter-cadências de cevadura. A história não conhece um único caso em que altos ideais trabalhem com ritmo contínuo, para a evolução de uma raça. Há horas de palingenesia, e as há tembém de apatia, como há vigílias e sonhos, dias e noites, primaveras e outonas, em cujo altenar-se infinito está dividida a continuidade do tempo.

Em certos períodos, a nação adormece dentro do pais. O organismo vegeta; o espírito se amodorra. Os apetites acossam os ideais, tornando-os dominadores e agressivos. Não há astros no horizonte, nem auriflamas nos campanários. Não se percebe clamor algum do povo; não ressoa o éco de grandes vozes animadoras. Todos os apinham em torno dos mantos oficiais, para conseguir, alguma migalha da merenda. É o clima da mediocridade.

Os Estados tornam-se mediocracias que os filósofos inexpressivos prefeririam denominar "mesocracias".

O culto da verdade entra na penumbra, bem como o afã de admiração, a fé em crenças firmes, a exaltação de ideais, o desinteresse, a abnegação — tudo o que está no caminho da virtude e da dignidade.

Todos os espíritos se temperam pelo mesmo diapasão utilitário. Fala-se por meio de rifões, como Panzo discorria; crê-se como Gil Blas ensinou. Tudo o que è vulgar, encontra fervorosos adeptos, entre os que representam os interesses militares; os seus mais altos porta-vozes são escravos do seu clima. São atores aos quais foi proibido improvisar: de outra forma, romperiam o molde a que se ajustam as outras peças do mosaico.

Platão, sem querer, dizendo da democracia: "é o pior dos bons governos, mas é o melhor entre os maus", definiu a mediocracia. Transcorram séculos; a sentença conserva a sua verdade.

Na primeira década do século XX, acentuou-se a decadência moral das classes governantes. Em cada comarca, uma facção de parasitas detém as engrenagens do mecanismo oficial, excluindo do seu seio todos quantos recusam altivamente a própria cumplicidade em seus empreendimentos. Aqui são castas adventícias, ali sindicatos industriais, acolá facções de palavreiros. São gave-las, e se intitulam partidos. Intentam disfarçar com os ideais o seu monopólio do Estado. São bandoleiros que procuram a encruzilhada mais impune, para espoliar a sociedade. 

Em todos os tempos e sob todos os regimes, houve políticos sem vergonha; mas estes nunca encontram melhor clima, do que nas burguezias ideais. Onde todos podem falar, os ilustrados se calam; os enriquecidos preferem ouvir os mais vis imbuidores.

Quando o ignorante se julga igualado ao estudioso, o velhaco ao apóstolo, o falador ao eloqüente e o mau ao digno, a escala do mérito desaparece numa vergonhosa nivelação de vilania. A mediocridade é isso: os que nada sabem, julgam dizer o que pensam, embora cada um só consiga repetir dogmas, ou auspiciar voracidades.

Essa chatice moral é mais grave do que a aclimação a uma tirania; ninguém pode voar onde todos rastejam. Convenciona-se denominar urbanidade à hipocrisia, distinção à efeminação, cultura à timidez, tolerância à cumplicidade; a mentira proporciona estas denominações equívocas. E os que assim mentem, são inimigos de si próprios e da pátria, deshonrando, nela, seus pais e seus filhos, e carcomendo a dignidade comum.

Nesses parênteses de cevadura, as mediocracias se aventuram por sendas ignóbeis. A obsessão de acumular tesouros materiais, ou o torpe afã de desfrutá-los com folgança, apaga do espírito coletivo todo vestígio do sonho. Os países deixam de ser pátria. Qualquer ideal parece suspeito. Os filósofos, os sabios e os artistas são demais; o peso da atmosiera estorva as suas azas e deixam de voar. A sua presença mortifica os traficantes, todos os que trabalham por lucro, os escravos da economia ou da avareza. As coisas do espírito são desprezadas; não sendo propício o clima, seus cultores sao poucos, nao dentro do país, que mata, a fogo lento, os seus ideais, sem precisar desterrá-los. Cada homem fica preso entre mil sombras que o rodeiam, e o paralisam.

Sempre há medíocres; estes são perenes. O que varia, é o seu prestígio e a sua influência. Nas épocas de exaltação renovadora, eles se mostram humildes, são tolerados; ninguém os nota, não ousam meter-se em coisa alguma. Quando se enfraquecem os ideais, e se substitue o quantitativo peio quantitativo, começa-se a contar com eles. Apercebem então, o seu numero, reúnem-se em grupos, arrebanham-se em partidos. A sua infiuéncia cresce, à medida que o clima se tempera; e o sábio é igualado ao analfabeto, o rebelde ao lacaio, o poeta ao presu-mista. A mediocridade se condensa, converte-se em sistema, torna-se incontrastável.

Enaltecem-se os ganhões, pois que não florescem os gênios; as criações e as proiecias sao impossíveis, se náo estão na alma da época.

A aspiração ao melhor náo é privilégio de todas as gerações. Depois de uma que realizou um grande estorço, arrastaua e comovida por um gênio, a seguinte descansa, e se dedica a viver de glorias passadas, comemo rando-as sem fé; as facções disputam as rédeas administrativas, competindo no manuseio de todos os sonhos. À mingua ciestes é disfarçada com um excesso de pompas e ae palavras; cala-se qualquer protesto, oferecendo participação nos festins; prociamam-se as melhores intenções, e se praticam baixezas abomináveis; mente a arte; mente a justiça; mente o caráter. Tudo mente, com a aquiescência de todos; cada homem põe preço à sua cumplicidade — um preço razoável, que oscila entre um emprego e uma condenação.

Os que governam, não criam tal estado de coisas e de espírito; representam-no. Quando as nações dão em baixios, alguma facção se apodera da engrenagem constituída ou reformada por homens geniais. Florescem legisladores, pululam arquivistas, os funcionários são contados por legiões; as leis se multiplicam, sem, entretanto, ser reforçada a sua eficácia. t

As ciências convertem-se em mecanismos oficiais, em institutos e academias, de onde jamais brota o gênio, e onde até se impede que o talento brilhe; sua presença humilharia, com a força do contraste. As artes tornam-se indústrias patrocinadas pelo Estado, reacionário em seus gostos e adverso a toda previsão de novos ritmos ou de novas formas; a imaginação de artistas e poetas parece que se aguça, para descobrir as gretas do orçamento, e se infiltrar por elas.

Em tais épocas, os astros não surgem. Fazem greve; a sociedade nao necessita deles; basta-lhes a sua coorte de funcionários.

O nível dos governantes desce, até marcar zero; a mediocracia é uma confabulação de zeros contra unidades.

Cem políticos torpes, juntos, não valem um estadista genial.

Somai dez zeros, cem, mil, todos os zeros da matemática, e não tereis quantidade alguma, nem siquer negativa.

Os políticos sem ideal marcam o zero absoluto, nos termômetros da historia, conservando-se limpos da in fâmia e da virtude, equivalentes de Néro e de Marco Aurelio.

Uma apatia conservadora caracteriza esses períodos; enfraquece-se a ansiedade das coisas elevadas, prosperando, ao contrario, o ara de suntuosos jormalismos. Us governantes que não pensam, parecem prudentes; os que nada fazem, intitulam-se repousados; os que não roubam são exemplares. O conceito do mento se torna negativo; as sombras são preferíveis aos homens. Procura-se o originalmente medíocre, ou o mediocrizado peia senilidade. Em vez de heróis, gênios ou santos, reclama-se discre tos administradores. Mas o estadista, o filósofo, o poeta, os que realizam, pregam e cantam alguma parte de um ideal, estão ausentes, Nada tem a lazer.

A tirania do clima é absoluta: nivelar-se ou sucumbir. A regra conhece poucas exceções na história. As mediocracias negaram sempre as virtudes, as belezas, as grandezas; deram veneno a Sócrates; o madeiro a Cristo; o punhal a Cesar; o destêrro a Dante; o cárcere a Galileo; o fogo a Bruno; e, enquanto escarneciam desses homens exemplares, esmagando-os com a sua sanha ou armando contra eles algum braço enlouquecido, ofereciam o seu servilismo a governantes imbecis ou davam o seu ombro para sustentar as mais torpes tiranias. A um preço: que estas garantissem, às classes fartas, a tranqüilidade necessária para usufruir seus privilégios.

Nessas épocas de lenocínio, a autoridade é fácil de ser exercida: as cortes se poviam de servis, de retóricos que palavreiam pane lucrando, de aspirantes a algum "pa chalato", de polichinelos em cujas consciências está sempre arvorado o lábaro ignominioso.

As mediocracias são escoradas pelos apetites dos que esperam nelas viver, e no medo dos que temem perder a pitança.

A indignidade civil é lei, nesses climas. Todo homem declina de sua personalidade, ao converter-se em funcionário: a cadeia não é visível no seu pé, como nos dos escravos, mas êle a arasta, ocultamente, amarrada ao seu intestino. Cidadãos de uma pátria, são os incapazes de viver pelo seu esforço, sem a cevadura oficial. Quando tudo é sacrificado a esta, sobrepondo-se os apetites às aspirações, o sentido moral se degrada, e a decadência se aproxima. Inutilmente se buscam remédios na glorificação do passado. Dessa fadiga, os povos não despertam louvando o que foi, sinão, semeado o porvir.

II — A pátria

Os países são expressões geográficas, e os Estados* são formas de equilíbrio político. Uma pátria é muito mais do que isso, e é outra coisa: sincronismo de espíritos e de corações, têmpera uniforme para o esforço, e homogênea disposição para o sacrificio, simultaneamente na aspiração à grandeza, no pudor da humilhação e no desejo da gloria. Quando falta esta comunhão de espe ranças, não há, nem pode haver pátria: é preciso que haja sonhos comuns, anelos coletivos de grandes coisas é preciso que todos se tintam decididos a realizá-las, com a seguridade de que, ao carcharem juntos, em busca de um ideal, nenhum ficará na metade do caminho, contando as suas taleigas.

A pátria está implícita na solidariedade sentimental de uma raça, e não na confabulação dos politiqueiros que medram à sua sombra.

Não basta acumular riquesa para criar uma pátria: Cartago não o foi. Era uma empresa.

As minas áureas, as indústrias fabris e as chuvas generosas fazem de qualquer país um rico empório; mas é preciso que se formem ideais de cultura, para que nele haja uma pátria. Rebaixa-se o valor deste conceito, quando é aplicado a países que carecem de unidade moral, mais parecidos com feitorias de logreiros autóctonos ou exóticos, do que a legiões de sonhadores, cujo ideal seja um arco teso na direção de um objetivo de dignificação comum.

A pátria tem intermitencias; sua unidade moral desaparece em certas épocas de rebaixamento, quando se eclipsa todo afã de cultura, e passam a predominar os vis apetites de mando e de enriquecimento. O remédio contra essa crise de chatice não está no fetichismo do passado, sinão, na semeadura do porvir concorrendo para criar um novo ambiente moral propício a todo enaltecimento da virtude, do engenho e do caráter.

Quando não há pátria, não pode haver sentimento coletivo da nacionalidade — inconfundível com a mente patriótica explorada em todos os países pelos mercadores e pelos militaristas. Só é possível na medida marcada pelo ritmo unísono dos corações para um nobre aperfeiçoamento, e nunca, para uma ignóbil agressividade que fira o sentimento próprio das outras nacionalidades.

Não há maneira mais baixa de amar a pátria, além dessa que ensina a odiar as pátrias dos outros homens, como se todas não fossem igualmente dignas de engendrar, em seus filhos, iguais sentimentos.

O patriotismo deve ser emulação coletiva, para que a própria nação ascenda as virtudes de que outras melhores dão o exemplo; nunca deve ser inveja coletiva que faça sofrçr em conseqüência da superioridade alheia, e que conduza a desejar o baixamento dos outros, até o próprio nível.

Cada pátria é um elemento da Humanidade; o anhelo da dignificação nacional deve ser um aspecto da nossa fé na dignificação humana.

Ascenda cada raça ao seu nível mais alto, como pátria, e, por esforço de todos, remontar-se-á ao nível da espécie, como Humanidade.

Enquanto um país não é pátria, seus habitantes não constituem uma nação. O zelo da nacionalidade só existe nos que se sentem agrupados para conseguir um mesmo ideal. Por isso é mais profundo e pujante nas mentes conspícuas; as nações mais homogêneas são as que possuem homens capazes de o sentir e de o servir. A exígua capacidade de ideais impede os espíritos espessos de verem, num patriotismo, um alto ideal; os trânsfugas da moral, alheios à capacidade em que vivem, não o podem conceber; os escravos e os servis têm, apenas, um país natal.

Só o homem digno e livre pode ter uma pátria.

Pode tê-la; não a tem sempre, pois há tempos em que ela só existe na imaginação de poucos: um, dez, talvez uma centena de eleitos.

Ela está, então, nesse ponto ideal para onde converge a aspiração dos melhores, de todos quantos se sentem, sem medrar de ofício, escarranchados sobre a política. Nessas poucos está a nacionalidade, que come e aufere lucros no país, então alheios ao seu afã.

O sentimento enaltecedor nasce em muitos sonhadores jovens, mas permanece rudimentar, ou se distrai na apetência comum; em poucos eleitos chega a ser dominante, antepondo-se às pequenas tentações de piara ou confraria.

Quando os interesses venais se sobrepõem ao ideal dos espíritos cultos, oue constituem a alma de uma nação, o sentimento nacional degenera e se corrompe: a pátria é explorada como uma indústria. Quando se vive fartando grosseiros apetites, e ninguém pensa que, no canto de um poeta ou na reflexão de um filósofo, pode estar uma partícula da glória comum, a nação se abisma. Os cidadãos volvem à condição de habitantes. A pátria regressa à condição de país.

Isto acontece periodicamente, como se a nação necessitasse pestanejar, ao olhar para o porvir. Tudo se torce, e se abaixa, desaparecendo a molície individual na comum: dir-se-ia que, na culpa coletiva, se desfaz a responsabilidade de cada um. Quando o conjunto se dobra, como a quilha de um navio, parece, por efeito de relatividade, que nenhuma coisa se dobra. Só aquele que se levanta, e olha para os que navegam, sob outro prisma, adverte o descenso, como se, em face deles, fosse um ponto imóvel: um farol na costa.

Quando as misérias morais assolam um país, a cul-pa é de todos os que, por falta de cultura e de ideal, não souberam amá-lo como pátria: de todos os que viveram dela, sem trabalhar para ela.

III — A política das piaras

A degeneração do sistema parlamentar é, em nossa época, a causa profunda dessa contaminação: todas as formas de parlamentarismo de pacotilha. Antes, presumia-se que, para governar, se requeria certa ciência e a arte de aplicá-la; agora, concordou-se em que Gil Blas, Tartufo e Sancho são os árbitros inapeláveis dessa ciência e dessa arte.

A política se degrada, converte-se em profissão. Nos povos sem ideais, os espíritos subalternos medram em torpes intrigas de antecâmara. Na maré baixa, aparece o desprezível, e se engendram os traficantes. Toda excelência desaparece, eclipsada pela domesticidade. Instaura-se uma moral hostil à firmeza e propícia à relaxação. O governo passa às mãos de gentalha que abocanha o orçamento. Abaixam-se os adarves, e se levantam os muladares. Os loureirais se secam, e os cardais se multiplicam. Os palacianos se encontram com os malandrins. Os funâmbulos e os saltimbancos progridem. Onde todos lucram, ninguém pensa; ninguém sonha onde todos tragam. O que antes era signo de infâmia ou cobardia, torna-se título de astúcia; o que outrora matava, agora, vivifica, como se houvesse uma aclimação ao ridículo; as sombras envilecidas se levantam, e parecem homens; a improbilidade se pavoneia, e se ostenta, ao invés de ter vergonha e pudor. O que, nas pátrias, se cobria de opróbrio, se cobre, nos países, de honrarias.

As jornadas eleitorais se convertem em grosseiras negociatas de mercenários, ou em pugilatos de aventureiros. A sua justificação está a cargo de inocentes eleitores, que vão à paróquia, como a uma festa.

As pacções de profissionais são adversas a todas as originalidades. Homens ilustres podem ser vítimas do voto; os partidos adonam as suas listas com nomes respeitados, sentindo a necessidade de se parapeitarem atrás do brazão intelectual de alguns seletos.

Cada piara forma um estado-maior próprio, que desculpe a sua pretensão de governar o país, encobrindo ousadas piratarias, com o pretexto de sustentar interesses de partidos. As exceções não são toleradas em homenagem às virtudes; as piaras não admiram nenhuma superioridade: exploram o prestígio do pavilhão, para dar passagem às suas mercadorias de contrabando; descontam no banco do êxito, mercê da firma prestigiosa. Para cada homem de mérito, há dez dezenas de sombras insignificantes.

Aparte essas exceções, que existem em todas as partes, a massa de eleitos do povo é subalterna chusma de vaidosos, choldraboldra de desonestos e servis.

Os primeiros esbanjam a sua fortuna, para subir ao Parlamento. Ricos pronrietários de terras, ou poderosos industriais pagam, a peso de ouro, os votos adventícios por agentes imoulicos; pequenos senhores adventícios abrem as suas alcanzias, para comprar o único diploma acessível à sua mentalidade amorfa; asnos enriquecidos aspiram a ser tutores de povos, sem mais capital, do que a sua constância e seus milhões. Precisam ser alguém; c julgam conseguir isso, com a incorporação às piaras.

Os desonestos são legião; assaltam o Parlamento, para se entregaram a especulações lucrativas. Vendem o seu voto a empresas que mordem as arcas do Estado; prestigiam proietos de grandes negócios com o erário, cobrando os seus discursos a tanto por minuto; pagam OS seus eleitores com empregos e dádivas oficiais; fazem comércio da sua influência para obter concessões a favor da sua clientela. Sua gestão política sói ser tranqüila; um homem de negócios está sempre com a maioria. Apóia todos os governos.

Os servis saqueiam por meio dos congressos, em virtude de flexibilidade das suas espinhas. Lacaios de um grande homem, ou instrumentos cegos da sua piara, não ousam discutir a chefatura de um, ou as recomendações da outra. Não se lhes pede talento, eloqüência, probidade: basta a certeza do seu panurgismo. Vivem de luz alheia, satélites sem calor e sem pensamento, unidos ao carro do seu cacique, sempre dispostos a bater palmas quando êle fala, e a se porem de pé, na hora da sua votação.

Em certas democracias noviças, que parecem chamar-se repúblicas, por troça, os congressos se apinham de mansos protegidos das oligarquias dominantes. Medram piaras submissas, servis, incondicionais, efeminadas: as maiorias contemplam o porqueiro, esperando uma piscadela ou um sinal. Se alguém se aparta, está perdido; os que se rebelam, estão proscritos, sem apelação.

Há casos isolados de engenho e de caráter, sonhadores de algum apostolado, ou representantes de anelos indomáveis; se o tempo não os domestica, eles servem ou outros, justificando-os com a sua presença, aquilatando-os.

É ilusão pensar que o mérito abre as portas dos parlamentos envilecidos. Os partidos — ou o governo em seu nome — operam uma seleção entre os seus membros a expensas do mérito, ou a favor da intriga. Um soberano quantitativo e sem ideais prefere candidatos que tenham a sua própria compleição moral: por simpatia e por conveniência.

As mais abstrusas fórmulas da química orgânica parecem balbúcios infantis, em face das reviravoltas do parlamento medíocre. O desprezo dos homens probos nunca o amedronta. Confia em que o baixo nível do representante é aprovado pela insensatez do representado. Por essa razão, certos homens imprestáveis se adaptam maravilhosamente aos desiderata do sufrágio universal; a grei se prosterna diante dos feitiços mais ocos, e os recheia com a sua alambicada tolice.

Esse afã de viver, a expensas do Estado, rebaixa a dignidade. Cada eleitor que cruza as suas ruas, às pressas, preocupado, a pé, em automóvel, com uma simples blusa, enluvado, jovem, maduro, a qualquer hora está se domesticando, está se envilecendo: procura uma recomendação, ou a leva em sua algibeira.

Nas modernas burocracias, o funcionário cresce. Outrora, quando era necessário delegar parte de suas funções, os monarcas elegiam homens de mérito, experiência e fidelidade. Quasi todos pertenciam à casta feudal; os grandes cargos os vinculavam à causa do senhor. Junto a ela, formavam-se pequenas burocracias locais. Aumentando as instituições de governo, o funcionalismo cresceu, chegando a formar uma classe, um ramo novo das oligarquias dominantes. Para impedir que fosse altiva, regulamentaram-na, roubando-lhe toda iniciativa e afogando-a na rotina.

Ao seu afã desmando se opôs uma submissão exagerada. A pequena burocracia não varia: a grande, que é a sua chave, muda com a piara que governa. Com o sistema parlamentar, ela se escravisou pela partida dupla: do executivo e do legislativo. O jogo das influências bilaterais converge em apoucar a dignidade dos funcionários.

O mérito fica excluído em absoluto: basta a influência. Com ela se ascende por caminhos equívocos. A característica do sáfio é fulgar-se apto para tudo, como se a boa intenção salvasse a incompetência.

Flaubert contou, em páginas eternas, a história dos medíocres que ensaiam o insaciável: Buvard e Pécuchel. Não fazem bem coisa alguma, mas a nada renunciam.

Povoam as mediocracias; são funcionários de qualquer função, julgando-se órgãos valiosos para as mais contraditórias fisiologias.

O servilismo e a adulação são as conseqüências imediatas do funcionalismo. Existem desde que houve poderosos e favoritos.

O primeiro se observa, sob cem formas, implícito na desigualdade humana; onde houve homens diferentes, alguns foram dignos, e outros domesticados.

O excessivo comedimento e a afetarão de agradar ao amo, engendram essas carcomas do caráter.

Não são delitos em face das leis, nem vícios diante da moral de certas épocas: são compatíveis com a "honestidade". Mas não com a "virtude". Nunca.

A sensibilidade para os elogios é legítima em suas origens. Eles são u’a medida indireta do mérito: fundam-se na estima, no reconhecimento, na amizade, na simpatia ou no amor.

O elogio sincero e desinteressado não rebaixa a quem o outorga, nem ofende a quem o recebe, mesmo quando é injusto; pode ser um erro, não uma indignidade.

A adulação é semore uma indignidade: é desleal e interessada. O desejo da privança induz a agradar aos poderosos; a conduta do adulador tem isso por alvo, e o seu ânimo servil tudo sacrifica para obter tal coisa. A sua inteligência somente se aguça para farejar o desejo do amo. Subordina seus gestos aos de seu dono. pensando e sentindo como êle manda: sua personalidade não estará abolida, mas pouco falta. Pertence à raca dos "cobardes felizes", como Leconte de Lisle denominou.

A adulação é uma injustiça. Engana. O adulador é sempre desprezível, mesmo quando procede por uma espécie de benevolência banal, ou pelo desejo de agradar a qualquer preço.

Racine, na "Phedra", julgou-o um castigo divino:

Detestable flatteurs, prósent le plus funeste
Que piasse faire aux róis la colére celeste

Não se adulam somente os reis e os poderosos; adula-se também o povo. Há miseráveis afãs de popularidade, mais degredantes do que o servilismo. Para obter o lavor quantitativo das turbas, pode-se mentir, praticando baixos elogios disiarçados em ideal: mais cobardes, porque se dirigem as plebes que não sabem descobrir o embuste. Encomiar os ignorantes, e merecer os seus aplausos, íalando-lhes incessantemente de direitos, e jamais dos seus deveres, é a última renúncia da própria dignidade.

Nos climas medíocres, enquanto as massas seguem os charlatães, os governantes prestam ouvidos aos aduladores. Os vaidosos vivem fascinados pela sereia que arrulha sem cessar, acariciando a sua sombra; perdem lodo critério para julgar seus próprios atos, bem como os alheios; a intriga os prende; a adulação dos servis os arrasta a cometer ignominias: como essas mulheres que alardeiam a sua lormosura, e acabam por entrega-la àqueles que a corrompem com elogios desmedidos.

O verdadeiro mérito sente-se desconcertado diante da adulação: tem seu orgulho e o seu pudor, como a castidade. Os grandes homens dizem de si, naturalmente, coisas elogiosas que, ditas por lábios alheios, os fariam corar; as sombras gozam, ouvindo os louvores que temem não merecer.

As mediocracias fomentam esse vício de servos. Todo aquele que pensa com a própria cabeça, ou tem um co-ração altivo, apartar-se do tremedal onde os envilecidos prosperam.

"O homem excelente — escreveu La Bruyère — não pode adular; julga que a sua presença importuna nas cortes, como se a sua virtude ou o seu talento fossem uma exprobação aso que a governam".

E, do seu afastamento, os que empalidecem diante dos seus méritos, aproveitam, como se existisse uma perfeita compensação entre a inaptidão e a posição que ocupam, entre as domesticidades e as avançadas.

De tempos a tempos, algum dentre os melhores se ergue sobre todos, e diz a verdade, como sabe e como pode, para que ela não seja extinta, nem se subverta, transmitindo-a ao porvir. E a virtude cívica: o ignóbil é qualiiicado com justeza; a força de velar os nomes, acabaria por perder-se, nos espíritos, a noção das coisas indignas. Os tartufos, inimigos de toda luz astral e de toda palavra sonora, persignam-se diante do herético que devolve os nomes às coisas respectivas. Se dependesse deles, a sociedade se transformaria em uma caverna de mudos, cujo silêncio não seria interrompido por nenhum clamor veemente, e cuja sombra não seria rasgada pelo resplendor de astro algum.

Todo idealista leu, com lírica emoção, as três histórias admiráveis que Vigny contou em seu Stello imperecível. Ter um ideal é crime que as mediocracias não perdoam. Morre Gilbert; morre Catterton; morre André Chenier. Os três são assassinados pelos governos, com armas diferentes, de acordo com o regime. O idealista é imolado nos impérios absolutos, da mesma forma como acontece nas monarquias constitucionais e nas repúblicas burguesas.

Quem vive para um ideal, não pode servir nenhuma mediocracia. Nesta conspira tudo para que o pensador, o filósofo e o artista se desviem do seu caminho; e ái deles, quando se apartam da sua rota; perdem-na para sempre. Temem, por isso, a politiquice, sabendo que ela é o Walhalla dos medíocres. Podem cair prisioneiros em sua rede.

Entretanto, quando reina outro clima, e o destino os leva ao poder, governam contra os servís e os rotineiros; rompem a monotonia da história. Seus inimigos bem o sabem: nunca um gênio foi enaltecido por uma mediocra-cia. Chega contra ela, a-pesar-de tudo; e a desmantela, quando se prepara um porvir.

IV — Os arquitetos da mediocracia

Os pro-homens da mediocracia estão equidistantes do bárbaro legendário — Tibério ou Facundo — e do gênio transmutador — Marco Aurélio ou Sarmiento.

O gênio cria instituições, e o bárbaro as viola. Os medíocres as respeitam, impotentes para forjar ou destruir. Esquivos à glória e rebeldes à infâmia, são reconhecíveis por uma circunstância inequívoca; seus comparsas não ousam denominá-los gênios, por temor ao ridículo, e seus adversários não os poderiam sentar em bancos de imbecis, sem flagrante injustiça. São perfeitos em seu clima; esguelham-se na história, à mercê de cem cumplicidades, conjugam, em sua pessoa, todos os atributos do ambiente que os repuxa, mesclados por equívocas hierarquias militares, por opacos títulos universitários, ou pela amidoada improvisação de nobiliarquias adventícias e açacalam, no seu espírito, as rotinas e os preconceitos que engelham as crenças da mediocridade dominante. Têm sempre os passos curtos; sua marcha, em momento algum, pode ser comparada ao vôo do condôr, nem à reputação de uma serpente.

Todas as piaras inflam algum exemplar predestinado a possíveis enaltecimentos. Selecionam o prototipo acabado, entre os que compartilham as suas paixões e as suas voracidades, os seus fanatismos ou os seus vícios, as suas prudencias ou as suas hipocrisias. Não são privi légio de tal casta ou de tal partido; sua leviandade sur preendente flutua sobre todos os lamaçais políticos. Pensam com a cabeça de algum rebanho, são irresponsáveis: ontem, de sua vacuidade; hoje, de sua proeminência, amanhã, do seu ocaso. Brinquedos, sempre, de vontades aiheias. Entre êles, as repúblicas elegem os seus presidentes, os tiranos procuram os seus favoritos, os reis, os seus ministros, os parlamentares esc oinem seu gabinete. Sob tooos os regimes: nas monarquias absolutas e nas republicas oligárquicas. Sempre que uesce a temperatura espiritual de uma raça, de um povo ou de uma classe, os obtusos e os senis encontram clima propício.

As mediocracias evitam os píncaros e os abismos. Intranqüilas sob o sol meridiano, e timoratas durante a noite, procuram os seus arquétipos na penumbra. Temem a originalidade e a juventude; adoram os que nunca poderão voar, ou os que já têm as azas cobertas de moio.

Adveniícias mantilhas de medíocres, vinculados pelas correias de apetites comuns, ousam chamar-se partidos. Formulam um credo, fingem um ideal, arreiam fantasmas consulares, e recrutam uma hoste de lacaios, isto basta, para disputar, a toda pessoa limpa, a presa das prebendas governamentais.

Cada grei elabora a sua mentira, erigindo-a a dogma infalível. Os tunantes somam os seus esforços, para enaltecer a hombridade do seu fantasma: chama-se lirismo a sua inaptidão; decoro na sua vaidade; ponderação a sua preguiça; prudência a sua pusilanimidade; fé o seu fanatismo; equanimidade a sua impotência; distração aos seus vícios; liberalidade a sua aragem; razão a seu emurchecer. A hora os favorece: as sombras se alongam à medida que o crepúsculo avança. Em certo momento, a ilusão cega muitos, calando toda dissidência voraz.

A irresponsabilidade coletiva apaga a quota individual do erro: ninguém se enrubece, quando todas as faces podem reclamar a sua parte, na soma de vergonha comum.

Dessas barafundas, emergem uns ou outros arquétipos, embora não sejam sempre os menos imprestáveis.

Vivem durante anos à espreita; escudando-se em rancores políticos, ou em prestígios mundanos, atirando-os como agraço aos olhos dos inexpertos. Enquanto jazem em letargo, por irremessíveis inaptidões, simulam-se proscritos por misteriosos méritos. Clamam contra os abusos do poder, aspirando a cometê-los em benefício próprio. Nos maus tempos, os facciosos continuam ludi-briando-se mutuamente, sem que a resignação ao jejum diminua a magnitude dos seus apetites. Esperam pelo seu turno, mansos, sob o torniquete.

Repetem a máxima de De Mestre:

"Savoir attendre est le grand moyen de parvenir".

A espectativa paciente converge para o enaltecimento dos menos inquietantes. Raras vezes um homem superior os arrebanha com pulso vigoroso, convertendo-os em comparsas a medrar à sua sombra; quando lhes falta esse dominador absoluto, saem da órbita, como asteroides, de um sistema planetário cujo sol se extingue. Todos confabulam, então, em tácitas transações, prestando o seu ombro, aos que podem aguentar mais elogios, em equivalência de méritos ambíguos. O grupo os infla com solidariedade de igrejola; cada cúmplice se converte em um fio da teia de aranha lançada para captar o governo.

Compreende-se a arrevezada seleção das facções oligárquicas, e o pomposo desvanecimento do medíocre que elas consagram. Seus encomiastas, empenhados em purificá-lo de toda mancha pecaminosa, tentam obstruir a verdade, chamando romantismo à sua reiterada incompetência para todos os empreendimentos. Outros denominam orgulho à sua vaidade, e idealismo, à sua acídia; mas o tempo dissipa o equívoco, devolvendo o seu nome a esses dois vícios arracimados em um mesmo tronco: o orgulho é compatível com o idealismo, mas o primeiro é a antítese da vaidade e o segundo é a antítese da acídia.

Repuchados os pro-homens de folha, seus cúmplices acabam de azougá-los como demulcente emplastros. Suas cicatrizes chegam a parecer coquetterie, como as rugas das cortezas. Guiando-os à categoria de árbitros da ordem e da virtude, declaram proscritas as suas velhas pústulas: incondicionalismos para com os regimes mais turvos, paixões fraudulentas de jogador, ridículos infortúnios de "donjuanismo" epigramático.

Os lábios dos aduladores se embeberam naquela água do Lethes, que apaga a memória do passado; não advertem que, depois de patinhar uma vida inteira no vício, todo puritanismo cheira a benzina, como as luvas que passam pelo tintureiro.

Onde medram oligarquias, sob disfarces democráticos, prosperam esses pavões reais empolados, tesos pela vaidade: um garoto travesso os esvaziaria, se os picasse, ao passar, descubrindo o nada absoluto que re-touça em seu interior. Vácuo não significa alígero.

A tolice nunca foi esquadria de santidade. Sem sangue de hienas, que é necessário aos tiranos, também não o têm de águia, próprio dos iluminados; corre, em suas veias, uma linfa doudejante, peculiar da estirpe de pavões, requintada na dos reais, ave simbólica, que reúne, candidamente, a tolice e a fatuidade. São termômetros morais de certas épocas: quando a mediocracia incuba frangos, os filhotes de águia não têm atmosfera propícia.

A resignada passividade explica certos enaltecimen tos: o porvir de alguns arquetipos se estriba em serem eles admirados contra outros. Fogem, para se fazer grandes. Com muitos lustros de andar em confusão, não cancelam as suas culpas; à sua passagem, descobrem-se uma inveterada pusilanimidade que não quer escaramuças com inimigos que os humilharam até sangrar.

Não pode haver virtude sem galhardia; não a demonstra quem se esquiva, com trêmulos afastamentos, à batalah por tantos anos, oferecida à sua dignidade. Esse descoroçoamento não é, por certo, o clássico valor gaúcho dos coronéis americanos; nem se parece ao gesto do leão, encolhido para dar maior impulso ao salto. Eles vagabundeiam com o "dom de espera do batráquio otimista" de que fala Ramos Mejia.

O homem digno pode emudecer-se, quando recebe uma ferida, temendo, porventura, que o seu desdém exceda a ofensa: mas a sua sentença chega com estilo nunca usado para adular nem para pedir, mais ferino do que cem espadas. Cada verbo é uma flexa cujo alcance está na potência de elasticidade do arco; a tensão moral da dignidade. E o tempo não apaga uma sílaba daquilo que assim se diz.

Os arquetipos soem interromper seus humilhados silêncios com inócuas pirotécnicas verbais; de longe em longe, os cúmplices apregoam alguma elocubração misteriosa, bulbuciada ou não, diante de assembléias que, certamente, não a ouviram. Eles não atinam em sustentar a reputação com que os exornam: desertam do parlamento no mesmo dia em que são eleitos, como se temessem ser descobertos, comprometendo os empresários da sua fama.

Completa-se a inflação destes aeróstatos, confiando-lhes subalternas diplomacias de festival, em cuja apara-tosidade suntuosa pavoneiam as suas ocas vaidades. Seus cúmplices advinham neles algum talento diplomático ou perspicacias internacionalistas, até complicá-los em lustrosas conezias, onde se apagam em tíbias penumbras junto ao resplendor dos seus colaboradores mais contíguos.

Nunca desalentadas, as oligarquias continuam mimando esses produtos espúrios, com a esperança de que acertarão um golpe no cravo, depois de dar cem na ferradura. Ungidos emissários junto a uma nação irmã, a sua casuística de sacristia envenena profundos afetos, como se, por parte de encantamento, germinassem cizânias inextinguíveis nos corações dos povos.

Arquivistas e papelistas se confabulam para ocultar o fervor dos ingênuos e captar a confiança dos rotineiros. Plutarquinhos, gozando de boa renda, transformam em mel o seu áloe, requintado em elogios os seus vinagres mais crônicos, como si hipotecassem o seu engenho, descontando prebendas futuras. Enchem, com inúteis artigos encomiásticos, a vacuidade do tolo, sem pensar na insuficiência da tramóia. O pavão não parece águia, como a mula não parece corcel; são reconhecidos ao passar, quando mostram a sua crista erétil, ou quando fazem ouvir o estalar da sua ferradura.

Sua gravitação negativa seduz os caracteres domesticados: não pensam, não roubam, não oprimem, não sonham, não assassinam, não faltam à missa — que mais?

Quando as facções forjam o Fénix, enaltecem-n’o, como um símbolo perfeito. Possuem cosmético para as suas fisionomias enrugadas: a grandíloqua rancidez dos programas, em cujo fim buscaríamos, imediatamente, a firma de Bertholdo, se os vastos delíquios não traduzissem as prudentes reticências de Tartufo. É preferível que estejam coalhadas de vulgaridades e escritos em péssimo estilo; agradam mais à clientela. Um programa abstrato é perfeito: parece idealista e não lastima as idéias que cada cúmplice julga possuir. De cada cem, noventa e nove mentem da mesma forma: a grandeza do país, os sagrados princípios democráticos, os interesses do

povo, os direitos do cidadão, a moralidade administrativa. Tudo isto, se não é falta de vergonha consuetudinária, é de uma tolice enternecedora; simula dizer muito e não significa coisa alguma. O medo das idéias concretas oculta-se sob o antiface das vaguezas cívicas.

Não se envergonham de escalar o poder, indo escarranchados sobre ignomínias. Obtemperam a toda vilania, para oue convenham com o seu objetivo: quando falam de civismo, o seu alento empresta o pântano originário. Sua moral encobre o vício, pelo simples fato de desfrutar. Impelidos por caminhos tortuosos, continuam semeando nos mesmos sulcos. Para anroveitar os indignos, tiveram que se humilhar diante deles, mansamente; as honrarias que não são conquistadas, são pagas com rebaixamentos.

"Não pode ser virtuoso aquele que foi engendrado em um ventre impuro" — dizem as Escrituras; os que sobem fechando os olhos e emaranhando-se em artimanhas de estercorários, sofrendo as apalpadelas dos grosseiros, mentindo a si próprios, para fartar os apetites de toda uma vida, não podem redimir-se do pecado original, muito embora, como Faustos insubordinados, pretendam escapar ao malefício dos seus Mefistófoles.

O povo ignora-os: está separado deles pelo zelo das facções. Para se prevenirem contra os achaques indiscretos, retiram-se da circulação: como se. de perto, não resistissem à revista dos curiosos. Mantêm-se alheios a todos os estremecimentos de raça. Em certas horas, as turba podem ser seus cúmplices: o povo nunca. Não o consente, porque não existe, substituído por certos que medram.

Depositários da alma das nações, os Povos são entidades espirituais inconfundíveis com os partidos. Não basta ser multidão, para ser povo; não o seria a unanimidade dos servis.

O povo encarna a própria consciência dos destinos futuros de uma nação ou de uma raça. Aparece nos países que um ideal converte em nações, e reside na convergencia moral daqueles que sentem a pátria mais alta do que as oligarquias e do que as seitas. O povo — antítese de todos os partidos — não se conta por números. Está onde um só homem não se complica no acanalhamento comum: em face das hostes domesticadas ou fanáticas, esse único homem livre, êle só, é tudo: Povo, Nação, Raça e Humanidade.

Os arouetipos da mediocracia passam pela história com a pomna superficial de fugitivas sombras chinesas. Jamais chega aos seus ouvidos um insulto, ou um louvor; nunca se lhes diz "heróis" ou "tiranos"; na fantasia ponular, despertam um éco uniforme, oue em todas as partes se repete: "o pavão!", numa síntese mais definitiva do aue uma lápide. O seu trinomio psicológico é simples: vaidade, impotência e favoritismo.

Vivem de exclamações exageradas que só dizem respeitado às formas. A austera sobriedade do gesto é atributo dos homens: a suntuosidade das aparências é galardão das sombras. Depois de incubar suas ânsias, trêmulos de humildade diante dos seus cúmplices, enublam-se com fumaeas, empavezam-se com fatuidades; esquecem que, orgulhar-se de uma posição, é confessar-se inferior a ela. Acumulam rumores artifícios, para alucinar as imaginações domesticadas; rodeiam-se de lacaios, adotam pleonásticas nomeclaturas, centuplicam os expedientes, pavoneiam-se em trens luxuosos, navegam em complicados bucentauros, sonham com recepções além dos oceanos. Oferecem os dois flancos à ironia risonha dos burlões, pondo, em tudo, certa magnificência da segunda mão, que recorda as cortes e os senhorios de opereta. A sua ênfase melodramática estaria bem em personagens de Victor Hugo, e faria cócegas ao egoísmo voltariano de Stendhal.

No seu "adonismo" contemplativo, não cabe a ambição, que é um enérgico esforço, no sentido de acrescentar, em obras, os próprios méritos. O ambicioso quer subir, até onde as suas próprias azas o podem levantar; o vaidoso julga encontrar-se já nas alturas supremas cubicadas pelos outros.

A ambição é bela entre todas as paixões, enquanto a vaidade não a envilece; por isso, é respeitável nos gênios, e ridícula nos tolos.

Embandeiram-se com permanentes grandiloqüências. Suspeitam que existem ideais, e se fingem seus sustentáculos: incorrem sempre nos que estão mais em conformidade com a moral de sua mediocracia. Suspeitam a verdade, às vezes, porque ela entra em todas as partes, sendo mais sutil do que a adulação: mas a mutilam, atenuam-na, corrompem-na. com acomodações, com muletas, com remendos que a disfarçam.

Em certos casos, a verdade pode mais do que eles; vem, a-pesar-dêles, à luz, e é o seu castigo. Paramen-tam-se de boas intenções, quando menos forças vão tendo para convertê-las em atos; a tolice inata se revela em seus palavreados puritanos. Torna-se cômica a sua inaptidão em seu disfarce de idealismo: são labéus, os vagos princípios que aplicam, ao compasso de conveniências oportunistas. O tempo descobre os que têm a moral empeça, para a mostrar: embora do seu pano jamais condigam cortar um traje para cobrir a sua mediocridade .

São tributários do sétimo pecado capital: na sua impotência, há preguiça. Renunciam à autoridade, e conservam a pompa; aquela poderia brunir o mérito, esta adorna a vaidade. Gostam de folgar; desistem de fazer o muito pouco que poderiam; evitam todo o labor firme; apartam-se de qualquer combate, declarando-se espectadores. Podem praticar o mal por inércia, e bem por equívoco; entregam-se aos acontecimentos, por incapacidade de orientá-los.

"Les paresseux — dizia Voltaire — ne sont jamais que degents medíocres, en quelque genre que ce soit".

Por detestáveis que sejam os governantes, nunca são piores do que quando não governam. O mal que os tiranos fazem, é um inimigo visível; a inércia dos poltrões, ao contrário, implica um misterioso abandono da função pelo órgão, a acefalia a morte da autoridade, por uma caquexia inecessível aos remédios.

Grande inconsciência é governar povos, quando a enfermidade ou a velhice privam o homem, do governo de si mesmo.

A falta de inspirações intrínsecas torna-os sensíveis à coarão dos conspiradores, às pressões dos partidários, às intimidações dos gazetilheiros, às influências das sacristias. Sua conduta revela a sua debilidade, em face de quantos os assaltam: e não basta, para dissimular tal fraoueza. o seu aparatoso investir contra moinhos de vento. Quando chegam ao poder, renunciam-no de fato, convencidos de sua impotência para usá-lo, entregam-se ao curso da corrente, como os nadadores insipientes. Ginetes de potros cujo voltear ignoram, fecham os olhos, e abandonam as rédeas: essa inaptidão para ararrá-las com suas mãos inexpertas, denominam-na "submissão à democracia".

O favoritismo é uma escravidão em face de cem interesses que os acossam: ignoram o sentimento da justiça e o respeito ao mérito. O verdadeiro justo resiste à tentarão de o não ser, quando disso lhe advém benefícios; o medíocre cede sempre. Professa uma abstrata eqüidade nos casos que não ferem a validez dos seus cúmplices; mas se complica, de fato, em todas as suas frioleiras.

Nunca, absolutamente, pode haver justiça em preferir o lacaio ao digno, o oblíquo ao reto, o ignorante ao estudioso, o intrigante ao gentilhomem, o medroso ao valente. É essa a corruptela moral das mediocracias: antepor o valimento ao mérito.

No favoritismo, empantanam-se os que pisam firme, e avarvam os que se arrastam brandamente: como nos tremedais. Quando o mérito enrosta os erros dos arqué tipos, estes respondem humildemente que não são infalíveis: mas a sua vileza está em sublinhar a desculpa com oferecimentos tentadores, acostumados, como estão, a negociar com a honra.

Não pode ser juiz aquele que confunde o diamante com a bazófia: quando se aceita a responsabilidade de governar, "eqnivocar-se é culpa", como sentenciou Epí-teto. Nas mediocracias, ignora-se que a dignidade nunca chega de joelhos aos estrados dos que mandam.

Repetem, com freqüência, o legendário juízo de Mi das. Pã ousou comparar a sua flauta de sete carriços com a lira de Apôlo. Propôs uma justa ao deus da harmonia, sendo árbitro o velho rei frígio. Ressoaram os acordes rústicos de Pã e Apôlo cantou ao compasso das suas melopéias divinas. Todos se decidiram porque a Flauta era incomparável à lira, todos, unanimemente, menos o rei, que reclamou a vitória para Pã. Imediata-mente cresceram sob os seus cabelos, duas milagrosas orelhas. Apôlo ficou vingado, e Pã se refugiu na som bra. O juíz. confuso, quis ocultar as orelhas debaixo da sua coroa. Um camareiro as descobriu; correu a um vale longínquo, cavou um poço, e contou ali o seu segredo. Mas a verdade não se enterra: floresceram rosais que, agitados pelas brisas, repetem eternamente que Midas teve orelhas de asno.

A história castiga com tanta severidade, como a lenda: uma página de crônica dura mais do que um roseiral. Ninguém pergunta se os crucificadores de Cristo, os queimadores de Brunos e os burladores de Colombo foram velhacos ou amolecidos. A sua condenação é a mesma, e irrevogável. A justiça é o respeito ao mérito.

Um Marco Aurélio sabe que, em cada geração, há dez ou vinte espíritos privilegiados, e seu gênio consiste em estimulá-los, a todos: um Panza os exclue da sua ínsula, fazendo uso somente daqueles que se domesticam, isto é, dos piores como caráter e como moralidade.

São sempre injustos aqueles que escutam o servil, sem interrogar o digno. Os que merecem justiça, nunca pedem favor. Nem o aceitam. Acham natural o fato de os parvos darem preferência aos seus iguais; é exato que a "torpeza do burguês, mortificado pela soberba natural da superioridade, procura consagrar o seu igual, cujo acesso lhe é fácil, e em cuja psicologia encontra meios de ser satisfeito e compreendido".

Sempre chega a hora em que as injustiças dos governantes se pagam com formidáveis juros compostos, irremessivelmente. Feitas a um só, ameaçam a todos os melhores; deixá-las impunes, significa ser cúmplice; cedo ou tarde, saldam-se os seus trava-contas, embora seus erros não se liquidem nunca. Os arquétipos de medio-cracias aprendem em carne própria, que, por um cravo, perde-se uma ferradura.

Como fez a Midas o divino Apôlo, os dignos castigam os sem vergonha, com a perenidade da sua palavra; podem errar, porque é humano; mas, se dizem verdade, ela permanece no tempo. Essa é a sua espada; raras vezes a desembainham, pois se gasta logo uma arma que se seca com freqüência: quando o fazem, vai direta ao coração, como a do romance famoso.

E o rancor dos lacaios evidencia a segurança da ponta que toca o amo.

Para serem completos, são sensíveis a todos os fanatismos. A maioria reza com os mesmos lábios que usa para mentir, como Tartufo; inseguros de suportar, na terra, a sanção dos dignos, os medíocres desejariam postergá-la para o céu.

Se estivesse em seu poder, cortariam a língua dos sofistas e as mãos dos escritores; fechariam as bibliotecas, para que nelas, não conspirassem engenhos originais Preferem a adulação do ignorante, ao concelho do sábio. Submetem-se a todos os dogmas. Se são coronéis, usam escapulários, ao invés de espada; se são políticos, consultam a Austúcia, para interpretar as Cartas Magnas das nações.

Sob o seu império, a hipocrisia — mais funesta do que a própria falta de vergonha — torna-se sistema. Nesse combate incessante, renovado em tantos dramas ibsenianos, os amorfos se convertem em colunas da sociedade, e o que despe uma sombra, parece um sedicioso, inimigo do povo. Todos os avisados golpeiam o próprio peito para medrar. As hostes de sacristia crescem e crescem, absorvendo, minando, fartando-se com as herpes morais que se entumescem em silêncio, até murchar ignominiosamente a fisionomia de toda uma época.

As mediocracias negam aos seus arquétipos o direi to de eleger a sua oportunidade. Amarram-no ao governo, quando o seu organismo vacila, e o seu cérebro se apaga: querem o inútil ou o obtuso. Homens repudiados na juventude, são consagrados na velhice; nessa idade, em que as boas intenções são um cansaço dos maus costumes. Elegem os que se habituaram a ser escravos do seu ventre, comendo até fartar-se, e bebendo até se atur dir, devastando a sua saúde em noites brancas, rebaixando a sua dignidade na insolvência dos tapetes verdes, tornando-se impróprios para todo esforço continuado e fecundo, preparando essas decrepittides em que os rins se fossilizam, o fígado se açucara. Essa é a melhor garantía para o rebanho rotineiro; seu ódio à originalidade o impele na direção dos homens que começam a se mumificar em vida.

Enquanto a velhice vai apagando os últimos rasgos pessoais dos arquetipos, seus cúmplices confabulam para ocultar o seu progressivo amolecimento, eximindo-se de toda tarefa, e lhes ministrando ingênuas ficções. Pouco a pouco, a carcassa foge de suas residências naturais e se isola: evita as ocasiões de se mostrar em plena luz, exibindo-se em reduzido número de mostradores, onde os pavões reais podem ostentar, de longe, os cem olhos da Argus postos em sua cauda. Incertos até para pensar, necessitam, mais do que nunca e do que ninguém, dos elogios dos incensadores: a adulação acaba cobrindo-os de lubrificantes. As apologias recrudescem, à medida que eles vão desaparecendo, com o cérebro minado por vergonhosas enfermidades contraídas no trato de lupanar com as cortezas.

O crepúsculo sobrevem, implacável, a fogo lento, gota a gota, como se o destino quisesse desnudar a sua vacuidade: peca por peça, mostrando-a aos outros empeçados, aos que poderiam duvidar, se morressem de repente, sem essa pausada descoloração.

São sombras ao serviço de suas hostes contíguas. Embora não vivam para si próprias, têm de viver para elas, mostrando-se de longe, para garantir que existem, e evitando até o sôpro do ar, que poderia dobrá-los, como a folha de um catálogo abandonado às intempéries.

Mesmo que desfaleçam, não podem abandonar a carga: inutilmente o remorso repetirá aos seus ouvidos as clássicas palavras de Propércio:

"É vergonhoso carregar alguém a cabeça com um fardo que não pode levar: cedo se dobram os joelhos. esquivos ao peso". (III, IX, 5).

Os arquétipos sentem a sua escravidão: mas devem morrer nela, custodiados pelos cúmplices que alimentaram a sua vaidade.

As casas de governo podem ser um féretro; as facções sabem disto, e disputam seus "vices", que ficam à espreita. Seus nomes ficam enumerados nas cronologias; desaparecem da história. Seus descendentes e beneficiá rios se esforçam em vão, para dilatar a sua sombra e dela viver.

Basta que um homem livre os denuncie, para que a posteridade os amortalhe; sobra uma so palavra — se é virtuosa, estóica, incorruptível, decidisa a sacrificar-se sem olhar para trás, contanto que seja leal á sua digni dade — sobra uma só palavra para apagar as adulações dos palacianos, inutilmente acendradas na hora fúnebre. Alguns fartos comensais, não podendo lazer referências ao que foram, atrevem-se a elogiar o que poderiam ter sido… julgam que morre uma esperança, como se esta fosse possível em organismos minados pelas carcomas da juventude e pelos açucaramentos da velhice.

É natural que morra, com cada um deles, a sua piara: seguem-se muitas em cada éra de penumbra. A me-diocracia as tira, como velhos naipes cujas cartas já estão marcadas pelos estafadores, passando a cortar com outros novos, nem melhores, nem piores.

Os dignos alheios às práticas cujas ciladas ignoram, apartam-se de todas as camarilhas que medram à sombra da pátria; cultivam os seus ideais, e deles acendem uma faísca como podem, esperando outro clima moral e preparando-o. E não mancham os seus lábios, proferindo o nome dos arquétipos: seria, porventura, imortalizá-los.

V — A aristocracia do mérito

O progressivo advento da democracia, permitindo a igualdade das maiores, dificultou o enaltecimento dos melhores?

É indiferente tratar-se de monarquias ou de repúblicas; o século XIX começou a unificar a essência dos regimes políticos, nivelando todos os sistemas, aburgue sando-os.

Um pensador eminente glosou esta verdade: a me diocracia não tolera as exceções ilustres. Se o gênio é um soliloquio magnífico, uma voz da natureza, em que fala toda uma nação ou uma raça, pergunta-se: não é um privilégio excessivo esse que permite que um en rouqueça a voz, em nome de todos?

A democracia renega tais soberanos que se enaltecem sem plebiscitos, e não aduzem direitos divinos. O que antes foi verbo, no gênio, torna-se agora palavra, e é distribuída entre todos que, juntos, julgam raciocinar melhor do que um só.

A civilização parece concorrer para esse lento e progressivo desterro do homem extraordinário, exaltando e iluminando as medianias. Quando a maioria não sabia pensar, era justo que um o fizesse por todos: faculdades expostas a perigosos excessos. Mas o homem providencial vai se tornando dispensável, à medida que a maioria pensa e quer.

"Em tanta difusão da soberania, que necessidade há de grandes epopéias, pensadas, realizadas ou escritas?"

Esta parece, transitoriamente, a fórmula do nivelamento, e poderia ser traduzida assim; à medida que se difunde o regime democrático, restringe-se a função dos homens superiores.

Seria verdade inconcussa, se o vir-a ser igualitário fôsse uma orientação natural da história, e se, no casode o ser, se efetuasse com ritmo permanente, sem tropeços. E não é assim. Nunca o foi; nem o será, ao que parece.

A natureza se opõe a toda nivelação, vendo, na igualdade, a morte. As sociedades humanas, para o seu progresso moral e estrutural, necessitam do gênio mais do que do imbecil, e do talento mais do que da mediocracia.

A história não confirma a presunção igualitária; não suprime Leonardo para endeusar Panza, nem esmaga Bertholdo para adorar Goethe. Uns e outros têm a sua razão de viver, e um não prospera no clima do outro.

O gênio, em sua oportunidade, é tão insubstituível como o medíocre na sua; mil, cem medíocres não fariam, então, o que faz um gênio. Cooperam em sua obra os idealistas que os precedem ou que os seguem; nunca os conservadores, que são os seus inimigos naturais, nem as massas rotineiras, que podem ser o seu instrumento, mas não o seu guia.

É irônico repetir que os Estados nunca necessitam do governante genial. O culto do governante de pacotilha, mas honesto, é próprio de mercadores que temem o ruim, sem conceber o superior.

Por que haveria a história de renegar o gênio, o santo e o herói?

Nas horas solenes, os povos tudo esperam dos grandes homens; nas horas decadentes, bastam os vulgares.

Há um clima que exclue o gênio e busca o fátuo: na chatice crepuscular enquanto as academias se povoam de míopes e de funcionários, os charlatães ou os aproveitadores governam o Estado. Mas há outro clima em que estes não servem; então, apinha-se de astros o hori zonte. Na borrasca, um Sarmiento toma o leme, e diri ge um povo a caminho do Ideal; na aurora, olha, e vê

longe Ameghino, descobrindo fragmentos de alguma Verdade em formação. E tudo varia em seus domínios; forma-se, ao seu redor, como o halo em torno dos astros, uma atmosfera particular onde a sua palavra ressoa e â sua chispa ilumina: é o clima do gênio. E um só pensa, e procede; marca um evo.

Ao que diz "igualdade ou morte", a natureza replica: "a igualdade é a morte".

Aquele dilema é absurdo. Se fosse possível uma constante nivelação, se tivesse sucumbido, alguma vez, todos os indivíduos diferenciados ou originais, a humani* dade não existiria. Não teria podido existir, como termo culminante da série biológica. A nossa espécie saiu das precedentes, como resultado da seleção natural; a evolução só se verifica, onde é possível selecionar as variações dos indivíduos. Igualar todos os antropóides, seria negar a humanidade; igualar todos os homens, seria negar o progresso da espécie humana. Seria negar a própria civilização.

Fica o fato atual e contingente: o advento progressivo do regime democrático nas monarquias e nas repúblicas, favoreceu a sua decadência política durante o último século?

Praticamente a democracia tem sido uma ficção, até agora. É a mentira de alguns que pretendem representar todos. Embora nela acreditaram, por momentos Lamartine, Heine e Hugo — e ninguém é mais infiel do que os poetas idealistas ao verbo da equivalência universal — os outros lhe são abertamente hostis. A posição do problema é outra. É simples.

Até agora, não existiu uma democracia efetiva. Os regimes que adotaram tal nome foram ficções. As pretendidas democracias de todera os tempos não foram senão confabulações de profissionais, para tirar proveito

das massas e excluir os homens eminentes. Foram sempre mediocracias. A premissa da sua mentira foi existência de um "povo" capaz de assumir a soberania do Estado. Não há tal: as massas de pobres e ignorantes não tiveram, até hoje, aptidão para se governarem: mudaram apenas de pastores.

Os maiores teóricos do ideal democrático foram, de fato, individualistas e partidários da seleção natural: perseguiram a aristocracia do mérito, contra os privilé gios das castas.

A igualdade é um equívoco ou um paradoxo, conforme os casos. A democracia foi uma miragem, como todas as abstrações que povoam a fantasia dos iludidos ou formam o capital dos mendazes. O povo sempre esteve ausente dela.

As castas aristocráticas não são melhores; nelas há, também, crises de mediocridade, se tornam mediocracias. Os democratas querem a justiça para todos e se enganam buscando-a na igualdade; os aristocratas querem o privilégio para os melhores e o acabam reservando aos mais ineptos. Aqueles apagam o mérito na nive-lução; estes o burlam, atribuindo-no a uma classe. Uns e outros são, de fato, inimigos de toda seleção natural. Tanto faz que o povo seja domesticado por grupos de nobres com brazão ou de adventícios: em ambas, estão igualmente proscritos a dignidade e os ideais. Assim como as assim-chamadas democracias não o são, as pretendidas aristocracias não o podem ser. O mérito estorva, tanto nas cortes como nas tabernas.

Toda a aristocracia é seleta em sua origem, costuma sê-lo; é respeitável aquele que inicia, com o seu merito, uma nobiliarquia ou avoengos. É evidente a desigualdade humana em cada tempo e lugar; sempre há homens e sombras.

Os homens que guiam as sombras são as aristocracia natural do seu tempo, e o seu direito é indiscutível. É justo, porque é natural. Ao contrário, é ridículo o conceito das aristocracias tradicionais: concebem a sociedade como fruto reservado a uma casta que usufrue os seus benefícios, sem ser composta pelos melhores homens do seu tempo.

Por que é que os parentes familiares e lacaios dos que foram outrora os mais aptos, devem continuar a participar de um poder que não contribuíram para criar? Em nome da herança?

Se as aptidões se herdam, esse privilégio lhes é inútil, e poderiam renunciá-lo; se não as herdam, é injusto e devem perdê-lo. Convém que o percam. Toda nobreza hereditária é a antítese de uma aristocracia natural; com o correr do tempo, torna-se o seu obstáculo mais vigoroso.

O direito divino, que uns invocam, é mentira; é a mesma coisa que os direitos do homem, invocados por outros. Aristarcos e demagogos são igualmente medíocres, e impedem a seleção das aptidões superiores, nivelando toda originalidade, coibindo todo ideal.

Poder-se-ia fazer uma concessão. Os países sem castas aristocráticas são mais propícios à mediocrização; neles se constituem oligarquias de adventícios, que têm todos os defeitos e as presunções da nobreza, sem possuir suas qualidades. Na sua improvização, falta-lhes a mentalidade do grão-senhor, composta de atributos que se apoiam numa cultura de séculos: há, sem dúvida, gente de qualidade que têm classe, como os cavalos de corridas. São mais esquivos ao rebaixamento. Nos seus preconceitos, a dignidade pode ter mais parte, do que nos do adventício. É uma diferença que os preserva de muitos envilecimentos.

Ê preferível obedecer as castas que têm a rotina de mando, ou a pandilhas minadas por hábitos de servilismo?

O privilégio tradicional do sangue irrita os democráticos, e o privilégio numérico do voto repugna aos aristocratas. O berço dourado não dá aptidões; mas, também, não as dá a urna eleitoral. A pior maneira de combater a mentira democrática, seria aceitar a mentira aristocrática; nos dois casos, trata-se de idêntica inaptidão, com diferentes rótulos. As massas inferiores — que poderiam ser o "povo e os homens excelentes de cada sociedade — que são a "aristocracia natural" — soem permanecer alheios à sua estratégia.

Entre os democratas inbuídos de igualdades, cabem audazes lacaios que pretendem suplantar os seus amos, corn o auxílio das turbas fanatizadas; entre os aristocratas, pela tradição, cabem os vaidosos que desejam reduzir os seus servidores, com o auxílio dos homens de mérito. A história sempre se repete: as massas e os idealistas são vítimas propiciatórias nessas disputas entre senhores feudais e burgueses de sobrecasaca.

A degenerescência mediocrática, que Faguet caracterizou como um "culto da incompetência", não depende do regime político, senão do clima moral das épocas decadentes. Cura-se quando desaparecem as suas causas; nunca por meio de reformas legislativas, que é absurdo esperar dos próprios beneficiários. Em vão são ensaiadas pelos tolos, ou simuladas pelos chalatães: as leis não criam um clima. O direito efetivo é uma resultante concreta da moral.

O protesto apaixonado dos idealistas pode ser um grito de alarma lançado na sombra; mas o sonho de enaltecer uma democracia, é ilusório, nas épocas de domesticação moral e de sociedade. As facções preferem ouvir o falso idealismo dos seus feitiços envelhecidos, como se, em velhos ôdres, fosse possível conter vinho novo.

É preciso esperar tempos melhores, sem pessimis-mos excessivos, com a certeza de que a reação chega inevitavelmente, a uma certa hora: os homens superiores a esperam, custodiando a sua dignidade trabalhando para o seu ideal. Quando a mediocridade exgota os últimos recursos da sua incompetência, naufraga. A catástrofe devolve a sua posição ao mérito e reclama a intervenção do gênio.

O próprio acanalhamento mediocrático contribue para restaurar, de tempos em tempos, as forças vitais de cada civilização. Há uma vis medicatrix nature que corrige a velhacaria das nações: a formação intermitente de sucessivas aristocracias do mérito.

O privilégio desaparece, e a direção moral da sociedade volve às mãos dos melhores. Respeita-se a sua legitimidade, enaltecem-se essas raras qualidades individuais que implicam a orientação original no sentido de ideais novos e fecundos.

Toda renascença se anuncia pelo respeito das diferenças, pelo seu culto. A mediocracia cala, impotente; a sua hostilidade toma-se fraca, embora inúmera. Se tivesse voz, rebaixaria o próprio mérito, outorgando-o sem discernimento. A maioria não sabe distinguir o que é útil a todos; nunca o rotineiro foi juiz do idealista; nem o ignorante do sábio; nem o honesto do virtuoso; nem o servil do digno. Toda excelência encontra o seu juiz em si mesma. O mérito de cada um é aquilatado na opinião dos seus iguais.

Há aristocracia natural, quando o esforço dos cérebros mais aptos converge na direção dos destinos comuns da nação. Não é prerrogativa dos engenhos mais mais agudos, como quereriam alguns, em cujo ouvido ressoa, como um éco, essa "aristocracia intelectual" que foi a quimera de Renan. Na aristocracia do mérito, iguais direitos têm a virtude e o caráter, como a inteligência: de outra forma, seria incompleta, e o seu esforço, ineficaz.

Um regime onde o mérito individual fosse estimado sobre todas as coisas, seria perfeito. Excluiria qualquer influência numérica ou oligárquica. Não haveria interesses criados. O voto anônimo teria valor tão exíguo, como o brazão fortuito. Os homens se esforçariam por ser cada vez mais desiguais entre si. preferindo oualquer originalidade criadora à mais tradicional das rotinas.

Seria possível a seleção natural e os méritos de cada um seriam aproveitados pela sociedade inteira. O agradecimento dos menos úteis estimularia os favorecidos pela natureza. As sombras respeitariam os homens. O privilégio se mediria pela eficácia das aptidões e se perderia com elas.

É transparente pois, o credo que, em política, o idealismo fundado na experiência poderia sugerir-nos.

Opõe-se à democracia quantitativa, que busca a justiça na igualdade: afirmando o previlégio em favor do mérito.

E à aristocracia oligárquica, que apoia os seus privilégios nos interesses criados, também se opõe: afirmando o mérito como base natural do previlégio.

A aristocracia do mérito é o regime ideal, em face das duas mediocracias que ensombram a história. Tem a sua fórmula absoluta: "a justiça na desigualdade".


 Fonte: Livraria Paratodos, 1953

jun 052010
 

AS MARAVILHAS DA TERRA


Henry Thomas

Os anais das rochas

AFIM de compreendermos a longa e notável histó ria da Terra, devemos ler o Livro das Rochas. Aqui encontramos a fascinante história do desenvolvimento da terra, desde o tempo em que era uma massa sem vida até o bem povoado planeta de hoje. As rochas ígneas revelam volumosas histórias acerca das erupções vulcânicas prehistóricas e da torrente de grandes mares de lava, no interior da terra. As rochas aquosas relatam uma eloquente história do tempo em que os mares cobriam os cumes da montanhas. Dentro de si mesmas essas rochas conservam, em poderoso escrínio, os esqueletos dos monstros prehistóricos, que se arrastavam sobre a terra ou nadavam no mar. Sabemos que o mar outrora cobria as montanhas, porque encontramos inumeráveis conchas marinhas encravadas nas rochas de alguns dos mais elevados picos. As rochas metamórficas transformadas apresentam uma descrição antiquíssima da batalha dos elementos: o choque da chuva, da neve e do raio, no qual as montanhas desfaziam-se em areia e a areia por sua vez se solidificava em montanhas.

Tudo isso podemos ler no Livro das Rochas. E esse livro, bastante fascinador, está atualmente arranjado em páginas de pedra. Porque as rochas estão empilhadas em estratos ou camadas, representando, cada uma, uma idade geológica de muitos milhares e mesmo milhões de anos. Desse modo podemos ler, página por página, a emocionante história da formação da Terra.

Contudo, não se deve pensar que os anais das rochas falam uma língua clara. Muito se teve de fazer antes que a sua história pudesse ser decifrada; muito ainda está para ser feito na revelação de seus segredos.

Esqueletos de antigos animais e plantas

NOS milhões de anos de vida sobre este planeta, estranhos seres evolveram, viveram e morreram, para nunca mais reaparecer. Porque é um truísmo que, uma vez extinta, nenhuma espécie vivente jamais tornou a aparecer. Em consequência, na sua investigação dos curiosos mitérios do passado, os geologistas, ou mais propriamente, os paleontologistas (estudiosos da vida an tiga), voltaram-se para os fósseis, como a chave que abriria a porta de uma fantástica história.

Esses fósseis de que falamos são os esqueletos da vida há muito extinta, esqueletos preservados com todas as suas particularidades por duras e impassíveis paredes de rochas. Foram encontrados pelos gregos vários séculos antes do nascimento de Cristo e deles tiveram também conhecimento os romanos. Mas até o tempo de Leonardo da Vinci (1452-1-519) não lhe haviam reconhecido a importância, como registos do passado. Há uns cento e cincoenta anos é que o estudo de nossa história primitiva recebeu maior impulso, porque os fósseis são, em alto grau, o mais importante dado que temos para interpretar a idade da Terra e a vida de suas numerosas e diferentes espécies de habitantes.

Nos mais remotos dias da Terra, a Era Azóica (sem vida), se vida existiu, foi provavelmente tão tênue que não deixou impressão sobre as rochas. Somente uma estrutura poderosa, tal como um osso ou uma concha, se preserva através dos tempos. Dos mais antigos remanescentes de ossos e conchas, ficamos sabendo quais foram os primitivos animais marinhos, o caranguejo, o escorpião do mar, e especialmente o enxame de gigantescos insetos (alguns com asas abarcando doze polegadas ou mais), que habitava a terra. Certo inseto, sepultado num campo carbonífero da Bélgica, tinha uma envergadura de asas medindo vinte e nove centimetros.

Essas criaturas prehistóricas tiveram de ceder lugar diante do ataque furioso de nova casta de monstros. Na luxuriante e invasora vegetação daquele tempo vagueavam enormes répteis, imensa raça de seres de grandes ventres e pernas fracas, porque fazia apenas poucos milhões de anos que haviam saído das profundezas do abismo. Os répteis assemelhavam-se a imensas caricaturas dos horrendos crocodilos de nossos dias. O mais volumoso dentre eles era o dinossáurio, de tamanho gigantesco, mais gigantesco que qualquer ser vivo de hoje. Na África Oriental, as rochas ostentam o esqueleto fóssil de um deles, o Gigantossáurio, que mede mais de 30 metros de comprimento! Em seguida a esses mamutes, contam-nos as rochas que vieram os primeiros seres alados, os Pterodáctilos, rivalizando em grotescos até mesmo com os dragões fabulosos da mitologia.

E então ocorreu uma grande catástrofe. Todos os poderosos animais daquele período morreram e raiou na terra uma nova idade, a Era dos Mamíferos, quando os fósseis começam a falar-nos de árvores semelhantes às nossas, e o que é mais importante, dos começos do tipo de vida animal que temos hoje. Alguns desses animais, tais como os mastodontes e o tigre de dentes de sabre, acham-se atualmente extintos, mas seus descendentes nos são familiares.

Dessa forma a história dos esqueletos revela aos olhos do cientista épocas inteiras de extraordinário desenvolvimento e estranhos seres ancestrais. Conservados em pedra, através dos tempos, esses restos fossilizados chegaram até nós no mais fascinador dos museus: o Museu Natural do Grande Espaço Livre.

Interessantes teorias a respeito da Terra

OS antigos chamavam a esfera terrestre Ge (notai Ge-ologia, Ge-ometria, Ge-ografia e assim por diante). Mas para o homem primitivo, nosso grande planeta giratório não era uma esfera, e sim um disco achatado, como um mostrador de relógio, com a superfície marcada, aqui e ali, por desfigurações tais como montanhas e mares. Pitágoras foi um dos primeiros a afirmar que a terra era esférica, e Aristóteles apoiou-o. Mas a crença de que o mundo fosse redondo tinha muito pouca base, até que as viagens revolucionadoras de Drake e Magalhães provaram isso, sem mais dúvida.

Seja como fôr, os antigos prestaram pouca atenção ao estudo da formação da terra que habitavam, ou, pelo menos, a davam como um feito sobrenatural ou divino. Até 1796, não possuímos um estudo unificado do nascimento dos planetas. Então Laplace formulou sua bem conhecida teoria, que expomos brevente: Nas eras passadas havia uma enorme massa de gás incandescente, em forma de imensa e§fera, um tanto maior do que o atual sistema solar, e girando na direção em que os planetas hoje se deslocam. Essa grande massa ficava perdendo calor por irradiação, e assim fazendo, condensava-se e continuava a contrair-se todo o tempo. Ora, por uma fundamental lei do movimento, sua velocidade giratória deve ter gradualmente aumentado, até que um grande pedaço, ou anel, se destacou, continuando a girar doidamente no espaço. Pouco a pouco, esse grande anel encolheu-se e formou o primeiro planeta exterior. Depois, sucessivos anéis se destacaram para formar os outros planetas, inclusive a Terra.

Essa engenhosa teoria a respeito do nascimento dos planetas persistiu por cerca de cem anos, a despeito de sérias objeções, até que Chamberlin e Moulton apresentaram sua hipótese planetesimal, hoje famosa. Afirmavam que nosso sistema era outrora uma nebulosa espiral típica, (espécie de pudim celestial, de nuvens, fogo e estrelas). Essa nebulosa girava rapidamente em torno do centro (o Sol). Pouco a pouco um grupo de planetesi-mais (pequenos planetas) formou-se na rodopiante massa nebular, justamente como pequenas bolas de farinha se formam num pudim que é mexido no fogo. A esses planetesimais, nova matéria continuava a ser acrescida todo o tempo, da nebulosa que os cercava, até que as pequenas massas se transformassem em grandes planetas. O ponto de partida dessa grande formação planetária, supõe-se tenha sido a formidável maré provocada por uma estrela que passou perto. Essa é a teoria (com algumas pequenas modificações introduzidas por Jeans e Jeffreys) atualmente admitida.

E assim, a estranha origem da terra, encontra-se ainda na fase da teoria. Pouco é o que de definitivo pode ser dito a respeito deste assunto, até o dia venturoso em que algum cientista puder ter a rara fortuna de observar contemporaneamente no céu, o nascimento dum sistema igual. Então ficaremos sabendo.

Qual a idade da Terra?

A IDADE da Terra ultrapassa, de enorme extensão, todos os calendários que possuímos para medí-la. As mais velhas rochas que repontam da superfície eram indubitavelmente jovens quando a terra já era velha. Mas estas rochas, diferenciando-se, de acordo com as grandes revoluções das idades, são os únicos calendários que possuímos. Baseados na história que esses calendários nos contam, e nos fósseis que encerram, os geólogos dividiram a idade da Terra em cinco grandes épocas.

A mais antiga formação rochosa é atribuída à Idade Arqueozóica (idade do começo da vida), o tempo em que a vida apareceu primeiramente sobre a Terra.

A duração dessa era é estimada em cerca de quinhentos milhões de anos.

Em seguida vem a Idade Proterozóica (a idade da vida primitiva), o tempo em que a vida começou a evolver num ciclo ascendente, mas em que plantas e animais eram ainda demasiado tenros e gelatinosos para poder deixar reconhecíveis restos fósseis. Essa foi uma era de grandes erupções vulcânicas, e de enormes geleiras que cobriam a maior parte da terra. Essa era durou outros quinhentos milhões de anos.

Com a chegada da Idade Paleozóica (a idade da antiga vida) atingimos uma época em que a vida sobre a terra era abundante. A princípio, havia apenas ínfimas espécies, invertebrados (criaturas sem espinha dorsal); depois, como o passar do tempo, apareceram nossos primeiros peixes. E em seguida, as primeiras formas superiores de vida, os grandes répteis vertebrados (que possuem espinha dorsal). Durante essa era, a cadeia de montanhas dos Apalaches se formou e extensos depósitos de carvão acamaram-se na terra. Essa Idade Paleozóica foi, também como as precedentes idades, uma era de estupenda duração: quatrocentos milhões de anos, para sermos exatos.

Na Idade Mesozóica, que se seguiu, (idade média da vida), chegamos ao período de transição entre a vida antiga e moderna. Os primeiros dinossáurios dão suas largas passadas sobre a terra e os primeiros pássaros voam no ar. Para o fim dessa era, as Montanhas Rochosas e os Andes erguem seus poderosos ombros acima do mar. Os geólogos estimam a duração da Idade Mesozóica em cerca de um milhão de anos.

No começo da Idade Cenozoica (a idade da vida recente), os Apalaches adquirem sua forma atual, enquanto as Rochosas continuam a erguer-se acima das águas. Os primeiros mamíferos aparecem, os Grandes Lagos tomam forma e sobre as planícies vagueia uma horda de animais bastante aproximados de sua moderna forma: o bisonte, o elefante, o cavalo, o tigre de dentes de sabre. E justamente por esse tempo, faz o Homem sua aparição, o pithecantrofihus erectus (o homem-macaco que permanece erecto) é encontrado em depósitos, em Java. Depois aproxima-se o último grande Período Glacial em que metade do que é agora conhecido como os Estados-Unidos estava coberto pela Grande Geleira, que destruiu muitas das formas inadaptadas de vida e deixou o Homem essencialmente com os mesmos camaradas que êle tem hoje. O período glaciario ainda não passou completamente; mais de cinco milhões de milhas quadradas da terra estão ainda sepultados debaixo de um lençol de neve e gelo. A idade desta última era é estimada em cerca de sessenta milhões de anos.

Qual é então o total, desde o tempo das mais remotas rochas conhecidas até o presente? Sabemos que esse total não representará a idade toda da terra, mas pode fornecer uma estimativa aproximada. Estaremos bem certos se dissermos que a terra tem nada menos de um bilhão e quinhentos milhões de anos de idade! …….(1.500.000.000).

Obs: A hipótese é de 1945. A idade estimada hoje já mudou para aproximadamente 5 bilhões de anos.(N.C)

Explorando a estratofera

NOSSA atmosfera, o envoltório de gases que nos cer-ca a uma altura de muitas centenas de milhas, contém muitas camadas, bem semelhantes às camadas sucessivas duma cebola. Uma delas é a chamada estratosfera, que jaz por cima de nós a uma distância de um pouco de

mais de seis milhas, região de baixa, porém uniforme temperatura, usualmente de cerca de 55 graus abaixo de zero. Ultimamente a estratosfera tem assumido insólita importância, tanto para o meteorologista como para o aviador. Para o primeiro é importante por causa da luz que pode lançar sobre as nossas condições de calor. Para o aviador é uma região relativamente sossegada e universalmente clara, através da qual o aeroplano pode desenvolver extraordinária velocidade e proporcionar um conforto incomum no vôo. Porque a estratosfera jaz muito acima das mais altas nuvens, numa região livre de neblina, de vento e de chuva. Por causa do extremo frio e raridade da atmosfera naquela altura, a viagem nas mais elevadas regiões deve ser em camarotes hermeticamente fechados, com a suficiente provisão de oxigênio em depósitos para que dure toda a viagem. Depois, também, deve ser o aeroplano especialmente preparado para viajar através de atmosfera tão rarefeita. Hélices, de posição variável, resolvem a dificuldade, permitindo que as hastes cortem maior porção do ar rarefeito. O acréscimo de super-acumuladores ao aparelho, de modo que o combustível possa receber adequado suprimento de oxigênio,, resolve uma outra das dificuldades. E’ através da estratosfera, assim equipados, que os aviadores estão tentando transpor oceanos e continentes nos vôos mais velozes.

Usam-se não somente os aeroplanos na estratosfera, mas o balão de .ascensão tem realizado muitos vôos com êxito. Destaca-se, entre eles, o do cientista suíço, Professor João Piccard, em 1935, quando seu balão se ergueu à altura máxima de 21.718 metros acima do nivel do mar. Por meio de vôos dramáticos e científicos como esse, o ilimitado espaço da atmosfera superior está provendo o homem de novos campos de conquista e continuamente desafiando-o a novas experiências de força, engenho e perícia. E’ crível que finalmente se torne possível atingir uma velocidade de várias centenas ou talvez mesmo de vários milhares de milhas por horas, através da estratosfera.

Qual a causa dos terremotos?

UM terrível estremecimento agita o solo. Os edifí cios tremem como se sofressem de paralisia. Num surdo estrondo, que vai crescendo até um furioso estridor, grandes fendas se abrem na terra. Cessa o terremoto, mas só por um instante. De novo, vem de longe o hórrido rumor, como o pesado rolar de longínquos tambores. De novo, o terrífico impulso da vibração. O solo inteiro se torna tão instável, como o mar, onda após onda abrindo seu pavoroso caminho através da terra. Os prédios ruem com formidável estrondo; pedras, argamassas, paredes e tijolos desmoronam-se doidamente sobre a terra guinchante. Depois, o silêncio. O terremoto passou. Dos esconderijos e fendas, dos amontoados destroços, arrastam-se lastimáveis espantalhos de homens e mulheres, a encher o ar com gritos de angústia e desespero. E acima de todo o barulho, ergue-se o espantoso grito de "Fogo"!

Os antigos presencearam muitos desses tremores do mundo, mas para seus espíritos ignorantes, a causa se perdia em alguma força mística e sobrenatural, alguma travessura ou cruel vingança dos deuses. Enganado pela falta de conhecimento científico, o próprio Aristóteles, que era bastante sábio para atribuir as causas do fenômeno às forças naturais, fez conjeturas bem distantes da verdade.

Hoje, ajudados por instrumentos muito sensíveis, chamados sismógrafos, os geólogos descobriram as verdadeiras causas dessas convulsões da terra. Espalhadas através do globo existem grandes aberturas e fendas na crosta subterrânea. De vez em quando, parte de uma dessas compridas fendas move-se somente um pouquinho para um lado. Quando isso acontece de repente, grandes massas tornam a pôr-se em ordem com violenta força e esse choque se espalha para causar terremotos em pontos bem distantes.

Outra causa dos terremotos é o pregueamento da terra. Quando a terra começou a esfriar, a superfície esfriou mais depressa que o interior e assim o planeta inteiro contraiu-se e enrugou-se como a pele duma maçã assada. Ora, por causa dessas dobras, a terra sofre um constante e violento abalo. Quando ocorrem ajustamentos para facilitar essa convulsão, temos esses estrondos, deslocamentos e choques conhecidos como terremotos.

Os terremotos, como as erupções e as cheias, exercem ainda terrível e caprichoso domínio sobre a raça humana. O homem não aprendeu ainda a controlá-los ou a predizê-los. Esse é ainda um dos problemas insolvidos da geologia.

Fonte: Maravilhas do conhecimento humano, 1949. Tradução e Adaptação de Oscar Mendes.

jun 042010
 

O Homem Medíocre (1913)

José Ingenieros (1877-1925)

Capítulo VI – A VELHICE NIVELADORA

i. as cãs. — ii. etapas da decadência. — iii. a bancarrota dos engenhos. — iv. a psicologia da velhice. — v. a virtude da impotência.

I — As cãs

Encanecer é coisa muito triste; as cãs são u’a mensagem da Natureza, que nos adverte da proximidade do crepúsculo. E não há remédio. Arrancar as primeiras — e quem não o faz? — é como tirar o badalo ao sino que toca o Angelus, pretendendo, com isso, prolongar o dia.

As cãs visíveis correspondem a outras mais graves, que não vemos; o cérebro e o coração, todo o espírito e toda a ternura encanecem ao mesmo tempo, com a cabeleira .

A alma do fogo, sob as cinzas dos anos, é uma metáfora literária desgraçadamente incerta. A cinza afoga a chama, e protege a brasa. O engenho é chama; a brasa é a mediocridade.

As verdades gerais não são irreverentes; deixam entreaberta uma frincha, por onde escapam as exceções particulares.

Por que não dizer a conclusão desconsoladora?

Ser velho é ser medíocre — com rara exceção. A máxima infelicidade de um homem superior é sobreviver a si mesmo, nivelando-se com os demais Quantos se suicidariam se pudessem advertir essa passagem terrível do homem que pensa, ao homem que vegeta, daquele que impele, àquele que é arrastado, daquele que ára sulcos novos, ao que se escraviza nas pegadas da rotina! Velhice e mediocridade costumam ser desgraçadas paralelas.

O "gênio fulgura até na sepultura" é uma exceção muito rara nos homens de engenho excelente, se são longevos; sói confirmar-se, quando correm a tempo, antes que a capacidade crepuscular empane os resplendores do espírito. Em geral, se morrem tarde, uma pausada neblina começa a velar a sua morte, com os achaques da velhice; se a morte se empenha em não vir, os gênios se tornam estranhos a si mesmos, — supervivencia que os leva até não compreenderem mais a sua própria obra. Sucedem-lhes o que sucederia a um astrônomo que perdesse o seu telescópio, e acabasse por duvidar dos seus descobrimentos anteriores, ao ver-se impossibilitado de os confinar a alho nú.

A decadência do homem que envelhece, é representada por uma regressão sistemática da intelectualidade. Ao princípio, a velhice mediocriza todo homem superior; mais tarde, a decrepitude inferioriza o velho já medíocre.

Tal afirmação é um simples colorário de verdades biológicas. A personalidade humana é uma formação contínua, não uma entidade fixa; organiza-se e se desorganiza, evoluciona e "involuciona", cresce e diminue, intensifica-se e se esgota.

Há um momento em que alcança a sua plenitude máxima; depois dessa época, é incapaz de progredir, logo soem advertir-se os sintomas iniciais da decadência, o tremular da chama interior que se apaga.

Quando o corpo se nega a servir a todas as nossas intenções e desejos, ou quando estes são medidos, em previsão de fracassos possíveis, podemos afirmar que começou a velhice.

Deter-se a meditar sobre uma intenção nobre, é matá-la; o gelo invade traiçoeiramente, o coração, e a personalidade mais livre se acalma, e se domestica. A rotina é o estigma mental da velhice; a economia é o seu estigma social.

O homem envelhece, quando o cálculo utilitário subs-titue a alegria juvenil. Quem se põe a meditar sobre si o que tem lhe basta para o porvir, já não é jovem; quando opina que é preferível ter mais do que ter menos, está velho; quando o seu afã de possuir excede a sua possibilidade de viver, já está moralmente decrépito. A avareza é uma exaltação dos sentimentos egoístas, próprios da velhice.

Muitos séculos antes que os psicólogos modernos a estudassem, o próprio Cícero escreveu palavras definitivas:

"Nunca ouvi dizer que um velho haja esquecido o lugar em que ocultou o seu tesouro" (De Senecture, c.7).

E deve ser verdade, se, quem disse isso, é o mesmo autor que se propôs a defesa dos foros e dos encantos da velhice.

Ascãs são avarentas, e a avareza é uma árvore estéril: a humanidade pereceria, se tivesse de se alimentar com seus frutos. A moral burguesa da economia envileceu gerações e povos inteiros; há graves perigos em pregá-la, pois, como Machiavel ensinou, "mais danos causa aos povos a avareza dos seus cidadãos, do que a capacidade dos seus inimigos".

Essa paixão de colecionar bens que não se desfrutam, vai se intensificando com os anos, ao contrário das outras. Aquele que é manicurto, na juventude, chega até a assassinar, por dinheiro, na velhice. A avareza seca o coração, fecha-o^ à fé, ao amor, à esperança e ao ideal.

Se um aváro possuísse o sol, deixaria o Universo às escuras, para evitar que o seu tesouro se gastasse.

Além de se apegar ao que tem, o avarento se desespera por obter mais, sem limite; é mais miserável, à medida que mais tem; para soterrar taleigas que não desfruta, renuncia à dignidade e ao bem-estar; esse afã de perseguir coisas que nunca será capaz de gosar, cons-titue a mais sinistra das misérias.

A avareza, como paixão envilecedora, iguala-se à inveja. É a pústula moral dos corações envelhecidos.

II — Etapas da decadência

A personalidade individual se constitue por sobreposições sucessivas da experiência. Já se assinalou uma "estratificação" do caráter; a palavra é exata, e merece ser conservada para ulteriores desenvolvimentos.

Em suas capas primitivas e fundamentais, jazem as inclinações recebidas hereditariamente dos antepassados: a "mentalidade da espécie". Nas camadas medianas, en contram-se sugestões educativas da sociedade: a "menta lidade social". Nas camadas superiores florescem as va riações e os aperfeiçoamentos recentes de cada um, os rasgos pessoais que não são patrimônio coletivo: a "men talidade individual".

Assim como, nas formações geológicas, as sedimen-tações mais profundas contêm os fósseis mais antigos, as primitivas bases da personalidade individual guardam cui-dadosamente o capital comum da espécie e da sociedade. Quando os estrados recentemente constituídos vão desa-parecendo, por obra da velhice, o psicólogo descobre, pouco a pouco, a mentalidade do medíocre, da criança e do selvagem, cujas vulgaridades, simplezas e atavismos reaparecem, à medida que as cãs vão substituindo os cabelos.

Inferior, medíocre ou superior, todo homem adulto atravessa um período estacionário, durante o qual aperfeiçoa as suas aptidões adquiridas, mas não adquire novas. Mais tarde, a inteligência entra em seu ocaso.

As funções do organismo começam a decair em certa idade. Essas declinações correspondem a inevitáveis processos de regressão orgânica.

As funções mentais, como acontece com as outras, decaem, quando começam a se enferrujar as engrenagens celulares de nossos centros nervosos.

É evidente que o indivíduo ignora o seu próprio crepúsculo; nenhum velho admite a hipótese da diminuição da sua inteligência.

Quem escreve isto hoje, provavelmente pensará o contrário, quando tiver mais de sessenta anos.

Mas, objetivamente considerado, o fato é indiscutível, embora possa haver discrepância na assinalação de limites gerais para a idade em que a velhice desconjunta a nossa virilidade. Compreende-se que, para esta função, como para todas as outras do organismo, a idade da velhice difere de indivíduo para indivíduo: os sistemas orgânicos em que se inicia a evolução, são diferentes em cada sêr. Há quem se envelhece pelos seus órgãos digestivos, circulatórios ou psíquicos; e há quem conserva, íntegras, algumas de suas funções, até mais além dos limites comuns. A longevidade mental é um acidente; não é a regra.

A velhice inequívoca é aquela que cria mais rugas no espírito, do que na fronte. A juventude não é simples questão de estado civil, e pode sovreviver a algumas cãs; é um dom de vida intensa, expressiva e otimista.

Muitos adolescentes não têm, e muitos velhos o têm até excessivamente. Há homens que nunca foram jovens; em seus corações, prematuramente exgotados, as opiniões extremas não encontram calor, nem os exageros românticos encontra malento. Neles, a única precocidade é a velhice.

Há, entretanto, espíritos de exceção, que guardam algumas originalidades até os seus últimos anos, envelhecendo tardiamente. Mas, antes em uns, em outros depois, devagar ou depressa, o tempo leva a termo a sua obra, e transforma as nossas idéias, os nossos sentimentos, as nossas paixões e as nossas energias.

O processo de "involução" intelectual segue o mesmo curso da sua organização, mas ao inverso. Primeiro desaparece a "mentalidade individual", mais tarde a "mentalidade social", e, por último, a "mentalidade da espécie".

A velhice começa por fazer de todo indivíduo um homem medíocre. A diminuição mental pode, sem embargo, não parar aí. As engrenagens celulares do cérebro continuam enferrujando-se, a atividade das associações neurônicas se atenua cada vez mais, e a obra destrutora da decrepitude é mais funda. Os achaques continuam desmantelando sucessivamente as capas do caráter, desaparecendo, uma depois da outra, todas as suas aquisições secundárias, as que refletem a experiência social.

O ancião se inferioriza, isto é, regressa, pouco a pouco, à sua primitiva mentalidade infantil, conservando as aquisições mais antigas da sua personalidade, que são, por conseqüência, as que melhor se conservam, e se consolidam. É notório que a infância e a senectude se tocam; todos os idiomas consagram esta observeção, em rifões bastante conhecidos. Isto explica as profundas transfornações psíquicas dos velhos; a mudança total dos seus sentimentos (especialmente os sociais e os altruístas), a preguiça progressiva para acometer empreendimentos no-vos (com discreta conservação dos hábitos consolidados por antigos automatismos), e a dúvida ou a apostasia das idéias comuns em seu meio, e, depois, às professadas na infância, ou pelos antepassados.

A melhor prova disto — que os ignorantes sóem citar contra a ciência — nós a encontramos nos homens de mais elevada mentalidade e de cultura melhor disciplinada, é freqüente, neles, ao entrar em ancianidade u’a mudança radical de opiniões acerca dos mais altos problemas filosólicos à medida que decaem as aptidões originalmente definidas durante a idade viril.

III — A bancarrota dos engenhos

Este quadro não é exagerado, nem esquemático. A marcha progressiva do processo impede advertir essa evolução nas pessoas que nos rodeiam; é como se uma claridade se apagasse tão lentamente, que permitisse chegar à escuridão absoluta, sem fazer advertir momento algum da sua transcrição.

À lentidão natural do fenômeno, devem-se acrescentar as diferenças que êle apresenta em cada indivíduo. Aqueles que só logram adquirir um reflexo de mentalidade social, pouco têm a perder com essa inevitável bancarrota; é o empobrecimento de um pobre. E quando em plena senectude, a sua mentalidade social se reduz à mentalidade da espécie, inferiorizando-se, essa passagem da pobreza à miséria não surpreende pessoa alguma.

No homem superior, no talento ou no gênio, notam-se claramente esses estragos.

Como não chamaria a nossa atenção um antigo milionário que passeasse ao nosso lado, os seus últimos andrajos?

O homem superior deixa de o ser, e se nivela. Suas idéias próprias, organizadas no período do aperfeiçoamento, tendem a ser substituídas por idéias comuns ou inferiores.

O gênio — entenda-se bem — nunca é tardio, embora o seu fruto possa ser revelado tardiamente; as obras pensadas na juventude, e escritas na madureza, podem, ou não, demonstrar decadência; mas as obras pensadas na velhice, sempre a revelam.

Nós lemos a segunda parte do "Fausto", por um sentimento de respeito para com o autor da primeira; não podemos sair dela, sem pensar que "nunca as segundas partes foram boas" — rifão inapelável, se a primeira é obra da juventude, e a segunda é fruto da velhice.

Assinalou-se, em Kant, um exemplo acabado dessa metamorfose psicológica. O jovem Kant, verdadeiramente "crítico", tinha chegado à convicção de que os três grandes baluartes do misticismo — Deus, Liberdade e Imortalidade da Alma — eram insustentáveis diante da "razão pura"; o Kant envelhecido, "dogmático", encontrou, ao contrário, que esses três fantasmas são postulados da "razão prática", e, portanto, indispensáveis.

Quando mais se prega o regresso a Kant, na avan-gada contemporânea do neo-kantismo, tanto mais ruidosa e irreparável se apresenta a contradição entre o jovem e o velho Kant.

O próprio Spencer, monista como os que mais o são, acabou entreabrindo uma porta ao dualismo, com o seu "incognoscível". Virchow criou, em plena juven-tude, a patologia celular, sem suspeitar que terminaria renegando as suas idéias de naturalista filósofo. E, como ele, outros também decaíram.

Para citar somente mortos de ontem, veja-se Lom-broso, cair, em seus últimos anos, em ingenuidades in-fantis, explicáveis pela sua debilidade mental, ao ponto de chorar conversando com a alma de sua mãe, em um trípode espírita.

James, que, em sua juventude, foi o porta-voz da psicologia evolucionista e biológica, acabou por emara-

nhar-se em especulações maiores que só êle compreendeu. E, por fim, Tolstoi, cuja juventude foi pródiga de admiráveis novelas, e outros escritos que o fizeram ser classificado entre os escritores anarquistas, nos últimos anos escreveu artigos de pacotilha, que um gazetineiro vulgar não assinaria para, a-final, se extinguir numa peregrinação mística, que pôs em ridículo as últimas horas da sua vida física. A mental havia terminado antes.

IV — Psicologia da velhice

A sensibilidade se atenua nos velhos, e suas vias de comunicação com o mundo que os rodeia, se embotam; os tecidos se endurecem, e se tornam menos sensíveis à dor física. O velho tende à inércia, procura o menor esforço: assim como a preguiça é uma velhice antecipada, a velhice é uma preguiça que chega fatalmente em certa hora da vida.

Sua característica é uma atrofia dos elementos nobres do organismo, com desenvolvimento dos inferiores; uma parte dos capilares se obstroi, e diminue o fluir do sangue aos tecidos; o peso e o volume do sistema nervoso central se reduz, como o de todos os tecidos propriamente vitais; a musculatura flácida impede a manutenção eréta do corpo; os movimentos perdem a sua agilidade a sua precisão. No cérebro, diminuem as permutas nutritivas, alteram-se as transformações químicas, e o tecido conjuntivo prolifera, fazendo aue se degenerem as células mais nobres. Roto o equilíbrio dos órgãos, não pode subsistir o equilíbrio das funções: a dissolução da vida intelectual e afetiva segue esse curso fatal, perfeitamente estudados por Ri-bot, no capítulo final da sua "Psicologia dos sentimentos".

À medida que envelhece, o homem se torna infantil, Janto por sua inaptidão criadora, como pela sua dinii-

nuição moral. Ao período expansivo, sucede o de concentração; a incapacidade para o assalto aperfeiçoa a defesa. A insensibilidade física é acompanhada de analgesia moral: ao invés de participar da dor alheia, o velho acaba por não sentir nem a própria; a ansiedade de prolongar a sua vida parece adverti-lo de que uma forte emoção pode gastar energia, e se endurece contra a dor, como a tartaruga se retrai sob seu envoltório, quando pressente o perigo. Assim chega a sentir um ódio oculto contra todas as forças vivas que crescem e avançam, um surdo rancor contra todas as primaveras.

A psicologia da velhice denuncia idéias obsessoras e absorvente. Todo velho crê que os jovens o desprezam e desejam a sua morte, para suplantá-lo. Traduz tal mania em hostilidade à juventude, considerando-a muito inferior àquela do seu tempo — juízo que estende aos novos costumes, quando já não pode adaptar-se a eles. Mesmo nas coisas pequenas, exige a parte maior, con-trariando toda iniciativa, desdenhando os golpes afetivos e escarnecendo dos ideais, sem recordar que em outros tempos, pensou, sentiu, e fez tudo o que agora considera comprometedor ou detestável.

Essa é a verdadeira psicologia do homem que envelhece. A idade atenua ou anula o zelo, o ardor, a aptidão para criar, descobrir, ou simplesmente saborear a arte, e para conservar a curiosidade sempre alerta. Omito as raríssimas exceções que exigiram, cada uma, Um exame particular. Para a maioria dos homens, a debilidade vital suprime, imediatamente, o gosto dessas ei asas supérfluas. Asinalemos, também, com a velhice, a hostilidade decidida contra as inovações: novas fornias artísticas, novas maneiras de colocar e de tratar os problemas científicos. O fato é tão notório, que não exige provas. Ordinariamente, sobretudo em estética, rada geração renega a que segue. A explicação comum

desse misoneísmo, é a existência de hábitos intelectuais, já organizados, que seriam comovidos por um contraste violento, se ainda existisse uma capacidade de emoção ou de paixão. Isto é o que falta nos velhos, pela modorra de sua vida afetiva.

Ribot acrescenta que, a essa dissolução dos sentimentos superiores, se segue a de todos os sentimentos altruístas, e a dos ego-altruístas, persistindo, até o fim, os egoístas, cada vez mais isolados e predominantes na personalidade do velho. Estes mesmos sentimentos egoístas naufragam na sensibilidade ulterior.

Os diversos elementos do caráter se dissolvem em ordem inversa à sua formação. Os que se adquiriram no fim, são menos ativos, deixam sulcos pouco duradouros, são adventícios, incoordenados. Isto se revela na regressão da memória senil: os fantasmas das primeiras impressões juvenis continuam rondando pela mente, quando iá desapareceram as recordações mais recentes, as do dia anterior. A falta de plasticidade faz que os novos processos psíquicos não deixem rastros, ou os deixem muito débeis, enquanto que os antigos se gravam profundamente em matéria mais sensível, e somente desaparecem com a destruição dos órgãos.

Com crescimento dos neurônios no homem jovem, e com o seu poder de criar novas associações, Cajal teria explicado a capacidade de adaptação do homem e a sua aptidão para variar os seus sistemas ideológicos; a detenção dessas funções nos velhos e nos adultos de cérebro atrofiado por falta de ilustração, ou outra coisa, permite compreender as convicções imutáveis, a inadaptação ao meio moral e as aberrações misoneístas. Concebe-se, igualmente, que a falta de associação de ideais, o entorpecimento intelectual, a imbecilidade, a demência, possam produzir-se cuando — por causas mais ou menos mórbidas — a articulação entre os neurones começa a ser frouxa; quando se debilitam e deixam de estar em contacto, ou quando a memória se desorganiza parcialmente. Para formular esta hipótese, Cajal teve em consideração a conservação mais prolongada das memórias juvenis: as vias de associação, criada há muito tempo, e exercitadas durante alguns anos, adquirem, sem dúvida, uma força maior, devido à sua organização que se verifica numa época em que o cérebro possue o seu mais alto grau de plasticidade.

Sem conhecer estes dados modernos, Lucrécio observou que a ciência e a experiência podem crescer com o decorrer da vida, mas a vivacidade, a rapidez, a firme za e outras qualidades louváveis se emurchecem e enlanguescem ao sobrevir a velhice:

Ubi jam válidis quassatum est viribus aevi corpus, et obtusis ceciderunt viribus artus, claudicat ingenium, delirant linquaque mensque.

Montaigne, velho, considerava que, aos vinte anos, todo indivíduo anuncia o que dele é lícito esperar, e afirmou que nenhuma alma que se conserve obscura até essa idade, se tornou luminosa depois; recorda o provérbio usual no Delfinado:

"Si l”epine ne pique pas en naissant, à peine pique-ra-t-elle jamais", e acrescenta que quasi todas as gran-des ações da história foram realizadas antes dos trinta anos. (Essais, livr. I, cap. LVII).

À distância de vários séculos, um espírito absolutamente diverso chega às mesmas conclusões.

"A descoberta do segundo princípio da energética oito anos quando publicou sua memória. Meyer, Joule e Helmholtz tinham vinte cinco, vinte seis e vinte cinco, respectivamente; nenhum desses grandes inovadores chegou aos trinta anos, antes de se tornarem conhecidos, As épocas em que seus trabalhos apareceram, não representam o momento em que foram concebidos; tiveram de passar alguns anos, antes de estarem suficientemente desenvolvidos, para serem expostos, além do tempo necessário para que os seus autores encontrassem os meios indispensáveis à sua publicação.

A juventude desses mestres da ciência assombra; estamos acostumados a considerar que a ciência é privilégio de uma idade avançada, e nos parece que todos esses jovens faltaram ao respeito para com os seus maiores, tomando a liberdade de abrir novos caminhos à verdade.

Dir-se-á que a solução desses problemas, por verdadeiros rapazes, foi uma singular e excepcional casualidade; é fácil comprovar que o mesmo acontece em todos os domínios da ciência: a grande maioria dos trabalhos que assinalaram horizontes novos, foi obra de jovens que acabavam de transpor os vinte anos.

Não é este o lugar para expor as causas e conseqüências desse fato; mas é útil recordá-lo, pois, embora tenha sido assinalado mais de uma vez, está muito longe de ser reconhecido por aqueles que se dedicam a educar a juventude.

Os trabalhos de homens jovens são de caráter principalmente inovador: o mecanismo da instrução pública não deve servir de obstáculo a eles; devem permitir-lhes, desde cedo, o desenvolvimento livre de suas aptidões nos institutos superiores, ao invés de exgotar, prematuramente, como acontece agora, um grande número de talentos científicos originais. E para que as suas conclusões não pareçam improvisadas, W. Ostwald desenvolveu-as em seu último livro sobre os grandes homens, onde o problema do gênio juvenil está analizado com critério experimental.

Por isso, as academias soem ser cemitérios onde se glorificam homens que já deixaram de existir para a sua ciência ou para sua arte. É natural que a elas <lliguem os mortos ou os agonizantes; dar entrada a um jovem significa enterrar um vivo.

V — A virtude da impotência

Deve ser verdade o que se afirma, desde Lucrécio e Montaigne. até Ribot e Ostwald: mas os velhos não renunciarão a seus protestos contra os jovens, nem estes acatarão, em silêncio, a hegemonia das cãs.

Os velhos esquecem que foram jovens, e estes parecem ignorar que serão velhos: o caminho a ser percorrido é semore o mesmo, da originalidade à mediocridade, e desta, à inferioridade mental.

Como se pode admirar a gente, então, de que os jovens revolucionários terminem como velhos conservadores? E que há de estranho na conversão religiosa dos ateus chegados à velhice? Como poderia o homem ativo e empreendedor aos trinta anos, não ser apático e prudente aos oitenta? Como admirar que a velhice faz os homens avarentos, misantropos, rabujentos, quando lhes vão entorpecendo paulatinamente os sentidos e a inteligência, como se u’a mão misteriosa fosse fechando, uma por uma, todas as janelas entre-abertas em face da realidade que os rodeia?

A lei é dura, mas é lei. Nascer e morrer são os pontos invioláveis da vida; ela nos diz, com voz firme, que o normal não é nascer, nem morrer, na plenitude de nossas funções. Nascemos para crescer, envelhecemos para morrer. Tudo o que a Natureza nos oferece para o crescimento, subtrai-nos, preparando a morte. Sem embargo, os velhos protestam, assegurando que não são bastante respeitados, enquanto que os jovens se desesperam por ser excessivo o respeito que lhes votam.

A história é de todos os tempos.

Cícero escreveu a sua De Senectude com o mesmo espírito com que hoje Faguet escreveu certas páginas do seu ensaio sobre La Vieillesse. Aquele se queixava de que os velhos eram pouco respeitados, no império; este se queixa de que o sejam menos ainda na democracia.

Assombram as palavras de Faguet, quando êle afirma que os velhos não são ouvidos, pretendendo ver, nisto, a negação de uma competência a mais. Alega que, nos povos primitivos, como hoje entre os selvagens, são os velhos que os governam: a arqueocracia ali se explica, onde não há ciência além da experiência, e os velhos tudo sabem, pois qualquer caso novo lhes é conhecido, porque viram muitos semelhantes. Faguet afirma que o livro, posto nas mãos dos jovens, é o inimigo da experiência que os velhos monopolizam. E se desespera porque o velho caiu no ridículo, embora cometa a imprudência de julgá-lo com verdade: "convenons de bonne grâce qu’il prête cela; il est entêté, il est maniaque, il est verbeux, il est conteur, il est ennuyex, il est grondeur e son aspect est désagréable": nenhuma jovem escreveu uma silhneta mais sintética do que esta, incluída no seu volume sobre o culto da incompetência.

Faguet opina que o velho está desterrado das me-diocracias contemporâneas. Grave erro, que só prova a sua velhice.

Toda sociedade em decadência é propícia à mediocridade e inimiga de qualquer excelência individual; por isso, impede-se que os jovens originais tenham acesso ao governo, até que tenham perdido a sua aresta própria, esperando que a velhice os nivele, rebaixando-os até os modos de pensar e de sentir que são comuns ao seu grupo social. Em razão disto, as funções diretivas soem ser patrimônio da idade madura; a "opinião pública" dos povos, das classes superiores e que já começam a decair, o expoente natural da sua mediocridade.

Na juventude, são considerados perigosos; os jo vens governam somente nas épocas revolucionárias; a revolução francesa foi efetuada por eles, e o mesmo se deve dizer da emancipação de ambas as Américas.

O progresso é obra de minorias ilustradas e atrevidas. Enquanto o indivíduo superior pensa com a sua própria cabeça, não pode pensar com a cabeça das maiorias conservadoras.

Não há, pois, a falta de respeito que, em suas velhices respectivas, Platão, Aristóteles e Montesquieu assinalaram, antes de Faguet. Afirmar que, pelo caminho da velhice, se chega à mediocridade, é a aplicação simples de uma lei geral que rege todos os organismos vivos, e os prepara para a morte.

Porque deveríamos estranhar essa decadência men tal, se estamos acostumados a ver descobrirem-se as fo-lhas e se despojarem as árvores, quando o outono chega, perseguido pelo inverno?

Admiremos os velhos pela superioridade que possuíram na juventude. Não incorramos na simpleza de eperar uma velhice santa, heróica ou genial, depois de uma juventude equívoca, mansa e opaca; a velhice não põe flores onde houve insignificância; antes, pelo con-trário, ceifa as excelências com a sua foice niveladora. Os velhos representativos, que ascendem ao governo e às dignidades, depois de terem passado seus melhores anos na inércia ou na orgia, no tapete verde ou entre rameiras, ne espectativa apática ou na resignação humilhada, sem uma palavra viril e sem um gesto altivo, esquivando-se à luta, temendo os adversários e renun ciando aos perigos, não merecem a confiança dos seus contemporâneos, nem têm o direito de catonizar. Suas palavras grandiloqüentes parecem pronunciadas em fal sete, e provocam o riso.

Os homens de caráter elevado não cometem à vida a injúria de desperdiçar a sua juventude, nem confiam à incerteza das cãs a iniciação de grandes empresas que só as mentes frescas podem conceber, e que só os braços viris podem realizar.

A experiência senil complica a tolice dos medíocres, mas não pode convertê-los e mgênios; a madureza abranda o perverso, torna-o inútil para o mal.

O diabo não sabe mais por ser velho, do que por ser diabo. Se se arrepende, não é por santidade, sinão, por impotência.


 Fonte: Livraria Paratodos, 1953

 

jun 032010
 

Introdução a Sociologia – Segunda Parte

Professor A. Cuvillier (1939).

POSTULADOS, MÉTODOS E HIPÓTESES

Capítulo IV

OS POSTULADOS DA SOCIOLOGIA

Depois de havermos visto como os problemas sociológicos chegaram a apresentar-se sob a forma científica, procuraremos, agora, definir os postulados que exige a existência da sociologia como ciência.

i. — a realidade social

Analisamos, primeiro, como a sociologia se esforçou por subtrair-se às preocupações normativas, para se elevar ao estado de um conhecimento objetivo da realidade social. Não exigirá essa objetividade da ciência uma separação entre a teoria e a prática, primitivamente confundidas, ou, pelo menos, uma certa disjunção entre os dois pontos de vista do conhecimento e da ação?

1. Teoria e prática. — Observemos desde já que, nesta matéria, como de resto em todas as outras, é impossível apresentar como absoluta uma distinção de tal natureza. Com efeito, em sociologia, o objeto da investigação é a ação humana coletiva, a ação dos homens vivendo em grupo. Seja qual fôr o aspeto da vida social de que se trata: da vida econômica, política, religiosa, doméstica, etc, encontramo-nos sempre em presença de certas maneiras de agir. Aqui, o homem deixa de ser simples espectador, como o pode ser em presença de um fenômeno físico ou biológico, para ser, ao mesmo tempo, espectador e ator.

Seja assim! concordamos da melhor vontade, mas é necessário distinguir entre a realidade social, essencialmente dinâmica, e o conhecimento, que pode e deve manter-se puramente especulativo, dessa realidade. Não foi essa, de resto, a distinção apresentada no início desta exposição, quando se mostrou que a passagem do ponto de vista normativo para o ponto de vista positivo foi uma das etapas necessárias da constituição da sociologia como ciência? Por outras palavras, o sociólogo pode ser o espectador dos fenômenos sociais e, como tal, pode reconhecer-lhe o caráter dinâmico, sem êle próprio ser ator. 

Em nossa opinião, esta objeção oculta um mundo de ilusões:

1.° — Em primeiro lugar, porque se baseia, segundo nos parece, numa concepção demasiado simples, das relações entre a teoria e a prática, entre o pensamento e a ação. Toda gente, ou quase toda, admite hoje que essas relações são recíprocas, que em toda parte a técnica levou, primeiro, ao conhecimento teórico, especulativo, mas que, em seguida, este,, uma vez constituído, reagiu sobre a técnica, ainda que continuando a suportar, incessantemente, as exigências de toda a prática social. Um dos mestres da psicotécnica, Lahy, escreveu recentemente: "As ciências derivam das criações realizadas pelo homem no domínio da prática. É da prática, e com o auxílio de métodos cada vez mais aperfeiçoados, que nasce a teoria e que, pelo movimento dialético, aparece a ciência. Portanto, a ciência não é a teoria pura, nem a simples aplicação, mas uma síntese da prática dirigida pela teoria e da teoria incessantemente enriquecida pela prática".

2.° — Se há um domínio onde seja bem visível essa interação da teoria e da prática, é, certamente, o domínio social. Mais do que em qualquer outra parte, seria quimera pretender estabelecer aqui, entre o pensamento e a ação, uma separação que, na verdade, não existe em parte alguma. O filósofo Gustave Belot consagra algumas páginas dos seus Études de Mor ale positive a esses fenômenos de "recorrência", como êle lhes chama, que consistem numa "relação de reação sobre si mesma", e que distinguem profundamente a "técnica social" de tôclas as outras técnicas. Na verdade — escreve êle — "a concepção mecanista de uma "natureza social" ó tanto mais verificável (ainda que nunca o seja integralmente) quanto mais primitivas forem as eras e rudimentares as sociedades a (Jue remontarmos". Desde que nos elevemos um pouco acima dessa fase, essa concepção torna-se totalmente falsa. E, em especial, "o conhecimento que adquirimos de nós mesmos transforma-nos e não nos deixa tais como éramos antes desse conhecimento".

Uma das formas dessa reação do homem sobre si mesmo é, com efeito, esse conhecimento que êle adquire da sua vida coletiva pela sociologia. Então, a própria ciência torna-se ação: modifica o seu próprio objeto. — Melhor ainda, o conhecimento que a sociologia nos dá da evolução humana reage sobre a própria noção que nós podemos ter da ciência positiva. Se há algum resultado que hoje possa ser considerado como definitivamente obtido, é que qualquer forma de pensamento, tanto a ciência como as outras, é sempre um produto histórico de determinadas condições sociais.

3.° — Chegamos agora à maior ilusão contida na objeção acima exposta. Não há, em nossa opinião, nada mais anti-sociológico que essa pretensão do sociólogo de se erigir em puro "espectador", e assim abstrair, até certo ponto, da história. O sociólogo é, necessariamente, o homem de uma certa época e de um certo meio: não poderia viver, como os deuses de Epicuro, nos intermundos. De resto, a própria história da sociologia prova-o suficientemente. É certo que só o marxismo afirmou explicitamente essa solidariedade íntima entre qualquer teoria e a respetiva prática, a tal ponto que, por ocasião da discussão que em 1902 teve lugar na Société Françoise de Philosophie, foi por aí que Georges Sorel julgou poder definir o "materialismo histórico". Mas pode dizer-se que, sem disso nem sempre terem claramente consciência, todas as teorias, mesmo aquelas cujas pretensões foram o mais objetivas possível, sofreram, mais ou menos, em diversos sentidos, essa pressão das preocupações práticas. A própria criação da sociologia coincide com o período de transformação econômica e de perturbações políticas da segunda metade do século XVIII e, sobretudo, do início do século XIX. Esboçada pelos enciclopedistas, primeiro, em Saint-Simon, esta noção de uma "ciência do homem" em sociedade está relacionada com a preocupação de remediar, "organizando" a produção, à crise revolucionária e.à "anarquia" do industrialismo nascente; o seu plano de uma ordem social hierárquica, fundada sobre uma organização dos bancos e a preeminência dos "condes" e dos "barões" da indústria, traduz bem as inquietações da grande produção entregue às contingências da livre concorrência. Era a mesma preocupação de "terminar a Revolução" e de fundar sobre a sociologia uma "política positiva", que realizaria a "ordem" ao mesmo tempo que o "progresso", que obcecara Augusto Comte. Um pouco mais tarde, encontramos, na doutrina de Spencer, um eco das tendências individualistas da economia liberal, O organicismo, ao qual está ligado até certo ponto, é, de resto, o protótipo dessas teorias em que noções de aparência científica são utilizadas para fins práticos: a idéia-mãe é muito antiga, pois foi empregada, em 493 antes da nossa era, pelo patrício Me-nenius Agrippa, para persuadir os plebeus de que os interesses de todas as classes da cidade eram solidários. De então para cá, as considerações biológicas ou pseudobiológicas têm, freqüentemente, sido aproveitadas por forma idêntica: no capítulo VI, mostrá-lo-emos a propósito da teoria das raças. Apontamos ainda o caráter tendencioso das teorias do Volksgeist, como também o de certas interpretações da "psicologia das multidões". Quanto à sociologia americana, as citações que Parodi faz em L’Année Sociologique (1925) do livro de F. W. Roman, La place de la sociologie dans l’éducation aux États-Unis, são suficientemente expressivas. Quando Roman constata: "Em cada ano, o ensino secundário pode organizar a lista dos professores que perderam o seu lugar, em virtude das opiniões que professavam ou ensinavam e que não foram aprovadas pelas classes capitalistas", compreendemos que estamos bem longe da serenidade da "ciência pura". A escola sociológica francesa, apesar de ser de espírito mais teórico, não se manteve estranha a semelhantes preocupações. Davy diz-nos que foi "seu objetivo de regeneração moral e política da nação" que fêz de Espinas um sociólogo. Foi esse, igualmente, o ponto de partida do pensamento de Durkheim; "desempenhar um papel na reconstituição social da França sucumbida", era, diz-nos também Davy, o fim que êle tinha em vista ao entrar para a Escola Normal, e êle próprio o escreveu no prefácio à sua Division du Travail: "Consideraríamos os nossos estudos sem valor algum se devessem ter, apenas, um interesse especulativo". Será preciso, finalmente, recordar que um dos últimos livros de Fr. Si-miand, consagrado às Fluctuations économiques à longue période, se destinava, segundo confessa o próprio autor, a procurar "uma certa acalmia dos nossos receios atuais", suscitados pela crise mundial?

Longe, portanto, de reclamar uma separação radical entre a teoria e a prática, o conhecimento objetivo da realidade social exige, pelo contrário, o reconhecimento expresso das relações recíprocas entre uma e outra. Não há aqui nenhum círculo vicioso, nenhuma contradição com a distinção que fizemos no princípio entre o normativo e o positivo. A ilusão das investigações normativas consistia, precisamente, em partir de um ideal concebido a priori, de maneira absoluta, como se esse ideal fosse independente de qualquer condição histórica e concreta. Assim procediam os alquimistas quando fixavam como fim das suas investigações o prolongamento indefinido da vida ou a transformação dos metais em ouro. Em matéria social, o erro agravava-se pelo fato de esse ideal, tomado como absoluto, estar, na realidade, de forma mais direta que em qualquer outra matéria, em relação com certas condições sociais determinadas. Reagir contra essa ilusão, reconhecer que o próprio ideal faz parte do objetivo a estudar, e assim fixar em princípio, não o dualismo da teoria e da prática, mas a sua apertada solidariedade, parece-nos ser a condição essencial da objetividade científica em sociologia.

2. O objetivismo sociológico. — No fundo, era essa a condição enunciada por DURKHEIM, quando escrevia que o sociólogo deve tratar os fenômenos sociais "como coisas".

"É coisa — explicava êle em Regles de la mé-thode sociologique — tudo o que é dado, tudo o que se oferece, ou melhor, se impõe à observação. Tratar fenômenos como coisas, é tratá-los na qualidade de quantidade, que constitui o ponto de partida da ciência. Os fenômenos sociais apresentam, incontestavelmente, esse caráter. O que nos é dado não é a idéia que os homens têm do seu valor, porque ela é inacessível: são os valores que se trocam realmente durante as relações econômicas. Não é qualquer concepção do ideal moral; é o conjunto das regras que determinam efetivamente a conduta."

E como a fórmula considerar os fenômenos sociais como coisas tivesse provocado protestos, Durkheim precisava: "A coisa opõe-se a idéia, como o que se conhece por fora ao que se conhece por dentro. É coisa todo e qualquer objeto do conhecimento que não é naturalmente compreensível pela inteligência, tudo aquilo de que não podemos ter uma noção adequada por um simples processo de análise mental, tudo o que o espírito só pode chegar a compreender saindo de si mesmo, por meio de observações e experiências, passando, progressivamente, dos caracteres mais exteriores e mais imediatamente acessíveis, aos menos visíveis e aos mais profundos".

A ilusão de que falamos atrás — de resto muito divulgada e muito tenaz — consiste, precisamente, em não reconhecer a necessidade deste trabalho que indica Durkheim, em imaginar que, acerca das coisas sociais, podemo-nos contentar com as representações correntes, as do "senso comum", com as aparências subjetivas sob que essas realidades sociais se apresentam à consciência. Quando se trata das realidades físicas, ou mesmo fisiológicas, temos melhor o sentimento da distância que separa as representações do senso comum do conhecimento científico: todos sabemos que não basta ter olhos e um pouco de "bom-senso" para conhecer as leis da ótica e saber o que é a luz, que não basta ter um estômago e digerir para conhecer a fisiologia da digestão. Contudo, em se tratando de coisas sociais, julga-se que se trata de objetos simples, acerca dos quais toda gente se considera imediatamente competente, sem qualquer estudo prévio! Não sabemos todos nós o que é "a família", "a pátria", ou "a propriedade"? Expomo-nos, se exprimirmos a menor dúvida, a provocar inúmeros protestos.

E no entanto, embora não o creia, josé Pru dhomme é ainda menos competente em sociologia que em qualquer outra matéria. Todos aqueles que, com alguma probidade intelectual e algum senso crítico, se têm curvado sobre as realidades sociais, estão de acordo a este respeito. Não é somente o marxista Engels que, no seu Anti-Dühring, denuncia o senso comum, "esse companheiro tão respeitável enquanto se conserva dentro das quatro paredes da sua casa", mas que "corre aventuras espantosas logo que penetra no vasto mundo da investigação". Não é só DURKHEIM quem, no princípio das suas Règles de la méthode sociologique, nos põe em guarda contra "as sugestões do senso comum", as quais, diz êle, seria de admirar que tivessem em sociologia uma autoridade que há muito perderam nas outras ciências. É o sociólogo católico Paul Bureau que, na sua Introduction à la Sociologie, procura mostrar que essa desconfiança a respeito do "bom-senso" é indispensável, e que cita catorze exemplos de proposições paradoxais, que, segundo êle, não deixam de ser por isso verdades sociológicas. Um outro antropologista eminente, Pittard, ao pôr em dúvida, na sua obra Les Races et l’Histoire, a explicação simplista que se costuma dar das migrações humanas — a de que o povo migrador "se sentia apertado na sua terra" — observa que essa "evidência" de forma alguma está assegurada, pois isso é dito sem avaliação do número de habitantes e dos recursos que podia fornecer o país; de resto, têm-se registado fomes espantosas que não foram seguidas por nenhuma migração. É, ainda, Fr. Simiand que ao recordar, em Statistique et Expérience, a opinião de Adam Smith, segundo a qual os salários mais altos se encontram nas profissões menos agradáveis, observa que esta "verossímil" opinião é, no entanto, perfeitamente falsa.

Poderíamos alongar esta lista até ao infinito. Mas é preferível observar, ainda com Simiand, que esses desmentidos dados ao "bom-senso" vulgar se explicam, precisamente, pelos caracteres próprios da realidade social. "Se — escreve êle — os nossos resultados não são os esperados pelo senso comum, nem os previstos por um raciocínio de gabinete, não é porque a realidade, à qual eles correspondem, não seja "razoável", é porque depende de uma outra ordem de razões. "Por outras palavras, o método subjetivo, a introspeção individual, é incompetente quando os fenômenos apresentam "um caráter coletivo manifesto".

O estudo positivo dos fenômenos sociais justificou amplamente a desconfiança dos sociólogos a respeito do "senso comum". Com efeito, revelou que as noções que nos são mais familiares estão longe de ser as mais "claras e distintas", as mais inteligíveis. Julgamos saber o que é a "família" mas observamos, ao menos, que a nossa família atual compreende dois grupos sociais, que hoje coincidem, mas que, em certos momentos da evolução social, são nitidamente distintos: o grupo doméstico — o dos parentes — e o grupo conjugal — o dos cônjuges? Por sua ve, a noção de "parentesco" tem uma longa história, da qual resulta que está longe de se confundir — como facilmente admitiríamos sem reflexão — com a relação fisiológica de consangüinidade. O que dizer, então, das noções econômicas — as de propriedade, de salário, de valor, etc. — acerca das quais os economistas estão longe de chegar a um acordo?

Saibamos, portanto, compreender que o mundo social constitui, tanto ou mais que o mundo físico, uma terra incógnita, que é necessário explorar pacientemente e minuciosamente. Não é por meio de deduções, nem de verossimilhanças que se faz a ciência, mas com o sentimento profundo de um objeto, de uma realidade exterior, que só observando-o e ana-lisando-o aprenderemos a conhecer, e não olhando para nós mesmos, analisando as nossas próprias idéias ou os nossos preconceitos.

ii. — o critério do social

A sociologia não postula somente esta noção de uma realidade objetiva do mundo social. Pretende ser uma ciência autônoma, distinta da biologia e da psicologia, o que supõe, evidentemente, que esta realidade tem seus caracteres próprios.

Surge imediatamente a questão de saber qual será o caráter distintivo que nos habilita a reconhecer êsses fenômenos de todos os outros, qual será, numa palavra, o critério do social. Com efeito, é um erro julgar, como observava Durkheim, que rudo o que se passa na sociedade é social: "Se assim fosse, poderia dizer-se que não haveria nenhum acontecimento humano que não pudesse ser chamado social. Todas as pessoas bebem, dormem, comem, raciocinam, e a sociedade tem todo o interesse em que essas funções se exerçam regularmente. Portanto, se esses fenômenos fossem sociais, a sociologia não teria um objeto próprio, e o seu domínio confundir-se-ia com o da biologia e da psicologia".

1. O constrangimento social. — É sabido que Durkheim julgou ter encontrado esse critério do social no constrangimento que, sobre o indivíduo, exercem as maneiras coletivas de sentir, de pensar e de agir. "É fenômeno social — escreve êle nas Régles — toda a maneira de agir, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo um constrangimento exterior". E com efeito, "tradições" de toda espécie, dogmas e ritos religiosos, imperativos morais, leis e costumes, convenções do "saber-viver", da "civilidade" ou da etiqueta, estilos estéticos e regras das diversas formas de arte (como a famosa regra das três unidades, no século XVII), sistemas econômicos de produção, de permuta e de repartição, processos técnicos ou até lógicos (como as regras da demonstração matemática), é indiscutível que todos esses fenômenos apresentam o caráter comum de exercerem sobre o indivíduo uma pressão, à qual êle só poderia subtrair-se com perigo. São, na expressão de Fauconnet e Mauss, no artigo Socio logie da Grande Encyclopédie, instituições, isto é, formas que o indivíduo encontra já estabelecidas antes dele, cuja origem muitas vezes ignora, e com as quais, finalmente, tem de conformar-se ou combater, correndo os correspondentes riscos e perigos.

Este critério parece-nos ser ainda o melhor que se pode adotar. Em que sentido, por exemplo, é a língua um fenômeno social? No sentido de que certas formas de se exprimir são, em certos meios, obrigatórias e outras proibidas (regras da ortografia, da gramática, da sintaxe). No sentido, também, de que esse constrangimento é completamente estranho aos indivíduos, pois lhes sobrevive: as regras em questão subsistem longos anos, por vezes longos séculos, ao passo que os indivíduos passam e morrem. Até a maneira de nos alimentarmos, neste sentido, deixa de ser um fenômeno puramente fisiológico para, sob certos aspetos, passar a ser um fenômeno social. É por isso que Lucien Febvre, observando que o meio natural não determina diretamente o modo de alimentação dos grupos humanos, escreve: "O constrangimento social não cessa de atuar. . . Constrangimento social e constrangimento religioso: ambos confundidos. Entre o homem, os seus desejos e necessidades e tudo aquilo que, na natureza, pode ler utilizado por êle, interpõem-se crenças idéias e costumes".

Esse constrangimento não se manifesta apenas de forma subjetiva, mas também por meio de fenômenos objetivos e exteriormente constatáveis. Durk heim tinha-o indicado claramente: "Um fenômeno social reconhece-se pelo poder coercitivo que exerce ou que é suscetível de exercer sobre os indivíduos; e a presença deste poder reconhece-se, por seu turno, quer pela existência de qualquer sanção determinada, quer pela resistência que o fenômeno opõe a qualquer empreendimento individual que tenda a violentá-lo". A sanção, segundo Maunier, pode ser mística (excomunhão, maldição, penitência, inclusão no índex), jurídica (pena ou reparação civil), moral (reprovação, censura) ou satírica (gracejo, riso, troça). Quanto à resistência, traduzir-se-á, sobretudo, por essa oposião às "novidades", que LÉVY-Rrühl diz ser tão forte nas chamadas sociedades "primitivas", mas que também não é desconhecida nas sociedades mais evoluídas: "Na antiga Sorbon-ne — diz-nos Maunier — os quatro doutores mais antigos, designados pelo nome de seniores, tinham a missão de se opor a todas as novidades. E sabe-se como as corporações de ofícios lutaram asperamente contra a inovação técnica, atentatória "dos usos e costumes do mister". Os grupos religiosos sempre têm professado um verdadeiro misoneísmo; e foi neles que puderam conservar-se, como em vasos fechados, os antigos usos. O tabu da novidade é a sua lei. E assim, segundo um ditado usual em Beau vaisis, é necessário seguir o hábito porque todas as novidades são proibidas".

Este critério do "constrangimento social" exige, no entanto, algumas observações.

1.° Não define a essência do social: nenhuma ciência, de resto, principia por uma definição exaustiva do seu objeto. Ainda muito menos se trata da origem da sociedade, e é um contra-senso escrever, como François Picarü: "para Durkheim, a sociedade nasceu do constrangimento". Quando se diz que o constrangimento é o caráter discriminante dos fenômenos sociais, é claro que se trata unicamente — o próprio Durkheim o afirmou muitas vezes — de um simples "sinal exterior", que permite "delimitar o campo da investigação" (Regles, p. XX) : nada mais.

2.° Não se pode falar num constrangimento artificial, e é um outro contra-senso objetar a Durkheim, como fêz o mesmo autor: "As superstições e os tabus não resultam da vontade de um legislador que os prodigaliza com mão generosa. Existem nos costumes antes de ser codificados". Uma tal interpretação vai de encontro ao conjunto da obra de Durkheim, e dos textos mais formais: "O constrangimento — Durkheim teve o cuidado de precisar — não deriva de um acordo convencional que a vontade humana acrescentou inteiramente à realidade; nasce das próprias entranhas da realidade; é o produto necessário de certas causas". E, atribuindo a Comte, precisamente, a honra de ter posto fim ao preconceito "artificialista", escrevia: "As instituições dos povos já não podem ser consideradas como o produto da vontade, mais ou menos esclarecida, dos príncipes, dos homens de Estado, dos legisladores".

3.° Finalmente, para ser verdadeiramente des criminativo dos fenômenos sociais, esse caráter de constrangimento deve também distinguir-se da fatalidades das leis físicas. Neste ponto, no entanto, a distinção é mais delicada. Segundo Durkheim, o constrangimento social seria, sobretudo, um constrangimento moral: seria essencialmente devido "ao prestígio de que estão investidas certas representações". É bem verdade que o constrangimento social age, na maior parte dos casos, por intermédio de uma ideologia; mas mais adiante voltaremos a tratar novamente deste ponto. Sucede, todavia, que os sistemas sociais se mantêm, mesmo depois de terem perdido todo o "prestígio". Não será um pouco o caso do nosso sistema econômico atual? Não está êle um pouco diminuído no caráter sacrossanto que lhe atribuíam os economistas "ortodoxos"? Conseguirão, ainda, iludir alguém as veneráveis "harmonias econômicas" que Bastiat celebrava? E no entanto, o sistema mantém-se; "resiste", como diz Durkheim, e resiste energicamente, violentamente, por vezes cruelmente. Karl Marx, parece-nos, viu bem neste ponto. Numa carta dirigida a Annenkov, em 28 de dezembro de 1846, a propósito de Prou dhon, escrevia êle: "O que é a sociedade, seja qual fôr a sua forma? É o produto da ação recíproca dos homens. Podem os homens, livremente, escolher qualquer forma? De maneira alguma. Tomemos um estado definido do desenvolvimento das forças produtivas dos homens, e teremos uma forma definida da distribuição e do consumo. Tomemos um determinado grau de desenvolvimento da produção, da distribuição e do consumo, e teremos uma ordem social determinada, uma determinada organização da família, das castas ou das classes, numa palavra, toda uma determinada sociedade civilizada… É supérfluo acrescentar que os homens não podem escolher livremente as suas forças produtivas. As forças produtivas são o resultado da energia humana em ação; mas essa mesma energia é condicionada pelas relações em que os homens se encontram, pelas forças produtivas já adquiridas, pela forma social preexistente que eles criaram, que é o produto da geração anterior".

Assim, o constrangimento social deixa a porta aberta, não a uma liberdade absoluta, é claro, mas à ação humana. Com efeito, ao passo que o constrangimento físico provém de uma fonte totalmente estranha ao homem, o constrangimento social é exterior ao indivíduo, mas envolve elementos humanos. Aqui, o homem vê-se prisioneiro dos ferros por si próprio forjados: a ação humana cristaliza-se em instituições, em tradições, cujo poder de constrangimento pesa, em seguida, sobre o próprio homem. Numa época em que vemos a técnica humana voltar-se contra o homem e, com freqüência, criar a miséria, ela que se destinava a criar a riqueza, como poderemos deixar de nos sentir impressionados por esta característica máxima dos fenômenos sociais?

2. A "consciência coletiva". — O constrangimento moral, sobre o qual tanto insistiu Durkheim, não passa de um aspeto particular do constrangimento social. Nem por isso deixa de ser verdade que esse aspeto "moral" ou "ideológico" do constrangimento social seja, realmente, um dos seus aspetos mais aparentes e mais sensíveis, e é o que significa, sobretudo, para nós, a noção de "consciência coletiva". O homem apercebe a sua natureza social e 0 conjunto dos fenômenos sociais, através de um complicado disfarce ideológico; e é neste sentido que podemos dizer, com Mauss, apesar da expressão se prestar um pouco a equívocos, que os fenômenos sociais são fenômenos artificiais, convencionais, quer dizer, que resultam, em parte, da idéia que o homem bem deles, em vez de serem puramente naturais, no sentido biológico do termo.

Recordemos aqui as indicações do historiador Paul Lacombe e dos psico-sociólogos sobre "o poder de constrangimento" da opinião. Pensemos no sentido e no valor que tomam, em certos meios, as classificações de "bem pensante" e de "mau espírito". Pensemos nesse sentimento de "respeito" que inspiram certas representações, especialmente as representações morais, e do qual Kant fizera o sentimento moral por excelência. Observemos que, por vezes, essas representações se tornam verdadeiros "dogmas", como, por exemplo, esses "dogmas sexuais" recentemente analisados por Adrienne Sahuqué. E compreenderemos que, apesar das objeções que provocou, a noção de "consciência coletiva" também exprime fenômenos incontestáveis, — tão incontestáveis que os psicólogos contemporâneos fizeram, em nossos dias, o uso mais fecundo da idéia de que uma grande parte do psiquismo individual se explica não pelo indivíduo, mas pelas condições que lhe são impostas pelo meio social.

Bem entendido, tanto aqui como a propósito da noção de constrangimento social, devemos saber desembaraçar-nos de idéias preconcebidas sobre a "essência" das coisas e colocar-nos num ponto de vista puramente metodológico. A noção de consciência coletiva não implica necessariamente — Durkheim insistiu bastante neste ponto — uma espécie de substancialização da "alma social". Ela significa apenas que, nas próprias consciências individuais, existe uma esfera completa de representações, de sentimentos e de tendências, que não podem explicar-se pela psicologia do indivíduo, mas somente pelo próprio fato do agrupamento dos indivíduos em sociedade. A este respeito, todo o mundo parece prestes a estar de acordo. É assim que R.-E. Lacombe, que, no seu estudo sobre "O método sociológico de Durkheim" (La méthode sociologique de Durkheim) tão vivamente criticou a noção de consciência coletiva, reconhece que, no entanto, "o agrupamento dos homens em sociedade dá origem a sentimentos que não só são bem distintos da média dos estados dl alma individuais, mas também faz intervir elementos que talvez não fosse possível encontrar em nenhum dos membros do grupo, antes de aproximados". A sociologia não necessita de mais e, no fundo, Durkheim nunca pretendeu outra coisa: "Se, pode di zer-se — escrevia êle — que sob certos aspetos, as representações coletivas são exteriores às consciên cias individuais, é porque elas não derivam dos in divíduos tomados isoladamente, mas da sua associa ção, o que é bem diferente".

Quer isto dizer que a noção de consciência coletiva, tal como foi utilizada pela sociologia de Durk heim, não provoque nenhuma dificuldade? Decerto que não. Em primeiro lugar, a consciência "coll tiva" será, necessariamente, a do grupo inteiro 1 Estamos em presença de uma simplificação abusiva, que nem todos admitirão sem discussão: "É assimi — observa Lacombe — que uma sociologia baseada na noção de classe, como a sociologia marxista, verá nas regras jurídicas apenas a expressão da moral da classe dirigente. É de notar que a sociologia durk-heimiana não atribui qualquer importância à no-ção de classe: é que, para ela, todas as regras sociais correspondem ao pensamento da coletividade inteira. Mas trata-se de um postulado que nunca se justifica e que é contestável". Notemos, contudo, que, mesmo tendo em conta estas reservas, a noção de consciência coletiva não perde de todo o seu valor. Na sua Theórie du matérialisme historique, observa Bou-KHARINE que é, evidentemente, necessário evitar fazer da "consciência coletiva" uma realidade mís tica, mas que esta expressão indica, no entanto, dois fenômenos que podemos observar em toda parte e em qualquer momento: 1.° — que em cada época há uma tendência dominante nos pensamen-tos , nos sentimentos, nos estados de alma, uma psicologia dominante que influi em toda a vida social; 2° – que essa psicologia dominante se modifica em função do "caráter da época", quer dizer, na nossa linguagem, em função das condições da evolução social". Com efeito, explica o nosso autor, umas vezes existem caracteres psicológicos gerais, que po dem reencontrar-se em todas as classes da sociedade porque, apesar da diversidade das situações ocupa-das por essas classes, pode haver uma certa analogia entre essas situações"; assim, no regime feudal "havia caracteres psicológicos comuns, tanto no nobre senhor como no camponês: dedicação pelas velharias, rotina, tradições, submissão à autoridade, medo de Deus, estagnação do pensamento, aversão por todas as inovações, etc", — e isto em virtude, simultâneamente, do caráter estacionário da socie-ciedade (" movimento intelectual veio, mais tarde, das cidades) e do fato de, sob o regime patriarcal, o cam-pônes ser "soberano e pai" na sua família como o senhor era "soberano e pai" no seu senhorio. Outras vezes, e na maioria dos casos, a psicologia da classe dominante impõe-se tão fortemente na sociedade, que dá o tom a toda a vida social, submetendo até as outras classes à sua influência.

Mas surgem agora dificuldades, em nossa opinião mais graves. É preciso confessar que, na doutrina de Durkheim, a gênese da consciência coletiva é uma coisa bastante obscura: "Agregando-se, penetrando-se e fundindo-se as almas individuais — diz Durkheim — dão origem a um ser, psíquico se quiserem, mas que constitui uma individualidade de um novo gênero". Confessamos que não compreendemos o mistério dessa fusão das almas individuais. Não há dúvida que, principalmente nas multidões, se produz qualquer coisa análoga ao que Durkheim descreve. Mas, em primeiro lugar, o mecanismo dessas interações psíquicas é ainda mal conhecido: o próprio Durkheim, no seu livro Le Suicide, denunciou tudo o que de equívoco se dissimulava atrás da noção de "contágio mental", tal como a apresentara Le Bon. Por outro lado, sobretudo se admitirmos a interpretação indicada, deixa de distinguir-se o que separa o ponto de vista propriamente sociológico, o de Durkheim, do ponto de vista interpsicológico. O que se passa numa sociedade seria idêntico, só com diferença do grau de sistematização, ao que se passa numa simples multidão. Ora, na nossa opinião, é aqui que está o erro. Observemos, por outro lado, que a palavra "multidão" é extremamente vaga: seria, pelo menos, necessário, seguindo Georges Le-febvre, distinguir a multidão propriamente dita, o simples agregado, da reunião voluntária. Quando da discussão travada, em 1932, no Centre international de Synthèse, chegou-se a acordo sobre a idéia de que a multidão não é um fenômeno social, mas que é, ao contrário, "o estado de uma sociedade em decompo-seção", um estado em que a sociedade se encontra não somente, na expressão de Dupréel, "sem separa-ções, mas em que ela "perde a sua estrutura", em que "está suspenso o estado de sociedade", — que, longe de ser "um fenômeno primitivo, em certo sen-tido pré-social", ela própria supõe "um substrato sociológico", e que, especialmente, nos períodos revolucionários, a despeito da opinião antecipada de um Le Bon, "não é a multidão que faz a revolução, mas a massa organizada" e que "é, portanto, necessário distinguir o fenômeno de multidão, que é passageiro, do movimento revolucionário".

Por outro lado, não era nessa concepção muito vaga da consciência coletiva que se encontrava, como dissemos, o primitivo pensamento de Durkheim. Em certas passagens, exprime-se êle de maneira bem diversa: "Os fenômenos sociais — escreve êle — não diferem só em qualidade dos fenômenos psíquicos: têm um outro substrato". Não restam dúvidas que, por esse "substrato", é necessário entender o conjunto das condições de que Durkheim fazia o objeto da "morfologia social". O resto da passagem citada di-lo com bastante clareza: "O que as representações coletivas traduzem é a maneira de pensar do grupo nas suas relações com os objetos que o afetam. Ora, o grupo é constituído de maneira diversa do indivíduo e as coisas que o afetam são de uma outra natureza".

Existem, portanto, representações, sentimentos, etc, coletivos, no sentido de que todos esses estados se explicam, não pela estrutura psico-orgânica do indivíduo ou da "natureza humana", nem também por qualquer espécie de "coalescência" das consciên-

cias individuais, mas antes pela estrutura dos difa rentes grupos sociais. Entendida desta maneira, a "consciência coletiva" deixa de correr o risco de so tornar numa explicação geral, como, com certa razão, se tem afirmado: ela própria é um produto, o deve, por isso, explicar-se pelo seu "substrato".

III. — O DETERMINISMO SOCIOLÓGICO

Uma terceira noção indispensável à ciência « a de determinismo. Todavia, tratando-se de fenômenos humanos, parece que já não pode considerar-se o determinismo como rigoroso: "De fato — escrevia Vidal de La Blache — tudo o que se refere ao homem é contingente". E esta tese foi, naturalmente, aproveitada por muitos historiadores e geógrafos.

Mas essa noção de "contingência", aliás tão mal definida, só podia ter um sentido aceitável. Opõe-se, não ao determinismo, postulado indispensável, de qualquer ciência e de qualquer explicação racional, mas a uma concepção muito restrita, puramente mecanista e, especialmente, puramente geográfica, do determinismo. Praticamente, significa imprevisibilidade: imprevisibilidade dos fatos humanos no que eles têm de ocasional, como dizia Paul Lacombe, tal como se localizam no tempo e no espaço e se concretizam numa imensidade de detalhes singulares, — mas não imprevisibilidade das grandes fases da evolução humana, dos fenômenos sociais no que eles têm de cientificamente conhecível. Imprevisibilidade, numa palavra, na escala histórica, — e não no plano sociológico.

 

1. A noção de"fato": acontecimento histórico e fenômeno sociológico. — A sociologia pretende ser uma ciência experimental. Deve, portanto, partir de fatos. É esta a profunda diferença que a separa de tudo o que pode chamar-se filosofia social, filosofia da historia, etc., e, sobretudo, da antiga economia política abstrata, como indica Simiand em La Méthode positive en science économique. Esse método, escreve o mesmo autor no princípio da sua obra Le Salaire, opõe-se, ao mesmo tempo, às teorias sem fatos e ao estudo de fatos sem teoria: "A economia experimental tem tão pouco de economia conceituai pura como de história ou de simples estatística. Pretende basear-se em fatos e não em idéias; mas quer ir além da simples constatação dos fatos e visa a estabelecer relações suscetíveis de explicar esses fatos".

Aqui, com efeito, como nos outros domínios, o fato científico distingue-se do fato bruto. O fato bruto, no domínio social, é o fato histórico.

1.° O historiador parte das noções vulgares. Trata-se, por exemplo, de história religiosa. Mas o que é a religião? Como há de o historiador delimitar ossa "parte" que pretende separar da trama dos fatos? Confessemos que, na maior parte dos casos, o historiador não pensa nesse problema: parte da noção corrente de religião, que a associa estreitamente à de divindade. A mesma observação pode fazer-se a propósito da idéia de nação. Quando Camille Jullian fala de uma "nação indo-européia", de uma "nação ítalo-céltica" ou de uma "nação lígure", quando L. Febvre, para provar a "antiguidade dos agrupamentos nacionais", alega: "os Esquimós, que ainda hoje se estendem desde o Alaska até às costas orientais da Groenlândia", é permitido ficar perplexo em presença da indeterminação em que, em tais casos, é deixado por eles o conceito de nação.

Noções tão mal definidas não podem tomar lugar na ciência. Os fatos devem ser, primeiro, determinados e delimitados cuidadosamente. É isso que procuram fazer os sociólogos, e, bem entendido, também os historiadores e economistas, quando são um pouco sociólogos. Assim, observam alguns, existem religiões sem deuses: por exemplo, as grandes religiões da índia. O Budismo, dizem, todos de acordo, Burnouf, Barth, Oldenberg, Chantepie de la Saussaye, etc, é, assim como o Jaínismo, completamente ateu. Mesmo na vida chinesa, diz-nos Gra-net, "o sentimento do sagrado desempenha um grande papel, mas os objetos da veneração não são deuses, no sentido estrito da palavra". A acreditarmos em Durkheim, só a noção de sagrado seria essencial e não a de divindade. O problema é o mesmo para a idéia de nação. Longe de admitir que a nação é um fato muito antigo, ou até primitivo, um jurista como Maurice Hauriou afirma que a formação das nações se situa num nível já elevado da evolução social, e Hauriou define a nação pelos três caracteres seguintes : a fixação ao solo (o que já exclui todos os povos nômades), um laço de parentesco espiritual e a noção da unidade do grupo.

Multipliquemos os exemplos; porque é necessário compreender que a determinação do fato é uma coisa tão importante e, pelo menos, tão necessária em sociologia como nas outras ciências. Há uma noção lata e vaga de salário: o senso comum entende por ela qualquer remuneração de trabalho, seja ela qual fôr. Vejamos, pelo contrário, com que precisão Simiand define essa noção: "O salário — diz êle —

é a porção de moeda em troca da qual é alugado o trabalho puro de um operário". O salário implica, portanto, pelo menos cinco elementos: 1.° — uma relação de troca; 2.° — uma remuneração em moeda; 3.° — um aluguel de serviços, porque o salário remunera uma prestação de trabalho, e não o agente do trabalho, a própria pessoa do trabalhador (como sucede no regime da escravidão), nem o produto do trabalho (como sucede para o produtor independente) ; 4.° — um trabalho puro, quer dizer independente de qualquer outro elemento, pelo menos em princípio, como, por exemplo, o fornecimento de matérias-primas, de ferramentas, de local, etc; 5.° — um trabalho de operário, quer dizer, no qual domine o trabalho manual ou ligado a um efeito material (a condução de uma máquina).

E, finalmente, outro exemplo. Existe uma noção corrente e vaga de revolução. Examinemos, pelo contrário, o estudo que michel raléa consagrou à L’idée de révolution dans les doctrines socialistes. Em primeiro lugar, tenta encontrar uma definição da revolução, e obtém a seguinte fórmula: "A revolução é a conquista do poder público por uma classe (pie nunca o tenha ocupado antes, com o fim de impor ao grupo inteiro um novo padrão de valores". Dela resultam três elementos:. 1.° — um corpo social, mas no qual existe um grupo fracionário; 2.° — um ideal, um programa de valores; 3.° — uma transferência de poder.

Não pretendemos, é claro, que todas as definições que acabamos de recordar sejam indiscutíveis. Bem ao contrário, quisemos mostrar que surge um problema a propósito de cada uma delas. O sociólogo, não podendo contentar-se com o fato bruto, deve, necessariamente, proceder por análise, por delimitação e construção de conceitos, em acordo, bem entendido, com a experiência, com a realidade observável, aproximadamente como faz o físico.

2.° Segunda diferença da história. O fato histórico é, até por definição, o fato singular, o acontecimento: "Os fatos históricos — dizem Langlois e Seignobos — são localizados; existiram numa certa época e num dado país; se lhes retiramos a menção do tempo e do lugar onde eles se produziram, perdem o caráter histórico". A sociologia, é evidente, não abstrai da evolução social: isso seria suprimir o seu próprio objeto, visto que, como já dissemos atrás, o sociólogo encontra-se sempre em presença de ações, de funções, de realidades dinâmicas que, depois, se desenvolvem no tempo. Mas a diferença entrer a história e a sociologia consiste, precisamente, em que esta suprime a consideração do tempo como tal: assim como o espaço Vazio não é uma causa, também o tempo abstrato e a cronologia não constituem uma explicação. O que a sociologia deve considerar, portanto, são os diferentes fatores e os diferentes elementos que preenchem esse quadro vazio do tempo, — pois a data só constitui, no fim de contas, uma chamada dos fatores concomitantes que concorrem para produzir um certo resultado. O que produziu a Revolução de 1789 ou a guerra de 1914 não foram as "datas fatídicas" de 1789 ou de 1914; foi um concurso de causas que se encontraram reunidas nessas datas. O papel da sociologia é procurar, de maneira geral e abstraindo da data, essas ações causadoras, essas leis. Mas, para isso, é bem evidente que ela precisa de considerar os fatos sociais como fenômenos suscetíveis de repetição, e segundo um ponto de vista, até certo ponto, intemporal.

2. A noção de tipo em sociologia. — O que constitui o objeto da sociologia não é o presente, o atual, considerado como tal, mas sim, como dizia Simiand, o típico. Efetivamente, na medida em que se eleva acima dos fatos singulares, a sociologia, como todas as outras ciências, vê-se obrigada a cons-tituir tipos.

"Os sociólogos — escrevia Durkheim — mostraram que certas instituições morais e jurídicas e certas crenças religiosas eram idênticas a si mesmas em tôda parte onde as condições da vida social apresentavam a mesma ide7itidade. Constatou-se Ele certos usos se assemelhavam até em pequenos detalhes, e isto em países muito afastados uns dos outros e entre os quais nunca houve qualquer espécie de comunicação". E citava alguns exemplos: "Certa cerimônia nupcial, puramente simbólica na aparência, como o rapto da noiva, encontra-se exatamente em toda parte onde existe um determinado tipo familiar. . . Os usos mais bizarros, como a cou. Vade, a exogamia, etc, observam-se entre os mais diversos povos e são sintomáticos de um determinado estado social. O direito de testar aparece numa determinada fase da história e, conforme as restrições mais ou menos importantes que o limitam, podemos dizer em que momento da evolução social nos encontramos".

De resto, os antropologistas haviam aberto o caminho a estas classificações, caracterizando as diferentes etapas da pré-história humana segundo a sua técnica e distinguindo uma "idade da pedra" (uma a da pedra lascada ou paleolítica, a que se sucedeu, da pedra polida ou neolítica), uma "idade de cobre", uma "idade de bronze" e uma "idade de ferro", É certo que estas classificações já não têm hoje, aos olhos dos antropologistas e dos etnógrafos, a rigide que lhes era atribuída noutros tempos. Mas não deixa de ser verdade que as investigações da etnografia, permitindo que se estabelecessem certas correspondências entre a vida dos "primitivos" atuais e a dos homens da pré-história, vieram confirmar esta noção.

"Certos povos ainda hoje selvagens ou desaparecidos numa data recente — escrevia em 1908 Joseph déchelette, no seu Manuel d’archéologie préhistorique celtique et gallo-romaine — ainda não saíram das primeiras fases de uma civilização rudimentar. Entre os povos caçadores da Oceania, da África e da América, encontram-se alguns dos caracteres essenciais que caracterizam as primeiras tribos humanas que ocuparam a Europa. A etnografia comparada demonstra que se encontram costumes semelhantes em todos os povos primitivos. É assim que o estranho conceito do totemismo aparece na base das primeiras crenças religiosas da humanidade, tanto entre os selvagens da Austrália como nos índios da América do Norte. Estamos, portanto, autorizados a admitir nos caçadores de renas da Europa ocidental a existência de fenômenos sociais análogos, se essa hipótese fôr corroborada por um conjunto de fatos arqueológicos. E, precisamente, as gravuras e as pinturas das cavernas que serviam de abrigo a essas tribos quaternárias não podem ser melhor explicadas que por práticas mágicas, derivadas do totemismo."

Estas correspondências entre a etnografia dos "primitivos" e a pré-história multiplicaram-se à medida que os nossos conhecimentos aumentavam. Quando encontramos gravadas nas grutas pré-históricas figuras de animais, como na gruta dos Três Irmãos, ou esculpidas como na de Montespan, e crivadas de lançadas ou de frechadas, poderemos deixar de apromixar esses fatos dos ritos de feitiçaria que ainda praticam muitos "selvagens" atuais e que até sobrevivem no interior dos países mais avançados? O famoso ser híbrido com cabeça de animal, da gruta dos Três Irmãos, faz pensar, incontestavelmente, na indumentária dos "feiticeiros" e nas máscaras zo-omorfas do Sudão, ao passo que a dança das mulheres da gruta de Cogul, à volta dum ser macho, evoca as danças fálicas e os ritos de fecundidade. E é um historiador, Lucien Febvre, quem, recor-dando-nos que, segundo Morgan, no século XVIII um povo do Ural, os Vogouls, vivia ainda nas cavernas, como os homens da pedra lascada, acrescenta a seguinte reflexão: "Belo exemplo de persistência, em pleno século XVIII, do gênero de vida típico do homem pré-histórico".

Pondo de lado a pré-história, é possível distinguir, nas sociedades mais evoluídas, analogias que atingem, não todos os detalhes, é claro, mas pelo menos, como dizia Déchelette, "os caracteres essenciais" de certas instituições. É assim que Henri Hubert, procurando explicar o druidismo, no seu livro sobre os celtas, observa: "Uma comparação com fatos não indo-europeus dar-nos-á a chave dessas instituições, mostrando-nos coletividades absolutamente semelhantes à dos druidas e dos brâmanes, e cujo lugar na evolução do totemismo é bem claro, que são as chamadas sociedades secretas da Colúmbia Britânica e da Melanesia, que, na realidade, são verdadeiras confrarias… Elas tomavam conta das heranças jacentes em sociedades onde o totemismo estava em via de desorganização. São confrarias dessa ordem que estão na origem do bramanismo e do druidismo". — Já aludimos a essas duas formas arcaicas da permuta, de que a etnografia revelou a existência entre povos muito diferentes: o potlatch e o comércio silencioso. Ora, nas economias da antiguidade e nos sistemas jurídicos hindu, germânico, chinês, etc, (Mauss), distinguem-se vestígios do potlatch, e Maunier demonstrou que a taoussa Cabila, que abrange, pelo menos, toda a região do Maghreb, não deixa de ter certas analogias com o potlatch das sociedades inferiores, e que constitui, como êle, uma espécie de dom ritual e festivo. Quanto ao "comércio silencioso", bastará observar que é mencionado na antiguidade por Heródoto (IV, CXCVI) a propósito de um povo da África que vivia "para lá das colunas de Hércules", e por Plínio (VI, XXIV) a propósito dos habitantes da ilha de Ceilão. Da mesma forma, foi possível determinar um certo número de tipos de organização doméstica, e, por exemplo, não há dúvidas que, entre a família romana clássica e a família Kabila de hoje, existem semelhanças que, apesar de certas diferenças, permitem ligá-las, ambas, ao tipo comum da "família patriarcal agnática, tipo que, como afirma Maunier, é na família Cabila "muito puro e muito claro, menos adulterado que a família dos Romanos que, muito cedo, sofreu um grande abalo; um tipo que vive sob os nossos olhos, que podemos, por isso, contemplar à nossa vontade e através do qual se esclerecem singularmente as tradições e as instituições do direito romano" (Sociologie et Droit romain). Ainda da mesma forma, no domínio das religiões, o caso do cristianismo já não parecerá um caso isolado, se o aproximarmos dessas religiões de mistério ou de salvação, de tendências já nitidamente universalistas, que tiveram tão largo sucesso no fim do mundo antigo. E poderíamos citar muitos outros exemplos.

Como dizíamos atrás, é preciso partir do concreto, e é precisamente por isso que a sociologia necessita da história. Porém, em seguida, do concreto precisamos de nos elevar, progressivamente, ao abstrato. A única condição que se impõe é que essa abstração resulte de uma análise, devidamente efetuada, de fatos bem observados. A teoria, como escreve Simiand em Le Salaire, deve "acompanhar todas as articulações da realidade". "A realidade histórica — escrevia o mesmo sociólogo em 1907 — é complexa, há diferenças entre fenômenos análogos encontrados em sociedades e em épocas diferentes; nada disto nós negamos, mas não prejudica a legitimidade nem dos estudos comparativos, nem da constituição de tipos, se fôr feita com o necessário critério … Analisar a realidade por meio de categorias claras, mas precisas, e procurar nela relações de forma geral, ainda que sempre próximas dos dados de fato, não é afastarmo-nos da realidade e embrenhar-mo-nos em construções lógicas e artificiais, porque só essas categorias e essas relações conduzem a uma verdadeira compreensão da complexidade dessa mesma realidade" (Année Sociologique, t. X, p. 534 e 551).

8. A noção de causa em sociologia. — Uma vez classificados os fenômenos sociais, é preciso explicá-los. Aqui que intervém a noção de causa.

Se aceitarmos essa noção sob a sua forma vulgar, como a de uma força produtora, de uma eficiência criadora, a vontade humana passa a ser o tipo da causalidade. Em sociologia, porém, procurar as causas dos fenômenos na vontade humana é correr o risco de cair de novo nos erros desse método subjetivo que explica — ou julga explicar — tudo por meio de pré-concepções e de verossimilhanças pedidas ao senso comum. Tratando-se de vontades individuais, voltamos a esse psicologismo que coloca no primeiro plano a ação dos "grandes homens", que até muitos hostoriadores consideram hoje como uma explicação superficial. Disse alguém que são os grandes homens que fazem a história: observa Smets, na altura da discussão sobre a Individualidade na Terceira Semana Internacional de Síntese (1931), mas poder-se-ia apresentar a proposição ao contrário, dizendo que é a história que faz os grandes homens. E, num estudo publicado no mesmo ano nos Essays on Research in the Social Sciences, de Washington, Schlesinger escrevia: "A ocasião faz o homem mais do que o homem faz a ocasião". Mesmo que se invoque a "vontade coletiva", a explicação é insuficiente. Além de pouco clara, essa noção não é explicativa, porque se a ação humana é verdadeiramente eficaz, os seus efeitos reais são bem diferentes, na maior parte dos casos, das intenções subjetivas dos executantes.

Cabe então perguntar se haverá lugar para distinguir, como se faz, por vezes, diferentes formas da noção de causa, todas aplicáveis à explicação dos fenômenos sociais? Com Henri Berr, distinguiremos: 1.° — a causalidade bruta ou determinismo, baseado no princípio de que "nada pode nascer de nada"; 2.° — a causalidade legal, que responde mais ao como que ao porquê e que se reduz à noção de lei; 3.° — a causalidade lógica, cujo princípio é a "tendência para ser" e que, se deve ser afastada das ciências do inorgânico, não o deve ser "da ciência dos fatos humanos". Com WlLBOIS, notaremos que a palavra "causa", umas vezes designa simples condições materiais, mas estas não são causas propriamente ditas, são simples possibilidades que condicionam sem agir; outras, estamos em face de elementos psicológicos, tendências ou representações que são, verdadeiramente, causais; outras vezes, ainda, são instituições, formas sociais que são causas, "um pouco como causas formais, um pouco como causas eficientes"; outras, finalmente, trata-se de fatos determinativos, isto é, de fatos históricos que fizeram cristalizar à sua volta certas tendências que estavam preparadas para isso.

Todas estas distinções são muito engenhosas. Mas as primeiras parecem-nos confusas — para que pode servir, na investigação histórica ou sociológica, a vaga noção de uma "tendência para ser"? — As segundas, se bem que mais positivas, parecem-nos, contudo, insuficientemente precisas. As condições materiais — de que tornaremos a falar no capítulo VI — são mais que simples possibilidades, se quisermos lembrar-nos de que não consistem somente nas condições geográficas e que mesmo estas não são suportadas passivamente pelo homem, mas também modificadas e até parcialmente criadas por êle. A "eficiência" dos elementos psicológicos, como acabamos de ver, cria mais problemas do que aqueles que resolve, e é ainda menos "aceitável" que as condições materiais. As "formas sociais" são precisamente o que se pretende explicar. Quanto aos "fatos determinativos", é preciso tê-los em consideração, sobretudo quando se trata de explicar por que razão se produziu determinado acontecimento num determinado momento e não em qualquer outro, quer dizer que eles devem intervir na explicação histórica, na medida em que esta é possível, mais do que na explicação sociológica.

Não há razão para, em sociologia, dar à palavra "causa" um sentido diferente daquele que ela tem nas outras ciências : as noções de eficiência, de poder produtor, a distinção entre as causas que "agem" verdadeiramente e as que são simples condições não têm qualquer significação debaixo do ponto de vista positivo. Nesse sentido, como já escrevia Claude Bernard, "a obscura, noção de causa" nada tem a fazer na ciência : "ela deve dar lugar, na ciência, à noção de relação ou de condições". A causa, debaixo deste ponto de vista, não é mais que a condição mais geral, a mais constante, a que a experiência nos mostra ligada ao fenômeno a explicar por uma relação invariável, pelo menos dentro de certos e determinados limites. É sabido como, nas suas discussões com os historiadores, Fr. Simiand acabou por insistir nesta verdade incontestável: "Só há — escrevia êle — relação causal se existir regularidade de ligação, se houver idêntica renovação da relação constatada; o caso único não tem causa, não é cientificamente explicável".

A esta concepção, opuseram os historiadores a da interdependência, da Zusammenhang social : "Tudo se liga — escrevia Hauser — na vida social. Em qualquer momento, num povo qualquer, entre as instituições privadas, econômicas, jurídicas, religiosas, políticas, etc, desse povo, existe uma apertada solidariedade, e as variações desses diversos caracteres são concomitantes nas espécies sociais como nas espécies animais".

Lucien Febvre, discutindo em La Terre et l’Évolution humaine essas duas concepções opostas, conclui, contra os sociólogos: "Em última análise, o que está por trás do debate é uma concepção estrita, rígida, absoluta da causalidade". Contudo, não foram os sociólogos os últimos a insistir sobre a interdependência dos diferentes elementos da vida social, por oposição com a puerilidade de certas "explicações" da história tradicional — o nariz de Cleópatra ou a vontade de certo "grande homem" — que já Saint-Simon denunciava. Era a esta concepção que Augusto Comte se referia ao escrever que "os fenômenos sociais são profundamente conexos". Era nela que se inspirava Durkheim quando afirmava, nas suas Formes élémentaires de la vie religieuse: "Para o sociólogo, como para o historiador, os fenômenos sociais são função do sistema social de que fazem parte; é, portanto, impossível compreendê-los separados dele". Finalmente, é essa a teoria desenvolvida por Mauss quando mostra que, na vida social, "nada pode compreender-se sem ser relacionado com o todo".

O fundo do litígio não é, portanto, como afirma Lucien Febvre, por forma alguma uma "concepção materialista" da causalidade, de que podemos admirar-nos que êle faça uma censura contra os sociólogos idealistas da escola de Durkheim e contra um geógrafo como Jean Brunhes. É, como diz também, e com mais felicidade, o mesmo autor, uma concepção mecânica da causalidade, concepção nascida das investigações elementares, hoje já ultrapassadas, da física. Nós tomamo-la como uma concepção segundo a qual as causas e os efeitos estariam ligados unilinearmente, como os elos de uma corrente, e irreversivelmente, de maneira que o efeito "produzido" pela causa não teria ação sobre esta. É claro que em sociologia, mais do que em qualquer outra matéria, semelhante concepção da causalidade seria inadmissível, e Febvre tem perfeitamente razão quando, retomando uma idéia já indicada por Berr num capítulo da sua Synthèse en histoire, consagrado à "interação das causas", declara que é necessário ter "uma preocupação constante das repercussões e das interferências".

Mas, ainda aqui, como sustentar que uma preocupação dessa ordem é estranha aos sociólogos, quando vemos autores de tendências tão diferentes como Karl Marx, René Worms, Durkheim e Bouglé formular explicitamente essa noção da reciprocidade das ações causais? Quanto ao marxismo, já vimos que essa noção é uma das peças essenciais da sua doutrina. Na sua Introduction à une critique de l’économie politique, Marx aplica-a às relações da produção com a distribuição, da permuta com o consumo; observa êle que a produção suscita novas necessidades no consumidor e essas necessidades determinam, por sua vez, a produção. René Worms observa que, em matéria social, a causa passa, com freqüência, a efeito, e cita o seguinte exemplo: "Foi sobretudo para servir interesses econômicos que se construíram e desenvolveram os caminhos de ferro; mas estes auxiliaram a difusão das novas idéias e o estabelecimento de um regime democrático; e esses fenômenos fizeram, por sua vez, evoluir a organização econômica". Bouglé apresenta claramente a questão sob a sua forma geral: "Poderá um fenômeno ser, ao mesmo tempo, a causa e a conseqüência de um outro?… Não haverá aqui um círculo vicioso?. .. Em matéria social (responde êle), não há nada mais freqüente que essas ações e reações. Em Roma, por exemplo, pode dizer-se que a religião obedece à influência do Estado e, reciprocamente, o Estado à influência da religião… A obra pode reagir sobre o agente e o efeito tornar-se causa". O próprio Durkheim assinala o mesmo fenômeno, a propósito dos efeitos da divisão do trabalho sobre a es trutura social: "O efeito — escreve êle — reagiu sobre a causa".

A noção das interações causais não é, portanto, por forma alguma estranha aos sociólogos. Mas eles também sentiram que, para distinguir essas interações, seria necessário, talvez, estar, primeiro, em estado de determinar as ações causais. E é aqui que a fórmula de Simiand retoma todo o seu valor: ou a noção de "causa" não tem qualquer sentido preciso, ou "só há relação causal quando há regularidade de ligação". É aqui que o método comparativo, o único que permite determinar semelhantes regularidades, porque só êle permite que nos elevemos acima dos casos singulares, se torna decididamente indispensável, e o método puramente monográfico decididamente insuficiente.

Mas mais adiante falaremos da questão dos métodos. Por agora, basta-nos constatar que, desde que a relação causal é concebida como recíproca, e não como unilateral, todos os pseudoproblemas nascidos de uma concepção mecânica da causalidade desaparecem. É, então, fácil compreender como, por um lado, um fenômeno social resulta de uma confusão extraordinariamente complexa de relações, na qual, segundo a fórmula de Michelet, "tudo influi sobre tudo", e como, por outro lado, essa confusão só pode ser desfeita, essas relações só podem ser analisadas e determinadas, graças ao método comparativo, e, também, como essa análise pode permitir fugir à aparência de círculo vicioso que resulta dessa reciprocidade das causas e dos efeitos e remontar, através dessa cadeia de relações entrosadas umas nas outras, até uma relação fundamental, como procuraremos mostrar no capítulo VI.

4. As leis sociológicas. — Vê-se desde já como, apesar dessa imprevisibilidade dos fatos na escala histórica de que falamos acima, se pode falar de leis em sociologia. O determinismo sociológico é tão "rigoroso" como qualquer outro. Mas a multiplicidade das relações que interferem é tal, que torna quase impossível a previsão dos acontecimentos singulares e a sua localização no tempo e no espaço. Contrariamente, a precisão dos fenômenos sociais, na sua marcha geral e na sua evolução de conjunto, nada tem de impossível.

As leis sociológicas podem, parece-nos, apresentar-se sob três formas principais:

1.a Os tipos sociais, de que falamos atrás, constituem já verdadeiras leis de estrutura. Ao princípio da "correlação das formas", que os biologistas concluíram das suas investigações, corresponde aqui um princípio de correlação dos elementos sociais. Não é, por exemplo, por uma verdadeira lei que, nas sociedades de totemismo evoluído, a autoridade passa da forma difusa que apresenta nas sociedades propriamente totêmicas a uma forma mais definida e, geralmente, mais individualizada? Que, na família patriarcal, o poder quase absoluto do chefe da família está ligado ao culto dos antepassados? etc.

2.a Além destas leis de estrutura, a sociologia comporta leis de evolução, que regulam a passagem de um tipo social para outro tipo social. É evidente que devemos ter a maior prudência quando se tratar de estabelecer a filiação de um tipo num outro. Há, no entanto, casos em que essa filiação pode estabele-cer-se de uma forma muito provável ou até certa. Hipótese muito provável é a de DURKHEIM, segundo a qual a nossa atual família conjugal deriva, não diretamente da família patriarcal romana, mas, ao mesmo tempo, desta e da família paternal germânica. Hipóteses mais ou menos certas são as da passagem constante do costume para o direito escrito, do parentesco uterino ou materno para o parentesco paterno, da divisão do trabalho por sexos à divisão do trabalho por castas e por classes, etc.

3.a Uma terceira forma da lei em sociologia é a lei estatística.

É sabido que os físicos chamaram determinismo estatístico a um determinismo global resultante das leis do cálculo das probabilidades e que incide, não sobre os casos singulares, mas sobre conjuntos, como o que regula os movimentos das moléculas no interior de uma massa gasosa e que se exprime por uma fórmula extremamente simples: a lei de Mariotte. Pode pensar-se, apesar de a questão ainda ser muito discutida, que, no domínio físico, esse determinismo estatístico não passa de um remedeio, quer sirva para encobrir, como já dizia BOUTROUX, a imperfeição dos nossos meios de investigação e de medida, quer seja imputável a impossibilidade de aplicar o determinismo aos detalhes dos fenômenos, como pensou Lan-GEVIN, a certas pré-concepções provindas da nossa visão das coisas na escala humana, mas que deixam de valer para a escala microscópica.

Seja como fôr, no domínio sociológico já não sucede o mesmo. A lei estatística já não é um simples remedeio. É a forma privilegiada, a forma por excelência da lei, Com efeito, a sociologia não se contenta, como todas as outras ciências, em eliminar o singular, em substituir o acontecimento localizado no tempo e no espaço pelo fenômeno geral. Elimina também o individual no sentido em que o individual se opõe ao social. (2) Incide sobre grupos, portanto sobre conjuntos, cujos componentes — neste caso, os indivíduos — nunca podem ser integralmente conhecidos, tanto mais que eles próprios são função do conjunto, ou seja do meio social. A lei estatística deixa, aqui, de ser a simples expressão da regra do cálculo das probabilidades. Exprime o resíduo que fica depois de eliminadas as particularidades individuais, quer dizer, o que é imputável ao próprio fenômeno social, ao fato de os indivíduos estarem em relação uns com os outros.

Por isso, o método estatístico será um dos métodos fundamentais da sociologia.

(2) Parece-nos haver aqui uma freqüente confusão de sentido. Mesmo na individualidade orgânica ou psíquica, há fenômenos gerais, que são os estudados pela fisiologia e pela psicologia. (N. do A.)


Fonte: Editorial Andes.

 

mai 312010
 
Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

O IMPÉRIO. PRIMEIRO REINADO.

Brasil Bandecchi

Reconhecimento da Independência

Proclamada a Independência e estando o Brasil com suas finanças arruinadas e política agitada, teve o Imperador que enfrentar não poucas dificuldades para pôr ordem no estado de coisas reinante.

Ao mesmo tempo, na política internacional deveria dar o primeiro e decisivo passo que consistia no reconhecimento de sua independência pelas outras nações e, principalmente, por Portugal.

Na Inglaterra, como encarregado dos negócios brasileiros, mesmo antes da separação, encontrava-se Felisberto Caldeira Brant Pontes, futuro marquês de Barbacena, que gozava de boa e firme reputação naquele país.

Canning, ministro de Jorge IV, ouvindo as razões de Caldeira Brant sobre a justiça da causa do reconhecimento do novo Império, compreendeu que devia amparar a causa do Brasil, mas não queria desgostar Portugal, tradicional e útil aliado da Inglaterra.

O ministro de Jorge IV fêz, entretanto, objcções à política brasileira e, entre elas censurou o tráfico de escravos, ao que lhe garantiu o representante brasileiro que, não era favorável a esse comércio desumano.

Solicitou, ainda, Canning um memorial sobre a situação no Brasil. Neste memorial, Caldeira Brant informou, entre outras coisas, que o próprio rei de Portugal, D. João VI, recomendara a D. Pedro, quando em abril de 1821 partiu para Lisboa que,

fosse preciso, colocasse a coroa sobre sua cabeça antes que outro lançasse mão dela e isto porque previa que logo o Brasil se separaria de Portugal. E que D. Pedro, afirmou o nosso representante, outra coisa não fazia senão defender o direito do povo brasileiro da prepotência das Cortes de Lisboa.

Em Londres, porém, entendiam que a questão estava em apaziguar os dois Reinos e nesse pé tratavam do problema, quando surgiu a notícia de que D. Pedro fora aclamado Imperador do Brasil. Este acontecimento criou embaraços para a Inglaterra, como mediadora entre Brasil e Portugal, pois que a Grã-Bretanha por seus interesses comerciais não queria desentendimentos com a nação lusa.

Enquanto tudo isso acontecia, ganhava terreno o reconhecimento da Independência das colônias espanholas e o interesse mostrado por elas pelos Estados Unidos era grande.

No dia 2 de dezembro de 1823, "Monroe apresentava ao Congresso a sua célebre mensagem. Nela figuravam os três princípios seguintes: A América não pode mais ser objeto de colonização estrangeira; não é admissível a interferência de qualquer país europeu nos negócios internos de algum país americano; os Estados Unidos não intervirão de modo algum em negócios da Europa."1

A amizade Portugal-Inglaterra trazia preocupações ao Brasil. Sartoris, representante americano no Rio de Janeiro, mesmo antes da Independência, escrevia a John Quincy Adams:

"Eu tenho visto (a José Bonifácio) umas três ou quatro vezes. Pareceu-me estar muito desejoso de saber até que ponto poderá o Brasil esperar algum auxílio dos Estados Unidos, no caso de Portugal e a Inglaterra, esta cm virtude dos seus tratados com aquele, tentassem forçá-lo a submeter-se às Cortes de Lisboa."

Quando cm 1824, os Estados Unidos reconheceram o Brasil como nação independente, o cônsul geral de Portugal em Washington protestou contra o ato, ao que "Adams respondeu prontamente, explicando que a recepção de Rabelo, no caráter de encarregado de negócios do Brasil, não constituía de modo algum um ato não amistoso para com o governo ou povo de Portugal. Fora, apenas, o reconhecimento de um governo de fato, governo que dirigia um país que S. M. o rei de Portugal já havia, desde alguns anos, proclamado reino independente e, por esta forma, desligado de toda a dependência da antiga metrópole. Além disto, os Estados Unidos já haviam reconhecido como Estados independentes alguns dos países que tinham sido colônias espanholas, e, assim procedendo, não tinham feito mais do que seguir o exemplo de S. M. o rei de Portugal. O governo americano não fora inspirado, naqueles casos, por nenhuma divergência de vistas com o da Espanha, nem julgara o fato incompatível com os direitos que esta pudesse invocar. O governo português tivera opinião semelhante, no tocante às ex-colônias espanholas. Era de presumir, pois, que, pela aplicação dos mesmos princípios, não mudasse de parecer, ao se tratar do Brasil. Os Estados Unidos — dizia ainda Adams — não desejavam intervir nos negócios de Portugal ou do Brasil. Mas, sem usurpar direitos alheios e fiéis ao princípio de que cada povo independente tem o direito de formar e organizar o seu governo como na busca da felicidade própria, julgar preferível, — eles reconheceram o governo brasileiro como governo que existe de fato e que exerce toda a autoridade essencial à manutenção das relações usuais entre os Estados Unidos e outras potências estrangeiras independentes."-

Canning percebeu que não era possível mais retardar a solução do caso luso-brasileiro, pois o "governo dos Estados Unidos acabava de reconhecer e existência do Império. Sabia-se que outras nações estavam em vésperas de reconhecer oficialmente os representantes do novo Estado. Acontece ainda que a Inglaterra não podia mais retardar o reconhecimento de algumas repúblicas espanholas da América do Sul e seria uma inexplicável incoerência não fazer a mesma justiça ao Brasil.

Sentiu, portanto, Canning, que era chegada a hora, ou de conciliar os dois litigantes, ou de pôr-se em relações com o Governo Imperial.

Para chegar prontamente a uma decisão, encarregou Canning ao hábil diplomata, Sir Charles Stuart, de entender-se diretamente com as duas Cortes.

Por meados de março chegava Stuart a Lisboa, pondo-sc às ordens de S. M. F. para vir ao Rio como negociador. Julgando-se já solicitado, começou de novo o gabinete português a fazer as suas exigências absurdas. Muito se esforçou o mediador por chamá-lo à boa razão; c afinal teve do próprio rei a permissão verbal e ampla de tudo fazer para ultimar um ajuste.

Parte Stuart para o Rio, onde chega a 18 de julho (1825). Recebeu-o D. Pedro muito satisfeito, e mostrando-sc muito grato a S. M. B. pela sinceridade com que intervinha na dirimissão do litígio; c entregou o caso ao ministério."³

No Tratado, que foi assinado no dia 2() de agosto dc 1825 e que deveria ser ratificado dentro de 5 meses, havia um aditamento pelo qual o Brasil assumiu a obrigação de pagar a dívida de 1 400 000 libras esterlinas "que Portugal contrairá em Londres em nome do Reino Unido. Obrigou-se ainda, D. Pedro, a dar ao pai, pessoalmente, 600 000 libras, como indeni-zação das propriedades que D. João perdia no Brasil."4

Com este compromisso de pagar 2 000 000 de libras esterlinas, encerravam-se as negociações para o reconhecimento da Independência do Brasil, por parte de Portugal.

Organização Política e Administrativa. Constituição de 1824

Proclamada a Independência, a necessária e urgente medida que se impunha era a elaboração da Constituição do Império.

A Assembléia Constituinte instalou-se no dia 3 de maio de 1823 e constituiam-na o que havia de mais representativo nas províncias e por ocasião dessa solenidade, D. Pedro, na sua Fala, traçou rumos sobre os quais deviam se assentar os fundamentos da Carta Magna, "a fim de que merecesse sua imperial aceitação, e ser por êle defendida", pois que devia ser "digna do Brasil e dele."

Esta afirmação soou mal. Araújo Lima não admitia que a Assembléia viesse a aprovar uma Constituição indigna da Nação e do Imperador. Aventou-se, ainda, com fundo de ironia e revolta, que, nesse caso, D. Pedro deveria enviar, êle mesmo, as bases segundo o que julgasse digno de ser aprovado.

Por este incidente e outros que surgiriam, notava-se que a Constituição não seria votada facilmente.

Nessa altura, D. Pedro concedeu ao Lorde Cochrane o título de marquês do Maranhão e a Câmara o censurou, visto não ter sido ainda decidido se no Brasil haveria ou não títulos nobiliárquicos. Esta censura se transformou numa moção aprovada, de autoria de Montezuma, que propunha a anulação da concessão. E mais, foi aprovada, também, uma emenda de Antônio Carlos, nos seguintes termos:

"Que se diga ao governo de Sua Majestade que, enquanto a Assembléia não decretar a existêcia de distinções nobiliárias e de títulos, não se dêem mais os ditos títulos e distinções."

As coisas não pararam aí. A Assembléia passou, em matéria legislativa, a querer mais poderes do que normalmente lhe são próprios. E, assim, o Imperador, de um lado, com a advertência que fêz na instalação solene da Constituinte, e a Assembléia de outro, querendo ampliar seus poderes, havia de surgir a crise que culminou com a dissolução da Constituinte.

"Mal cercado de conselheiros, levado pelas condições psicológicas já referidas e sobretudo cedendo aos maus impulsos do elemento português que ainda permanecia em comandos militares, D. Pedro I foi permitindo que o conflito se agravasse. A situação se tornava mais delicada pelos excessos de lima lm prensa provocadora e irresponsável de um lado a outro, que mantinha em permanente estado de excitação a pequena cidade que era então o Rio de Janeiro. Todo esse conjunto de fatôn levou o Imperador a dissolver militarmente a Assembléia no dia 12 de novembro (1823), sem qualquer efusão de sangue, tendo o corpo legislativo dissolvido, cumprido galhardamente o seu dever de resistência à imposição armada. A derradeira sessão durou mais de 24 horas, e vários discursos conservados nos Anais demonstram a decisão com que os constituintes enfrentaram B dura prova."5

Dissolvida a Constituinte, sem que tivesse sequer discutido o projeto da Carta Magna, de autoria de Antônio Carlos, tratou D. Pedro de dar uma Constituição ao Brasil.

O Conselho de Estado, recém-criado para suprir a falta da Assembléia, e composto de dez membros, foi incumbido de redigir a Constituição, tendo aproveitado muito do projeto de Antônio Carlos. Seu principal redator foi José Joaquim Carneiro Maia, auxiliado, principalmente, por Vilela Barbosa. Em dezembro o projeto estava impresso e foi enviado às Câmaras Municipais para que se manifestassem sobre êle. A Câmara de Itú, por exemplo, apresentou emendas de autoria do Padre Feijó. Outras também o fizeram. Mas o certo é que a grande maioria não se deu a esse trabalho, ou porque julgasse o projeto bom tal como foi redigido, ou porque é preciso conhecimentos mais amplos para apresentar emendas a uma constituição.

Face à manifestação das Câmaras, no dia 25 de março de 1824, é promulgado o Diploma Maior do Império. E tão respeitado foi que, com o Ato Adicional de 1834, vigorou até a proclamação da República.

O art. Io da Constituição Imperial declarava:

"O Império do Brasil é a associação de todos os cidadãos brasileiros. Eles formam uma nação livre e Independente, que não admite com qualquer outra, laço algum de união ou federação que se oponha à sua independência."

Estabelecia que a divisão do território era a que então existia, o que não impedia que houvessem subdivisões se assim reclamasse o bem-estar do Estado.

Declara o governo monárquico hereditário, constitucional e representativo e que a dinastia imperante era a de D. Pedro I.

A Religião Católica Apostólica Romana continuaria a ser a religião do Império. Não excluía as outras religiões que seriam permitidas somente em seu culto doméstico ou particular, em casa para esse fim destinada, sem forma exterior de templo.

O Título II tratava do cidadão brasileiro, declarando:

"São Cidadãos Brasileiros:

Os que no Brasil tiverem nascido, quer sejam ingênuos ou libertos, ainda que o pai seja estrangeiro, uma vez que este não resida por serviço de sua nação; os filhos de pai brasileiro, e os ilegítimos de mãe brasileira, nascidos em país estrangeiro, que vierem estabelecer domicílio no Império; os filhos de pais brasileiros, que esitvessem em país estrangeiro em serviço do Império, embora eles não venham estabelecer domicílio no Brasil; todos os nascidos em Portugal e suas possessões, que sendo já residentes no Brasil na época cm que proclamou a Independência nas Províncias onde habitavam, aderiram a esta expressa, ou tacitamente pela continuação da sua residência; e os estrangeiros naturalizados, qualquer que seja a sua religião."

Consagrava em seu art. 9?, a divisão e harmonia dos poderes políticos como sendo o princípio conservador dos direitos dos cidadãos, e o mais seguro meio de fazer efetivas as garantias que a Constituição conferia.

Os poderes eram quatro: o Legislativo, o Moderador, o Executivo e o Judiciário.

O Poder Legislativo, delegado à Assembléia Geral, com a sanção do Imperador, compunha-se do Senado e da Câmara dos Deputados.

Cada legislatura durava quatro anos c cada sessão anual quatro meses.

A Câmara dos Deputados era eletiva e temporária. O Senado compunha-se de membros vitalícios e era organizado por eleição provincial, tendo cada província tantos senadores quanto fosse a metade de seus deputados, sendo que quando o número de deputados fosse ímpar,-o número de senadores seria a metade do número imediatamente menor, e o art. 41 exemplificava: quando a província der 11 deputados, o número de senadores será cinco. Porém, diz o art. 42, quando a província tiver apenas um deputado terá também um senador.

As eleições para o Senado se realizavam da mesma forma que para a Câmara dos Deputados, sendo que ao Imperador seria apresentada lista tríplice, ficando a êle a faculdade de escolher o terço, isto é, os nomes que comporiam o Senado. Para ser senador era necessário ser brasileiro, ter mais de 40 anos de idade e renda anual superior a 800$000.

De acordo com o art. 99, a pessoa do Imperador era inviolável e sagrada, e êle não estava sujeito a responsabilidade alguma. Ao Imperador era delegado privativamente o Poder Moderador que constituía a chave de toda a organização política a fim de que velasse sobre a independência, harmonia e equilíbrio dos outros poderes políticos.

O Imperador era o chefe do Poder Executivo e o exercitava pelos ministros de Estado de sua livre nomeação.

A Regência Permanente, em nome de D. Pedro II, e em cumprimento à Carta de Lei de 12 de outubro de 1832, decretou mudanças e adições à Constituição, do que resultou Ato Adicional de 12 de agosto de 1834.

"O Ato Adicional de 1834, atenuou o unitarismo da Constituição, admitindo que as províncias tivessem suas assembléias legislativas, o seu tesouro próprio, a sua justiça municipal. Transigiu assim com as tendências de descentralização que eram inerentes à evolução, à história e à geografia do Brasil. Só não se estabeleceu então o federalismo, máxima autonomia provincial, como nos Estados Unidos, porque considerava que seria isso contrariar a doutrina da soberania una e indivisível, da Revolução Francesa, incompatível (dizia-se) com a soberania regional, da mesma forma porque a federação era inconciliável com a monarquia parlamentar. Achava-se que esse tipo de Estado — o federal — só poderia ocorrer numa República, e onde o governo central, como na América do Norte, resultava do acordo dos Estados, que a integravam, de maneira a competirem (como queria Tocquevile) duas soberanias: dela e deles."8

As assembléias legislativas provinciais foram criadas em substituição aos conselhos gerais das províncias que existiam por força dos arts. 71 e seguintes da Constituição.

Esses conselhos — diz o art. 81 — tinham por principal objeto propor, discutir e deliberar sobre os negócios das suas províncias, formando projetos peculiares e acomodados às suas localidades e urgência. Além da competência que a Constituição dava aos conselhos gerais, as assembléias provinciais tiveram atribuições de conformidade com o art. 10 do Ato Adicional.

Sem reforma constitucional, mas diante cia experiência que se vinha adquirindo e pelas circunstâncias que reclamavam melhor administração, pelo Decreto n° 523, de 20 de julho de 1847, foi criado o cargo de Presidente do Conselho de Ministros, inaugurando-se, desta forma, o parlamentaiismo conforme os modelos francês e inglês.

"O Poder Judicial — institui o art. 151 — é independente, e será composto de Juízes e Jurados, os quais terão lugar assim no cível como no crime, nos casos, e pelo modo que os Códigos determinarem."

Os Jurados pronunciavam-se sobre os fatos e os Juízes aplicavam a lei.

Pelo art. 154, o Imperador podia suspendê-los por queixas contra eles feitas, "procedendo a audiência dos mesmos juízes, informação necessária, e ouvido o Conselho de Estado." Os papéis que lhe fossem concernentes seriam remetidos à Relação do respectivo distrito, para proceder na forma da lei. Só por sentença, porém, os juízes perderiam o lugar.

O art. 163 estabelecia:

"Na Capital do Império, além da Relação que deve existir, assim como nas demais províncias, haverá um Tribunal com denominação de — Supremo Tribunal de Justiça — composto de Juízes Letrados, tirados das Relações por suas antigüidades; e serão condecorados com o título do Conselho. Na primeira organização poderão ser empregados neste Tribunal os Ministros daqueles que se houverem de abolir."

Ao Supremo Tribunal de Justiça competia:

"1.° — Conhecer ou denegar revistas de ofício nas causas, e pela maneira que a lei determinar.

"2? — Conhecer os delitos e erros de ofício que cometeram os seus Ministros, os das Relações, os empregados no Corpo Diplomático, e os Presidentes das Províncias.

"39 — Conhecer e decidir sobre conflitos de Jurisdição e competência das Relações Provinciais." (Art. 164).

Fundação dos Cursos Jurídicos

A fundação dos cursos jurídicos constituem um dos atos mais importantes do primeiro reinado, não só para libertar os estudantes brasileiros dos vexames que sofriam em Coimbra, mas principalmente para dar consistência ao incipiente pensamento jurídico nacional, que na estrutura legal repousa todo o edifício de uma nação. O ano de 1827 não representa apenas a fundação de duas academias de direito, porém um passo decisivo na consolidação do pensamento nacional.

O primeiro projeto com esse objetivo foi apresentado por Fernandes Pinheiro, no dia 12 de junho de 1823. A Comissão de Instrução, em seu parecer, concluiu favoravelmente, porém, apresentou emenda: além de uma academia em São Paulo, seria criada outra, em Olinda, na Província de Pernambuco.

Após longas discussões o projeto é aprovado.

O Poder Executivo porém não o sancionou como não o foram vários projetos da Assembléia Constituinte, dissolvida em 12 de novembro de 1823.

Em 1826, estava novamente a Câmara funcionando, A Comissão de Instrução pública, em 5 de julho, apresentou pio jeto para a criação de um curso jurídico com sede oo Rio de Janeiro. Paula Sousa emenda-o:

"Proponho em lugar de um curso — dois cursos: mu cm São Paulo e outro em Olinda."

Renovam-se os debates quanto à localização, mas, finalmente o projeto é aprovado com a emenda Paula Sousa. No ano seguinte, no dia 11 de agosto o Senado também o aprova.

Em 1828 instalam-se as faculdades, cujo papel na história do pensamento brasileiro é dos mais importantes no mais amplo sentido.

Código Penal

Promulgada a Constituição de 1824, o grande diploma que a seguiu foi o Código Penal de 1830. Muito embora o art. 179, n9 18, da Lei Maior estabelecesse que seriam elaborados, quanto antes, os códigos civil e criminal, este precedeu àquele em quase cem anos.

A própria Constituição nos oferece a forte razão de um sobre o outro na preferência que teve o legislador, quando, no mesmo artigo traça, com segurança e humanidade, os novos rumos deste importante ramo do direito:

"Desde já ficam abolidos os açoites, a tortura, a marca de ferro quente, e todas as mais penas cruéis."

E no seguinte:

"Nenhuma pena passará da pessoa do delinqüente. Portanto, não haverá cm caso algum confiscação de bens, nem a infâmia do réu se transmitirá aos parentes cm qualquer grau que seja."

O Direito Penal que vigorava no Brasil Colônia era consubstanciado no Livro Quinto das Ordenações do Reino.

O Código Penal de 1830 representou um grande momento na vida jurídica do País, pois acabou com o obscurecimento que era o Livro Quinto das Ordenações do Reino, que confundia moral e direito, de acordo aliás, com a época da sua promulgação (1603).

Neste diploma legal nota-se a influência de José Bonifácio que viveu na França no momento culminante da floração das idéias liberais.

Abdicação de D. Pedro I

O governo de D. Pedro seria agitado. Se de um lado havia brasileiros ferrenhos, não é menos certo que dentre os portugueses existiam os que se manifestavam violentamente contra a causa brasileira, que era a de consolidar cada vez mais a Independência e defender as idéias constitucionalistas contra as absolutistas.

E o Imperador, na realidade, oscilava entre uns e outros, como se fosse possível no movimento das correntes contrárias ficar entre ambas sem sofrer desgastes e não provocar a justa desconfiança das facções em luta.

Na verdade, depois de ter absurdamente exilado o Patriarca da Independência, já não conseguia esconder o seu lusitanismo. No caso do Andrada, não teve a menor consideração aos serviços que o glorioso santista prestara à Pátria e nenhum respeito ao sábio que deixara nome ilustre nos países mais adiantados da Europa.

Em 1826 reabre-se o Congresso, fechado, como vimos, desde 1823.

As relações entre a Câmara dos Deputados e o Imperador não eram das melhores.

Mesmo na imprensa, que contava 53 jornais, tinha apoio apenas de 11. Tudo oposição declarada. Violenta ou branda, mas oposição.

Os deputados que combatiam o governo, muito mais enérgicos que os da situação, passaram a dominar a opinião pública, a gozar de grande simpatia, pois que defendiam com ardor e patriotismo ao lado brasileiro contra os que se opunham às mais belas aspirações de um povo que é a libertação de qualquer sujeição externa, tornando-o autêntico perante o mundo.

Na fala do Trono, quando se encerrou a primeira legislatura, em 1829, D. Pedro pronunciou, secamente, estas palavras:

"Está fechada a sessão."

"A desconfiança de que o Imperador era português mais do que brasileiro era geral. Alimentavam-na as preocupações miguelistas7, os receios de que o Brasil fosse arrastado nas dificuldades da luta pela Carta Constitucional portuguesa, que o País sofresse pelos auxílios aos partidários de D. Maria. Além disso, a conduta política do chefe de Eslailo nada linha de constitucional; agia segundo as linhas de puro absolutismo. O regime parlamentar tinha de ser criado, e era tareia- que amara se tinha imposto. O imperador não a compreendia.

José Bonifácio, já de volta do desterro, havia perdoado a D. Pedro I, e, desprendido de tudo, se limitava a dar-lhe conselhos patrióticos e desinteressados: substituísse, por brasileiros natos, seus conselheiros portugueses, a fim de desanuviar a atmosfera política, como era mister."8

Para José Bonifácio quem devia assumir a responsabilidade do governo era Caldeira Brant, Marquês de Barbacena, o qual no entanto, resistiu o quanto pôde à indicação, aceitando, por fim, a pasta da Fazenda. Para as outras foram nomeados: o visconde de Alcântara (Justiça), Paranaguá (Marinha), Caravelas (Império), Miguel Calmon (Estrangeiros) e Rio Pardo (Guerra).

Este Ministério foi formado no dia 4 de dezembro de 1829 e o Chalaça o denominou de ministério dos cinco crioulos.

"Pela primeira vez, um ministério se formara com um programa definido, o parlamentarismo constitucional. Ante um Executivo invasor, a barreira da Constituição. Era a salvação do trono de D. Pedro I, cujo absolutismo, ingênuo é tão inconsciente, o havia levado ao divórcio com o Império que havia libertado.

Esse programa ia serenando o ambiente. Não que a Câmara perdesse para o Imperador a funda e irremovível desconfiança que a saturava. Mas era uma tolerância recíproca que se estabelecia; era a colaboração cortês com homens do valor de Evaristo da Veiga, de Bernardo de Vasconcelos, Feijó, Araújo Lima, Holanda Cavalcanti, Limpo de Abreu, os Andradas, Paula Sousa, Honório Hermeto e tantos outros; ante um Executivo fácil em tomar iniciativas das Câmaras, um Parlamento sereno, vigilante e competente; o sistema de poderes equilibrado! Imaginado pelo Estatuto de 25 de março de 1824.

Claro, que dessas relações, cm que a tensão desaparecia, resultava um serenar de ambiente cm que o ministério avultava. Aos ouvidos doentiamente susceptíveis de I). Pedro chegava facilmente os cochichos de intrigantes. Nao mais ele, mas Barbacena dominava c reinava no Brasil. Subalternidade que seu gênio impulsivo e intolerante não suportaria. E não faltavam elementos de sisania. . . Aracati, Lages, José Clemente e outros."9

As intrigas fervilhavam e o maior intrigante era o Chalaça que se agastou com Barbacena quando este não permitiu, por ser homem digno, que êle se intrometesse nos assuntos ministeriais, mesmo sendo, como era, um protegido e íntimo de D. Pedro.

Apesar de toda a força que o Chalaça tinha junto do Imperador, Barbacena conseguiu que êle fosse nomeado para cargo diplomático na Europa e, desta forma, afastou da Corte essa influência nefasta.

Mas o Chalaça, que se fingiu distinguido pela nomeação continuou subterraneamente, a intrigar o marquês de Barbacena com o Imperador.

O nome de Barbacena crescia no Brasil inteiro.

"Ordem, moderação, justiça e tolerância passaram a ser a senha do Governo, que timbrava em se mostrar representativo e constitucional, fugindo a tudo quanto pudesse parecer absolutismo."10

Quando Barbacena apresentou às Câmaras seu relatório de governo, relatório corajoso, firme, claro, patriótico, a opinião pública ficou vivamente impressionada com aquela forma objetiva e elevada de dizer com a segurança constitucional do seu ramo.

Tal sucesso enciumaria o Imperador.

Nas cartas que o Chalaça enviava a D. Pedro I veio o veneno necessário para que o Imperador enciumado ferisse o ministro acatado e respeitado. Nessa correspondência o Chalaça falava nas despesas que Caldeira Brant, marquês de Barbacena, fizera em Londres quando encarregado dos negócios do Brasil, na época do reconhecimento da nossa Independência e quando, depois, com enormes sacrifícios, conseguiu arranjar noiva para o segundo casamento de D. Pedro e, ainda quando esteve na Europa, acompanhando, e mesmo protegendo D. Maria da Glória, que foi Maria II de Portugal.

D. Pedro demitiu o marquês e exigiu prestação de contas.

Barbacena publicou o seu relatório e mostrou que gastara mais do que havia recebido e que não se locupletara à custa dos cofres públicos, mas sim que estes lhe eram devedores de £, 1 326-7s-2d.

Só em 1836 o caso foi decidido, pois o Tribunal do Tesouro reconhecia que Barbacena era credor de £ 1 405.19s-lld, "que lhe ficava creditado por depender da Assembléia Geral. Realmente, recebeu este saldo cm fevereiro de 1838."

No dia 15 de dezembro de 1830, Barbacena escreveu a D. Pedro uma carta que era um aviso e um conselho e da qual destacamos:

"Ainda há tempo, Senhor, de manter-se V. M. I. no trono, como o deseja a maioria dos brasileiros; mas se V. M., indeciso, continuar, com as palavras de Constituição e Brasileiríssimo na boca, a ser Português e absoluto de coração, neste sua desgraça é inevitável, e a catástrofe, que praza a Deus não seja geral, aparecerá em poucos meses; talvez não chegue a seis

A extinção dos ministérios secretos11; separação absoluta de criados, ou confidentes portugueses, linguagem e comportar mento de um genuíno brasileiro, ainda podem reconciliar a V. M. I. com a Nação, e Salvá-lo da catástrofe que esta imi nente."

D. Pedro não quis ouvir Barbacena. Preferiu o Chalaça.

E em menos de seis meses, no dia 7 de abril de 1831, teve que deixar o Brasil, abdicando na pessoa de seu filho D. Pedro de Alcântara, que passaria à História com o nome de D. Pedro II.

Findava, assim, o Primeiro Reinado.

NOTAS

1 Hildebrando Aciolly. O Reconhecimento do Brasil pelos Estados Unidos da América, São Paulo, 1945.

2 Idem.

3-4 Rocha Pombo, História do Brasil, Rio de Janeiro, 1957.

5 Afonso Arinos de Melo Franco, O Constitucionalismo brasileiro no século XIX, México, 1957.

6 Pedro Calmon, História do Brasil, Rio de Janeiro, 1966.

7 D. Miguel usurpou o trono português de D. Maria da Glória, filha de D. Pedro I. D. Pedro, depois que abdicou, foi para Portugal, em 1832, depôs seu irmão D. Miguel e foi coroado como D. Pedro IV, tendo, em seguida passado a coroa a sua filha, abdicando, assim, pela segunda vez.

8 Pandiá Calógeras, O Marques de Barbacena, São Tanto, 1932,

9 Pandiá Calógeras, ob. cit.

10 Idem.

11 Referia-se Barbacena aos conselheiros que se reuniam com o Imperador em São Cristóvão para tratar de assuntos da competência do ministério, colocando-se acima dos ministroi

BIBLIOGRAFIA SUBSIDIÁRIA

  • Alberto de Sousa, Os Andradas (3 Volumes) São Paulo, 1923. Amando Caiubi, O Patriarca, gênio da América, São Paulo, 1949. Brasil Bandecchi, Elementos de História do Direito Brasileiro, São Paulo, 1969.
  • Pedro Calmon, Vida de D. Pedro I, o rei cavaleiro, São Paulo, 1943.
  • Tobias Monteiro, O Primeiro Reinado (2 volumes), Rio de Janeiro, 1939-1940.
  • Xavier Marques, Ensaio Histórico sobre a Independência, Rio de Janeiro, 1924.

PERÍODO REGENCIAL.

Regência Trina Interina

Com a abdicação de D. Pedro I, iniciou-se o período regen-cial que vai até 1840, ou seja, até a declaração da maioridade de D. Pedro II.

D. Pedro contava, então, pouco mais de 5 anos de idade, e daí a necessidade de ser o Brasil governado por regentes.

Para que o Executivo não ficasse acéfalo o que poderia trazer novos atritos políticos e recrudescer os existentes, imediatamente reuniram-se os deputados e senadores e nomearam uma Regência Trina, em caráter interino. Compunham-na o marquês de Caravelas (José Joaquim Carneiro de Campos), o brigadeiro Francisco de Lima e Silva e o senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro.

Essa regência aprovou a nomeação de José Bonifácio para tutor de D. Pedro II e suas irmãs1, e reconduziu o ministério que D. Pedro havia demitido dois dias antes da abdicação.

Apesar de um manifesto ao povo, cm que a regência pedia que se mantivesse tranqüilo e em ordem, os conflitos entre bra sileiros e portugueses continuaram, pois estes não queriam se conformar com o ato de D. Pedro e sua partida para a Europa. Vencidos pelo partido brasileiro, compreendiam que dal para ;i frente suas forças entrariam cm franco declínio e o processo da separação se consolidaria com maior rapidez.

Uma regência interina ou provisória, sempre deixa aberta a porta para as disputas diretas dos que ambicionam o poder. Surgem críticas e ataques c dos regentes o mais visado era o marquês de Caravelas, que tomando pulso da situação, solicitou do Congresso que elegesse uma regência permanente.

Regência Trina Permanente

No dia 18 de junho, pelo voto de 35 senadores e 88 deputados a Regência Trina permanente foi escolhida e se compunha do brigadeiro Francisco de Lima e Silva, José da Costa Carvalho e João Bráulio Moniz, os dois últimos deputados.

Quando Caravelas deixou o governo, o brigadeiro Lima e Silva disse:

"É pena marquês, que um homem da sua têmpera abandone o governo e deixe a política." E o marquês lhe respondeu:

"Não se é político, nem se governa contra a vontade do povo. Fiz o que devia." Escreve Veiga Cabral:

"Foi agitadíssimo esse período, em que três partidos se digladiavam: o moderado, que apoiava o governo; o exaltado, que queria a república; e o restaurador ou caramurú, que desejava a volta de D. Pedro I.

Do primeiro faziam parte, entre outros, Evaristo da Veiga, Nicolau Vergueiro e Honório Hermeto; do segundo, Manuel Carvalho Pires de Andrade, Antônio Carlos de Andrada e Silva e Miguel Frias; e do terceiro, José Bonifácio, Martim Francisco e Francisco Vilela Barbosa."2

Mesmo com a eleição da regência permanente, as desordens continuaram, porém todos os motins e atos de insubordinação encontraram barreira no pulso de ferro do padre Feijó, nomeado ministro da Justiça no dia 4 de julho de 1831.

Para extinguir os focos de rebelião, dissolveu alguns corpos das forças armadas ,ao mesmo tempo que criou, por decreto de 18 de agosto, as guardas Nacional e Municipal.

No Rio a situação era difícil, como, também, nas- províncias. Nestas, acrescia que se encontravam longe do poder central e num regime centralizador, criava-se a confusão de cada unidade desejar certa autonomia, para resolver mais rapidamente os seus problemas e gerir mais de perto a sua política.

"Nunca o Brasil atravessou período tão difícil e calamitoso, e, se o coração do país, São Paulo, Minas e Rio, menos turbulento que o resto, não lhe desse o nutriente alimento da ordem, como na Guerra da Independência, é certo que naufragaria."

Dentre os movimentos que o governo teve que bater, houve uma revolta chefiada pelos Restauradores e entre os membros desse partido encontrava-se José Bonifácio. Diogo Feijó não podia admitir que o tutor de D. Pedro II fosse sedicioso, razão

pela qual, propôs às Câmaras sua destituição. Na dos deputados saiu vencedor, mas, no Senado, o Patriarca foi mantido no cargo pela diferença de um voto.

Face a esse resultado, embora de um único voto de dife rença, Feijó solicitou demissão do cargo de ministro da Justiça, tendo deixado a pasta em 26 de julho de 1832.

Regência Una

A ausência de Feijó representava falta de segurança.

Os Restauradores apertavam o cerco e desejavam a volta de D. Pedro I. Nessa altura dos acontecimentos, sendo José Bonifácio um restaurador, e o povo não concordando com isso, invade, com auxílio de uma força militar, o Palácio de São Cristóvão, e o destitui do cargo de tutor de D. Pedro e das princesas.

Em seu lugar é nomeado o marquês de Itanhaem.

Procuravam os deputados um caminho seguro que pudesse acalmar os ânimos exaltados.

Daí resultou o Ato Adicional de 1834, que transformou a Regência Trina em Una, e deu ao povo, através do voto, o direito de escolher o regente, e aboliu os Conselhos Provinciais e criou, em seu lugar, as Assembléias Legislativas.

Nesse mesmo ano de 1834, morreu D. Pedro I, o que faz desaparecer o objetivo do partido Restaurador.

Disputaram a Regência, em 1835, o padre Feijó e Francisco de Paula Holanda Cavalcanti, saindo vencedor o primeiro que contou com forte apoio de Evaristo da Veiga, o intrépido e destemido redator da Aurora Fluminense.

Feijó tomou posse no dia 12 de outubro do mesmo ano.

Dentre os problemas que teve de enfrentar, sem falar em revoluções sufocadas, encontram-se a questão religiosa e a Guer ra dos Farrapos, desencadeada no Rio Grande do Sul, que durou 10 anos.

Feijó renunciou à regência em 19 de setembro de 1837, tendo-a entregue, interinamente ao marquês de Olinda (Pedro de Araújo Lima), que fora, premeditadamente nomeado no dia anterior, ministro do Império.1

Araújo Lima permaneceu no cargo até a declaração da maioridade de D. Pedro II, em 1840.

Sua regência está marcada por duas iniciativas altamente culturais: a fundação de Instituto Histórico c Geográfico Brasi-

Leiro ( 1838) c a instalação do colégio que viria a ser o famoso D. Pedro II.

Maioridade

O País, entretanto, por mais esforços que fizessem, não encontrava o desejado sossego.

A Regência sempre seria um posto ambicionado e, por isso mesmo, um convite permanente aos que o aspiravam.

A maioridade de D. Pedro II poderia se dar somente, de forma legal, quando êle tivesse 18 anos de idade. Os liberais, com Antônio Carlos à frente, resolveram que D. Pedro fosse proclamado maior imediatamente e, para tanto, fundaram o Clube da Maioridade.

"Queremos Pedro Segundo embora não tenha idade; a nação dispensa a lei, e viva a maioridade."

Antônio Carlos apresentou um projeto declarando D. Pedro maior. Os deputados porém, resistiram à sua aprovação, mas o povo que se encontrava nas galerias e imediações, aplaudiu e ovacionou o projeto. Hábil e inteligente, Antônio Carlos percebeu que vivia um desses momentos em que um homem decidido pode dominar, facilmente, uma situação. O santista não teve um momento de dúvida c voltando-se para o povo, clamou:

"Abandonemos esta Câmara prostituída.. . Quem é patriota e brasileiro siga comigo para o Senado!"

E da Câmara dos Deputados, Antônio Carlos e seus partidários, e povo que aumenta pelas ruas, gente que aparece de todos os lados, todos juntos exigindo a maioridade, vão pára o Senado, onde, no dia seguinte, 23 de julho, revolucionariamente D. Pedro II é aclamado maior, aos 15 anos de idade.

Nesse mesmo dia passa a governar. Inicia-se o Segundo Reinado.

NOTAS

1 D. Pedro antes de partir nomeou Jose Bonifácio tutor de seus filhos.

2 História do Brasil (curso superior), Rio de Janeiro, 1949.

3 "A renuncia do grande estadista origina-se das agruras da luta parlamentar. A guerra civil do Rio Grande, as leis de limitação da liberdade de imprensa e a oposição do parlamento haviam abalado profundamente a sua popularidade. A nação caminhava paia o paramenta rismo e Feijó opunha-se ao que lhe parecia excessiva usurpação do Parlamento. Não querendo formar ministério formado da Câmara, nem podendo formá-lo fora dela sem se impopularizar, preferiu quebrar a ceder, e ir-se embora antes de transigir." João Ribeiro, ob. cit.

O 7 de Abril como a Maioridade foram vitórias dos Liberais. A Abdicação, porém, não trouxe o esperado sossego. O elemento favorável a D. Pedro I, queria sua volta, dai o Partido Restaurador, que terminou com a morte do ex-imperador. Ficaram, assim, dois partidos: o Moderado que apoiava a Regência e o Exaltado, com tendências republicanas. Eleito Feijó Regente único, seus correligionários fundaram o Partido Progressista e seus opositores o Regressista. Deste grupo formado por restauradores e liberais surgiu o Partido Conservador. Por fim, os que apoiavam Feijó, fundaram o Partido Liberal.

BIBLIOGRAFIA SUBSIDIÁRIA

  • Amaro Quintas, O sentido social da Revolução Praieiro, Recife, 1946.
  • Alfredo Varela, História da Grande Revolução, Porto Alegre, 1925.
  • Aluísio de Almeida, A Revolução Liberal de 1842, Rio de Janeiro, 1944.
  • Astolfo Serra, A Balaiada, Rio de Janeiro, 1946.
  • Dilke Barbosa Rodrigues, A vida singular de Angelino (A Cabanagem), Rio de Janeiro, 1934.
  • Luís da Câmara Cascudo, O Marquês de Olinda e seu Tempo, São Paulo, 1938.
  • Luís Viana Filho, A Sabinada, Rio de Janeiro, 1938.
  • Otávio Tarquinio de Sousa, Bernardo Pereira de Vasconcelos (Rio de Janeiro, 1937); Diogo Antônio Feijó (São Paulo, 1942) e Evaristo da Veiga (São Paulo, 1939). Para o estudo de "O Período Regencial e o Liberalismo Brasileiro", aconselhamos o livro de Otávio Tarquinio de Sousa — História de Dois Golpes de Estado.

Fonte: Material Didático Didática irradiante de 1970 de acordo com diretrizes da época do MEC

 

mai 312010
 
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INDEPENDÊNCIA DO BRASIL – RESUMO

Pedro Brasil Bandecchi

Transmigração da Família Real e Regência do Príncipe D. João

As idéias dos enciclopedistas1 franceses espalhavam-se pelo mundo, pregando reformas que abalaram a estrutura político-social então vigente.

A convocação dos Estados Gerais por Luís XVI era uma vitória do povo e sua repercussão foi grande o que não impediu a Revolução Francesa e a guilhotina que fêz rolar cabeças de soberanos, nobres e, por fim, dos próprios revolucionários.

Diante da ameaça francesa, o mundo arma-se contra a França e esta sente que terá que enfrentar o mundo. Cessado o período do terror, a velha terra gaulesa não teve o desejado sossego e, por isso, sentiu necessidade de um homem forte, capaz de lhe dar ordem interna e enfrentar a ameaça externa.

Esse homem foi Napoleão Bonaparte.

Não tardou a Europa a sentir o peso dos seus exércitos. Só a Inglaterra, por ser uma ilha e possuir forte esquadra, pôde ficar livre das tropas do corso.

As vitórias, conquistas e atitudes francesas assustam Portugal que deseja ficar neutro num mundo conturbado em que a neutralidade é impossível. E por ser impossível, D. João, príncipe-regente2, joga uma cartada que evidentemente não daria certo: queria ficar de ambos os lados, ludibriando a ambos. Procurava, através de entendimentos secretos, manter o fogo das batalhas fora do seu território. O pêndulo da sua política oscila entre Londres e Paris.

Face a tais atitudes dúbias, mesmo que por vezes bem disfarçadas, Napoleão não aceitou mais entendimentos com D. João e determinou a invasão de Portugal pelas tropas comandadas por Junot e decretou a destruição da família real lusa.

A 23 de novembro de 1807, chega a Lisboa a notícia de que os franceses haviam transposto a fronteira portuguesa. Nesta altura dos acontecimentos, só cabia a D. João seguir o conselho de Lord Strangford, de refugiar-se na América.

A invasão napoleónica e a nova do embarque da Família Real para o Brasil, trouxeram desespero entre os habitantes de Lisboa.

E em meio ao maior atropelo e confusão realizou-se a partida dos governantes e quantos desejaram livrar-se das conseqüências daquele momento duro e triste.

"A frota real, defendida por alguns vasos de guerra ingleses e composta de umas vinte naus, muitas outras mercantes, velejou o Tejo a 29 de novembro de 1807. Nela iam quinze mil pessoas, grande número de fidalgos, funcionários e famílias que emigravam, e também as riquezas dos palácios reais, que foi possível transportar; e ainda não tinha perdido de vista a terra, quando Junot penetrava em Lisboa, e tomando rapidamente conta da cidade e das fortalezas, aprisionava à bala alguns navios mercantes que iam atrasados, nas águas da esquadra.

Batida pela tempestade, na altura das ilhas da Madeira, a frota dividiu-se em duas, e aquela parte numerosa em que vinha o rei tocou primeiro na Bahia, a 24 de janeiro de 1808.

Era a primeira vez que um rei do antigo mundo pisava o solo da América. O povo da Bahia recebeu com grande júbilo os altíssimos hóspedes, e por um momento pensou que à primitiva capital da colônia caberia agora a primazia da sede no novo reino."3

Tendo desembarcado o Príncipe-Regente na Bahia, no dia 24 de janeiro nela ficou até o dia 26 de fevereiro, quando rumou para o Rio, já escolhido para capital do futuro império, apesar das solicitações dos baianos para que ficasse em Salvador.

A chegada de D. João ao Brasil acelera o processo da nossa libertação política, pois que a instalação da Corte em terras da América Portuguesa lhe tirava, automaticamente, o caráter de colônia, embora ainda não fosse elevado a Reino.

Dá-se, então, a "inversão brasileira" na ajustada definição de Sílvio Romero.

Abertura dos Portos e a Revogação do Alvará de 5 de janeiro de 1785

Ainda na Bahia, o Príncipe-Regente alertado por José da Silva Lisboa, depois visconde de Cairu, pela Carta Elegia de 28 de janeiro de 1808, ordenou "interina e provisoriamente" a abertura dos portos brasileiros às nações amigas. É evidente que se D. João mantivesse os portos fechados, decretaria um auto-bloqueio, estando a Metrópole, como se encontrava, dominada pelos franceses.

Eis o teor da Carta Régia dirigida ao conde da Ponte, governador e capitão-general da Capitania da Bahia: "Atendendo à representação, que fizeste subir a minha Real Presença, sobre se achar interrompido e suspenso o comércio da (!apitania, com grave prejuízo dos meus vassalos c da minha Real Fazenda, em razão das críticas e públicas circunstâncias da Europa; e querendo dar sobre este importante objeto alguma providência pronta e capaz de melhorar o progresso de tais danos, sou servido ordenar interina e provisoriamente, enquanto não consolido um sistema geral que efetivamente regule semelhantes matérias, o seguinte: que sejam admissíveis nas Alfândegas do Brasil todos e quaisquer gêneros, fazendas c mercadorias transportados em navios estrangeiros das Potências, que se conservam em paz e harmonia com minha Real Coroa, ou em navio dos meus vassalos, pagando por entrada vinte e quatro por cento a saber: vinte de direito grosso, e quatro de donativo já estabelecido, regulando-se a cobrança destes direitos pelas pautas, ou aforamento, porque até o presente se regulam cada uma das ditas Alfândegas, ficando os vinhos, águas ardentes e azeites doces, que se denominam molhados, pagando o dobro dos direitos, que até agora nelas satisfaziam. Segundo: que não só os meus vassalos, mas também os sobreditos estrangeiros possam exportar para os portos que bem lhes parecer a benefício do comércio c agricultura, que tanto desejo promover, todos e quaisquer gêneros e produções coloniais, a exceção do pau-brasil, ou outros notoriamente estancados, pagando por saída os mesmos direitos já estabelecidos nas respectivas capitanias, ficando entretanto com suspenso e sem vigor todas as leis, cartas régias, ou outras ordens que até aqui proíbam neste Estado do Brasil o recíproco comércio de navegação entre meus vassalos c estrangeiros. O que tudo assim fareis executar com zelo c atividade que de vós espero."

Deste documento se conclui: 1) que com a invasão da Metrópole interrompeu-se o comércio do Brasil — exportação — pois que só para Portugal podiam ir, até então, os produtos nacionais, normalmente; 2) que a abertura dos portos foi ordenada em caráter interino e provisório; e 3) que não só os vassalos de S. M., como também os estrangeiros, poderiam exportar "todos e quaisquer gêneros e produções coloniais."

Outro ato de grande importância para o Brasil foi o de lº de abril do mesmo ano, que revogou o Alvará de 5 de janeiro de 1785, que proibia a instalação de fábricas e indústrias no Brasil, constituindo sério entrave ao nosso desenvolvimento econômico. Entretanto o desastrado Tratado de 1810, assinado com a Inglaterra, "haveria de sustar por muitas décadas o florescimento das atividades industriais do Brasil."4

Este Tratado de 1810 prejudicaria também, e muito, os benefícios da Carta Régia de 1808, que ordenou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas.

Administração de D. João VI

A instalação de uma Corte exigia uma longa série de iniciativas e realizações que mareiam bem ato dessa natureza. Fazia-se necessário criar condições para a sede da monarquia e também para colocação dos milhares de vassalos que acompanharam a família real.

A administração de D. João, no Brasil, pode ser dividida em três períodos, correspondentes aos seus ministros: 1?, o do conde de Linhares (1808-1812); 2?, o do conde da Barca (1812-1817) e 3º o do ministro Tomás Antônio (1817-1821).

Como é fácil de se ver, o de maiores realizações foi o primeiro, pois que tudo estava por fazer no sentido de instalar-se a sede do governo no Rio de Janeiro.

O Rio não estava, evidentemente, preparado para receber a Corte, nem sequer como cidade, levando-se em consideração o respeitável número de acompanhantes vindos na esteira do Príncipe.

"Pela estatística de um negociante inglês, Luccok, pululavam, então, no Rio de Janeiro, um milhar de funcionários públicos e outro milhar de válidos da Corte. Sofreram, com isso, os cariocas de 1808, verdadeiros vexames para hospedar tão numerosa comitiva, tendo de entregar suas moradas por imposição da polícia do vice-rei, conde dos Arcos, que foi o primeiro a ceder seu palácio ao príncipe — à aluvião de fidalgos, clérigos, militares e burocratas imigrados da Metrópole e de se irem refugiar, à ufa, nos arrabaldes, em casas rústicas e acanhadíssimas. Aos recalcitrantes dava-se oficialmente ordem de despejo por meio das iniciais P. R. (Príncipe-Regente), escritas às portas das casas, letras que o povo do Rio Irónicamente interpretava pelo convite de Ponha-se na Rua."

Com tais dificuldades, devia o Príncipe-Regente lançar-se, imediatamente, à obra realizadora que daria tamanho destaque à sua regência.

Os quatro primeiros anos de 1808 a 1812 pertencem decididamente a Linhares e à sua febril atividade reformadora. Os dois imediatos, que são de descanso após a azáfama das mudanças administrativas, judiciárias e sociais, cabem ao marquês de Aguiar e ao conde das Galveas, fidalgo de costumes desregrados, a quem D. Carlota apelidara o dr. Pastorinha.

Em 1810 acumulou Aguiar o exercício da pasta da Marinha, que, no ano imediato, foi assumida pelo conde das Galveas. Em 1812 recolheu este último a herança de Linhares, passando a gerir, desde então, os três ministérios, até falecer em 1814.

De 1814 a 1817, volta ao poder o conde da Barca, tendo-lhe sido confiadas, sucessivamente, as pastas de Galveas, a que soube imprimir, na fase de Oliveira Lima, o cunho da sua superioridade um tanto negligente e do seu talento não tão ativo quanto versátil.

Os três últimos anos do reinado americano de D. João V1 são dominados pela figura simpática, de elevado cunho moral e político intransigente, do desembargador Tomás Antônio de Vila Nova Portugal, que assumiu o governo desde a morte do conde da Barca, em junho de 1817."8

Em 1816, com o falecimento de D. Maria I, D. João ascendeu ao trono com o nome de D. João VI.

Brasil Reino

Em 16 de dezembro de 1815, o Brasil daria mais um passo decisivo no caminho de sua Independência, ao ser elevado à dignidade de Reino.

"Devemos a criação do Reino do Brasil, ou a organização do nosso território em um corpo político senão à vaidade do Monarca, por certo ao despeito dos seus representantes no Congresso de Viena, onde não podiam ter assento, como não tiveram, porque Portugal não era, e nem podia considerar-se grande potência figurando somente o território europeu organizado em Reino. Por isso antes que aqui fosse promulgado o documento que citamos (a Lei de 16 de dezembro de 1815), já o Brasil fora como Reino contemplado naquele Congresso, como se vê dos artigos 105, 106 e 107 do respectivo tratado de 9 de junho de 1815 e do de Aliança, de 8 de abril do mesmo ano; o que se conseguiu depois de prévios ajustes particulares, em que oficiosamente interveio a Grã-Bretanha."7

Mesmo sendo fato consumado naquele Congresso, D. João para assinar o decreto ouviu o Conselho de Estado, sendo esta a manifestação de Tomás Antônio:

"Senhor, a situação é esta, sem a menor dúvida: ou Vossa Majestade proclama a Independência do Brasil elevando-o a Reino, e neste caso contraria os portugueses; ou Vossa Majestade conserva o Brasil na posição subalterna de vice-reino e neste caso terá o descontentamento dos brasileiros. É claro que Vossa Majestade terá maior amor ao berço dos seus avós; mas é justo que ame este povo que o recebeu entre festas e alegrias cm 1808, quando Vossa Majestade foi coagido a deixar a pátria que o viu nascer. Da consciência e do coração de Vossa Majestade está dependendo a formação de um grande império na América, cuja coroa seria sua. O Império do Brasil unido ao Reino de Portugal faria de ambos uma grande potência que, como sabe, seria reconhecida pelo Congresso de Viena."

Sairia — é bastante clara a manifestação do inteligente conselheiro — o Brasil da posição subalterna de vice-reino e ficaria em pé de igualdade com Portugal e Algarves.

Além dos destacados atos de D. João, que mencionaremos no sentido da nossa Independência, é de se citar outros de caráter político-administrativo que marcam de forma indelével sua passagem pela América, dentre os quais assinalamos:

  • 1) Criação do Supremo Conselho Militar e de Justiça no Rio de Janeiro, cuja competência era aplicar leis originárias de Portugal;
  • 2) Criação do Conselho de Estado (órgão de consulta);
  • 3) Elevação da Relação do Rio de Janeiro à Casa de Suplicação, isto é, dando-lhe competência para julgar as causas em última instância (Supremo, enquanto a Relação correspondia aos Tribunais de Apelação de hoje).
  • 4)  Criação da Imprensa Régia;
  • 5) Criação da Fábrica de Pólvora;
  • 6) Criação da Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação do Brasil;
  • 7) Fundação do Banco do Brasil no Rio de Janeiro;
  • 8) Criação no Real Hospital Militar do Rio de Janeiro de uma escola anatômica, cirúrgica e médica;
  • 9) Decreto para que no Brasil possam ceder-se sesmarias a estrangeiros;
  • 10) Alvará concedendo aos habitantes do Brasil o privilégio de não serem executados na propriedade dos seus engenhos, fábricas e lavouras, e sim em uma parte dos seus rendimentos;
  • 11) Criação, na Bahia, de um curso de agricultura;
  • 12) Fundação da escola de ciências, artes e ofícios, e autorização para serem contratados professores franceses;
  • 13) Resolução mandando isentar dos direitos de importação os livros impressos;
  • 14) Decreto sobre a liberdade de imprensa e suspensão da censura prévia a que estavam sujeitos os escritos e impressos.

No dia 24 de abril de 1821, D. João VI, por força de um movimento revolucionário desencadeado em Portugal no ano anterior, teve que, constrangido, voltar para a Europa, deixando seu filho D. Pedro como Príncipe-Regente no Brasil.

A Regência do Príncipe D. Pedro e a Independência

Tal foi a consciência de autonomia que o Brasil de há muito vinha adquirindo, reforçada, agora, com o governo de D. João VI, que este não tinha dúvida quanto ao destino da terra que o abrigava em 1808. E da recomendação que fêz a seu filho no momento da partida, para que, se fosse preciso, colocasse a coroa sobre sua cabeça e não a deixasse passar à mão de algum aventureiro, podemos concluir, sem receio, que sabia, perfeitamente, que o Brasil em breve se separaria de Portugal.

Pelo Decreto de 22 de abril de 1821 foi conferido a D. Pedro o título de "Príncipe-Regente e lugar-tenente do rei de Portugal no Governo Provisório do Reino do Brasil" e as seguintes atribuições: "resoluções de todas as consultas referentes à administração pública, com o auxílio de quatro ministérios — do Reino e Estrangeiros, da Fazenda, da Guerra c da Marinha; comutação de penas judiciais; provimento de cargos; declaração de guerra, estabelecimento de tréguas ou tratados provisórios; concessão de títulos honoríficos c de medalhas militares (…).

D. Pedro assumiu esses encargos com o Brasil, em situação verdadeiramente difícil: a retirada de quatro mil pessoas — fidalgos, comerciantes, capitalistas — prejudicou o comércio, desfalcou o Tesouro e deixou sem encaixe o Banco do Brasil, forçado logo depois a suspender seus pagamentos; as dívidas públicas ultrapassavam em dobro a receita, a autoridade do Príncipe não era acatada em muitas províncias, que preferiam tratar diretamente com Lisboa.

O governo regencial determinou a aplicação de um regime de severas economias e procurou, ao mesmo tempo, reforçar sua autoridade sobre as províncias mais recalcitrantes, que apoiavam a Corte, onde o pensamento dominante era a recolonização do Brasil."8

Mais incisivo, outro historiador escreve:

"O rei deixou o Tesouro vazio e o Banco do Brasil falido; e carregou consigo soma elevadíssima em espécie metálica, bens, dinheiro de contado, jóias de alto preço; tudo o que representasse valor drenado, num ápice, para Portugal.

Ressentiu-se forçosamente a praça deste súbito e imenso desfalque de numerário. O ouro desapareceu, como por encanto, da circulação; a prata subiu a 7 e 8% de ágio. Paralisaram-se as transações comerciais e multiplicaram-se as falências. O preço mesmo dos gêneros e artigos de primeira necessidade subiu desmarcadamente."9

D. Pedro, diante da difícil situação que enfrentava, resolveu entrar em regime da mais rigorosa economia. Em carta enviada a D. João VI, datada de 17 de julho de 1821, dizia:

"Mudei a minha casa para a quinta de São Cristóvão, a fim de irem para o paço da cidade todos os tribunais, secretarias, e tudo quanto estava em¡ casa paga por conta do Estado. Todas estas mudanças se fizeram quase de graça, porque os escravos de Santa Cruz e desta quinta, que têm os seus ofícios, são os trabalhadores. O bolsinho deu contas no erário, e eu fiquei só com uma mesada da quantia da da princesa, que é de 1:600$000. Pela ucharia hão de poupar-se reis 400:000$000. Pela cavalariça não se gasta senão milho, porque o capim é da quinta: de 1 280 bestas fiquei só com 156; em uma palavra, a minha roupa, a da mantearía e tesouro é lavada pelas escravas, e eu não faço de despesa quase nada em produção do que dantes era, mas se ainda puder economizar mais, o hei de fazer a bem da nação."

Estas medidas tomadas por D. Pedro valiam mais como um exemplo do que como medida que pudesse trazer remédios para solucionar o mal.

E é êle mesmo que em nova carta (21 de setembro de 1821) confirma:

"Quem tem dinheiro em prata ou ouro, guarda-o; o ouro e a prata converteram-se em cobre, e este mesmo é muito pouco, e por isso amado e comprado já com o prémio de 3 por cento; de parte nenhuma vem nada; todos os estabelecimentos e repartições ficaram; os que comem da nação sao sem número; o numerário do tesouro é só o das rendas da província, e essas mesmas são pagas em papel; é necessário pagar tudo quanto ficou estabelecido, como são os estudo maior, tribunais, etc.; não há dinheiro, como já fica exposto, não sei o que hei de fazer."10

A mudança da Corte trouxera todos estes problemas. Os serviços e obrigações continuavam, mas o dinheiro saído, assim de um momento para outro, a partida de elementos do comércio e das finanças, a redução das rendas apenas ;i da Província onde se encontrava a sede do governo, causaram as enormes dificuldades que o Príncipe-Regente vinha enfrentando.

A par de tudo isso, e se isso sãmente nao bastasse, ;is (‘Artes de Lisboa exigiam a volta de 1). Pedro para Portugal, num esforço de recolonizar o Brasil e evitar sua Independência política.

Além dessa exigência, decretaram que as províncias passavam a se subordinar diretamente a Lisboa, nada mais tendo com o Rio de Janeiro, a extinção de tribunais, sujeitando, novamente, as causas que deviam ser julgadas cm última instância aos juízes da capital peninsular.

O poder de D. Pedro ia se restringindo de maneira humilhante. Sendo o Brasil reino, teve que enviar deputados às côrtes de Lisboa e pelo artigo 21 das bases da Constituição a sua aprovação no que dissesse respeito ao Reino da América só teria validade se os representantes das suas províncias com ela anuíssem.

O Manifesto de 6 de agosto

O Manifesto de 6 de agosto de 1882 assinado por D. Pedro, mas de autoria de José Bonifácio, é um dos mais importantes documentos da nossa história e nele se encontra exposta, numa síntese, toda a situação que o Brasil atravessava.

Referindo-se a aplicação do artigo 21 das bases: "Mas qual foi o espanto desses mesmos povos quando viram em contradição àquele artigo, e com desprezo de seus inalienáveis direitos, uma fração do Congresso geral decidir dos seus mais caros interesses! Quando viram legislar o partido dominanle do Congresso incompleto e imperfeito sobre objetos de transcendente importância do Brasil, sem audiência sequer de dois terços dos seus representantes."

E revela, com firmeza os objetivos do Congresso: "O Brasil não devia ser mais Reino: devia descer do trono de sua categoria, despojar-se do manto real da sua majestade, depor a coroa e o cetro, e retroceder na ordem política do universo para receber novos ferros e humilhar-se como escravo perante Portugal. Não paremos aqui; examinemos a marcha progressiva do Congresso. Autorizam e estabelecem governos provinciais e independentes uns dos outros, mas sujeitos a Portugal. Rompem a responsabilidade de harmonia mútua entre os poderes civil, militar e financeiro, sem deixarem aos povos outro recurso a seus males inevitáveis senão através do vasto oceano, recurso inútil e ludibrioso." E D. Pedro afirma: "Nenhum governo justo, nenhuma nação civilizada, deixará de compreender que, privado o Brasil de um Poder Executivo, que extintos os tribunais necessários, e obrigado a ir mendigar a Portugal, através de delongas e perigos as graças da justiça; que chamadas a Lisboa as sobras das rendas de suas províncias, que aniquilada a sua categoria de Reino, e que dominado este pelas baionetas que de Portugal mandassem, só restava ao Brasil ser riscado para sempre do número das nações e povos livres, ficando outra vez reduzido ao antigo estado colonial e de comércio exclusivo."

Nesta altura já se encontrava manobrando o leme dos destinos nacionais a figura hercúlea de José Bonifácio de Andrada e Silva.

O Fico

Quando mais forte era a pressão das Cortes, tivemos o célebre "Fico" de D. Pedro, a 9 de janeiro de 1822.

O Príncipe devia partir. As câmaras do Rio e de São Paulo fazem representação para que desatendesse Lisboa. A representação do Rio terminava com esta sentença:

"O navio que conduzir o Príncipe Real, aparecerá no Tejo com o Pavilhão da Independência do Brasil."

A representação da Câmara Fluminense foi apresentada a D. Pedro pelo seu presidente José Clemente Pereira e, após ouvir outras manifestações, o Príncipe respondeu:

"Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto, diga ao povo que fico."

No dia 16, D. Pedro nomeia o chamado Ministério da Independência, chefiado por José Bonifácio, que ocupou a pasta do Reino, Justiça e Estrangeiros. Constituiam-no também: Caetano Pinto de Miranda Montenegro, na pasta da Fazenda; Joaquim de Oliveira Álvares, na da Guerra, e Manuel Antônio Farinha, na da Marinha.

José Bonifácio só aceitou fazer parte do governo, depois que D. Pedro lhe assegurou que o "Fico" era definitivo.

A Independência

A presença de José Bonifácio no ministério firmou o rumo da Independência. Os atos que daí em diante foram praticados pelo governo, são firmes, decisivos, resolutos. Entre eles, o que obrigou as tropas portuguesas comandadas por Jorge de Avilez a se retirarem para a Europa, mostrava que não estávamos mais dispostos a tolerar intromissões. No dia 3 de junho, D. Pedro, atendendo requerimento que José Clemente Pereira lhe apresentou em nome da Câmara, convocou, então, uma Assembléia Geral Constituinte, composta de deputados das províncias e que tinha por objetivo principal, deliberar as condições cm que deviam continuar as relações entre Brasil e Portugal, e no dia 1.° de agosto desligou o Reino Americano da Assembléia Lusa. Baixou decretos determinando que nenhuma lei promulgada em Portugal teria validade, no Brasil, sem o seu "cumpra-se" declarando inimigas as tropas que desembarcassem aqui sem seu consentimento; e, por fim, assinou o famoso Manifesto de 6 de agosto, um mês antes do feito do Ipiranga (São Paulo).

No dia 7 de setembro, estava D. Pedro de volta de uma viagem que fizera à cidade de Santos, quando, no Ipiranga, recebeu correspondência que vinha de Portugal. O mensageiro chegava do Rio de Janeiro e trazia, também, carias de José Bonifácio e da princesa Leopoldina. De Lisboa lhe vinham ordens para depor o ministério e processar os ministros que haviam convocado a constituinte. E mais: os novos ministros seriam indicados por Lisboa.

Foi então que, D. Pedro certo que nada havia a fazer senão proclamar definitivamente a Independência, Libertou o Brasil dos fracos laços que ainda o ligavam a Portugal.

Notas

1 São chamados enciclopedistas os escritores que precederam à Revolução Francesa e colaboraram na Enciclopédia então escrita e publicada na França.

2 D. Maria I sofria das faculdades mentais e, por isso, seu filho D. João, depois D. João VI, assumiu a regência.

3 João Ribeiro, História do Brasil, revista e completada por Joaquim Ribeiro, 17ª edição, Rio de Janeiro, 1960.

4 Pinto de Aguiar, A Abertura dos Portos do Brasil, Bahia.

5 Max Fleiuss, História Administrativa do Brasil, São Paulo, 1922.

6 Idem.

7 Cândido Mendes de Almeida, Código Filipino, 14[ edição, Rio

8 Alfredo d’Escragnolle Taunay, História Administrativa e Econômica do Brasil, Rio de Janeiro, 1962.

9 Max Fleiuss, ob. cit.

10 Transcrita do livro Cartas de D. Pedro a D. João VI Relativas à Independência do Brasil, Augusto de Lima Júnior.

BIBLIOGRAFIA SUBSIDIÁRIA

  • José Bonifácio de Andrada e Silva, Obras Cientificas (3 volumes), coligidas por Edgard de Cerqueira Falcão, Santos, 1963.
  • José Bonifácio, Escritos Políticos, seleção, introdução e notas de Brasil Bandecchi, São Paulo, 1964.
  • Oliveira Lima, O Movimento da Independência, 1821-1822, São Paulo, 1922.
  • Otávio Tarquinio de Sousa — Os Fundadores do Império, São Paulo, 1966.
  • Tobias Monteiro — Elaboração da Independência, Rio de Janeiro, 1927.

Fonte: Material Didático Didática irradiante de 1970 de acordo com diretrizes da época do MEC

 

mai 212010
 
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ORAÇÃO DE M. T. CÍCERO CONTRA M. ANTÓNIO

FILÍPICA II

Em resposta à Filípica I, de Cícero, pronunciou M. António uma longa oração, declarando a sua inimizade para com o orador. Respondeu Cícero com a Filípica II, na qual rebate as acusações feitas contra ele, e, com grande violência, acusa M. António, de uma vida, a começar da infância até chegar às culminâncias do pode