set 272014
 
a tocadora de realejo

A tocadora de realejo

José Valentim Fialho de Almeida. (1857 – 1911)

A primeira vez que a viram na cidade, era ela criança, tími­da, rósea, de um perfume alpestre da alta Sabóia, e o seu olhar claro, de uma lucidez inocente, penetrava sem pejo e sem maldade tôdas as coisas que via.

Tinha um vestidinho de chita azul, muito pobre, e as curvas do seio arfavam-lhe o corpete justo, com uma frescura saudável.

Cabelos loiros rolavam-lhe pelas espáduas, em cintilas fulvas.

A manga um pouco curta deixava nu o seu braço robusto e bem feito, em que se revelava o sangue das grandes raças do cam­po, esquecidas e conservadas na agrura das solidões bravias.

Arrastava o seu carro de música, desmantelado, com o rea­lejo em cima, pelas grandes ruas em tumulto, sozinha, crente, pura nos seus quinze anos.

Às vêzes erguia timidamente os olhos para as janelas- onde borboleteavam crianças, e, suplicante, apontava o realeio, pergun­tando se queriam que ela moesse, como num moinho de café, os coros de Mozart. Alguns riam-se. Ela caminhava ua sua misé­ria laboriosa.

a tocadora de realejo

a tocadora de realejo

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Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

jun 022014
 

O que pode a educação

Era em uma pequena vila. Tinham dado 4) oito horas da manhã, quando o senhor professor se dirigiu para a sua escola. I Era costume, quando êle chegava, estarem já os rapazitos no al- j pendre do edifício à sua espera. Naquele dia, porém, estava o al­pendre deserto. Êste fato admirou 5) o professor e não sabia a que atribuir tão completa deserção. Entrou na escola, sentou-se na sua cadeira e esperou. Bateram nove horas, -bateram dez, bateram onze e nada de aparecer aluno algum.

Lembrou-se de ir dar uma volta pela povoação e colher es­clarecimentos.

Foi o caso que, nesse dia de manhã, havia chegado à terra um arlequim com a sua companhia, composta de um cavalo, algutis cães, um burro, um macaco e ainda outros animalejos. Correr logo a notícia de que iam fazer habilidades na praça da vila.

image4Não lhes digo nada; os rapazes, em vez de irem para a escola, foram os primeiros a rodear os recém-vindos.

Começou a festa pelo cavalo, a quem o diretor dizia:

“Ajoelha0), Sultão.” E êle ajoelhava. “Deita-te ao comprido.”

E o cavalo deitava-se, estendendo-se o mais que podia.

“Levanta-te e põe os pés para o ar.”

O cavalo levantava-se, firmava

o pêso do corpo nas pernas anteriores e levantava para o ar as posteriores. Depois de o deixar nesta posição alguns momentos, dizia-lhe:

“Assenta-te.

10 o cavalo assentava-se.

Enfim, fazia ainda muitas outras coisas que admiravam 1) Ia toda a gente. Chegou a vez do burro. Não lhes digo nada; foi

rir até chegarem as lágrimas aos olhos.

Os espectadores, quando viram que o chefe daquela família de animais inteligentes ordenava ao vil animal que viesse ao pé dele, começaram a fazer troça, porque iriam jurar que o jerico não lhe obedecia. Mas qual! ... os troçados foram êles.

Assim que o chamou e lhe deu o título de amigo, o burro veio e correr ao pé dêle e começava a sua partida pela seguinte forma:

“Amigo, quantas horas são?”

O burro olhou para êle, pareceu que estava pensando e depois bateu com a pata no chão uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez vêzes. E o caso é que eram dez horas! Ficou tu- do admirado!

Mas ainda mais; disse o diretor: “Meu amigo, queres dançar domigo?”

E o burro levantou logo as pernas dianteiras, pôs-se direito nas detrás e começou a dançar com o amigo ao som duma rebeca, que um dos da companhia tocava. *

Depois deu saltos, subiu parte duma escada, fêz continências que aos espectadores: enfim, deixou tudo embasbacado.

Vieram depois os cães; fizeram coisas pasmosas.

Dançaram, fizeram palhaçadas, jogaram às escondidas uns

com os outros, semelhavam corridas atrás de um. coelho, fingiram morrer. Finalmente, executavam tudo o que o diretor se lembrava de lhes mandar.

Também um papagaio fêz figura: falou, cantou uma ária, jogou chalaças aos espectadores, arreliou os rapazes, etc.

Até um urso, de figura repelente e medonha, fêz também

coisas que os circunstantes não tinham visto fazer senão a criaturas humanas: jogava o pau com o diretor, dançava, tirava o chapéu, fazia uma cortesia e solicitava algum vintenzito.

O último a entrar em cena foi o rei dos manhosos, o macaco.

Deixou tudo de bôca aberta. Fazia rir e chorar ao mesmo tempo aquele brejeiro. Começava pelo fardamento: belo calção, colete e casaca de sêde encarnada, bordados a ouro; na cabeça um barrete tão rico, que faria inveja a um paxá [1]) da Turquia. A cara, as barbas, o olhar inteligente e provocante, a importância

com que passeava de um para o outro lado arrastando a espada j que lhe pendia da cintura, afetando ares de general vitorioso, provocavam gargalhadas de todos os lados.

Dizia-lhe um: “Esconde o rabo.” Dizia outro: ‘“Vai fazer a barba.” Gritavam doutro lado: “Perdeste as botas?”

Era uma risada geral. Chega, porém, o diretor e brada-lhe :| “Atenção!”

E o general macaco perfila-se, faz a sua continência militar] e conserva-se firme.

O diretor desembainha uma espada e perfila-se com o ma-] caco, seu contendor. Trava-se um combate. O macaco mostrou-se tão ágil e valente na defesa como no ataque.


 

Finda esta partida de esgrima, introduz a espada na bainha, tira um lenço da algibeira da casaca e põe-se a limpar o suor da fronte. Admirou tôda a gente!

Depois disto o diretor mandou-lhe varrer o pavimento, dan­do-lhe uma vassoura encavada em um pau.

O macaco olhou para êle, chamou a sua atenção para o nobre fardamento que trazia vestido, e interrogou-o com o olhar e com

o gesto, como quem lhe queria perguntar se o mandar-lhe varrer a casa não era atentatório daquela farda e da sua dignidade.

O diretor fingiu que não o percebia e ordenou-lhe novamen­te que varresse. Então o macaco começa a dar uma tão formidá­vel sova no patrão com o pau da vassoura, que, se não lhe aco­dem, quebrar-lhe-ia algum braço.


Deu-lhe sucessivamente ferrinhos, flauta, pandeiro, cavaquinho e até uma gaita de fole} e tudo êle tocou, como insigne instrumentista!

Ficou tôda a gente admiradíssima. Nunca haviam presencia- do uma coisa assim.

No final agarrou a bandeja e foi pedir. Àqueles que lhe não davam alguns cobres, fazia-lhes uma careta muito feia.

Já passava de meio dia, quando acabou o espetáculo. Tinha ali reunido tôda a povoação.

Na aula da tarde foi a escola concorrida.

O senhor professor fingia que não sabia do acontecimento Da manhã, e perguntou aos alunos o motivo da falta na aula.

Contaram-lhe as habilidades duns animais que haviam passado

pela terra, muitos admirados de que êles pudessem fazer tudo aquilo que tinham presenciado. E perguntaram ao senhor pro­fessor a razão por que aqueles animais executavam tôdas aquelas

coisas, e os outros da mesma espécie não o faziam.

“Porque receberam para isso a competente educação”, res­pondeu êle.

“Então os animais também recebem educação?”

“Também; acabais de presenciar a prova disso.”

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.



[1] paxá, ou melhor baxá — palavra persa, título dos governadores . I1 s províncias e outros grandes dignitários — grão-vizir na Turquia.

jul 092010
 

Manuel Bengala

Um casal de pobres lenhadores não tinha filhos. Esta-vam já envelhecendo e não teriam quem os sustentasse quando não pudessem mais trabalhar. Viviam, por isso, muito tristes. Mas tanto rezaram que Deus teve pena deles e resolveu dar-lhes um filho. Nasceu então uma criança que recebeu o nome de Manuel. Era um menino forte e sadio. Em pouco tempo, cresceu tanto que, ao completar um mês de idade, já era do tamanho do pai. Quando fez quinze anos, Manuel era o homem mais alto e robusto da sua terra. Sua força era tão grande que êle arrancava árvores com uma só mão.

Manuel tinha um apetite formidável. Comia sozinho um boi inteiro. Seus pais viram logo que não tinham recursos para sustentá-lo. Resolveu então o rapaz sair pelo mundo para arranjar emprego. Pediu apenas aos pais que lhe dessem uma enorme bengala de ferro, uma foice e um machado. Logo que esses objetos ficaram prontos, Manuel pediu a bênção dos pais e partiu.

Depois de longa viagem, chegou à casa de um fazendeiro a quem pediu emprego. O fazendeiro aceitou os seus

serviços e deu-lhe a incumbência de fazer uma roça. O rapaz, com três foiçadas, deitou abaixo todas as matas da fazenda. O fazendeiro ficou muito assustado e disse-lhe que, depois do jantar, não precisaria mais dos seus serviços. Na hora do jantar, Manuel recusou-se a comer, dizendo que o que estava na mesa não chegava nem para o buraco de um dente. Pediu então ao fazendeiro que, para aliviar sua fome, mandasse dar-lhe um boi e três sacos de farinha. E claro que o seu pedido foi atentido. O rapaz devorou tudo num instante. O fazendeiro ficou apavorado e rogou-lhe que deixasse a sua fazenda.

Partiu então Manuel à procura de emprego. Depois de muito caminhar, encontrou o palácio de um rei. Entrou e pediu trabalho. Perguntou-lhe o rei o que sabia fazer. O rapaz disse que era capaz de fazer tudo o que o rei lhe ordenasse. Para experimentá-lo, o rei mandou-o caçar seis leões, que viviam numa floresta próxima e que já tinham devorado muitas pessoas. Manuel pediu um carro com três juntas de bois. Passou seis dias nas matas em que se achavam as feras. Cada dia, matava um boi para comer e prendia um leão, que amansava e atrelava ao carro. Depois que prendeu os seis leões, encheu o carro com enormes troncos de árvores e tocou para a cidade. A admiração foi geral quando o rapaz entrou na cidade com o carro puxado por seis leões.

Quando parou diante do palácio, o rei quase desmaiou de susto ao ver a cena. Deu ordens aos seus soldados para matar os leões e expulsar Manuel do reino. Este ficou indignado e por um triz não destruiu a cidade com a sua bengala de ferro. Mas como era um bom rapaz teve pena daquela gente e resolveu seguir viagem. Aborrecido, porém, por ver que ninguém queria aceitar seus serviços, decidiu que não teria mais patrão e só trabalharia por sua conta.

A admiração foi geral quando o rapaz entrou na cidade com o carro puxado por seis leões.

A admiração foi geral quando o rapaz entrou na cidade com o carro puxado por seis leões.

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Depois de muito andar, Manuel encontrou um rio muito largo. Procurou atravessá-lo, mas não conseguiu. Não havia nenhuma ponte. Nisto, viu, com espanto, um homem que acabava de atravessar o rio sem se molhar. — Como é que você pode atravessar o rio, sem se molhar ? perguntou ao homem. — Meu nome é Não-Se-Molha. Você está admirado de me ver passar por este riacho? Quanto mais se souber que acabo de atravessar o mar! — Quer viajar comigo? convidou Manuel. — Com muito prazer! res pondeu NãoSe Molha. — Pois então passe-me para a outra margem. Não-Se-Molha, num instante, carregou o rapaz para o outro lado do rio.

Os dois companheiros seguiram juntos. Mais adiante, encontraram um homem cortando cipó para fazer um laço.

Que faz aí, homem? Como se chama você? — Meu nome é Laça-Tudo. Estou fazendo um laço para pegar uma boiada que está a dez léguas daqui. Nada escapa ao meu laço, seja o que for. — Você é dos nossos! Quer vir em nossa companhia? perguntou-lhe Manuel. — Com muito prazer! Não gosto de viajar sozinho. E lá seguiram os três companheiros, conversando alegremente.

Ao cair da tarde, encontraram uma casa abandonada, no meio da floresta, e resolveram parar aí para descansar. Combinaram então que um deles iria arranjar comida para os três. O escolhido foi Não-Se-Molha. No caminho, êle encontrou um moleque, preto como carvão, de olhos cor de brasa, com uma carapuça vermelha na cabeça. O moleque pediu-lhe fogo para o cachimbo. Não-Se-Molha não quis dar e o moleque, para se vingar, meteu-lhe o cachimbo na cabeça com tanta força que o homem caiu, desmaiado, no chão.

Quando acordou, Não-Se-Molha não viu mais o moleque. Dirigiu-se então correndo para a casa, onde contou aos companheiros o que lhe havia acontecido. Laça-Tudo riu-se muito da fraqueza do outro, dizendo: — Você é um maricas! Não agüenta brigar com um molecote. Amanhã, quem vai sou eu. Hei de dar uma lição nesse pretinho atrevido. No dia seguinte, Laça-Tudo foi buscar a comida. Já tinha andado um bom pedaço, quando lhe surgiu pela frente o moleque da carapuça vermelha, que pediu fogo para o cachimbo. O rapaz não quis dar e a briga começou. No meio da luta,

o moleque deu còm o cachimbo uma formidável pancada na cabeça do rapaz, pondo-o por terra, sem sentidos. Quando Laça-Tudo voltou a si, correu para casa e, muito envergonhado, contou o que lhe havia sucedido.

Manuel deu boas gargalhadas ao saber o que acontecera a Laça-Tudo, e disse que o moleque teria de ajustar contas com êle. No dia seguinte, saiu à procura do audacioso pretinho. Desconfiava que êle fosse o Diabo disfarçado. Já estava longe de casa, quando encontrou o moleque. Este pediu-lhe fogo de maneira atrevida. Manuel deu-lhe um empurrão que o fêz cair de pernas para o ar. O moleque levantou-se furioso e avançou para o rapaz, empunhando o cachimbo. Travaram então uma luta medonha que durou mais de uma hora. Afinal, Manuel deu, com a bengala de ferro, uma pancada tão violenta na cabeça do moleque que este ficou tonto e a sua carapuça caiu no chão. Mais do que depressa, o rapaz a apanhou.

— Pelo amor de Deus, dê-me a minha carapuça! implorou o moleque de joelhos.

— Só darei a carapuça se me entregar as princesas que você tem em seu poder, respondeu Manuel.

— Não posso dar, porque não são minhas! disse o moleque.

— Vá para o inferno, negro amaldiçoado! exclamou o rapaz.

O moleque, que era mesmo o Diabo disfarçado, saiu correndo. Manuel saiu atrás dele. De repente, o negro entrou por um buraco aberto na terra, mas o rapaz o acompanhou. Chegaram a um palácio feito de ouro e pedras preciosas, onde havia muita gente trabalhando em enormes caldeiras fumegantes. Aí chegando o moleque pensou que o

rapaz estava amedrontado com o que via e pediu-lhe, de novo, a carapuça. Respondeu-lhe Manuel que só a entre-garia se ele lhe desse as três princesas que sabia estarem em seu poder. O Diabo não teve outro jeito senão entregar-lhe as lindas princesas que tinha aprisionado.

Agora, só lhe darei a carapuça se me puser lá fora, disse Manuel. O Diabo não quis atendê-lo, mas o rapaz meteu-lhe a bengala de ferro na cabeça, obrigando-o a cumprir sua ordem. Quando chegou lá fora, teve uma surpresa desagradável. As princesas, que tinham saído na sua frente, haviam sido roubadas por seus companheiros. Manuel não se afligiu, porém, com o sucedido. Havia recebido de cada princesa um lenço, para poder ser reconhecido. Além disso, êle sabia que, cedo ou tarde, descobriria o paradeiro dos fugitivos. Ficou apenas revoltado com a deslealdade dos companheiros.

Quando roubaram as princesas, Não-Se-Molha e Laça-Tudo souberam que elas eram filhas de um rei muito rico e poderoso. Armaram logo o plano de entregar as princesas ao rei e casar com as mesmas. Mas o reino em que elas viviam era situado do outro lado do mar. Laça-Tudo amarrou então as moças para não fugirem e subiram todos para as costas de Não-Se-Molha que os transportou através do mar. O rei ficou muito alegre com a chegada das filhas e encheu de presentes os dois traidores.

Manuel saiu à procura das princesas e encontrou o mar à sua frente. Ficou muito triste, pois não sabia nadar. Mas, durante a noite, sonhou que os lenços que havia recebido das princesas eram encantados e, se êle quisesse, eles o conduziriam ao palácio do rei. Acordou muito satisfeito, apanhou o primeiro lenço e disse:

— Voa, meu lenço, para o colo da tua dona. O lenço virou um pássaro e voou para onde estava a princesa. Quando esta o viu, lembrou-se do seu salvador e disse ao rei: — Meu pai, só me casarei com o dono deste lenço. Foi ele quem me salvou. Manuel fez o mesmo com o segundo lenço que foi cair no colo da outra princesa. Repetiu esta as palavras da irmã. Manuel pegou o terceiro lenço e disse: — Voa, meu lenço, leva-me contigo até o palácio da tua dona. Mal acabara de proferir essas palavras, achou-se no palácio.

As três princesas, ao vê-lo, correram para seu lado, apresentando-o ao pai como o seu verdadeiro salvador. Manuel desposou a mais linda das princesas e mandou vir seus pais para morar em sua companhia. Os dois companheiros infiéis foram surrados e depois expulsos do reino. As outras duas princesas casaram-se com dois primos de Manuel. E todos viveram felizes por muitos anos.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 092010
 
Cada qual puxou uma faca enorme, e se empenharam numa luta terrível.

O sapateiro valente

Era uma vez um sapateiro muito tolo chamado João Gurumete. Auxiliava-o, no trabalho, um aprendiz bastante inteligente, que lhe dava sempre bons conselhos. Um belo dia, o sapateiro pôs um pouco de goma para esfriar e nela ficaram presas sete moscas. Deu então um piparote e matou todas as moscas.

Vendo isso, o aprendiz aconselhou o mestre a colocar à sua porta uma grande tabuleta com os seguintes dizeres: João Gurumete que de um golpe mata sete. O sapateiro seguiu o conselho do rapaz e o povo quando viu a tabuleta ficou pensando que João era realmente um homem muito valente.

Nessa ocasião, o país em que vivia o sapateiro foi invadido por um terrível monstro que andava devorando tudo o que encontrava. O rei enviou tropas do exército para matar a fera, mas nada conseguiu. Ouviu dizer que existia na cidade um homem muito valente que de um golpe matava sete. Mandou então chamar o sapateiro e deu-lhe ordem para que abatesse o monstro.

Ao receber a ordem, João Gurumete quase morreu de susto. Mas como palavra de rei não volta atrás, viu-se forçado a enfrentar o terrível bicho. Antes, porém, de partir, procurou ouvir o seu aprendiz, que lhe disse:

— Não tenha medo. No lugar onde se acha o monstro existe uma igreja velha. Quando avistar o monstro, corra para dentro da igreja e saia por um buraco que há nos fundos da mesma. O bicho entrará também, mas não poderá passar pelo buraco. Feche então a porta da frente e o monstro ficará preso.

João Gurumete ficou mais tranqüilo e partiu. Muita gente o seguiu para assistir à sua luta com a fera. Quando se aproximou da mesma e por ela foi visto, João saiu correndo e entrou na igreja. O monstro saiu atrás dele e entrou também na igreja. O sapateiro escapuliu pelo buraco que havia nos fundos da igreja. O bicho por ser muito grande não pôde fazer o mesmo. O povo que estava do lado de fora fechou a porta e o animal ficou preso, morrendo dias depois, de fome. João cortou as sete cabeças do monstro e as levou ao rei. Recebeu então como recompensa o título de conde e uma grande soma em dinheiro.

Passado algum tempo, surgiram no país três gigantes malvados, que começaram a roubar e a matar todas as pessoas que encontravam. Disseram ao rei que somente João Gurumete era capaz de prender os gigantes. O rei mandou então chamar o sapateiro e ordenou que êle salvasse o país daquele flagelo. João ficou, desta vez, mais morto do que vivo. Correu logo para pedir conselho ao seu aprendiz. Disse-lhe este:

— Não tenha receio. No lugar onde estão os gigantes, há uma árvore sob a qual costumam dormir. Antes que eles cheguem, suba na árvore e amarre três pedras bem grandes nos galhos que correspondam às cabeças dos gigantes. Quando estes dormirem, deixe uma pedra cair na cabeça do primeiro gigante. Em seguida faça cair as outras pedras nas cabeças dos demais gigantes. E veja o que acontece.

João Gurumete ficou mais calmo e partiu. Chegando ao lugar onde se achava a tal árvore viu, sob a mesma, três covas feitas pelos corpos pesados dos gigantes que ali dormiam. Trepou na árvore e amarrou três pedras enormes nos galhos que ficavam bem em cima das cabeças dos gigantes. Feito isso, escondeu-se no meio da folhagem.

Daí a pouco, o sapateiro ouviu um barulho como se fosse uma trovoada. Eram os três gigantes que se aproximavam. João Gurumete tremeu tanto de medo que quase caiu da árvore. Os gigantes sentaram debaixo da árvore e começaram a comer. Suas mandíbulas mastigando faziam um estrondo terrível. Quando acabaram de comer, deitaram no chão e caíram em sono profundo. Então, o sapatein» soltou uma das pedras, que caiu bem na cabeça de um gigante. Este acordou zangado e gritou para os outros:

— Mau, mau, já começam vocês a amolar-me com brincadeiras!

Os três tornaram a dormir.

João deixou cair mais uma pedra, que bateu na cabeça do outro gigante. Este acordou furioso e berrou para os outros que se a brincadeira continuasseêle perderia a calma. Os três discutiram fazendo uma algazarra dos diabos, mas, daí a pouco, estavam novamente dormindo. O sapateiro soltou então a última pedra, que caiu em cheio na testa do terceiro gigante. Este soltou um urro e acordou os outros a pontapés. Cada qual puxou uma faca enorme e se empenharam numa luta terrível. Pouco depois, estavam os três estendidos no chão, crivados de facadas.

Cada qual puxou uma faca enorme, e se empenharam numa luta terrível.

Cada qual puxou uma faca enorme, e se empenharam numa luta terrível.

O sapateiro desceu da árvore, cortou as cabeças doí> gigantes e as levou para mostrar ao rei. Foi recebido com grande alegria. Houve muitas festas para comemorar a proeza de João Gurumete. Recebeu este o título de general e ganhou tanto dinheiro que ficou rico.

Passaram-se os anos. Quando menos se esperava, rebentou uma guerra entre o país do sapateiro e um reino vizinho. Foi enviado um exército para combater o inimigo. Seu comandante era o general Lacaio, em quem os soldados muito confiavam. Porém, logo no primeiro combate, foi morto o general Lacaio. O rei ficou muito aflito e os seus ministros lhe disseram que não havia outro remédio senão chamar o conde e general João Gurumete.

Quando o antigo sapateiro recebeu ordem para assumir o comando do exército, quase desmaiou de medo. E, como sempre, correu para ouvir o conselho do seu aprendiz, que continuava a trabalhar como sapateiro. Este o acalmou e disse:

— Não tenha receio. Vista o uniforme do general Lacaio, monte no seu cavalo e veja o que vai acontecer.

João Gurumete partiu. No acampamento, os soldados não sabiam que o general Lacaio havia morrido. Gurumete meteu-se na farda do general e montou no seu cavalo. Mas este, estranhando o cavaleiro, disparou. E o sapateiro, que não sabia montar, pensando que ia cair, começou a gritar:

— Lá caio! Lá caio! Lá caio!

Os soldados, ouvindo os gritos do sapateiro, julgaram que era o seu querido general que os chamava. Avançaram, então, furiosamente, contra as forças inimigas, derrotando-as. Assim, acabou-se a guerra e João Gurumete, considerado como o salvador da pátria, casou-se com a filha do rei.

Na noite do casamento, houve uma grande festa e o antigo sapateiro bebeu além da conta. Quando se foi deitar, caiu na cama e pôs-se a sonhar em voz alta, dizendo:

— Puxa mais este ponto, bate esta sola, encera a linha, olha a tripeça!

A princesa ficou desgostosa com o fato e resolveu queixar-se ao pai de que estava casada com um reles sapateiro, que vivia sonhando com os objetos de sua oficina. O rei ordenou então aos soldados de sua guarda que vigiassem o quarto do genro e disse à filha:

— Se o seu marido tornar a sonhar como ontem, avise-me que ele será preso e fuzilado.

O discípulo de Gurumete, que era mágico, soube do que estava acontecendo e disse ao mestre:

— Você vai ser fuzilado, se esta noite sonhar com as coisas da oficina de sapateiro. Não beba nada hoje. E, quando fôr para a cama, finja que está dormindo e sonhando com uma guerra. Grite então para seus soldados, pegue na espada, risque a parede e desafie o inimigo.

João Gurumete seguiu à risca o conselho do seu aprendiz. Durante a noite, fingiu que estava dormindo e pôs-se a gritar como se estivesse em plena batalha. Pegou na espada e quase feriu a princesa, que desmaiou de susto. O rei, quando soube do que acontecera, ficou satisfeito e orgulhoso. Em tom de repreensão, disse para a filha:

— Você está casada com um grande general. Não me venha mais com histórias de sapateiro. Você é que anda sonhando com tolices!

Daí por diante, João Gurumete dormiu em paz, sonhando sempre com suas solas e sapatos.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 052010
 
from Arabian Nights Collected and edited by Andrew Lang Illustrated by Vera Bock Copyright 1960 Illustration from 'The Little Hunchback'
from Arabian Nights Collected and edited by Andrew Lang Illustrated by Vera Bock Copyright 1960  Illustration from 'The Little Hunchback'

A moura torta, desenho de Vera Bock

A moura torta

Era uma vez um príncipe que, tendo chegado à idade de se casar, não encontrou nenhuma moça que lhe agradasse. Seu pai, que já estava muito velho, vivia muito triste por não ter seu filho encontrado uma princesa para esposa. Receava morrer, deixando o filho solteiro. Como poderia ele governar seu reino sem uma rainha e sem herdeiros ?

Aconselhou então o príncipe a visitar outros países. Talvez ele encontrasse, fora do reino, uma princesa capaz de lhe inspirar amor. O jovem aceitou o conselho do seu velho pai e, para não ser reconhecido, partiu vestido modestamente. Depois de muitos dias de viagem, quando se achava próximo de uma cidade, encontrou uma velhinha corcunda, carregando um feixe de lenha. O príncipe ficou com pena da pobre velha e ofereceu-se para carregar a lenha. Quando chegou à cidade, deu à velhinha uma bolsa cheia de moedas. A velha agradeceu a bondade do rapaz, abençoou-o e disse:

— Meu filho, não sei como retribuir o que fez por mim. Só tenho estas laranjas para lhe oferecer. Mas, quando

as quiser chupar, só as descasque perto de um lugar onde haja água corrente.

O príncipe guardou as laranjas e seguiu viagem. Depois de muito caminhar sob um sol abrasador, sentiu sede. Não encontrando água no caminho, lembrou-se das laranjas da velha. Tirou uma do alforje e começou a descascá-la. De repente, a laranja partiu-se ao meio e dela saltou uma linda moça, gritando: — Quero água! Quero água! O rapaz ficou extasiado com a beleza da moça, mas como não houvesse naquele lugar uma gota dágua, ela imediatamente desapareceu.

O príncipe ficou muito triste com o fato e seguiu viagem. Dias depois, atravessava ele um grande deserto, quando sentiu uma violenta sede. Lembrou-se, mais uma vez, das laranjas e, quando descascava uma, saltou do seu interior uma jovem, ainda mais bela do que a primeira, pedindo água pelo amor de Deus. O príncipe saiu correndo à procura de água, mas não conseguiu sequer uma gota. Quando voltou ao lugar, a linda moça havia desaparecido, sem deixar nenhum vestígio.

O príncipe ficou muito acabrunhado, mas prosseguiu sua viagem. Depois de percorrer vários países, sem encontrar uma princesa que lhe agradasse, resolveu regressar a seu reino. Quando se encontrava próximo do palácio do seu pai, sentiu uma sede irresistível. Resolveu chupar a última laranja, mas, lembrando-se do que acontecera antes, andou até encontrar um rio. Quando chegou às margens deste, parou e descascou a terceira laranja. Dela saltou uma jovem mais formosa do que as outras, pedindo um pouco dágua. O príncipe correu e trouxe do rio um copo dágua, que ofereceu à linda moça. Esta matou a sede e ficou desencantada. Por isso, não desapareceu.

Contou sua história ao príncipe. Era filha de um rei muito rico, que havia sido transformada em laranja por sua madrasta, que era feiticeira. O príncipe ficou apaixonado pela moça. Pediu-a em casamento e foi aceito. Resolveu então apresentá-la ao pai. Mas como a moça estivesse muito mal vestida, achou conveniente ir sozinho ao palácio buscar roupas bonitas e uma carruagem para sua noiva. Disse à princesa que subisse a uma árvore, que ficava à margem do rio, recomendando-lhe que não falasse com ninguém, durante sua ausência. Feito isso seguiu, a toda pressa, para o palácio.

Mal o príncipe saiu, chegou à beira do rio uma negra muito feia, cega de um olho, a quem chamavam a Moura Torta. A negra abaixou-se para encher o pote no rio. Nisto, avistou o belo rosto da moça refletido no espelho das águas. Ficou admirada de tanta formosura. Julgando que era seu próprio rosto, exclamou:

— Ora essa! Uma moça tão bonita como eu, carregando água! Isto não pode ser! E atirou o pote nas pedras, reduzindo-o a cacos. Depois disso, afastou-se toda orgulhosa, da beira do rio. Quando chegou em casa, disse à patroa que o pote havia escorregado de sua mão e caído no rio.

A patroa ficou aborrecida com a história, mas deu-lhe outro pote e mandou-a de volta ao rio. Quando a negra mergulhou o pote na água e viu novamente o rosto da moça, refletido no rio, ficou outra vez convencida da própria beleza. Atirou o pote para longe e voltou para casa, inchada de orgulho. A moça, ao ver a "pose" da Moura Torta, quase soltou uma risada, mas conseguiu reprimir o riso e ficou à espera do noivo, que já estava tardando.

 

"Ora essa! Uma moça tão bonita como eu, carregando água! Isto não pode ser!"

A patroa, quando viu a negra sem o pote, ficou furiosa. E ameaçou cortá-1a de chicote, se ela voltasse para casa sem água. A Moura Torta, muito sucumbida, tomou de novo o caminho do rio, levando, desta vez, um caldeirão de ferro. Quando se abaixou para tirar água e viu, mais uma vez, a imagem da moça, ficou desesperada. Agarrou o caldeirão de ferro, que a patroa lhe havia dado, e começou a bater com êle nas pedras.

A princesa ao ver a cena, não se pôde conter e soltou uma boa gargalhada. A Moura Torta, espantada, olhou para

cima e viu a moça na árvore. Compreendeu logo o que havia acontecido e disse:

— Ah! é você, minha pombinha? Que está fazendo aí nessa árvore? A moça contou que estava esperando o príncipe, seu noivo. Diante disso, a negra subiu até onde estava a princesa e começou a conversar com a mesma. Elogiou os lindos cabelos da moça e pediu licença para penteá-los. A princesa, sem nada desconfiar, atendeu ao seu pedido. Quando a Moura Torta, que era feiticeira, pôs a mão na cabeleira dourada da moça, aproveitou um momento de distração desta e enterrou na sua cabeça um alfinete mágico. Imediatamente a princesa se transformou numa pomba branca, que saiu voando pelo espaço.

A Moura Torta tomou então o lugar da jovem e ficou à espera do príncipe. Quando este chegou, numa carruagem lindíssima, trazendo ricos vestidos para a noiva, ficou desapontado ao encontrar, em seu lugar, uma negra feia e caolha. A Moura Torta lhe disse que tinha ficado assim devido ao sol que queimara a sua pele e aos espinhos da árvore que haviam furado seu olho.

O príncipe ficou muito acabrunhado, mas, como havia dado sua palavra, levou a bruxa para o palácio. O rei quase morreu de desgosto quando conheceu sua futura nora, mas ficou calado para não aborrecer seu querido filho.

Começaram então os preparativos para o casamento. O príncipe enviou convites para todos os reis e príncipes dos países vizinhos. E a Moura Torta mandou fazer os mais belos vestidos e as mais ricas jóias. Mas quando os experimentava, ficava ainda mais feia e ridícula. Ninguém suportava a presença da horrível bruxa.

O jardineiro do rei estava colhendo flores para o casamento, quando viu uma pombinha branca pousar numa roseira e dizer:

Hortelão, hortelão da real horta:

Como vai o rei com a sua Moura Torta?

O jardineiro contou o caso ao rei e este ao príncipe. O rapaz ficou intrigado com o acontecimento. Resolveu vestir a roupa do jardineiro e observar a pombinha.

No dia seguinte, à mesma hora, apareceu, de novo, a pombinha, que pousou num galho de roseira e exclamou:

Hortelão, Hortelão da real horta:

Como vai o rei com a sua Moura Torta?

O príncipe respondeu:

Come bem, dorme bem, Passa a vida regalada. Tão feliz e sossegado, Como no mundo ninguém!

E acrescentou: — Põe o teu pezinho aqui, minha pomba. — Não, que o meu pé não foi feito para laço de darbante. Dizendo isso, a pombinha bateu asas e fugiu. O príncipe preparou então um laço de ouro. Também falhou Preparou um laço de diamante. Desta vez, a pombinha deixou-se prender. O príncipe levou-a para o palácio e tratou-a com muito carinho.

A Moura Torta, vendo a pomba, nela reconheceu a princesa encantada. Disse ao príncipe que lhe desse a pombinha, pois desejava comê-la. O rapaz ficou com muita

pena, mas não teve remédio senão atender ao pedido da noiva. Antes, porém, de entregar a linda ave, resolveu fazer-lhe um último carinho e passou a mão pela sua cabeça. Notou, com surpresa, que nela existia um pequeno caroço. . . Puxando-o, tirou o alfinete mágico. No mesmo instante, a pomba transformou-se na bela princesa que êle havia deixado na árvore.

O príncipe ficou radiante de alegria e ouviu da moça a sua triste história. Ficou então sabendo da malvadeza da Moura Torta. A notícia espalhou-se pela cidade. O povo ficou tão indignado que correu ao palácio, tirou de lá a bruxa e a queimou na praça pública. Depois, lançou suas cinzas no rio. O príncipe casou-se com a linda princesa. E o velho rei pôde então morrer, tranqüilo e feliz, abençoando o filho, que o sucedeu no trono.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 042010
 

O príncipe encantado

Era uma vez uma velha ambiciosa que tinha três filhas, cada qual mais feia. Perto da casa da velha, morava uma moça muito bonita que, apesar de pobre, andava com lindos vestidos e ricas jóias. Desconfiando de tanta riqueza, a velha visitava, freqüentemente, a casa da moça para ver se descobria alguma coisa. Mas, por mais que procurasse, nada conseguia saber.

Resolveu então sua filha mais velha tentar descobrir o segredo. Dirigiu-se à casa da moça e, depois de muitos rodeios, pediu a esta para passar a noite em sua casa. A moça consentiu, mas, quando foi na hora de dormir, pôs no café da vizinha um remédio muito forte, que a fêz dormir a noite toda, sem nada ver ou ouvir.

Enquanto ela dormia, bateu na janela da moça um belo papagaio. A moça abriu a janela, e a ave entrou no seu quarto, onde já estava preparada uma bacia com água. O papagaio tomou um banho, sacudindo as penas. Cada pingo que caía fora da bacia era um lindo diamante, que a moça recolhia e guardava. Quando o papagaio acabou de se banhar, transformou-se num belo príncipe.

A moça abriu a janela, e a ave entrou no seu quarto.

A moça abriu a janela, e a ave entrou no seu quarto.

 

Depois de passar a noite com sua noiva, o príncipe, logo que clareou o dia, transformou-se num papagaio e voou para longe.

A filha da velha, que nada vira, voltou para casa dizendo que era mentira o que se dizia da moça. Mas a velha, desconfiada, mandou a outra filha para passar a noite na casa da vizinha. Aconteceu então a mesma coisa: ela tomou café com remédio e roncou a noite toda.

Diante disso, a velha, sempre desconfiada, mandou a sua filha mais moça. Esta, que era muito esperta, quando lhe foi dado o café, fingiu que ia bebê-lo e o derramou sobre um lenço que levava escondido. Deitou-se na cama e fingiu que estava dormindo. Pôde, assim, ver o que aconteceu durante a noite. Quando amanheceu, correu para casa e contou tudo à sua mãe.

A velha ficou ralada de inveja e, assim que anoiteceu, colocou no peitoril da janela da vizinha, uma porção de cacos de vidro e pedaços de navalha. Quando o papagaio chegou e foi passar pela janela ficou ferido, com o sangue a escorrer. A moça, espantada, correu para cuidar do papagaio, mas este, batendo as asas, exclamou:

— Ah! ingrata! Estou perdido! Nunca mais me verás, a não ser que mandes fazer uma roupa de bronze e andes com ela até o Reino do Limo Verde, onde moro! Dizendo isso, bateu asas e desapareceu no espaço.

A moça ficou muito triste e compreendeu o motivo das visitas das filhas da velha. Mas não desanimou. Mandou fazer uma roupa de bronze, vestiu-a e saiu pelo mundo à procura do Príncipe do Limo Verde.

Depois de dois anos de viagem, chegou ao reino da Lua e perguntou a esta se lhe poderia dar notícias do Reino

do Limo Verde. A Lua respondeu que nunca ouvira falar nesse reino, mas que talvez o Sol soubesse alguma coisa a esse respeito. A moça despediu-se e, na saída, a Lua lhe deu de presente uma almofada de fazer rendas, com bilros e alfinetes de ouro.

A moça seguiu viagem e, depois de andar dois anos, chegou à casa do Sol. Este disse também que jamais ouvira falar no Reino do Limo Verde. Mas que talvez o Vento Grande pudesse dar alguma informação sobre êle. A moça despediu-se e, na saída, o Sol lhe deu de presente uma galinha com pintos, todos de ouro, vivos e andando.

A moça viajou mais dois anos e, afinal, chegou à casa do Vento Grande. Este ouviu o que ela disse e respondeu: — Conheço o Reino do Limo Verde. Ainda ontem passei por lá. A moça então suplicou ao Vento que a levasse até lá. O Vento Grande lhe respondeu: — Amanhã monte em mim e, quando encontrar uma árvore muito grande e muito copada, na frente de um palácio muito rico, segure-se nos galhos, que é ali.

No dia seguinte, lá foi a moça montada no Vento Grande. Ao avistar a árvore, agarrou-se à mesma e desceu. E ficou, embaixo, imaginando o que havia de fazer para entrar no palácio e ver o príncipe.

Nesse momento, chegaram três rolinhas, pousaram na árvore e começaram a conversar. Disse uma delas: — Não sabem? O príncipe do Limo Verde está para morrer. A segunda perguntou: — O que será bom para êle? E a terceira respondeu: — As feridas que êle tem no peito não saram mais; só se nos pegarem, tirarem nossos corações, torrarem, moerem e deitarem o pó nas feridas.

A moça, que ouvira toda a conversa, armou um laço e pegou as três rolinhas. Tirou-lhes os corações, torrou-os e fêz um pòzinho que guardou cuidadosamente. Em seguida partiu à procura do príncipe.

Fêz tudo para entrar no palácio, mas não conseguiu. Então, tirou a almofada de ouro que a Lua lhe havia dado, e começou a fazer renda. Daí a pouco, veio passando uma criada do palácio que ficou maravilhada com a beleza da almofada. Foi contar o que vira à rainha e esta mandou perguntar à moça quanto queria pela almofada. E a moça respondeu: — Darei de presente a almofada, se me deixarem dormir no quarto do príncipe.

A rainha ficou ofendida e quis mandar prender a moça, mas a criada lhe disse: — Ora, minha senhora, o príncipe está tão doente que não conhece mais ninguém. Que mal faz que aquela tola durma no chão de seu quarto ? A rainha, então, consentiu e ficou com a almofada de ouro.

A moça foi dormir no quarto do príncipe e logo na primeira noite lavou-lhe as feridas e pôs nelas o pó das rolinhas. Mas, desta vez, o rapaz não a reconheceu.

No dia seguinte, a moça foi, novamente, para debaixo da árvore e soltou a galinha e os pintos de ouro. Passou a criada e ficou admirada com o que viu. Foi correndo contar à rainha. Mandou esta perguntar quanto custava a galinha e os pintos. A moça respondeu que daria de graça aquelas preciosidades se a deixassem dormir duas noites no quarto do príncipe.

A rainha, a princípio, não queria deixar, mas, a conselho da criada, acabou consentindo. Na segunda noite, o príncipe melhorou muito e, na terceira, ficou completamente

bom e reconheceu a moça. Abraçou-a, ternamente, e pediu-a em casamento.

E claro que a moça aceitou. Então, o príncipe apresentou-a a seus pais como sua noiva. Dias depois, realizou-se o casamento com grande pompa. Houve muitas festas, não só no palácio, como em todo o Reino do Limo Verde.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 042010
 
Quando chegou à fonte, o príncipe verificou que o monstro estava com os olhos abertos.

A fonte das três comadres

Era uma vez um rei muito poderoso que teve uma enfer midade nos olhos e ficou completamente cego. Consultou então os melhores médicos do mundo, tomou todos os remédios aconselhados pela ciência, mas nada conseguiu. Sua cegueira parecia incurável. Um belo dia, apareceu no palácio uma velhinha pedindo esmola e, sabendo que o rei estava cego, pediu licença para dirigir-lhe a palavra, pois desejava ensinar-lhe um remédio maravilhoso. Conduzida à presença do rei, ela lhe disse: — Saiba Vossa Majestade que só existe uma coisa capaz de fazer voltar sua vista: é banhar seus olhos com água tirada da Fonte das Três Comadres. E muito difícil, porém, ir a essa fonte que fica num reino situado quase no fim do mundo. Quem fôr buscar a água deve entender-se com uma velha que mora perto da fonte. Ela conhece o dragão que guarda a fonte e sabe quando êle está acordado ou adormecido. O rei ficou muito satisfeito com a informação da velhinha e recompensou-a com uma bolsa cheia de dinheiro.

Mandou, em seguida, preparar uma esquadra para conduzir seu filho mais velho que deveria ir buscar a água da fonte milagrosa. Deu-lhe o prazo de um ano para cumprir sua missão, aconselhando-ò a não saltar em nenhum porto para não se distrair do que devia fazer. O príncipe partiu, mas no meio da viagem, encontrou uma cidade onde havia muitas festas e lindas moças. Atraído pelos divertimentos, aí ficou gastando todo o dinheiro que levava e contraindo grandes dívidas. No fim do prazo que lhe fora marcado, não seguiu viagem nem voltou ao reino do seu pai, o que causou a este profundo desgosto.

Resolveu então o rei preparar outra esquadra a fim de que o seu segundo filho fosse buscar a água maravilhosa. O moço partiu, mas encontrou em seu caminho a mesma cidade onde se havia arruinado o seu irmão mais velho. Ficou também encantado pelas festas e pelas moças bonitas, e gastou tudo o que trazia, esquecendo-se da missão que seu pai lhe confiara. No fim de um ano, ainda se encontrava nessa cidade, pobre e endividado.

O rei, ao saber da notícia do que acontecera ao seu segundo filho, ficou muito triste e desanimado. E perdeu a esperança de curar sua cegueira. Mas seu filho mais moço, que era ainda um menino, não se conformou com os acontecimentos e disse-lhe: — Agora, meu pai, eu é que vou buscar a água. Garanto-lhe que hei de trazê-la! O rei procurou dissuadi-lo: — Se seus irmãos, que eram homens nada conseguiram, que poderá você fazer, meu filho ? Mas, o pequeno príncipe tanto insistiu e rogou que o pai acabou cedendo. E mandou preparar uma esquadra para sua viagem. O jovem partiu cheio de esperança. Depois de muito navegar, encontrou a famosa cidade onde seus irmãos já se achavam presos pelas dívidas que haviam contraído. O príncipe pagou as dívidas dos irmãos e conseguiu pô-los em liberdade. Estes tudo fizeram para dissuadir o rapaz de seguir viagem.

Mas o príncipe nada quis ouvir e continuou, resolutamente sua jornada.

Chegando à região onde se encontrava a Fonte das Três Comadres, desembarcou sozinho, levando apenas uma garrafa. Seguiu logo para a casa da velhinha, que residia perto da fonte. Esta ao vê-lo ficou muito admirada, dizendo: — Por que veio aqui, meu netinho? Está correndo um grande perigo! O monstro que vigia a fonte é uma princesa encantada que tudo devora. Se quiser, realmente, apanhar água da fonte, aproveite a ocasião em que o monstro estiver adormecido. Quando êle estiver com os olhos abertos, pode aproximar-se sem receio. E sinal de que está dormindo. Mas se o encontrar com os olhos fechados, fuja depressa, pois êle estará, na certa, acordado.

O príncipe prestou bastante atenção aos conselhos da velha e seguiu para a fonte. Quando lá chegou, viu que a fera estava com os olhos abertos. Verificando que ela estava dormindo, o príncipe aproveitou o momento para encher sua garrafa com a água milagrosa. Mas, quando se ia retirando cuidadosamente, o monstro acordou e lançou-se, com fúria, sobre o rapaz. Este puxou da espada e travou uma luta terrível com a fera. Depois de muito lutar, conseguiu ferir o horrendo bicho e fazer seu sangue correr. Nesse momento, o monstro se desencantou, transformando-se numa belíssima princesa. O príncipe ficou extasiado, pois nunca tinha visto uma moça tão formosa. Ela então lhe disse: — Prometi que havia de me casar com aquele que me desencantasse. Portanto, dentro de um ano, virás buscar-me. Se não o fizeres, irei à tua procura. E para que o jovem pudesse ser reconhecido quando fosse buscá-la, a princesa deu-lhe um pedaço do seu vestido.

Quando chegou à fonte, o príncipe verificou que o monstro estava com os olhos abertos.

Quando chegou à fonte, o príncipe verificou que o monstro estava com os olhos abertos.

Contente e feliz, o príncipe partiu de volta à sua terra. Passando pela cidade onde se encontravam seus irmãos, convidou-os para embarcar na sua esquadra, a fim de que pudessem regressar ao seu país. Os irmãos aceitaram o convite. O rapaz havia guardado a garrafa com a água milagrosa na sua mala. Seus irmãos armaram, então, um plano para roubar-lhe a garrafa e se apresentarem ao pai como seus salvadores. Para isso sugeriram, ao príncipe, dar um banquete na esquadra para comemorar o fato de ter ele conseguido o maravilhoso remédio. A festa foi realizada e os irmãos, aproveitando-se da boa fé do jovem príncipe, conseguiram que êle bebesse muito vinho e adormecesse profundamente. Tiraram então do seu bolso a chave da mala, abriram-na, tiraram a garrafa com o remédio e a substituíram por outra cheia de água do mar.

Quando a esquadra atracou no porto de sua terra, o príncipe foi recebido com grande alegria e muitas festas. Mas, quando êle colocou nos olhos do pai a água que supunha ser da fonte maravilhosa, o velho soltou um grito de dor, devido ao sal do mar, e continuou cego. Os dois irmãos traidores acusaram então o príncipe de impostor e declararam que eles é que haviam conseguido a água milagrosa. Dizendo isso, banharam com a mesma os olhos do rei que recobrou a visão. Houve então grandes festas e banquetes no palácio e o jovem príncipe foi condenado à morte. Mas os soldados encarregados de degolar o príncipe, ficaram com pena do rapaz e o deixaram na floresta. O príncipe ficou tão desgostoso que perdeu o amor à vida. Um lenhador malvado o encontrou, caminhando como um louco, no meio da mata. Vendo que êle não reagia, fêz dele seu escravo, obrigando-o a trabalhar, sem descanso.

Um ano depois, chegou a ocasião em que o rapaz devia ir casar com a princesa, conforme havia combinado na Fonte das Três Comadres. Não tendo êle aparecido, a princesa ficou preocupada. Mandou então aparelhar uma poderosa esquadra e partiu para o reino do príncipe. Chegando lá, deu ordem ao comandante da esquadra para avisar ao rei de que êle devia enviar-lhe o filho que fora ao seu reino buscar um remédio e lhe prometera casamento. Caso o noivo não viesse ao seu encontro, ela ordenaria à esquadra para fazer fogo sobre a cidade. O rei ficou apavorado e mandou seu filho mais velho apresentar-se à princesa, supondo que êle fosse o noivo. Mas a princesa, ao vê-lo disse: — Grande mentiroso, onde está o sinal do nosso reconhecimento? Êle que nada possuía, ficou calado e voltou para a terra envergonhado.

Nova intimação e foi ter com a princesa o segundo filho do rei. Repetiu-se a pergunta anterior e o príncipe nada respondeu. A princesa mandou então que os canhões da sua esquadra fossem preparados para o bombardeio da cidade O rei ficou aflitíssimo, certo de que a capital do seu reino seria arrasada, pois havia mandado matar o filho mais moço. Nesse momento, surgiram os dois soldados encarregados de executar o jovem príncipe, que confessaram ao rei que não o tinham degolado. Saiu todo o mundo à procura do príncipe e foi prometido um grande prêmio a quem o encontrasse.

O lenhador que o tinha escravizado ficou mais morto do que vivo quando soube que êle era filho do rei. Mais do que depressa, colocou o rapaz nas costas e o levou ao palácio. O príncipe foi então lavado e vestido com lindas roupas. O prazo que a princesa tinha concedido já estava terminado e, quando os canhões iam começar a bombardear a cidade, o rapaz correu ao encontro da noiva, sendo logo reconhecido devido ao pedaço do vestido que levava na mão. A princesa abraçou-o chorando de alegria. Seguiram então para o reino da princesa onde se casaram no meio de festas que duraram seis meses. O rapaz tornou-se rei de um dos países mais belos e ricos do mundo. Seus irmãos traidores foram expulsos do reino de seu pai e condenados a pedir esmola até o fim de sua vida.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 042010
 

Os príncipes coroados

NUMA cidade havia três moças órfãs de pai e mãe.

Um dia estavam à janela de sua casa, quando viram passar o rei. Era jovem, belo, elegante e montava um formoso cavalo. A mais velha das moças, extasiada com a beleza do rei, exclamou: — Se eu me casasse com ele, far-lhe-ia uma camisa como nunca viu! A do meio, cheia de admiração, disse: — Se eu me casasse com ele, far-lhe-ia umas calças como nunca teve! A mais jovem disse: — E eu, se me casasse com ele, da-he-ia três filhos coroados.

O rei ouviu a conversa e, no dia seguinte, foi à casa das moças e lhes falou: — Apareça a moça que disse que, se casasse comigo, me daria três filhos coroados. A moça se apresentou e, como era muito formosa, o rei ficou apaixonado e casou-se com ela. As irmãs ficaram com inveja, mas fingiram que nada sentiam e que estavam até muito contentes com o casamento.

Tempos depois a jovem rainha avisou que ia ter um filho. As irmãs correram logo para o palácio, dizendo que desejavam ajudar a rainha. Aproximando-se o dia desta dar à luz, ofereceram-se para servi-la e dispensaram o médico. Nasceram três lindos príncipes. Todos tinham uma pequena coroa na cabeça. Mas as irmãs malvadas da rainha esconderam as crianças numa caixa e a atiraram ao mar. Em lugar dos príncipes, levaram ao rei um sapo, uma cobra e um rato, dizendo com fingida indignação: — Veja Vossa Majestade os coroados que aquela impostora deu à luz! O rei ficou muito desgostoso e, aconselhado pelas cunhadas, mandou enterrar a mulher até o pescoço, perto da escada do palácio, dando ordem para que todos que por ali passassem, cuspissem no seu rosto.

Um velho pescador achou no mar a caixa, abriu-a e encontrou os três meninos ainda vivos. Encantado com a beleza das crianças, levou-as para casa. Sua mulher, que era muito bondosa, criou os meninos com todo carinho, sem saber que eles eram príncipes. Quando ficaram crescidos ao ponto de irem para a escola, passaram um dia pelo palácio do rei e foram vistos e reconhecidos pelas tias. Elas os chamaram, fizeram-lhes muitos agrados e lhes ofereceram frutas envenenadas. Os meninos comeram as frutas e, no mesmo instante, ficaram todos os três transformados em pedra.

Quando soube do que acontecera, o pescador ficou muito triste, mas sua mulher que era adivinha disse ao marido: — Não se aflija. Vou à casa do Sol buscar um remédio milagroso e com ele farei os meninos voltarem à vida. E partiu montada num cavalo. Depois de muito viajar, encontrou um lindo rio. Este lhe perguntou: — Aonde vai, minha velhinha? — Vou à casa do Sol para êle me ensinar que remédio se deve dar a quem virou pedra, respondeu a velha. O rio então disse: — Pergunte também ao Sol o motivo pelo qual, sendo eu um rio tão bonito, nunca tive peixes.

 

 

Em lugar dos príncipes, levaram ao rei um sapo, uma cobra e um rato.

Em lugar dos príncipes, levaram ao rei um sapo, uma cobra e um rato.

A velha continuou sua viagem. Adiante, encontrou uma bela árvore, mas sem um único fruto. Ao avistar a velha, a árvore indagou: — Aonde vai, minha velhinha? — Vou à casa do Sol à procura de um remédio para gente que virou pedra. A árvore então pediu: — Pergunte-lhe também o motivo pelo qual, sendo eu uma árvore tão grande, tão verde e tão bela, nunca dei um só fruto. A velha prosseguiu na sua marcha. Depois de muito caminhar, encontrou uma casa onde havia três moças, lindas e solteiras, mas que já estavam passando a idade de casar. As moças ao vê-la, perguntaram: — Aonde vai, minha avozinha ? A velha disse para onde seguia. As moças pediram-lhe então para indagar do Sol o motivo pelo qual, sendo elas tão formosas, ainda não se tinham casado.

A velha continuou a caminhar. Depois de viajar dia e noite sem parar, chegou finalmente à casa do Sol. A mãe deste, que era muito boa, recebeu a velha delicadamente e ouviu com atenção, toda a sua história. Ficou com pena da corajosa velhinha e prometeu auxiliá-la. Mas disse-lhe que, antes de falar com o filho, ia escondê-la, pois o Sol não consentia que pessoas estranhas entrassem em sua casa. Quando o Sol chegou a casa, depois de ter queimado tudo que encontrou em seu caminho, sentiu cheiro de gente e perguntou zangado à sua mãe: — Há gente estranha nesta casa? Estou sentindo cheiro de carne humana! — Não é nada, meu filho! disse-lhe a mãe. E o cheiro de uma galinha que matei para o nosso jantar.

O Sol ficou tranqüilo e sentou-se à mesa para jantar. Enquanto êle comia, a mãe perguntou-lhe jeitosamente:

— Meu filho, um rio muito fundo e largo por que não dá peixe? — E porque nunca matou gente! respondeu o Sol. Depois de algum tempo, a velha fêz nova pergunta: — E uma árvore grande, verde e bonita, por que não dá frutos ? — Porque há dinheiro enterrado entre suas raízes. A velha esperou mais um pouco e arriscou outra pergunta: E umas moças bonitas e ricas por que não se casam? — Porque costumam cuspir para o lado em que surjo no céu, todos os dias. — E qual será o remédio para gente que virou pedra? perguntou finalmente a velha. Aí o Sol se irritou:

— A senhora já está me amolando com essas perguntas! Mas a velha acalmou-o: — Desculpe, meu filho, como fico o dia inteiro sozinha, vivo imaginando tolices. Então o Sol, arrependido da sua irritação com a mãe, fêz-lhe a vontade: — O remédio para gente que virou pedra é colocar sobre a mesma um bocado do que eu estiver comendo.

A velha prestou atenção às palavras do Sol e, daí a pouco, levou a mão à boca do filho e tirou um bocado do que êle estava comendo, dizendo: — Não é nada, apenas um cisquinho que estava na sua comida. Momentos depois, repetiu o gesto: — Agora, meu filho, é um cabelo. E tornou a esconder o bocado. Na terceira vez, o Sol ficou zangado: — Ora, minha mãe, sua comida está hoje muito suja! Não quero mais comer! Dizendo isto, levantou-se e seguiu para o céu, a fim de realizar sua viagem diária.

A mãe do Sol foi então ao quarto onde estava a velhinha, contou-lhe tudo e deu-lhe os três bocados que tirara da boca do filho. A velhinha montou o seu cavalo e procurou logo o caminho de casa. Passando pela residência das moças, pernoitou na mesma, mas não lhes disse o motivo pelo qual elas não tinham casado. Pela manhã, viu que estavam cuspindo para o lado do nascer do Sol. A velha então as repreendeu, dizendo: — Eis a razão pela qual vocês ainda não casaram. Deixem esse costume de cuspir para o lado em que nasce o Sol. As moças seguiram o conselho da velha e acharam logo casamento.

A velha seguiu viagem. Ao encontrar a árvore que não dava frutos, pôs-se a cavar sob suas raízes, sem dizer nada. Quando, por fim, descobriu, enterrado, um cofre cheio de moedas de ouro, disse à árvore o motivo pelo qual ela não dava frutos. Pouco depois, a árvore ficou carregada de frutos deliciosos.

A velha continuou sua viagem. Ao chegar à margem do rio, este perguntou-lhe pela resposta do Sol. A velha ficou calada enquanto atravessava o rio. Quando se viu na outra margem, andou bastante até ficar bem longe do rio e daí gritou para êle: — Você não tem peixes porque nunca matou gente! O rio aumentou logo o volume de suas águas e produziu uma enchente tão grande que, por um triz, não afogou a velha.

Finalmente, a corajosa velhinha chegou à sua casa. Sem mais demora, colocou os três bocados sobre a cabeça das crianças que, no mesmo instante, se desencantaram, voltando à vida. A notícia do desencantamento dos meninos correu pela cidade e chegou até o Rei. Este ficou interessado em conhecer a história e mandou convidar o velho e os três meninos para jantarem no palácio. O velho não quis ir nem mandar as crianças. Mas o rei exigiu a presença dos mesmos em seu jantar. A velhinha aconselhou então aos meninos que fizessem o seguinte: — Quando vocês chegarem ao palácio e passarem pela escada, ponham-se de joelhos e tomem a bênção àquela pobre mulher que está lá enterrada, que é a sua mãe. Quando chegar a hora do jantar, não queiram ir para a mesa, sem que o rei mande desenterrá-la e sentá-la também à mesa. Quando cada um de vocês receber seu prato de comida, não comam nada e dêem os três pratos à sua mãe que os há de devorar num instante, pois está morta de fome. Aí as duas moças que lá estarão e que são tias de vocês, hão de dizer: — Por que estão dando sua comida a esta mulher? Nada lhe devem! Vocês responderão: — Esta mulher é nossa mãe e nós somos os três príncipes coroados! E mostrarão ao rei suas cabeças.

Foi justamente o que aconteceu. Os meninos cumpriram fielmente as recomendações da velha. O rei abraçou os filhos chorando de alegria e pediu perdão à esposa. Mandou cortar o pescoço das suas diabólicas cunhadas. Mas a rainha implorou-lhe que não mandasse matar suas irmãs. O rei atendeu ao seu pedido, porém condenou as maldosas criaturas à prisão perpétua. Os príncipes pediram ao rei que trouxesse para o palácio os dois velhinhos que os haviam criado. E todos viveram alegres e felizes, por muitos anos.

 


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 032010
 

A princesa e o monstro

Lourenço era um homem muito pobre que possuía três filhas jovens e formosas. Vivia do humilde ofício de fazer gamelas. E o que conseguia com a venda destas mal dava para o sustento da sua família. Um dia estava Lourenço trabalhando na sua oficina, quando surgiu na porta um moço simpático e bem trajado, montando um belo cavalo. Qual não foi o espanto do velho gameleiro quando o desconhecido lhe propôs a compra de uma de suas filhas! Ficou indignado com a proposta e disse ao moço que, embora fosse pobre, não venderia nenhuma filha. Mas o moço não aceitou a recusa do velho e o ameaçou de morte se êle não aceitasse a sua proposta. Viu-se então Lourenço forçado a vender uma filha, recebendo, por isso, grande soma de dinheiro. Ao retirar-se o misterioso cavaleiro, levando a moça comprada em sua companhia, resolveu o velho gameleiro abandonar a profissão, mas, aconselhado por sua mulher, acabou por concordar em não abandonar o seu modesto trabalho.

No dia seguinte, apareceu na casa de Lourenço outro jovem ainda mais simpático do que o da véspera e montando um cavalo mais formoso e melhor arreado. Repetiu-se a estranha proposta do dia anterior. E o velho, com receio de ser morto pelo cavaleiro, viu-se na triste contingência de vender outra filha. Recebeu então uma quantia maior que a do outro pretendente. Novamente, tentou o velho abandonar o negócio das gamelas, porém a mulher, mais uma vez, persuadiu-o a continuar com a sua humilde profissão. No outro dia, à mesma hora, Lourenço quase morreu de susto quando surgiu à sua frente um terceiro cavaleiro, ainda mais belo e melhor vestido do que os anteriores, oferecendo-se para comprar-lhe a última filha. Nova recusa e nova ameaça. O velho, atemorizado, teve de ceder. E lá se foi a filha mais moça do gameleiro na garupa do seu comprador. Desta vez, Lourenço recebeu uma quantia tão grande que ficou rico.

Pouco tempo depois, a esposa do gameleiro teve um filho. Era um menino bonito e forte que foi criado com muito carinho. Um dia, quando já esta ‘a bem crescido, brigou com um companheiro que, enraivecido, lhe disse: — Pensa que seu pai sempre foi rico? Ele está cheio de dinheiro porque vendeu suas filhas! O rapaz ficou impressionado com a acusação do colega e procurou seus pais para saber da verdade. Estes não tiveram outro remédio senão contar ao filho o que havia acontecido. O rapaz ficou muito triste com o destino infeliz de suas irmãs e resolveu sair pelo mundo à sua procura.

Depois de vários dias de viagem, encontrou no caminho três irmãos brigando por causa de uma bota, de uma carapuça e de uma chave. O rapaz aproximou-se, aconselhou os três a fazerem as pazes e perguntou para que serviam aqueles objetos. Soube então que, quando se dizia à bota: — Bota, leva-me a tal parte!, a bota levava; quando se dizia à carapuça: — Esconde-me, carapuça!, a carapuça escondia; e a chave abria qualquer porta!

O rapaz ofereceu bastante dinheiro pelos objetos e os irmãos aceitaram. Meteu ele os objetos no bolso e continuou sua viagem. Quando se achou bem distante do lugar em que deixara os três irmãos, tirou do bolso a bota e disse — Bota, leva-me à casa de minha irmã mais velha! Quando acabou de proferir essas palavras, encontrou-se à porta de um lindo palácio onde residia sua irmã. Chamou um dos criados e disse-lhe para avisar a dona da casa de que seu irmão desejava falar-lhe. A princípio, a moça não quis aparecer, pois não sabia que tinha um irmão. Mas o moço conseguiu contar-lhe sua história e ela então o recebeu carinhosamente. Perguntou ao jovem como conseguira êle alcançar aquele lugar distante e deserto. Mostrou-lhe o rapaz a bota maravilhosa que o havia levado até aquelas paragens.

Ao cair da tarde, o rapaz percebeu que sua irmã estava triste e preocupada. Perguntou-lhe o motivo e ela então lhe disse que seu marido era o Rei dos Peixes, mas que possuía um gênio terrível e lhe avisara de que mataria qualquer pessoa estranha que encontrasse em seu palácio. O rapaz tranqüilizou-a, contando-lhe o poder de sua carapuça que lhe permitia esconder-se sem ser descoberto. Quando anoiteceu, surgiu o Rei dos Peixes, derrubando tudo que encontrava à sua frente. Entrou em casa furioso e foi logo exclamando: — Estou sentindo cheiro de carne humana! Há uma pessoa estranha nesta casa! A rainha conseguiu, a custo, convencê-lo do contrário. Ele então entrou no banho e se transformou num belo moço.

Durante o jantar, aproveitando o bom humor do marido, a rainha perguntou-lhe: — Que faria você se aqui estivesse meu irmão, seu cunhado? — Ficaria muito satisfeito com sua visita. Se êle estiver aqui que apareça! O moço retirou então a carapuça e se tornou visível. Foi muito bem recebido pelo Rei dos Peixes que simpatizou tanto com êle que acabou por lhe pedir para ficar morando no palácio. O rapaz agradeceu e disse que não podia aceitar o convite, pois desejava visitar as duas outras irmãs. Perguntou-lhe então o Rei dos Peixes qual a utilidade daquela bota que êle trazia num dos pés e o rapaz revelou o poder mágico que a mesma possuía. Disse então o Rei dos Peixes: — Se eu tivesse uma bota como essa, iria visitar a Princesa de Castela!

No momento da despedida, o rapaz recebeu do cunhado uma escama e este lhe disse: — Quando você estiver em perigo, segure esta escama e grite: Valha-me o Rei dos Peixes! O jovem abraçou a irmã e o cunhado e partiu. Quando se viu longe do palácio, disse para a bota: — Bota, leva-me à casa da minha segunda irmã! Quando acabou de proferir essas palavras, achou-se diante de um palácio mais bonito do que o anterior. Depois de algumas dificuldades, conseguiu falar com a irmã que ficou muito alegre ao saber que êle era seu irmão. Ao cair da tarde, a irmã ficou inquieta e aflita e disse ao rapaz que seu marido, o Rei dos Carneiros, mataria qualquer pessoa estranha que encontrasse no palácio. O irmão contou-lhe o poder mágico de sua carapuça e ela ficou mais calma.

Quando caiu a noite, apareceu o Rei dos Carneiros. Era um carneirão alvo, bonito e forte, que destruía, com cabeçadas, tudo que encontrava à sua frente. Aconteceram então os mesmos fatos da visita à irmã mais velha. O Rei dos

Carneiros ao ter conhecimento que o rapaz era seu cunhado, fez-lhe muitas gentilezas e, ao despedir-se, deu-lhe um pedaço de lã, dizendo: — Quando você estiver em perigo, segure esta lã e grite: Valha-me o Rei dos Carneiros! Quando soube do poder mágico da bota, também disse: — Se eu tivesse uma bota como essa, iria visitar a Princesa de Castela!

O rapaz ficou intrigado com o desejo dos seus cunhados de visitar a Princesa de Castela e, naquele momento, prometeu a si mesmo que iria vê-la, logo que lhe fosse possível. Antes, porém, precisava visitar sua irmã mais moça. Com o auxílio da bota mágica, num instante foi transportado à sua residência. Era um palácio muito mais lindo e rico que os das outras irmãs. Verificou então que sua irmã mais moça era casada com o Rei dos Pombos. Aconteceram os mesmos fatos das visitas anteriores. No momento da despedida, o Rei dos Pombos deu ao cunhado uma pena, dizendo: — Quando estiver em perigo, segure esta pena e grite: Valha-me o Rei dos Pombos! E ao saber do poder mágico da bota, também exprimiu o desejo de visitar a Princesa de Castela.

Logo que se viu longe do palácio do Rei dos Pombos, o rapaz disse à bota: — Leva-me, agora, ao reino da Princesa de Castela! Quando abriu os olhos estava lá. Soube então que se tratava da mais linda princesa do mundo, tão linda que ninguém podia passar pelo seu palácio sem levantar os olhos para vê-la na janela. O Rei, seu pai, desejava muito que ela se casasse, mas a princesa havia dito que só se casaria com o homem que passasse por ela sem levantar os olhos para vê-la. O rapaz mandou dizer ao Rei que era capaz de fazer isso. E de fato passou diante da princesa, várias vezes, sem olhá-la, conseguindo assim casar-se com ela.

Depois de casados, o rapaz contou à sua esposa a história dos objetos mágicos que possuía. A princesa ficou muito interessada, principalmente, no poder da chave. E que o Rei mantinha preso, num quarto do palácio, um monstro terrível, chamado Manjaléu, que êle, de vez em quando, mandava matar, mas que sempre revivia. A princesa tinha grande curiosidade de ver o estranho animal. Por isso, aproveitando um momento em que o pai e o marido se achavam fora do palácio, apanhou a chave encantada e abriu o quarto. O horrendo monstro pulou para fora, dizendo: — Você mesmo é que eu queria! e fugiu para longe, levando a princesa.

Quando o Rei e o rapaz regressaram e deram por falta da princesa ficaram muito aflitos. E a inquietação foi maior quando verificaram que o quarto do monstro estava vazio. Então, o rapaz, valendo-se da bota encantada, logo foi ter ao lugar onde se encontrava sua esposa. A princesa ficou radiante de alegria quando viu o marido e quis imediatamente fugir com êle. Mas este aconselhou-a a descobrir, primeiro, onde se encontrava a vida do Manjaléu para, assim, poder matá-lo de uma vez.

Quando o monstro voltou, percebeu que ali tinha estado um homem e ficou furioso. Mas a princesa conseguiu convencê-lo do contrário e, quando êle se acalmou, perguntou-lhe onde se achava a sua vida. Ele recusou-se a dizer. Mas tanto pediu a princesa que um belo dia êle resolveu atendê-la e disse: — Vou dizer-lhe onde está a minha vida, mas, se eu, algum dia, sentir qualquer mal-estar, saberei que estou em perigo e, antes que me matem, cortarei sua cabeça com este facão afiado que trago sempre comigo! Quer saber assim mesmo? A princesa disse que sim. Disse-lhe, então, o monstro: — Minha vida está no mar; dentro dele há um caixão; dentro do caixão uma pedra; dentro da pedra uma pomba; dentro da pomba um ovo; dentro do ovo uma vela acesa; assim que a vela se apagar, eu morrerei.

Todos os peixes foram, então, buscar o caixão e o colocaram na praia.

 

A princesa, logo que pôde, contou tudo ao marido. Mais do que depressa o rapaz correu à praia e, segurando a escama que possuía, gritou: — Valha-me o Rei dos Peixes! Milhares de peixes surgiram logo, indagando o que êle desejava. Perguntou-lhes o moço por um caixão que existia no fundo do mar. Responderam os peixes que nunca o tinham visto, mas que, talvez, o peixe coto soubesse da sua existência. Apareceu o peixe cotó e este contou que acabara, naquele momento, de esbarrar no caixão. Todos os peixes foram, então, buscar o caixão e o colocaram na praia. O rapaz, depois de muito custo, conseguiu abri-lo. Mas nada pôde fazer com a pedra que estava no seu interior. Apanhou então o pedaço de lã e gritou: — Valha-me o Rei dos Carneiros! Surgiram logo milhares de carneiros. E o rapaz pediu-lhes que rebentassem a pedra.

 

Nesse momento, o Manjaléu sentiu-se mal e começou a amolar o facão para degolar a princesa. Os carneiros, afinal, conseguiram rebentar a pedra. Saiu desta uma pomba que bateu asas e desapareceu no horizonte. O rapaz pegou então a sua pena e gritou: — Valha-me o Rei dos Pombos! Apareceram milhares de pombos que voaram atrás da pomba e conseguiram agarrá-la. O rapaz abriu-a e achou o ovo. Nesse instante, o Manjaléu, que percebeu que ia morrer, levantou o facão para cortar o pescoço da princesa. Foi quando o rapaz, quebrou, rapidamente, o ôvo e apagou a vela. E o monstro caiu morto, sem conseguir degolar a princesa. O moço foi então buscá-la e a levou para o palácio, onde viveram, daí por diante, tranqüilos e felizes.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

mai 182010
 

O CASTIGO DA AMBIÇÃO

AO castelo do rei Miroslao foram chamados os mais célebres pintores do reino a fim de ser pintado o retrato do soberano.

O rei, que era ainda muito jovem, desejava encontrar a companheira de sua vida.

Entre os numerosos retratos que lhe foram enviados por diversas princesas e altas damas estrangeiras, da mais refinada linhagem, destacava-se um de grande e singular formosura!

Miroslao, desde o primeiro momento, sentiu um ardente desejo de desposar aquela dama tão bela, compartilhando com ela o seu trono.

Por isso é que mandara pintar o seu retrato que seria enviado à jovem princesa, juntamente com o seu pedido de casamento.

Achando-se os pintores todos reunidos, o rei lhes falou nestes termos:

— Prezados senhores e célebres mestres, convoquei-os à minha corte para que cada um de vós pinte o meu retrato. Advirto-vos, entretanto, que não será de meu agrado se neles me fizerdes mais bonito. Ao contrário, ficarei mais satisfeito se no retrato ficar menos favorecido do que realmente sou.

— Por que iríamos aumentar vossa beleza, real senhor? — disseram os pintores. — dar–nos-emos por satisfeitos se nossos pincéis reproduzirem exatamente a realidade.

Com intensa atividade os pintores puseram mãos à obra e, dentro de pouco tempo, achavam-se expostos vários retratos do rei nos salões do palácio.

O soberano, acompanhado de seus conselheiros, foi examinar qual das pinturas seria mais apropriada para enviar àquela que ele pretendia.

— Segundo minha opinião — disse um dos cortesãos — vossas feições excedem em muito a todos estes retratos! Nenhum dos pintores soube reproduzir com fidelidade vossa soberana beleza!

— Não foi mesmo do meu desejo que o retrato reproduzisse a realidade. Creio que minha futura noiva não ficará contrariada ao constatar que eu sou mais belo do que pareço no retrato.

Dominado por tal pensamento o rei escolheu o retrato que menos o favorecia.

Mandou emoldurá-lo em ouro e pedras preciosas e ordenou que os seus mais altos dignatarios se pusessem a caminho do palácio da princesa.

Seguiram, pois, acompanhados de um grande séquito e providos de ricos presentes destinados ao pai da formosa donzela, ao qual deveriam pedir a mão da filha para o rei Miroslao.

O monarca ficou esperando ansioso a volta de seus emissários.

Depois de algumas semanas, a embaixada voltou.

Vinham todos tão tristes e mal humorados que o rei Miroslao imaginou logo que traziam desagradável resposta.

— Senhor e soberano — disseram os delegados que se apresentaram perante o seu rei — sofremos uma ofensa inaudita, tão horrível, que até tememos dar-vos ciência do ocorrido.

— Falai francamente, seja o que fôr.

— Fomos recebidos pelo rei com toda a amabilidade e na corte reinou grande alegria, ao saberem que Vossa Majestade pretendia a mão da princesa Carolina. Na manhã seguinte apresentamo-nos ante a princesa para lhe render as nossas homenagens. Como até hoje, nenhum mortal teve a graça de lhe tocar as mãos, tivemos que nos limitar a beijar a barra de sua túnica. A real alteza, depois de examinar desdenhosamente o retrato de Vossa Majestade, nô-lo devolveu, dizendo:

Depois de examinar o retrato

Depois de examinar o retrato

— O rei aqui retratado não é digno de atar siquer os cordões de meus sapatos.

Envergonhados, e humilhados, sentimos que o sangue subia as nossas faces, porém o velho rei pediu-nos não contássemos a Vossa Majestade a grosseira atitude da princesa acrescentando que, êle próprio muito sofria com o gênio de sua filha. Apesar de tudo, não duvidava, disse, de, que as coisas se pudessem arranjar e que a princesa acabaria por dar o seu consentimento.

Nós, que a tudo havíamos assistido, não consideramos a princesa digna de ser um dia nossa rainha.

Sem ligar importância ao fato, preferimos abandonar o palácio e regressar.

— Era o que de mais prudente poderiam ter feito — respondeu o rei — estou contente com a dignidade que demonstraram e com a vossa conduta. Quanto ao resto, correrá por minha conta.

E o rei, dizendo estas palavras, não podia dissimular o rancor que lhe fazia arder as faces, por causa do orgulho daquela princesa.

Sua Majestade ficou algum tempo pensativo, sem saber que atitude tomar. 

Afinal, sua fértil imaginação indicou-lhe o caminho que deveria seguir.

Mandou, pois, chamar o seu velho conselheiro e administrador confiando somente a êle o seu plano, que sem reservas, mereceu sua aprovação.

No dia seguinte notava-se grande animação no castelo.

A atividade desusada era motivada pela iminente viagem do rei.

Antes de se pôr a caminho Sua Majestade entregou a administração do reino aos seus conselheiros e três dias depois seguiu viagem.

Ao chegar aos limites de seu reino ordenou a todo o seu séquito que regressasse com tudo quanto levavam.

Seguiu êle só, provido de pequena quantidade de dinheiro e poucas roupas.

Dirigiu-se para o reino da caprichosa princesa.

Em um formoso dia de primavera a jovem Carolina passeava pelo seu jardim.

Ela era formosa como a deusa da beleza, embora o seu rosto se assemelhasse a uma rosa sem perfumes.

Entretanto, possuia alma delicada e sensível, o que se notava pelas lágrimas que sempre derramava, condoída das desgraças alheias e pela abundância de esmolas que distribuía.

Não permitia, porém, a mendigo algum, acercar-se dela. Não gostava que a tocassem com as mãos.

Muitos soberanos haviam já se interessado pela princesa porém, todos haviam sido rechaçados com desprezo.

Seus pensamentos pareciam dotados de asas de águia, desejando elevar-se à altura do sol.

Mais de uma vez apreensivo o rei seu pai teve de repreendê-la, ameaçando-a com a cólera de Deus, que não tardaria em castigá-la

pela sua altivez e orgulho, mas, a princesa respondia:

— Aquele que pretenda ser meu esposo, terá que distinguir-se pela sua nobre ascendência, qualidades morais e nobreza de alma, caso contrário, nunca me casarei.

Naquele dia, quando a jovem passeava pelo jardim, seu pai, aproximando-se dela, disse–lhe:

— Minha filha, acabo de contratar um jovem serviçal, tendo-lhe confiado o cargo de primeiro jardineiro, embora me pareça demasiado instruído para ocupar esse posto. É tão perito na arte da jardinagem, como nas letras e na música, conforme pude notar, com grande espanto meu. Por isso aceitei-o com "prazer entre os serviçais de minha corte. Em todo o reino não há quem o ultrapasse em sabedoria. Que achas?

— Nada posso dizer, uma vez que ainda não o vi. Penso, entretanto que Vossa Majestade agiu acertadamente, meu pai, porque a presença de um tal homem é como a de uma jóia rara que se guarda no cofre! Se, na realidade, é tão instruido na música como dizeis, suponho que seja também cortês e, nesse caso, poderia aperfeiçoar-me na arte de tocar harpa, substituindo assim o meu chorado mestre que tanta falta me faz. Mandai, pois, chamar esse estrangeiro.

O rei cumpriu com satisfação o desejo da filha e pouco depois Miroslao apresentou-se ante a princesa, que o esperava no pavilhão de verão.

— Tenho grande honra de me pôr aos vossos pés, graciosa senhora, e fico aguardando as vossas ordens — disse o jovem rei disfarçado, fazendo a mais elegante reverência. Beijando a barra da túnica da donzela, lançou-lhe ao mesmo tempo um olhar como jamais alguém havia feito.

A altiva princesa ruborizou-se, desviando o olhar para uma rosa que há pouco havia colhido no jardim sem adivinhar a tragédia que iria surgir daquele botão entreaberto.

Miroslao apresentou-se ante a princesa

Miroslao apresentou-se ante a princesa

Logo que Carolina fitou a rosa, Cupido, o pequeno deus do amor, disparou-lhe a sua flexa.

A princesa sentiu-se ferida no coração, golpe esse para o qual não há remédio no mundo.

— Como é o vosso nome? — perguntou ela a Miroslao, em tom amável.

— Miroslao — respondeu o jovem.

— Meu pai me disse, Miroslao, que sois instruido na música. Precisamente há tempos estou desejosa de um bom mestre, para aperfeiçoar-me na harpa. Muito me alegraria, se quisésseis ocupar o lugar do meu falecido mestre.

— Se a minha modesta habilidade nessa nobilíssima arte fôr suficiente para satisfazer todas as exigências do cargo, considerar-me-ei muito feliz em poder servir-vos, senhora.

— O rei, meu pai, dar-vos-á os detalhes, — disse a princesa fazendo um gesto, como para dar a entender que a audiência estava terminada.

Carolina permaneceu durante muito tempo como que atordoada, incapaz de recordar o que se havia passado! De repente ouviram-se pas-

sos, e a princesa saiu de sua profunda meditação.

Era o rei que se aproximava, dizendo:

— Contrataste Miroslao como maestro?

— Sim, meu pai, e estou a pensar quando deverei começar as lições.

— Isso é contigo, minha filha. Quanto a mim, ao ouvir pronunciar esse nome, sempre me recordo do rei Miroslao. Temo ainda que pretenda declarar-nos guerra, para se vingar da ofensa sofrida. Cometeste uma falta grave, minha filha.

— Não me façais sofrer, meu pai. Seria para mim grande desgosto ter de casar-me com aquele rei, não mudarei de opinião.

O soberano afastou-se pensativo e aborrecido com receio de possíveis complicações com o soberano do reino vizinho.

No dia seguinte começaram as lições.

Miroslao era um mestre consciencioso e tinha em Carolina uma aluna muito atenta.

Conforme transcorriam os dias ia-se derretendo a camada de gelo com que o orgulho havia envolvido o coração da princesa.

A criadagem já murmurava:

— Que transformação se verifica agora em nossa princesa! Antes ninguém podia tocar-lhe a mão e agora não se opõe a que Miroslao lha beije, quando dela se afasta.

O amor que havia brotado na alma da jovem foi vencendo, lentamente, o seu orgulho.

Passou-se longo tempo desde a chegada de Miroslao à corte.

O moço gozava do afeto de todos, principalmente da princesa, embora ela procurasse iludir-se a si mesma.

Descendo um dia ao jardim, respondeu brusca e orgulhosamente aos cumprimentos do novo chefe dos jardineiros: assentou-se em um banco do caramanchão, todo ornado de flores, que havia sido construido por ordem de Miroslao, especialmente para a princesa.

Teria sido impossível não pagar com amabilidade e carinhosas palavras, aquela nova prova de estimação do jovem empregado.

Miroslao apresentou-se ante a princesa

As poucas palavras que dirigia ao moço.

davam sempre oportunidade a uma pequena conversação nem sempre afetuosa e alegre da princesa.

Assim, a orgulhosa princesa manifestou-lhe os seus numerosos e injustos desejos e ordens. Houve dias em que a princesa, de mau humor, dava ordens ao seu criado particular para despedir o mestre de harpa.

Imediatamente se arrependia e o homem tinha de correr às pressas para trazer novamente de volta o seu jovem professor.

Certa tarde quando a princesa estava a tocar e cantar ao pé da janela aberta Miroslao, ao seu lado, contemplava fascinado a beleza de seu rosto, banhado pelo áureo resplendor do sol no ocaso!

Repentinamente a princesa deteve-se, passando o instrumento às mãos do mestre.

— Se Vossa Alteza o permitir, cantarei uma canção composta por mim — disse Miroslao.

A princesa consentiu muito admirada e satisfeita.

O jovem rei começou a cantar.

O sol havia desaparecido por trás das montanhas, lançando um dos seus últimos raios pela janela aberta.

O calor suave que enchia o ambiente desfez o gelado véu que envolvia o coração da orgulhosa princesa, como densa teia de aranha.

Inclinando ternamente a cabeça para Mi-roslao, deixou cair uma lágrima sobre a sua mão.

Fingindo nada haver notado, o moço falou:

— Esta foi a minha canção de despedida graciosa soberana. Amanhã deverei partir, deixando esta capital.

— Que dizes, Miroslao? — Não permitirei que vás! Oh! não, por nada neste mundo! — exclamou a princesa Carolina com a voz trêmula, agarrando as mãos do moço.

Naquele momento abriu-se a porta e apareceu o rei, seu pai.

— É este o homem que o teu coração elegeu? — perguntou êle friamente para a filha, que o olhava perplexa!

— Sim, meu pai, é este! — respondeu ela com altivez.

— Sabes que falta a este homem uma das qualidades que deve, incondicionalmente, possuir teu futuro esposo?

— Sei que Miroslao não é de nobre descendência, porém, por mais humilde que seja o seu nascimento, não deixarei de o amar.

— Se assim é deves casar-te neste mesmo instante! Porém, advirto-te que não podes permanecer por mais tempo no castelo para que o ridículo não recaia sobre minha pessoa!

— Justíssimo soberano — disse então o mestre de música, ajoelhando-se diante do rei — não posso consentir que a princesa se torne infeliz por minha causa. Abandonarei imediatamente este país e tudo ficará esquecido.

Mas o rei persistia em seu propósito. Pouco depois mandou chamar o seu confessor realizando assim o casamento da orgulhosa Carolina com o pobre jardineiro.

Tomaram a carruagem

Tomaram a carruagem

Vestida com extrema simplicidade despediu-se de seu penalizado progenitor que tão duramente a havia expulso do palácio, como se ela fosse uma criada qualquer.

Recobrando o ânimo tomou a mão de seu marido, a quem muito amava e por quem tudo sacrificara, e com êle tomou a carruagem que deveria conduzi-los até às fronteiras do reino.

Ao chegarem aos limites do país cujo trono poderia um dia pertencer a Carolina, apearam da carruagem e seguiram o caminho a pé.

— Querida esposa — disse Miroslao — que faremos agora? Felizmente mora nesta cidade um irmão meu, empregado na corte. Êle poderá arranjar-nos um emprego, assim escaparemos das garras da miséria.

— Por enquanto ainda possuo algum dinheiro, irei trabalhando e servirei de alívio em tuas aflições, — respondeu Carolina, consolando o esposo.

Chegados à próxima vila, Miroslao alugou um carro para que sua esposa, desacostumada de andar a pé, não se fatigasse tanto.

Ao regressarem à capital do reino Miros-lao acomodou-se em uma modesta casinha onde foi morar com sua esposa.

De comum acordo venderam os seus ricos vestidos e adquiriram outros mais modestos.

— Vou agora — disse o marido no dia seguinte — vêr se arranjo algum serviço para ti e uma colocação para mim, por intermédio de meu irmão.

Ao meio dia voltou trazendo uma trouxa e desatando-a tirou um pedaço de finíssima tela e algumas frutas.

— Vê, minha querida, trago aqui trabalho que te dará boa recompensa ao terminá-lo. Estas frutas são enviadas por meu irmão. Oh! Minha amada esposa, como pude trazer-te até aqui? Tu, a filha de um rei, para levares esta vida miserável? Acostumada ao bem estar, tens que trabalhar para os estranhos e suportar privações. Que desgraça para mim!

— Não compreendo estas queixas — replicou Carolina sorrindo. Pois, fui eu mesma que assim o quis! Teu amor será a melhor recompensa para todas as minhas penas.

Satisfeita tomou o fino bordado e começou a trabalhar com afinco, sem descansar dia e noite; só se levantava para preparar a comida para o marido.

Quando terminou o trabalho foi entregá-lo em companhia de Miroslao.

A casa onde foi conduzida era um prédio vistoso; o criado levou-a por diversos aposentos à presença da camareira mór.

Apesar de sua boa vontade Carolina sentia-se constrangida, quando a camareira começou a examinar o seu trabalho, apontando vários defeitos.

Sentiu-se profundamente envergonhada e amargas lágrimas brotaram-lhe dos olhos.

Abriu-se eritão uma porta e apareceu uma respeitável senhora.

Perguntou à camareira o motivo daquele pranto e depois de examinar pessoalmente o trabalho mandou pagar à bordadeira.

Carolina inclinou-se agradecendo e saiu pressurosa.

Chegando em sua casa nada disse ao marido, lembrando-se que igual tratamento costumava dar sua própria camareira às suas costureiras.

Dois dias depois Miroslao ofereceu à Carolina um emprego em casa de uma senhora onde, certamente, teria bom tratamento. Satisfeita, a ex-princesa apresentou-se no dia e hora marcados.

A senhora examinou-a da cabeça aos pés, perguntando-lhe o que sabia fazer.

Satisfeita com as respostas, disse-lhe que queria experimentá-la durante dois dias, antes de a contratar.

Quanta amargura sofreu naqueles dois dias! Somente agora compreendia quanto sofrimento passavam as criadas das caprichosas senhoras da corte, que as tratavam com tão pouco caso.

Durante o dia não tinha outra coisa a fazer, senão ajudá-las a se vestirem, andando de um lado para outro, em busca dos mais inúteis objetos e ouvindo reprimendas pelos mais fúteis motivos. Carolina não poude suportar mais e no fim do segundo dia voltou para casa.

— Temos grandes novidades querida esposa! — disse um dia Miroslao, ao regressar à casa com o rosto radiante de alegria. Nosso rei acaba de escolher uma noiva e vai dar amanhã um grande banquete, a fim de apresentar aos seus governantes a nova soberana. Na corte a correria é grande à procura de cozinheiras e pasteleiras e oferecem bons ducados de salário para aquele dia! Como és ótima cozinheira e o trabalho não será muito difícil poderias oferecer–te no castelo como cozinheira!

— Por que não? Irei com muito boa vontade, uma vez que poderei ganhar tanto dinheiro em um só dia! — respondeu a esposa.

Ao amanhecer do dia seguinte vestiu-se, amarrou um pano na cabeça, conforme o uso da gente simples e, com seu marido, dirigiu-se ao castelo.

— Eu também procurarei ganhar alguma coisa e à noite virei buscar-te — disse Miroslao, ao sair da cozinha do castelo, onde havia conduzido sua mulher.

Fizeram-se grandes festas

Fizeram-se grandes festas

 

 

Carolina começou a trabalhar com muito gosto, a fim de cumprir todos os encargos que lhe dera o chefe da cozinha.

Tudo lhe saía bem merecendo elogios do chefe da cozinha pela sua atividade.

Mais tarde começaram a aparecer numerosas carruagens trazendo os convidados.

No momento em que Carolina atravessava o corredor, um elegante cavalheiro, resplandecente de ouro e prata, cruzou-lhe os passos.

— Fazei-me o favor — disse êle com voz grossa a Carolina — de chamar alguém para amarrar meus sapatos?

Carolina olhou para o cavalheiro e notando pelo seu porte que deveria ser o rei, inclinou-se e amarrou-lhe os sapatos.

O rei agradeceu e partiu.

Logo depois, apareceu o camareiro do rei, perguntando pela cozinheira que lhe tinha amarrado o sapato. Deveria ela apresentar-se à primeira camareira nos aposentos do outro andar. Carolina atendeu logo ao que lhe ordenaram.

Quando ela entrou no aposento a primeira camareira inclinou-se em profunda reverência, convidando-a a seguí-la.

Com grande assombro a princesa examinava e admirava aqueles aposentos riquíssimos, que tanto lhe recordavam sua antiga residência real.

Aqueles belíssimos salões estariam, sem dúvida destinados a alguma princesa e Carolina supôs logo que seria a residência da jovem e futura rainha. Não sabia porém, porque motivo a haviam trazido ali.

Assim, chegou a um gabinete onde as cadeiras estavam repletas de riquíssimas roupagens, e as mesinhas transbordando de jóias cintilantes!

— Deveis escolher um vestido e as jóias que mais vos agradarem, disse a camareira mór. Eu estou encarregada de vestir-vos em recompensa ao ato de cortezia que tivestes para com o nosso amado rei e amo. Sua Majestade ouve por bem convidar-vos para o baile.

— Meu Deus! — exclamou Carolina muito assustada! — que há de dizer o meu marido? Quer dizer que eu deverei enfeitar-me com estes trajes e dançar com o rei? Não, isso nunca! Não o farei!

— Mesmo que eu peça com muito carinho? — disse uma voz do fundo da sala. Carolina, voltando o olhar viu diante de si o próprio rei e nele reconheceu seu marido Miroslao.

Assustada e cheia de assombro, perguntou aflita:

— Por que fizeste tudo isto e por que me tens tratado desta maneira?

— Não te recordas com que altivez trataste os meus embaixadores quando eles foram apresentar-te o meu retrato? Naquele dia jurei humilhar o teu orgulho! Consegui-o com o auxílio de teu pai e por teu próprio amor!

Não teria te sujeitado a provas tão duras se nisso não houvesse obedecido também à vontade de teu pai.

Tenho também participado de teus sofrimentos e eles foram bem grandes!

Nesse momento abriu-se a porta entrando por ela o velho rei, pai de Carolina. Os três abraçaram-se com efusão e carinho e a felicidade era visível em seus semblantes.

— Essas provas foram talvez um tanto amargas — disse o velho rei — porém, minha filha, purificaram o teu caráter! Serás agora mãe amantíssima para teus futuros filhos e uma nobre soberana para o povo deste grande reino!

Os convidados reuniram-se para vêr a nova rainha que trajava um precioso vestido todo bordado a ouro e pedrarias.

Ostentando em sua cabeça maravilhoso diadema real, trabalhada com pedras mais preciosas do reino, era mesmo uma linda rainha.

Os convidados estavam encantados com a sua formosura, pois, apesar do luxo com que estava ornada, a bondade e o carinho refletiam–se em seu rosto, em vez do altivo orgulho de outro tempos.

Com fidalgo gesto o rei Miroslao conduziu sua esposa ao salão real, onde, reunidos todos os nobres do reino, foi a jovem rainha aclamada com entusiasmo!

Depois, fizeram-se grandes festas durante sete dias e sete noites, e foram muito festejados pelo povo os jovens reis.

FIM

Tradução e Adaptação de Leoncio Sá Ferreira

mai 172010
 
Pato donald, clarabelal, horácio, mickey e pateta

O heroísmo de Linda

LINDA era uma cachorrinha "fox-terrier" ainda nova.

Foi tirada de sua mamãe quando era muito pequenina e a vida, a partir de então, se tornou muito áspera para a pobrezinha.

Parecia que ninguém a queria.

Podia recordar-se de todos os amos que teve, porém, pensava que nada devia a nenhum.

Muitos foram vagabundos, rudes e maus, que deixavam que os acompanhasse com a esperança de que caçasse alguns coelhos para eles.

Mas, Linda não era suficientemente esperta para isso e somente uma vez conseguiu apanhar um coelho, porque o animal já estava morto e preso em uma armadilha! Pobre coelhinho!

A cachorra estava esfaimada de tal forma que começou a devorá-lo, mas, quando chegou o seu amo e a viu, ficou tão zangado e lhe deu tamanha surra que a infeliz andou vários dias coxeando.

Aquele homem ficou com o coelho, embora não tivesse qualquer direito a êle.

Linda, entretanto, seguiu tristemente e coxeando o seu amo pelo caminho, porém, logo que se apresentou a primeira oportunidade, fugiu para bem longe abandonando-o.

Em seguida foi recolhida por outro vagabundo, mas, quando a esfaimada cachorra lhe roubou um pedaço de queijo do saco êle lhe deu um ponta pé e a obrigou a fugir.

Linda se viu novamente só, como cachorra abandonada, triste e com fome, receiosa de todos os homens.

Odiava-os.

Pouco depois um cigano apanhou-a e tratou de ensiná-la a caçar para êle, porém Linda não o compreendia.

saiu do emprego

Abandonou o novo patrão

Tinha medo do cigano que a conservava amarrada todo o dia e lhe dava muito pouco que comer.

A cachorra tinha frio e andava muito triste; odiava de tal forma a humanidade que o seu único desejo era avançar em todos os que dela se aproximavam.

Um dia em que estava com mais fome mordeu o cigano e este deu-lhe uma forte paulada na cabeça.

— És uma fera! — exclamou enraivecido — Afogar-te-ei e assim acabarei contigo!

Tomou a corda atada ao pescoço da cachorra e, com auxílio de um amigo, a arrastou para o rio.

Linda ; sofria tremendamente! Compreendia que ia acontecer alguma coisa espantosa e, com toda a sua força, puxava pela corda.

— É inútil resistir — dizia o cigano — Lançar-te-ei ao rio quer queiras, quer não!

Precisamente naquele momento apareceu um menino e ouviu as palavras do cigano.

Olhou a fraca e assustada cachorra e se compadeceu dela.

— Por que quer afogá-la? — perguntou — Seria uma linda cachorra, muito bonito mesmo, se estivesse limpa e bem alimentada!

— Bonita! — replicou o cigano. — Enga-nas-te, rapaz! Acaba de me morder. . . Olha. .. Ademais este animal tem más intenções, é desobediente e mal humorado.

maus tratos aos animais

Estava sempre amarrada

Linda olhou o menino com os seus olhos escuros, de ternura, a solicitar um pouco de carinho e amor! O menino parou e botou as mãos nos bolsos.

— O senhor quer vendê-la? — perguntou — Não tenho muito dinheiro, mas não posso nem pensar que este pobre animal vai morrer afogado.

— Quanto tens? — perguntou o cigano.

— Seis cruzeiros e cinqüenta centavos — respondeu o rapaz, mostrando as moedas.

— Dá-me os cobres — replicou o cigano estendendo a mão — E fica com a cachorra. Graças a Deus que me livro dela. Agora toma cuidado para que não te morda, porque é um mau animal!

Deu a corda ao menino, embolsou o dinheiro e, sorrindo, partiu com o amigo.

— Não é verdade que não me morderás? — perguntou o menino com voz tão carinhosa que Linda se apressou a endireitar as orelhas. Nunca lhe haviam falado daquela maneira.

— Chamo-me Joãozinho. E tu? — perguntou o menino. — É possível que nem sequer te tenham dado um nome. Pobre cachorrinha, estás meio morta de fome! Bom, chamar-te-ei Linda. Vamos para casa e vejamos se mamãe me deixa conservar-te comigo.

Estendeu a mão e suavemente acariciou a cabeça do animal.

A cachorra estava tão assombrada que rosnou, porque ninguém a havia acariciado assim antes.

Arrependeu-se de haver rosnado, encolheu–se e deu um gemido.

— Bem, bem — disse Joãozinho, acariciando-a outra vez — Não é preciso rosnar, não te farei nenhum mal. Gosto muito de cachorros e, se quiseres, seremos bons amigos.

Linda seguiu-o até à casa. Estava estranhando muito, porque nunca havia conhecido ninguém como Joãozinho.

Sentia-se grata ao menino, porque, instintivamente, compreendia que êle a tinha livrado de um grande perigo, embora não estivesse segura de que poderia confiar em alguém, nem sequer naquele rapaz que parecia tão bom.

Quando já estavam perto da casa, Linda começou a resistir, porque não queria entrar.

Estava assustada!

Joãozinho desatou-lhe a corda e a soltou.

— Se não queres entrar, não entres — disse carinhosamente. — Vai por ondes quiseres. A julgar pelo teu tremor, tens sido muito maltratada. Pobre animalzinho!

Abriu a porta da casa e entrou, deixando-a aberta. Linda ficou fora farejando e, por fim, decidiu-se.

Não queria abandonar aquele rapaz de voz tão carinhosa. Gostaria de o aceitar por dono!

Entrou, pois, na casa, sacudindo a cauda e avançou para Joãozinho, que abriu outra porta, entrando os dois.

— Joãozinho, de onde tiraste esse cachorro tão sujo e mal cheiroso? — perguntou a mãe ao vê-lo.

— Comprei-o de um cigano que se dispunha a afogá-lo — respondeu o rapaz — É um pobre animal infeliz, mamãe. Deixa que eu o tenha comigo? Nunca mais tive nenhum, desde que o pobre Leal foi atropelado, e muitas vezes me prometeste outro.

— Mas, não um animal tão horrível! — replicou a mãe — Não é possível conservar em casa uma inutilidade semelhante!

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Entraram na casa

— O que acontece? — perguntou uma voz forte.

Entrou um homem. Era o pai de Joãozinho.

Linda abaixou-se por trás das pernas do rapaz, assustada, e quando aquele homem quis acariciá-la mostrou-lhe os dentes.

— Caramba! Quem te maltratou? — perguntou o pai do menino, sem fazer caso do rosnar da cachorra e fazendo-lhe cócegas por trás das orelhas; isto acalmou imediatamente Linda que começou a sacudir a cauda, surpreendida e satisfeita.

— Deixa-me ficar com ela, papai? — perguntou Joãozinho — Já sei que está muito suja e cheira mal, mas não tardarei em deixá-la perfeitamente limpa. Tenho certeza de que poderei ensiná-la a ser carinhosa e fiel, logo que esteja melhor alimentada e mais forte.

— Está bem — disse o pai — Fica com ela. Não está de acordo, mamãe? Entretanto, Joãozinho, não estranhes se der maus resultados e se se tornar um animal incorrigível, e cuidado para que não te morda!

Porém Linda já estava convencida de que não procederia tão mal.

Sentía certo calorzinho no coração, que lhe parecia crescer cada vez que o menino a acariciava.

Depois de um bom banho de água morna e de comer até fartar-se, de coisas boas, Linda parecia outra.

Seu corpo fraco e emagrecido se encheu em pouco tempo, o pêlo se tornou liso e brilhante e da mais pura alvura.

Não deixava Joãozinho um momento, porque o adorava com toda a força de seu coração.

Viveu muito feliz ao lado do menino por espaço de dois meses, interrogando-se sobre o que deveria fazer para demonstrar o seu agradecimento por lhe ter salvo a vida.

Um dia chegou a oportunidade e. . . oh, pobre Linda! Pouco faltou para fracassar.

Dormia no jardim, dentro de um canil muito bem abrigada e sabia que o seu dever era ladrar se ouvisse algum ruído durante a noite.

Sempre fazia assim quando chegavam aos seus ouvidos vozes estranhas ou passos.. . porém, uma noite, despertou sobresaltada ao ouvir uma voz que já conhecia.

Era a do cigano.

Havia entrado com o seu amigo para roubar a casa de Joãozinho e Linda ouvia a sua voz rouca que falava com o companheiro.

Que deveria fazer Linda?

Ladrar imediatamente com todas as suas forças! Mas, em sua mente canina imaginou que talvez o cigano tivesse vindo com o propósito de a levar.

Linda ignorava que o homem se propunha a roubar a casa e pensou que se ladrasse êle descobriria onde ela estava.

Por essa razão, enrodilhou-se no canil e não fêz o menor ruído.

Tremia por todo o corpo e seu coração batia desesperadamente!

Bem depressa o cigano se aproximou do canil e projetou uma luz em seu interior.

Olhou admirado e chamou com um gesto o seu companheiro.

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Linda ficou desacordada

— Aí está uma cachorra que nem pensa em ladrar — murmurou — Está assustada, dá-lhe depressa uma paulada na cabeça, antes que se

resolva a dar o alarme e mete-a, em seguida, no estábulo, tendo o cuidado de fechar a porta logo que saias. Assim nada mais teremos a temer.

A pobre Linda sentiu uma pancada na cabeça e rolou como morta.

O cigano agarrou-a e a entregou ao companheiro.

Rapidamente aquele se encaminhou ao estábulo, atirou a cachorra ao chão e fechando a porta retirou-se a correr.

Linda ficou imóvel.

Pouco depois soltou um leve gemido e abriu os olhos.

Doia-lhe muito a cabeça e apenas podia movê-la. Estranhou, perguntando a si mesma o que teria acontecido.

Depressa recordou.

O cigano tinha vindo com o fim de agarrada. . . mas, isso não podia ser, porque viu que estava no estábulo da casa de seu dono.

Por que teria vindo o cigano?

Linda teve, então, uma idéia espantosa e impulsionada se pôs em pé. Talvez o cigano tivesse vindo com o fim de levar Joãozinho e arrojá-lo ao rio!

Por que não tinha dado o alarme como era de seu dever?

Assustou-se tanto por si mesma que nem pensou em seu amo!

Fêz um esforço para se manter em pé e, aproximando-se da porta, arranhou-a.

Estava fechada.

Quis ladrar, porém, doia-lhe tanto a cabeça que somente conseguiu emitir um ruído estranho.

Deu, correndo, a volta ao estábulo desocupado, tentando sair para ir em socorro de Joãozinho, mas, não pôde encontrar meios para isso!

Pobre Linda!

Ganiu e ladrou com todo o vigor, percebendo logo que ninguém poderia ouvi-la.

De repente ocorreu-lhe uma idéia maravilhosa!

A janela! Estava aberta, porém se encontrava a grande altura e não se julgou capaz de a alcançar.

Além disso, doia-lhe tanto a cabeça que quase não podia andar.

Apesar de tudo, era preciso tentar alguma coisa, porque talvez, naquele momento, o seu querido amigo Joãozinho estivesse sendo raptado pelo cigano!

Tomou impulso e saltou, mas, não pôde chegar à janela, caindo ruidosamente ao chão.

Ficou ali gemendo por um momento e, em seguida, repetiu a tentativa.

Deu uma pequena corrida, mas, falhou novamente e tornou a cair.

Linda respirava fatigada.

Percebia que somente lhe restavam forças para dar um último salto.

Olhou de novo a janela, tomou distância e saltou.

Suas patas dianteiras agarraram-se ao peitoril e ali ela se sustentou. Depois, fazendo um esforço extraordinário, conseguiu içar o corpo

e, ajudando-se com as patas traseiras, colocou-se sobre o peitoril da janela e segurou-se bem. Em um momento se viu fora do estábulo.

contos de cachorrinhos

Os guardas prenderam os ladrões

Correu para casa e se encaminhou para o sótão, onde sempre havia uma janela aberta para que o gato pudesse entrar.

Entrou por ali e se deteve para farejar.

Ah! Já sentia claramente o cheiro do cigano, embora não soubesse exatamente onde estava.

Avançou e chegou por fim à sala.

Ali percebeu leves ruídos e pôde sentir mais claramente a presença do cigano e de seu companheiro.

Sentiu que se lhe eriçavam os pêlos do espinhaço e, bem depressa, desapareceu todo o seu medo. Já ia mostrar ao cigano quem ela era!

Arrojou-se contra a porta que, ao seu impulso, abriu-se de par em par. Soltando um latido ameaçador, precipitou-se contra os dois assustados ladrões. Estes trataram de afastá-la com os seus paus, a fim de fugir pela janela aberta porém, a cachorra parecia estar em todas as partes ao mesmo tempo.

Não queria deixá-los sair.

Mordeu um dos ciganos na perna e outro na mão.

Rosnava e ladrava, saltava e corria, de maneira que os ladrões ficaram aturdidos sem saber o que fazer.

Uma ou outra vez acertavam pauladas na cachorra mas esta não se acobardava nem os deixava tranqüilos.

cadela e seus filhotes

De repente a casa ficou inundada de luz e apareceu à porta o pai de Joãozinho, olhando muito admirado aquela cena.

Joãozinho apareceu, escondendo-se atrás de seu pai e ao ver o cigano falou muito admirado: j

— Papai, este é o homem que pretendia afogar a Linda, quando eu a comprei!

— Chame, senhor, esse cão! — rogaram os intrusos.

— Não. Parece-me que merecem os seus ataques — respondeu severamente o pai de Joãozinho — Essa cachorra lhes devolve agora os pontapés e as pauladas que lhe deram. E penso que será capaz de os guardar enquanto eu chamo a polícia.

Assim fêz.

Quando chegaram os soldados, prenderam os ciganos e os levaram.

Os ladrões contaram, antes, ao pai de Joãozinho, que haviam tonteado a cachorra com uma paulada, levando-a em seguida ao estábulo, cuja porta fecharam para que não pudesse sair.

Joãozinho ternamente acariciou a cachorra e lhe disse que era o animalzinho mais inteligente do mundo, por ter tido a idéia de saltar pela janela.

Também tinha dado mostras de uma coragem extraordinária ao lutar contra aqueles dois criminosos, apesar de haver recebido tão forte pancada.

Mas Linda pouco se importava com a dor que lhe haviam causado.

Estava muito contente e orgulhosa e se sentia tão feliz, que n’ão podia permanecer quieta.

Lambeu as mãos de Joãozinho, esforçando–se de todos os modos imagináveis em lhe exprimir que o estimava muito e que se alegrava de todo o coração por tê-lo salvo dos ciganos.

Passou todo o resto de sua vida em companhia de Joãozinho, feliz e contente.

O menino todos os dias de festa lhe dava uma cesta cheia de pastéis e comidas gostosas.

O que pensam vocês que Linda lhe deu em troca? Um punhado de cachorrinhos, os mais lindos do mundo!

Pelo menos Joãozinho estava persuadido de que esse era o presente mais agradável que lhe poderia Linda ter feito.

Viveram todos muito felizes e Linda pôde conservar sempre ao seu lado todos os seus filhinhos.

FIM

(Trad. e adaptação de Leoncio de Sá Filho)

mai 162010
 

OS TRÊS LIMÕES

CERTO Sultão tinha um filho, pelo qual sentia justificado orgulho, porque êle era belo e de gênio jovial, e nunca se soube que houvesse cometido uma ação censurável.

No círculo da Corte, era êle o astro mais brilhante. O Príncipe era cortês para com todas as damas, mas não favorecia a nenhuma em particular; e como os anos iam correndo sem que êle manifestasse o desejo de escolher uma esposa, o Sultão tornou-se apreensivo.

— Meu filho, — disse êle certa vez, por que não escolheis uma noiva? Acho que já é tempo de vos casardes; eu seria tão feliz se vos visse pai de filhos, antes de deixar este mundo. Ser-vos-ia tão fácil fazer a vossa escolha entre as belas jovens que vos cercam! Eu não experimentaria dificuldade alguma se estivesse em vosso lugar! Temos tão lindas moças em nossa terra!

O jovem príncipe fitou seu pai, tornando-se pensativo.

— Eu desejo alguma coisa mais, do que aquilo que estas jovens me podem oferecer, querido pai! — explicou êle, — e se vós realmente quiserdes que eu escolha uma esposa, peço-vos que me deixeis realizar uma grande viagem em volta do mundo, a fim de que eu possa encontrar a princesa a quem devo dedicar o meu amor. Para que eu a ame, deverá ela ser bela como a madrugada, branca como a neve e pura como um anjo.

— Pensai bem, meu filho, — respondeu-lhe o Sultão. Que a boa sorte vos acompanhe e que volteis são e salvo: — é esse o meu desejo.

E sem mais demora, o Príncipe partiu. A temperatura era ríspida e gelada, e os transparentes flocos de neve, atravessados pelas irradiações da luz solar, cobriam os montes e os vales.

conto infantil ilustrado

Viu um belo navio

 

As ondas que bramiam e que se quebravam na praia distante, pareciam arrastá-lo para junto de si, tão apressado ia êle em direção ao porto.

Ali chegando, encontrou um esplêndido navio ancorado.

Achava-se ainda maravilhado e perplexo, pois não sabia porque, esse navio havia chegado até ali ignorando para onde era destinado e mãos invisíveis conduziram-no para bordo e seus pés pousaram no convés; a âncora levantou-se sem auxílio de ninguém e o navio zarpou.

Durante três dias e três noites, deslizou sobre as ondas, dirigido por um piloto sombrio, que não pronunciava uma palavra.

Na madrugada do quarto dia, houve uma pequena parada junto a uma ilhota, e o Príncipe teve a agradável surpresa de ver seu cavalo favorito sair do porão do navio, ajaezado com selim e rédeas, pronto para ser cavalgado.

Tirou, portanto, a conclusão de que devia estar sendo esperado em terra; conduziu o cavalo até a praia, e quando voltou-se, para contemplar o navio, viu que este havia desapare cido.

Não havia por ali nem sinal de habitação e o frio era tão intenso que êle mal podia segurar as rédeas. Apesar disso, cavalgou de cá para lá, sem destino, até que viu uma pequena casa branca, que parecia manter-se equilibrada no cume de uma colina e era batida por todos os lados pelo vento.

Bateu à porta com força esperando encontrar ali um pouco de fogo e, talvez algum alimento.

Seu chamado foi atendido por um velhinho, de cabelos raros e brancos como flocos de neve, o qual o encarou com ar interrogativo.

— Ando à procura de uma esposa, meu bom velhinho, disse-lhe o príncipe. Esta, porém, deve ser a princesa mais bela do mundo, e, tão boa quanto bela. Podeis dizer-me onde a poderei encontrar?

O velhinho encostou a porta.

— Não a encontrareis aqui, disse êle. Eu sou o Inverno e este o meu reino. Meu irmão Outono talvez vos possa ajudar; quanto a mim, não tenho tempo para pensar em amores. Encontrá-lo-eis se seguirdes sempre para a frente.

O príncipe agradeceu ao bom velho a sua indicação e cavalgou novamente a sua montaria, na esperança de que o Outono quisesse dar–lhe, afinal, pousada e algum alimento.

Depois de cavalgar mais algum tempo, percebeu que a neve havia desaparecido, e que frutos maduros, em grandes cachos, pendiam das árvores.

As espigas de trigo douravam os campos e os esquilos estavam muito ocupados em armazenar nozes para a sua provisão de inverno.

Dentro de poucos instantes chegou êle a uma casa cinzenta, situada junto a um bosque, e descendo novamente do cavalo, bateu à porta dá mesma.

Esta foi aberta por um homem de cabelos negros e abundantes e olhos côr de ameixas pretas. Suas faces eram coradas e seu olhar benevolente.

— Dizei-me o que desejais, meu bom senhor, — disse êle, num agradável tom de voz.

— Procuro uma esposa, — respondeu brevemente o príncipe.

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Ela lhe disse: Deveis estar cansado...

 

— Ah! — exclamou êle, — então não vos posso auxiliar, porque estou em verdade muito ocupado com colher os frutos e não tenho tempo a perder com essas coisas. Meu irmão Estio é que vive cheio de sonhos. Êle, certamente, vos poderá proporcionar aquilo que desejais. E, isto dizendo, fechou a porta.

Observou que, à medida que ia cavalgando, a grama da estrada ia-se tornando mais viçosa e que os campos se achavam matizados de espigas maduras, a ponto de serem ceifadas.

O ar era quente e acariciava-lhe as faces docemente.

Ficou muito contente, quando, por fim, avistou uma pequena casa amarela, sombreada por um grupo de árvores.

Quando bateu à porta, ouviu o som distante de uma cascata, e a esperança de mitigar a própria sede, fazia-se esta sentir mais forte em seu espírito, do que a de encontrar a mais bela princesa do reino do Estio.

Bateu à porta e seu chamado foi atendido por um homem robusto, coroado de belos cabelos côr de ouro brunido.

— Sinto muito não poder satisfazer o vosso pedido, — respondeu-lhe o Estio, assim que o príncipe lhe expôs o motivo de sua jornada, — porque também eu, estou muito ocupado. Diri-gí-vos à minha irmã Primavera: — ela é a amiga dos jovens e virá, certamente, em vosso auxílio.

O príncipe, ao ouvir isto, foi seguindo o seu caminho, até que avistou uma linda e pequena casa verde, junto a uma moita de lilazes.

Jacintos e violetas, junquilhos, narcisos e perfumados lírios do vale, floresciam junto às janelas; quando êle bateu à porta, uma bela dama de cabelos côr de linho e de olhos suaves e profundos, côr de violeta, apareceu no limiar.

— Não tereis compaixão de mim? — disse êle ofegante. Vossos irmãos mandaram-me à vossa procura. Ando em busca de uma esposa, que seja bela como a madrugada, branca como a neve e pura como um anjo do céu.

— Vós pedis muita coisa, — disse-lhe a Primavera, — farei, entretanto, tudo o que estiver a meu alcance, afim de vos contentar.

Entrai e descansai. Deveis estar cansado e faminto.

Com grande satisfação para o príncipe, fê-lo entrar num aposento longo e baixo, embalsamado pelo aroma de muitas flores.

Depois de o haver alimentado com pão e mel, e de lhe haver mitigado a sede com leite fresco, apresentou-lhe três lindos limões, numa bandeja de cristal.

Junto a estes, havia uma linda faca e uma rica taça de ouro, finamente cinzelada.

— Estes limões representam talismãs mágicos, — disse ela. Guardai-os, portanto, cuidadosamente. Voltai imediatamente para vossa casa e ide até a grande fonte que existe no jardim do palácio. Depois de vos assegurardes de que estais completamente só, tomai esta faca de prata e cortai pelo meio o primeiro limão.

Assim que fizerdes isto, uma encantadora princesa aparecerá diante de vós e vos pedirá água.

Se vós, nesse mesmo instante, lhe oferecerdes o que vos irá pedir, nesta taça de ouro, essa

princesa permanecerá a vosso lado e será vossa esposa; mas, se hesitardes, um segundo que seja, a princesa evaporar-se-á no ar e nunca mais a tornareis a ver. *

— Eu não cometerei a tolice de hesitar, — disse.o príncipe, — mas, se isso acontecer, ficarei então sem esposa?

— Nesse caso, deveis cortar o outro limão — respondeu gravemente a Primavera, e a mesma coisa acontecerá novamente. Se hesitardes ainda dessa vez e ainda dessa vez a outra princesa desaparecer, restar-vos-á a última probabilidade quando cortardes o terceiro limão. Se falhardes esta terceira vez, morrereis pela certa.

O príncipe quisera haver agradecido pela sua benevolência, mas ela ordenou-lhe que partisse imediatamente, e com um sorriso e um suspiro, disse-lhe que não tardasse.

O príncipe, com o coração cheio de uma alegria esperançosa, cavalgou novamente através do reino do Estio, do Outono e do Inverno, e quando chegou ao porto, achava-se ali ancorada a mesma embarcação que o trouxera, esperando suas ordens.

O vento foi favorável à sua viagem de regresso, e o navio, em menos tempo do que havia empregado para a ida, ganhou a enseada que ficava próxima ao palácio de seu pai.

Deixando o cavalo entregue aos cuidados de um lacaio, dirigiu-se apressadamente para o grande jardim, e depois de haver enchido a taça que lhe dera a Primavera com a água da fonte, cortou o primeiro limão.

Nem bem êle havia feito isto, uma linda princesa surgiu e lançando-lhe um olhar tímido, pediu-lhe água.

— Tenho sede, murmurou ela. Quereis dar-me de beber em vossa taça de ouro?

O príncipe ficou tão fascinado, que pôde apenas contemplá-la, e então, fazendo um gesto de censura, a adorável donzela evaporou-se.

Foi em vão que o príncipe lamentou sua estupidez. Fêz tudo quanto lhe veio à mente, mas não conseguiu que chegasse outra vez para junto de si.

Cheio de ressentimento, cortou a casca do segundo limão. E ainda desta vez, a água que brotava da fonte murmurante, tomou a forma de uma linda moça.

Linda Donzela

Apareceu uma linda donzela

— Bela como a madrugada e branca como a neve! — exclamou o príncipe extasiado. Tão

fascinado ficou que não pensou em satisfazer o pedido que a moça lhe fêz, de lhe dar um copo de água.

O príncipe, não conseguiu readquirir seus sentidos, senão quando a segunda donzela, também, desapareceu, e mais uma vez deplorou êle sua negligência quanto às advertências da Primavera.

Com os dedos trêmulos, cravou a faca de prata no terceiro limão, e quando o aroma ativo do fruto embalsamou o ar, outra princesa surgiu em sua frente.

Fechando os olhos para não ficar fascinado pela sua incomparável beleza, ofereceu-lhe imediatamente água em sua taça de ouro.

A donzela levou-a aos lábios, com um sorriso encantador, e esgotou-a até o fim.

O príncipe ria alegremente! Até que enfim encontrara a noiva por quem suspirava.

A princesa era mais bela do que um dia de verão.

Sua fronte e suas faces eram côr de neve, e sua expressão tão pura e gentil quanto a dos anjos.

Conduzindo-a a seu lado para um banco florido, tomou-lhe as mãos e fitou-a dentro dos olhos.

— Como sois linda! — disse êle. Esperai–me aqui, enquanto vou buscar uma carruagem doirada para nela vos conduzir ao palácio. Ficai junto à fonte até eu voltar. Quero trazer-vos um lindo vestido de cetim e um rico colar de pérolas com o qual adornareis vosso lindo colo.

Isto dizendo, o príncipe partiu e a bela princesa ficou à fonte, à espera do vestido e do colar.

Morava, naquelas redondezas, uma mulher, a qual tinha a seu serviço uma preta horripilante, entendida em assuntos de feitiçaria.

A senhora ordenou-lhe que fosse à fonte buscar água e deu-lhe um cântaro para que o enchesse.

A preta pôs-se a caminho, afim de executar a ordem de sua ama.

A princesa, vendo que alguém se aproximava, e não querendo ser vista, subiu a urna árvore, cujos ramos pendiam sobre a água, e o rosto da princesa nesta se refletia como num espelho.

Ao chegar junto à fonte, a preta pousou o cântaro e olhou para dentro da água.

Vendo a imagem da princesa ali reproduzida, julgou que fosse essa a sua própria imagem.

Ficou tão encantada, ao ver-se assim tão bela, que correu para junto de sua ama.

Uma vez ali, atirou o cântaro ao chão, que-brando-o, e disse:

— Vi meu rosto na água da fonte! Sou linda e não quero mais trabalhar!

A senhora repreendendo-a, disse-lhe que fosse novamente à fonte, deu-lhe um outro cântaro e lhe recomendou que não voltasse sem água.

A cena repetiu-se tal qual a primeira vez, e a preta voltou novamente com o cântaro vazio.

— Quero casar com um príncipe e morar em um palácio, — disse ela. Ao dizer isto, arremessou para longe de si o segundo cântaro e deu alguns passos em frente à sua ama, assumindo um ar tão ridículo de dignidade, que essa dama não poude deixar de soltar uma gargalhada.

A princesa subiu à árvore

A princesa subiu à árvore

 

 

— Se soubesse o quanto és feia, — disse então, assim que poude falar, não ousaria nunca dizer semelhante disparate. E proibindo-lhe que voltasse ainda mais uma vez sem trazer água, deu à empregada um terceiro cântaro e mandou-a novamente à fonte.

A linda princesa, sorriu ao vêr a mulher, quando esta chegou junto à fonte, cheia de cólera, rangendo os dentes e envesgando os olhos.

— Sou muito linda, — exclamou ela, em tom de triunfo. Tão bela quanto uma rainha.

Disse isto tão alto, que a princesa a escutou, e seu riso soou como se fosse um carrilhão de sininhos.

Olhando imediatamente para cima, a preta avistou-a entre os ramos, e a sua vaidade desiludida fêz com que ela ficasse quase muda…

Sua senhora tinha realmente razão, porque a linda visão que ela havia visto dentro da água não era o reflexo de sua própria imagem.

Olhou para cima com os olhos dilatados, e surgiram em seu íntimo pensamentos de vingança.

— Farei com que ela sofra, — murmurou irada. .. Abrindo, então, seus grossos lábios num falso sorriso, saudou a princesa dizendo–lhe: "Bom dia!" — Porque vos escondeis nessa árvore, linda moça? — perguntou-lhe gentilmente.

— Estou à espera de meu príncipe. Êle deixou-me aqui enquanto ia buscar, para que eu o vestisse, um vestido de cetim, e um colar de pérolas, murmurou a princesa docemente.

— Vossos cabelos doirados estão emaranhados pelo vento, — disse-lhe a preta. Deixai que eu me aproxime de vós e farei com que eles se tornem sedosos e macios. Não deveis estar despenteada quando vosso príncipe chegar.

— Como sois boa, — disse a princesa. Quando ela abaixou sua cabeleira loira em direção à preta, a traiçoeira mulher atravessou–lhe a cabeça com um alfinete longo e agudo.

A princesa caiu desmaiada, mas antes que o seu corpo tocasse o solo, ela transformou-se numa pomba branca como a neve, a qual voou lançando gemidos plangentes.

A mulher tomou o lugar da princesa sobre o galho, e, quando, finalmente, o príncipe apareceu, trazendo um vestido de cetim e um véu de noiva, foi a preta a quem avistou, olhando para êle de cima da árvore.

— Onde está minha linda princesa? — perguntou êle. Ela é bela como a madrugada, branca como a neve. Que foi feito dela?

— Ai! de mim! Querido príncipe, respondeu a negra tristemente, durante a vossa ausência uma feiticeira apareceu aqui e transformou-me, deixando-me conforme agora me vedes. Quando vós me provardes o vosso amor, fazendo de mim vossa esposa, tornar-me-ei novamente uma linda e encantadora princesa; porém, se me abandonardes, permanecerei horrenda para sempre.

Apesar do aspecto da negra lhe inspirar a maior repulsão, o príncipe lembrou-se de que era um homem de honra, e não podia, portanto, faltar à sua palavra.

Chamando as damas que se achavam esperando dentro da carruagem que êle havia trazido, para levar sua noiva até o palácio, pediu a estas que vestissem a preta com o vestido de cetim, e parecendo não reparar no espanto e no desgosto que estas demonstravam, levou-a até à presença de seu pai, apresentando-a como sua noiva.

1001 noites

Agarrou a pomba

 

O Rei ficou, como era natural, horrorizado com o seu aspecto; no entanto, quando o príncipe lhe explicou o que aquilo significava, consentiu que o príncipe a desposasse e ficasse à espera de que tudo corresse do melhor modo possível.

Enquanto o pai e o filho tratavam desse assunto, a negra percorreu todo o palácio, dando ordens descabidas aos servidores, tornando-se assim odiosa a todos eles.

Por fim, chegou ela até à grande cozinha, e ordenou ao cozinheiro-chefe, que preparasse ricos manjares para o jantar de bodas.

Ao dar esta ordem, em voz alta e estridente, passou junto à janela uma pomba branca e ligeira, pousando sobre o peitoril.

— Matem esta pomba, — exclamou ela, — e preparem-na para a minha ceia.

Não ousando desobedecer-lhe, o cozinheiro–chefe matou a pomba imediatamente, mergulhando uma faca afiada em seu peito de neve.

Três gotas de sangue caíram desde o peitoril da janela ao pátio, e um pequeno broto nasceu de cada uma delas.

Como se uma fada houvesse agitado sua varinha mágica, esses três brotos cresceram e transformaram-se em três árvores de fragrantes flores, e em menos tempo do que é preciso para dizê-lo, as flores, por sua vez, transformaram-se em lindos limões dourados.

Enquanto isto se passava, o príncipe andava à procura de sua noiva, porque, uma vez que èle se dispusera a cumprir um dever tão desagradável, desejava cumprí-lo de modo irrepreensível.

— Saiba S. Alteza Real que ela está na co-sinha — disse um de seus cortesãos escandalizado. Indo procurá-la, o príncipe passou sob o limoeiro. A vista de seus frutos trouxe-lhe um raio de esperança, e colhendo os três mais belos que encontrou, correu com eles para o seu

quarto, onde, depois de encher de água a taça de ouro, introduziu a lâmina da faca de prata na casca do primeiro limão.

Tal qual como acontecera a primeira vez, apareceu-lhe uma donzela e estendeu suas lindas mãos para a taça de ouro.

— Ah! Não! Vós sois encantadora, mas não sois a minha princesa.

Cortou então a casca do segundo limão e uma segunda princesa apareceu diante dele.

O príncipe, também desta vez, sacudiu a cabeça, negativamente. Não era essa sua querida princesa.

Finalmente, cortou o terceiro limão, e nesse mesmo momento, sua querida noiva lançou-se novamente em seus braços!

Grande foi a satisfação e o alívio do velho Sultão, quando o príncipe lhe disse que aquela linda moça era a sua noiva, ouvindo, também, com as sobrancelhas franzidas o relato que lhe fêz a princesa, de tudo o que havia acontecido quando seu bem amado a havia deixado junto à fonte.

Ordenou então que a negra fôssé trazida à sua presença, e fitando-a com ar severo, perguntou-lhe qual o justo castigo que, segundo sua opinião, devia ser inflingido a quem ousasse fazer afronta à noiva de seu querido filho.-

Desenho da linda princesa

Apresentou sua linda noiva ao Sultão

 

— Um castigo não menor do que a morte, — declarou, — e a morte pelo fogo.

Mandai lançar o ofensor dentro do forno do palácio de V. Majestade e depois mande fechar sua grande porta.

— Senhora, disse o Sultão secamente, — acabais de ditar a vossa própria sentença!

Transida de medo a negra foi levada para fora da sala.

No entanto, a boa princesa não quis que ela fosse condenada.

— Ela é uma pobre mulher ignorante, — disse, e já é uma triste coisa ser-se assim tão feia. Deixai-a partir livremente. Sou eu quem vos suplico. É a mercê que vos peço, como presente de noivado.

O Sultão não poude recusar o primeiro pedido de sua nova filha, e o príncipe olhou para ela apaixonadamente.

— Eu já sabia que vós éreis bela como a madrugada e branca como a neve — murmurou êle, e agora vejo que sois também boa como um anjo.

E apesar dos anos vindouros, lhe haverem trazido tantas tristezas quanto alegrias, o príncipe continuou a ser, em verdade, abençoado; e a princesa, amada pelos seus súditos, o coadjuvou em seu governo.

O príncipe, cada vez que via um limoeiro, enviava um pensamentos de gratidão à primavera, pelos mágicos presentes que esta lhe oferecera, e, em virtude dos quais, êle havia alcançado o que desejara. FIM (Trad. e adaptação de Leoncio de Sá Filho)

mai 152010
 
O caçador furtivo, conto infantil

O CAÇADOR FURTIVO

PEDRO estava almoçando em companhia de seus pais. Prestava muita atenção à conversa dos mesmos, porque de fato era muito interessante.

— Há muitos caçadores furtivos nos bosques — disse o pai. — Joaquim, o guarda, diz que não sabe quem é o culpado, mas, que todas as noites desaparecem coelhos e aves. Deve, forçosamente, ser algum forasteiro!

— Escuta, papai — interrompeu Pedro — Joaquim não viu o caçador furtivo?

— Sim! Julga que uma vez chegou a vê-lo! — respondeu o pai. — É um indivíduo alto, forçudo e com barbas!

Pedro ficou muito preocupado com o caçador furtivo e pensou que um dia Joaquim havia de surpreender o criminoso.

— Se eu tivesse uma espingarda como Joaquim, havia de perseguí-lo todas as noites, e não teria medo algum! — pensou o menino. — Oxalá pudesse descobrí-lo!

Dois dias depois, quando o sol se punha, deu-se a casualidade de estar Pedro debruçado à janela mais alta de sua casa.

Procurava ver se descobria seu amigo Tomás, o filho do guarda, na colina situada em frente da casa.

Enquanto olhava, seus olhos se fixaram num indivíduo alto, que desaparecia nos bosques de seu pai.

O sol poente fez brilhar por um instante a arma de fogo que o desconhecido levava debaixo do braço.

Pedro imediatamente se lembrou de que aquele indivíduo poderia muito bem ser o caçador furtivo.

— Quem será esse que a estas horas se mete nos bosques de papai? É alto e leva espingarda! Se fôr o caçador furtivo que hei de fazer eu agora?

Pensou fosse o caçador furtivo

Pensou fosse o caçador furtivo

Desceu correndo e dirigiu-se a Jaime, o cocheiro.

— Jaime, Jaime! — exclamou arquejante. — Nos bosques está um caçador furtivo! Veja se pode apanhá-lo!

— Calma, calma, Pedrinho! — respondeu Jaime sorrindo. — Estou vendo que queres caçoar comigo! — acrescentou.

— Juro que é verdade, Jaime! — exclamou o menino, agarrando-se ao braço do cocheiro. — Faz-me o favor de ir lá antes que seja tarde e que êle mate todas as aves e todos os coelhos de papai!

— Não diga tolices! — replicou o cocheiro. — Tenho muito o que fazer e se quiseres vái tu mesmo apanhar esse caçador furtivo!

Pedro compreendeu que era inútil insistir com Jaime, e, por isso, saiu a correr.

— Não há tempo de ir em busca de mais ninguém — pensou. — E se eu mesmo fosse apanhá-lo na floresta?

Correu em direção ao bosque e, antes mesmo de haver pensado no que faria, esbarrou com o desconhecido.

— Quem é você, menino? — perguntou aquele.

— Pouco lhe importa saber! — respondeu Pedro bruscamente, porque se sentia muito corajoso. — Você é um caçador furtivo! — Joaquim já o viu uma vez. Você é alto, usa barba e traz espingarda! E hoje voltou para caçar indevidamente nos bosques de meu pai! Faça o favor de me acompanhar!

O desconhecido pôs-se a rir.

— E onde pretende levar-me? — perguntou.

— Aqui perto, em casa de meu pai! E não resista, porque papai ficará muito zangado!

— E se eu tentar fugir? — perguntou o homem. — O que fará você?

— Seguí-lo-ei — respondeu Pedro. — E posso afirmar-lhe que corro com muita rapidez! Além disso gritaria chamando Joaquim, o guarda, de forma que não tardaria em ser o senhor preso. É melhor vir comigo, porque se livrará dos ponta-pés e bordoadas que Joaquim certamente lhe aplicaria!

— Bom! — concordou o desconhecido. — Entrego-me e o acompanho.

Pedro o segurou pela manga do casaco e, tirando-o do bosque, levou-o até à sua casa.

O desconhecido o seguiu docilmente, sem intentar sequer a fuga.

Pedro se considerava muito valente.

Acabava de prender, êle sozinho, um caçador furtivo.

O que iria dizer o seu pai quando eles chegassem?

Além disso, estava muitíssimo contente porque todos os seus colegas de escola ficariam sabendo que êle era valente e não tinha medo de um caçador furtivo.

Considerava-se um herói completo!

— Papai! Papai! — gritou ao chegar. — Venha ver o caçador furtivo! Eu o prendi e encerrei-o no telheiro! Tem espingarda e bolsa, que com certeza deve estar repleta de coelhos.

Papai e mamãe apressaram-se a acudir muito surpreendidos e Pedro os conduziu ao telheiro.

— Cuidado! — disse êle ao pai. — Pode tentar uma fuga e nos apanhar de surpresa!

Pedro foi à África com seu tio Guilherme

Pedro foi à África com seu tio Guilherme

Papai abriu a porta e olhou para dentro. Deu um grito de assombro e entrou no telheiro.

— Guilherme! Querido Guilherme! — exclamou. — De onde vens? Não esperávamos que você chegasse tão cedo!

Aquele homem de elevada estatura saiu sorrindo e segurando no braço de papai.

Pedrinho não podia compreender o que significava aquilo.

Pois não é que seu pai tratava amigavelmente aquele desconhecido?

— Este é o teu tio Guilherme! — disse o pai a Pedro. — Vem de caçar tigres em um país muito distante, para passar uma temporada conosco. E você menino foi prendê-lo, confundindo-o, com um caçador furtivo!

Meu Deus!

Pedro ficou vermelho como um tomate e muito envergonhado olhou para o seu tio Guilherme!

— Sinto muito! — disse por fim. — A verdade é que pensei mesmo que o senhor fosse um caçador furtivo!

O menino acrescentou ainda:

— Por que então, o senhor não me disse logo que era o tio Guilherme? Teria evitado o aborrecimento de fechá-lo no telheiro!

— Você é o menino mais valente que tenho conhecido — respondeu o tio. — Você sozinho me apanhou e me prendeu quando eu menos esperava! Prometo um dia levá-lo comigo, porque estou orgulhoso de ter um sobrinho como você!

A aventura, pois, não teve consequências.

Papai estava muito orgulhoso de Pedro e a mesma coisa pensava a mamãe.

Assim, portanto, Pedro não se envergonhou quando, brincando, zombavam dele por ter encerrado o tio Guilherme no telheiro do jardim, pensando ser um herói conforme vira no cinema.

Entretanto, no íntimo, Pedrinho estava desgostoso.

Se os seus amiguinhos viessem a saber do acontecido, caçoariam dele e teria que demonstrar que não admitia brincadeiras

Pedro e o tio Guilherme se fizeram muito bons amigos.

Não tardaram em empreender uma viagem muito longa, não para prender caçadores furtivos, mas, para matar tigres na África. Lá pôde demonstrar a sua coragem não fugindo nunca aos constantes perigos das florestas africanas.

Hoje êle tem satisfação em ter sido valente.

Sede, pois, meus meninos, corajosos e vencereis sempre na vida.

(Trad. e adaptação de Leoncio de Sá Filho)
mai 152010
 

Histórias Infantis – OS DEZ URSINHOS

ERA uma vez dez ursinhos que moravam na cidade das Doçuras. Moravam em dez casinhas colocadas uma ao lado da outra. Amavam-se muito e saíam sempre juntos.

As casinhas eram numeradas de um a dez e cada um dos ursinhos conhecia muito bem a sua casinha lendo o número da porta.

Um dia, resolveram sair. todos juntos, para colher cogumelos. Vocês precisam saber que os melhores cogumelos que havia, estavam num grande campo próximo, pertencente a um velho muito mau, que se chamava Carrancudo.

Por isso, o maior dos ursinhos, antes de ir colher os cogumelos, escreveu uma carta ao velho, solicitando-lhe permissão para isso.

O senhor Carrancudo deu licença e os ursinhos ficaram muito satisfeitos com a grande novidade.

Era uma coisa muito divertida apanhar cogumelos. Cada ursinho levava uma cesta e tinham que se levantar às cinco e meia da madrugada, quando os campos estavam ainda úmidos de orvalho.

Combinaram reunir-se em frente à casa número 10, na qual morava o maior deles, porque pretendiam partir todos juntos.

O caminho era muito comprido porque havia uma grande distância até ao campo do senhor Carrancudo.

Era um sábado de manhã, muito cedinho, quando os ursinhos se reuniram, caregando cada um a sua cestinha.

O sol brilhava no horizonte, o dia despontava magnífico, o orvalho resplandecia na relva. Era uma linda manhã para colher cogumelos!

— Bom dia!

— Bom dia!

— Bom dia! — gritaram os ursinhos, um depois do outro. Como vai ser divertido tudo isto e com um belo tempo deste!

Eram dez lindos ursinhos

Eram dez lindos ursinhos

Puseram-se a caminho, cada um com sua cestinha pendente do braço. Alguns davam saltinhos curtos, faziam piruetas, os demais corriam.

Sentiam-se muito felizes e esperavam trazer muitos cogumelos para fazerem um explên-dido jantar e venderem os restantes no mercado, a dez cruzeiros o quilo!

Que espetáculo se lhes ofereceu aos olhos, ao chegarem ao campo dos cogumelos! Quantos havia! Que abundância! Grandes, pequenos, largos, chatos!. . .

Formavam uma bela coleção que ali crescia à espera de que os ursinhos os fossem colher!

Puseram-se a trabalhar.

Era muito interessante e animadora a rapidez com que iam enchendo as cestinhas!

O maior dos ursinhos vigiava com o rabo dos olhos a casa onde morava o senhor Carrancudo. Vigiava para ver se o velho cachorro Rompe-Ferros não sairia a correr sorrateiramente para lhes pregar um susto.

Nada aconteceu. Apenas o fumo que saía da chaminé da casa do velho lhes dava a entender que êle estava levantando. Finalmente, quando as dez cestas estavam cheias o maior dos ursinhos disse:

— Está na hora de partirmos. Sigam-me.

Um atrás do outro os dez animaizinhos percorriam o caminho que cortava o campo e saltaram a vala que havia no fim. Atravessaram o bosque e tomaram a estrada que ia para a sua cidade.

Ali chegados, encontraram o velho "Dorme-Tarde", um fantoche de rosto negro que vivia na cidade vizinha.

Êle trazia uma grande cesta e ia colher cogumelos no campo do senhor Carrancudo.

Mas, como havia levantado muito tarde, já os ursinhos tinham colhido todos.

— Como sempre você chega quando tudo já acabou, "Dorme-Tarde" — exclamaram a rir. — Talvez você seja muito esperto, porém, tem 10X10 demais para colher os melhores cogumelos! Ah, ah, ah!

"Dorme-Tarde" ficou tão vermelho quanto permitia o seu carão preto. Sabia que era preguiçoso.

Era um fantoche muito esperto, muito inteligente, mas não tinha coragem para levantar-se cedo. Gostava demais da cama. Assim, achou que os ursinhos eram muito grosseiros por se rirem dele.

— Encherei minha cesta de cogumelos — pensou, e disse. — Hão de ver que ainda trarei mais do que vocês todos!

— Chiii!… — responderam os ursinhos. — Não resta nenhum, não encontrará nada.

O fantoche saiu muito aborrecido e desapontado.

Os ursinhos puseram-se á rir novamente e entreolharam-se muito contentes. Não acontecia muitas vezes que pudessem caçoar de um fantoche tão esperto como aquele!

— Suponho que todos estamos aqui — disse o maior, olhando os que o rodeavam. —

Devemos nos contar para ver se os dez saímos sãos e salvos do campo do senhor Carrancudo.

— Pois contemos já! — replicou o menor de todos

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Dorme-Tarde viu os ursinhos com as cestas

Assim fêz, indicando com o dedo um ursinho alternativamente. — Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove… Oh! Aqui estamos só nove!

— Santo Deus! — exclamou o maior tornando-se pálido.

— Não diga que ficou algum de nós para trás! Qual foi?

Não puderam esclarecer qual faltava. Ali estava o maior deles e o menor, o mais gordo e o magrinho, o de gravatinha azul e o de gravata vermelha. Que coisa estranha! Quem teria ficado para trás?

— Esperem que eu vou contar de novo — disse o ursinho magrinho. E contou lenta e cuidadosamente, indicando a todos os seus amigos, à medida que o fazia. — Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove. Que coisa mais horrível! Só estamos aqui nove e saímos dez! Não seria mais prudente voltarmos atrás a fim de verificarmos quem foi que perdemos? E se o senhor Carrancudo o houvesse agarrado?

Que ursinhos tolos eram aqueles! Vocês não sabem o que eles faziam? Pois simplesmente isto, quando se contavam para ver quantos eram, cada um se esquecia de contar a si próprio!

Claro que dessa forma se encontravam nove ursos, porque o décimo que era aquele que estava contando, não se lembrava de se incluir na conta, junto aos outros companheiros!

Quando estavam pensando se deveriam voltar ao campo do senhor Carrancudo, para procurar o ursinho que julgavam estar faltando, ouviram que alguém se aproximava pelo bosque de onde haviam saído.

— O décimo urso! — exclamaram alegres, mas, estavam enganados. Era o "Dorme-Tar-de", o fantoche, que voltava do campo com a cesta vazia.

Não tinha encontrado nem um cogumelo sequer.

O recém-vindo surpreendeu-se e teve um gesto de contrariedade ao ver os ursinhos no mesmo lugar onde os havia deixado. Pensou que o estavam esperando para se rirem dele ao vê-lo voltar sem fungos.

— Oh! — exclamou, meio desapontado. — Por que vocês ainda estão aí?

— Venha cá, fantoche, você viu algum dos nossos pelo campo? — perguntou o maior deles — Um de nós ficou por lá!

— Não! Não estava ninguém lá! — respondeu o fantoche admirado. Nem uma alma! A única coisa que vi foi a fumaça da chaminé da casa do Carrancudo.

— Nossa Senhora! — gemeram os ursinhos — O senhor Carrancudo terá agarrado o nosso pobre companheiro e o estará assando para o jantar! Ooooh!. . . exclamaram apavorados!

Os ursinhos deixaram as cestas no chão, tiraram seus grandes lenços brancos e choraram derramando lágrimas em cascatas. O fantoche nem podia tornar a si do espanto causado por aquela cena. Contou rapidamente os ursinhos e verificou que estavam os dez.

Por que haviam de .pensar que um deles estava perdido? Eram somente dez os ursinhos que viviam nas dez casinhas da cidade das Doçuras!

— Quantos eram vocês ao saírem esta manhã? — perguntou êle admirado.

— Dez! — soluçou o mais velho — E só voltamos nove! Olha… Deixe-me contar.

Indicou todos os seus amiguinhos, um atrás do outro, contando-os: Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove… Está vendo? Só nove! Oh! Fantoche, você é capaz de ir buscar o décimo ursinho à casa do velho Carrancudo?

"Dorme-Tarde" ficou com os fungos

Dorme-Tarde ficou com os fungos

O fantoche verificou que o tolo do ursinho tinha deixado de contar a si próprio. Pouco faltou para que rebentasse numa risada estrepitosa, porém, conseguiu se conter.

— Digam-me, o que me darão se eu encontrar o décimo ursinho?

— Dar-lhe-emos os nossos melhores e mais belos fungos! — disse o maior deles muito excitado. — Olhe, vamos encher a sua cesta. Se você encontrar o nosso amiguinho perdido, serão todos seus os cogumelos!

O fantoche sentiu grande alegria ao ver que os mais belos cogumelos iam parar em sua cesta. Quando a cesta ficou cheia até à boca, os ursinhos o fitaram.

— Agora, por favor, volte ao campo do senhor Carrancudo e procure o nosso companheiro! — suplicaram eles.

— Não é preciso — disse o fantoche, apanhando a sua cesta — O décimo urso está aqui.

— Aqui! — exclamaram todos assombrados. — Onde? Não o vemos! Mostre-nos!

— Pois bem! Vou contá-los e vocês verão que aqui estão todos! — disse o fantoche a rir. — Ponham-se em linha. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove e dez! Aí estão!

Dez, e tão tonto é um, como os outros! Ora vejam só! Quem se riu de mim esta manhã porque cheguei tarde para colher cogumelos? Por acaso não tenho agora os melhores? Vocês precisam pensar duas vezes, ursinhos, antes de se rirem do fantoche!

Ditas essas palavras, "Dorme-Tarde" partiu com a sua carga, a rir-se muito dos pobres ursinhos! Estes ficaram a entreolhar-se admirados.

Como se havia arrumado "Dorme-Tarde" para contar dez ursinhos?

Era um milagre!

Realmente era um mistério! Até hoje os ursinhos ainda não podem compreender como se deu tão maravilhoso fato! Tolinhos!

Muito tolinhos, não acham?

(Trad. e adaptação de Leoncio de Sá Filho)

set 122009
 

Rapunzel

IRMÃOS GRIMM
Ilustrado por SÉRGIO

Fonte: Ed. Abril Cultural. Col. Fábulas Encantadas, 1970.

Rapunzel fábula infantil

Esta moça de trança
Longa e macia é prisioneira da bruxa numa torre alta e sombria.
Rapunzel das longas trancas espera ser livre um dia.
Virá alguém libertá-la?
A estória aqui principia.

 

Era uma vez um lenhador, que vivia feliz com sua mulher numa casa simples, mas confortável.

Eles tinham um cachorro grandão e peludo e três pombinhas brancas.

Os dois estavam na maior das alegrias porque ia nascer um nenê para fazer companhia a eles.

Por isso a mamãe tratava de fazer as roupinhas para a criança, enquanto o papai construía um bom bercinho.

E o cachorro vigiava a casa, preso na corrente, perto da porta de entrada.

 

 

Ao lado da casa do lenhador morava uma velha bruxa, banguela, feia e egoísta, que nunca dava nada para ninguém.

A bruxa tinha um quintal enorme, muito bem cuidado, onde havia um pomar e uma horta cheios de frutas e verduras gostosas.

Mas a bruxa era tão egoísta que mandou cercar o quintal com um muro bem alto. só para que ninguém tivesse o gostinho de olhar o que havia lá dentro!

Acontece que a casa do lenhador tinha uma janela que se abria para o lado do quintal da bruxa. Uma manha, sua mulher, indo até a janela, viu os lindos rabanetes da horta da bruxa, vermelhinhos e apetitosos. —   Eu bem que gostaria de comer alguns… — pensou ela. — Pena que não são nossos e a velha bruxa não dá nada para ninguém…

Era tanta a vontade de comer aqueles rabanetes vermelhinhos… Mas o jeito era ter paciência. Não adiantava cobiçá-los. Um dia a mulher ficou doente, muito ruim mesmo. Não conseguia comer nada do que o marido lhe trazia. Passou-se um dia, e mais outro… Ela só falava nos rabanetes e não comia outra coisa. O lenhador decidiu então ir buscar aqueles famosos rabanetes. Esperou a noite ficar bem escura, para que a velha bruxa não o visse.

rapunzel02

rapunzel , contos de fada grimm

Devagarinho, devagarinho, escorregou da janela para dentro do pomar, e… zapt!. Arrancou um punhado. Os rabanetes estavam gostosos mas tão gostosos que a mulher quis comer mais no outro dia e no outro e no outro ainda! O pobre marido teve que voltar várias noites ao quintal da velhota, para colhê-los. Enquanto isso, sua mulher, graças aos rabanetes, dia a dia sentia-se mais forte.

Numa noite escura, quando colhia os rabanetes, o lenhador viu a velha bruxa surgir diante dele, cercada por seus corvos de estimação.

— Olhem só! — disse a velhota. — Então o misterioso ladrão dos rabanetes era você, hein? Bem que meu corvo predileto já tinha me falado!

O lenhador explicou que os rabanetes   eram para sua mulher, que não queria comer outra coisa.

A bruxa sabia de tudo, nem precisava de explicação. E aproveitou para pedir em troca dos rabanetes a criancinha que ia nascer. O pobre lenhador tremia tanto, mas tanto, que seus dentes batiam um no outro: tac, tac, tac… Apavorado diante da velha bruxa, nem conseguiu dizer não. — Não precisa se preocupar — disse ela. — Eu vou ser boazinha. serei uma verdadeira mãe para o bebê, pode acreditar em mim.


rapunzel e a bruxa, irmãos grimm

Depois de pouco tempo, nasceu a menina, gorduchinha e de cabelos loiros.

O lenhador e a mulher ficaram muito contentes.

Cuidaram da criança com todo carinho. Toda noite   cantavam para  ela:

Dorme, nenê,

No teu bercinho lindo.

Papai está contente,

Mamãe está sorrindo.

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Mas logo a velha bruxa veio buscá-la. Os pais choraram muito e pediram-lhe que não levasse a menina, mas nao adiantou. A velha levou-a e lhe deu o nome de Rapunzel. A menina cresceu, cada vez mais bonita.

rapunzel

Passaram-se os anos e Rapunzel ficou linda… Seus cabelos loiros cresceram e todos os dias ela os penteava fazendo duas longas tranças. A velha bruxa, feia e banguela, com um dente só, num cantinho da casa começou a pensar:

— Rapunzel é linda. Preciso escondê-la para que ninguém a roube de mim. Devo fazer alguma coisa… Já sei! Vou levar Rapunzel para a floresta e trancá-la em uma torre! Isso mesmo! Uma torre com uma janela só e… sem porta, para que ninguém possa entrar lá… Ponho uma escada para Rapunzel subir na torre, mas, depois que Rapunzel estiver presa, eu levo a escada embora! E… como é que eu me arranjo depois para ir vê-la? Já sei! Não dou nenhuma tesoura para Rapunzel. Assim ela não poderá cortar os cabelos. Eles crescerão cada vez mais e ela ficará com duas tranças tão compridas, que servirão de cordas! É isso mesmo! Toda vez que eu quiser falar com Rapunzel, subirei pelas trancas! Assim ninguém mais poderá visitar Rapunzel, só eu!

A velha bruxa fez o que planejara e Rapunzel ficou presa lá na torre. A menina loira passava o tempo todo a fazer suas longas tranças e repetir as canções que os passarinhos, seus amigos, cantavam.

Cada vez que a bruxa velha queria visitá-la, ia até a torre. Primeiro olhava para todos os lados, para ver se não havia ninguém por perto. Olhava muito bem e depois gritava lá de baixo:

— Rapunzel! Jogue-me suas trancas! E Rapunzel respondia:

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— Já vai!… Mas suba devagarinho!

A menina jogava as tranças pela janela e a velha subia, toda contente da vida. Uma tarde, enquanto a menina cantava, passou por ali um príncipe, que a ouviu:

Queridas estrelinhas

que brilhais

nas noites mais bonitas,

eu jamais

deixo esta torre; e espero

enquanto o tempo

corre e corre e não volta nunca mais…

Quem será que tem uma voz tão bonita assim? — pensou o príncipe.

O príncipe andou ao redor da torre e não viu nenhuma entrada. Ficou com muita vontade de saber quem é que cantava, presa naquela torre sem porta. Ouvindo um barulho de gente pisando nas folhas secas que cobriam o chão, escondeu-se depressa e viu a velha bruxa, Ela chegou embaixo da janela e gritou:

—      Rapunzel, jogue-me suas trancas!

O príncipe descobrira o segredo! Na noite seguinte, com muito cuidado, ele chegou bem perto da parede da torre e gritou:

—      Rapunzel, jogue-me suas tranças!

A menina ficou meio indecisa por causa daquela voz diferente, mas pensou que a velha estivesse resfriada e jogou as tranças.

Ágil e rápido, o príncipe subiu por elas.

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rapunzel jogos	rapunzel historia rapunzel disney rapunzel desenhoQuando o príncipe entrou pela janela, Rapunzel exclamou, assustada:

— Oh! Não é,a velha bruxa! Quem é você, então?

O príncipe contou o que acontecera e Rapunzel, com medo de que a bruxa se zangasse, falou:

— Você precisa ir embora o mais depressa possível!
Se a bruxa o encontra aqui…

Depois, pensando um pouco, mudou de idéia:

— Bem que eu gostaria de ter companhia… estou sempre tão sozinha… é tão triste…

O príncipe prometeu vir visitá-la todas as tardes.

 

 

 

 

E assim aconteceu… e chegou o dia em que os dois amigos descobriram que seria bom que ficassem sempre juntos. Resolveram se casar. Mas, e a torre? Como sair dela?

rapunzel jogos	rapunzel historia - rapunzel disney -rapunzel desenhoRapunzel, muito animada, teve uma boa idéia, que contou logo para o príncipe.

— Toda vez que você vier à torre, traga um pedaço de corda.  Depois nós emendamos os pedaços e fazemos uma escada com eles. No dia em que a escada estiver pronta, é só amarrá-la na janela… e descer!

O plano era bom e o príncipe prometeu trazer as cordas. Depois levaria Rapunzel para seu reino, onde se casariam.

 

Mas acontece que Rapunzel era muito distraída, e um dia, quando a velha estava subindo pelas tranças, ela disse sem querer:

— Mas como a senhora está gorda! Parece até que está mais pesada que o príncipe!

A bruxa, doida de raiva, descobriu tudo. Furiosa, imediatamente pensou na melhor maneira de impedir que Rapunzel tornasse a ver o príncipe. A primeira coisa que fez foi cortar as tranças de Rapunzel. Não adiantou nada a menina chorar e pedir perdão. A velhota estava danada mesmo. Com uma só tesourada, lá se foram as trancas para o chão. E a bruxa não parou por aí. Chamou seus corvos, fez uma reunião com eles e ordenou que levassem Rapunzel para o deserto, para que ela vivesse sozinha, longe de todo mundo. Mas o príncipe, que não sabia de nada, voltou a visitar Rapunzel. Chegou embaixo da janela e gritou:

— Rapunzel! Jogue-me suas tranças!

A velha, que estava escondida lá na torre, jogou as trancas e puxou o príncipe para cima. O príncipe levou um susto enorme quando viu aquela cara feia dizendo:

— A menina não está mais aqui, seu danado, ela foi para muito longe! Ah! ah! ah!

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Dando uma gargalhada, a bruxa largou trancas onde o príncipe estava, suspenso e ele caiu lá do alto para o chão. Coitado do príncipe, tão bonzinho que era. A bruxa, com as mãos na cintura, ficou olhando para baixo e quando viu o que aconteceu com o príncipe, deu mais uma gargalhada, a malvada! Se o príncipe tivesse caído no chão. apenas, ainda nao seria tão grave, mas ele caiu em cima de uma enorme roseira. Ficou todo espetado, machucado e cego.

 

 

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rapunzel grimm fadas e o príncipe floresta encantadaMesmo machucado, mesmo cego, mesmo sozinho, o príncipe resolveu que iria procurar Rapunzel. Os esquilinhos viam o estado do rapaz e cochichavam:

— Mas aquele não é o príncipe? Coitado, como ele está machucado! E ainda vai procurar Rapunzel… Que judiação o que a bruxa fez com eles!

— Rapunzel! Rapunzel, onde é que você está?—ia chamando o príncipe por onde passava, procurando sua amada.

 

Até que um dia, cansado e sem saber que direção deveria tomar, percebeu que tinha chegado a um deserto.

— Não agüento mais, sei que não vou encontrar Rapunzel, ela está perdida para sempre… Vou gritar o nome dela pela ultima vez:

— Rapunzeeeeeelll!

E o príncipe caiu na terra quente.

Acontece que Rapunzel estava ali perto!

Ela ouviu a voz desesperada de alguém que a chamava.

Andou até ver o moço, que de longe parecia um viajante desconhecido.

— Como será que ele sabe meu nome? — pensou ela.

 

Chegando bem perto, viu que era o seu príncipe!

Quando descobriu que ele estava cego, Rapunzel começou a chorar.

Duas lágrimas suas caíram dentro dos olhos do rapaz, e

imediatamente ele começou a enxergar outra vez !

Que coisa maravilhosa! Rapunzel estava ali mesmo, bem juntinho dele!

rapunzel e o príncipe finalmente juntos

Os dois jovens, finalmente reunidos, deixaram o deserto e foram para o palácio do príncipe. Lá se casaram e foram felizes. O pai e a mãe de Rapunzel vieram para o palácio morar com a filha, que nunca fora esquecida por eles. E a bruxa egoísta ficou presa na torre e nunca mais saiu de lá.

E assim termina a história
de Rapunzel e o príncipe encantado;>br/> do amor tão grande e firme
que os guiou para o encontro desejado
vencendo a bruxa má
com seus bruxedos todos desmanchados