jun 052014
 

Tremores de terra

(Causas) +

E’ muito natural que o leitor deseje saber qual a causa dos tremores de terra. Vamos pois satisfazer êste desejo.

Primeiro que tudo é preciso que se saiba que quanto mais se desce para o interior da terra, maior é o grau de calor. As esca­vações ou minas, feitas pelo homem no seio da terra para extrair os minerais, assim no-lo provam: quanto mais se profunda a terra, mais vai aumentando o calor. Por cada trinta metros de profun­didade aumenta o calor um grau.

Reina ali uma temperatura elevadíssima que se mantém cons­tante durante todo o ano; quer de verão quer de inverno, o calor é sempre o mesmo.

terremoto de lisboa 1755

Numa mina de 1151 metros de profundidade, o termômetro acusava uma temperatura permanente de 40 graus, — quase a temperatura das regiões mais quentes do globo.

Quando mais baixo se desce, mais alta vai sendo a tempera­tura; e disso temos uma prova na água tirada das profundidades da terra. A água chega à superfície com a temperatura existente nessas profundidades, esclarecendo-nos assim acêrca da distribuição do calor nas entranhas da terra.


Já ouviram iaiar nos poços artesianos — uns ruros acertos no solo, por meio de brocas de ferro, para extrair a água dos depósi­tos subterrâneos, alimentados quer pela infiltração dos rios quer l>elos dos lagos vizinhos.

De poços artesianos de 547 metros de profundidade, extrai-se água à temperatura constante de 28 graus. De outros da profun­didade de 760 metros, a temperatura é de 35 graus; sempre a mes­ma relação: um grau por cada trinta metros.

De maneira que, se abríssemos poços muito profundos, encon­traríamos água a ferver; a dificuldade é atingir a profundidade requerida. Para encontrarmos água a ferver, fôra, preciso abrir um poço de uma légua de altura, o que é impossível; no entanto conhece-se um grande número de nascentes dágua que ao sair do solo têm uma temperatura elevadíssima, às vêzes a da água a fer­ver. Estas águas chamam-se termais, quer dizer de origem quen­te; portanto nos sítios donde vêm, existe calor suficiente para aquecê-las, e até fazê-las ferver.*

No Estado de Minas Gerais, há as famosas fontes termais de Poços de Caldas, e também no nosso Estado descobriram-se algu­mas fontes denominadas — Ãguas do Mel — no município de Pal­meira (das Missões). Algumas destas águas têm uma tempera­tura de 40 graus, e portanto vêm de uma profundidade de mil me­tros mais ou menos.

Mas essas fontes nada são comparadas com as que existem nos Estados Unidos e sobretudo na Islândia — uma grande ilha situada na extremidade do norte da Europa, coberta, de gêlo a maior parte do ano. Há na ilha um grande número de fontes de água quente a que os naturais chamam Geisers. A mais notável, o grande Geiser, tem a sua origem numa vasta bacia situada no cume de um outeiro formado pelas incrustações depositadas pelas águas.

O interior desta bacia estreita-se em forma de funil que se ramifica em condutos tortuosos, os quais vão mergulhar a uma profundidade desconhecida.

As erupções dêste vulcão d’água a ferver fazem-se anunciar por estremecimentos do solo e uns ruídos surdos, semelhantes ao troar duma descarga subterrânea de artilharia.

As detonações vão-se tornando cada: vez mais fortes, e o solo estremecendo com mais violência até que a água rebenta precipi­tadamente e enche a bacia onde, por alguns momentos, acontece o mesmo que numa caldeira aquecida a um enorme braseiro. A água começa, em meio de vapores, a levantar grandes borbulhões.

De repente o Geiser desenvolve tôda- a sua fôrça: abre numa forte explosão, arremessa aos ares uma coluna de 60 metros de alto e 6 de largo, que forma um repuxo coroado de vapores brancos e caindo em jorros ferventes.

Êste repuxo colossal dura apenas instantes. Em pouco tempo


a coluna líquida abate, a água da bacia escoa-se, engolfa-se nas profundezas da cratera e é substituída por uma coluna impetuosa de vapor, que irrompe com o bramido do trovão, despedindo com uma fôrça prodigiosa fragmentos de rocha da cratera*

Tudo quanto está em redor desaparece envolto em turbilhões de fumo.

Por fim serena, e o fumo do Geiser dissipa-se para mais tarde aparecer e reproduzir fenômeno idêntico.

Tudo isso prova que, — como já dissemos, — existe no inte­rior da terra uma grande fonte de calor.

Com efeito, admitindo, como nos faz crer o conjunto de ob­servações, que a temperatura subterrânea aumenta com a profun­didade, na relação de um grau por cada 30 metros, segue-se que a três quilômetros encontraremos a água a ferver, isto é a cem graus.

A vinte e cinco quilômetros abaixo do solo, o calor será igual ao de ferro em brasa; a sessenta, haverá o suficiente para derreter tôdas as substâncias que conhecemos; e finalmente no centro da terra, a temperatura será de 200.000 graus, calor mais fácil de cal­cular do que de conceber. Desta sorte devemos considerar a, terra como um globo de matéria tornada líquida pelo calor, coberta com uma crosta sólida, mas pouco espêssa, que envolve êste oceano de matéria em fusão.

Digo pouco espêssa, porque a espessura da camada sólida da terra não excede a sessenta quilômetros; e sessenta quilômetros é pouquíssima espessura, relativamente ao volume do globo terrestre.

A distância da superfície ao. centro da terra é de 8.000 quilô­metros; desta extensão, perto de sessenta quilômetros pertencem à espessura da crosta, e o resto às matérias em fusão. Supondo que

a terra é uma esfera de dois metros de diâmetro, a crosta seria representada por metade da grossura de um dedo; ou, para ser­vir-me de outra comparação mais simples, representando a terra por um ôvo, a casca seria a crosta do globo, e o conteúdo a massa central em fusão.

A alguns quilômetros abaixo de nossos pés há, pois, nm abis­mo abrasador rolando ondas de fogo.

Ocorre logo a pergunta: — como é que um invólucro, relativa­mente tão fraco, poderá resistir !) à flutuação da massa líquida central? Esta frágil crosta não se fenderá de vez em quando? não aluirá? ou, pelo menos, não sofrerá uma ou outra vez algum abalo?

Sofre, sofre! E por muito ligeiro que seja, pode fazer estre­mecer os continentes e cavar abismos terríveis.

Aí temos, pois, o motivo dos tremores de terra. A gema do ôvo agita-se e a casca quebra-se.

Não se passa talvez um único dia em que a crosta do globo não sofra um abalo neste ou naquele ponto, quer no fundo do leito dos mares quer por baixo dos continentes. Em todo o caso, os tre­mores de terra desastrosos são raros, graças à existência dos vul­cões.

As bocas vulcânicas são efetivamente verdadeiros respiradou­ros de segurança, que põem o inteiror do globo em comunicação com o exterior. Como oferecem saída fácil aos vapores subterrâ­neos que tendem constantemente a dilatar-se e a evolver-se para a atmosfera,, obstam 2) por isso a que os tremores de terra sejam mais repetidos e desastrosos.

Nos países vulcânicos, as convulsões do solo diminuem muito ou cessam de todo, logo que o vulcão começa a vomitar fumo e lava.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

set 032010
 

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO — (Itaboraí, 1820-1882) formou-se em Medicina, mas sempre fêz das letras seu principal objeto. Romancista popular, não se esmerava na forma e principalmente brilhou como pintor dos costumes nacionais. Foram suas mais notáveis produções neste gênero: A Moreninha, Rosa, Vicentina e O Moço Louro. No teatro apresentou peças, algumas das quais ainda com aplauso são levadas à cena; e entre outras nos ocorrem: Cobé, drama; o Fantasma Branco, ópera ou antes comédia ornada de canto, a Torre em Concurso, comédia, etc. A Nebulosa, poema-romance, é a mais importante composição poética de Macedo.

Este homem de letras, que o Sr. Inocêncio da Silva, com razão qualifica de espírito esclarecido, em mais de um lugar profligou o abuso da escravidão.

Exerceu o magistério no Colégio de Pedro II e para seus alunos escreveu tratados de Corografia e de História do Brasil muito criticados, mas geralmente copiados pelos que os censuram.

O Torrão Natal – trecho da obra de JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Um célebre poeta polaco, descrevendo em magníficos versos uma floresta (44) encantada do seu país, imaginou que as aves e os animais ali nascidos, se, por acaso, longe se achavam, quando sentiam aproximar-se a hora da sua morte, voavam ou corriam e vinham todos expirar à sombra das árvores do bosque imenso onde tinham nascido.

O amor da pátria não pode ser explicado por mais bela e delicada imagem.

Coração sem amor é um campo árido, quase (45) sempre, ou sempre, cheio de espinhos e sem uma única flor que nele se abra e o amenize.

Haveria somente um homem em quem palpitasse coração tão seco, tão enregelado e sem vida de sentimentos: o homem que não amasse o lugar de seu nascimento.

Depois dos pais, que recebem o nosso primeiro grito, o solo pátrio recebe os nossos primeiros passos; é um duplo receber, que é duplo dar.

As idéias grandes e generosas dilatam o horizonte da pátria; a religião, a língua, os costumes, as leis, o governo, as aspirações fazem de uma nação uma grande família, e de um país imenso a pátria de cada membro dessa família.

Mas, deixem-me dizer assim, a grande não pode fazer olvidar a pequena pátria; dessa árvore majestosa que se chama a nação, o país, não há quem não sinta que a raiz é a família e o berço pátrio.

Há nesse santo amor uma escala ascendente, que vai do lar doméstico à paróquia, da paróquia ao município, do município à província, da província ao império: ama-se o todo porque se ama cada uma de suas partes.

Com efeito, é impossível negar que em suas naturais e suavíssimas predileções o coração distingue sempre, entre todos os distritos, cidades e diversos pontos do país, o torrão (46) limitado do berço pátrio; pobre ou mesquinho, esquecido ou decadente, agreste ou devastado, é sempre amado por nós e sempre grato para nós.

É por isto e por muito mais, é porque foi meu berço, berço daqueles a quem mais amei e amo, é porque no seu solo tenho sepulturas queridas, é porque ine guarda em seus lares amigos dedicados, é porque desejo ter em seus campos um abrigo na minha velhice que começa (47), e no seu cemitério um leito para dormir o último sono, é, enfim, por todos esses laços da vida e da morte que a vila de Itaboraí me é tão querida.

(O Rio do Quarto, 2.a ed., p. 58).

(44) Floresta é vocábulo de etimologia popular. Se bem que oriundo de foreste (por forensis, exterior, e este, de foras), a analogia semântica com flor ou Flora fêz que no português e no castelhano se lhe introduzisse o — l — desses vocábulos, produzindo assim floresta: diferente do que se deu no ital. foresta, no franc. forêt e no ingl. forest. Não são escassos em nossa língua os casos de etimologia falsa, como este. (45) Quase, com — e — melhor escrita do termo latino quasi (are. quage e café). A língua não possuí anoxí-tonos com — i — final. Os poucos que tiveram entrada no léxico podem mudar em — e — o — / — terminativo e dispensar o acento a que ficariam sujeitos; assim: quase, quepe, jure (e não quási, quépi, júri); e as próprias vozes latinas ou gregas em — is — já vão sendo averbadas com a desinência vernácula: bile por bílis, sepse, raque, pelve, pube, licne, cute etc. (46) Torrão é forma alterada de terrão, pedaço de terra; como tostão é dissi-milação do are. teston, ital. testone, de testa, cabeça. (47) Começar — do lat. *cum initiare (raiz) de initium); are. començar. Cfr. o ital. cominciare e o esp. comenzar.

Poesias de JOAQUIM MANUEL DE MACEDO



A Harpa Quebrada


I


"Minha harpa, saudemos o instante da morte,
Que é lúcida aurora de eterna vitória;
O túmulo pra os vates é trono de glória,
E a vida é o jugo do inferno e da sorte.
O jugo quebremos, ao trono subamos;
É belo o triunfo, minh’harpa morramos!"
E, como pelo canto enternecida,
Da harpa dedilhada uma das cordas
Rebentando soou como um gemido.


II


"O vate é proscrito que vaga na terra,
Bem poucos lhe entendem o estranho falar;
Qual rocha batida das vagas do mar,
Suporta dos homens tormentos e guerra;
Dos vates a pátria no céu achar vamos,
Deixemos o exílio, minh’harpa morramos!"
E nova corda estala; outro gemido
Que sai dos seios da harpa, e é dado às brisas.


III


"A morte é o sono que à dor sucedeu,
Do qual se desperta no Éden do Senhor;
É d’alma um arroubo em ânsias de amor,
E o túmulo é a porta dos átrios do céu.
A morte é o sono, minh’harpa, durmamos;
O céu nos espera, minh’harpa, morramos!"
E outra corda rebenta, e sobre as ondas
Longo soa também outro gemido,
Que triste esvaecendo aos poucos morre.

IV

"Minh’harpa, não gemas, que o mundo é traidor,
Asila a perfídia do grêmio fatal.
Não vale as saudades de um peito leal,
Nem ternos suspiros de uma harpa de amor;
Não gemas, exulta, que ao céu subir vamos;
A vida é sinistra. Minh’harpa, morramos!"
Inda uma corda estala, e geme ainda,
Como profunda queixa, que exalada
Do lúgubre cantor responde ao hino.


V


"Esposa querida, minh’harpa, vem cá!
A hora enfim soa no nosso himeneu;
A pira é a lua, que fulge no céu;
O tálamo virgem nas ondas será;
A pira flameja! esposa, corramos!
Aos gozos! à glória! minh’harpa, morramos!
(A Nebulosa).

 

  • (612) tróicas = troianas, de Tróia.
  • (613) — grandevo =r idoso, de idade avançada (grande + aevum). Com aevum (= tempo, idade) formaram-se coevo, longevo, primevo.
  • (614) marejada = agitação do mar.
  • (615) aula = palácio, corte. V. a n. 153.


 

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

Livros

Fonte da lista dos livros: Wikipedia.

Romances
  • A Moreninha (1844)
  • O Moço Loiro (1845)
  • Os Dois Amores (1848)
  • Rosa (1849)
  • Vicentina (1853)
  • O Forasteiro (1855)
  • Os Romances da Semana (1861)
  • Rio do Quarto (1869)
  • A Luneta Mágica (1869)
  • As Vítimas-Algozes (1869)
  • As Mulheres de Mantilha (1870-1871)
Sátiras políticas
  • A Carteira do Meu Tio (1855)
  • Memórias do Sobrinho do Meu Tio (1867-1868)
Crônicas sobre a cidade do Rio de Janeiro
  • Memórias da Rua do Ouvidor
  • Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro
  • Labirinto

Teatro

Dramas
  • O Cego (1845)
  • Cobé (1849)
  • Lusbela (1863)
Comédias
  • O Fantasma Branco (1856)
  • O Primo da Califórnia (1858)
  • Luxo e Vaidade (1860)
  • A Torre em Concurso (1863)
  • Cincinato Quebra-Louças (1873)
  • Cigarro e seu Sucesso (1880)
Poesia
  • A Nebulosa (1857)
Biografias
  • Ano Biográfico Brasileiro (1876)
  • Mulheres Célebres (1878)

Medicina

  • Considerações sobre a Nostalgia (tese apresentada na faculdade de Medicina
set 032010
 

JOÃO MANUEL PEREIRA DA SILVA (Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, 1818-1897) foi, incontestavelmente, um homem de trabalho e méritos cujos escritos históricos, objeto, aliás, de várias contestações razoáveis não devem ser postos de parte pelos estudiosos das coisas pátrias.

Abrangem esses livros todo o período que vai de 1808, com a chegada da dinastia real de Bragança a terras do Brasil, até 1840, com a procla-

mação da maioridade do imperador Pedro II, e são: a História da Fundação do Império Brasileiro, de que há duas edições, sendo a 2.a de 1877; o Segundo Período do Reinado de Pedro I no Brasil, isto é, de 1831 a 1840, da qual também se fizeram duas edições.

Pereira da Silva freqüentemente se enganava em nomes e datas; mas na apreciação moral dos fatos tinha sisudo critério, nem falece às suas narrativas, em mais de uma página, viva e comunicativa sensibilidade.

Além desta obra capital existem mais, do laborioso autor: Curso de História dos Diferentes Estados da América; Varões Ilustres do Brasil ou Plutarco Brasileiro; cinco volumes sob o título — Na História e na Legenda; Filinto e a sua Época, estudo crítico e literário; Littérature Por-tugaise; Nacionalidade, Língua e Literatura de Portugal e do Brasil; Memórias do Segundo Reinado; e, no domínio da ficção, mais do que no da história, as crônicas Jerônimo Corte Real, Manuel de Morais, D. João de Noronha, e o romance Aspásia.

Militando na política, Pereira da Silva chegou a ter assento no Senado do Império, onde o veio encontrar a República.

A Revolução de 1831

Foi geral o brado de indignação em todos os grupos e facções do partido liberal, quando os periódicos de 6 de abril publicaram a mudança do Ministério. Voltava-se ao antigo regime (38), restauravam-se as decrépitas tradições do governo pessoal, desprezavam-se as máximas do sistema representativo, desfei-teava-se a Câmara dos Deputados, não se admitindo nenhum dos seus membros no Gabinete, sacrificavam-se enfim de novo os brasileiros ao furor dos portugueses! Tão profundamente se comoveram os espíritos que, logo ao correr a notícia da mudança ministerial, e ao saber-se o pessoal do novo Gabinete, grupos numerosos começaram a percorrer as ruas, repetindo gritos sediciosos e os homens mais adiantados tomaram a dianteira dos acontecimentos, que não podiam deixar de realizar-se.

Quase sem combinação, nem plano assentado, foram-se magotes de povo dirigindo, de uma hora em diante, para o Campo de SanfAna, e aí aglomerando-se entre o quartel das tropas e os paços da municipalidade. Pelas três horas da tarde avaliava-se já o seu número em cerca de duas mil pessoas, saídas na máxima parte das últimas camadas da sociedade. Os deputados que se achavam na capital, nem tiveram tempo de combinar resoluções, pela celeridade com que o movimento se ia operando.

Convocados uns pelos outros e a toda pressa, juntaram-se assustados na casa do padre José Custódio Dias, pelo meio dia; mas logo, ao principiar a sessão, apareceram divergências.

Evaristo, Carneiro Leão e Pairri propuseram que se resistisse à revolução, porque da sua vitória resultariam a queda do Imperador, a ruína das instituições e o reinado da anarquia. Alguns declararam-se resolutamente em favor do movimento iniciado, ansiosos de expelir D. Pedro do solo brasileiro, como português que era, e não tardaram em retirar-se da reunião, dirigindo-se para o Campo de SantAna, a ligar-se aos conspiradores. Os que se conservaram, assentaram em colocar-se à sua frente, para o encaminhar no sentido de salvar as instituições e a sociedade, que corriam iminente perigo.

O povo junto no campo revolvia-se, no entanto, no meio das mais disparatadas pretensões. Não estando armado, propunham uns que atacassem os depósitos, e se munissem de espingardas; outros queriam marchar contra os paços de São Cristóvão, e arrancar a coroa ao Imperador; estes falavam na proclamação de um Império federativo; e aqueles mais adiantados apregoavam já a necessidade de uma República.

Momentos antes das 7 horas da noite, comunicou-se a D. Pedro que os juízes de paz das paróquias da cidade lhe requeriam audiência. Admitidos incontinenti, o de SantAna dirigiu ao Imperador um discurso, declarando-lhe que o povo reunido, ainda que desarmado, no Campo de SantAna, representava por intermédio de seus magistrados que se dignasse o Imperador de reintegrar o Ministério demitido, e exonerar o que Sua Majestade Imperial nomeara, em data de 5, não desejando o povo mais que sustentar o Imperador no trono e a Constituição Política.

— Diga ao povo, respondeu-lhe o Imperador, que recebi a representação; que o Ministério passado não merecia a minha confiança; que do atual farei o que entendo; que sou constitucional e marcho com a Constituição. Hei-de defender os meus direitos garantidos pela Constituição, à custa de todos os meus bens e sacrifício de minha pessoa.

Fêz, em seguida, D. Pedro aos juízes de paz leitura do artigo constitucional que lhe dava a livre escolha dos ministros, e perguntou-lhes que número de cidadãos se achavam reunidos no Campo de Sant’Ana.

— Três a quatro mil, Senhor, disse um deles.

— Nem dois mil, replicou-lhe o Imperador. Enfim, já respondi; podem retirar-se: procurem sossegar (39) o povo. Estou pronto a fazer tudo para o povo, nada, porém, pelo povo.

Partidos que foram os juízes de paz (40), despediu o Imperador os ministros e o intendente geral da polícia, que se achavam em São Cristóvão, depois de recomendar-lhes que aplicassem toda a vigilância no intuito de acalmar o povo, e todo o cuidado em poupar derramamento de sangue, quando fossem compelidos a empregar a força pública.

Entretanto crescia no Campo progressivamente o número de pessoas. Ao princípio gente da ínfima classe, logo depois alguns deputados com séquito de cidadãos mais grados, por fim todos os deputados que tinham representado no dia 17 ao Imperador contra as cenas malfadadas de Março. Podia-se dizer que a opinião pública estava ali demonstrada tanto mais eficazmente quanto Evaristo, Paim, Souto, Carneiro Leão, Alencar, Limpo de Abreu e outros vultos de importância procuravam dirigir o movimento no sentido exclusivo e requerer e obter unicamente do chefe do Estado a demissão do Ministério, salvando-se assim as instituições existentes e sufocando-se logo nos seus princípios a revolução intentada pelos exaltados.

Os juízes de paz, de volta de São Cristóvão, comunicaram o resultado de sua comissão, aumentando com a narrativa a exasperação do povo. Muitos trataram logo de munir-se de armas. Outros se incumbiram de pedir auxílio às tropas aquarteladas, com que contavam para o momento do perigo. Uma voz se ouviu, contudo, ainda preponderante, propondo que se mandasse uma deputação ao general comandante das armas, a suplicar a sua intervenção com o Imperador, a fim de obter o povo a demissão do Ministério, prometendo-lhe dispersar-se depois com toda a tranqüilidade.

Aceite (41) este alvitre, foram designados para a deputação referida os deputados Vieira Souto e Odorico Mendes, que, admitidos à presença de Francisco de Lima, lhe expuseram a firme resolução do povo de antes sacrificar a vida que deixar de conseguir a demissão do Ministério que lhe não merecia a confiança. O brigadeiro Francisco de Lima esforçou-se em aquietá-los, afiançando ir pessoalmente a São Cristóvão e juntar suas súplicas às do povo para que o Imperador anuísse.

Seriam 9 horas quando se dirigiu aos paços de São Cristóvão o brigadeiro Francisco de Lima. Admitido à presença de D. Pedro, comunicou-lhe quanto presenciara, o que o povo desejava, e como era conveniente para bem das instituições, e para poupar–se derramamento de sangue, que Sua Majestade se dignasse aceder aos votos da opinião pública.

O Imperador, que não simpatizava com Francisco de Lima, não lhe prestou inteiro crédito à narração (42) e ordenou-lhe expedisse para São Cristóvão dois batalhões de primeira linha, a fim de reforçar-lhe a guarda dos paços, e executasse as ordens que lhe fossem transmitidas pelo Ministério da Guerra, que, entretanto, nenhumas enviou daí por diante ao comandante das armas.

Quando Francisco de Lima chegou ao Campo de SanfAna, já aí se achavam reunidos ao povo o 1.° e 2.° corpo de artilharia de posição, tendo à sua frente o brigadeiro Francisco de Paula Vasconcelos. Francisco de Lima fêz logo partir para São Cristóvão um seu ajudante de ordens a participar o fato ao Imperador. Não tardou infelizmente o 1.° batalhão de granadeiros em imitar o exemplo da artilharia, aparecendo no Campo às 10 horas da noite. O movimento já não era só de paisanos: avultava com a junção de tropas arregimentadas.

Correndo a notícia até São Cristóvão, o batalhão do Imperador, que estava de guarda ao paço, abandonou o seu posto, tendo à sua frente o comandante, o coronel Manuel da Fonseca Lima, e tratando igualmente de reunir-se no Campo com o povo e tropa ali aglomerados. O brigadeiro José Joaquim de Lima e Silva, apenas lhe chegou aos ouvidos o acontecimento, tomou igualmente o caminho do Campo, ou no intuito de fortalecer também com o seu concurso a iniciada revolução, ou, como depois afirmou publicamente, de dominar e dirigir a tropa, para que não se debandasse. A pouco e pouco chegaram ao Campo outros contingentes militares, inclusivamente o batalhão de artilharia da Marinha.

Perto da meia-noite, resolveu-se de novo o brigadeiro Francisco de Lima a expedir a São Cristóvão Miguel de Frias Vasconcelos, incumbido de suplicar ao Imperador que, quanto antes, anuísse à vontade do povo e da tropa, reunidos, já, demitindo o Ministério, ou, no caso de Sua Majestade entender mais próprio de sua dignidade, nomeando novo Gabinete composto de homens liberais, quando se não resolvesse a reintegrar o Ministério demitido na tarde de 5 de Abril. Ao chegar a São Cristóvão, encontrou Frias marchando para o Campo a artilharia ligeira, que estava de guarda no paço. Soube que, representando os soldados ao Imperador que os demais corpos militares haviam abandonado São Cristóvão, respondeu-lhes D. Pedro que não queria sacrifício de pessoa alguma, e eles podiam juntar-se a seus companheiros.

Admitido Frias à presença do Imperador, divisou-lhe na fisionomia verdadeiros indícios de perturbação. Não era já o homem que o despedira tão resolutamente, havia algumas horas. Parecia abatido, e como se mostrava indiferente até aos discursos que lhe eram dirigidos. Com Sua Majestade estavam os diplomatas de França e Inglaterra, e alguns ministros de Estado, o intendente da polícia, e vários criados da casa. Frias expôs por miúdo ao Imperador a situação dos negócios públicos, sem que obtivesse resposta imediata. Passados minutos, ousou chamar de novo a atenção do Imperador para as circunstâncias críticas do país, e declarar-lhe francamente que carecia voltar ao Campo, para se nfio tornar supeito (43), ou se não pensar que estivesse preso em São Cristóvão, com o que o povo e tropa poderiam ser inci-tados a lamentáveis desordens.

— O mesmo Ministério, de forma alguma; isto é, contra a minha honra e contra a Constituição, respondeu-lhe o Imperador. Antes abdicar. Antes a morte.

Parou e, depois de passear só e meditabundo por algum lempo, com os braços cruzados, sem se importar que o estivessem todos contemplando, determinou que Frias esperasse ainda e, chamando o intendente geral da polícia, ordenou-lhe partisse apressadamente a procurar o senador Vergueiro, e lhe dissesse que Sua Majestade o autorizava a organizar de pronto um novo Ministério, com o qual se apresentasse em São Cristóvão. O intendente desapareceu em um instante. O Imperador ora conversava com os dois diplomatas e os ministros, ora andava de um para outro lado da varanda, a ponderar sozinho. Perguntou a um dos criados se todos os soldados haviam abandonado a guarda dos paços e, ouvindo que apenas restavam poucos da Guarda de Honra, exclamou:

— Poucos, mas fiéis e leais! Não são como muitos que enchi de benefícios e estão no Campo a apregoar-se de patriotas!

Soou hora e meia no relógio, e não tinha ainda voltado o intendente. O Imperador chegou-se ao major Frias, e determinou–lhe que esperasse, se fosse preciso, até o amanhecer para levar ao povo uma resposta definitiva. Ecoaram duas horas, e nenhuma notícia aparecia do intendente. Quando, porém, duas e meia repeliram os relógios, mostrou-se no paço o desembargador Lopes da Gama, muito apreensivo e prostrado de fadiga. Declarou a D. Pedro que lhe não fora possível encontrar o senador Vergueiro nem em sua casa nem em vários lugares onde o procurara e fizera procurar, e que, à exceção de dois regimentos, toda a mais tropa estava no Campo reunida ao povo.

Ouviu-o o Imperador, fingindo-se tranqüilo, e, chamando então os diplomatas da Inglaterra e França, com eles se dirigiu para um gabinete do palácio. Bem não eram decorridos dez minutos, quando voltou e, procurando o major Frias, reparou este oficial que as feições do rosto do Imperador patenteavam, pelo esfogueado das cores o resultado de uma luta intensa e dolorosa. Os cabelos, que eram bastos, e se amoldavam contudo a um penteado regular e liso, agora desordenados e dispersos; os olhos como saídos das órbitas; trêmulo e convulso o corpo todo. O Imperador trazia na mão uma folha de papel aberta e, entregando-a a Frias, disse-lhe enternecidamente, e quase cortadas as palavras com soluços:

— Aqui tem a minha abdicação: estimo que sejam felizes. Eu me retiro para a Europa, e deixo um país que muito amei e ainda amo.

(Segundo Período do Reinado de D. Pedro I no Brasil, Rio de Janeiro, 1871, págs. 446-458).

(38) Não há razão para que se continue a manter a escrita regimen com n, quando as formas latinas dessa feição passaram ao vernáculo com a perda natural desse n insólito. Sem o n final estão no português os termos latinos volumen, nomen, numen, lúmen, examen, vimen, dictamen etc. As formas eruditas, essas, o conservam: cânon, pólen, hífen, glúten, líquen, sêmen, abdômen, éden, cólon, cróton; e algumas já o alijaram: germe, ísquio, molime, espécime, cacófato, síndeto, hipêrbato etc. (39) Sossegar, do lat. *sessicare (freq. de sedere), que produziu o are. sesse’gar e assessegar, antes da dissimilação do som vocálico (e em o). (40) Construção elegante, correspondente a — depois que foram partidos os juízes de paz- É uma oração reduzida temporal. O verbo partir está empregado com feição depoente, isto é, com forma passiva e significação ativa, à semelhança do que se dá no latim. A depoência só se efetua com verbo de predicação completa, diversamente da apassivação, que só pode existir em verbo transitivo. A forma verbal é igual em ambos, mas na última haverá sempre, claro ou oculto, um agente da voz passiva, que é o sujeito da ativa. Exemplo de uma teu, nosso, vosso e dando ã frase mais fina construtura: Leu-lhe as obras e e guardou-lhe os conselhos: olhou-te os olhos, apertou-me a mão e guiou-nos os labores; e no exemplo acima: não lhe prestou inteiro crédito à narração, cm que lhe vale por sua, referente a narração; e em Rui, quando diz que o pai "não recusou uma condecoração imperial, que aliás estava fadada a envelhecer-//ie, desusada, na gaveta." {Queda do Império, introd. XI-XII). e outra: …"lhe diz como eram gentes roubadoras / estas que ora de novo são chegadas (depoente); correndo a fama veio que roubadas / foram (passiva) por estes homens…" (na mesma est. 78 do c. I dOs Lusíadas). (4Í) aceite e aceito são formas sincréticas do part. pass. Terminam também na vogal — e — os participios assente, entregue, livre; em Portugal usa-se empregue, que Rebelo Gonçalves deixou no seguinte passo: …"a forma perguntar… deve manter-se, por fidelidade histórica,… e tem de ser empregue pelos Brasileiros, que de outra forma não usarri…" {Vocabulário Ortográfico da L. Portuguesa, introd., cap. II, p. LXXXVIII). (42) Ao dativo lhe cabe normalmente a função de objeto indireto. é erro vulgar entre nós empregá-lo junto a verbos transitivos: eu lhe vi por eu a vi. A boa linguagem vale-se dele, entretanto (como das formas pronominais me te, nos, vos) na função restritiva substituindo mui superiormente os adjetivos possessivos correspondentes seu, meu, ou quando afirma: "Addison… cativou-se-Z/ie das qualidades morais" (de Swift) (Oragões do Apóstolo, p. 161). (43) A raiz latina spec do verbo specere (em composição spicere) que produziu spectare — apresenta no vernáculo as seguintes formas: spec, spic, spect, spet, speit — e produz os seguintes termos, cuja significação está ligada à idéia inicial, ou atuai, de olhar e ver: — espécie, especia, especioso, específico, especiaria, espécime, espéculo, especular, especulação, inspeção, introspeção, retrospeção, intuspeção; — auspício (avis, ave + spicere, olhar), arúspice, aruspício (haru, intestino -f- spicere, olhar), frontispício (fronti + spicio), perspicuo, perspicaz, suspicaz; — aspecto, conspecto, circunspecto, ex(s)pectação, ex(s)pectante, ex(s)pectador, ex(s)pectativa, pers-pectativa, perspéctico, espectador, prospectivo, respectivo, retrospectivo, introspectivo, intuspectivo, espectro; — espetáculo, inspetor, prospeto, prospetor; — aspeito, despeito, respeitar, respeito, suspeitar, suspeito etc.


 

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

jul 102010
 

O espelho, a bota e o cravo

muitos anos, houve um rei que tinha uma filha muito bonita e graciosa. Quando chegou a ocasião de a moça se casar, apareceram três príncipes, cada qual mais belo e rico. A princesa ficou hesitante entre os três candidatos. Assim, o rei, para resolver a questão, declarou que sua filha só se casaria com aquele que trouxesse um presente que mais lhe causasse admiração.

Os três príncipes aceitaram a sugestão do rei e partiram. Quando chegaram a um lugar em que a estrada se dividia em três caminhos, despediram-se e marcaram o dia em que deveriam reunir-se novamente naquele ponto. Depois, cai la um seguiu por um caminho.

O príncipe mais velho viajou durante vários dias, até que chegou a uma grande cidade. Quando atravessava uma praça, ouviu um menino gritar: — Quem quer comprar um espelho mágico? O príncipe aproximou-se e perguntou qual a virtude daquele espelho. O menino respondeu: — Este espelho tem o poder de refletir tudo o que se passa em qualquer lugar. O príncipe disse consigo: — Com este espelho me casarei, na certa, com a princesa. E adquiriu o espelho mágico.

O segundo príncipe fez também uma longa viagem e foi parar em outra grande cidade. Passeava por uma rua, quando ouviu um homem gritando : — Quem quer comprar uma bota mágica? O príncipe aproximou-se e perguntou qual a virtude daquela bota. O homem então respondeu: — Esta bota tem o poder de levar a pessoa ao lugar que desejar. O moço disse consigo: — Com esta bota me casarei, na certa, com a princesa. E a comprou.

O príncipe mais moço viajou durante muitos dias e, por fim, chegou a uma cidade muito grande. Passava por um jardim e ouviu um menino gritando: — Quem quer comprar um cravo mágico? O rapaz perguntou qual a virtude daquela flor. E o menino respondeu: — Este crav tem o poder de dar a vida a quem estiver morto. O pifai Ipc disse logo consigo: — Com este cravo me casarei, na cei ta, com a princesa. E adquiriu a flor mágica.

O príncipe mais moço aproximou seu cravo mágico do nariz da morta.

O príncipe mais moço aproximou seu cravo mágico do nariz da morta.

Quando chegou o dia marcado, os rapazes reuniram i na mesma estrada. O príncipe mais velho abriu o seu espelhi para o mostrar aos outros rapazes. Viram então que a bcl.i princesa estava deitada no leito, morta. Ficaram desespe rados. O príncipe mais moço exclamou: • Se eu pudesM chegar agora ao palácio salvaria a princesa! O segundo pi In cipe então disse: — Entrem nesta bota e estaremos lá agori mesmo!

Num instante, chegaram ao palácio. Correram para l quarto da princesa. O príncipe mais moço aproximou sen cravo mágico do nariz da morta. Imediatamente, a prinees; ressuscitou.

Surgiu então um problema difícil de ser resolvido. Quen deveria casar-se com a linda princesa? — Sou eu, dizia < príncipe mais velho. Se não fosse o meu espelho, vocês nfii saberiam que ela estava morta! — Sou eu, gritava o segundi príncipe. Sem a minha bota, vocês não chegariam a temp de salvar a princesa! — Sou eu, exclamava o príncipe mal moço. Se não fosse o meu cravo, ela não estaria vivai

A discussão prolongou-se por muito tempo. O rd flfij sabia o que fazer, pois achava que todos os três rapaze tinham razão. Afinal, a princesa que não queria ficar BOl teirona, decidiu a questão. Casou com o príncipe mais moa porque já estava apaixonada por êle. Os outros príncípl se casaram com as primas da princesa, também princesa’ E assim acabou a história em paz.

BIBLIOGRAFIA

O material deste livro pertence ao folclore brasileiro, e o Autor, para utilizá-lo, recorreu não só à tradição oral, como à consulta ou adaptação de trechos das seguintes obras:

Sílvio Romero – Contos Populares do Brasil. Lindolfo Gomes — Contos Populares.

Luís da Câmara Cascudo — Contos Tradicionais do Brasil. Figueiredo Pimentel — Contos da Carochinha. Monteiro Lobato — Histórias de Tia Anastácia. Osório Duque Estrada — Histórias Maravilhosas. Viriato Padilha — Histórias do Arco da Velha.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 102010
 

A sapa casada

Um lavrador possuía três filhos. As pragas haviam destruído suas plantações e dizimado seus bois e cavalos. Quase não existia, em casa, o que comer. Diante disso, o filho mais velho disse ao pai:

— Meu pai, já estou homem feito. Não posso continuar aqui. Preciso ganhar a minha vida. Por isso, vou correr mundo à procura de trabalho. Hei de voltar rico.

O lavrador deu-lhe a bênção, e o rapaz partiu. Depois de viajar por diversos países e de sofrer muitas dificuldades, parou numa cidade onde se casou. Mas continuou pobre.

Passado algum tempo, o segundo filho do lavrador resolveu seguir o exemplo do mais velho. Pediu dinheiro ao pai e saiu a correr mundo. Depois de passar muitas privações, parou numa cidade onde se casou. Não conseguiu ficar rico.

Anos depois, o filho caçula do lavrador, vendo que os irmãos não voltavam, resolveu sair à sua procura. Desejava também arranjar algum emprego rendoso. O lavrador ficou muito triste porque era viúvo, e o rapaz era a única companhia que êle tinha na velhice. Mas deu a bênção ao moço e, com lágrimas nos olhos, deixou-o partir.

Após visitar muitas cidades sem encontrar os irmãos nem conseguir emprego, o rapaz parou à beira de uma lagoa para descansar. Era ao cair da tarde. De repente, ouviu uma voz deliciosa entoando uma linda canção.

O moço ficou encantado com a beleza e a doçura da voz. Debalde procurou a moça que cantava. Tão entusiasmado ficou com aquela voz maravilhosa que exclamou:

— Eu me casaria com a dona dessa voz, mesmo que fosse uma sapa desta lagoa!

Mal tinha acabado de proferir estas palavras, o rapaz viu, com espanto, uma sapa enorme e feia saltar da lagoa e dizer para êle:

— Sou eu a dona da voz maravilhosa! Se o senhor é um homem honrado, tem de cumprir sua palavra e casar-se comigo!

Passado o espanto, o rapaz viu que realmente tinha o dever de se casar com a sapa. Disse-lhe, então, que estava pronto para o casamento. A sapa ordenou, pois, ao rapaz que entrasse na lagoa e mergulhasse sem receio, nas suas águas.

O moço assim fez e viu-se, subitamente, num palácio deslumbrante, construído debaixo da lagoa. Estava tudo preparado para o casamento. Mas todos os habitantes do palácio, inclusive o padre, o sacristão, as testemunhas, os criados, os guardas eram sapos que coaxavam sem cessar.

Depois da cerimônia, o casal ficou residindo no palácio, onde havia todo o conforto. Todos os dias, havia banquetes, festas, concertos, peças de teatro, mas tudo feito, cantado e representado pelos sapos. A princípio, o rapaz achou tudo aquilo muito desagradável. Mas, com o correr do tempo, acostumou-se ao reino dos sapos, embora tivesse sempre saudades dos irmãos e do seu velho pai.

Aproximava-se, porém, o aniversário do lavrador. Havia muito tempo que essa data era festajada pelos parentes que, todos os anos, se reuniam em sua casa, para cumprimentar seu pai. Mas como poderia — pensava o rapaz — chegar em casa, casado com uma sapa ? Certamente, seria ridicularizado pelos irmãos e pelos outros parentes. Que fazer?

Resolveu dizer à sapa que precisava comparecer ao aniversário do seu pai. A esposa achou que êle fazia muito bem e começou a bordar uns lenços de seda para o sogro.

Afinal, chegou o dia da visita ao pai. Acompanhado da sapa, o rapaz tomou o caminho de sua casa. Quando o

Deu o braço à esposa e caminhou para a mesa.

Deu o braço à esposa e caminhou para a mesa.

lavrador soube que o filho tinha casado com uma sapa, ficou muito triste. Mas não pôde deixar de admirar os lenços lindíssimos que a nora lhe ofereceu.

Na hora do jantar, o rapaz ficou indignado com as risa-das e indiretas dos irmãos e das cunhadas. Mas ficou calado. Deu o braço à esposa e caminhou para a mesa, sem se importar com o riso dos parentes e vizinhos.

Quando os dois esposos sentaram à mesa, aconteceu um fato inesperado. A sapa, de repente, transformou-se numa jovem lindíssima, ricamente vestida. O espanto foi geral.

A sapa era uma princesa. Anos atrás, havia sido encantada por uma feiticeira que tinha inveja de sua beleza. Somente poderia voltar à forma humana se encontrasse uni rapaz que a desposasse. Assim, a feiticeira pensava que a moça jamais seria desencantada.

O rapaz ficou radiante de alegria. Seus irmãos e cunhadas arrependeram-se do que haviam feito. E o velho lavrador não cabia em si de tanta satisfação.

No lugar onde se achava a lagoa, surgiu um lindo pala’ cio, servido por criados e soldados que haviam sido encantados pela feiticeira.

O rapaz perdcou aos irmãos e, juntamente com a esposa e seu velho pai, foi residir no belo palácio, onde viveu, muito feliz, o resto de sua existência.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 102010
 

O cavalo mágico

Mariana era uma moça bonita e inteligente. Morava num lindo palacete com seu pai, que era um rico negociante. No dia do seu aniversário, houve uma bela festa, em sua casa, à qual compareceram numerosos convidados.

Nessa festa, apareceu um rapaz simpático e muito bem vestido, que se apaixonou por Mariana. Pediu a moça em casamento e foi aceito, pois nada havia contra êle. O casamento realizou-se, pouco depois, com grande pompa.

Depois da cerimônia, quando Mariana se preparava para acompanhar o marido, apareceu-lhe Nossa Senhora, sua madrinha, que lhe disse o seguinte:

— Minha filha, fique sabendo que você se casou com o Diabo, metido na figura desse moço bonito. Depois da festa, quando êle quiser levá-la para casa, deverá você dizer a seu pai que prefere o cavalo mais magro e mais feio que houver na estrebaria; e, quando chegar ao lugar em que a estrada se encontra com outra, formando uma cruz, deixe seu marido seguir pela esquerda; você tomará a direita e mostrará ao Diabo o rosário, para que êle estoure e volte para o inferno.

Pouco antes da meia-noite, o marido resolveu partir com a moça, mandando selar os cavalos. Veio para Mariana um lindo cavalo branco, muito gordo. Mas a moça recusou-o, dizendo que preferia o cavalo mais feio e magro que estivesse na estrebaria. Seu pai estranhou o pedido, mas atendeu ao desejo da filha.

Os noivos partiram. Quando chegaram ao lugar em que a estrada formava uma cruz com outra, o Diabo quis que a moça tomasse a esquerda e passasse adiante. Então, Mariana disse:

— Não, vá na frente você, que sabe o caminho de sua casa. Eu nunca fui lá e jamais irei. Dizendo isso, Mariana tomou logo a direita e mostrou o rosário ao marido.

Ouviu-se, então, um grande estouro. A terra abriu-se, deixando sair um forte cheiro de enxofre. E o Diabo sumiu nas profundezas do inferno.

Mariana disparou o cavalo e, quando estava bem longe, entrou na floresta e vestiu uma roupa de homem, de côr verde. Continuou a viagem e, chegando à capital do reino, foi servir no exército. Pouco depois, foi promovida ao posto de sargento e, devido à côr de sua roupa, ficou sendo conhecida por Sargento Verde.

O rei simpatizou com o garboso sargento e mandou-o servir na guarda do palácio. Quase todas as tardes, quando ia passear no jardim, o rei levava consigo o Sargento Verde e acabou tomando-lhe grande amizade.

A rainha, quando viu o Sargento Verde, ficou logo apaixonada por êlé. Tentou, por diversas vezes, seduzi-lo, dizendo que mataria o rei, se êle prometesse casar-se com ela. Mas o Sargento Verde respondia sempre:

— Deixe-me em paz. Nunca trairei o meu soberano.

Desapontada com a recusa do Sargento, a rainha resolveu vingar-se. Procurou o marido e disse-lhe:

— Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde declarou que é capaz de subir e descer as escadas do palácio, montado no seu cavalo em disparada, dançando e atirando ao ar três ovos, que tornarão a cair dentro de um copo, sem se quebrarem.

O rei, admirado, mandou chamar o Sargento Verde e perguntou-lhe se era verdade.

— Eu não disse tal coisa, real senhor, respondeu o Sargento. Mas como foi a rainha, minha senhora, que o afirmou, vou tentar fazê-lo.

O Sargento Verde saiu dali muito triste. Sentou-se à porta de sua casa. Com grande espanto, viu seu cavalo aproximar-se e dizer-lhe:

— Não tenha receio, meu senhor. No dia marcado, faça o que prometeu, e tudo sairá bem.

Assim foi. O Sargento Verde fêz tudo o que a rainha tinha inventado. O povo, deu-lhe muitos vivas e o rei apertou-lhe a mão, admirado de sua habilidade.

A rainha não desistiu de se vingar. Alguns dias depois, procurou o rei e disse-lhe:

— Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde declarou que é capaz de plantar, na hora do almoço, uma laranjeira do tamanho de um palmo, e que, à hora do jantar, já estará carregada de laranjas.

O rei chamou o Sargento e ordenou-lhe cumprir sua palavra. Com o auxílio do seu cavalo mágico, êle conseguiu fazer tudo, como da primeira vez, sendo muito aplaudido pelo povo.

O Sargento Verde fez tudo o que a rainha tinha inventado,

O Sargento Verde fez tudo o que a rainha tinha inventado,

A rainha ficou furiosa, mas não desanimou. No fim de três dias, procurou o rei e pregou nova mentira:

— O Sargento Verde declarou que é capaz de ir buscar a irmã de Vossa Majestade, que está encantada no fundo do mar.

O rei ficou muito satisfeito e deu ordem ao Sargento para que cumprisse a promessa. Mariana ficou aflita. Achava que, desta vez, nada poderia fazer e seria enforcada. Mas o cavalo mágico tranqüilizou-a:

— Não tenha receio. Arranje um garrafão de azeite, um punhado de cinza e uma carta de alfinetes. Monte em mim e, quando chegar à praia, corte as ondas em cruz com a sua espada. As águas abrir-se-ão. Entre pelo mar adentro até chegar à caverna onde se acha a princesa encantada. Rapte-a, ponha-a na garupa e corra, para trás, a todo o galope. O dragão que guarda a princesa sairá em nossa perseguição. Assim que êle estiver perto, derrame, primeiro, o azeite, depois a cinza e, por último, a carta de alfinetes.

Mariana fêz tudo como o cavalo havia ensinado. Raptou a princesa e voltou na disparada. O dragão perseguiu-a. Quando estava bem perto, ela derramou o garrafão de azeite. Formou-se uma grande lagoa, onde o dragão quase se afogou. O monstro conseguiu sair da lagoa e continuou a perseguir os fugitivos.

Quando estava quase a alcançá-los, Mariana atirou um punhado de cinzas. Formou-se um espesso nevoeiro. O dragão custou a atravessá-lo, mas não desanimou de perseguir os fugitivos. Continuou a correr em seu encalço. Quando estava quase agarrando-os, Mariana jogou para trás a carta de alfinetes. Formou-se, então, um bosque de espinhos no qual o dragão se debateu e acabou morrendo.

Quando chegaram ao palácio, foram recebidos com grande alegria. Mas o rei não ficou de todo satisfeito, porque ;i princesa, salva do monstro, nada dizia. Estava muda. M.i riana consultou o cavalo e este lhe disse:

— Apanhe as minhas rédeas e bata com as mesmai três vezes nas costas da princesa, e ela falará.

O Sargento seguiu o conselho do cavalo. Então, a prin cesa desencantou-se e voltou a falar. Suas primeiras palavras foram estas:

— Se o Sargento Verde fosse homem, o rei, meu irmão, teria sido enganado pela rainha.

Diante disso, Mariana despiu a farda e voltou a usai trajes de moça. O cavalo desencantou-se e virou um príncipe muito bonito que se casou com a princesa. E o rei, indignado com o procedimento da esposa, divorciou-se dela e con denou-a à prisão perpétua. Mais tarde, casou-se com Mari;ma que, assim, se tornou rainha.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

 

jul 102010
 

O pássaro mavioso

Era uma vez um rei muito rico e poderoso que tinha um filho muito acanhado. O rapaz ficava envergonhado por qualquer motivo e, por isso, todo mundo o julgava um grande tolo. Resolveu, então, seu pai mandá-lo visitar outros países, na esperança de torná-lo mais desembaraçado. Deu-lhe bastante dinheiro e ordenou que fizesse uma longa viagem.

Depois de percorrer vários países, o príncipe chegou a uma cidade, onde se realizava o leilão de um pássaro. Havia muita gente interessada em comprá-lo e, por isso, as quantias oferecidas já eram muito grandes. O rapaz ficou curioso para saber o motivo pelo qual todo mundo desejava adquirir o pássaro. Foi, então, informado de que o mesmo tinha um canto tão belo e mavioso que fazia dormir a todos que o ouvissem. O príncipe ofereceu uma grande quantia e conseguiu comprar o maravilhoso pássaro.

Continuou sua viagem e, mais adiante, encontrou outra cidade, onde estava sendo vendido, também em leilão, um pequeno besouro. Ficou admirado ao verificar que muita gente queria adquirir o animalzinho. Soube que o besouro era mágico e capaz de fazer tudo o que lhe fosse ordenado, sem ser visto. Podia até arrombar uma porta. Como tivesse ainda muito dinheiro, não foi difícil ao príncipe comprar o besouro.

Prosseguiu o rapaz na sua viagem e, pouco tempo depois, qual não foi sua surpresa ao deparar, em outra cidade, com o leilão de um rato. Havia uma multidão querendo adquirir o animal. O príncipe foi informado de que esse rato era capaz de fazer tudo o que lhe fosse ordenado. Tinha dentes mágicos, de modo que podia roer um castelo inteiro em poucas horas. Diante disso, o rapaz comprou o rato e continuou sua jornada.

O príncipe ofereceu uma grande quantia e conseguiu comprar o maravilhoso pássaro.

O príncipe ofereceu uma grande quantia e conseguiu comprar o maravilhoso pássaro.

Depois de visitar muitos países, chegou o príncipe a uma cidade onde presenciou um estranho espetáculo. Diante de um palácio, em cuja porta se achava uma linda moça, uma enorme multidão fazia toda sorte de caretas. Procurou saber a razão daquela cena esquisita, e foi informado de que a moça era a filha única do rei daquele país. A princesa, desde que nascera, jamais havia sorrido. Por isso, seu pai oferecera sua mão em casamento àquele que a fizesse dar, pelo menos, um sorriso. Eis porque toda aquela gente estava diante do palácio fazendo caretas, na esperança de provocar riso na princesa.

Ouvindo isso, o rapaz, sem se importar com a multidão, aproximou-se do palácio, desceu do cavalo e dependurou a gaiola numa árvore que ali havia. Depois, sentou-se calmamente para descansar e ordenou: — Mestre rato, vá buscar água para o cavalo e mestre besouro vá buscar capim. Os dois bichinhos saíram logo para cumprir as ordens do seu dono. Quando a princesa viu o rato carregando água e o besouro trazendo capim, achou tanta graça que soltou uma gostosa gargalhada. Os que estavam diante do palácio ficaram muito alegres, cada qual pensando ter sido o autor do riso da princesa. O rei, cheio de satisfação, perguntou à filha quem lhe havia feito soltar aquela gargalhada. A princesa apontou com o dedo o rapaz que descansava à sombra da árvore. Imediatamente, o rei mandou chamar o moço à sua presença e comunicou-lhe que devia casar com a princesa.

O rapaz, que era muito acanhado e que não esperava pelo acontecimento, quase desmaiou de susto. Mas, como palavra de rei não volta atrás, teve de se casar com a princesa. Na noite do casamento, mostrou-se, porém, tão embaraçado que a princesa julgou que êle não gostasse dela. No dia seguinte, disse ao pai que se havia enganado, pois havia sido outro o autor da sua gargalhada. O casamento foi então anulado, realizando-se o enlace da princesa com o filho do rei de um país vizinho.

O rapaz ficou muito triste, mas resolveu lutar para reaver a princesa. Ao cair da noite, foi para debaixo da árvore e, na hora de os noivos se recolherem aos seus aposentos, ordenou ao pássaro: — Canta, mavioso! O pássaro começou a cantar e todo mundo, princesa, noivo, rei, guardas do palácio, convidados, caíram em sono profundo.

O jovem príncipe disse então: — Agora, besouro, vá ao quarto dos noivos e desarrume tudo o que lá encontrar. O besouro cumpriu a ordem e os aposentos dos noivos ficaram como se tivessem sofrido um terremoto. Os móveis foram quebrados, as roupas rasgadas, o teto e o assoalho do quarto despedaçados. Quando a princesa acordou e viu a desordem, ficou desesperada. O rei ficou muito aborrecido com o caso e prometeu à filha mandar pôr tudo nos seus lugares.

Na noite seguinte, o pássaro cantou novamente e todos adormeceram. O rato foi então enviado para desarrumar o quarto dos noivos. Se o besouro fêz bem, o rato ainda fêz melhor. Um furacão não teria feito maior estrago nos aposentos da princesa. Quando esta acordou, não teve mais dúvidas. Admirou o poder do seu primeiro noivo e viu que estava apaixonada por êle. Mandou o segundo noivo embora e contou tudo ao pai. O rapaz foi então chamado às pressas e realizou-se, novamente, o seu casamento com a princesa. Daí por diante, êle perdeu o acanhamento e viveu feliz e contente ao lado da sua bela esposa.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

 

jul 092010
 

A raposa maravilhosa

Era uma vez um príncipe que saiu pelo mundo à procura de um remédio para seu pai que estava cego. Depois de muito viajar, chegou a uma cidade, onde deparou com uma cena estranha. Um grupo de homens espancava o corpo de um defunto. O rapaz aproximou-se e perguntou aos homens porque faziam aquilo. Responderam que o homem, quando era vivo, lhes devia dinheiro e, por isso, de acordo com o costume da terra, seu cadáver tinha de apanhar. Ouvindo isso, o príncipe pagou todas as dívidas do morto e o mandou enterrar, colocando uma cruz na sua sepultura. Em seguida, recomeçou sua viagem.

Depois de muito andar, encontrou no caminho uma pequena raposa que lhe perguntou: — Onde vai, meu honrado príncipe? Respondeu-lhe o moço: — Ando à procura de um remédio para meu pai que ficou cego. — Para isso, só existe um recurso, disse a raposinha. E preciso colocar nos olhos do seu pai um pouco de excremento de um papagaio do Reino dos Papagaios. Se quiser seguir meu conselho, vá ao Reino dos Papagaios e entre à meia-noite no lugar em que eles se encontram. Deixe, porém, delado os papagaios bonitos e faladores que estão em lindas e ricas gaiolas. Apanhe um papagaio velho e triste que está numa gaiola de pau muito feia. O rapaz ouviu, atenta-mente, as palavras da raposinha e partiu, depressa, para o lugar indicado.

Depois de muito andar, encontrou no caminho uma pequena rapt

Depois de muito andar, encontrou no caminho uma pequena rapt

Quando chegou ao Reino dos Papagaios, ficou extasiado ao ver milhares dessas aves em belíssimas gaiolas de dia-mante, ouro e prata. Não deu importância ao papagaio velho e sujo que se achava num canto. Apanhou a gaiola mais bonita e correu para fora. Mas, quando ia saindo, o papagaio deu um grito estridente e acordou os guardas que agarraram o rapaz. Que queres com este papagaio? perguntaram eles. Vais morrer por causa disso! O príncipe contou-lhes, então, a história da doença do seu velho pai. Os guardas ficaram com pena e disseram: — Pois bem, poderás levar o papagaio, se nos trouxeres uma espada do Reino das Espadas. O moço ficou muito triste, mas aceitou a proposta e partiu.

Mais adiante, surgiu na sua frente, de novo, a raposinha que lhe perguntou: — Por que está tão triste, meu honrado príncipe? O moço contou-lhe, então, o que havia acontecido. — A culpa foi sua, disse a raposa. Não seguiu o meu conselho. Deixou de lado o papagaio velho e feio e apanhou o papagaio bonito. Contudo, vou ensinar-lhe o que deve fazer no Reino das Espadas. Entre lá, à meia-noite, com muito cuidado. Verá muitas espadas de prata, ouro e diamante. Não pegue em nenhuma. Num canto, encontrará uma espada velha e enferrujada. Apanhe esta. O moço agradeceu o conselho e partiu.

Quando chegou ao Reino das Espadas, ficou maravilhado ao ver tantas espadas belíssimas! E, teimoso como da

outra vez, disse consigo mesmo: — Ora, tanta espada bonita e eu obrigado a levar uma espada velha e enferrujada! Nada disso. Vou levar a mais linda que houver aqui. E assim fêz. Quando ia saindo, a espada de ouro e diamantes, que levava, deu um estalo tão forte que acordou os guardas. O rapaz foi logo preso, e os guardas lhe disseram que ia ser condenado à morte. Contou-lhes, então, o moço a sua triste história. Os guardas ficaram penalizados e declararam que lhe dariam uma espada, se ele lhes trouxesse um cavalo do Reino dos Cavalos. O príncipe não teve remédio senão aceitar a proposta.

Depois de muito caminhar, encontrou, novamente, a raposinha. — Onde vai, meu honrado príncipe? perguntou ela. O moço contou o que lhe acontecera. — Ah! não lhe disse ? Por que não seguiu o meu conselho ? exclamou a raposa. Vou ensinar-lhe, mais uma vez, o que deve fazer. Entre no Reino dos Cavalos, à meia-noite, com muito cuidado. Há de encontrar lá uma porção de cavalos gordos e bonitos, ricamente arreados. Não monte em nenhum. Num canto, achará um cavalo velho, magro e feio. Apanhe este. O rapaz agradeceu o conselho e partiu.

Quando chegou ao Reino dos Cavalos, ficou deslumbrado com a beleza dos animais. E teimoso, como sempre, disse consigo mesmo: — Ora, tantos cavalos bonitos e eu obrigado a escolher um diabo velho e feio! Nada disso! E montou num dos cavalos mais gordos e lindos. Mas, quando ia saindo, o cavalo deu um relincho tão forte que os guardas acordaram e prenderam o rapaz. Este, mais uma vez, repetiu a sua triste história. Os guardas, com pena, disseram: —Está bem. Dar-lhe-emos um cavalo, mas você deverá raptar a filha do Rei do Ouro. O moço prometeu trazer a prin-

cesa, mas pediu que lhe dessem um cavalo, para ír mais depressa. Os guardas atenderam ao seu pedido, e o príncipe seguiu viagem.

No caminho, mais uma vez, apareceu-lhe a raposinhâ mágica. — Onde vai, meu honrado príncipe? perguntou ela. O rapaz contou-lhe tudo. A raposa disse: — Sou a alma daquele homem que estava apanhando depois de morto e cujas dívidas você pagou. Tudo tenho feito para retribuir o que fêz por mim. Mas você não tem seguido os meus conselhos e, por isso, tem vivido no meio de perigos e dificuldades. Vou, porém, aconselhá-lo mais uma vez. Vá montado neste cavalo até o palácio do Rei do Ouro. Quando for meia-noite, entre no palácio, agarre a moça, ponha-a na garupa do seu cavalo e saia a toda disparada. Passe pelo Reino dos Cavalos e peça o seu cavalo, passe pelo Reino das Espadas e peça a sua espada, passe pelo Reino dos Papagaios e peça o seu papagaio. Corra, depois, a toda pressa, para sua casa, pois seu pai está muito mal. Não se afaste do caminho, nem dê ouvidos a ninguém até chegar à sua casa.

O príncipe partiu. Chegando ao palácio do Rei do Ouro, raptou a moça. Passando pelo Reino dos Cavalos, recebeu seu cavalo. No Reino das Espadas, recebeu sua espada. No Reino dos Papagaios, recebeu seu papagaio. Continuou a correr. Porém, um pouco adiante, encontrou seus irmãos que andavam à sua procura. Quando viram a linda moça e as coisas valiosas que o rapaz trazia, ficaram cheios de inveja e armaram um plano para roubá-lo. Começaram por convencer o irmão que se afastasse da estrada, a fim de evitar o assalto dos ladrões. O príncipe, esquecendo os conselhos da raposa, atendeu aos irmãos. Quando desceu do cavalo para beber água, foi atirado numa furna que existia dentro da mata. Os irmãos tomaram-lhe a moça, o cavalo, a espada e o papagaio. E seguiram, alegremente, para casa, pensando que o rapaz estava morto.

Quando chegaram ao palácio, aconteceu, porém, um fato inesperado. A moça não quis comer, nem falar. O papagaio meteu a cabeça debaixo da asa e ficou silencioso. A espada cobriu-se de ferrugem. E o cavalo começou a emagrecer e a ficar velho. Que acontecera ao príncipe ? Abandonado na mata, estava para morrer, quando apareceu a rapo-sinha mágica que lhe salvou a vida e o pôs em liberdade. Depois de agradecer à sua benfeitora, correu para casa. Assim que penetrou no palácio, houve um acontecimento que causou espanto a todo mundo. A espada deu um estalo e começou a brilhar. O papagaio voou para seu ombro e pôs-se a falar. A moça soltou uma gargalhada e começou a cantar. E o cavalo, de repente, ficou gordo e bonito e pôs-se a relinchar.

O príncipe, então, apanhou um pouco de excremento do papagaio e colocou nos olhos de seu pai. Imediatamente, o veiho recobrou a visão e abraçou o filho, chorando de alegria. O príncipe, dias depois, casou-se com a princesa. Seus irmãos foram castigados e expulsos do reino.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 092010
 

A lebre encantada

muito tempo existia um rei que só se alimentava de animais de caça. Por isso, todos os dias, seu único filho ia caçar na floresta próxima, a fim de que não faltasse o alimento preferido do seu pai. Certa vez, numa de suas excursões pela mata, o príncipe encontrou uma bonita lebre, toda branquinha. Correu atrás dela para apanhá-la, mas não conseguiu. A bichinha era veloz como uma flecha.

Depois de muito correr pela floresta, o príncipe viu a lebre parar e bater com o focinho no chão. Imediatamente, a terra se abriu, e a lebre penetrou no interior do solo. O príncipe, de um salto, entrou também na abertura e, depois de andar, durante muitas horas, por um túnel escuro, deparou com um campo cheio de flores perfumosas, no meio do qual se erguia o mais belo palácio que havia visto em sua vida. Penetrando no palácio, viu uma linda princesa que o recebeu gentilmente.

Passou então a residir no palácio, em companhia da formosa princesa, pela qual se apaixonou loucamente. Aí levava uma vida tão alegre e divertida que se esqueceu, completamente, de seu pai e do seu reino. Passado muito

Depois de muito correr pela floresta, o príncipe viu a lebre parar e bater com o focinho no chão.

Depois de muito correr pela floresta, o príncipe viu a lebre parar e bater com o focinho no chão.

tempo, ao lavar as mãos, o príncipe tirou do dedo um anel que seu pai lhe tinha oferecido. Lembrou-se, então, de sua família e do seu povo. Resolveu ir vê-los. A princesa tudo fêz para que ele desistisse da idéia. Mas o príncipe disse-lhe que seria uma ingratidão de sua parte, se não fosse visitar os seus. Prometeu, porém, à formosa princesa que, em breve, estaria de volta. Diante disso, a moça conduziu-o até o lugar por onde ele havia entrado e, batendo com uma vara mágica na terra, fêz com que a mesma se abrisse para o príncipe passar.

Chegando ao seu reino, encontrou o palácio vazio e coberto de luto. Soube, então, com grande tristeza, que

seus pais haviam morrido de desgosto, em virtude do seu desaparecimento. O príncipe ficou tão amargurado e cheio de remorsos, que resolveu não voltar mais ao palácio da linda princesa. Vestiu, então, uma humilde roupa de sapateiro e saiu pela estrada, sem destino.

Depois de caminhar durante vários dias, encontrou uma cidade, na qual se realizava uma grande festa. Indagando o motivo dos festejos, teve a notícia de que reinava grande alegria na cidade pelo fato de nela se encontrar a princesa mais bonita do mundo. O príncipe pediu então que lhe mostrassem a princesa e, quando a viu, declarou que conhe^ cia uma princesa muito mais formosa.

Alguém ouviu a declaração do rapaz e foi correndo dizer ao rei que havia na cidade um sapateiro que afirmara ter visto uma princesa muito mais bela do que a sua filha. O rei ficou indignado com tamanha ousadia. Mandou chamar o sapateiro e o intimou, sob pena de morte, a trazer à sua presença a moça que ele dizia ser mais bonita do que sua filha. O sapateiro pediu quinze dias de prazo e partiu à procura da sua princesa.

Depois de longa viagem, chegou ao lugar por onde a lebre tinha entrado no interior da terra. Começou então a cavar e, depois de trabalhar dia e noite, conseguiu abrir um túnel até o palácio da princesa. Mas aí chegando, encontrou tudo silencioso e triste. Bateu à porta do palácio, e apareceu uma criada que lhe disse:

— Meu senhor, a princesa está muito doente por sua causa. Depois da sua partida, ela não mais se alimentou. Ficou tão triste e abatida, que nem pôde mais defender-se dos seus inimigos. Por isso, hoje vai acontecer uma coisa horrível. Ã meia-noite, o mar vai crescer e inundar todo

o palácio. Virá, então, um peixe enorme, que é um feiticeiro disfarçado, que devorará a princesa.

O rapaz quis falar com a princesa. Mas a criada o aconselhou a não fazer isso, senão a sua senhora morreria mais depressa. Nesse momento, o mar começou a inundar o palácio. O príncipe, que não tinha medo, armou-se com uma grande espada e escondeu-se atrás da porta. Quando chegou a meia-noite, surgiu um peixe gigantesco. Antes que este pudesse defender-se, o príncipe enfiou-lhe a espada no corpo três vezes. O monstro soltou um berro tremendo e morreu. As águas do mar então se afastaram e a princesa ficou salva.

O moço apresentou-se à princesa, e esta o abraçou contente e feliz. Disse-lhe o rapaz: — Minha princesa, salvei-lhe a vida. Agora preciso que você salve a minha. Contou-lhe, então, a promessa que havia feito ao rei, sob pena de morte. A princesa, porém, o aconselhou a voltar para o lugar onde devia cumprir a promessa e esperá-la lá, descansado.

O príncipe chegou no lugar, exatamente no dia que havia marcado. Os soldados do rei lá estavam, armados, à sua espera. O povo se havia reunido para assistir à execução dp rapaz. Este tomou o caminho do palácio e pediu ao rei que aguardasse alguns momentos, pois iria cumprir a promessa.

Daí a pouco, surgiu no céu uma nuvem prateada. Veio descendo, descendo e, quando chegou diante do palácio e no meio do povo, dela saiu uma criada vestida de prata, que gritou: — Afaste-se, minha gente, que aí vem a minha princesa! O povo ficou boquiaberto com a cena. Mas o príncipe pediu ao rei que esperasse ainda alguns instantes. Poucos minutos depois, apareceu outra nuvem dourada, de onde saiu uma criada vestida de ouro, gritando: Afaste-se, minha gente, que aí vem minha princesa! O espanto foi geral. O príncipe pediu ao rei que esperasse ainda alguns momentos. Finalmente, surgiu uma nuvem tão brilhante que ofuscava os olhos de todos. Veio descendo, descendo, até o meio do povo. Dela saiu, então, a mais linda princesa do mundo, toda vestida de diamantes. Era a noiva do sapateiro.

O povo ficou maravilhado. O rei e a princesa, quando viram aquela beleza incomparável, ficaram envergonhados e pediram muitas desculpas ao rapaz. Convidaram este e sua formosa noiva para se hospedarem no palácio. Mas os dois não aceitaram. Preferiram voltar para o seu reino, onde viveram alegres e felizes.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 042010
 

O príncipe encantado

Era uma vez uma velha ambiciosa que tinha três filhas, cada qual mais feia. Perto da casa da velha, morava uma moça muito bonita que, apesar de pobre, andava com lindos vestidos e ricas jóias. Desconfiando de tanta riqueza, a velha visitava, freqüentemente, a casa da moça para ver se descobria alguma coisa. Mas, por mais que procurasse, nada conseguia saber.

Resolveu então sua filha mais velha tentar descobrir o segredo. Dirigiu-se à casa da moça e, depois de muitos rodeios, pediu a esta para passar a noite em sua casa. A moça consentiu, mas, quando foi na hora de dormir, pôs no café da vizinha um remédio muito forte, que a fêz dormir a noite toda, sem nada ver ou ouvir.

Enquanto ela dormia, bateu na janela da moça um belo papagaio. A moça abriu a janela, e a ave entrou no seu quarto, onde já estava preparada uma bacia com água. O papagaio tomou um banho, sacudindo as penas. Cada pingo que caía fora da bacia era um lindo diamante, que a moça recolhia e guardava. Quando o papagaio acabou de se banhar, transformou-se num belo príncipe.

A moça abriu a janela, e a ave entrou no seu quarto.

A moça abriu a janela, e a ave entrou no seu quarto.

 

Depois de passar a noite com sua noiva, o príncipe, logo que clareou o dia, transformou-se num papagaio e voou para longe.

A filha da velha, que nada vira, voltou para casa dizendo que era mentira o que se dizia da moça. Mas a velha, desconfiada, mandou a outra filha para passar a noite na casa da vizinha. Aconteceu então a mesma coisa: ela tomou café com remédio e roncou a noite toda.

Diante disso, a velha, sempre desconfiada, mandou a sua filha mais moça. Esta, que era muito esperta, quando lhe foi dado o café, fingiu que ia bebê-lo e o derramou sobre um lenço que levava escondido. Deitou-se na cama e fingiu que estava dormindo. Pôde, assim, ver o que aconteceu durante a noite. Quando amanheceu, correu para casa e contou tudo à sua mãe.

A velha ficou ralada de inveja e, assim que anoiteceu, colocou no peitoril da janela da vizinha, uma porção de cacos de vidro e pedaços de navalha. Quando o papagaio chegou e foi passar pela janela ficou ferido, com o sangue a escorrer. A moça, espantada, correu para cuidar do papagaio, mas este, batendo as asas, exclamou:

— Ah! ingrata! Estou perdido! Nunca mais me verás, a não ser que mandes fazer uma roupa de bronze e andes com ela até o Reino do Limo Verde, onde moro! Dizendo isso, bateu asas e desapareceu no espaço.

A moça ficou muito triste e compreendeu o motivo das visitas das filhas da velha. Mas não desanimou. Mandou fazer uma roupa de bronze, vestiu-a e saiu pelo mundo à procura do Príncipe do Limo Verde.

Depois de dois anos de viagem, chegou ao reino da Lua e perguntou a esta se lhe poderia dar notícias do Reino

do Limo Verde. A Lua respondeu que nunca ouvira falar nesse reino, mas que talvez o Sol soubesse alguma coisa a esse respeito. A moça despediu-se e, na saída, a Lua lhe deu de presente uma almofada de fazer rendas, com bilros e alfinetes de ouro.

A moça seguiu viagem e, depois de andar dois anos, chegou à casa do Sol. Este disse também que jamais ouvira falar no Reino do Limo Verde. Mas que talvez o Vento Grande pudesse dar alguma informação sobre êle. A moça despediu-se e, na saída, o Sol lhe deu de presente uma galinha com pintos, todos de ouro, vivos e andando.

A moça viajou mais dois anos e, afinal, chegou à casa do Vento Grande. Este ouviu o que ela disse e respondeu: — Conheço o Reino do Limo Verde. Ainda ontem passei por lá. A moça então suplicou ao Vento que a levasse até lá. O Vento Grande lhe respondeu: — Amanhã monte em mim e, quando encontrar uma árvore muito grande e muito copada, na frente de um palácio muito rico, segure-se nos galhos, que é ali.

No dia seguinte, lá foi a moça montada no Vento Grande. Ao avistar a árvore, agarrou-se à mesma e desceu. E ficou, embaixo, imaginando o que havia de fazer para entrar no palácio e ver o príncipe.

Nesse momento, chegaram três rolinhas, pousaram na árvore e começaram a conversar. Disse uma delas: — Não sabem? O príncipe do Limo Verde está para morrer. A segunda perguntou: — O que será bom para êle? E a terceira respondeu: — As feridas que êle tem no peito não saram mais; só se nos pegarem, tirarem nossos corações, torrarem, moerem e deitarem o pó nas feridas.

A moça, que ouvira toda a conversa, armou um laço e pegou as três rolinhas. Tirou-lhes os corações, torrou-os e fêz um pòzinho que guardou cuidadosamente. Em seguida partiu à procura do príncipe.

Fêz tudo para entrar no palácio, mas não conseguiu. Então, tirou a almofada de ouro que a Lua lhe havia dado, e começou a fazer renda. Daí a pouco, veio passando uma criada do palácio que ficou maravilhada com a beleza da almofada. Foi contar o que vira à rainha e esta mandou perguntar à moça quanto queria pela almofada. E a moça respondeu: — Darei de presente a almofada, se me deixarem dormir no quarto do príncipe.

A rainha ficou ofendida e quis mandar prender a moça, mas a criada lhe disse: — Ora, minha senhora, o príncipe está tão doente que não conhece mais ninguém. Que mal faz que aquela tola durma no chão de seu quarto ? A rainha, então, consentiu e ficou com a almofada de ouro.

A moça foi dormir no quarto do príncipe e logo na primeira noite lavou-lhe as feridas e pôs nelas o pó das rolinhas. Mas, desta vez, o rapaz não a reconheceu.

No dia seguinte, a moça foi, novamente, para debaixo da árvore e soltou a galinha e os pintos de ouro. Passou a criada e ficou admirada com o que viu. Foi correndo contar à rainha. Mandou esta perguntar quanto custava a galinha e os pintos. A moça respondeu que daria de graça aquelas preciosidades se a deixassem dormir duas noites no quarto do príncipe.

A rainha, a princípio, não queria deixar, mas, a conselho da criada, acabou consentindo. Na segunda noite, o príncipe melhorou muito e, na terceira, ficou completamente

bom e reconheceu a moça. Abraçou-a, ternamente, e pediu-a em casamento.

E claro que a moça aceitou. Então, o príncipe apresentou-a a seus pais como sua noiva. Dias depois, realizou-se o casamento com grande pompa. Houve muitas festas, não só no palácio, como em todo o Reino do Limo Verde.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 042010
 
Quando chegou à fonte, o príncipe verificou que o monstro estava com os olhos abertos.

A fonte das três comadres

Era uma vez um rei muito poderoso que teve uma enfer midade nos olhos e ficou completamente cego. Consultou então os melhores médicos do mundo, tomou todos os remédios aconselhados pela ciência, mas nada conseguiu. Sua cegueira parecia incurável. Um belo dia, apareceu no palácio uma velhinha pedindo esmola e, sabendo que o rei estava cego, pediu licença para dirigir-lhe a palavra, pois desejava ensinar-lhe um remédio maravilhoso. Conduzida à presença do rei, ela lhe disse: — Saiba Vossa Majestade que só existe uma coisa capaz de fazer voltar sua vista: é banhar seus olhos com água tirada da Fonte das Três Comadres. E muito difícil, porém, ir a essa fonte que fica num reino situado quase no fim do mundo. Quem fôr buscar a água deve entender-se com uma velha que mora perto da fonte. Ela conhece o dragão que guarda a fonte e sabe quando êle está acordado ou adormecido. O rei ficou muito satisfeito com a informação da velhinha e recompensou-a com uma bolsa cheia de dinheiro.

Mandou, em seguida, preparar uma esquadra para conduzir seu filho mais velho que deveria ir buscar a água da fonte milagrosa. Deu-lhe o prazo de um ano para cumprir sua missão, aconselhando-ò a não saltar em nenhum porto para não se distrair do que devia fazer. O príncipe partiu, mas no meio da viagem, encontrou uma cidade onde havia muitas festas e lindas moças. Atraído pelos divertimentos, aí ficou gastando todo o dinheiro que levava e contraindo grandes dívidas. No fim do prazo que lhe fora marcado, não seguiu viagem nem voltou ao reino do seu pai, o que causou a este profundo desgosto.

Resolveu então o rei preparar outra esquadra a fim de que o seu segundo filho fosse buscar a água maravilhosa. O moço partiu, mas encontrou em seu caminho a mesma cidade onde se havia arruinado o seu irmão mais velho. Ficou também encantado pelas festas e pelas moças bonitas, e gastou tudo o que trazia, esquecendo-se da missão que seu pai lhe confiara. No fim de um ano, ainda se encontrava nessa cidade, pobre e endividado.

O rei, ao saber da notícia do que acontecera ao seu segundo filho, ficou muito triste e desanimado. E perdeu a esperança de curar sua cegueira. Mas seu filho mais moço, que era ainda um menino, não se conformou com os acontecimentos e disse-lhe: — Agora, meu pai, eu é que vou buscar a água. Garanto-lhe que hei de trazê-la! O rei procurou dissuadi-lo: — Se seus irmãos, que eram homens nada conseguiram, que poderá você fazer, meu filho ? Mas, o pequeno príncipe tanto insistiu e rogou que o pai acabou cedendo. E mandou preparar uma esquadra para sua viagem. O jovem partiu cheio de esperança. Depois de muito navegar, encontrou a famosa cidade onde seus irmãos já se achavam presos pelas dívidas que haviam contraído. O príncipe pagou as dívidas dos irmãos e conseguiu pô-los em liberdade. Estes tudo fizeram para dissuadir o rapaz de seguir viagem.

Mas o príncipe nada quis ouvir e continuou, resolutamente sua jornada.

Chegando à região onde se encontrava a Fonte das Três Comadres, desembarcou sozinho, levando apenas uma garrafa. Seguiu logo para a casa da velhinha, que residia perto da fonte. Esta ao vê-lo ficou muito admirada, dizendo: — Por que veio aqui, meu netinho? Está correndo um grande perigo! O monstro que vigia a fonte é uma princesa encantada que tudo devora. Se quiser, realmente, apanhar água da fonte, aproveite a ocasião em que o monstro estiver adormecido. Quando êle estiver com os olhos abertos, pode aproximar-se sem receio. E sinal de que está dormindo. Mas se o encontrar com os olhos fechados, fuja depressa, pois êle estará, na certa, acordado.

O príncipe prestou bastante atenção aos conselhos da velha e seguiu para a fonte. Quando lá chegou, viu que a fera estava com os olhos abertos. Verificando que ela estava dormindo, o príncipe aproveitou o momento para encher sua garrafa com a água milagrosa. Mas, quando se ia retirando cuidadosamente, o monstro acordou e lançou-se, com fúria, sobre o rapaz. Este puxou da espada e travou uma luta terrível com a fera. Depois de muito lutar, conseguiu ferir o horrendo bicho e fazer seu sangue correr. Nesse momento, o monstro se desencantou, transformando-se numa belíssima princesa. O príncipe ficou extasiado, pois nunca tinha visto uma moça tão formosa. Ela então lhe disse: — Prometi que havia de me casar com aquele que me desencantasse. Portanto, dentro de um ano, virás buscar-me. Se não o fizeres, irei à tua procura. E para que o jovem pudesse ser reconhecido quando fosse buscá-la, a princesa deu-lhe um pedaço do seu vestido.

Quando chegou à fonte, o príncipe verificou que o monstro estava com os olhos abertos.

Quando chegou à fonte, o príncipe verificou que o monstro estava com os olhos abertos.

Contente e feliz, o príncipe partiu de volta à sua terra. Passando pela cidade onde se encontravam seus irmãos, convidou-os para embarcar na sua esquadra, a fim de que pudessem regressar ao seu país. Os irmãos aceitaram o convite. O rapaz havia guardado a garrafa com a água milagrosa na sua mala. Seus irmãos armaram, então, um plano para roubar-lhe a garrafa e se apresentarem ao pai como seus salvadores. Para isso sugeriram, ao príncipe, dar um banquete na esquadra para comemorar o fato de ter ele conseguido o maravilhoso remédio. A festa foi realizada e os irmãos, aproveitando-se da boa fé do jovem príncipe, conseguiram que êle bebesse muito vinho e adormecesse profundamente. Tiraram então do seu bolso a chave da mala, abriram-na, tiraram a garrafa com o remédio e a substituíram por outra cheia de água do mar.

Quando a esquadra atracou no porto de sua terra, o príncipe foi recebido com grande alegria e muitas festas. Mas, quando êle colocou nos olhos do pai a água que supunha ser da fonte maravilhosa, o velho soltou um grito de dor, devido ao sal do mar, e continuou cego. Os dois irmãos traidores acusaram então o príncipe de impostor e declararam que eles é que haviam conseguido a água milagrosa. Dizendo isso, banharam com a mesma os olhos do rei que recobrou a visão. Houve então grandes festas e banquetes no palácio e o jovem príncipe foi condenado à morte. Mas os soldados encarregados de degolar o príncipe, ficaram com pena do rapaz e o deixaram na floresta. O príncipe ficou tão desgostoso que perdeu o amor à vida. Um lenhador malvado o encontrou, caminhando como um louco, no meio da mata. Vendo que êle não reagia, fêz dele seu escravo, obrigando-o a trabalhar, sem descanso.

Um ano depois, chegou a ocasião em que o rapaz devia ir casar com a princesa, conforme havia combinado na Fonte das Três Comadres. Não tendo êle aparecido, a princesa ficou preocupada. Mandou então aparelhar uma poderosa esquadra e partiu para o reino do príncipe. Chegando lá, deu ordem ao comandante da esquadra para avisar ao rei de que êle devia enviar-lhe o filho que fora ao seu reino buscar um remédio e lhe prometera casamento. Caso o noivo não viesse ao seu encontro, ela ordenaria à esquadra para fazer fogo sobre a cidade. O rei ficou apavorado e mandou seu filho mais velho apresentar-se à princesa, supondo que êle fosse o noivo. Mas a princesa, ao vê-lo disse: — Grande mentiroso, onde está o sinal do nosso reconhecimento? Êle que nada possuía, ficou calado e voltou para a terra envergonhado.

Nova intimação e foi ter com a princesa o segundo filho do rei. Repetiu-se a pergunta anterior e o príncipe nada respondeu. A princesa mandou então que os canhões da sua esquadra fossem preparados para o bombardeio da cidade O rei ficou aflitíssimo, certo de que a capital do seu reino seria arrasada, pois havia mandado matar o filho mais moço. Nesse momento, surgiram os dois soldados encarregados de executar o jovem príncipe, que confessaram ao rei que não o tinham degolado. Saiu todo o mundo à procura do príncipe e foi prometido um grande prêmio a quem o encontrasse.

O lenhador que o tinha escravizado ficou mais morto do que vivo quando soube que êle era filho do rei. Mais do que depressa, colocou o rapaz nas costas e o levou ao palácio. O príncipe foi então lavado e vestido com lindas roupas. O prazo que a princesa tinha concedido já estava terminado e, quando os canhões iam começar a bombardear a cidade, o rapaz correu ao encontro da noiva, sendo logo reconhecido devido ao pedaço do vestido que levava na mão. A princesa abraçou-o chorando de alegria. Seguiram então para o reino da princesa onde se casaram no meio de festas que duraram seis meses. O rapaz tornou-se rei de um dos países mais belos e ricos do mundo. Seus irmãos traidores foram expulsos do reino de seu pai e condenados a pedir esmola até o fim de sua vida.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 042010
 

Os príncipes coroados

NUMA cidade havia três moças órfãs de pai e mãe.

Um dia estavam à janela de sua casa, quando viram passar o rei. Era jovem, belo, elegante e montava um formoso cavalo. A mais velha das moças, extasiada com a beleza do rei, exclamou: — Se eu me casasse com ele, far-lhe-ia uma camisa como nunca viu! A do meio, cheia de admiração, disse: — Se eu me casasse com ele, far-lhe-ia umas calças como nunca teve! A mais jovem disse: — E eu, se me casasse com ele, da-he-ia três filhos coroados.

O rei ouviu a conversa e, no dia seguinte, foi à casa das moças e lhes falou: — Apareça a moça que disse que, se casasse comigo, me daria três filhos coroados. A moça se apresentou e, como era muito formosa, o rei ficou apaixonado e casou-se com ela. As irmãs ficaram com inveja, mas fingiram que nada sentiam e que estavam até muito contentes com o casamento.

Tempos depois a jovem rainha avisou que ia ter um filho. As irmãs correram logo para o palácio, dizendo que desejavam ajudar a rainha. Aproximando-se o dia desta dar à luz, ofereceram-se para servi-la e dispensaram o médico. Nasceram três lindos príncipes. Todos tinham uma pequena coroa na cabeça. Mas as irmãs malvadas da rainha esconderam as crianças numa caixa e a atiraram ao mar. Em lugar dos príncipes, levaram ao rei um sapo, uma cobra e um rato, dizendo com fingida indignação: — Veja Vossa Majestade os coroados que aquela impostora deu à luz! O rei ficou muito desgostoso e, aconselhado pelas cunhadas, mandou enterrar a mulher até o pescoço, perto da escada do palácio, dando ordem para que todos que por ali passassem, cuspissem no seu rosto.

Um velho pescador achou no mar a caixa, abriu-a e encontrou os três meninos ainda vivos. Encantado com a beleza das crianças, levou-as para casa. Sua mulher, que era muito bondosa, criou os meninos com todo carinho, sem saber que eles eram príncipes. Quando ficaram crescidos ao ponto de irem para a escola, passaram um dia pelo palácio do rei e foram vistos e reconhecidos pelas tias. Elas os chamaram, fizeram-lhes muitos agrados e lhes ofereceram frutas envenenadas. Os meninos comeram as frutas e, no mesmo instante, ficaram todos os três transformados em pedra.

Quando soube do que acontecera, o pescador ficou muito triste, mas sua mulher que era adivinha disse ao marido: — Não se aflija. Vou à casa do Sol buscar um remédio milagroso e com ele farei os meninos voltarem à vida. E partiu montada num cavalo. Depois de muito viajar, encontrou um lindo rio. Este lhe perguntou: — Aonde vai, minha velhinha? — Vou à casa do Sol para êle me ensinar que remédio se deve dar a quem virou pedra, respondeu a velha. O rio então disse: — Pergunte também ao Sol o motivo pelo qual, sendo eu um rio tão bonito, nunca tive peixes.

 

 

Em lugar dos príncipes, levaram ao rei um sapo, uma cobra e um rato.

Em lugar dos príncipes, levaram ao rei um sapo, uma cobra e um rato.

A velha continuou sua viagem. Adiante, encontrou uma bela árvore, mas sem um único fruto. Ao avistar a velha, a árvore indagou: — Aonde vai, minha velhinha? — Vou à casa do Sol à procura de um remédio para gente que virou pedra. A árvore então pediu: — Pergunte-lhe também o motivo pelo qual, sendo eu uma árvore tão grande, tão verde e tão bela, nunca dei um só fruto. A velha prosseguiu na sua marcha. Depois de muito caminhar, encontrou uma casa onde havia três moças, lindas e solteiras, mas que já estavam passando a idade de casar. As moças ao vê-la, perguntaram: — Aonde vai, minha avozinha ? A velha disse para onde seguia. As moças pediram-lhe então para indagar do Sol o motivo pelo qual, sendo elas tão formosas, ainda não se tinham casado.

A velha continuou a caminhar. Depois de viajar dia e noite sem parar, chegou finalmente à casa do Sol. A mãe deste, que era muito boa, recebeu a velha delicadamente e ouviu com atenção, toda a sua história. Ficou com pena da corajosa velhinha e prometeu auxiliá-la. Mas disse-lhe que, antes de falar com o filho, ia escondê-la, pois o Sol não consentia que pessoas estranhas entrassem em sua casa. Quando o Sol chegou a casa, depois de ter queimado tudo que encontrou em seu caminho, sentiu cheiro de gente e perguntou zangado à sua mãe: — Há gente estranha nesta casa? Estou sentindo cheiro de carne humana! — Não é nada, meu filho! disse-lhe a mãe. E o cheiro de uma galinha que matei para o nosso jantar.

O Sol ficou tranqüilo e sentou-se à mesa para jantar. Enquanto êle comia, a mãe perguntou-lhe jeitosamente:

— Meu filho, um rio muito fundo e largo por que não dá peixe? — E porque nunca matou gente! respondeu o Sol. Depois de algum tempo, a velha fêz nova pergunta: — E uma árvore grande, verde e bonita, por que não dá frutos ? — Porque há dinheiro enterrado entre suas raízes. A velha esperou mais um pouco e arriscou outra pergunta: E umas moças bonitas e ricas por que não se casam? — Porque costumam cuspir para o lado em que surjo no céu, todos os dias. — E qual será o remédio para gente que virou pedra? perguntou finalmente a velha. Aí o Sol se irritou:

— A senhora já está me amolando com essas perguntas! Mas a velha acalmou-o: — Desculpe, meu filho, como fico o dia inteiro sozinha, vivo imaginando tolices. Então o Sol, arrependido da sua irritação com a mãe, fêz-lhe a vontade: — O remédio para gente que virou pedra é colocar sobre a mesma um bocado do que eu estiver comendo.

A velha prestou atenção às palavras do Sol e, daí a pouco, levou a mão à boca do filho e tirou um bocado do que êle estava comendo, dizendo: — Não é nada, apenas um cisquinho que estava na sua comida. Momentos depois, repetiu o gesto: — Agora, meu filho, é um cabelo. E tornou a esconder o bocado. Na terceira vez, o Sol ficou zangado: — Ora, minha mãe, sua comida está hoje muito suja! Não quero mais comer! Dizendo isto, levantou-se e seguiu para o céu, a fim de realizar sua viagem diária.

A mãe do Sol foi então ao quarto onde estava a velhinha, contou-lhe tudo e deu-lhe os três bocados que tirara da boca do filho. A velhinha montou o seu cavalo e procurou logo o caminho de casa. Passando pela residência das moças, pernoitou na mesma, mas não lhes disse o motivo pelo qual elas não tinham casado. Pela manhã, viu que estavam cuspindo para o lado do nascer do Sol. A velha então as repreendeu, dizendo: — Eis a razão pela qual vocês ainda não casaram. Deixem esse costume de cuspir para o lado em que nasce o Sol. As moças seguiram o conselho da velha e acharam logo casamento.

A velha seguiu viagem. Ao encontrar a árvore que não dava frutos, pôs-se a cavar sob suas raízes, sem dizer nada. Quando, por fim, descobriu, enterrado, um cofre cheio de moedas de ouro, disse à árvore o motivo pelo qual ela não dava frutos. Pouco depois, a árvore ficou carregada de frutos deliciosos.

A velha continuou sua viagem. Ao chegar à margem do rio, este perguntou-lhe pela resposta do Sol. A velha ficou calada enquanto atravessava o rio. Quando se viu na outra margem, andou bastante até ficar bem longe do rio e daí gritou para êle: — Você não tem peixes porque nunca matou gente! O rio aumentou logo o volume de suas águas e produziu uma enchente tão grande que, por um triz, não afogou a velha.

Finalmente, a corajosa velhinha chegou à sua casa. Sem mais demora, colocou os três bocados sobre a cabeça das crianças que, no mesmo instante, se desencantaram, voltando à vida. A notícia do desencantamento dos meninos correu pela cidade e chegou até o Rei. Este ficou interessado em conhecer a história e mandou convidar o velho e os três meninos para jantarem no palácio. O velho não quis ir nem mandar as crianças. Mas o rei exigiu a presença dos mesmos em seu jantar. A velhinha aconselhou então aos meninos que fizessem o seguinte: — Quando vocês chegarem ao palácio e passarem pela escada, ponham-se de joelhos e tomem a bênção àquela pobre mulher que está lá enterrada, que é a sua mãe. Quando chegar a hora do jantar, não queiram ir para a mesa, sem que o rei mande desenterrá-la e sentá-la também à mesa. Quando cada um de vocês receber seu prato de comida, não comam nada e dêem os três pratos à sua mãe que os há de devorar num instante, pois está morta de fome. Aí as duas moças que lá estarão e que são tias de vocês, hão de dizer: — Por que estão dando sua comida a esta mulher? Nada lhe devem! Vocês responderão: — Esta mulher é nossa mãe e nós somos os três príncipes coroados! E mostrarão ao rei suas cabeças.

Foi justamente o que aconteceu. Os meninos cumpriram fielmente as recomendações da velha. O rei abraçou os filhos chorando de alegria e pediu perdão à esposa. Mandou cortar o pescoço das suas diabólicas cunhadas. Mas a rainha implorou-lhe que não mandasse matar suas irmãs. O rei atendeu ao seu pedido, porém condenou as maldosas criaturas à prisão perpétua. Os príncipes pediram ao rei que trouxesse para o palácio os dois velhinhos que os haviam criado. E todos viveram alegres e felizes, por muitos anos.

 


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

jul 032010
 

A princesa e o monstro

Lourenço era um homem muito pobre que possuía três filhas jovens e formosas. Vivia do humilde ofício de fazer gamelas. E o que conseguia com a venda destas mal dava para o sustento da sua família. Um dia estava Lourenço trabalhando na sua oficina, quando surgiu na porta um moço simpático e bem trajado, montando um belo cavalo. Qual não foi o espanto do velho gameleiro quando o desconhecido lhe propôs a compra de uma de suas filhas! Ficou indignado com a proposta e disse ao moço que, embora fosse pobre, não venderia nenhuma filha. Mas o moço não aceitou a recusa do velho e o ameaçou de morte se êle não aceitasse a sua proposta. Viu-se então Lourenço forçado a vender uma filha, recebendo, por isso, grande soma de dinheiro. Ao retirar-se o misterioso cavaleiro, levando a moça comprada em sua companhia, resolveu o velho gameleiro abandonar a profissão, mas, aconselhado por sua mulher, acabou por concordar em não abandonar o seu modesto trabalho.

No dia seguinte, apareceu na casa de Lourenço outro jovem ainda mais simpático do que o da véspera e montando um cavalo mais formoso e melhor arreado. Repetiu-se a estranha proposta do dia anterior. E o velho, com receio de ser morto pelo cavaleiro, viu-se na triste contingência de vender outra filha. Recebeu então uma quantia maior que a do outro pretendente. Novamente, tentou o velho abandonar o negócio das gamelas, porém a mulher, mais uma vez, persuadiu-o a continuar com a sua humilde profissão. No outro dia, à mesma hora, Lourenço quase morreu de susto quando surgiu à sua frente um terceiro cavaleiro, ainda mais belo e melhor vestido do que os anteriores, oferecendo-se para comprar-lhe a última filha. Nova recusa e nova ameaça. O velho, atemorizado, teve de ceder. E lá se foi a filha mais moça do gameleiro na garupa do seu comprador. Desta vez, Lourenço recebeu uma quantia tão grande que ficou rico.

Pouco tempo depois, a esposa do gameleiro teve um filho. Era um menino bonito e forte que foi criado com muito carinho. Um dia, quando já esta ‘a bem crescido, brigou com um companheiro que, enraivecido, lhe disse: — Pensa que seu pai sempre foi rico? Ele está cheio de dinheiro porque vendeu suas filhas! O rapaz ficou impressionado com a acusação do colega e procurou seus pais para saber da verdade. Estes não tiveram outro remédio senão contar ao filho o que havia acontecido. O rapaz ficou muito triste com o destino infeliz de suas irmãs e resolveu sair pelo mundo à sua procura.

Depois de vários dias de viagem, encontrou no caminho três irmãos brigando por causa de uma bota, de uma carapuça e de uma chave. O rapaz aproximou-se, aconselhou os três a fazerem as pazes e perguntou para que serviam aqueles objetos. Soube então que, quando se dizia à bota: — Bota, leva-me a tal parte!, a bota levava; quando se dizia à carapuça: — Esconde-me, carapuça!, a carapuça escondia; e a chave abria qualquer porta!

O rapaz ofereceu bastante dinheiro pelos objetos e os irmãos aceitaram. Meteu ele os objetos no bolso e continuou sua viagem. Quando se achou bem distante do lugar em que deixara os três irmãos, tirou do bolso a bota e disse — Bota, leva-me à casa de minha irmã mais velha! Quando acabou de proferir essas palavras, encontrou-se à porta de um lindo palácio onde residia sua irmã. Chamou um dos criados e disse-lhe para avisar a dona da casa de que seu irmão desejava falar-lhe. A princípio, a moça não quis aparecer, pois não sabia que tinha um irmão. Mas o moço conseguiu contar-lhe sua história e ela então o recebeu carinhosamente. Perguntou ao jovem como conseguira êle alcançar aquele lugar distante e deserto. Mostrou-lhe o rapaz a bota maravilhosa que o havia levado até aquelas paragens.

Ao cair da tarde, o rapaz percebeu que sua irmã estava triste e preocupada. Perguntou-lhe o motivo e ela então lhe disse que seu marido era o Rei dos Peixes, mas que possuía um gênio terrível e lhe avisara de que mataria qualquer pessoa estranha que encontrasse em seu palácio. O rapaz tranqüilizou-a, contando-lhe o poder de sua carapuça que lhe permitia esconder-se sem ser descoberto. Quando anoiteceu, surgiu o Rei dos Peixes, derrubando tudo que encontrava à sua frente. Entrou em casa furioso e foi logo exclamando: — Estou sentindo cheiro de carne humana! Há uma pessoa estranha nesta casa! A rainha conseguiu, a custo, convencê-lo do contrário. Ele então entrou no banho e se transformou num belo moço.

Durante o jantar, aproveitando o bom humor do marido, a rainha perguntou-lhe: — Que faria você se aqui estivesse meu irmão, seu cunhado? — Ficaria muito satisfeito com sua visita. Se êle estiver aqui que apareça! O moço retirou então a carapuça e se tornou visível. Foi muito bem recebido pelo Rei dos Peixes que simpatizou tanto com êle que acabou por lhe pedir para ficar morando no palácio. O rapaz agradeceu e disse que não podia aceitar o convite, pois desejava visitar as duas outras irmãs. Perguntou-lhe então o Rei dos Peixes qual a utilidade daquela bota que êle trazia num dos pés e o rapaz revelou o poder mágico que a mesma possuía. Disse então o Rei dos Peixes: — Se eu tivesse uma bota como essa, iria visitar a Princesa de Castela!

No momento da despedida, o rapaz recebeu do cunhado uma escama e este lhe disse: — Quando você estiver em perigo, segure esta escama e grite: Valha-me o Rei dos Peixes! O jovem abraçou a irmã e o cunhado e partiu. Quando se viu longe do palácio, disse para a bota: — Bota, leva-me à casa da minha segunda irmã! Quando acabou de proferir essas palavras, achou-se diante de um palácio mais bonito do que o anterior. Depois de algumas dificuldades, conseguiu falar com a irmã que ficou muito alegre ao saber que êle era seu irmão. Ao cair da tarde, a irmã ficou inquieta e aflita e disse ao rapaz que seu marido, o Rei dos Carneiros, mataria qualquer pessoa estranha que encontrasse no palácio. O irmão contou-lhe o poder mágico de sua carapuça e ela ficou mais calma.

Quando caiu a noite, apareceu o Rei dos Carneiros. Era um carneirão alvo, bonito e forte, que destruía, com cabeçadas, tudo que encontrava à sua frente. Aconteceram então os mesmos fatos da visita à irmã mais velha. O Rei dos

Carneiros ao ter conhecimento que o rapaz era seu cunhado, fez-lhe muitas gentilezas e, ao despedir-se, deu-lhe um pedaço de lã, dizendo: — Quando você estiver em perigo, segure esta lã e grite: Valha-me o Rei dos Carneiros! Quando soube do poder mágico da bota, também disse: — Se eu tivesse uma bota como essa, iria visitar a Princesa de Castela!

O rapaz ficou intrigado com o desejo dos seus cunhados de visitar a Princesa de Castela e, naquele momento, prometeu a si mesmo que iria vê-la, logo que lhe fosse possível. Antes, porém, precisava visitar sua irmã mais moça. Com o auxílio da bota mágica, num instante foi transportado à sua residência. Era um palácio muito mais lindo e rico que os das outras irmãs. Verificou então que sua irmã mais moça era casada com o Rei dos Pombos. Aconteceram os mesmos fatos das visitas anteriores. No momento da despedida, o Rei dos Pombos deu ao cunhado uma pena, dizendo: — Quando estiver em perigo, segure esta pena e grite: Valha-me o Rei dos Pombos! E ao saber do poder mágico da bota, também exprimiu o desejo de visitar a Princesa de Castela.

Logo que se viu longe do palácio do Rei dos Pombos, o rapaz disse à bota: — Leva-me, agora, ao reino da Princesa de Castela! Quando abriu os olhos estava lá. Soube então que se tratava da mais linda princesa do mundo, tão linda que ninguém podia passar pelo seu palácio sem levantar os olhos para vê-la na janela. O Rei, seu pai, desejava muito que ela se casasse, mas a princesa havia dito que só se casaria com o homem que passasse por ela sem levantar os olhos para vê-la. O rapaz mandou dizer ao Rei que era capaz de fazer isso. E de fato passou diante da princesa, várias vezes, sem olhá-la, conseguindo assim casar-se com ela.

Depois de casados, o rapaz contou à sua esposa a história dos objetos mágicos que possuía. A princesa ficou muito interessada, principalmente, no poder da chave. E que o Rei mantinha preso, num quarto do palácio, um monstro terrível, chamado Manjaléu, que êle, de vez em quando, mandava matar, mas que sempre revivia. A princesa tinha grande curiosidade de ver o estranho animal. Por isso, aproveitando um momento em que o pai e o marido se achavam fora do palácio, apanhou a chave encantada e abriu o quarto. O horrendo monstro pulou para fora, dizendo: — Você mesmo é que eu queria! e fugiu para longe, levando a princesa.

Quando o Rei e o rapaz regressaram e deram por falta da princesa ficaram muito aflitos. E a inquietação foi maior quando verificaram que o quarto do monstro estava vazio. Então, o rapaz, valendo-se da bota encantada, logo foi ter ao lugar onde se encontrava sua esposa. A princesa ficou radiante de alegria quando viu o marido e quis imediatamente fugir com êle. Mas este aconselhou-a a descobrir, primeiro, onde se encontrava a vida do Manjaléu para, assim, poder matá-lo de uma vez.

Quando o monstro voltou, percebeu que ali tinha estado um homem e ficou furioso. Mas a princesa conseguiu convencê-lo do contrário e, quando êle se acalmou, perguntou-lhe onde se achava a sua vida. Ele recusou-se a dizer. Mas tanto pediu a princesa que um belo dia êle resolveu atendê-la e disse: — Vou dizer-lhe onde está a minha vida, mas, se eu, algum dia, sentir qualquer mal-estar, saberei que estou em perigo e, antes que me matem, cortarei sua cabeça com este facão afiado que trago sempre comigo! Quer saber assim mesmo? A princesa disse que sim. Disse-lhe, então, o monstro: — Minha vida está no mar; dentro dele há um caixão; dentro do caixão uma pedra; dentro da pedra uma pomba; dentro da pomba um ovo; dentro do ovo uma vela acesa; assim que a vela se apagar, eu morrerei.

Todos os peixes foram, então, buscar o caixão e o colocaram na praia.

 

A princesa, logo que pôde, contou tudo ao marido. Mais do que depressa o rapaz correu à praia e, segurando a escama que possuía, gritou: — Valha-me o Rei dos Peixes! Milhares de peixes surgiram logo, indagando o que êle desejava. Perguntou-lhes o moço por um caixão que existia no fundo do mar. Responderam os peixes que nunca o tinham visto, mas que, talvez, o peixe coto soubesse da sua existência. Apareceu o peixe cotó e este contou que acabara, naquele momento, de esbarrar no caixão. Todos os peixes foram, então, buscar o caixão e o colocaram na praia. O rapaz, depois de muito custo, conseguiu abri-lo. Mas nada pôde fazer com a pedra que estava no seu interior. Apanhou então o pedaço de lã e gritou: — Valha-me o Rei dos Carneiros! Surgiram logo milhares de carneiros. E o rapaz pediu-lhes que rebentassem a pedra.

 

Nesse momento, o Manjaléu sentiu-se mal e começou a amolar o facão para degolar a princesa. Os carneiros, afinal, conseguiram rebentar a pedra. Saiu desta uma pomba que bateu asas e desapareceu no horizonte. O rapaz pegou então a sua pena e gritou: — Valha-me o Rei dos Pombos! Apareceram milhares de pombos que voaram atrás da pomba e conseguiram agarrá-la. O rapaz abriu-a e achou o ovo. Nesse instante, o Manjaléu, que percebeu que ia morrer, levantou o facão para cortar o pescoço da princesa. Foi quando o rapaz, quebrou, rapidamente, o ôvo e apagou a vela. E o monstro caiu morto, sem conseguir degolar a princesa. O moço foi então buscá-la e a levou para o palácio, onde viveram, daí por diante, tranqüilos e felizes.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

mai 182010
 

O CASTIGO DA AMBIÇÃO

AO castelo do rei Miroslao foram chamados os mais célebres pintores do reino a fim de ser pintado o retrato do soberano.

O rei, que era ainda muito jovem, desejava encontrar a companheira de sua vida.

Entre os numerosos retratos que lhe foram enviados por diversas princesas e altas damas estrangeiras, da mais refinada linhagem, destacava-se um de grande e singular formosura!

Miroslao, desde o primeiro momento, sentiu um ardente desejo de desposar aquela dama tão bela, compartilhando com ela o seu trono.

Por isso é que mandara pintar o seu retrato que seria enviado à jovem princesa, juntamente com o seu pedido de casamento.

Achando-se os pintores todos reunidos, o rei lhes falou nestes termos:

— Prezados senhores e célebres mestres, convoquei-os à minha corte para que cada um de vós pinte o meu retrato. Advirto-vos, entretanto, que não será de meu agrado se neles me fizerdes mais bonito. Ao contrário, ficarei mais satisfeito se no retrato ficar menos favorecido do que realmente sou.

— Por que iríamos aumentar vossa beleza, real senhor? — disseram os pintores. — dar–nos-emos por satisfeitos se nossos pincéis reproduzirem exatamente a realidade.

Com intensa atividade os pintores puseram mãos à obra e, dentro de pouco tempo, achavam-se expostos vários retratos do rei nos salões do palácio.

O soberano, acompanhado de seus conselheiros, foi examinar qual das pinturas seria mais apropriada para enviar àquela que ele pretendia.

— Segundo minha opinião — disse um dos cortesãos — vossas feições excedem em muito a todos estes retratos! Nenhum dos pintores soube reproduzir com fidelidade vossa soberana beleza!

— Não foi mesmo do meu desejo que o retrato reproduzisse a realidade. Creio que minha futura noiva não ficará contrariada ao constatar que eu sou mais belo do que pareço no retrato.

Dominado por tal pensamento o rei escolheu o retrato que menos o favorecia.

Mandou emoldurá-lo em ouro e pedras preciosas e ordenou que os seus mais altos dignatarios se pusessem a caminho do palácio da princesa.

Seguiram, pois, acompanhados de um grande séquito e providos de ricos presentes destinados ao pai da formosa donzela, ao qual deveriam pedir a mão da filha para o rei Miroslao.

O monarca ficou esperando ansioso a volta de seus emissários.

Depois de algumas semanas, a embaixada voltou.

Vinham todos tão tristes e mal humorados que o rei Miroslao imaginou logo que traziam desagradável resposta.

— Senhor e soberano — disseram os delegados que se apresentaram perante o seu rei — sofremos uma ofensa inaudita, tão horrível, que até tememos dar-vos ciência do ocorrido.

— Falai francamente, seja o que fôr.

— Fomos recebidos pelo rei com toda a amabilidade e na corte reinou grande alegria, ao saberem que Vossa Majestade pretendia a mão da princesa Carolina. Na manhã seguinte apresentamo-nos ante a princesa para lhe render as nossas homenagens. Como até hoje, nenhum mortal teve a graça de lhe tocar as mãos, tivemos que nos limitar a beijar a barra de sua túnica. A real alteza, depois de examinar desdenhosamente o retrato de Vossa Majestade, nô-lo devolveu, dizendo:

Depois de examinar o retrato

Depois de examinar o retrato

— O rei aqui retratado não é digno de atar siquer os cordões de meus sapatos.

Envergonhados, e humilhados, sentimos que o sangue subia as nossas faces, porém o velho rei pediu-nos não contássemos a Vossa Majestade a grosseira atitude da princesa acrescentando que, êle próprio muito sofria com o gênio de sua filha. Apesar de tudo, não duvidava, disse, de, que as coisas se pudessem arranjar e que a princesa acabaria por dar o seu consentimento.

Nós, que a tudo havíamos assistido, não consideramos a princesa digna de ser um dia nossa rainha.

Sem ligar importância ao fato, preferimos abandonar o palácio e regressar.

— Era o que de mais prudente poderiam ter feito — respondeu o rei — estou contente com a dignidade que demonstraram e com a vossa conduta. Quanto ao resto, correrá por minha conta.

E o rei, dizendo estas palavras, não podia dissimular o rancor que lhe fazia arder as faces, por causa do orgulho daquela princesa.

Sua Majestade ficou algum tempo pensativo, sem saber que atitude tomar. 

Afinal, sua fértil imaginação indicou-lhe o caminho que deveria seguir.

Mandou, pois, chamar o seu velho conselheiro e administrador confiando somente a êle o seu plano, que sem reservas, mereceu sua aprovação.

No dia seguinte notava-se grande animação no castelo.

A atividade desusada era motivada pela iminente viagem do rei.

Antes de se pôr a caminho Sua Majestade entregou a administração do reino aos seus conselheiros e três dias depois seguiu viagem.

Ao chegar aos limites de seu reino ordenou a todo o seu séquito que regressasse com tudo quanto levavam.

Seguiu êle só, provido de pequena quantidade de dinheiro e poucas roupas.

Dirigiu-se para o reino da caprichosa princesa.

Em um formoso dia de primavera a jovem Carolina passeava pelo seu jardim.

Ela era formosa como a deusa da beleza, embora o seu rosto se assemelhasse a uma rosa sem perfumes.

Entretanto, possuia alma delicada e sensível, o que se notava pelas lágrimas que sempre derramava, condoída das desgraças alheias e pela abundância de esmolas que distribuía.

Não permitia, porém, a mendigo algum, acercar-se dela. Não gostava que a tocassem com as mãos.

Muitos soberanos haviam já se interessado pela princesa porém, todos haviam sido rechaçados com desprezo.

Seus pensamentos pareciam dotados de asas de águia, desejando elevar-se à altura do sol.

Mais de uma vez apreensivo o rei seu pai teve de repreendê-la, ameaçando-a com a cólera de Deus, que não tardaria em castigá-la

pela sua altivez e orgulho, mas, a princesa respondia:

— Aquele que pretenda ser meu esposo, terá que distinguir-se pela sua nobre ascendência, qualidades morais e nobreza de alma, caso contrário, nunca me casarei.

Naquele dia, quando a jovem passeava pelo jardim, seu pai, aproximando-se dela, disse–lhe:

— Minha filha, acabo de contratar um jovem serviçal, tendo-lhe confiado o cargo de primeiro jardineiro, embora me pareça demasiado instruído para ocupar esse posto. É tão perito na arte da jardinagem, como nas letras e na música, conforme pude notar, com grande espanto meu. Por isso aceitei-o com "prazer entre os serviçais de minha corte. Em todo o reino não há quem o ultrapasse em sabedoria. Que achas?

— Nada posso dizer, uma vez que ainda não o vi. Penso, entretanto que Vossa Majestade agiu acertadamente, meu pai, porque a presença de um tal homem é como a de uma jóia rara que se guarda no cofre! Se, na realidade, é tão instruido na música como dizeis, suponho que seja também cortês e, nesse caso, poderia aperfeiçoar-me na arte de tocar harpa, substituindo assim o meu chorado mestre que tanta falta me faz. Mandai, pois, chamar esse estrangeiro.

O rei cumpriu com satisfação o desejo da filha e pouco depois Miroslao apresentou-se ante a princesa, que o esperava no pavilhão de verão.

— Tenho grande honra de me pôr aos vossos pés, graciosa senhora, e fico aguardando as vossas ordens — disse o jovem rei disfarçado, fazendo a mais elegante reverência. Beijando a barra da túnica da donzela, lançou-lhe ao mesmo tempo um olhar como jamais alguém havia feito.

A altiva princesa ruborizou-se, desviando o olhar para uma rosa que há pouco havia colhido no jardim sem adivinhar a tragédia que iria surgir daquele botão entreaberto.

Miroslao apresentou-se ante a princesa

Miroslao apresentou-se ante a princesa

Logo que Carolina fitou a rosa, Cupido, o pequeno deus do amor, disparou-lhe a sua flexa.

A princesa sentiu-se ferida no coração, golpe esse para o qual não há remédio no mundo.

— Como é o vosso nome? — perguntou ela a Miroslao, em tom amável.

— Miroslao — respondeu o jovem.

— Meu pai me disse, Miroslao, que sois instruido na música. Precisamente há tempos estou desejosa de um bom mestre, para aperfeiçoar-me na harpa. Muito me alegraria, se quisésseis ocupar o lugar do meu falecido mestre.

— Se a minha modesta habilidade nessa nobilíssima arte fôr suficiente para satisfazer todas as exigências do cargo, considerar-me-ei muito feliz em poder servir-vos, senhora.

— O rei, meu pai, dar-vos-á os detalhes, — disse a princesa fazendo um gesto, como para dar a entender que a audiência estava terminada.

Carolina permaneceu durante muito tempo como que atordoada, incapaz de recordar o que se havia passado! De repente ouviram-se pas-

sos, e a princesa saiu de sua profunda meditação.

Era o rei que se aproximava, dizendo:

— Contrataste Miroslao como maestro?

— Sim, meu pai, e estou a pensar quando deverei começar as lições.

— Isso é contigo, minha filha. Quanto a mim, ao ouvir pronunciar esse nome, sempre me recordo do rei Miroslao. Temo ainda que pretenda declarar-nos guerra, para se vingar da ofensa sofrida. Cometeste uma falta grave, minha filha.

— Não me façais sofrer, meu pai. Seria para mim grande desgosto ter de casar-me com aquele rei, não mudarei de opinião.

O soberano afastou-se pensativo e aborrecido com receio de possíveis complicações com o soberano do reino vizinho.

No dia seguinte começaram as lições.

Miroslao era um mestre consciencioso e tinha em Carolina uma aluna muito atenta.

Conforme transcorriam os dias ia-se derretendo a camada de gelo com que o orgulho havia envolvido o coração da princesa.

A criadagem já murmurava:

— Que transformação se verifica agora em nossa princesa! Antes ninguém podia tocar-lhe a mão e agora não se opõe a que Miroslao lha beije, quando dela se afasta.

O amor que havia brotado na alma da jovem foi vencendo, lentamente, o seu orgulho.

Passou-se longo tempo desde a chegada de Miroslao à corte.

O moço gozava do afeto de todos, principalmente da princesa, embora ela procurasse iludir-se a si mesma.

Descendo um dia ao jardim, respondeu brusca e orgulhosamente aos cumprimentos do novo chefe dos jardineiros: assentou-se em um banco do caramanchão, todo ornado de flores, que havia sido construido por ordem de Miroslao, especialmente para a princesa.

Teria sido impossível não pagar com amabilidade e carinhosas palavras, aquela nova prova de estimação do jovem empregado.

Miroslao apresentou-se ante a princesa

As poucas palavras que dirigia ao moço.

davam sempre oportunidade a uma pequena conversação nem sempre afetuosa e alegre da princesa.

Assim, a orgulhosa princesa manifestou-lhe os seus numerosos e injustos desejos e ordens. Houve dias em que a princesa, de mau humor, dava ordens ao seu criado particular para despedir o mestre de harpa.

Imediatamente se arrependia e o homem tinha de correr às pressas para trazer novamente de volta o seu jovem professor.

Certa tarde quando a princesa estava a tocar e cantar ao pé da janela aberta Miroslao, ao seu lado, contemplava fascinado a beleza de seu rosto, banhado pelo áureo resplendor do sol no ocaso!

Repentinamente a princesa deteve-se, passando o instrumento às mãos do mestre.

— Se Vossa Alteza o permitir, cantarei uma canção composta por mim — disse Miroslao.

A princesa consentiu muito admirada e satisfeita.

O jovem rei começou a cantar.

O sol havia desaparecido por trás das montanhas, lançando um dos seus últimos raios pela janela aberta.

O calor suave que enchia o ambiente desfez o gelado véu que envolvia o coração da orgulhosa princesa, como densa teia de aranha.

Inclinando ternamente a cabeça para Mi-roslao, deixou cair uma lágrima sobre a sua mão.

Fingindo nada haver notado, o moço falou:

— Esta foi a minha canção de despedida graciosa soberana. Amanhã deverei partir, deixando esta capital.

— Que dizes, Miroslao? — Não permitirei que vás! Oh! não, por nada neste mundo! — exclamou a princesa Carolina com a voz trêmula, agarrando as mãos do moço.

Naquele momento abriu-se a porta e apareceu o rei, seu pai.

— É este o homem que o teu coração elegeu? — perguntou êle friamente para a filha, que o olhava perplexa!

— Sim, meu pai, é este! — respondeu ela com altivez.

— Sabes que falta a este homem uma das qualidades que deve, incondicionalmente, possuir teu futuro esposo?

— Sei que Miroslao não é de nobre descendência, porém, por mais humilde que seja o seu nascimento, não deixarei de o amar.

— Se assim é deves casar-te neste mesmo instante! Porém, advirto-te que não podes permanecer por mais tempo no castelo para que o ridículo não recaia sobre minha pessoa!

— Justíssimo soberano — disse então o mestre de música, ajoelhando-se diante do rei — não posso consentir que a princesa se torne infeliz por minha causa. Abandonarei imediatamente este país e tudo ficará esquecido.

Mas o rei persistia em seu propósito. Pouco depois mandou chamar o seu confessor realizando assim o casamento da orgulhosa Carolina com o pobre jardineiro.

Tomaram a carruagem

Tomaram a carruagem

Vestida com extrema simplicidade despediu-se de seu penalizado progenitor que tão duramente a havia expulso do palácio, como se ela fosse uma criada qualquer.

Recobrando o ânimo tomou a mão de seu marido, a quem muito amava e por quem tudo sacrificara, e com êle tomou a carruagem que deveria conduzi-los até às fronteiras do reino.

Ao chegarem aos limites do país cujo trono poderia um dia pertencer a Carolina, apearam da carruagem e seguiram o caminho a pé.

— Querida esposa — disse Miroslao — que faremos agora? Felizmente mora nesta cidade um irmão meu, empregado na corte. Êle poderá arranjar-nos um emprego, assim escaparemos das garras da miséria.

— Por enquanto ainda possuo algum dinheiro, irei trabalhando e servirei de alívio em tuas aflições, — respondeu Carolina, consolando o esposo.

Chegados à próxima vila, Miroslao alugou um carro para que sua esposa, desacostumada de andar a pé, não se fatigasse tanto.

Ao regressarem à capital do reino Miros-lao acomodou-se em uma modesta casinha onde foi morar com sua esposa.

De comum acordo venderam os seus ricos vestidos e adquiriram outros mais modestos.

— Vou agora — disse o marido no dia seguinte — vêr se arranjo algum serviço para ti e uma colocação para mim, por intermédio de meu irmão.

Ao meio dia voltou trazendo uma trouxa e desatando-a tirou um pedaço de finíssima tela e algumas frutas.

— Vê, minha querida, trago aqui trabalho que te dará boa recompensa ao terminá-lo. Estas frutas são enviadas por meu irmão. Oh! Minha amada esposa, como pude trazer-te até aqui? Tu, a filha de um rei, para levares esta vida miserável? Acostumada ao bem estar, tens que trabalhar para os estranhos e suportar privações. Que desgraça para mim!

— Não compreendo estas queixas — replicou Carolina sorrindo. Pois, fui eu mesma que assim o quis! Teu amor será a melhor recompensa para todas as minhas penas.

Satisfeita tomou o fino bordado e começou a trabalhar com afinco, sem descansar dia e noite; só se levantava para preparar a comida para o marido.

Quando terminou o trabalho foi entregá-lo em companhia de Miroslao.

A casa onde foi conduzida era um prédio vistoso; o criado levou-a por diversos aposentos à presença da camareira mór.

Apesar de sua boa vontade Carolina sentia-se constrangida, quando a camareira começou a examinar o seu trabalho, apontando vários defeitos.

Sentiu-se profundamente envergonhada e amargas lágrimas brotaram-lhe dos olhos.

Abriu-se eritão uma porta e apareceu uma respeitável senhora.

Perguntou à camareira o motivo daquele pranto e depois de examinar pessoalmente o trabalho mandou pagar à bordadeira.

Carolina inclinou-se agradecendo e saiu pressurosa.

Chegando em sua casa nada disse ao marido, lembrando-se que igual tratamento costumava dar sua própria camareira às suas costureiras.

Dois dias depois Miroslao ofereceu à Carolina um emprego em casa de uma senhora onde, certamente, teria bom tratamento. Satisfeita, a ex-princesa apresentou-se no dia e hora marcados.

A senhora examinou-a da cabeça aos pés, perguntando-lhe o que sabia fazer.

Satisfeita com as respostas, disse-lhe que queria experimentá-la durante dois dias, antes de a contratar.

Quanta amargura sofreu naqueles dois dias! Somente agora compreendia quanto sofrimento passavam as criadas das caprichosas senhoras da corte, que as tratavam com tão pouco caso.

Durante o dia não tinha outra coisa a fazer, senão ajudá-las a se vestirem, andando de um lado para outro, em busca dos mais inúteis objetos e ouvindo reprimendas pelos mais fúteis motivos. Carolina não poude suportar mais e no fim do segundo dia voltou para casa.

— Temos grandes novidades querida esposa! — disse um dia Miroslao, ao regressar à casa com o rosto radiante de alegria. Nosso rei acaba de escolher uma noiva e vai dar amanhã um grande banquete, a fim de apresentar aos seus governantes a nova soberana. Na corte a correria é grande à procura de cozinheiras e pasteleiras e oferecem bons ducados de salário para aquele dia! Como és ótima cozinheira e o trabalho não será muito difícil poderias oferecer–te no castelo como cozinheira!

— Por que não? Irei com muito boa vontade, uma vez que poderei ganhar tanto dinheiro em um só dia! — respondeu a esposa.

Ao amanhecer do dia seguinte vestiu-se, amarrou um pano na cabeça, conforme o uso da gente simples e, com seu marido, dirigiu-se ao castelo.

— Eu também procurarei ganhar alguma coisa e à noite virei buscar-te — disse Miroslao, ao sair da cozinha do castelo, onde havia conduzido sua mulher.

Fizeram-se grandes festas

Fizeram-se grandes festas

 

 

Carolina começou a trabalhar com muito gosto, a fim de cumprir todos os encargos que lhe dera o chefe da cozinha.

Tudo lhe saía bem merecendo elogios do chefe da cozinha pela sua atividade.

Mais tarde começaram a aparecer numerosas carruagens trazendo os convidados.

No momento em que Carolina atravessava o corredor, um elegante cavalheiro, resplandecente de ouro e prata, cruzou-lhe os passos.

— Fazei-me o favor — disse êle com voz grossa a Carolina — de chamar alguém para amarrar meus sapatos?

Carolina olhou para o cavalheiro e notando pelo seu porte que deveria ser o rei, inclinou-se e amarrou-lhe os sapatos.

O rei agradeceu e partiu.

Logo depois, apareceu o camareiro do rei, perguntando pela cozinheira que lhe tinha amarrado o sapato. Deveria ela apresentar-se à primeira camareira nos aposentos do outro andar. Carolina atendeu logo ao que lhe ordenaram.

Quando ela entrou no aposento a primeira camareira inclinou-se em profunda reverência, convidando-a a seguí-la.

Com grande assombro a princesa examinava e admirava aqueles aposentos riquíssimos, que tanto lhe recordavam sua antiga residência real.

Aqueles belíssimos salões estariam, sem dúvida destinados a alguma princesa e Carolina supôs logo que seria a residência da jovem e futura rainha. Não sabia porém, porque motivo a haviam trazido ali.

Assim, chegou a um gabinete onde as cadeiras estavam repletas de riquíssimas roupagens, e as mesinhas transbordando de jóias cintilantes!

— Deveis escolher um vestido e as jóias que mais vos agradarem, disse a camareira mór. Eu estou encarregada de vestir-vos em recompensa ao ato de cortezia que tivestes para com o nosso amado rei e amo. Sua Majestade ouve por bem convidar-vos para o baile.

— Meu Deus! — exclamou Carolina muito assustada! — que há de dizer o meu marido? Quer dizer que eu deverei enfeitar-me com estes trajes e dançar com o rei? Não, isso nunca! Não o farei!

— Mesmo que eu peça com muito carinho? — disse uma voz do fundo da sala. Carolina, voltando o olhar viu diante de si o próprio rei e nele reconheceu seu marido Miroslao.

Assustada e cheia de assombro, perguntou aflita:

— Por que fizeste tudo isto e por que me tens tratado desta maneira?

— Não te recordas com que altivez trataste os meus embaixadores quando eles foram apresentar-te o meu retrato? Naquele dia jurei humilhar o teu orgulho! Consegui-o com o auxílio de teu pai e por teu próprio amor!

Não teria te sujeitado a provas tão duras se nisso não houvesse obedecido também à vontade de teu pai.

Tenho também participado de teus sofrimentos e eles foram bem grandes!

Nesse momento abriu-se a porta entrando por ela o velho rei, pai de Carolina. Os três abraçaram-se com efusão e carinho e a felicidade era visível em seus semblantes.

— Essas provas foram talvez um tanto amargas — disse o velho rei — porém, minha filha, purificaram o teu caráter! Serás agora mãe amantíssima para teus futuros filhos e uma nobre soberana para o povo deste grande reino!

Os convidados reuniram-se para vêr a nova rainha que trajava um precioso vestido todo bordado a ouro e pedrarias.

Ostentando em sua cabeça maravilhoso diadema real, trabalhada com pedras mais preciosas do reino, era mesmo uma linda rainha.

Os convidados estavam encantados com a sua formosura, pois, apesar do luxo com que estava ornada, a bondade e o carinho refletiam–se em seu rosto, em vez do altivo orgulho de outro tempos.

Com fidalgo gesto o rei Miroslao conduziu sua esposa ao salão real, onde, reunidos todos os nobres do reino, foi a jovem rainha aclamada com entusiasmo!

Depois, fizeram-se grandes festas durante sete dias e sete noites, e foram muito festejados pelo povo os jovens reis.

FIM

Tradução e Adaptação de Leoncio Sá Ferreira

mai 172010
 
Pato donald, clarabelal, horácio, mickey e pateta

O heroísmo de Linda

LINDA era uma cachorrinha "fox-terrier" ainda nova.

Foi tirada de sua mamãe quando era muito pequenina e a vida, a partir de então, se tornou muito áspera para a pobrezinha.

Parecia que ninguém a queria.

Podia recordar-se de todos os amos que teve, porém, pensava que nada devia a nenhum.

Muitos foram vagabundos, rudes e maus, que deixavam que os acompanhasse com a esperança de que caçasse alguns coelhos para eles.

Mas, Linda não era suficientemente esperta para isso e somente uma vez conseguiu apanhar um coelho, porque o animal já estava morto e preso em uma armadilha! Pobre coelhinho!

A cachorra estava esfaimada de tal forma que começou a devorá-lo, mas, quando chegou o seu amo e a viu, ficou tão zangado e lhe deu tamanha surra que a infeliz andou vários dias coxeando.

Aquele homem ficou com o coelho, embora não tivesse qualquer direito a êle.

Linda, entretanto, seguiu tristemente e coxeando o seu amo pelo caminho, porém, logo que se apresentou a primeira oportunidade, fugiu para bem longe abandonando-o.

Em seguida foi recolhida por outro vagabundo, mas, quando a esfaimada cachorra lhe roubou um pedaço de queijo do saco êle lhe deu um ponta pé e a obrigou a fugir.

Linda se viu novamente só, como cachorra abandonada, triste e com fome, receiosa de todos os homens.

Odiava-os.

Pouco depois um cigano apanhou-a e tratou de ensiná-la a caçar para êle, porém Linda não o compreendia.

saiu do emprego

Abandonou o novo patrão

Tinha medo do cigano que a conservava amarrada todo o dia e lhe dava muito pouco que comer.

A cachorra tinha frio e andava muito triste; odiava de tal forma a humanidade que o seu único desejo era avançar em todos os que dela se aproximavam.

Um dia em que estava com mais fome mordeu o cigano e este deu-lhe uma forte paulada na cabeça.

— És uma fera! — exclamou enraivecido — Afogar-te-ei e assim acabarei contigo!

Tomou a corda atada ao pescoço da cachorra e, com auxílio de um amigo, a arrastou para o rio.

Linda ; sofria tremendamente! Compreendia que ia acontecer alguma coisa espantosa e, com toda a sua força, puxava pela corda.

— É inútil resistir — dizia o cigano — Lançar-te-ei ao rio quer queiras, quer não!

Precisamente naquele momento apareceu um menino e ouviu as palavras do cigano.

Olhou a fraca e assustada cachorra e se compadeceu dela.

— Por que quer afogá-la? — perguntou — Seria uma linda cachorra, muito bonito mesmo, se estivesse limpa e bem alimentada!

— Bonita! — replicou o cigano. — Enga-nas-te, rapaz! Acaba de me morder. . . Olha. .. Ademais este animal tem más intenções, é desobediente e mal humorado.

maus tratos aos animais

Estava sempre amarrada

Linda olhou o menino com os seus olhos escuros, de ternura, a solicitar um pouco de carinho e amor! O menino parou e botou as mãos nos bolsos.

— O senhor quer vendê-la? — perguntou — Não tenho muito dinheiro, mas não posso nem pensar que este pobre animal vai morrer afogado.

— Quanto tens? — perguntou o cigano.

— Seis cruzeiros e cinqüenta centavos — respondeu o rapaz, mostrando as moedas.

— Dá-me os cobres — replicou o cigano estendendo a mão — E fica com a cachorra. Graças a Deus que me livro dela. Agora toma cuidado para que não te morda, porque é um mau animal!

Deu a corda ao menino, embolsou o dinheiro e, sorrindo, partiu com o amigo.

— Não é verdade que não me morderás? — perguntou o menino com voz tão carinhosa que Linda se apressou a endireitar as orelhas. Nunca lhe haviam falado daquela maneira.

— Chamo-me Joãozinho. E tu? — perguntou o menino. — É possível que nem sequer te tenham dado um nome. Pobre cachorrinha, estás meio morta de fome! Bom, chamar-te-ei Linda. Vamos para casa e vejamos se mamãe me deixa conservar-te comigo.

Estendeu a mão e suavemente acariciou a cabeça do animal.

A cachorra estava tão assombrada que rosnou, porque ninguém a havia acariciado assim antes.

Arrependeu-se de haver rosnado, encolheu–se e deu um gemido.

— Bem, bem — disse Joãozinho, acariciando-a outra vez — Não é preciso rosnar, não te farei nenhum mal. Gosto muito de cachorros e, se quiseres, seremos bons amigos.

Linda seguiu-o até à casa. Estava estranhando muito, porque nunca havia conhecido ninguém como Joãozinho.

Sentia-se grata ao menino, porque, instintivamente, compreendia que êle a tinha livrado de um grande perigo, embora não estivesse segura de que poderia confiar em alguém, nem sequer naquele rapaz que parecia tão bom.

Quando já estavam perto da casa, Linda começou a resistir, porque não queria entrar.

Estava assustada!

Joãozinho desatou-lhe a corda e a soltou.

— Se não queres entrar, não entres — disse carinhosamente. — Vai por ondes quiseres. A julgar pelo teu tremor, tens sido muito maltratada. Pobre animalzinho!

Abriu a porta da casa e entrou, deixando-a aberta. Linda ficou fora farejando e, por fim, decidiu-se.

Não queria abandonar aquele rapaz de voz tão carinhosa. Gostaria de o aceitar por dono!

Entrou, pois, na casa, sacudindo a cauda e avançou para Joãozinho, que abriu outra porta, entrando os dois.

— Joãozinho, de onde tiraste esse cachorro tão sujo e mal cheiroso? — perguntou a mãe ao vê-lo.

— Comprei-o de um cigano que se dispunha a afogá-lo — respondeu o rapaz — É um pobre animal infeliz, mamãe. Deixa que eu o tenha comigo? Nunca mais tive nenhum, desde que o pobre Leal foi atropelado, e muitas vezes me prometeste outro.

— Mas, não um animal tão horrível! — replicou a mãe — Não é possível conservar em casa uma inutilidade semelhante!

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Entraram na casa

— O que acontece? — perguntou uma voz forte.

Entrou um homem. Era o pai de Joãozinho.

Linda abaixou-se por trás das pernas do rapaz, assustada, e quando aquele homem quis acariciá-la mostrou-lhe os dentes.

— Caramba! Quem te maltratou? — perguntou o pai do menino, sem fazer caso do rosnar da cachorra e fazendo-lhe cócegas por trás das orelhas; isto acalmou imediatamente Linda que começou a sacudir a cauda, surpreendida e satisfeita.

— Deixa-me ficar com ela, papai? — perguntou Joãozinho — Já sei que está muito suja e cheira mal, mas não tardarei em deixá-la perfeitamente limpa. Tenho certeza de que poderei ensiná-la a ser carinhosa e fiel, logo que esteja melhor alimentada e mais forte.

— Está bem — disse o pai — Fica com ela. Não está de acordo, mamãe? Entretanto, Joãozinho, não estranhes se der maus resultados e se se tornar um animal incorrigível, e cuidado para que não te morda!

Porém Linda já estava convencida de que não procederia tão mal.

Sentía certo calorzinho no coração, que lhe parecia crescer cada vez que o menino a acariciava.

Depois de um bom banho de água morna e de comer até fartar-se, de coisas boas, Linda parecia outra.

Seu corpo fraco e emagrecido se encheu em pouco tempo, o pêlo se tornou liso e brilhante e da mais pura alvura.

Não deixava Joãozinho um momento, porque o adorava com toda a força de seu coração.

Viveu muito feliz ao lado do menino por espaço de dois meses, interrogando-se sobre o que deveria fazer para demonstrar o seu agradecimento por lhe ter salvo a vida.

Um dia chegou a oportunidade e. . . oh, pobre Linda! Pouco faltou para fracassar.

Dormia no jardim, dentro de um canil muito bem abrigada e sabia que o seu dever era ladrar se ouvisse algum ruído durante a noite.

Sempre fazia assim quando chegavam aos seus ouvidos vozes estranhas ou passos.. . porém, uma noite, despertou sobresaltada ao ouvir uma voz que já conhecia.

Era a do cigano.

Havia entrado com o seu amigo para roubar a casa de Joãozinho e Linda ouvia a sua voz rouca que falava com o companheiro.

Que deveria fazer Linda?

Ladrar imediatamente com todas as suas forças! Mas, em sua mente canina imaginou que talvez o cigano tivesse vindo com o propósito de a levar.

Linda ignorava que o homem se propunha a roubar a casa e pensou que se ladrasse êle descobriria onde ela estava.

Por essa razão, enrodilhou-se no canil e não fêz o menor ruído.

Tremia por todo o corpo e seu coração batia desesperadamente!

Bem depressa o cigano se aproximou do canil e projetou uma luz em seu interior.

Olhou admirado e chamou com um gesto o seu companheiro.

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Linda ficou desacordada

— Aí está uma cachorra que nem pensa em ladrar — murmurou — Está assustada, dá-lhe depressa uma paulada na cabeça, antes que se

resolva a dar o alarme e mete-a, em seguida, no estábulo, tendo o cuidado de fechar a porta logo que saias. Assim nada mais teremos a temer.

A pobre Linda sentiu uma pancada na cabeça e rolou como morta.

O cigano agarrou-a e a entregou ao companheiro.

Rapidamente aquele se encaminhou ao estábulo, atirou a cachorra ao chão e fechando a porta retirou-se a correr.

Linda ficou imóvel.

Pouco depois soltou um leve gemido e abriu os olhos.

Doia-lhe muito a cabeça e apenas podia movê-la. Estranhou, perguntando a si mesma o que teria acontecido.

Depressa recordou.

O cigano tinha vindo com o fim de agarrada. . . mas, isso não podia ser, porque viu que estava no estábulo da casa de seu dono.

Por que teria vindo o cigano?

Linda teve, então, uma idéia espantosa e impulsionada se pôs em pé. Talvez o cigano tivesse vindo com o fim de levar Joãozinho e arrojá-lo ao rio!

Por que não tinha dado o alarme como era de seu dever?

Assustou-se tanto por si mesma que nem pensou em seu amo!

Fêz um esforço para se manter em pé e, aproximando-se da porta, arranhou-a.

Estava fechada.

Quis ladrar, porém, doia-lhe tanto a cabeça que somente conseguiu emitir um ruído estranho.

Deu, correndo, a volta ao estábulo desocupado, tentando sair para ir em socorro de Joãozinho, mas, não pôde encontrar meios para isso!

Pobre Linda!

Ganiu e ladrou com todo o vigor, percebendo logo que ninguém poderia ouvi-la.

De repente ocorreu-lhe uma idéia maravilhosa!

A janela! Estava aberta, porém se encontrava a grande altura e não se julgou capaz de a alcançar.

Além disso, doia-lhe tanto a cabeça que quase não podia andar.

Apesar de tudo, era preciso tentar alguma coisa, porque talvez, naquele momento, o seu querido amigo Joãozinho estivesse sendo raptado pelo cigano!

Tomou impulso e saltou, mas, não pôde chegar à janela, caindo ruidosamente ao chão.

Ficou ali gemendo por um momento e, em seguida, repetiu a tentativa.

Deu uma pequena corrida, mas, falhou novamente e tornou a cair.

Linda respirava fatigada.

Percebia que somente lhe restavam forças para dar um último salto.

Olhou de novo a janela, tomou distância e saltou.

Suas patas dianteiras agarraram-se ao peitoril e ali ela se sustentou. Depois, fazendo um esforço extraordinário, conseguiu içar o corpo

e, ajudando-se com as patas traseiras, colocou-se sobre o peitoril da janela e segurou-se bem. Em um momento se viu fora do estábulo.

contos de cachorrinhos

Os guardas prenderam os ladrões

Correu para casa e se encaminhou para o sótão, onde sempre havia uma janela aberta para que o gato pudesse entrar.

Entrou por ali e se deteve para farejar.

Ah! Já sentia claramente o cheiro do cigano, embora não soubesse exatamente onde estava.

Avançou e chegou por fim à sala.

Ali percebeu leves ruídos e pôde sentir mais claramente a presença do cigano e de seu companheiro.

Sentiu que se lhe eriçavam os pêlos do espinhaço e, bem depressa, desapareceu todo o seu medo. Já ia mostrar ao cigano quem ela era!

Arrojou-se contra a porta que, ao seu impulso, abriu-se de par em par. Soltando um latido ameaçador, precipitou-se contra os dois assustados ladrões. Estes trataram de afastá-la com os seus paus, a fim de fugir pela janela aberta porém, a cachorra parecia estar em todas as partes ao mesmo tempo.

Não queria deixá-los sair.

Mordeu um dos ciganos na perna e outro na mão.

Rosnava e ladrava, saltava e corria, de maneira que os ladrões ficaram aturdidos sem saber o que fazer.

Uma ou outra vez acertavam pauladas na cachorra mas esta não se acobardava nem os deixava tranqüilos.

cadela e seus filhotes

De repente a casa ficou inundada de luz e apareceu à porta o pai de Joãozinho, olhando muito admirado aquela cena.

Joãozinho apareceu, escondendo-se atrás de seu pai e ao ver o cigano falou muito admirado: j

— Papai, este é o homem que pretendia afogar a Linda, quando eu a comprei!

— Chame, senhor, esse cão! — rogaram os intrusos.

— Não. Parece-me que merecem os seus ataques — respondeu severamente o pai de Joãozinho — Essa cachorra lhes devolve agora os pontapés e as pauladas que lhe deram. E penso que será capaz de os guardar enquanto eu chamo a polícia.

Assim fêz.

Quando chegaram os soldados, prenderam os ciganos e os levaram.

Os ladrões contaram, antes, ao pai de Joãozinho, que haviam tonteado a cachorra com uma paulada, levando-a em seguida ao estábulo, cuja porta fecharam para que não pudesse sair.

Joãozinho ternamente acariciou a cachorra e lhe disse que era o animalzinho mais inteligente do mundo, por ter tido a idéia de saltar pela janela.

Também tinha dado mostras de uma coragem extraordinária ao lutar contra aqueles dois criminosos, apesar de haver recebido tão forte pancada.

Mas Linda pouco se importava com a dor que lhe haviam causado.

Estava muito contente e orgulhosa e se sentia tão feliz, que n’ão podia permanecer quieta.

Lambeu as mãos de Joãozinho, esforçando–se de todos os modos imagináveis em lhe exprimir que o estimava muito e que se alegrava de todo o coração por tê-lo salvo dos ciganos.

Passou todo o resto de sua vida em companhia de Joãozinho, feliz e contente.

O menino todos os dias de festa lhe dava uma cesta cheia de pastéis e comidas gostosas.

O que pensam vocês que Linda lhe deu em troca? Um punhado de cachorrinhos, os mais lindos do mundo!

Pelo menos Joãozinho estava persuadido de que esse era o presente mais agradável que lhe poderia Linda ter feito.

Viveram todos muito felizes e Linda pôde conservar sempre ao seu lado todos os seus filhinhos.

FIM

(Trad. e adaptação de Leoncio de Sá Filho)

mai 162010
 

OS TRÊS LIMÕES

CERTO Sultão tinha um filho, pelo qual sentia justificado orgulho, porque êle era belo e de gênio jovial, e nunca se soube que houvesse cometido uma ação censurável.

No círculo da Corte, era êle o astro mais brilhante. O Príncipe era cortês para com todas as damas, mas não favorecia a nenhuma em particular; e como os anos iam correndo sem que êle manifestasse o desejo de escolher uma esposa, o Sultão tornou-se apreensivo.

— Meu filho, — disse êle certa vez, por que não escolheis uma noiva? Acho que já é tempo de vos casardes; eu seria tão feliz se vos visse pai de filhos, antes de deixar este mundo. Ser-vos-ia tão fácil fazer a vossa escolha entre as belas jovens que vos cercam! Eu não experimentaria dificuldade alguma se estivesse em vosso lugar! Temos tão lindas moças em nossa terra!

O jovem príncipe fitou seu pai, tornando-se pensativo.

— Eu desejo alguma coisa mais, do que aquilo que estas jovens me podem oferecer, querido pai! — explicou êle, — e se vós realmente quiserdes que eu escolha uma esposa, peço-vos que me deixeis realizar uma grande viagem em volta do mundo, a fim de que eu possa encontrar a princesa a quem devo dedicar o meu amor. Para que eu a ame, deverá ela ser bela como a madrugada, branca como a neve e pura como um anjo.

— Pensai bem, meu filho, — respondeu-lhe o Sultão. Que a boa sorte vos acompanhe e que volteis são e salvo: — é esse o meu desejo.

E sem mais demora, o Príncipe partiu. A temperatura era ríspida e gelada, e os transparentes flocos de neve, atravessados pelas irradiações da luz solar, cobriam os montes e os vales.

conto infantil ilustrado

Viu um belo navio

 

As ondas que bramiam e que se quebravam na praia distante, pareciam arrastá-lo para junto de si, tão apressado ia êle em direção ao porto.

Ali chegando, encontrou um esplêndido navio ancorado.

Achava-se ainda maravilhado e perplexo, pois não sabia porque, esse navio havia chegado até ali ignorando para onde era destinado e mãos invisíveis conduziram-no para bordo e seus pés pousaram no convés; a âncora levantou-se sem auxílio de ninguém e o navio zarpou.

Durante três dias e três noites, deslizou sobre as ondas, dirigido por um piloto sombrio, que não pronunciava uma palavra.

Na madrugada do quarto dia, houve uma pequena parada junto a uma ilhota, e o Príncipe teve a agradável surpresa de ver seu cavalo favorito sair do porão do navio, ajaezado com selim e rédeas, pronto para ser cavalgado.

Tirou, portanto, a conclusão de que devia estar sendo esperado em terra; conduziu o cavalo até a praia, e quando voltou-se, para contemplar o navio, viu que este havia desapare cido.

Não havia por ali nem sinal de habitação e o frio era tão intenso que êle mal podia segurar as rédeas. Apesar disso, cavalgou de cá para lá, sem destino, até que viu uma pequena casa branca, que parecia manter-se equilibrada no cume de uma colina e era batida por todos os lados pelo vento.

Bateu à porta com força esperando encontrar ali um pouco de fogo e, talvez algum alimento.

Seu chamado foi atendido por um velhinho, de cabelos raros e brancos como flocos de neve, o qual o encarou com ar interrogativo.

— Ando à procura de uma esposa, meu bom velhinho, disse-lhe o príncipe. Esta, porém, deve ser a princesa mais bela do mundo, e, tão boa quanto bela. Podeis dizer-me onde a poderei encontrar?

O velhinho encostou a porta.

— Não a encontrareis aqui, disse êle. Eu sou o Inverno e este o meu reino. Meu irmão Outono talvez vos possa ajudar; quanto a mim, não tenho tempo para pensar em amores. Encontrá-lo-eis se seguirdes sempre para a frente.

O príncipe agradeceu ao bom velho a sua indicação e cavalgou novamente a sua montaria, na esperança de que o Outono quisesse dar–lhe, afinal, pousada e algum alimento.

Depois de cavalgar mais algum tempo, percebeu que a neve havia desaparecido, e que frutos maduros, em grandes cachos, pendiam das árvores.

As espigas de trigo douravam os campos e os esquilos estavam muito ocupados em armazenar nozes para a sua provisão de inverno.

Dentro de poucos instantes chegou êle a uma casa cinzenta, situada junto a um bosque, e descendo novamente do cavalo, bateu à porta dá mesma.

Esta foi aberta por um homem de cabelos negros e abundantes e olhos côr de ameixas pretas. Suas faces eram coradas e seu olhar benevolente.

— Dizei-me o que desejais, meu bom senhor, — disse êle, num agradável tom de voz.

— Procuro uma esposa, — respondeu brevemente o príncipe.

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Ela lhe disse: Deveis estar cansado...

 

— Ah! — exclamou êle, — então não vos posso auxiliar, porque estou em verdade muito ocupado com colher os frutos e não tenho tempo a perder com essas coisas. Meu irmão Estio é que vive cheio de sonhos. Êle, certamente, vos poderá proporcionar aquilo que desejais. E, isto dizendo, fechou a porta.

Observou que, à medida que ia cavalgando, a grama da estrada ia-se tornando mais viçosa e que os campos se achavam matizados de espigas maduras, a ponto de serem ceifadas.

O ar era quente e acariciava-lhe as faces docemente.

Ficou muito contente, quando, por fim, avistou uma pequena casa amarela, sombreada por um grupo de árvores.

Quando bateu à porta, ouviu o som distante de uma cascata, e a esperança de mitigar a própria sede, fazia-se esta sentir mais forte em seu espírito, do que a de encontrar a mais bela princesa do reino do Estio.

Bateu à porta e seu chamado foi atendido por um homem robusto, coroado de belos cabelos côr de ouro brunido.

— Sinto muito não poder satisfazer o vosso pedido, — respondeu-lhe o Estio, assim que o príncipe lhe expôs o motivo de sua jornada, — porque também eu, estou muito ocupado. Diri-gí-vos à minha irmã Primavera: — ela é a amiga dos jovens e virá, certamente, em vosso auxílio.

O príncipe, ao ouvir isto, foi seguindo o seu caminho, até que avistou uma linda e pequena casa verde, junto a uma moita de lilazes.

Jacintos e violetas, junquilhos, narcisos e perfumados lírios do vale, floresciam junto às janelas; quando êle bateu à porta, uma bela dama de cabelos côr de linho e de olhos suaves e profundos, côr de violeta, apareceu no limiar.

— Não tereis compaixão de mim? — disse êle ofegante. Vossos irmãos mandaram-me à vossa procura. Ando em busca de uma esposa, que seja bela como a madrugada, branca como a neve e pura como um anjo do céu.

— Vós pedis muita coisa, — disse-lhe a Primavera, — farei, entretanto, tudo o que estiver a meu alcance, afim de vos contentar.

Entrai e descansai. Deveis estar cansado e faminto.

Com grande satisfação para o príncipe, fê-lo entrar num aposento longo e baixo, embalsamado pelo aroma de muitas flores.

Depois de o haver alimentado com pão e mel, e de lhe haver mitigado a sede com leite fresco, apresentou-lhe três lindos limões, numa bandeja de cristal.

Junto a estes, havia uma linda faca e uma rica taça de ouro, finamente cinzelada.

— Estes limões representam talismãs mágicos, — disse ela. Guardai-os, portanto, cuidadosamente. Voltai imediatamente para vossa casa e ide até a grande fonte que existe no jardim do palácio. Depois de vos assegurardes de que estais completamente só, tomai esta faca de prata e cortai pelo meio o primeiro limão.

Assim que fizerdes isto, uma encantadora princesa aparecerá diante de vós e vos pedirá água.

Se vós, nesse mesmo instante, lhe oferecerdes o que vos irá pedir, nesta taça de ouro, essa

princesa permanecerá a vosso lado e será vossa esposa; mas, se hesitardes, um segundo que seja, a princesa evaporar-se-á no ar e nunca mais a tornareis a ver. *

— Eu não cometerei a tolice de hesitar, — disse.o príncipe, — mas, se isso acontecer, ficarei então sem esposa?

— Nesse caso, deveis cortar o outro limão — respondeu gravemente a Primavera, e a mesma coisa acontecerá novamente. Se hesitardes ainda dessa vez e ainda dessa vez a outra princesa desaparecer, restar-vos-á a última probabilidade quando cortardes o terceiro limão. Se falhardes esta terceira vez, morrereis pela certa.

O príncipe quisera haver agradecido pela sua benevolência, mas ela ordenou-lhe que partisse imediatamente, e com um sorriso e um suspiro, disse-lhe que não tardasse.

O príncipe, com o coração cheio de uma alegria esperançosa, cavalgou novamente através do reino do Estio, do Outono e do Inverno, e quando chegou ao porto, achava-se ali ancorada a mesma embarcação que o trouxera, esperando suas ordens.

O vento foi favorável à sua viagem de regresso, e o navio, em menos tempo do que havia empregado para a ida, ganhou a enseada que ficava próxima ao palácio de seu pai.

Deixando o cavalo entregue aos cuidados de um lacaio, dirigiu-se apressadamente para o grande jardim, e depois de haver enchido a taça que lhe dera a Primavera com a água da fonte, cortou o primeiro limão.

Nem bem êle havia feito isto, uma linda princesa surgiu e lançando-lhe um olhar tímido, pediu-lhe água.

— Tenho sede, murmurou ela. Quereis dar-me de beber em vossa taça de ouro?

O príncipe ficou tão fascinado, que pôde apenas contemplá-la, e então, fazendo um gesto de censura, a adorável donzela evaporou-se.

Foi em vão que o príncipe lamentou sua estupidez. Fêz tudo quanto lhe veio à mente, mas não conseguiu que chegasse outra vez para junto de si.

Cheio de ressentimento, cortou a casca do segundo limão. E ainda desta vez, a água que brotava da fonte murmurante, tomou a forma de uma linda moça.

Linda Donzela

Apareceu uma linda donzela

— Bela como a madrugada e branca como a neve! — exclamou o príncipe extasiado. Tão

fascinado ficou que não pensou em satisfazer o pedido que a moça lhe fêz, de lhe dar um copo de água.

O príncipe, não conseguiu readquirir seus sentidos, senão quando a segunda donzela, também, desapareceu, e mais uma vez deplorou êle sua negligência quanto às advertências da Primavera.

Com os dedos trêmulos, cravou a faca de prata no terceiro limão, e quando o aroma ativo do fruto embalsamou o ar, outra princesa surgiu em sua frente.

Fechando os olhos para não ficar fascinado pela sua incomparável beleza, ofereceu-lhe imediatamente água em sua taça de ouro.

A donzela levou-a aos lábios, com um sorriso encantador, e esgotou-a até o fim.

O príncipe ria alegremente! Até que enfim encontrara a noiva por quem suspirava.

A princesa era mais bela do que um dia de verão.

Sua fronte e suas faces eram côr de neve, e sua expressão tão pura e gentil quanto a dos anjos.

Conduzindo-a a seu lado para um banco florido, tomou-lhe as mãos e fitou-a dentro dos olhos.

— Como sois linda! — disse êle. Esperai–me aqui, enquanto vou buscar uma carruagem doirada para nela vos conduzir ao palácio. Ficai junto à fonte até eu voltar. Quero trazer-vos um lindo vestido de cetim e um rico colar de pérolas com o qual adornareis vosso lindo colo.

Isto dizendo, o príncipe partiu e a bela princesa ficou à fonte, à espera do vestido e do colar.

Morava, naquelas redondezas, uma mulher, a qual tinha a seu serviço uma preta horripilante, entendida em assuntos de feitiçaria.

A senhora ordenou-lhe que fosse à fonte buscar água e deu-lhe um cântaro para que o enchesse.

A preta pôs-se a caminho, afim de executar a ordem de sua ama.

A princesa, vendo que alguém se aproximava, e não querendo ser vista, subiu a urna árvore, cujos ramos pendiam sobre a água, e o rosto da princesa nesta se refletia como num espelho.

Ao chegar junto à fonte, a preta pousou o cântaro e olhou para dentro da água.

Vendo a imagem da princesa ali reproduzida, julgou que fosse essa a sua própria imagem.

Ficou tão encantada, ao ver-se assim tão bela, que correu para junto de sua ama.

Uma vez ali, atirou o cântaro ao chão, que-brando-o, e disse:

— Vi meu rosto na água da fonte! Sou linda e não quero mais trabalhar!

A senhora repreendendo-a, disse-lhe que fosse novamente à fonte, deu-lhe um outro cântaro e lhe recomendou que não voltasse sem água.

A cena repetiu-se tal qual a primeira vez, e a preta voltou novamente com o cântaro vazio.

— Quero casar com um príncipe e morar em um palácio, — disse ela. Ao dizer isto, arremessou para longe de si o segundo cântaro e deu alguns passos em frente à sua ama, assumindo um ar tão ridículo de dignidade, que essa dama não poude deixar de soltar uma gargalhada.

A princesa subiu à árvore

A princesa subiu à árvore

 

 

— Se soubesse o quanto és feia, — disse então, assim que poude falar, não ousaria nunca dizer semelhante disparate. E proibindo-lhe que voltasse ainda mais uma vez sem trazer água, deu à empregada um terceiro cântaro e mandou-a novamente à fonte.

A linda princesa, sorriu ao vêr a mulher, quando esta chegou junto à fonte, cheia de cólera, rangendo os dentes e envesgando os olhos.

— Sou muito linda, — exclamou ela, em tom de triunfo. Tão bela quanto uma rainha.

Disse isto tão alto, que a princesa a escutou, e seu riso soou como se fosse um carrilhão de sininhos.

Olhando imediatamente para cima, a preta avistou-a entre os ramos, e a sua vaidade desiludida fêz com que ela ficasse quase muda…

Sua senhora tinha realmente razão, porque a linda visão que ela havia visto dentro da água não era o reflexo de sua própria imagem.

Olhou para cima com os olhos dilatados, e surgiram em seu íntimo pensamentos de vingança.

— Farei com que ela sofra, — murmurou irada. .. Abrindo, então, seus grossos lábios num falso sorriso, saudou a princesa dizendo–lhe: "Bom dia!" — Porque vos escondeis nessa árvore, linda moça? — perguntou-lhe gentilmente.

— Estou à espera de meu príncipe. Êle deixou-me aqui enquanto ia buscar, para que eu o vestisse, um vestido de cetim, e um colar de pérolas, murmurou a princesa docemente.

— Vossos cabelos doirados estão emaranhados pelo vento, — disse-lhe a preta. Deixai que eu me aproxime de vós e farei com que eles se tornem sedosos e macios. Não deveis estar despenteada quando vosso príncipe chegar.

— Como sois boa, — disse a princesa. Quando ela abaixou sua cabeleira loira em direção à preta, a traiçoeira mulher atravessou–lhe a cabeça com um alfinete longo e agudo.

A princesa caiu desmaiada, mas antes que o seu corpo tocasse o solo, ela transformou-se numa pomba branca como a neve, a qual voou lançando gemidos plangentes.

A mulher tomou o lugar da princesa sobre o galho, e, quando, finalmente, o príncipe apareceu, trazendo um vestido de cetim e um véu de noiva, foi a preta a quem avistou, olhando para êle de cima da árvore.

— Onde está minha linda princesa? — perguntou êle. Ela é bela como a madrugada, branca como a neve. Que foi feito dela?

— Ai! de mim! Querido príncipe, respondeu a negra tristemente, durante a vossa ausência uma feiticeira apareceu aqui e transformou-me, deixando-me conforme agora me vedes. Quando vós me provardes o vosso amor, fazendo de mim vossa esposa, tornar-me-ei novamente uma linda e encantadora princesa; porém, se me abandonardes, permanecerei horrenda para sempre.

Apesar do aspecto da negra lhe inspirar a maior repulsão, o príncipe lembrou-se de que era um homem de honra, e não podia, portanto, faltar à sua palavra.

Chamando as damas que se achavam esperando dentro da carruagem que êle havia trazido, para levar sua noiva até o palácio, pediu a estas que vestissem a preta com o vestido de cetim, e parecendo não reparar no espanto e no desgosto que estas demonstravam, levou-a até à presença de seu pai, apresentando-a como sua noiva.

1001 noites

Agarrou a pomba

 

O Rei ficou, como era natural, horrorizado com o seu aspecto; no entanto, quando o príncipe lhe explicou o que aquilo significava, consentiu que o príncipe a desposasse e ficasse à espera de que tudo corresse do melhor modo possível.

Enquanto o pai e o filho tratavam desse assunto, a negra percorreu todo o palácio, dando ordens descabidas aos servidores, tornando-se assim odiosa a todos eles.

Por fim, chegou ela até à grande cozinha, e ordenou ao cozinheiro-chefe, que preparasse ricos manjares para o jantar de bodas.

Ao dar esta ordem, em voz alta e estridente, passou junto à janela uma pomba branca e ligeira, pousando sobre o peitoril.

— Matem esta pomba, — exclamou ela, — e preparem-na para a minha ceia.

Não ousando desobedecer-lhe, o cozinheiro–chefe matou a pomba imediatamente, mergulhando uma faca afiada em seu peito de neve.

Três gotas de sangue caíram desde o peitoril da janela ao pátio, e um pequeno broto nasceu de cada uma delas.

Como se uma fada houvesse agitado sua varinha mágica, esses três brotos cresceram e transformaram-se em três árvores de fragrantes flores, e em menos tempo do que é preciso para dizê-lo, as flores, por sua vez, transformaram-se em lindos limões dourados.

Enquanto isto se passava, o príncipe andava à procura de sua noiva, porque, uma vez que èle se dispusera a cumprir um dever tão desagradável, desejava cumprí-lo de modo irrepreensível.

— Saiba S. Alteza Real que ela está na co-sinha — disse um de seus cortesãos escandalizado. Indo procurá-la, o príncipe passou sob o limoeiro. A vista de seus frutos trouxe-lhe um raio de esperança, e colhendo os três mais belos que encontrou, correu com eles para o seu

quarto, onde, depois de encher de água a taça de ouro, introduziu a lâmina da faca de prata na casca do primeiro limão.

Tal qual como acontecera a primeira vez, apareceu-lhe uma donzela e estendeu suas lindas mãos para a taça de ouro.

— Ah! Não! Vós sois encantadora, mas não sois a minha princesa.

Cortou então a casca do segundo limão e uma segunda princesa apareceu diante dele.

O príncipe, também desta vez, sacudiu a cabeça, negativamente. Não era essa sua querida princesa.

Finalmente, cortou o terceiro limão, e nesse mesmo momento, sua querida noiva lançou-se novamente em seus braços!

Grande foi a satisfação e o alívio do velho Sultão, quando o príncipe lhe disse que aquela linda moça era a sua noiva, ouvindo, também, com as sobrancelhas franzidas o relato que lhe fêz a princesa, de tudo o que havia acontecido quando seu bem amado a havia deixado junto à fonte.

Ordenou então que a negra fôssé trazida à sua presença, e fitando-a com ar severo, perguntou-lhe qual o justo castigo que, segundo sua opinião, devia ser inflingido a quem ousasse fazer afronta à noiva de seu querido filho.-

Desenho da linda princesa

Apresentou sua linda noiva ao Sultão

 

— Um castigo não menor do que a morte, — declarou, — e a morte pelo fogo.

Mandai lançar o ofensor dentro do forno do palácio de V. Majestade e depois mande fechar sua grande porta.

— Senhora, disse o Sultão secamente, — acabais de ditar a vossa própria sentença!

Transida de medo a negra foi levada para fora da sala.

No entanto, a boa princesa não quis que ela fosse condenada.

— Ela é uma pobre mulher ignorante, — disse, e já é uma triste coisa ser-se assim tão feia. Deixai-a partir livremente. Sou eu quem vos suplico. É a mercê que vos peço, como presente de noivado.

O Sultão não poude recusar o primeiro pedido de sua nova filha, e o príncipe olhou para ela apaixonadamente.

— Eu já sabia que vós éreis bela como a madrugada e branca como a neve — murmurou êle, e agora vejo que sois também boa como um anjo.

E apesar dos anos vindouros, lhe haverem trazido tantas tristezas quanto alegrias, o príncipe continuou a ser, em verdade, abençoado; e a princesa, amada pelos seus súditos, o coadjuvou em seu governo.

O príncipe, cada vez que via um limoeiro, enviava um pensamentos de gratidão à primavera, pelos mágicos presentes que esta lhe oferecera, e, em virtude dos quais, êle havia alcançado o que desejara. FIM (Trad. e adaptação de Leoncio de Sá Filho)

mai 152010
 
O caçador furtivo, conto infantil

O CAÇADOR FURTIVO

PEDRO estava almoçando em companhia de seus pais. Prestava muita atenção à conversa dos mesmos, porque de fato era muito interessante.

— Há muitos caçadores furtivos nos bosques — disse o pai. — Joaquim, o guarda, diz que não sabe quem é o culpado, mas, que todas as noites desaparecem coelhos e aves. Deve, forçosamente, ser algum forasteiro!

— Escuta, papai — interrompeu Pedro — Joaquim não viu o caçador furtivo?

— Sim! Julga que uma vez chegou a vê-lo! — respondeu o pai. — É um indivíduo alto, forçudo e com barbas!

Pedro ficou muito preocupado com o caçador furtivo e pensou que um dia Joaquim havia de surpreender o criminoso.

— Se eu tivesse uma espingarda como Joaquim, havia de perseguí-lo todas as noites, e não teria medo algum! — pensou o menino. — Oxalá pudesse descobrí-lo!

Dois dias depois, quando o sol se punha, deu-se a casualidade de estar Pedro debruçado à janela mais alta de sua casa.

Procurava ver se descobria seu amigo Tomás, o filho do guarda, na colina situada em frente da casa.

Enquanto olhava, seus olhos se fixaram num indivíduo alto, que desaparecia nos bosques de seu pai.

O sol poente fez brilhar por um instante a arma de fogo que o desconhecido levava debaixo do braço.

Pedro imediatamente se lembrou de que aquele indivíduo poderia muito bem ser o caçador furtivo.

— Quem será esse que a estas horas se mete nos bosques de papai? É alto e leva espingarda! Se fôr o caçador furtivo que hei de fazer eu agora?

Pensou fosse o caçador furtivo

Pensou fosse o caçador furtivo

Desceu correndo e dirigiu-se a Jaime, o cocheiro.

— Jaime, Jaime! — exclamou arquejante. — Nos bosques está um caçador furtivo! Veja se pode apanhá-lo!

— Calma, calma, Pedrinho! — respondeu Jaime sorrindo. — Estou vendo que queres caçoar comigo! — acrescentou.

— Juro que é verdade, Jaime! — exclamou o menino, agarrando-se ao braço do cocheiro. — Faz-me o favor de ir lá antes que seja tarde e que êle mate todas as aves e todos os coelhos de papai!

— Não diga tolices! — replicou o cocheiro. — Tenho muito o que fazer e se quiseres vái tu mesmo apanhar esse caçador furtivo!

Pedro compreendeu que era inútil insistir com Jaime, e, por isso, saiu a correr.

— Não há tempo de ir em busca de mais ninguém — pensou. — E se eu mesmo fosse apanhá-lo na floresta?

Correu em direção ao bosque e, antes mesmo de haver pensado no que faria, esbarrou com o desconhecido.

— Quem é você, menino? — perguntou aquele.

— Pouco lhe importa saber! — respondeu Pedro bruscamente, porque se sentia muito corajoso. — Você é um caçador furtivo! — Joaquim já o viu uma vez. Você é alto, usa barba e traz espingarda! E hoje voltou para caçar indevidamente nos bosques de meu pai! Faça o favor de me acompanhar!

O desconhecido pôs-se a rir.

— E onde pretende levar-me? — perguntou.

— Aqui perto, em casa de meu pai! E não resista, porque papai ficará muito zangado!

— E se eu tentar fugir? — perguntou o homem. — O que fará você?

— Seguí-lo-ei — respondeu Pedro. — E posso afirmar-lhe que corro com muita rapidez! Além disso gritaria chamando Joaquim, o guarda, de forma que não tardaria em ser o senhor preso. É melhor vir comigo, porque se livrará dos ponta-pés e bordoadas que Joaquim certamente lhe aplicaria!

— Bom! — concordou o desconhecido. — Entrego-me e o acompanho.

Pedro o segurou pela manga do casaco e, tirando-o do bosque, levou-o até à sua casa.

O desconhecido o seguiu docilmente, sem intentar sequer a fuga.

Pedro se considerava muito valente.

Acabava de prender, êle sozinho, um caçador furtivo.

O que iria dizer o seu pai quando eles chegassem?

Além disso, estava muitíssimo contente porque todos os seus colegas de escola ficariam sabendo que êle era valente e não tinha medo de um caçador furtivo.

Considerava-se um herói completo!

— Papai! Papai! — gritou ao chegar. — Venha ver o caçador furtivo! Eu o prendi e encerrei-o no telheiro! Tem espingarda e bolsa, que com certeza deve estar repleta de coelhos.

Papai e mamãe apressaram-se a acudir muito surpreendidos e Pedro os conduziu ao telheiro.

— Cuidado! — disse êle ao pai. — Pode tentar uma fuga e nos apanhar de surpresa!

Pedro foi à África com seu tio Guilherme

Pedro foi à África com seu tio Guilherme

Papai abriu a porta e olhou para dentro. Deu um grito de assombro e entrou no telheiro.

— Guilherme! Querido Guilherme! — exclamou. — De onde vens? Não esperávamos que você chegasse tão cedo!

Aquele homem de elevada estatura saiu sorrindo e segurando no braço de papai.

Pedrinho não podia compreender o que significava aquilo.

Pois não é que seu pai tratava amigavelmente aquele desconhecido?

— Este é o teu tio Guilherme! — disse o pai a Pedro. — Vem de caçar tigres em um país muito distante, para passar uma temporada conosco. E você menino foi prendê-lo, confundindo-o, com um caçador furtivo!

Meu Deus!

Pedro ficou vermelho como um tomate e muito envergonhado olhou para o seu tio Guilherme!

— Sinto muito! — disse por fim. — A verdade é que pensei mesmo que o senhor fosse um caçador furtivo!

O menino acrescentou ainda:

— Por que então, o senhor não me disse logo que era o tio Guilherme? Teria evitado o aborrecimento de fechá-lo no telheiro!

— Você é o menino mais valente que tenho conhecido — respondeu o tio. — Você sozinho me apanhou e me prendeu quando eu menos esperava! Prometo um dia levá-lo comigo, porque estou orgulhoso de ter um sobrinho como você!

A aventura, pois, não teve consequências.

Papai estava muito orgulhoso de Pedro e a mesma coisa pensava a mamãe.

Assim, portanto, Pedro não se envergonhou quando, brincando, zombavam dele por ter encerrado o tio Guilherme no telheiro do jardim, pensando ser um herói conforme vira no cinema.

Entretanto, no íntimo, Pedrinho estava desgostoso.

Se os seus amiguinhos viessem a saber do acontecido, caçoariam dele e teria que demonstrar que não admitia brincadeiras

Pedro e o tio Guilherme se fizeram muito bons amigos.

Não tardaram em empreender uma viagem muito longa, não para prender caçadores furtivos, mas, para matar tigres na África. Lá pôde demonstrar a sua coragem não fugindo nunca aos constantes perigos das florestas africanas.

Hoje êle tem satisfação em ter sido valente.

Sede, pois, meus meninos, corajosos e vencereis sempre na vida.

(Trad. e adaptação de Leoncio de Sá Filho)
mai 152010
 

Histórias Infantis – OS DEZ URSINHOS

ERA uma vez dez ursinhos que moravam na cidade das Doçuras. Moravam em dez casinhas colocadas uma ao lado da outra. Amavam-se muito e saíam sempre juntos.

As casinhas eram numeradas de um a dez e cada um dos ursinhos conhecia muito bem a sua casinha lendo o número da porta.

Um dia, resolveram sair. todos juntos, para colher cogumelos. Vocês precisam saber que os melhores cogumelos que havia, estavam num grande campo próximo, pertencente a um velho muito mau, que se chamava Carrancudo.

Por isso, o maior dos ursinhos, antes de ir colher os cogumelos, escreveu uma carta ao velho, solicitando-lhe permissão para isso.

O senhor Carrancudo deu licença e os ursinhos ficaram muito satisfeitos com a grande novidade.

Era uma coisa muito divertida apanhar cogumelos. Cada ursinho levava uma cesta e tinham que se levantar às cinco e meia da madrugada, quando os campos estavam ainda úmidos de orvalho.

Combinaram reunir-se em frente à casa número 10, na qual morava o maior deles, porque pretendiam partir todos juntos.

O caminho era muito comprido porque havia uma grande distância até ao campo do senhor Carrancudo.

Era um sábado de manhã, muito cedinho, quando os ursinhos se reuniram, caregando cada um a sua cestinha.

O sol brilhava no horizonte, o dia despontava magnífico, o orvalho resplandecia na relva. Era uma linda manhã para colher cogumelos!

— Bom dia!

— Bom dia!

— Bom dia! — gritaram os ursinhos, um depois do outro. Como vai ser divertido tudo isto e com um belo tempo deste!

Eram dez lindos ursinhos

Eram dez lindos ursinhos

Puseram-se a caminho, cada um com sua cestinha pendente do braço. Alguns davam saltinhos curtos, faziam piruetas, os demais corriam.

Sentiam-se muito felizes e esperavam trazer muitos cogumelos para fazerem um explên-dido jantar e venderem os restantes no mercado, a dez cruzeiros o quilo!

Que espetáculo se lhes ofereceu aos olhos, ao chegarem ao campo dos cogumelos! Quantos havia! Que abundância! Grandes, pequenos, largos, chatos!. . .

Formavam uma bela coleção que ali crescia à espera de que os ursinhos os fossem colher!

Puseram-se a trabalhar.

Era muito interessante e animadora a rapidez com que iam enchendo as cestinhas!

O maior dos ursinhos vigiava com o rabo dos olhos a casa onde morava o senhor Carrancudo. Vigiava para ver se o velho cachorro Rompe-Ferros não sairia a correr sorrateiramente para lhes pregar um susto.

Nada aconteceu. Apenas o fumo que saía da chaminé da casa do velho lhes dava a entender que êle estava levantando. Finalmente, quando as dez cestas estavam cheias o maior dos ursinhos disse:

— Está na hora de partirmos. Sigam-me.

Um atrás do outro os dez animaizinhos percorriam o caminho que cortava o campo e saltaram a vala que havia no fim. Atravessaram o bosque e tomaram a estrada que ia para a sua cidade.

Ali chegados, encontraram o velho "Dorme-Tarde", um fantoche de rosto negro que vivia na cidade vizinha.

Êle trazia uma grande cesta e ia colher cogumelos no campo do senhor Carrancudo.

Mas, como havia levantado muito tarde, já os ursinhos tinham colhido todos.

— Como sempre você chega quando tudo já acabou, "Dorme-Tarde" — exclamaram a rir. — Talvez você seja muito esperto, porém, tem 10X10 demais para colher os melhores cogumelos! Ah, ah, ah!

"Dorme-Tarde" ficou tão vermelho quanto permitia o seu carão preto. Sabia que era preguiçoso.

Era um fantoche muito esperto, muito inteligente, mas não tinha coragem para levantar-se cedo. Gostava demais da cama. Assim, achou que os ursinhos eram muito grosseiros por se rirem dele.

— Encherei minha cesta de cogumelos — pensou, e disse. — Hão de ver que ainda trarei mais do que vocês todos!

— Chiii!… — responderam os ursinhos. — Não resta nenhum, não encontrará nada.

O fantoche saiu muito aborrecido e desapontado.

Os ursinhos puseram-se á rir novamente e entreolharam-se muito contentes. Não acontecia muitas vezes que pudessem caçoar de um fantoche tão esperto como aquele!

— Suponho que todos estamos aqui — disse o maior, olhando os que o rodeavam. —

Devemos nos contar para ver se os dez saímos sãos e salvos do campo do senhor Carrancudo.

— Pois contemos já! — replicou o menor de todos

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Dorme-Tarde viu os ursinhos com as cestas

Assim fêz, indicando com o dedo um ursinho alternativamente. — Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove… Oh! Aqui estamos só nove!

— Santo Deus! — exclamou o maior tornando-se pálido.

— Não diga que ficou algum de nós para trás! Qual foi?

Não puderam esclarecer qual faltava. Ali estava o maior deles e o menor, o mais gordo e o magrinho, o de gravatinha azul e o de gravata vermelha. Que coisa estranha! Quem teria ficado para trás?

— Esperem que eu vou contar de novo — disse o ursinho magrinho. E contou lenta e cuidadosamente, indicando a todos os seus amigos, à medida que o fazia. — Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove. Que coisa mais horrível! Só estamos aqui nove e saímos dez! Não seria mais prudente voltarmos atrás a fim de verificarmos quem foi que perdemos? E se o senhor Carrancudo o houvesse agarrado?

Que ursinhos tolos eram aqueles! Vocês não sabem o que eles faziam? Pois simplesmente isto, quando se contavam para ver quantos eram, cada um se esquecia de contar a si próprio!

Claro que dessa forma se encontravam nove ursos, porque o décimo que era aquele que estava contando, não se lembrava de se incluir na conta, junto aos outros companheiros!

Quando estavam pensando se deveriam voltar ao campo do senhor Carrancudo, para procurar o ursinho que julgavam estar faltando, ouviram que alguém se aproximava pelo bosque de onde haviam saído.

— O décimo urso! — exclamaram alegres, mas, estavam enganados. Era o "Dorme-Tar-de", o fantoche, que voltava do campo com a cesta vazia.

Não tinha encontrado nem um cogumelo sequer.

O recém-vindo surpreendeu-se e teve um gesto de contrariedade ao ver os ursinhos no mesmo lugar onde os havia deixado. Pensou que o estavam esperando para se rirem dele ao vê-lo voltar sem fungos.

— Oh! — exclamou, meio desapontado. — Por que vocês ainda estão aí?

— Venha cá, fantoche, você viu algum dos nossos pelo campo? — perguntou o maior deles — Um de nós ficou por lá!

— Não! Não estava ninguém lá! — respondeu o fantoche admirado. Nem uma alma! A única coisa que vi foi a fumaça da chaminé da casa do Carrancudo.

— Nossa Senhora! — gemeram os ursinhos — O senhor Carrancudo terá agarrado o nosso pobre companheiro e o estará assando para o jantar! Ooooh!. . . exclamaram apavorados!

Os ursinhos deixaram as cestas no chão, tiraram seus grandes lenços brancos e choraram derramando lágrimas em cascatas. O fantoche nem podia tornar a si do espanto causado por aquela cena. Contou rapidamente os ursinhos e verificou que estavam os dez.

Por que haviam de .pensar que um deles estava perdido? Eram somente dez os ursinhos que viviam nas dez casinhas da cidade das Doçuras!

— Quantos eram vocês ao saírem esta manhã? — perguntou êle admirado.

— Dez! — soluçou o mais velho — E só voltamos nove! Olha… Deixe-me contar.

Indicou todos os seus amiguinhos, um atrás do outro, contando-os: Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove… Está vendo? Só nove! Oh! Fantoche, você é capaz de ir buscar o décimo ursinho à casa do velho Carrancudo?

"Dorme-Tarde" ficou com os fungos

Dorme-Tarde ficou com os fungos

O fantoche verificou que o tolo do ursinho tinha deixado de contar a si próprio. Pouco faltou para que rebentasse numa risada estrepitosa, porém, conseguiu se conter.

— Digam-me, o que me darão se eu encontrar o décimo ursinho?

— Dar-lhe-emos os nossos melhores e mais belos fungos! — disse o maior deles muito excitado. — Olhe, vamos encher a sua cesta. Se você encontrar o nosso amiguinho perdido, serão todos seus os cogumelos!

O fantoche sentiu grande alegria ao ver que os mais belos cogumelos iam parar em sua cesta. Quando a cesta ficou cheia até à boca, os ursinhos o fitaram.

— Agora, por favor, volte ao campo do senhor Carrancudo e procure o nosso companheiro! — suplicaram eles.

— Não é preciso — disse o fantoche, apanhando a sua cesta — O décimo urso está aqui.

— Aqui! — exclamaram todos assombrados. — Onde? Não o vemos! Mostre-nos!

— Pois bem! Vou contá-los e vocês verão que aqui estão todos! — disse o fantoche a rir. — Ponham-se em linha. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove e dez! Aí estão!

Dez, e tão tonto é um, como os outros! Ora vejam só! Quem se riu de mim esta manhã porque cheguei tarde para colher cogumelos? Por acaso não tenho agora os melhores? Vocês precisam pensar duas vezes, ursinhos, antes de se rirem do fantoche!

Ditas essas palavras, "Dorme-Tarde" partiu com a sua carga, a rir-se muito dos pobres ursinhos! Estes ficaram a entreolhar-se admirados.

Como se havia arrumado "Dorme-Tarde" para contar dez ursinhos?

Era um milagre!

Realmente era um mistério! Até hoje os ursinhos ainda não podem compreender como se deu tão maravilhoso fato! Tolinhos!

Muito tolinhos, não acham?

(Trad. e adaptação de Leoncio de Sá Filho)

set 122009
 

Rapunzel

IRMÃOS GRIMM
Ilustrado por SÉRGIO

Fonte: Ed. Abril Cultural. Col. Fábulas Encantadas, 1970.

Rapunzel fábula infantil

Esta moça de trança
Longa e macia é prisioneira da bruxa numa torre alta e sombria.
Rapunzel das longas trancas espera ser livre um dia.
Virá alguém libertá-la?
A estória aqui principia.

 

Era uma vez um lenhador, que vivia feliz com sua mulher numa casa simples, mas confortável.

Eles tinham um cachorro grandão e peludo e três pombinhas brancas.

Os dois estavam na maior das alegrias porque ia nascer um nenê para fazer companhia a eles.

Por isso a mamãe tratava de fazer as roupinhas para a criança, enquanto o papai construía um bom bercinho.

E o cachorro vigiava a casa, preso na corrente, perto da porta de entrada.

 

 

Ao lado da casa do lenhador morava uma velha bruxa, banguela, feia e egoísta, que nunca dava nada para ninguém.

A bruxa tinha um quintal enorme, muito bem cuidado, onde havia um pomar e uma horta cheios de frutas e verduras gostosas.

Mas a bruxa era tão egoísta que mandou cercar o quintal com um muro bem alto. só para que ninguém tivesse o gostinho de olhar o que havia lá dentro!

Acontece que a casa do lenhador tinha uma janela que se abria para o lado do quintal da bruxa. Uma manha, sua mulher, indo até a janela, viu os lindos rabanetes da horta da bruxa, vermelhinhos e apetitosos. —   Eu bem que gostaria de comer alguns… — pensou ela. — Pena que não são nossos e a velha bruxa não dá nada para ninguém…

Era tanta a vontade de comer aqueles rabanetes vermelhinhos… Mas o jeito era ter paciência. Não adiantava cobiçá-los. Um dia a mulher ficou doente, muito ruim mesmo. Não conseguia comer nada do que o marido lhe trazia. Passou-se um dia, e mais outro… Ela só falava nos rabanetes e não comia outra coisa. O lenhador decidiu então ir buscar aqueles famosos rabanetes. Esperou a noite ficar bem escura, para que a velha bruxa não o visse.

rapunzel02

rapunzel , contos de fada grimm

Devagarinho, devagarinho, escorregou da janela para dentro do pomar, e… zapt!. Arrancou um punhado. Os rabanetes estavam gostosos mas tão gostosos que a mulher quis comer mais no outro dia e no outro e no outro ainda! O pobre marido teve que voltar várias noites ao quintal da velhota, para colhê-los. Enquanto isso, sua mulher, graças aos rabanetes, dia a dia sentia-se mais forte.

Numa noite escura, quando colhia os rabanetes, o lenhador viu a velha bruxa surgir diante dele, cercada por seus corvos de estimação.

— Olhem só! — disse a velhota. — Então o misterioso ladrão dos rabanetes era você, hein? Bem que meu corvo predileto já tinha me falado!

O lenhador explicou que os rabanetes   eram para sua mulher, que não queria comer outra coisa.

A bruxa sabia de tudo, nem precisava de explicação. E aproveitou para pedir em troca dos rabanetes a criancinha que ia nascer. O pobre lenhador tremia tanto, mas tanto, que seus dentes batiam um no outro: tac, tac, tac… Apavorado diante da velha bruxa, nem conseguiu dizer não. — Não precisa se preocupar — disse ela. — Eu vou ser boazinha. serei uma verdadeira mãe para o bebê, pode acreditar em mim.


rapunzel e a bruxa, irmãos grimm

Depois de pouco tempo, nasceu a menina, gorduchinha e de cabelos loiros.

O lenhador e a mulher ficaram muito contentes.

Cuidaram da criança com todo carinho. Toda noite   cantavam para  ela:

Dorme, nenê,

No teu bercinho lindo.

Papai está contente,

Mamãe está sorrindo.

Imagens rapunzel, fábulas infantis

Mas logo a velha bruxa veio buscá-la. Os pais choraram muito e pediram-lhe que não levasse a menina, mas nao adiantou. A velha levou-a e lhe deu o nome de Rapunzel. A menina cresceu, cada vez mais bonita.

rapunzel

Passaram-se os anos e Rapunzel ficou linda… Seus cabelos loiros cresceram e todos os dias ela os penteava fazendo duas longas tranças. A velha bruxa, feia e banguela, com um dente só, num cantinho da casa começou a pensar:

— Rapunzel é linda. Preciso escondê-la para que ninguém a roube de mim. Devo fazer alguma coisa… Já sei! Vou levar Rapunzel para a floresta e trancá-la em uma torre! Isso mesmo! Uma torre com uma janela só e… sem porta, para que ninguém possa entrar lá… Ponho uma escada para Rapunzel subir na torre, mas, depois que Rapunzel estiver presa, eu levo a escada embora! E… como é que eu me arranjo depois para ir vê-la? Já sei! Não dou nenhuma tesoura para Rapunzel. Assim ela não poderá cortar os cabelos. Eles crescerão cada vez mais e ela ficará com duas tranças tão compridas, que servirão de cordas! É isso mesmo! Toda vez que eu quiser falar com Rapunzel, subirei pelas trancas! Assim ninguém mais poderá visitar Rapunzel, só eu!

A velha bruxa fez o que planejara e Rapunzel ficou presa lá na torre. A menina loira passava o tempo todo a fazer suas longas tranças e repetir as canções que os passarinhos, seus amigos, cantavam.

Cada vez que a bruxa velha queria visitá-la, ia até a torre. Primeiro olhava para todos os lados, para ver se não havia ninguém por perto. Olhava muito bem e depois gritava lá de baixo:

— Rapunzel! Jogue-me suas trancas! E Rapunzel respondia:

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— Já vai!… Mas suba devagarinho!

A menina jogava as tranças pela janela e a velha subia, toda contente da vida. Uma tarde, enquanto a menina cantava, passou por ali um príncipe, que a ouviu:

Queridas estrelinhas

que brilhais

nas noites mais bonitas,

eu jamais

deixo esta torre; e espero

enquanto o tempo

corre e corre e não volta nunca mais…

Quem será que tem uma voz tão bonita assim? — pensou o príncipe.

O príncipe andou ao redor da torre e não viu nenhuma entrada. Ficou com muita vontade de saber quem é que cantava, presa naquela torre sem porta. Ouvindo um barulho de gente pisando nas folhas secas que cobriam o chão, escondeu-se depressa e viu a velha bruxa, Ela chegou embaixo da janela e gritou:

—      Rapunzel, jogue-me suas trancas!

O príncipe descobrira o segredo! Na noite seguinte, com muito cuidado, ele chegou bem perto da parede da torre e gritou:

—      Rapunzel, jogue-me suas tranças!

A menina ficou meio indecisa por causa daquela voz diferente, mas pensou que a velha estivesse resfriada e jogou as tranças.

Ágil e rápido, o príncipe subiu por elas.

rapunzel e o príncipe rapunzel jogos	rapunzel historia	rapunzel disney	rapunzel desenho

rapunzel jogos	rapunzel historia rapunzel disney rapunzel desenhoQuando o príncipe entrou pela janela, Rapunzel exclamou, assustada:

— Oh! Não é,a velha bruxa! Quem é você, então?

O príncipe contou o que acontecera e Rapunzel, com medo de que a bruxa se zangasse, falou:

— Você precisa ir embora o mais depressa possível!
Se a bruxa o encontra aqui…

Depois, pensando um pouco, mudou de idéia:

— Bem que eu gostaria de ter companhia… estou sempre tão sozinha… é tão triste…

O príncipe prometeu vir visitá-la todas as tardes.

 

 

 

 

E assim aconteceu… e chegou o dia em que os dois amigos descobriram que seria bom que ficassem sempre juntos. Resolveram se casar. Mas, e a torre? Como sair dela?

rapunzel jogos	rapunzel historia - rapunzel disney -rapunzel desenhoRapunzel, muito animada, teve uma boa idéia, que contou logo para o príncipe.

— Toda vez que você vier à torre, traga um pedaço de corda.  Depois nós emendamos os pedaços e fazemos uma escada com eles. No dia em que a escada estiver pronta, é só amarrá-la na janela… e descer!

O plano era bom e o príncipe prometeu trazer as cordas. Depois levaria Rapunzel para seu reino, onde se casariam.

 

Mas acontece que Rapunzel era muito distraída, e um dia, quando a velha estava subindo pelas tranças, ela disse sem querer:

— Mas como a senhora está gorda! Parece até que está mais pesada que o príncipe!

A bruxa, doida de raiva, descobriu tudo. Furiosa, imediatamente pensou na melhor maneira de impedir que Rapunzel tornasse a ver o príncipe. A primeira coisa que fez foi cortar as tranças de Rapunzel. Não adiantou nada a menina chorar e pedir perdão. A velhota estava danada mesmo. Com uma só tesourada, lá se foram as trancas para o chão. E a bruxa não parou por aí. Chamou seus corvos, fez uma reunião com eles e ordenou que levassem Rapunzel para o deserto, para que ela vivesse sozinha, longe de todo mundo. Mas o príncipe, que não sabia de nada, voltou a visitar Rapunzel. Chegou embaixo da janela e gritou:

— Rapunzel! Jogue-me suas tranças!

A velha, que estava escondida lá na torre, jogou as trancas e puxou o príncipe para cima. O príncipe levou um susto enorme quando viu aquela cara feia dizendo:

— A menina não está mais aqui, seu danado, ela foi para muito longe! Ah! ah! ah!

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Dando uma gargalhada, a bruxa largou trancas onde o príncipe estava, suspenso e ele caiu lá do alto para o chão. Coitado do príncipe, tão bonzinho que era. A bruxa, com as mãos na cintura, ficou olhando para baixo e quando viu o que aconteceu com o príncipe, deu mais uma gargalhada, a malvada! Se o príncipe tivesse caído no chão. apenas, ainda nao seria tão grave, mas ele caiu em cima de uma enorme roseira. Ficou todo espetado, machucado e cego.

 

 

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rapunzel grimm fadas e o príncipe floresta encantadaMesmo machucado, mesmo cego, mesmo sozinho, o príncipe resolveu que iria procurar Rapunzel. Os esquilinhos viam o estado do rapaz e cochichavam:

— Mas aquele não é o príncipe? Coitado, como ele está machucado! E ainda vai procurar Rapunzel… Que judiação o que a bruxa fez com eles!

— Rapunzel! Rapunzel, onde é que você está?—ia chamando o príncipe por onde passava, procurando sua amada.

 

Até que um dia, cansado e sem saber que direção deveria tomar, percebeu que tinha chegado a um deserto.

— Não agüento mais, sei que não vou encontrar Rapunzel, ela está perdida para sempre… Vou gritar o nome dela pela ultima vez:

— Rapunzeeeeeelll!

E o príncipe caiu na terra quente.

Acontece que Rapunzel estava ali perto!

Ela ouviu a voz desesperada de alguém que a chamava.

Andou até ver o moço, que de longe parecia um viajante desconhecido.

— Como será que ele sabe meu nome? — pensou ela.

 

Chegando bem perto, viu que era o seu príncipe!

Quando descobriu que ele estava cego, Rapunzel começou a chorar.

Duas lágrimas suas caíram dentro dos olhos do rapaz, e

imediatamente ele começou a enxergar outra vez !

Que coisa maravilhosa! Rapunzel estava ali mesmo, bem juntinho dele!

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Os dois jovens, finalmente reunidos, deixaram o deserto e foram para o palácio do príncipe. Lá se casaram e foram felizes. O pai e a mãe de Rapunzel vieram para o palácio morar com a filha, que nunca fora esquecida por eles. E a bruxa egoísta ficou presa na torre e nunca mais saiu de lá.

E assim termina a história
de Rapunzel e o príncipe encantado;>br/> do amor tão grande e firme
que os guiou para o encontro desejado
vencendo a bruxa má
com seus bruxedos todos desmanchados