set 292014
 
peste

A peste

A razão por que tenho pelo mais desgraçado de todos os ma­les a peste, é porque nas outras enfermidades o maior benefício que vos pode fazer quem vos ama, é estar convosco; na peste, a maior consolação que vos pode dar quem amais, é fugir de vós. Mal em que o dizer: “estai comigo” é querer mal, e dizer: “fugi dc mim” é querer bem. Grande mal! Se a peste não fôra enfer­midade mortal, só por isso matara.

E [1]) quem se vê em tão miserável estado, que lhe é forçoso dizer a quem mais ama: “fugi de mim”, não lhe perguntem de que morre; êsse mal o matou.

Quem poderá bastantemente considerar e compreender as infelicidades, as misérias, as lástimas, os horrores, quexem si contém a desgraça geral de uma peste? — Os portos e/as bar)ras fechados, e os navegantes alongando-se ao mar, e não ^ó fugindo da costa, mas ainda dos ventos dela; os caminhos por terra tomados com severíssimas guardas; o comércio e a. comunicação humana total­mente impedida; as ruas desertas, cobertas de erva e mato, como nos contavam e viram nossos maiores nesta mesma cidade de Lis­boa; as portas trancadas com travessas almagradas; as sepulturas sempre abertas, não já nas igrejas e nos adros, senão nos campos; e talvez caindo nessas sepulturas mortos os mesmos vivos que le­varam a enterrar os defuntos; a fazenda adquirida com tanto tra­balho, guardada com tanta avareza, estimada com tanta cubiça, já lançada ou alijada, como em extrema tempestade, não à água senão ao fogo, e vendo-se arder sem dor; o amor natural do sangue ou atônito ou esquecido; os irmãos fugindo dos irmãos, os pais fu­gindo dos filhos, os maridos fugindo das mulheres, e todos queren­do fugir de si mesmos, mas não podendo, porque a saúde é indis- pensávelmente vedada e impossível.

A razão e a piedade têm ali cruelmente presos e sitiados os miseráveis, para que se mantenham a pé quedo entre si, e não saiam a matar os outros. (Idem).

Mimetismo

A previdente natureza não só proporcionou aos animais meios de defesa contra os inimigos, como também deu-lhes a faculdade de se disfarçarem e mudarem a sua aparência natural, quer na côr quer na forma, segundo os objetos que os cercam e o meio em que vivem.

A esta propriedade que têm certos animais, dão os naturalis­tas o nome de mimetismo.

Um dos exemplos mais curiosos dêste fenômeno oferece-nos c polvo. Eis como o descreve o inimitável Pe. Antônio Vieira.

Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas e grandes, não menos que S. Basílio x) e S. Ambrósio[2]). O polvo com aquêle seu capelo na cabeça parece um monge; com aquêles seus raios estendidos parece uma estrêla; com aquêle não ter osso, nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E de-baixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão san­ta; testemunham contestemente os dois grandes doutores da Igre­ja latina, e grega que o dito polvo é o maior traidor do mar. Con­siste esta traição do polvo primeiramente em se vestir, ou pintar das mesmas côres de tôdas aquelas coisas a que está pegado. As côres que no cameleão são gala, no polvo são malícia; as figuras que em Proteu são fábulas, no polvo são verdade e artifício. Se está no limo faz-se verde; se está na areia faz-se branco; se está no lôdo faz-se pardo; se está em alguma pedra, como mais ordinariemente costuma estar, faz-se da côr da mesma pédra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe inocente da traição vai pas­sando descautelado, e o salteador que está de emboscada dentre do seu próprio engano, lança-lhe os braços de-repente, e fá-lo pri­sioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque nem fêz tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fêz o sinal e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas, é ver­dade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo escurecen- do-se a si tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo, que faz, é à luz para que não distinga as côres. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor. (Idem).



[1] Subentende-se a preposição a; sendo, portanto, expletivo o — lhe — da oração principal.

[2] Santo Ambrósio — um dos mais ilustres Padres e doutores da Igreja Latina. (343 – 397).

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

jun 052014
 
petar3 (1)

A gruta «Casa de Pedra» em Minas Gerais
Carlos de Laet (1847-1927)

Pica a légua e meia, pouco mais ou menos, de São João d’El-Rey, no extremo da cordilheira do Bonfim e à margem es­querda do rio d’Elvas, afluente do das Mortes.

O terreno é aí calcáreo, e a escavação, tão vasta que, no di­zer dos habitantes das imediações, poder-se-ia andar um dia in­teiro e sempre descobrir novas comunicações e< aposentos.

— Tôdas as auroras se assemelham — ouvimos a certo pre­guiçoso, que destarte se desculpava de ter ficado a roncar na cama, quando todos os outros se erguiam para assistir2) à esplêndida alvorada. O mesmo se poderia objetar às maravilhas das grutas: são quase sempre as mesmas, é verdade; mas nem por isso é” menos admirável o trabalho da natureza, tão caprichoso que excede as mais atrevidas fantasias do homem.


* Das abóbadas de vastos salões descem concreções estalácticas, fljfurundo cortinas. Em tal recanto a formação calcárea simulou um púlpito. As galerias de comunicação apertam-se em vários lugares, obrigando os visitantes a caminhar de gatinhas, o que não deixa de ser picante, se no bando folgazão há cavalheiros obesos senhoras de avantajada corpulência. Os incômodos, porém, e mesmo os terrores de alguns mais tímidos, calam-se espontâneos, quando o guia (que sempre é bom levá-lo para êsse labirinto) sacode archote e com seus reflexos avermelhados explora as profundeza : da caverna. s

Melhor ainda, se o provérbio passeante está munido de uma fita de aluminium e de-repente a faz arder. Iluminam-se então de gala aquelas soturnas 1) paragens: dançam festivos clarões em ar­carias que ninguém suspeitara; revelam-se, imprevistos, grupos «uhlo a imaginação completa formas apenas lobrigadas; crescem In sombras, desmesuradas, afundando-se nas reentrâncias; e rebrilham, nas arestas e saliências, faixas e estrelas ofuscantes.

gruta casa das pedras

Para que multiplicar frases que não podem dar a sensação que nunca se viu, e apenas valerão como pálida reminiscência »lo que já se tenha visto? Leitores amigos, em matéria de grutas

já tendes apreciado a do Grande Mamute da União Americana,

Boca a do Inferno em Mato Grosso? Pois neste caso sêde compla­centes para com o nosso entusiasmo, que não contemplou tais

prodígios. Mas somente conheceis a gruta de cimento do Jardim do campo? Oh! nesse caso, permiti que vo-lo digamos, a Casa de Pedra tem muito mais que mostrar-vos e tudo com a originalidade e magnificência da natureza.

À beira da linha férrea, no começo da trilha que leva à gruta estão os fornos onde se queima a pedra das cercanias para reduzi-la a ótima cal. No trem que tomáramos, aventou-se a idéia de que sendo a Casa de Pedra propriedade da Companhia a que pertencem os fornos, tempo chegaria em que por êles passassem as lindíssi­mas estalactites, os mimosos festões e as grandiosas arcarias daquele assombroso palácio!. . . Tal idéia gelou-nos de horror.

Ao município de S. João d’El-Rey compete quanto antes adquirir e cautelosamente zelar essa obra prima, que é uma da maiores e mais fúlgidas gemas da sua coroa.

Conde Carlos de Laet.

jun 052014
 

Tremores de terra

(Causas) +

E’ muito natural que o leitor deseje saber qual a causa dos tremores de terra. Vamos pois satisfazer êste desejo.

Primeiro que tudo é preciso que se saiba que quanto mais se desce para o interior da terra, maior é o grau de calor. As esca­vações ou minas, feitas pelo homem no seio da terra para extrair os minerais, assim no-lo provam: quanto mais se profunda a terra, mais vai aumentando o calor. Por cada trinta metros de profun­didade aumenta o calor um grau.

Reina ali uma temperatura elevadíssima que se mantém cons­tante durante todo o ano; quer de verão quer de inverno, o calor é sempre o mesmo.

terremoto de lisboa 1755

Numa mina de 1151 metros de profundidade, o termômetro acusava uma temperatura permanente de 40 graus, — quase a temperatura das regiões mais quentes do globo.

Quando mais baixo se desce, mais alta vai sendo a tempera­tura; e disso temos uma prova na água tirada das profundidades da terra. A água chega à superfície com a temperatura existente nessas profundidades, esclarecendo-nos assim acêrca da distribuição do calor nas entranhas da terra.


Já ouviram iaiar nos poços artesianos — uns ruros acertos no solo, por meio de brocas de ferro, para extrair a água dos depósi­tos subterrâneos, alimentados quer pela infiltração dos rios quer l>elos dos lagos vizinhos.

De poços artesianos de 547 metros de profundidade, extrai-se água à temperatura constante de 28 graus. De outros da profun­didade de 760 metros, a temperatura é de 35 graus; sempre a mes­ma relação: um grau por cada trinta metros.

De maneira que, se abríssemos poços muito profundos, encon­traríamos água a ferver; a dificuldade é atingir a profundidade requerida. Para encontrarmos água a ferver, fôra, preciso abrir um poço de uma légua de altura, o que é impossível; no entanto conhece-se um grande número de nascentes dágua que ao sair do solo têm uma temperatura elevadíssima, às vêzes a da água a fer­ver. Estas águas chamam-se termais, quer dizer de origem quen­te; portanto nos sítios donde vêm, existe calor suficiente para aquecê-las, e até fazê-las ferver.*

No Estado de Minas Gerais, há as famosas fontes termais de Poços de Caldas, e também no nosso Estado descobriram-se algu­mas fontes denominadas — Ãguas do Mel — no município de Pal­meira (das Missões). Algumas destas águas têm uma tempera­tura de 40 graus, e portanto vêm de uma profundidade de mil me­tros mais ou menos.

Mas essas fontes nada são comparadas com as que existem nos Estados Unidos e sobretudo na Islândia — uma grande ilha situada na extremidade do norte da Europa, coberta, de gêlo a maior parte do ano. Há na ilha um grande número de fontes de água quente a que os naturais chamam Geisers. A mais notável, o grande Geiser, tem a sua origem numa vasta bacia situada no cume de um outeiro formado pelas incrustações depositadas pelas águas.

O interior desta bacia estreita-se em forma de funil que se ramifica em condutos tortuosos, os quais vão mergulhar a uma profundidade desconhecida.

As erupções dêste vulcão d’água a ferver fazem-se anunciar por estremecimentos do solo e uns ruídos surdos, semelhantes ao troar duma descarga subterrânea de artilharia.

As detonações vão-se tornando cada: vez mais fortes, e o solo estremecendo com mais violência até que a água rebenta precipi­tadamente e enche a bacia onde, por alguns momentos, acontece o mesmo que numa caldeira aquecida a um enorme braseiro. A água começa, em meio de vapores, a levantar grandes borbulhões.

De repente o Geiser desenvolve tôda- a sua fôrça: abre numa forte explosão, arremessa aos ares uma coluna de 60 metros de alto e 6 de largo, que forma um repuxo coroado de vapores brancos e caindo em jorros ferventes.

Êste repuxo colossal dura apenas instantes. Em pouco tempo


a coluna líquida abate, a água da bacia escoa-se, engolfa-se nas profundezas da cratera e é substituída por uma coluna impetuosa de vapor, que irrompe com o bramido do trovão, despedindo com uma fôrça prodigiosa fragmentos de rocha da cratera*

Tudo quanto está em redor desaparece envolto em turbilhões de fumo.

Por fim serena, e o fumo do Geiser dissipa-se para mais tarde aparecer e reproduzir fenômeno idêntico.

Tudo isso prova que, — como já dissemos, — existe no inte­rior da terra uma grande fonte de calor.

Com efeito, admitindo, como nos faz crer o conjunto de ob­servações, que a temperatura subterrânea aumenta com a profun­didade, na relação de um grau por cada 30 metros, segue-se que a três quilômetros encontraremos a água a ferver, isto é a cem graus.

A vinte e cinco quilômetros abaixo do solo, o calor será igual ao de ferro em brasa; a sessenta, haverá o suficiente para derreter tôdas as substâncias que conhecemos; e finalmente no centro da terra, a temperatura será de 200.000 graus, calor mais fácil de cal­cular do que de conceber. Desta sorte devemos considerar a, terra como um globo de matéria tornada líquida pelo calor, coberta com uma crosta sólida, mas pouco espêssa, que envolve êste oceano de matéria em fusão.

Digo pouco espêssa, porque a espessura da camada sólida da terra não excede a sessenta quilômetros; e sessenta quilômetros é pouquíssima espessura, relativamente ao volume do globo terrestre.

A distância da superfície ao. centro da terra é de 8.000 quilô­metros; desta extensão, perto de sessenta quilômetros pertencem à espessura da crosta, e o resto às matérias em fusão. Supondo que

a terra é uma esfera de dois metros de diâmetro, a crosta seria representada por metade da grossura de um dedo; ou, para ser­vir-me de outra comparação mais simples, representando a terra por um ôvo, a casca seria a crosta do globo, e o conteúdo a massa central em fusão.

A alguns quilômetros abaixo de nossos pés há, pois, nm abis­mo abrasador rolando ondas de fogo.

Ocorre logo a pergunta: — como é que um invólucro, relativa­mente tão fraco, poderá resistir !) à flutuação da massa líquida central? Esta frágil crosta não se fenderá de vez em quando? não aluirá? ou, pelo menos, não sofrerá uma ou outra vez algum abalo?

Sofre, sofre! E por muito ligeiro que seja, pode fazer estre­mecer os continentes e cavar abismos terríveis.

Aí temos, pois, o motivo dos tremores de terra. A gema do ôvo agita-se e a casca quebra-se.

Não se passa talvez um único dia em que a crosta do globo não sofra um abalo neste ou naquele ponto, quer no fundo do leito dos mares quer por baixo dos continentes. Em todo o caso, os tre­mores de terra desastrosos são raros, graças à existência dos vul­cões.

As bocas vulcânicas são efetivamente verdadeiros respiradou­ros de segurança, que põem o inteiror do globo em comunicação com o exterior. Como oferecem saída fácil aos vapores subterrâ­neos que tendem constantemente a dilatar-se e a evolver-se para a atmosfera,, obstam 2) por isso a que os tremores de terra sejam mais repetidos e desastrosos.

Nos países vulcânicos, as convulsões do solo diminuem muito ou cessam de todo, logo que o vulcão começa a vomitar fumo e lava.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

mar 192014
 

Arrependimento infantil

Era uma vez uma menina — linda menina que ela era! — muito linda de rosto e de gesto e de figura e de tudo, porém mui­to feia de coração.

Vivia esta menina com sua mãe, que a adorava, e com outra ir­mã que tinha, mais velha e melhor, sem comparação muito melhor.

Adorava-as a ambas, como vos digo, a boa de sua mãe, que era uma senhora moça e ainda formosa: mas pesava-lhe *) muito e muito que tanta maldade se escondesse em tão galante criatura. Quem visse a menina chamar-lhe-ia1) um anjo, que tamanha gentileza tinha; mas quem a tratasse. . . — ai! Deus do céu! nem me atrevo a pensar no que lhe chamaria. 3)

Tinha ela sete anos, uns sete anos travessos como os sete pecados mortais, e, se bem me lembra, chamava-se Luísa. Ora a menina Luísa, que vivia muito estimada e acarinhada por sua mãe, e com tantos mimos de criação, era, como vos ia contando, uma criatura muito endiabrada, muito e muito má lá por dentro. Custa-me 4) de-veras ter que dizer-vos isto de tão linda menina, mas é a puia verdade.

Fazia chegar o prazer ao coração vê-la logo de manhã bem pregada e bem penteadâ, feita um brinquinho com muitos cuida­dos e desvelos; era uma dor dalma, quando, meia hora depois, aparecia enxovalhada5) e desgrenhada 6) tôda outra, muito di­versa do que fôra, uma bruxa horrenda para a vista. Não era isso que ela fôsse de seu natural inimiga do asseio, mas porque tanto corria, tanto saltava, tantas travessuras fazia, que em bre­ve todo aquêle conchego, arranjo e consêrto era como se nunca lho houvessem feito.

Ora, bem vedes que menina assim só sua mãe — e tão boa como ela era — a poderia sofrer. Mas, para que melhor vejais até onde chegava a maldade daquele coração pequenino, quero contar-vos um caso que lhe sucedeu — um caso cruel, que a fêz chorar muito e por muito tempo.

Havia em casa uma cadelinha, côr de ganga, bonita — era uma perfeição. Fiel e boa amiga como quem era, limpa e nédia a não poder ser mais. Era a pérola da espécie canina: só lhe faltava

falar. Em mansidão não havia excedê-la2). Brincava com as duas meninas como se tivesse entendimento. Deixava-se arrastar, torcer e beliscar pela diabólica Luísa, sem de tudo aquilo se mos­trar ofendida; antes de cada vez lhe lambia mais e mais as mãos, fazendo-lhes festas, com ar queixoso, sim, mas não agastado.

Gansada de ver que todos os seus maus tratos não enraive­ciam a boa cadelinha, ou talvez inspirada pelo demônio tentador das meninas más — .que eu não quero acreditar possa haver mal­dade bem profunda nestas almas novinhas, ainda de pouco saídas dentre as mãos do Criador — quereis saber o que ela fêz?

Sem se importar com os bons conselhos de sua irmã, que lhe pedia com as lágrimas nos olhos 3) não fizesse tal, pegou de um cor­del muito forte, e, chamando a cadelinha com o engodo de alguns bolos — arripiam-se-me os cabelos só de pensá-lo — atá-lho à cau­da, e começa a apertar-lhe sem alma, \ cada vez mais e mais, com muito prazer seu e muitas sentidas queixas da pobre cadelinha, que tôda se torcia e gemia com a grande dor que lhe faziam padecer.

Enquanto o triste brutinho erguia para a horrenda pequena uns olhos lacrimosos e repreensivos, -que fariam estalar de pena o coração mais duro, ria-se4) ela como uma perdida. Ria, como se lhe tivessem dado um paraíso de alegrias. Ria3), ria, ria, e cada vez apertava mais.

A cadelinha era muito mansa, muito dócil^ mas não era de pedra. Afinal secaram-se tôdas as lágrimas do seu padecer, fu­giram-lhe os gemidos dolorosos. Estava já a ponto de desmaiar de puro sofrer, quando, por um instinto de defesa, mais poderoso do que a. vontade, por um movimento rápido, muito cego e muito cheio de desesperação, voltou a cabeça e cravou os dentes .nas mãos da cruel menina.

Vejam que horror I A pobre da cadelinha logo no mesmo mo­mento, arrependida do mal que sua dor causara, começou a ganir com mágoa ainda maior, e deitou-se de rojo ao chão, lambendo-lhe os pés, como quem se oferecia ao castigo.

Quisera eu que tôdas as crianças mal inclinadas vissem aque- ia vista. — Que vista, meu Deus! — O brutinho com um anel en­sangüentado, feito pelo fatal cordel, na. cauda que dantes encara­colava com tamanha graça! E ela, a doida da *) Luísa com a mão ferida pelo desespêro do pobre animalzinho, que nunca na sua mansa vida fizera mal a ninguém. — Ai Anjos do céu! devia de ser medonho.

Mas — pode­reis crê-lo — a-pe- sar-da grande dor que sentia, Luísa não chorou. Não chorou, porque uma voz desconhe­cida lhe disse ao ouvido que tôda aquela dor só a sua maldade lha2) tinha feito, e ela nem um grito sol­tou’

Oh! por mui­to má que uma menina seja, lá

lhe há-de chegar por fôrça uma hora em que ouça aquela santa voz da consciência, que é a voz de Deus, pai de tôdas as meninas. Luísa não chorou, mas asseguro-vos que também já não ria como dantes íira. Os gemidos generosos que a seus pés soltava a cadelinha, en- traram-lhe pela alma dentro, ensinando-lhe 3) a arrepender-se’

Nisto chegou a sua mãe com sua irmã, que vira aquela des­graça e vinha tôda chorosa. Que cena para tal mãe!

O primeiro impeto de Luísa foi atirar-se-lhe aos braços, mas não se atreveu. Parecia que tinha os pézinhos pregados no so­brado 4) e tinha, que o pêso da vergonha não lhe consentiu dar um ‘ ‘ \ ‘ y-M

  1. A doida da Luísa — a preposição de aqui é considerada como ele­mento de realce. Assim dizemos: a pobre da velha. O coitado do escri­vão via-se em brasas.

  2. Note-se o emprêgo pleonástico do pronome a repetindo a idéia de dor.

  3. Há verbos, como ensinar, aconselhar, mandar, etc. que têm duas construções; assim dizemos: ensinar a alguém a leitura (sendo leitura o complemento direto) e ensinar alguém a ler a fazer alguma coisa, (sendo alguém o complemento direto). Ambas estas coisas lhes ensinam o santo a reduzir à praxe, ensinou-os a trabalhar e ensinou-os a pedir. (Bern. Nova Floresta V. 161.)

  4. sobrado soalho ou assoalho.

passo. A boa da 1) senhora, sabendo a feia ação daquela má, tinha a custo, a muito custo, — crede-mo — composto um semblante mui severo e rigoroso; mas à vista daquela confusão em que estava posta a culpada, daquele sangue que vertia a branca e linda mão da sua filha, todo o rigor se lhe trocou em mágoa e piedade.

Sentiu-se também ferida no seio de mãe, e abriu-lhe os braços

  • uns braços imensamente consoladores, vergando de perdões e misericórdias.

E como a infeliz — que assim podemos chamar-lhe 2) — e como a infeliz se achou leve de-repente! Como correu a mergu­lhar, naquelas ondas de compaixão, a dor do seu arrependimento! Como foi de-pressa esconder no peito de sua mãe o rosto e a ver­gonha ! — Se a visseis. . . que dó!

A boa mãe já lhe tinha perdoado. Perdão para tamanha cul­pa só poderia alcançá-lo um grande arrependimento; e o arrepen­dimento da menina era tal como vô-lo não sei contar. Apertou-a muito, muito a si, e, por entre as lágrimas com que aljofrava o rosto, sorria-lhe ternamente como só sabe sorrir quem é mãe. Deve ser assim o céu, quando um criminoso se arrepende.

A prudente senhora não lhe ralhou, não. Bem o merecia ela, mas a consciência dizia mais à pobre menina, muito mais do que ralhos poderiam dizer. Ralhos, quanto a mim, só são para a mal­dade que não tem pejo nem promete emenda. Se as meninas sou­bessem quanto devem custar a quem é mãe êsses feios ralhos!. .. Não ralhou, como vos digo; só lhe disse, enquanto lhe lavava as feridas da mão com a água dos seus olhos, e as da alma com o desvêlo do seu amor:

“Vês, filha, quantas bocas te repreendem da tua maldade?” E de-certo repreendiam. A dor fizera entrar bem fundo os dentes da pobre cadelinha; mas a mordedura que o remorso lhe fêz no coração, essa ainda foi muito mais funda.

Teve a menina tamanha vergonha do acontecido, que por mui­to tempo conservou o costume de esconder a mão que fôra ferida, quando vinha alguém de fora. Também algumas vêzes foram dar com ela a abraçar a cadelinha, chorando ambas como se a ca­delinha a entendesse.

Ao menos a lição aproveitou. Luísa, daí em diante, fê-se tão boa como linda. E muito mais linda ficou parecendo, porque a formosura dalma, que torna tão galantes as meninas, tôda se lhe refletiu na formosura do rosto, que tão formoso tinha. Foi tal a emenda, que todos, quando a viam passar, depois daquilo suceder, diziam dela o que já dantes afirmavam de sua irmã:

“Ali vai a rainha das boas meninas.”

Ouvi que ela e a cadelinha desde aquêle dia ficaram insepa­ráveis. Mendes Leal.

1) Deve-se pronunciar: pêsa-me e não pésa-me. Que significa aqui o verbo pesar? é pessoal ou impessoal?

1) Vide a nota 1) à pág. 21. 2) Vide as notas 2) e 3) à pág. 1D.

1 e 3) Note-se a regência cio verbo Chamar que, quando significa apelidar, dar nome de, em lugar da forma objetiva o, a do pronome êle, ela, pode admitir a forma lhe, e portanto dizemos: Chamavam-lhe o pai

2 não havia excedê-la = não era possível excedê-la.

3 Note-se a elipse da conjunção que, muito freqüente nas orações substantivas, servindo de sujeito ou de complemento direto a certos verbos, como: convir (impessoal), cumprir (imp.), pedir, esperar, desejar, querer, impedir, e outros: Quisera (que) me ensinásseis, senhora, o modo como hei-de salvar a meu pai. (Alex. Herc. Lendas II. 36). Pediu ao Santo (que) fizesse com que Barnabé não tugisse nem mugisse (Ibid. II. 228). Cada pá­gina era uma canção, mas canção que cumpria (que) se escrevesse em már­more (Idem). Requereu (que) lhe desse vista de tôdas as peças do processo. Nem o cansaço de trabalhosa jornada nem o hábito dos cômodos do mun­do puderam impedir (a dama) acompanhasse aquelas (Eurico 130).

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4 Alguns verbos intransitivos cmpregam-se com igual sentido pro- nominalmente e assim dizemos: Passaram-se ou passaram horas, dias se­manas, anos. As aulas reabrem-se ou reabrem a Io de março. A procissão recolheu-se ou recolheu às 5 horas. Êles apearam-se ou apearam à porta da estalagem. Ajoelharam-se ou ajoelharam. Êles ajoelharam-se ao pé da Cruz (Eurico 33). Só Hermengarda… ajoelhou com as mãos erguida.s (Eurico 243). Êles cansados se calaram (Nova Floresta III. 47). Ria-se ou ria. Calaram todos (N. Fl. I. 55). Üniçavientc o Cardeal calava e se mos­trava triste (Ibid. IV, 1., O outro calando-se ficaria desamparado. (Ibid. IV. 26). Todos os rostos empalideceram. todos os lábios calaram. (Enrico 243).

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

seleta4
ago 162010
 

MARIA SABIDA

ErA um lavrador que tinha três filhas bonitas e boas, mas a mais novinha era ladina como ninguém. Chamavam-na Maria Sabida. O rei morava vizinho ao lavrador e achava graça nos modos de Maria Sabida, tanto que a desejou para si. Começou dizendo ditos para ver que respostas dava.

 Maria Sabida, entre aqui no meu palácio!

 Quando meu pai lá for…

0 rei ria a bom rir e ficava por aí. O lavrador foi às feiras e as três filhas ficaram. O rei apareceu lá pela noite dizendo vir passar o serão com cia. Maria Sabida foi buscar vinho e não voltou mais, indo dormir com a vizinha, O rei ficou furioso.

No outro dia as irmãs viram umas maçãs maduras no pomar do rei é pediram umas. Maria Sabida pulou o muro e foi buscá-las. Estava atirando as frutas por cima do muro quando o rei chegou:

 Maria Sabida furtando maçãs?

 Estou as vendo de perto e comendo de longe.

 Venha cá que temos que conversar!

Foi andando e Maria Sabida acompanhando até perto do palácio. Aí virou os passos e correu até o muro, voltando para casa. O rei subiu as escadas, direito, e quando procurou não viu mais a moça.

 Has de pagar-me, endiabrada! Mandou chamar o lavrador e comprou <l

carradas de milho. O lavrador juntou o milho seu paiol para entregar ao rei no dia aprazado. V então o rei e manda pegar o fogo ao paiol para lavrador não cumprir o trato. Maria Sabida sa sorrateira e largou fogo às casas do rei, abrindo um incêndio que durou a ser abafado. O rei disse ao lavrador:

 Quando entrega o milho?

 O milho queimou-se no incêndio!

 Pois, negócio é negócio e se não traz o milho traga sua cabeça.

Negócio é negócio, e fogo é fogo, tanto que o que perdi o foi pelo ter vindo da casa do rei…

O rei conhecendo o dedo de Maria Sabida, deu-se por convencido. Foi então pedir Maria Sabida em casamento e o lavrador a deu. Maria Sabida pediu três meses para o enxoval e mandou fazer uma boneca muito parecida com ela. Meteu lá dentro uma bexiga cheia de mel e fez esconder a bo-n neca no quarto da cama do rei. Casaram e, quando se foram deitar, Maria Sabida escondeu-se debaixo ! da cama, esperando o rei que entrou, puxou a espa- J da e foi dizendo:

 Maria Sabida lembra o que me fez?

A moça puxava um cordel e a boneca abaixava a cabeça.

 As respostas que me deu? A boneca fazia que sim.

 As maçãs que furtou?

 Os passos que me enganou?

 O fogo que me pegou?

 O dinheiro que me levou?

E como sempre a boneca dissesse que sim, o rei encolerizado, atravessou-a com a espada, mas umas gotas de mel caíram na sua boca e êle gritou, muito aflito:

 Ah! Maria Sabida, tão doce na morte, tão crua na vida!

E virou a ponta da espada para matar-se quando a moça saiu de baixo da cama e o abraçou. Viveram muito bem até o fim da vida.

Ë a Maria Sutil, Dona Vintes, Dona Esvin-tola, popularíssima em Portugal onde dom Francisco Manuel de Melo a citava: Eu cuido que vireis a ser aquela

…Dona atrevida, Doce na morte E agra na vida

que nos contam quando pequenos. Ë a Dona Pinta, o XII da coleção que Sílvio Romero coligiu no Brasil, versão de Sergipe. Silva Campos divulgou uma outra, do recôncavo baiano, O rei doente do mal de amores, LXIX do Contos e Fabulas Populares da Bahia no O Folk-Lore no Brasil, de Basílio de Magalhães, Rio de Janeiro, 1928. O prof. Aurelio M. Espinosa registou quatro variantes, em Espanha, La mata de alba-haca, Toledo, Segóvia e Granada, e Las très hijas dei sastre Burgos, 1, 2, 3 e 4. Na terceira, de Granada, há o dito: Ay, Mariquilla, durce tienes la muerte y agria la vida. Na Dona Pinta: Ah! minha mulher, si depois de morta estás tão doce, que faria quando eras viva! Perrault deu expressão literária a esse conto no Adroite Princesse ou Aventures de Finette.. (C. Cascudo)

 

 Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora.

ago 132010
 
peixinho desenho colorido infantil
peixinho desenho colorido infantil

O PEIXINHO ENCANTADO

Era uma vez uma velha que tinha um filho tão preguiçoso que parecia parvo. Vivia deitado ao calor da lareira, dormindo. A velha saía para ganhar a vida e, quando voltava, o filho estava na mesma posição, dormindo. Um dia, estava-se em dezembro e nevava, acabou-se a lenha para o fogo e a velha, perdendo a paciência, gritou-lhe:

— Sai-te daí mandrião! Leva essas cordas e o machado e busca um molho de lenha senão morreremos de frio esta noite. Vai-te daí, mandrião! O mandrião, a quem chamavam João Parvo, levantou-se muito desgostoso e se foi arrastando os pés para o bosque, buscar lenha. Quando passou pelo terreiro do rei, a filha deste estava na varanda, com as damas, e vendo o andar desajeitado de João Parvo desatou a rir com vontade. João continuou até o bosque e quando lá chegou em vez de trabalhar escolheu um lugar para deitar-se e dormir, o que fez em seguida. Perto havia uma lagoa e o Parvo meteu a mão na água, pegando sem querer num peixe. Agarrou-o depressa, tirando-o para fora. Qual não foi a sua surpresa ouvindo o peixe falar. Era um peixe pequenino, com escamas brilhantes como prata.

— Solta-me, João. Se o fizeres dar-te-ei todo o poder. Bastará dizeres: Com o poder de Deus e do meu peixinho, para que seja feita a tua vontade.

O preguiçoso, para não ter que fazer, largou o peixinho que mergulhou e desapareceu na lagoa. João acomodou-se e dormiu até à tarde. Acordando, lembrou-se da lenha e da promessa do peixinho. Mesmo sem acreditar, disse as palavras:

— Com o poder de Deus e do meu peixinho quero um feixe de lenha seca, da melhor possível.

Palavras não eram ditas apareceu um feixe de lenha magnífica. O mandrião nem pôde abalar-lhe 0 poso. Sentou-se em cima, pegou do machado e disse:

— Com o poder de Deus e do meu peixinho Quero que esse feixe me leva até a casa…

Imediatamente o feixe saiu correndo como se fosse um carro, com João trepado a todo cômodo. Atravessando a praça, a princesa avistou-o e riu com todo prazer. João, zangado com a vaia, pediu ao peixinho que a princesa tivesse um filho dele.

Chegando a casa, aceso o lume, João deitou-se no quente e toca a dormir. No outro dia, tendo fome, pediu,:

— Com o poder de Deus e do meu peixinho quero comida da melhor que houver. A mesa encheu-se de iguarias saborosas. João comeu a far-lar e voltou a dormir. A velha, voltando pela noite, ficou admirada com as provisões da casa. Ficaram vivendo muito- bem.

Sucedeu que a princesa teve um filho e o rei andava furioso para saber quem era o pai do seu neto. A moça não sabia explicar e só se falava neste assunto. Finalmente o rei mandou juntar toda a gente da cidade na praça e andar pelo meio dela com a princesa que levava o filho com uma bo-

linha de ouro na mão. A quem êle a entregasse seria o pai. Reuniram-se todos os homens e a princesa andou pelo meio sem que o menino desse sinal. Quando iam passando diante de João, o pequeno estendeu a mão e entregou a bolinha de ouro, dizendo, em claras vozes: Este é o meu pai!

O rei casou-o com sua filha, mandou fazer uma grande caixa, meteu dentro a princesa, o filho e o João, e sacudiu-os no mar. Foi a caixa boiando, levada pelas ondas e João deitado e dormindo, tranqüilamente. A princesa, depois de muito chorar, acordou o dorminhoco com uns bons repelões. João acordou e, com o poder do peixinho, arranjou comida farta e bebida. À noite a princesa tornou a despertar o marido com umas sacudidelas fortes, e João pediu ao peixinho que encalhasse a caixa numa 1 praia perto do palácio do rei seu sogro. Assim se fez.

Saíram todos da caixa e a princesa, vendo que ia dormir ao relento se não sacudisse o mandrião, fê-lò com tanta vontade que João voltou a pedir ao peixe:

— Com o poder de Deus e do meu peixinho quero um palácio maior e mais bonito do que o do rei, com toda criadagem, carruagens, despensa cheia, e preparado com todo gosto.

Apareceu um palácio grande e bonito que era um condado. João, a mulher e o filho recolheram-se, com a criadagem a servir, mesa posta, tudo do melhor.

O rei velho estava uma tarde na torre do seu palácio quando avistou umas torres que não conhecia. , Mandou um fidalgo verificar o que era, e este voltou contando ter visto um palácio ainda mais bo nito e maior que o do rei.

Picado no orgulho, o rei foi ver que palácio era esse. Foi recebido com todos os agrados mas não reconheceu João porque este estava muito bem vestido e tratado. A filha não lhe apareceu, Na hora do jantar, depois de ter visitado o palácio, o rei serviu-se muito bem, conversando, e João pediu ao peixinho que coloca-se no bolso do rei um dos talheres de ouro da mesa. Depois mandou con-tar os talheres e disse que faltava um. O rei logo procurou nos bolsos e encontrou o talher, ficando todo confuso.

— Este talher cá está, mas não sei como aqui veio parar!

João respondeu:

— Da mesma forma que sua filha foi mãe! Deu-se a conhecer, mandou chamar a princesa

e o filho, e o rei velho a todos abençoou e abraçou, chorando de alegria. Viveram na paz e com feli cidade.

E’ o ‘"João Mandrião", de Adolfo Coelho, "O peixinho encantado" de Teófilo Braga, "o Preguiçoso ; da Porneira" de Consiglieri Pedroso, Alfredo Apell, "Contos Populares Russos", traduziu uma versão russa, "Emiliano Parvo", citando as ‘variantes gregas, eslovenas, napolitanas, alentas. E’ o Mt. 675 de Aarne-Thompson, The Lazj¿ Boy, espalhado pela Europa do norte e leste. • No Brasil, João da Silva Campos registou a versão baiana. LXVI do " Contos e FábuV.as Populares da Bahia". Straparola, "XIII Piacsivoli Notte", ed. 1584, regista uma versão idêntica, Notte terza, Favola I.(CASCUDO)


Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora.

jul 102010
 

O espelho, a bota e o cravo

muitos anos, houve um rei que tinha uma filha muito bonita e graciosa. Quando chegou a ocasião de a moça se casar, apareceram três príncipes, cada qual mais belo e rico. A princesa ficou hesitante entre os três candidatos. Assim, o rei, para resolver a questão, declarou que sua filha só se casaria com aquele que trouxesse um presente que mais lhe causasse admiração.

Os três príncipes aceitaram a sugestão do rei e partiram. Quando chegaram a um lugar em que a estrada se dividia em três caminhos, despediram-se e marcaram o dia em que deveriam reunir-se novamente naquele ponto. Depois, cai la um seguiu por um caminho.

O príncipe mais velho viajou durante vários dias, até que chegou a uma grande cidade. Quando atravessava uma praça, ouviu um menino gritar: — Quem quer comprar um espelho mágico? O príncipe aproximou-se e perguntou qual a virtude daquele espelho. O menino respondeu: — Este espelho tem o poder de refletir tudo o que se passa em qualquer lugar. O príncipe disse consigo: — Com este espelho me casarei, na certa, com a princesa. E adquiriu o espelho mágico.

O segundo príncipe fez também uma longa viagem e foi parar em outra grande cidade. Passeava por uma rua, quando ouviu um homem gritando : — Quem quer comprar uma bota mágica? O príncipe aproximou-se e perguntou qual a virtude daquela bota. O homem então respondeu: — Esta bota tem o poder de levar a pessoa ao lugar que desejar. O moço disse consigo: — Com esta bota me casarei, na certa, com a princesa. E a comprou.

O príncipe mais moço viajou durante muitos dias e, por fim, chegou a uma cidade muito grande. Passava por um jardim e ouviu um menino gritando: — Quem quer comprar um cravo mágico? O rapaz perguntou qual a virtude daquela flor. E o menino respondeu: — Este crav tem o poder de dar a vida a quem estiver morto. O pifai Ipc disse logo consigo: — Com este cravo me casarei, na cei ta, com a princesa. E adquiriu a flor mágica.

O príncipe mais moço aproximou seu cravo mágico do nariz da morta.

O príncipe mais moço aproximou seu cravo mágico do nariz da morta.

Quando chegou o dia marcado, os rapazes reuniram i na mesma estrada. O príncipe mais velho abriu o seu espelhi para o mostrar aos outros rapazes. Viram então que a bcl.i princesa estava deitada no leito, morta. Ficaram desespe rados. O príncipe mais moço exclamou: • Se eu pudesM chegar agora ao palácio salvaria a princesa! O segundo pi In cipe então disse: — Entrem nesta bota e estaremos lá agori mesmo!

Num instante, chegaram ao palácio. Correram para l quarto da princesa. O príncipe mais moço aproximou sen cravo mágico do nariz da morta. Imediatamente, a prinees; ressuscitou.

Surgiu então um problema difícil de ser resolvido. Quen deveria casar-se com a linda princesa? — Sou eu, dizia < príncipe mais velho. Se não fosse o meu espelho, vocês nfii saberiam que ela estava morta! — Sou eu, gritava o segundi príncipe. Sem a minha bota, vocês não chegariam a temp de salvar a princesa! — Sou eu, exclamava o príncipe mal moço. Se não fosse o meu cravo, ela não estaria vivai

A discussão prolongou-se por muito tempo. O rd flfij sabia o que fazer, pois achava que todos os três rapaze tinham razão. Afinal, a princesa que não queria ficar BOl teirona, decidiu a questão. Casou com o príncipe mais moa porque já estava apaixonada por êle. Os outros príncípl se casaram com as primas da princesa, também princesa’ E assim acabou a história em paz.

BIBLIOGRAFIA

O material deste livro pertence ao folclore brasileiro, e o Autor, para utilizá-lo, recorreu não só à tradição oral, como à consulta ou adaptação de trechos das seguintes obras:

Sílvio Romero – Contos Populares do Brasil. Lindolfo Gomes — Contos Populares.

Luís da Câmara Cascudo — Contos Tradicionais do Brasil. Figueiredo Pimentel — Contos da Carochinha. Monteiro Lobato — Histórias de Tia Anastácia. Osório Duque Estrada — Histórias Maravilhosas. Viriato Padilha — Histórias do Arco da Velha.


Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional