Maria Sabida – Charles Perrault



MARIA SABIDA

ErA um lavrador que tinha três filhas bonitas e boas, mas a mais novinha era ladina como ninguém. Chamavam-na Maria Sabida. O rei morava vizinho ao lavrador e achava graça nos modos de Maria Sabida, tanto que a desejou para si. Começou dizendo ditos para ver que respostas dava.

 Maria Sabida, entre aqui no meu palácio!

 Quando meu pai lá for…

0 rei ria a bom rir e ficava por aí. O lavrador foi às feiras e as três filhas ficaram. O rei apareceu lá pela noite dizendo vir passar o serão com cia. Maria Sabida foi buscar vinho e não voltou mais, indo dormir com a vizinha, O rei ficou furioso.

No outro dia as irmãs viram umas maçãs maduras no pomar do rei é pediram umas. Maria Sabida pulou o muro e foi buscá-las. Estava atirando as frutas por cima do muro quando o rei chegou:

 Maria Sabida furtando maçãs?

 Estou as vendo de perto e comendo de longe.

 Venha cá que temos que conversar!

Foi andando e Maria Sabida acompanhando até perto do palácio. Aí virou os passos e correu até o muro, voltando para casa. O rei subiu as escadas, direito, e quando procurou não viu mais a moça.

 Has de pagar-me, endiabrada! Mandou chamar o lavrador e comprou <l

carradas de milho. O lavrador juntou o milho seu paiol para entregar ao rei no dia aprazado. V então o rei e manda pegar o fogo ao paiol para lavrador não cumprir o trato. Maria Sabida sa sorrateira e largou fogo às casas do rei, abrindo um incêndio que durou a ser abafado. O rei disse ao lavrador:

 Quando entrega o milho?

 O milho queimou-se no incêndio!

 Pois, negócio é negócio e se não traz o milho traga sua cabeça.

Negócio é negócio, e fogo é fogo, tanto que o que perdi o foi pelo ter vindo da casa do rei…

O rei conhecendo o dedo de Maria Sabida, deu-se por convencido. Foi então pedir Maria Sabida em casamento e o lavrador a deu. Maria Sabida pediu três meses para o enxoval e mandou fazer uma boneca muito parecida com ela. Meteu lá dentro uma bexiga cheia de mel e fez esconder a bo-n neca no quarto da cama do rei. Casaram e, quando se foram deitar, Maria Sabida escondeu-se debaixo ! da cama, esperando o rei que entrou, puxou a espa- J da e foi dizendo:

 Maria Sabida lembra o que me fez?

A moça puxava um cordel e a boneca abaixava a cabeça.

 As respostas que me deu? A boneca fazia que sim.

 As maçãs que furtou?

 Os passos que me enganou?

 O fogo que me pegou?

 O dinheiro que me levou?

E como sempre a boneca dissesse que sim, o rei encolerizado, atravessou-a com a espada, mas umas gotas de mel caíram na sua boca e êle gritou, muito aflito:

 Ah! Maria Sabida, tão doce na morte, tão crua na vida!

E virou a ponta da espada para matar-se quando a moça saiu de baixo da cama e o abraçou. Viveram muito bem até o fim da vida.

Ë a Maria Sutil, Dona Vintes, Dona Esvin-tola, popularíssima em Portugal onde dom Francisco Manuel de Melo a citava: Eu cuido que vireis a ser aquela

…Dona atrevida, Doce na morte E agra na vida

que nos contam quando pequenos. Ë a Dona Pinta, o XII da coleção que Sílvio Romero coligiu no Brasil, versão de Sergipe. Silva Campos divulgou uma outra, do recôncavo baiano, O rei doente do mal de amores, LXIX do Contos e Fabulas Populares da Bahia no O Folk-Lore no Brasil, de Basílio de Magalhães, Rio de Janeiro, 1928. O prof. Aurelio M. registou quatro variantes, em Espanha, La mata de alba-haca, Toledo, Segóvia e Granada, e Las très hijas dei sastre Burgos, 1, 2, 3 e 4. Na terceira, de Granada, há o dito: Ay, Mariquilla, durce tienes la muerte y agria la vida. Na Dona Pinta: Ah! minha , si depois de morta estás tão doce, que faria quando eras viva! deu expressão literária a esse conto no Adroite Princesse ou Aventures de Finette.. (C. Cascudo)

 

 Fonte: Os melhores Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora.

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