Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO




JOAQUIM MANUEL DE MACEDO — (Itaboraí, 1820-1882) formou-se em Medicina, mas sempre fêz das letras seu principal objeto. Romancista popular, não se esmerava na forma e principalmente brilhou como pintor dos costumes nacionais. Foram suas mais notáveis produções neste gênero: A Moreninha, Rosa, Vicentina e O Moço Louro. No teatro apresentou peças, algumas das quais ainda com aplauso são levadas à cena; e entre outras nos ocorrem: Cobé, drama; o Fantasma Branco, ópera ou antes comédia ornada de canto, a Torre em Concurso, comédia, etc. A Nebulosa, poema-romance, é a mais importante composição poética de Macedo.

Este homem de letras, que o Sr. Inocêncio da Silva, com razão qualifica de espírito esclarecido, em mais de um lugar profligou o abuso da escravidão.

Exerceu o magistério no Colégio de Pedro II e para seus alunos escreveu tratados de Corografia e de História do Brasil muito criticados, mas geralmente copiados pelos que os censuram.

O Torrão Natal – trecho da obra de JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Um célebre poeta polaco, descrevendo em magníficos versos uma floresta (44) encantada do seu país, imaginou que as aves e os animais ali nascidos, se, por acaso, longe se achavam, quando sentiam aproximar-se a hora da sua morte, voavam ou corriam e vinham todos expirar à sombra das árvores do bosque imenso onde tinham nascido.

O amor da pátria não pode ser explicado por mais bela e delicada imagem.

Coração sem amor é um campo árido, quase (45) sempre, ou sempre, cheio de espinhos e sem uma única flor que nele se abra e o amenize.

Haveria somente um homem em quem palpitasse coração tão seco, tão enregelado e sem vida de sentimentos: o homem que não amasse o lugar de seu nascimento.

Depois dos pais, que recebem o nosso primeiro grito, o solo pátrio recebe os nossos primeiros passos; é um duplo receber, que é duplo dar.

As idéias grandes e generosas dilatam o horizonte da pátria; a religião, a língua, os costumes, as leis, o governo, as aspirações fazem de uma nação uma grande família, e de um país imenso a pátria de cada membro dessa família.

Mas, deixem-me dizer assim, a grande não pode fazer olvidar a pequena pátria; dessa árvore majestosa que se chama a nação, o país, não há quem não sinta que a raiz é a família e o berço pátrio.

Há nesse santo amor uma escala ascendente, que vai do lar doméstico à paróquia, da paróquia ao município, do município à província, da província ao império: ama-se o todo porque se ama cada uma de suas partes.

Com efeito, é impossível negar que em suas naturais e suavíssimas predileções o coração distingue sempre, entre todos os distritos, cidades e diversos pontos do país, o torrão (46) limitado do berço pátrio; pobre ou mesquinho, esquecido ou decadente, agreste ou devastado, é sempre amado por nós e sempre grato para nós.

É por isto e por muito mais, é porque foi meu berço, berço daqueles a quem mais amei e amo, é porque no seu solo tenho sepulturas queridas, é porque ine guarda em seus lares amigos dedicados, é porque desejo ter em seus campos um abrigo na minha velhice que começa (47), e no seu cemitério um leito para dormir o último sono, é, enfim, por todos esses laços da vida e da morte que a vila de Itaboraí me é tão querida.

(O Rio do Quarto, 2.a ed., p. 58).

(44) Floresta é vocábulo de etimologia popular. Se bem que oriundo de foreste (por forensis, exterior, e este, de foras), a analogia semântica com flor ou Flora fêz que no português e no se lhe introduzisse o — l — desses vocábulos, produzindo assim floresta: diferente do que se deu no ital. foresta, no franc. forêt e no ingl. forest. Não são escassos em nossa língua os casos de etimologia falsa, como este. (45) Quase, com — e — melhor escrita do termo latino quasi (are. quage e café). A língua não possuí anoxí-tonos com — i — final. Os poucos que tiveram entrada no léxico podem mudar em — e — o — / — terminativo e dispensar o acento a que ficariam sujeitos; assim: quase, quepe, jure (e não quási, quépi, júri); e as próprias vozes latinas ou gregas em — is — já vão sendo averbadas com a desinência vernácula: bile por bílis, sepse, raque, pelve, pube, licne, cute etc. (46) Torrão é forma alterada de terrão, pedaço de terra; como tostão é dissi-milação do are. teston, ital. testone, de testa, cabeça. (47) Começar — do lat. *cum initiare (raiz) de initium); are. començar. Cfr. o ital. cominciare e o esp. comenzar.

Poesias de JOAQUIM MANUEL DE MACEDO



A Harpa Quebrada


I


"Minha harpa, saudemos o instante da morte,
Que é lúcida aurora de eterna vitória;
O túmulo pra os vates é trono de glória,
E a vida é o jugo do inferno e da sorte.
O jugo quebremos, ao trono subamos;
É belo o triunfo, minh’harpa morramos!"
E, como pelo canto enternecida,
Da harpa dedilhada uma das cordas
Rebentando soou como um gemido.


II


"O vate é proscrito que vaga na terra,
Bem poucos lhe entendem o estranho falar;
Qual rocha batida das vagas do mar,
Suporta dos homens tormentos e guerra;
Dos vates a pátria no céu achar vamos,
Deixemos o exílio, minh’harpa morramos!"
E nova corda estala; outro gemido
Que sai dos seios da harpa, e é dado às brisas.


III


"A morte é o sono que à dor sucedeu,
Do qual se desperta no Éden do Senhor;
É d’alma um arroubo em ânsias de amor,
E o túmulo é a porta dos átrios do céu.
A morte é o sono, minh’harpa, durmamos;
O céu nos espera, minh’harpa, morramos!"
E outra corda rebenta, e sobre as ondas
Longo soa também outro gemido,
Que triste esvaecendo aos poucos morre.

IV

"Minh’harpa, não gemas, que o mundo é traidor,
Asila a perfídia do grêmio fatal.
Não vale as saudades de um peito leal,
Nem ternos suspiros de uma harpa de amor;
Não gemas, exulta, que ao céu subir vamos;
A vida é sinistra. Minh’harpa, morramos!"
Inda uma corda estala, e geme ainda,
Como profunda queixa, que exalada
Do lúgubre cantor responde ao hino.


V


"Esposa querida, minh’harpa, vem cá!
A hora enfim soa no nosso himeneu;
A pira é a lua, que fulge no céu;
O tálamo virgem nas ondas será;
A pira flameja! esposa, corramos!
Aos gozos! à glória! minh’harpa, morramos!
(A Nebulosa).

 

  • (612) tróicas = troianas, de Tróia.
  • (613) — grandevo =r idoso, de idade avançada (grande + aevum). Com aevum (= tempo, idade) formaram-se coevo, longevo, primevo.
  • (614) marejada = agitação do mar.
  • (615) aula = palácio, corte. V. a n. 153.


 

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

Livros

Fonte da lista dos livros: Wikipedia.

Romances
  • A Moreninha (1844)
  • O Moço Loiro (1845)
  • Os Dois Amores (1848)
  • Rosa (1849)
  • Vicentina (1853)
  • O Forasteiro (1855)
  • Os Romances da Semana (1861)
  • Rio do Quarto (1869)
  • A Luneta Mágica (1869)
  • As Vítimas-Algozes (1869)
  • As Mulheres de Mantilha (1870-1871)
Sátiras políticas
  • A Carteira do Meu Tio (1855)
  • Memórias do Sobrinho do Meu Tio (1867-1868)
Crônicas sobre a cidade do Rio de Janeiro
  • Memórias da Rua do Ouvidor
  • Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro
  • Labirinto

Teatro

Dramas
  • O Cego (1845)
  • Cobé (1849)
  • Lusbela (1863)
Comédias
  • O Fantasma Branco (1856)
  • O Primo da Califórnia (1858)
  • Luxo e Vaidade (1860)
  • A Torre em Concurso (1863)
  • Cincinato Quebra-Louças (1873)
  • Cigarro e seu Sucesso (1880)
Poesia
  • A Nebulosa (1857)
Biografias
  • Ano Biográfico Brasileiro (1876)
  • Mulheres Célebres (1878)

Medicina

  • Considerações sobre a Nostalgia (tese apresentada na faculdade de Medicina
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