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“REJEIÇÕES RELIGIOSAS DO MUNDO E SUAS DIREÇÕES” – Uma compreensão da Sociologia da Religião e do Racionalismo sob o ponto de vista Weberiano

 

Paula Ignacio

Resumo:            O texto propõe uma análise do pensamento Weberiano de uma Sociologia do Racionalismo, calcado na gênese da razão a partir da subjetividade humana, capazes de gerar éticas religiosas, e consequentemente pensamentos que desencadeiam em reações práticas pela necessidade de coerência da própria razão humana, gerando modos de vida a partir destas. A utilização da religiosidade indiana como exemplo da gênese do processo que leva à racionalização da fé que nega o mundo através do ascetismo foi uma das escolhas de Max Weber na demonstração de que não é possível analisar a História sem antes reaver os modos de pensar que geram fatos históricos.  Modos de pensamento e de vida das principais religiões do mundo foram analisados e podem ser observados pelas consequências econômicas destes. Tomando como base a religiosidade indiana, e passando ao monasticismo cristão é possível avaliar o início da racionalização da fé e do pensamento religioso e como se dão suas consequências éticas, históricas e econômicas para vários povos.

REJEIÇÕES RELIGIOSAS DO MUNDO E SUAS DIREÇÕES

            No texto “Rejeições Religiosas do Mundo e suas Direções”, provavelmente escrito entre o final do século XIX e início do século XX, e publicado pela primeira vez em 1920, Max Weber, considerado um dos fundadores da Sociologia, utiliza como exemplo uma análise da religiosidade indiana, afim de compreender melhor a gênese das éticas religiosas, principalmente daquelas que “negam o mundo”. A negação do mundo a qual ele se refere diz respeito a uma vida voltada principalmente para a religiosidade, uma vida dedicada a crença religiosa e que segue uma ética tão somente voltada para o eu espiritual, e não mais para o mundo externo.

            Segundo Weber, há “técnicas” correspondentes a essa negação, tais como a vida monástica, com suas manipulações ascéticas e contemplativas, e elas podem ser compreendidas como a racionalização da religiosidade e racionalização da negação do mundo. A Índia é um bom exemplo do desenvolvimento dessas “técnicas de ascetismo”, onde é muito provável que tenham iniciado e então se difundido pelo mundo.

           

            Diante dessa análise, podemos desenvolver e estudar melhor tanto o pensamento ético de um povo cuja cultura é quase totalmente voltada para a religiosidade, quanto observar e compreender as consequências dessa racionalização de negação do mundo através da análise histórica de diversos povos, como por exemplo, dos “literati”[1] na China e do monasticismo cristão. Weber propõe o pensamento do contraste entre os literati e sua ética religiosa contemplativa com a religiosidade indiana, que através do ascetismo cria a racionalização da sua fé, uma vez que o asceta têm suas ações voltadas para o sacrifício, afim de conseguir poderes mágicos capazes de evitar o sofrimento.

Grande parte dos religiosos do mundo podem ser caracterizados principalmente pela crença de que através da religião e ao seguir a ética proposta por ela, será capaz de eliminar da sua vida o sofrimento.

            Além do aspecto religioso, convém lembrar que Weber, em seu pensamento de grande influência marxista e materialista originado pela revolução industrial e como consequência de crises econômicas da modernidade, tende para a finalidade de compreender, através de aspectos da subjetividade humana e seu processo de racionalização, as consequências econômicas destes, desde as implicações de sentidos interiores que impulsionam os indivíduos e que são capazes de estabelecer conexões com o social, até a formação de grupos sociais como reflexos dessa subjetividade, que geram valores a serem seguidos, e posteriormente caracterizam a economia.

            A Índia hoje é pouco analisada e palco de misérias e grande desigualdade social. Esse cenário não surgiu de repente, ele é fruto do pensamento de um povo que, por aspectos subjetivos, optou por seguir uma ética que negava o mundo externo, negava o mundo material, voltando-se quase exclusivamente e vivendo religiosamente a ética de um mundo espiritual. Ética essa que negou radicalmente o espírito do capitalismo moderno.

            Porém, podemos nos perguntar primeiramente: Como se deu essa escolha subjetiva? Por quê o povo indiano optou pelo ascetismo, pela negação do mundo? Como se deu a racionalização da escolha subjetiva pela religiosidade, e como ela atua na esfera da realidade?

            Existem diferentes tipos de “ordens de vida”. São as chamadas esferas de valor, e por isso, necessariamente conflitam com valores que lhe sejam contrários. No caso dos indianos ascetas,

esses conflitos se dão internamente e subjetivamente, e em muitos casos, são até mesmo necessários e frutos de uma possível adaptação a realidade. Daí a necessidade de construir logicamente meios para essa adaptação.

            É possível avaliar e tentar perceber como as teorias criadas racionalmente se apresentam na realidade, ou como os fenômenos sociais podem corresponder a nossas construções subjetivas. Os fenômenos históricos podem ser comparados com as teorias que surgiram antes deles, e essas teorias são frutos do pensamento que está por trás de todo e qualquer fato histórico.

            Para os indianos, o ascetismo atua como a intermediação entre conflitos internos e necessidade de contrastá-los com a realidade. Essa intermediação surge da necessidade da coerência entre o que se pensa e faz, e isso sempre fez parte do pensamento racional e de toda ética religiosa.

            Por essas razões, o estudo Weberiano se valeu primeiramente dos meios de vida e reações práticas a essa ética religiosa, e à coerência das ações destes, que procuram se aproximar ao máximo das teorias e experiências internas, tão subjetivas. É dessa racionalização da fé indiana que ele tira a base para uma sociologia do racionalismo, a partir da pesquisa detalhada e do pensamento da sua sociologia da religião, que oferece uma base Histórica importante para essa compreensão. Segundo Weber, a História é um mecanismo da razão, pois por trás de todo e qualquer fato histórico está implícito um modo de pensar coletivo que fora gerado a princípio individualmente.

            Modos de pensar individuais, que depois de racionalizados se ligam a ações coletivas e sociais, gerando fatos históricos. Portanto, a subjetividade humana contém um processo de racionalização importante e que explica a gênese da História (em especial da História Econômica) e da construção teórica a partir desta. “É um ensaio que parte das formas mais racionais que a realidade pode assumir.”[2]

            Assim, caracterizada por uma espécie de “proteção íntima contra o sofrimento”, alguns aspectos da religiosidade exacerbada contrastam e ao mesmo tempo têm uma relação direta com interesses materiais de grupos sociais. Weber, de maneira geral, procura esclarecer de que maneira implicações de orientações religiosas podem e de fato afetam a conduta econômica dos homens.

            A religião, além da fé e seu aspecto individual, também comporta características de fenômenos sociais, como a adesão daquele que tem fé a determinados grupos. No texto são tratadas diferenças e muitas aproximações e até mesmo as consequências do pensamento religioso de negação do mundo, que resultaram em características específicas das esferas econômicas, políticas, estéticas, intelectuais e até mesmo eróticas, partindo do estudo sociológico das religiões.

            Torna-se possível, assim, compreender como as diferenças de comportamento estimuladas principalmente pelo ascetismo e pelo misticismo contém conjuntos de valores e se transformam em sentidos da ação social.

            No caso da Índia, a religiosidade inibiu o crescimento da economia capitalista, enquanto nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, a religiosidade e o crescimento da ética protestante estimularam o crescimento dessa economia. Esses são exemplos de fatos históricos e de como é possível pensar esferas econômicas a partir do pensamento religioso. Além disso, podemos refletir sobre as consequências da racionalização partida da religiosidade na estrutura de algumas sociedades, bem como de alguns fatos históricos. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os nazistas se valeram do “carisma” como forma de manter o poder, tal como acontece no hinduísmo, se analisarmos os Brâmanes. Estes, considerados os mais “evoluídos” e participantes de uma casta superior, através do sacrifício e do ascetismo podem “tomar posse” de uma espécie de “carisma mágico”, e a partir dele divulgar formas de sistematização da vida para outras pessoas, que só aceitam suas ideias por desejarem o fim do sofrimento individual.

            Além disso, durante a Segunda Guerra, houve a tentativa de preservação da “raça ariana”, considerada descendente dos indo-europeus, invasores da Índia e instituidores do sistema de castas, que subjugava as populações locais. Esse pensamento foi usado como discurso para que os alemães sentissem que poderiam resgatar uma parte da própria história e que eram capazes de se manterem no poder.

            Assim, a leitura de Weber nos oferece a oportunidade de avaliar os processos de racionalização a partir da ética religiosa, bem como dos conjuntos sociais que se formam através dela. Esse estudo é fundamental para compreender de que maneira, para ele, podemos pensar a história econômica, através da construção do pensamento racional, ponto de partida para a sua Sociologia da Religião e Sociologia do Racionalismo.



[1]    Literati é um termo utilizado para designar os homens de confiança dos imperadores chineses, que durante os séculos IV a VI  fugiram das cortes imperiais, afim de manterem distância dos assuntos mundanos, pois a época foi uma das mais corruptas do Império Chinês. Assim, esses homens faziam longos retiros nas montanhas e optavam por uma vida contemplativa. Socialmente, o círculo era restrito a poucos eruditos, tais como poetas, artistas, calígrafos.

[2]    WEBER, Max. Rejeições Religiosas do Mundo e Suas Direções. In: Ensaios de Sociologia, 5a.ed, Ed. Guanabara, Rio de Janeiro, 1982.  pg. 372.

mar 062011
 
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EDWARD   McNALL   BURNS
PROFESSOR DE  HISTÓRIA  DA  RUTGERS  UNIVERSITY
HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL
Volume II
Tradução de LOURIVAL GOMES MACHADO, LOURDES SANTOS MACHADO e LEONEL VALLANDRO

Capítulo 24

A ascendência da democracia e do nacionalismo

(1830-1914)

Após as revoluções de 1830, muitas nações do mundo ocidental experimentaram um renascimento da democracia.    Na Europa, a Grã-Bretanha tomou a dianteira, mas a França, a Alemanha, a Suíça, a Holanda,  a  Bélgica e a  Itália não  lhe  ficavam muito atrás.  Por último, até a Espanha, a Turquia      e os reinos balcânicos adotaram pelo menos certas formas de governo democrático. O que interessava à maioria desses países era a democracia governamental e política, tipificada pelos parlamentos, pelo sufrágio universal masculino e pelo governo de gabinete. Somente ao aproximar-se o fim do período foi que se começou a pensar a sério na democracia social ou econômica. Havia o temor natural de que ela constituísse uma grave ameaça para a posição da aristocracia hereditária ou obrigasse os tubarões da indústria a devolver uma parte das suas riquezas em proveito dos desfavorecidos.

Para compreender o verdadeiro sentido da democracia é preciso considerar-lhe as origens históricas. Como ideal político, ela se enraíza na  filosofia de  Rousseau.    Foi,  acima  de tudo, a doutrina rousseauniana da soberania absoluta  da  maioria,   combinada   com  a   deificaçao   do   homem  comum  por  ele  e  por  outros   românticos, que nos deu o ideal expresso pelo anexim: "a voz do povo é a voz de Deus".    É isto, principalmente, o que a democracia política tem significado: que cabe à maioria do povo o direito de falar pela nação inteira e que, na formação dessa maioria, todos os cidadãos devem ter igualdade de voto. A maquinaria do estado democrático inclui, portanto, o sufrágio universal, eleições frequentes, o devido controle popular sobre os funcionários do governo e outras coisas semelhantes. Para que essa maquinaria funcione com eficiência, os cidadãos devem ter o direito de organizar partidos políticos e de escolher cada um livremente o seu partido. A liberdade de palavra e a liberdade da imprensa também são consideradas elementos essenciais do ideal democrático. Mas a nenhum desses direitos se confere um caráter absoluto e nenhum deles é colocado fora do controle da maioria. É verdade que se fossem completamente aniquilados a democracia cessaria de existir; mas a maioria pode indubitavelmente restringi-los em caso de perigo evidente e imediato para a segurança pública. Destarte, tem sido prática habitual dos governos democráticos proibir os discursos que advoguem em público a revolução pela violência e fechar os jornais que defendam doutrinas tidas como particularmente perigosas. Hoje em dia, muitas pessoas eminentes que se consideram bons democratas exigem que se negue a liberdade de expressão pública aos fascistas e comunistas. Na realidade, a democracia nao requer outra coisa senão que sejam toleradas todas as ideias não acompanhadas pela ameaça de violência e que as minorias pacíficas não sejam obstadas nos seus esforços para converter-se em maioria. O ideal político que afirma o direito absoluto do cidadão a falar, escrever e viver como bem lhe aprouver, enquanto isso não for lesivo aos seus vizinhos, não é a democracia mas o individualismo.

O progresso da democracia entre 1830 e 1914 foi acompanhado por um vigoroso desenvolvimento do nacionalismo e dos seus derivados, o imperialismo e a luta pelo poder entre as nações.    O   nacionalismo   pode   ser   definido  como um programa ou ideal baseado na consciência de nacionalidade. Essa consciência ou sentimento de nacionalidade depende de vários fatores. Um povo pode considerar-se uma nação devido a particularidades de raça, língua, religião ou cultura. Na maioria dos casos, porém, os fatôres da unificação dos diversos grupos são uma história comum e aspirações comuns quanto ao futuro, ou a crença num destino comum. Só elementos dessa sorte podem justificar a existência da Bélgica, da Suíça e dos Estados Unidos como nações, já que em todos os três existem importantes diferenças de língua, de religião ou de ambas — para não falar das diferenças de fundo étnico. Embora o nacionalismo tenha sido a certos respeitos uma força benéfica, em especial nos primeiros tempos, quando não raro assumia a forma de lutas pela liber-dade, de um modo geral ele foi e continua sendo uma influência perniciosa, particularmente quando se expressa sob as formas do chauvinismo, do militarismo e das ambições de conquistar e dominar.

O nacionalismo foi, incontestavelmente, uma das forças mais poderosas que moldaram a história do mundo ocidental entre 1830 e 1914. De sentimento vago que era nos primeiros séculos da era moderna, acabou por se converter num verdadeiro culto. Para milhões de iludidos ele se tornou mais forte do que a religião, sobrepujando o cristianismo no seu apelo aos sentimentos e ao espírito de sacrifício por uma causa sagrada. Morria-se pela honra da bandeira com a mesma alegria com que os mártires haviam dado a vida pela glória da Cruz. Embora coexistindo amiúde com a democracia e o liberalismo, o nacionalismo militante era mais poderoso que qualquer dos dois e muitas vezes contrariava ou sufocava a ambos. Fomentado pelo ideal de fraternidade da Revolução Francesa, o nacionalismo evoluiu através de duas fases. De 1800 a cerca de 1848, pouco mais foi do que uma lealdade sentimental a um grupo cultural e linguístico e um anelo de libertar-se da opressão estrangeira. Depois de 1848 converteu-se num movimento ativo. em prol da grandeza nacional e do direito de cada povo unido por laços culturais e étnicos a decidir dos seus próprios destinos. Suas manifestações mais extremas tomaram a forma de um culto exaltado do poder político e de uma devoção servil a doutrinas de superioridade racial e a falsos conceitos de honra nacional. Sob tais formas, era virtualmente sinônimo do chauvinismo, essa espécie de patriotismo vanglorioso que se expressa pela  sentença:  "Minha pátria,  com  razão  ou  sem  ela."

1.   A   EVOLUÇÃO   DA   DEMOCRACIA   NA   GRÃ-BRETANHA

A   evolução   da   democracia   na   Grã-Bretanha   compreende   três aspectos  fundamentais:  a extensão  do  sufrágio,  o  desenvolvimento do  sistema  de  governo  de  gabinete   e  a  ascensão gradual   da   Camara   dos   Comuns   à   supremacia.      

Antes de 1832, o sistema de votação e representação na Inglaterra era extremamente pouco democrático. Somente em pouquíssimos burgos   (círculos eleitorais) podia a maioria dos cidadãos exercer o direito do voto.    Nas zonas rurais esse privilégio se limitava a um punhado de proprietários mais ricos.    De um total de cerca de 650 membros da  Câmara dos  Comuns, apenas um terço  podia-se  dizer eleito na verdadeira  acepção   da  palavra.    Os   restantes  eram   indicados  por magnatas locais ou escolhidos por grupelhos de grandes proprietários ou por membros de corporações  favorecidas.    Em alguns casos os mandatos eram abertamente vendidos ou alugados por um certo número de anos.    O pior era que a distribuição  das deputações  fora desequilibrada pela migração  para  os  centros  industriais   do  norte. Enquanto muitas das novas cidades, como Birmingham e Manchester, com mais de 100.000 habitantes cada uma, não tinham absolutamente nenhuma representação, aldeias quase despovoadas do sul continuavam a enviar nada menos de dois ou três deputados à Câmara dos Comuns. Uma dessas aldeias, Old Sarum, era uma colina deserta; outra, Dunwich, desaparecera sob as águas do mar; mesmo assim, tanto uma como a outra eram ainda representadas no Parlamento, graças à notável capacidade inglesa de alimentar uma ficção muito tempo depois de terem desaparecido os fatos que a justificam.

A despeito da enfatuada assertiva do duque de Wellington, de que o   sistema  político   acima  descrito  era   "perfeitamente   satisfatório", havia grande agitação contra ele.    Não só o povo comum mas também a classe média estavam profundamente desgostosos com um regime em que o   poder   era,  por  assim   dizer,  um  monopólio   da aristocracia agrária. Entusiasmados com o sucesso da Revolução de julho de 1830 na França, os whigs ingleses, sob a chefia de Lord John Russell e do conde Grey, iniciaram um movimento em prol da reforma eleitoral. Foram muito auxiliados em seus esforços por um grupo de radicais sob a liderança de Francis Place, um alfaiate autodidata que fizera fortuna graças à sua astúcia, consagrando-se depois às causas progressistas. Como o Duque de Wellington, primeiro ministro na ocasião, não quisesse ceder na questão da reforma, Place induziu os seus partidários a suspender o pagamento de impostos e a retirar todo o dinheiro que tinham depositado nos bancos. Espalhou cartazes por todo o país, com a legenda: "Para acabar com o Duque, neguemos-lhe o nosso Ouro." Quando a corrida ao Banco da Inglaterra ameaçou tornar-se séria, Wellington renunciou. O Conde Grey formou então um novo gabinete e o  famoso  Projeto  de Reforma de 1832  converteu-se  em  lei.    Embora  tivesse  um   caráter  excessivamente  moderado  para  as  pretensões  de  muitos   radicais,   constituía ainda   assim   um   avanço   notável.    Conferia   o   direito   de   voto   à maioria dos homens adultos da classe média e a quase todos os pequenos proprietários e rendeiros rurais; continuavam, porém, excluídas   do   sufrágio   as   imensas   legiões   de   trabalhadores   agrícolas   e industriais.    A proporção  dos eleitores  subiu de cerca de um para cem  habitantes   a  um  para  32.    Além   disso,  o  projeto   introduzia algumas   reformas   profundas   na   representação.    As   aldeias   com menos de 2.000 habitantes perderam o direito de eleger deputados à Câmara dos Comuns, enquanto as cidades um pouco maiores tiveram a sua representação reduzida à metade. As cadeiras que assim ficaram livres nos Comuns foram distribuídas entre as grandes cidades industriais do norte.

O "Reform Act" de 1832 estabeleceu definitivamente a supremacia da classe média.   Nas eleições que logo se seguiram, os whigs, que começavam então a chamar-se "liberais", obtiveram maioria na Câmara dos Comuns.    Os tories, daí por diante mais conhecidos como conservadores", também começaram a cortejar a classe capitalista. Resultou daí uma onda de atos parlamentares nitidamente favoráveis aos interesses burgueses. Um deles concedia mais amplas franquias nas eleições locais, capacitando a classe média a assumir o governo dos burgos. Um segundo destinava verbas à manutenção de escolas por sociedades privadas, a fim de dar educação aos filhos dos pobres. Um outro, a célebre Poor Law (Lei da Pobreza) de 1834, abolia a assistência pública salvo para’ os doentes e velhos, e dispunha que todos os pobres fisicamente capazes fossem obrigados a ganhar o seu sustento nos asilos (workhouses) a que eram recolhidos. Esta lei se baseava na teoria de que o próprio indivíduo é culpado da sua pobreza e, consequentemente, os pobres devem ser forçados a trabalhar como punição da sua indolência. O coroamento de todo esse período de legislação burguesa foi a revogação, em 1846, das Leis dos Cereais. Eram estas uma forma de tarifas protetoras que beneficiavam os proprietários de terras. Tais como foram revisadas em 1822, estabeleciam que nenhum grão estrangeiro podia ser importado, a menos que o preço do trigo inglês se elevasse a 70 ou mais xelins por quarter (290 litros). Se o preço ultrapassasse este nível, permitia-se a entrada do trigo estrangeiro, mas sob pesada tarifa. O resultado era acarretar pingues lucros aos proprietários rurais ingleses e manter o preço do pão num nível excessivamente elevado. Havia mais de vinte anos que os capitalistas industriais reclamavam a abolição dessas tarifas, baseando-se em dois argumentos : elas os obrigavam a pagar salários mais altos e limitavam a venda de produtos manufaturados ingleses no exterior. Só em 1846, porém, foi que lograram o seu intento. A revogação das Leis de Cereais encaminhou a Inglaterra para uma política de livre-câmbio que continuou em vigor até depois da Primeira Guerra Mundial.

Nenhuma dessas conquistas, que  concorriam para  firmar a  supremacia da classe média, trouxe grandes benefícios imediatos  ao proletariado. As jornadas de trabalho, nas fábricas, eram ainda despropositadamente longas e, a despeito da rápida   expansão   da  indústria,  a  prosperidade crescente continuava a ser interrompida por períodos de crise.   Além disso, o Parlamento era surdo a todos os reclamos das classes inferiores por uma participação nas franquias eleitorais. O grande estadista liberal, Lord John Russell, declarou positivamente que as reformas concedidas em 1832 eram as últimas. Em face de tal resistência, muitos trabalhadores urbanos chegaram à conclusão de que a única esperança de melhoria era lutar pela completa democratização do governo britânico. Alistaram-se, pois, com grande entusiasmo sob a bandeira do cartismo, um movimento organizado em 1838 e a cuja frente se achavam Feargus O’Connor e William Lovett. O cartismo derivava o seu nome da célebre Carta do Povo, um programa constante de seis pontos: 1) o sufrágio universal masculino; 2) igualdade de direitos eleitorais; 3) o voto secreto; 4) legislaturas anuais; 5) abolição do censo eleitoral (requisitos de propriedade) para os membros da Câmara dos Comuns; e 6) remuneração das funções parlamentares. Conquanto alguns cartistas preconizassem o uso da violência, a maioria limitou as suas atividades a demonstrações em massa e ao encaminhamento de petições ao Parlamento. Em 1848, sob o estímulo da Revolução de Fevereiro da França, os líderes prepararam-se para um esforço gigantesco. Uma procissão de 500.000 operários devia dirigir-se às câmaras do Parlamento a fim de apresentar uma petição-monstro e forçar os parlamentares, pelo medo, a conceder reformas. As classes governantes foram tomadas de pânico. O velho e pugnaz Duque de Wellington foi novamente chamado a comandar as tropas. Além das tropas regulares, foi-lhe dada uma força especial de 170.000 agentes da força pública — um dos quais era o dúbio sobrinho de Napoleão, que dentro em breve se tornaria imperador da França. Mas no dia marcado para a demonstração (10 de abril de 1848) chovia a cântaros. Em lugar do meio milhão de operários que deviam marchar na parada compareceu apenas a décima parte desse número. Quando a petição foi apresentada ao Parlamento, verificou-se que continha menos de metade dos propalados seis milhões de assinaturas, inclusive alguns evidentemente fictícios, como "Wellington", "a Rainha" e "o Primeiro Ministro".

Embora o cartismo houvesse fracassado, o espírito representado por ele continuou a viver; e é significativo que todos os seis pontos, com a  única  excecão  da  exigência  de legislaturas anuais,   tenham   sido   posteriormente   incorporados à constituição britânica. Nos anos que se seguiram ao fiasco de 1848 as forças da democracia revigoraram-se pouco a pouco e, sob a orientação de chefes mais práticos, realizaram consideráveis progressos. Em 1858 obteve-se do governo conservador de Lord Derby a abolição do censo eleitoral para os candidatos à Câmara dos Comuns. Em 1866, o movimento democrático ganhara tal impulso que os líderes de ambos os partidos porfiavam em solicitar o seu apoio. Resultou daí o Reform Act de 1867, que o conservador Disraeli  fez passar no Parlamento  depois que os  liberais da velha geração haviam recusado, no ano anterior, acompanhar Gladstone na promulgação de um projeto mais moderado. Essa reforma conferia o direito de votar a todos os homens moradores das cidades que tivessem residência própria, sem levar em consideração o valor desta, e também a todos os que pagassem um aluguel não inferior a dez libras anuais. Uma vez que só os mais pobres trabalhadores industriais não eram capazes de preencher tais condições, a massa do proletariado ficava automaticamente capacitada a votar. Em 1884 os liberais, por sua vez, ampliaram ainda mais o direito do voto. O Reform Act desse ano, o terceiro na grande série de reformas eleitorais, foi patrocinado por Gladstone. Seu principal dispositivo consistia em estender ao campo as vantagens até então gozadas pelos habitantes das cidades, conferindo destarte o direito de voto à quase totalidade dos trabalhadores agrícolas.

A democratização do sistema eleitoral britânico só se completou em 1918. É verdade que durante o século XIX se havia concedido o sufrágio às três classes principais de cidadãos: à classe média pela Lei de 1832, aos trabalhadores A Lei de industriais pela Lei de 1867 e aos trabalhadores rurais pela Lei de 1884. No entanto, a Grã-Bretanha ainda não tinha o sufrágio universal masculino. Após deflagrar a Primeira Guerra Mundial, ainda havia cerca de dois milhões de homens adultos que, por uma razão ou outra, estavam impossibilitados de votar. Alguns eram trabalhadores sem domicílio fixo; outros eram demasiadamente pobres para preencher sequer os requisitos mínimos estabelecidos pelos segundo e terceiro Reform Acts. Por outro lado, havia cerca de 500.000 homens ricos que ainda conservavam o privilégio do voto plural. Em 1918 foi feita por fim uma séria tentativa para remediar o mais flagrante desses males. Pela lei chamada "de Representação Popular" aboliram-se virtualmente todos os antigos requisitos de propriedade para votar. Daí por diante os cidadãos britânicos depositariam o seu sufrágio nas urnas, não como proprietários ou ocupantes de prédios de tal ou tal valor, mas simplesmente como cidadãos. A única exceção a essa regra era o privilégio de um segundo voto concedido aos graduados universitários e a qualquer pessoa que ocupasse um prédio, para fins de negócio, em outro distrito que não o de sua residência. Deve-se salientar, finalmente, que a Lei de 1918 concedia o direito de voto a todas as mulheres de mais de 30 anos que possuíssem propriedades ou fossem esposas de proprietários. Somente uma década depois a idade limite foi reduzida a 21 anos, a mesma que para os homens. Mesmo, porém, antes da adoção do chamado "flapper vote" (voto das moças), quase 40% do total dos habitantes da Grã-Bretanha estavam habilitados a votar nas eleições nacionais, em confronto com os 3% aproximados de  1831.

O  segundo  fator principal  da evolução  da democracia na Grã-Bretanha foi o desenvolvimento do sistema de governo de gabinete. Sem esse fato, a Inglaterra poderia muito bem ter continuado a ser simplesmente uma  monarquia limitada.   É preciso entender que o gabinete não é um mero conselho de ministros, mas o órgão soberano do governo. É uma comissão do Parlamento, responsável perante a Câmara dos Comuns, que exerce a suprema autoridade legislativa e executiva em nome do rei. Não só resolve todas as questões de política geral, mas é dele que se origina quase toda a legislação; e, enquanto permanece no poder, determina quais os projetos de lei que devem ser aprovados. Se for derrotado na Câmara dos Comuns em alguma questão fundamental, terá de renunciar imediatamente ou de "apelar para o povo" — isto é, dissolver o Parlamento e convocar uma nova eleição para consultar a opinião dos eleitores. Em outras palavras, o gabinete tem a inteira responsabilidade da direção dos negócios públicos, submetendo-se unicamente à vontade do povo e dos seus representantes na Câmara dos Comuns. Quando os ingleses falam no "governo de Sua Majestade", o que têm em mente é o gabinete. Quando o partido que se acha no poder perde uma eleição e, com ela, o controle sobre a Câmara dos Comuns, o líder do partido da oposição forma imediatamente um novo gabinete. Enquanto aguarda a sua vez de tornar-se primeiro ministro, percebe honorários como chefe da Leal Oposição de Sua Majestade.

Como quase todos sabem, o sistema de gabinete resultou de uma lenta evolução de precedentes.    Não se origina de nenhum estatuto ou carta  fundamental e até hoje baseia-se  únicamente no costume.    Sua história não remonta além da Revolução Gloriosa.   Houve, é verdade, um chamado gabinete no reinado de Carlos II, mas não passava de um corpo de conselheiros. Só depois de suplantada a supremacia do rei pela do Parlamento foi que se estabeleceu o princípio de que os principais ministros de coroa deviam ser responsáveis perante o poder legislativo. Quando Guilherme e Maria subiram ao trono em 1689, acederam à exigência de que os conselheiros escolhidos por eles fossem do agrado da legislatura. Durante algum tempo escolheram os seus ministros em ambos os partidos maiores, mas como se tornasse mais premente a necessidade de manter relações harmoniosas com o Parlamento, restringiram gradualmente a sua escolha ao partido que estivesse em maioria. Desse modo foi estabelecido o precedente de que todos os principais ministros deviam merecer a confiança do grupo dominante no Parlamento. O gabinete, porém, não era ainda um órgão poderoso. Só se tornou tal no reinado de  Jorge   I   (1714-27).    Era  Jorge  um botuso príncipe  do   estado alemão de Hanôver, o qual, como não falasse nem entendesse a língua inglesa, resolveu confiar aos seus ministres todo o trabalho do governo. Jamais compareceu às reuniões do gabinete e permitiu que esse órgão passasse para a direção de Sir Robert Walpole. Embora sempre tivesse recusado o título, Walpole foi na verdade o primeiro chefe de gabinete no sentido moderno. Foi o primeiro a exercer a dupla função de primeiro ministro e de líder do partido majoritário na Câmara dos Comuns. Instalou o seu quartel-general no n.° 10 da Downing Street, que até hoje continua a ser a residência oficial dos primeiros ministros britânicos. Ao sofrer, em 1742, uma derrota na Câmara dos Comuns, resignou o cargo imediatamente, não obstante ainda merecer a inteira confiança do rei.

Tal foi a evolução inicial do sistema de gabinete. Conquanto a maioria dos precedentes em que se baseia já tivesse sido estabelecida nos meados do século XVIII, ainda tinha um caminho espinhoso a percorrer. Alguns membros do Parlamento antipatizavam com o sistema, que parecia implicar numa cessão parcial da supremacia parlamentar. Durante o turbulento reinado de Jorge III houve uma tentativa para acabar com o governo de gabinete e voltar aos tempos em que os ministros eram responsáveis perante o rei. Ainda que geralmente bem intencionado, Jorge não era muito inteligente e não compreendia que a era da soberania real havia passado. Tampouco, aliás, compreendiam muitos de seus súditos a implantação de um sistema em que o monarca nada mais fazia do que reinar, enquanto os seus ministros governavam o país como chefes do partido que detinha a maioria das cadeiras na Câmara dos Comuns. Só pelos meados do século XIX foi o sistema de gabinete universalmente aceito ou compreendido plenamente como parte integrante da constituição britânica. O seu funcionamento foi pela primeira vez descrito em termos claros por Walter Bagehot no seu livro English Constitution, publicado em 1867. Em época mais recente acrescentou-se certo número de novos precedentes, sendo o principal deles o que estabelece que, no caso de ser o gabinete derrotado na Câmara dos Comuns, o primeiro ministro e os seus colegas têm a opção entre renunciar imediatamente e apelar para o país num grande referendum nacional.

Não foi menos importante na evolução da democracia política na Grã-Bretanha a transformação da Câmara dos Comuns no ramo mais poderoso do Parlamento. Até o século XVIII a Câmara dos Pares, composta de nobres hereditários e dos príncipes da igreja, gozou de uma dignidade e influência muito maior. O primeiro passo no sentido de estabelecer a supremacia da câmara representativa foi dado no governo de Walpole, ao adotar-se o princípio de que o gabinete seria  responsável exclusivamente perante os  Comuns.    No  começo do século XIX firmou-se o precedente de dar à câmara baixa a palavra final em assuntos financeiros.    Os Pares, no entanto, dispunham ainda de enorme poder.    Possuíam o direito do veto à legislação em geral e os únicos freios que os impediam de usar e abusar dele eram o temor ao ressentimento  público  e a  autoridade  do  primeiro ministro,  que  podia  ameaçá-los,  numa  emergência, com a criação de  novos  pares.    Além  disso, como a câmara alta formava invariavelmente um baluarte dos tories, os planos favoritos dos gabinetes liberais eram não raro frustrados. A situação alcançou um ponto crítico ém 1909, quando os Pares rejeitaram o orçamento preparado por David Lloyd George, chanceler do Tesouro (isto é, ministro das finanças) e secundado pelo gabinete Asquith. O primeiro ministro dissolveu o Parlamento e apelou para o eleitorado. Embora o seu partido não tivesse obtido senão uma modesta vitória, convenceu-se de que a nação estava a seu favor e começou a preparar um projeto de lei para cortar as asas à Câmara dos Pares. Essa lei, conhecida como o Parliament Act de 1911, foi finalmente aprovada mercê da ameaça de inundar a câmara alta com uma maioria de pares liberais. O Parliament Act estabelecia que os projetos de leis financeiras entrassem em vigor um mês depois de passar na Câmara dos Comuns, quer fossem aprovados pelos Pares, quer não; quanto à demais legislação, a câmara alta tinha somente um veto suspensivo: os projetos ordinários que fossem aprovados pelos Comuns em três sessões consecutivas tornavam-se leis ao cabo de dois anos, a despeito da oposição do outro ramo do legislativo. Pode-se, pois, afirmar com segurança que a câmara eleita pelo povo tornou-se a partir de então, para todos os fins práticos, o verdadeiro órgão legislativo da Grã-Bretanha.

2. DEMOCRACIA   E   NACIONALISMO   NA   FRANÇA

 

Após a tentativa  frustrada  de  instalar,  no  segundo período  da grande Revolução, um regime de igualdade, a França até 1875 fez poucos progressos no sentido da implantação de um governo   democrático. É  certo  que  o  reinado  de Luís Filipe, inaugurado após a Revolução de julho de 1830, foi muito mais liberal que o de seu predecessor, Carlos X, mas ainda estava longe de re-presentar o governo das massas. Luís Filipe guiava-se pela burguesia e ignorava sistematicamente o proletariado.  O censo  eleitoral  foi na verdade  reduzido,  mas  ainda assim somente 200.000 franceses tinham o direito de votar. Quando os líderes das massas apelaram para o primeiro ministro Guizot a fim de que o voto fosse liberalizado, ele respondeu cinicamente: "fiquem ricos". Pelas alturas de 1848, o rei e os seus ministros haviam provocado a aversão de tantos cidadãos franceses que estes estavam prontos a enfrentar os riscos de uma nova revolução para derrubar a monarquia.

A revolução francesa de 1848 é conhecida como Revolução de Fevereiro. Suas causas foram múltiplas. Uma delas era a exigência de um governo mais democrático, por parte da imensa maioria do povo. Outra era o sentimento de revolta causado pela corrupção de Luís Filipe e dos seus íntimos; convictos, como Luís XV em tempos idos, de que o dilúvio não tardaria a vir, tratavam de enriquecer o mais depressa possível à custa do povo. Uma terceira causa foi o descontentamento dos católicos com a atitude visivelmente anticlerical do "rei-cidadão", que nomeara primeiro ministro o protestante Guizot e permitira que este mostrasse parcialidade contra as escolas católicas. Outra causa ainda foi a disseminação do socialismo no seio do proletariado industrial. Durante os meses de privações da crise que se iniciou em 1847, muitos trabalhadores tinham-se convertido ao socialismo de Louis Blanc, com o seu projeto de instalação de oficinas nacionais para dar emprego e prosperidade a todos. Mas a Revolução de Fevereiro foi também um fruto do nacionalismo, fator que estava destinado a suplantar todos os demais. Como "rei da burguesia", Luís Filipe colocava os negócios em primeiro plano. Os seus principais defensores capitalistas estavam decididos a não permitir que a França se envolvesse em qualquer guerra capaz de ameaçar-lhes o comércio ou os investimentos. Recusaram, por isso, ceder aos clamores dos que exigiam uma intervenção em favor dos poloneses contra a Rússia ou dos italianos contra a Áustria. Isto enfureceu os patriotas franceses que sonhavam com a glória nacional e com a restauração da França na posição de líder entre as potências européias.

Por volta de  1847 o governo  de Luís Filipe havia alienado as simpatias da quase totalidade dos  seus  súditos, salvo uma pequena minoria de ricos.    A oposição mais decidida, porém, vinha dos socialistas e dos patriotas, tanto republicanos como monarquistas. Em 1847 esses grupos organizaram uma campanha de demonstrações-monstros e de banquetes políticos, destinada a inculcar no espírito do rei a necessidade de reforma. Como o governo se alarmasse e proibisse uma demonstração programada para o dia 22 de fevereiro de 1848, levantaram-se barricadas nas ruas e dois dias depois Luís Filipe era obrigado a abdicar. Um governo provisório, composto de  republicanos   e   socialistas,   assumiu  o  controle   do  estado   e  em abril realizaram-se eleições para uma Assembléia Constituinte. Os resultados do sufrágio decepcionaram os socialistas, pois que os reacionários e os partidos da classe média tinham-se coligado para proteger os interesses da propriedade privada. Furiosos e desiludidos, os radicais de Paris tornaram a insurgir-se. Durante três terríveis dias, em junho, travaram-se lutas sangrentas nos bairros pobres da capital. Finalmente foi esmagada a insurreição, os seus chefes fuzilados e 4.000 rebeldes deportados para as colônias. A maioria burguesa da Assembléia Constituinte pôde então redigir, sem mais contratempos, um projeto de constituição para a Segunda República. O documento, em sua forma definitiva, era parcialmente copiado da constituição norte-americana. Continha uma declaração de direitos, adotava o sufrágio universal masculino e a separação dos poderes. À testa do executivo achava-se um presidente eleito pelo povo para um período de quatro anos; o povo devia eleger também uma Assembleia Legislativa formada por uma só câmara. Finda a sua tarefa, os autores da constituição marcaram a data de 10 de dezembro de 1848 para a primeira eleição presidencial.

Quatro candidatos concorreram a essa eleição: um republicano moderado, um socialista, um católico e um homem que tinha uma promessa para todos — Luís Napoleão Bonaparte. Mais de sete milhões de votos foram depositados nas urnas; deste total, o republicano moderado recebeu cerca de 1.500.000, o socialista 370.000, o católico 17.000, e os restantes — quase 5.500.000 — foram dados a Luís Napoleão. Quem era esse homem que gozava de tão pasmosa popularidade, chegando a conquistar quase três vezes mais votos que todos os outros candidatos reunidos? Luís Napoleão Bonaparte (1808-73) era sobrinho de Napoleão e filho de Luís Bonaparte, que durante alguns anos fora rei da Holanda. Após a queda do tio, Luís Napoleão marchou para o exílio, vivendo principalmente na Alemanha e na Suíça. Regressou à França depois da Revolução de Julho de 1830 e foi preso ao cabo de alguns anos por haver tentado provocar uma insurreição em Bolonha. Em 1846, porém, fugiu para a Inglaterra, onde foi generosamente suprido de dinheiro pelos reacionários tanto ingleses como franceses. No verão de 1848, a situação na França era tal que ele compreendeu que podia voltar sem perigo. Efetivamente, foi recebido de braços abertos por homens de todas as classes. Os conservadores buscavam um salvador que lhes protegesse as propriedades contra os ataques dos radicais. Os proletários tinham-se deixado seduzir pelo ouropel dos planos de prosperidade expostos no seu livro A extinção do pauperismo e pelo fato de ele ter-se correspondido com Louis Blanc e com Proudhon, o anarquista. Entre essas duas classes havia uma grande multidão de patriotas e entusiastas, para quem o simples nome   de   Napoleão   era   um   símbolo  incomparável   de  glória  e   de grandeza. Foi principalmente a essa multidão que o sobrinho do Corso deveu o seu extraordinário triunfo. Na expressão de um velho camponês: "Como deixar de votar nesse homem, eu que tive o nariz gelado na Rússia?"

Alimentando sonhos grandiosos de emular o tio, Luís Napoleão não se contentou por muito tempo em ser simples presidente da França. Começou desde logo a usar da sua posição a fim de preparar o caminho para outra mais elevada. Conquistou o apoio dos católicos permitindo-lhes recuperar o controle sobre as escolas e enviando uma expedição à Itália para restabelecer o poder temporal do papa na Itália. Deu lambujens aos trabalhadores e à burguesia, sob a forma de pensões de velhice e de leis para incrementar os negócios. Em 1851 ofereceu-se-lhe a primeira grande oportunidade de desfechar um golpe na república, A Assembléia, dominada pela burguesia, havia aprovado uma lei que limitava de cerca de um terço o sufrágio. Luís Napoleão percebeu o ensejo de fazer-se passar por um campeão dos direitos das massas. Como os legisladores negassem obediência à sua ordem de restaurar o sufrágio universal, dissolveu a Assembléia, proclamou-se ditador temporário e convidou o povo a conceder-lhe o direito de redigir uma nova constituição. No plebiscito realizado a 21 de dezembro de 1851, foi autorizado por uma maioria esmagadora (7.500.000 contra 640.000 votos) a proceder como entendesse. A nova constituição, posta em vigor no mês de janeiro seguinte, convertia o presidente num ditador de fato. Com a sua magistratura prolongada para dez anos, tinha o poder exclusivo de propor leis, declarar a guerra e firmar a paz. O corpo legislativo era nominalmente conservado, mas não podia apresentar nem emendar projetos de leis, nem mesmo modificar qualquer cláusula do orçamento. Entretanto, o pequeno César ainda não se deu por satisfeito. Nada era capaz de contentá-lo, senão a dignidade imperial que havia aureolado o seu famoso tio. Volvido exatamente um ano, Luís Bonaparte convocou um novo plebiscito e, com a aprovação de 95% do eleitorado, assumiu o título de Napoleão III, imperador dos franceses. As massas crédulas não tardariam a ver aonde as ia conduzir a adoração de um nome mágico e o culto de uma aparatosa lenda.

O segundo império francês durou de dezembro de 1852 a setem-bro de 1870.    O seu fundador e preservador governou por métodos semelhantes aos dos demais césares, antes e depois dele. Estimulou uma grandiosa prosperidade drenando  pântanos,  construindo  estradas,  melhorando portos, subsidiando ferrovias e abrindo uma imponente rede de bulevares  em  Paris.    Cultivou  a  estima  das  classes  inferiores  declamando  frases revolucionárias e arquitetando planos pseudo-socialistas, como o auxílio do governo às cooperativas de consumo e uma variedade de formas de seguro para os trabalhadores. Ao mesmo tempo, tomou todas as medidas para não ser incomodado pelos radicais. Submeteu a imprensa a uma rigorosa vigilância e controlou as eleições pagando as despesas dos candidatos oficiais e exigindo dos outros um juramento de fidelidade ao imperador. Tampouco deixou de aproveitar as oportunidades de abrilhantar o seu regime com uma política exterior agressiva. Anexou a Argélia e estabeleceu um protetorado sobre a Indochina. Em 1854, sob o pretexto de proteger os monges católicos da Turquia, lançou-se à Guerra da Criméia com a Rússia. Apoiado pela Grã-Bretanha, pela Turquia e, durante algum tempo, também pela Sardenha, conseguiu sair vitorioso do conflito. Apesar de ter derramado, em dois anos de luta, o sangue de 75.000 soldados franceses, pôde ainda gozar os aplausos da multidão e tomar atitudes de árbitro dos destinos da Europa.

Já em 1860 o esplendor da fama de Napoleão tinha começado a ofuscar-se.    O   primeiro   golpe   sério   ao   seu   prestígio   resultou   da sórdida   aventura   de   1858  na   Itália.    Nessa  data havia ele formado uma aliança com os nacionalistas italianos   para  ajudá-los  a   expulsar   os  austríacos, mas ao perceber   que  os   seus  aliados   pretendiam consolidar toda a península num estado nacional e destruir o poder temporal do papa, desertou-os imediatamente. Com isso afastou as simpatias de milhares dos seus adeptos mais liberais, que o acusaram de ter abandonado um brioso povo à opressão austríaca. Em 1862 Napoleão interveio no México. Enviou um exército para fundar um império naquele país e ofereceu o trono ao Arquiduque Maximiliano da Áustria. Mas, ao terminar a guerra civil americana, o governo dos Estados Unidos obrigou as tropas francesas a retirar-se e pouco depois Maximiliano era capturado e fuzilado pelos mexicanos. Em consequência dessa aventura trágica e brutal, a oposição a Napoleão recrudesceu fortemente. Após as eleições de 1869, pareceu-lhe necessário fazer algumas concessões. Concordou, daí por diante, em tornar os seus ministros responsáveis perante o legislativo, em permitir a venda pública de jornais e em abandonar a política de subsidiar os candidatos oficiais às eleições. Em 1870 resolveu fazer uma tentativa de recuperar o seu prestígio mediante um golpe de audácia na política externa. O governo da Espanha acabava de ser deposto e os revolucionários ofereceram a coroa ao príncipe Leopoldo de Hohenzollern, primo do rei da Prússia. Simulando ver nesse fato um perigo para a França, Napoleão informou o rei prussiano de que consideraria como casus belli a ascensão de um príncipe Hohenzollern ao trono da Espanha. Muito sensatamente, o príncipe Leopoldo recusou a coroa; isso teria satisfeito qualquer   um,   mas   não   satisfez   Napoleão,   que   estava   decidido   a cercar-se de glória mediante uma humilhação brutal imposta à Prússia. Exigiu, pois, do rei Guilherme I o compromisso de jamais permitir que um membro da sua família se apresentasse como candidato ao trono da Espanha. Mais adiante veremos como Bismarck torceu a recusa de Guilherme de maneira a precipitar uma guerra entre a Prússia e a França. Basta dizer aqui que a França foi fragorosamente derrotada numa campanha que durou apenas algumas semanas. Após a batalha de Sedan (2 de setembro de 1870) o próprio Napoleão foi feito prisioneiro, e dois dias depois o seu governo era posto abaixo por um grupo de republicanos em Paris.

Com o colapso do Segundo Império, organizou-se um governo provisório para dirigir o país até que fosse elaborada a nova constituição. Em fevereiro de 1871 realizaram-se eleições para uma assembléia nacional constituinte, sendo escolhidos 500 monarquistas e apenas 200 republicanos. Explica-se isto pelo fato de terem os republicanos, durante a campanha eleitoral, insistido na continuação da guerra, enquanto os monarquistas a consideravam definitivamente perdida, só restando à França negociar com o inimigo as condições mais favoráveis possíveis. Isso não quer dizer que a maioria do povo francês preferisse a monarquia, mas sim que almejava a paz. Por sorte, os monarquistas achavam-se irremediavelmente divididos. Nem bem a Assembléia Nacional se reuniu, cindiram-se em três facções irreconciliáveis. Os menos numerosos eram os imperialistas, descoroçoados adeptos de Napoleão III, que se apegavam à tênue esperança de que o seu governo pudesse ser restaurado. Acirradamente opostos a eles e uns aos outros, havia os legitimistas e os orleanistas. Os primeiros exigiam que a coroa fosse dada ao neto de Carlos X, ao passo que os segundos apoiavam as pretensões do neto de Luís Filipe. A furiosa discórdia entre os monarquistas adiou por quase quatro anos a decisão definitiva quanto à forma permanente a ser assumida pelo governo francês. Por fim, os orleanistas preferiram solidarizar-se com os republicanos a permitir que os legitimistas triunfassem, e em janeiro de 1875 a Assembléia Nacional aprovou a primeira de uma série de leis constitucionais que reconheciam a forma republicana do governo. Foi esse o verdadeiro início da Terceira República na França.

A constituição da Terceira República consistiu em três leis orgânicas adotadas em 1875 pela Assembléia Nacional. Embora emendas e precedentes houvessem determinado algumas mudanças,  conservou a  sua  forma essencial até a    dissolução oficial da   Terceira República,  em 9 de julho  de  1940.    O governo  estabelecido por essa constituição figurava entre os mais democráticos do mundo.    Havia um   Parlamento,  com  uma  câmara  baixa  eleita  por   sufrágio  universal  masculino,  e  um  presidente  eleito  pelo   Parlamento.    O   característico principal era, no entanto, o sistema de gabinete, copiado em grande parte do da Inglaterra.    Os poderes mais importantes do governo   eram   exercidos   por   um   ministério   responsável   perante   o Parlamento.    O  presidente representava a  figura mais apagada  que é  possível  encontrar  entre  os  chefes  de  estado.    Se  bem  que   um político dinâmico pudesse exercer, nesse cargo, uma influência considerável,   em   especial   na   orientação   das   relações   estrangeiras,   o presidente da França em geral  era pouco mais que um governante titular.    Todos os seus atos oficiais deviam ser subscritos — isto é, aprovados — por um membro do gabinete.    Havia, por outro lado, várias diferenças importantes entre o sistema de gabinete francês e o britânico.    Enquanto na Inglaterra o gabinete inclui somente os ministros principais e alguns outros que o primeiro ministro possa designar, na França ministério e gabinete eram uma e a mesma coisa. Esse ministério ou gabinete era responsável não só perante a câmara baixa, ou Câmara dos Deputados, mas também perante o Senado, eleito indiretamente  pelo  povo;  na   Inglaterra,  o  gabinete   fica  submetido exclusivamente à Câmara dos Comuns.    A mais importante diferença consistia  em   não   ter   o   primeiro  ministro   francês   autoridade efetiva para dissolver o  Parlamento.    É verdade que a constituição escrita lhe conferia originalmente tal autoridade, mas  foi mais tarde anulada por certos precedentes. Significava isso que os membros da legislatura podiam derrubar os gabinetes à vontade, sem incorrer no risco de ter de se apresentar à reeleição.    No caso de serem derrotados em qualquer das câmaras, o primeiro ministro e os seus colegas não   tinham   alternativa   senão   renunciar.     Com   a   possível   exceção da  multiplicidade  de  partidos,   nada  contribuía  tanto  para  a  instabilidade  do  sistema  francês.    Acontecia por vezes  que  os gabinetes eram incapazes de conservar o apoio da maioria do Parlamento durante mais de poucas semanas ou mesmo de alguns dias.    Ainda que frequentemente  se   deplorasse   tal   instabilidade,   era  na   realidade   o fruto de uma reação natural do povo  francês em face dos regimes ditatoriais anteriores.

Mesmo depois de adotada a constituição republicana de  1875, a vitória da democracia não  foi de modo algum completa na França. Durante alguns anos a república teve de lutar com elementos   reacionários  resolvidos  a  restaurar  uma forma    qualquer    de    governo    autocrático.    Entre 1887 e 1889, enfrentou uma perigosa crise com o episódio Boulanger. Era Georges Boulanger um general do exército e antigo ministro da guerra   que   alimentava   ambições   napoleônicas.    Apelando   para   o orgulho ferido dos patriotas  franceses, clamava por uma guerra de desforra contra a Alemanha, no que era entusiasticamente aplaudido. Tomou como cavalo de batalha certos escândalos recém-descobertos do regime republicano, e graças a isso subiu no conceito dos monarquistas, bem assim como dos católicos conservadores que odiavam os republicanos por causa do seu programa anticlerical. Dentro em pouco era o homem mais popular da França. Por toda a parte as multidões aclamavam o seu ”bravo general", crentes de que um novo Bonaparte havia surgido no seu seio. Lisonjeado e estimulado por esses aplausos, Boulanger resolveu apelar para as urnas como prova mais tangível do apoio nacional. Apresentou-se à eleição para a Câmara de Deputados em todos os distritos onde podia ser admitido e venceu, por margens consideráveis, dez vezes seguidas no espaço de seis meses. Em janeiro de 1889 coroou essa série de vitórias conseguindo uma maioria esmagadora em Paris, onde prevaleciam os radicais. Parecia que agora nada obstaria à sua ascensão ao poder como ditador militar. Mas, felizmente para a república, esse ídolo adorado pelo populacho e pelas senhoras nos salões tinha frágeis pés de barro. Quando o governo, por fim, se encheu de coragem e mandou prendê-lo como culpado de conspiração, Boulanger fugiu ingloriamente para a Bélgica. Dois anos depois, meteu uma bala nos miolos diante da sepultura da amante.

O ignominioso colapso do movimento boulangista não pôs fim às tentativas de desacreditar a república. Na década de 1890 os reacionários adotaram o anti-semitismo como pretexto para a consecução dos seus objetivos. O fato de certos banqueiros judeus terem sido envolvidos recentemente em negócios escandalosos com políticos deu margem aos monarquistas para acusar o governo de estar contaminado pela corrupção, apontando como principais culpados os gananciosos judeus. Os católicos eram levados a crer que os políticos judeus tinham ditado a legislação anticlerical do regime republicano. Com tais acusações pairando no ar, não é de estranhar que o anti-semitismo acabasse por inflamar-se numa explosão violenta. Em 1894 um capitão de artilharia judeu chamado Alfred Dreyfus foi acusado, por uma camarilha de oficiais monarquistas, de ter vendido segredos militares à Alemanha. Levado a conselho de guerra, foi condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo (Guiana Francesa). A princípio a condenação foi aceita como merecida punição de um traidor, mas em 1897 o Coronel Picquart, chefe recém-nomeado do Serviço Secreto, declarou ter chegado à conclusão de que os documentos em que se baseava a sentença condenatória tinham sido falsificados. Iniciou-se um movimento em favor de uma revisão do processo, revisão que o Ministério da Guerra apressou-se a recusar. Dentro em pouco, toda a nação se achava dividida entre amigos e adversários do desventurado capitão. Ao lado de  Dreyfus estavam os republicanos radicais, os socialistas, as pessoas de tendências liberais e humanitárias e figuras eminentes da literatura como Emile Zola e Anatole France. Os antidreyfusistas incluíam os monarquistas, os clericais, os anti-semitas, os militares, um número considerável de operários conservadores e de sinceros mas iludidos patriotas. Dreyfus foi finalmente posto em liberdade por uma ordem do executivo em 1899, sendo seis anos mais tarde isentado de toda culpa pelo Supremo Tribunal e reintegrado no exército, onde o aguardava a promoção imediata ao posto de major e uma insígnia da Legião de Honra. O efeito do caso Dreyfus foi desmantelar por completo o movimento monarquista na França. A partir de então, os adeptos desse movimento foram gradualmente reduzidos à insignificância política, como simples "punhado de velhas nozes a entrechocar-se dentro de um saco".

Conforme já demos a entender, o caso Dreyfus não foi senão um dos episódios de uma luta mais vasta em torno da questão da igreja e  do  Estado.    Desde o  começo  da  sua  história  a Terceira República havia revelado um pendor anti-clerical.    Seus   fundadores   não   eram   necessariamente ateus, mas acreditavam que uma igreja poderosa, com a ambição de estender a sua influência política e social, constituía uma ameaça para o governo republicano. Os objetivos dos anticlericais eram obstar a essa influência, reduzir os privilégios econômicos da igreja católica e destruir a ascendência que o clero havia conquistado sobre a educação. As raízes do anticlericalismo estendiam-se em várias direções. Em parte, ele resultava da Revolução Industrial, pois esta favorecia os interesses materialistas e intensificava a luta entre a burguesia e o antigo regime, com o qual se costumava identificar a igreja. Era também, em certa medida, um fruto do desenvolvimento da ciência e das filosofias cépticas e liberais, frequentemente empregadas como armas para combater o conservantismo religioso. Mas a causa principal da sua difusão foi, por certo, o impulso tomado pelo nacionalismo militante. Não só a igreja católica tinha forçosamente tendências internacionalistas, mas os papas, ainda na década de 1860, afirmavam os seus direitos ao poder temporal e fulminavam anátemas contra os governantes que pretendessem criar estados onipotentes. Por toda parte onde o nacionalismo se tornasse poderoso, os clericais quase infalivelmente passavam a ser considerados  como  os grandes  inimigos.

Na França, o anticlericalismo alcançou o apogeu da sua fúria entre 1875 e 1914. A grande maioria dos líderes da Terceira República eram hostis à Igreja e não podiam deixar de sê-lo, pois a hierarquia católica ajudava os monarquistas em todas as oportunidades. Os clericais conspiraram com os monarquistas no apoio dado a Boulanger, e ainda mais ativamente com os militaristas e os anti-semitas na tentativa de desacreditar a república durante o caso Dreyfus.   Mas afinal rebentou-lhes a bomba na mão.   O resultado do caso Dreyfus não só foi o dobre de finados do monarquismo mas também suscitou um ataque furioso a igreja. Em 1901 o governo fez passar a Lei das Associações, que proibia a existência, na França, de qualquer ordem religiosa não autorizada pelo estado. Em 1904 seguiu-se outra lei que vedava o ensino, tanto nas escolas públicas como nas particulares, a todos os membros das ordens religiosas. Finalmente, em 1905 foi aprovada a Lei de Separação, que, como o nome indica, dissolvia a união entre a igreja e o estado. Pela primeira vez desde 1801, os adeptos de todos os credos eram colocados em pé de igualdade. Daí por diante o clero católico deixaria de receber vencimentos do tesouro público. Embora algumas dessas medidas tenham sido levemente modificadas nestes últimos anos, o clericalismo continua, para a maioria dos franceses, envolto numa densa nuvem de suspeita.

mar 032011
 
Tributação dos rendimentos pessoais nos eua em 1949

EDWARD   McNALL   BURNS
PROFESSOR DE  HISTÓRIA  DA  RUTGERS  UNIVERSITY

HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL
Volume II

Tradução de LOURIVAL GOMES MACHADO, LOURDES SANTOS MACHADO e LEONEL VALLANDRO

Capítulo 23

A Revolução Industrial dos séculos XIX e XX

 

DURANTE o período que foi de 1400 até aproximadamente 1700 a civilização moderna atravessou a sua primeira revolução econômica.    Foi   ela  a   Revolução   Comercial,   que   extirpou   a   economia semi-estática da Idade Média e a substituiu por um capitalismo   dinâmico   dominado   por   comerciantes,   banqueiros  e  armadores  de  navios.    Mas  a Revolução Comercial não foi mais que o ponto de partida de rápidas e decisivas mudanças no campo econômico. Não tardou a seguir-se-lhe uma Revolução Industrial, que não só ampliou ainda mais a esfera dos grandes empreendimentos comerciais mas ainda se estendeu aos domínios da produção. Tanto quanto é possível reduzi-la a uma fórmula sintética, pode-se dizer que a Revolução Industrial compreendeu: 1) a mecanização da indústria e da agricultura; 2) a aplicação da força motriz à indústria; 3) o desenvolvimento do sistema fabril; 4) um sensacional aceleramento dos transportes e das comunicações; e 5) um considerável acréscimo do controle capitalista sobre quase todos os ramos de atividade econômica. Embora a Revolução Industrial já se houvesse iniciado em 1760, não adquiriu todo o seu ímpeto antes do século XIX. Muitos historiadores dividem o movimento em duas grandes fases, servindo o ano de 1860 como marco divisório aproximado entre ambas. O período de 1860 até os nossos dias é por vezes denominado Segunda Revolução Industrial.

 

 

1.   O    COMPLEXO   DE   CAUSAS DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

A Revolução Industrial nasceu de uma multiplicidade de causas, algumas das quais são mais antigas do que habitualmente se pensa. Talvez  convenha  considerar em primeiro lugar os aperfeiçoamentos   iniciais   da  técnica.    As   maravilhosas invenções dos fins do século XVIII não nasceram já completas, como Minerva da testa de Júpiter. Pelo contrário, já desde algum tempo havia um interesse mais ou menos fecundo pelas inovações mecânicas. O período da Revolução Comercial assistira à invenção do relógio de pêndulo, do termômetro, da bomba aspirante, da roda de fiar e do tear para tecer meias, sem falar dos melhoramentos introduzidos na técnica de fundir minérios e na obtenção do bronze. Mais ou menos em 1580 foi inventado um tear mecânico que fazia fitas, sendo capaz de tramar vários fios ao mesmo tempo. Houve também importantes progressos técnicos em outras indústrias, como a de vidraria, relojoaria, apareIhamento de madeira e construção naval. Várias dessas primeiras invenções tornavam necessária a adoção de métodos fabris. Por exemplo, a máquina de organsinar seda bruta, inventada na Itália por volta de 1500, tinha de ser instalada numa vasta construção e exigia uma turma considerável de trabalhadores. Nos Temple Mills, à margem do Tamisa, acima de Londres — segundo uma descrição feita em 1738 por Daniel Defoe — o cobre era convertido em caldeiras e panelas por meio de enormes martelos movidos a força hidráulica. Esses melhoramentos técnicos iniciais mal se podem comparar em importância aos que se verificaram depois de 1760, mas mostram que a era da máquina não surgiu de um dia para outro.

Entre outras causas de primeira importância contam-se algumas consequências mais diretas da Revolução Comercial.   Esse movimento provocara o surto de uma classe de capitalistas que procuravam constantemente novas oportunidades de investimento para o seu excesso de riqueza. A princípio essa riqueza podia ser facilmente absorvida pelo comércio, pelos empreendimentos de mineração, pelas especulações bancárias ou pelas construções navais, mas com o correr do tempo as oportunidades em tais campos se tornaram bastante limitadas. Em consequência, havia uma disponibilidade crescente de capitais para o desenvolvimento da manufatura. Mas dificilmente teria ocorrido um desenvolvimento rápido se não houvesse uma procura cada vez maior de produtos industriais. Tal procura deveu-se em grande parte à fundação de impérios coloniais e ao acentuado crescimento da população européia. Estamos lembrados de que um dos objetivos primários da aquisição de colônias fora o de encontrar novos mercados para os produtos manufaturados na metrópole. Como prova de que tal finalidade fora satisfatoriamente atingida registra-se o fato de, só no ano de 1658, terem sido embarcados da Inglaterra para a Virgínia nada menos de 24.000 pares de sapatos. Ao mesmo tempo, os mercados potenciais da Europa iam-se alargando com rapidez, dada a curva ascendente da população dos países ocidentais. Na Inglaterra o número de habitantes subiu de quatro milhões em 1600 a seis milhões em 1700 e a nove milhões no fim do século XVIII. A população da França elevou-se de 17.000.000 em 1700 a 26.000.000 cerca de cem anos mais tarde. Até que ponto esse aumento foi um efeito dos progressos da medicina no século XVIII e em que medida se deveu ele à maior abundância de alimentos decorrente da expansão do comércio? É uma questão discutível, mas a influência do segundo destes fatores não pode ser desprezada. Finalmente, a Revolução Comercial estimulou o crescimento das manufaturas graças à sua doutrina básica do mercantilismo. A política mercantilista visava, entre outras coisas, aumentar a quantidade de artigos manufaturados disponíveis para a exportação a fim de garantir uma balança de comércio favorável.

A despeito da importância das causas já mencionadas,  a Revo-lução   Industrial  teria   sido   sem   dúvida  retardada  se  não   fosse   a necessidade de melhoramentos mecânicos fundamentais em certos campos de produção. Aí por volta de 1700, a procura de carvão para as fundicões de ferro  tinha  exaurido  de tal  modo  as  reservas  de lenha que várias  nações  da  Europa  Ocidental  se viram ameaçadas pelo desflorestamento.    Cerca de 1709 uma solução parcial foi encontrada por Abraham Darby, ao descobrir que o coque podia ser utilizado  na   fundição.    Mas,   para   se   obter   o   coque  necessário,   era preciso minerar carvão em quantidade muito maior do que até então se   tinha   feito.    Como   o   principal   obstáculo   à   extração   fosse   a acumulação de água nas minas, a necessidade do novo  combustível levou à procura de uma fonte de energia capaz de acionar as bombas. Vários experimentos relacionados  com  essa pesquisa resultaram  finalmente na invenção da máquina a vapor.    Uma necessidade ainda mais premente  de mecanização  existia na indústria têxtil.    Com  a crescente procura dos tecidos de algodão nos séculos XVII e XVIII, tornou-se   simplesmente   impossível   fornecer   o   fio   necessário   com as  rodas  de  fiar  primitivas  ainda  em  uso.    Mesmo   depois  de  se porem a trabalhar todas as mulheres e crianças em disponibilidade, a procura não pôde ser satisfeita.    Na Alemanha, até os  soldados nos quartéis foram postos a fiar algodão.    Como a necessidade se fizesse sentir cada vez mais, as sociedades científicas e as empresas industriais ofereceram prêmios a quem apresentasse métodos aperfeiçoados de fiação. Em 1760, por exemplo, a "English Society of Arts" instituiu um desses prêmios para uma máquina que capacitasse uma pessoa a fiar seis fios simultaneamente. O resultado de todos esses esforços foi o desenvolvimento da máquina de fiar e do tear hidráulico, precursores de uma série de importantes inventos na indústria têxtil. Não tardando a ficar demonstrada a viabilidade de tais máquinas, a mecanização não podia deixar de estender-se às demais manufaturas.

2. POR   QUE  A   REVOLUÇÃO   INDUSTRIAL  COMEÇOU   NA   INGLATERRA

À   primeira   vista  pode  parecer   estranho   que   o   pequeno   reino insular  não  só  se tenha tornado o líder industrial do mundo,  mas que haja conservado essa posição por mais de um século.    Pretende um filósofo moderno  que a Inglaterra,  ainda  em  pleno  século  XVIII,  era  "o país mais pobre da Europa Ocidental".    É  certo que ela não possuía uma grande variedade de produtos dentro das suas fronteiras. Não estava tão perto de bastar-se a si mesma quanto a França ou a Alemanha. Seus recursos agrícolas já não chegavam para satisfazer-lhe as necessidades e o exaurimento das florestas da ilha tinha sido notado desde o tempo dos Stuarts. O carvão e o ferro, geralmente considerados como as suas maiores riquezas, não assumiram grande importância industrial senão no século XIX. Mas, ao lado dessas condições adversas, havia outros fatòres que faziam a balança pender decididamente para o lado da Inglaterra.

Talvez   devamos   colocar   no   cabeçalho   da   lista   de   condições favoráveis o fato de ter sido a Inglaterra o país que mais lucrou com a  Revolução   Comercial.    Ainda  que  a  França tivesse, pelas alturas de 1750, um comércio exterior calculado em 200 milhões de dólares anuais, em confronto  com  os   160 milhões  de  dólares  da  Inglaterra, não se deve esquecer que a população francesa era, no mínimo, três vezes maior do que a inglesa. Acresce que a França havia alcançado o limite máximo da sua expansão imperial e que uma parte considerável dos lucros do seu comércio exterior era desviada, através de empréstimos e de impostos, para a manutenção de um exército oneroso e de uma corte frívola e extravagante. A Inglaterra, por seu lado, mal iniciava ainda a sua idade áurea de poder e prosperidade. Já havia adquirido as mais valiosas colónias do Hemisfério Ocidental e em breve iria consolidar a supremacia imperial e comercial pela derrota dos franceses na Guerra dos Sete Anos. Além disso, uma proporção bem maior dos lucros da Inglaterra no comércio ultramarino ficava disponível para os investimentos produtivos. O seu governo estava relativamente livre de corrupção e de gastos perdulários. Os seus efetivos militares custavam menos que os da França e as suas rendas eram coletadas com muito mais eficiência. Em consequência, os comerciantes e armadores ingleses dispunham de uma margem mais ampla de lucros excedentes, que eles estavam ansiosos por inverter em todos os negócios concebiveis que pudessem tornar-se fonte de proveitos adicionais.

À vista  de tais  fatos, não  é  de  surpreender que  a  Inglaterra se tivesse alçado à posição cie principal nação capitalista no começo do século XVIII. Em parte alguma haviam as sociedades  por  ações  alcançado  tamanho  desenvolvimento.    As operações   sobre  valores   já  eram   negócio legal quando foi fundada, em  1698, a Bolsa de   Fundos   Públicos   de   Londres.    Por   volta   de 1700,  Londres  estava  capacitada  a  competir  com   Amsterdã  como capital financeira do mundo.    Acrescente-se a isso que a Inglaterra possuía,  talvez,  o  melhor  sistema  bancário   da  Europa.     No   ápice desse sistema achava-se o  Banco  da Inglaterra,  fundado  em   1694. Embora estabelecido com o fim de levantar fundos para o governo, a sua organização era a de uma empresa privada.    Os seus fundos eram de propriedade particular e a sua direção não estava submetida a qualquer controle oficial.    Não obstante, sempre operou em íntima colaboração com o governo e desde os primeiros tempos constituiu importante fator de estabilização das finanças públicas. Assegurada destarte a estabilidade  financeira do governo, os grandes empreendedores comerciais e industriais podiam desenvolver os seus negócios sem o temor de uma bancarrota nacional ou de uma inflação ruinosa. É cabível observar a este propósito que nada ou quase nada de semelhante se verificou nas  finanças  do país  de além-Mancha até a fundação do Banco Francês, durante o período napoleônico.

Há indícios  de não  ter  sido  pequena  a influência  dos   fatores políticos e sociais na origem da Revolução Industrial inglesa.    Embora o governo britânico estivesse longe de ser de-mocrático,  era  pelo  menos  mais  liberal  do  que  a maioria  dos  governos  continentais.    A  Revolução Gloriosa de 1688-89 muito fizera para estabelecer o conceito  da  soberania limitada.    Tornara-se  geralmente aceita a doutrina de que o poder do estado não deve estender-se além da proteção  dos direitos naturais  do indivíduo  à liberdade e ao gozo da propriedade.    Sob a influência de tal doutrina o Parlamento  aboliu  velhas  leis  que  criavam monopólios  especiais  e interferiam  na  livre  concorrência.    Os  princípios  mercantilistas  continuaram a ser aplicados ao comércio com as colônias, mas na esfera dos negócios metropolitanos foi pouco a pouco revogado um grande número de restrições. Ademais, a Inglaterra já começava então a ser encarada como um asilo para os refugiados de outros países. Mais de 40.000 huguenotes fixaram-se nas suas aldeias e cidades quando foram expulsos da França, em 1685, pela revogação do Edito de Nantes. Frugal, enérgico e ambicioso, esse elemento instilou novo vigor na nação inglesa. Thomas Huxley afirmou, muito mais tarde, que uma gota de sangue huguenote nas veias valia milhares de libras esterlinas. Que a influência desses exilados no progresso industrial não foi insignificante, atesta-o o fato de as manufaturas de cutelaria e de vidro inglesas terem continuado por algum tempo a usar nomes franceses. Também as condições sociais eram nitidamente favoráveis ao desenvolvimento da indústria. A nobreza britânica deixara de ser uma casta exclusivamente hereditária e estava se convertendo com rapidez numa aristocracia da riqueza. Quase todos os que faziam fortuna tinham a possibilidade de elevar-se às mais altas camadas sociais. William Pitt, o moço, afirmava que qualquer homem com uma renda de dez mil libras anuais devia ter direito a ser par do reino, por mais humilde que fosse a sua origem. Tais condições valiam por um prêmio ao sucesso nos negócios.

Algumas outras causas  devem ser acrescentadas para completar o quadro.  Em primeiro lugar, mencionemos o fato de ser o clima úmido das ilhas britânicas especialmente propício à fabricação de tecidos de algodão, não permitindo que o fio se torne quebradiço e se rompa facilmente quando retesado pelo tear mecânico. E basta lembrar que foi a mecanização da indústria têxtil que inaugurou a era da máquina. Em segundo lugar, o sistema corporativo de produção com as suas complicadas restrições nunca se enraizou tão fortemente em solo inglês como nos países continentais. As próprias regulamentações já estabelecidas tinham sido eliminadas, especialmente nos condados setentrionais, pelos fins do século XVII. Foi esta, diga-se de passagem, uma das razões pelas quais a Revolução Industrial principiou na Inglaterra setentrional de preferência à região mais próxima do Continente. Por último, como a riqueza naquela época estivesse mais uniformemente distribuída na Inglaterra do que na maioria das outras nações, os fabricantes ingleses puderam dedicar-se à produção em larga escala de artigos baratos e comuns, ao invés de produzirem pequenas quantidades de mercadorias de luxo. Este fator influiu consideravelmente na adoção dos métodos fabris a fim de obter um rendimento maior. Na França, ao contrário, havia procura de artigos de luxo para satisfazer os gostos de uma pequena camada de perdulários elegantes.    Uma vez que a qualidade da mão-de-obra constituía requisito fundamental desse tipo de produção, era pequeno o incentivo à invenção de máquinas.

3. HOMENS E  MÁQUINAS DOS  PRIMEIROS TEMPOS

A fase inicial da Revolução Industrial, que vai de cerca de 1760 a   1860,  testemunhou  um  desenvolvimento   fenomenal  da  aplicação da maquinaria à indústria, o qual lançou os alicerces da nossa civilização mecânica moderna.    Como vimos, o primeiro ramo da indústria a ser mecanizado foi a manufatura de tecidos de algodão. Não era essa uma das indústrias tradicionais dos ingleses, senão um empreendimento recente em que cada empresário podia experimentar quase todos os métodos que desejasse. Além do mais, era um negócio em que os lucros dependiam da produção intensiva. A fim de que a indústria pudesse realizar progressos era necessário encontrar meios de obter um maior volume de fio do que jamais se poderia conseguir com o instrumental primitivo ainda em uso. O primeiro dispositivo que veio atender a essa necessidade foi a spinning jenny ou máquina de fiar inventada por James Hargreaves em 1767. Essa máquina, assim chamada em homenagem à esposa do inventor, cujo nome era Jenny, era na realidade uma roda de fiar composta, capaz de produzir oito fios ao mesmo tempo. Infelizmente, os fios que produzia não eram bastante fortes para ser utilizadas como fibras longitudinais, ou urdimento, do tecido de algodão. Só com a invenção do bastidor hidráulico de Richard Arkwright, cerca de dois anos depois, é que se tornou possível a produção intensiva de ambas as modalidades de fio de algodão. Finalmente, em 1779, outro inglês, Samuel Crompton, combinou certos característicos da spinning jenny e do bastidor hidráulico numa máquina de fiar híbrida que ele, com propriedade, denominou mule (mula). Essa máquina foi sendo progressivamente aperfeiçoada até que, vinte anos mais tarde, tornou-se capaz de produzir simultaneamente quatrocentos fios  da melhor qualidade.

Entretanto, os problemas da indústria de algodão ainda não estavam inteiramente resolvidos. A invenção das máquinas de fiar tinha suprido sobejamente a  falta de  fio, mas  fazia-se sentir agora a escassez de tecelões. Os que se dedicavam a esta profissão podiam exigir salários tão  altos  que,  ao que  se  dizia,  costumavam  pavonear-se nas ruas com notas de cinco libras enfiadas na fita do chapéu e almoçavam ganso assado aos domingos. Tornou-se logo evidente que o único remédio para essa falta de tecelões seria a invenção de uma   máquina   automática   que   tomasse   o   lugar   do   tear   manual. Muitos declararam tal coisa impossível, mas o Rev. Edmund Cartwright, um pastor do condado de Kent, não se deixava desanimar tão facilmente. Dizia consigo que, se a maquinaria automática podia ser aplicada à fiação, não havia motivo para que não o fosse também à tecelagem. Como tivesse poucos conhecimentos de mecânica, contratou um carpinteiro e um ferreiro para pôr em prática as suas ideias. O resultado foi o tear mecânico, que Cartwright patenteou em 1785. Muitos anos se passaram, contudo, antes de êle estar suficientemente aperfeiçoado para ter mais que um êxito modesto. Somente por volta de 1820 foi que logrou substituir amplamente os métodos mais primitivos de tecelagem. Entrementes, a invenção de uma máquina para separar o caroço da fibra do algodão possibilitou um fornecimento abundante de algodão em bruto por preço baixo. Foi essa máquina o descaroçador inventado em 1792 por Eli Whitney, um mestre-escola da Nova Inglaterra.

Algumas das novas invenções da indústria têxtil contribuíram para o desenvolvimento do sistema fabril. O bastidor hidráulico, a spinning mule e o tear mecânico eram máquinas grandes e pesadas que não podiam ser instaladas nas casas dos trabalhadores. Todas elas se destinavam, com o tempo, a ser acionadas por força motriz, e além disso custavam tão caro que ninguém, a não ser um abonado capitalista, poderia comprá-las. Era portanto inevitável que fossem instaladas em grandes edifícios e que os trabalhadores empregados em fazê-las funcionar ficassem sob a supervisão do proprietário ou de um gerente. Tais eram os traços essenciais do sistema fabril na sua forma original. Muito apropriadamente, o verdadeiro fundador do sistema foi Richard Arkwright, o inventor do bastidor hidráulico. Graças à sua indomável perseverança e imenso tino para os negócios, Arkwright elevou-se da condição de simples barbeiro e cabeleireiro até se tornar o primeiro capitão de indústria. Trabalhando habitualmente das cinco da manhã às nove da noite, lutou com obstáculos durante anos. Encontrou tenaz oposição por parte dos poderosos interesses da indústria de lã. Suas oficinas foram depredadas por multidões de trabalhadores enfurecidos, os quais temiam que as máquinas de Arkwright os deixassem sem emprego. Foi acusado, talvez com alguma razão, de ter roubado a outros a idéia do bastidor hidráulico. Afirma-se que despendeu ao todo cerca de 60.000 dólares antes que os seus projetos começassem a dar lucro. Fundou a sua primeira fábrica, movida por força hidráulica, em 1771.

Custa acreditar que o sistema fabril pudesse ter assumido grande importância sem o aperfeiçoamento da máquina a vapor. As rodas hidráulicas eram vagarosas e nem sempre se dispunha de cursos de água com força suficiente para movê-las. Outras fontes de energia foram experimentadas, com resultados ainda menos satisfatórios. O tear mecânico  original,  inventado  por  Cartwright,  era  movido  por uma vaca, ao passo que alguns de seus sucessores empregaram cavalos e até um cão terra-nova.    Sabia-se, havia séculos, que o vapor d’água podia ser utilizado como fonte de força motriz.    Grosseiras máquinas a vapor tinham sido construídas por Heron de Alexandria no século I antes de Cristo, por Leonardo da Vinci durante a Renascença e por vários outros nos primórdios da idade moderna. Nenhuma delas, entretanto, fora aproveitada em coisa mais útil do que fazer girar o espeto nas cozinhas dos reis ou obrar milagres nos tempos antigos. O primeiro homem a empregar a força do vapor com propósitos industriais foi Thomas Newcomen, que, em 1712, inventou uma tosca mas eficiente máquina a vapor para bombear água das minas de carvão inglesas. Pelos meados do século estava em uso aproximadamente uma centena desses engenhos. Algumas eram de enormes proporções e podiam fazer o trabalho de mais de cinqüenta cavalos; uma delas tinha um cilindro de seis pés (1,80 m) de diâmetro. Até as menores podiam gerar mais força motriz do que a maioria das rodas hidráulicas.

Malgrado o seu imenso valor para a indústria mineira, a máquina de Newcomen ressentia-se de defeitos que a impediam de ser usada em   larga   escala   para   fins   industriais   em   geral. 

Para começar, desperdiçava tanto combustível como força.    Era construída de tal maneira que depois de cada movimento  do  êmbolo  o  vapor  tinha  de  ser condensado pela aspersão de água fria no cilindro. Isso significava que o cilindro devia ser novamente aquecido antes do percurso seguinte, e tais aquecimento e resfriamento alternados retardavam grandemente a velocidade da máquina. Em segundo lugar, o "amigo do mineiro" (assim se chamava a bomba de Newcomen) só se adaptava ao movimento em linha reta requerido pelo bombeamento; ainda não fora descoberto o meio de converter a ação retilínea do êmbolo num movimento rotativo. Ambos esses defeitos foram finalmente remediados por James Watt, um construtor de aparelhos científicos da Universidade de Glasgow. Em 1763 Watt foi encarregado de corrigir um modelo da máquina de Newcomen. Enquanto se dedicava a isso, concebeu a idéia de que ela podia ser muitíssimo melhorada com a adição de uma câmara especial para condensar o vapor, de maneira a eliminar a necessidade de resfriar o cilindro. Em 1769 patenteou sua primeira máquina com o acréscimo desse dispositivo. Mais tarde, inventou uma nova disposição de válvulas que permitiam a injeção de vapor em ambas as extremidades do cilindro, fazendo com que o êmbolo trabalhasse tanto para a frente como para trás. Em 1782 descobriu um meio de converter a ação do êmbolo em movimento circular, capacitando assim o motor a mover a maquinaria das fábricas. Infelizmente, o gênio inventivo de Watt não era igualado pela sua habilidade comercial. Confessava que "preferia enfrentar um canhão carregado a acertar uma conta duvidosa ou a fechar um negócio". O resultado foi endividar-se ao tentar colocar as suas máquinas no mercado. Foi salvo por Matthew Boulton, próspero negociante de ferragens de Birmingham. Os dois formaram uma sociedade por comandita em que Boulton era o sócio capitalista, e pelo ano de 1800 a firma já havia vendido 289 motores para fábricas e minas.

Poucas invenções tiveram maior influência na história dos tempos modernos que a da máquina a vapor. Ao contrário do que geralmente se pensa, não foi a causa inicial da Revolução Industrial mas sim, em parte, um efeito desta.  O motor de Watt, pelo menos, nunca se teria tornado realidade se não fosse a procura de uma fonte eficiente de energia para mover as pesadas máquinas já inventadas na indústria têxtil. Por outro lado, é indiscutível que o aperfeiçoamento da máquina a vapor promoveu um desenvolvimento mais rápido da industrialização. Deu uma nova importância à produção do carvão e do ferro. Possibilitou, como veremos em seguida, uma revolução nos transportes. Abriu oportunidades quase ilimitadas à aceleração das manufaturas, tornando as nações industrializadas as mais ricas e poderosas do mundo. Antes do desenvolvimento da máquina a vapor, as reservas de energia estavam, em grande parte, à mercê das variações do tempo atmosférico. Durante as secas, a baixa dos rios podia forçar os moinhos a restringir suas atividades ou mesmo a suspendê-las por completo. Os navios, nas travessias do oceano, atrasavam-se semanas inteiras por falta de vento. De ora em diante, porém, haveria um fornecimento constante de energia que poderia ser aproveitada quando necessário. Não é, portanto, exagero afirmar que a invenção de Watt assinalou o verdadeiro começo da era da força motriz.

Uma das indústrias que deveram o seu rápido desenvolvimento ao aperfeiçoamento da máquina a vapor foi a manufatura de ferro e de produtos deste metal.  Se bem que muitas das novas máquinas, como a spinning jenny e o bastidor hidráulico, pudessem ser construídas de madeira, as máquinas a vapor exigiam material mais resistente. Além disso, os seus cilindros deviam ser calibrados com a maior precisão possível a fim de evitar a perda de vapor, o que necessitava um progresso considerável na produção de máquinas-ferramentas e nos métodos científicos da manufatura do ferro. O pioneiro deste trabalho foi John Wilkinson, um fabricante de canhões. Em 1774, Wilkinson patenteou um método de calibrar cilindros, método que reduzia a margem de erro a uma quantidade diminuta para aquela época. Mais tarde dedicou-se à construção de lanchões de ferro e à produção de chapas para pontes metálicas. Jamais escrevia uma carta sem mencionar o ferro em cada página e dispôs no seu testamento que o enterrassem num caixão de ferro. Ainda mais importantes que as contribuições de Wilkinson foram as realizações de outro inglês, Henry Cort, um empreiteiro naval. Em 1784 Cort inventou o método da pudlagem, que consiste em agitar o ferro em fusão a fim de eliminar grande percentagem do seu conteúdo de carbono. Isso possibilitava a produção de um metal de qualidade superior, quase tão duro quanto o ferro forjado e muito mais barato. Dois anos mais tarde Cort inventou o laminador para a fabricação de chapas de ferro. Essas duas inovações revolucionaram a indústria. Em menos de vinte anos a produção de ferro na Inglaterra quadruplicou e o preço caiu a uma fração do que era antes.

As transformações fundamentais nos processos de produção, que acabamos de descrever,  foram logo seguidas de momentosas inovações no setor dos transportes.    Os primeiros sinais de uma melhora positiva nos métodos de viajar começaram a surgir nas proximidades de 1780. Foi por essa época que se começou a tratar seriamente, na  Inglaterra,   da  construção   de  canais  e  de  estradas   de  pedágio. Nas alturas de  1830, quase todas as grandes estradas tinham sido drenadas e empedradas, ao passo que as principais vias  fluviais se achavam ligadas por uma rede de 4.000 quilômetros de canais.    A melhoria  das  estradas  possibilitou  um   serviço   de  diligências  mais rápido. Em 1784 o diretor-geral dos correios inaugurou um serviço postal com carruagens que corriam continuamente, dia e noite, co-brindo uma distância de 200 quilômetros em vinte e quatro horas. Ao findar o século diligências especiais, conhecidas como "máquinas voadoras", ligavam entre si todas as cidades principais do país, alcançando por vezes a velocidade extraordinária de 15 ou 16 quilômetros por hora.

Mas o progresso verdadeiramente importante nos transportes só começou após a adoção generalizada da máquina a vapor como fonte segura   de    energia.     Fizeram-se   tentativas   para adaptar o vapor às diligências e alguns desses antepassados do automóvel moderno chegaram realmente a correr nas estradas. A mais bem sucedida foi uma que Richard Trevithick construiu em 1800 e que chegou a percorrer 150 quilômetros na estrada de Londres a Plymouth. Aos poucos ganhou terreno a idéia de que seria mais proveitoso utilizar a máquina a vapor para puxar uma fieira de carruagens sobre carris de ferro. Já existiam algumas dessas estradas de ferro para transportar carvão, mas os carros eram tirados por cavalos.    Deve-se o aparecimento da primeira estrada de ferro a vapor a George Stephenson, um mecânico autodidata que só aprendera a ler aos dezessete anos. Trabalhando como maquinista numa mina de carvão, dedicava as suas horas de folga a fazer experimentos com locomotivas. Em 1822 convenceu das vantagens da tração a vapor um grupo de homens que estavam projetando uma estrada de ferro para o transporte de carvão entre Stockton e Darlington e foi nomeado engenheiro da linha com carta branca para executar os seus planos. O resultado foi a inauguração, três anos depois, da primeira estrada de ferro com máquina a vapor. As locomotivas que ele construiu para essa linha alcançavam a velocidade de 24 quilômetros horários, inaudita para a época. Em 1830 projetou a famosa Rocket (Foguete), que começou a correr sobre os trilhos da estrada Manchester-Liverpool com uma velocidade quase dupla da dos primeiros modelos. Antes de Stephen-son morrer, em 1848, cerca de 10.000 quilômetros de estradas de ferro tinham sido construídas na Inglaterra e mais ou menos outro tanto nos Estados Unidos.

Entrementes, a máquina a vapor ia sendo paulatinamente aplicada ao  transporte  fluvial.    Neste  setor  foram  os americanos  e não  os ingleses que tomaram a dianteira. Ainda hoje se discute sobre quem, precisamente, pode ser apontado como o inventor do barco a vapor.    Há indícios de terem contribuído para ele vários indivíduos. A crer nos registros da época, o primeiro que conseguiu movimentar um barco exclusivamente a vapor foi um mecânico da Virgínia chamado James Rumsey. Em 1785, na presença de George Washington, conduziu ele a sua máquina contra a corrente do Potomac a cerca de sete quilômetros por hora. Pouco depois um outro americano, John Fitch, construiu um barco que chegou a transportar passageiros durante alguns meses, em 1790, no rio Delaware. O barco a vapor de Fitch assume particular importância pelo fato de possuir uma hélice em lugar da roda de pás empregada por todos os demais inventores. Mas Fitch jamais conseguiu fazer do seu invento um sucesso financeiro. Após inúteis tentativas de interessar os governos na adoção daquele, suicidou-se em 1798. Ainda a um terceiro americano, Robert Fulton, é atribuído o mérito de haver convertido o barco a vapor num êxito comercial. É duvidoso que Fulton fosse mais inventivo do que Rumsey ou Fitch, mas teve bastante tino financeiro para conseguir fundos com um rico capitalista e soube, além disso, manter-se em evidência perante o público. Em 1807 foi aclamado como um herói nacional quando o seu Clermont, equipado com uma máquina de Boulton & Watt e uma roda de pás, fêz todo o percurso entre Nova York e Albany sem o auxílio de velas. Estava inaugurada a   era  da  navegação  a vapor.    Dentro  em  breve,  barcos  de  rodas semelhantes aos de Fulton percorriam os rios e lagos não só da América mas também da Europa. Em abril de 1838 os primeiros vapores, o Sirius e o Great Western, cruzaram o Atlântico. Dois anos mais tarde Samuel Cunard fundou a famosa "Cunard Line", oferecendo um serviço transoceânico regular com navios inteiramente movidos a vapor.

O progresso mais significativo das comunicações na primeira fase da Revolução Industrial foi a invenção do telégrafo. Já em 1820 o físico francês Ampere havia descoberto que o eletromagnetismo podia ser usado para transmitir mensagens por meio de um fio entre pontos distantes. Só faltava inventar aparelhos eficientes para transmitir e receber os despachos. Experimentos nesse sentido foram tentados por vários indivíduos, três dos quais alcançaram êxito quase simultaneamente. Em 1837 foram inventados sistemas de telégrafo elétrico pelo alemão Karl Steinheil, pelo inglês Charles Wheatstone e pelo americano Samuel Morse. Só em 1844, porém, foi que se instalou a primeira linha telegráfica dotada de bastante eficiência para poder ser explorada com fins comerciais. Foi ela a linha entre Baltimore e Washington, construída a instâncias de Morse e em vista dos melhoramentos que ele próprio havia introduzido na sua invenção. Uma vez iniciados, os sistemas telegráficos multiplicaram-se em todo o mundo. Dentro em breve todas as cidades importantes achavam-se ligadas entre si e em 1851 foi lançado um cabo através do Canal da Mancha. O coroamento veio com a inauguração do primeiro cabo transatlântico, em 1866, por iniciativa do capitalista americano Cyrus Field.

No nosso estudo da Revolução Comercial vimos que esse movimento  se   fizera  acompanhar,   especialmente  na  Inglaterra,   de  momentosas mudanças na agricultura, tais como a liquidação do sistema senhorial, a tapagem das terras    comuns e a junção dos lotes individuais. A Revolução Industrial também teve as suas repercussões na agricultura, as quais se fizeram notar sobretudo nos primeiros sessenta anos do século XIX. Entre elas figuram o aperfeiçoamento das raças de gado, a introdução de novas culturas, como a da beterraba açucareira, que passou a ser plantada em larga escala na Alemanha e na França, e o desenvolvimento da química agrícola por Justus von Liebig (1803-73), que tornou possível a produção de adubos arti-ficiais. A agricultura também sofreu, nesse período, a influência da mecanização. Criaram-se melhores arados e grades e generalizou-se o emprego da debulhadora. Em 1834 o fazendeiro americano Cyrus McCormick tirou patente da sua ceifadeira mecânica e logo depois começou a fabricá-la em Chicago. Em 1860 essas máquinas eram vendidas   numa  média   de  20.000  por   ano.    Em   consequência   das várias melhorias apontadas, a agricultura em todo o mundo gozou de uma prosperidade sem precedentes, que durou até a grande crise de 1873.

4. A  SEGUNDA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Aproximadamente em 1860 a Revolução Industrial entrou numa nova fase, tão diferente da que a precedera que alguns historiadores propõem   chamá-la   Segunda  Revolução   Industrial. Os principais acontecimentos que a anunciaram foram em número de três: a invenção  do  processo Bessemer  na  siderurgia,   em   1856;   o  aperfeiçoamento do dínamo por volta de 1873 ; e a invenção do motor de combustão interna, em 1876. De um modo geral, os característicos que servem para distinguir a Segunda Revolução Industrial da primeira são: 1) a substituição do ferro pelo aço como material industrial básico; 2) a substituição do vapor pela eletricidade e pelos produtos do petróleo como principais fontes de força motriz; 3) o desenvolvimento da maquinaria automática e de um alto grau de especialização do trabalho; 4) o uso de ligas, de metais leves e dos produtos da química industrial; 5) mudanças radicais nos transportes e comunicações; 6) o desenvolvimento de novas formas de organização capitalista; e 7) a extensão da industrialização à Europa Central e Oriental e mesmo ao Extremo Oriente. É necessário dizer algumas palavras a respeito de cada um desses fatos marcantes.

Havia séculos que se conheciam os métodos de fabricação de aço. Já no ano 1000 os sarracenos produziam excelentes espadas de aço em Damasco.  Desde os  fins  da  Idade  Média os europeus  também  tinham  aprendido  a  preparar  o cobiçado metal.    Mas os métodos eram morosos e difíceis, e o produto saía muito caro.  Em 1856, Sir Henry Bessemer descobriu que a injeção de um jato de ar no ferro em fusão eliminava quase todo o carbono, convertendo assim o ferro em aço. O resultado foi fazer baixar o preço deste metal a menos de um sétimo do custo primitivo. Quando se verificou que o novo processo só podia ser aplicado a minérios de alto teor, dois químicos ingleses, Sidney Thomas e P. C. Gilchrist, trataram de melhorá-lo. Em 1878 descobriram um método pelo qual o ferro mais inferior, com alto teor de fósforo, podia converter-se em aço. As consequências foram pasmosas. Não só o ferro fosfórico da Inglaterra começou a ser usado, mas também enormes jazidas da Lorena, da Bélgica e dos Estados Unidos se tornaram, de súbito, imensamente valiosas. Entre 1880 e 1914 a produção de aço da Grã-Bretanha subiu de 2 a 7 milhões de toneladas, na Alemanha de 1 a 15 milhões e nos Estados Unidos de 1.600.000 a 28 milhões. O aço suplantou quase completamente o ferro para trilhos ferroviários, para o arcabouço de grandes edifícios, para pontes e outros fins que exigiam um metal barato mas de alta tenacidade.

O afastamento do vapor como fonte básica de força motriz resultou acima de tudo da invenção do dínamo, uma máquina capaz de converter a energia mecânica em energia elétrica. Se bem que o princípio do dínamo tivesse sido formulado por Michael Faraday em 1851, nao se conheceu, antes de 1873, nenhuma máquina desse tipo que se prestasse para fins práticos. A partir dessa data a utilização da energia elétrica na maquinaria industrial progrediu a passos de gigante. O vapor começou a ser gradualmente relegado a um plano inferior, sendo usado sobretudo para mover dínamos. Em certas regiões, mormente onde o carvão era escasso, foi ele substituído, rnesmo para esse fim, pela energia hidráulica. Em 1929 a eletricidade fornecia dois terços da força motriz requerida pela indústria britânica, sendo a proporção ainda maior na Alemanha. A A.E.G. (Allgemeine Elektrizitätsgesellschaft), com a fabricação de motores, geradores e outros equipamentos elétricos, tornou-se a maior unidade industrial da Europa.

Um segundo invento revolucionário foi o da utilização dos produtos do petróleo como nova fonte de energia. Já havia algum tempo que se conhecia o petróleo quando o seu valor foi descoberto. A princípio, em meados do século XIX, era tido como uma curiosidade. Rotulado como "óleo dos índios" ou "óleo dos sênecas", era vendido nos Estados Unidos pelas suas propaladas virtudes medicinais. Mesmo depois de conhecida a sua utilidade como lubrificante, o petróleo teve limitado emprego em razão da sua escassez. Em 1859 Edwin L. Drake resolveu o problema do abastecimento perfurando o primeiro poço petrolífero perto de Titusville, na Pensilvânia. Aos poucos descobriram-se novos usos para o produto, embora durante muitos anos a maior parte dele se destinasse à fabricação de querosene para lampiões. Em 1876, entretanto, Nikolaus Otto inventou o primeiro motor de combustão interna bem sucedido. Foi esse o marco inicial de uma série de progressos que assinalaram a aurora de uma era motorizada. Alguns anos depois Gottlieb Daimler adaptou o motor de combustão interna ao uso da gasolina em lugar do gás natural e Karl Benz equipou-o com a faísca elétrica para inflamar o combustível. O aperfeiçoamento do carburador nas proximidades de 1890 por outro alemão, de nome Maybach, também muito contribuiu para aumentar as potencialidades da gasolina como fonte de energia. Finalmente, em 1897, Rudolf Diesel inventou um motor de combustão interna que já não usava gás nem gasolina, mas óleo cru. A instalação de motores Diesel em locomotivas e navios ameaça eliminar o vapor como fonte direta de energia até nesses seus últimos redutos da indústria de transportes.

Entre as  feições mais típicas  da  Segunda Revolução. Industrial contaram-se   a   introdução   da   maquinaria   automática,  um   enorme desenvolvimento da produção em massa e a extrema divisão do trabalho nos processos de fabricação. Estas três coisas têm caminhado juntas desde os anos   que   precederam   imediatamente   a   Primeira Guerra Mundial.    Exemplo característico do desenvolvimento da maquinaria automática foi a invenção da célula fotoelétrica ou "olho elétrico", que pode ser empregada  para  ligar  e  desligar  comutadores, abrir portas, classificar ovos,  inspecionar produtos enlatados, contar folhas de papel e medir-lhes a espessura, e até para acusar dinheiro falso. Inventaram-se máquinas para dirigir e fazer funcionar outras máquinas, bem assim como para executar séries inteiras de processos de fabricação que outrora absorviam muito trabalho humano. A maquinaria automática não só favoreceu um extraordinário desenvolvimento da produção em massa, senão que o volume das mercadorias produzidas cresceu consideravelmente com a adoção da correia transportadora sem fim. A idéia foi inicialmente copiada por Henry Ford, mais ou menos em 1908, dos enfardadores de carne de Chicago, os quais usavam um trólei suspenso para fazer circular as carcaças ao longo de uma fila de magarefes. Ford aperfeiçoou gradualmente o processo, até poder montar um chassi completo do seu famoso "Modelo T" em uma hora e trinta e três minutos. Mais recentemente, o sistema da correia transportadora e da linha de montagem, em que o trabalhador repete o dia inteiro uma tarefa simples e monótona, foi adotado em todas as fábricas de automóveis dos Estados Unidos, bem como em muitas outras indústrias. Tem ele proporcionado ao mundo uma espantosa abundância de mercadorias e reduzido o preço de certos artigos que constituíam anteriormente um luxo só acessível aos ricos; ninguém, contudo, é capaz de prever ainda os graves efeitos que poderá ter sobre o espírito e o moral dos operários.

As transformações recentes dos métodos de produção têm provindo não só da invenção de máquinas complicadas mas também do papel cada vez mais dominante eme a ciência vem desempenhando na indústria. A verdade é que as descobertas importantes da Segunda Revolução Industrial têm emanado com mais frequência dos laboratórios de física ou química do que do cérebro dos inventores natos. A supremacia da ciência no campo da indústria deixou-se entrever pela primeira vez quando William Henry Perkin obteve, em 1856, a primeira anilina, ou seja o primeiro corante extraído do coltar (alcatrão mineral).   Foi esse o início de um maravilhoso desenvolvimento da química sintética.    Descobriu-se que desse mesmo alcatrão mineral era possível extrair literalmente centenas de corantes, além de uma infinita variedade de outros produtos, tais como o anil, a aspirina, o óleo de gaultéria, a essência de flores de la-ranja, a sacarina, o ácido fênico e a essência de baunilha. Com o passar dos anos, muitas substâncias novas foram adicionadas à lista dos produtos sintéticos. Inventaram-se métodos para obter papel de polpa de madeira, para sintetizar ácido nítrico com os elementos do ar, para extrair glicose e amido do milho e seda artificial das fibras de madeira. Nestes últimos anos realizaram-se notáveis progressos na criação de matérias plásticas obtidas de várias substâncias, tais como a caseína, o fenol e derivados do carvão e do coque. Os guidões de alguns dos mais recentes modelos de automóveis são feitos, em última análise, de carvão, água, acetato e celulose. Já se tem produzido borracha artificial de boa qualidade por vários processos baseados no uso quer do carvão, quer do petróleo. Os químicos também vieram em auxílio de muitas antigas indústrias, descobrindo meios de utilizar subprodutos até então desvaliosos ou aumentando rendimento das fontes de matéria-prima existentes. O caroço de algodão, por exemplo, é transformado em celulóide, em cosméticos, em pólvora sem fumaça e azeite de cozinha, ao passo que o processo de refinação da gasolina pelo "cracking" elevou a mais do dobro o rendimento da mesma quantidade de petróleo.

O emprego dos metais leves e das ligas de ferro está em nossos dias  intimamente  ligado  aos  progressos   da  química  industrial.    O mais  antigo  dos metais leves,  o  alumínio,  embora descoberto  em   1828,  não  começou  a  ter  um  uso    generalizado senão por volta de 1900.  É extraído de uma argila conhecida pelo nome de bauxita, a qual  abunda  em   certos  países   como   a  França,  a Iugoslávia e os Estados Unidos.    Como a produção do alumínio é mais cara que a do aço, o seu uso, até hoje, tem-se limitado em grande parte aos motores de automóveis e aviões, caixilhos e telas  de janela e utensílios  de cozinha. O magnésio,  um metal muito mais raro, foi empregado na construção de aviões durante a Segunda Guerra Mundial e de então para cá tem sido adaptado a outros usos restritos. Obtido inicialmente pela eletrólise do cloreto de magnésio, é hoje fabricado em larga escala com água do mar. Não menos importantes que os metais leves são as chamadas ligas do ferro, que incluem o manganês, o cromo, o tungstênio, o vanádio, o   mojibdeno   e   alguns   outros   metais.    Encontrados   sobretudo   em países como a China, a Turquia, a Rússia, a Índia e a Rodésia, são indispensáveis à indústria moderna. Só elas podem comunicar ao aço a dureza e a tenacidade exigidas pela produção de máquinas-ferramentas. Juntamente com outros materiais de primeira necessidade que se encontram disseminados por países distantes entre si, elas constituem um excelente exemplo da interdependência econômica das várias partes do mundo contemporâneo.

A segunda fase da Revolução Industrial presenciou uma revolução nos transportes e nas comunicações, talvez maior que a da primeira. Depois  de  1860 verificou-se uma atividade febril na construção de vias  férreas.   Antes dessa data, havia no máximo uns 50.000 quilômetros de trilhos assentados no mundo inteiro. Em  1890, a quilometragem elevara-se a 32.000 só na Grã-Bretanha, a 42.000 na Alemanha e a 270.000 nos Estados Unidos. O próprio serviço ferroviário foi muito melhorado pela invenção do freio de ar comprimido, em 1868, e pela introdução do carro-dormitório, do carro-restaurante e do sistema de sinais automáticos de bloqueio logo depois. Nos últimos tempos tem-se dado muita atenção ao aumento da velocidade dos trens. Composições aerodinâmicas equipadas com motores Diesel percorrem grandes distâncias à velocidade média de 120 ou mais quilômetros por hora. Desde 1918, no entanto, as estradas de ferro têm sido grandemente prejudicadas pela concorrência de novas formas de transporte. Sirva de ilustração a queda do número de passageiros dos trens americanos, que foi de 1.200.000.000 em 1920 e de 434.000.000 em 1933. Durante o mesmo período, o volume das cargas baixou de 2.400.000.000 de toneladas para 1.300.000.000. Em 1950 o número de passageiros transportados tinha subido para apenas 488.000.000, apesar de um aumento de população avaliado em 20%. No mesmo ano, o volume das cargas foi de 2.700.000.000 de toneladas, mas só o futuro poderá dizer se se tratou ou não de um acréscimo temporário devido à guerra da Coréia e ao estímulo que esta ofereceu à indústria.

O maior concorrente das estradas de ferro é, já se vê, o automóvel com os seus derivados — o ônibus e o caminhão.    Impossível apontar um indivíduo  determinado  como  inventor do automóvel, embora sejam vários os que reivindicam essa honra. Tanto Daimler como Benz construíram veículos a gasolina na Alemanha pelas alturas de 1880, mas os seus inventos eram pouco mais do que triciclos motorizados. O primeiro a adaptar o princípio do motor de combustão interna a uma carruagem parece ter sido o francês Levassor. Em 1887 criou ele um veículo com motor na frente, em que a transmissão ao eixo traseiro se fazia por meio de uma embreagem, um eixo e engrenagens redutoras e diferenciais. Tanto quanto se pode saber, foi o primeiro automóvel da história. Evidentemente, muitas outras invenções eram necessárias para fazer do automóvel um meio de condução eficiente e confortável. Não foram das menos importantes o pneumático, que J. B. Dunlop aperfeiçoou em 1888, e o arranque automático inventado por Charles Kettering mais ou menos em 1910. Mas o automóvel continuaria sendo indefinidamente um luxo para os ricos se Henry Ford não tivesse resolvido produzir um carro acessível às pessoas de posses medianas. Em 1908 iniciou a fabricação do seu Modelo T, na teoria de que poderia ganhar mais dinheiro vendendo uma grande quantidade de carros baratos, com pequena margem de lucro, do que oferecendo um produto caro a uns poucos privilegiados. Outras companhias seguiram-lhe o exemplo, donde resultou tornar-se a indústria automobilística, já em 1928, o mais importante ramo da produção norte-americana.

Desde a década de 1920 a aviação tem-se tornado uma das principais formas de transporte e a fabricação de aviões, uma importante indústria. Como a invenção do automóvel, a do aeroplano não pode ser atribuída a uma só pessoa. A idéia de que um dia o homem seria capaz de voar é na verdade bem antiga. Não somente foi sugerida por Roger Bacon no século XIII, mas chegou a concretizar-se em alguns planos definidos de máquinas voadoras concebidas pelo espírito fecundo de Leonardo da Vinci. Não obstante, o nascimento da aviação como uma possibilidade mecânica data da última década do século passado. Foi por essa época que Otto Lilienthal, Samuel P. Langley e outros iniciaram seus experimentos com máquinas mais pesadas do que o ar. O trabalho de Langley foi continuado pelos irmãos Wright, que, em 1903, realizaram o primeiro vôo bem sucedido num aeroplano movido a motor. A partir de então o progresso foi rápido. Em 1908 os irmãos Wright voaram perto de cem milhas (160 km). No ano seguinte Louis Blériot atravessou a Mancha no monoplano havia pouco inventado por ele. Em 1911 um outro francês, Prier, realizou um vôo direto de Paris a Londres. Durante a Primeira Guerra Mundial cada uma das nações beligerantes fêz todos os esforços possíveis para utilizar as possibilidades do avião como instrumento de morte. Em resultado disso, amiudaram-se os progressos no planejamento e na eficiência. Não devemos esquecer, entretanto, que mesmo sem a guerra o progresso teria sido rápido, pois, desde que uma invenção obtém sucesso, os aperfeiçoamentos se sucedem em progressão geométrica. Em todo caso, por volta de 1919 a aceitação geral do aeroplano como meio de transporte levou a estabelecer um serviço regular entre Londres e Paris.  Atualmente linhas de passageiros, expressas e postais ligam quase todas as cidades importantes do mundo.    Durante o ano de 1952 as várias companhias com serviços regulares nos Estados Unidos transportaram um total de mais de 23.000.000 de passageiros.

Os primórdios da Revolução Industrial, ou seja a era do carvão e do ferro, trouxeram consigo apenas um progresso importante nas comunicações. Foi ele, como já vimos, a invenção do telégrafo, que já em 1860 estava em pleno uso. A era da   eletricidade  e   do  motor   de  combustão interna  foi  acompanhada  pelo  aperfeiçoamento  de várias invenções que anularam, por assim dizer, o tempo e as distâncias na divulgação de notícias e na comunicação com lugares longínquos. Em primeiro lugar surgiu o telefone, cuja invenção se atribui geralmente a Alexander Graham Bell, se bem que algumas horas apenas depois de ele ter requerido patente em Washington, no dia 15 de fevereiro de 1876, Elisha Gray se apresentou praticamente com a mesma ideia. A seguir veio o telégrafo sem fio, inventado por Guglielmo Marconi com base nos des-cobrimentos de Heinrich Hertz e outros a respeito da transmissão das ondas eletromagnéticas através do éter. Em 1899 Marconi transmitiu uma mensagem sem fio através do Canal da Mancha e, dois anos mais tarde, através do Atlântico. A invenção do telégrafo sem fio aplainou o caminho para o desenvolvimento do rádio, do telefone sem fio e da televisão. O primeiro tornou-se possível graças aos trabalhos de Lee De Forest, o inventor da válvula eletrônica, e o segundo pelas descobertas de Poulsen e Fessenden. As rádio-transmissões comerciais iniciaram-se em 1920 e o serviço telefônico entre a Inglaterra e os Estados Unidos foi inaugurado em 1927. Deve-se ao escocês J. L. Baird o milagre da televisão que, apesar de ter surgido em 1926, somente cerca de vinte anos depois pôde ser adaptado ao uso prático.

A precedente lista de invenções não esgota em absoluto o registro dos  progressos  mecânicos  da   Segunda  Revolução   Industrial. Devemos mencionar  especialmente a invenção da luz elétrica, uma das que mais contribuíram, em toda a história,  para o bem-estar da  raça humana. Não só aumentou o conforto e a segurança da vida contemporânea mas também foi uma dádiva preciosa para os mineiros, sem falar de muitas operações difíceis da cirurgia moderna que seriam impossíveis sem ela. A luz elétrica foi concebida em primeiro lugar por Sir Humphrey Davy, aproximadamente em 1820, mas só se tornou um êxito comercial em 1879, quando Thomas A. Edison inventou a lâmpada de filamento incandescente. Mesmo depois disso foram necessários inúmeros melhoramentos para que seu uso se generalizasse. Somente ao completar o imigrante austríaco Nikola Tesla os seus experimentos com a corrente alternada, em 1888, é que foi possível instalar sistemas de iluminação nas ruas e nas casas de cidades inteiras. Entre outras conquistas mecânicas importantes do período iniciado em 1860 contam-se a invenção da linotipo por Ottmar Mergenthaler, o aperfeiçoamento da refrigeração artificial por J. J. Coleman e outros, a invenção da máquina de escrever por Charles Sholes e Carlos Glidden e o desenvolvimento da fotografia cinematográfica, que se deve principalmente a Edison.

A Segunda Revolução Industrial distinguiu-se desde o início não só por  meros  avanços técnicos,  mas  ainda  mais  notadamente  pelo desenvolvimento   de  novas   formas  de   organização capitalista.  De um modo geral, a era do carvão e do ferro foi também a era das pequenas empresas. Pelo menos até os meados do século XIX, a sociedade coletiva ainda era a forma dominante de organização comercial. É certo que muitas dessas sociedades comerciavam em larga escala, mas não se podiam comparar com as gigantescas companhias de época mais recente. Seu capital consistia principalmente em lugros reaplicados no negócio e os sócios, em geral, tinham uma parte ativa no trabalho de direção. Também tinham sido formadas muitas companhias por ações, mas, salvo quanto à estabilidade e à responsabilidade limitada, estas pouco diferiam das sociedades coletivas. Todos esses tipos de organização, na medida em que se ocupavam com a manufatura, a mineração ou os transportes, podem ser considerados como formas de capitalismo industrial. Durante a Segunda Revolução Industrial, especialmente depois de 1890, o capitalismo industrial foi em grande parte sobrepujado pelo capitalismo financeiro, um dos desenvolvimentos mais decisivos da época moderna. O capitalismo financeiro tem quatro característicos principais: 1) o domínio da indústria pelos bancos de investimentos e pelas companhias de seguros; 2) a formação de imensas acumulações de capital; 3) a separação entre a propriedade e a direção; e 4) o aparecimento dos holdings ou companhias detentoras. Cada um destes fatos requer uma breve explanação.

Um dos primeiros exemplos de domínio da indústria pelo bancos de investimentos foi a formação da "United States Steel Corporation" em 1901, com o auxílio de J. P. Morgan  & Cia. Desde então as instituições financeiras passaram a controlar   um   número   sempre   crescente   de   companhias americanas.    É verdade que não possuem todo   o   capital   dessas companhias,   nem   mesmo uma fração considerável dele.    Muitas das grandes companhias de hoje têm centenas de milhares de acionistas.  Mas a grande maioria dessas pessoas  são absenteístas que pouco ou nada influem na política da instituição, e algumas de suas ações nem sequer dão direito a votar nas assembleias. Os bancos e as companhias de seguros exercem o controle, em alguns casos, pela posse de uma maioria de ações com direito a voto e, em outros casos, por meio de empréstimos flutuantes feitos sob condições que conferem amplos poderes aos emprestadores ou lhes dão direito a uma representação junto às diretorias.

As gigantescas acumulações de capital que vieram a caracterizar a organização industrial moderna incluem  os trustes,  as  fusões  de empresas e os cartéis.    Todos eles são organizados para a mesma  finalidade: restringir ou suprimir a concorrência. Os trustes são combinações de todos ou quase todos os produtores de certos artigos a fim de controlar-lhes o preço e a produção. As fusões ocorrem entre companhias que produzem os mesmos artigos ou artigos relacionados. Diferem dos primeiros pelo fato de as unidades constituintes perderem completamente a sua individualidade, "fundindo-se" numa nova companhia. Os cartéis podem ser definidos como associações livres de companhias independentes com o propósito principal de restringir a concorrência na venda dos seus produtos. Diferem tanto dos trustes como das fusões de empresas em não constituírem entidades corporativas. Não emitem ações e não têm uma direção centralizada. Podem funcionar tanto na escala nacional como na internacional. Durante a década de 1930 alguns governos europeus favoreceram a formação de cartéis nacionais no intuito de fortalecer as suas indústrias contra a concorrência estrangeira. Mas os mais interessantes, e talvez os mais importantes tipos de cartéis são aqueles que transpõem as fronteiras internacionais. Antes da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, algumas companhias americanas tinham formado cartéis com companhias similares da Alemanha, estabelecendo uma troca de patentes e descobertas e dividindo  entre si os mercados mundiais para evitar a concorrência.

O terceiro elemento do capitalismo financeiro é a separação entre a propriedade e a direção.    Os verdadeiros proprietários das empresas industriais  são  os  milhões  de pessoas  que  empregaram as suas economias em ações; a direção está nas mãos de um grupo de funcionários e de diretores eleitos por uma minoria de acionistas que monopolizaram as ações com direito a voto ou reuniram as procurações dos seus colegas absenteístas. Em alguns casos, os funcionários pouco mais são do que empregados assalariados, possuindo uma insignificante percentagem do capital da companhia. Não é raro o caso, até, de preferirem eles inverter os seus ganhos excedentes   em   empresas   mais   sólidas   do   que   aquelas   a   que  presidem. O capitalismo financeiro inclui, por fim, o desenvolvimento dos holdings ou companhias detentoras como uma das formas básicas de organização capitalista. O holding é um estratagema pelo qual certo número de unidades de produção são reunidas sob o controle de uma companhia que lhes monopoliza a maioria das ações. A companhia detentora não se dedica à produção, mas a sua renda consiste nos honorários dos diretores e nos dividendos pagos pelas unidades produtoras. Se bem que a justifique, por vezes, o fato de promover a integração da indústria e facilitar a expansão dos negócios, é ela na realidade um símbolo do triunfo do financista sobre a figura fora da moda do capitalista produtor.

É preciso salientar, por último, que desde 1860 a industrialização se   tem   estendido   a   quase   todos   os   países   do   mundo   civilizado. Na era do carvão e do  ferro a produção mecanizada se restringira principalmente à Grã-Bretanha, França,  à  Bélgica  e  aos   Estados  Unidos;  e  a primeira, é claro, estava muito mais adiantada do que os demais. Depois de 1860, a industrialização disseminou-se rapidamente e todas as grandes potências vieram, com o tempo, a colher com abundância os  seus benefícios e os seus males.   A adoção dos novos métodos fêz-se notar em particular na Alemanha.    Antes de 1860 os estados alemães tinham sido  predominantemente agrários  e  pelo  menos  60%   do  seu  povo tirava a subsistência do solo.    Pelas alturas de 1914, o império   dos kaisers  era a maior  nação  industrial  da  Europa,  produzindo  mais aço do que a Inglaterra e colocando-se à frente do mundo inteiro na manufatura de produtos químicos, corantes de anilina e equipamento elétrico  e  científico.    São vários  os  fatores  principais  de tão prodigiosa expansão.    Em primeiro lugar, não existia na Alemanha a tradição  do  laissez-faire.    Desde  muitos  anos  os   seus  economistas vinham  pregando  que  o  estado   devia  intervir  de  todos  os  modos possíveis para promover o poderio econômico da nação.    Conseqüentemente, foi fácil ao governo fortalecer indústrias fracas, nacionalizar as estradas de ferro e administrá-las no interesse do comércio, e até mesmo  encorajar o  desenvolvimento  dos  trustes.    Em  segundo  lugar, o povo alemão estava habituado  à disciplina,  à submersão da personalidade individual no seio do grupo.    A Prússia sempre fora um estado militar e o seu sistema de inculcar a ordem e a obediência pelo   serviço   militar   obrigatório   era   encarado   como   o   alicerce  do império. Como terceira razão podemos mencionar a importância dada nas escolas ao ensino das ciências aplicadas, donde resultava uma abundante reserva de técnicos que podiam ser empregados pelas companhias industriais por salários muito baixos. As famosas fábricas de munição Krupp, em Essen, possuíam um corpo de cientistas experimentados maior que o de qualquer universidade do mundo. Em último lugar, mas não entre os menos importantes, está o fato de ter a Alemanha adquirido, em virtude da sua vitória sobre a França em 1870, as ricas jazidas de ferro da Lorena, que chegaram a fornecer três quartos do minério necessário à sua indústria básica do aço.

A industrialização não atingiu a Europa Oriental tão rapidamente quanto   à   Alemanha,  nem  progrediu  tanto   ali.    Não   obstante,   em 1890 iniciou-se na Rússia um desenvolvimento considerável do sistema fabril e dos transportes mecanizados.    Nesse país como na Alemanha, a Revolução Industrial foi em parte uma consequência do apoio  governamental.    Sob a influência de  Sérgio de Witte, notável ministro sob Alexandre III e Nicolau II, o governo dos czares cobrou direitos proibitivos sobre as mercadorias importadas e tomou dinheiro emprestado à França para subvencionar a construção de estradas de ferro e numerosas empresas industriais. Esses e outros esforços deram resultados pasmosos. Em 1914 a Rússia produzia mais ferro do que a França, sua produção de carvão tinha-se elevado a mais do dobro e, na indústria têxtil, o país colocava-se em quarto lugar no mundo. Havia nada menos de três milhões de pessoas a trabalhar nas manufaturas, enquanto alguns estabelecimentos industriais empregavam 10.000 ope-rários. Na Itália e no Japão, a Revolução Industrial também progrediu em grande parte devido à intervenção do estado, pelo menos na sua fase inicial. Em ambos esses países o movimento começou por volta de 1880 e ao deflagrar a Primeira Guerra Mundial havia completado um ciclo de nítido progresso. Na Itália, o governo ampliou o sistema ferroviário e promoveu tal desenvolvimento das indústrias de seda e algodão que as exportações italianas aumentaram de quase 300% entre 1895 e 1914. As realizações japonesas foram ainda mais notáveis. Em 1914, o pequeno império insular tinha 10.000 quilômetros de estradas de ferro, quase que totalmente de propriedade do estado. Sua indústria têxtil estava perto de igualar a da Inglaterra, ao passo que o montante do seu comércio estrangeiro havia subido de virtualmente zero a cerca de 700.000.000 de dólares.

 

5.   A SOCIEDADE  NA  ERA  DA  MÁQUINA

Em capítulos próximos teremos  ocasião  de observar alguns dos efeitos   políticos   da   Revolução   Industrial.    Por   ora,   hasta   tomar conhecimento dos resultados sociais.    Não há dúvida que a maior parte das mudanças sociais importantes do século XIX e do começo do século XX se originaram das grandes transformações econômicas desse período. Um dos mais palpáveis e também um dos mais decisivos desses fatos foi, talvez, o enorme aumento da população. Entre a Revolução Francesa e a Primeira Guerra Mundial a população de quase todos os países civilizados cresceu numa proporção sem precedentes. Já em 1800 notavam-se alguns indícios desse fenômeno, em especial na Inglaterra, onde o aumento, durante a segunda metade do século XVIII, foi de aproximadamente 50%. Mas o grosso desse crescimento espetacular veio mais tarde. Entre a batalha de Waterloo e a declaração da Primeira Guerra Mundial, quase quadruplicou a população da Inglaterra e do País de Gales. A da Alemanha subiu de aproximadamente 25.000.000 em 1815 a quase 70.000.000 uma centena de anos depois. O número de habitantes da França quase duplicou entre a queda de Napoleão e a Guerra Franco-Prussiana, ao passo que o total da população russa se elevou a mais do dobro nos cinquenta anos anteriores a 1914. A despeito de fatores adversos, como a fome na Irlanda e na Rússia, a emigração para a América e moléstias resultantes do congestionamento das cidades, a população global da Europa subiu de 190.000.000 em 1800 a 460.000.000 em 1914.

Para descobrir as razões desse crescimento inaudito precisamos examinar diversos fatores. Em primeiro lugar, ele se deveu até certo   ponto   aos   efeitos   da   Revolução   Comercial, que aumentou o vigor da raça proporcionando-lhe  uma   alimentação   mais   abundante   e  variada.    Em segundo, foi uma consequência da instalação de hospitais infantis e de maternidades, bem assim como do progresso da ciência médica, que conseguiu praticamente eliminar, pelo menos na Europa Ocidental e dos Estados Unidos, a varíola, o escorbuto e a cólera. Uma terceira causa foi possivelmente a influência do nacionalismo, do desenvolvimento do orgulho racial e da obsessão patriótica. Povos dotados de uma sólida convicção da sua própria superioridade e confiantes na vitória em lutas futuras costumam proliferar com grande rapidez. Tais eram as qualidades que ca-racterizavam a maioria das nações no século XIX. Como os antigos hebreus, desejavam uma descendência numerosa a fim de sobrepujar as seus inimigos ou na esperança de difundir a sua cultura superior entre os povos atrasados da terra. Mas a mais importante de todas as causas, pelo menos na Europa, parece ter sido a influência da Revolução Industrial ao capacitar áreas limitadas a sustentar um grande número de indivíduos. Isto se tornou possível não só por ter a mecanização da agricultura aumentado a produtividade do solo, mas também porque o sistema fabril multiplicou as possibilidades de ganhar a vida por outros meios que não o cultivo da terra. Os países ricos de recursos industriais puderam então sustentar um número de indivíduos muitas vezes maior do que teria sido possível numa economia de base agrária. Depois da Primeira Guerra Mundial, essa concentração de trabalhadores na indústria tem suscitado problemas embaraçosos. Em resultado da estrangulação do comércio internacional, muitos países acharam quase impossível manter em funcionamento os seus sistemas industriais, a não ser expandindo a produção de armamentos e adotando um extenso programa de construções públicas.

Antes que a segunda fase da Revolução Industrial tivesse com-pletado o seu curso, a curva de crescimento da população começou a  mostrar uma tendência para baixar.    Essa tendência foi notada primeiramente na França, onde o aumento do número de habitantes havia quase cessado já em 1870.   Depois   de   1918  um   fenômeno semelhante se manifestou em outros países. Em geral, calcula-se que a Inglaterra atingirá um nível estacionário em 1960 e os Estados Unidos aproximadamente em 1990. Por trás dessa tendência atuam duas causas principais: o cerceamento da imigração e o decréscimo do índice de natalidade. O primeiro tem impedido o preenchimento de áreas pouco povoadas e o alívio ao congestionamento dos países mais antigos. Houve tempo em que o excedente de habitantes dos países superpovoados da Europa podia buscar uma nova pátria nos Estados Unidos ou nas repúblicas da América do Sul. A emigração desses contingentes não só aumentava a população dos países em que se estabeleciam mas também, por diminuir a densidade de população da sua terra natal, possibilitava também ali a expansão numérica. O resultado foi, em todo o decurso do século XIX, um considerável aumento da população total do mundo ocidental. Mas a causa predominante da diminuição do índice de crescimento foi o declínio do excesso de nascimentos sobre os óbitos. Desde cerca de 1880 o índice de natalidade, na Europa Ocidental, diminuiu em média da metade. Na Inglaterra, esse índice caiu de 36.3 por mil em 1876 a 14,8 por mil em 1934. Durante aproximadamente o mesmo período, a queda na Alemanha foi de 40,9 para 17,5, menos do que o suficiente para manter um nível estacionário. As razões desse violento declínio não se encontram na pobreza ou nas agruras do trabalho, mas sim na ascensão do padrão de vida, que faz dos filhos antes um inconveniente que uma vantagem. O sentimento de rebelião e de desilusão da mocidade, que veio na esteira da Primeira Guerra Mundial, foi uma causa cooperante. Durante a Segunda Guerra Mundial muitos países acusaram um forte acréscimo do número de nascimentos, mas os sociólogos consideram isso como um fenômeno secundário que pouco influirá na tendência dominante.

 

 

 

Um efeito da Revolução Industrial intimamente relacionado com o crescimento demográfico foi a urbanização crescente da sociedade ocidental. Pelas alturas de 1914 as condições artificiais da vida urbana tinham-se tornado uma norma aceita   por   imensa  percentagem   de   habitantes  das nações industrializadas. O ritmo da urbanização foi particularmente impressionante em países como a Alemanha e a Inglaterra. Na primeira, ainda em 1840, havia apenas duas cidades com 100.000 habitantes ou mais; em 1910, o número destas tinha-se elevado a quarenta e oito. Na Inglaterra, durante os últimos trinta anos do século XIX, cerca de um terço da população rural abandonou definitivamente a vida agrícola. O recenseamento inglês de 1901 revelou que o número de pessoas que trabalhavam na lavoura era apenas de cerca de 20% dos trabalhadores industriais. Nos Estados Unidos, a despeito da sua riqueza em recursos agrícolas, houve um movimento semelhante de fuga à terra, ainda que em ritmo mais lento. Em 1915 a proporção de americanos que viviam em áreas urbanas tinha-se elevado a cerca de 40%, e em 1920 a mais da metade. As causas desse afluxo para as cidades grandes e pequenas foram os crescentes atrativos da vida urbana e o constante declínio da procura de braços para a agricultura, em consequência da mecanização da lavoura. Isso teve tanto bons como maus efeitos. A fuga ao solo libertou grande número de homens e mulheres do isolamento da vida rural, da tirania do tempo atmosférico, da idiotia dos costumes primitivos e de uma enfadonha existência de trabalho solitário em terras ingratas. Mas, ao mesmo tempo, transformou muitos deles em joguetes ou instrumentos dos seus empregadores capitalistas. Alguns se tornaram verdadeiros autômatos que executavam a sua tarefa maquinalmente, com pequeno senso de responsabilidade ou compreensão do seu lugar no quadro econômico e sem nada para lhes estimular os esforços a não ser a esperança de um salário que lhes permitisse viver. Se isso os livrava dos azares das pragas e das secas, também os expunha aos novos perigos da perda de emprego resultante da superprodução e colocava-os à mercê de um sistema sobre o qual não tinham nenhum controle.

Um terceiro grande resultado da Revolução Industrial foi a criação de duas novas classes: a burguesia industrial e o proletariado. A primeira, composta dos proprietários de fábricas, minas e estradas de ferro, arregimentou-se ao lado da antiga classe média de comerciantes, banqueiros e advogados.    Com o seu número e a sua influência   assim   fortalecidos,   essa  burguesia  mista  logo deixou de ser uma classe média e tornou-se, para todos os fins, o elemento dirigente da sociedade.   Em alguns casos isso se conseguiu empurrando para o segundo plano a antiga aristocracia territorial, em outros pela fusão com ela. Mas nem bem os capitalistas e empresários tinham conquistado a ascendência, começaram a dividir-se. Os grandes banqueiros e magnatas da indústria e do comércio passaram a constituir a alta burguesia, com ambições um tanto diferentes das da pequena burguesia, constituída pelos pequenos comerciantes, pelos pequenos industrialistas e pelos membros das profissões liberais. A tendência da alta burguesia era absorver-se cada vez mais no capitalismo financeiro. Os seus componentes se dedicavam à especulação com fundos públicos, ao lançamento de novas empresas com vistas no lucro imediato, sem levar em consideração o que pudesse advir mais tarde, e à reorganização de negócios já existentes, que passavam a controlar para fins de monopólio ou especulação. Para os dirigentes dessa classe, qualquer forma de intervenção do estado era execrável; sustentavam que o livre empreendimento era essencial ao progresso econômico. A pequena burguesia, por outro lado, começou a mostrar sinais de um interesse vital pela estabilidade e pela segurança. Em muitos países, os membros desta classe puseram-se a propugnai- medidas para obstar à especulação, assegurar a estabilidade dos preços e eliminar as cadeias de lojas e os monopólios, chegando até a preconizar a nacionalização das utilidades públicas. Foi, em parte, este grupo que prestou o mais forte apoio a Mussolini e Hitler nos primeiros tempos.

A Revolução Industrial também fêz surgir um proletariado que se   tornou   suficientemente   forte,   com   o   tempo,   para   desafiar   a supremacia burguesa.    Em  certo  sentido,  o  prole-tariado  existe  desde a  aurora  da civilização,  uma  vez   que   o   termo   inclui   todos   os   indivíduos   que dependem de um salário para ganhar a vida. Os trabalhadores livres da Grécia e da Roma antigas foram proletários, e também o eram os jornaleiros, os seareiros e agregados da Idade Média. Mas antes da Revolução Industrial os assalariados formavam unia pequena parte da classe trabalhadora, pois a maioria dos que trabalhavam para viver estavam presos à agricultura, primeiramente como servos e mais tarde como rendeiros e meeiros. Além disso, os poucos proletários existentes tinham escassa consciência de classe. A Revolução Industrial, concentrando grande número de trabalhadores nas cidades e submetendo-os a abusos comuns, despertou neles um certo  espírito  de  solidariedade  e  imbuiu-os  de  comuns  aspirações. Não obstante, o seu poder como classe econômica foi limitado. durante muitos anos, por uma legislação severa. Nenhuma nação ocidental, por exemplo, concedeu o direito de greve senão depois de 1850. E somente nos fins do século XIX puderam os trabalhadores organizados exercer uma influência ponderável na política dos seus   governos.

Nem  mesmo  o  mais  bilioso   dos  críticos  poderia  negar  que a Revolução Industrial trouxe grandes benefícios materiais  aos habitantes  das nações ocidentais.    É incontestável que ela   ofereceu   ao   homem   contemporâneo   enormes quantidades  de mercadorias e um número assombroso de petrechos para proporcionar-lhe facilidade e conforto.    Mas terão as várias classes da sociedade participado de tais benefícios numa proporção mais ou menos equitativa? Esta é uma questão totalmente diversa. Parece não haver dúvida quanto a terem os salários reais, isto é, os salários em função do poder aquisitivo, subido muito rapidamente no decurso do século XIX. Um ilustre economista, Sir Josiah Stamp, calculou que o inglês médio, em 1913, era quatro vezes mais bem remunerado, sob o ponto de vista do que os seus rendimentos lhe permitiam adquirir, do que os seus tataravós em 1801. Entre 1880 e 1930 os salários reais, na Inglaterra, aumentaram de 50% em média e os salários dos operários menos bem pagos tiveram um acréscimo ainda maior. Aumentos semelhantes verificaram-se na Alemanha e na França. Nos Estados Unidos, o salário médio semanal dos trabalhadores industriais subiu de 54% entre 1909 e 1940, se bem que a semana média de trabalho tivesse baixado de 51,7 para 38,3 horas. Não são menos notáveis os indícios de melhora dos padrões de vida. Na Alemanha, o consumo médio de carne por cabeça aumentou de 17 quilos em 1818 para 52 quilos em 1912. As cifras relativas ao consumo do mesmo artigo nos Estados Unidos mostram um aumento de 53 quilos em 1935 para 63,5 quilos em 1951. Entre 1918 e 1951, o número de telefones nos Estados Unidos triplicou virtualmente, enquanto o número de automóveis se tornava mais de seis vezes maior. Neste último ano, o país tinha um telefone para cada 3 1/2 pessoas e um automóvel para cada 3 3/5. Seria difícil provar que os trabalhadores americanos, pelo menos, não participaram desse aumento da prosperidade geral. Por outro lado, é inegável que a distribuição da riqueza dos Estados Unidos estava longe de ser equitativa. Em 1943, aquela décima parte das famílias americanas que tinham os rendimentos mais baixos recebiam apenas 1,5 percento da renda global do país, enquanto a décima parte mais favorecida recebia 34,2 percento desse total.

 

 

 

O ano de 1949 foi o último antes que a Guerra da Coréia começasse a elevar apreciavelmente a renda nacional dos Estados Unidos. Durante esse ano, o rendimento bruto ajustado de todos os americanos que encaminharam suas declarações às repartições do imposto sobre a renda montou a cerca de 161 bilhões de dólares. Esta cifra abrange salários, ordenados, rendas propriamente ditas, juros e dividendos percebidos por indivíduos ou por famílias. Não inclui, porém, os lucros das entidades coletivas. Como se vê, os rendimentos pessoais dos americanos estavam longe de achar-se equitativamente distribuídos, embora a situação fosse bastante melhor do que quinze anos atrás. O gráfico acima revela que 60% percebiam rendimentos anuais inferiores a 3.000 dólares e mais de um terço tinha de contentar-se com menos de 2.000 dólares. 51 milhões de pessoas auferiam rendimentos bastante elevados para incidir no imposto sobre a renda, mas isso representava apenas pouco mais de metade da população maior de 21 anos. Se bem que muitos dos indivíduos isentos do imposto fossem agricultores cujos rendimentos não podiam ser devidamente calculados em dinheiro, permanecia a evidência de que muitos americanos que trabalhavam para viver não chegavam a perceber salários vitais. (Diretoria da Renda Interna do Departamento do Tesouro dos E. Unidos, "Statistics of Income for 1949", p. 12.)

Além  disso,   é  pelo   menos   duvidoso  que  a  mecanização   da   indústria  tenha  contribuído  tanto  como  comumente   se  supõe  para  o bem-estar material  das classes trabalhadoras.    Escrevendo   em   1848,   John   Stuart   Mill   punha   em dúvida que todas as invenções mecânicas até então conhecidas houvessem aliviado a labuta cotidiana de um único ser humano. Esse julgamento não seria talvez   exagerado   se   fosse   repetido  mesmo  em   relação   aos  nossos dias.    Em muitos casos, o trabalhador comum de hoje parece con-tinuar  sujeito  às  mesmas  tarefas  extenuantes  de  sempre.    Os  dispositivos economizadores de trabalho capacitam o operário a produzir mais, mas é duvidoso que realmente lhe poupem muito trabalho.   Seja qual fôr a situação atual, é indubitável que nos primórdios da Revo-lução Industrial a introdução das máquinas não representou grande vantagem   para   o   trabalhador.    Fizeram   elas,   muitas   vezes,   com que homens  robustos  e  capazes  fossem  alijados  dos  seus  empregos pelo trabalho mais barato de mulheres e de crianças.    Além disso, muitas  fábricas,  particularmente as  de tecidos,  eram piores  do que prisões.    Tinham   janelas   pequenas   que   em   geral   se   conservavam fechadas  a  fim  de manter  a umidade necessária  à manufatura do algodão.    A atmosfera viciada, o calor sufocante, a falta de higiene, a par de horários intoleráveis, reduziam inúmeros operários a pobres criaturas  macilentas  e minadas  pela tísica,  arrastando  bom número deles ao alcoolismo e ao crime.    Acresce que as novas cidades industriais se desenvolveram tão rapidamente e de maneira tão desordenada que,   durante   certo   tempo,   as   condições   de   habitação   dos   pobres foram abomináveis. Ainda em 1840, em Manchester, um oitavo das famílias da classe operária vivia em porões.    Outras amontoavam-se em  miseráveis  habitações  coletivas,  com  até  doze pessoas  a  morar num só quarto.    Eram tão pavorosas essas condições que os empregados das fábricas inglesas tinham, no começo do século XIX, um nível de vida talvez inferior ao dos escravos nas plantações americanas.   Ao lado desses males, porém, é preciso levar em conta que a Revolução   Industrial   facilitou   a   organização   dos   operários,   capacitando-os a usar o poder da ação coletiva para obter salários mais altos e, por fim, a melhoria das condições de trabalho.    Além disso, é   incontestável   que   as   classes   inferiores   foram   beneficiadas   pela baixa de preços decorrente da produção em massa.

6.   As    NOVAS   DOUTRINAS   SOCIAIS   E   ECONÔMICAS

A Revolução Industrial produziu uma messe completa de teorias económicas — parte delas para justificar a nova ordem, parte para submetê-la à análise crítica e o restante como evangelho de reforma social.    Assim que o sistema fabril se consolidou e os lucros começaram a encher os cofres dos novos senhores do  mundo, alguns  dos mais francos e combativos dentre eles levantaram-se em defesa dos seus privilégios.   Ao fazê-lo, demonstravam amiúde uma fria indiferença para com a situação das massas e uma impudente confiança no seu próprio direito ao domínio do planeta, confiança que teria causado inveja aos nobres do antigo regime. Alguns apologistas do novo sistema evoluíram mesmo para um tipo de Bourbons econômicos, desconhecendo todo o passado e fechando os olhos aos perigos do futuro. Essa atitude era expressa por doutrinas segundo as quais a propriedade privada era inviolável, cada qual tinha o direito de fazer o que quisesse com o que era seu e a pobreza era sempre o resultado da preguiça e da incompetência. Alguns corifeus do novo capitalismo chegaram a afirmar que a pobreza é um bem para as massas, uma vez que as ensina a respeitar os seus superiores e a ser agradecidas à Providência pelos escassos benefícios que recebem. Um clérigo inglês, escrevendo por volta de 1830, expôs o ponto de vista de que era uma lei da natureza o serem alguns pobres, a fim de que os misteres sórdidos e ignóbeis da comunidade pudessem ser desempenhados. Opinava que desse modo era muito aumentado o cabedal de felicidade humana, pois "os mais delicados não somente ficam aliviados de trabalhos penosos e ingratos e daquelas ocupações ocasionais que os tornariam infelizes, mas também podem… seguir as profissões que mais se ajustem aos seus diversos temperamentos e que mais úteis sejam ao estado".

Mas  algumas   dessas   teorias  econômicas,   mesmo   defendendo   o ideal   capitalista,   eram   mais   desinteressadas.    Isto   se   aplica,   pelo menos em certa medida, aos ensinamentos dos economistas clássicos ou economistas liberais, como às vezes   sao   chamados.     O   fundador   da   economia clássica foi Adam Smith, cuja obra discutimos no Capítulo 21. Embora Smith houvesse escrito antes de o capitalismo industrial ter alcançado o seu completo desenvolvimento e alguns dos seus ensinamentos não se harmonizassem de todo com a interpretação estrita do laissez-faire, havia, nas inferências gerais da sua teoria, justificativa suficiente para aclamá-lo como o profeta dos ideais capitalistas. As doutrinas específicas dos economistas clássicos foram, no entanto, em grande parte obra dos discípulos de Smith, inclusive escritores eminentes como Thomas R. Malthus, David Ricardo, James Mill e Nassau Senior. Os elementos principais da teoria, subscritos pela maioria desses homens, podem ser sumariados assim:

1)    Individualismo econômico.    Cada indivíduo tem o direito de usar para seu melhor proveito a propriedade que herdou ou adquiriu por qualquer meio lícito. Deve ser permitido a cada pessoa fazer o que quiser com o que é seu, enquanto não transgredir idêntico direito dos demais. Como cada um é quem melhor sabe o que pode torná-lo feliz, a sociedade tirará o máximo proveito quando permitir que cada um de seus membros siga as suas próprias inclinações.

2) Laisses-faire.  As funções do estado deveriam ser reduzidas ao mínimo compatível com a segurança pública.    Compete ao governo limitar-se ao papel  de modesto  policial, mantendo  a ordem e protegendo a propriedade, mas jamais intervindo por qualquer forma no desenrolar dos processos econômicos.

3) Obediência à lei  natural.    Existem leis imutáveis  a operar no setor econômico como em todas as esferas do universo.    Exemplos disso são a lei da oferta e da procura, a lei dos lucros decrescentes, a lei da renda etc.    Tais leis devem  ser reconhecidas e  respeitadas; deixar de fazê-lo é desastroso.

4) Liberdade de contrato.    Cada indivíduo deve ter a faculdade de negociar o contrato mais favorável que possa obter de qualquer outro indivíduo.    Em especial, a liberdade dos trabalhadores e empregadores para combinar entre si a questão do salário e das horas de trabalho não  deve ser embaraçada por leis  ou pelo poder coletivo dos sindicatos de trabalhadores.

5) Livre concorrência e livre-câmbio.   A concorrência serve para manter   os   preços   baixos,   para   eliminar   os   produtores   ineptos   e assegurar a máxima produção  compatível com as necessidades públicas.     Conseqüentemente,   não   se   devem   tolerar   monopólios   ou quaisquer leis que fixem os preços em benefício de empreendedores incompetentes.    Cumpre, além disso, abolir todas as tarifas protetoras a fim de forçar cada país a se empenhar na produção daquelas mercadorias que está mais capacitado a produzir.  Isso também terá o efeito de manter os preços baixos.

 

Vários discípulos de Adam Smith contribuíram com teorias próprias.    Thomas  R.  Malthus   (1766-1834)   introduziu, por exemplo, o elemento de pessimismo que fêz com que a nova economia fosse estigmatizada como a “ciência melancólica". Malthus, um clérigo da igreja anglicana e reitor de uma paroquiazinha do Surrey, deu à luz em 1798 o seu memorável Ensaio sobre a população. Publicado originalmente sob a forma de um opúsculo, o Ensaio foi o fruto de algumas discussões que o autor manteve com seu pai sobre a perfectibilidade do homem. O velho Malthus era um adepto de Rousseau, mas impressionou-se tanto com os argumentos do filho contra o otimismo superficial daquele filósofo que insistiu com ele para que os escrevesse. A obrinha provocou sensação imediata e foi, durante muitos anos, tema de discussões.    Em   1803   foi  ampliada  em  livro,  com  base  em  pesquisas mais extensas que o autor levara a efeito para refutar os seus críticos. A essência da teoria malthusiana é a afirmação de que a natureza prescreveu limites inflexíveis ao progresso humano no que toca à felicidade e à riqueza. Devido à voracidade do apetite sexual, a população tem uma tendência natural para aumentar mais depressa do que os meios de subsistência. Existem, é verdade, alguns freios poderosos como a guerra, a fome, a doença e o vício; mas estes, quando agem de maneira eficiente, aumentam ainda mais o peso dos padecimentos humanos. Segue-se que a pobreza e a dor são inevitáveis. Mesmo que se promulgassem leis distribuindo equitativamente a riqueza, a condição dos pobres só por algum tempo melhoraria; dentro em breve começariam a gerar famílias numerosas, resultando daí que a situação final da sua classe seria tão má quanto a inicial. Na segunda edição de sua obra Malthus advogava o retardamento do matrimônio como um meio de aliviar a situação, mas continuava a acentuar o perigo de que a população viesse a sobrepujar qualquer possível aumento dos meios de subsistência.

Os principais ensinamentos de Malthus foram adotados e desen-volvidos por David Ricardo  (1772-1823), uma das mais penetrantes se não uma das mais vastas inteligências do século XIX. Era Ricardo um judeu inglês que abraçou o cristianismo aos vinte e um anos de idade e casou com uma quacre. Aos vinte e cinco havia feito fortuna na Bolsa e logo se tornou um dos homens mais ricos da Europa. Como economista, Ricardo é famoso em primeiro lugar pela sua teoria do salário de subsistência. De acordo com essa teoria, os salários tendem para um nível apenas suficiente para capacitar os trabalhadores "a subsistir e perpetuar a sua raça, sem aumento nem diminuição". Para Ricardo, esta era uma lei férrea a que não havia escapar. Se temporariamente os salários subissem acima do padrão de subsistência, a população aumentaria e a consequente competição pelos empregos forçaria rapidamente aqueles a voltar ao seu antigo nível. Como a lei de Malthus, na qual se baseia, esta teoria esquecia o fato de que as famílias com um padrão crescente de vida tendem a limitar a sua prole. Ricardo é conhecido, em segundo lugar, pelos seus ensinamentos relativos à renda. Sustentava que esta é determinada pelo custo da produção nas terras mais pobres que devem ser cultivadas e, por conseguinte, à medida que um país se enche de gente uma porção cada vez maior da renda social é retida pelos proprietários rurais. Embora fosse êle próprio um grande proprietário, acusou os que viviam das rendas de suas terras como os maiores inimigos tanto dos capitalistas como dos trabalhadores. Por fim, Ricardo é importante pela sua teoria do trabalho como fundamento do valor, teoria que influenciou uma das principais doutrinas do socialismo marxista. Dava, no entanto, certo significado também ao papel do capital na determinação do valor — uma idéia que Marx abominava.

Em seus últimos anos Ricardo teve amiudados contatos com um interessante grupo de reformadores ingleses, conhecidos como os "radicais filosóficos".    Entre os seus líderes havia figuras proeminentes como Jeremy Bentham, James Mill, o historiador George Grote e o cientista político John Austin. O mais notável economista entre eles foi James Mill (1773-1836), que já mencionamos pela reputação de que goza como filósofo utilitário. Conquanto hoje seja difícil considerar os ensinamentos de James Mill como radicais, tiveram eles um caráter bastante liberal para mostrar que a economia clássica nem sempre era obscurantista e reacionária. As doutrinas expostas em seus Elementos de Economia Política incluem princípios como os seguintes: 1) o principal objetivo dos reformadores práticos deveria ser o de evitar que a população cresça com demasiada rapidez, pois que a riqueza utilizável para fins de produção não aumenta na mesma proporção que o número de habitantes ; 2) o valor dos artigos comerciais depende inteiramente do montante de trabalho necessário para produzi-los; e 3) a valorização da terra que não provém do trabalho, mas resulta exclusivamente de causas sociais, como por exemplo a construção de uma nova fábrica nas vizinhanças, deveria ser fortemente tributada pelo estado. Esta última doutrina, baseada na teoria da renda de Ricardo, estava destinada a gozar de ampla aceitação na Inglaterra. Sob uma forma modificada, foi incorporada ao evangelho do Partido Liberal nos primeiros anos do século XX e inspirou o célebre orçamento de Lloyd George para 1909.

O  mais  capaz  dos  economistas clássicos  que apareceram  depois de Ricardo foi, talvez, Nassau William Senior  (1790-1864).    Foi o primeiro professor de economia política em Oxford e   também   ilustre   advogado,   tendo   desempenhado vários encargos reais. Como a maioria dos seus predecessores, Nassau considerava a economia como uma ciência dedutiva. Afirmava que todas as suas verdades podiam ser derivadas de um número limitado de grandes princípios abstratos. Felizmente, ele próprio nem sempre se atinha a esse método, em particular ao tratar de questões de caráter só parcialmente econômico. Destarte, ao mesmo tempo que defendia o princípio do laissez-faire batia-se por uma interferência governamental crescente em assuntos como a saúde, a habitação e a educação. Sua principal contribuição foi a teoria de que a abstinência cria um direito à riqueza. Admitia que o trabalho e os recursos naturais são os instrumentos primários do valor, mas sustentava que a abstinência era um instrumento secundário. Argumentava, a partir daí, que o capitalista que se priva de gozar toda a sua riqueza a fim de acumular   um   excedente   para   empregá-lo   em   novos   negócios   tem direito aos lucros da produção. A sua abstinência implica em sacrifício e dor, não menos que o trabalho do operário. Conseqüentemente, é injusto dar toda a recompensa a este último. A má reputação de Sénior provém sobretudo de êle ter condenado as exigências de uma redução da jornada de trabalho, formuladas pelas uniões trabalhistas. Tinha a convicção sincera, mas errada, de que todo o lucro líquido de uma empresa industrial resulta da última hora de trabalho. Portanto, diminuir o dia de trabalho importaria em eli-minar os lucros, donde adviria o fechamento das fábricas. Por causa desta doutrina foi êle alcunhado pelos seus críticos "Senior da Última Hora".

A maioria dos economistas clássicos ou liberais  foram cidadãos britânicos, em parte porque o liberalismo econômico se harmonizava melhor  com  o   liberalismo  político,   que  era  mais forte na Inglaterra do que em qualquer outro país    europeu, e em parte porque os industriais ingleses     começavam a perceber importantes vantagens numa   política de livre-câmbio com o resto do mundo. No Continente europeu, entretanto, as condições eram inteiramente diversas. Ali ainda persistiam as antigas tradições de governo forte. Além disso, os manufatores continentais estavam tentando construir organizações industriais capazes de competir com as inglesas. Para consegui-lo era necessário dispor do patrocínio e da proteção do estado. Não é de surpreender, portanto, que a maioria dos adversários do liberalismo econômico pertencesse aos países continentais. Não obstante, pelo menos um dos críticos mais capazes dessa escola foi um inglês: o brilhante filósofo utilitário John Stuart Mill (1806-73). Embora Mill, como economista, seja frequentemente colocado entre os liberais, a verdade é que ele repudiou algumas das mais sagradas premissas destes. Em primeiro lugar, rejeitava a universalidade da lei natural. Admitia existirem leis imutáveis que governam a produção, mas afirmava que a distribuição da riqueza pode ser regulada pela sociedade em proveito da maioria dos seus membros. Em segundo lugar, advogava certas medidas que divergiam mais radicalmente da doutrina do laissez-faire do que as recomendadas por qualquer dos seus precursores. Não se opunha à legislação para abreviar em certas condições a jornada de trabalho e acreditava que o estado pode muito bem tomar certas providências preliminares no sentido de redistribuir a riqueza, mediante a tributação das heranças e a apropriação do produto da valorização indébita da terra. No quarto livro dos seus Princípios de Economia Política insiste na abolição do sistema de salários e almeja uma sociedade composta de cooperativas de produtores, em que os trabalhadores seriam donos das fábricas e elegeriam os dirigentes. Por outro lado, não se deve esquecer que Stuart Mill era demasiado individualista para ir muito longe no sentido do socialismo. Desconfiava do estado e a verdadeira razão pela qual defendia as sociedades cooperativas não era exaltar o poder do proletariado mas dar a cada trabalhador os frutos do seu trabalho.

O mais conhecido dos economistas alemães que pregaram teorias opostas   às   da   escola  clássica   foi   Friedrich   List   (1789-1846),   o qual deveu a inspiração de algumas de suas idéias a uma estada de sete anos na América.    List condena as doutrinas do laissez-faire e da liberdade do comércio internacional. Sustentando que a riqueza de uma nação é determinada menos pelos recursos naturais do que pela força produtiva dos seus cidadãos, declarava que é dever dos governos promover as artes e as ciências e fazer com que cada indivíduo empregue o máximo de sua capacidade na cooperação em prol do bem comum. Exaltava o desenvolvimento integral da nação como fato de suma importância, sem levar em conta os efeitos sobre as fortunas imediatas dos cidadãos particulares. Opinando que as manufaturas são essenciais a tal desenvolvimento, pedia a imposição de tarifas protetoras até que as novas indústrias fossem capazes de competir com as de qualquer outro país. List é o precursor de uma grande linhagem de economistas alemães que se propuseram fazer do estado o guardião da produção e da distribuição da riqueza. O objetivo desses homens era menos o de garantir a justiça para o indivíduo do que a ideia de consolidar a unidade e aumentar o poder da nação. Acreditavam que o governo não só devia impor tarifas protetoras mas também regular e planejar o desenvolvimento da indústria, de modo a estabelecer o equilíbrio entre a produção e o consumo. Em geral, suas ideias representam uma mistura de nacionalismo económico e de coletivismo, fornecendo assim a base de algumas teorias alemãs mais recentes.

Encontramos em seguida um grupo de teóricos que se interessam mais pela justiça social do que em descobrir leis econômicas ou em lançar as bases da prosperidade nacional.    Os primeiros representantes dessa atitude mais radical são os  socialistas utópicos,  assim chamados por terem apresentado programas idealistas de sociedades cooperativistas em que todos trabalhariam em tarefas apropriadas e compartilhariam os resultados dos seus esforços comuns. Os socialistas utópicos eram, em grande parte, herdeiros do Iluminismo. Como os filósofos desse movimento, acreditavam que todo crime e toda cobiça são frutos de um mau ambiente. Se os homens pudessem libertar-se de hábitos viciosos e de uma estrutura social que facilita a escravização do fraco pelo forte, todos viveriam juntos em paz e harmonia. Conseqüentemente, os socialistas utópicos recomendavam a fundação de comunidades-modelo, capazes, tanto quanto possível, de se bastarem a si mesmas, em que a maior parte dos instrumentos de produção fossem de propriedade coletiva e cujo governo fosse organizado principalmente sobre uma base voluntária. Entre os primeiros propagadores de tais planos está o francês Charles Marie Fourier (1772-1837), mas o mais sensato e realista de todos é Robert Owen (1771-1858). Natural do País de Gales, Owen passou de artífice-aprendiz a co-proprietário e gerente de um grande cotoni-fício em New Lanark, na Escócia. Construiu ali novas casas para os seus operários, reduziu-lhes a jornada de trabalho de 14 para 10 horas e instalou escolas gratuitas para os filhos dos trabalhadores. A forte depressão resultante das guerras napoleônicas convenceu-o de que a ordem econômica precisava urgentemente de uma reforma. Como muitos têm feito desde então, concluiu que o sistema de lucro era a causa de todas as perturbações. É o lucro, afirmava ele, que coloca o operário na impossibilidade de comprar as coisas que produz. Daí resultam a superprodução, as crises periódicas e o desemprego. Como solução, Owen propunha a organização da sociedade em co-munidades cooperativas em que a única recompensa de cada um fosse uma remuneração proporcional às horas reais de trabalho. Algumas comunidades desse tipo foram de fato instaladas, sendo as mais famosas as de Orbiston, na Escócia, e a de New Harmony, no estado norte-americano da Indiana. Por várias razões, todas elas fracassaram dentro de curtíssimo espaço de tempo.

Uma forma de socialismo mais influente foi o chamado "socialismo científico" de Karl Marx (1818-83). Filho de um advogado judeu que se convertera ao  cristianismo por motivos de interesse profissional, Marx nasceu em Treves, perto de Coblença, na Renânia. O pai planejou para ele uma carreira de advogado burguês e, com esse fim em vista, matriculou-o na Universidade de Bonn. O jovem Marx, no entanto, logo se desgostou do direito e abandonou os estudos jurídicos para se atirar à filosofia e à história. Depois de passar um ano em Bonn transferiu-se para a Universidade de Berlim, onde caiu sob a influência de um grupo de discípulos de Hegel que desviavam os ensinamentos do mestre num sentido levemente radical. Embora Marx se tivesse doutorado em filosofia pela Universidade de Iena, em 1841, seus pontos de vista críticos impediram-no de realizar a sua ambição, que era tornar-se professor universitário. Voltou-se então para o jornalismo, dirigindo vários periódicos radicais e colaborando  em  outros.    Em   1848  foi  preso  sob  a  acusação  de  alta traição, por ter participado do movimento revolucionário da Prússia. Apesar de absolvido por um júri pequeno-burguês, foi em seguida expulso do país. Entrementes fizera-se amigo íntimo de Friedrich Engels (1820-95), que foi por todo o resto da vida seu discípulo e alter ego. Em 1848, ambos publicaram o Manifesto Comunista, o "primeiro grito do socialismo moderno que nascia". Desde essa data até a sua morte em 1883, Marx viveu quase exclusivamente em Londres, lutando com a pobreza, escrevendo de quando em quando artigos para a imprensa (alguns dos quais vendeu à New York Tribune, a cinco dólares cada um), mas passando em geral o tempo a compulsar, da manhã à noite, empoeirados manuscritos da Biblioteca do Museu Britânico a fim de colher material para uma grande obra da economia política. Em 1867 publicou o primeiro volume dessa obra. que recebeu o título de O Capital. Depois de sua morte foram dados à luz outros dois volumes, com base nos seus manuscritos revistos e editados por Engels.

Nem todos os ensinamentos de Karl Marx eram completamente originais.   Devia algumas de suas idéias a Hegel, outras a Louis Blanc e   provavelmente   outras   ainda   a   Ricardo.    Não obstante,   Marx   foi  o   primeiro  a  combinar   essas idéias num vasto  sistema e a dar-lhes o seu pleno significado como explicação dos fatos econômicos. Como a teoria marxista se tornou uma das filosofias mais influentes dos tempos modernos, é necessário compreender-lhe as premissas fundamentais. As mais importantes dentre elas são as seguintes:

1) A  interpretação  econômica  da história.    Todos  os  grandes movimentos políticos, sociais e intelectuais da história têm sido determinados pelo ambiente econômico em que surgiram.    Marx não pretendia que o motivo econômico fosse a única explicação do comportamento   humano,   mas   afirmava   que  toda  transformação   histórica fundamental, sejam quais forem os seus característicos superficiais, tem  resultado  de  alterações  nos  métodos  de  produção  e de troca. Assim, a Revolução Protestante foi, na essência, um movimento econômico;  as discordâncias quanto  a credos  religiosos não passavam de "véus ideológicos" a ocultar as causas reais.

2) O   materialismo   dialético.    Cada   sistema   económico   parti-cular, baseado em padrões definidos de produção e de troca, cresce até alcançar um ponto de máxima eficiência, após o que começam a desenvolver-se contradições e fraquezas internas que trazem consigo a sua rápida decadência.    Enquanto isso, vão-se estabelecendo pouco a pouco  os  fundamentos  de  um  sistema oposto,  o  qual  acaba por substituir o antigo ao mesmo tempo que lhe absorve  os elementos mais valiosos.    Esse processo dinâmico de evolução histórica prosseguirá por meio de uma série de vitórias da nova ordem sobre a antiga, até que seja atingida a meta perfeita do comunismo. Depois disso, sem dúvida haverá ainda mudanças, mas serão mudanças dentro dos limites do próprio comunismo.

3) A luta de classes.    Toda a história é feita de lutas entre as classes.    Na  antiguidade,  tratava-se  de  uma  luta  entre  amos  e  escravos,  entre patrícios e plebeus; na Idade Média, de um conflito entre os mestres das corporações e os jornaleiros; nos nossos tempos, o choque ocorre entre a classe capitalista e o proletariado. A primeira compreende aqueles cuja renda principal resulta da posse dos meios de produção e da exploração do trabalho alheio.   O proletariado inclui aqueles cuja subsistência depende principalmente de um salário, os que precisam vender a força do seu braço para viver.

4) A doutrina da mais-valia. Toda riqueza é criada pelo trabalhador.    O capital nada cria, mas êle próprio é criado pelo trabalho. O valor de todas as utilidades é determinado pela quantidade de trabalho  necessária  para  produzi-las.    O  trabalhador,  porém,  não   recebe o valor total do que o seu trabalho cria; ao invés disso, recebe um salário que, por via de regra, é suficiente apenas para capacitá-lo a subsistir e a reproduzir a sua raça.    A diferença entre o valor que o trabalhador produz e o que ele recebe é a mais-valia, que vai para as mãos do capitalista.    Em geral, ela consiste em três elementos diversos :  juros,   renda  e  lucros.    Como  o   capitalista  não  cria  qualquer destas coisas, segue-se que êle é um ladrão que se apropria dos frutos da fadiga do trabalhador.

5) A teoria da evolução socialista.    Quando o capitalismo tiver recebido o golpe de morte às mãos dos operários, seguir-se-á uma fas, e de socialismo que terá três característicos: a ditadura do proletariado; a remuneração de acordo com o trabalho realizado; a posse e a administração,  pelo estado,  de todos os meios de produção, distribuição e troca.    O socialismo, porém, destina-se a ser mera transição para algo superior.    Em tempo oportuno seguir-se-á o comunismo, meta final da evolução histórica.    O comunismo .significará, antes de mais nada, uma sociedade sem classes.    Ninguém viverá da propriedade, mas todos viverão unicamente  do trabalho.    O  estado  desaparecerá então e será relegado ao museu de antiguidades,  "juntamente com o machado de bronze e a roda de fiar".    Nada o substituirá, exceto associações voluntárias para controlar os meios de produção e suprir as necessidades sociais.    Mas a essência do comunismo é o pagamento segundo as necessidades.    O sistema de salários será completamente abolido.    Cada   cidadão   deverá   trabalhar   de   acordo   com   as   suas capacidades  e  terá  direito   a  receber   do  monte  total   das   riquezas produzidas uma quantia proporcional às suas necessidades.    Esse é, de acordo com a concepção marxista, o apogeu da justiça.

 

A influência de Karl Marx nos séculos XIX e XX só pode ser comparada à  influência de  Voltaire  e  Rousseau  no  século  XVIII. Sua doutrina da interpretação econômica da história é admitida até por historiadores  que não  são  seus adeptos.    Possui  discípulos  em todas as nações civilizadas do planeta, e também em muitos  países  atrasados.    Na  Rússia é quase  um deus, sendo o seu dogma do materialismo dialético adotado ali não só como fundamento da economia mas como norma a que se devem conformar também a ciência, a filosofia, a arte e a literatura. Em todas as nações industrializadas, antes da Primeira Guerra Mundial, havia um partido socialista de considerável importância, sendo o da Alemanha o que teve mais forte representação no Reichstag depois de 1912. Em quase toda parte o desenvolvimento do socialismo tem exercido uma influência vital na promulgação de leis de seguro social e de salário mínimo, bem como na tributação da renda e das heranças com a mira numa redistribuição da riqueza. Marx, está claro, não se interessava por essas coisas como fins em si mesmas, mas as classes governantes acabaram convencendo-se da necessidade de adotá-las como uma posta de carne a ser jogada à fera socialista. Os socialistas em geral também deram o seu apoio ao movimento cooperativista, à encampação das estradas de ferro e dos serviços de utilidade pública, bem assim como a inúmeros planos para proteger os trabalhadores e os consumidores contra o poder do capitalismo monopolizador.

Pelos fins do século XIX os adeptos de Marx dividiram-se em duas facções.  A maioria, em quase todos os países, aderiu às doutrinas de uma seita conhecida como os revisionistas, os quais   como  o  nome  indica,  acreditam  que  as teorias de Marx devem ser revistas para se porem de acordo com as condições mutáveis. A outra facção era formada pelos marxistas ortodoxos, que sustentavam não dever ser modificada uma só linha dos ensinamentos do mestre. Além dessa divergência de atitude geral, havia também diferenças específicas. Enquanto os revisionistas advogavam a marcha para o socialismo por meios pacíficos e graduais, os marxistas ortodoxos eram revolucionários. Aqueles concentravam a sua atenção nas reformas imediatas, de acordo com o lema: "Menos por um futuro melhor, mais por um presente melhor"; estes exigiam a ditadura do proletariado, ou nada. Os líderes da facção majoritária inclinavam-se a reconhecer os interesses particulares das nações, eram propensos a aludir ao dever para com a pátria e frequentemente apoiavam os pedidos dos seus governos para que se aumentasse es armamentos e se prolongasse a duração do serviço militar. Os marxistas ortodoxos, por outro lado, eram internacionalistas intransigentes ; apegavam-se à sentença de Marx, segundo a qual o proletariado mundial é uma grande irmandade, e eram hostis ao pátriotismo e o nacionalismo, como estratagemas capitalistas para lançar poeira nos olhos dos operários. De modo geral, foram os revisionistas que ganharam o controle dos partidos socialistas na maioria das nações ocidentais. Tanto o Partido Social-Democrático da Alemanha como o Partido Socialista Unificado da França e o Partido Socialista dos Estados Unidos eram largamente dominados pela facção moderada. Na Inglaterra, a direção do Partido Trabalhista foi ocupada em várias ocasiões pelos socialistas "fabianos", assim chamados por causa da sua política de contemporização que imitava a tática de Fábio, general romano das guerras contra Cartago. Aproximadamente em 1918 a maioria dos marxistas ortodoxos desligaram-se definitivamente dos partidos socialistas, e desde então são conhecidos como comunistas. Entretanto, o marxismo ortodoxo na sua forma comunista tem revelado, nos últimos anos, a tendência de modificar o internacionalismo de Marx e exaltar o patriotismo e a defesa do país natal. Isso foi observado em particular na Rússia e em alguns dos seus satélites durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos subsequentes.

Muitos idealistas sociais do século XIX e do começo do século XX   eram   socilitados   pelos   desejos   contraditórios   de   melhorar  o bem-estar da sociedade por meios coletivistas e de  conquistar um máximo de liberdade para o indivíduo. Já vimos que os próprios marxistas visavam a abolição final do estado. Mas o dilema coletivismo-individualismo recebeu muito mais atenção da parte dos anarquistas. Numa definição estrita, o anarquismo significa oposição a todo governo baseado na força. Os adeptos desta filosofia têm admitido, em geral, a necessidade de uma certa forma de organização social, mas condenam o estado coercitivo como absolutamente incompatível com a liberdade humana. Quanto à questão do que deveria ser feito com o sistema económico, os anarquistas discordavam profundamente entre si. Alguns eram puros individualistas, afirmando que os direitos do homem a possuir e usar a propriedade só devem estar submetidos às "leis da natureza. O pai do anarquismo, William Goldwin (1756-1836), acreditava que se a terra fosse tão gratuita como o ar não seria necessária qualquer outra mudança na estrutura económica. Na opinião do anarquista francês Pierre Proudhon (1809-65), seria suficiente que a sociedade desse crédito gratuito e ilimitado a cada um para assegurar a justiça econômica. Tal plano, segundo êle, impediria que qualquer indivíduo monopolizasse os recursos da terra e garantiria a todos os cidadãos económicos e industriosos a plena recompensa dos seus trabalhos.

Mas os primeiros anarquistas que exerceram verdadeira influência foram   os   que   combinaram   o   ódio   ao   estado   com   uma   filosofia coletivista definida.    Em primeiro plano entre eles, encontramos os três grandes aristocratas  russos  Mikhail  Bakunin   (1814-76),  Piotr Kropotkin   (1842-1921)   e   Leon   Tolstoi   (1828-1910).   Embora seja muitas vezes classificado como anarquista-comunista,   Bakunin   achava-se,   na   realidade, muito mais próximo do socialismo.    Esteve mesmo,  durante  algum  tempo,  ligado  aos  adeptos de Marx na Associação Internacional de Trabalhadores, fundada em Londres no ano de 1864. O seu programa de uma nova sociedade incluía a propriedade coletiva dos meios de produção, a abolição da mais-valia e o pagamento de acordo com o trabalho realizado. Em outras palavras, assemelhava-se muito ao programa do marxismo na sua fase socialista, com a diferença, naturalmente, de não admitir a conservação do estado. Bakunin é também famoso como o pai do anarquismo terrorista. Advogando a subversão do estado e do capitalismo pela violência, inspirou o que mais tarde veio a ser chamado "propaganda pela ação" e que consistia em atrair a atenção para a causa anarquista assassinando alguns estadistas proeminentes ou exploradores detestados. É aos adeptos de Bakunin que se atribuem os assassinatos do presidente McKinley dos Estados Unidos, do presidente Carnot da França e do rei Humberto I da Itália. Mas os anarquistas mais inteligentes da escola coletivista condenavam essas táticas. O príncipe Kropotkin, por exemplo, condenava o emprego da violência individual em quaisquer condições. Acreditava que um esforço revolucionário final seria necessário, mas preferia que o estado fosse enfraquecido por métodos pacíficos, convencendo-se gradualmente o povo de ser ele um mal desnecessário, uma instituição que alimenta a guerra e existe sobretudo para capacitar alguns homens a explorar os outros. Do ponto de vista da reforma econômica, Kropotkin era comunista. Sustentava que toda propriedade, exceto os objetos de uso pessoal, deve ser possuída socialmente e que o pagamento se deve fazer na base das necessidades de cada um.

O mais famoso dos anarquistas coletivistas e uma das figuras mais interessantes dos tempos modernos é o conde Leon Tolstoi. Embora mais  conhecido pelos  seus  romances,  que serão comentados num capítulo ulterior, Tolstoi foi também um dos maiores filósofos russos. Suas idéias nasceram de um violento conflito emocional e da procura quase desesperada de uma maneira de viver que pudesse satisfazer-lhe a inteligência irrequieta. Abandonou-se durante algum tempo a uma dissipação elegante, tentou desafogar o seu espírito perturbado por meio de obras filantrópicas e acabou abandonando tudo isso para viver como um simples camponês. Chegou à conclusão de que não se podia fazer nenhum progresso no sentido de remediar os males da sociedade enquanto as classes superiores não renunciassem aos seus privilégios, adotando a existência humilde daqueles que labutam pelo seu pão. Isso, porém, seria apenas o começo. Todo individualismo egoísta devia igualmente desaparecer, toda riqueza devia ser depositada num fundo comum e abolidos todos os instrumentos de coerção. Tolstoi baseava grande parte da sua filosofia no Novo Testamento, em especial no Sermão da Montanha. Encontrava nos ensinamentos de Jesus — a mansidão, a humildade a não-resistência — os princípios essenciais de uma sociedade justa. Acima de tudo condenava a violência, para qualquer fim que fosse empregada. A violência brutaliza o homem; coloca quem a pratica à mercê dos seus inimigos; e enquanto a força puder ser utilizada como arma, será quase impossível confiar nos métodos civilizados. Merecem ser citadas  algumas palavras de  Tolstoi  sobre  este assunto:

 

 

 

 

 

Quando um governo é derrubado pela violência e a autoridade passa para outras mãos, essa nova autoridade não será de modo algum menos opressiva do que a anterior. Pelo contrário, obrigada a se defender de seus inimigos exasperados pela derrota, será ainda mais cruel e despótica do que a sua predecessora, como sempre tem acontecido em períodos de revolução… Seja qual for o partido que ganhe a ascendência, será forçado, para introduzir e manter o seu próprio sistema, não somente a se servir de todos os métodos anteriores de  violência,  mas  também  a  inventar  outros  novos.

A terceira das grandes filosofias radicais engendradas pela Revo-lução Industrial foi o sindicalismo, cujo maior expoente é Georges Sorel   (1847-1922).    O sindicalismo exige a abolição tanto do capitalismo como do estado e a reorganização da sociedade em associações de produtores. Assemelha-se ao anarquismo na oposição ao estado; mas, ao passo que os anar-quistas pedem a abolição da força, os sindicalistas desejam mantê-la, mesmo depois de destruído o estado. O sindicalismo também tem pontos de contato com o socialismo, por agasalharem ambos a ideia da propriedade coletiva dos meios de produção; mas, em lugar de fazer do estado o proprietário e administrador dos meios de produção, os sindicalistas pretendem delegar essas funções aos sindicatos de produtores. Destarte, todas as usinas siderúrgicas seriam possuídas e dirigidas pelos trabalhadores da indústria de aço, as minas de carvão pelos mineiros, e assim por diante. Além disso, os sindicatos tomariam o lugar do estado, cada um governando os seus membros em todas as atividades destes como produtores. Nos demais assuntos, os trabalhadores ficariam livres de qualquer interferência. Não existiriam, é claro, leis regulamentadoras da moral ou da re-ligião, pois o sindicalismo é uma filosofia inteiramente materialista. Por outro lado, os seus fundadores não alimentavam qualquer ilusão quanto à capacidade das massas para o autogoverno. Sorel considerava o homem médio como uma espécie de carneiro, capaz únicamente de seguir o guia do rebanho. Opinava, portanto, que a autoridade dirigente dos sindicatos deveria ser francamente exercida pelos poucos inteligentes. Outro elemento de suma importância na teoria sindicalista é a doutrina da ação direta. Significa ela o oposto da ação política e pode ser considerada como incluindo a greve geral e a sabotagem, sendo esta qualquer tipo de atividade daninha utilizada com o fim de prejudicar o empregador capitalista. A influência do sindicalismo tem-se limitado em grande parte aos países latinos da Europa e aos Estados Unidos. Na França, durante certo tempo, gozou de imensa popularidade na C.G.T. (Confederação Geral do Trabalho). Na Itália, as suas doutrinas do domínio da minoria, da ação direta e da organização da sociedade em sindicatos foram adotadas, com modificações, pelos fascistas. Na América, muitos elementos da filosofia sindicalista foram incorporados aos programas da I.W.W. (Trabalhadores Industriais do Mundo), uma organização  que  floresceu  aproximadamente  entre   1905  e   1920.

Por   último,   não   devemos   esquecer   os   socialistas   cristãos,   os menos  radicais  entre todos  os críticos  da  economia capitalista.    O pai   do  socialismo  cristão  é  Robert  de  Lamennais (1782-1854), um padre católico francês que tentou revivificar a religião cristã como instrumento de reforma e de justiça social. Idéias semelhantes foram externadas pelo conde Henri de Saint-Simon (1760-1825) em seu livro O novo cristianismo. Da França, o movimento espalhou-se à Inglaterra, onde foi adotado por alguns intelectuais protestantes, especial-mente pelo romancista Charles Kingsley (1819-75). Em seus pri-meiros tempos, o socialismo cristão foi pouco mais que um pedido de aplicação dos ensinamentos de Jesus aos problemas criados pela indústria, mas nos últimos anos começou a assumir uma forma mais concreta. Em 1891, Leão XIII, o "papa dos trabalhadores", lançou a sua famosa encíclica Rerum novarum em que revive sob uma feição moderna a atitude econômica liberal de Santo Tomás de Aquino. Embora a encíclica reconhecesse de maneira expressa a propriedade privada como um direito natural e repudiasse vigorosamente a doutrina marxista da luta de classes, condenava em termos veementes os lucros ilimitados. Apelava para os empregadores a fim de que respeitassem a dignidade dos seus operários como homens e como cristãos e não os tratassem "como instrumentos para fazer dinheiro nem vissem neles apenas o músculo e a força física". Como propostas específicas para mitigar o rigor do regime industrial, recomendava a legislação fabril, a formação de sindicatos de trabalhadores, o aumento do número de pequenos proprietários rurais e a limitação das horas de trabalho.    A publicação da encíclica deu poderoso impulso ao desenvolvimento do socialismo cristão entre os católicos liberais. Nos países europeus, antes da Primeira Guerra Mundial, os partidos católicos desempenharam frequentemente um papel ativo, por vezes em colaboração com os marxistas moderados, no movimento em prol da legislação social. Isto é particularmente verdadeiro no que diz respeito ao Partido do Centro na Alemanha, ao Partido Socialista Cristão na Áustria e à Ação Liberal na França.

jan 252011
 
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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES DA GEOGRAFIA HUMANA

EM RELAÇÃO AO AQUECIMENTO GLOBAL ANTROPOGÊNICO: UM MUNDO SEM CATRACAS É POSSÍVEL?

 

lucianoagra@hotmail.com[1]

 

 

Resumo: O que é o Efeito Estufa? Será que o aquecimento Global é o Fenômeno Natural ou é o Efeito da Atividade Humana? Outra questão que se coloca é se o aquecimento global observado é natural ou antropogênico? Muitas perguntas, Muitas respostas… Este artigo propõe analisar sobre o aumento da temperatura global, a Intensificação do efeito-estufa, as Limitações dos modelos de clima global a Variabilidade climática natural e a responsabilidade pela natureza. Percebe-se que este artigo trata-se de uma pesquisa analítica descritiva, com análise dos textos pelos Estudos da linguagem e da Análise do discurso, buscando-se observar e desenvolver a presença dos discursos utilizados nas matérias referentes ao aquecimento global e seus usos de linguagem simples, destacada o contexto filosófico, sociológico, histórico, geográfico e outras áreas afins, enfatizando as causas, conseqüências e os interesses políticos integrados as organizações sociais, políticas, econômicas, cultural e assim sucessivamente. Portanto, contextualizamos e intertextualizamos uma pesquisa arraigada em livros, sites e revistas a fim de expor um trabalho concreto e vir a esclarecer as dúvidas sobre este tema de caráter social e polissêmico. Destaco Hans Jonas, porque tem como ponto de apoio uma ontologia fundada numa finalidade da natureza.

 

Palavras chave: Aquecimento Global – variabilidade climática – modelos climáticos – Efeito Estufa.

 

 

 

SOME CONSIDERATIONS OF THE HUMAN GEOGRAPHY

REGARDING THE GLOBAL HEATING ANTROPOGÊNICO: IS A WORLD WITHOUT CATRACAS POSSIBLE?

 

 

Abstract: What is the Greenhouse effect? Will it be that the Global heating is the Natural Phenomenon or is the Effect of the Human Activity? Is another question that is put if the global observed heating is natural or antropogênico? Many questions, Many answers… This article proposes to analyse on the increase of the global temperature, the Intensification of the greenhouse effect, the Limitations of the models of global climate to climatic natural Variability and the responsibility for the nature. it is realized that one treats this article as an analytical descriptive inquiry, with analysis of the texts by the Studies of the language and of the Analysis of the speech, when for to observe be looked and developing the presence of the speeches used in the matters referring to the global heating and his uses of simple, outstanding language the philosophical, sociological, historical, geographical context and other similar areas, emphasizing the causes, consequences and the political interests integrated the social, political, economical organizations, culturally and so successively. So, contextualizamos and intertextualizamos an inquiry rooted in books, sites and magazines in order to expose a concrete work and come to explain the doubts on this subject of social character and polissêmico. I detach Hans Jonas, because it takes as a point of support an ontology been based on a finality of the nature.

 

Key words: Global heating – climatic variability – climatic models – Greenhouse effect.

 

 

CONSIDERATIONS UNES PAR RAPPORT AUX GÉOGRAPHIE HUMAINE DU RÉCHAUFFEMENT CLIMATIQUE ANTHROPIQUE: UN MONDE SANS CLIQUET EST POSSIBLE?

 

 

Résumé: Quel est l’effet de serre? Ce que le réchauffement climatique est un phénomène naturel ou est l’effet des activités humaines? Une autre question qui se pose est de savoir si le réchauffement observé est naturelle ou anthropique? Beaucoup de questions, beaucoup de réponses … Cet article vise à analyser sur l’augmentation de la température mondiale, l’intensification de l’effet de serre, les limites des modèles du climat mondial à la variabilité naturelle du climat et de la responsabilité de la nature. Il est remarqué que cet article, il est une recherche descriptive analytique, l’analyse de textes pour l’étude de la langue et analyse du discours, en essayant d’observer et de développer la présence des discours utilisés dans les questions relatives au réchauffement de la planète et de ses usages un langage simple, a souligné le contexte philosophique, sociologique, historique, géographique et d’autres domaines connexes, en insistant sur les causes, les conséquences et les intérêts politiques inclus organisations sociales, politiques, économiques, culturelles et ainsi de suite. Par conséquent, une recherche et contextualisée intertextualize enracinée dans les livres, magazines et sites Web afin d’exposer un travail précis et viennent pour répondre aux questions sur le sujet d’un environnement social et polysémique. Mettez en surbrillance Hans Jonas, parce que son point de l’ontologie de soutien basé sur un but de la nature.

 

Mots-clés: réchauffement de la planète – la variabilité du climat – les modèles climatiques – Effet de serre.

 

 

1. INTRODUÇÃO

 

 

                   Neste artigo percebemos que o efeito estufa é o aquecimento gradual do planeta provocado pelo acúmulo de certos gases na atmosfera, principalmente dióxido de carbono ou gás carbônico (CO2). Os gases à base de carbono são conhecidos como gases estufa. O efeito estufa tem um lado bom. A camada de gases em torno da Terra serve para manter a temperatura do planeta nos limites adequados para a vida. Sem essa "manta" que retém o calor, a atmosfera seria cerca de 18 graus Celcius mais fria. As maiores emissões de CO2, segundo dados de 1997 expressos em milhões de toneladas anuais, são, pela ordem, dos Estados Unidos, China, Federação Russa, Japão, Índia, Alemanha, Reino Unido e Canadá. Especificamente, os países desenvolvidos assumiram o seguinte compromisso no âmbito do artigo 3.1 do Protocolo de Quioto, Consuelo yatsuda moromizato Yoshida mostrou em seu texto: mudanças climáticas, protocolo de quioto e o princípio da responsabilidade comum, mas diferenciada. A posição estratégica singular do Brasil. Alternativas energéticas, avaliação de impactos, teses desenvolvimentistas e o papel do judiciário, dizendo que:

 

As Partes incluídas no Anexo I devem, individual ou conjuntamente, assegurar que suas emissões antrópicas agregadas, expressas em dióxido de carbono equivalente, dos gases de efeito estufa listados no Anexo A não excedam suas quantidades atribuídas, calculadas em conformidade com seus compromissos quantificados de limitação e redução de emissões descritos no Anexo B e de acordo com as disposições deste Artigo, com vistas a reduzir suas emissões totais desses gases em pelo menos 5 por cento abaixo dos níveis de 1990 no período de compromisso de 2008 a 2012. (YOSHIDA, 2008, p. 6)

                   O aspecto negativo do efeito estufa está relacionado à ação do homem. A atmosfera da Terra formou-se lentamente, em bilhões de ano. De repente, em poucas décadas, a grande produção de gases estufa pelo homem ameaça alterar seu equilíbrio, tornando-a cada vez mais espessa, o que resultaria na retenção de mais calor sobre a superfície da Terra. Não há dúvida sobre o papel dos gases no aquecimento global. Mas ainda há discussões sobre o verdadeiro papel do dióxido de carbono emitido por atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis como no caso o petróleo, carvão e a fumaça das queimadas, e é por isso que foram provados os aumentos da temperatura média do planeta nos últimos anos e ainda também já foi exposto o aumento da emissão de gases estufa por atividades humanas. Mas não se estabeleceu ainda uma clara relação de causa e efeito entre esses dois fatos. O aumento da temperatura poderia ser uma oscilação natural do planeta. Estuda-se também o papel dos oceanos. Eles cobrem três quartos da superfície do planeta. Grande parte do carbono é produzido nos oceanos através do fitoplâncton, minúsculos organismos vegetais. Qual a verdadeira capacidade de o mar servir de "depósito " de carbono? É mais um tema em discussão. Mesmo com tantas incertezas, é melhor tomar medidas de redução dos gases estufa antes que seja tarde.

 

 

2. AQUECIMENTO GLOBAL: A CONVENÇÃO-QUADRO, O PROTOCOLO DE QUIOTO E O PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE COMUM.

 

 

 

Nós estamos na era do esclarecimento ambiental e aquecimento global é visto como a maior ameaça ao bem estar da população mundial. Hoje em dia muitos investigadores especulam que com o aquecimento global da atmosfera irá haver um aumento das falhas de colheitas relacionadas com a seca em áreas já por si afectadas por esta. Eles acham que as áreas secas ficarão mais secas e as áreas humidas ficarão mais húmidas. Ainda assim tem-se observado que as pessoas estão a mudar-se para regiões que são relativamente menos produtivas, com respeito à produtividade da agricultura do que as terras de que emigraram. Este livro desafia a vista que as secas futuras serão causadas pela alteração do clima ao contrário das actividades humanas e da mudança demográfica. O autor prevê problemas futuros nestes ambientes frágeis, quer ocorra ou não alteração do clima. Este livro intriga investigadores na biologia ambiental, em ciências ambientais, ciência popular, e em agricultura, bem como fabricantes de política e estudantes. ( DOMBROWSKI, 2006, p. 01)

 

 

                  Segundo Dombrowski, o Aquecimento global é um fenômeno climático de larga extensão um aumento da temperatura média superficial global que vem acontecendo nos últimos 150 anos. Entretanto, o significado deste aumento de temperatura ainda é objeto de muitos debates entre os cientistas. Isto quer dizer que as causas naturais ou antropogênicas têm sido propostas para explicar o fenômeno. Assim, acredita-se que a grande parte da comunidade científica acredita que o aumento de concentração de poluentes antropogênicos na atmosfera é causa do efeito estufa. Em conseqüência disto, a Terra recebe radiação emitida pelo Sol e devolve grande parte dela para o espaço através de radiação de calor, isso significa dizer que os poluentes atmosféricos estão retendo uma parte dessa radiação que seria refletida para o espaço, em condições normais, mas essa parte retida causa um importante aumento do aquecimento global.

                  Percebe-se aqui, portanto, uma questão fundamental quando se fala em aquecimento global, ou seja, pode-se dizer que é o aumento da temperatura média dos oceanos e do ar perto da superfície da Terra ocorrido desde meados do século XX e que deverá continuar no século XXI. Além disso, segundo o Quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, a temperatura na superfície terrestre caracterizou-se um aumento entre 0,74 para 0,18 °C durante o século XX, ou seja, um aumento nas temperaturas globais pode, em contrapartida, causar outras alterações, incluindo aumento no nível do mar, mudanças em padrões de precipitação resultando em enchentes e secas. No entanto, espera-se que o aquecimento global seja mais intenso no Ártico, e estaria associado ao recuo das geleiras, permafrost e gelo marinho. Particularmente os outros efeitos prováveis incluem alterações na freqüência e intensidade de eventos meteorológicos extremos, extinção de espécies e variações na produção agrícola. Dessa forma o aquecimento e as suas conseqüências variarão de região para região, apesar da natureza destas variações regionais ser incerta.

                  A crescente complexidade dos fenômenos ambientais, a ocorrência global concomitante com o aquecimento global que já se verifica e que se prevê continuar no futuro, é a acidificação oceânica, que é também resultado do aumento contemporâneo da concentração de dióxido de carbono atmosférico. É importante chamar atenção para o fato de que o consenso científico é que o aquecimento global antropogênico está a acontecer. Todavia, o debate público e político sobre o aquecimento global ainda continuam. Ainda ficamos uma indagação: Mas, afinal o que foi Protocolo de Quioto? Contudo, entende-se que o Protocolo de Quioto é um acordo internacional que estabelece as metas de redução de gases poluentes para os países industrializados. Ressalte-se, ainda, que o protocolo foi finalizado em 1997, baseado nos princípios do Tratado da ONU sobre Mudanças Climáticas, de 1992, ou seja, visa à estabilização da concentração de gases de efeito estufa para evitar uma “interferência antropogênica perigosa. Como se pode percebe, foi em Novembro de 2009 era composto por 187 estados que assinaram e ratificaram o protocolo. Por esta razão, Consuelo Yatsuda Moromizato Yoshida colocou que a Convenção-Quadro e o Protocolo de Quioto estabeleceram como objetivo final e ele dizia que”:

 

alcançar a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera num nível que impeça uma interferência antrópica perigosa no sistema climático. Esse nível deverá ser alcançado num prazo suficiente que permita aos ecossistemas adaptarem-se naturalmente à mudança do clima, que assegure que a produção de alimentos não seja ameaçada e que permita ao desenvolvimento econômico prosseguir de maneira sustentável. (YOSHIDA, 2004, p. 112)

 

 

                  É preocupante a crescente complexidade dos fenômenos ambientais, que a maior parte do aumento de temperatura observado desde meados do século XX foi causada por concentrações crescentes de gases do efeito estufa, como resultado de atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis e a desflorestação. Considerando, então, que o escurecimento global, uma conseqüência do aumento das concentrações de aerossóis atmosféricos que bloqueiam parte da radiação solar antes que esta atinja a superfície da Terra, mascarou parcialmente os efeitos do aquecimento induzido pelos gases de efeito de estufa. Em outras palavras os modelos climáticos referenciados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [IPCC], das Nações Unidas, projetam que as temperaturas globais de superfície provavelmente aumentarão no intervalo entre 1,1 e 6,4 °C entre 1990 e 2100. Como observou o renomado astrofísico inglês Stephen Hawking, afirmando que: “durante anos, parte da comunidade científica se enganou atribuindo o aquecimento aos ciclos naturais do planeta e às mudanças na atividade solar. Hoje existe uma quase unanimidade de que o problema é causado por nós mesmos” (HAWKING, 2001, p. 92). Segundo o IPCC, o efeito estufa, percebe-se por essa leitura que a variação dos valores reflete o uso de diferentes cenários de futura emissão de gases estufa e resultados de modelos com diferenças na sensibilidade climática. A partir daí podemos entender que a maioria dos estudos ter seu foco central no período até o referente ano 2100 espera-se que o aquecimento e o aumento no nível do mar continuem prosperando por mais de um milênio, mesmo que as concentrações de gases estufa se estabilizem. O que seria então o termo aquecimento global?

                  Antes de prosseguirmos com nossa hipótese, é preciso destacar que o termo aquecimento global é um exemplo específico de mudança climática à escala global, ou seja, o termo significa ainda mudança climática, mas, também pode se referir ao esfriamento global. Como se vê, é certo que no uso comum, o termo se refere ao aquecimento ocorrido nas décadas recentes e subentende-se uma influência humana. É a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima que enfatiza, entre outros aspectos, que os países desenvolvidos são os principais responsáveis pelas emissões históricas e atuais, ou seja, essa articulação se concretizou na Convenção Quadro das Nações Unidas para Mudança do Clima [UNFCCC] usa o termo mudança climática para mudanças causadas pelo Homem, e variabilidade climática para outras mudanças. Nesse mesmo enfoque é possível situar que o termo alteração climática antropogênica é por vezes usado quando se fala em mudanças causadas pelo Homem. Nesse contexto de interpretação entre as evidências do aquecimento do global incluem-se o aumento observado das temperaturas globais do ar e dos oceanos, o derretimento generalizado dos glaciares e a subida do nível médio do mar gradual das neves eternas e das camadas de gelo dos pólos, aumento do volume dos oceanos, mais chuvas em algumas regiões, mais seca em outras, aumento do número e intensidade de furacões, tufões, tempestades, inundações, desertificações e do fenômeno El Niño, que altera o clima no mundo.

                 Outra perspectiva, mais importante é a principal evidência do aquecimento global vem das medidas de temperatura de estações meteorológicas em todo o globo desde 1860, mas os referentes dados com a correção dos efeitos de ilhas urbanas demonstrou que o aumento médio da temperatura foi entre 0.6 a 0.2 °C durante o século XX. É aqui que se demonstra, com todo o vigor os maiores aumentos foram em dois períodos, a saber, primeiramente em 1910 à 1945 e 1976 à 2000, sendo que De 1945 à 1976, houve um arrefecimento que fez com que temporariamente a comunidade científica suspeitasse que estava a ocorrer um arrefecimento global. Partido dessas ponderações, o aquecimento verificado não foi globalmente uniforme. É preciso destacar ainda que durante as últimas décadas, foi em geral superior entre as latitudes de 40°N e 70°N, todavia em algumas áreas, como a do Oceano Atlântico Norte, tenha sucedido um arrefecimento. É provavelmente que os continentes tenham aquecido mais do que os oceanos. Há, portanto, que referir que alguns estudos parecem indicar que a variação em irradiação solar pode ter contribuído em cerca de 45–50% para o aquecimento global ocorrido entre 1900 e 2000.

                  Vale salientar que a principal evidência do aquecimento global vem das medidas de temperatura de estações metereológicas em todo o globo desde 1860, no entanto, os dados com a correção dos efeitos de ilhas urbanas expõem que o aumento médio da temperatura foi mais de 0.6 – 0.2 C durante o século XX, inclusive os maiores aumentos foram em dois períodos, a saber, sendo que o primeiro foi de 1910 à 1945 e o segundo foi de 1976 à 2000. É importante perceber que as evidências secundárias são obtidas através da observação das variações da cobertura de neve das montanhas e de áreas geladas, do aumento do nível global dos mares, do aumento das precipitações, da cobertura de nuvens, do El Niño[2] e outros eventos extremos de mau tempo durante o século XX, exemplos, a saber, os dados de satélite demonstra um espaço restrito de 10% na área que é coberta por neve desde os anos 60 deste referido século. Nota-se que a área da cobertura de gelo no hemisfério norte na primavera e verão também ficou restrito em cerca de 10% a 15% desde 1950 e houve retração das montanhas geladas em regiões não polares durante todo o século XX. Vale ressaltar que as causas das mudanças climáticas ocorreram devido a fatores internos e externos. Esses fatores internos são aqueles associados à complexidade derivada do fato dos sistemas climáticos serem sistemas caóticos não lineares. Fatores externos podem ser naturais ou antropogênicos.

                  Historicamente, o principal fator externo natural é a variabilidade da radiação solar, que depende dos ciclos solares e do fato de que a temperatura interna do sol vem aumentando. Fatores antropogênicos são aqueles da influência humana levando ao efeito estufa, o principal dos quais é a emissão de sulfatos que sobem até a estratosfera causando depleção da camada de ozônio. Com base neste ponto, os cientistas concordaram que fatores internos e externos naturais podem ocasionar mudanças climáticas significativas. No último milênio dois importantes períodos de variação de temperatura ocorreram: um período quente conhecido como Período Medieval Quente e um frio conhecido como Pequena Idade do Gelo. Ainda discorrendo sobre isto, David APPEL, colocou que o "o Período de Aquecimento Medieval, entre 800 e 1300, e a Pequena Idade do Gelo, de 1300 a 1900 – ocorreram globalmente e numa época em que a emissão de gases industriais com efeito estufa ainda não se tinha tornado abundante" (APPELL, 2003, p. 10-11).

                  É nessa passagem extraída de David Appell que podemos perceber que a variação de temperatura desses períodos tem magnitude similar ao do atual aquecimento e acredita-se terem sido causados por fatores internos e externos somente. Em seguida a Pequena Idade do Gelo é atribuída à redução da atividade solar e alguns cientistas concordam que o aquecimento terrestre observado desde 1860 é uma reversão natural da Pequena Idade do Gelo. Por conseguinte as grandes quantidades de gases tem sido emitidos para a atmosfera desde que começou a revolução industrial, a partir de 1750 as emissões de dióxido de carbono aumentaram 31%, metano 151%, óxido de nitrogênio 17% e ozônio troposférico 36%. Vale lembrar que a maior parte destes gases são produzidos pela queima de combustíveis fósseis, como no caso o carvão, petróleo e gás, queima das florestas tropicais, e assim sucessivamente.

                  Partindo dessa interpretação da sociedade, destaco que os cientistas pensam que a redução das áreas de florestas tropicais tem contribuído, assim como as florestas antigas, para o aumento do carbono. No que diz respeito, as florestas novas nos Estados Unidos e na Rússia contribuem para absorver dióxido de carbono e desde 1990 a quantidade de carbono absorvido é maior que a quantidade liberada no desflorestamento, porém nem todo dióxido de carbono emitido para a atmosfera se acumula nela, metade é absorvido pelos mares e florestas. Além disso, apresentam a real importância de cada causa proposta pode somente ser estabelecida pela quantificação exata de cada fator envolvido. Observe-se ainda, que os fatores internos e externos podem ser quantificados pela análise de simulações baseadas nos melhores modelos climáticos. Como bem se expressa, James Lovelock,  a respeito:

 

O ambientalista que gosta de acreditar que a vida é frágil e delicada e que está em perigo diante da brutalidade do homem, não gosta do que vê quando olha o mundo através de Gaia. A donzela desamparada que ele esperava resgatar, surge como uma mãe canibal saudável e robusta (LOVELOCK, 2001, p. 89-90).

 

 

                  Nessa passagem, nota-se claramente, que a influência de fatores externos pode ser comparada usando conceitos de força radioativa. Com esta afirmação a força radioativa positiva esquenta o planeta e uma negativa o esfria. Paralelamente as emissões antropogênicas de gases, depleção do ozônio estratosférico e radiação solar têm força radioativa positiva e aerossóis têm os seus uso como força radioativa negativa. Contudo, os modelos climáticos são simulações climáticas mostram que o aquecimento ocorrido de 1910 até 1945 podem ser explicado somente por forças internas e naturais, mas o aquecimento ocorrido de 1976 a 2000 necessita da emissão de gases antropogênicos causadores do efeito estufa para ser explicado. Vale destacar que a maioria da comunidade científica está atualmente convencida de que uma proporção significativa do aquecimento global observado é causada pela emissão de gases causadores do efeito estufa emitido pela atividade humana. Concluímos que dependemos da exatidão dos modelos usados e da estimativa correta dos fatores externos e é por isso que a maioria dos cientistas concordou que as importantes características climáticas estejam sendo incorretamente incorporadas nos modelos climáticos, mas eles também pensam que modelos melhores não mudariam a conclusão.

                  Outro ponto importante é que os críticos, os irônicos dizem que há inúmeras falhas nos modelos e que fatores externos não levados em consideração poderiam modificar as conclusões acima, mas, esses críticos dizem que as simulações climáticas não têm capacidades de modelar os efeitos resfriadores das partículas, ajustar a retroalimentação do vapor de água e levar em conta o papel das nuvens. Os críticos também expõem que o Sol pode ter uma maior cota de responsabilidade no aquecimento global atualmente observado do que o aceite pela maioria da comunidade científica, enquanto que alguns efeitos solares indiretos podem ser muito importantes e não são levados em conta pelos modelos. Assim, à parte do aquecimento global causado pela ação humana poderia ser menor do que se pensa atualmente.

                  Devido aos efeitos potenciais sobre a saúde humana, economia e meio ambiente o aquecimento global tem sido fonte de grande preocupação. Percebe-se que algumas importantes mudanças ambientais tem sido observadas e foram ligadas ao aquecimento global. Tomamos por exemplo as evidências secundárias mencionadas como no caso a diminuição da cobertura de gelo, aumento do nível do mar, mudanças dos padrões climáticos, e assim sucessivamente, ou seja, são exemplos das conseqüências do aquecimento global que podem influenciar não somente as atividades humanas, mas também os ecossistemas, inclusive o aumento da temperatura global permite que um ecossistema mude; algumas espécies podem ser forçadas a sair dos seus habitats devido a mudanças nas condições enquanto outras podem espalhar-se, invadindo outros ecossistemas. Em contrapartida, o aquecimento global também pode ter efeitos positivos, uma vez que aumentos de temperaturas e aumento de concentrações de CO2 podem aprimorar a produtividade do ecossistema, sendo que as observações de satélites mostraram que a produtividade do hemisfério Norte aumentou desde 1982, mas por outro lado é fato de que o total da quantidade de biomassa produzida não é necessariamente muito boa, uma vez que a biodiversidade pode no silêncio diminuir ainda mais um pequeno número de espécie que esteja florescendo.

                  É importante evidenciar que a outra grande preocupação é o aumento do nível do mar. Desde então, o nível dos mares está aumentando em 0.01 à 0.02 metros por década e em alguns países insulares no Oceano Pacífico são expressivamente preocupantes, porque cedo eles estarão debaixo de água. Nesta óptica podemos perceber claramente a influência do aquecimento global provoca subida dos mares principalmente por causa da expansão térmica da água dos oceanos, mas alguns cientistas estão preocupados que no futuro, a camada de gelo polar e os glaciares derretam. Em conseqüência haverá aumento do nível, em muitos metros. No presente momento, os cientistas não esperam um maior derretimento nos próximos 100 anos, quando o clima fica mais quente, a evaporação aumenta, e isto provoca pesados aguaceiros e mais erosão, e é por isto que inúmeras pessoas pensam que isto poderá causar os resultados mais extremos no clima como progressivo aquecimento global.

                  Assim, o aquecimento global também pode apresentar efeitos menos óbvios, por exemplo, a Corrente do Atlântico Norte, provocada por diferenças entre a temperatura entre os mares. Contudo, aparentemente ela está diminuindo conforme as médias da temperatura global aumentam, isso significa dizer que áreas como a Escandinávia e a Inglaterra que são aquecidas pela corrente devem mostrar climas mais frios a despeito do aumento do calor global, mas por outro lado o aquecimento global pode trazer conseqüências graves para todo o planeta incluindo plantas, animais e seres humanos, enquanto que a retenção de calor na superfície terrestre pode influenciar fortemente o regime de chuvas e secas em várias partes do planeta, afetando plantações e florestas.

                  Notadamente algumas florestas podem sofrer processo de desertificação, enquanto plantações podem ser destruídas por alagamentos, e com isso o resultado é o movimento migratório de animais e seres humanos, escassez de comida, aumento do risco de extinção de várias espécies animais e vegetais, e aumento do número de mortes por desnutrição. O outro grande risco do aquecimento global é o derretimento das placas de gelo da Antártica, mas esse derretimento já vinha processando há milhares de anos, por um lento processo natural, mas a ação do homem e o efeito estufa aceleraram o processo e o tornaram imprevisível.

                  A calota de gelo ocidental da Antártida está derretendo a uma velocidade de 250 km cúbicos por ano, elevando o nível dos oceanos em 0,2 milímetro a cada 12 meses. O degelo desta calota pode fazer os oceanos subirem até 4,9 metros, cobrindo vastas áreas litorâneas pelo mundo e ilhas inteiras. Os resultados também são escassez de comida, disseminação de doenças e mortes. O aquecimento global também acarreta mudanças climáticas, o que é responsável por 150 mil mortes a cada ano em todo o mundo. Só no ano passado, uma onda de calor que atingiu a Europa no verão matou pelo menos 20 mil pessoas. Os países tropicais e pobres são os mais vulneráveis a tais efeitos. A Organização Mundial da Saúde [OMS] atribui à modificação do clima 2,4% dos casos de diarréia e 2% dos de malária em todo o mundo. Esse quadro pode ficar ainda mais sombrio: alguns cientistas alertam que o aquecimento global pode se agravar nas próximas décadas e a OMS calcula que para o ano de 2030 as alterações climáticas poderão causar 300 mil mortes por ano.

                 O aquecimento global é o aumento da temperatura terrestre em todo o planeta, e tem preocupado a comunidade científica cada vez mais. Acredita-se que seja devido ao uso de combustíveis fósseis e outros processos em nível industrial, que levam à acumulação na atmosfera de gases propícios ao Efeito Estufa, tais como o Dióxido de Carbono, o Metano, o Óxido de Azoto e os CFCs. Há muitas décadas que se sabe da capacidade que o Dióxido de Carbono tem para reter a radiação infravermelha do Sol na atmosfera, estabilizando assim a temperatura terrestre por meio do Efeito Estufa, mas, ao que parece, isto em nada preocupou a humanidade que continuou a produzir enormes quantidades deste e de outros gases de Efeito Estufa. Desmatamento, queimada de florestas e matas também colabora para este processo.

                  Segundo as medições da temperatura para épocas anteriores a 1860, desde quando se tem feito o registro das temperaturas em várias áreas de globo, as medidas puderam ser feitas a partir dos anéis de árvores, de sedimentos em lagos e nos gelos, o aumento de 2 a 6 ºC que se prevê para os próximos 100 anos seria maior do que qualquer aumento de temperatura alguma vez registrado desde o aparecimento da civilização humana na Terra. Desta forma torna-se assim quase certo que o aumento da temperatura que estamos enfrentando é causado pelo Homem e não se trata de um fenômeno natural. Conseqüências do aquecimento global Aumento do nível dos oceanos: com o aumento da temperatura no mundo, está em curso o derretimento das calotas polares. Ao aumentar o nível da águas dos oceanos, podem ocorrer, futuramente, a submersão de muitas cidades litorâneas; Desertificação: o aumento da temperatura provoca a morte de várias espécies animais e vegetais, desequilibrando vários ecossistemas.

                  Somado ao desmatamento que vem ocorrendo, a tendência é aumentar cada vez mais as regiões desérticas em nosso planeta; Aumento de furacões, tufões e ciclones: o aumento da temperatura faz com que ocorra maior evaporação das águas dos oceanos, potencializando estes tipos de catástrofes climáticas; Ondas de calor: regiões de temperaturas amenas têm sofrido com as ondas de calor. No verão europeu, por exemplo, tem se verificado uma intensa onda de calor, provocando até mesmo mortes de idosos e crianças. O protocolo de quioto que é um acordo internacional que visa a redução da emissão dos poluentes que aumentam o efeito estufa no planeta. Entrou em vigor em 16 fevereiro de 2005. O principal objetivo é que ocorra a diminuição da temperatura global nos próximos anos. Os E.U.A, infelizmente, país que mais emite poluentes no mundo, não aceitou o acordo, pois afirmou que ele prejudicaria o desenvolvimento industrial do país. No caso de não se tomarem medidas drásticas, de forma a controlar a emissão de gases de Efeito Estufa é quase certo que teremos que enfrentar um aumento da temperatura global que continuará indefinidamente, e cujos efeitos serão piores do que quaisquer efeitos provocados por flutuações naturais, o que quer dizer que iremos provavelmente assistir às maiores catástrofes naturais causadas indiretamente pelo Homem, alguma vez registradas no planeta. A criação de legislação mais apropriada sobre a emissão dos gases poluentes é de certa forma complicada por também existirem fontes de Dióxido de Carbono naturais, o qual manteve a temperatura terrestre estável desde idades pré-históricas, o que torna também o estudo deste fenômeno ainda mais complexo. As analogias mais próximas que se podem estabelecer são com mudanças provocadas por alterações abruptas na circulação oceânica ou com o drástico arrefecimento global que levou à extinção dos dinossauros. O que existe em comum entre todas estas mudanças de clima são extinções em massa, por todo o planeta tanto no nível da fauna como da flora. Esta analogia vem reforçar os modelos estabelecidos, nos quais prevêem que tanto os ecossistemas naturais como as comunidades humanas mais dependentes do clima venham a ser fortemente pressionados e postos em perigo.

 

 

 CONCLUSÃO

 

                   Concluímos que a responsabilidade do homem que tem pela natureza humana é de tal monta, que a proteção implica automaticamente a proteção do outro, ou seja, nós temos que respeitar a natureza humana; a atividade antrópica, da mesma forma que vem sendo decisiva para a degradação da qualidade ambiental e da vida no planeta, ela é também decisiva para a reversão deste processo, cuja manifestação mais preocupante são as drásticas mudanças climáticas em nível global, com grandes questões importantes que  merecer a atenção dos Poderes Públicos e da sociedade brasileira para a adequada formulação dos rumos das políticas públicas relativas às alternativas energéticas, a saber, a hidroenergia, termoenergia e agroenergia, em especial, ponto crucial das políticas de desenvolvimento nacional em tempos de mudanças climáticas globais e vigência do Protocolo de Quioto. De fato, Karl-Otto Apel frisou que: “[...] a responsabilidade de principio dos seres humanos uns pelos outros é uma relação potencial que só se torna atual em conformidade com efetivo avanço de poder” (APEL, 1988 p. 146). É nesta linha de raciocínio que segundo Hans Jonas, argumentava que:

 

Precisamos da ameaça a imagem humana – e de tipos de ameaça bem determinados – para, com o pavor gerado, afirmarmos uma imagem humana autentica. Enquanto o perigo for desconhecido não se saberá o que há para se proteger e por que devemos faze-lo: por isso, contrariando toda lógica e método, o saber se origina daquilo contra o que devemos nos proteger (…) só sabemos o que esta em jogo quando sabemos que isto ou aquilo esta em jogo. (JONAS, 2006, p.71).

 

                   Portanto, “ O futuro é, ao mesmo tempo, condição de possibilidade de continuidade da humanidade e também o espaço dos efeitos possíveis e longínquos da ação humana” (SANTOS, 2009 p.6).

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

  • APEL, K O. Responsabilidade hoje – Já Somente Principio da Autoconservação e Autolimitação e Realização da Humanidade?. In: Ética e Responsabilidade: o problema da passagem para a moral pós-convencional. Lisboa: Instituto Piaget, 1988.
  • APPEL, David. Bate-boca – Afirmação de que Aquecimento Global não é induzido pelo homem reacende debate. Revista Scientific American, agosto de 2003, número 15, p. 10-11.
  • DOMBROWSKI, Daniel A. Aquecimento Global, Qual O Futuro?. Publicado em: fevereiro 19, 2006. Disponível em: << http://pt.shvoong.com/books/125192-aquecimento-global-qual-futuro/>>. Acesso: 23/01/2011.
  • EGOSHI, Koiti. A verdade sobre o aquecimento global. Publicado no Infobibos em 06/08/2007. Artigo em Hypertexto. Disponível em: <<http://www.infobibos.com/Artigos/2007_3/aquecimentoglobal/Index.htm>>.Acesso em: 23/1/2011.
  • HAWKING, Stephen. A natureza contra-ataca. Revista Veja, São Paulo, n. 15, p. 92, 18 abr. 2001.
  • JONAS. H. O Principio Responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de janeiro: Contraponto: ED PUC-RIO, 2006.
  • LOVELOCK, James. Gaia – Um Modelo para a Dinâmica Planetária e Celular. In: THOMPSON, William Irwin e Outros. Gaia – Uma Teoria do Conhecimento. São Paulo: Gaia, 2001.
  • YOSHIDA, Consuelo Yatsuda Moromizato. O Protocolo de Kyoto e o princípio da responsabilidade comum, mas diferenciada. A experiência e a contribuição japonesas. In: FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de (Coord.). Direito ambiental em debate. Rio de Janeiro: Esplanada, 2004, v.2. p. 109-120.
  • YOSHIDA, Consuelo Yatsuda Moromizato. Mudanças climáticas, Protocolo de Quioto e o Princípio da Responsabilidade comum, mas diferenciada. A posição estratégica singular do Brasil. Alternativas energéticas, avaliação de impactos, teses desenvolvimentistas e o papel do Judiciário. 2008. BRASIL Disponível em: <<http://www.planetaverde.org/mudancasclimaticas/index.php?ling=por&cont=artigos>>. Acesso: 23/01/2011.
  • SANTOS, R. O Problema da Técnica e a Critica à Tradição na Ética de Hans Jonas. In: Dissertatio, Pelotas: EDGUFPEL, 2009.
  • SCARBELLI & DARÓS. Vivência e descoberta em geografia, 7ª série – Ed. renov. – São Paulo : FTD, 1996.


[1]Graduado em Licenciatura em História pela Universidade Estadual da Paraíba [UEPB] e Graduando em Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Estadual da Paraíba [UEPB].

[2] O El Niño é uma alteração significativa de curta duração, que varia de 12 a 18 meses em torno da distribuição da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico, com profundos efeitos no clima. Em conseqüência disto, estes acontecimentos modificam um sistema de flutuação das temperaturas daquele oceano chamado Oscilação Sul e, por essa razão, são referidos muitas vezes como OSEN (Oscilação Sul-El Niño), mas o seu papel no aquecimento e arrefecimento global é uma área de intensa pesquisa, ainda sem um consenso.

 

nov 262010
 
Marechal deodoro da fonseca

O PLANALTO (CONTINUAÇÃO): DESENVOLVIMENTO DA ECONOMIA CAFEEIRA E SUAS CONSEQÜÊNCIAS. A ARISTOCRACIA DO CAFÉ. IMIGRAÇÃO.

Professor Brasil Bandecchi – 1970.

Julgamos necessário, e mesmo indispensável, que antes de falarmos do café no Planalto, se diga alguma coisa sobre sua introdução no Brasil e sua cultura, no Rio de Janeiro.

A maior consagração oficial que o café recebeu, no Brasil, foi quando, da proclamação da nossa Independência, os heraldistas introduziram o famoso produto como um dos símbolos pátrios. Passou a figurar em nossos brasões.

As cinco quinas lusas deram lugar ao ramo de café.

Está aí, o café, como um dos símbolos das lutas da nossa emancipação, como haveria de ser o mais forte esteio da luta pela nossa independência econômica.

Oficialmente, o café entrou no Brasil em 1727, vindo da Guiana, pelas mãos do oficial brasileiro Francisco de Melo Palheta, o qual recebeu algumas sementes e mudas da esposa do governador daquela possessão francesa.

Melo Palheta foi homem de valor, atingiu o posto de sar-gento-mor do exército português, o que equivale, hoje, a major. Quando se diz ou escreve seu nome, êle logo se associa ao café. No Norte, embora distribuídas as mudas e os grãos em condições de germinar, não teve maior repercussão econômica, o que haveria de acontecer no Rio de Janeiro, em 1760, quando o desembargador João Alberto Castelo Branco, transferido do Pará para a futura capital da nação, trouxe consigo algumas mudas.

Afonso de E. Taunay informa:

"Deu-se, segundo parece, em 1760 a chegada das mudas do chanceler Castelo Branco ao Rio de Janeiro.

Pretendem alguns autores que o primeiro cultivador da ru-biácea em terras fluminenses foi o holandês João Hoppmann, dono dc grande chácara em Mata-Porcos, então nos subúrbios do Rio.

Dizem outros que esses pioneiros da cafeicultura foram os capuchinhos italianos, ou Barbónos, em sua chácara, hoje desaparecida, pois corresponde a uma parte do coração da cidade.

O ilustre botânico Freire Alemão perfilha esta versão. Documentou-a, contando que a plantação dos capuchinhos foi de 1762 e a de Hoppmann de 1770 e realizada a instância do vice-rei marquês do Lavradio.

Em 1782, o cónego Januário Barbosa conheceu duas árvores da primitiva plantação dos capuchinhos, testemunhou-o quarenta anos mais tarde."1

No Rio de Janeiro começa a nova etapa de sua cultura.

Nos primeiros tempos, também no Rio não se dava ao café a importância merecida.

A primeira fazenda de café, ao que tudo indica, foi a do padre Antônio do Couto Fonseca, próspero plantador de cana, e que depois de algum êxito no cultivo da rubiácea, voltou, sem se saber qual o motivo, para a sua antiga lavoura. Assim mesmo, foi um benemérito, pois que distribuiu sementes de café a diversos interessados.

Com a chegada de D. João, em 1808, a cultura do café toma novo rumo. Incentivou sua cultura de tal forma que em 1820 o Rio de Janeiro exportou 97.500 sacas do produto e, 10 anos depois, sendo o Brasil independente há apenas 8, o mesmo porto exportava 391.785 sacas.

Os municípios que mais produziam eram Vassouras, Canta-galo, Valença, Paraíba do Sul etc. O café se transformou em notável fonte de riqueza, e logo a maior do Brasil. Já em 1850 a produção chegava a 1.343.484 sacas e, passados 10 anos, em 1860, atingia 2.127.219. Isto no Rio, até que São Paulo assumiu a liderança, tornando-se o maior produtor de rubiácea do mundo.

Do Rio, o café se irradiou para as províncias de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Atualmente, Paraná.

O período áureo do café no Rio foi a década de 1860-1870, e Vassouras foi a capital do produto. Sobrepujou a cana-de-açúcar que dominava a lavoura.

Zaluar visitou a fazenda de Sousa Breves, ainda em território fluminense, e assim a descreve:

"A casa do sr. comendador José de Sousa Breves, na sua fazenda do Pinheiro, não é uma habitação vulgar de roça; é um palácio elegante, e seria mesmo suntuoso edifício em qualquer grande cidade. Situada sobre uma eminência, domina o vasto anfiteatro de montanhas que a circunda, e revê-se por assim dizer nas águas do orgulhoso Paraíba, que, poucas braças em frente, murmura seguindo o impulso de sua rápida correnteza. Duas pontes, que se encontram sobre uma ilha no meio do rio, dão passagem, mesmo em face da casa do sr. comendador Breves, de uma para outra margem. O aspecto que esta vista apre-senta é realmente pitoresco e faz um efeito admirável a quem contempla com olhos de artista."-

Junto à casa, um belo jardim subia pela colina próxima, e daí partiam duas amplas escadas de mármore que levavam a espaçosa varanda. Num grande salão, entre outras obras do arte, retratos de suas majestades, os imperadores do Brasil, pintados por Cromoeslston. Espelhos de Veneza, candelabros de prata etc, completam os valiosos adornos da casa.

A fazenda é realmente modelar. Possui boas estradas e o café é carregado em sólidos carros de boi e não por escravos, que estão empregados em outros serviços.

Mas não é só o comendador Sousa Breves que quer luxo e bom passadio. Taunay escreve:

"Vendo a prosperidade entrar-lhe pela porta, o lavrador fluminense tornou-se exigente. Quis luxo, melhor passadio, palacete na corte do Império e carruagem; era a aristocracia rural, em que numerosos titulares figuravam no nobiliário do novo império."

Lembra bem o grande historiador quando afirma que o café civilizava o segundo reinado.

Penetremos agora o território paulista e comecemos por conhecer o solo planaltino. O marechal Pedro Müller, em 1838, escreve:

"O território em geral é fértil e ameno: são por isso a maior parte dos habitantes agricultores; porém, a arte da agricultura tem feito pouco progresso; a extensão do terreno, proporcionadamente vasto para seus poucos habitantes, lhes presta meios de escolherem as melhores paragens, donde tirem proveito com manso trabalho. Os campos são destinados para criação de gados; as matas para a cultura, e tanto uns como outros ainda fazem seleção."

Diz que a queimada é um grande mal. E depois de se referir a algumas pequenas serras existentes, aos montes e aos campos naturais e às boas águas que os regam, faz referência ao terreno "para onde corre o rio Paraíba, e seus confluentes". Aqui, além dos "gêneros que plantam para alimento, como milho, feijão, arroz, e mandioca, fazem a força do seu comercio na cultura do café, assim também em aguardente, e tabaco, criação de porcos e gado vacum."3

O vale do Paraíba seria, em breve, a Canaã dos cafeicultores.

"A marcha progresiva da amplidão da lavoura cafeeira em São Paulo, onde tão notável preeminência viria a adquirir, no conjunto da universidade do produto, fêz-se de modo lento, por uma série de causas.

Sobretudo devido a duas circunstâncias de ordem primordial: a dificuldade dos transportes e o receio de grave fenômeno meteorológico: a geada.

Introduzira-se o cafeeiro em São Paulo pelas vias fluminenses do litoral e do planalto (…).

Em 1806 e 1807 haviam sido as exportações da capitania respectivamente 265 e 318 sacas (de sessenta quilos aproximadamente).

Provinha quase toda a exportação do litoral dos distritos de São Sebastião e Ubatuba, escrevia em 1814, o secretário da Capitania, Sousa Chichorro, ao governador conde de Palma.

Por esta época o gênero principal da exportação paulista era o açúcar que correspondera em 1797 a 20.108 sacas, baixara, em 1803, a quase dez mil sacas, para, em 1805, atingir a 23.500, caindo em 1807 a perto de 15.000, assim mesmo quarenta e tantas vezes mais do que o volume da exportação cafeeira."

Em 1835, São Paulo produzia, aproximadamente, 150.000 sacas de café, exportando para outros países, quase 96.500.

A grande força estava no Norte da Província, pois que esta produzia 72,48%, enquanto o litoral produzia 14,39% e o Oeste 13,13%.

No Oeste encontrava-se o grande espantalho: a geada.

Mas o espantalho seria vencido a partir de 1835.

"Depois de 1835, a cultura cafeeira começou a derivar-se para o chamado Oeste, onde vai estender-se rapidamente, favorecida pela terra-roxa e pelo clima adequado. Ainda em 1835-36 o município de Campinas, nessa fertilíssima região, produzia apenas 808 arrobas de café. Mas dentro em pouco, os fazendeiros, seduzidos pelos lucros da Lavoura cafeeira, a ela se dedicaram de preferência, abandonando a cana. De tal arte, já em 1850 a produção do referido município contava mais de 200.000 arrobas de café contra 160.000 de açúcar."4

Em 1854, o café já suplantava a cana-de-açúcar. Assim é que, para 2.168 fazendas daquele havia 667 desta, e o valor da produção do primeiro era de 10.461.173S000 enquanto a segunda era de 1.630.050S000 (açúcar e aguardente).

Na segunda metade do século passado, as vias férreas dariam à rubiácea tal expansão que, em breve, o Rio de Janeiro passaria para segundo plano e São Paulo dominaria, de modo absoluto, o mais notável setor agrícola do Brasil em todos os tempos. Em 1870 sua produção somava 3.342.251 arrobas. E o açúcar caiu tanto que, quase inacreditável, São Paulo passou a importá-lo de outras províncias.

"Quase no fim do regime imperial em 1884-85, quando a corrente imigratória principiou a tornar-se importante, a produção agrícola discrimina-se assim: Café, 9.779.151 arrobas; açúcar, 448.545 arrobas; aguardente, 160.000 hectolitros; algodão, 1.365.551 arrobas; fumo, 133.000 arrobas; vinho, 12.600 hectolitros; e quantidades não conhecidas de milho, feijão, arroz, batatas etc." (…).

O progresso agrícola de São Paulo, a contar das últimas décadas do século passado, foi enorme. "A imigração européia, duplicando a população, proporcionou braços suficientes para incrementar as culturas. As estradas de ferro, avançando pelas florestas e campos, deram transporte vantajoso e fácil à população crescente."5

O braço escravo foi, durante o período colonial e o império, o sustentáculo da nossa lavoura. Em São Paulo o braço era pouco c o transporte difícil. O braço era o escravo, que primeiro arroteou a terra. Depois veio o braço livre, o imigrante. A carga até ao evento da estrada de ferro foi transportada no lombo de burro. Na estatística agrícola do brigadeiro Machado, verificou-se a existência de 35.565 animais de condução. "Mas, contando-se os que existiam nas cidades e que formavam as grandes tropas dos tropeiros, o total de animais de carga devia exceder de 70.000."

Em 1868 foi inaugurada a São Paulo Railway Company, iniciativa do alemão Frederico Fomm, posteriormente encampada por Mauá, São Vicente e Monte Alegre, que cederam seus direitos à empresa britânica. Eram os primeiros 139 quilômetros que cobriam o solo paulista, indo de Santos a Jundiaí. Em 1872, a Companhia Paulista inaugurava a linha Jundiaí-Cam-pinas. Em 1873, a Ituana inicia o seu tráfego. Depois a Sorocabana, a Bragantina e, assim, São Paulo foi formando sua rede ferroviária por onde passou a circular a riqueza da lavoura, e principalmente, o café.

Antes da libertação dos escravos, São Paulo passou a receber imigrantes, que iam para as fazendas de café. Por esse motivo, a abolição não trouxe sérios problemas para São Paulo que pôde continuar o ritmo do seu trabalho, num crescente cada vez maior.

Ao mesmo tempo que São Paulo assumia a liderança da produção do café, o Brasil torna-se o seu maior exportador mundial, pois que de 1871 em diante forneceu ao mercado internacional 56,6% e no decênio de 1881-1890, 61,5%. Neste século manteve sempre margem superior a 50%, sendo que em 1921-1930, a percentagem chegou a 69,9%.

Tal como aconteceu no Rio de Janeiro, o café seria causa de grandes fortunas e, sustentáculo da economia brasileira, deu a São Paulo o grande impulso que o transformou no grande Estado da Federação, e sua Capital, numa das maiores cidades do mundo. A própria indústria nasceu do café.0

São Paulo, de cidade provinciana, se desdobrou em bairros que ostentam na riqueza de suas residências a magnificência da rubiácea. No Império o café fêz nobres e na República criou uma aristocracia. E na trilha do progresso, consolidou o velho espírito democrático das bandeiras, recebendo povos de todas as terras, irmanando-os na comunhão do amor, do trabalho, da inteligência e da cultura.

Imigração

"O desenvolvimento das nossas correntes imigratórias processou-se, como de sobra é sabido, muito lentamente. Portugal, país de pequena densidade territorial, pouco podia povoar sua imensa Colônia sul-americana. Sua população, no século XVI, quando muito, atingia uns quinze habitantes por quilômetro quadrado.

Daí, a imperiosidade de se recorrer ao tráfico escravo, para os reclamos de sua agricultura. Daí, a imposição que incorporou os milhões de africanos trazidos pelas navegações.

As tentativas de colonização branca foram quase nulas, como ninguém ignora. Duas houve mais sérias, como as que levaram a Santa Catarina e ao Rio Grande do Sul, alguns milhares de açorianos e madeirenses. Ou a que encaminhou para a Amazônia Setentrional os refugiados de Mazagão, recém-recuperada pelos marroquinos. A vinda de D. João VI, em 1808, para o seu vice-reinado americano, e, em 1815, reino ultramarino, provocaria a atenção dos dirigentes da monarquia para a necessidade do povoamento por colonos brancos.

Não podia Portugal, sempre despovoado, fornecer senão muito escassos elementos, sobretudo depois da terrível provação por que passou com as guerras napoleónicas.

Poucos ensaios ocorreram, portanto, utilizando reinóis. Cita-se, por exemplo, o caso de Casa Branca, em São Paulo, onde os colonos atirados irracionalmente, a verdadeiro ermo, não poderiam de todo prosperar, como era de esperar e de fato aconteceu. E, aliás, no Brasil o português se adaptou sempre mal às exigências da lavoura, como trabalhador do campo. A escravidão o afastava das culturas."7

A industrialização que se enunciava, embora pàlidamente, no Brasil, em princípios do século XIX e a Revolução Industrial que se sentia de uma forma marcante na Europa, levaram-nos a pensar em substituir o trabalho escravo pelo livre. Mas isto ficou no campo das pequenas iniciativas, pois a libertação dos escravos era ainda considerada remota, e a importação de produtos estrangeiros, devido à deficiência do nosso comércio interno, julgada satisfatória. Foi somente com a perspectiva mais firme da abolição, que se cuidou seriamente da imigração e isto no Sul.

Devido à visão de estadistas e particulares, e suas louváveis iniciativas, deu-se o povoamento da região Sul com imigrantes europeus, o que foi amplamente favorecido pelo clima, que em muito se assemelha às nações superpovoadas de então.

No Rio Grande do Sul, os primeiros colonos, no sentido de imigração orientada, foram os açorianos, que se localizaram no litoral.

No princípio do século XIX, porém, é que começou um movimento migratório mais considerável, com a chegada de alemães, italianos, eslavos e japoneses.8

A primeira colônia alemã no Rio Grande do Sul, foi fundada em 1824, denominou-se S. Leopoldo, e teve êxito. O mesmo não aconteceu com a do Rio Negro (Paraná) que, por ser de difícil acesso, fracassou. Em Santa Catarina organizou-se outra colônia com elementos dessa nacionalidade, a Pedro de Alcântara. E assim se estendeu a colonização alemã no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, até que em 1870, o governo prussiano proibiu a migração para o Brasil.

"Não mais podendo dispor do elemento alemão, resolveu o governo brasileiro solicitar a colaboração do italiano. Em 1870-71 aqui chegou a primeira leva que se localizou no planalto oriental, acima da primeira colônia alemã aqui fundada. Optando pelas terras da mata, próximas aos afluentes do rio Taquari, cuja altitude variava de 600-800 metros, fundam Caxias do Sul, Garibaldi e Bento Gonçalves. A videira aí cultivada se constituiu no principal fator do progresso, que logo se verificou."0

Concomitantemente vieram para São Paulo colonos italianos, na sua grande maioria procedentes do Sul da Itália, região de agricultores.

Como dissemos, a abolição da escravatura que se anunciava cada vez mais nítida, fêz com que os fazendeiros paulistas, com notável descortino, cuidassem de substituir o braço escravo pelo livre.

"Daí a corrente imigratória, sobretudo italiana, cada vez mais intensa, que encaminharam para o porto de Santos. E o empenho em localizar estes imigrantes, radicando-os nas lavouras cafeeiras. Era, aliás, antiga esta política, datava de decênios, inspirada pela clara inteligência e espírito filantrópico do senador Vergueiro, cujo espírito nobilíssimo aborreciam os processos da instituição servil."10

"Em São Paulo a influência de elementos estrangeiros na composição da população pode ser avaliado pela estatística dos imigrantes entrados do Estado durante o período de 1827 a 1921: italianos — 872.705; espanhóis — 332.072; portugueses — 295.802; austríacos — 29.019; diversos — 364.451."11

A partir de 1908, começaram a chegar imigrantes japoneses, tendo o maior número desembarcado entre 1920-1934. Localizaram-se em São Paulo e na Amazônia.

Em um século, o Brasil recebeu, aproximadamente, 5.000.000 de imigrantes, enquanto a Argentina recebeu 7.000.000 e os Estados Unidos 35.000.000, no mesmo período.

A atual legislação brasileira fixou a entrada anual de imigrantes até dois por centro sobre o número dos respectivos nacionais que entraram no Brasil nos últimos 50 anos da promulgação do decreto, que é de 1934, ou seja, de 1884 até aquele ano.

Foi criada uma exceção para os portugueses, que ficaram isentos de qualquer restrição numerária, pois que obedecida aquela porcentagem, o limite à imigração lusa seria de 22.991 pessoas.12

ENTRADA DE IMIGRANTES NO BRASIL NO PERÍODO DE 1819-1959

Portugueses ………………….. 1.718.541 31,04%

Italianos ……………………… 1.614.988 29,17%

Espanhóis ……………………. 694.140 12,54%

Alemães ……………………… 257.114 4,64%

Japoneses …………………….. 222.893 4,03%

Russos ……………………….. 125.688 2,27%

Diversos (com menos de 125.000 cada). 902.671 16,31% Total ………………………… 5.536.035 100,00%

ESTRANGEIROS E BRASILEIROS NATURALIZADOS EXISTENTES NO BRASIL EM 1950

Portugueses ……………………. 336.856 27,7%

Italianos ………………………. 242.337 20%

Espanhóis ……………………… 131.608 10,8%

Japoneses ……………………… 129.192 10,6%

Poloneses ……………………… 48.806 4%

Russos ……………………….. 44.669 4%

Diversas nacionalidades ………….. 148.771 16%

Total …………………………. 1.214.184 100%

Elaboramos os quadros acima com dados colhidos no livro Imigração, Urbanização e Industrialização, de Manuel Diégues Júnior.

AFRICANOS ENTRADOS NO BRASIL

Durante 350 anos, mais ou menos, entraram no Brasil 3.600.000 africanos, assim distribuídos:

Século XVI ………………….. 100.000

XVII ………………….. 600.000

XVIII …………………. 1.300.000

" XIX …………………. 1 600 000

Dados da obra Subsídios para a História do Tráfico Africano no Brasil, de Afonso E. de Taunay.

CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA 1819 A 1970

1819 (conforme Memória sobre a Igreja no Brasil) .. 4.396.000

1920 ( " ) ……………………… 30.635.605

1950 ( *’ ) …………………….. 51.944.397

1965 (estimativa do IBGE) ………………… 82.222.000

1970 (estimativa) ………………………… 94.000.000

Mário da Veiga Cabral dá-nos o limite máximo, anual, de entrada de imigrantes, por nacionalidade: espanhóis — 11.562; italianos — 27.475; japoneses — 3.480; alemães — 2.318; russos — 2.146; e poloneses — 2.035.

E esclarece: "Quanto às quotas dessas três últimas nacionalidades, bem como de todas as outras que não atingem 3.000 pessoas (como sírios, turcos, lituanos etc.) poderá o Conselho de Imigração e Colonização sempre que achar conveniente, elevá-la até esse número."13

De conformidade com a legislação, 80% dos imigrantes de cada nacionalidade deve ser encaminhado para a lavoura, onde deve prestar serviço, pelo menos, durante os quatro primeiros anos.

Esta disposição é sumamente importante e precisa ser rigorosamente aplicada, pois que o excesso de habitantes nas grandes cidades e o despovoamento do interior, ou melhor, das regiões agrícolas, têm trazido sérios problemas ao país. Aumentam as "bocas para comer e diminuem os braços para plantar."

NOTAS

  • 1 A Propagação da Cultura Cafeeiro, Edição do Departamento Nacional do Café, 1934.
  • 2 Peregrinação pela Província de São Paulo, São Paulo, 1945, 2? edição.
  • 3 Ensaio d’um Quadro Estatístico da Província de São Paulo, (reedição literal), São Paulo, 1923.
  • 4 — Paulo R. Pestana, A Expansão Econômica do Estado de São Paulo num Século (1822-1922), Edição da Secretaria da Agricultura de São Paulo, 1923.
  • 5 — Paulo R. Pestana, ob. cit
  • 6 — Sebastião Sampaio, Os Congressos Mundiais do Café, Edição do A. fora de comércio.
  • 7 — Afonso de E. Taunay, Pequena História do Café do Brasil, D. N. C. 1945.
  • 8 Geografia do Brasil (Roteiro de uma Viagem), organizado por Antônio Guerra e Eloísa de Carvalho. I.B.G.E., Rio de Janeiro, 1960.
  • 9 — Idem.
  • 10 — Afonso de E. Taunay, idem.
  • 11 — Paulo R. Pestana, ob. cit.
  • 12 — Resolução n? 34, de 22 de abril de 1939, do Conselho de Imigração e Colonização.

Excerto do Material Didático Didática Irradiante.

out 072010
 
Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

Capítulo 27

A primeira guerra mundial

Edward McNall Burns in História da Civilização Ocidental

As raízes da guerra nas tendências políticas do século XIX

A gloriosa era de ciência, democracia e reforma social discutida nos capítulos precedentes terminou numa das mais horrorosas guerras de toda a história.   À primeira vista isso pode parecer um paradoxo.   Não obstante, devemos lembrar que o período compreendido entre 1 830 e 1 914 tinha certos  característicos absolutamente alheios ao progresso politico, social ou intelectual,   sendo uma época de democracia, o foi também de imperialismo. Se é verdade que nunca se despendeu tanto dinheiro no interesse do bem-estar social, as verbas militares e navais também aumentaram enormemente. A despeito dos notáveis avanços no campo da ciência e da educação, superstições cruéis e insensatas continuaram a medrar onde menos seria de esperar. O nacionalismo agressivo e belicoso alastrou-se como uma peste. Líderes intelectuais da França, inclusive o romancista Zola, instigaram um ódio apaixonado contra a Alemanha. Do outro lado do Reno, poetas e professores divinizavam o espírito alemão e cultivavam um arrogante desprezo pelos eslavos. Ensinava-se aos ingleses que eles eram o povo mais civilizado da terra e que o seu direito de estabelecer "o domínio sobre palmeiras e pinheiros" provinha de uma autoridade nada menos que divina. Diante disso, não parecerá talvez estranho que os Jovens Turcos, educados nas universidades da Europa Ocidental, tivessem, de volta à sua pátria, massacrado o "gado cristão" do sultão na Macedónia.

1. As causas subjacentes Da guerra

Causas econômicas: A rivalidade industrial entre inglaterra e alemanha

Desde que Tucídides escreveu a sua narrativa clássica da luta entre Esparta e Atenas, tornou-se hábito dos historiadores dividir os fatores responsáveis pela guerra em causas imediatas e causas subjacentes.   Algumas das causas subjacentes ou remotas da Primeira Guerra Mundial remontam à história européia  de um século atrás.   A maioria delas, porém, data de cerca de 1870.   Isto se aplica particularmente as  causas econômicas, que muitos historiadores consideram como bases de todas as demais.   A causa econômica que geralmente colocam no cabeçalho da lista é a rivalidade industrial e comercial entre a Alemanha e a Inglaterra. No capítulo sobre a Revolução Industrial mostramos que a Alemanha, após a fundação do império em 1 871, atravessou um período de desenvolvimento econômico pouco menos que milagroso. Em 1 914, estava produzindo mais ferro e aço do que a Inglaterra e a França juntas. Em produtos químicos, corantes de anilina, e, na manufatura de instrumentos científicos achava-se à frente do mundo inteiro. Os produtos da sua indústria desalojavam os congêneres ingleses de quase todos os mercados da Europa continental, bem como do Extremo Oriente e da própria Inglaterra. Talheres com o dístico "Made in Germany” eram vendidos até em Sheffield, o maior centro de cutelaria inglesa, e lápis fabricados na Baviera eram encontrados sobre a mesa da Câmara dos Comuns. Além disso, o império dos kaisers tinha começado a desafiar a supremacia britânica nos transportes. Em 1 914 a Hamburg-Amerika Linie e o Lloyd Norte-Alemão contavam-se entre as maiores linhas de navegação do mundo. Dois de seus navios tinham arrebatado sucessivamente o campeonato de velocidade do Atlântico aos barcos britânicos e o Imperator, lançado à água em 1912, era o maior navio do mundo.

Há indícios de que certos interesses britânicos começavam a alarmar-se seriamente com a ameaça da competição alemã. Esse sentimento chegou ao paroxismo por volta do fim do século, quando a Saturday Review de Londres estampou a seguinte opinião: "Se a Alemanha fosse extinta amanhã, não haveria depois de amanhã um só inglês no mundo que não fosse mais rico do que é hoje. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou por um direito de sucessão; e não se deve lutar por um comércio de duzentos e cinqüenta milhões de esterlinos?. . . A Inglaterra despertou afinal para o que é inevitável e constitui ao mesmo tempo a sua mais grata esperança de prosperidade. Germaniam esse delendam" (1). Conquanto essa opinião não fosse nem oficial nem representativa do pensamento da nação como um todo, refletia a exasperação de alguns cidadãos influentes. Depois de 1 900 o ressentimento diminuiu por algum tempo, mas tornou a inflamar-se nos anos que precederam o  deflagrar da guerra. Parecia reinar a forte convicção de que a Alemanha estava movendo à Inglaterra uma guerra econômica deliberada e implacável, visando tomar-lhe os mercados por meios fraudulentos e escorraçar os seus navios dos mares. Permitir que a Alemanha saísse vitoriosa dessa luta significaria para a Inglaterra o fim da sua prosperidade e urra jrave ameaça à sua existência nacional (2). Os cidadãos britânicos que se preocupavam com tais assuntos viam a sua pátria como vitima inocente da agressividade alemã e sentiam-se plenamente justificados em tomar quaisquer medidas que se fizessem necessárias para defender a sua posição.

(1) The Saturday Review, 11 de set. 1897; citado por John Bakeless em The Economic  Causes of Modem  Wars,  p.   145   (nota).

2)   Uma exposição  completa    da   rivalidade   econômica    anglo-germànica   pode  ser encontrada em R.  J.   S.  Hoffmann,  Great Britain  and  the  German  Trade Rivalry.   O autor,  todavia, absolve  os   ingleses  de  qualquer  intenção  de  fazer  guerra  à  Alemanha com o fim de destruir-lhe o comércio.

Outros exemplos de antagonismo econômico

Também os franceses estavam alarmados com a expansão industrial alemã.   Em 1 870 a França fora despojada dos extensas depósitos de ferro e carvão da Lorena, que passaram a contribuir para o crescimento industrial da Alemanha. É verdade que os franceses ainda tinham ferro em abundância nas ricas jazidas de Bney, na fronteira oriental, mas receavam que a sua inimiga viesse um dia a arrebatar-lhes também isso. Acresce que a França se via na necessidade de importar carvão, o que lhe feria o orgulho quase tanto quanto a perda do ferro. Havia ainda várias outras causas de atrito econômico que muito contribuíram para provocar a guerra. A ambição russa de obter o controle de Constantinopla e de outras porções do território turco entrava em conflito com os planos dos alemães e austríacos, que queriam para si o Império Otomano como um paraíso de privilégios comerciais. Rússia e Áustria também rivalizavam entre si na obtenção do monopólio comercial dos reinos balcânicos da Sérvia, da Rumânia, da Bulgária e da Grécia. A Áustria estava tão ansiosa de evitar que esses países caíssem na órbita russa quanto desejosa estava a Rússia de estender o seu poder a todos os eslavos da Europa Oriental. Havia, por fim, um agudo antagonismo econômico entre a Alemanha e a França com respeito ao direito de explorar os recursos minerais e as oportunidades comerciais do Marrocos.

 

 A estrada de ferro Berlim-Bagdá

Até ‘certo ponto, a construção da estrada de ferro Berlim-Bagdá foi uma causa econômica da guerra, embora tivesse efeitos políticos não menos importantes.   A conclusão dessa estrada envolvia, como é de ver. o assentamento de uma    linha do Bósforo a Bagdá pelo rio Tigre, uma vez    que já existia a ligação ferroviária entre Berlim e Constantinopla.   De Bagdá talvez pudesse ser estendida até o Golfo Pérsico, abrindo assim um caminho mais curto para a índia.   Os planos da estrada de ferro tinham sido traçados por uma companhia alemã desde 1 890. Considerando os riscos demasiadamente grandes para ser empreendidos por eles sós, os capitalistas alemães convidaram banqueiros ingleses e franceses para cooperarem. O capital seria dividido igualmente entre os três países e a Inglaterra e a França teriam a mesma representação que a Alemanha na diretoria. O ciúme e a desconfiança, contudo, fizeram com que a proposta fosse rejeitada pelos governos britânico e francês. Os ingleses parecem ter receado que as linhas vitais do seu império corressem perigo, bem assim como os seus interesses econômicos na Pérsia e na Mesopotâmia. Os políticos franceses, por seu lado, parecem ter cedido à pressão por parte da Rússia, a qual temia que uma estrada de ferro a atravessar a Turquia ressuscitasse a "enferma do Levante" e adiasse indefinidamente a partilha dos seus bens. Em 1 913-14 foi concluída uma série de acordos entre ingleses, franceses e alemães para a construção de ferrovias turcas sobre a base de uma divisão do Império Otomano em esferas de influência. A essas alturas, porém, a amizade internacional estava ferida de morte, sobretudo porque a Alemanha já havia completado cerca de 600 quilômetros da linha de Bagdá.

O perigo de exagerar as causas econômicas

É impossível aquilatar o verdadeiro valor das causas econômicas subjacentes da guerra.   Tiveram certamente influência, mas não tão importante, talvez, quanto em gera! se acredita.

 Para começar, a rivalidade entre a Inglaterra e a Alemanha tem sido provavelmente exagerada. Em 1914  a Inglaterra não corria perigo de ser reduzida ao nível de uma potência industrial de terceira categoria. É verdade que o seu comércio exterior já não crescia tão rápidamente como o da Alemanha, mas assim mesmo crescia. Durante os quarenta anos subseqüentes à guerra franco-prussiana o comércio alemão expandiu-se na proporção de 130%, enquanto para a sua rival o crescimento não passou de 40%. Ainda em 1 913 os ingleses exportaram mercadorias no valor de 525 milhões de libras e os alemães, de 495 milhões (3). Do mesmo modo, devemos abster-nos de de atribuir demasiada gravidade à competição entre a Rússia e a Alemanha. A Rússia não era ainda uma grande nação capitalista, com um excesso de produtos que tivesse necessidade de vender no exterior.   Dependia muito  mais  da importação.   Em  1 912. por exemplo, seus embarques de produtos acabados constituíram apenas 2% do total das exportações, ao passo que o volume das mercadorias manufaturadas foi mais de dez vezes maior (4). E é significativo que proviesse da Alemanha uma porção considerável  destas últimas. Por outro lado, não devemos esquecer que sempre há indivíduos poderosos que são prejudicados pela concorrência estrangeira.   Tais pessoas invariavelmente exerceu; a maior pressão possível para forçarem os seus governos a uma ação agressiva. Convém lembrar também qué as rivalidades económicas resultam amiúde em atrito político. Os ingleses temiam, por exemplo, que o gigantesco desenvolvimento industria] da Alemanha ocidental tornasse indispensável ao império do kaiser o controle de Antuérpia e Amsterdã. O resultado total seria a anexação da Bélgica e da Holanda pela Alemanha, com sério prejuízo para a posição estratégica da Inglaterra.

(3 )   B. E..  Schmitt, England and Germany, p.  102.

(4)   Clive Day, Bconomic Developmcnt in Modem Europe, p. 387.

Nacionalismo e Movimento pela Grande Sérvia.

Entre as causas politicas da Primeira. Guerra Mundial desempenhou papel proeminente o nacionalismo.   Esse fator, como explicamos anteriormente, tinha raízes que remontavam pelo menos à Revolução Francesa.   Nos começos do século XX, porém, êle passou a assumir uma var de formas particularmente perigosas.   As principais dentre elas eram o plano da Grande Sérvia, o paneslavismo na Rússia, o movimento de revanche na França e •  :v. mento pangermânico.   Os dois primeiros relacionavam-se intimamente entre si.   Pelo menos desde o começo do século XX a pequena Sérvia sonhava estender a sua jurisdição sobre todos os povos que passavam por ser da mesma raça e cultura que os seus próprios cidadãos. Alguns desses povos habitavam as então províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina.   Outros incluíam os croatas e eslovenos das províi meridionais da Áustria-Hungria.   Depois de 1 908, quando a Austria repentinamente anexou a Bósnia e a Herzegovina, o plano da Grande Sérvia dirigiu-se exclusivamente contra o império dos Habsburgos. Assumiu a forma de uma agitação para provocar o descontentamento entre os súditos eslavos da Austria, na esperança de afastá-los desta e unir à Sérvia os territórios que eles habitavam.   Daí adveio uma série de perigosas conspirações contra a paz e a integridade da Monarquia Dual, e o clímax fatídico dessas conspirações foi o assassínio do herdeiro do trono austríaco em 28 de junho de 1 914.

 O pan-eslavismo

Em muitas de suas atividades os nacionalistas sérvios foram auxiliados e instigados pelos pan-eslavistas da Rússia.   O pan-eslavismo baseava-se na teoria de que todos os eslavos da     Europa Oriental constituíam uma grande família. Argumentava-se  por  conseguinte  que  a  Rússia,  como o mais poderoso dos estados eslavos, deveria ser guia e protetora das suas pequenas irmãs dos Balcãs.   Era preciso encorajar estas últimas a voltar os olhos para a Rússia sempre que os seus interesses corressem perigo.   Os sérvios, búlgaros e montenegrinos, nas suas lutas contra a Áustria ou a Turquia, deviam saber que sempre teriam um amigo poderoso e simpatizante no outro lado dos Cárpatos.   O pan-eslavismo não era apenas o ideal interessado de alguns nacionalistas ardentes, mas fazia verdadeiramente parte da política oficial do governo russo.   Muito contribui para explicar a atitude agressiva da Rússia em todas as disputas que surgiram entre a Sérvia e a Áustria.

O movimento de desforra da França

 Outra das formas malignas de nacionalismo que contribuíram para a guerra de 1 914 foi o movimento francés pela revanche. Desde 1 870 os patriotas exaltados da França vinham almejando um ensejo de vingar a derrota sofrida na guerra franco-prussiana. É quase impossível, para quem nao é europeo, formar uma concepção justa do ascendente que tinha essa ideia sôbre o espírito de milhões de franceses. Era cuidadosamente cultivada pela imprensa amarela e servida aos escolares como iguaria cotidiana da sua nutrição intelectual. O conhecido político Raymond Poincaré devia não ver para que a sua geração continuasse a viver, a não ser a de reaver as provincias perdidas da Alsácia e da Lorena. Deve-se compreen der, no entanto, que essa idéia nunca passou, provavelmente, de opi nião de uma minoria do povo francês. Por volta de 1 914, era for temente combatida pelos socialistas e por muitos líderes liberais.

O movimento pangermanisia

É difícil avaliar a influência do pangermanismo como uma modalidade de nacionalismo antes de 1 914.   O nome do movimen; em geral, por derivar da Liga Pangermânica, fundada por volta de 1 895.   Essa liga advogava particularmente a expansão da Alemanha, que deveria incorporar todos os povos teutónicos da Europa Central.   Os limites do império seriam estendidos até abranger a Dinamarca, a Holanda, o Luxemburgo, a Suíça, a Áustria e a Polônia até Varsóvia.   Alguns líderes não se contentavam sequer com isso, exigindo também um grande império colonial e uma ampla expansão para leste, até os Balcãs e a Ásia Ocidental.   Faziam questão de que povos como os búlgaros e turcos se tornassem pelo menos satélites do Reich.   Embora a Liga Pangermânica fizesse muito ruído, dificilmente poderia alimentar a pretensão de representar a nação alemã.   Ainda em 1912 não contava mais de 17 000 membros e as suas violentas críticas ao governo eram mal recebidas por muita gente.   Não obstante, certas doutrinas suas tinham vivido em estado latente por mais de um século no pensamento alemão.   O filósofo Fichte ensinara que os alemães, em virtude da sua superioridade espiritual, tinham a missão de impor a paz ao resto da Europa.   Conceitos de arianismo e de supremacia nórdica também contribuíram para a idéia de que os alemães eram divinamente predestinados a persuadir ou obrigar as "raças inferiores" a aceitarem a sua cultura.   Por fim, os esforços de filósofos como Heinrich von Treitschke para divinizar o estado e glorificar o poder como instrumento de política nacional ajudaram a incutir no espírito de muitos alemães das classes média e superior a intolerância para com as outras nações e a crença no direito da Alemanha a dominar os seus vizinhos mais fracos.

Os efeitos do sistema de Alianças Múltiplas

O nacionalismo dos tipos que acabamos de descrever teria sido quase suficiente de per si para mergulhar um número considerável de nações européias na voragem da guerra.   Mas o  conflito dificilmente teria assumido as proporções  que assumiu se não fosse o sistema de alianças multiplas.   Foi esse sistema que transformou a contenda local entre a Áustria e a Sérvia numa guerra geral. Quando a Rússia interveio em favor da Sérvia, a Alemanha sentiu-se obrigada a acudir em defesa da Áustria. A França estava ligada à Rússia por laços estreitos e a Inglaterra foi arrastada ao conflito devido, pelo menos em parte, aos seus compromissos com a França.

O sistema de alianças, além disso, era uma fonte de suspeita e de medo. Impossível esperar que a Europa continuasse indefinidamente dividida em campos opostos de força mais ou menos igual. As condições não podiam deixar de mudar com a passagem do tempo. Os motivos que originalmente tinham levado determinadas nações a associar-se a outras perdiam a sua importância, desaparecendo assim a base da aliança. Veremos, por exemplo, a Itália abandonar praticamente a aliança com a Alemanha e a Áustria, às quais parecera, de começo, tão ansiosa por juntar-se. O resultado foi unir mais fortemente as suas antigas aliadas e aumentar-lhes a obsessão de estarem cercadas por um anel de potências hostis.

A evolução do sistema de alianças

A evolução do sistema de alianças múltiplas remonta à década de 1 870 e seu arquiteto inicial foi Bismarck.   Em essência, os objetivos do Chanceler de Ferro eram pacíficos.   A  Prússia e os seus aliados alemães tinham saído vitoriosos da guerra com a França e o recém-criado império germânico era o estado mais poderoso do Continente. Almejava Bismarck, acima de tudo, preservar os frutos dessa vitória: nada indica que êle estivesse a planejar novas conquistas. Não obstante, perturbava-o o receio de que a França pu-desse iniciar uma guerra de desforra.   Era pouco provável que tentasse sozinha uma tal coisa, mas podia fazê-lo auxiliada por uma outra potência. Conseqüentemente, Bismarck resolveu isolar a França ligando todos os seus possíveis amigos à Alemanha. Em 1 873 conseguiu formar unia aliança simultânea com a Áustria e a Rússia — a chamada Liga dos Três Imperadores. Essa combinação era entretanto de caráter precário. Desfez-se depois do Congresso de Berlim, em 1 878, quando a Rússia acusou a Alemanha e a Áustria de escamotear-lhe os frutos da guerra que acabava de ter com a Turquia. Extinta a Liga dos Três Imperadores, Bismarck cimentou uma nova aliança, agora muito mais forte, com a Áustria. Em I 882 essa parceria expandiu-se na célebre Tripla Aliança, com a adesão da Itália. Os italianos não aderiram por amor aos alemães ou aos austríacos, mas sim levados pela cólera e pelo medo.   Despeitava-os o fato de ter a França anexado a Tunísia (188I), um território que consideravam como legitimamente seu. Além disso, os políticos italianos ‘ ainda andavam às testilhas com a igreja e receavam que os clericais da França subissem ao poder e enviassem um exército francês para defender o papa. Nesse meio tempo foi ressuscitada a Liga dos Três Imperadores. Conquanto durasse apenas seis anos (1881-87), a Alemanha conseguiua amizade com a Rússia até 1890.

A Revolução diplomática em 1899 – 1907

Destarte, ao cabo de pouco mais de uma década de manobras políticas Bismarck kigrara realizar as suas ambições.   Por volta de 1 882 a França estava praticamente impossibilitada de obter o auxílio de amigos poderosos.   A Áustria    e a Itália achavam-se unidas à Alemanha pela Trí-plice Aliança e a Rússia, após três anos de ausência, havia retornado ao arraial bismarckiano.   O único auxilio possível era o da Inglaterra; mas, com respeito aos assuntos continc: ingleses tinham voltado à sua política tradicional de "esplêndido isolamento".   Por conseguinte, no que dizia respeito ao perigo de uma guerra de vingança a Alemanha pouco tinha a temer.   Mas, se Bismarck ou qualquer outra pessoa imaginava que tal segurança era permanente, estava-lhe reservada uma triste decepção.   Entre 1 890 e 1 907 a Europa passou por uma revolução diplomática que aniquilou praticamente a obra de Bismarck.   É verdade que a Alemanha ainda tinha a Áustria ao seu lado, mas perdera a amizade tanto da Rússia como da Itália, ao mesmo tempo que a Inglaterra saíra do seu isolamento para entrar em ajustes com a Rússia e a França.   Esse deslocamento do equilíbrio de poderes teve resultados fatídicos.   Convenceu os alemães de que estavam rodeados por um anel de inimigos e, portanto, tinham de fazer o que estivesse ao seu alcance para conservar a lealdade da Áustria, ainda mesmo que fosse preciso prestar apoio às temerárias aventuras desta no estrangeiro.   Seria difícil encontrar melhor ilustração da futilidade de se confiar num sistema de alianças para preservar a paz.

Não é necessário procurar muito longe as causas dessa revolução diplomática. Em primeiro lugar, desavenças entre Bismarck e o novo kaiser, Guilherme II, determinaram o afastamento do chanceler em 1 890. Seu sucessor, o Conde Caprivi. estava interessado principalmente numa tentativa de cultivar a amizade da Inglaterra e por isso deixou caducar o tratado com a Rússia. Em segundo lugar, o desenvolvimento do pan-eslavismo na Rússia colocou o império do czar em conflito com a Áustria. Na contingência de escolher entre a Áustria e a Rússia, a Alemanha muito naturalmente preferiu a primeira. Em terceiro lugar, o estabelecimento de laços financeiros entre a França e a Rússia abriu caminho inevitavelmente para uma aliança politica. Em 1 888-89 tinham sido lançados, na Bolsa de Paris, empréstimos russos no valor-aproximado de 500 milhões de dólares.   As obrigações, oferecidas a preço convidativo, foram prontamente compradas pelos capitalistas franceses. A partir de então, grande número de cidadãos influentes da França passaram a ter um interesse direto nos destinos políticos da Rússia. Uma quarta causa foi o abandono do isolacionismo pela Inglaterra, mudança essa devida a várias razões: uma delas foi a preocupação causada pelo crescente poder econômico da Alemanha; outra, o fato de terem os ingleses e os franceses descoberto, por volta de 1 900, uma base de cooperação para a partilha da Africa do Norte. Uma última causa da revolução diplomática foi a mudança de atitude da Itália em relação à Tríplice Aliança. Pelas alturas de 1 900 estavam os republicanos franceses consolidados no poder, não tendo pois a Itália mais que temer uma intervenção monárquico-clerical em favor do papa. Além disso, a maioria dos italianos tinha-se conformado com a perda da Tunísia e tratava apenas de reaver os territórios em poder da Áustria e de ganhar o apoio da França para a conquista de Trípoli. Por essas razões a Itália perdeu o interesse em manter a lealdade à Tríplice Aliança.

Resultados da revolução diplomática: Formação da Tríplice Entente

O primeiro resultado importante da revolução diplomática foi a Triple Entente.   Chegou-se a ela por uma série de estágios.   Em um ação política que aos poucos amadureceu numa aliança. O convênio militar secreto assinado pelos  dois países estabelecia que uma das partes iria em auxílio da outra em caso de ataque pela Alemanha, ou pela Áustria ou Itália apoiada pela Alemanha; e que, em caso de mobilização por parte de qualquer dos componentes da Tríplice Aliança, tanto a Rússia como a França mobilizariam imediatamente todas as suas forças e as colocariam tão próximo das fronteiras quanto possível. Essa Aliança Dual entre a Rússia e a França foi seguida pela Entente Cordiale entre a França e a Inglaterra. Durante as duas últimas décadas do século XIX, ingleses e franceses haviam tido amiudadas e sérias altercações a respeito de colônias e comércio. As duas nações quase chegaram às vias de fato em 1 898, em Fachoda, no Sudão Egípcio. Subitamente, porém, a França abandonou todas as suas pretensões a essa parte da África e iniciou negociações para um entendimento amplo em relação a outras contendas. O resultado foi a conclusão, em 1 904. da Entente Cordiale. Não era uma aliança formal, mas um acordo amigável sobre muitos assuntos. O que continha de mais importante eram certos artigos secretos referentes à partilha do Norte da África. A França concordava em dar carta branca à Inglaterra no Egito, e em troca a Inglaterra consentia na aquisição de quase todo o Marrocos pelos franceses. O passo final na formação da Triple Entente foi a conclusão de um entendimento mútuo entre a Inglaterra e a Rússia.   Também aqui não houve aliança formal.   As duas potências chegaram simplesmente, em 1 907, a um acordo relativo às suas ambições na Ásia. O núcleo desse acordo consistia na divisão da Pérsia em esferas de influência- A Rússia ficaria com a parte do norte e a Inglaterra, com a do sul. Uma porção mediana seria conservada, pelo menos temporariamente, como zona neutra sob o governo do seu soberano legitimo, o  xá.

Destarte, em 1907 as grandes potências da Europa achavam-se alinhadas em dois campos hostis —  Tríplice Aliança e a Triple Entente.   Enquanto, porém, esta última ia em vias de desenvolvimento, a primeira foi muitíssimo enfraquecida pela defecção da Itália.   Já vimos que por volta de 1 900 os motivos que levaram a Itália a juntar-se à Tríplice Aliança haviam perdido a sua importância.   Xão somente se observava uma decidida frieza as relações italo-austríacas mas também os nacionalistas italianos clama vam incessantemente por um império na África.   Por isso, em 1 900 o governo firmou um acordo secreto com a França, estipulando que em troca da plena liberdade de ação em Trípoli a Itália se absteria de qualquer interferência nas ambições francesas sobre o Marrocos.  Em 1 902 os dois países concluíram outro pacto secreto, pelo qual cada um se comprometia a manter a neutralidade em caso de ataque por uma terceira potência. A obrigação subsistia mesmo que alguma das partes, por motivo de uma ameaça à sua honra ou à sua segurança, se visse obrigada a "tomar a iniciativa da declaração de guerra". Sendo os termos ”honra" e "segurança" suscetíveis de ampla interpretação, é evidente que a Itália estava, na realidade, comprometendo-se a permanecer neutra em quase qualquer guerra que viesse a estalar entre a França e a Alemanha. Sua obrigação anterior, decorrente da Tríplice Aliança, de ajudar a Alemanha no caso de um ataque francês ficava assim praticamente anulada. O auge da deslealdade foi alcançado pela Itália no "Acordo de Racconigi" de 1 909. com a Rússia. Por esse acordo o governo de Roma prometia "encarar com benevolência" as pretensões russas ao controle dos Estreitos e de Constantinopla, em troca do apoio diplomático à conquista de Tripoli.

A instabilidade da Triple Entente

A fortuna da Triple Entente esteve também sujeita a flutuações. Foi ela um tanto fortalecida entre 1 905 e 1912 por uma série de "conversações" militares e de acordos não-oficiais entre a Inglaterra e a França.   Consistiam estes    mormente em planos pormenorizados dos estados-    maiores britânico e francês para uma ação conjunta dos dois exércitos, na eventualidade de ser a França atacada pela Alemanha.   Mais tarde foram assumidos certos compromissos de cooperação naval entre a Inglaterra e a França, de um lado, e a Inglaterra e a Rússia do outro.   Alas a coalizão foi seriamente enfraquecida em 1 909. em conseqüência da recusa da Inglaterra e da França a apoiar a Rússia na sua disputa com a Áustria em torno da anexação da Bósnia-Herzegovina por esta última. Outra ameaça à integridade da Triple Entente surgiu em 1 913, quando a Inglaterra colaborou com a Alemanha e a Áustria no desígnio de forçar a Sérvia a abandonar suas pretensões à Albânia. Embora as Potências Centrais pretendessem ver na Triple Entente uma poderosa coligação contra elas, na realidade era tão instável quanto a Tríplice Aliança. As ambições russas sobre Constantinopla entravam em conflito com os interesses britânicos na mesma localidade. Os próprios ingleses pareciam por vezes afagar a idéia de lançar as potências continentais umas contra as outras. Daí a sua tendência a vacilar entre o apaziguamento da Alemanha e o encorajamento à França. Até quase os fins de julho de 1 914, nem os inimigos da Inglaterra nem os seus aliados podiam ter absoluta certeza sobre a decisão que ela tomaria.

A Série de Crises Internacionais

A última das causas subjacentes da Primeira Guerra Mundial a ser considerada foi uma série de crises internacionais que puseram em perigo a paz européia entre  1 905 e  1 913.  Houve, ao todo, cinco crises de grave importância:  três   suscitadas pela questão marroquina e duas relacionadas com disputas na Europa Oriental. Conquanto a maioria delas tivesse sido afastada por meio de compromissos, todas deixaram um legado de suspeita e ressentimento. Em alguns casos, a guerra só foi evitada por estar na ocasião demasiadamente fraca uma das partes para oferecer resistência. Daí o sentimento de humilhação, o rancor reprimido que em ocasião futura teria de explodir. Outro efeito dessas crises foi lançar alguma luz sobre as verdadeiras simpatias das grandes potências. Destarte se evidenciou, durante a terceira crise marroquina, que a Inglaterra reconhecia uma comunhão de interesses com a França. Do mesmo modo, a atitude assumida pela Itália mostrou que esse país estava longe de ser um membro seguro da Tríplice Aliança.

O Conflito de Interesses de Marrocos

A crise marroquina nasceu de um entrechoque de interesses económicos franceses e alemães.   No começo do século XX era o Marrocos um país independente, governado por um sul-     tão. Seu território, porém, era relativamente rico   em minerais e produtos agrícolas, que as nações  européias cobiçavam. O que despertava principalmente a cupidez dos franceses e alemães eram as jazidas de ferro e manganês e as excelentes oportunidades de comércio. Em 1880 as principais potências do mundo haviam assinado a Convenção de Madrid, estabelecendo que os representantes de todas as nações teriam privilégios econômicos iguais no Marrocos. Mas os franceses não se satisfizeram por muito tempo com tal combinação. Em 1 903 o seu comércio marroquino ultrapassava o de qualquer outro país e a França almejava nada menos que um monopólio. Além disso, cobiçavam o Marrocos como uma reserva de tropas e como um baluarte na defesa da Argélia. Por conseguinte, em 1 904 a França entrou em acordo com a Inglaterra para estabelecer uma nova ordem no território do d sultão. Os artigos do acordo que foram dados à publicidade enunciavam a louvável resolução das potências signatárias de manter a independência de Marrocos. Os artigos secretos previam justamente o contrário. Em época oportuna, o Marrocos seria desmembrado. Uma pequena porção fronteira a Gibraltar serio, dada à Espanha e o resto caberia à França. A Grã-Bretanha, como vimos, tinha como recompensa a liberdade de ação no Egito.

Foi esse acordo de 1 904 que precipitou a a encarniçada disputa entre a França e a Alemanha. Em 1 905, alguns funcionários do governo alemão farejaram a trapaça. Resolveram obrigar a França a desistir de suas pretensões sobre Marrocos, ou então oferecer compensações. Em 1 905 o chanceler von Bülow induziu o kaiser a desembarcar no porto marroquino de Tânger e pronunciar ali un: discurso declarando que a Alemanha estava pronta a defender a independência de sultão. O resultado foi uma crise que levou a Europa a dois passos da guerra. A fim de resolver a disputa reuniu-se em 1 906, na localidade espanhola de Algeciras, um congresso internacional. Embora confirmasse a soberania do sultão, a conferência reconhecia ao mesmo tempo os interesses especiais da França nos dominios daquele. Esse resultado convinha admiravelmente aos franceses, que podiam agora penetrar na terra dos mouros sob o manto da legalidade. Em 1 908 deu-se uma segunda crise e em 1 911 uma terceira, ambas resultantes de tentativas dos alemães para proteger o que consideravam seus legítimos direitos no Marrocos. A terceira crise revestiu-se de particular importância por causa da atitude positiva assumida pelos ingleses. Em julho de 1911 David Lloyd George, no seu célebre discurso da Mansion House (Prefeitura de Londres), virtualmente ameaçou de guerra a Alemanha se esta tentasse estabelecer uma base na costa marroquina. A controvérsia em torno de Marrocos foi resolvida nos fins de 1911, quando a França concordou em ceder uma porção do Congo Francês à Alemanha. O governo do kaiser abandonou então todas as pretensões sobre Marrocos e informou os franceses de que podiam fazer o que entendessem com esse país. Pouco depois todo o território, com exceção da estreita nesga concedida à Espanha, foi adicionado ao império colonial da França. Nenhuma das partes, todavia, esqueceu os ressentimentos nascidos da contenda. Os franceses afirmavam ter sido vítimas de uma chantagem pela qual lhe fora arrebatado um território valioso. Os alemães alegavam que a porção do Congo cedida pela França não era compensação suficiente para a perda de privilégios econômicos em Marrocos. sultão.   Os artigos do acordos que criavam a louvável resolução das independência do Marrocos.

As crises balcânicas: 1) a anexação da Bósnia-Herzegovina

Mais sérias ainda que o caso marroquino foram as duas crises balcânicas.   A primeira foi a crise da Bósnia, em 1908.   Pelo Congresso de Berlim, em 1 878, as duas províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina tinham sido colocadas sob o controle administrativo da Austria, se bem que o Império Otomano conservasse ainda a posse legítima.   A Sérvia também cobiçava esses territórios, que duplicariam a extensão do seu reino e lhe colocariam as fronteiras nas imediações do Adriático.   Subitamente, era 5 de outubro de 1 908, a Áustria anexa as duas províncias, numa franca violação ao Tratado de Berlim.   Os sérvios ficaram furiosos e apelaram para a Rússia.   O governo do czar ameaçou com a guerra até que a Alemanha enviou uma áspera nota a S. Petersburgo, anunciando a sua firme intenção de apoiar a Austria.   Como a Rússia ainda não se houvesse refeito inteiramente da guerra com o Japão e não estivesse em condições de guerrear com a Alemanha e a Áustria unidas, acabou por informar os sérvios de que eles teriam de esperar um momento mais favorável.   A opinião dominante na Europa Ocidental era de crítica veemente à Áustria.   Censuravam-na por ter violado o direito internacional e por perturbar temerariamente o equilíbrio de poderes.   Não se sabia então que a responsabilidade da crise também recaía, em boa parte, sobre os ombros do ministro russo do Exterior, Alexandre Izvolski.   Em setembro de 1908 Izvolski firmara um acordo secreto com o Conde Aerenthal, seu colega austríaco, no castelo deste em Buchlau, prometendo a não-interferência da Rússia na anexação das duas províncias se a Áustria desse seu apoio à ambição russa de abrir os Estreitos.   Izvolski foi. porém, impedido de levar a efeito a sua parte do pacto pela oposição da Inglaterra e da França.   Quando Aerenthal consumou a anexação, Izvolski voltou-se contra êle numa atitude de inocência ofendida.   A crise da Bósnia foi, indubitavelmente, uma das causas mais importantes da Primeira Guerra Mundial.   Seria quase impossível mencionar um outro fator isolado que tivesse provocado tanta malquerença entre as nações.   Insuflou a ira dos sérvios contra a Austria e encorajou-os a solicitar o apoio da Rússia.   Convenceu os imperialistas de S. Petersburgo de que teriam de lutar eventualmente não só contra a Áustria, mas também contra a Alemanha.   Efeito não menos importante foi o de levar a França a uma aproximação mais estreita com a Rússia.   Depois de ver frustrados os seus planos em 1 908, Isvolski renunciou ao cargo de ministro e aceitou a sua nomeação como embaixador em Paris.   Ali, de 1 910 a 1 914, trabalhou com magistral habilidade para fazer da França uma aliada leal da Rússia.   Parece ter exercido considerável influéncia junto a Poincaré.

A Guerra dos Balcãs

A inimizade austro-sérvia foi ainda mais intensificada pelas guerras dos Balcãs.   A primeira dessas guerras foi. em parte, um fruto do programa de otomanização posto em prática pelos Jovens Turcos. Relatos de atrocidades cometidas pelo governo do sultão contra os eslavos da Macedónia despertaram as simpatias dos povos

balcânicos da mesma raca e serviram de pretexto para um ataque ao teritório turco. Em  1 912, a Sérvia, a Bulgária, o Montenegro e a Grécia, com o encorajamento da Rússia, formaram a Liga Balcânica para a conquista da Macedónia. A guerra iniciou-se em outubro de 1 912 e em menos de dois meses a resistência turca foi completamente desmantelada. Surgiu então o problema da divisão dos despojos. Por estados secretos, negociados antes do início das hostilidades, fora prometida ã Sérvia a Albânia, além de uma generosa fatia da Macedónia ocidental. Mas então a Áustria, receosa como sempre de qualquer aumento do poder sérvio, interveio na conferência de paz e obteve o apoio da Inglaterra e da França para o reconhecimento da Albânia como estado independente. Para os sérvios isso foi a última gota. Dir-se-ia que o governo dos Habsburgos estava disposto a bloquear-lhes sistematicamente todas as tentativas de expansão, pelo menos na direção de oeste. Desde então tornou-se ainda mais rancorosa a agitação anti-austríaca na Sérvia e na província vizinha da Bósnia. Conquanto os sérvios tivessem conseguido forçar os búlgaros a ceder uma porção das suas conquistas na Macedónia, isso não era compensação suficiente para a perda da Albânia, que teria oferecido uma saída para o mar (5).

(5)   A guerra que a Sérvia moveu à Bulgária é conhecida como a Segunda Guerra  Balcânica  (junho-julho de 1913).   A Sérvia tinha como aliados a Grécia, o Montenegro, a  Rumânia  e  a  Turquia. O  principal  resultado  dessa  guerra  foi  levar  a  Bulgária  à Primeira Guerra Mundial ao lado das Potências Centrais, na esperança de se desforrar da Sérvia.

2. O  CAMINHO DE HARMAGEDON

O Assassinato de Francisco Fernando

Como todos sabem, a causa imediata da Primeira Guerra Mundial foi o assassínio do Arquiduque Francisco Fernando, em 28 de junho de 1 914.   Foi a faísca lançada ao barril de pólvora das suspeitas e ódios acumulados.   Sem embarro.   não foi um fato tão trivial como muita gente pensa. Na realidade teve um significado muito mais profundo do que geralmente se imaginava fora da Europa Central. Francisco Fernando não era simplesmente uma figura inútil da nobreza austríaca; era um homem que em breve se tornaria imperador. O monarca reinante, Francisco José, atingira os oitenta e cinco anos e a sua morte era esperada a cada momento. Por isso. o assassínio do herdeiro do trono foi considerado muito justamente como um ataque ao estado.   A reação dos austríacos foi, de certo modo, semelhante ao que teria sido a dos americanos se, por exemplo, o vice-presidente dos Estados Unidos fosse assassinado, durante uma visita ao Texas, por um bando de nacionalistas mexicanos.

Motivos do Assassinato de Francisco Fernando

O assassino de Francisco Fernando foi um estudante bosníaco chamado  Princip.   Isto, porém, não  é nem metade da história.

Princip não passava de um instrumento dos nacionalistas sérvios.   O assassínio, embora tenha ocorrido em Sarajevo, capital da Bósnia, resultou de uma conspiração urdida em Belgrado. Os conspiradores eram membros de uma sociedade secreta oficialmente conhecida como "União ou Morte", mas comumente chamada "Mão Negra". Documentos importantes vieram à luz ultimamente, mostrando que o governo sérvio tinha conhecimento da conspiração (6). Nem o primeiro ministro nem qualquer dos seus colegas, porém, tomou medidas eficazes para impedir-lhe a execução ou, pelo menos, alertar o governo austríaco. Isto leva, naturalmente, a indagar dos motivos que levaram a agir os assassinos. O principal deles parece ter sido o plano de reorganização do império dos Habsburgos, que se sabia estar sendo arquitetado por Francisco Fernando. Esse plano, denominado trialismo, incluía uma proposta no sentido de transformar a Monarquia Dual numa monarquia tríplice. Além da Áustria alemã e da Hungria magiar, já então praticamente autônoma, haveria uma terceira unidade semi-independente composta pelos eslavos. Tal coisa era exatamente o que os nacionalistas sérvios não desejavam. Temiam que, se tal acontecesse, os seus consanguíneos croatas e eslovenos se conformassem com o domínio dos Habsburgos. Decidiram, portanto, eliminar Francisco Fernando antes que se tornasse imperador da Áustria-Hungria.

(6)   Ver S. B. Fay,  The Origins of the  World  War, vol. II, pp.  61 e seguintes.

Ainda depois de terminada a guerra, pensava-se na Europa e nos Estados Unidos que o assassínio do arquiduque tivesse sido obra de bosníacos descontentes.   Mas nas semanas que se seguiram imediatamente à tragédia as autoridades austríacas procederam a um inquérito que confirmou as suas suspeitas quanto à origem sérvia da conspiração.   Por conseguinte, no dia 23 de julho enviaram ao governo sérvio um severo ultimato que continha onze exigências.   Entre outras coisa:-, a Sérvia devia fechar os jornais anti-austriacos, liquidar as sociedades patrióticas secretas, excluir do governo e do exército todas as pessoas culpadas de propaganda anti-austriaca e aceitar a colaboração das autoridades austríacas na eliminação do movimento subversivo contra o império dos Habsburgos.   A 25 de julho, dentro do prazo-limite de quarenta e oito horas, o governo sérvio transmitiu a sua resposta.   Era um documento ainda hoje sujeito a variada? interpretações.   Do total de onze exigências, somente uma era  categoricamente repelida e cinco eram aceitas sem reservas. O chanceler alemão considerou-o como uma capitulação quase completa e o kaiser afirmou que todos os motivos para a guerra tinham desaparecido. A Áustria, no entanto, declarou insatisfatória a resposta sérvia, rompeu as relações diplomáticas e mobilizou parte de seu exército. Os próprios sérvios não parecem ter nutrido ilusões de agradar à Áustria, visto que três horas antes de transmitir a resposta haviam dado ordem de mobilizar as tropas.

Neste ponto, a atituie de outras nações assume extrema importância.   Com efeito, algum tempo antes disso, diversos governantes de grandes potências haviam assumido atitudes bem definidas.  

Já em 18 de julho Sazonov, ministro russo do exterior, avisara a Áustria de que a Rússia não toleraria qualquer tentativa de humilhar a Sérvia.   Ao tomar conhecimento do ultimato à Sérvia      belicosa o governo russo ordenou uma série de preparativos para pôr o país em pé de guerra.   Foram canceladas as licenças I -oficiais, recolhidas as tropas aos quartéis, acumularam-se estoques de provisões e declarou-se o estado de guerra nos setores limítrofes Alemanha e à Áustria.   Em 24 de julho Sazonov disse ao embaixador alemão:   ”Eu não odeio a Áustria, desprezo-a.   A Áustria está procurando um pretexto para engolir a Sérvia, mas nesse caso a Rússia fará guerra à Áustria" (7).   O governo de Moscou contava com o apoio da França ao assumir essa atitude beligerante.   Mais ou menos a 20 de julho Raymond Poincaré, que se tornara presidente da República Francesa, fêz uma visita a S. Petersburgo.   Insistiu com Sazonov para que "fosse firme" e evitasse qualquer compromisso capaz de resultar em perda de prestigio para a Triple Entente. Preveniu o embaixador austríaco de que "a Sérvia contava com amigos .sinceros entre o povo russo e a Rússia tinha uma aliada, a França" (8).

A atitude da Alemanha nesses dias críticos foi aparentemente mais moderada.   Se bem que o kaiser ficasse chocado e enfurecido com o assassínio do arquiduque, o seu governo não formulou qualquer ameaça nem tomou deliberações  especiais para a guerra senão depois de dar motivo para alarma a atitude da Rússia.   Infelizmente, porém, tanto o kaiser como o chanceler von Bethmann-Holhveg adotaram a premissa de que uma punição severa deveria ser aplicada sem mais delongas à Sérvia.   Esperavam com isso colocar as potências diante de um fato consumado e evitar assim uma guerra geral.   Em 30 de junho o kaiser declarou:   "Agora ou nunca!   Devemos pôr tudo em "pratos limpos com os sérvios, c isso já." A 6 de julho Bethmann-Hollweg prestou ao ministro das relações exteriores da Austria um compromisso que foi interpretado por ê.ste último como um cheque em branco. O governo austríaco era informado de que o kaiser "estaria ao lado da Austria, de acordo com as obrigações assumidas em tratado e com a sua antiga amizade". Ao dar essa garantia, Bethmann e o seu imperial chefe estavam jogando com a esperança de que a Rússia não interviesse em auxílio da Sérvia, ficando assim a disputa limitada ao âmbito local. Mais tarde, quando descobriram ser vã tal esperança, procuraram conter a Áustria. Tentaram persuadi-la a que limitasse sua ação a uma ocupação temporária de Belgrado, como garantia de que os termos do ultimato seriam observados. Como isso falhasse, Bethmann chegou até a ameaçar a Áustria com o rompimento da aliança caso Berchtold persistisse em não aceitar os seus conselhos. Todos esses esforços, porém, chegaram muito tarde, pois a guerra entre a Áustria e a Sérvia já havia começado.

(7) S.  B.  Fay, obra citada,  vol.  II,  p.  300.

(8) Ibid., vol. II, p. 281.

A mobilização  russa

A Áustria declarou guerra à Sérvia em 28 de julho de 1914. Por um efêmero e ansioso momento, houve a tênue possibilidade de circunscrever-se o conflito. Foi êle, todavia, rapidamente transformado numa guerra de maiores proporções pela ação da Rússia. A 29 de julho, Sazonov e a clique militar persuadiram o czar a emitir uma ordem de mobilização geral, não só contra a Austria mas também contra a Alemanha. Antes, porém, que fosse a ordem executada, Nicolau mudou de idéia ao receber um apelo urgente do kaiser para que o ajudasse a preservar a paz. A 30 de julho, Sazonov e o general Tatichtchev trataram de fazer com que o czar mudasse mais uma vez de idéia. Durante mais de uma hora procuraram convencer o relutante autócrata de que todo o sistema militar deveria ser posto em movimento. Por fim, o general Tatichtchev comentou: "Sim, é difícil tomar uma decisão", ao que Nicolau retrucou, com mostras de irritação: "Eu decidirei", e assinou a ordem de mobilização imediata. Sazonov correu ao telefone para comunicar a notícia ao chefe do estado-maior. Dessa vez tinham sido tomadas todas as precauções para evitar um arrependimento de última hora por parte do czar. Providenciara-se para que a ordem fosse imediatamente telegrafada a todo o pais e para que o chefe do estado-maior quebrasse o seu telefone e se sumisse durante todo o dia. Na manhã seguinte, numa remota aldeia siberiana, um viajante inglês foi despertado por uma comoção diante de sua janela, seguida  pela alvoroçada pergunta de um campônes: "Sabe da noticia? Estamos em guerra" (9).

(9)   Ibid.,  vol.  II,  pp.  472-;

Os ultimatos alemães à Rússia e à França.

Já não havia possibilidade de recuar diante do abismo.   Os alemães estavam alarmados com os preparativos de guerra dos russos. A última medida tomada pelo governo do czar tor-   nava a situação muito mais crítica, uma vez que nos     círculos militares alemães, assim como  nos franceses     e russos, mobilização geral significava guerra.   A     menos que o czar pudesse de algum modo suspender o processo de-

pois de iniciado, tanto a Alemanha como a Áustria seriam obrigadas a pegar em armas contra a Rússia. E se a Alemanha entrasse no conflito, a França indubitavelmente faria o mesmo. Ao saber que o decreto do czar tinha sido posto em execução o governo do kaiser expediu um ultimato a S. Petersburgo, exigindo que a mobilização cessasse dentro de doze horas. Na tarde de 1° de Agosto o embaixa dor alemão solicitou uma entrevista com o ministro russo das relações exteriores. Rogou a Sazonov que desse uma resposta favorável ultimato alemão. Sazonov respondeu que a mobilização não podia ser detida, mas que a Rússia estava disposta a entrar em negociações. O embaixador reiterou o seu pedido uma segunda e uma terceira vez. acentuando as terríveis conseqüências de uma resposta negativa. Sazonov terminou dizendo: "Não tenho outra resposta para lhe dar." O embaixador entregou então uma declaração de guerra ao ministro e, sem poder conter as lágrimas, retirou-se da sala.

 (10). Nesse meio tempo, os ministros do kaiser tinham também enviado um ultimato à França, exigindo que ela desse a conhecer as suas intenções. O primeiro ministro Viviani respondeu, em 1.° de agosto, que a França agiria "de acordo com os seus interesses" e ordenou imediatamente a mobilização. Em 3 de agosto a Alemanha declarou guerra à França.

A atitude da Inglaterra

Todos os olhares voltaram-se então para a Inglaterra. Que faria ela agora, ao ver que os dois outros membros da Triple Entente se haviam atirado à guerra?   Durante algum tempo, depois de ter-se tornado crítica a situação no Conto nente, a Inglaterra vacilou. Tanto o gabinete como a nação estavam divididos. Sir Edward Grey e Winston Churchill advogavam uma atitude resoluta em favor da França, com o recurso às armas se os interesses britânicos fossem ameaçados. Alguns de seus colegas, porém, encaravam com pouco entusiasmo uma intervenção da Inglaterra nas disputas continentais. Por todo o país havia também uma oposição considerável contra a participação em conflitos que não fossem de interesse vital para a Inglaterra. Conquanto Grey tivesse em várias ocasiões animado os russos e franceses a contar com o auxílio inglês, só depois de ter recebido promessas de apoio dos líderes do partido conservador é que tomou compromissos formais. Em 2 de agosto informou os franceses de que "se a esquadra alemã entrasse na Mancha ou cruzasse o Mar do Norte para realizar operações hostis contra a costa ou o.s navios franceses, a esquadra britânica dispensaria toda a proteção que estivesse a seu alcance" (11):

(10)   G. P. Gooch, Before the War: Studies in Diplomacy, vol.  II, p. 368.

A Inglaterra entra na Guerra

Diante dessa promessa feita à França, era difícil acreditar qu" a Inglaterra pudesse permanecer muito tempo fora da guerra, mesmo que a neutralidade da Bélgica não tivesse sido vio-     lada. Com efeito, ainda 29 de julho Sir Edward  Grey advertira o embaixador alemão em Londres,  de maneira "amistosa e privada", de que se a França fosse arrastada ao conflito a Inglaterra lhe seguiria os passos (12). Não obstante, foi a invasão do território belga que forneceu o motivo imediato para que a Inglaterra desembainhasse a espada. Em l 839, juntamente com as outras grandes potências, assinara ela um tratado garantindo a neutralidade da Bélgica. Além disso, havia um século que a Grã-Bretanha seguia a política de impedir o domínio dos Países-Baixos, que lhe ficavam fronteiros no outro lado do estreito, por qualquer nação poderosa do Continente. Mas o famoso Plano Schlieffen dos alemães dispunha que a França fosse atacada pela Bélgica. Por conseguinte, pediram ao governo belga permissão para enviar tropas através do seu território, prometendo respeitar a independência da nação e indenizar os belgas de todas as depredações causadas às suas propriedades. Como a Bélgica recusasse, as tropas alemãs começaram a atravessar a fronteira. O ministro britânico do Exterior compareceu imediatamente ao Parlamento e declarou que o seu país devia acorrer em defesa do direito internacional, protegendo as pequenas nações. Argumentou que a paz em tais circunstâncias seria um crime moral e que a Inglaterra perderia o respeito dos países civilizados se deixasse de cumprir os seus compromissos de honra nessa ocasião. Os aplausos com que foi recebido o seu discurso na Câmara dos Comuns não lhe deixaram dúvidas quanto à atitude desse órgão. No dia seguinte. 4 de agosto, o gabinete resolveu mandar um ultimato a Berlim, exigindo que a Alemanha respeitasse a neutralidade belga e desse até a meia-noite uma resposta satisfatória. Os ministros do kaiser não tiveram outra resposta a dar senão que se tratava de uma necessidade militar e que era questão de vida ou de morte para a Alemanha poderem os seus soldados alcançar a França pelo caminho mais fácil e mais rápido. Quando o relógio bateu meia-noite, estavam em guerra a Inglaterra e a Alemanha.

(11) S. B. Fay, obra citada, vol. II pág. 540.
(12) B. E. Schmitt, "July, 1914: Thirty Years Afterv, em Journal of Modern History, vol. XVI  (1944), p.  193.

Alastra-se a conflagração

Outras nações foram rapidamente lançadas no terrível sorvedouro. Em 7 de agosto os montenegrínos juntaram-se aos seus consanguíneos sérvios na luta contra a Áustria.   Duas semanas depois o Japão declarou guerra â Alemanha, em   parte devido a sua aliança com a a Inglaterra, mas sobretudo com o objetivo de conquistar as possessões alemãs do Extremo-Oriente.   Em 19 de Agosto a Turquia negocia uma aliança com a Alemanha e em outubro iniciou o bombardeio dos pactos russos do Mar Negro. Destarte, a maioria das nações primeiramente ligadas por alianças ingressaram no conflito em sua fase inicial quer de um lado, quer do outro.   A Itália, no entanto, embora aimda  fosse  oficialmente um membro da Tríplice Aliança, proclamou a sua neu tralidade. Insistiam os italianos em que a Alemanha não estava fazendo uma guerra defensiva e, por conseguinte, não tinham a obrigação de auxiliá-la. Nada diziam, está claro, sobre o seu acordo secreta com a França, firmado em 1902. A Itália manteve-se neutra até maio de 1 915, quando, seduzida por promessas secretas da cessão de territórios austríacos e turcos, lançou-se à guerra ao lado da Triple Entente.

A Questão da Responsabilidade pela Guerra

O tumulto e a excitação que acompanharam o início da grande hecatombe de 1 914 há muito que se extinguiram, mas continua de pé a importante questão de saber-se quem foi o responsável pela horrível conflag ração. Os histo- riadores que examinaram os fatos declaram com unanimidade quase absoluta que não se pode con- siderar como culpada nenhuma nação em particular. A culpa deve ser dividida entre a Sérvia, a Austria, a Rússia, a Alemanha, a França e, talvez, a Inglaterra e a Itália também. É impossível determinar, todavia, qual a parte que cabe a cada um desses países. Parece justo afirmar que nenhuma das grandes potências desejava realmente uma guerra geral, mas a política adotada por algumas delas tornavam tal guerra inevitável. A Alemanha, por exemplo, considerou essencial aos seus interesses apoiar a Austria na temerária decisão desta de punir a Sérvia, embora estivesse lançando com isso um desafio à Rússia. Os alemães aparentemente esperavam que a Rússia negasse ouvidos ao desafio, mas não tinham certeza e estavam disposto a jogar no escuro, com risco de provocar uma guerra geral. Os próprios russos talvez não tivessem nenhuma intenção de guerrear a Alemanha ou mesmo a Austria, mas não vacilaram em ameaçar o status quo conspirando para obter o controle dos Estreitos, nem em favorecer o nacionalismo sérvio ao ponto de fazer perigar a segurança da Austria-Hungría. Do mesmo modo a França, no tocante à sua política marroquina, visava objetivos que sem dúvida lhe pareciam razoáveis, mas que não poderiam ser alcançados senão à custa dos interesses alemães.   E assim por diante.   A ambicão econômica e a preocupação com a segurança ou com a grandeza nacional levaram muitos estados europeus a adotar linhas de ação que colocaram o continente à beira da guerra. A guerra em si mesma não era o objetivo, mas foi o resultado inevitável quando se tornou impossível conciliar as ambições nacionais antagônicas.

A culpa dos indivíduos

Considerar a Grande Loucura de 1 914 como obra de um único indivíduo é ainda mais absurdo do que encará-la como a conspiração diabólica de uma só nação. Atualmente está mais  provado que o kaiser, tantas vezes representado como o Anjo das trevas, ioi menos culpado do que geralmente se crê. É verdade que gostava de fazer discursos jactanciosos, gabando-se, por exemplo, de ter permanecido ao lado da Áustria, na sua "armadura resplandecente", por ocasião da crise da Bosnia e referindo-se a si mesmo como o "Altíssimo". Mas o seu controle sobre o governo alemão diminuía de mês para mês. Raramente consagrava mais de duas horas por dia aos negócios públicos e em geral fazia apenas uma vaga idéia do que estava ocorrendo. Os verdadeiros negócios de estado eram dirigidos pelos seus ministros. Nenhum destes, porém, pode ser acusado de planejar deliberadamente a guerra. O chanceler von Bethmann-Holhveg foi tomado de profunda prostração nervosa nos trágicos dias finais. Tinha sido um dos tiltimos estadistas europeus a abandonar as esperanças de paz. Quando por fim compreendeu que a horrível catástrofe já não podia ser evitada, por pouco não enlouqueceu. Outros estadistas, talvez, mostraram mais sangue-frio, mas a maioria deles simulou, pelo menos, tentar impedir o conflito.

Na realidade, a Primeira Guerra Mundial foi um movimento de proporções demasiado vastas para ter sido causado em seu todo por planos individuais. Conquanto a maior parte dos políticos então no poder tenham sido de certo modo responsáveis, a culpa que lhes coube consistia antes da estupidez do que nas intenções criminosas. Provavelmente, poucos deles desejaram de fato a guerra, mas deixaram-se arrastar a situações difíceis e tiveram de recorrer a expedientes perigosos para evitar uma perda de prestígio. A maioria acreditava, como acreditam ainda hoje os estadistas, na fanfarronada e na ameaça como métodos de forçar um governo rival a ceder. Por vezes tais táticas surtiam efeito, como em 1909, quando o chanceler von Bülow fez a Rússia recuar da posição assumida na crise da Bósnia. Mesmo nas circunstâncias mais favoráveis, porém, o blefe entre nações está repleto de tremendos riscos. Em grande parte, também, os indivíduos que ocupavam os postos de mando em l 914 não passaram de instrumentos de forças muito mais poderosas que eles. Sazonov e Izvolski não criaram o pan-eslavismo na Rússia, do mesmo modo que o movimento de revanche na França não foi invenção de Poincaré. A Primeira Guerra Mundial foi um produto do chauvinismo, de ambições de prestígio nacional, da competição capitalista pelos mercados e por novos campos de investimento, dos ódios seculares entre as nações e dos temores suscitados pelas crises e pelas corridas armamentistas. Quando tais fatores se combinam para governar a constelação dos acontecimentos, primeiros-ministros e ministros do Exterior pouco mais são do que meros joguetes do destino.

Num sentido ainda mais amplo, a conflagração de 1914 foi a conseqüência virtualmente inevitável do sistema de política de poder que havia cerca de trezentos anos vinha fazendo a infelicidade do continente europeu. Esse sistema baseava-se na doutrina de que cada estado é absolutamente soberano e, por conseguinte, tem o direito de seguir a politica exterior que parecer mais adequada aos seus interesses. Se um estado, a fim de obter matérias-primas ou melhorar as suas defesas, achava conveniente lançar as suas garras sobre o território de um vizinho fraco, fazia-o sem trepidar e não havia ninguém para lhe negar tal direito. A maioria das grandes nações da Europa procurava conseguir a segurança para si estabelecendo uma espécie de equilíbrio de forças. Infelizmente, porém, cada uma tentava inclinar a balança em seu favor, em geral formando alianças para depois fortalecê-las ao máximo. Isso conduzia, entre as nações não incluídas nessas alianças, ao receio de serem cercadas, à formação de contra-alianças e aos esforços para anular qualquer coisa que se assemelhasse a uma liga de inimigos. Pelas alturas de 1 914 as nações do mundo se encontravam quase num estado de natureza, sem nenhuma autoridade eficaz para refreá-las ou para julgar-lhes as contendas. Era, virtualmente, uma condição de anarquia internacional.

3. A PROVA DE SANGUE

A guerra Santa das potências da Entente

No evangelho profético conhecido como o Apocalipse conta-se que as forças do bem e do mal se concentrarão no ”grande dia de Deus"   para  travarem  batalha  em  Harmagedon.

Dir-se-ia que o autor desconhecido estava pensando  no titânico conflito em que se engolfaram as nações europeias em 1 914.   Isso porque poucos admitiam que aquela guerra fosse uma luta entre potências imperialistas rivais ou um produto dos ciúmes nacionalistas; era, ao invés, representada pelos porta-vozes de ambos os campos como uma cruzada contra as forças do mal. Mal havia começado o conflito, os líderes políticos da Inglaterra e da França caracterizaram-no como um denodado esforço para salvaguardar os direitos dos fracos e preservar a supremacia do direito e da moral internacionais. Em 6 de agosto de 1914, o primeiro ministro Asquith declarou que a Inglaterra entrara na luta para defender "o princípio de que as nacionalidades menores não devem ser esmagadas pela vontade arbi traria de uma potência forte e dominadora*’. Do outro lado do Canal da Mancha, o presidente Poincaré asseverava pomposamente aos seus compatriotas que a França não tinha outro objetivo senão o de defender "’perante o universo a Liberdade, a Justiça e a Razão". Mais tarde, em conseqüência da pregação de escritores e oradores eloqüentes como H. G. Wells, Gilbert Murray e Woodrow Wilson, a cruzada da Entente converteu-se numa guerra "para acabar com todas as guerras", ”assegurar a democracia no mundo" e redimir a humanidade da maldição do militarismo. No campo adversário, os subordinados do kaiser faziam tudo que podiam para justificar os esforços militares da Alemanha. A luta contra os Aliados era representada ao povo alemão como uma cruzada em prol de uma Kidtur superior e como uma batalha para proteger a pátria contra a perversa política de cerco das potências da Entente (13).

Características Singulares da Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial foi singular sob vários aspectos. Não só inaugurou dezenas de armas novas mas também introduziu métodos de luta que diferiam radicalmente dos usa-      dos na maioria dos conflitos anteriores.   Salvo bre- ves ataques de infantaria, a guerra aberta desapareceu quase desde o início.   Depois das primeiras  semanas os exércitos antagonistas se instalaram numa vasta rede de trincheiras, das quais partiam assaltos, comumente ao lusco-fusco da madrugada, a fim de desalojar o inimigo. De um modo geral a luta foi um prélio de resistência em que a vitória dependeu principalmente dos recursos naturais e da possibilidade, para os Aliados, de obterem do outro lado do Atlântico provisões quase ilimitadas de dinheiro, alimentos e munições. Xão erraremos talvez se dissermos que a Primeira Guerra Mundial se distinguiu por uma selvajaria maior do que qualquer outra luta armada anterior dos tempos modernos. O uso dos gases venenosos, da metralhadora, do lança-chamas e das balas explosivas cobrou um tributo de mortes e de medonhos ferimentos absolutamente inédito, sem precedentes mesmo nas longas campanhas de Napoleão. Muito característico dessa selvajeria foi o fato de ter excedido o número de civis mortos nos bombardeios aéreos, nos massacres, peia fome e pelas epidemias, o número de soldados que pereceram em combate. Por fim  a Primeira Guerra Mundial levou a palma a tóelas as demais pelo enorme tamanho dos seus exércitos.   Ao todo, cerca de 65 000 000 de homens lutaram, durante períodos mais ou menos longos, sob as bandeiras das diversas nações beligerantes. Foi o clímax da tendência progressiva para a guerra em massa, tendência que datara dos tempos da Revolução Francesa.

(13) As citações deste parágrafo foram tiradas de J. S. Ewart. The Roots and Causes of the Wars, vol. I, pp. 16 e 104. Ver também T. C. Willis, England’s Holy- War.

Por que os Estados Unidos se juntaram aos Aliados: razões  culturais

à medida que o conflito se prolongava por quatro pavorosos anos, um número cada vez maior de nações se empenhava na luta, de um lado ou do outro. Vimos que a Itália retardou a sua entrada até a primavera de 1 915. A Bulgária juntou-se às Potências Centrais em setembro de 1 915 e a Rumania aliou-se ao campo oposto cerca de um ano depois. Mas o acontecimento que por fim fêz pender a balança em favor da vitória da Entente foi a declaração de guerra dos Estados Unidos à Alemanha, em 6 de abril de 1 917. Os Estados Unidos entraram na guerra por diversas razões. A maioria dos seus cidadãos eminentes eram de origem britânica. Isso sucedia em geral com os reitores de univer sidades, os principais ministros protestantes, os magnatas da imprensa e os altos funcionários públicos. As tradições culturais do país, a) sua teoria jurídica e política e as bases da sua literatura vinham sobretudo da Inglaterra. As agências britânicas de propaganda tiraram o máximo proveito desses laços étnicos e culturais e fomentaram habilmente entre os americanos a crença de que as nações da Entente estavam lutando em defesa da civilização. A propaganda alemã, pelo contrário, era tosca e inepta; e quando ela falhou, os agentes alemães e austríacos tentaram provocar greves e sabotagem nas fábricas de munições norte-americanas. A Alemanha vinha sendo alvo do temor e da desconfiança dos americanos desde a guerra de 1 898 com a Espanha, quando um almirante alemão passou por ter criado obstáculo à tomada de Manilha pelo comodoro Dewey. O seu sistema de fazer guerra em 1914, e em particular a violação da neutralidade da Bélgica, faziam recrudescer esse temor e essa desconfiança. Poucas semanas depois de se iniciarem as hostilidades alguns americanos entraram a chamar os alemães de "hunos".

Causas Econômicas

Poderosas forças econômicas também muito contribuíram para despertar a simpatia do povo americano para com a causa da Entente. Em 1915 os Estados Unidos tinham-se tornado o

principal fornecedor de munições e de outros materiais bélicos a Inglaterra, a Rússia e a branca. Esse tráfico alcançou tais proporções que transformou uma depressão, iniciada em 1 913, em resplandecente prosperidade.   A maioria dos artigos não era comprada a dinheiro mas a crédito, ou paga por meio de empréstimos lançados nos Estados Unidos.   Em abril de 1 917, pelo menos um bilhão e meio de dólares em obrigações dos governos aliados tinham sido vendidos ali.   Conquanto não haja provas de que os compradores dessas obrigações tenham exercido pressão direta sobre o presidente Wilson para levar a nação à guerra, não deixa de ser verdade que um número considerável de cidadãos influentes  estavam  financeiramente  interessados numa vitória  da Entente.

Wilson deseja uma Nova Ordem Mundial

Outra causa fundamental que induziu os Estados Unidos a se tornarem uma nação beligerante  foi a decisão  final do  presidente Wilson, cie que o seu país devia desempenhar um papel dominante na reestruturação do mundo quando terminasse a guerra.   Sonhava estabelecer uma nova  ordem mundial baseada numa Liga de Nações que preservasse no futuro a justiça e punisse os agressores. Durante a maior parte da guerra recusara-se a acreditar que um campo ou o outro tivesse a razão exclusivamente do seu laco. Ainda em dezembro de 1 916 havia declarado que os objetivos de guerra de ambos os grupos de beligerantes lhe pareciam ser essencialmente os mesmos. Ainda estava convencido de que a "paz sem vitória" e sem humilhações nem penalidades drásticas seria o fundamento necessário do novo regime de concórdia duradoura entre as nações. No fundo, porém, acreditava que a "autocracia" e o "militarismo" germânicos constituíam grandes obstáculos à realização do seu ideal. Como o governo alemão repelisse os seus esforços em prol da paz e mostrasse uma decisão crescente de ganhar a guerra pela implacabilidade e pelo desprezo ao direito internacional, essa convicção fortaleceu-se enormemente. Não tinha ainda nenhum motivo de disputa com o povo alemão, mas acreditava que as tendências recentes do governo daquele país não lhe deixavam outra alternativa senão esmagá-lo pela força.

A preocupação com o equílibrio de poderes

Uma causa subjacente final foi a preocupação do governo americano com a manutenção do equilíbrio de poderes na Europa.   Durante anos, fora doutrina dominante no Departa  mento de Estado e entre os oficiais do exército e da marinha que a segurança dos Estados Unidos dependia  de  um  equilíbrio  de   forças  no Velho Mundo.   Não era admissível que uma potência estabelecesse a sua supremacia sobre toda a Europa.   Enquanto a Grã-Bretanha fosse bastante forte para impedir essa supremacia, a Amé rica não corria perigo.   Crêem alguns entendidos que as autoridades americanas estavam acostumadas a encarar a marinha britânica com o  o  escudo da segurança deste continente e não podiam conceber uma mudança de tal situação.   A Alemanha, por outro lado, não só desejava a supremacia naval britânica mas ameaçava levar o povo inglês  à  rendição  pela fome e tornar-se senhora de toda a Europa.

A Guerra Submarina dos Alemães

A causa direta da participação americana na Primeira Guerra Mundíal foi a guerra submarina dos alemães. Foi. porém, muito mais do que uma causa imediata ordinária. Consideram-na alguns historiadores como o mais importante de todos os fatores, alegando que sem ela os americanos nunca teriam entrado na guerra. Quando esta começou a Alemanha possuía apenas uma pequena frota de submarinos, mas aumentou-lhes rapidamente o número.   Em 4 de fevereiro de 1 915 o governo do kaiser anunciou que os navios neutros que se dirigissem para os portos britânicos seriam torpedeados sem aviso prévio.   O presidente Wilson replicou a esse desafio declarando que os Estados Unidos considerariam a Alemanha "estritamente responsável sável" por qualquer dano causado  a vida ou aos bens de norte-americanos. A advertência não produziu efeito. Os alemães estavam convencidos de que o submarino era una das suas armas mais valiosas e consideravam-se justificados em usá-lo como represália ao bloqueio britânico. Violaram os compromissos de respeitar os direitos dos americanos e continuaram a afundar de quando em quando navios de passageiros, causando por vezes a morte de cidadãos americanos. Como os ministros do kaiser anunciassem que a 1.° de fevereiro de 1 917 dariam início a uma guerra submarina irrestrita, Wilson rompeu as relações diplomáticas com o o governo de Berlim. A 2 de abril compareceu perante uma sessão conjunta das duas casas do Congresso e solicitou uma declaração de guerra. A declaração foi aprovada quatro dias depois, contra apenas seis votos negativos no Senado e cinqüenta na Câmara de Representantes.

A Guerra na Frente Ocidental

Num livro como este não é possível nem desejável fazer um relato completo da história militar da Primeira Guerra Mundial. Como todos sabem, o teatro principal da guerra foi a frente ocidental, que incluía a Bélgica e o leste da França, desde os Vosgos até o Mar do Norte. Aí, por um breve período, os alemães varreram tudo que encontravam pela frente, avançando até 22 quilômetros de Paris em apenas um mês de guerra. Não conseguiram, porém, tomar a cidade. Os franceses descobriram um ponto fraco nas linhas alemãs e rechaçaram as hostes do kaiser para o vale do rio Marne, onde, nos começos de setembro de 1 914, se deu uma série de combates conhecida como a primeira batalha do Marne. Embora nenhum dos campos pudesse anunciar uma vitória decisiva, era evidente que o avanço alemão tinha sido sustado. Essa batalha também é importante por ter assinalado o fim da guerra aberta. Ambos os exércitos construíram um complicado sistema de trincheiras e alojaram-se atrás de redes de arame farpado. Dessa data até a primavera de 1 918 a guerra na frente ocidental ficou, por assim dizer, empatada. Conquanto os ingleses e franceses conseguissem vantagens consideráveis, não puderam alcançar uma vitória esmagadora que obrigasse a Alemanha a pedir a paz. Mas em março de 1 918 os alemães lançaram um poderoso ataque que ameaçou, por certo tempo, levar de vencida a resistência dos exércitos aliados. Seguiu-se uma contra-ofensiva dos franceses, ingleses e americanos que continuou por todo o verão, entrou pelo outono a dentro e finalmente pôs termo à guerra.

A guerra nas frentes oriental e meridional

Nas frentes oriental e meridional as Potências Centrais mantiveram-se vitoriosas durante muito mais tempo.   No fim de agosto de 1 914 o avanço russo foi repentinamente detido em Tannenberg, na Prússia Oriental, e pouco depois os generais do czar iniciaram uma retirada ao longo de toda a frente. Em 1 915 os alemães e austríacos tomaram quase toda a Polônia russa e a Lituânia, transformando todos os contra-ataques russos em derrotas desastrosas. Depois que o czar foi destronado pela revolução de março de 1917, a Rússia retirou-se praticamente da guerra. O governo provisório envidou tentativas para renovar a luta, mas o povo estava tão descoroçoado que nada se conseguiu. Em março de 1 918 o governo bolchevique concluiu um tratado de paz. Nesse meio tempo a România tinha sido conquistada pelos alemães e a Sérvia fora reduzida à impotência pelos austríacos e búlgaros. Na frente meridional, os italianos conseguiram manter os austríacos encurralados por mais de dois anos e até conquistar pequenas porções do escabroso território do litoral nordeste do Adriático. Mas, pelos meados de 1 917, começaram a se cansar da estrénua luta. O derrotismo grassava tanto no governo como entre as tropas. Em outubro os austríacos romperam as defesas da fronteira e desbarataram o desmoralizado exército italiano em Caporetto. Foram feitos 200 000 prisioneiros, sem falar de imensa quantidade de armas e munições. Foi um golpe que abalou profundamente os italianos, e do qual mal conseguiram re fazer-se antes do fim da guerra.

Propostas de Paz

Enquanto ia ainda acesa a luta nas várias frentes, fizeram-se várias tentativas para iniciar as negociações de paz.   Na primavera de 1 917, socialistas holandeses e escandinavos re- solveram convocar uma conferência socialista internacional a reunir-se em Estocolmo, tencionando traçar planos para terminar a luta, os quais pudessem ser aceitos por todos os beligerantes. O soviete de Petrogrado abraçou a idéia e, a 15 de maio, emitiu um apelo aos socialistas de todas as nações para que mandassem delegados à conferência e persuadissem os seus governos a aceitar uma paz "sem anexações nem indenizações, sobre a I ase da autodeterminação dos povos". Os partidos socialistas de todos os países principais, tanto de um campo como do outro, acolheram entusiasticamente essa fórmula e estavam ansiosos por enviar delegados ã conferência, mas o projeto foi abandonado quando os governos inglês e francês negaram permissão a qualquer de seus súditos para participar dela. A prova de que os governantes dos estados da Enterite não temiam essas propostas unicamente por terem emanado de socialistas está no fato de haverem rejeitado com a mesma veemência uma fórmula semelhante sugerida pelo papa. Em 1.° de agosto desse mesmo ano o papa Bento XV fêz um apelo aos vários governos para que renunciassem a quaisquer indenizações, para que as disputas internacionais fossem resolvidas no futuro por arbitragem, os armamentos fossem reduzidos, restituídas as zonas ocupadas aos seus donos, e se convocassem plebiscitos para decidir sobre o destino de territórios como a Alsácia-Lorena. a Polônia e o Trentino. Ninguém se mostrou disposto a tomar a sério essas propostas. Woodrow Wilson, como porta-voz dos Aliados, declarou que seriam impossíveis as negociações de paz em quaisquer condições enquanto a Alemanha permanecesse sob o governo do kaiser. As Potências Centrais diziam encarar com bons olhos as sugestões do Sumo Pontífice, mas recusavam comprometer-se no tocante a indenizações e restituições, especialmente a restauração da Bélgica.

Os  14  pontos de Wilson

A mais famosa de todas as propostas de paz foi o programa de Wilson, constante de quatorze itens, que o presidente norte-americano incorporou na sua mensagem ao Congresso em 8 de janeiro de 1 918. Em resumo, os 14 Pontos eram os seguintes: 1) ”acordos públicos, negociados publicamente", ou seja a abolição da diplomacia secreta: 2) liberdade dos mares; 3) eliminação das barreiras econômicas entre as nações; 4) limitação dos armamentos nacionais "ao nível mínimo compatível com a segurança"; 5) ajuste imparcial das pretensões coloniais, tendo em vista os interesses dos povos atingidos por elas: 6) evacuação da Rússia; 7) restauração da independência da Bélgica; 8) restituição da Alsácia e da Lorena à França; 9) reajustamento das fronteiras italianas, "seguindo linhas divisórias de nacionalidade claramente reconhecíveis"; 10) desenvolvimento autônomo dos povos da Austria-Hungría; 11) restauração da Rumania, da Sérvia e do Montenegro, com acesso ao mar para a Sérvia; 12) desenvolvimento autônomo dos povos da Turquia, sendo os estreitos que ligam o Mar Negro ao Mediterrâneo "abertos permanentemente"; 13) uma Polônia independente, "habitada por populações indiscutivelmente polonesas" e com acesso para o mar; e 14) uma Liga de Nações. Em diversas outras ocasiões, no decorrer de todo o ano de 1 918, Wilson reafirmou em discursos públicos que esse programa formava a base da paz pela qual trabalharia. Milhares de cópias dos 14 Pontos foram espalhadas pelos aviões aliados sobre as trincheiras alemãs e atrás das linhas, num esforço de convencer tanto os soldados quanto o povo de que as nações aliadas se estavam esforçando por estabelecer uma paz justa e duradoura.

Ao terminar o verão de 1 918 a longa e horrível carnificina aproximava-se do fim. A grande ofensiva lançada em julho pelos ingleses, franceses e americanos desferiu sucessivos golpes esmagadores contra os batalhões alemães, obrigando-os a recuar quase até a fronteira belga.   No fim de setembro, a causa das Potências Centrais estava perdida.   A Bulgária retirou-se da guerra a 30 desse mês.

Aproxima-se o fim da luta

Nos primeiros dias de outubro o novo chanceler alemão, o Príncipe Max de Baden, um liberal, apelou para o presidente  Wilson propondo negociações de paz na base dos 14 pontos.   Mas a luta continuou, porque Wilson tinha voltado à sua primitiva exigência de que os alemães apeassem o kaiser do trono. Pouco depois, os aliados restantes da Alemanha viram-se à beira do colapso. A Turquia rendeu-se no fim de outubro. O império dos Habsburgos estava sendo desintegrado pelas revoltas dos eslavos. Além disso, uma ofensiva austríaca não só fora infrutífera mas incitara os italianos a uma contra-ofensiva que resultou na tomada de Trieste e na captura de 300 000 prisioneiros. A 3 de novembro o imperador Carlos, que sucedera em 1 916 a Francisco José, assinou um armistício que pôs a Áustria fora da guerra.

A Assinatura do Armistício

A Alemanha ficou então com a impraticável tarefa de continuar  sozinha a luta.   O moral das tropas decaía rapidamente.   O bloqueio causava tamanha escassez de alimentos que o povo corria o perigo de ser dizimado pela fome.   Os abalos revolucionários que se vinham fazendo sentir desde havia algum tempo transformaram-se em violento terremoto. Em 8 de novembro foi proclamada uma república na Baviera. No dia seguinte, quase toda a Alemanha estava convulsionada pela revolução. Publicou-se em Berlim um decreto anunciando a abdicação do kaiser e bem cedo na manhã do dia 10 o neurótico imperador embarcou para o exílio na Holanda. Entrementes, o governo da nação havia passado para as mãos de um conselho provisório chefiado por Friedrich Ebert, líder dos socialistas no Reichstag. Ebert e os seus colegas tomaram medidas imediatas para concluir as negociações de um armistício. As condições impostas pelos Aliados estabeleciam a aceitação dos 14 Pontos, com três modificações. Primeiro, o ponto referente à liberdade dos mares fora riscado, de acordo com o pedido da Inglaterra. Segundo, a restauração das zonas invadidas devia ser interrompida de modo a incluir reparações.   Terceiro, não se exigia  mais autonomia para os povos vassalos da Áustria-Hungria. mas independência. Além disso, tropas das nações aliadas ocupariam certas cidades do vale do Reno; o bloqueio continuava em vigor; e a Alemanha devia entregar 5 000 locomotivas, 150 000 vagões ferroviários e 5 000 caminhões, tudo em bom estado. Duras como eram essas condições, o governo alemão não teve outro remédio senão aceitar. Às cinco horas da manhã de 11 de novembro dois delegados da nação derrotada encontraram-se na escura floresta de Compiègne com o Marechal Foch e assinaram os papéis que punham termo oficialmente à guerra. Seis horas mais tarde foi dada ás tropas a ordem de cessar fogo.   Nessa noite, milhares de pessoas dançaram nas ruas de Londres, Paris e Roma, presas do mesmo delírio com que haviam saudado as declarações de guerra.

 O preço da vitória

A vitória fora finalmente conquistada, mas que trágica vitória! De um total de mais de 42 milhões de homens mobilizados pelos Aliados, pelo menos 7 milhões tinham perdido a vida; 5 milhões morreram em ação ou em conseqüência de    ferimentos; os restantes tinham sido dados como "desaparecidos" depois das batalhas.   Mais de 3 milhões de outros ficaram totalmente incapacitados, muitos deles com mutilações tão horríveis que melhor seria tivessem perecido.   Vê-se. destarte, que quase um quarto dos soldados alistados nos exércitos foram

vitimados pela guerra.   Isso teria sido um preço terrivel mesmo que se concretizassem todos os ganhos que, por hioótese. deteriam decorrer de uma vitória da Entente.   Mas poucos foram, na realidade os ganhos permanentes.   A guerra que seria "o fim de todas as guerras"   ão Eêz mais do que lançar as sementes de um novo e pavoroso conflito no futuro.   A autocracia do kaiser foi certamente destruída, mas estava preparado o terreno para novos despotismo -que fariam o império de Guilherme II parecer um paraíso de liberdade.   Além disso, a Primeira Guerra Mundial nada fêz para reprimir quer o militarismo, quer ó nacionalismo.   Vinte anos depois de finda a luta havia quase duas vezes mais homens em armas do que em 1 913 e as rivalidades nacionais e ódios raciais estavam mais profundamente arraigados do que nunca.   Esses fracassos não se deveram ao fato de terem os Aliados ganhado a guerra, mas sim, como veremos, ao de terem perdido a paz.

4. A PAZ DOS VENCEDORES

Caráter da Paz com a Alemanha e seus Aliados

A chamada paz, que se firmou nas várias conferências realizadas em 1 919 e 1920, quase não tem precedentes nos anais das nações modernas.   Foi  antes  uma  paz  imposta do que negociada.   Ao invés de ser um acordo entre vencedores e vencidos, concluído em redor de uma mesa de debates, pretendia assumir o caráter de “uma sentença imposta por um tribunal". Nenhum alemão ou austríaco foi admitido às conferências, até que os documentos ficaram completos e prontos para receber as assinaturas dos culpados. Os motivos desse procedimento quase inédito devem ser procurados na torrente de paixões desencadeadas durante a guerra. As massas tinham sido levadas a acreditar que toda a razão e a justiça estavam de um lado e, portanto, que cumpria tratar os inimigos como criminosos. Esse sentimento não se restringia aos países da Entente.   Se as Potências Centrais tivessem conquistado a vitória,  dificilmente teriam concedido maiores oportunidades para a negociação de um acordo.

A Conferência de Paris

A conferência convocada em Paris ( 4) para estabelecer as condições de paz com a Alemanha esteve teoricamente reunida de janeiro a junho de 1 919. Só se realizaram, porém, seis sessões plenárias.   A maioria dos delegados poderia muito bem ter ficado em casa. Todos os assuntos importantes da conferência foram tratados por pequenas comissões. A princípio havia um Conselho dos Dez, formado pelo presidente e pelo secretário de estado dos Estados Unidos e pelos primeiros-ministros e ministros do Exterior da Grã-Bretanha, da França, da Itália e do Japão. Pelos meados de março, como esse órgão parecesse de manejo excessivamente difícil, foi reduzido a um Conselho dos Quatro, do qual faziam parte o presidente dos Estados Unidos e os primeiros-ministros da Inglaterra, da Itália e da França. Um mês depois o Conselho dos Quatros transformou-se num Conselho dos Três. quando o primeiro-ministro Orlando se retirou abespinhado da Conferência porque Wilson recusara conceder à Itália tudo que ela exigia.

Os “Três Grandes”

O caráter definitivo do Tratado de Versalhes foi fixado quase que inteiramente pelos chamados "Três Grandes’" — Wilson, Lloyd George e Clemenceau.   Seria quase impossível encontrar três estadistas com personalidades mais diferentes entre si.   Wilson era um idealista inflexível, acostumado a dar ordens e convencido de que as forças da eqüidade estavam do seu lado.   Quando se defrontava com realidades desagradáveis, como eram os tratados secretos entre os governos da Entente para a divisão dos despojos, tinha o hábito de pô-las de parte como coisas destituídas de importância e acabava esquecendo-as como se nunca tivesse ouvido falar nelas.   Embora conhecesse pouco – tortuosas maquinações da diplomacia européia, o seu temperamento inflexível não lhe permitia aconselhar-se com os seus colegas nem ajustar os seus pontos de vista aos destes.   David Lloyd George era um astuto advogadozinho de Gales que sucedera a Asquith como primeiro ministro da Inglaterra em 1 916.   Sua habilidade e seu humor céltico valeram-lhe o sucesso em muitas ocasiões em que Wilson fracasson; mas era acima de tudo um político — matreiro, ignorando as condições européias e indiferente mesmo aos seus mais graves enganos.   Clemenceau dizia dele :    "Imagino que esse homem saiba ler, mas duvido que jamais leia alguma coisa."

O terceiro componente do grande triunvirato era o velho e céptico primeiro-ministro francês. Georges Clemenceau.   Nascido ainda na década de 1 830, Clemenceau fora jornalista nos Estados Unidos logo depois da Guerra Civil. Mais tarde angariara a alcunha de "Tigre" como inimigo implacável dos clericais e monarquistas. Pugnara pela república nos tempestuosos dias do episódio boulangista, do caso Dreyfus e da luta pela separação entre a igreja e o estado. Por duas vezes tinha visto a França invadida e a sua existência correr grave perigo. Agora a situação se reverteria e os franceses, no pensar de Clemenceau, deviam tirar todas as vantagens da oportunidade. Somente conservando debaixo de rígido controle a Alemanha prostrada é que a França poderia garantir a sua segurança.

(14) Essa conferência realizou a maior parte de seus trabalhos em Paris. O tratado de paz com a Alemanha, no entanto, recebeu o nome de Tratado de Versalhes itor ter sido assinado  nesse subúrbio parisense.

A castração dos 14 pontos

Desde o começo, os principais arquitetos do Tratado de Versalhes tiveram pela frente dois problemas bastante embaraçosos. Um neles era o que fazer com os 14 Pontos. Não podia haver dúvida de que eles tinham sido a base da rendição da Alemanha em 11 de novembro. Era igualmente indiscutível que Wilson os apresentara como o programa da Entente para uma paz permanente. Os povos do mundo tinham, por conseguinte, todo o direito de esperar que os 14 Pontos constituíssem : modelo do Tratado de Versalhes, sujeitos tão-somente às três emendas introduzidas antes da assinatura do armistício. Mas qual foi o resultado? Entre os mais altos dignitários da conferência, nem um só homem, com exceção do próprio Wilson, levara a sério os 14 Pontos. Conta-se que Clemenceau dissera em ar de mofa: "Al Deus se contentou com dez mandamentos, mas Wilson precisa de quatorze". No final das contas o presidente dos Estados Unidos só pôde salvar, e assim mesmo sob uma forma modificada, três artigos do seu famoso programa: o sétimo, que prescrevia a restauração da Bélgica; o oitavo, que exigia a restituição da Alsácia-Lorena à França; e o último, que instituía a Liga das Nações. Os outros foram desdenhados ou modificados a tal ponto que perderam a sua significação original. Citemos dois exemplos: o ponto 4, que exigia a redução dos armamentos, foi aplicado somente às nações derrotadas; e o ponto 11, pelo qual eram restauradas a Rumania, a Sérvia e o Montenegro, foi alterado de modo a permitir que a Rumania dobrasse o seu território e que a Sérvia engolisse o Montenegro!

Os tratados secretos

A segunda questão embaraçosa era a da atitude a tomar com respeito aos tratados secretos.   Enquanto a guerra seguia o seu curso, diversas transações clandestinas tinham sido negociadas pelos governos da Entente, relativas à divisão    dos despojos.   Em março de 1 915 ficara assentado que a França recuperaria a Alsácia-Lorena e controlaria a margem esquerda do Reno e que a Grã-Bretanha e a França dividiriam entre si as colônias alemãs da África, enquanto a Rússia se apoderaria de Constantinopla e da Polônia alemã e austríaca.   Em abril desse mesmo ano a Itália foi induzida a entrar na guerra ao lado dos Aliados pela promessa de lhe serem concedidos territórios austríacos e turcos, inclusive Trieste, o sul do Tirol e uma porção da Dalmácia. Depois desses, ainda houve acordos para dar a Armênia à Rússia e quase todo o resto do Império Otomano à Inglaterra e à França, sem falar na entrega, ao Japão, das concessões alemãs na China e das ilhas oceânicas alemãs situadas ao norte do equador. É impossível dizer por quanto tempo esses tratados teriam permanecido secretos se não fosse a revolução na Rússia. Ao galgarem o poder em novembro de 1 917 os bolcheviques resolveram desacreditar a guerra por todos os meios possíveis. Devassaram, portanto, os arquivos do czar, trazendo a público certos documentos interessantíssimos. Pouca depois os tratados secretos eram estampados pelo Manchester Guardian e pelo Neiv York Evening Post. Os estadistas da Entente reunidos na Conferência de Versalhes viram-se, pois, na impossibilidade de negar a existência de tais tratados. Durante algum tempo Wilson esforçou-se para que eles fossem repudiados e chegou a negar permissão para que a Itália tomasse o porto de Fiúme, no Adriático; mas no tocante à maioria dos outros acordos acabou por ceder. O resultado foi que a distribuição dos territórios tomados às nações vencidas seguiu com notável precisão as linhas traçadas pelos acordos secretos. Wilson permitiu até que o Japão se apoderasse das concessões alemãs na China, a despeito de terem os chineses feito a guerra do lado dos Aliados.

A Alemanha recebe suas sentença.

Nos fins de abril de 1 919 estavam prontos para ser submetidos ao inimigo os termos do Tratado de Versalhes e a Alemanha recebeu ordem de enviar seus delegados para ouvi-los.   A         29 desse mês uma delegação chefiada pelo Conde von  Brockdorff-Rantzau, ministro do Exterior do governo republicano provisório, chegou a Versalhes e foi encarcerada sem tardança num hotel, sendo virtualmente tratada como prisioneira. Uma semana depois os membros da delegação tiveram ordem de comparecer perante os representantes dos Aliados, a fim de conhecerem a sentença imposta à sua nação. Como von Brockdorff-Rantzau protestasse dizendo que os termos eram duros demais, ir. formou-o Clemenceau de que a Alemanha teria exatamente três semanas para resolver se assinaria ou não. Entretanto, foi preciso prolongar o prazo, pois os chefes do governo alemão preferiram demitir-se a aceitar o tratado. Sua atitude foi resumida pelo chanceler Philip Scheidemann numa frase incisiva: "Qual a mão que não secaria depois de tentar prender a si mesma e a nós nestes grilhões?" Os Três Grandes fizeram então alguns arranjos subsidiários, principalmente a instâncias de Lloyd George, e a Alemanha foi notificada de que às sete horas da tarde de 23 de junho proceder-se-ia à invasão do país se este não tivesse aceito o tratado. Pouco depois das cinco horas, um novo governo provisório anunciou que se rendia ante a ”força esmagadora" e acedia aos termos dos vencedores. Em 28 de junho, quinto aniversário do assassínio do Arquiduque Francisco Fernando, representantes do governo alemão e dos Aliados reuniram-se no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes e apuseram suas assinaturas ao Tratado.

Disposições Principais do Tratado de Versailles.

As disposições do Tratado de Versalhes podem ser esboçadas em linhas gerais.   A Alemanha devia entregar a Alsácia-Lorena à França, Eupen e Mahnédy à Bélgica, o Schleswig setentrional à Dinamarca e a maior parte da Posnânia e da Prússia Ocidental à Polônia.   As minas de carvão da bacia do Sarre seriam cedidas à França, que teria o direito de explorá-las durante quinze anos. Ao terminar esse prazo o governo alemão poderia tornar a comprá-las. Quanto ao próprio território do Sarre, seria adminis trado pela Liga das Nações até 1935, data em que se realizaria um plebiscito para decidir se êle continuaria submetido à Liga, se voltaria para a Alemanha ou se seria concedido à França. Em conseqüência dessas disposições territoriais a Alemanha era despojada de um sexto das suas terras aráveis, dois quintos do seu carvão, dois terços do seu ferro e sete décimos do seu zinco. A Prússia Oriental ficava separada do resto do território alemão e o porto de Danzig, quase inteiramente teutónico, era submetido ao controle político da Liga das Nações e ao domíni^ econômico da Polônia. Além disso, a Alemanha era forçada a entregar à Inglaterra, à França e à Bélgica praticamente todos os seus navios mercantes de algum valor, um oitavo do seu gado e enormes quantidades de carvão, materiais de construção e máquinas. Foi, naturalmente, desarmada. Entregou todos os submarinos e toda a marinha de superfície, com exceção de seis couraçados pequenos, seis cruzadores ligeiros, seis destróieres e doze torpedeiros. Foi-lhe proibido ter qualquer aviação militar ou naval e limitou-se o seu exército a 100 000 homens, entre oficiais e soldados, os quais seriam recrutados por alistamento voluntário. A fim de prevenir qualquer novo ataque futuro à França ou à Bélgica, não se lhe permitiu manter soldados nem construir fortificações no vale do Reno. Por último, a Alemanha e seus aliados foram responsabilizados por todas as perdas e danos sofridos pelos governos da Entente e seus cidadãos "em conseqüência da guerra que lhes fora imposta pela Alemanha e pelos seus aliados". Era essa a chamada cláusula da culpa da guerra do tratado (artigo 231), mas foi também a base para as reparações alemãs.

O problema de saber quanto teria de pagar a Alemanha em reparações foi tratado com ardilosa astúcia. O total das perdas e danos sofridos pelos governos da Entente e seus cidadãos em resultado direto da guerra não ultrapassava provavelmente dez bilhões de dólares.   Tal soma, porém, nunca teria contentado os Aliados.

A conta de "perdas e danos"

Os franceses, em particular, faziam questão de arruinar a Alemanha ce modo tão completo que esta nunca mais pudesse recuperar o seu poderio económico e militar. Por conseguinte, re- solveu-se incluir nas "perdas e danos" despesas tais  como as pensões pagas às famílias dos soldados, os  empréstimos belgas de guerra e o custo da manutenção dos exércitos aliados que ocuparam o vale do Reno. Deixou-se a uma Comissão de Reparações nomeada pelos governos aliados o problema de fixar o total que a Alemanha deveria pagar. Em 1 921 a comissão apresentou o seu relatório, fixando o montante na soma colossal de 33 bilhões de dólares, o triplo da quantia sugerida pelos peritos economistas da Conferência de Versalhes. É claro que em toda a Alemanha não havia tanto dinheiro, mas os vencedores esperavam que no espaço de alguns anos fosse possível cobrar a maior parte dele.

O Tratado de St Germain.

De um modo geral, o Tratado de Versalhes aplicava-se unicamente à Alemanha.   Pactos separados foram redigidos para ajustar  contas com os seus aliados — a Áustria, a Hungria,    a Bulgária e a Turquia.   A forma definitiva desses tratados menores foi dada principalmente por um Conselho dos Cinco, composto de Clemenceau como presidente e de um delegado dos Estadas Unidos, um da Inglaterra, um da França e um da Itália.   O ajuste com a Áustria, firmado em setembro de 1 919, é conhecido como o Tratado de St. Germain. Impunha à Áustria o reconhecimento da independência da Hungria, da Tchecos-lováquia, da Iugoslávia e da Polônia e a cessão de grandes porções do seu território a esses novos países.   Era, ademais, obrigada a entregar à Itália Trieste, o Tirol meridional e a península da Istria.

Ao todo. a porção austríaca da Monarquia Dual foi despojada de três quartos da sua área e de três quartos da sua população. Alguns dos territórios cedidos eram habitados em grande parte por alemães — como. por exemplo, o Tirol e a região das montanhas dos sudetos, concedida à Tchecoslováquia. A nação austríaca ficou reduzida a um estado pequeno, sem acesso para o mar, com quase um terço da sua população concentrado na cidade de Viena. A única esperança de prosperidade para o país residia numa união com a Alemanha, mas isso era estritamente proibido pelo tratado. As disposições do Tratado de St. Germain poderiam resumir-se numa única sentença: "A Áustria renuncia a viver."

O Tratado de Neuilly e o de Trianon

O segundo do.- tratados menores foi o de Neuilly, com a Bulgária, assinado em novembro de 1 919. Na suposição, sem dúvida, de que ela não tomara parte ativa na provocação da guerra, a Bulgária foi tratada com mais brandura do que as outras Potências Centrais.   Não obstante, teve de entregar quase todos os territórios que adquirira desde a primeira guerra balcânica.   A Dobrudja voltou para a Rumania, a Macedónia ocidental para o novo reino da Iugoslávia e a Trácia ocidental para a Grécia.   Todas essas regiões eram habitadas por numerosas minorias búlgaras.   Como a Hungria fosse agora um estado independente tomava-se necessário impor-lhe um tratado separado; foi ele o Tratado do Trianon, assinado em junho de 1920.   Exigia que a Eslováquia fosse cedida à república da Tchecoslováquia, a Transilvánia à Rumania e a Croácia-Eslavônia à Iugoslávia.   Há poucos exemplos de tão flagrante violação do princípio de autodeterminação dos povos.   Numerosas partes da Transilvánia tinham uma população composta de mais de 50% de húngaros.   A Eslováquia incluía não somente os eslovacos mas quase um milhão de magiares e aproximadamente 500 000 rutenos.   Daí o ter irrompido na Hungria, depois da guerra, um fanático movimento irredentista orientado para a recuperação dessas províncias perdidas. É oportuno acrescentar que o Tratado do Trianon reduziu o território da Hungria de 325 000 para 90000 quilômetros quadrados e a sua população de 22 para 8 milhões.

Os tratados de Serves e de Lausrane com a Turquia.

O ajuste final de contas com a Turquia resultou de circunstâncias excepcionais. Os tratados secretos haviam cogitado da transferência de Constantinopla e da Armênia para a Rússia e da divisão, entre a Inglaterra e a França, da maior  parte do que restava da Turquia.   Mas a retirada da Rússia do campo da guerra apos a revolução bolchevique, juntamente com as exigências da Itália e da Grécia no sentido de obterem o cumprimento das promessas que lhes tinham sido feitas, impunham uma revisão considerável do plano primitivo. Por fim, em agosto de 1 920 assinou-se em Sèvres, perto de Paris, um tratado que foi submetido ao governo do sultão. Estabelecia êle que a Armênia fosse organizada como uma república cristã, que a maior parte da Turquia européia fosse entregue à Grécia, que a Palestina e a Mesopotâmia se convertessem em mandatos britânicos, que a Síria se tornasse um mandato da França e que a Anatólia meridional fosse reservada como esfera de influência da Itália. Do velho Império Otomano não restariam mais que a cidade de Constantinopla e as partes setentrional e central da Ásia Menor. Intimidado pelas forças aliadas, o decrépito governo do sultão concordou em assinar esse tratado. Mas um governo revolucionário, constituído de nacionalistas turcos e organizado em Angora sob a chefia de Mustafá Kemal, resolveu impedir que fosse posto em execução o Tratado de Sèvres. As forças de Kemal riscaram do mapa a república da Armênia, enxotaram os italianos da Anatólia e reconquistaram a maior parte do território turco europeu que fora dado à Grécia. Por fim. em novembro de 1922, ocuparam Constantinopla, depuseram o sultão e proclamaram a república. Consentiram então os Aliados numa revisão da paz. Em 1 923 um novo tratado foi concluído em Lausanne, na Suíça, permitindo aos turcos conservar praticamente todo o território que haviam conquistado. Embora bastante reduzida no tamanho em comparação com o antigo Império Otomano, a república turca tinha ainda uma área de cerca de 780 000 quilômetros quadrados e uma população de 13 milhões.

A Liga das Nações

Em cada um dos cinco tratados que puseram termo à guerra com as Potências Centrais figurava o Convênio da Liga das Nações.   A criação de uma liga em que todos os estados, tanto         grandes como pequenos, cooperassem para a preservação da paz, era o velho sonho dourado do presidente Wilson. Fora essa, na verdade, uma das principais razões que o levaram a entrar na guerra. Acreditava que a derrota da Alemanha seria um golpe mortal vibrado no militarismo e que seria possível estabelecer então o controle das relações internacionais por uma comunidade de poderes, ao invés do complicado e ineficiente equilíbrio de pores. Mas. para conseguir que a Liga fosse aceita, viu-se obrigado a transigir em numerosos pontos. Permitiu que a sua idéia primitiva de uma redução dos armamentos ”ao nível mínimo condizente com a segurança interna" fosse formulada de maneira que lhe dava um sentido completamente diverso, dizendo "segurança nacional" em lugar de "segurança interna". Para induzir os japoneses a aceitar a Liga. concordou em deixar-lhes as antigas concessões alemãs «a China. A fim de agradar aos franceses, sancionou a exclusão tanto da Alemanha quanto da Rússia, a despeito de sua velha insistência de que ela deveria incluir todas as nações. Esses inconvenientes eram bastantes sérios, mas a Liga recebeu um golpe mais grave ainda quando foi repudiada pela própria nação cujo presidente a havia criado.

Instalada sob auspícios tão desfavoráveis, a Liga jamais conseguira êxitos brilhantes na consecução dos objetivos do seu fundador.

Somente em poucos casos logrou afastar o espectro da guerra, e em todos eles as partes litigantes eram nações   pequenas.     Concertou,   em   1 920,   uma disputa entre a Suécia e a Finlândia a respeito das ilhas Aland.   Em 1 925 impediu um ataque grego à Bulgária, graças ã ameaça de boicote econômico.   Em 1 932 evitou que o Peru e a Colômbia entrassem em guerra por causa da província de Letícia. Mas em todas as disputas em que se envolviam uma ou mais grandes potências a Liga não obteve sucesso.   Nada fêz no caso da usurpação de Vilna pela Polônia, em 1 920, porque a Lituânia, a nação esbulhada, não tinha amigos, enquanto a Polônia contava com o poderoso auxílio da França.   Quando, em 1 923, houve uma ameaça de guerra entre a Itália e a Grécia, os italianos recusaram submeter-se à intervenção da Liga e o litigio teve de ser arbitrado por unia mediação direta da Inglaterra e da França. Além disso, em todas as grandes crises dos últimos anos a Liga foi desafiada oa desdenhada.   O Japão zombou da sua autoridade ao tomar a Manchúria em 1931 e o mesmo fez a Itália, ao conquistar, em 1935, a Etiópia. Em setembro de 1938, quando surgiu a crise da Tchecoslováquia, o prestígio da Liga era tanto que quase ninguém pensou em recorrer a ela. Por outro lado, é preciso salientar que o a sua existência de outras maneiras menos espetaculares. Reprimiu otráfico internacional de ópio e  ajudou países pobres e atrasados na profilaxia das molésticas contagiosas. Suas agências coligiram valiosas estatísticas sobre as condições do trabalho e da economia mundial. Realizou plebiscitos  em zonas disputadas, superintendeu a administração de cidades internacionalizadas, ajudou a acomodar refugiados políticos e raciais e iniciou, com grande eficiciência, a codificação do direito internacional. Realizações como essas devem certamente ser consideradas como formando uma base sólida para uma futura cooperação entre nações.


Fonte: Ed. Globo. de Porto Alegre. Tradução de Lourival Machado, Lourdes Machado e Leonnel Vallandro.

jun 142010
 
maravilhas das antigas civizações

A crítica à metafísica aristotélica clássica e o despontar da subjetividade cognoscente-autônoma em Immanuel Kant 

 

Francisco Nunes de Carvalho

Licenciado em Filosofia – fnunescarv@hotmail.com

 

O presente trabalho objetiva apresentar o processo histórico-filosófico de decadência da metafísica enquanto ciência sobre o mundo objetivo em sua totalidade – ciência do ser – na vertente de Aristóteles, relacionando-o à afirmação do sujeito cognoscente que se volta para si mesmo e estabelece a própria autonomia racional, o que ocorre na chamada Modernidade e atinge momento privilegiado em Immanuel Kant. Analisaremos assim a transição de uma racionalidade ontológica, típica da metafísica aristotélica do ser, a um pensamento centrado no problema gnosiológico como pressuposto para ulteriores desenvolvimentos filosóficos, inclusive na ética.

Esse processo moderno de subjetivação da filosofia faz emergir um discurso centrado na capacidade pensante-cognoscente do homem sujeito, que busca determinar reflexivamente os critérios de certeza do próprio conhecimento humano, abrindo um novo espaço de liberdade enquanto autonomia da razão. Em outras palavras, a gnosiologia ou teoria do conhecimento vem tomar o lugar da clássica metafísica ou ontologia sob o percurso da crítica efetuada pelos modernos. Conforme ressalta Zilles

 

“Os gregos trataram problemas gnosiológicos, mas costumavam subordiná-los à questão metafísica ou ontológica. Empédocles ensina, p. ex., que ‘semelhante só é conhecido por semelhante’. Coisa análoga aconteceu com os filósofos medievais. Tratavam da questão do conhecimento em estreita vinculação com a questão da realidade. Se na filosofia antiga e medieval a questão central era o Ser, na moderna passa a ser o conhecimento” (ZILLES, 1998, p. 11).

 

Na filosofia moderna, a questão do ser é destronada pela filosofia do conhecimento e então o homem, numa atitude autocrítica, reconhece a própria autonomia racional. Desponta então a subjetividade doadora de sentido a si e ao mundo. Desse modo, a racionalidade filosófica ocidental segue o itinerário de uma razão totalizante do Ser a uma razão Subjetiva, que toma consciência das próprias capacidades e limitações do conhecimento humano.                 

 

A filosofia grega surge, no século VI a. C., como esforço humano orientado à compreensão e explicação do mundo mediante a própria razão (logos). Os primeiros filósofos, designados pré-socráticos ou filósofos da natureza, desenvolvem um processo de ruptura racional com as narrativas míticas, que povoavam a natureza de deuses. Assim a filosofia origina-se como interrogação constante sobre a realidade e como inconformismo da racionalidade em confronto com a crença e a sociedade. Enquanto desmistifica os mitos, a filosofia nascente constrói explicações globalizantes a partir do discurso lógico-racional.

No século IV a. C., mais de duzentos anos após o início da aventura filosófica grega, situa-se a figura intelectual de Aristóteles (384-322 a.C.), no qual o pensamento filosófico-científico da época atinge um elevadíssimo nível de maturidade e sistematicidade. Aristóteles organiza todo o saber acumulado e transmitido até então em ciências poiéticas (âmbito das produções artísticas e econômicas), ciências práticas (âmbito das ações morais e políticas), e ciências teoréticas (âmbito do puro conhecimento especulativo-contemplativo, que distingue-se em 1)Física, 2)Matemática e 3) Metafísica).

Aristóteles afirma a absoluta prioridade da ciência metafísica, sabedoria que ele próprio designa filosofia primeira, ontologia e teologia[1], sobre todos os outros conhecimentos, apresentando esse saber que transcende o mundo físico como sendo o mais elevado de que o homem é capaz. Diz Aristóteles: “essa, de fato, entre todas [as ciências], é a mais divina e a mais digna de honra. [...] Todas as outras ciências serão mais necessárias que essa, mas nenhuma lhe será superior” (ARISTOTELE, 1999, I, 2). A metafísica transcende os conhecimentos de ordem meramente pragmático-utilitária, pois consiste na busca desinteressada pelo saber universal e necessário do ser, é uma ciência contemplativa do ser. Conforme Aristóteles, “onde há fins distintos das ações, tais fins são, por natureza, mais excelentes do que as últimas” (ARISTÓTELES, 2009, p. 17). 

 

Essa ciência do ser dirige-se, portanto, à realidade em sua totalidade, caracterizando-se assim por sua universalidade. Não somente um aspecto regional ou particular, mas o ser em sua totalidade é o objeto de estudo da ciência metafísica. De acordo com Aristóteles

 

“Há uma ciência que considera o ser enquanto ser e as propriedades que lhe competem enquanto tal. Essa não se identifica com nenhuma das ciências particulares: de fato, nenhuma das outras ciências considera o ser enquanto ser em universal, mas, após haver delimitado uma parte desse, cada uma estuda as características dessa parte. Assim fazem, por exemplo, as matemáticas” (ARISTOTELE, 1999,  IV, 1).

 

Desse modo a metafísica aristotélica teve a pretensão de ser um conhecimento totalizante, que abarcasse os princípios fundamentais constitutivos de todas as coisas, as diversas essências ou substâncias, transcendendo a experiência sensível para constituir-se como contemplação da objetividade em si mesma. E para Aristóteles a filosofia consiste propriamente nesse esforço de compreensão do real, uma busca de explicitação ontológica. A especulação aristotélica volta-se para a natureza elevando-se ao seu sentido totalizante – o ser ou substância de tudo o que existe.        

 A especulação aristotélica, sempre um movimento teórico da pluralidade à universalidade, fornece, pois, os grandes temas que definem a metafísica clássica ocidental: ciência das causas e princípios supremos, ciência do ser enquanto ser, ciência da substância, teologia e ciência da verdade. A universalização do conhecimento é sempre constante nesse modo ontológico de pensar, no qual a inteligibilidade da realidade é o pressuposto fundamental. Como observa Chaui

 

“A metafísica aristotélica inaugura, portanto, o estudo da estrutura geral de todos os seres ou as condições universais e necessárias que fazem com que exista um ser e que possa ser conhecido pelo pensamento. Afirma que a realidade no seu todo é inteligível ou conhecível e apresenta-se como conhecimento teorético da realidade sob todos os seus aspectos gerais ou universais, devendo preceder as investigações que cada ciência realiza sobre um tipo determinado de ser” (CHAUI, 2001, p. 221).     

 

A ciência metafísica aristotélica apresenta-se, destarte, como sistema teorético que possui a pretensão de configurar-se como explicação totalizante da estrutura do real, isto é, explicitação racional do ser em suas diversas dimensões. Nesse sentido caracteriza-se como pensamento tipicamente ontológico, uma teoria globalizante do ser.

Com a morte de Aristóteles, seu sucessor Teofrasto assumiu a Escola aristotélica (o Perípato) e a conduziu numa orientação principalmente científica, descuidando dos temas propriamente metafísicos. Além disso, as obras de escola de Aristóteles, por uma série de circunstâncias, acabaram na Ásia menor, e por decênios foram subtraídas ao conhecimento público. A edição sistemática que ocasionou o renascimento do pensamento aristotélico foi feita por Andrônico de Rodes (séc. I a.C.). Após essa edição formou-se uma tradição de comentários, que teve em Alexandre de Afrodisia seu maior expoente. Todavia, o fim da filosofia grega antiga ocorreu em 529 da era cristã, quando o imperador Justiniano proibiu aos pagãos qualquer ofício público, impedindo assim o funcionamento de escolas filosóficas, sob pena de confisco das propriedades e exílio.

Temos assim o chamado período medieval. A Idade Média (Medium Aevum), época histórica milenar (séc. V ao XV d. C.) intermediária entre a antiguidade greco-romana e a modernidade, caracteriza-se sobretudo pela aliança política entre Igreja e Estado, com a consequente busca de harmonização entre a fé da religião bíblica judaico-cristã e o pensamento filosófico grego. Esse esforço de conciliação entre fé e razão concretiza-se na filosofia dos Padres da Igreja (Patrística) e na filosofia cristã ensinada nas escolas (Escolástica), que originam as Universidades no séc. XIII. Nesse ambiente teocêntrico da Cristandade, profundamente marcado pelo poder eclesiástico, a razão é sempre considerada “serva da teologia”.

É nesse contexto, das Universidades da escolástica européia, que ocorre o retorno da metafísica aristotélica ao cenário das discussões filosófico-teológicas. E esse retorno ocorre precisamente pela mediação dos pensadores árabes. Pois os textos da metafísica de Aristóteles já eram objetos de amplas traduções e comentários dentro da filosofia árabe. Como comenta Cirne-Lima

 

“Através dos árabes, já no século XIII, os escritos aristotélicos voltam a ser conhecidos. Alberto Magno e Tomás de Aquino, ao tomarem conhecimento da Metafísica de Aristóteles através de manuscritos vindos da universidade árabe em Granada, redescobrem a filosofia do Estagirita e, conscientes de sua importância, fazem dela a coluna vertebral de um novo tipo de filosofia cristã” (Oliveira; Almeida, 2002, p. 22). 

                      

Tomás de Aquino representa o apogeu da Escolástica enquanto síntese totalizante do saber filosófico-teológico medieval. O Aquinate utiliza a filosofia metafísica de Aristóteles como instrumental para a inteligibilidade da teologia cristã, associando a questão aristotélica do Ser ao Deus da tradição judaico-cristã. A metafísica tomasiana parte da experiência do movimento causa-efeito no mundo para chegar a Deus como a Causa eficiente absoluta[2]. Nesse sentido situam-se as suas cinco vias para demonstrar racionalmente a existência de Deus. Tomás conserva de Aristóteles a racionalidade globalizante de um conhecimento que supera a dimensão do mundo físico-mutável para atingir a esfera do imutável e universal – o Ser – agora compreendido como o Deus cristão.

Porém a metafísica aristotélico-tomista começa a ser desconstruída criticamente sobretudo a partir do chamado nominalismo de Guilherme de Ockam (1280-1349). Representante da universidade de Oxford, Ockam nega a existência real dos universais (ser, essência, ordem, causa…) para afirmar a individualidade. Esses universais são apenas criações lógicas da mente humana, símbolos das coisas – que na realidade são sempre múltiplas e individuais. Existindo apenas indivíduos, o universal é simplesmente um nome (flatus vocis). As palavras são somente símbolos das coisas, onde o nominalismo abre amplo espaço ao conhecimento simbólico-matemático, próprio da física moderna. Essa desarticulação da metafísica aristotélico-tomista representa a crise do mundo medieval e o emergir da racionalidade subjetiva moderna, que valoriza a singularidade pensante. Segundo Manfredo de Oliveira, a partir dessa racionalidade nominalista

 

“A vinculação entre metafísica, cosmologia e ética perde seu fundamento. Não existe mais uma ordem válida à ação humana, o que vai provocar uma crise na esfera da normatividade. Onde encontrar o novo incondicionado para o agir humano? [...] A nova instância de fundamento da vida ética vai ser o sujeito, enquanto aquele que se caracteriza pela presença a si, autoconsciência, e pela ação a partir dessa consciência. O sujeito vai interpretar-se, ao longo da modernidade, cada vez mais como ‘autônomo’, à medida que ele medeia e fundamenta seu próprio agir. [...] A razão deixa de ser acolhedora e imitadora da ordem cósmica para transformar-se na fonte articuladora do sentido, que concede às ações humanas a qualidade do ético, que agora se entende como autodeterminação do sujeito” (OLIVEIRA, 2003, pp. 17-18).

 

Ocorrem, nesse sentido, tanto o declínio e fragmentação da metafísica enquanto saber ontológico-totalizante que unificava a pluralidade, como o despontar da subjetividade. A subjetividade moderna (Eu individual-consciente) coloca-se então em confronto com um mundo objetivo de tradições que passam a ser questionadas profundamente. Pois o critério de verdade é deslocado das instituições sociais para a interioridade subjetiva (singularidade individual). Lutero (1483-1546), o pai da reforma protestante, desenvolve essa subjetividade questionadora aplicando-a ao âmbito religioso cristão e reivindica o livre exame como liberdade de interpretação subjetiva dos textos bíblicos. Essa perspectiva, que exalta a liberdade de consciência e desconfia radicalmente de sistemas filosóficos totalizantes, influenciará amplamente a constituição do pensamento moderno, porquanto, como ressalta Mondin, “aqueles que vão ser os pontos mais notáveis da filosofia moderna: a autonomia da razão, o espírito crítico e a condenação da metafísica já são vigorosa e explicitamente afirmados pelos reformadores” (MONDIN, 2002, p. 42).

Em um âmbito próprio da reflexão centrada na razão subjetiva como reordenadora do mundo, situa-se René Descartes (1596-1650), o fundador da filosofia moderna. O projeto cartesiano aponta primariamente para o desenvolvimento da razão em cada um, em cada sujeito pensante. Analisar e ordenar os pensamentos são atitudes fundamentais ao aprimoramento dessa subjetividade racional, propiciadas pela própria dúvida. Para Descartes a origem de verdades como a existência de Deus ou a imortalidade da alma situa-se na própria consciência racional demonstrativa, o mundo interior da razão subjetiva que encontra essas idéias “claras e distintas” no próprio ato pensante, sendo o “Penso, logo existo” a primeira e indubitável verdade. O homem pensa a si como alma puramente espiritual (substância pensante) unida a um corpo que é mera extensão material (substância extensa). O Eu pensante intui três tipos ideais de ser, coisa ou substância: o ser infinito, o ser pensante finito e o ser extenso.  Temos então uma metafísica da interioridade pensante, desenvolvida a partir da subjetividade racional, isto é, uma metafísica a partir da própria consciência que o indivíduo possui para dar sentido a si e ao mundo.                        

  O problema do conhecimento ou questão gnosiológica adquire então uma dimensão de centralidade na reflexão filosófica dos modernos. Nesse contexto desenvolve-se o antagonismo entre o Racionalismo (Descartes, Espinoza, Leibniz…), que considera a origem e o critério do conhecimento humano partindo da razão com suas ideias imutáveis e universais, tendo como modelo a ciência matemático-geométrica, e o Empirismo (Hobbes, Locke, Hume…), que interpreta a origem e o valor do conhecimento humano a partir da experiência de fatos concretos, tendo por modelo as ciências experimentais – botânica, química, astronomia… Contudo, racionalistas e empiristas têm em comum o desinteresse pela metafísica aristotélica e uma atenção maior aos problemas do conhecimento, da política e da ética.

A modernidade se estabelece a partir da crítica ao saber teorético metafísico de Aristóteles. O moderno projeto científico expresso por Francisco Bacon (1561-1626), preconiza a autonomia da ciência e o domínio sobre a natureza através do método indutivo-experimental, tendo em vista o progresso material e a utilidade prática ao homem. Da metafísica aristotélica, Bacon rejeita as causas eficiente e final, voltando-se para a causalidade material e sua aplicação concreta à ciência. Na visão baconiana o conhecimento possui um caráter tipicamente pragmático, enquanto orientado a resultados concretamente úteis para a vida prática. Também Descartes ressalta a importância do uso prático de meios materiais para tornar os homens “senhores e possuidores da natureza” e da utilização de experiências orientadas a um conhecimento aplicado ao bem-estar do homem (cf. DESCARTES, 2002, pp. 60-62). Immanuel Kant (1724-1804), no auge do Esclarecimento, afirma expressamente: “Tão-só o resultado possibilita de imediato julgar se a elaboração dos conhecimentos pertencentes aos domínios próprios da razão segue ou não o caminho seguro da ciência” (KANT, 2002a, p. 25). E destaca os progressos proporcionados à época moderna pela lógica, pela matemática e pela física.

A Revolução copernicana no campo astronômico e a nova física, com sua matematização do saber aplicado à experiência[3], instauram a moderna cosmovisão científica a partir do século XVII, em substituição ao geocentrismo aristotélico da Igreja católica. O homem se julgava o centro do universo físico porque tudo girava em torno da terra (geocentrismo). Mas desde a astronomia de Copérnico e Galileu sabemos que a terra é um grãozinho de areia situado na imensidão do espaço cósmico e girando ao redor do sol[4].

 

As observações astronômicas através do telescópio permitem a Galileu perceber a materialidade dos corpos celestes. Assim os fenômenos da física e da astronomia tornam-se homogêneos e já não há mais como reconhecer a pretensa incorruptibilidade do mundo supralunar aristotélico[5]: desfaz-se a diferença entre Terra e Céus e as leis da física agora se aplicam igualmente a todos os corpos do Universo. A metafísica aristotélica perde assim a sua cientificidade cosmológica e agora a Física, a Matemática e as outras ciências “particulares” tomam seu posto em razão da coerência descritivo-científica e utilidade concreta.

Há uma ilustração associativa certamente paradigmática para esse declínio do saber metafísico frente à ciência moderna: enquanto Aristóteles, no século IV a. C., inventou o “Motor Imóvel”, situado no reino meta-físico como “substância imóvel, eterna e separada das coisas sensíveis”(ARISTOTELE, 1999, XII, 7, p. 567),  James Watt (1736-1819), no século XVIII, inventou o moderno “Motor a vapor”, utilizado no reino físico-tecnológico para promover o progresso material, como passo fundamental para a Revolução Industrial. Essa exemplificação deixa claro que o objetivo da ciência moderna é dominar tecnicamente a natureza em benefício do homem e não somente contemplar e teorizar, como na metafísica aristotélica.

Enfatizando claramente a falta de apreço dos pensadores do seu contexto sócio-histórico em relação à metafísica, Kant constata: “Há um tempo a metafísica era chamada rainha de todas as ciências e, se tomarmos a intenção pela realidade, merecia amplamente esse título honorífico, graças à importância capital do seu fim. Em nosso tempo tornou-se moda testemunhar-lhe o maior desprezo…” (KANT, 2002a, p. 15).                                                              

O desprezo desses pensadores à metafísica está relacionado à atmosfera religiosa-totalizante que esse discurso metafísico traz consigo. A partir da afirmação da autonomia e liberdade da razão subjetiva, os pensadores do contexto iluminista têm um tom de profunda criticidade em relação à teologia medieval que instrumentaliza o pensamento grego (“neoplatonismo cristianizado” e “aristotelismo cristianizado), crítica essa que também se baseia na inutilidade filosófica e científica das teorizações metafísicas[6].

Nesse sentido, a crítica de Kant reconhece que não é mais possível estabelecer a metafísica como ciência. Há certamente uma disposição natural (metaphysica naturalis) da razão humana a levantar problemas que ultrapassam o uso empírico da razão, mas tal disposição se depara com contradições inevitáveis (cf. KANT, 2002a, pp. 56-57). O pensamento filosófico kantiano desenvolve então a noção de ciência aplicada à razão humana. Desse modo, essa ciência não se ocupa dos objetos exteriores ou da natureza das coisas (não é essencialista ou ontológica), mas tão-somente da natureza da razão e da sua capacidade de conhecer.

A revolução copernicana de Kant no âmbito filosófico consiste precisamente em colocar a faculdade da razão no centro do conhecimento, que assim passa a regular os objetos da experiência. São os objetos dos sentidos que se guiam pela nossa capacidade de conhecer. E o conhecimento ocorre estritamente em relação aos fenômenos, como comenta Christian Hamm

 

“O primeiro passo para tal revolução [Revolução copernicana na filosofia] consiste numa distinção sistemática entre dois níveis, ou melhor, entre duas esferas diferentes de reflexão, as quais sejam: a) a esfera das próprias coisas ‘reais’, seja qual for a sua razão de ser, e b) a de um possível conhecimento dessas coisas, ou, já em termos kantianos, a distinção entre as esferas das ‘coisas em si’ e das ‘coisas para nós’ (ou ‘fenômenos’). [...] não podemos ‘admitir que nosso conhecimento se regule pelas ‘coisas em si’, simplesmente pelo fato de que estas não são ‘coisas para nós’, ou seja, porque elas não constituem ‘fenômenos’”(PECORARO, 2008, p. 12)

 

Nesse percurso tipicamente gnosiológico, agora temos a razão conhecendo criticamente a si mesma, estabelecendo suas fontes, sua extensão e seus limites. E, segundo a conceituação kantiana, “a razão é a faculdade que nos fornece os princípios do conhecimento a priori” (KANT, 2002a, p. 58). Assim Kant elabora uma filosofia transcendental, isto é, um conhecimento reflexivo, voltado especificamente para o nosso modo de conhecer e busca então elucidar a forma universal a priori do conhecimento humano, independente deste ou daquele objeto a ser posteriormente conhecido.     

É intensamente perceptível, em Kant, essa transição da teoria do ser a um pensamento expressamente reflexivo. Efetiva-se, portanto, a passagem de uma racionalidade ontológica enquanto “grande Objeto da contemplação” ao pensar próprio do “Sujeito da reflexão”, como ressaltam Deleuze e Guattari:

 

“Kant encontra a maneira moderna de salvar a transcendência: não é mais a transcendência de um Algo, ou de um Uno superior a toda coisa (contemplação), mas a de um Sujeito ao qual o campo de imanência é atribuído por pertencer a um eu que se representa necessariamente um tal sujeito (reflexão)” (Deleuze;Guattari, 1997, p. 64).        

 

O projeto filosófico kantiano não está orientado à contemplação de um Objeto absoluto, como as Idéias platônicas ou a substância imóvel de Aristóteles, mas situa-se no nível da subjetividade reflexiva – a razão conhecendo criticamente a si mesma e estabelecendo suas possibilidades e limitações. Contudo, esse processo do conhecimento da razão pura revela-se insuficiente enquanto situado estritamente num âmbito cognoscitivo. Então o questionamento se abre à dimensão da moralidade, isto é, à aplicabilidade prática da razão – comum a todos os homens. Conforme Kant: “Todo interesse da minha razão – tanto especulativa quanto prática – concentra-se nas seguintes três interrogações: 1. Que posso saber? 2. Que devo fazer? 3. Que me é permitido esperar? (KANT, 2002a, p. 570). Esses questionamentos estão carregados de um caráter reflexivo que deságua na resposta da prática moral.

Após a crítica kantiana, a razão pura, “unidade totalmente à parte e autônoma” (KANT, 2002a, p. 33), determina os princípios e limites do conhecimento, circunscrevendo-o ao nível da experiência possível. Enquanto Kant demonstra a impossibilidade de a razão conhecer a natureza dos objetos (“coisa em si”), afirma, no entanto, que “há um uso prático absolutamente necessário da razão pura – o uso moral -, no qual esta inevitavelmente se estende para além dos limites da sensibilidade” (KANT, 2002a, pp. 33-34.).

Na Fundamentação da metafísica dos costumes, Kant explicitará essa elevação do sujeito agente a um agir universal prático. “Age apenas segundo uma máxima tal que possas, ao mesmo tempo, querer que ela se torne lei universal” (KANT, 2002b, p. 51). Nesse sentido, a razão pura é apresentada em sua aplicabilidade prática, porquanto “a razão, por si mesma e independentemente de todos os fenômenos, ordena o que deve suceder” (KANT, 2002b, p. 38). A metafísica é desenvolvida por Kant a partir da liberdade enquanto independência e autodeterminação da razão pura em sua aplicação prática[7]. Essa metafísica da moralidade aponta para o que transcende a dimensão física (postulados da existência de Deus, da imortalidade da alma e da liberdade), para o universal dever-ser. Enfim, Kant conserva a metafísica no âmbito da moralidade e desenvolve assim a “metafísica dos costumes”.

 

Referências Bibliográficas

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  • CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 12. ed. São Paulo: Ática, 2001.
  • DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1997.    
  • DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martin Claret, 2002.
  • GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  • KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Martin Claret, 2002a.  
  • _______. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Martin Claret, 2002b. 
  • MONDIN, Battista. Curso de filosofia. 8 ed. São Paulo: Paulus, 2002. vol. 2.
  • OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e sociabilidade. 3 ed. São Paulo: Loyola, 2003.
  • OLIVEIRA, Manfredo; ALMEIDA, Custódio (Orgs.). O Deus dos filósofos contemporâneos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
  • ONFRAY, Michel. Tratado de ateologia: física da metafísica. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007. 
  • PASCAL, Georges. O pensamento de Kant. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
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  • REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2004. v. 1.
  • ____________. História da filosofia: de Spinoza a Kant. São Paulo: Paulus, 2005. v. 4.
  • WEBER, Thadeu. Ética e filosofia política: Hegel e o formalismo kantiano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.
  • ZILLES, Urbano. Teoria do conhecimento. 3. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.  

 


[1] “Embora sempre façamos referência à metafísica de Aristóteles, ele próprio usava a denominação filosofia primeira. O termo metafísica surgiu no século I a. C. , quando Andronico de Rodes, ao classificar as obras de Aristóteles, colocou a filosofia primeira depois das obras de Física: meta física, ou seja, ‘depois da física’. De qualquer forma, nada impediu que esse ‘depois’, puramente espacial, fosse considerado ‘além’, no sentido de tratar de assuntos que transcendem a física, que estão além dela porque ultrapassam as questões relativas ao conhecimento do mundo sensível” ARANHA; MARTINS, 2003, p. 124.  Cf. AMORA; CHAGAS, 2004, pp.124-126.

 

[2] Aqui há uma expressiva reinterpretção da metafísica de Aristóteles. Entre outras mudanças consideráveis efetuadas pela leitura de Tomás em relação à perspectiva aristotélica, podemos citar a introdução de uma causalidade eficiente atribuída a Deus (a partir do conceito bíblico de criação), enquanto para o Estagirita Deus move o mundo somente como causa final ou objeto de desejo e amor Cf. ARISTOTELE, 1999, XII, 7.   

[3] Para Galileu Galilei (1564-1642), o Universo é um grande livro escrito numa língua com caracteres matemáticos, sendo tarefa do homem decodificar essa língua.  A ciência moderna utiliza a matematização do saber ou descrição quantitativa aliada à experimentação com auxílio de instrumentos técnicos (telescópio) para ampliar a capacidade humana de observação dos fenômenos. Cf. ARANHA; MARTINS, 2003, pp. 178-179.

[4] O processo da Igreja Católica, movido pelo “Santo Ofício” contra Galileu, expressa o conflito moderno entre Fé e Razão científica. O heliocentrismo da astronomia copernicana, desenvolvida por Galileu, coloca a terra em movimento como satélite de um sol que é centro do universo. Mas essa tese vai contra o geocentrismo aristotélico-ptolomaico da Igreja e contra os textos bíblicos que afirmam a imobilidade da terra e o movimento do sol (Josué X, 13; Eclesiastes I, 4-5). Assim Galileu é coagido à retratação e à prisão domiciliar. Em novembro de 1992, o Vaticano reconhece seu erro e anuncia a reabilitação oficial de Galileu. Cf. ONFRAY, 2007, pp. 70-71. ARANHA; MARTINS, 2003, pp. 179-180.     

[5] A cosmovisão aristotélica faz uma distinção entre a região sublunar ou terrestre, onde ocorrem as mudanças físicas dos quatro elementos que compõem os corpos corruptíveis (terra, água, ar e fogo) e a região supralunar ou celeste, que é formada por Sete Céus ou Sete Esferas onde estão os astros, compostos de uma substância incorruptível – o éter. A região terrestre é, portanto, qualitativamente diferente da região celeste, onde estão os corpos celestes (a lua, o sol e cinco planetas) que realizam somente o movimento circular. O primeiro Motor Imóvel (Deus) determina o movimento da última esfera, movimento que é transmitido por atrito até a lua. A terra é esférica e repousa imóvel no centro do universo, sendo o cosmo também esférico. cf. ALLAN, 1973, pp. 41-50. ARANHA; MARTINS, 2003, p. 167-168. CHAUI, 2001, p. 253. “O primeiro céu deve ser eterno” ARISTOTELE, 1999, XII, 7, p. 563. Há então um dualismo cosmológico em Aristóteles: “Esta região do mundo sensível que nos circunda é a única que se encontra continuamente sujeita a gerações e corrupções” 1999, IV,5, p. 169.     

 

[6] “Se tomamos um livro sobre a doutrina divina, ou sobre metafísica, devemos perguntar o seguinte: ele contém algum raciocínio abstrato sobre tamanho ou números? Não. Contém algum raciocínio sobre fatos e sobre a vida que seja baseado em experiências? Não. Atira-o, então, ao fogo, pois tudo o que ele contém não passa de fantasmagoria e ilusão”.HUME apud Gaarder, 1998, p. 288.

[7] “Liberdade, negativamente, é independência do tempo, das determinações da causalidade sensível; positivamente, liberdade é autolegislação, autodeterminação” OLIVEIRA, 2003, p. 137.

jun 052010
 
Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

 

INVENÇÕES E REALIZAÇÕES ESTUPENDAS

Henry Thomas

A imprensa — a primeira das grandes invenções

PODEROSAS e gigantescas máquinas atiram diariamente milhões de páginas nas mãos sôfregas de uma grande multidão. Imensas florestas são devastadas num só ano para prover de bastante papel o ventre faminto das máquinas de impressão. Porque a imprensa — podemos bem chamá-la de primeira das grandes invenções — é um dos milagres da vida moderna. A máquina de impressão tem a seu cargo a gigantesca tarefa de prover ao cotidiano alimento mental da raça humana. O primeiro educador no mundo de hoje é a página impressa. Todos os ramos da ciência e do saber dependem da imprensa para preservação e distribuição do saber especializado.

A imprensa é uma invenção relativamente recente. E’ verdade que os antigos chineses tinham um tosco sistema de impressão manual, com blocos de madeira. Mas a impressão com tipos móveis, como hoje conhecemos, não tem ainda 500 anos de idade. Três países reclamam para si a honra da invenção. Na Holanda, Coster, já imprimia com tipos móveis aí por 1446. Na Alemanha, Gutenberg começou a imprimir mais ou menos pelo mesmo tempo. E na Inglaterra, Caxton montou uma impressora sua, logo poucos anos depois.

O primeiro livro completo, todavia, foi impresso na Hungria, em 1473.

Daquele dia até hoje, tem a imprensa caminhado a passos espantosamente rápidos. Que imensa diferença existe entre o prelo de Gutenberg, com capacidade para poucas dúzias de páginas por hora e o prelo moderno que pode imprimir 300.000 exemplares de jornais de oito páginas no mesmo período de tempo!

A moderna máquina tipográfica de grande velocidade que é o Linotipo resultou do aperfeiçoamento da invenção de Ottmar Mergenthaler, de Baltimore, em 1885. Outras invenções c aperfeiçoamentos mecânicos tornaram praticamente todos os ramos da imprensa quase que uma operação automática.

Nas oficinas dos jornais de hoje, hábeis e ligeiros tipógrafos tocam levemente as chaves elétricas de direção das maravilhosas Linotipos e as letras se reúnem em palavras e as palavras em linhas. Logo que as linhas estão reunidas, são automaticamente moldadas em linhas de metal. Estas linhas de tipo são então arranjadas em páginas e moldadas em sólidas lâminas, em forma de telhas, para se adaptarem aos cilindros dos gigantescos prelos rotativos, que imprimem, dobram e cortam os grandes rolos de papel, no próprio tamanho do jornal. Esta rápida manipulação dos vários processos mecânicos de impressão torna possível, somente aos editores dos Estados-Unidos, publicarem nada menos de 15.000 jornais e periódicos, com uma circulação conjunta de perto de 30.000.000 de cópias. Acrescentai a isto a constante produção de milhões de exemplares de livros, panfletos, prospectos e outras coisas impressas e tereis verificado quão básico e indispensável é o prelo em nossos dias.

A magia da máquina a vapor

JAMES WATT, o fabricante de instrumentos mate máticos de Glasgow, é o pai da moderna máquina a vapor. Verdadeiramente, operários que o precederam, haviam construído toscas máquinas para retirar a água das minas inglesas de carvão; mas coube ao gênio e à habilidade mecânica de Watt converter a lenta e ineficiente máquina do seu tempo em algo de semelhante ao veloz e poderoso Juggernaut de hoje. Os resultados de seus engenhosos esforços deram o primeiro impulso à Revolução Industrial. Porque naquela loja escocesa havia nascido (em 1785) a primeira e bem sucedida máquina a vapor, o primeiro invento prático, posto nas mãos do homem para acorrentar a abundante provisão de energia natural. A força da água havia sido na verdade utilizada desde muito tempo. Mas afinal um mecânico não pode carregar uma cachoeira por toda a parte, como a sua caixa de ferramentas.

Desde o aparecimento da máquina a vapor, temos tido muitos outros tipos de máquinas, máquinas a gasolina, motores elétricos, máquinas de ar comprimido, motores Diesel e assim por diante. Mas nenhuma exerceu maior influência sobre a indústria que a máquina a vapor. Por meio dessa máquina, uma soma de força igual ao esforço conjunto de cincoenta mil cavalos tornou-se aproveitável para executar as imensas tarefas da construção moderna e da moderna locomoção.

Absurdamente simples foi o princípio em que se baseou o pai da moderna máquina a vapor para trabalhar. O vapor, como todos os gases, tenta expandir-se quando comprimido. Tudo o que deve ser feito, pois, é domar essa força de expansão e obrigá-la a fazer trabalho útil.

Suponhamos que temos uma caldeira, qualquer espécie de caldeira, e que produzimos nela grande quantidade de revoltas nuvens de vapor aquecido. Imaginemos agora que temos uma caixa de ferro, com um cilindro e um pistão. Imaginemos ainda que o pistão está junto da parede esquerda do cilindro. Agor^ deixemos que nossa densa nuvem de vapor penetre na caixa de ferro, entre o cilindro e a parede esquerda. O vapor tenta desesperadamente expandir-se, e as paredes do cilindro firmemente o contêm. Mas o pistão não está fixado solidamente; pode mover-se e assim o faz. Move-se diretamente através do cilindro, continuamente forçado pelo próprio vapor. Suponhamos que logo que chegue perto da parede direita de seu trajeto, interrompamos o jato de vapor. O pistão, sem dúvida, virá gradualmente a ficar em repouso. Agora admitamos a entrada do vapor entre o pistão e a parede direita; o cansado pistão é forçado a retomar sua marcha, mas em direção oposta.

Agora executemos toda essa operação rapidamente, e então teremos nossa máquina a vapor alternativa! O pistão voa para a frente e para trás e ao mover-se, condena-se a ulteriores movimentos, porque, ligadas a êle, por um eixo, estão as válvulas que, alternadamente, abrem e fecham as duas entradas de vapor. E assim realizámos um motor ou uma máquina, porque ao pistão podemos casar um volante e dessa forma movimentar um maquinis-mo, tudo isso sem nenhum dispêndio de esforço muscular de nossa parte. Decerto que a natureza nunca é tão liberal que nos forneça toda essa energia de graça. Temos que dar alguma coisa como compensação. No caso da caldeira a vapor, devemos alimentar a máquina com carvão ou madeira, afim de produzir o vapor. Introduzimos energia calorífera e convertemo-la em energia mecânica.

O tipo de máquina que acabamos de descrever passou por vários melhoramentos, desde século e meio para cá. Mas as características essenciais têm permanecido sem modificações. Tornaram-na maior, mais eficiente (embora raramente consiga sua eficiência ultrapassar de 25 por

cento, isto é, três quartos da energia calorífera aproveitáveis são desperdiçados, enquanto que somente um quarto se torna utilizável como energia mecânica) e tem sido construída em variadas formas melhoradas. Mas todos os melhoramentos permanecem sobre os mesmos princípios básicos.

Graças à máquina a vapor, o mundo se tornou menor e mais amigo. Porque o navio a vapor e o trem de ferro converteram os habitantes de distantes comunidades e continentes em vizinhos de paredes meias. Em 1784, Fitch inventou o barco a vapor. Em 1804, a máquina de Watt foi pela primeira vez experimentada numa locomotiva. Hoje o barco a vapor pode transpor o Atlântico em menos de cinco dias e os trens podem alcançar uma velocidade de 120 milhas por hora. E assim a máquina a vapor marca outro grande adiantamento do homem na sua paulatina, porém, firme conquista da natureza.

O romance do telefone

ALEXANDRE GRAHAM BELL, o inventor do telefone, procedia duma curiosa linhagem de antepassados escoceses. Seu avô e seu pai tinham-se dedicado à estranha profissão de ensinar os mudos a falar. Alexandre enveredou pelo mesmo caminho. "Deu a palavra humana ao inerte fio de cobre".

Foi um desses dias de letra vermelha na folhinha da história aquele em que Alexandre Graham Bell enviou sua primeira mensagem através do fio, num hotel de Boston. O inventor estava em um quarto e seu auxiliar em outro. As históricas palavras de Bell a seu auxiliar foram as seguintes: "Senhor Watson, venha cá, preciso do senhor." Isso ocorreu a 10 de marco de 1876.

Bell, que era naquela ocasião professor de elocução na Universidade de Boston, não foi o único que tentou inventar o telefone. Quando tirou êle sua patente em Washington, conseguiu pôr-se à frente de um competidor, Elisha Gray, pela escassa dianteira de duas horas apenas.

O telefone foi olhado a princípio como luxo. Hoje, menos de duas gerações após sua invenção, consideramo-lo quase tão necessário como o ar que respiramos.

Que é o telefone? Que estranha combinação é essa de boca e de ouvido, que nos possibilita falar cm Boston e ser ouvidos em Los Angeles? O mecanismo é muito simples: um par de baterias, um fio e algumas peças de aço e granulos de carvão. Quando tomamos o fone e dizemos alô, as vibrações de nossa voz ferem uma delgadíssima peça de metal no bocal (o diafragma) que, por sua vez, transmite essas vibrações a uma caixinha de grãos de carvão. Ora, esses notáveis grãozinhos de carbono são o coração do transmissor telefônico. Quando eles são bem apertados uns de encontro aos outros, permitem que dimane mais corrente da bateria (usualmente situada na estação central) do que quando estão separados. Daí, quando falamos no bocal, pequeninas vibrações no diafragma causam pequeninas vibrações nas posições dos grãos de carbono e estes, por sua vez, causam pequeninas vibrações na corrente elétrica, em toda a extensão da linha. Agora, o outro lado da linha está ligado a um eletro-magneto. Este eletromagneto colhe as pequeninas vibrações que viajam pela corrente elétrica, duma a outra extremidade da linha. E assim o ciclo fica completo. As vibrações de nossa voz ativam o diafragma transmissor, ou boca, que lança para fora uma corrente para ativar o diafragma receptor, ou ouvido. E dessa forma, o fio de cobre é capaz de falar com voz humana.

Há, atualmente, mais de 80.000.000 de milhas de fios telefônicos nos Estados-Unidos. O número total de aparelhos usados nesse país passa de 20.000.000. Já é possível telefonar nossos recados não apenas através do país, de Nova York a S. Francisco, mas através do oceano de Nova York a Londres, e de S. Francisco a Tóquio. Efetivamente, os habitantes dos Estados-Unidos podem agora comunicar-se, por meio do telefone, com sessenta outros países do mundo inteiro.

E agora surge o mais recente aperfeiçoamento do telefone, a telefotografía. Éste aparelho pode fotografar e transmitir retratos quase instantaneamente, duma extremidade do globo à outra.

A maravilha da telegrafia

QUANTO tem Deus criado" foi a mensagem com que, em 1838, Samuel Morse espantou o mundo. Com um golpe, tinha Morse derrubado as barreiras de séculos e permitido que as nações se comunicassem através do globo, por meio de uma nova linguagem internacional, uma linguagem de pontos e traços e de estranhos estalidos metálicos. Desde os primitivos dias do tam-tam até os pôneis expressos do século XIX, têm os homens tentado comunicar-se uns com os outros tão rapidamente quanto possível. E agora, afinal, com umas poucas peças de metal, um par de baterias e uma série de fios delgados, Morse conseguiu ligar todas as partes do mundo com uma cadeia mágica de metal.

Como de costume, o mundo não acreditou, porque o mecanismo era demasiado simples, demasiado claro, demasiado bom para ser verdade. Um eletromagneto (isto é, um pedaço de ferro enrolado por fios) está ligado a uma bateria por meio de uma chave. Quando a chave está fechada, o eletromagneto torna-se "ativo" e faz bater um martelinho. Quando a chave está aberta, o magnetismo se anula e o martelinho salta para trás. Espaçando racionalmente as batidas do martelo, podeis produzir sons distintos na extremidade receptora. Estes sons podem ser regulados para se produzirem com curtos ou a longos intervalos. Um curto intervalo é, no código telegráfico, chamado ponto, um longo intervalo é um traço. Cada letra do alfabeto é representada por uma diferente combinação de pontos e de traços. Por exemplo, um ponto seguido de um traço significa a letra a; dois traços formam a letra m e assim por diante. E é este o sistema simples que nos torna capazes de enviar nossas mensagens através do globo, quase que num piscar de olhos.

"Não se pode conseguir isso", era o veredicto quase universal em 1865, quando Morse propôs cruzar o Atlân-

1»_20 tico com um cabo telegráfico. Mas o cabo foi colocado.

E "não se pode conseguir isso", foi mais uma vez a sentença, quando Morse disse ao mundo que esse cabo conduziria uma mensagem da Inglaterra à America. Mas, para estupefação dos incrédulos, a mensagem foi levada. E essa primeira mensagem eram os cumprimentos da rainha inglesa Vitória a seus primos americanos, do outro lado do Atlântico. A mensagem levou exatamente quatro minutos a transpor o oceano, novo record na triunfante carreira de obstáculos que o homem perfaz, por cima das barreiras do espaço.

O romance do rádio

O DIA 20 de julho de 1937 foi um dia de luto para toda a raça humana, porque naquele dia o rádio espalhou por todo o globo a triste notícia que seu inventor, o grande Marconi, havia morrido.

A invenção do rádio é a história de uma insuperável realização mental e de coragem moral. Como no caso do telégrafo, um mundo céptico olhava zombeteiramente

para o que Marconi procurava fazer: inventar o telégrafo sem fios. Inúmeras vezes, ficavam todos a dizer que "não se poderia conseguir isso". E talvez o mundo tivesse razão para se mostrar céptico, pois outros haviam tentado a mesma experiência e foram mal sucedidos. Marconi não era o primeiro a acreditar que a comunicação sem fios era possível. Mas foi o primeiro a converter essa teoria em realidade. Nascido em Bolonha (1874), de pai italiano e mãe irlandesa, mostrou precoce aptidão pelas matemáticas. Com a idade de 21 anos começou a fazer experiências com ondas elétricas. Estava convencido já então de que um "som" elétrico pode ser conduzido pelo ar para ser interceptado em algum ponto distante.

Sua primeira oportunidade de experimentar sua teoria ocorreu quando servia êle no corpo de sinaleiros do exército italiano. Era tarefa sua fazer brilhar mensagens por meio de um espelho, para outros soldados italianos que estavam estacionados à distância de uma milha. Um dia não houve sol e dessa forma não podia o espelho ser utilizado. Era a oportunidade para Marconi. Inventou um instrumento para produzir impulsos elétricos e outro para recebê-los. Por meio destes dois aparelhos, enviou seu sinal aos companheiros que se achavam a uma milha de distância. Foi a primeira mensagem sem fios da história.

Seu trabalho posterior foi aperfeiçoar seus aparelhos sem fios de modo que pudessem transmitir seus sinais a maiores distâncias. Em breve, podia transmiti-los a uma distância de 120 milhas. Estimulado por esse êxito, ofereceu sua invenção ao governo italiano. E o governo italiano recusou-a!

Marconi ficou desapontado, mas não se desencorajou. Levou sua invenção à Inglaterra e, afim de convencer o inglês, enviou uma mensagem sem fios através do Canal.

E então, com o auxílio do inglês, aprontou-se para seu próximo e ousado passo: a transmissão de uma mensagem sem fios da Inglaterra à América. Os cientistas riram diante dessa idéia. Mas Marconi continuou sua marcha para a frente. Deixando seus assistentes na Inglaterra, tomou êle próprio um navio para a Terra Nova. Uma série de S’s, três pontos no código Morse, era o sinal combinado.

Quando Marconi chegou à América, lançou ao ar um papagaio de papel a que estava ligada uma antena de fio de cobre. O papagaio foi arrebatado pelo vento. Durante seis dias sucessivos, Marconi repetiu a experiência, mas cada vez o papagaio não conseguia interceptar a mensagem.

E afinal, a 12 de dezembro de 1901, quando seu papagaio pairava no ar, Marconi ouviu três fracas batidas no receptor telefônico. O-inglês lhe estava falando através das ondas etéreas! O rádio havia nascido naquele dia.

O outro dia-feriado para Marconi foi 30 de maio de 1924, quando conseguiu enviar a voz humana da Inglaterra à Austrália. Daquele dia em diante, o desenvolvimento do rádio tem sido rápido, e a história das triunfantes aventuras da voz humana em torno do mundo, é conhecida de todos.

Quanto a Marconi, continuou seus esforços para aperfeiçoar o rádio até nos últimos dias de sua vida. Seu objetivo era duplo: proporcionar prazer à raça humana e dar-lhe saúde. Suas derradeiras experiências foram no campo das ondas curtas. Acreditava que poderia aperfeiçoar um aparelho de micro-ondas para dissolver tumores internos sem auxílio da faca do cirurgião. Sua morte prematura (tinha êle apenas 63 anos quando faleceu) foi uma grande perda para a humanidade.

Marconi recebeu talvez mais honrarias que qualquer outro homem de seu tempo. Mas o que lhe causou maior orgulho foi uma medalha de ouro com que o presentearam os sobreviventes do Titanic. Porque o SOS, que salvou tantas vidas no Titanic, foi a primeira mensagem sem fios lançada de bordo de um grande navio.

O triunfo da televisão

TELEVISÃO, sonho de apenas uma geração passada, e televisão, realidade de hoje! Tempo houve, como nos dias dos magos de Harun-al-Raschid e dos mágicos da Europa, em que anular distância era coisa sobrenatural, arte do tinhoso. E agora, ainda fresca de seus últimos triunfos no laboratório, a televisão salta para diante, pronta a tomar seu lugar entre as provadas maravilhas de nossa era.

De todos os milagres da ciência, a televisão teria parecido o mais incrível para nossos antepassados. Nem mesmo a imaginação de um Eduardo Bellamy ou de um Júlio Verne teria ousado profetizar um tempo em que o homem seria capaz de ver através de paredes de tijolos opacos e impenetráveis montanhas rochosas. Contudo o milagre aconteceu. Graças aos pacientes Merlins de nossos laboratórios, o invisível tornou-se visível. O homem começou afinal a ver o invisível.

A televisão é filha do rádio. Delgados tubos de vácuo, alguns rolos de fio, folhas de estanho separadas por mica, só isto, e vede, a humanidade foi dotada de um novo olho.

Muitos dos maquinismos do rádio permanecem ainda como vitais auxiliares da televisão. Mas o coração da televisão é guarnecido de finos tubozinhos que diferem das válvulas do rádio. Chamam-se células fotoelétricas e servem para criar tênues vibrações de corrente elétrica quando a luz brilha sobre eles. Dirigi um raio de luz, de qualquer luz visível, para dentro da célula e uma corrente elétrica dimanará; quanto mais forte a luz, maior a corrente. Retirai a luz e a corrente cessará. Na realidade não

passa de transmutação de energia luminosa em energia elétrica.

Desde que as fotocélulas (chamam-se assim mais sucintamente as células fotoelétricas) possuem a propriedade de produzir uma corrente, na proporção da luz recebida, podeis facilmente ver como é possível transmitir um retrato ou imagem. Porque suponde que projetamos uma imagem sobre uma tela, e suponde depois que a tela consiste em miríades dessas fotocélulas. Então cada fotocélula corresponderá à quantidade de luz que cai sobre ela; e a quantidade de corrente passada em cada célula será uma fiel reprodução dessa proporção de luz. Agora imaginai que temos outra tela formada de comuns lampa-dazinhas para tirar fotografias à noite, e imaginai em seguida que cada fotocélula da primeira tela está ligada por fios a uma correspondente lampadazinha da segunda tela. E agora reparai: se uma fotocélula sofre a ação de um raio de luz sobre si, enviará uma pequena corrente elétrica pelos seus fios e assim iluminará a lampadazinha correspondente; se cair mais luz sobre ela, a lampadazinha brilhará ainda mais. Ora, se tivermos uma imagem inteira, isto é, um grande número de raios luminosos, projetada na tela de fotocélulas, teremos uma imagem correspondente na tela das tais lampadazinhas. Aqui tendes, numa casca de noz, todo o segredo da televisão.

Esta é uma descrição reconhecidamente grosseira das complicadas telas, em mosaico e fluorescentes, atualmente usadas, ou dos atuais métodos de colher a imagem e sincronizar os sinais. Mas é o suficiente para dar-vos a chave do mistério. Uma discussão mais completa levar-nos-ia demasiado longe, na complicada terra das maravilhas da Física, a ciência responsável por esse mosaico fotocelular, o olho mágico da televisão.

E depois, que virá? Em breve poderemos, por meio da televisão, ver as secretas ações de nossos amigos. Será a ciência capaz de nos fazer penetrar no recesso dos pensamentos deles? Quem sabe? No reino mágico da ciência, nada é impossível.

O milagre da eletricidade

IMAGINAI, se quiserdes, uma existência sem luz elé trica, sem bondes nas ruas ou cinemas, sem rádio, sem refrigeração elétrica, motores elétricos ou automóveis, e sem as outras mil e uma comodidades, que consideramos como as necessidades comuns de nossa vida cotidiana. No entanto, poucas gerações nos separam de uma vida assim. A maravilha da eletricidade! Quão completo é o seu domínio sobre a nossa moderna civilização! Um toque de nosso dedo, um simples movimento num interruptor, e milagres se realizam. A eletricidade é hoje a mais poderosa amiga da raça humana. Mas é uma amiga volúvel e perigosa. Se manejada sem cuidado, pode tornar-se um inimigo implacável.

Ninguém sabe o que seja a eletricidade. Muitos sábios têm estudado a questão, mas nenhuma resposta satisfatória foi ainda encontrada. Talvez, como parece possível, preserve a natureza tenazmente este último e maior de seus segredos, com medo de que, uma vez atingido, possa o Homem saborear o fruto proibido do saber universal. Mas como pode ser produzida a eletricidade, O que a transporta, como ser utilizada, transformada, regenerada, armazenada, em suma, quase todas as suas aplicações práticas estão agora bem definidamente dentro do campo da visão dos sábios. Desde as clássicas experiências de Volta e Galvani (aí por 1780), sobre os efeitos elétricos produzidos pelo toque de dois metais diferentes nas pernas de uma rã, uma imensa literatura surgiu, com a descrição e a explicação da vasta e surpreendente série de aplicações iniciadas por aquelas descobertas. Até mesmo a mesquinha rã alcançou assim a honra de ser uma benfeitora da raça humana.

Em breve Volta descobriu que, mergulhando zinco e cobre numa solução de ácido sulfúrico, podia formar uma bateria elétrica, uma célula voltaica. Contudo, se o mundo para ter energia elétrica houvesse de depender de baterias, receio que nossas contas de luz elétrica seriam muito maiores do que são agora. Mas apareceu Miguel Fara-day e espantou o mundo com o seu primeiro gerador, ou dínamo. Agora, afinal, podia-se transformar a provisão de energia oculta da natureza, quer em forma de carvão, água ou gasolina, em utilizável energia elétrica. Dali por diante, cada década via gigantescos progressos na arte de domar as forças nativas da eletricidade. Primeiro veio o motor elétrico, que é pouco mais do que um gerador ao contrário. Depois veio a luz elétrica incandescente, legado de Edison. Foi seguida de grandes progressos na comunicação e na telegrafia. Ao findar o século, descobriu-se que, por meio de uma faísca elétrica, podia-se inflamar uma mistura de ar, água e gasolina. E dessa forma a "auto-carruagem sem cavalos", ou automóvel, nasceu. Depois veio o rádio, e o milagre de Emerson, de um tiro ouvido por todo o globo, tornou-se um atual lugar-comum da vida diária.

Hoje, a eletricidade intercala-se em quase todas as fases da atividade humana. Possibilita aos raios X a exploração dos mistérios do corpo humano. Movimenta os aparelhos de diatermia e envia o calor do sol aos mais profundos tecidos dos que sofrem alguma doença. Produz febre artificial. Dissolve tumores do cérebro. Decifra, com o auxílio do cardiógrafo, os segredos físicos do coração. Movimenta e faz parar os complicados maquinis-mos das fabricas modernas. Corta pesadas lâminas de aço como pedaços de papel de seda e faz partir, em Nova York, urna corrente que pode abrir uma ponte ou descarregar um canhão em S. Francisco. A eletricidade é a "fonte explosiva" que provocou nova vida, nova energia e nova ambição no até então lerdo progresso da raça humana. Antes do século XIX, o homem avançava a passo de caracol. Agora está correndo para a frente nas verdadeiras asas do raio. Da estimulação das pernas de uma rã à movimentação da locomotiva, que transporta milhares de toneladas, foi um passo de apenas um século.

Mas de onde vem a eletricidade? Os sábios estão começando a achar uma resposta para esta pergunta. Talvez não saibamos precisamente o que seja a eletricidade, mas estamos caminhando gradativamente para o misterioso lugar de seu nascimento. A eletricidade, crêm agora os sábios, é a manifestação do movimento de elétrons, minúsculas partículas de matéria ou energia. De que tamanho são estas partículas? Ora, são necessários 1845 elétrons para formar o menor dos átomos conhecidos, o do hidrogênio. E qual o tamanho de um átomo? Não tão grande que possa ser visto pelo mais poderoso microscópio, nem mesmo que o multipliqueis um milhão de vezes. E dessa forma, tentai imaginar, se puderdes, a infinitesimal pequenez da partícula de energia elétrica chamada

Elétron.

E contudo — maravilha das maravilhas! — os cientistas foram capazes de avaliar o próprio peso de um elétron. Este peso é exatamente o seguinte:……….

0,000.000.000.000.000.000.000.000.000.001 de uma libra. E cada elétron contém tão pouca eletricidade que são precisos cerca de 1.000.000.000.000.000.000.000 deles para produzir uma corrente de um ampère apenas!

Esses maravilhosos elétrons fazem parte da estrutura de todos os átomos, e daí podemos concluir que toda matéria é essencialmente elétrica na sua constituição.

Mas que é a eletricidade? Qual é a matéria? E que é essa terceira misteriosa faculdade que tenta ponderar estas questões e que nós chamamos pensamento? Até agora não nos é possível dizê-lo. Podemos apenas discorrer em círculo, em torno delas. Assim observava um filósofo: "Que é o pensamento? Uma questão de eletricidade. E que é eletricidade ? Não é matéria. E que é matéria? Não faça caso!"

A conquista do ar

LEMBRAI-VOS da história de Ícaro e Dédalo que, com o auxílio de asas pregadas em suas costas por meio de cera, elevaram-se da terra, alto, bem alto, no céu, até que o ardente calor do sol fundiu a cera e atirou-os para baixo como pesos de chumbo, para que encontrassem a morte? Esta fascinante história não passa, sem dúvida, de um mito. Mas sua profecia, mesmo como a de Dario Green e sua máquina voadora, tem-se cumprido muito além de toda a expectativa. Há apenas quarenta anos que o povo meneava a cabeça e dizia: "O que? Voar em máquinas mais pesadas do que o ar? Ora, é contra a razão humana. Não pode ser feito!" Mas dois intrépidos jovens americanos, Wilbur e Orville Wright, arrostaram as rajadas do espaço e as zombarias de seus amigos, e em 1903 inventaram um tosco aparelho de asas que podia realmente voar. Em 1906, o brasileiro Santos Dumont fazia em Paris os primeiros ensaios com o seu monoplano leve do tipo ãemoiselle (libélula); estas experiências fizeram dar um passo decisivo à aviação. Para os que nasceram depois da invenção do aeroplano, voar é um fato, não mais maravilhoso que os outros comuns auxiliares da existência cotidiana, tais como comer, dormir, ir ao escritório ou ao cinema. Mas os que como nós, viviam em 1903 podem ainda recordar-se, com um nó na garganta, daquele dia em que os jornais anunciaram o milagre dos milagres de toda a história: "O homem voa através dos ares!".

Apenas uma geração transcorreu após o vôo dos irmãos Wright. Hoje, pode-se dizer que o aeroplano conquistou completamente o espaço. Os poderosos pássaros de aço têm circundado o globo, têm ultrapassado em velocidade e em altura a águia, e têm traçado novos e até então inacessíveis caminhos através do espaço, de Moscou ao Polo Norte e à Califórnia do Sul, num vôo ininterrupto de mais de 6.000 milhas.

Há muitos meios de medir o progresso da raça humana. Mas a melhor medida de todas, talvez é esta: duzentos anos atrás eram precisos três dias para viajar de Boston a Nova York. Hoje podeis fazer a mesma viagem de aeroplano em cerca de duas horas.

Tão rápido tem sido o desenvolvimento extraordinário da aviação que é possível hoje construir um aeroplano que voe completamente em redor do globo, com uma carga de combustível. Há alguns aviões, como o CHINA CLIPPER, que pode transportar de cincoenta a sessenta toneladas de peso bruto, sem contar a tripulação e o combustível. Os aeroplanos podem ser construídos para voar a 9.150 metros ou mais. Efetivamente, alguns dos recentes aviões de bombardeio do Exército dos Estados-Unidos carregarão 4.000 libras de explosivos, durante 8.000 milhas, a uma altura de 10.675 metros, e com uma velocidade de 300 a 400 milhas por hora! A que distância estamos dos dias (passaram-se apenas três gerações) em que nossos avós perfaziam uma longa e solitária viagem através do continente, em carroças cobertas!

Contudo a aviação está bastante longe de repousar à sombra dos louros até hoje alcançados. Pelo contrário, está rapidamente adquirindo novos e engenhosos inventos com o fim de promover a segurança —• mesmo agora extraordinariamente elevada — e a eficiência dos navios do ar. O inventor tem executado maravilhas na anulação da resistência do vento. Notai os novos grandes aeroplanos. Depois que eles tomam o vôo, o aparelho de aterragem é destramente dobrado e puxado para o corpo do aeroplano, de modo a não opor resistência ao vento. Notai especialmente as aperfeiçoadas linhas aerodinâmicas das partes principais, comparadas com as primitivas e toscas armações de papagaio. Nas suas aperfeiçoadas secções de asas, nos seus supercarregadores e nas suas hélices de posição variável (de modo que o vóo em elevada altitude, através da estratosfera, pode tornar-se econômica e cientificamente exequível) nos seus novos autogiros (de modo que os aeroplanos podem aterrar em baixas velocidades), em seus instrumentos, tão precisos que o "vôo cego" se tornou uma realidade, em todos esses aspectos, os modernos aeroplanos são nada menos que autênticos milagres do engenho humano.

Que terá o futuro reservado para a aviação? Velocidade, velocidade, velocidade! Há segurança no vôo. E’ praticamente silencioso. Está se tornando rapidamente econômico. Todos os esforços tendem agora para o aumento da velocidade da aviação. Há razão para crer que uma carreira de seis horas de Nova York a Londres será dentro em breve uma questão de fato cotidiana, seis horas de suave viagem, a 500 milhas por hora, num camarote fechado à altura de uns 15.000 metros, muito além do incômodo da neblina, da nevasca, da tempestade. Isto significará mais estreitos liames comerciais e sociais entre as nações. Significará uma melhor compreensão entre homem e homem. Será um passo definitivo na direção da paz universal.

Maravilhas da engenharia

Pontes

A PRIMEIRA ponte foi construída há cerca de 12.000 anos. Essa ponte era pouco mais que uma grosseira junção de três troncos postos lado a lado. Daquele dia até o século XIX, a ciência de construir pontes adiantou-se a passos rápidos. E depois esse passo acelerou-se de maneira ainda mais espantosa. Da ponte de Brooklyn,

construída em 1883, à ponte de Golden Gate (portão de ouro), completada em 1937, têm os engenheiros executado proezas quase inacreditáveis de mágica científica.

As mais maravilhosas das modernas pontes são a ponte de Storstrommen, em Copenhague, a Ponte Tribo rough, em Nova York, e a ponte de Golden Gate, em S. Francisco.

A ponte de Storstrommen, com mais de duas milhas de extensão, (mais de 3 mil metros) é a mais comprida ponte da Europa. Não é somente uma maravilha de engenharia, mas um belo espetáculo. E’ formada de cin-coenta arcos, e à distância, assemelha-se a um comprido monstro das profundezas, erguendo-se das águas e arqueando o dorso para receber o sol, ao estender-se sobre muitas pernas, de uma à outra margem.

A ponte de Triborough é consideravelmente mais comprida do que a ponte de Storstrommen. Sua estrutura estende-se a uma distância de mais de três milhas e meia e seu mais comprido vão é um arco suspenso a uma altura de 420 metros. Tendo custado sua construção a quantia de 60.300.000 dólares, (1 bilhão e 206 milhões de cruzeiros) é ela um imenso e apropriado marco na cidade das coisas imensas.

Muito maior, porém, mesmo do que a ponte de Triborough, de Nova York, é a ponte de Golden Gate de S. Francisco. Cobre uma distância de quatro milhas e meia, sobre águas navegáveis, e alcança, de uma extremidade à outra, um total de oito milhas e meia. Essa ponte é a mais espetacular realização de engenharia do século XX. O arco principal está suspenso a 1.281 metros, sendo o mais longo vão jamais erigido. Gastaram-se quatro anos e 77.000.000 de dólares, (1 bilhão e 540 milhões de cruzeiros) na construção dessa ponte. Foram usados para os cabos de suspensão, nada menos de 80.000 milhas de fios. O tráfego nessa ponte é enorme. Se os automóveis que a atravessam só num ano, fossem postos uns atrás dos outros, dariam quase duas vezes a volta do mundo!

Estradas

Gostaríeis de viajar: sobre uma estrada de borracha, de algodão ou de sal? Sonho de histórias de fadas? Não, coisa atual nos Estados-Unidos. Dentro dos últimos dois anos, os construtores de estrada de rodagem têm feito experiências com as mais características substâncias, afim de tornar as estradas mais duráveis e menos dispendiosas.

Na Nova Inglaterra, têm sido experimentadas junturas de borracha em estradas de concreto, afim de evitar as protuberâncias que geralmente aparecem nas velhas junturas de asfalto. Em muitos dos Estados do Médio-Oeste, certo tecido de algodão tem sido usado para reforçar as estradas betuminosas. No Estado de Nova York, muitas estradas têm sido talhadas no cristal de rocha, com excelentes resultados. As estradas não só se têm conservado bem, sob intenso tráfego, mas foram encontradas intactas após inundações grandes.

Fora dos Estados-Unidos têm-se realizado igualmente interessantes experiências na construção de estradas. Em Queensland, na Austrália, todo um trecho de estrada foi construído inteiramente de borracha. Na Alemanha, foram feitas numerosas "estradas de alumínio". Consistem elas numa mistura de alumínio, pólvora e breu. Mostraram-se capazes de resistir ao uso e estrago do tráfego pesado e do sol ardente. A mais interessante das experiências na construção de estradas, ocorreu na índia. Naquele país de grandes calores e de excessivas chuvas, uma mistura de areia e melaço deu em resultado uma estrada que é durável, sem pó, e de custo barato.

Bastante estranho é que a mais duradoura e a mais dispendiosa de todas as estradas, não é uma rodovia moderna, mas antiga. Para ser exato, essa rodovia tem 2.200 anos de idade. Chama-se a Via Appia. Construída pelo censor romano, Appio Cláudio, em 312, antes de Cristo, conserva-se até os nossos dias como um modelo de perfeição geométrica e de permanente resistência.

O primeiro decisivo triunfo da máquina a vapor realizou-se em 1819, quando o navio a vapor SAVANNAH cruzou o Atlântico em 26 dias. Daquela data até hoje, temos visto o quase desaparecimento do navio a vela e a construção de leviatãs dos mares, tais como o BREMEN, o CONTE DI SAVOIA, o QUEEN MARY e o NOR-MANDIE. Estes navios têm sido chamados "hotéis flutuantes". Seria mais exato chamá-los "cidades flutuantes". Porque cada um desses navios é por si mesmo uma cidade. O NORMANDIE, por exemplo, tem mais de trezentos metros de comprimento. O QUEEN MARY é apenas lm,80 mais curto. Esses navios, e vários outros semelhantes, bastam-se completamente a si mesmos, pois têm desde jornais até piscinas, desde campos de jogos até salão de leitura, desde geradores de energia elétrica até correios.

Uma tremenda e transbordante cidade de gente que se diverte, eis o que é um moderno navio. Uma cidade em movimento. Em cada ano aumenta a velocidade desse movimento. Em 1492, gastou Colombo setenta dias para cruzar o Atlântico. O primeiro navio a vapor, como vimos acima, fez a viagem em vinte e seis dias. Mas durante dezoito deles, viu-se forçado a usar de rodas laterais, para auxiliar as máquinas. Em 1856, o tempo de travessia foi reduzido a nove dias; em 1900, a cinco dias e meio; em 1933, a quatro dias e meio; e em 1935, o NORMANDIE foi da América à Inglaterra, numa distância de 3.015 milhas náuticas, no tempo-record de quatro dias, três horas e vinte e oito minutos

Túneis

Uma das mais estupendas façanhas da engenharia moderna é a perfuração de túneis, através de muitas milhas de montanhas rochosas. O túnel da Montanha de Bitter Root, em Montana, tem duas milhas de comprimento; o túnel Hoosac, em Massachusetts, tem quase cinco milhas de comprido e o túnel da Cascata, (Cascade Tunnel), no Estado de Washington, tem mais de sete milhas de extensão e é "reto como um cano de espingarda".

Ainda mais espantosos são alguns dos túneis da Europa. O túnel do Monte Cenis, que liga a Itália à França, tem oito milhas de comprimento; o túnel Loetschberg, na Suíça, tem nove milhas de comprido; e o túnel de dupla via, que liga as cidades italianas de Florença e Bolonha, atravessa os rochedos resistentes dos Apeninos, numa extensão de mais de onze milhas. Na construção desse túnel (1920 a 1930), perderam a vida nada menos de noventa e oito operários.

E notai este fato espantoso: embora os engenheiros tenham traçado seu caminho, cegamente, através da sólida rocha, sua percentagem de erro foi quase nula. O túnel de S. Gotardo, entre a Suíça e a Itália, foi perfurado na extensão de nove milhas, por baixo de uma cadeia de montanhas, que se eleva em alguns pontos a uma milha acima da turma de construção. Foi preciso dar-lhe sinuosidades em espiral para ligar o nivel mais baixo da via férrea, numa extremidade do túnel, com o nivel mais alto na outra extremidade. Contudo os ousados engenheiros abriram dois buracos nos lados opostos da cadeia de montanhas e depois de muitas voltas e espirais, deram com um erro de menos de 0m,30 no ponto predeterminado no meio. Os engenheiros que construíram o túnel Hoosac fizeram bem melhor que isso, porque seu erro de cálculo foi menos de um centésimo de polegada I

Represas

Mais de um bilhão de dólares de dinheiro federal tem sido gasto, há poucos anos passados, no desenvolvimento da energia hidroelétrica. Um dos maiores desses projetos é o das obras dos Muscle Shoals, no vale do Ten nessee (o T V A). Embora ainda incompletas, já custa-

ram mais de 300.000.000 de dólares (16 bilhões de cruzeiros). Três grandes represas contêm o rio, enquanto que o próprio açude Wheeler forma um lago artificial com umas oito milhas de extensão! O Boulder Dam, na fronteira Califórnia-Nevada, é um projeto federal que já foi completado. E’ o mais alto açude do mundo, erguendo-se num grande arco da altura de mais de 200 metros acima do rio. Ali detém abruptamente a corrente do vasto Colorado, fazendo-a retroceder para um lago de mais de 58.000 Hm2 de área.

Grandes projetos tais como esses incendeiam a imaginação. Mais uma das forças naturais está sendo domada e posta à disposição do homem pela ciência. Desde as primitivas represas do Nilo para regular suas enchentes, no ano 4.000 antes de Cristo, até a criação dos imensos lagos artificiais internos do século XX, se desenrola outro dos fascinantes capítulos da triunfante história da engenharia.

As maravilhas mecânicas da casa moderna

GOSTARÍEIS de ter uma nova criada? Não, ela não custará muito caro e será maravilhosamente eficiente. Trabalha vinte e quatro horas por dia e sete dias durante a semana. E que trabalho! Tudo feito admiravelmente e um serviço que vos garantirá a mais completa satisfação. Está parecendo tolice, não é? Mas o seu nome, bem o conheceis: é a Eletricidade.

Vamos começar, por hipótese, com a adega de vossa casa. Cuidar do forno e retirar as cinzas foi sempre coisa muito aborrecida, não é exato? Levantar bem cedinho

para atiçar o fogo e descer mais tarde para ajuntá-lo. Por que não deixar que o moderno fogão de petróleo, controlado eletricamente, torne esse penoso serviço uma coisa do passado? Acendei o fogo em outubro e não vos lembreis mais dele até maio!

Que mais tendes na adega? Uma lavanderia, provavelmente: uma máquina de lavar elétrica que, por uns 25 cruzeiros por ano, fará todo o vosso serviço de lavagem, rápida, completa e eficientemente; um secador elétrico que executará sua tarefa tão bem quanto o sol e um ferro elétrico que vos passará as roupas de maneira bem mais agradável que o pesado serviço de outrora. Nada de lastimaçÕes por causa de comida e de pagamento, na-da de pedido para saídas às quintas-feiras de noite e aos domingos, e nada de impertinências e de acessos de mau humor: a mais maravilhosa criada-para-todo-serviço!

Vinde comigo agora. Subamos as escadas. Ah! Vejo em vossa cozinha um refrigerador elétrico. Aposto que não sentís a falta do passo pesado do homem do gelo e do aborrecimento de não terdes sempre cheia a caixa de gelo. E tendes também um fogão elétrico de cozinha. Formidável! Mas que é isso? Não há lavador elétrico de pratos, não há incinerador elétrico dos restos de cozinha, não há frigideira elétrica de ovos, não há caldeira dupla elétrica? Realmente não pensais que a Criada Eletricidade não vos deixaria fazer todas essas coisas? São elas sem dúvida úteis, e em milhares de casas, também, dão a seus afortunados possuidores muito menos trabalho e muito mais tempo para divertirem-se.

Demos agora um passeio por dentro da casa. Hum… está tudo bem empoeirado e bolorento. Não, eu não queria fazer críticas ao seu asseio doméstico. Mas por que não ter um condicionador de ar que conserve a atmosfera sempre suave, fresca e limpa? E a propósito, comprai um refrescador de quartos e um mata-mosquitos. Trabalham também por meio de eletricidade. Vejo que tendes um relógio elétrico, uma aspiradeira de pó., um filtro elétrico, Uma elétrica amassadeira de bóio e um torrador elétrico.

Muito bem! Mas acrescentemos a isso, uma lâmpada de sol, de modo que tenhais vossa pele radiantemente saudável e queimada de sol, mesmo se não puderdes gastar dinheiro com um inverno na Flórida ou na Califórnia; e uma almofada elétrica de aquecimento; e uma máquina elétrica de exercício para o preguiçoso Joãozinho dará excelentes resultados. Aposto que gostaríeis também de um rádio na cozinha, para alegrar vossas manhãs.

Isto ainda não é tudo quanto a Criada-para-todo-ser-viço, a Eletricidade, fará por vós, barata e continuamente, mas é bastante para demonstrar quão completamente se apossou a Eletricidade do lar moderno, para transformá-lo num verdadeiro palácio de conforto e beleza. A idade dos velhos escravos já passou. Uma nova era de escravidão se inicia. E nesta nova era, pode haver toda casta de luxo para o senhor, sem injustiça para o escravo. Salve a Escrava do Século XX, a Eletricidade !


Fonte: Maravilhas do conhecimento humano, 1949. Tradução e Adaptação de Oscar Mendes.

 

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Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

A AURORA DA HISTORIA MODERNA

Henry Thomas Buckle (1821 –1862)

O Renascimento da Grécia e de Roma

DOS séculos de escuridão raiou uma súbita revelação do antigo passado. Quase da noite para o dia, no século XIV, o mundo aprendeu que tinha havido, muito tempo antes de Cristo, na Grécia e em Roma, raças que viviam na luz de brilhante civilização. E depois, a história não havia começado no tempo de Carlos Magno! Tinha havido poderosos imperadores, grande arte e bela literatura nos remotos dias, anteriores à aurora do mundo cristão!

Diante da descoberta desse maravilhoso fato, os sábios da Europa lançaram-se no frenesi da procura. E muitas das pessoas que por primeiro decifraram os velhos manuscritos gregos e romanos foram os monges cristãos que, por centenas de anos tinham, sem saber, guardado com cuidado aqueles secretos tesouros, nas empoeiradas águas-furtadas e adegas de seus mosteiros.

Quando as histórias da Grécia e de Roma foram afinal descobertas, todo o mundo tentou reconstruir outra Grécia e outra Roma. Ergueram-se templos imitados dos palácios gregos e romanos e esplêndidos banhos. Os homens começaram a escrever poesia e prosa à maneira clássica. Todos, do papa ao camponês, ficaram absorvidos no novo mundo clássico. Os homens tentaram tornar-se crianças de novo e transformar a vida, segundo a maneira dos gregos, num belo brinquedo para sua diversão cotidiana.

A PONTE VALEXTRÉ — Cahors, França. Esplêndido exemplo de fortificações da Idade Média

A PONTE VALEXTRÉ — Cahors, França. Esplêndido exemplo de fortificações da Idade Média

 

JÚLIO CÉSAR.

JÚLIO CÉSAR.

 

 

CARLOS MAGNO.

CARLOS MAGNO.

 

 

E que lugares tomaram mais importante parte nesse movimento de renascença? As pequenas cidades da Itália, onde a velha civilização romana tivera seu primeiro berço.

Na cidade de Florença foram os duques, que governaram com mão de ferro e que patrocinaram as artes. Em Florença, havia o culto da beleza e da impiedade, carnaval sob as estrelas de verão, lojas de reluzentes espadas, custosos trajes e pedras preciosas, artistas que pintavam Madonas parecidas com Venus e que modelavam estátuas em mármore e bronze.

No ano de 1496, realizou-se um desses grandes carnavais. Uma multidão de barulhentos foliões acha-se na rua, bebendo e celebrando o festival de Venus. Entre risadas e músicas, o cortejo carnavalesco entra na praça. Mas eis que, de repente, um frade dc negro capuz salta no meio da multidão ébria, e vocifera palavras de fogo. Todo o barulho cessa. "Ó florentinos, amantes do prazer, estais condenados!" — grita o monge Savonarola, que se acredita enviado do céu para conquistar o povo de Florença para Deus. "A hora do julgamento está iminente!" Levanta os braços para rezar. E os foliões, com um grande clamor de penitência, caem de joelhos e choram, tão poderosa é a personalidade daquele frade semilouco e puritano. Rasgam as colgaduras e decorações das carruagens e voltam envergonhados para casa.

Não se prolongou, porém, muito o seu arrependimento. Porque aquela gente tinha o coração pagão. Florença era um novo berço de Atenas. Os florentinos da Renascença, como os gregos do mundo antigo, criaram uma religião da beleza.

A mais bela mulher da Renascença

OUÇAMOS a história da mais fascinante mulher de Florença. Essa jovem aristocrata, Rosaura Mon talbani, "era tão linda que quando chegava à janela, pela manhã, o povo enchia as ruas, impossibilitando a passagem dos coches e cadeirinhas. Tão bela era que, quando saía para fazer suas compras, os negociantes recusavam pagamento das despesas que fizesse. Quando entrava na igreja, os devotos voltavam o rosto do altar, para olhar para ela e eram assim condenados à eterna punição. Todos os dias, os pescadores retiravam do rio Arno o corpo de algum mancebo, que havia morrido por seu amor. Todas as noites, vigilantes topavam com o corpo de algum cavalheiro, ricamente vestido, tendo um punhal no coração, por haver sido repelido pela bela Rosaura. Três vezes foi levada ao tribunal, pelos amargurados pais dos mancebos. De todas as vezes foi acusada de ser demasiado bela." E de todas as vezes os juízes ficavam tão empolgados pela sua beleza que a mandavam em liberdade.

Certa vez foi intimada a comparecer perante a justiça, quando o tesoureiro da cidade, tendo dissipado com Rosaura o dinheiro que lhe havia sido confiado, se suicidara. Dessa vez foi ela condenada ao pelourinho. Mas ninguém quis executar a sentença e por isso foi posta em liberdade, de novo.

O jovem duque de Florença tornou-se, um dia, melancólico e foi para uma capela, com seu material de pintura. Fechou-se lá dentro e não queria comer nem beber. Mandaram chamar seu pai, que bateu à porta da capela, mas não obteve resposta. Ao forçar a porta, viu as paredes sagradas e o tecto cobertos de santos, de anjos sorridentes, de Madalenas penitentes e adoráveis Madonas, todos com as mesmas feições de Rosaura Montalbani. O jovem duque estava sentado no púlpito, imóvel, exceto os olhos que corriam duma pintura para outra. Enlouquecera, diante da visão do rosto de Rosaura.

Mais uma vez foi Rosaura levada à presença dos juízes. Desta, porém, uma máscara, em forma de caveira, fora colocada sobre seus olhos, nariz e boca, afim de evitar que seu rosto causasse novas ruínas. Foi sentenciada à reclusão solitária e a usar aquela máscara para o resto de sua vida. Trinta e nove anos mais tarde, quando o Grão Duque Cosme subiu ao trono, concedeu geral perdão a todos os prisioneiros de estado. Encontrou o documento que relatava o caso de uma mulher, de máscara negra, que fora condenada à prisão perpétua, por ser "demasiado bela para viver em liberdade".

Mandou buscar a mulher à sua presença. Quando ela retirou a máscara, pôs-se a contemplá-la longa e intensamente. "Bela, essa mulher?" murmurou afinal. Via uma pele fanada e uns olhos encovados. As feições de Rosaura tinham tomado a forma da caveira.

A idade de ouro das descobertas

FRANCISCO DE ALMEIDA seguiu para bordo de seu navio. — Larguem as velas! — gritou êle para os marinheiros.

— Capitão!

— Pronto, Piloto?

O piloto era moreno, de olhos pequenos, lábios finos e nariz chato. As ruas de Veneza estavam cheias de marinheiros iguais a êle. Veneza era o elo entre o Oriente e o Ocidente. Viam-se ali escravos da África, negros como carvão, negociantes de especiarias da Arábia, mercadores de seda da China, encantadores de serpentes de Ceilão, dansarinas da índia, joalheiros da Espanha, comerciantes da França e jogadores e aventureiros de todos os quadrantes da terra.

— Velejamos para a índia.

— Mas, capitão, não podemos navegar hoje!

— Que quer você dizer com isso: não podemos navegar hoje? Nossa carga para Bombaim já está pronta: peles da Rússia, vinho de Marselha e ricos panos de Lião. E traremos de volta pérolas e ouro e prata. Larguem as velas, digo eu!

— Mas nós não podemos navegar. O capitão da guarda acaba justamente de trazer más notícias.

— Más notícias? Que significa isso?

— Os turcos, — disse o piloto, — tomaram Constantinopla.

As mãos de Francisco deixaram-se cair débilmente ao longo de seus flancos. Um navio carregado de vinho, de panos e de peles, uma fortuna lentamente acumulada, uma vida inteira de esperanças, tudo, porém, perdido, agora que os turcos dominavam o Mediterrâneo. Porque isso significava o fim do comércio entre o Oriente e o Ocidente.

O capitão deixou seu navio. E com êle partiam quinze séculos de prosperidade.

Isso aconteceu em 1453. As naus que se aventuravam depois disso, no Mediterrâneo, eram capturadas pelos sombrios seguidores de Maomé. Não havia mais vida alguma na Europa, nem dansarinas da índia, nem encantadores de serpentes de Ceilão, nem ruas cheias de cores, nem carnavais, nem espetáculos de Judas e Polichinelo. Veneza, a Jóia do Sul, era como uma cidade mortuária.

Mas os comerciantes tinham que viver. Deviam procurar novos mares, novos portos, novos caminhos para alcançar a costa, ou a vida pararia 1

Para o negro e misterioso Atlântico arrojavam-se navios de leves mastros — o demônio Atlântico — onde acreditavam os homens que vivia o próprio diabo, que acirrava a fúria das ondas. Polegada a polegada, arrastavam-se os navios… para a América.

O Príncipe D. Henrique, o Descobridor

HENRIQUE era um príncipe dum pequeno país, Por tugal, e lia, nas estrelas, que a futura glória do mundo estava no Ocidente. Amava entranhadamente as estrelas. Construiu observatórios para estudá-las, de modo que, quando um marinheiro saísse para o ínvio oceano, pudesse encontrar seu caminho de regresso. E assim foi inventado o astrolábio, aperfeiçoado o compasso, e os navios da Renascença aventuraram-se cada vez mais longe, até o Atlântico. Os homens logo se acostumaram a navegar centenas de milhas distantes de seus lares.

O príncipe Henrique depois fundou uma escola para navegadores.

Mês após mês, os alunos dessa escola saíam para o mar e não mais se ouvia falar deles. Mas um dia, em 1486, Bartolomeu Dias voltou altivamente para Portugal e anunciou que havia atingido o extremo sul da África. Como seus grandes sonhos se haviam realizado, Dias chamou esse ponto extremo de Cabo da Boa Esperança.

Doze anos mais tarde, Vasco da Gama viajava para o Cabo da Boa Esperança. Aventurou-se ainda mais além, de coração palpitante, até alcançar a índia. E mais uma vez a comunicação se estabeleceu entre o Oriente e Ocidente.

Entre a multidão de aventureiros que afluíam para Portugal e ofereciam seus serviços ao rei, havia um filho do país, alto e silencioso.

Viajara em torno do continente americano, sob o pavilhão da Espanha. Quando viu um novo oceano diante de seus olhos, derramou lágrimas de alegria. Depois do tormentoso Atlântico, era uma delícia chegar a uma vasta extensão de água tranquila. Chamou-o de Oceano da Paz, ou de Oceano Pacífico.

Durante cento e doze dias navegou êle sobre o Pacífico e não achou terra. O alimento acabou-se. E seus homens comiam o couro de seus sapatos e o cordame do navio. Recorreram ao expediente de matar alguns dos seus, escolhidos por sorte, afim de que pudesse haver alimento bastante para os restantes. Cozinhavam a madeira do tombadilho e comiam ratos. Afinal amputaram seus próprios membros para terem alguma coisa de comer. Aportaram às ilhas Filipinas, onde alguém dentre uma multidão de semiloucos lançou uma flecha às costas do chefe branco.

Os marinheiros alcançaram a Espanha sem capitão, reoanho de animais desvairados, precisamente trinta e sete meses depois de sua partida. Mas haviam dado volta ao mundo. Seu comandante, que jazia com uma flecha nas costas, numa das ilhas Filipinas, era Fernão de Magalhães.

As aventuras dos Cabotos

VOLTEMOS alguns séculos a uma cidade da Inglater-ra, chamada Bristol. Para ali havia ido, de Gênova, João Caboto, com seu filho Sebastião. Mudando seu nome para John Cabot, fixou residência em Bristol. Henrique Tudor, rei da Inglaterra, lançava cobiçosos olhares para a América e balançava a cabeça diante das partilhas, cada vez maiores, de terra que Espanha e Portugal faziam, em torno do Equador. Armou uma expedição pon-do-lhe à frente John Cabot. "Deus te abençoe, em nome do rei e da Inglaterra", disse o poderoso Tudor, na hora da partida. Poderia ter acrescentado, se fosse um profeta: "Algum dia o sol nunca se porá no território inglês." A armada velejou, comandada por John Cabot.

A expedição navegou pela parte setentrional do hemisfério americano, parte que hoje chamamos Estados-Unidos e Canadá.

À sua chegada, os rudes ingleses queimaram fogos para celebrar sua feliz viagem. John Cabot, o velho e grisalho lobo do mar, batido pelas tormentas, hasteou a "Union Jack" e invocou a Deus como testemunha da posse da América do Norte para Henrique Tudor.

Quando Cabot contemplava as chamas do acampamento, teria visto um grupo de marinheiros, famintos e semienregelados, parar seus navios de proas pontudas e lançar-se àquela mesma praia, quinhentos anos antes? Porque os rudes escandinavos, às ordens de Leif Ericson, haviam descoberto a América, no ano mil de nossa era.

A conquista do Peru e do México

BOATOS de uma rica região ao sul do Panamá ha-viam chegado aos ouvidos dos espanhóis da América Central, que passavam a vida buscando ouro. E em 1531, Francisco Pizarro deixa o Panamá, com mais decem homens, buscando fortuna além do istmo. E quem se dirigiu aos navios quando eles aportaram às praias de Túmbez? O imperador dos Incas, para se maravilhar diante dos homens brancos.

— Suba a bordo de nosso navio — acenou Pizarro do tombadilho para o chefe inca, de maneira cordial. O chefe meteu-se numa canoa e navegou com uma escolta desarmada. Pizarro aprisionou-o e pô-lo a ferros.

O imperador inca suplicou que lhe desse liberdade. Mas Pizarro desejava ouro. Levou o inca a um quarto.

— Encha este quarto de ouro, do chão ao telhado. Compre sua liberdade.

O chefe inca arranjou uma quantidade de ouro, no valor de 350 mil contos e amontoou-o até que chegasse ao tecto. Pizarro então apoderou-se do dinheiro e matou o inca.

O aventureiro espanhol, em seguida, fez-se rei dos Incas e foi viver no palácio magnífico de Lima. Esse homem branco governou um vasto império indiano, durante seis anos. Mas os companheiros de Pizarro começaram a brigar por causa da divisão dos espólios. Em 1541, um grupo de conspiradores invadiu o palácio e o assassinou.

Dois anos de estudos na Universidade de Salamanca não conseguiram sufocar o espírito de aventura de outro jovem espanhol. Seu nome era Fernando Cortez. Quando atingiu a idade viril (em 1518) velejou para Cuba, "para abrir, dizia êle, uma estrada comercial para a Espanha." Ali descobriu "uma colônia de quinhentos espanhóis, trezentos índios, doze cavalos e alguns canhões de bronze." Desobedecendo às ordens de seu oficial superior, juntou um punhado de amigos fiéis e correu a combater contra os nativos. Travou a batalha e tomou, como presa, uma formosa escrava que veio a ser sua esposa. E depois, mudando uma expedição comercial em carreira de conquista, abriu campanha contra o México.

Quando chegou ao reino dos aztecas, caiu ajoelhado de espanto, porque tinha diante de si uma visão como jamais vislumbrara em seus sonhos mais fantásticos. A cidade do México, situada à beira dum lago salgado, era como um encantamento de templos, pontes e agulhas de torres, um imenso escrínio de jóias, aberto sob o firmamento resplandecente.

Cortez, ataviado duma brilhante cota de malha, entrou na cidade, em meio do clarinar das trombetas e do estrondear dos canhões. Os nativos contemplavam-no, como se fora um deus, um divino filho do sol. Montezu-ma, imperador dos aztecas, deu seu palácio de presente a Cortez, derrubou os ídolos do templo, e substituiu-os por imagens da Virgem e dos santos.

Os aztecas acusaram seu imperador de traição, porque estava protegendo o conquistador branco, Cortez. Em vão mostrava-se Montezuma às multidões, esperando que a vista de seu rei lembraria ao povo a lealdade de outrora. Mataram-no. E seu sobrinho, Guatemozin, tornou-se um mero boneco, nas mãos de Fernando Cortez.

Mas quando Cortez voltou à Espanha, o imperador Carlos V não o quis reconhecer e recusou-se a admití-lo na corte. Um dia, um velho forçou a entrada do palácio, aproximou-se do trono e pôs um pé no degrau, para obter uma audiência.

Carlos V perguntou friamente quem era o intruso e o que desejava.

— Eu sou o homem, — respondeu Cortez, — que ganhou para vós mais províncias do que cidades vos deixou vosso pai.

Como resposta, Carlos V ordenou simplesmente que pusessem Cortez para fora do palácio. Cortez morreu esquecido e solitário. Dera um continente à Espanha e obtinha como recompensa uma cova de indigente.

A corte da rainha Bess

ISABEL, famosa filha do famoso pai (Henrique VIII) foi rainha da Inglaterra, de 1568 a 1603. Montava tão bem como qualquer homem; atirava, bebia cerveja e praguejava como um moço de estribaria. Quem quer que se dirigisse a ela, deveria curvar um joelho, do contrário receberia um sopapo no ouvido. Era grosseira e cordial, mostrando ora uma terrível cólera, ora um sorriso cativante. Sua alimentação consistia em carne de boi e de carneiro, regada com cerveja. Mas não era de admirar. O povo de seu tempo comia quantidades prodigiosas de alimento. À guisa de ilustração, demos uma olhadela ao Castelo de Greenwich à hora do lanche da rainha.

Doze trombeteiros e dois timbaleiros estiveram anunciando, durante meia hora, que a rainha irá comer às duas horas. Agora entra o Camareiro da Toalha de Mesa, que se ajoelha três vezes e estende a toalha sobre a grande mesa de jantar. Em seguida, a Dama do Saleiro, que executa a mesma cerimônia de ajoelhar-se três vezes, e coloca depois o saleiro em cima da mesa. Agora vinte e sete cozinheiros enfileiram-se, com vinte e sete pratos de prata cheios de comida. Um grupo de cavalheiros, cerca de cem, põe-se a provar cada alimento por sua vez, afim de certificarem-se de que não estão envenenados. Em seguida, dão consentimento e o banquete é levado para a rainha. A rainha Bess janta sozinha no seu quarto. Seus cavalheiros e damas e seus servidores, juntamente com seus cães, comem com os dedos, pois ainda não tiveram notícia das delicadezas de uma faca e de um garfo. A primeira porção consiste em três espécies de comida. A segunda em tortas e fritadas e capão. Há quatro qualidades de pão e quatro galões de cerveja. Nos dias de jejum, há dezesseis qualidades diferentes de peixe, oito pratos de manteiga e vinte e cinco ovos duros para cada pessoa.

O custo de cada refeição da rainha ficava em cerca de cento e cincoenta dólares (Cr$ 3.000,00). Grande quantidade de alimento era naturalmente desperdiçada e ao mesmo tempo muita gente havia em Londres, que morria de fome.

Havia poucas mulheres na corte da rainha Bess. Os chefes de cozinha, os criados e servidores eram todos homens. Preferia sempre a sociedade masculina. E os homens, geralmente, gostavam de estar em sua presença. Disputavam-se os seus favores. Contudo era uma infelicidade ser o favorito da rainha Bess. Todos os seus favoritos tiveram de sofrer. Roberto Dudley, conde de Leicester, foi o primeiro homem que ela protegeu. Jovem e ambicioso, planejou elevar-se bem alto na corte, graças à estima da rainha. Mas para consegui-lo, ocultou o fato de ter-se casado com a pequena e encantadora Amy Rosebart, pois Isabel era muito ciumenta e sua cólera, contra rivais femininas, terrível.

Quando Leicester foi nomeado estribeiro-mor, ocultou sua esposa em seu castelo, ou, para ser mais preciso, fechou-a numa água-furtada e levou consigo a chave. Amy caiu pelo alçapão e quebrou o pescoço. Se foi ou não deliberadamente assassinada, por algum empregado de Leicester, é coisa que nunca se saberá.

Durante algum tempo, o conde de Leicester, o "doce Robin" de Isabel, aqueceu-se aos raios de sol de seus sorrisos. Depois, porém, foi substituído pelo conde de Es-sex, Roberto Devereux. Quando a rainha se apaixonou por Essex, contava já sessenta anos e êle era um rapaz de vinte e um. Mas Roberto desempenhou seu papel com êxito. Foi nomeado estribeiro-mor, justamente como acontecera antes a Leicester. Só êle, em toda a corte, tomou grandes liberdades com a rainha. Duma feita;

quando ela se dirigia a êle, sentiu-se Essex ofendido com suas palavras e deu-lhe as costas. Enraivecida por esse insulto, a rainha esbofeteou-o. Imediatamente Essex arrancou da espada e exclamou: "Nem mesmo de vosso pai eu suportaria uma coisa dessas!" Foi com grande dificuldade que conseguiram contê-lo. Quando Essex se casou com a viúva do poeta inglês, Sir Philip Sidney, Isabel encheu-se de cólera. Mas perdoou-o e reintegrou-o na elevada posição que tinha’ na corte.

Contudo, Roberto excedeu-se nas liberdades que tornava. Tentou fomentar uma revolução contra a boa rainha. Por causa disso, foi condenado por alta traição e teve a cabeça decepada.

Isabel, em geral, não permitia que seus favoritos casassem. No entanto, quando Sir Walter Raleigh foi acusado de ter comprometido uma de suas damas de honor, Isabel ordenou-lhe que se considerasse preso na Torre até desposar a moça, condição a que êle prontamente se sujeitou.

A rainha Bess punha divertidos apelidinhos em seus amantes. O ingênuo e tolo, Hatton, era seu cordeiro. O untuoso, enfermiço e repulsivo irmão de Henrique III, de França, era a sua perereca.

Contudo, a-pesar-de todos os seus casos amorosos, Isabel morreu sem amigos e sem amor. "Morreu duma vaga moléstia, recusando alimentar-se e tomar remédios. Não podia ficar na cama, mas sentava-se silenciosa, sobre almofadas, olhando para o vácuo, com os olhos fixos e duros. E assim, afinal, morreu!" Todos os seus favoritos haviam ido antes dela. Não teve uma mão amiga para fechar-lhe os olhos essa imperatriz da Idade de Ouro, a tôda-poderosa, mas pouco feliz rainha Bess, a lasciva Tudor.

O famoso "Rei-Sol"

TOCAI vossas cornetas, rufai vossos tambores que se aproxima o glorioso Rei-Sol de Versalhes!

"A Grécia teve Homero; Roma, Virgílio; a Inglaterra, Shakespeare; a Itália, Dante; a Alemanha, Goethe e a França, Luiz XIV."

Foi rei de França desde 1661 até 1715, cincoenta e quatro anos. Nenhum outro rei na história reinou tanto.

Foi o primeiro "rei de direito divino" da moderna Europa. Todos os outros monarcas enviavam embaixadores à sua corte, afim de observarem como êle vivia e lhes darem notícia, para que pudessem copiar suas maneiras grandiosas.

Vivia no Palácio de Versalhes, no inverno, e em Mar-ly, no verão. Versalhes não era simplesmente um palácio: era o mundo francês, pois todas as pessoas de destaque dormiam sob o tecto do rei e seguiam-no aonde quer que fosse. "Tive hoje um dia infeliz, — observava o duque d’Enghiens a um amigo. Só vi o rei uma vez". Era a ambição, e, na verdade, o solene dever, de todo homem e de toda mulher da nobreza estar com o rei o mais amiúde possível. Estar longe de Luiz era estar afastado do sol. Estar afastado de Versalhes era estar privado da luz do dia e ser mergulhado na mais negra noite. Cerca de mil nobres permaneciam constantemente no palácio. A eles estavam ligados nove mil serviçais.

O palácio achava-se a poucas milhas de Paris.

Só a cozinha compreendia mil aposentos. E coisa tão séria era a alimentação que um chefe que houvesse preparado a comida do rei com um pouco mais de sal, caía no desagrado real, recolhia-se a seu quarto de dormir e cortava o pescoço.

Âs paredes dos salões palacianos eram carmesins e douradas, docéis de púrpura pendiam presos por elos de ouro e tapetes persas, de rara tecitufa, estendiam-se sobre pavimentos de mármore. Havia o Salão de Apolo, o Salão de Mercúrio, o Salão de Marte, o Salão de Diana, o Salão de Vénus e os gabinetes de ágata e de jóias. Havia jardins contendo mil e quatrocentos repuxos, parques com vinte cinco mil árvores e canais com três quartos de milha de comprido, nos quais navegavam os gondoleiros do rei, enquanto músicos tocavam músicas, compostas pelos compositores do rei e os atores representavam peças criadas pelos poetas do rei.

Em que se ocupava aquela estranha gente que bebia, comia e passeava naquele mundo deslumbrante? Nobres de tacões altos e cabeleiras empoadas e suntuosas mulheres com pirâmides de cabelo empoado torciam-se em complicadas armações de arame. A conversação era exageradamente polida. As maneiras, superlativamente artificiais. Sua diversão favorita era o jogo. Um dos cortesãos do rei, o duque de Anjou, perdia uma média de mil contos por noite, jogando dados e cartas.

O rei despertava pontualmente às oito horas da manhã. Às cinco, todos os nobres e serviçais acordavam para estar às oito reunidos do lado de fora da porta do dormitório real, prontos a ajudar o rei na execução da cerimónia de vestir-se. Primeiro havia o "despertar". O Camareiro-Mor entrava no real dormitório. Era seguido por quatro primeiros "gentís-homens de câmara", dezesseis escudeiros, doze portadores-de-capa, dois portadores-das-armas, oito barbeiros, seis ajudantes, dois portadores-de-cadeira e dez homens de vestiário.

O Camareiro-Mor abria em seguida as cortinas do leito real e anunciava: "Sire, é hora de despertar!" Imediatamente o pajem oficial da ucharia colocava achas de lenha na lareira se o tempo era frio, enquanto os ajudantes levantavam os biombos. Alguns dos emperucados nobres, por causa de sua alta posição, eram então admitidos em audiência do rei, enquanto se achava este na câmara.

Outros só poderiam vê-lo quando estivesse tirando sua camisa de dormir.

Em seguida, processava-se o cerimonial do levantar do Rei-Sol.

Primeiro havia o "pequeno levantar". O chefe dos criados tomava na mão direita uma garrafa de vinho, cujo conteúdo derramava nas mãos reais; o Camareiro-Mor apresentava o vaso de água quente; e o primeiro criado as chinelas. Depois o barbeiro entregava a Luiz a peruca, e o Camareiro-Mor, seu penteador.

E agora estamos prontos para o "Grande Despertar", quando é permitida a primeira entrada, a dos príncipes reais. Um segundo Camareiro do Guarda-Roupa passa as meias e as ligas ao Primeiro Camareiro do, Guarda-Roupa, que as entrega ao rei. Depois o rei ordena que se sirva o desjejum. Depois da refeição, retira seu penteador, o Chefe do Guarda-Roupa agarra-o pela manga direita e o Primeiro Camareiro do Guarda-Roupa pela esquerda. Duzentos nobres, com cartões especiais de entrada, têm licença para assistir à cerimônia da "Grande Toilette".

Depois que o rei está completamente vestido, segue para a capela entre duas alas de cortesãos, que o acompanham para aonde quer que vá.

Todo esse cerimonial é repetido diariamente. Quando Luiz senta-se para jantar, dez mil pessoas permanecem em torno dele para vê-lo. Em geral, come sozinho, embora ocasionalmente permita que os príncipes de sangue real se sentem à mesa.

Quando à noite Luiz está pronto a recolher-se, fica de pé, junto à cama, enquanto todas as damas de sua corte se adiantam, uma a uma, e o cortejam. Depois a cerimônia da manhã é repetida em sentido inverso até que o Camareiro-Mor feche as cortinas do leito e o monarca adormeça.

Não obstante todo esse esplendor, Luiz e seus nobres tremem de frio, no inverno, naqueles vastos salões de mármore e ouro. As enormes lareiras não bastavam para aquecer toda aquela gente elegante. Muitas vezes, segundo consta, o grande imperador se resfriava ao mudar de cabeleira.

Luiz XIV era o "gênio mau" da Europa. Aterrorizou a Inglaterra, a Holanda e a Espanha, com seus exércitos. Contudo, em casa era objeto de admiração dos sábios, dos artistas e dos poetas. Manteve pintores como Le Brun, arquitetos como Mansard, e escritores como Racine e Molièrc. Era o monarca absoluto, "rei dos pés à cabeça". Representavam-no os escultores como um Júlio César de peruca. Tal era a sua fama em todo o mundo, que historiadores há que denominam os anos entre 1661 e 1715, como a "Era de Luiz XIV". Os maiores poetas do tempo escreviam sonetos para êle e a êle se dirigiam como "Deus do Sol, descendente de Apolo".

Mas quando êle morreu, na idade de setenta e sete anos, as classes mais baixas consideraram essa morte um dia de fef;ta, pois estavam cansadas de pagar excessivos impostos para sustentar-lhe as prodigalidades, o luxo e as guerras. Os camponeses vaiaram e atiraram pedras no seu caixão, quando de seu enterro.

Tal foi o fim do magnificente monarca da moderna Europa. O bispo da França terminou sua oração fúnebre com estas palavras: "Tu és pó e em pó te hás de tornar…"

A REVOLUÇÃO FRANCESA representa o fim de todo o esplendor de Versalhes. O palácio de Luiz XIV havia custado 2 milhões de contos de manutenção. E nem um vintém dessa quantia saíra do bolso dos nobres. Os trabalhadores e camponeses tiveram de aguentar toda a carga.

 

Grandes Momentos na História da Europa Moderna

A. D. 1517, Martinho Luthero — O princípio da Reforma; 1588, derrota da armada espanhola pelos ingleses; 1648, o tratado da Westphalia; 1G50, Cromwell e o Estado Puritano; 1689, a Declaração dos Direitos — a revolução sem sangue; 1707, união da Inglaterra e da Escócia; 1789, começo da Revolução Francesa; 1815, Napoleão — A batalha de Waterloo; 1860, unificação da Itália; 1867, unificação do Domínio do Canadá; 1870, a guerra franco-prussiana; 1899, a primeira conferência de paz de Haia; 1911, abolição da força do veto na Casa dos Lordes; 1914-1918, Guerra Mundial; 1919, Liga das Nações.

A. D. 1517, Martinho Luthero — O princípio da Reforma; 1588, derrota da armada espanhola pelos ingleses; 1648, o tratado da Westphalia; 1G50, Cromwell e o Estado Puritano; 1689, a Declaração dos Direitos — a revolução sem sangue; 1707, união da Inglaterra e da Escócia; 1789, começo da Revolução Francesa; 1815, Napoleão — A batalha de Waterloo; 1860, unificação da Itália; 1867, unificação do Domínio do Canadá; 1870, a guerra franco-prussiana; 1899, a primeira conferência de paz de Haia; 1911, abolição da força do veto na Casa dos Lordes; 1914-1918, Guerra Mundial; 1919, Liga das Nações.

 

A Revolução ‘Francesa

Havia na França, nessa época, três classes: uns cem mil nobres, uns cem mil clérigos e vinte e três milhões de plebeus.

Dos vinte e três milhões de plebeus, três milhões eram homens de negócios e banqueiros. Estes membros da burguesia protestavam renitentemente contra o fato de não terem direitos políticos no estado.

Muito mais pesada, porém, era a condição dos vinte milhões de camponeses espezinhados, porque eram compelidos a viver como animais e a entregar não menos de três quartos de seus bens ao estado.

Eram taxados por todo o sal que usavam para cozinhar e forçados a comprar vinte libras de sal de cozinha por ano. Se eram surpreendidos contrabandeando sal para suas casas, enforcavam-nos ou condenavam-nos às galés.

Pagavam imposto pelo vinho de Bordéus. Havia uma taxa para cada estação da viagem, de modo que, quando o vinho chegava a Paris, estava taxado em duzentos por cento de seu valor original. O vinho era uma bebida necessária na França, uma vez que a água não era pura.

Não havia uma lei comum na França. Cada pequenina vila tinha suas leis próprias, de modo que havia mais de cento e cincoenta maneiras diferentes de interpretar a justiça. A qualquer momento um homem poderia ser mandado para a Bastilha por toda a vida, sem processo, sem testemunha, e mesmo sem culpa formada. A vítima era simplesmente lançada num calabouço e esquecida.

Em contraste com o esplendor do palácio, exibia-se a imundície das ruas de Paris. Os porcos comiam os restos das cozinhas, mesmo por baixo das janelas das casas. Se um fidalgo do campo tinha que andar por uma das estreitas ruas parisienses, desmaiava por causa do fedor.

Luiz XV conheceu que a revolução estava se aproximando. Cercado de amantes que dirigiam seu governo, olhava para as massas sofredoras e dizia: "Depois de mim, o dilúvio". Dava de ombros e acrescentava. "Mas depois de mim… que se arranjem!"

O Leão do Lucerna, esculpido por Thorwnlden numa rocha. Monumento executado em 1821 cm memória dos oficiais e soldados da Guarda Suíça que caíram na defesa das Tulhcrias em 10 de agosto de 1792.

O Leão do Lucerna, esculpido por Thorwnlden numa rocha. Monumento executado em 1821 cm memória dos oficiais e soldados da Guarda Suíça que caíram na defesa das Tulhcrias em 10 de agosto de 1792.

 

 

Finalmente a moeda corrente desvalorizou-se. Luiz XVI, rapazola inofensivo, que não se sentia particularmente orgulhoso pelo fato de ser rei, reuniu em assembléia os nobres e o clero e dirigiu-lhes as seguintes palavras: "Senhores, parece-me que não se pode mais extorquir um vintém do povo. Por isso, tereis de pagar alguns impostos até que o governo se reajuste".

Os nobres e o clero recusaram-se a atender a essa advertência. Os banqueiros e negociantes, que haviam suprido o governo com empréstimos e créditos durante cem anos e que não tinham ainda obtido o direito de votar, ergueram-se agora e reclamaram uma constituição escrita.

E em seguida tropas populares tomaram conta dos negócios. Chefiados por um jovem advogado, chamado Desmoulins, que as atiçou com atrevidos discursos a respeito dos direitos do homem, armaram-se de chuços e pedras e correram para a Bastilha. Forçaram as grades e libertaram todos os prisioneiros. Isto aconteceu a 14 de julho de 1789, celebrando-se até hoje essa data como a da libertação francesa.

Mas o rei e sua linda esposa, Maria Antonieta, que havia levado o tesouro francês à bancarrota pela extravagância de suas diversões e pelas suas jóias, não se deram por entendidos. Nunca haviam visto o povo senão pelas janelas de uma carruagem em viagem. Continuaram a viver com custosas jóias e suas esplêndidas diversões.

Finalmente, numa noite de outubro, quando o rei se banqueteava com seus nobres e seus generais, uma multidão estacionou debaixo das janelas do palácio de Versalhes e começou a chamar pedindo pão. Imediatamente a bela, porém pouco inteligente rainha observou, com um sorriso sem graça: "Se eles não podem ter pão, que comam bolos".

Mas o rei estava atemorizado. Para pacificar seus súbditos, entrou em sua carruagem e permitiu que a multidão marchasse atrás dela até Paris. O povo cantava sel-vagemente: "Aqui vai o padeiro. Agora teremos pão!"

Luiz sentia-se agora completamente alarmado. Que poderia fazer? Êle e seu pai e o pai de seu pai haviam gasto todo o dinheiro da França em bailes e mascaradas. E agora ali estavam os pobres pedindo dinheiro para comprar comida. A França não era mais um lugar seguro para a realeza.

Disfarçado de criado, meteu a rainha e as crianças numa carruagem e apressou-se em fugir de Paris.

Ao pararem em Sainte-Menehould para mudar de cavalos, o rei foi reconhecido pelo estalajadeiro, que enviou uma rápida comunicação à guarnição de soldados. Que trágica jornada para um monarca Bourbon! Não mais banquetes, não mais riquezas, não mais amantes… Se ao menos pudesse agora escapar com vida! Mas não escapou. Foi preso em Varennes e queixou-se de estar com fome. "Dareis a um rei um pouco de comida?" — perguntou êle. Seu pedido foi satisfeito. Deram-lhe comida e depois tiraram-lhe a vida.

Foi guilhotinado no vigésimo terceiro dia de janeiro. Um homem que estava por perto, apanhou-lhe a cabeça e bradou: "Os reis da Europa nos desafiam. Atiramos para eles a cabeça de um rei!"

A rainha foi guilhotinada pouco tempo depois. Seu filho, ainda criança, deixaram-no morrer na prisão.

E o povo de Paris assumiu a suprema direção do estado. Seus chefes declararam os direitos do Homem e os princípios de Igualdade, Liberdade e Fraternidade. O velho calendário foi destruído e um novo organizado. Datava como o ano um o ano da Revolução. Todas as religiões foram suprimidas e se estabeleceu o culto da Razão. Os indivíduos tratavam-se por cidadãos e cidadãs. Todos os suspeitos de sentimentos monarquistas eram condenados a um novo sistema de morte: a guilhotina. O terror reinava em Paris. O destino da França havia caído nas mãos de três homens: Danton, Marat e Robespierre. Embriagados pelo poder, começaram então aqueles três homens a lutar uns contra os outros.

O primeiro a desaparecer foi Marat. Êle havia contraído uma moléstia de pele, quando andara escondido nos esgotos de Paris. Só conseguia aliviar suas dores, permanecendo constantemente em banhos quentes. Dali dirigia êle a revolução, escrevendo, dando ordens, lendo cartas.

Uma tarde, às sete e meia, uma moça, chamada Carlota Corday, conseguiu chegar à sua presença. Deu-lhe uma carta para ler e, quando êle se curvava para isso, apunhalou-o mortalmente.

Danton foi o seguinte. Tendo trabalhado, mão a mão, com Danton a guilhotinar gente durante dois anos, Robes-pierre resolveu finalmente guilhotinar Danton. Ao caminhar para a guilhotina, Danton murmurava: "Não devemos dar parte de fracos."

Robespierre foi o último. Por algum tempo prosseguiu com seus guilhotinamentos. Um general francês que havia derrotado os ingleses, mas não muito decisivamente, foi demitido e guilhotinado. Camilo Desmoulins, que havia dirigido o assalto à Bastilha, foi guilhotinado. O prefeito Bailly, astrônomo e um dos edificadores da nova república, foi guilhotinado. Herbert, que havia colaborado na proclamação dos Direitos do Homem, foi guilhotinado. Ninguém estava a salvo de ser guilhotinado.

Num dia de julho, Robespierre apareceu diante da assembléia do povo e proferiu um estranho discurso, no qual parecia ameaçar toda a gente com a morte.

Foi apupado. Ficou vermelho e pôs-se a gaguejar querendo discursar.

— "Está engasgado com o sangue de Danton!" — gritou alguém. Robespierre retirou-se para a Câmara Municipal, com uns poucos que lhe ficaram fiéis. O povo invadiu o edifício. Três de seus amigos jogaram-se por uma janela abaixo. Feriram Robespierre no queixo. Encontraram-no debaixo de uma mesa, de olhos parados e com a parte inferior do rosto tornada uma irreconhecível

massa de sangue. Enrolaram-lhe os ferimentos em panos sujos. Êle não dizia uma palavra e conservava-se de olhos baixos. Quando o levaram à guilhotina, abriu os olhos para ver a grande lâmina acima de sua cabeça. Estrebuchou quando o cutelo desceu.

Com a morte de Robespierre, o Reino do Terror cessou. Formou-se um governo de cinco diretores. Estava no seu fim a Revolução Francesa.

SUPONDE uma viagem à ilha de Santa Helena e que lá encontrareis um homem cercado por um punhado de serviçais, alojado em uma casinhola coberta de palha, que êle chama de palácio, ordenando a seu servo que se ajoelhe, quando lhe dirigir a palavra, fazendo desfilar um pequeno pelotão de uma dúzia de homens, acima e abaixo, pela praia arenosa, como se eles fossem um regimento inteiro, resmungando consigo mesmo a respeito de grandes batalhas outrora travadas, examinando minuciosamente a mais sutil manobra, os pormenores, ao sentar-se à noite diante de seu tabuleiro de xadrez.

Haveríeis de dizer que aquele camarada era maluco. Pensa que é Napoleão. E teríeis razão, porque o louco de face lívida, de barriga inchada e de olhos tristes e inquietos, é na verdade o Pequeno Corso. Vós vos aproximais, com receio. Êle não chega a ter l,m52 de altura. Vêem-se rugas de sofrimento em torno da boca. Olhais para o ventre obeso, as pernas curtas, o rosto pálido.

E Napoleão satisfeito com a chegada de um estranho naquela deserta ilha, começa a contar-vos sua história. Já a contou centenas de vezes, a todos os que têm tempo para escutá-lo.

O trágico esplendor de Napoleão

— "Deveis saber, — começa êle, — que não sou italiano, mas francês, pois nasci na Córsega, um ano depois que ela foi tomada pela França.

"Na escola fui um dos alunos mais obscuros. Mas me distingui sempre como bom combatente. Rapazinho ainda, ajudei o exército da República no cerco de Toulon. Era amigo do irmão de Robespierre, e, em consequência disto, quase perco a cabeça na guilhotina.

"Mas consegui escapar, porque era um filho do destino.

"Quando executaram Robespierre, eu me achava na praça pública e dirigi a defesa do novo governo contra a multidão. Por este serviço, como sabeis, deram-me o comando do exército enviado contra a Itália. Todas as nações da Europa estavam lutando desesperadamente para derrubar a Revolução Francesa e era minha ardente ambição salvar a Revolução Francesa derrubando todas as outras nações.

"Estais, sem dúvida, ao corrente dos meus rápidos e completos êxitos nessa empresa. Não somente salvei a Revolução, mas construí um Império. Saí duma família pobre. Minha mãe era costureira. Fiz dela uma rainha. Minha mãe sentia-se atarantada com o seu novo esplendor. Olhava para mim com seus olhos empapuçados, e rogava que a mandasse de novo para sua casinha da Córsega."

Napoleão faz uma pausa e sorri.

"Éramos uma família de adventícios, — continua êle.

— Contudo, fui capaz de derrubar de seus tronos as mais velhas e mais orgulhosas dinastias e substituí-las pelos membros de minha própria família. Tornei reis a todos os meus irmãos.

"Eu era um grande homem, — diz êle, tristemente.— um grande homem. — Seus olhos chispam. — Porque, já o sabeis, dentro de dez curtos anos fui senhor de toda a Europa.

"Numa única batalha derrotei os exércitos da Áustria e da Prússia, tão completamente, que muito tempo se

passou antes que eles ousassem erguer novamente suas cabeças. O exército prussiano tinha sido o terror da Europa, uma máquina militar que jamais se pudera destruir. Eu a desmontei.

"Desde minha infância conheci que era um homem predestinado. Costumava assinar minhas lições caseiras com um N maiúsculo. Em 1796, era um jovem oficial do exército como milhares de outros. Oito anos mais tarde era coroado Imperador. Encarreguei juristas de organizarem um novo código de leis. Construi universidades. Embelezei os parques e ruas. Tive o universo na palma de minha mão.

"Encontrei-me com o Czar da Rússia, numa balsa em Tilsit e junto discutimos a partilha do mundo entre nós.

"Mas eu não havia nascido para o trono. Sabia que enquanto eu ganhasse vitórias, seria Imperador; mas desde que perdesse uma batalha, seria dominado. Os que têm sangue real nas veias podem ser derrotados vinte vezes e voltar a governar. Mas eu era um adventício, um usurpador, um soldado cujo império dependia duma lenda e duma espada. E dessa forma não podia ter paz. Tinha de combater, combater, combater. Não podia descansar, não podia amar. Meu irmão Jerônimo estava no trono da Vestfália; meu irmão Luiz no trono da Holanda; meu irmão José no trono de Nápoles e da Espanha. Mas suas dinastias achavam-se construídas sobre o meu nome. Os príncipes reais da Europa estavam agachados… prontos para saltar. Com que então, aquele adventício, aquele camponês corso, ousava usurpar a pompa dos velhos reis tradicionais?

"Mas a despeito de seus escárneos e de seus esforços para derrubar-me, continuei meu caminho sem me desviar. Casei-me com uma princesa austríaca, de modo que um filho meu pudesse ter nas veias sangue real.

"Meu Deus, como desejava eu ser um rei de verdade, respeitado entre meus iguais. .. e não um conquistador .. deixado em severo abandono!

"Finalmente meu amigo, Alexandre da Rússia, rompeu a trégua e eu fiz marchar um exército desde Paris até o coração das geladas planícies da Moscóvia. Mas os russos não quiseram combater. Conservaram-se em retirada, passo a passo. Alcancei Moscou, com meu grande exército de quinhentos mil homens, em outubro do ano de 1812. A cidade estava deserta. Eis a minha maior conquista, pensei. Eu era então o senhor da Rússia, também! Mas os astutos russos desmancharam os meus mais sólidos planos. Puseram fogo a Moscou e nos expulsaram com a fumarada. E vimo-nos forçados a começar a retirada da Rússia, no mais rigoroso inverno. Basta dizer que cheguei à fronteira da França com apenas mil homens, embora tivesse partido com meio milhão.

"E então os insaciáveis reis da Europa levantaram-se contra mim. Podiam ver na minha derrota na Rússia a mão de Deus. Formei novo exército de meio milhão de soldados. Mas uma inteira geração de homens tinha sido destruída e me vi forçado a convocar rapazes de quinze e dezesseis anos. A Prússia e a Rússia adiantaram-se a meu encontro. Durante três dias as águas do Elster correram tintas de sangue moço.. . e depois fui obrigado a voltar a Paris para entregar-me.

"Exilaram-me na ilha de Elba. Fugi. Saltei em terra, em Cannes. O marechal, enviado pelo rei Bourbon restaurado no trono, para prender-me, desatou a chorar quando me avistou e passou-se com toda a sua tropa para o meu lado.

"E depois perdi a batalha de Waterloo, e eles me enviaram para aqui. Fizeram voltar um homem de sangue real e o puseram em meu lugar."

Sua voz baixa a um triste murmúrio: "Para ser um rei, ficai sabendo, é preciso ter nascido rei. Eu fui um grande conquistador. Pensei que era um homem predestinado. Mas meu destino nunca fora o trono. Esta foi a minha tragédia."

A revolução industrial

A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL é uma expressão usada para descrever certa mudança que se operou na maneira de viver, começando no século XIX. Aí por 1800, vasta proporção de povo, em todo o mundo, vivia no campo. Na Idade-Média, eram servos dos ricos proprietários. Davam-lhes um quarto para viver e alimento para comer, em troca de trabalho na lavoura. A Europa era constituída de milhares de senhores de terra ou senhores feudais, com seus rendeiros ou vassalos, que se reuniam em grande número na propriedade de um rico senhor e que, em troca de sua proteção, se ligavam à terra por toda a vida. Seus filhos e filhas estavam também ligados à terra, uma geração após a outra.

Por causa dos bandidos nas estradas principais e dos piratas em alto mar, havia pouco comércio. O senhor e seus servos produziam eles mesmos suas roupas, utensílios e alimento.

Com o crescer das cidades, porém, grupos de gente se juntavam em guiJds. Estes guilds, ou uniões, regulavam preços, produção e a vida social de seus membros.

Mas cada homem tratava de fazer o comércio por si. Não havia divisão do trabalho. O tecelão comprava seu próprio material, fazia suas próprias roupas e as vendia, sujeito às regras do guild. O primeiro passo na Revolução Industrial foi dado quando um cidadão rico adiantou dinheiro para comprar pano para muitos tecelões. Foi este o berço da manufatura coletiva. O segundo, e mesmo o mais importante passo, foi dado quando outro homem de posses decidiu agrupar certo número de tecelões na sua comunidade e fazê-los manufaturar rou-

pas, para que êle dispusesse delas em proveito pessoal, em troca do pagamento de salários aos tecelões. Por outras palavras, o tecelão não negociava mais por si mesmo. Trabalhava para outrem. Não podia decidir quando descansaria. Já não era mais seu próprio senhor. Tornava-se um trabalhador salariado. Podia ser despedido a qualquer momento. E não podia empregar-se e esperar competir com o industrial, cujos operários produziam o mesmo artigo em larga escala, cada trabalhador fazendo uma parte separada do artigo.

E assim essa, recentemente descoberta, nova manufatura produziu verdadeira revolução na indústria.

E em seguida, surgiu outro importante desenvolvimento, como resultado da Revolução Industrial. O povo começou a congregar-se em lugares onde as fábricas eram construídas. Como consequência disto, as cidades populosas tornaram-se ainda mais populosas e numerosos novos problemas sociais apareceram, problemas de congestionamento nos bairros pobres, de caudilhos políticos, de populações estrangeiras e de greves.

Surgiu depois o processo Bessemer de tirar o aço do ferro, e isto assinalou outro grande passo na Revolução industrial. O mundo avançava agora a passos gigantescos. A invenção do vapor, a descoberta da eletricidade e a exploração dos campos de petróleo transformaram toda a terra numa tremenda máquina. Esta máquina não somente multiplicou as ações físicas dos homens, mas deu novas asas a seus processos mentais. São necessários não apenas dedos destros, mas uma mente ativa, para manipular certos tipos de máquinas. A popularidade da universal educação de hoje é devida, em grande parte, à introdução dos maqumismos. Afim de conservar em movimento as rodas da indústria, devemos ter mentes treinadas, mecânicos, contadores, dactilógrafos, vendedores, caixeiros, mestres de oficina e secretários para não falar dos advogados, professores, banqueiros e diretores. Em outras palavras, é preciso educação para exercer os complexos deveres de um país altamente industrializado. Quanto menos educada é uma região, tanto menor é o seu desenvolvimento mecânico.

A invenção das máquinas, portanto, ergueu o nivel da inteligência coletiva. O mundo pode agora trabalhar melhor e pensar melhor e viver melhor, como resultado da Revolução Industrial.

Fonte. Globo. 1949. Trad. e Adap. de OSCAR MENDES.

abr 272010
 
maravilhas das antigas civizações

        Relações Sociais e Alternativas de Renda na Economia Popular                      

Adhemar Tavares Vieira Filho


Originalmente apresentado no programa de Pós-Graduação do CFH/UFSC

 

 Resumo

Neste texto procuramos analisar algumas formas de relações sociais, mediações presentes na economia solidária e determinados tipos de organizações que permitem o direcionamento na busca de renda individual ou familiar à margem das relações assalariadas e protegidas do grande capital. Para tanto foi elaborada revisão bibliográfica de autores da nova sociologia econômica, como Bourdieu e Polanyi, além de outros, pós-modernistas e clássicos.

Essa configuração, presente no mercado de trabalho ou em fontes de renda alternativas, dá origem a práticas econômicas e sociais que garantem a sobrevivência e a respectiva melhoria da qualidade de vida de famílias e indivíduos.

Diante do índice considerável de desemprego no segmento da sociedade mercantil – onde a regulação do grande capital prevalce – a economia baseada na solidariedade apresenta-se como um significativo instrumento de combate à exclusão social, com uma proposta alternativa de geração de trabalho, renda e satisfação de necessidades essenciais do ser humano. Repleta de criatividade para a solução de necessidades surge a economia solidária ou popular, ocupando um espaço que nem a economia de mercado e nem a solidariedade estatal conseguem atender na condição sócio-econômica pós-moderna. 

Um meio de Produção Alternativo

A pós-modernidade convive com um índice de desemprego que desestabiliza as condições de vida de populações com menor participação na atividade mercantil, e uma elevada quantidade de trabalhadores se vê prejudicada, em face de uma sociedade que contempla exageradamente as ações individualistas em detrimento ao coletivo, dificultando assim a participação e organização dos trabalhadores na gestão e acesso na distribuição dos bens, quer em forma de capital ou outros recursos. A realidade é um considerável contingente de trabalhadores e famílias a margem da economia de mercado, e seu conseqüente empobrecimento.

Em meio às práticas de relações sociais e econômicas, tem emergido a economia solidária, que também é chamada de economia social, socioeconomia solidária ou humano economia, propiciando alternativas quanto a melhoria da qualidade de vida a milhões de pessoas no planeta. São práticas fundamentadas em relações de colaboração solidária, ou na dádiva estudada por Mauss, inspiradas por valores culturais, que colocam o indivíduo como sujeito quanto à atividade econômica, em vez da acumulação pura e simples de bens ou capital.

Em uma consideração mais aprofundada, se pode afirmar que a economia solidária não é a criação intelectual de um indivíduo isolado, embora conhecidos autores como Owen, Fourier, Buchez, Proudhon, entre outros denominados utópicos da primeira metade do século XIX, tenham formulado pesquisa e análise sobre esta atividade.

De acordo com Singer (2000), a economia é uma criação em processo contínuo de trabalhadores ou autores sociais, com atividade antagônica ao capitalismo. Como tal, ela não se apresenta como opção ao capitalismo industrial ou outra atividade geradora de renda, mas o acompanha como uma vertente em toda a sua evolução. A economia solidária surge como modo de produção alternativo a forma protegida mercantil, criado e recriado periodicamente pelos que buscam novas oportunidades ou que se encontram marginalizados no mercado de trabalho. A economia solidária casa o princípio da unidade entre posse e uso dos meios de produção e distribuição com um princípio da socialização destes meios.

As cooperativas de produção possuem características próprias da economia solidária, mas não se deve considerar de menor valia outros empreendimentos solidários com as mesmas características sociais e que estão se expandindo nas comunidades. Para Singer (2000), a unidade típica da humano economia é a cooperativa de produção e/ou distribuição, que tem a organização sustentada nos seguintes princípios: posse coletiva dos meios de produção pelos indivíduos que as utilizam para produzir e/ou distribuir; gestão democrática da empresa ou por participação direta (quando o número de cooperados é pequeno) ou por representação; repartição da receita líquida entre os cooperados por critérios aprovados após discussões e negociações; destinação das sobras ou excedente por critérios acertados entre os cooperados ou sócios.

A economia solidária busca a unidade entre produção e reprodução, evitando a contradição fundamental do sistema capitalista, que desenvolve a produtividade e distributividade, mas exclui trabalhadores ou autores sociais de acesso aos seus benefícios, o que gera as crises recessivas globais.

Economia Popular Autogestionada

A economia solidária ou popular está sendo construída com base no resgate da cidadania de grupos de produção, empreendimentos solidários, membros de cooperativas, através de princípios como a autogestão, a solidariedade, a dádiva, a reciprocidade e a cooperação. Investe bastante no mundo das idéias, na mudança do padrão civilizacional de uma cultura pós-moderna.

O sistema de mercado é um modo de produção e distribuição, cujos princípios são o direito de propriedade individual aplicado ao capital e bens e o direito à liberdade individual, segundo Singer (2002). O resultado é a competição, a desigualdade e o desemprego.

A humano economia é outro modo de produção, cujos princípios básicos são a propriedade coletiva e o direito a liberdade individual. O resultado natural é a solidariedade, a igualdade, a dádiva e a reciprocidade, cuja reprodução e evolução, no entanto, exige mecanismos governamentais de redistribuição solidária da renda.

Quando uma nova empresa solidária surge, a sua estruturação segue uma lógica completamente diferente da empresa formal do sistema de mercado. Em sua origem há em geral uma comunidade formada por ex-empregados da economia formal de uma empresa mercantil ou por indivíduos de jornadas sindicais, estudantis, comunitárias entre outras. Segundo essa vertente do pensamento sobre a temática, uma empresa solidária surge não só para permitir ganhos aos sócios, mas como criação de trabalhadores ou atores sociais em luta contra um mercado formal, sendo uma opção ao mesmo tempo econômica e social. Se exige dos seus integrantes uma alternativa frente os valores que dominam a competitividade individual e da primazia do mercado de capital mediante o mercado de trabalho. Por isso o seu nascimento requer o patrocínio de apoiadores externos, que podem ser outras empresas solidárias, incubadoras, sindicatos, entidades religiosas, organizações não-governamentais, Estado entre outros (Singer, 2000).

Aspectos que evidenciam as diferenças entre a economia solidária e a economia de mercado:

            economia solidária                            economia de mercado
            - colaboração                                     - individualismo 
            - solidariedade                               - competitividade    
            - aumento de poupança interna         - fluxo de capital externo
            - distribuição da riqueza                - concentração de capital
            - desenvolvimento sustentado        - crescimento de metrópoles
         e     geograficamente distribuído
            - livre iniciativa solidária                        - tendência ao centralismo

Para Singer (2003) o conceito de humano economia se refere à organização de produtores, consumidores, poupadores, entre outras, com as seguintes especificidades: “estimulam a solidariedade entre os membros mediante a prática de autogestão e praticam a solidariedade para com a população trabalhadora em geral, com ênfase na ajuda aos mais desfavorecidos”.

Semelhante à concepção de Singer, Luis Inácio Gaiger considera a humano economia como “iniciativas populares de geração de trabalho e renda que se baseiam na livre associação dos trabalhadores e nos princípios da autogestão e cooperação” (Gaiger apud Bertucci, 2003).

A humano economia é um movimento recente que vem se desenhando e se fortalecendo a cada dia, mas que se utiliza de práticas de longa duração histórica. Se destaca a acepção diferenciada de Marcos Arruda sobre economia solidária. Diferenciada, por utilizar a denominação socioeconomia solidária e compreende que a verdadeira economia deve ter ênfase no social. Portanto, para esse autor, socioeconomia: “é uma economia cujo objetivo é responder as necessidades sociais e humanas, ou também atender a dupla demanda de reprodução simples (sobrevivência) e de reprodução ampliada da vida (crescente bem viver individual, comunitário, social)”, (Arruda, 2003).

Um pouco de história até a dinâmica da economia solidária

Nos primórdios da economia estruturada em mercados, a criatividade dos operários reagiu à pobreza e ao desemprego com origem na difusão desregulamentada das máquinas-ferramentas e do motor a vapor no início do século XIX. As cooperativas surgiram por iniciativa dos operários na recuperação da atividade fonte da renda e como forma de autonomia econômica, aproveitando uma nova forma de produção e/ou distribuição. A igualdade e democracia se tornaram inspiração como modo de estruturação dos valores básicos do movimento operário, semelhante à forma engendrada pelo socialismo. O cooperativismo de produção e/ou distribuição, em sua conformação inicial pós-moderna na Inglaterra, aconteceu a partir dos sindicatos e através da busca pelo sufrágio universal.

A organização social que tem o viés da solidariedade, dádiva e reciprocidade não se coadunam com o binômio trabalho e posse dos meios de produção, que é à base de uma economia de mercado. A empresa formal tem investidores como proprietários, os que repassam o dinheiro para conseguir os meios de produção, e esta condição inata tem como finalidade a obtenção de lucro aos investidores, utilizando formas de obtenção de lucro crescente em relação ao que é investido. O poder de domínio e controle, na empresa formal, está concentrado nas mãos dos investidores ou de profissionais por eles contratados.

O capital e bens da empresa solidária são constituídos pelos participantes diretos dos que nela trabalham e apenas por esses indivíduos. As atividades, o capital e bens estão embricados, porque todos os que exercem suas atividades são proprietários da empresa alternativa, e não há proprietários que não trabalhem na empresa. A propriedade da empresa alternativa é distribuída igualmente entre todos os participantes, para que o poder de decisão seja dividido entre seus membros.

Empresas alternativas são, em geral, administradas pelos membros eleitos para a função, se pautando pelas orientações aprovadas em assembléias gerais ou, quando a organização cresce, em conselhos de membros eleitos por todos os participantes. Essas empresas são compostas basicamente por membros que participam na produção e/ou distribuição, apenas em aspectos secundários são seus proprietários. Talvez seja este o motivo da não maximização do lucro nas trocas que proporciona, mas tem na quantidade e qualidade de suas atividades a realização do trabalho social.

Quanto ao aspecto da renda, a empresa socioeconômica não tem a finalidade originária do lucro, até porque a receita não tem relação com a proporção participativa dos membros que a compõem. Esta organização associativa pode receber empréstimos dos próprios sócios ou de outros indivíduos que não fazem parte da organização associativa, assim como procuram pagar juros com índices menores que os praticados no mercado financeiro formal, aos credores internos ou externos. O que excede durante o ano, ou as sobras da organização tem sua destinação decidida pelos membros participantes. De um modo geral, uma parte se destina ao reinvestimento, podendo ficar disponível em um fundo comum, pertencente ao coletivo da organização associativa. Outra parte do excedente ou sobras também pode ser reinvestido ou acrescentar ao valor proporcional à participação de cada membro, que têm o direito de se apropriar deste valor quando não mais fizerem parte da organização associativa. Caso haja mais algum excedente ou sobras, será destinado a um fundo específico de educação, social, de cultura, ou de saúde entre outros, ou eventualmente à divisão entre os membros, através de critérios convencionados entre os mesmos.

Dádiva, reciprocidade e economia solidária

Diferente das civilizações primitivas analisadas por Marcel Mauss (2003), onde as trocas e os contratos são estabelecidos através das prestações e contraprestações de presentes e regalos, a dádiva não circula em todas as instâncias da sociedade. No Estado e no mercado a dádiva atua de forma periférica, pois são segmentos da sociedade que postulam vínculos inscritos na lógica utilitarista, sendo a socialidade primária o espaço natural de circulação da dádiva, inaugurando e mantendo as relações de pessoa a pessoa, e garantindo, assim, a existência social. Conforme Godbout (1999), entre as relações sociais primárias (família, amigos, afeto) existe o desejo entre si mesmas, enquanto nas relações sociais secundárias se busca um meio para se atingir determinada finalidade.

A dádiva (Godbout, 1999), constitui elemento inerente a qualquer formação social e é tratada como pressuposto para formação da coletividade. Sua natureza é estabelecer relações através do circuito composto pelos momentos de dar, receber e retribuir, podendo ser definida como “qualquer prestação de bem ou de serviço, sem garantia de retorno, com vistas a criar, alimentar ou recriar os vínculos sociais entre as pessoas”.

Descrevendo de outra forma, a dádiva consiste em algo que é dado espontaneamente sejam objetos, palavras, gestos e, ao ser recebido, gera no beneficiário a sua necessidade moral e a vontade de retribuir. Essa contradádiva, ao ser praticada, se torna uma nova dádiva, que em outro momento será retribuída, e assim por diante. Desencadeia-se, então, um ciclo de circulação de dádivas, cujo efeito é o desenvolvimento de vínculos baseados na confiança.

O mercado e o Estado formam um sistema, assim também a dádiva forma um sistema, que é o sistema social como tal. É o sistema das relações sociais, na medida em que estas são irredutíveis às relações econômicas ou baseadas em contratos formais. Conforme Godbout (1999), os seres humanos antes de ocuparem funções econômicas, políticas ou administrativas, são constituídos como pessoas no interior da sociedade primária.

Para que se possa pensar a dádiva como sistema, se faz necessário romper tanto com os entendimentos da prática humana proposta pelo utilitarismo, quanto com as diversas explicações que apresentam o ser humano como um egoísta natural e que o vêem como um ser obcecado pelo poder. Godbout (1999) reflete que não se pode traduzir a dádiva apenas como interesse e equivalência contábil, centrando-se unicamente na motivação do recebimento. É preciso analisá-la enquanto interação, sem isolar quaisquer momentos que a constituem. Não é possível também, como defende Caillé (2002), imaginar que a realidade complexa e paradoxal que se constitui a coletividade possa ser explicada por uma perspectiva generalizada, supondo que o vínculo social preexista à ação dos sujeitos sociais. Para melhor se entender a natureza da ação coletiva, a teoria da dádiva é empregada como sistema de análise.

A teoria defendida por Godbout (1999) por meio da dádiva, é que o desejo de dar é tão importante quanto o de receber. Logo, as trocas sociais são analisadas não a partir do que circula, mas sim, dos vínculos por onde circula. Nesta direção do pensamento, Caillé (2002) ressalta que, ao lado da circulação dos bens e serviços no mercado, e da redistribuição sob a responsabilidade do Estado, há um imenso espaço socioeconômico onde eles circulam, por meio dos mecanismos da dádiva e da contradádiva.

Godbout (1999) chama de “dádiva entre estranhos”, enquanto Caillé (2002) explica como característica da sociedade, e que constitui a quarta esfera do sistema de circulação de objetos, composta por uma diversidade de grupos comunitários que se associam de livre arbítrio para prestar serviços. As igrejas, os sindicatos e as diferentes formas de associação que podem ter ligação com o Estado e com o mercado e ser, por eles financiados, mas que se distinguem por ter a dádiva no centro do sistema de circulação dos objetos e serviços, que para Polanyi (1980), o sistema de circulação de objetos compõe-se de três esferas: mercado, Estado e instância doméstica. Essas organizações têm as relações baseadas na dádiva, pois são criadas livremente, a partir de iniciativas na sociedade, buscando principalmente o bem estar social. Conforme Godbout (1999) são agrupadas em duas categorias: organismos beneficientes e grupos de ajuda mútua. No primeiro caso, os serviços prestados são voluntários, sem retorno aparente, já que a retribuição está no próprio ato de dar. No segundo, as ações têm por base a reciprocidade, estabelecendo o ciclo da dádiva de dar, receber e retribuir, havendo uma responsabilidade de transmitir o que se recebe. Incluem-se, neste último caso, os empreendimentos da economia solidária.

As especificidades da economia solidária ou popular estão imbricadas no ciclo da dádiva, cuja essência é a reciprocidade da ação orientada pelo vínculo social. As relações entre os indivíduos formam uma rede de relacionamentos horizontais, de forma independente, por meio de vínculos de confiança, sobrepondo os interesses individuais.

A ação coletiva no âmbito da economia solidária está relacionada à reciprocidade entre as relações sociais, sobretudo os de confiança, estabelecidos no processo de trabalho.

Sob a ação da dádiva, a reciprocidade na perspectiva do ciclo em que o dar é tão importante que o receber. Este pensamento permite compreender a existência de outras maneiras de relação social que não somente aquelas fundamentadas na afetividade e no parentesco da socialidade primária, ou formadas a partir do mercado e do Estado, uma vez que no âmbito da economia solidária as relações entre estranhos não se valem de forma coercitiva ou material. Concluí-se que as relações se estabelecem por meio de uma reciprocidade voluntária que, fundamentada na solidariedade e confiança, pressupõe a autonomia individual sem romper com o coletivo.

Como conhecer os mercados através de Polanyi – relações sociais e economia solidária

a. Integração econômica: mercado, redistribuição, reciprocidade e domesticidade

Polanyi ao escrever a obra “A grande transformação” (1980), considerou que “a história e a etnografia conhecem várias espécies de economia”, ao diferenciar quatro princípios de integração econômica – o de mercado que é a oferta e a procura de bens ou serviços, o de redistribuição, através de uma entidade central, o de reciprocidade por meio da partilha entre as pessoas e o da domesticidade ou administração doméstica, como produção para o auto-consumo. O mercado é onde se dá o encontro entre a oferta e a procura de bens e serviços através da troca. A forma geral de equivalência é a moeda onde a procura e a oferta são ajustadas através do preço. Na redistribuição, a produção se encaminha a uma autoridade centralizadora, sendo armazenada e posteriormente distribuída. A sociedade tem um centro que reparta os recursos depois de tê-los recebido. A reciprocidade se relaciona ao ato da dádiva, que implica uma contra-dádiva – um indivíduo oferece qualquer coisa a outro indivíduo, e este retribui qualquer coisa ao primeiro. Esta oferta de dádivas tem um sentido social considerável, podendo acontecer por meio de caráter particular da doação interpessoal ou geral, através da doação a uma coletividade. A importância da dádiva é que os objetos não são dissociados de que os oferece, representando basicamente um comportamento social. Já a domesticidade consiste na produção para o consumo próprio; cuja base é a produção e o armazenamento para satisfazer as necessidades de um grupo. Como expressou Polanyi, cada um destes quatro princípios de integração econômica se associa a um modelo institucional da centralidade, que permite a redistribuição. A centralidade tem por pressuposto um indivíduo ou um grupo que executa esta atividade, e uma divisão de tarefas entre os indicados por esse mesmo indivíduo e os outros participantes do grupo, podendo as relações entre o indivíduo ou grupo centralista e os participantes ser diferente, de acordo com o poder político tipificado. Isto quer dizer que na redistribuição, a ação não poderá se efetuar sem um determinado centro de onde a redistribuição é realizada. A redistribuição não é um modelo individual de comportamento e está subordinada a um centro reconhecido (Polanyi, 1977). Para vislumbrar melhor a noção deste tipo de transição mercantil, Polanyi (1980) nos deixou o entendimento de simetria, que facilita a forma como a reciprocidade se efetua, estando presente em povos mais iletrados. Esta tipologia se favorece pela circulação de bens e serviços sem a necessidade de qualquer forma de registros. A reciprocidade implica movimentos entre pontos correlativos de agrupamentos simétricos. Envolve a presença de dois ou mais grupos dispostos simetricamente, cujos membros se comportam de forma semelhante em relação uns ao outros. Bem entendido que esta simetria não é restringida à dualidade, os grupos recíprocos não necessitam resultar da atitude de mutualidade (Polanyi, 1977). Na domesticidade, o modelo de suporte é a autarquia, cuja natureza do núcleo institucional pode diferir pelo sexo, família patriarcal, poder político ou poder da autoridade. A organização interna do grupo pode ser democrática ou não, e o tamanho do grupo pode variar consideravelmente. A integração econômica pelo mercado é capaz de criar uma instituição particular – o mercado. Este é o motivo no qual todo o sistema econômico de mercado tem efeitos profundos na organização de toda a sociedade, isto quer dizer que a sociedade é gerida como um auxiliar do mercado. Tanto na reciprocidade como no mercado, o fator validativo e organizativo não provém do indivíduo, mas das ações coletivas das pessoas em situação estruturadas. A troca como forma de integração, é subordinada a um sistema de mercado, uma forma institucionalizada que, ao contrário de pressupostos comuns, não inicia atos aleatórios de troca (Polanyi, 1977).

Segundo a afirmação de Polanyi, as pesquisas históricas e sociológicas levam ao entendimento que, “a economia do homem, como regra, está submersa nas suas relações sociais” (Polanyi, 1980), e que só recentemente a economia é controlada e regulada por mercados. O exemplo de sociedades tribais é utilizado pelo autor, também estudadas por Thunwalde Malinowski, no início do século XX. Nesta forma de sociedade, a ordem na produção e na distribuição é fornecida por dois princípios não associados basicamente à economia – a reciprocidade e a redistribuição (idem, 1980). Por exemplo, em algumas sociedades tribais, as trocas que se tratava de dádiva, eram gratuitas, não se esperando mais nada além da reciprocidade (não necessariamente pelos mesmos indivíduos), levando a supor que não se conhecia a noção de lucro ou até mesmo a riqueza. A reciprocidade era o instrumento que mantinha a produção e o sustento das famílias. Esses dois princípios não se sustentariam sem a garantia da aplicação por parte das instituições existentes e de forma como a simetria e a centralidade coexistiam entre as tribos. Para o autor, nas sociedades tribais, o sistema econômico era mera função da organização social e, enquanto esta seguia a sua rotina normal, “não havia razão para a interferência de qualquer motivação econômica individual” (idem, 1980). A redistribuição de bens em algumas sociedades tribais era efetuada por um intermediário, que recebia e distribuía os bens. O autor considera que a redistribuição tende a envolver o sistema econômico por meio de relações sociais, se localizando a redistribuição dentro do sistema político vigente, tanto faz que fosse simples, como complexo. O mecanismo da redistribuição se tornou visível com o crescimento econômico, originando complexidade na divisão do trabalho (Polanyi, 1980). Os princípios da redistribuição, reciprocidade e domesticidade organizaram os sistemas econômicos conhecidos até o fim do feudalismo na Europa Ocidental, ou por combinação dos três princípios. Estes princípios de integração se tornaram institucionais com o auxílio de uma organização social e com o uso de formas de simetria, centralidade e autarquia. Outros aspectos, como os costumes, a religião e a magia, permitiram a prática das formalidades pelos indivíduos. Polanyi concluiu que os mercados não desempenharam um papel importante no sistema econômico até o fim da Idade Média, coexistindo outras formas institucionais (idem, 1980), ultrapassando assim o modelo histórico clássico dos economistas. Outros sociólogos contribuíram para a formação dessa teoria, entre eles Durkheim, Weber, Pareto com os estudos sobre as pré-condições societais para os diferentes tipos de ações individuais; Richard Thurnwald, em 1916 com o estudo da relação empírica entre atitudes pessoais de reciprocidade e interdependência resultante das instituições simétricas; Bronislaw Malinowski, dez anos mais tarde, a partir dos estudos de Thurnwald, concluiu que as situações de reciprocidade na sociedade humana serão sempre encontradas na forma simétrica de organização social básica, por meio do descrito do sistema de parentesco das ilhas Trobiand e do sistema do comércio kula. Estes estudos facilitaram generalizar a reciprocidade em uma maneira de integração e, da mesma forma, de tornar geral a simetria em uma estrutura de apoio. Se conseguiu isto, ao unir a retribuição e a troca à reciprocidade e a centralidade e o mercado à simetria. Num ambiente organizado simetricamente, o resultado das atitudes recíprocas desencadeiam em instituições econômicas de alguma importância; e a economia redistributiva é o resultado apenas onde tenha centros estabelecidos; as atitudes dos indivíduos resultam em preços que integram a atividade econômica somente na presença do mercado instituído para esse fim (Polanyi, 1977).

b. Integração econômica com base no crescimento do mercado

Segundo o autor, a economia de mercado é uma estrutura institucional nova, que esteve presente somente nos últimos três séculos. Os mercados foram apenas acessórios da economia até a revolução industrial e o sistema econômico foi absorvido pelo sistema social. Os mercados e as regulamentações surgiram conjuntamente, e o entendimento de um mercado auto-regulável é recente. Para que os membros das sociedades tenham mudança na motivação da ação é necessário que ocorra uma transformação na sociedade – a motivação da subsistência como ação na sociedade é substituída pela ação do lucro. As trocas passam a ser transformações monetárias e estas, requerem a introdução de uma forma de intercâmbio em cada interação da atividade industrial (Polanyi, 1980). Os rendimentos têm origem da venda de produção no mercado auto-regulado. Vários tipos de produtos são ofertados no mercado, principalmente o trabalho, a terra e o capital, cujos valores são transformados em salário, aluguéis e juros. A sociedade é submetida às leis do mercado, pois o trabalho resulta da atividade humana e a terra o ambiente natural no qual eles se concretizam. Para o autor, trabalho, terra e dinheiro formam a base estrutural do sistema econômico organizados em mercados. Não são as mercadorias, pois eles não são produzidos para venda, isto é, conceituar o trabalho, a terra e o dinheiro como mercadorias é mera ficção. Estes elementos são vendidos e comprados no mercado. A passagem de um sistema democrático para um sistema político representativo no final do século XVIII, representou uma mudança acentuada da tendência existente, assim como, a transição de mercado regulamentado para mercado auto-regulável, significou uma alteração total na sociedade. O autor confirma a separação das áreas da economia e da política. O sistema econômico não era separado da sociedade antes da revolução industrial, ocorrendo essa separação no século XIX.

c. O mercado face as formas de integração

O Estado passa a exercer protecionismo social e nacional no transcorrer do século XX, depois da 2ª guerra mundial, se afirmando pelo centralismo autoritário e por onde necessariamente a redistribuição é implementada. Os efeitos negativos do mercado sedimentaram uma maneira de redistribuição reconfirmada. Quanto a reciprocidade, não se pode simplificar a transferência de bens e serviços, porém as relações sociais se fazem presente, com os respectivos comportamentos e sentimentos individuais. Na condição de domínio do mercado, no qual o indivíduo se tornou o elemento mais importante, sendo senhor de si e livre, a reciprocidade deixou de ocupar a posição da dependência pessoal característica das relações sociais; assumindo sua posição de forma de transferência para outros quanto a indivíduos livres e separados. Sendo a reciprocidade uma lógica social de agregamento nas sociedades tradicionais, na sociedade moderna aparece como forma dissoluta de reciprocidades parciais. As relações sociais não têm mais a dádiva como elemento principal, passando a assumir a forma de decisão individual e a sua plenitude se origina do efeito produzido nos beneficiários. Quanto à domesticidade, sua condição de existência é a integração na atividade intra-familiar. A família, as aldeias ou outros agrupamentos que realizavam atividade produtiva elaboradas essencialmente por grupos e era à base de sustentação desses coletivos foram lentamente sendo desestimuladas pela desestabilização das sociedades rurais tradicionais, no qual prevaleciam as relações de parentesco e vizinhança. O mercado passa a ser o principal fomento de mudança no século XIX e com o advento do Estado social, ocorreu a insustentabilidade dos princípios da reciprocidade e da domesticidade no sistema econômico. O distanciamento do mercado e da redistribuição estatal se deu no século XX, ocasionando a desvalorização contínua da reciprocidade e da domesticidade. Com o avanço do pós-guerra aparece uma interpenetração quanto aos três conceitos distintos da economia, com a formação de princípios econômicos diferenciados – economia mercantil, economia não-mercantil e economia não-monetária, que representam os princípios do mercado, redistribuição, reciprocidade e domesticidade respectivamente. A economia mercantil representa a economia onde a função de garantir a ordem na produção e distribuição de bens e serviços é de responsabilidade do mercado, isto é, o mercado se apresenta como o princípio central de regulação econômica. O sistema econômico funciona como base partir do qual se ordena à economia de mercado, sem que possa se considerar a intensidade de intervenção do Estado ou de outros intervenientes. A economia não-mercantil representa a fatia da economia onde a função de garantir a forma de produção e distribuição de bens e serviços é de responsabilidade da redistribuição, cuja centralidade pertence ao Estado. A redistribuição se torna então uma alternativa complementar em relação ao mercado. O surgimento do Estado-providência na Europa, durante o período pós-guerra, possibilita o desenvolvimento da proteção social, permitindo a renda dos indivíduos com comprovadas necessidades. Surge a forma de uma economia protetora e assistencial. O sistema econômico em expansão possibilita o financiamento desta economia não-mercantil, assumindo uma legitimidade própria, pois o seu campo de ação evoluiu continuamente. No que se refere à economia não-monetária, a reciprocidade e a domesticidade mantém os princípios na distribuição e na produção de bens e serviços na economia. As relações sociais não-monetárias se associam a economia, estando à margem frente às economias não-mercantil e mercantil. Somente passam a existir, devido ao surgimento do Estado-providência. Sendo parte importante do sistema que representa, continua como parte menos visível das economias nacionais. A conclusão é que as economias mercantil e não-mercantil são parecidas à economia monetária. A economia não-monetária se torna pouco lembrada por um lado, devido à economia monetária de outro lado no período de guerra.

d. Economia solidária – solução entre economia de mercado e a solidariedade estatal

A integração entre as esferas econômica, social e política, conduzindo a relações renovadas entre os três tipos de economia, na direção de uma criatividade autêntica, que dê a formatação a novos modos de ocupação, estimulando a emergência de uma economia solidária ou popular. Na economia popular, o princípio da reciprocidade se apresenta ao lado do mercado e da redistribuição, reassumindo o lugar que ocupava antes de ser ofuscada pelos outros dois princípios. A reciprocidade ocupa o espaço por meio das iniciativas de desenvolvimento e da criação de ocupação local, extrapolando os limites entre o econômico e o social, propiciando que a economia da solidariedade ocupe o seu próprio espaço entre a economia de mercado e a solidariedade estatal. Na questão social, os fundamentos desta economia solidária buscam a solução contributiva para sanar problemas e apresentar uma proposta concreta quanto às necessidades sócio-econômicas que o Estado e o setor privado em suas limitações, não conseguem apresentar uma solução. Na questão econômica, as oportunidades criadas na economia solidária, em resposta ao surgimento de novas atividades, poderiam ser vistos como temporários e como uma simples passagem; provavelmente seriam olhados em uma perspectiva abrangente, na busca da produção de serviços de forma coletiva e não de uma forma doméstica ou familiar. E o verdadeiro significado deste movimento é o novo envolvimento da economia nas relações sociais. Na questão política, as bases da economia popular pretendem dotar os atores intervenientes em um crescente envolvimento, através do levantamento de suas necessidades e de uma proposta compromissada, isto é, uma maior clareza e democratização em todo este processo social.

Entendendo a economia solidária através do habitus e do campo

O sistema econômico demonstra limitações que possa alavancar saídas para solucionar a crescente exclusão social, assim como a solidariedade governamental não tem uma resposta ou iniciativa que possa resolver o problema da pobreza de um contingente humano considerável. A economia solidária ou popular foi à forma criativa encontrada para atendimento às necessidades individuais e coletivas. Através do pensador Bourdieu, que desenvolveu a teoria do habitus e do campo, é possível o entendimento do segmento econômico marginal à economia de mercado, ou seja, a economia solidária ou economia popular. A concepção de que o universo econômico é feito por vários mundos econômicos [...] e dotados de racionalidades específicas que supõem e exigem disposições mais do que racionais [...], Bordieu (1994). Que o capitalismo, ao se instaurar, faz emergir um campo, um lugar de tipo novo, cujo princípio é a lei de interesse material (idem, 1984). Refletindo nessa direção com as idéias básicas bourdienianas de habitus, se adentra no campo econômico, onde as decisões dos indivíduos envolvidos no sistema de troca, são movidas por uma motivação racional não somente com relação a fins, como pensou Weber, mas também por formas elaboradas socialmente, chamada por Bourdieu de habitus, nos espaços sociais que cada sujeito se encontra ou conforme nomeado pelo autor, o campo. Recorrendo a Setton (2002), ao elaborar um olhar pós-moderno do habitus, afirma que ele é entendido como um sistema engendrado no passado e orientando para uma ação no presente, em constante reformulação [...] que ela auxilia pensar as relações entre os condicionamentos sociais exteriores e a subjetividade dos sujeitos. Utilizando esses dois conceitos para entender dúvidas relativas às organizações populares, neste caso específico, a economia solidária, como objeto de inserção na economia de mercado e sua existência correlata com as empresas originalmente tradicionais. Como estruturas econômicas, estas organizações estão inseridas no campo econômico, situando um estilo próprio de concorrência, exigindo uma forma de ação, tanto na maneira de criarem alternativas personalizadas, como concordando ou contrariando com o sistema tradicional de mercado. Se levanta então a questão crucial em experiências alternativas no campo da economia solidária ou popular, é a pressão externa exercida pela lógica fria do mercado, que as provocam a reproduzirem semelhantes princípios das empresas tradicionais. Estas últimas assumem posições que diferem das organizações alternativas, pois buscam de imediato o máximo lucro possível, isto é, sua ação se direciona para uma finalidade imediata do interesse material. Todavia, na perspectiva das relações sociais alternativas, em situações de existência correlata, entre a economia solidária ou popular e as empresas tradicionais, sob a questão metodológica, se destacou três aspectos, esclarecendo o entendimento da visão bourdieniana. Em primeiro lugar, foram citadas as posições sociais dos indivíduos integrantes das organizações solidárias ou populares em relação aos grupos tradicionais, ou seja, a situação que os participantes ocupam na composição da formação de capital. Num segundo momento, se procurou entender as formas socialmente constituídas, isto é, o habitus de cada organização, e finalmente se refletiu a estrutura econômica da organização.       

Considerações Finais

No mundo das idéias, a clareira refletida por Heidegger ilumina o pensamento quanto a uma economia surgida da criatividade humana, em suas ações de distribuição e reciprocidade. Mas para que a iniciativa de autogestão solidariedade e reciprocidade sobreviva, é necessário o equilíbrio entre a dádiva e uma gestão com resultado positivo.

As organizações de base refletem um crescente interesse despertado em autores sociais, vinculada a preocupação com as estratégias de sobrevivência das vítimas das tendências polarizadoras da economia formal, e em outros casos, a investigação e discussão dos novos movimentos sociais que agitou virtualmente todas as organizações não-governamentais do planeta, especialmente na América Latina, quando ficou evidente para todos a derrota mundial dos movimentos agora denominados anti-sistêmicos, e vários grupos julgavam descobrir em tais movimentos os novos sujeitos revolucionários (Quijano, 1969).

As experiências de organizações da economia solidária são freqüentemente apresentadas como uma economia alternativa. Um estudo de Quijano (1998) sobre pesquisa da socioeconomia concluiu que quase a totalidade de tais organizações não tem maior avanço que meras estratégias de sobrevivência. Todavia, não se pode desmerecer a imensa importância para uma crescente população empobrecida do mundo a sobreviver em muitos casos, a melhorar as suas condições de existência.

Uma boa parte da literatura sobre a denominada economia informal ou economia social, apresenta-se como um modo de produção e distribuição novo (Paulo Renato Souza e Victor Tockman, 1976), porque nesse setor da economia trata-se do que os trabalhadores fazem para produzir e distribuir (entre eles) os produtos, e não o que faz a empresa formal. Isto caracteriza no fato de que a unidade de produção e/ou distribuição é à força de trabalho e não a empresa. E aí está a diferença básica entre o setor informal e o setor moderno. Neste espaço, a nova sociologia econômica avança nos estudos e reflexões, redescobrindo as interações formuladas pelos economistas clássicos e clareando novas proposições como fez Polanyi, por meio da obra “A grande transformação” (1980) e as pesquisas de Bourdieu, através dos conceitos de habitus e de campo, que auxiliam e perpassam o entendimento sobre a economia solidária ou popular.            

Referências bibliográficas

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  • Souza, Paulo R. e Tockman, Victor. The informal urban setor in Latin América, International Lawbour Review, 114(3), nov/dez/1976.
abr 042010
 
maravilhas das antigas civizações

INDIVÍDUO, LIBERDADE, IGUALDADE E ECONOMIA: COMO AJUSTAR ESSAS NOÇÕES EM PROL DA CULTURA DA VIDA?

Thiago Felipe Sebben

 

        A proposta desse texto é, a partir da análise das ideias contidas no texto O indivíduo e a liberdade, do autor Georg Simmel, trazer apontamentos para a superação do problema ético/moral/econômico que floresceu juntamente com o nascimento e desenvolvimento das noções que dão título ao texto citado. Esses apontamentos possuem como base o desenvolvimento mental do indivíduo, proposto pela teoria de Richard Maurice Bucke, em seu texto Consciência Cósmica, desenvolvimento este que ganha sentido ao ser uma possibilidade de propiciar ao indivíduo e à sociedade a superação do domínio do modelo capitalista de produção e da desigualdade de condições materiais.

        Primeiramente, cabe proceder com a análise do texto de Georg Simmel. O texto em estudo conta a história de como surgiu e se fundamentou a metafísica erigida a partir do otimismo natural do século XVIII, que culminou por justificar a livre concorrência e do individualismo das diferenças do século XIX, que justificou a divisão do trabalho. Trata-se de ir à raiz ideológica de alguns princípios éticos, morais, sociais e espirituais que nortearam a fundamentação econômica do liberalismo em torno de uma concepção de ser-humano baseada no individualismo.

        O autor remonta à origem do individualismo ao momento cultural do renascimento italiano, momento em que as vontades de “poder, fama, prestígio e distinção” (p.1)[1] foram difundidas em um grau desconhecido até então. A cultura renascentista exercia pressão para que o ser-humano daquela época sentisse o desejo de impor sua própria singularidade, de criar seu próprio estilo. Entretanto, a imensidão de possibilidades de estilo e a pressão por sentir a unicidade da vida levam ao rompimento dessa noção de individualidade enquanto distinção.

        A noção dominante que emerge nesse cenário, já no século XVIII, é o individualismo enquanto liberdade.  Eis a bandeira universal do indivíduo, “pela qual ele protege seus mais variados desconfortos e necessidades de auto-afirmação em relação à sociedade” (p. 2). Essa noção foi alimentada por alguns pensadores dessa época, como Rousseau – que coloca a liberdade individual num patamar tão absoluto que impede a mobilização da classe trabalhadora, como quisera Marx, por exemplo – e como Fichte e Kant – os quais elevaram o eu como referência máxima daquilo que pode ser conhecido à partir da razão e como valor absoluto da esfera moral.

        Porém, existiam algumas repressões sociais a esse movimento em prol da liberdade individual, tais como a Igreja, o controle despótico, os privilégios da classe detentora dos meios de produção, as obrigações servis dos camponeses e o ataque às constituições citadinas. Da força social dessas repressões nasceu o ideal da simples liberdade individual: “quando apenas essas instituições [...] desaparecessem, teríamos o desenvolvimento de todos os valores internos e externos, para os quais o potencial já era existente, apenas paralisado por forças políticas, religiosas e econômicas. Essa passagem equivaleria à transição da desrazão histórica à razão natural” (p. 2). Com essa transição, teríamos o ser-humano perfeito, posto que ele não manifestaria nenhuma desigualdade. Ele manifestaria, por outro lado, a sua igualdade em essência. Essa noção, aliado ao paradigma científico mecanicista, criou duas categorias de análise do ser-humano: o humano em geral – no que consistia sua igualdade perante os outros humanos – e o humano em suas especificidades – no que consistia seu estilo próprio perante outros humanos, sua singularidade.

        Desse modo, a concretização no plano social da liberdade individual arquitetada, previamente, no plano filosófico, tinha como fundamento a igualdade universal entre os indivíduos. Essa igualdade poderia ser justificada a partir de três visões diferentes: a visão que somos iguais por natureza (código genético, por exemplo); a que somos iguais por possuirmos a mesma habilidade diferencial encefálica que é a razão (sendo apenas mais uma camada do nosso neocórtex, para ficar numa explicação anatomo-fisiológica); e a que somos iguais por sermos parte da comunidade humana. Eu creio que essas visões de igualdade na verdade são três facetas de uma só, sendo unidas na noção de espécie. De qualquer modo, o que importa era que essa noção estava muito atrelada à noção de liberdade individual.

        Na prática, a moral que redundou desses dois princípios aliados foi a de que “o valor de cada indivíduo tem seu fundamento nele próprio, na sua auto-responsabilidade; com isso, no entanto, naquilo que ele tem em comum com todos” (p. 4). O indivíduo transitaria nos planos da igualdade universal e da singularidade própria. Esse era o homem abstrato. Para Kant, esse homem abstrato era o máximo da personalidade. Já Rousseau dizia que quanto mais o homem retornasse à própria interioridade, ao entendimento de si próprio e do sentido de sua vida, mais desaguaria nele bondade e felicidade. “Quando o homem é realmente ele próprio, possui uma força concentrada suficiente não apenas para a própria autopreservação, mas, por assim dizer, transborda para outros, permitindo a recepção desses outros em si mesmo e a identificação com estes”. Trata-se da noção de harmonia natural nas relações humanas, o deixar o instinto humano livre sob as influências da natureza, que organicamente tudo se equilibrará. Mas o ser-humano colocava em xeque toda essa proposta de homem em sociedade, visto que a igualdade se manifestava na realidade de forma muito imperfeita. Foi pelo instinto, supõe o autor, que se cravou a bandeira do princípio da fraternidade ao lado dos outros dois princípios que sintetizaram a noção de ser-humano no século XVIII, culminando no mote da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.

        O século seguinte (XIX) foi suficiente para lançar o ser-humano ao questionamento da síntese proposta no ideal da Revolução Francesa. “Tão logo o eu sentiu-se forte o bastante, passou a procurar a desigualdade, mas apenas aquela que surgia como uma lei interna” (p. 6). Os indivíduos tornados autônomos querem agora distinguir-se entre si. É intensificada a vontade dos seres-humanos buscarem a si próprios: é a diferenciação entre si pelo estilo, pela originalidade, pela singularidade. A busca do homem moderno por um sentido para a vida resulta agora na “caracterização de um mundo que se organiza e se desenvolve a partir da singularidade particular de cada indivíduo” (p. 6).

        Essa forma de individualismo desigual encontrou em Schleiermacher seu principal filósofo, com algumas continuações, inclusive no “super-homem” de Nietzsche – o homem superado por ele mesmo, através da criatividade, da autenticidade e do estilo. Para estes filósofos, a tarefa ética consiste em amoldar o próprio caráter ou, traduzindo numa velha máxima de Píndaro muito invocada na obra nietzscheana: “tornar-te aquilo que tu és”.

        A tarefa ética em questão foi amplamente alimentada na cultura da época pelo romantismo – vale enfatizar que, nesse ponto Nietzsche segue seu próprio caminho, sendo um grande crítico do romantismo. “Assim como Goethe criou o fundamento artístico, e Schleiermacher o metafísico, o romantismo criou a base sentimental, da vivência” (p. 7). O romântico é aquele que busca numa cadeia infinita de oposições, de paralelismos, as interpretações das vivências que lhe auxiliarão na extração do sentido de sua existência. Logo, é na observação das desigualdades que o romântico conhece a si próprio e a vida.

        Dessa forma, o liberalismo racional da Inglaterra e da França fundamentou o individualismo simplesmente livre e que pressupunha uma igualdade de personalidades, enquanto que o espírito germânico – através do romantismo – deu origem à singularidade qualitativa.

        Ao considerar-se a cristalização de princípios econômicos na organização social da época – século XIX – o que se sucedeu foi uma apropriação das duas sínteses de ser-humano que foram demonstradas. “Com certeza, a teoria da liberdade e igualdade é o fundamento da livre concorrência, enquanto a personalidade diferenciada é o fundamento da divisão do trabalho” (p. 8). Esses dois grandes princípios econômicos surgem como projeções econômicas de aspectos metafísicos do indivíduo social. A conclusão é que esses dois princípios não deixam que a cultura se manifeste com sua máxima qualidade. A esperança do autor é de que, através da recriação constante da noção de indivíduo, os seres-humanos continuem a criar formas de explicar o mundo e interpretações que agreguem sentido à vida das pessoas de uma época. cristalizaçeu pro espa França fundamentaram o individualismo simplesmente livre e que press

        Nesse ponto é possível pensar em propostas de ajuste sociológico possíveis nesse cenário, propostas que visem possibilitar o projeto de ser-humano livre, singular, mas com condições materiais igualmente razoáveis a todos. Parece que a tarefa, nesse sentido, é a substituição do ajuste econômico distorcido que dá vazão à metafísica descrita no texto de Georg Simmel – através dos princípios da divisão do trabalho e da livre concorrência -, por um ajuste econômico que faça desse projeto de ser-humano uma realidade por completo, numa cultura maximamente potencializada e valorizadora da vida como evento especial do universo.

        No meu ponto de vista, a noção de ser-humano deve ser a de que somos essencialmente iguais biologicamente falando, enquanto espécie, e a de que possuímos um potencial evolutivo ainda porvir, que é o desenvolvimento de uma nova camada do neocórtex, a camada além da razão que nos possibilita a auto-consciência, e que pode elevar o ser-humano a um outro nível de interpretação de mundo: a camada da consciência cósmica. Quem trabalha nessa linha de raciocínio é o autor Richard Maurice Bucke, em sua obra Consciência Cósmica, de 1901. Ele diz: “temos, pois, quatro estágios de intelecto, abundantemente ilustrados no mundo animal e humano e igualmente ilustrados no crescimento da mente cosmicamente consciente e todos os quatro existindo simultaneamente naquela mente, tal como os três primeiros coexistem na mente humana comum. Esses quatro estágios são: primeiro, a mente perceptiva, constituída por percepções ou impressões sensoriais; segundo, a mente formada pelas percepções e receptos, denominada mente receptual ou, em outras palavras, a mente da consciência simples; terceiro, temos a mente estruturada por percepções, receptos e conceitos, ocasionalmente chamada mente conceitual ou mente autoconsciente, que seria a mente da autoconsciência; quarto e último, a mente intuitiva, cujo elemento mais elevado não é nem um recepto nem um conceito, e sim uma intuição. Nessa mente, a sensação, a consciência simples e a autoconsciência estão complementadas e enriquecidas pela consciência cósmica” (p. 39).

        Nesse nível de interpretação da realidade, não faz mais sentido a divisão do lucro em parcelas distintas conforme a detenção dos meios de produção, não faz sentido a exploração dos recursos da natureza de maneira desenfreada por uma economia que busca sem limites a expansão da rentabilidade de seus negócios e do lucro cada vez maior. Isso porque a limitação egoísta do auto evolui para uma transcendência pluralística que envolve não só todas as autoconsciências existentes, mas também uma suposta consciência cósmica. Trata-se do nível de iluminação de um Buda, um Dalai Lama, ou um iogue que atinja o samadhi, por exemplo. É óbvio que a solução desse cenário não é a volta do ser-humano às suas condições de vida pré-industriais, portanto, pensemos em alguma solução que não renegue o ser-humano às condições de vida a-tecnológicas, mas sim que converta a tecnologia em prol da evolução humana enquanto espécie que, nesse momento histórico da humanidade, é a evolução espiritual.

        O primeiro ponto necessário para concretização desse cenário, ou seja, para o ajuste da sociedade em prol de valores espirituais que garantam um sentido para a vida, é uma educação que seja capaz de fazer o ser-humano evoluir seu nível encefálico de neocórtex em massa, visto que no nível de consciência cósmica o ser-humano será muito mais capacitado de habilidades não-egoísticas, habilidades que integrem o ser-humano ao todo e à unicidade universal do quanta. Ora, nós seres-humanos somos simplesmente o resultado da elaboração complexa da energia ínfima do universo, que é o quanta. Essa energia é o que nos une universalmente e talvez seja a característica que faz dos seres-humanos iguais entre si: somos formados pela mesma substância. Desse modo, uma educação que vise formar indivíduos que busquem essa transcendência dos padrões de vida impostos pelo modo de sociedade industrial e capitalista, uma transcendência que vise tornar plena a personalidade do indivíduo, é necessária. Talvez seja nesse ponto do ajuste social que entre a proposta pedagógica de educação e valores humanos, ou seja, a formação de indivíduos que busquem a evolução rumo à aquisição da consciência cósmica.

        O segundo ponto necessário, e que será amplamente fortalecido pelo ajuste do primeiro ponto, é o ajuste da produção de víveres necessários às condições materiais da vida humana de uma maneira mais igual. Ora, é impossível pensar em evolução de consciência para um indivíduo que sente fome, ou que não tenha nem desenvolvida seu nível de autoconsciência com uma base educacional para isso. É fato que o sistema econômico capitalista nos alçou a níveis de riqueza jamais outrora vistos na história, mas é também fato que estamos vivendo níveis de desigualdade social também inéditos. Aqui é lícito debater quais seriam as mínimas condições materiais de existência para que um indivíduo tenha garantida sua dignidade. Como ponto inicial desse debate, lanço mão da pirâmide de necessidades de Abraham Maslow[2].

        Nessa pirâmide, o autor coloca que as primeiras necessidades do ser-humano são as fisiológicas. Desse modo, todo ser-humano deve ter garantido o acesso à alimentação e às condições básicas de higiene, para que não seja minimizado o acometimento de inúmeras doenças resultantes da precariedade das condições sanitárias. A segunda necessidade do ser-humano é a segurança, ou seja, o direito básico a um abrigo que lhe proporcione segurança das condições climáticas e também a segurança com relação à violência social. A criação da polícia foi resultado dessa necessidade, entretanto, nas correntes sociológicas com visões mais libertárias, como o anarquismo, por exemplo, até mesmo o poder de polícia é questionado, uma vez visto que ninguém deve possuir o poder de coerção perante outro indivíduo. Mas esse é outro debate. A terceira necessidade do ser-humano é a de pertencimento, ou seja, a necessidade de “identificação com” e “aceitação por” algum grupo social que seja importante para o indivíduo. Desse modo, deve ser garantido o acesso às situações socializantes da atividade humana, como a inserção no debate político, a produção cultural e, principalmente, a educação – como transmissão dos símbolos e significados produzidos culturalmente pela humanidade ao longo de sua história. A quarta necessidade do ser-humano é a de auto-estima, ou seja, o indivíduo amar a si próprio e sua condição humana, amar a vida acima de quaisquer obstáculos que dificultem o seu caminho. Sendo assim, deve ser garantida ao indivíduo a alimentação de seu espírito, pelos mais diversos caminhos que este julgue interessante e que dêem algum sentido à sua vida. Aqui é necessário, claro, a consideração da importância do valor da tolerância nessa humanidade ainda porvir. Como resultado dessas quatro necessidades satisfeitas para o ser-humano, Maslow aponta para a realização pessoal, que é a experimentação de uma consciência única de plenitude e felicidade com a condição de vida vivida no momento. A partir desse estágio, surgem as metanecessidades, que são as necessidades espirituais de sentimento de unidade com o universo, de perceber, sentir, pensar e agir de acordo com um nível de consciência cósmica.

        O ajuste dos modos de produção de víveres para que todos tenham garantidos seus direitos primordiais é um ponto de suma importância nesse cenário de nova individualidade, de nova humanidade que se quer parir. Considerando-se todas as necessidades individuais para realização plena da vida humana em sociedade, é impossível descartar o papel da tecnologia. Seria impossível produzir comida suficiente para alimentar bilhões de pessoas – número cada vez maior – sem os saltos tecnológicos constantes desde a revolução industrial. Será impossível pensar o mundo sem aproveitar seus recursos naturais de maneira criativa, inovadora e, acima de tudo, sustentável. Entretanto, o papel que a tecnologia ocupa na sociedade capitalista desse início de século XXI é o papel de fator maximizante da desigualdade econômica e do lucro daqueles que investem no desenvolvimento da própria. A tecnologia não é prejudicial em si, mas sim de acordo com o que fazemos com ela. Isso nos leva a questionar como a tecnologia poderia ser aproveitada em prol da organização humana valorizadora da cultura plena e da vida como fenômeno especial do universo.

        Ora, o papel da tecnologia originalmente é o de substituir o trabalho humano através da elaboração de meios considerados mais fáceis de obtenção de certos produtos. Desse modo, a tecnologia acaba por concorrer com o sustento de uma grande classe de trabalhadores, principalmente aqueles das fábricas, que quando têm seus parques fabris automatizados costumam gerar demissões em massa. É necessário perceber aqui que a papel original da tecnologia deve ser mantido, ou seja, diminuir a quantidade de trabalho humano necessário para suprir determinadas necessidades, entretanto, o que está em descompasso com a visão de indivíduo que se propõe, é a utilização da tecnologia como forma de maximização do lucro de quem a desenvolve e a aplica. A produção deve sim ser automatizada, porém, os trabalhadores, ao invés de demitidos, devem ser divididos em mais funções e turnos de trabalho, de modo que cada um trabalhe menos e continua recebendo o mesmo tanto. É claro que isso é inovador e depende da ampliação da consciência egoísta do ser-humano para uma consciência pluralística e transcendental, que se liberte do apego ao lucro e ao fetichismo do dinheiro, mas é algo necessário para um futuro promissor da humanidade, um futuro que escape a decadência e – numa visão mais radical – extinção da espécie.

        O terceiro ponto de mudança para florescimento de uma nova noção de indivíduo é a substituição da relação empregador/empregado no âmbito trabalhista, pela relação de cooperadores. Trata-se da ampliação e aplicação em larga escala do modelo de produção cooperativista, em que o lucro é distribuído de maneira mais justa entre os produtores e que não exista relações de abuso hierárquico, mas sim líderes espontaneamente escolhidos para exercer algumas funções específicas. Num modelo hierárquico vertical, a autoridade de quem está acima muitas vezes acaba por sucumbir nosso caráter, corromper nossa personalidade, enquanto que num modelo hierárquico horizontal, a autoridade se constitui no saber específico de cada cooperador. O funcionamento mais orgânico da cooperativa, se comparado com as empresas tradicionais, contribui para a melhora nas condições materiais da humanidade em geral, mas a partir de outros princípios: sustentabilidade, divisão justa da produção e do lucro, substituição da noção de lucro máximo pela noção de lucro possível sem corrupção dos conceitos-chave que impulsionam o modo de produção em questão. O cooperativismo é, em verdade, apenas a célula pelo qual opera o organismo da economia solidária, conceito que talvez seja o grande paradigma econômico que o próprio Georg Simmel aponta esperar no fim de seu texto.



[1] Todas as citações de Georg Simmel foram extraídas do texto O indivíduo e a liberdade.

[2] A exposição da pirâmide das necessidades de Abraham Maslow foi extraída do livro de Ken Wilber, conforme referência ao final do texto.

 

 

REFERENCIAL TEÓRICO

 

BUCKE, R. M. Consciência cósmica: estudo da evolução da mente humana. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Renes, 1982.

SOUZA, J. & ÖELZE, B. Simmel e a modernidade. Brasília: UnB. 1998. p. 109-117.

WILBER, K. A visão integral: uma introdução à revolucionária Abordagem Integral da Vida, de Deus, do universo e de tudo mais. Tradução: Carmen Fischer. São Paulo: Editora Cultrix, 2008.

 

jun 242009
 
Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

Antônio José BORGES HERMIDA – compêndio de História do Brasil (1963)

2) RESUMO –   DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA e A EXPANSÃO MARÍTIMA

a) As ideias de Colombo


Na época dos descobrimentos, isto é, no século XV, já se sabia na Europa que a Terra tinha forma arredondada e, por isso, quem navegasse sempre para ocidente chegaria às Índias que ficam a oriente.
Um sábio nascido na cidade italiana de Florença, chamado Paulo Toscanelli, traçou um mapa em que figuravam a China, o Japão e a Índia. Mas, como Toscanelli julgasse que as dimensões da Terra fossem menores, aqueles países do Oriente eram localizados em regiões próximas das ilhas dos Açores e das Canárias. Acredita-se que Colombo obteve cópia desse mapa e, desde então, ficou convencido de que era possível atingir as índias pelo ocidente.
Antes de oferecer seus serviços aos reis de Espanha, Fernando e Isabel, Colombo esteve em Portugal, onde expôs seus planos a D. João II. Mas o soberano português já estava interessado no descobrimento de outro caminho, o que contorna a África, depois percorrido por Vasco da Gama.  Colombo, então, passou-se para a Espanha e lá esperou algum tempo até ser atendido porque os "reis católicos", Fernando e Isabel, estavam ocupados com a guerra contra os árabes, ainda senhores do pequeno  reino  de  Granada.
Expulsos os árabes em 1492, pôde Colombo, ainda nesse ano, partir do porto de Paios com três caravelas : Santa Maria, Pinta e Nina. Um de seus companheiros era Vicente Pinzón, que esteve no Brasil, numa outra viagem, em janeiro de 1500, antes, portanto, da expedição de Pedro Álvares Cabral. Nessa viagem Pinzón percorreu a costa do Norte, descobriu a foz do rio Amazonas, que chamou Mar Dulce, e o rio Oiapoque, que durante muito tempo teve o nome de Vicente Pinzón.


b) As viagens de Colombo


Em sua primeira viagem Colombo partiu de Paios, a 3 de agosto de 1492. Em meio do caminho os marinheiros ameaçaram revoltar-se e, conta-se, chegaram até a pensar em jogar Colombo ao mar. O grande navegador, porém, não desanímava e, a 12 de outubro, da caravela Pinta, foi dado um tiro de canhão, sinal de terra à vista: era a ilha de Guanaani, nome dado pelos índios e que passou a cha-mar-se São Salvador.
Colombo, entretanto, julgou haver chegado às índias e é por isso que os selvagens da América tiveram o nome de índios.  Em seguida partiu à procura de Cipango, nome que naquele tempo se dava ao Japão, e pensou haver chegado a esse país quando descobriu a ilha de Cuba; logo depois avistava a ilha de Haiti.
Na segunda viagem que fez ao Novo Mundo, com uma esquadra de dezessete navios, Colombo descobriu  as  ilhas  de Porto Rico e Jamaica. Na terceira, chegou a terra firme, na América do Sul, onde avistou a foz do rio Orenoco que êle chamou Boca de Dragão porque aí um temporal quase afundou seus navios.

VIAGENS DE COLOMBO
descoberta da américa colombo



viagens do descobrimento

cartas de colombo, navegaçõesEm   cima:    Chegada dos espanhóis
à América (gravação do século XVI).
Ao   lado:    Cristóvão   Colombo


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Nessa ocasião ocorreram desordens na povoação de São Domingos, na ilha de Haiti: os índios ameaçavam revoltar-se e os espanhóis estavam descontentes porque não haviam encontrado ouro. Os reis de Espanha, informados dessas ocorrências, enviaram à América Francisco Bobadilha que levou presos para a Europa Cristóvão e seu irmão Bartolomeu Colombo. O rei Fernando, porém, ordenou que os soltassem e o descobridor empreendeu a quarta viagem, que foi a última.



Na quarta viagem Colombo chegou outra vez a terra firme, na América Central, onde obteve informações sobre um oceano do outro lado do continente: era o oceano Pacífico que o espanhol Balboa descobriu e denominou mar do Sul. Também soube da existência de um rico império indígena, o dos astecas, situado no México.
Quando Colombo voltava para a Espanha, morreu Isabel (1504), a rainha que havia sido sempre sua protetora. Dois anos depois, em 1506, morria ele também, pobre e esquecido, na cidade de Valladolid.
Colombo não conseguiu realizar seu objetivo, o de chegar às Índias navegando para ocidente. Verificada a existência do continente americano, navegadores espanhóis e portugueses procuraram por sua costa uma passagem que ligasse o Atlântico ao Pacífico para, por meio deste oceano, chegar às índias. Essa passagem foi afinal encontrada por Fernão de Maga-lliãcs, português a serviço da Espanha, que havia partido do porto de Sevilha em 1519; sua expedição continuou sempre para ocidente e chegou novamente a Sevilha, depois de três anos de viagem, dando uma volta à Terra. Com essa expedição realizou-se o plano de Colombo: chegar às índias pelo ocidente.


c) Consequências do descobrimento da América


A primeira consequência do descobrimento da América foi a assinatura, em 1494, do Tratado de Tordesilhas, que separou as terras portuguesas das espanholas.
Cristóvão Colombo, quando voltava para a Europa, depois da primeira viagem à América, esteve em Portugal. Disse, então, ao rei D. João II que havia atingido as índias, mas esse soberano, desconfiando que as terras descobertas por Colombo já fossem conhecidas pelos portugueses, resolveu preparar uma expedição para percorrê-las. Essa expedição não chegou a partir porque as duas nações, Espanha e Portugal, concordaram em assinar o Tratado de Tordesilhas (junho de 1494).
Ficou estabelecido, pelo Tratado de Tordesilhas, que os domínios portugueses seriam separados dos de Espanha por um meridiano, situado a 370 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde. Todas as terras a leste desse meridiano seriam portuguesas e as que ficassem a oeste, espanholas.
O meridiano, chamado de Tordesilhas, passa pelo Brasil e corta seu litoral, ao norte, no lugar onde depois foi fundada a cidade de Belém e, ao sul, a de Laguna, no atual Estado de Santa Catarina. Desse modo o Brasil, descoberto seis anos depois, possuía um território menor que o atual, pois a maior parte de suas terras, como as do Rio Grande do Sul, ficava a oeste do meridiano e pertencia, portanto, à Espanha.
Outra consequência foi a propagação da civilização europeia pelas terras do Novo Mundo. Nessa obra distinguiram-se as ordens religiosas, principalmente a dos jesuítas, padres que muito trabalharam pela catequese dos índios.
Também com o descobrimento da América o Atlântico passou a ser o oceano de maior atividade comercial e até hoje mantém intenso tráfico entre o Novo Mundo e a Europa.
Finalmente, cita-se como consequência importante o descobrimento de riquezas minerais no continente americano. No Brasil essas riquezas só foram encontradas mais tarde pelos bandeirantes; mas nos outros países, como o Peru e o México, já as minas eram ativamente exploradas pelos índios, quando os espanhóis os descobriram. O ouro e a prata, levados da América em grande quantidade, tornaram ricas e poderosas as pessoas que não çram nobres mas que se dedicaram ao có mércio e às conquistas. Também contribuíram para a construção de grandes obras, como o famoso convento de Mafra, em Portugal.
colonização européia da américa



 


RESUMO. Descobrimento da América


a)  As ideias de Colombo


O plano de chegar às índias pelo ocidente: mapa de Paulo Toseanelli com a posição da China-, Japão e Índia.
Colombo cm Portugal: recusa de D. João II interessado em descobrir o caminho pelo litoral africano.
As dificuldades 11a Espanha: luta dos "reis católicos" contra os árabes.


b)  As viagens de Colombo


Primeira viagem: descoberta de Guanaani (12 de outubro de 1492), Cuba
o  Haiti.                                                                                                     
Segunda viagem:  descoberta  de Jamaica  e Porto Rico.
Terceira viagem: Colombo avista a foz do Orenoco (Boca do Dragão).
Quarta viagem:  Colombo chega  à America  Central.
Realização do plano de Colombo: a expedição de Magalhães chega às Índias pelo   ocidente.


c)  Consequências   do   descobrimento   da   América


O Tratado  de Tordesilhas  (junho  de  1494):   as terras portuguesas separadas das espanholas por um meridiano a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde.
Propagação  da   civilização   europeia  na  América:   obra   das   ordens   religiosas.
Outra   consequência:   importância   comercial   do   Atlântico,
Descobrimento de riquezas minerais: enriquecimento das pessoas que não eram nobres.


QUESTIONÁRIO

  1. Quem foi Paulo Toseanelli ?
  2. Por que D. João II não aceitou os planos de Colombo?
  3. Por que   Colombo   demorou  a  ser  atendido  na  Espanha ?
  4. Que era o Mar Dulce?
  5. Quando partiu Colombo para a primeira viagem ?
  6. Como foi a primeira viagem de Colombo ?
  7. Que   era   Cipango ?
  8. Que  descobriu Colombo na segunda viagem?
  9. Que era a’ Boca do Dragão?
  10. Por que Colombo foi preso?
  11. Quem conseguiu, pela primeira vez, chegar às Índias pelo ocidente?
  12. Que foi o Tratado  de Tordesilhas?
  13. Por onde passava no Brasil o meridiano de Tordesilhas?
  14. Que importância teve o descobrimento da América para o Atlântico?
  15. Que   consequências   teve   o   descobrimento   de   riquezas   minerais?

LEITURA A  tempestade


Durante  a   quarta viagem, Colombo  enfrentou violento  temporal no mar  da Antilhas.   É ele próprio quem conta:
"A tempestade chegou, e tanto me fustigou que não sabia para onde voltar-me. Meu antigo ferimento abriu novamente e, por nove dias,  dei-me por perdido, e não   tinha   mais   esperança   de   salvar-me.    O   mar   estava   mais   terrível   do   que jamais o vira, furiosamente revoltado e coberto de espuma,  o vento não só nos impedia de prosseguir, corno de tomar abrigo atrás de qualquer saliente do litoral. E   assim   vimo-nos   obrigados   a   nos   quedar   em   meio   àquele   mar   pavoroso que fervia   qual  caldeirão   em fogo  vivo.    Tampouco   o   céu   se  havia mostrado, em  outras  ocasiões, tão  assustador:   durante todo  um   dia  e  uma  noite refulgiu qual forja   de  um ferreiro;   os   relâmpagos   crepitavam   com   tal   intensidade   que. a  cada  momento  julgávamos fossem   eles   despedaçar,   a   um  só   tempo,   velas   e mastros.    E   rasgavam   tão   perigosamente   o   céu   em   nossa   direção   que   todos temíamos viessem a   destruir nossas  naus.
Durante todo esse tempo a água não  cessou  de jorrar  do céu;  nem  poderia
chamar  aquilo de chuva, pois era um cataclismo.   Tal o  desânimo  que reinava
entre os homens  que pediam  a morte jlara pôr um  fim  a  seus  padecimentos".
(Mundos  além  do  Horizonte:   Joachim   G,   Lkithaxisek   —  pág,   110)


viagens de vasco da gama

ago 032008
 
émile durkheim, pai da sociologia

Durkheim e a sociologia

émile durkheim, pai da sociologia

 

Jéferson Mendes[1]

Émile Durkheim nasceu em Épinal, no dia 15 de abril de 1858, região da Alsácia, na França. Iniciando os estudos em Epinal posteriormente partindo para Paris, no Liceu Louis Le Grand e na École Normale Superiéure (1879). Considerado um dos pais da sociologia moderna. Durkheim formou-se em Filosofia onde começou a interessar-se pelos estudos sociais.

Foi o fundador da escola francesa de sociologia, em 1887 quando é nomeado professor de padagogia e de ciência social na faculdade de Bordeaux, no sul da França. Suas principais obras são: Da divisão social do trabalho (1893); Regras do método sociológico (1895); O suicídio (1897); As formas elementares de vida religiosa (1912). Fundou também a revista L’Année Sociologique, que afirmou a preeminência durkheimiana no mundo inteiro. Durkheim morre em Paris, a 15 de novembro de 1917.

 

 

O fato social

Durkheim parte da idéia de que o indivíduo é produto da sociedade. Como cita Aron, “[...] o indivíduo nasce da sociedade, e não a sociedade nasce do indivíduo” (2003, p. 464). Logo, a sociedade tem precedente lógico sobre o indivíduo. Durkheim definiu como objetivo da sociologia o fato social, o entende como fato social, “[...] todos os fenômenos que se dão no interior da sociedade, por menos que apresentem, com certa generalidade, algum interesse social” (DURKHEIM, 1999, p. 1). Porém, dessa maneira poderíamos ver todos os acontecimentos como sendo um fato social, pois como Durkheim “[...] todo o indivíduo come, bebe, dorme, raciocina, e a sociedade tem todo o interesse em que essas funções se exerçam regularmente” (DURKHEIM, 1999, p. 1). Logo, se considerarmos esses objetos como sendo fatos sociais a sociologia perde o seu domínio próprio. Assim, “[...] só há fato social quando existe uma organização definida” (DURKHEIM, 1999, p. 4), como regras jurídicas, dogmas religiosos, morais, etc.

Dessa maneira, fato social, é,

[...] toda maneira de fazer, fixado ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda maneira de fazer que é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas manifestações individuais. (DURKHEIM, 1999, p. 13).

Para Durkheim o modo como o homem age está sempre condicionado pela sociedade, logo a sociedade é que explica o indivíduo, as formas de agir apresentam um tríplice caráter: são exteriores (provem da sociedade e não do indivíduo); são coercitivos (impostas pela sociedade ao indivíduo); e, objetivas (têm uma existência independente do indivíduo). Portanto, os fatos sociais são exteriores, coercitivos e objetivos.

A primeira regra fundamental é considerar os fatos sociais como coisas. Durkheim define coisas dizendo que “[...] as coisas sociais só se realizam através dos homens; elas são um produto da atividade humana” (DURKHEIM, 1999, p. 18). Assim,

É preciso portanto considerar os fenômenos sociais em si mesmos, separados dos sujeitos conscientes que os concebem; é preciso estudá-los de fora, como coisas exteriores, pois é nessa qualidade que eles se apresentam a nós. (DURKHEIM, 1999, p. 28).

Durkheim entende que Spencer e Comte declararam que os fatos sociais, são fatos naturais, porém não trabalharam os fatos sociais como coisas. Logo, para Durkheim a primeira regra é considerar os fatos sociais como coisas.[2] Dentro do pensamento positivista, deve-se eliminar completamente a influência dos fatos subjetivos e individuais, dessa maneira garantiria a imparcialidade e a neutralidade, portanto esse é o motivo de considerar o fato social como “coisas”.[3]

Em relação a este método, cabe assinalar duas coisas. Em primeiro lugar, que Durkheim compara a sociedade a um “corpo vivo” em que cada órgão cumpre uma função. Daí o nome de metodologia funcionalista para seu método de análise. Em segundo lugar, como se repete novamente a idéia de que o todo predomina sobre as partes. Para Durkheim, isso implica afirmar que a parte (os fatos sociais) existe em função do todo (a sociedade). (SELL, 2001, p. 136).

Assim, Durkheim procura identificar a vida social do indivíduo de acordo com a sociedade, e, que a sociedade possui um papel fundamental na vida social do indivíduo, esse holismo, holoiós, que em grego significa “todo”, assim que “[...] o todo predomina sobre as partes” (SELL, 2001, p. 130).

O suicídio

O suicídio como problema contemporâneo atravessa civilizações, nações passam por problemas, as pessoas sofrem de depressão e vêem como última alternativa o suicídio.[4] Ato improvável e indireto. O ser humano é um ser suicida. Duvido de seis bilhões de seres humanos na terra, qual não pensou em suicídio.[5]

Uma pessoa que está existencialmente insegura sobre seus diversos eus, ou se os outros realmente existem, ou se o que é realmente percebido existe, pode ser inteiramente incapaz de habitar o mesmo universo social como os outros seres humanos. (GIDDENS, 1991, P. 96).

O sentimento de culpa, a sensação de desconforto, afastamento emocional, perda de um familiar, qualquer fator que acarrete o ego como vítima, leva pessoas comuns a pensamentos levianos, na realidade não passa de um pensamento muitas vezes mecânico, onde a pessoa autoflagela seu inconsciente, levando ao desapego corporal a única tentativa de retaliação. Também, “[...] a presença de depressão, alcoolismo ou de dependência de drogas (geralmente drogas prescritas) como um fator de maioria dos casos. Aproximadamente um terço sofria de doença terminal ou de um distúrbio clinico crônico grave” (TOWNSEND, 2002, p. 642).

Alguns fatos curiosos, os protestantes têm mais probabilidades de se tornarem suicidas do que os católicos e os judeus; indivíduos de classe alta e baixa têm mais tendência a se tornarem suicidas do que indivíduos de classe média; com relação à ocupação funcional, o índice de suicídios é maior em médicos, músicos, dentistas, oficiais da lei, advogados e corretores de seguro do que na população geral. [6]

Sigmund Freud entendia o suicídio como a raiva que um indivíduo sentia por si mesmo, visto como um desejo reprimido antes de matar uma pessoa, um ato agressivo ao eu. Ghosh e Victor identificaram a desesperança como fator central que predispõe o indivíduo ao suicídio. Hendin identificou o desespero como fator preponderante.[7]

Emili Durkheim preocupou-se com o fato do suicídio na Europa, pesquisou o que ele considerou com sendo um fato social, estudou de forma concisa, propondo questões e elaborando sérias diferenças quanto ao suicídio. Durkheim entendia que o suicídio possui causas sociais. Segundo ele, “É nos grandes centros industriais que os crimes e os suicídios são mais numerosos [...]” (DURKHEIM, 1999, p. 15).

O que é comum a todas as formas possíveis dessa renuncia suprema é que o ato que a consagra seja completado com conhecimento de causa; que a vitima, no momento de agir, saiba o que deve resultar de sua conduta, qualquer que seja a razão que a haja levado a se conduzir dessa maneira. [...] Chama-se de suicídio todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vitima e que ela sabia que deveria produzir esse resultado. (DURKHEIM, 1984, p. 103)

O suicida sabe o que vai acontecer, como ira lesar o seu ato, qual será o resultado de sua ação. Durkheim procura explicar que o suicídio além de uma causa psicológica, psicopatológica ou mesmo causa de imitação, também possui causa social. Durkheim distingue 3 tipos de suicídio:

  • suicídio egoísta: quando o indivíduo não está integrado à instituição, sente separado da sociedade, distante das correntes sociais. Não existe integração o indivíduo não se sente parte integrante do grupo ou redes sociais que regulam as ações e imprimem disciplina e ordem (família, religião, trabalho, etc.), os indivíduos apresentam desejos que não podem satisfazer-se. Quando esse egoísmo acaba frustrando-se leva as ondas sociais de suicídio. Também pode aparecer quando a pessoa se desvincula das redes sociais, sofrendo de depressão, melancolia, e outros sentimentos.
  • suicídio altruísta: é o oposto do suicídio egoísta, o suicida altruísta se revela quando o indivíduo se identifica com uma causa nobre, com a coletividade, essa identificação deve ser tão intensa que este acaba renegando a própria vida pela sua identificação. Está excessivamente integrado ao grupo, frequentemente está regulada por laços culturais, religiosos ou políticos, essa integração acaba sendo tão forte que o indivíduo acaba sacrificando sua própria vida em favor do grupo (Mártires, Kamikases, etc.).
  • suicídio anômico: deve-se a um desregramento social, ocorre depois da mudança na vida de um indivíduo (ex: divórcio, perda de emprego), o que desorganiza os sentimentos de relação com o grupo em que não existem normas ou estas perderam o sentido. Quando os laços que prendem os indivíduos aos grupos se afrouxam.

O que Durkheim deixa claro nos tipos de suicídio estudados é a relação indivíduo-sociedade, o suicídio ocorre tanto pela falta da ação do indivíduo em determinada sociedade como pela pressão que está sociedade acarreta sobre ele. Adam Smith considerado o fundador da economia, século anteriores entendia que havia duas ações que levariam os homens a ampliar seus talentos, a busca de estima e o medo de desaprovação, talvez a falta do primeiro e a excessividade no segundo levaria a uma generalização do ego e tornaria frutífero o pensamento leviano nas pessoas. Porém, as causas do suicídio segundo Durkheim sempre são sociais. Durkheim considerava o crime como um fato social normal, já “[...] o suicídio era para ele um fato social patológico que evidenciava que havia profundas disfunções na sociedade moderna” (SELL, 2001, p. 146).

Da divisão do trabalho social

Os efeitos gerados pela Revolução Industrial eram assuntos pertinentes a diversos autores do século XIX e XX, Durkheim para explicar a modernidade busca o conceito de “divisão do trabalho social”, assim buscava identificar a formação de um novo método de trabalho ativava a fragmentação social, assim ocorreria o surgimento de esferas sociais. Logo, para Durkheim a divisão de tarefas também passa ser fonte de relação e interação social.[8] Porém,

Mas a divisão do trabalho não é específica do mundo econômico: podemos observar sua influência crescente nas regiões mais diferentes da sociedade. As funções políticas, administrativas, judiciárias especializam-se cada vez mais. O mesmo ocorre com as funções artísticas e científicas. Estamos longe do tempo em que filosofia era a ciência única; ela fragmentou-se numa multidão de disciplinas especiais, cada uma das quais tem seu objeto, seu método, seu espírito. (DUKHEIM, 1999, p. 2).

Assim, Durkheim identificava que a divisão do trabalho não se dava apenas pelo processo econômico, mas também em outras organizações, como nas funções artísticas, administrativas e políticas. Durkheim inicia discutindo qual é a função da divisão do trabalho. A divisão do trabalho tem como objetivo principal tornar a civilização possível, caso não fosse estaria tornando a moralidade neutra.[9]

Durkheim citando Heráclito a respeito das diferenças no qual entendia que a discórdia é o principio do de todo devir. Assim, parte da divisão em outras categorias, que “A dessemelhança, como a semelhança, pode ser uma causa de atração mutua” (DUKHEIM, 1999, p. 20). Logo, procuramos em nossos amigos as qualidades que nos faltam, que o homem e a mulher possuem suas diferenças, logo tanto a divisão do trabalho determina a relação de amizade, como a divisão do trabalho sexual é a fonte da solidariedade conjugal. [10]

Primeiramente é necessário buscar se existe uma solidariedade social que esteja sendo proveniente da divisão do trabalho. Dessa forma, é necessário determinar a solidariedade que ela produz interfere na integração da sociedade, assim para perceber até que ponto essa solidariedade é necessário.[11]

A solidariedade social, porém, é um fenômeno totalmente moral, que, por si, não se presta à observação exata, nem, sobretudo, a medida. Para proceder tanto a essa classificação quanto a essa comparação, é necessário, portanto, substituir o fato interno que nos escapa por um fato externo que o simbolize e estudar o primeiro através do segundo. (DURKHEIM, 1999, p. 31).

A solidariedade social, quando forte entre os homens inclina-os, colocando-os reciprocamente em contínuo contato, relacionando-se constantemente. Assim, quanto mais os membros da sociedade são solidários, mais eles mantêm relações uns com os outros, caso não mantessem contatos constantemente suas relações e mesmo sua dependência seria menor.[12] O que existe e vive realmente são as formas particulares de solidariedades, a solidariedade doméstica, a solidariedade profissional, a solidariedade nacional, etc. e esse estudo da solidariedade pertence ao estudo da sociologia, é um fato social que só pode ser conhecido através do estudo de seus efeitos sociais.[13] O direito que apresenta as formas essenciais de solidariedade social, dessa forma é necessário classificar as diferentes formas de direito para poder classificar as diferentes formas de solidariedade social. A principal idéia de direito é aquela que o divide em direito público e direito privado, o público regula as relações entre os indivíduos e o Estado, e o privado o indivíduo entre si. Porém, todo o direito é público, da mesma forma que todo o direito também passa a ser privado.[14]

Há dois tipos de sanções. Umas consistem essencialmente numa dor, ou, pelo menos, numa diminuição infligida ao agente; elas têm por objeto atingi-lo em sua fortuna, ou em sua honra, ou em sua vida, ou em sua liberdade, privá-lo de algo de que desfruta. Diz-se que são repressivas – é o caso do direito penal. É verdade que as que se prendem às regras puramente morais têm o mesmo caráter, só que são distribuídas de uma maneira difusa por todo o mundo indistintamente, enquanto as do direito penal são aplicadas apenas por intermédio de um órgão definido: elas são organizadas. Quanto ao outro tipo, ele não implica necessariamente um sofrimento do agente, mas consiste apenas na reparação das coisas, no restabelecimento das relações perturbadas sob sua forma normal, quer o ato incriminado seja reconduzido à força ao tipo de que desviou, quer seja anulado, isto é, privado de todo e qualquer valor social. Portanto, devemos dividir em duas grandes espécies as regras jurídicas, conforme tenham sanções repressivas organizadas ou sanções apenas restitutivas. A primeira compreende todo o direito penal; a segunda, o direito civil, o direito comercial, o direito processual, o direito administrativo e constitucional, fazendo-se abstração das regras penais que se podem encontrar aí. (DURKHEIM, 1999, p. 37).

Portanto, para entender a classificação da solidariedade, Durkheim parte do entendimento da necessidade de se entender as formas de direito que são estendidas em dada sociedade, se és aplicado o direito restitutivo ou o direito repressivo. Além de sua grande tese de doutorado, Da Divisão do Trabalho Social, também mostra a influência positivista. Durkheim entende que a sociedade passa por um determinado processo de evolução, essa evolução que está sendo provocada pela diferenciação social. Ocorrendo que a primeira etapa desse processo de evolução social Durkheim chamou de “sociedade de solidariedade mecânica”, já o que se refere à etapa final de “sociedade de solidariedade orgânica”. Assim, organiza da seguinte forma os dois tipos de sociedade.

Sociedade de solidariedade mecânica

Sociedade de solidariedade orgânica

Laço de solidariedade

Consciência coletiva

Divisão do trabalho social

Organização social

Sociedade segmentada

Sociedades diferenciadas

Tipo de direito

Direito repressivo

Direito restitutivo

Sociedade de solidariedade mecânica

A sociedade de solidariedade mecânica é na verdade um mecanismo de interação dos indivíduos nos grupos ou nas instituições sociais. Da mesma forma, acaba sendo representada pelas diferentes formas de organização na sociedade, segmentada ou diferenciada, também os tipos de direito, se este se baseia no princípio do direito repressivo ou restitutivo.

O vínculo de solidariedade social a que corresponde o direito repressivo é aquele cuja ruptura constitui o crime. Chamamos por esse nome todo ato que, num grau qualquer, determina contra seu autor essa reação característica a que chamamos pena. Procurar qual é esse vínculo é, portanto, perguntar-se qual a causa da pena, ou, mais claramente, em que consiste essencialmente o crime. (DURKHEIM, 1999, P. 39).

Dessa forma, Durkheim inicia trabalhando a diferença da sociedade de solidariedade pela pena, ou melhor, pelo crime que cada sociedade comete dessa maneira como o crime é dado como restituição do ato cometido. Assim “São todos os crimes, isto é, atos reprimidos por castigos definidos” (DURKHEIM, 1999, p. 40).

Nas sociedades de solidariedade mecânica os indivíduos vivem em comum porque partilham da consciência coletiva, assim partilham dos pensamentos em conjunto, elaboram a sua vida através da vida dos outros em praticamente todas as ações “[...] a sociedade inteira participa numa medida mais ou menos vasta” (DURKHEIM, 1999, p. 4).

Os indivíduos se assemelham muito existindo poucas diferenças entre eles, logo se assemelham pelos mesmos gostos, sentimentos, valores e reconhecem nos objetos as mesmas representações do sagrado, assim a semelhanças é enfim o ponto de fundamentação.[15] Portanto, “Nas sociedades dominadas pela solidariedade mecânica, a consciência coletiva abrange a maior parte das consciências individuais”. (ARON, 2003, p. 463).

Durkheim define a vida coletiva como “[...] um conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade, que forma um sistema determinado que possui vida própria” (DURKHEIM, 1995, p. 50). Logo, esse laço de solidariedade forma a consciência coletiva.

Nas sociedades primitivas, cada indivíduo é o que são os outros; na consciência de cada um predominam, em número e intensidade, os sentimentos comuns a todos, os sentimentos coletivos. (ARON, 2003, p. 459).

O grupo na sociedade de solidariedade mecânica prevalece, possui mais eqüidade, aparece mais, logo tem predomínio sobre o indivíduo. O indivíduo não possui relação com o mundo exterior. Logo, são tão semelhantes que pouco se caracterizam como diferenciais, abrindo poucos intervalos para individualidades. Os indivíduos comungam entre si, vivem a comunidade fazendo-se interações, como por exemplo, as sociedades indígenas.

Porém, como fazer transparecer isso,

[...] Durkheim, optou pelo estudo das normas jurídicas que, segundo ele, são um dos meios pelo qual a sociedade materializa (ou torna concreta) suas convicções morais, que são um dos elementos da consciência coletiva. De acordo com a forma pelo qual ele é organizado, o direito é o símbolo visível do tipo de solidariedade que existe na sociedade. Assim, nas sociedades de solidariedade mecânica temos o predomínio do direito repressivo, [...] o predomínio da punição. De acordo com a explicação de Durkheim, isto mostra a força da consciência coletiva sobre a vida dos indivíduos. (SELL, 2001, p. 140-41).

Assim, as normas jurídicas representam de certa forma a sociedade em que vivemos, repressiva ou restitutiva. Nas sociedades de solidariedade mecânica as punições são dadas aos indivíduos e estes não podem dela fugir ou mesmo fazerem-se livres, pois a punição faz com que a sociedade de coesão e não se danifique, logo não se admite violação das regras sociais. “Quanto mais forte a consciência coletiva, maior a indignação com o crime, isto é, contra a violação do imperativo social”. (ARON, 2003, p. 463). A punição não passa de uma lição aos outros indivíduos para que não façam o mesmo.

A organização social da sociedade de solidariedade mecânica é uma sociedade segmentada, da qual há a existência de poucas mudanças, onde os grupos vivem isolados, “[...] com um sistema social que tem vida própria” (SELL, 2001, p. 141). Logo, a manifestação com o exterior é escassa pelo fato que a sociedade sustenta-se por si mesmo. Assim, Durkheim as vê como as sociedades antigas.

É possível a existência de um grande número de clãs, tribos ou grupos regionalmente autônomos, justapostos e talvez até mesmo sujeitos a uma autoridade central, sem que a coerência por semelhança do segmento seja quebrada, sem que se opere, no nível da sociedade global, a diferenciação das funções características da solidariedade mecânica. (ARON, 2003, 461).

Assim as sociedades de solidariedade mecânica estão pouco passíveis de mudanças, geralmente encontram-se estagnadas, a diferenciação é dificultada, pois o enraizamento social está determinado, e, segue-se em etapas.

Sociedade de solidariedade orgânica

estrutura-social rede social

Nas sociedades de solidariedade orgânica os laços de solidariedade exigem a divisão do trabalho social, o tipo de organização social é de uma sociedade diferenciada, também o tipo de direito, diferente da sociedade de solidariedade mecânica, deve ser restitutivo. Durkheim vê como uma lei na história a passagem da sociedade de solidariedade mecânica para a sociedade de solidariedade orgânica.

É, pois, uma lei da história a de que a solidariedade mecânica, que, a princípio, é única ou quase, perde terreno progressivamente e que a solidariedade orgânica se torno pouco a pouco preponderante. Mas quando a maneira como os homens são solidários se modifica, a estrutura das sociedades não pode deixar de mudar. A forma de um corpo se transforma necessariamente quando as afinidades moleculares não são mais as mesmas. Por conseguinte, se a proposição precedente é exata, deve haver dois tipos sociais que correspondem a essas duas sortes de solidariedade. (DURKHEIM, 1999, 17).

A atividade é mais coletiva, os indivíduos dependem uns dos outros, devido à especialização de funções ou mesmo a divisão do trabalho social. Demonstra que nas sociedades ditas modernas as sociedades são altamente desenvolvidas e diferenciadas, assim cada indivíduo exerce funções diferenciadas.

Na realidade o que leva as pessoas a interarem-se é mesmo o progresso dos meios da especialização das funções que os indivíduos exercem entre si, ou mesmo em conjunto, logo os indivíduos acabam se tornando independentes das atividades em diferentes setores da vida social.

Como conclusão, Durkheim afirma que a divisão do trabalho social não pode ser reduzida apenas a sua dimensão econômica, no sentido de que ela seria responsável pelo aumento da produção, sendo está a sua função primordial. Ao contrário, a divisão trabalho social tem antes de tudo uma função moral, no sentido de que ela passa a ser o elemento chave para a integração dos indivíduos na sociedade. (SELL, 2001, 144).

Dessa maneira Durkheim entende que a verdadeira função da divisão do trabalho social possui como fator principal o sentimento de solidariedade entre os indivíduos de determinada sociedade. Porém, com a crescente diversificação das funções, cresce também o sentimento de individualidade entre os indivíduos, a consciência coletiva acaba perdendo seu papel de interação social. Portanto, os “[...] efeitos produzidos pela divisão do trabalho, contribuindo para manter o equilíbrio da sociedade” (DURKHEIM, 1999, p.223). Quanto mais o trabalho for dividido, maior rendimento terá.[16]

Mas, se a divisão do trabalho produz a solidariedade, não é apenas porque ela faz de cada indivíduo um “trocador”, como dizem os economistas; é que ela cria entre os homens todo um sistema de direitos e deveres que os ligam uns aos outros de maneira duradoura. (DURKEHIM, 1999, P. 429).

Com a suposta desestruturação coletiva ocorrem duas funções de interesses comuns, uma seria a autonomização dos indivíduos que elaborariam mais as suas tarefas, e se enquadrariam em seus desejos e anseios sociais, a segunda questão seria que essa autonomização do indivíduo também levaria a um egoísmo sem precedente, os próprios indivíduos entrariam em choque com eles mesmo, assim, “Temos uma divisão anômica do trabalho que, para Durkheim, era o grande problema da sociedade moderna” (SELL, 2001, p. 145).

Seguindo a lógica desenvolvimentista, Durkheim vê a mudança de sociedade como um processo gradual, que através da diferenciação social, ela iria evoluindo, entendendo que haveria três fatores para o desenvolvimento da sociedade.

  • Volume
  • Densidade material
  • Densidade moral

Assim, o volume caracterizaria como um suposto aumento do número de indivíduos de determinada sociedade, para que ocorra a diferenciação é preciso acrescentar a densidade, tanto à densidade moral quanto a material, a densidade moral, entraria nas comunicações e trocas que os indivíduos fazem entre si. Já a densidade material entraria no aspecto de indivíduos por porcentagem com relação à superfície do solo. Logo, quanto mais intenso for o relacionamento entre os indivíduos maior será a sua densidade. Assim, “[...] o crescimento quantitativo (volume) e qualitativo (densidade material e moral), ocorre na sociedade um processo de especialização das funções, chamado por Durkheim de divisão do trabalho social” (SELL, 2001, p. 143).

Bibliografia:

  • ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. Tradução Sérgio Bath. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  • DURKHEIM, Émili. As regras do método sociológico. [tradução: Paulo Neves; revisão da tradução Eduardo Brandão]. 2º. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • DURKHEIM, Emili. Émili Durkheim: sociologia / organizador (da coletânea) Josué Albertino Rodrigues; (tradução de Laura Natal Rodrigues). 3. ed. São Paulo: Ática, 1984.
  • GIDDENS, Antony. As conseqüências da modernidade. [tradução Raul Fiker]. São Paulo: Editora UNESP, 1991.
  • SELL, Carlos Eduardo. Sociologia Clássica. 4º ed. Itajaí: Ed. UNIVALI, 2002.
  • TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002.

[1] Professor/tutor nas áreas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Graduado em História pela Universidade de Passo Fundo. Pós-graduando em Sociologia pela Universidade de Passo Fundo. Pós-graduando em Educação a Distancia pela Faculdade de Tecnologia SENAC. Mestrando em História pela Universidade de Passo Fundo. E-mail: mendesjeferson@yahoo.com.br.

[2] DURKHEIM, Émili. As regras do método sociológico. [tradução: Paulo Neves; revisão da tradução Eduardo Brandão]. 2º. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 16.

[3] SELL, Carlos Eduardo. Sociologia Clássica. 4º ed. Itajaí: Ed. UNIVALI, 2002, p.132.

[4] O suicídio foi identificado como a terceira maior causa de morte (depois dos acidentes com veículos a motor e os homicídios) no grupo de 15 a 24 anos de idade (Murray & Zentner, 1997). A freqüência de suicídio em adolescentes triplicou nos últimos 30 anos (Murphy, 1994). Um dos principais fatores que contribuem pra este fato é o aumento dos distúrbios depressivos entre os jovens (Ghosh & Victor, 1994). Outros fatores de risco associados ao suicídio em adolescentes incluem a religião (menor probabilidade nos casos de católicos e judeus), ter pais portadores de doenças psiquiátricas (especialmente uso excessivos de drogas ou álcool), uma história de suicídio na família, desemprego paterno e ausência do pai ou da mãe (Slaby, Lieb & Tancredi, 1986). In: TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002, p. 206.

[5] Embora as pessoas com idade superior a 65 anos representem apenas 12 por cento da população, elas incluem uma taxa desproporcionalmente elevada de pessoas que cometem suicídio. De todos os suicidas, 17 por cento pertencem a esta faixa etária, e o suicídio é agora uma das primeiras 10 causas de morte entre a população idosa. In: TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002, p. 642.

[6] Saber mais. In: TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002, p. 206.

[7] TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002, p. 206.

[8] SELL, Carlos Eduardo. Sociologia Clássica. 4º ed. Itajaí: Ed. UNIVALI, 2002, p.138.

[9] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 18.

[10] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 22.

[11] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 30.

[12] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 31.

[13] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 34.

[14] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 36.

[15] ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. Tradução Sérgio Bath. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 458.

[16] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 224.

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Durkheim na Busca.
fev 102000
 

Lista de Livros Sugeridos para estudantes do ensino médio ou iniciantes em Filosofia



Após a leitura desta bibliografia você saberá as principais correntes e pensadores da História da Filosofia, além de adquirir uma boa base para futura especialização em alguma área e domínio do vocabulário técnico da filosofia. Note que alguns dos livros não tem apenas iniciantes como público-alvo, mas podem ser usados por estes sem problemas. Recomendo também uma busca no catálogo das bibliotecas da FFLCH – USP para achar os dados de publicações sobre filosofia em português ou em outras línguas.Esta lista serve tanto a estudantes aplicados do ensino médio quanto para pessoas de outras áreas que desejam adquirir mais solidez intelectual e conceitual em seus trabalhos. Os livros que menciono como estando no catálogo das editoras provavelmente podem ser adquiridos numa boa livraria, como a Livraria Cultura. Outros títulos podem ainda ser pesquisados em Sebos. Esta lista pode ser aumentada ou modificada ocasionalmente. Sobre a editora Martin Claret: Essa editora vêm publicando uma lista impressionante de obras clássicas de filosofia a um preço bem mais acessível que o de outras editoras, porém não recomendo que você adquira sequer um exemplar. Edições mal-cuidadas, traduções monstruosas, ou pior, plagiadas ou forjadas sob o nome de algum laranja de quem ninguém nunca ouviu falar são alguns dos problemas relatados dessa editora, embora eu não tenho como demonstrar isso agora. Prefira sempre uma grande casa, que tenha um responsável conhecido cuidando. Algumas editoras que costumam editar boas traduções de filosofia: Calouste Gulbenkian (Portugal), Edições 70 (Portugal), Martins Fontes, Companhia das Letras, Zahar Editores e as universitárias: UNESP, Edusp, Unb.


  Em primeiro lugar, a publicação mais séria, de grande pioneirismo e alcance na difusão da filosofia no Brasil e dos textos clássicos, foi editada pela Abril Cultural: a coleção “Os Pensadores”. Elaborada a partir dos anois 70, quando os departamentos de filosofia já amadureciam sua produção, idealizada por José Américo Mota Pessanha, esta coleção é composta de 54 volumes, cada um contém ou o principal livro do autor, ou alguns dos seus textos completos, ou ainda – como é o caso do volume Nietzsche – uma seleção de trechos. Além disso, há sempre uma introdução com vida e obra, coordenada por um profissional responsável, geralmente um estudioso do assunto. Os pensadores abordados são os mais importantes e clássicos da filosofia, e alguns volumes são dedicados a mais de um autor. O primeiro volume é uma História da Filosofia do Will Durant, que se encontra editada em várias outras versões (veja abaixo). Muitos dos livros e das traduções desta coleção também figuram em outras edições .

Existem várias edições de “Os Pensadores”. A melhor é a primeira, feita a partir de 1974, que tem uma capa azul dura. Ela é facilmente encontrada em vários sebos nos centros urbanos, e alguns inclusive vendem a coleção completa. Nesta primeira edição, a “vida e obra” vem em encartes separados, em papel de luxo com ilustrações coloridas. Geralmente os sebos vendem os livros sem o encarte, mas se você tiver sorte, pode achar os dois juntos. Além dos sebos, qualquer biblioteca que se preze em sua cidade há de ter esta coleção na seção de Filosofia. Isto também vale para os outros livros fora de catálogo citados neste índice.

Se você não conseguir achar a primeira edição, até a terceira edição – a de capa branca com a foto de um filósofo na capa, da década de 80 – mantém o conteúdo inalterado. As edições posteriores a essa, porém, fragmentam ou mutilam o conteúdo, portanto não é desejável que você as adquira.

Histórias da Filosofia

Evidentemente eu não estou a par dos últimos lançamentos nem conheço todos os livros de História da Filosofia, que formam um mercado editorial vastíssimo. Posso, porém , comentar e recomendar as seguintes Histórias da Filosofia :

  • Chatêlet, Fançois (direção) História da filosofia: idéias, doutrinas Zahar editores, 1974. R.J . Tradução. de Maria José de Almeida- em 8 volumes. Essa coleção é divida por períodos históricos e correntes filosóficas, e não por pensadores. São convidados diversos professores para escrever os artigos em cada área. Essa coleção pela Zahar está esgotadíssima, mas existe também uma tradução portuguesa pela Guimarães.
  • Bréhier, Emile. Historia De La Filosofia. Buenos Aires : Sudamericana, 1962 – em 3 volumes. Há uma tradução para português publicada pela editora Mestre Jou, mas está esgotadíssima. De qualquer forma, ela pode ser consultada em espanhol nesta edição argentina. Destaque para os textos de filosofia antiga, como o estoicismo, do qual o autor era um estudioso.
  • Russel, Bertrand . História da Filosofia Ocidental – em 4 volumes. Esse obra tem várias edições em várias editoras, por isso não coloquei nenhuma específica. Me parece que já faz algum tempo que ela não é reeditada, de qualquer forma, é bastante fácil de ser achada em sebos ou bancas de livros usados. Bertrand Russel é um importante matemático, lógico e filósofo científico. Desta forma, não é de se espantar que ele não limite sua tarefa de historiador a explanações sintéticas. Russel analisa os filósofos, criticando-os segundo suas opiniões, elegendo-os segundo uma “hierarquia”, chega mesmo a desqualificar alguns importantes, como Nietzsche e Platão. Essa história consta aqui porque é popular, mas eu particularmente não recomendo. Se quiser ler, leia com cuidado para não se deixar influenciar demasiadamente.
  • Reale, Giovanni . História da Filosofia Antiga. Giovanni Reale é um professor italiano especialista em Platão, atualmente um dos que mais conhecem filosofia antiga. Isso não transforma essa sua História da Filosofia Antiga em algo que só pode ser compreendido por eruditos. Pelo contrário, seu estilo explanatório e prolixo levará o estudante a tirar de letra os mais complexos conceitos da filosofia platônica, aristotélica etc. Apesar disso, também empurra para o estudante o resultados de suas reflexões originais, como a teoria das doutrinas não-escritas de Platão. É autor junto com Dario Antiseri de outra História da Filosofia. (ver abaixo). Esta obra se encontra no catálogo das livrarias, embora tenha um preço muito salgado.
  • Reale, Giovanni. e Antiseri, Dario. A História da filosofia. Editora Paulus. 1990. – em 3 volumes. Aqui temos um resumo de cerca de 30 páginas para os principais filósofos. O resumo é muito bem feito, no geral, e consegue explicar para os estudantes os principais pontos relativos a um autor. Feito para o colegial italiano, é mais avançado até que alguns cursos universitários brasileiros. É engraçado o enorme espaço dado aos filósofos italianos, como Maquiavel e Campanella. Estes volumes se encontram à venda nas principais livrarias. Agora está sendo também constantemente editado.
  • Durant, Will. História da Filosofia, em um volume. Bem, este é o primeiro volume dos Pensadores que mencionei acima. Embora, este livro tenha um escopo bem menor do que os outros até agora mencionados, resolvi incluí-lo. Will Durant é um escritor americano que consegue simplificar de forma absorvível as idéias contidas no livro principal de alguns autores. Ele comete algumas omissões intoleráveis para uma História da Filosofia que pretende abarcar todas as épocas, mas apresenta um bom resumo dos autores que aborda. É facilmente encontrado à venda.
  • Gilson, Etiénne. História da Filosofia Medieval. – Talvez não seja apropriado recomendar estes livros para iniciantes. Eles ganharam tradução pela editora Martim Fontes. Gilson é, talvez, o maior comentador de Filosofia Medieval que existe, seu livro traz tudo o que precisa ser conhecido sobre este período, com uma notável erudição. Adicionalmente, trata muito bem os filósofos modernos, especialmente os do século XVII.
Livros da Professora Marilena Chaui

Dentre os inúmeros campos de atuação desta professora – que vem formando gerações de filósofos -, se inclui a luta pela volta da filosofia para o segundo grau e a divulgação da filosofia para leigos. Neste aspecto, são particularmente interessantes estes três livros, adotados como padrão em muitas escolas .

  • Chaui, Marilena. Introdução à história da filosofia. Conteúdo do v.1- dos Pré-Socraticos a Aristóteles. Esta obra foi projetada para ser publicada em 3 volumes, porém até agora somente o primeiro volume – sobre filosofia antiga, foi lançado. Facilmente encontrado em livrarias.
  • Chaui, Marilena - Primeira filosofia : lições introdutórias : sugestões para o ensino básico de filosofia. – Esse eu não li, mas é bastante usado pelos professores do segundo grau. Existe um volume chamado Primeira Filosofia com textos preparados por professores da USP.
  • Chaui, Marilena – Convite a filosofia - Este é o livro mais clássico e completo da professora no quesito introdução à filosofia. A divisão do livro é muito interessante: temática, explana os principais tópicos da investigação filosófica para o aluno. Constantemente reeditado e revisto. A nova edição aborda na introdução o famoso filme Matrix.
Obras de Referência – Dicionários

Úteis tanto para estudantes avançados quanto para iniciantes, os dicionários de filosofia são, na verdade, indispensáveis. Eles ajudam a não nos perdermos em meio ao vasto vocabulário técnico da filosofia, e a não misturar o significado filosófico de um conceito com o seu uso corrente, como é o caso de vários verbetes : alienação, ceticismo, ética etc. Para uma apresentação de vários dicionários, ver essa seção do Diretório de Links do site.

  • Dicionário Básico de Filosofia – Hilton Japiassu e Danilo Marcondes. – Sem dúvida o melhor empreendimento deste gênero de autoria brasileira. Os verbetes vão direto ao ponto e procuram mostrar diversas definições de um mesmo conceito. Possui ainda verbetes com vários filósofos, explicando seu tópico central. Da Zahar Editores, facilmente encontrado nas livrarias.
  • Dicionário de Filosofía – de José Ferrater Mora .- Na minha opinião, o maior dicionário de filosofia já feito. Uma construção simplesmente monumental. Sua última edição revista e atualizada tem 4 volumes. Cada verbete gera praticamente um artigo, constituindo assim uma história dos conceitos. Há ainda um índice de filósofos e uma bibliografia para cada um deles. A tradução para o português é recente, mas não compre um resumo, somente o texto integral. O original é em espanhol, pela Editora Alianza, de Madrid. As versões antigas podem ser encontradas em sebos e as novas em livrarias estrangeiras. Em ambos o caso, o preço é caríssimo.
  • Dicionário de Filosofia – Niccola Abbagnano – com várias edições, em especial a da Editora Mestre Jou, de São Paulo 1982. – um dos mais completos e eficientes dicionários disponíveis. Facilmente encontrado nas livrarias.
  • Vocabulário Técnico e Crítico de Filosofia – De André Lalande, posteriormente ampliado pela Sociedade Francesa de Filosofia. Também com várias reedições, como a da Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996. Esse é o mais conhecido e usado dicionário. Dá ênfase à historiografia dos verbetes e às suas etimologias. Apresenta diversas citações no original, com suas respectivas traduções. Infelizmente, patina em alguns pontos, pois dá importância exagerada à alguns verbetes e praticamente ignora outros. Por exemplo, o verbete paradoxo meio que ignora o significado mais comum do termo na filosofia. De uma maneira geral, funciona muito bem até Kant, mas está ultrapassado para as correntes do século XX, principalmente da segunda metade do século XX. Facilmente encontrado em livrarias.
Comentadores específicos de um autor

Eis um ramo que tem crescido muito e no qual é preciso tomar cuidado para separar o joio do trigo. Como ainda estou empenhado nesta árdua tarefa, a lista se encontra extremamente enxuta.
  • Dicionários de Filósofos – é uma coleção editada pela Jorge Zahar com vários volumes já publicados. Embora eles pudessem constar na seção de Dicionários acima, decidi incluí-los aqui, pois são dicionários temáticos sobre um filósofo. Estes dicionários são elaborados por especialistas e trazem de 100 a 150 verbetes sobre os conceitos e as obras de um autor. Assim, se você quiser consultar, de forma breve, o que é direito natural em Locke, ou estado de natureza em Rousseau, ou o cogito em Descartes, a dialética em Hegel esta é a publicação adequada. Os principais verbetes ocupam várias páginas, e tem uma explanação bastante satisfatória. Eu conheço os volumes Rousseau, Locke, Descartes e Wittgenstein, embora haja outros que seguem o mesmo padrão. Editado recentemente.
  • Prefácio a Platão – de Erick Havelock. Este livro deve fazer parte da biblioteca básica de qualquer estudante de filosofia. O autor elucida a teoria de Platão traçando paralelos constantes com a cultura grega em geral. Disponível em livrarias
  • Sócrates – de Francis Wolf , ed. Brasiliente, São Paulo, 1982 – Este livreto faz parte da coleção “Encanto Radical” , que apresenta vida e obra de vários personagens da cultura, história, filosofia etc. O volume Sócrates é escrito por Wolff, um competente helenista francês. Disponível em livrarias
  • Nietzsche – Uma filosofia a marteladas – de Scarlett Marton. “Coleção Encanto Radical”. Embora a autora tenha refinado bem mais os escritos sobre sua paixão – Nietzsche – desde a publicação deste livro em 1983, ele se mantém uma interessante introdução em estilo ensaístico a este polêmico autor. Encontra-se em livrarias. Outros livros da mesma autora, que é professora da USP e coordenadora do Gen – Grupo de Estudos Nietzsche: Nietzsche – a Transvaloração dos valores – Extravagâncias – Ensaios sobre a filosofia de Nietzsche. Da mesma maneira, existem outros volumes da coleção Encanto Radical, como o volume sobre o filósofo Pascal, feito pelo professor Gérard Lébrun.
Alguns textos clássicos que podem ser absorvidos por iniciantes.

O diálogo em torno de um autor clássico nunca se esgota, e é por isso mesmo ele é considerado clássico. Mas você pode ter diversos níveis de leitura num mesmo texto. As releituras são sempre bem vindas, pois com elas amadurecemos as questões, fazemos relações e analogias, absorvemos melhor o conteúdo. Além disso, nenhum comentador pode substituir a leitura da obra de um filósofo, sem intermediações. Separei uma lista de textos clássicos que na minha opinião podem ser lidos pelos iniciantes em filosofia. Muitos destes textos se encontram na já citada coleção Os Pensadores. Os comentários a estes livros, muito simples, são dirigidos aos estudantes que ainda não os leram. A lista também é só uma sugestão, e poderia ser outra.

  • Apologia de Sócrates – de Platão. Disponível para leitura, sem maiores comentários aqui no nosso site. Este é um clássico absoluto. Platão apresenta como poderia ter sido a defesa de Sócrates diante do democrático tribunal ateniense, quando acusado por Anito e seus comparsas de corromper os jovens e negar os deuses do estado. Teria sido Sócrates realmente um mártir? Poderia ele ter escapado da sentença se assim desejasse? Teria a acusação sido feita pela militância aristocrática contra o regime de Péricles? Navegue por este livro para tentar achar as respostas.
  • A política - de Aristóteles – O livro-síntese do pensamento político clássico , trata das diferentes formas de governo e de organização social, segundo o significado original de política – as coisas relativas à Pólis. Diversas edições e traduções.
  • Confissões - de Santo Agostinho. – Este livro pode irritar os mais jovens, que tem uma relutância natural contra a prosa religiosa. Porém, quando estudado com calma se encontra – além das louvações do Santo – uma argumentação extremamente aguçada, concatenada e racional acerca dos problemas que afligem a humanidade: a origem do mal, a salvação divina, a relação entre fé e razão etc. Além disso, Agostinho praticamente inaugura o gênero autobiográfico com este livro. Prefira a edição da Martins Fontes.
  • Confissões – de Jean-Jacques Rousseau . Rousseau, que sempre criticou a hipocrisia da sociedade ocidental, escreve este livro de peito aberto, contando sua vida desde as mais remotas lembranças da infância, sem procurar louvar a sua pessoa ou satisfazer sua vaidade. Uma viagem introspectiva, psicológica, ao universo interior deste pensador importantíssimo que reformulou as ciências humanas. Eu tenho uma tradução antiga da Rachel de Queiroz, mas este livro também é constantemente reeditado.
  • O Príncipe – de Maquiavel . O que dizer do mais importante livro de política da Idade Moderna? Apenas que mudou a maneira de se ver o mundo. Escrito no contexto político da Itália na Renascença, que, segundo o autor, precisava ser unificada, este é o livro que separou a política da ética e da religião. Leia o livro e descubra porque simplificações e chavões como “os fins justificam os meios” não servem para resumir um autor. Disponível na internet e em milhares de edições fora dela.
  • A Utopia de Thomas More. – Este livro pode ser lido como um simples romance, embora naturalmente não o seja. Nele estão presentes a teoria política, a crítica social, a construção de valores, propostas científicas e éticas. Tão importante que cunhou o termo utopia, porém de leitura fluente e fácil. A edição da Martins Fontes é boa. Editado no Brasil desde as primeiras décadas do século XX.
  • Cândido – de Voltaire – Um dos melhores contos de Voltaire, critica abertamente o “otimismo leibniziano” que propõe este mundo como o melhor mundo possível de acordo com a Providência. O pessimismo de Voltaire se justificou ao observar o massacre de inocentes durante um terremoto em Lisboa. Cândido é um personagem ingênuo, que sai de sua terra natal e percorre o mundo – inclusive El Dourado na América – sempre lidando com a ganãncia e malignidade alheia. Pode ser lido em uma tarde, e é edificante e útil. Diversas edições e traduções.
  • Zadig – de Voltaire. – Outro dos contos de Voltaire, porém este tem um enfoque diferente. A trama se passa na Babilônia e Zadig é um exemplo de homem virtuoso que vive mil aventuras atrás de seu verdadeiro amor e acaba virando um rei. O interessante é que este livro, ao contrário de Cândido, desculpa a providência e os desígnios superiores. Uma opção barata é a edição da Ediouro.
  • O manifesto do Partido Comunista – de Marx e Engels. Está disponível em diversos sites na internet, depois que completou 150 anos de publicação. Um clássico indispensável para intelectuais de todas as áreas e tendências. Verdadeiramente bombástico, é cheio de efeitos retóricos, pois é dirigido ao grande público, ao contrário dos escritos mais “esotéricos” de Marx. O momento histórico tratado é o que viviam os operários e o partido comunista pela metade do século XIX. Apresenta uma brilhante interpretação do processo histórico que levou à ascenção da “mais revolucionária das classes – a burguesa” e à Revolução Industrial- que modificou toda a civilização, a sociedade, as relações de trabalho e os modos de produção. A frase-síntese desta análise já rendeu até um título de livro de Marshall Berman: “Tudo o que é sólido desmancha no ar” .

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