jun 172012
 
 

A SOCIOLOGIA EVOLUTIVA

  Ricardo Ernesto Rose   Jornalista, Graduado em Filosofia, Pós-graduado em Gestão Ambiental e Sociologia

1. A Sociologia Evolutiva

1. a) O que é a sociologia evolutiva e qual sua relação com a sociologia clássica?  

A sociologia evolutiva é ciência recente. Surgiu com este nome há cerca de trinta anos, como sucessora da sociobiologia. Esta nova área de estudos da sociologia tem sua base científica tanto nas ciências sociais, quanto nas biológicas e no neodarwinismo; a teoria da evolução de Darwin associada às descobertas genéticas de Mendel, chamada de síntese evolucionária moderna. A expressão foi proposta pelo biólogo Julian Huxley, em seu livro Modern Synthesis (Síntese Moderna) publicado em 1942. Outra disciplina associada à sociologia evolucionista é a psicologia evolucionista, igualmente fundamentada nos corolários teóricos do neodarwinismo e voltada para o estudo da mente humana.


 

Ainda pouco conhecida no Brasil, a sociologia evolutiva – também por vezes titulada como sociologia evolucionista – é mais praticada nos Estados Unidos, onde se desenvolveu, mesmo assim de maneira ainda limitada. Contando atualmente com alguns estudiosos famosos, como os sociólogos Robert Boyd (Universidade da Califórnia), Peter Richerson (Universidade da Califórnia Davis) e William Wimsatt (Universidade de Chicago), a disciplina ainda não é amplamente difundida, inclusive entre os sociólogos americanos. Assim, foi somente em 2006 que a ASA – American Sociology Association (Associação Americana de Sociologia) criou uma seção regular chamada Evolution and Sociology (Evolução e Sociologia), contado àquela época com pouco mais de 300 membros associados.Trata-se, portanto, de uma disciplina nova dentro da sociologia que, até onde pudemos pesquisar, ainda não tem uma rede regularmente estabelecida de especialistas no Brasil.

 

Por motivos que desenvolveremos adiante, a sociologia evolutiva em grande parte ainda é encarada com desconfiança por muitos sociólogos, sendo incorretamente associada com a antiga biossociologia ou sociologia biológica, que por muitos sociólogos foi considerada um reducionismo científico. No Brasil, já Gilberto Freyre em seu grande trabalho Sociologia – Introdução ao estudo dos seus princípios, cuja primeira edição data de 1945,referia-se à relação dos estudos sociológicos com a biologia da seguinte maneira:

 

A Sociologia, no seu primeiro esforço para firmar status de ciência,baseou-se quase exclusivamente sobre a Biologia,adotando-lhe a terminologia (organismo social, evolução, sobrevivência do mais apto) e por tal modo identificando o social com o biológico ou com osócio-biológico que acabou por não restar quase lugar nenhum, em tal sociologia biológica, para o cultural, muito menos dentro do cultural, para o elementohistórico-biográfico a que acabamos de nos referir.

 

Tentou-se a explicação do fato sociológico pelo fato biológico: do processo sociológico pelo processo biológico (FREYRE, p. 230, 1973 – negrito nosso).

 

No segundo volume da mesma obra o sociólogo brasileiro ainda dedica todo um capítulo à sociologia biológica. Freyre escreve que no final do século XIX, falando sobre as origens da sociologia, esta ainda tinha forte influência da biologia, tomando dessa a terminologia e o que Freyre chama de “a filosofia predominante dos biólogos: a (filosofia) evolucionista. Sobre a relação entre as duas ciências, o sociólogo brasileiro diz que os chamados sociólogos bioorganicistas querem “submeter à totalidade de fenômenos sociológicos e de cultura a processos biológicos e leis naturais”.

 

No caso de Freyre e de outros sociólogos da primeira metade do século XX, devemos levar em conta que naquela época a teoria da evolução ainda não dispunha dos sólidos fundamentos experimentais que só adquiriu ao incorporar a teoria genética,transformando-sena síntese evolucionária moderna. Este avanço científicodeu-sedurante os anos 1930 e 1940 nos Estados Unidos e Inglaterra e lentamente se popularizou ao longo das décadas seguintes. Assim, antes disso, havia certo receio de que a sociologia fosse influenciada em demasia pelo evolucionismo, transformando a ciência em uma sociologia biológica. Mesmo assim a teoria da evolução despertava o interesse de muitos sociólogos, que a utilizavam como método de trabalho em suas pesquisas, empregando o evolucionismo como base daquilo que o sociólogo Robert K. Merton chamou de “sistema global de teoria sociológica”. Os trabalhos desenvolvidos por estes estudiosos, no entanto, tiveram apenas um papel secundário na posterior estruturação do corpus doutrinário da sociologia.

 

Até hoje as relações entre a sociologia evolutiva e a sociologia clássica ainda não estão claras. Se, por um lado, os sociólogos evolucionistas estão convencidos de trabalharem com uma nova ciência sobre bases científicas, por outro os sociólogos clássicos, em sua maioria, ainda encaram a sociologia evolucionista como um reducionismo ou, na melhor das hipóteses, uma biologia que toma emprestado expressões e temas da sociologia. “Porque de todas as ciências sociais, a sociologia é a disciplina mais resistente a um diálogo com a biologia e com a teoria evolutiva. Quanto mais nos aproximamos das especialidades centrais da sociologia, maior a resistência”, escreve o sociólogo André Luiz Ribeiro Lacerda.

 

1. b) Como se originou a Sociologia Evolutiva?

 

As primeiras idéias da sociologia evolutiva tiveram sua origem nos anos 1950, quando o neodarwinismo começou a ser aplicado aos estudos das comunidades de símios antropomorfos – os orangotangos, gorilas, chimpanzés, bonobos e gibões–;as espécies de macacos mais aparentadas com o homem. Estudando estes animais em seus ambientes naturais e descrevendo suas organizações sociais, antropólogos, primatólogos e etólogos descobriram que havia muita similaridade entre as sociedades dos macacos e a humana. A partir dos anos 1960 a teoria neodarwinista já estava sendo utilizada em outras áreas do conhecimento, gerando grande quantidade de dados científicos nos campos da zoologia (Goodall), paleontologia e antropologia física (Leakey) e ecologia (Odum), entre outros.

 

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Em 1975 o biólogo americano Edward Osborne Wilson lança Sociobiology – The new synthesis (Sociobiologia – A nova síntese), livro que reunia informações de recentes pesquisas sobre o comportamento animal e desenvolvia novas idéias sobre a seleção natural. No capítulo final de seu livro, Wilson faz uma projeção destes dados sobre as sociedades humanas, entrando no terreno da sociologia. Em relação a esta ciência Wilson escreve:

 

Considere a perspectiva (futura) para a sociologia. Esta ciência está agora no estágio de história natural de seu desenvolvimento. Houve tentativas de construir um sistema, mas, como na psicologia, elas foram prematuras e não foram suficientes. Muito do que em sociologia é considerado atualmente teoria, é na realidade, classificação de fenômenos e conceitos, na maneira como é feito na história natural. O processo é de difícil análise, porque as unidades fundamentais são vagas, talvez inexistentes. As sínteses geralmente consistem em tediosas referências cruzadas de diferentes conjuntos de definições e metáforas elaboradas pelos mais imaginativos pensadores (WILSON, p. 574, 2000 – tradução e negrito nossos).

 

Os conceitos apresentados na publicação se alinhavam com os trabalhos de biólogos e zoólogos famosos à época, como George Williams(1926-2010),William Hamilton(1936-2000),John Maynard Smith(1920-2004)e Robert Trivers (1943). Com seu trabalho, Wilson apresentou pela primeira vez ao grande público as teorias que especialistas já utilizavam há anos em seus laboratórios e blocos de anotações: de que grande parte do comportamento humano tinha também origem genética e não somente social. O assunto em si não era novo tendo já sido abordado por Charles Darwin no século XIX. No entanto a maneira como Wilson apresentou a teoria causou grande impacto à época. R. S. Machalek, do departamento de sociologia da Universidade do Wyoming escreve com relação aos objetivos práticos da sociobiologia:

 

Quando aplicado ao estudo das sociedades humanas, o escopo da análise sociobiológica foi expandido, para incluir fenômenos sociais mais complexos e mais amplos, como sistemas familiares e de parentesco, sistemas de estratificação, padrões criminais e causadores do crime, relações étnicas, urbanização e industrialização, evolução social. A diversidade de sociedades humanas e de comportamentos sujeitos à análise evolucionista dos sociólogos contemporâneos continua a se expandir (Machalek, s/d – tradução e negrito nossos).

 

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Sociobiology recebeu críticas negativas, tanto por parte de outros biólogos quanto do mundo acadêmico. Colegas de Wilson, como o paleontólogo Stephen Jay Gould e o geneticista Richard Lewontin, atacaram o conteúdo da publicação,classificando-a como “proponente da eugenia e do darwinismo social”, entre outras coisas. Sobre as críticas que caíram sobre o biólogo e sua obra, escreve o psicólogo evolucionista Steven Pinker:

 

Também acusaram Wilson de discutir “as salutares vantagens do genocídio” e de fazer “instituições como a escravidão […] parecerem naturais em sociedades humanas devido à sua existência universal no reino biológico”. Para o caso de a relação não estar suficientemente clara, um dos signatários escreveu em outro texto que “em última análise, foram os textos da sociobiologia […] que forneceram a estrutura conceitual pela qual a eugenia foi transformada em prática genocida” na Alemanha nazista (PINKER, p. 159, 2004).

 

Pinker toma a defesa de Wilson, admitindo que o biólogo tenha utilizado alguns dados imprecisos e elaborado raciocínios incorretos em partes do seu trabalho. Escreve que, no entanto, as críticas feitas a Wilson através de manifestos e até por livros (o biólogo Marshall Sahlins com Uso e abuso da biologia) não são justificadas. Todo o desenrolar dos ataques à sociobiologia, envolvendo alguns dos mais famosos biólogos americanos e ingleses (como Stephen Rose, Leon Kamin, Richard Dawkins, além dos já citados), bem como lances de falseamento de dados científicos, calúnia e difamação, são descritos em vários detalhes por Pinker em um capítulo de seu clássico Tábula Rasa – A negação contemporânea da natureza humana. Na obra o psicólogo rebate todas as críticas e demonstra que – ao contrário do que diziam os objetores da sociobiologia – o ser humano ao nascer não é uma tábula rasa, isto é, dispõe de um cérebro que já tem algum conteúdo preexistente, transmitido geneticamente.

 

Os principais críticos da sociobiologia, termo que foi substituído pela expressão sociologia evolutiva a partir do final dos anos 1990, negam que caracteres adquiridos através da evolução e transmitidos pelos genes possam influenciar o comportamento social humano – alguns até ignoram completamente a existência destes caracteres, como o psicólogo Skinner. Argumentam que caso isso fosse possível, uma série de práticas consideradas desumanas, como o darwinismo social, seriam aceitáveis. A Enciclopédia

 

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Stanford de Filosofia (Stanford Encyclopedia of Philosophy) escreve que os opositores da sociobiologia humana defendem que seus modelos são inadequados para serem aplicados ao comportamento humano, porque ignoram a contribuição da mente e da cultura; baseiam-se no determinismo genético e aprovam tacitamente o status quo. Sobre a confusão normalmente feita por aqueles que não conhecem a teoria da evolução e suas implicações, escreve o zoólogo Frans de Waal em Der Affe in uns – Warum wir sind, wie wir sind (O macaco em nós – por que somos como somos):

 

Dado o popular uso e mau uso da teoria da evolução, quase não causa surpresa que o darwinismo e a seleção natural tenham se tornado sinônimo de competição desenfreada. Darwin mesmo era tudo menos um darwinista social. Ele acreditava, ao contrário, de que na natureza humana como também no ambiente natural a convivência teria seu lugar. (DE WAAL, p. 232, 2006 – tradução e negrito nossos).

 

1. c) Quais ciências e correntes de pensamento contribuíram para a formação da sociologia evolutiva?

 

A sociologia evolutiva é produto intelectual do neodarwinismo e de pesquisas de campo em diversas áreas ligadas à biologia, etologia, genética, citologia e outras ciências afins. Para explicar as bases teóricas da sociologia evolutiva, abordaremos sucintamente: a) O neodarwinismo; e b) A psicologia evolutiva.

 

O neodarwinismo:

 

A teoria da evolução de Darwin surgiu em 1859, com a publicação de A origem das espécies. O cientista só lançou sua teoria depois de uma preparação de mais de 20 anos em pesquisas, precedida por uma viagem de estudos por todo o globo. Uma parte da teoria, o conceito de mutação ou transformação das espécies, já era conhecida e tida como provável por grande parte do público instruído do início do século XIX e até antes. O próprio avô de Darwin, Erasmus Darwin (1731-1802), já havia elaborado um esboço de uma teoria da mutação das espécies (Zoonomia, 1792) que teve considerável impacto no meio científico inglês da época. A grande inovação da teoria de

 

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Darwin, portanto, foi explicar cientificamente como ocorria a evolução das espécies em todos os seus aspectos.

 

Darwin estruturou sua teoria da seleção natural em torno dos seguintes pontos:

 

a)As espécies evoluem através dos tempos. A geologia e a paleontologia, já na época de Darwin, provavam que no passado outros tipos de criaturas povoavam a Terra;

 

b)Espécies aparentemente diversas têm um ancestral comum; fato comprovado por Darwin, tanto na pesquisa com animais domésticos quanto com espécies selvagens. A mais acalorada discussão sobre este ponto da teoria de Darwin foi com relação aos antepassados e à evolução do ser humano;

 

c)A transformação evolutiva sempre acontece gradualmente (gradualismo) e nunca aos saltos (saltacionismo). Este aspecto da teoria de Darwin sempre foi motivo de críticas, inclusive de seus colegas, como Thomas H. Huxley. Tal parte da teoria da evolução, no entanto, começou a se provar verdadeira quando da elaboração da síntese evolucionista, com a ajuda da teoria genética. Mesmo assim o debate continua em nossos dias (Stephen Jay Gould e outros);

 

d)A multiplicação das espécies resulta em grande diversidade. Darwin explicou este aspecto de sua teoria como sendo causado pelo isolamento geográfico de grupos pertencentes originalmente à mesma espécie. A comprovação final deste aspecto da teoria da evolução também ocorreu com a ajuda da teoria genética;

 

e)A seleção natural, a parte mais inovadora e importante da teoria da evolução. Diz basicamente que dentro de uma grande variedade de indivíduos (a multiplicidade de espécies) ocorre um processo seletivo por mecanismos sexuais e de sobrevivência (acasalamento, ambiente, concorrência por alimento). Como resultado deste processo, apenas alguns indivíduos sobrevivem, que então transmitem suas características aos seus descendentes. Este ponto também ficou posteriormente provado, quando se  verificou que a transmissão das singularidades – e de eventuais mutações – ocorre através do gene.

 

Segundo o biólogo alemão Ernst Mayr, a teoria da evolução passou por etapas distintas. A princípio aceita com entusiasmo, perdeu gradualmente sua força como teoria científica, porque muitos pontos de sua argumentação só puderam ser definitivamente provados no decorrer do século XX, notadamente após sua composição com a teoria genética. Sendo assim, coincidentemente na época da estruturação da sociologia no final do século XIX e início do século XX, a teoria da evolução exercia muito mais influência intelectual como filosofia e ideologia, do que como ciência.

 

Nesta parte do texto faremos um parêntesis para esclarecer interpretações incorretas do neodarwinismo, quando aplicado ao estudo humano como na sociologia evolutiva. Por vezes a crítica se vale das expressões “a sobrevivência do mais apto” em seu sentido tendencioso, fora do contexto da teoria da evolução; e “darwinismo social”, numa acepção que não tem relação alguma com o pensamento de Darwin. O mal-entendidorepetido ad nauseam, geralmente por aqueles que não conhecem o assunto, está baseado em fatos que ocorreram no final do século XIX. Nesta época o filósofo, biólogo e sociólogo inglês Herbert Spencer criou a expressão “a sobrevivência do mais apto” (Princípios de Biologia, 1864). Spencer, grande polímata, contribuiu em diversas áreas do conhecimento de sua época, tendo sido forte defensor do liberalismo econômico. Como cientista social e biólogo, sua interpretação da Origem das Espécies de Darwin era parcial, porque projetava incorretamente aspectos da teoria de Darwin sobre a sociedade inglesa da época, que apresentava grandes problemas sociais, comparáveis aos dos países em desenvolvimento atuais. Cientificamente, Spencer tinha fortes influências do lamarckismo – que dizia que o uso propicia o desenvolvimento ou desaparecimento dos órgãos –, teoria elaborada por Lamarck (1744-1824) e refutada cientificamente pela teoria da evolução. Spencer uniu sua visão deturpada de Darwin às suas posições de política social e econômica – defendendo a eliminação da ajuda aos pobres e atuando como arauto de um intransigente laissez-faireeconômico – e acabou fazendo muitos adversários intelectuais e inimigos políticos. Esta posição de Spencer foi chamada por seus

 

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opositores à época de “darwinismo social” – talvez mirando em um alvo, mas querendo acertar outro. Depois disso, na década de 1930, o darwinismo social reapareceu ligado a movimentos políticos direitistas, confundindo a idéia de progresso ininterrupto com evolução. Nessa linha de raciocínio, um indivíduo mais adaptado é aquele que ocupa uma posição social ou econômica superior, ou seja, os pobres são como são porque são evolutivamentemal-sucedidos.Este determinismo reducionista nada tem a ver com a teoria da evolução.

 

Este foi um dos motivos pelos quais havia grande cuidado entre os primeiros sociólogos em não deixar que a “filosofia dos biólogos” (o evolucionismo, nas palavras de Gilberto Freyre) influenciasse as bases da sociologia. Provavelmente também foi a razão de outros expoentes do pensamento sociológico, como Durkheim, Simmel, Weber, eTalcott-Parsons,entre outros, pouco ou em nada se referiram ao evolucionismo darwiniano.

 

Atualmente, com o acúmulo de dados da geologia, paleontologia, biologia, ecologia, etologia, entre outras ciências, o conhecimento científico permite dar uma forma mais elaborada e científica à teoria da evolução. Ponto importante é que esta não é teleológica, isto é, não se prevê um objetivo na teoria da evolução; a evolução (transmutação segundo Darwin) age aleatoriamente através dos genes. O que atualmente se conhece como “teoria do desenho inteligente”, hipótese de que a evolução é dirigida (por Deus) e de que tem um objetivo determinado, não tem fundamento científico. A ciência prova que toda a evolução ocorre por acaso, baseada em mutações apresentadas pelos indivíduos, que as transmitem aos seus descendentes. Estas transformações fazem com que as espécies atualmente existentes se desenvolvam gradualmente em outras. Estas, se sobreviverem às condições ambientais, terão igualmente grande variedade de descendentes, dos quais novamente só sobreviverão alguns, que terão que se adaptar e sobreviver no ambiente novo – o exemplo de um mar, que ao longo de milhões de anos vai secando e se transformando em um deserto como o Saara, permite imaginar o quanto espécies têm que se adaptar para sobreviver. A teoria da evolução, apesar de bem fundamentada por Darwin, possuía uma grande lacuna. Devido ao total desconhecimento da teoria genética, não era possível demonstrar como se dava o processo de seleção e como as mutações aleatórias eram transmitidas aos descendentes. Sobre este ponto escreve Mayr:

 

A dificuldade começa com a descrição exata do processo de seleção. Depois de ter descoberto seu novo princípio, Darwin buscou uma terminologia apropriada e pensoutê-laencontrado com o termo “seleção” (1859), que os criadores de animais utilizavam para seu estoque reprodutor. No entanto, como Herbert Spencer e depois Alfred Russel Wallace o alertaram, não existe na natureza um agente, que, como os criadores,

 

“selecione o melhor de todos”. Em lugar disso, os beneficiários da seleção são os indivíduos que restam depois que os menos aptos foram eliminados. A seleção natural, portanto, é um processo de “eliminação não aleatória”. A frase de Spencer,

 

“sobrevivência do mais apto”, foi de todo legítima, desde que o termo “mais apto” seja apropriadamente definido

 

(Mayr, 1963: 199) como sucesso reprodutivo (ibidem, p. 156, 2005 – negrito nosso).

 

Com a redescoberta da teoria genética no início do século XX, esquecida desde a morte do monge e biólogo Gregor Mendel(1822-1884),os biólogos se deram conta de que o gene seria o componente que faltava para explicar uma grande quantidade de fatos da biologia, previstos na teoria da evolução. Hoje, quanto mais evoluem as pesquisas na área da genética, microbiologia e biotecnologia, tanto mais fica fundamentada a exatidão da teoria da evolução.

 

A psicologia evolutiva:

 

Já em Principles of Psychology (Princípios de Psicologia, 1890), o psicólogo e filósofo americano William James, influenciado pela teoria evolução, afirmava que a menos que tenha rudimentos de conhecimento inato, a mente humana não poderia incorporar a imensa quantidade de fatos e conhecimentos que absorvia. Contrariando a moda do empirismo que imperava na filosofia e ciência da época, James afirmava que os seres humanos dispunham de tendências inatas, que não provinham somente da experiência, mas do processo darwiniano de seleção natural. Escreve sobre William James o biólogo Matt Ridley:

 

William James afirmava que os seres humanos tinham mais instintos que os outros animais, e não menos. “O homem possui todos os impulsos que têm [as criaturas inferiores], e muitas outras além destas (…) Será observado que nenhum outro mamífero, nem mesmo o mico, mostra um leque

 

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tão amplo deles”. Ele afirmou que era falso opor o instinto à razão (RIDLEY, p. 56, 2003 – negrito nosso).

 

As idéias de James contribuíram para a criação da psicologia funcionalista e chegaram a fazer escola com seu discípulo William McDougall. O funcionalismo, no entanto, foi eclipsado por outras escolas de psicologia ao longo do século XX, como a escola behaviorista ou comportamentalista, de orientação empirista. Esta, fortemente representada em todas as ciências humanas, foi gradativamente adquirindo hegemonia,transformando-sena base teórica da psicologia.

 

Em toda a sua história, a psicologia nunca chegou a estabelecer um pensamento único sobre os seus pressupostos básicos em relação ao empirismo ou funcionalismo (nativismo). Assim, uma das grandes dificuldades é a construção de uma história desta ciência. Usualmente tem se descrito o desenvolvimento da psicologia em uma seqüência cronologicamente ordenada

 

– porém não logicamente correta–,no que se refere à análise dos problemas e tentativas de soluções. No entanto, as posições com relação aos fundamentos desta ciência, mesmo entre seus precursores – com exceção de William James e alguns outros – nunca chegaram a ser claras.Desenvolveram-seassim várias teorias sobre o funcionamento da mente, sem que fosse dada grande importância à maneira como operaria o substrato de todo o sistema: o cérebro. A maior parte dos autores encarava este órgão como uma massa de certa maneira amorfa, dotada de algumas propriedades, que, no entanto, pouca influência tinha no funcionamento da mente – exceção seja feita a casos de malformação, acidentes ou doenças, que já eram conhecidos desde a Antiguidade e afetavam a atuação da mente.Referindo-seao pensamento de Wilhelm Wundt(1832-1920),um dos fundadores da psicologia, em relação à maneira como este encarava sua ciência, escreve o filósofo José Antonio Damásio Abib:

 

Para Wundt, a psicologia como ciência é psicologia empírica. E, como tal, interpreta a experiência psíquica a partir da própria experiência psíquica; deduz os processos psíquicos de outros processos psíquicos; faz uma interpretação causal de processos psíquicos com base em outros processos psíquicos; não recorre a substratos diferentes destes processos, tais comomente-substância ou processos e atributos da matéria paraexplicá-los (ADIB, p. 197, 2009 – negrito nosso).

 

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O mesmo vale para outro expoente da psicologia – mais especificamente psicanálise –,Sigmund Freud. Apesar de estar envolvido desde o princípio de sua carreira com a pesquisa psicológica estudando a histeria com o psiquiatra Charcot (1825-1893),Freud nunca estabeleceu uma posição em relação ao empirismo ou funcionalismo. Winograd em Freud e a Filogenia Anímica, escreve que:

 

Freud aderiu às idéias de Darwin e participava dos esforços para demonstrar os caminhos da evolução. Porém seu darwinismo não o impediu de fazer uso de outras teorias evolutivas, o que custou críticas severas à psicanálise (WINOGRAD, 2007).

 

Diferentemente de James, ao que parece, Freud nunca tentou associar sua teoria da mente aos pressupostos do evolucionismo – provavelmente por metodologia de trabalho.

 

Escreve Ripley que o pensamento que imperou por muito tempo na psicologia (e em outras áreas como a sociologia e a antropologia) tinha como característica o que é conhecido como tábula rasa. A expressão latina que literalmente quer dizer “tábua raspada” e é utilizada no sentido de “folha em branco”, foi inicialmente empregada pelo filósofo inglês John Locke (1632- 1704) em seu Ensaio Acerca do Entendimento Humano. Considerado o principal expoente do empirismo inglês e o ideólogo do liberalismo, Locke dizia que o homem nascia com a mente em branco, sem idéias inatas; ao contrário do que diziam filósofos anteriores como Descartes (1596-1650) e Malebranche (1638-1715). Para estes, o ser humano já vinha ao mundo munido de conceitos como “Justiça”, “Bem”, “Deus” e vários outros, colocados em sua alma pela divindade. Locke, ao contrário, dizia que tais idéias o homem adquiria ao longo da vida, através do processo de interação com seu ambiente, formando desta maneira sua personalidade. O princípio da tabula rasa, associado ao empirismo, permeou toda a filosofia ocidental até praticamente o século XX, e ao mesmo tempo exerceu forte influência sobre todo o desenvolvimento do pensamento científico, culminando com o início da psicologia e da sociologia, na segunda metade do século XIX.

 

Mas, havia algumas vozes que destoavam deste coro de unanimidades. Charles Darwin em sua obra A expressão das emoções no homem e nos animais (1872), fez uma descrição das várias expressões faciais e corporais de

 

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diversos tipos de animais, de acordo com a emoção que sentiam. Em seguida mostrou as reações dos macacos, para então descrever pormenorizadamente (documento por fotografias da época) as diferentes expressões gestuais e faciais dos seres humanos, quando estavam sentindo as mais variadas emoções. O objetivo de Darwin, evidentemente, foi mostrar que existe uma ligação entre as expressões e reações humanas e as dos outros animais. De seu trabalho conclui Darwin:

 

Pelo que sabemos, apenas uns poucos movimentos expressivos, como aqueles aos quais acabamos de fazer referência, são aprendidos individualmente; isto é, foram realizados consciente e voluntariamente nos primeiros anos de vida com algum objetivo definido, ou por imitação, tornando-sedepois habituais. A grande maioria dos movimentos expressivos, inclusive os mais importantes, é inata ou hereditária, como vimos; eles não podem ser dependentes da vontade do indivíduo. Entretanto, todos aqueles incluídos sob nosso primeiro princípio foram de início desempenhados voluntariamente com um objeto definido, a saber, fugir de alguma ameaça aliviar um sofrimento ou satisfazer um desejo (DARWIN, p.299-300, 2012 – negrito nosso).

 

A partir da década de 1920, com a diminuição da influência do funcionalismo de William James, o behaviorismo e o comportamentalismo, de origem empirista, passam a dominar não só a psicologia (com John B. Watson e B. F. Skinner), mas também a antropologia (Franz Boas), a psicanálise (Sigmund Freud) e a sociologia (Émile Durkheim, que foi aluno de Wundt e exerceu grande influência teórica sobre Freud).

 

Em 1958, analisando um trabalho sobre a linguagem (Comportamento Verbal, 1957) do psicólogo Burrhus F. Skinner – o maior expoente do behaviorismo à época – o linguísta Noam Chomsky defendeu a tese de que era impossível uma criança aprender as regras da linguagem somente através de exemplos da experiência, fato já intuído por James setenta anos antes. Afirmava que a criança deveria ter as regras inatas, pelas quais o vocabulário da linguagem é fixado. Para o linguísta, as gramáticas gerativas das línguas individuais são variações de um único padrão, que Chomsky denominou de gramática universal. Sobre esta descoberta, escreve Matt Ridley em Genome – The autobiography of a species (Genoma – A autobiografia de uma espécie):

 

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Estudando a maneira como os seres humanos falam, Chomsky concluiu de que há similaridades na base de todas as línguas, o que prova a existência de uma gramática universal humana. Todos nós sabemos como usá-la,embora raramente estejamos cônscios desta habilidade. Isto deve significar, de que parte do cérebro humano vem equipada por seus genes com uma habilidade especializada para aprender línguas. Simplesmente, o vocabulário não pode ser inato, ou nós todos falaríamos uma só invariável língua. Mas talvez uma criança, ao adquirir o vocabulário de sua sociedade nativa, insira estas palavras em um jogo de regras mentais inatas (RIDLEY, p. 93, 1999 – tradução e negrito nossos).

 

Muitos psicólogos evolucionistas consideram a teoria de Chomsky como uma das primeiras confirmações de uma estrutura cerebral inata, mostrando que já nascemos com certas capacidades mentais herdadas. Chomsky atualizou sua teoria em 1984, com a teoria de princípios e parâmetros. Atualmente, apesar de diversos críticos da teoria (Dell Hynes, Dan Everett e outros), esta ainda não foi definitivamente refutada.

 

Grande parte dos psicólogos e psiquiatras considera que se estruturas cerebrais herdadas existem, estas são irrelevantes para o estudo da ciência psicológica. Entretanto, atualmente já existem outras disciplinas como a neurologia, que vem avançando na pesquisa da mente e também trabalham com a hipótese de que esta contenha informações preexistentes. O neurologista português Antonio Damásio em Der Spinoza-Effekt – Wie Gefühle unser Leben bestimmen (O efeito Spinoza – Como sentimentos determinam nossa vida) faz uma análise da influência dos sentimentos no comportamento humano. Para o cientista, os sentimentos e as emoções são reações do corpo sobre o cérebro e demonstra que desde o nascimento não há maneira de separar um do outro. Sobre a questão da mente do tipo tabula rasa, escreve o autor:

 

Aqui eu talvez devesse complementar minha discussão com mais esclarecimentos. Quando eu digo que a mente é formada por idéias, que de uma ou de outra maneira são representações do corpo no cérebro, facilmente se poderia chegar à idéia de que o cérebro é uma folha em branco, que virgem e intocado aguarda que o corpo lhe inscreva sinais. Nada poderia ser mais errado. O cérebro não principia como tabula rasa. Já no início de sua existência, ele dispõe do conhecimento, como o organismo deve ser “acionado”, ou seja, como o processo vital deve ser dirigido e como um grande número de acontecimentos do mundo exterior deve

 

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ser dominado. (DAMASIO, p.238-239, 2003 – tradução e negrito nossos).

 

Outro autor originário da neurologia, o neurocientista David Eagleman, ainda vai mais longe e dá uma autonomia muito maior ao cérebro; não só em relação ao fato de conter informações preexistentes, mas até quanto ao próprio controle que temos desse órgão durante nosso tempo de vida. Eagleman escreve quanto ao aspecto funcionalista do cérebro:

 

O cérebro é um sistema complexo, mas isto não significa que seja incompreensível. Nossos circuitos neurais foram gravados pela seleção natural para resolver problemas que nossos ancestrais enfrentaram durante a história evolutiva de nossa espécie. Seu cérebro foi moldado por pressões evolutivas, assim como seu baço e os olhos. E o mesmo ocorreu com a consciência. A consciência se desenvolveu porque era vantajosa, mas vantajosa apenas de forma limitada

 

(EAGLEMAN, p. 14, 2012 – itálico do autor, negrito nosso)

 

Em todo seu livro Incógnito – As vidas secretas do cérebro o autor desenvolve a teoria – fundamentada por inúmeros fatos científicos – de que nosso controle sobre o cérebro, nossa mente, é muito menor do que imaginávamos. O cérebro escreve Eagleman, já é geneticamente dotado de um programa de funcionamento, e nossa mente consciente em muitas ocasiões é apenas um coadjuvante desnecessário de nossas ações – fato que não pode ser o resultado de aprendizado, interações sociais ou experiências. Apesar de este não ser o tema da obra, o livro de Eagleman é um forte argumento científico contra na crença da tábula rasa:

 

A primeira lição que aprendemos no estudo de nossos circuitos é simples: a maior parte do que fazemos e sentimos não está sob nosso controle consciente. A vasta selva de neurônios opera seus próprios programas. O você consciente – o eu que ganha a vida quando você acorda pela manhã – é a menor parte do que se revela de seu cérebro. Embora sejamos dependentes do funcionamento do cérebro em nossa vida interior, ele cuida de seus próprios negócios. A maior parte de suas operações está acima do espaço de segurança da mente consciente. O eu simplesmente não tem o direito de entrar. (EAGLEMAN, p. 14, 2012 – itálico do autor, negrito nosso).

 

Para finalizar estes comentários sobre as diversas teorias que formam as diferentes correntes psicológicas, é preciso ressaltar o fato de que nunca houve e há cada vez menos consenso sobre o campo próprio da pesquisa

 

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psicológica. Até hoje ainda não existe uma idéia comum sobre o conceito de comportamento e as relações – biológicas e psicológicas – entre a sociedade humana e animal. Para alguns especialistas como Jacques Cosnier, autor de Clefs pour la psychologie (Chaves para a psicologia, 1971), a psicologia não seria mais uma ciência que estuda o comportamento, mas que se ocupa dos processos intercomunicativos, com raízes na biologia e na linguística. Cosnier considera que a fase comportamentalista da psicologia estaria ultrapassada, dada a impossibilidade de superar o hiato entre teoria e prática. Assim, seguindo a linha argumentativa de Cosnier, daqui para frente a discussão na psicologia parece ser clara: é possível continuar com as práticas comportamentalistas, atuando na ponta final do sistema (exteriorizada pelo comportamento humano); oupode-se enveredar por técnicas que também levem em consideração o substrato genético do cérebro e da mente – fato mais que demonstrado por diferentes correntes da psicologia e aprofundado cada vez mais pela neurologia.

 

Especialmente nos Estados Unidos, despontaram nos últimos trinta anos vários especialistas em diversas áreas influenciados pela sociobiologia. Em sua maior parte, tais profissionais atuam nos campos da biologia, antropologia, psicologia, filosofia e sociologia, utilizando-se,sob diversas formas, do ferramental teórico da psicologia evolutiva. Walter Neves, biólogo, antropólogo e arqueólogo brasileiro, responsável pelo estudo de Luzia – o esqueleto humano mais antigo do continente americano – escreve o seguinte sobre a psicologia evolutiva no prefácio ao livro A pré-história da mente, de Steven Mithen:

 

A psicologia evolutiva tem crescido muito no exterior e grande parte dos profissionais envolvidos nessa abordagem é formada por antropólogos, tendo se tornado, na verdade, uma nova subárea da antropologia evolutiva. Esta última, para ser praticada em nível aceitável, requer que os profissionais envolvidos tenham uma grande erudição sobre o fenômeno humano no espaço e no tempo. Requer, também, que esses profissionais acreditem, ainda que apenas parcialmente, que é possível identificar as relações de causa e efeito no comportamento social humano […] (NEVES in MITHEN, p. 10, 2002).

 

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Por um lado a maior parte dos sociólogos e psicólogos ainda considera a mente um mecanismo de aprendizado geral, sem qualquer conteúdo prévio ao nascermos. O conhecimento e as idiossincrasias comportamentais são adquiridos através da interação cultural. De acordo com esta teoria da mente, a biologia tem um papel secundário, quase irrelevante. No entanto, muitos antropólogos chegaram à conclusão que como melhor hipótese de trabalho, a mente deve ser encarada como um sistema de módulos, com diferentes funções. Segundo essa concepção do formato da mente, nosso cérebro levou milhões de anos para evoluir e para desenvolver suas capacidades.

 

Esta é a hipótese da psicologia evolutiva, teoria formulada pela primeira vez no início da década de 1980, pelo filósofo e cientista cognitivo americano Jerry Fodor. Nos anos 1990 foi desenvolvida pelo antropólogo John Tooby e pela psicóloga Leda Cosmides. Segundo a psicologia evolucionista, a constituição biológica tem uma forte influência em nossa maneira de pensar. A mente é formada por vários sistemas cognitivos especializados, cada qual dedicado a um tipo específico de comportamento. Os autores da psicologia evolutiva comparam a mente a um canivete suíço com várias lâminas, uma para cada função. Por isso, ao nascermos, nosso cérebro já está de certa maneira preparado – devido aos sistemas cognitivos especializados – a enfrentar o mundo. Em um artigo escrito em 2010, descrevi as principais características da psicologia evolutiva da seguinte maneira (baseado no texto original dos autores Evolutionary Psychology: a primer):

 

A psicologia evolutiva, segundo Cosmides e Tooby, estuda: 1) Cérebros; 2) Como cérebros processam informações; 3) Como os programas de processamento de informações do cérebro geram comportamento. Se assumirmos que a psicologia é um ramo da biologia, várias ferramentas poderão ser aplicadas à psicologia. Os cinco princípios básicos, utilizados como métodos pela psicologia evolutiva, são:

 

1º Princípio: O cérebro é um sistema físico, que atua como um computador. Seus circuitos são projetados para gerar comportamento que seja apropriado às nossas circunstâncias ambientais. O cérebro é um sistema físico, cuja operação é governada unicamente pelas leis da química e da física. Sua função é processar informações, ou seja, é um computador feito de componentes à base de carbono. Nesta estrutura, neurônios são conectados uns os outros, de uma maneira altamente organizada e são por sua vez conectados aos

 

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circuitos neurais, que percorrem o corpo humano. Receptores sensórios são conectados a neurônios, que transmitem informação ao cérebro. Em suma, os circuitos do cérebro são projetados para gerar movimento, respondendo às informações do ambiente. A função do cérebro, este computador “molhado”,

 

é gerar comportamento que seja apropriado às circunstâncias encontradas pelo restante do corpo no ambiente.

 

2º Princípio: O sistema neurônico e neural foi projetado pela seleção natural, para resolver problemas que nossos ancestrais enfrentaram durante a história evolutiva de nossa espécie. Nossos circuitos neuraisformaram-se para resolver problemas adaptativos, ou seja, como o organismo sobrevive: o que come, de quem é presa, com quem se acasala, com quem se associa, como se comunica, e assim por diante.

 

3º Princípio: A consciência é apenas a ponta do iceberg; a maior parte do que ocorre no cérebro permanece desconhecido. Como resultado, nossa experiência consciente pode nos iludir efazer-nos pensar que a estrutura da mente é mais simples do que parece. A maior parte dos problemas que experimentamos como fáceis de resolver são difíceis – requerem um circuito neural bastante complexo. A complexidade do funcionamento da mente humana é muito grande. Podemos apresentar grandes generalizações, que, todavia não explicam como a estrutura efetivamente funciona.

 

4º Princípio: Diferentes circuitos neurais são especializações para resolver diferentes problemas de adaptabilidade. Segundo a psicologia evolutiva, temos todos estes circuitos neurais especializados, porque o mesmo mecanismo raramente é capaz de atender diferentes necessidades de adaptação, como escutar, enxergar, sentir raiva, medo, náusea, etc. Consequentemente, o cérebro deve ser composto de grandes grupos de circuitos, com diferentes subcircuitos, especializados para resolver diferentes desafios.

 

5º Princípio: Nosso moderno crânio abriga uma mente da Idade da Pedra. A seleção natural levou muito tempo para produzir suas mudanças e construir novos circuitos em nossos cérebros. Quase 99% do tempo de existência de nossa espécie despendemos comocaçadores-coletores. Nossos ancestrais viviam em pequenos grupos nômades, com poucas dúzias de indivíduos, obtendo seu alimento diário – quando disponível – caçando animais e colhendo plantas. Desta forma, a chave para entender o funcionamento da mente moderna é compreender que seus circuitos não foram projetados para problemas diários de um cidadão moderno – foram desenvolvidos para problemas diários de nossos ancestraiscaçadores-coletores. Isto, todavia, não quer dizer que nossa mente não tenha mecanismos de aprendizado, capazes de permitir que criemos novos ambientes e nos adaptemos a eles (ROSE, 2010 – negrito nosso).

 

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1. d) Em que pressupostos científicos se baseia a estrutura teórica da sociologia evolutiva?

 

Fizemos uma breve apresentação, ressaltando os pontos mais importantes das duas principais bases teóricas da sociologia evolutiva: o neodarwinismo e a psicologia evolutiva. Esta última efetivamente é uma conseqüência, em sua teoria e prática, da sociobiologia de Wilson. Cabe ressaltar, que em nossa metodologia de análise da questão, consideramos que é exatamente a psicologia evolutiva, com seus pressupostos teóricos sobre o funcionamento da mente, que trará os argumentos e as fundamentações científicas para uma abordagem da sociologia sob o aspecto do neodarwinismo.

 

Pesa ainda sobre a psicologia evolutiva a imagem de ser um reducionismo e para alguns um determinismo genético. No entanto, se isto fosse efetivamente assim, as próprias descobertas da psicologia, antropologia, paleontologia, genética, neurologia e demais ciências refutariam esta teoria. É muito provável, como acontece com todas as teorias – principalmente aquelas envolvendo os seres vivos – que muitos pontos daqueles defendidos por Cosmides e Tooby venham a ser revistos; é a prática do próprio processo científico. No entanto, é pouco provável que certos fatos básicos da psicologia evolutiva sejam negados, mesmo no futuro. Dificilmente poderá se provar o contrário de que, assim como todos os outros animais, também nascemos com certos instintos e condicionamentos. Apesar de várias pesquisas estarem em andamento nesta área, será tarefa da psicologia no futuro analisar o grau de influência dos genes sobre as emoções, comportamentos e idéias dos indivíduos. Como escreve Steven Pinker:

 

Significa apenas que os sistemas hereditários de aprendizado, sentimento e pensamento, possuem uma organização que, no ambiente onde evoluíram nossos ancestrais, terá conduzido, em média, a maiores chances de sobrevivência e reprodução (PINKER, p. 84, 2004).

 

Nunca, evidentemente, será possível explicar a complexa realidade da vida – e principalmente da experiência humana – baseado somente em uma

 

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teoria genética e algumas outras conseqüências práticas e teóricas. O que como corolário também quer dizer que nem todos os aspectos da vida humana são produtos do gene; a cultura também tem um papel importante. Quanto a esta questão, que os cientistas americanos chamam de dilema nature and nurture (algo como “qualidades inatas versus experiência”), escreve o zoólogo

 

Matt Ridley:

 

Devo me repetir para ser absolutamente claro. Não há nada de factualmente errado em afirmar que os seres humanos são capazes de aprender, ou que podem ser condicionados a associar estímulos, ou a reagir a recompensas e punições ou qualquer outro aspecto da teoria do aprendizado. Esses são fatos verdadeiros e tijolos essenciais na parede que estou construindo. Mas não se segue daí que os seres humanos não têm instintos, e menos ainda que os seres humanos sejam incapazes de aprender se têm instintos. As duas coisas podem ser verdadeiras (RIDLEY, p. 240, 2003).

2. A proposta da sociologia evolutiva

2. a) Alguns aspectos da sociologia clássica

 

Nesta parte do trabalho apontaremos algumas características da sociologia clássica e as compararemos com a sociologia evolutiva. O objetivo de nossa argumentação é demonstrar que a sociologia evolutiva é uma nova disciplina na sociologia clássica, que não pretende – e nem pode –suplantá-la,mas que tem condições de atuar na pesquisa sociológica com uma teoria básica específica, o neodarwinismo. O principal instrumento que esta nova disciplina utiliza é a psicologia evolutiva, não necessariamente em seu formato atual, já que também esta psicologia está em fase de construção, como toda ciência. Em nossa abordagem, consideramos importantes as seguintes palavras de Lacerda:

 

Vista a partir das especialidades estruturalmente sociológicas, as áreas centrais dominadas por generalistas que zelam pela tradição da teoria sociológica, a teoria evolutiva não pode ajudar na explicação do comportamento social humano. Para sociólogos não faz sentido pensarmos os comportamentos sociais humanos em termos de causas últimas. A teoria da evolução é aceita para explicar nossa anatomia só até o pescoço. Para um sociólogo tradicional, o comportamento social humano é moldado inteiramente pelo processo de

 

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socialização, que é um processo exclusivamente sociocultural. O advento da psicologia evolucionista nos anos de 1990 ajudou a popularizar explicações do comportamento social humano que conjugam causas últimas com causas próximas, mas a sociologia continua como a última trincheira contra as explicações neodarwinistas do comportamento humano (LACERDA, pag. 2, 2009 – negrito nosso).

 

Inicialmente abordaremos alguns tópicos em relação à sociologia clássica, baseados em textos de sociólogos conhecidos. Em relação à sociologia clássica, trataremos: a) Seus pressupostos teóricos básicos; b) Sua metodologia de pesquisa; c) Seus principais objetos de pesquisa.

 

Com relação aos pressupostos básicos da sociologia observamos que esta ciência não dispõe de um corpo unitário de premissas teóricas básicas; uma teoria unificada na qual se acomodam os tijolos teóricos com os quais se constroem as metodologias e seus objetos de pesquisa. Sobre isso, escreve o sociólogo americano Robert K. Merton:

 

A predileção dos sociólogos do século XIX em desenvolver cada um seu “próprio sistema” de sociologia – e que se manifesta ainda hoje em certos setores significa que os mesmos são elaborados, tipicamente, como sistemas opostos de pensamento, mais do que consolidados num produto cumulativo (MERTON, p. 37, 1970 – negrito nosso).

 

Esse aspecto dos estudos sociológicos, caracterizando a falta de uma base na qual os autores possam desenvolver seu sistema, dá mais força à interpretação de que a sociologia não é uma ciência unificada. O sociólogo André Luiz Ribeiro de Lacerda, referindo-seao surgimento da sociobiologia e à reação na área da sociologia, relata que o acontecimento provocou aumento das críticas em relação à natureza do conhecimento sociológico clássico. Se anteriormente Merton já desaprovava a falta de uma linha-mestrana ciência (como vimos no texto acima), a celeuma só acabou aumentando.

 

Nos anos 1970, Gouldner (o sociólogo americano Alvin W.Gouldner, 1920-1980) diagnosticou uma crise na sociologia ocidental. Uma crise teórica e metodológica que se manifestou na fragmentação da disciplina. A recepção hostil que a sociobiologia recebeu no mainstream foi contrabalanceada pela simpatia de alguns sociólogos, que se manifestaram e continuam a se manifestar, intensificando críticas à sociologia e ampliando o diagnóstico de Merton e Gouldner (LACERDA, p.160, 2009 – itálico e negrito nosso).

 

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Merton, por seu lado, não tem ilusões a respeito de uma teoria unificada permeando os estudos sociológicos, já que escreve:

 

As páginas seguintes levam a admitir que essa procura por um sistema global de teoria sociológica, no qual as observações sobre todos os aspectos do comportamento, da organização e da mudança social, encontrariam prontamente seu lugar preordenado, têm o mesmo desafio estimulante e as mesmas promessas insignificantes daqueles sistemas filosóficos que procuravam tudo abarcarem e que caíram num merecido esquecimento (MERTON, p. 57, 1970 – negrito nosso).

 

Merton neste comentário praticamente nega a possibilidade de uma teoria científica básica na sociologia. Na filosofia, Merton parece estar se referindo aos grandes pensadores sistemáticos, como Aristóteles, Tomás de Aquino e, especialmente, Georg W. F. Hegel, cujo sistema tinha a pretensão de encampar e explicar toda a realidade humana. Mas isto já seria esperar demais de uma ciência humana como a sociologia, que se propõe a explicar e não só interpretar, como a filosofia. Merton até faz referência a alguns sociólogos, como Comte e Spencer, que tentaram construir sistemas abrangentes. Outros, como Gumplowicz (1838-1909),Ward (1841-1913)e Giddings (1855-1931),experimentaram elaborar um arcabouço teórico que se destinava “a guiar a investigação de problemas sociológicos específicos, dentro de uma estrutura provisória e evolutiva”, segundo Merton. Na praxis sociológica, entrementes, não existe uma teoria central, como a teoria tectônica das placas na geologia e geografia ou a teoria da oferta e demanda na economia.

 

Com relação à metodologia na sociologia, ainda nos baseamos em Merton, em seu clássico Sociologia – Teoria e Estrutura:

 

A condição das ciências físicas e biológicas permanece muito diferente das ciências sociais e da sociologia em particular. Se o físico, como tal, não tem necessidade de impregnar-sedos Princípios de Newton, e o biólogo, como tal, não precisa ler e reler A origem das espécies de Darwin, o sociólogo, mais como sociólogo do que como historiador da sociologia, tem amplos motivos para estudar os trabalhos de Weber, Durkheim e Simmel e até mesmo para remontar, ocasionalmente, às obras de Hobbes, Rousseau, Condorcet, e Saint Simon (Ibidem, p, 48 – negrito nosso).

 

Em mais este aspecto a sociologia se aproxima de ciências como a filosofia, a psicologia e a história. O cerne do aprendizado se dá através da

 

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leitura dos clássicos da disciplina, descobrindo os modelos de trabalho intelectual estabelecidos pelos fundadores; Comte (1798-1857),Marx (1818- 1883), Weber (1864-1920),Durkheim (1858-1917),Tönnies (1855-1936),Simmel (1859-1918),Talcott-Parsors(1902-1979),Mannheim (1893-1947)e muitos outros. Tudo aliado à observação empírica e um ceticismo metodológico, a fim de eliminar os aspectos “incontroláveis” do processo de investigação. Assim, é através dos clássicos, os libri fecondatori (livros fecundadores) segundo o escritor Salvemini, que o pesquisador também poderá identificar um bom problema sociológico a ser estudado. Em outras palavras:seguem-se os mestres, mesmo sabendo que estes tinham opiniões diferentes e às vezes divergentes. Ainda sobre o método sociológico, escreve Merton a título de recomendação para os futuros profissionais:

 

A teoria sociológica se pretende progredir de modo significativo, deve prosseguir nestes planos interconexos, 1) desenvolvendo teorias especiais das quais possam derivar hipóteses que permitam ser investigadas empiricamente e, 2) evolvendo (e não revelando repentinamente) um esquema conceptual progressivamente mais geral, adequado a consolidar grupos de teorias especiais.

 

Concentrar-nosexclusivamente em teorias especiais traz-noso risco de ficarmos envolvidos em hipóteses específicas que explicam aspectos limitados do comportamento, organizações e mudanças sociais, mas que permanecem mutuamente inconsistentes (Ibidem, p. 63).

 

Para finalizar este subcapítulo sobre a sociologia clássica, cabe discutir ainda sobre quais seriam os objetos de estudo da sociologia. Neste caso, existem várias orientações genéricas. Não entraremos em detalhes, apenas mencionaremos algumas interpretações de sociólogos famosos. Para Augusto Comte, considerado tradicionalmente o fundador da ciência sociológica, a sociologia deve-seconcentrar no estudo da ordem e do progresso social. Émile Durkheim, considerado o sistematizador da ciência, ensina que o objeto de estudo da sociologia são os fatos sociais, os quais difíceis de serem estudados têm como características a generalidade, a exterioridade e a coercitividade. Como amostras de fatos sociais, Durkheim cita as leis e as religiões. Como exemplo desta metodologia, citamos um trecho de seu As regras do pensamento sociológico:

 

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Conseguimos, então,representar-nos,de um modo preciso, o domínio da sociologia. Este só compreende um determinado grupo de fenômenos. Um fato socialreconhece-sepelo poder de coerção externa que exerce ou o suscetível de exercer sobre os indivíduos; e a presença desse poder se reconhece, por sua vez, pela existência de uma sanção determinada ou pela resistência que o fato opõe a qualquer iniciativa individual que tende aviolá-la.(DURKHEIM, p.37-38,2002).

 

Outra figura precursora da sociologia, como o alemão Max Weber, afirma sinteticamente que o objeto de estudo da sociologia são as conexões e a significação das manifestações culturais por trás dos fatos sociais. Weber assim define os objetivos da sociologia:

 

A ciência social que nós pretendemos praticar é uma ciência da realidade. Procuramos compreender a realidade da vida que nos rodeia e na qual nos encontramos situados naquilo que tem de específico; por um lado, as conexões e significação cultural das suas diversas manifestações na sua configuração atual, e por outro, as causas pelas quais se desenvolveu historicamente assim e não de outro modo (WEBER apud COHN, p. 88, 1989).

 

Dadas as características da sociologia clássica em relação à teoria, à metodologia e aos objetos de pesquisa expostos acima, concluímos que a sociologia evolutiva, sem querer substituir a sociologia clássica como já escrevemos, tem todas as condições de ocupar seu espaço na pesquisa sociológica brasileira.

 

2. b) Quais são os diversos campos de pesquisa da sociologia evolutiva?

 

Neste ponto do estudo comentamos alguns temas que já estão sendo pesquisados pela sociologia evolutiva. As questões – que colocamos na forma de tópicos – são resultado de nossas pesquisas e análises, realizadas no decorrer da preparação deste trabalho.

 

A) A origem da linguagem: este talvez o primeiro grande problema que separa a sociologia clássica da sociologia evolutiva. Para a maior parte dos sociólogos clássicos, a pergunta nem se apresenta. Em Durkheim a questão da linguagem não existe; toda a cultura é classificada como “maneiras de agir e de sentir que apresentam notável propriedade de existir fora das consciências”. O mesmo vale para a maior parte dos outros sociólogos que não se ocuparam do assunto, por colocarem o tema fora da área da sociologia. Com relação à

 

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origem da linguagem escreve o biólogo alemão Ulrich Kull, também seguidor da linha clássica:

 

Não é improvável que no caso do homem tenha havido um aumento do tamanho do cérebro e com isso a capacidade de raciocínio e sua relação com os aspectos sociais. A importância das características sociais no homem tem sua origem no forte desenvolvimento da linguagem, já que esta tem como função a comunicação (KULL, p. 158, 1979 – tradução nossa).

 

Esta é a resposta mais comum que encontramos depois de pesquisar em diversas fontes. A origem da linguagem explica a cultura, que explica mais linguagem, e assim por diante: linguagem cultura mais linguagem mais cultura… Na prática o processo evidentemente não é linear, mas dialético. Entretanto, poucos se colocaram a questão se a capacidade de aprendizado da linguagem – e outros aspectos da vida – não poderia ser um fato de adaptação evolutiva, gravado nos genes. Nesse caso, somos os descendentes daqueles indivíduos que em seu grupo tiveram mais capacidade de absorver e processar todo tipo de informação, transmitindo esta capacidade (evidentemente não a informação!) aos seus descendentes. Com a interação natureza inata/experiência (nature/nurture) a cultura espiritual e material das sociedades – influenciando por sua vez também os indivíduos – se desenvolveu cada vez mais.

 

Os indícios apresentados pela genética já são em tão grande número, que não é mais possível admitir que apenas características físicas, como a propensão a desenvolver tipos de doenças e outros fatores fisiológicos, tenham origens genéticas, sendo apenas nosso cérebro imune a este processo. Não se trata, afirmamos mais uma vez, de um determinismo, mas de tendências mais ou menos acentuadas, de acordo com fatores ambientais. “Não há um único fenômeno nem um único processo no mundo vivo que não seja parcialmente controlado por um programa genético contido no genoma. Não há uma única atividade, em qualquer organismo, que não seja afetada pelo tal programa”

 

(Mayr, 2005).

 

B) O desenvolvimento da cultura material e espiritual influenciada por fatores genéticos: a evolução da cultura e da tecnologia já encontra diferentes

 

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interpretações na sociologia clássica. No entanto, com o desenvolvimento das ciências, identificamos diversos aspectos, para os quais uma abordagem sociológica clássica não é suficiente. O Jornal da Fundep, sob o título de Freud explica? publicou reportagem sobre pesquisas realizadas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no programa depós-graduação em Neurociências. Nesta universidade está em andamento um programa sobre Neuroimunologia, coordenado pelo professor Antonio Lúcio Teixeira Junior, do Departamento de Clínica Médica, que demanda conhecimentos das áreas de Psiquiatria, Neurologia, Biologia Celular e Molecular e Imunologia. Segundo o professor, “é possível ilustrar a importância da interdisciplinaridade com pesquisas em Neuroimunologia, que visam elucidar como processos inflamatórios são capazes de influenciar o comportamento humano”. Segundo o professor, há evidências de que infecções viróticas como a gripe, provocam mudanças na conduta das pessoas. No futuro, a equipe pretende desenvolver um modelo capaz de delinear a relação entre os sistemas imunológicos e nervosos, o que pode trazer alternativas para o tratamento de males como a depressão, que possui proporções endêmicas. Desta reportagem podemos concluir que fatores genéticos podem influir no aparecimento de doenças – a depressão muito provavelmente tem origens genéticas – que por sua disseminação têm consequências sociais. Neste caso o sociólogo evolutivo pode pesquisar temas como: a depressão era comum no passado da humanidade, que tipo de reações provocou nos indivíduos e nas sociedades? O que significa tal fato sob o aspecto evolutivo e quais suas consequências atuais?

 

Ainda acrescentaremos à lista outras quatro questões que, segundo Lacerda (conforme Crippen, 2006) estão sendo estudadas pelos sociólogos evolucionistas:

 

1 – Como o comportamento funciona? Quais são as causas próximas?

 

2 – Qual é a ontogenia (descrição da origem e desenvolvimento de um organismo) do comportamento? Como ele se desenvolve ao longo do curso da história de vida do organismo?

 

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3 – Qual é a função do comportamento? Qual é a sua contribuição para a sobrevivência e o sucesso reprodutivo do organismo?

 

4 – Como o comportamento evoluiu no contexto do ambiente ancestral do organismo?

 

Com referência à diferença de abordagem entre a sociologia clássica e a sociologia evolutiva, completamos este capítulo com as palavras do sociólogo zoólogo alemão Rupert Riedel:

 

Afirmava o behaviorismo (comportamentalismo): “O comportamento é conseqüência do meio”; toma um posicionamento oposto a sociobiologia: “Todo comportamento é uma conseqüência da herança genética”. Ali afirmam os de esquerda: “Culpa pelo teu comportamento é somente o meio”. Ali afirmam os de extrema direita: “Culpa pelo teu comportamento é somente tua herança genética”. Ambas as posições querem justificar um mundo sem responsabilidades e por isso desumano. Ainda bem que em suas conseqüências radicais as duas idéias estão erradas (RIEDL, p. 53, 1987).

3. Estudo de caso: a sociologia evolutiva e o estudo da religião

Uma área onde houve grande desenvolvimento na utilização do arcabouço teórico do neodarwinismo e da psicologia evolutiva foi na antropologia social, especificamente nos estudos da religião. Resumidamente, a visão neodarwinista diz que assim como qualquer outro órgão ou função do corpo humano, a mente também tem um efeito de seleção natural e de contribuição para a evolução – lembrando que nunca utilizamos a palavra evolução no sentido de melhoria, mas apenas de melhor adaptabilidade ao ambiente, aumentando as chances de sobrevivência do indivíduo. Produto da mente, a religião é estudada pela psicologia, antropologia e sociologia evolutivas, vendo nela uma atividade humana que também tem ou tinha a função de contribuir para a melhor sobrevivência da espécie (com foco nos indivíduos). Importante lembrar que estas ciências não se preocupam com a existência ou não de Deus – já que isto é tema para a filosofia e a teologia – mas apenas com os eventuais efeitos da crença na evolução humana.

 

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Com relação ao papel da religião como instrumento da seleção natural, existem duas orientações teóricas básicas. A primeira, afirma que a religião é realmente produto da evolução e confere vantagem adaptiva aos seus praticantes. A outra visão é que a crença é produto secundário da evolução da mente humana, sem que tivesse sido selecionada por proporcionar qualquer vantagem evolutiva. Fato é que a crença em deus ou deuses incorpóreos, crença na vidaalém-túmulo,crença em orações e ritos para mudar o curso dos eventos humanos, tem sido encontrado em todas as culturas.

 

Para a maior parte dos estudiosos ainda não está clara a função da religião sob a perspectiva evolucionista. Segundo reportagem no jornal The New York Times, em seu recente livro In Gods we trust: the evolutionary landscape (Nós confiamos nos deuses: a paisagem evolucionária) o antropólogo Scott Atran escreve: “Imagine qualquer outro animal que toma ferimento por saúde, grande por pequeno, rápido por lento ou morto por vivo. É pouco provável que tal espécie possa sobreviver”. Assim, Atran procurou outra explicação: se a crença religiosa não era um processo adaptivo, talvez estivesse associada com outra necessidade que, esta sim, era adaptiva.

 

Uma teoria que tenta explicar a origem da crença em seres supranaturais como prática secundária de outro processo adaptivo é a da

 

“detecção do agente”. Segundo ela, nossos antepassados provavelmente tinham que se precaver contra qualquer movimento, sombra, barulho; em suma, qualquer “agente” ameaçador, mesmo que não tivessem visto nada de maneira nítida. Uma sobra na savana poderia, ou não, ser um predador. Assim, fugir à primeira impressão poderia significar a diferença entre continuar vivo ou virar almoço de uma hiena. Na caverna escura, a impressão de ter visto um “agente” – talvez um urso – e se precaver com fogo e lanças, também poderia ser a diferença entre a vida e a morte. Milhares e milhares de anos dessa prática condicionaram nosso cérebro a ver coisas, “agentes” onde não os havia. Experimentos efetuados pelos psicólogos Heider e Simmel nos anos 1940 chegaram a conclusões que permitem comprovar esta teoria. Deste comportamento adaptivo, provavelmente presente em nossos antepassados mais primitivos epré-humanos,pode ter se desenvolvido a crença em seres não presentes; espíritos, deuses e outros.

 

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Outra hipótese que explicaria a crença no sobrenatural é do psicólogo Justin Barrett, que em 2004 escreveu um artigo intitulado Why would anyone believe in God? (Por que alguém acreditaria em Deus?). Barrett argumenta que um dos motivos para a crença seria a necessidade de encontrar um causador para os fatos que nos afetam, tanto na nossa vida, quanto na natureza. Precisamosprecaver-nos da chuva, do calor sufocante, das secas e carestia. Deste tipo de comportamento adaptivo (correr para um abrigo, procurar água ou alimento), fortemente entranhado em nossos genes, derivou a pergunta sobre a origem destes fatos; da fome, da sede, do medo. Com isso, deuses e outras potências seriam fortes candidatos para ocupar esta função na mente dos nossos ancestrais.

 

Uma terceira teoriachama-se“teoria da mente” e já é conhecida da psicologia. Em sua formulação básica diz que toda a nossa vida social está baseada no fato de que sabemos o que outros pensam e que podemos antecipar ações e fazer com que acreditem o que queremos.Trata-sede uma constatação de como qualquer ser humano, mesmo o membro de uma tribo primitiva, se comporta socialmente. O passo seguinte é a assunção de que os mortos ou um deus poderiam ter este tipo de mente. Assim, poderíamos

 

“saber” o que esta divindade espera de nós e o que dela poderíamos esperar, de acordo com nosso comportamento.

 

Depois do aparecimento dos espíritos e deuses através de processos iguais ou semelhantes aos descritos, os humanos passariam a associar estas entidades com outros tipos de comportamento que poderiam conferir vantagens adaptivas ao grupo: paz de espírito, coesão social, transformação de sentimentos sociais – compaixão com os fracos, respeito pelos mais fortes ou mais velhos, espírito de cooperação, sentimento de equidade. Segundo pesquisas recentes, grande parte destes sentimentos já estava presentes entre chimpanzés e bonobos (De Waal, Taylor,Lewis-Williams).

 

Outra visão científica do surgimento da crença no sobrenatural coloca o problema de forma diferente. Para esta linha de pensamento, representada principalmente pelos antropólogos – entre eles Steven Mithen e David Lewis- Williams – alterações genéticas aleatórias no cérebro, provocaram na mente

 

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fenômenos diversos. Mithen, por exemplo, se refere a um“big-bang”da cultura humana, ocorrido há35-40mil anos, quando ocorreu um repentino desenvolvimento na arte, religião e linguagem.Lewis-Williamssegue aproximadamente a mesma linha de pesquisa, afirmando que a religião apareceu antes como sentimento do sagrado em certos indivíduos, que depois foi transformado em outras funções sociais (arte, religião, instituições, entre outros).

 

Sem dúvida, a religião posteriormente teve uma função primordial na organização das primeiras sociedades organizadas agrárias. O antropólogo Joseph Campbell em seu clássico As máscaras de Deus dá à religião o papel de organizadora das primeirascidades-estado da Suméria, em cerca de 3.200 A.C. Atualmente, os movimentos religiosos assumiram outras funções e têm influência na política e nos grandes movimentos sociais. Apesar de tudo, no entanto, a religião não perde sua atratividade como fenômeno humano antiquíssimo, sempre presente e como matéria de estudo para compreensão da natureza humana.

 

Bibliografia

 
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Ricardo Ernesto Rose

 

Jornalista, Graduado em Filosofia,Pós-graduadoem Gestão Ambiental e Sociologia

 

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nov 192010
 
émile durkheim, pai da sociologia

émile durkheim, pai da sociologia

As Regras do Método Sociológico na composição de Algumas Formas Primitivas de Classificação de Durkheim

Ângelo Fornazari Batista.

Introdução

Auguste Comte, filósofo e inaugurador da Sociologia, propõe em seu livro “Curso de Filosofia Positiva”, na primeira metade do século XIX, que a história da humanidade é constituída por três estágios. O estágio teológico, o metafísico e o positivo.

O estágio teológico tem como característica básica a explicação da natureza mediante seres sobrenaturais. Como no início dos tempos, a humanidade ainda não tinha ainda tempo suficiente para observar a natureza. Desta falta de observação e necessitando explicar os fenômenos a sua volta, o homem, entregue ao desespero e à acomodação, tendeu a se projetar na natureza. Isto é, todas as ocorrências naturais são fetiches: o Sol, a Lua, as marés, as montanhas ganham vida, estão, agora, animadas. Ainda no estágio teológico a transmissão do conhecimento é autoritária: o sacerdote é ponto de sapiência e reverência.

O estado metafísico é o qual Comte tem menos apreço: este estado permuta a explicação dos seres sobrenaturais por forças. O conhecimento gerado pelo espírito metafísico deve ser argumentado e não simplesmente baseado na fé.  Etapa de transição entre o estado teológico e o positivo, o estado em questão, ao mesmo tempo em que antecipa características deste, retém outras tantas daquele.

Por fim, o estado positivo é o estado final do desenvolvimento humano. Aqui não estamos mais preocupados com as explicações causais dos objetos naturais. O homem com espírito positivo é aquele que se prende às leis da natureza, ignorando suas causas imanentes. Por exemplo, a física aristotélica baseava seus conhecimentos no modo teológico e metafísico; ao passo que Newton, e posteriormente Einstein, explicam a queda dos corpos de maneira indubitavelmente positiva.

A segunda metade do século XIX é presenteada, na área científica, com a publicação do livro “As Origens das Espécies”, de Charles Darwin. Grosso modo, com essa publicação o autor pretende mostrar que as espécies, com o passar das gerações, evoluem por meio do que ele chama seleção natural. Ao contrário do que afirma o criacionismo, no evolucionismo o homem é originário de seres mais imperfeitos que ele; diretamente do macaco.  

A Antropologia enquanto área específica de conhecimento nasce no final do século XIX e início do XX, encabeçada por estas duas teorias. Considerando o outro como essencialmente inferior, os assim chamados “antropólogos de gabinete” – dos quais Morgan, Frazer e Tylor são os expoentes –, viam sua sociedade européia como o estágio máximo do desenvolvimento humano, reduzindo à barbárie ou à selvageria aquelas que não suas próprias. Deste modo, para os evolucionistas, a seleção natural não se dá somente em relação às espécies animais – como tenciona Darwin –; o progresso é verificado também no âmbito social, como quer Comte.

Aceitando o modo de pensar positivista[1] recém inaugurado por Comte; Durkheim, entretanto, nega que a história seja teleológica: não há uma sociedade universal, tampouco valores morais absolutos socialmente ou humanamente imanentes. Em suma, não existe ou existiu uma sociedade, mas sim sociedades diversas, cada qual com suas especificidades. Ao contrário do que afirma Quintaneiro[2], para ele, nenhum fato corrobora aquilo que chamamos de progresso da humanidade. Pois

um povo que substitui outro não é simplesmente um prolongamento deste último com algumas características       novas; ele é outro, tem algumas propriedades a mais, outras a menos; constitui uma individualidade nova,   e todas essas individualidades distintas, sendo heterogêneas, não podem fundir numa mesma série contínua, nem, sobretudo, numa única série[3].

 

Mas isso não significa, é importante salientar, que traços sociais remotos não possam ser encontrados nas sociedades atuais, apesar de completamente desfigurados.

Em Algumas Formas Primitivas de Classificação, E. Durkheim – em parceria com seu sobrinho Marcel Mauss –, valendo-se de uma metodologia ímpar, procurará mostrar que não há uma linha divisória qualitativa entre os conhecimentos oriundos da Sociologia e da Antropologia, uma vez que ambas fazem parte de uma única ciência, a ciência social. Nesta monografia, longe de ver os primitivos ou arcaicos como inferiores em relação aos europeus de sua época, o autor em questão sugestiona que nosso modo de classificar as coisas do mundo tem como germe o das tribos australianas. Por mais que sejam vistas como aberrações, aos olhos do senso comum, estas duas diferentes formas classificatórias.

Desenvolvimento

Aristóteles, no século IV a.C, é consagrado por muitos como o inventor da Analítica: instrumento racional capaz de conferir a validade de um argumento. Para tanto, ele se valeu de conceitos como espécie e gênero. Estes ajudam a razão a circunscrever um objeto, classificando-o, organizando-o, indicando sua anterioridade ou posterioridade lógica em relação a outro objeto, etc. Assim, devido às noções de gênero e espécie, é possível inferir com exatidão que a espécie ser-humano está contida no gênero dos mamíferos; que o catolicismo é uma espécie contida no gênero religião, entre outros exemplos. Ora, se a Analítica – ou Lógica – nos mostra a capacidade de organizar, editar e recortar as coisas do mundo por meio de conceitos, Aristóteles nada mais fez do que verbalizar uma propriedade de nossa razão, mente, ou como se queira chamar. Ou seja, uma habilidade classificatória das coisas dispostas no mundo é imamente ao homem, ou melhor, a cada homem em particular. Durkheim e Mauss, em contrapartida, negarão esta epistemologia individual; entendendo a sociedade como anterior à formação do sujeito enquanto particularidade, estes autores colocarão um viés social na gênese de qualquer conhecimento, isto é, de qualquer classificação.

É fato observável, atualmente, que ao contrário das ciências naturais – nas quais o objeto de estudo deve-se valer do principio de não-contradição –, em outras áreas do conhecimento há uma hibridez e mesmo indiferenciação intrínseca do objeto: no mito de Narciso, a personagem, antes homem, transforma-se em flor; Eco, outrora ninfa, é agora uma pedra; a transubstanciação cristã e a santíssima trindade são vários outros exemplos.  Tais fatos demonstram que “não somente nossa noção atual de classificação tem uma história, mas esta mesma história supõe uma considerável pré-história[4].”

Esta “pré-história” remete, segundo nossos autores, principalmente às tribos australianas. Isso porque nas “sociedades menos evoluídas, (…) o próprio indivíduo perde sua personalidade. Entre ele e sua alma exterior, entre ele e seu totem, a indistinção é completa. Sua personalidade e a de seu fellow-animal constituem uma coisa só[5].” De fato, é importante lembrar, que os indivíduos estão coesos pelo que Durkheim chamou de solidariedade mecânica, uma vez que seus membros podem ser justapostos para as diferentes exigências frente à natureza. Este tipo de solidariedade é caracterizado pela diferenciação do trabalho apenas pelo gênero do ser humano, cabendo ao homem certas obrigações e à mulher outras; o amálgama social, aqui, é dado pelo totemismo – a religião ou moralidade.

Com efeito, como mencionado no parágrafo acima, a tribo em questão têm em comum o totemismo. Este, em linhas gerais, pode ser caracterizado como a adoração humana sobre animais ou vegetais principalmente, porém o culto pode se estender a todos os elementos naturais, como o sol, a lua, a chuva… Em suma, no totemismo, o homem adora a natureza, aquilo que o difere, mas que ao refleti-lo o entrelaça. Essa dicotomia entre tribo e/ou clã e natureza é condição sine qua non para qualquer tipo de classificação, pois para haver conhecimento é necessária uma separação, ainda que confusa, entre sujeito e objeto. Assim,

bem longe de o homem classificar espontaneamente e por uma espécie de necessidade natural, no início faltam à humanidade as condições mais indispensáveis da função classificadora. Aliás, basta analisar em si mesma a classificação para compreender que o homem não podia encontrar em si mesmo seus elementos essenciais.[6]

Os “elementos essenciais” de que falam nossos autores são, como frisamos, a natureza em geral, incluindo, aí, a sociedade de maneira mais específica. A natureza é vista segundo certa disposição dos homens em um determinado espaço físico, uma vez que toda tribo é dividida em duas fratrias, que por sua vez é cindida duas classes matrimoniais, abrangendo nestes espaços tantos outros clãs; sendo que os homens deste último têm todos por adoração o mesmo totem. As tribos australianas, por exemplo, são assim representadas: a fratria I corresponde, obviamente, além das duas classes matrimoniais o clã da avestruz, da serpente, da lagarta, etc.; na fratria II, além de outras duas classes matrimoniais, é encontrado o clã do canguru, do opossum, do corvo, entre outros. Durkheim e Mauss – percorrendo um longo caminho que vai desde as tribos australianas, passando pelos Aruntas, pelos Zuñis e pela China até chegar à Grécia antiga – exemplificam como deste modelo inicial de classificação o homem chegou à classificação conceitual tal como a concebemos. Com efeito, a adoração de um mesmo totem por parte dos indivíduos que o relacionam são as primeiras formas classificativas. Pois,

não é com vistas a regulamentar a própria conduta nem pra justificar sua prática que o australiano reparte o mundo entre os totens de sua tribo; mas, sendo que para ele a noção de totem é cardeal, sente a necessidade de situar com relação a esta todos os demais conhecimentos[7]

Sendo o totemismo os primórdios de toda religião, nele já está pressuposto uma ética[8]: proibições no consumo de determinadas comidas, regras de parentesco, inimigos declarados, etc. Por exemplo,

sabe-se que, em todos esses tipos de sociedades, a morte jamais é considerada como um acontecimento natural, devida à ações puramente físicas; é quase sempre atribuída à influência mágica de algum feiticeiro, e a determinação do culpável faz parte integrante dos ritos fúnebres. Ora, entre os Wakelbura, é a classificação das coisas por fratrias e por classes matrimoniais que fornece o meio de descobrir a classe à qual pertence o sujeito responsável, e talvez o próprio sujeito. Sobre o madeiramento em que repousa o corpo e em torno dele, os guerreiros aplainam cuidadosamente a terra de forma que a mais ligeira marca seja aí visível. No dia seguinte, examina-se atentamente o terreno sob o cadáver. Se um animal passou por ali, facilmente se lhe descobrem as pegadas; os negros deduzem daí a classe de pessoa que causou a morte de seu parente. Por exemplo, se se descobrem pegadas de um cão selvagem, saber-se-á que o assassino é um Malera ou um Banbei; pois é a esta fratria e a classe a que pertence o referido animal.[9]

Ora, se a ética totêmica impõe aos homens sua forma de classificação, esta só pode se basear, primeiramente, numa distinção entre aquilo que é profano ou sagrado, haja vista que toda religião se baseia neste fator diferenciativo. Além disso, distinguir o profano do sagrado pressupõe, naturalmente, o uso da sensibilidade, do trato com o mundo real e não abstrato. Assim, categorias racionais do entendimento são descartadas para qualquer classificação a priori[10].

Isso posto, podemos retomar a tese de Durkheim contra o evolucionismo:

As diferenças e as semelhanças que determinam a maneira pela qual se agrupam [as coisas] são mais afetivas que intelectuais. Eis como as coisas mudam, de certa forma, de natureza de acordo com as sociedades; é que elas afetam de maneira diferente os sentimentos dos grupos. Aquilo que aqui é concebido como perfeitamente homogêneo é representado alhures como essencialmente heterogêneo. Para nós, o espaço é formado de partes semelhantes entre si, substituíveis umas pelas outras. Vimos, no entanto, que para muitos povos, é profundamente diferenciado segundo as regiões. É que cada região tem seu valor afetivo próprio. Sob a influência de sentimentos diversos, ela é referida a um princípio religioso especial e, por conseguinte, é dotada de virtudes sui generis que a distinguem de qual outra. E é este valor emocional das noções que desempenha o papel preponderante na maneira pela qual as idéias se aproximam ou se separam. É ela que serve de caráter dominador na classificação[11].

Do decorrido, depreende-se que antes de buscar as raízes da religião tal como a concebemos, Durkheim e Mauss estão fazendo, concordando com Florestan Fernandes, uma sociologia do conhecimento. Buscando nas coisas o fundamento classificatório, os autores em questão rebatem a afirmação de Frazer. “Segundo ele [Frazer], os homens ter-se-iam dividido em clãs de acordo com uma classificação prévia das coisas; ora, muito ao contrário, eles classificaram as coisas porque estavam divididos em clãs[12].” Donde a proposição, logo no início da monografia, de nossos autores: “a classificação das coisas produz essa classificação dos homens.[13]

Conclusão

Em nosso paper procuramos enfatizar que a concepção histórica de Durkheim não tem começo, meio e fim necessários; muito ao contrário, a especificidade de cada sociedade com seu modo de classificação é dada pela relação dos homens com as coisas hic et nunc. Salientamos também que é a partir da noção de totem que os homens e as coisas são classificados. Pois, ao contrário de toda filosofia e psicologia que buscavam os instrumentos que possibilitavam o conhecimento no indivíduo isolado, promovendo um antropocentrismo; Durkheim e Mauss propõem, como eles próprios afirmam, um sociocentrismo. Isto é, os conceitos lógicos derivam da sociedade, melhor dizendo, de determinada sociedade ou da maior parte da sociedade, pois antes de gênero, espécie, quantidade, qualidade, causalidade, etc. as coisas foram separadas entre sagradas e profanas.

Entretanto, ao menos a nós, não fica clara qual a anterioridade lógica na relação entre totem e disposição dos membros no território, para a questão classificatória. É bem verdade que nossos autores salientam a primazia do primeiro em detrimento do segundo. Pois, como já acentuamos anteriormente, “a noção de totem é cardeal”. Aliás,

Quando se quer conhecer a forma como uma sociedade se divide politicamente, como essas divisões se compõem, a fusão mais ou menos completa que existe entre elas, não é por meio de uma inspeção material e por observações geográficas que se pode chegar a isso; pois estas divisões são morais, ainda que tenham alguma base na natureza física[14].

Pensamos, por outro lado, que essa “alguma” força que a natureza física imprime nas formas de classificação não é tão pequena assim. Diversos exemplos ao longo de Algumas formas primitivas de classificação são citados em que o sub-totem passa à categoria de totem devido à expansão ou mudança territorial dos homens. Ora, se o totemismo tivesse maior peso às formas de classificação do que a “natureza física”, os princípios de não-contradição que, invariavelmente, são violados em decorrência da elevação do sub-totem ao totem, deveriam ser sentidos, uma vez que esta constante subsunção tornaria as coisas, com o passar do tempo, tendo ao mesmo tempo caráter profano e sagrado. Enfim, se nossa interpretação é coerente, a localização geográfica é, antes do totemismo, determinante às formas de classificação.

Essa inversão lógico-temporal que estamos propondo, entretanto, não vai ao encontro com as conclusões de nossos autores; e sim a confirma, haja vista que dela decorre o que Durkheim chama de anomia.  De fato, foi a expansão territorial que, influenciando a religiosidade compreendida no totemismo, acabou por confundir o que é sagrado com o que é profano. Dessa insustentabilidade chega-se à falência classificatória inicial, dando lugar à classificação conceitual.

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Notas


[1]  “Visto ser pela sensação que o exterior das coisas nos é dado, pode portanto dizer em resumo: a ciência, para ser objetiva, deve partir não de conceitos que se formaram sem ela, mas da sensação. É dos dados sensíveis que ela deve tomar diretamente emprestados os elementos de suas definições iniciais.”

Pouco mais abaixo, no mesmo parágrafo, temos: “É da sensação que emanam  todas as idéias gerais, verdadeiras ou falsas, cientificas ou não. Portanto, o ponto de partida da ciência ou conhecimento especulativo não poderia ser outro que o do conhecimento vulgar ou prático.” DURKHEIM. As Regras do Método Sociológico, p. 44

[2] “(…) entre os pressupostos constitutivos da atmosfera intelectual da qual se impregnaria a teoria sociológica durkheimiana, cabe salientar a crença de que a humanidade avança no sentido de seu gradual aperfeiçoamento, governada por uma força inexorável: a lei do progresso. ”QUINTANEIRO. Um Toque de Clássicos. P. 67

[3] DURKHEIM. As Regras do Método Sociológico, p. 21 (grifo nosso)

[4] DURKHEIM/MAUSS. Algumas Formas Primitivas de Classificação, p. 400

[5] IBID. p, 401

[6] IBID. p, 402

[7] IBID. p, 451 (grifo nosso)

[8] A moralidade implícita no totemismo o torna um fato social, uma que vez “para decidir se um preceito é moral ou não, devemos examinar se ele apresenta ou não o sinal da exterior da moralidade, esse sinal consiste numa sanção repressiva difusa, ou seja, numa reprovação da opinião pública que vinga toda violação do preceito”. DURKHEIM. As Regras do Método Sociológico, p. 42

[9] IBID. p, 408

[10] Cf. IBID p. 453-454

[11] IBID. p. 454 (grifo nosso. Em relação às diferentes concepções dos povos sobre o espaço representacional, cf. a partir do sexto parágrafo p.435-450

[12] IBID. p. 451

[13] IBID. p, 405

[14] DURKHEIM. As Regras do Método Sociológico, p. 11 (grifo nosso)

ago 032008
 
émile durkheim, pai da sociologia

Durkheim e a sociologia

émile durkheim, pai da sociologia

 

Jéferson Mendes[1]

Émile Durkheim nasceu em Épinal, no dia 15 de abril de 1858, região da Alsácia, na França. Iniciando os estudos em Epinal posteriormente partindo para Paris, no Liceu Louis Le Grand e na École Normale Superiéure (1879). Considerado um dos pais da sociologia moderna. Durkheim formou-se em Filosofia onde começou a interessar-se pelos estudos sociais.

Foi o fundador da escola francesa de sociologia, em 1887 quando é nomeado professor de padagogia e de ciência social na faculdade de Bordeaux, no sul da França. Suas principais obras são: Da divisão social do trabalho (1893); Regras do método sociológico (1895); O suicídio (1897); As formas elementares de vida religiosa (1912). Fundou também a revista L’Année Sociologique, que afirmou a preeminência durkheimiana no mundo inteiro. Durkheim morre em Paris, a 15 de novembro de 1917.

 

 

O fato social

Durkheim parte da idéia de que o indivíduo é produto da sociedade. Como cita Aron, “[…] o indivíduo nasce da sociedade, e não a sociedade nasce do indivíduo” (2003, p. 464). Logo, a sociedade tem precedente lógico sobre o indivíduo. Durkheim definiu como objetivo da sociologia o fato social, o entende como fato social, “[…] todos os fenômenos que se dão no interior da sociedade, por menos que apresentem, com certa generalidade, algum interesse social” (DURKHEIM, 1999, p. 1). Porém, dessa maneira poderíamos ver todos os acontecimentos como sendo um fato social, pois como Durkheim “[…] todo o indivíduo come, bebe, dorme, raciocina, e a sociedade tem todo o interesse em que essas funções se exerçam regularmente” (DURKHEIM, 1999, p. 1). Logo, se considerarmos esses objetos como sendo fatos sociais a sociologia perde o seu domínio próprio. Assim, “[…] só há fato social quando existe uma organização definida” (DURKHEIM, 1999, p. 4), como regras jurídicas, dogmas religiosos, morais, etc.

Dessa maneira, fato social, é,

[…] toda maneira de fazer, fixado ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda maneira de fazer que é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas manifestações individuais. (DURKHEIM, 1999, p. 13).

Para Durkheim o modo como o homem age está sempre condicionado pela sociedade, logo a sociedade é que explica o indivíduo, as formas de agir apresentam um tríplice caráter: são exteriores (provem da sociedade e não do indivíduo); são coercitivos (impostas pela sociedade ao indivíduo); e, objetivas (têm uma existência independente do indivíduo). Portanto, os fatos sociais são exteriores, coercitivos e objetivos.

A primeira regra fundamental é considerar os fatos sociais como coisas. Durkheim define coisas dizendo que “[…] as coisas sociais só se realizam através dos homens; elas são um produto da atividade humana” (DURKHEIM, 1999, p. 18). Assim,

É preciso portanto considerar os fenômenos sociais em si mesmos, separados dos sujeitos conscientes que os concebem; é preciso estudá-los de fora, como coisas exteriores, pois é nessa qualidade que eles se apresentam a nós. (DURKHEIM, 1999, p. 28).

Durkheim entende que Spencer e Comte declararam que os fatos sociais, são fatos naturais, porém não trabalharam os fatos sociais como coisas. Logo, para Durkheim a primeira regra é considerar os fatos sociais como coisas.[2] Dentro do pensamento positivista, deve-se eliminar completamente a influência dos fatos subjetivos e individuais, dessa maneira garantiria a imparcialidade e a neutralidade, portanto esse é o motivo de considerar o fato social como “coisas”.[3]

Em relação a este método, cabe assinalar duas coisas. Em primeiro lugar, que Durkheim compara a sociedade a um “corpo vivo” em que cada órgão cumpre uma função. Daí o nome de metodologia funcionalista para seu método de análise. Em segundo lugar, como se repete novamente a idéia de que o todo predomina sobre as partes. Para Durkheim, isso implica afirmar que a parte (os fatos sociais) existe em função do todo (a sociedade). (SELL, 2001, p. 136).

Assim, Durkheim procura identificar a vida social do indivíduo de acordo com a sociedade, e, que a sociedade possui um papel fundamental na vida social do indivíduo, esse holismo, holoiós, que em grego significa “todo”, assim que “[…] o todo predomina sobre as partes” (SELL, 2001, p. 130).

O suicídio

O suicídio como problema contemporâneo atravessa civilizações, nações passam por problemas, as pessoas sofrem de depressão e vêem como última alternativa o suicídio.[4] Ato improvável e indireto. O ser humano é um ser suicida. Duvido de seis bilhões de seres humanos na terra, qual não pensou em suicídio.[5]

Uma pessoa que está existencialmente insegura sobre seus diversos eus, ou se os outros realmente existem, ou se o que é realmente percebido existe, pode ser inteiramente incapaz de habitar o mesmo universo social como os outros seres humanos. (GIDDENS, 1991, P. 96).

O sentimento de culpa, a sensação de desconforto, afastamento emocional, perda de um familiar, qualquer fator que acarrete o ego como vítima, leva pessoas comuns a pensamentos levianos, na realidade não passa de um pensamento muitas vezes mecânico, onde a pessoa autoflagela seu inconsciente, levando ao desapego corporal a única tentativa de retaliação. Também, “[…] a presença de depressão, alcoolismo ou de dependência de drogas (geralmente drogas prescritas) como um fator de maioria dos casos. Aproximadamente um terço sofria de doença terminal ou de um distúrbio clinico crônico grave” (TOWNSEND, 2002, p. 642).

Alguns fatos curiosos, os protestantes têm mais probabilidades de se tornarem suicidas do que os católicos e os judeus; indivíduos de classe alta e baixa têm mais tendência a se tornarem suicidas do que indivíduos de classe média; com relação à ocupação funcional, o índice de suicídios é maior em médicos, músicos, dentistas, oficiais da lei, advogados e corretores de seguro do que na população geral. [6]

Sigmund Freud entendia o suicídio como a raiva que um indivíduo sentia por si mesmo, visto como um desejo reprimido antes de matar uma pessoa, um ato agressivo ao eu. Ghosh e Victor identificaram a desesperança como fator central que predispõe o indivíduo ao suicídio. Hendin identificou o desespero como fator preponderante.[7]

Emili Durkheim preocupou-se com o fato do suicídio na Europa, pesquisou o que ele considerou com sendo um fato social, estudou de forma concisa, propondo questões e elaborando sérias diferenças quanto ao suicídio. Durkheim entendia que o suicídio possui causas sociais. Segundo ele, “É nos grandes centros industriais que os crimes e os suicídios são mais numerosos […]” (DURKHEIM, 1999, p. 15).

O que é comum a todas as formas possíveis dessa renuncia suprema é que o ato que a consagra seja completado com conhecimento de causa; que a vitima, no momento de agir, saiba o que deve resultar de sua conduta, qualquer que seja a razão que a haja levado a se conduzir dessa maneira. […] Chama-se de suicídio todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vitima e que ela sabia que deveria produzir esse resultado. (DURKHEIM, 1984, p. 103)

O suicida sabe o que vai acontecer, como ira lesar o seu ato, qual será o resultado de sua ação. Durkheim procura explicar que o suicídio além de uma causa psicológica, psicopatológica ou mesmo causa de imitação, também possui causa social. Durkheim distingue 3 tipos de suicídio:

  • suicídio egoísta: quando o indivíduo não está integrado à instituição, sente separado da sociedade, distante das correntes sociais. Não existe integração o indivíduo não se sente parte integrante do grupo ou redes sociais que regulam as ações e imprimem disciplina e ordem (família, religião, trabalho, etc.), os indivíduos apresentam desejos que não podem satisfazer-se. Quando esse egoísmo acaba frustrando-se leva as ondas sociais de suicídio. Também pode aparecer quando a pessoa se desvincula das redes sociais, sofrendo de depressão, melancolia, e outros sentimentos.
  • suicídio altruísta: é o oposto do suicídio egoísta, o suicida altruísta se revela quando o indivíduo se identifica com uma causa nobre, com a coletividade, essa identificação deve ser tão intensa que este acaba renegando a própria vida pela sua identificação. Está excessivamente integrado ao grupo, frequentemente está regulada por laços culturais, religiosos ou políticos, essa integração acaba sendo tão forte que o indivíduo acaba sacrificando sua própria vida em favor do grupo (Mártires, Kamikases, etc.).
  • suicídio anômico: deve-se a um desregramento social, ocorre depois da mudança na vida de um indivíduo (ex: divórcio, perda de emprego), o que desorganiza os sentimentos de relação com o grupo em que não existem normas ou estas perderam o sentido. Quando os laços que prendem os indivíduos aos grupos se afrouxam.

O que Durkheim deixa claro nos tipos de suicídio estudados é a relação indivíduo-sociedade, o suicídio ocorre tanto pela falta da ação do indivíduo em determinada sociedade como pela pressão que está sociedade acarreta sobre ele. Adam Smith considerado o fundador da economia, século anteriores entendia que havia duas ações que levariam os homens a ampliar seus talentos, a busca de estima e o medo de desaprovação, talvez a falta do primeiro e a excessividade no segundo levaria a uma generalização do ego e tornaria frutífero o pensamento leviano nas pessoas. Porém, as causas do suicídio segundo Durkheim sempre são sociais. Durkheim considerava o crime como um fato social normal, já “[…] o suicídio era para ele um fato social patológico que evidenciava que havia profundas disfunções na sociedade moderna” (SELL, 2001, p. 146).

Da divisão do trabalho social

Os efeitos gerados pela Revolução Industrial eram assuntos pertinentes a diversos autores do século XIX e XX, Durkheim para explicar a modernidade busca o conceito de “divisão do trabalho social”, assim buscava identificar a formação de um novo método de trabalho ativava a fragmentação social, assim ocorreria o surgimento de esferas sociais. Logo, para Durkheim a divisão de tarefas também passa ser fonte de relação e interação social.[8] Porém,

Mas a divisão do trabalho não é específica do mundo econômico: podemos observar sua influência crescente nas regiões mais diferentes da sociedade. As funções políticas, administrativas, judiciárias especializam-se cada vez mais. O mesmo ocorre com as funções artísticas e científicas. Estamos longe do tempo em que filosofia era a ciência única; ela fragmentou-se numa multidão de disciplinas especiais, cada uma das quais tem seu objeto, seu método, seu espírito. (DUKHEIM, 1999, p. 2).

Assim, Durkheim identificava que a divisão do trabalho não se dava apenas pelo processo econômico, mas também em outras organizações, como nas funções artísticas, administrativas e políticas. Durkheim inicia discutindo qual é a função da divisão do trabalho. A divisão do trabalho tem como objetivo principal tornar a civilização possível, caso não fosse estaria tornando a moralidade neutra.[9]

Durkheim citando Heráclito a respeito das diferenças no qual entendia que a discórdia é o principio do de todo devir. Assim, parte da divisão em outras categorias, que “A dessemelhança, como a semelhança, pode ser uma causa de atração mutua” (DUKHEIM, 1999, p. 20). Logo, procuramos em nossos amigos as qualidades que nos faltam, que o homem e a mulher possuem suas diferenças, logo tanto a divisão do trabalho determina a relação de amizade, como a divisão do trabalho sexual é a fonte da solidariedade conjugal. [10]

Primeiramente é necessário buscar se existe uma solidariedade social que esteja sendo proveniente da divisão do trabalho. Dessa forma, é necessário determinar a solidariedade que ela produz interfere na integração da sociedade, assim para perceber até que ponto essa solidariedade é necessário.[11]

A solidariedade social, porém, é um fenômeno totalmente moral, que, por si, não se presta à observação exata, nem, sobretudo, a medida. Para proceder tanto a essa classificação quanto a essa comparação, é necessário, portanto, substituir o fato interno que nos escapa por um fato externo que o simbolize e estudar o primeiro através do segundo. (DURKHEIM, 1999, p. 31).

A solidariedade social, quando forte entre os homens inclina-os, colocando-os reciprocamente em contínuo contato, relacionando-se constantemente. Assim, quanto mais os membros da sociedade são solidários, mais eles mantêm relações uns com os outros, caso não mantessem contatos constantemente suas relações e mesmo sua dependência seria menor.[12] O que existe e vive realmente são as formas particulares de solidariedades, a solidariedade doméstica, a solidariedade profissional, a solidariedade nacional, etc. e esse estudo da solidariedade pertence ao estudo da sociologia, é um fato social que só pode ser conhecido através do estudo de seus efeitos sociais.[13] O direito que apresenta as formas essenciais de solidariedade social, dessa forma é necessário classificar as diferentes formas de direito para poder classificar as diferentes formas de solidariedade social. A principal idéia de direito é aquela que o divide em direito público e direito privado, o público regula as relações entre os indivíduos e o Estado, e o privado o indivíduo entre si. Porém, todo o direito é público, da mesma forma que todo o direito também passa a ser privado.[14]

Há dois tipos de sanções. Umas consistem essencialmente numa dor, ou, pelo menos, numa diminuição infligida ao agente; elas têm por objeto atingi-lo em sua fortuna, ou em sua honra, ou em sua vida, ou em sua liberdade, privá-lo de algo de que desfruta. Diz-se que são repressivas – é o caso do direito penal. É verdade que as que se prendem às regras puramente morais têm o mesmo caráter, só que são distribuídas de uma maneira difusa por todo o mundo indistintamente, enquanto as do direito penal são aplicadas apenas por intermédio de um órgão definido: elas são organizadas. Quanto ao outro tipo, ele não implica necessariamente um sofrimento do agente, mas consiste apenas na reparação das coisas, no restabelecimento das relações perturbadas sob sua forma normal, quer o ato incriminado seja reconduzido à força ao tipo de que desviou, quer seja anulado, isto é, privado de todo e qualquer valor social. Portanto, devemos dividir em duas grandes espécies as regras jurídicas, conforme tenham sanções repressivas organizadas ou sanções apenas restitutivas. A primeira compreende todo o direito penal; a segunda, o direito civil, o direito comercial, o direito processual, o direito administrativo e constitucional, fazendo-se abstração das regras penais que se podem encontrar aí. (DURKHEIM, 1999, p. 37).

Portanto, para entender a classificação da solidariedade, Durkheim parte do entendimento da necessidade de se entender as formas de direito que são estendidas em dada sociedade, se és aplicado o direito restitutivo ou o direito repressivo. Além de sua grande tese de doutorado, Da Divisão do Trabalho Social, também mostra a influência positivista. Durkheim entende que a sociedade passa por um determinado processo de evolução, essa evolução que está sendo provocada pela diferenciação social. Ocorrendo que a primeira etapa desse processo de evolução social Durkheim chamou de “sociedade de solidariedade mecânica”, já o que se refere à etapa final de “sociedade de solidariedade orgânica”. Assim, organiza da seguinte forma os dois tipos de sociedade.

Sociedade de solidariedade mecânica

Sociedade de solidariedade orgânica

Laço de solidariedade

Consciência coletiva

Divisão do trabalho social

Organização social

Sociedade segmentada

Sociedades diferenciadas

Tipo de direito

Direito repressivo

Direito restitutivo

Sociedade de solidariedade mecânica

A sociedade de solidariedade mecânica é na verdade um mecanismo de interação dos indivíduos nos grupos ou nas instituições sociais. Da mesma forma, acaba sendo representada pelas diferentes formas de organização na sociedade, segmentada ou diferenciada, também os tipos de direito, se este se baseia no princípio do direito repressivo ou restitutivo.

O vínculo de solidariedade social a que corresponde o direito repressivo é aquele cuja ruptura constitui o crime. Chamamos por esse nome todo ato que, num grau qualquer, determina contra seu autor essa reação característica a que chamamos pena. Procurar qual é esse vínculo é, portanto, perguntar-se qual a causa da pena, ou, mais claramente, em que consiste essencialmente o crime. (DURKHEIM, 1999, P. 39).

Dessa forma, Durkheim inicia trabalhando a diferença da sociedade de solidariedade pela pena, ou melhor, pelo crime que cada sociedade comete dessa maneira como o crime é dado como restituição do ato cometido. Assim “São todos os crimes, isto é, atos reprimidos por castigos definidos” (DURKHEIM, 1999, p. 40).

Nas sociedades de solidariedade mecânica os indivíduos vivem em comum porque partilham da consciência coletiva, assim partilham dos pensamentos em conjunto, elaboram a sua vida através da vida dos outros em praticamente todas as ações “[…] a sociedade inteira participa numa medida mais ou menos vasta” (DURKHEIM, 1999, p. 4).

Os indivíduos se assemelham muito existindo poucas diferenças entre eles, logo se assemelham pelos mesmos gostos, sentimentos, valores e reconhecem nos objetos as mesmas representações do sagrado, assim a semelhanças é enfim o ponto de fundamentação.[15] Portanto, “Nas sociedades dominadas pela solidariedade mecânica, a consciência coletiva abrange a maior parte das consciências individuais”. (ARON, 2003, p. 463).

Durkheim define a vida coletiva como “[…] um conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade, que forma um sistema determinado que possui vida própria” (DURKHEIM, 1995, p. 50). Logo, esse laço de solidariedade forma a consciência coletiva.

Nas sociedades primitivas, cada indivíduo é o que são os outros; na consciência de cada um predominam, em número e intensidade, os sentimentos comuns a todos, os sentimentos coletivos. (ARON, 2003, p. 459).

O grupo na sociedade de solidariedade mecânica prevalece, possui mais eqüidade, aparece mais, logo tem predomínio sobre o indivíduo. O indivíduo não possui relação com o mundo exterior. Logo, são tão semelhantes que pouco se caracterizam como diferenciais, abrindo poucos intervalos para individualidades. Os indivíduos comungam entre si, vivem a comunidade fazendo-se interações, como por exemplo, as sociedades indígenas.

Porém, como fazer transparecer isso,

[…] Durkheim, optou pelo estudo das normas jurídicas que, segundo ele, são um dos meios pelo qual a sociedade materializa (ou torna concreta) suas convicções morais, que são um dos elementos da consciência coletiva. De acordo com a forma pelo qual ele é organizado, o direito é o símbolo visível do tipo de solidariedade que existe na sociedade. Assim, nas sociedades de solidariedade mecânica temos o predomínio do direito repressivo, […] o predomínio da punição. De acordo com a explicação de Durkheim, isto mostra a força da consciência coletiva sobre a vida dos indivíduos. (SELL, 2001, p. 140-41).

Assim, as normas jurídicas representam de certa forma a sociedade em que vivemos, repressiva ou restitutiva. Nas sociedades de solidariedade mecânica as punições são dadas aos indivíduos e estes não podem dela fugir ou mesmo fazerem-se livres, pois a punição faz com que a sociedade de coesão e não se danifique, logo não se admite violação das regras sociais. “Quanto mais forte a consciência coletiva, maior a indignação com o crime, isto é, contra a violação do imperativo social”. (ARON, 2003, p. 463). A punição não passa de uma lição aos outros indivíduos para que não façam o mesmo.

A organização social da sociedade de solidariedade mecânica é uma sociedade segmentada, da qual há a existência de poucas mudanças, onde os grupos vivem isolados, “[…] com um sistema social que tem vida própria” (SELL, 2001, p. 141). Logo, a manifestação com o exterior é escassa pelo fato que a sociedade sustenta-se por si mesmo. Assim, Durkheim as vê como as sociedades antigas.

É possível a existência de um grande número de clãs, tribos ou grupos regionalmente autônomos, justapostos e talvez até mesmo sujeitos a uma autoridade central, sem que a coerência por semelhança do segmento seja quebrada, sem que se opere, no nível da sociedade global, a diferenciação das funções características da solidariedade mecânica. (ARON, 2003, 461).

Assim as sociedades de solidariedade mecânica estão pouco passíveis de mudanças, geralmente encontram-se estagnadas, a diferenciação é dificultada, pois o enraizamento social está determinado, e, segue-se em etapas.

Sociedade de solidariedade orgânica

estrutura-social rede social

Nas sociedades de solidariedade orgânica os laços de solidariedade exigem a divisão do trabalho social, o tipo de organização social é de uma sociedade diferenciada, também o tipo de direito, diferente da sociedade de solidariedade mecânica, deve ser restitutivo. Durkheim vê como uma lei na história a passagem da sociedade de solidariedade mecânica para a sociedade de solidariedade orgânica.

É, pois, uma lei da história a de que a solidariedade mecânica, que, a princípio, é única ou quase, perde terreno progressivamente e que a solidariedade orgânica se torno pouco a pouco preponderante. Mas quando a maneira como os homens são solidários se modifica, a estrutura das sociedades não pode deixar de mudar. A forma de um corpo se transforma necessariamente quando as afinidades moleculares não são mais as mesmas. Por conseguinte, se a proposição precedente é exata, deve haver dois tipos sociais que correspondem a essas duas sortes de solidariedade. (DURKHEIM, 1999, 17).

A atividade é mais coletiva, os indivíduos dependem uns dos outros, devido à especialização de funções ou mesmo a divisão do trabalho social. Demonstra que nas sociedades ditas modernas as sociedades são altamente desenvolvidas e diferenciadas, assim cada indivíduo exerce funções diferenciadas.

Na realidade o que leva as pessoas a interarem-se é mesmo o progresso dos meios da especialização das funções que os indivíduos exercem entre si, ou mesmo em conjunto, logo os indivíduos acabam se tornando independentes das atividades em diferentes setores da vida social.

Como conclusão, Durkheim afirma que a divisão do trabalho social não pode ser reduzida apenas a sua dimensão econômica, no sentido de que ela seria responsável pelo aumento da produção, sendo está a sua função primordial. Ao contrário, a divisão trabalho social tem antes de tudo uma função moral, no sentido de que ela passa a ser o elemento chave para a integração dos indivíduos na sociedade. (SELL, 2001, 144).

Dessa maneira Durkheim entende que a verdadeira função da divisão do trabalho social possui como fator principal o sentimento de solidariedade entre os indivíduos de determinada sociedade. Porém, com a crescente diversificação das funções, cresce também o sentimento de individualidade entre os indivíduos, a consciência coletiva acaba perdendo seu papel de interação social. Portanto, os “[…] efeitos produzidos pela divisão do trabalho, contribuindo para manter o equilíbrio da sociedade” (DURKHEIM, 1999, p.223). Quanto mais o trabalho for dividido, maior rendimento terá.[16]

Mas, se a divisão do trabalho produz a solidariedade, não é apenas porque ela faz de cada indivíduo um “trocador”, como dizem os economistas; é que ela cria entre os homens todo um sistema de direitos e deveres que os ligam uns aos outros de maneira duradoura. (DURKEHIM, 1999, P. 429).

Com a suposta desestruturação coletiva ocorrem duas funções de interesses comuns, uma seria a autonomização dos indivíduos que elaborariam mais as suas tarefas, e se enquadrariam em seus desejos e anseios sociais, a segunda questão seria que essa autonomização do indivíduo também levaria a um egoísmo sem precedente, os próprios indivíduos entrariam em choque com eles mesmo, assim, “Temos uma divisão anômica do trabalho que, para Durkheim, era o grande problema da sociedade moderna” (SELL, 2001, p. 145).

Seguindo a lógica desenvolvimentista, Durkheim vê a mudança de sociedade como um processo gradual, que através da diferenciação social, ela iria evoluindo, entendendo que haveria três fatores para o desenvolvimento da sociedade.

  • Volume
  • Densidade material
  • Densidade moral

Assim, o volume caracterizaria como um suposto aumento do número de indivíduos de determinada sociedade, para que ocorra a diferenciação é preciso acrescentar a densidade, tanto à densidade moral quanto a material, a densidade moral, entraria nas comunicações e trocas que os indivíduos fazem entre si. Já a densidade material entraria no aspecto de indivíduos por porcentagem com relação à superfície do solo. Logo, quanto mais intenso for o relacionamento entre os indivíduos maior será a sua densidade. Assim, “[…] o crescimento quantitativo (volume) e qualitativo (densidade material e moral), ocorre na sociedade um processo de especialização das funções, chamado por Durkheim de divisão do trabalho social” (SELL, 2001, p. 143).

Bibliografia:

  • ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. Tradução Sérgio Bath. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  • DURKHEIM, Émili. As regras do método sociológico. [tradução: Paulo Neves; revisão da tradução Eduardo Brandão]. 2º. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • DURKHEIM, Emili. Émili Durkheim: sociologia / organizador (da coletânea) Josué Albertino Rodrigues; (tradução de Laura Natal Rodrigues). 3. ed. São Paulo: Ática, 1984.
  • GIDDENS, Antony. As conseqüências da modernidade. [tradução Raul Fiker]. São Paulo: Editora UNESP, 1991.
  • SELL, Carlos Eduardo. Sociologia Clássica. 4º ed. Itajaí: Ed. UNIVALI, 2002.
  • TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002.

[1] Professor/tutor nas áreas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Graduado em História pela Universidade de Passo Fundo. Pós-graduando em Sociologia pela Universidade de Passo Fundo. Pós-graduando em Educação a Distancia pela Faculdade de Tecnologia SENAC. Mestrando em História pela Universidade de Passo Fundo. E-mail: mendesjeferson@yahoo.com.br.

[2] DURKHEIM, Émili. As regras do método sociológico. [tradução: Paulo Neves; revisão da tradução Eduardo Brandão]. 2º. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 16.

[3] SELL, Carlos Eduardo. Sociologia Clássica. 4º ed. Itajaí: Ed. UNIVALI, 2002, p.132.

[4] O suicídio foi identificado como a terceira maior causa de morte (depois dos acidentes com veículos a motor e os homicídios) no grupo de 15 a 24 anos de idade (Murray & Zentner, 1997). A freqüência de suicídio em adolescentes triplicou nos últimos 30 anos (Murphy, 1994). Um dos principais fatores que contribuem pra este fato é o aumento dos distúrbios depressivos entre os jovens (Ghosh & Victor, 1994). Outros fatores de risco associados ao suicídio em adolescentes incluem a religião (menor probabilidade nos casos de católicos e judeus), ter pais portadores de doenças psiquiátricas (especialmente uso excessivos de drogas ou álcool), uma história de suicídio na família, desemprego paterno e ausência do pai ou da mãe (Slaby, Lieb & Tancredi, 1986). In: TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002, p. 206.

[5] Embora as pessoas com idade superior a 65 anos representem apenas 12 por cento da população, elas incluem uma taxa desproporcionalmente elevada de pessoas que cometem suicídio. De todos os suicidas, 17 por cento pertencem a esta faixa etária, e o suicídio é agora uma das primeiras 10 causas de morte entre a população idosa. In: TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002, p. 642.

[6] Saber mais. In: TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002, p. 206.

[7] TOWNSEND, Mary C. Enfermagem Psiquiátrica: conceitos de cuidados. [tradução: Fernando Diniz Mundim]. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2002, p. 206.

[8] SELL, Carlos Eduardo. Sociologia Clássica. 4º ed. Itajaí: Ed. UNIVALI, 2002, p.138.

[9] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 18.

[10] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 22.

[11] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 30.

[12] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 31.

[13] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 34.

[14] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 36.

[15] ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. Tradução Sérgio Bath. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 458.

[16] DURKHEIM, Émili. Da divisão do trabalho social. [tradução Eduardo Brandão]. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 224.

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Durkheim na Busca.
nov 272006
 

Curso de Filosofia – Régis Jolivet

Capítulo  Quarto

OS DIFERENTES  MÉTODOS

Art. I.    A DIFERENCIAÇÃO DOS MÉTODOS

1.    O método  depende do objeto das  ciências. — Compreende-se

que cada categoria de ciência, sendo por definição irredutível às outras categorias, exige o emprego de um método diferente. O método a empregar numa ciência depende da natureza do objeto desta ciência. Não se estuda a inteligência, que é imaterial, pelos mesmos processos que se utilizam para conhecer o corpo e seus órgãos. O estudo da vida pede métodos diversos dos do estudo da matéria inorgânica ou da pura quantidade abstrata.

Convém,  então, definir os diferentes métodos que são usados nas ciências e descrever seus processos característicos.

2.    Os métodos-tipos. — Teoricamente, há, então,  tantos métodos quantos  grupos de ciências  admitidos na classificação que demos acima. É necessário, contudo, observar que esta classificação pode ser,  por sua vez, reduzida a três grandes divisões, que são: a Matemática, — as ciências físico-químicas e biológicas, — as ciências morais. Teremos, assim, de distinguir três grandes métodos que comportarão, sem dúvida, para adaptar-se a cada ciência do grupo,   modificações acidentais, mas que conservarão, em cada caso, seus caraccteres distintos. Iremos, então, estudar sucessivamente o método  da Matemática – o método das ciências da natureza física, o método das ciências morais.

 

ART.  II.    MÉTODO DA MATEMÁTICA

 

§ 1.    NOÇÃO DE Matemática

1. Definições. – Em geral, a Matemática é o estudo da quantidade dos corpos, abstração feita da natureza destes corpos.

Como a questão da natureza da quantidade pertence à Cosmologia, notemos apenas aqui que se distinguem a quantidade descontinua, em que as partes são separadas e formam um número, e a quantidade continua, em que as partes não são separadas, mas unidas entre si de tal sorte que a extremidade de uma seja o começo da outra: tal é, por exemplo, a extensão.

2.    Divisão. — Conforme a matemática se refira à quantidade contínua ou à quantidade descontínua,  distinguem-se:

a)     As ciências dos números: a aritmética ou ciência do número e suas propriedades, — a álgebra, generalização da aritmética como ciência  das relações gerais dos  números  representados  por letras:

b)     As ciências das figuras: a geometria, ou ciências das  figuras que se pode traçar no espaço, — a geometria analítica, ou aplicação da Álgebra à Geometria, — a Mecânica Racional, ou es tudo do movimento no espaço.

3.    Origem.

a)     O problema da origem das noções matemáticas. Já Si supôs que as noções matemáticas existissem no espírito, absolutamente a priori, antes de qualquer experiência. A razão invocada a favor desta tese é que a natureza nunca fornece o número, mas apenas unidades, nem tampouco objetos geométricos sem qualquer dimensão, superfície sem espessura, reta rigorosa, círculo perfeito cl· Todas estas noções  seriam,  portanto,  inatas ao espírito.

b)     Matemática  e   experiência.   Em   realidade,   deve-se   dizer que os objetos matemáticos são construídos pelo espírito por meio de dados tirados da experiência. É porque existem  corpos sólidos na natureza que existe uma Geometria.  Do mesmo modo,  a pluralidade das unidades da mesma  natureza serviu  de   fundamento  à elaboração do número. O  processo de  formação das noções matemáticas manifesta  a   faculdade   de   abstrair própria ao espírito humano.

                                   

§  2.     PROCESSOS DA  MATEMÁTICA

1.    Natureza da demonstração matemática.

51 a) A Matemática estabelece as relações necessárias entre as grandezas. Para bem compreender a natureza da demonstração matemáticas, é preciso acentuar que se trata de descobrir relações existentes entre grandezas diferentes (entre diferentes números, entre uma linha e uma superfície etc.). A experiência, de início (em particular entre os egípcios), permitiu estabelecer algumas destas relações. Mas, aí, havia apenas uma constatação. Os gregos, fundando assim a ciência matemática, quiseram determinar as razões destas relações e proceder por princípios suscetíveis ãe conseqüências necessárias e em número indefinido. Tal é, em sua noção mais geral, a demonstração matemática.

b)     A Matemática procede por substituição de grandezas. O tipo da demonstração matemática pode ser definido pelo exemplo seguinte:

3  + 5 = 8

4  + 4 = 8

3 + 5 = 4 + 4

quer dizer que consiste em substituir uma grandeza por outra por -meio de intermediários tão numerosos quanto seja necessário de maneira que cheguem a definir qual é a relação das duas grandezas entre si. Esta comparação das grandezas se apóia nos dois axiomas seguintes: duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si, — duas quantidades em que uma é igual a uma terceira, e a outra desigual, são desiguais entre si. Vê-se que aí se encontra o tipo da demonstração silogística.

c)     A demonstração matemática utiliza a análise e a síntese. O matemático se serve do processo analítico quando parte da proposição complexa a demonstrar e a relaciona a uma proposição mais simples da qual é uma conseqüência necessária, e assim por diante até que chegue, enfim, a uma proposição tida como certa e cuja verdade garante a da proposição que se trata de demonstrar. Este processo se emprega para a solução dos problemas.

O matemático utiliza o processo sintético, quando parte de verdades gerais — axiomas ou proposições já demonstradas — e tira daí, por via da conseqüência, outras proposições mais complexas. É este o método empregado para a demonstração dos teoremas.

A demonstração por redução ao absurdo é um processo indireto. Consiste essencialmente em supor verdadeira a contraditória da proposição a provar, e mostrar que ela encerra uma ou várias conseqüências absurdas.

d) A indução é também utilizada em Matemática? Ela o será, segundo HenRI Poincaré, sob a forma de um raciocínio chamado por ele raciocínio por recorrência. Este raciocínio consiste essencialmente em mostrar que, se uma propriedade, sendo verdadeira de um elemento n da série dos números, é igualmente de n + 1 e dos primeiros elementos da série, ela o deve ser igualmente para todos os números, indefinidamente, a partir de n. Poincaré vê nisto o raciocínio matemático por excelência, característico da indução, que consiste em estender a todos os casos semelhantes o que foi verificado para  um  caso particular.

É contestável, contudo, que aí exista uma verdadeira indução. Parece mais que estamos diante de uma dedução, que consiste em aplicar indefinidamente uma propriedade verificada de um caso dado de construção numérica a números construídos da mesma maneira.

Elementos da demonstração. — Estes elementos são em número de três: as definições, os axiomas e os postulados.

a) Definições. As definições são ora essenciais, desde que forneçam as propriedades de um objeto matemático (por exemplo, esta definição: a circunferência é uma figura cujos pontos estão a igual distância de um ponto chamado centro), ora genéticas, desde que formulem a lei de construção de um objeto matemático (seja: a esferas é o volume gerado por um semicírculo, que gira em torno de seu diâmetro).

É a definição genética que caracteriza a Matemática. A definição essencial é secundária e derivada doada. Daí se segue que as definições  matemáticas, sendo construções, são imediatamente perfeitas, e constituem o ponto de partida da demonstração,  enquanto nas ciências da natureza elas estão no termo da demonstração ou da investigação.

b)     Axiomas. Os axiomas são os princípios imediatamente evidentes, que resultam da aplicação do princípio de identidade na ordem da quantidade. Exemplo: duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si.

c)     Postulados. Os postulados são juízos indemonstráveis, cuja evidência é inferior à.dos axiomas, mas de que o matemático carece para elaborar sua ciência. Ele pede que se aceite provisoriamente (donde o nome de postulados) sua justificação, que deve resultar da constituição da ciência que os utiliza. Tal é o caso do postulado de EUCLIDES: "de um ponto tomado fora de uma reta, sempre se pode traçar uma paralela a esta reta e não se pode traçar mais do que uma", — ou, ainda, desta proposição: "o espaço é uma grandeza de três dimensões".

ART. III.    MÉTODO DAS CIÊNCIAS DA  NATUREZA § 1.    Noções Gerais

53        1.    As ciências experimentais. — Chamam-se pelo nome geral

de ciências da natureza as ciências que têm por objeto os fenômenos do universo material. Chamam-se, ainda, ciências experimentada, porque se baseiam na experiência sensível e a ela se referem constantemente,  como  critério  único  da  validade  de suas conclusões. Recebem ainda o nome de ciências indutivas, uma vez que partem dos fatos singulares para se elevarem às leis que os regem.

2.   Divisão. — Distinguem-se dois grupos de ciências da  natureza:

a) Ciências físico-químicas. Estas ciências se referem aos fenômenos da natureza bruta ou inorgânica. As ciência:! Clsicai estudam as propriedades gerais dos corpos; as ciências química i estudam a, constituição dos diferentes corpos.

b) Ciências biológicas. Tratam dos fenômenos particulares à vida orgânica.

3. Extensão do método experimental. — O grupo das ciências morais {História, Psicologia, Sociologia) fica, de fato, por certo aspecto, na categoria das ciências da natureza, e aplica em grande parte o método experimental. Mas fazemos delas um grupo distinto, porque se aplicam ao homem, enquanto ser inteligível e livre: e consideram deste modo uma realidade irredutível aos objetos das ciências da natureza propriamente ditas.

§ 2.   Processo

Podem-se distinguir quatro fases na elaboração das ciências da natureza. Duas dizem respeito ao conhecimento dos fenômenos: são a observação e a experimentação; duas outras, à formulação das leis: são a hipótese e a indução.

A     A observação.

1.     Noção. -Observar, em geral, consiste em aplicar a atenção a um

 objeto, a fim de bem conhecê-lo. É pela observação que começam todas as ciências experimentais, porque se trata inicialmente

de estabelecer a realidade e a natureza dos fenômenos. Para isto, o sábio não se contenta com a simples percepção dos sentidos, quo é geralmente insuficiente em precisão e em penetração. Recorre a instrumentos (microscópio, lunetas astronômicas, espectroscópio, fotografia, termômetro, balanças etc), que lhe permitem manifestar de maneira tão minuciosa quanto possível os elementos dos corpos,  e sobretudo medir os fenômenos.

2.    Condições.        Para ser boa, uma observação requer condições

intelectuais; curiosidade e sagacidade, — condições morais: paciência e   imparcialidade.

B      A  hipótese

1. Noção. – Uma vez bem estabelecidos os fatos, trata-se de descobrir a lei de sua manifestação e de seu encadeamento, quer dizer: de os explicar. Ora, esta explicação não é evidente. O sábio, para encontrá-la, é obrigado a recorrer a, uma hipótese que constituí uma explicação provisória dos fenômenos observados.

É aqui que o gênio do sábio é mais necessário, porque não existe regra de invenção. Esta resulta na maior das partes das vezes de uma espécie de iluminação súbita ou de intuição, que traz ao sábio uma luz inesperada. É assim que Arquimedes descobriu subitamente, ao se banhar, que os corpos imersos sofrem uma impulsão de baixo para cima exercida pelo líquido em que são mergulhados.

As fontes mais comuns da invenção das hipóteses são as analogias (Newton compara o fenômeno da queda de uma maçã ao da atração dos planetas pelo sol), — e a dedução, que faz aparecer as conseqüências até então despercebidas, dos fenômenos, ou das leis já conhecidas.

2.    Condições "a priori" da validade das hipóteses. — Antes de toda verificação, a hipótese, para ser tomada em consideração, deve realizar as seguintes condições:

a)     A hipótese deve ser sugerida e verificável pelos fatos. Não deve ser absurda, quer dizer, contraditória em si mesma. Isto não significa que não possa contradizer outras hipóteses, anteriormente admitidas. Ao contrário, o progresso da ciência se faz, no mais das vezes, pela substituição de novas hipóteses, mais explicativas, às teorias antigas.

b)     A hipótese deve ser simples. Requer-se da hipótese a simplicidade, em virtude do postulado da simplicidade das leis da natureza. Mas a simplicidade é aqui um conceito ambíguo. Há uma simplicidade que é pobreza, e uma simplicidade que é riqueza: o mecanismo da visão é simples, enquanto perfeitamente uno, mas realmente complexo em seus diferentes órgãos. O critério da simplicidade parece, assim, de difícil manipulação.

3.    Papel da hipótese. — A hipótese, dissemos nós, não é mais do que uma explicação provisória. Seu fim, por isto, se encontra definido, e comporta dois aspectos distintos:

a)     A hipótese serve para dirigir o trabalho do sábio. Auxilia de fato a imaginar os meios a aplicar e os métodos a utilizar para prosseguir a pesquisa e chegar à certeza. Ela ê, de fato, então,, princípio de invenção e de progresso.

b)     .4 hipótese serve para coordenar os fatos já conhecidos. Seu destino é colocar ordem nos materiais acumulados pela observação. "Sem ela", diz Claude BernaRd, "só se poderá amontoar observações estéreis", à maneira do empirismo.

C.    A experimentação.

56        1. Noção. — A experimentação consiste no conjunto de processos utilizados para verificar as hipóteses. Difere, pois, da observação, porque obedece a uma idéia diretriz, e não simplesmente, como por vezes se diz, porque implica na intervenção do sábio para modificar os fenômenos. A observação pode comportar também uma tal intervenção: chama-se, então, observação ativa ou provocada, mas é anterior à intervenção da hipótese.

2.    Princípios da experimentação.

a)     Idéia geral dos métodos de experimentação. A idéia geral, que governa os métodos de experimentação, é a seguinte: consistindo a hipótese essencialmente em estabelecer uma relação de causa a efeito ou de antecedente a conseqüente, entre dois fenômenos, trata-se de descobrir se realmente B (suposto feito ou conseqüente) varia cada vez que se faz variar A (suposto causa ou antecedente) e varia nas mesmas proporções que A.

b)     Princípio geral dos métodos de experimentação. Este é o princípio do determinismo, que se enuncia assim: nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, — ou ainda: as leis da natureza são constantes.

57        3. Os diferentes métodos de experimentação. — Para aplicar a Idéia geral da experimentação, têm-se imaginado diversos processos que  tendem a alcançar a maior precisão possível.

a) As tábuas de Bacon. BACON propõe estabelecer três tábuas diferentes: tábua de presença, que dá, com suas circunstâncias, oh casos cem que o fenômeno a, explicar se produz, — tábua de ausência,, em que são considerados os canos vizinhos dos primeiros em que o fenômeno não se produz,      tábuas dos graus, que dá os casos em o  fenômeno  variou.

Este método dá uma certeza  suficiente,  porque jamais assegura que não se tenha deixado  presente mais do que os fenômenos ou grupos de fenômenos  (A e B)  supostos causa e efeito, antecedente e conseqüente.

b) Método de coincidência isolada de Stuart Mill. Stuart Mill imaginou, para remediar o defeito das tábuas de Bacon, substituir ao princípio da coincidência constante o da coincidência isolada. Donde os quatro métodos ou processos, que preconiza:

Método de concordância. Procura-se atingir vários casos bastante diferentes em que se produz um dado fenômeno. Se se descobre um antecedente que seja comum e isoladamente comum, a todos os casos, considera-se como tendo uma relação essencial com o fenômeno.

 Exemplo: observa-se o som que produzem uma corda vibrante, um sino, um tambor, uma voz etc, e verifica-se que todos estes casos comportam um único fenômeno comum que consiste na vibração de um corpo sonoro. Conclui-se daí que este fenômeno é a causa do som.

Método de diferença. O método de concordância não seria suficiente, porque é impotente para fazer distinguir a simples coincidência  da verdadeira causalidade. Deve ele ser completado por uma contraprova, que Stuart Mill chama de método de diferença Este método consiste em considerar dois casos tão semelhantes qual) to possível e que não se diferenciem senão por um só elemento. Se o fenômeno se produz num caso e não em outro, este elemento será o antecedente procurado.

 Exemplo:  as experiências de PASTEUR que tratam da geração espontânea. Dois frascos de natureza idêntica I colocados nas mesmas condições de temperatura, durante o mesmo tempo, ficam um fechado e outro aberto. Neste último, produz-se uma fermentação; no  outro,  não se produz. PASTeuR conclui  daí que a fermentação se deve aos germes carregados  no ar.

Método das variações concomitantes. O método de diferença é verdadeiramente seguro, desde que não existam mais de dois casos possíveis. O método das variações concomitantes deverá intervir nos outros casos, Ele se formula assim: desde que um fenômeno varie na mesma proporção que um de seus antecedentes, ele é causado por este antecedente.

 Exemplo: as experiências de PASCAL sobre o Puy-de-Dôme, destinadas a mostrar que a elevação da coluna de água  colorida no tubo barométrico varia proporcionalmente à pressão atmosférica.

Método dos resíduos. O  método das variações concomitantes  tem a, vantagem de recorrer à medida dos fenômenos, o que o torna usual em Física. Mas não é mais aplicável, desde que os fenômenos uno sejam suscetíveis de medida quantitativa. O método dos resíduos é usado cada vez que os elementos de um caso dado são perfeitamente conhecidos e explicados, com exceção de um. Conclui-se daí que este elemento deva explicar-se por uma outra causa, que se trata de descobrir com a ajuda de um dos métodos precedentes. O exemplo mais célebre é o da descoberta de Netuno por Le Verrier, descoberta provada pela observação das irregularidades de Urano. Vê-se que este método é mais um instrumento de descoberta do que um meio de verificação.

4. Valor do método de coincidência isolada. — Este método não dá uma certeza absoluta se não estivermos certos de ter feito uma análise completa da experiência. Contudo, é praticamente suficiente à ciência, que sempre admite, por outro lado, a possibilidade de novas explicações ulteriores, mais conformes aos dados de uma experiência mais bem conhecida.              

      

1).    A indução.                                                   

58        Noção. — A indução científica consiste essencialmente em passar, da descoberta de uma relação constante entre dois fenômenos ou duas propriedades, à afirmação de uma relação essencial, e por conseguinte universal e necessária, entre eles dois fenômenos ou propriedades.

2. As leis científicas. — As leis científicas que o raciocínio indutivo alcança são, segundo a fórmula de Montesquieu, as relações constantes e necessárias que derivam da natureza das coisas. As leis exprimem quer relações de existência ou de coexistência (a água é um corpo incolor, inodoro, tendo tal densidade, suscetível de assumir os estados líquidos, sólido, gasoso, etc), — quer relações de causalidade ou de sucessão (a água ferve a 100 graus, o calor dilata os metais etc), — quer, enfim, as reações de finalidade (o fígado tem como função regular a quantidade de açúcar no sangue).

 

3. As teorias científicas.

a)     Definição. Dá-se o nome de teorias a hipóteses que têm por fim unificar um grande número de leis sob uma lei bastante geral. Tais são a teoria ondulatória, segundo a qual a luz se propaga por ondas, a teoria eletrônica, segundo a qual o átomo é composto de elétrons; a teoria evolucionista, segundo a qual as formas. vivas derivariam, por diferenciações progressivas, de formas menos numerosas e mais simples.

b)     Valor. Este valor depende da medida em que as teorias. científicas permitem unificar o saber positivo de maneira racional e provocar novas descobertas. É sua falta de fecundidade que faz normalmente serem abandonadas por outras que pareçam mais capazes de orientar as pesquisas e grupar inteligivelmente as leis.

59        4. O fundamento da indução. — Dissemos que a ciência estende a todos os casos do mesmo gênero o que foi verificado de um ou vários casos singulares (29). Como legitimar este processo? Responde-se geralmente que o seu fundamento é o princípio do determinismo ou da constância das leis da natureza, o que é verdade. Mas, do ponto-de-vista científico, o princípio não é mais que um postulado: a ciência, como tal, crê na constância das leis naturais. Ela não o demonstra.

Na realidade, o problema do fundamento da indução ê um, problema propriamente filosófico, porque se trata aqui de justificar o princípio do determinismo. A solução deste problema envolve a um tempo a Psicologia e a Crítica do Conhecimento, porque o problema se relaciona ao da formação e do valor das idéias gerais. O problema da indução científica é apenas um caso particular do problema geral do conhecimento abstrativo, pois a lei científica, não é mais do que um fato geral, abstraído da experiência sensível. Veremos justamente que a inteligência tem o poder de apreender, pela abstração, o universal no singular e o necessário no contingente, e mostraremos o que justifica a função abstrativa do espírito e lhe garante o valor.

§ 3.   Processos particulares à Biologia

60        1.   O ponto-de-vista finalista. –    A Biologia, em que intervém a consideração da vida, comporta processos que lhe são  particulares.

Não se tratam os seres vivos como seres inorgânicos. Observação e experimentação comportam então aqui uma adaptação necessária e, particularmente, o recurso constante à idéia de finalidade. O biologista ensina que os vivos são organismos que exercem funções diversas, que se hierarquizam por si mesmas a um fim determinado. A descoberta das funções, isto é, dos fins, torna-se o objetivo da ciência.

2. Classificação e sistematização. — Um dos meios para este objetivo é a classificação ou sistematização, que tende a repartir os seres vivos em grupos distintos cada vez mais gerais e tais, que OS grupos inferiores sejam subdivisões dos grupos superiores.

Esta classificação, baseada na natureza das coisas, responde a uma necessidade do espírito, que procura, sobretudo, a unidade. Deve, também, ajudar a formular a definição dos seres vivos, pela enumeração dos caracteres que lhes fixam o lugar na classificação.

ART.    IV.    MÉTODOS DAS CIÊNCIAS MORAIS

§ 1.     NOÇÕES GERAIS

61        1,    Definição das ciências morais. — Chamamos ciências morais as ciências que se referem às diferentes manifestações, individuais ou coletivas, do homem., enquanto ser inteligente e livre. É a consideração do que caracteriza o homem, a saber, a inteligência e a liberdade, que dá às ciências morais seu objeto especial e irredutível na hierarquia das ciências.

O fato de que o homem é aqui encarado como um ser dotado de liberdade não significa que as ciências morais renunciem a estabelecer leis. Primeiro, há leis da atividade livre como tal (leis morais), — depois, o homem individual e coletivo, mesmo agindo livremente, é suscetível de um comportamento normal, regular e previsível, que permite estabelecer as leis positivas (médias ou estatísticas  que valem  pura o maior número de casos.

2.   Divisão.          Podem-se distinguir duas grandes categorias de ciências morais, a saber:

a)     As ciências morais teóricas. São as que estudam o homem, individual ou coletivo, tal qual é. Tais são a Psicologia, a Sociologia e a História. Estas ciências são, pois, ciências de fatos.

b)     As ciências morais práticas. São as que definem as leis a que deve conformar-se a atividade humana. Tais são a Lógica, a Moral e a Política. Estas ciências são, pois, ciências normativas.

3. Distinção dos métodos. — Os dois grupos de ciências mo-rais são bastante distintos entre si para exigir métodos distintos. O primeiro grupo compreende, evidentemente, os processos do método experimental, adaptados a estes novos objetos. — Quanto HO segundo grupo, faz intervir o que se chama juízos de valor, ou julzoi que formulam o que é bom, e o que convém fazer, e, sob este aspecto, exige um método diferente dos que se usam nas ciências de ralos, Estudaremos este método quando abordarmos a Moral.

Quanto ao método da Psicologia, seu estudo vai aparecer juntamente com o desta disciplina. Resta-nos aqui, apenas, tratar do método da História e da Sociologia.

§ 2.     MÉTODO DA HISTÓRIA

 62        1.   Noção da História.

a)     Definição. Num sentido muito geral, chamamos História o estudo de tudo o que tem um passado (história da terra, história da arte etc). Em seu sentido estrito, a História é o estudo dos fatos do passado, que interferiram na evolução da humanidade. Sob estes aspecto, a História tem que se ocupar a um tempo dos fatos humanos

 (por exemplo, a guerra das Gálias, as grandes invasões, nu Cruzadas, a Reforma etc.) e dos fatos materiais que tiveram efeitos humanos  (erupção do Vesúvio em 79, inundações do Nilo etc).

b)     Natureza dos fatos históricos. Chamam-se fatos   históricos os fatos singulares marcados por circunstâncias de que se revestiram no espaço e no tempo. Os fatos históricos são, pois, originais e únicos. Eis aí uma das características que distinguem  u história da sociologia: esta, de fato.  pode tomar por objeto de estudo os fatos do passado, mas os considera sob seu aspecto geral, despojando-os das circunstâncias concretas que os assinalaram historicamente. Nas formas históricas da propriedade privada, ela se enforca por desligar a essência do direito de propriedade;  na Reforma, procurará descobrir a forma geral das revoluções religiosas.

2.    Os documentos históricos.

a)     Monumentos e escritos. Distinguem-se, comumente, duas espécies de documentos: os monumentos ou documentos materiais (inscrições, tábuas, papiros, medalhas, troféus, imagens, templos, tumbas, obras de arte etc), e os escritos ou documentos psicológicos (anais, histórias, memórias, correspondências, atos públicos, obras literárias etc).

b)     Vestígios e testemunhos. A divisão dos documentos em vestígios e testemunhos parece preferível à precedente, que não é Irredutível. De fato, certos documentos não são mais do que vestígios ou traços do passado, sem serem destinados por si mesmos a transmitir a lembrança à posteridade: tais são as jarras, armas, jóias, livros de contabilidade, moedas etc. — Os outros são testemunha», que visam formalmente a informar à posteridade: tais são as    memórias, crônicas, anais, inscrições etc.

3.    Os   processos   da   História.   —   O método  histórico compreende três fases principais:

a)    A pesquisa dos documentos. O primeiro trabalho do historiador consiste em reunir os documentos mais aptos a tornar conhecidos os fatos do passado. O engenho do pesquisador é aqui o fator capital. Mas, uma vez realizada a descoberta, as técnicas numerosas e completas devem entrar em jogo para sua exploração. Isto-i particularmente verdadeiro quando se trata de escavações: não é suficiente ter descoberto um subsolo rico de documentos; o trabalho nestes tesouros   (palácios, estátuas, moedas,  papiros,  fósseis etc.) requer o emprego de métodos geralmente muito delicados e que exigem meios, materiais poderosos.

De mais a mais, acumulam-se assim os documentos do passado, graças às ciências auxiliares da História: Arqueologia, Epigrafia, Papirologia, Paleografia, Numismática etc, que têm por objeto próprio a pesquisa, a classificação e a crítica dos documentos históricos e compõem o domínio da erudição, que está na base da História, como a observação está na base da ciência.

b)     A crítica histórica. A crítica histórica volta-se a um tempo para os documento  e vestígios e para os documentos-testemunhos. — Quanto aos vestígios do passado, trata-se de estabelecer a autenticidade e a proveniência dos documentos, — de determinar o seu grau de integridade e, quando cabe, de encontrar-lhe o sentido, o que quer dizer, de os decifrar e os traduzir. — A crítica dos testemunhos consiste em investigar, se os testemunhos são a um tempo sinceros e exatos (a boa-fé não implica necessariamente em exatidão). Por isso, é necessário criticar seja o fato referido em si mesmo, seja o ou os testemunhos que o transmitem.

Estas diferentes críticas apelam ora a critérios de veracidade interiores aos próprios documentos {crítica interna), ora a critério:: exteriores aos documentos  (crítica externa).

c)     A descrição do passado. O historiador, após ter reunido e estabelecido os fatos, deve trabalhá-los. Trabalho delicado que exige uma grande sagacidade, para descobrir o encadeamento real dos fatos históricos, e uma perfeita imparcialidade, interditando toda. explicação que não seja imposta ou ao menos sugerida pelos próprios fatos. Aqui a imaginação representa um papel capital, pois se trata de fazer reviver o passado, de o reconstruir. O importante é que a imaginação não trabalhe à margem dos fatos, mas, ao contrário, seja unicamente uma forma de penetração psicológica e da submissão ao real.

4. A História será uma ciência? — É evidente que a Historia não é uma ciência da mesma natureza que a Física ou a Química,, Estas enunciam leis universais; a História compreende fatos singulares, únicos. — Pode-se, contudo, considerar a história como uma ciência, de vez que comporta a certeza, adquirida por métodos, com um rigor suficiente, e porque explica os fatos relacionando os com suas causas. A rigor, dever-se-ia dizer que a história é uma ciência, não por seu objeto, que não tem caracteres de generalidade e de necessidade, requeridos pelas ciências propriamente ditas, mas pelos métodos que utiliza.

§ 3.     MÉTODOS DA SOCIOLOGIA

A.    Noção de sociologia.

64        1. A ciência sociológica – A Sociologia, ciência dos fatos tomais, ou estudo descritivo, comparativo e explicativo das realidades sociais, é uma disciplina recente. Não que o estudo das sociedades tenha sido desconhecido dos antigos. Platão, AristóteLES, com elas se preocuparam. Nos séculos XVII e XVIII Hobbes LOCKE, MONTESQUIEU, CONDORCET procuraram determinar como se comportam os homens como seres sociais. Mas é sobretudo com Augusto COMTe tende a tornar-se uma ciência quer dizer, uma disciplina submetida a um método rigoroso e destinado a definir as leis que regem a vida em sociedade.

Em nossos dias, com Durkheim, a Sociologia se esforçou por modelar-se exatamente nas ciências experimentais e, por um desenvolvimento ainda não alcançado, absorver todas as ciências morais que só seriam, nesta concepção, partes ou elementos da Sociologia’ ciência universal do homem. Veremos mais adiante como encaramos esta concepção.

2. O fato social, objeto da Sociologia. — A dificuldade que encontra a Sociologia consiste em definir exatamente seu objeto. Diz-se, geralmente, que este é o fato social. Mas esta noção está longe de ser perfeitamente clara.

a) A consciência coletiva. É necessário, inicialmente, afastar a definição que dá Durkheim do fato social, quando afirma que é aquele que se produz por uma consciência coletiva, exterior e superior às consciências individuais. Esta pretensa consciência coletiva não existe, É uma noção mítica e contraditória, pois todo conhecimento é |necessariamente individual.

b) A coação. DURKHEIM também ensaiou definir o fato social por seu caráter essencial, que consistiria na coação que exerce sobre as consciências individuais. (A moda seria um fato social enquanto força a pensar, sentir, agir, de tal ou qual maneira.) Mas não parece que a coação tenha um caráter de universalidade suficiente para definir o fato social Há imposições que não traduzem mais do que as leis filosóficas, e, ao contrário, muitos fatos sociais não fazem aos indivíduos determinada imposição: a moda não é tirânica para todos, e  numerosos indivíduos não temem subtrair-se a ela.

c) A influência da sociedade sobre os indivíduos. Parece que, para assegurar ao fato social uma especificidade suficiente, é bastante defini-lo com um fato (maneira de pensar, de sentir, de agir), que encontra na sociedade como tal sua causa formal e sua causa-final. Quando os indivíduos se encontram agrupados em sociedade, quer dizer, reunidos para realização de fins comuns a todos, e não simplesmente justapostos ou reunidos acidentalmente (como, por exemplo, num vagão de estrada de ferro), ocorrem maneiras comuns de comportamento que não existiriam fora do agrupamento, com indivíduos isolados.

Daí os fenômenos assinalados por um caráter social, quer dizer, produzidos por indivíduos que agem livremente, mas derivados da influência exercida pelo grupo social e sua finalidade própria sobre os indivíduos que o compõem.

65        3. A Sociologia é uma ciência distinta? — O fato social tal qual acabamos de definir pode dar origem a uma ciência distinta e autônoma. Ora isto tem sido negado, dizendo-se que a Sociologia se confunde com as outras ciências morais, — ora tem sido admitido, pretendendo-se mesmo por vezes (como DURKHEIM) fazer da Sociologia a ciência moral universal. Estas duas asserções são errôneas.

a) A Sociologia não se confunde com as outras ciências morais. Tem-se sustentado, por vezes, de um ponto-de-vista exatamente contrário ao de Durkheim, que os fatos sociais não poderiam ser objeto de uma ciência especial. Diz-se que as ciências particulares já distribuem entre si os diferentes fatos sociais (História, Etnologia, Lingüística, Geografia Humana etc.) e nada resta para a Sociologia, a não ser o fato social furo, que é evidentemente um mito. Esta objeção não é desprovida de um certo fundamento. Sublinha com razão que as ciências particulares têm também um aspecto social. Mas erra ao negligenciar o fato de que há lugar para uma ciência especial destinada a determinar as leis de co-existên-cia dos grupos sociais, as leis de funcionamento destes grupos (exemplos: leis da imitação, lei do menor esforço), — enfim, as leis de evolução das sociedades humanas. Outras ciências podem abordar estes problemas, mas não essencialmente, enquanto que a Sociologia se reservará, como objeto próprio, o estabelecimento destas diversas leis, utilizando os dados e os resultados fornecidos pelas outras ciências, da mesma maneira que a História utiliza os resultados de numerosas ciências auxiliares.

b) A Sociologia não é uma ciência universal. Se o fato social, todavia, dá origem a uma ciência distinta, não seria suficiente para constituir uma ciência universal, como o queria Dukkheim. Todo fato humano não é um fato social. O indivíduo humano não está na sociedade como uma gota de água no mar. Há uma independência relativa, uma autonomia real, em razão da liberdade que ele possui. Diz-se, mais brevemente, que ele é uma pessoa.

A. Natureza das leis sociológicas. — Os fatos sociais são de uma extrema complexidade e a Sociologia não pode visar a um rigor semelhante ao das ciências físico-químicas. Quando Durkheim pretende estabelecer em Sociologia leis tão precisas quanto as das ciências naturais, apóia sua pretensão numa concepção que elimina radicalmente o exercício da liberdade humana. Esta concepção manifesta um materialismo indefensável.

Existe nos fatos sociais, contudo, um certo determinismo que garante a exatidão aproximativa das leis que os regem; este determinismo define aqui a ordem mais freqüente pela qual se exercem as liberdades humanas e é justamente a indeterminação dos elementos individuais (quer dizer aqui as liberdades humanas) que garante a constância dos meios e das leis estatísticas, pelo simples fato de que, em se tratando de números elevados, os casos aberrantes ou excepcionais desaparecem sensivelmente na massa dos casos conforme às leis da natureza moral.

B.    Método da Sociologia.

66        Uma vez que a Sociologia é uma ciência de fatos, seu método será o método indutivo, com as diferenças que exige o objeto da Sociologia.

1.    A observação em Sociologia. — A Sociologia partirá da observação dos fatos sociais, seja direta, seja indireta (por meio da História, da Etnologia etc). A observação direta é de pouco alcance. A história das sociedades antigas será de grande utilidade para estender até às épocas mais recuadas e às civilizações desaparecidas o campo da observação sociológica.

2.    A experimentação em Sociologia. — A experimentação não é quase praticável pela Sociologia. A única forma que pode tomar consiste no estudo dos efeitos produzidos numa sociedade dada pelas  inovações políticas ou sociais ou por tal acontecimento determinado.

(Exemplo: a introdução da indústria, num país agrícola.) Ainda aí este gênero de estudo implica mais em observação do que em experimentação propriamente dita.

3.    A estatística.

a)    Natureza e objeto das estatísticas. Chama-se estatística uma apresentação numérica dos fatos da mesma natureza que se produziram num tempo e espaço dados (exemplo: estatística dos suicídios na França durante o ano de 1936).

As estatísticas são de grande uso em Sociologia. Têm por objeto permitir estabelecer relações de causalidade ou de coexistência outro diferentes fatos sociais de natureza diferente. Assim, procuraremos determinar pelas estatísticas a proporção que existe entro o namoro de vendas de bebidas alcoólicas e o número de casos do loucura de determinados países. Se as variações dos dois números são constantes, concluir-se-á uma relação de  causa e efeito entre os dois fatos.

b)    O limite  da estatística. O método estatístico permaneço, contudo, um processo imperfeito, pelo fato  de que  as  estatísticas comportam muitas vezes o inexato, sobretudo em razão das interpretações muito diversas que podem admitir. Para que elas se tornassem suscetíveis  de uma interpretação   única,  seria necessário que o fato social sobre o qual se aplicam fosse rigorosamente  isolado e assim apreendido de alguma forma em estado puro, o que ô quase impossível. C.    Papel da Sociologia.

67        1.    A Sociologia não é uma moral.        A Sociologia  leve, com DURKHEIM,  grandes  ambições.   Pretendeu-se   tirar   dela  uma   arte sociológica que nos assinalaria os fins a perseguir, da mesma forma que a Moral nos assinala as regras do dever. Ora, isto é impossível, uma vez que a Sociologia não ê mais que uma ciência de fatos, que nos indica o como dos fenômenos sociais, sem ser capaz de nos dar ordens impondo tal ou qual maneira de agir. A Sociologia, como tal, fica alheia à determinação dos fins morais.

2. A Sociologia é útil ao moralista e ao político. — Seria não menos errôneo pensar que nada há a esperar da Sociologia. Os fatos sociais que ela põe em foco, as leis que consegue formular, são elementos preciosos para a Moral Social e a Política. A Sociologia deve tornar-se, desta forma, como que um instrumento nas mãos do moralista e do político, fazendo-lhes melhor conhecer a natureza humana e sugerindo-lhes os meios mais próprios a assegurar, por uma melhor organização social, econômica e política, o bem e o progresso da pessoa humana.




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