Primeira Guerra Mundial – Resumo Completo da História

Primeira Guerra Mundial – Resumo Completo da História

Capítulo 27

A primeira guerra mundial

Edward McNall Burns in História da Civilização Ocidental

As raízes da guerra nas tendências
políticas do século XIX

A gloriosa era de ciência, democracia e reforma social discutida nos
capítulos precedentes terminou numa das mais horrorosas guerras de toda a
história.   À primeira vista isso pode parecer um paradoxo.   Não obstante,
devemos lembrar que o período compreendido entre 1 830 e 1 914 tinha certos 
característicos absolutamente alheios ao progresso politico, social ou intelectual,   sendo uma época de democracia, o foi
também de imperialismo. Se é verdade que nunca se despendeu tanto dinheiro no
interesse do bem-estar social, as verbas militares e navais também aumentaram enormemente. A despeito dos notáveis avanços no campo da ciência e da educação,
superstições cruéis e insensatas continuaram a medrar onde menos seria de
esperar. O nacionalismo agressivo e belicoso alastrou-se como uma peste.
Líderes intelectuais da França, inclusive o romancista Zola, instigaram
um ódio apaixonado contra a Alemanha. Do outro lado do Reno, poetas e professores
divinizavam o espírito alemão e cultivavam um arrogante desprezo pelos
eslavos. Ensinava-se aos ingleses que eles eram o povo mais civilizado da terra e que o seu direito de
estabelecer "o domínio sobre palmeiras e pinheiros" provinha de uma
autoridade nada menos que divina. Diante disso, não parecerá talvez estranho
que os Jovens Turcos, educados nas universidades da Europa Ocidental,
tivessem, de volta à sua pátria, massacrado o "gado cristão" do sultão
na Macedónia.

1. As causas
subjacentes Da guerra

Causas econômicas: A rivalidade industrial entre
inglaterra e alemanha

Desde que Tucídides escreveu a sua narrativa clássica da luta entre Esparta e
Atenas, tornou-se hábito dos historiadores dividir os fatores responsáveis pela
guerra em causas imediatas e causas subjacentes.   Algumas das causas
subjacentes ou remotas da Primeira Guerra Mundial remontam à história européia
 de um século atrás.   A maioria delas, porém, data de cerca de 1870.   Isto se aplica particularmente as  causas econômicas, que muitos historiadores consideram como
bases de todas as demais.   A causa econômica que geralmente colocam no cabeçalho da lista é a rivalidade industrial e comercial entre a
Alemanha e a Inglaterra. No capítulo sobre a Revolução Industrial mostramos que
a Alemanha, após a fundação do império em 1 871, atravessou um período de
desenvolvimento econômico pouco menos que milagroso. Em 1 914, estava
produzindo mais ferro e aço do que a Inglaterra e a França juntas. Em produtos
químicos, corantes de anilina, e, na manufatura de instrumentos científicos achava-se à
frente do mundo inteiro. Os produtos da sua indústria desalojavam os congêneres
ingleses de quase todos os mercados da Europa continental, bem como do Extremo
Oriente e da própria Inglaterra. Talheres com o dístico "Made in Germany” eram vendidos até em Sheffield, o maior centro de cutelaria inglesa, e lápis fabricados na Baviera eram
encontrados sobre a mesa da Câmara dos Comuns. Além disso, o império dos kaisers tinha
começado a desafiar a supremacia britânica nos transportes. Em 1 914 a
Hamburg-Amerika Linie e o Lloyd Norte-Alemão contavam-se entre as maiores linhas de navegação
do mundo. Dois de seus navios tinham arrebatado sucessivamente o campeonato de
velocidade do Atlântico aos barcos britânicos e o Imperator, lançado à água em
1912, era o maior navio do mundo.

Há indícios de que certos interesses
britânicos começavam a alarmar-se seriamente com a ameaça da competição alemã.
Esse sentimento chegou ao paroxismo
por volta do fim do século, quando a Saturday Review de Londres estampou a seguinte opinião: "Se a Alemanha
fosse extinta amanhã, não haveria depois de amanhã um só inglês no mundo que
não fosse mais rico do que é hoje. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou
por um direito de sucessão; e não se deve lutar por um comércio de duzentos e
cinqüenta milhões de esterlinos?. . . A Inglaterra despertou afinal para o que
é inevitável e constitui ao mesmo tempo a sua mais grata esperança de
prosperidade. Germaniam esse delendam" (1). Conquanto essa opinião não fosse nem oficial nem
representativa do pensamento da nação como um todo, refletia a exasperação de
alguns cidadãos influentes. Depois de 1 900 o ressentimento diminuiu por algum tempo,
mas tornou a inflamar-se nos anos que precederam o  deflagrar da guerra. Parecia reinar a forte
convicção de que a Alemanha estava movendo à Inglaterra uma guerra econômica deliberada
e implacável, visando tomar-lhe os mercados por meios fraudulentos e
escorraçar os seus navios dos mares. Permitir que a Alemanha
saísse vitoriosa dessa luta significaria para a Inglaterra o fim da sua
prosperidade e urra jrave ameaça à sua existência nacional (2). Os cidadãos britânicos que se preocupavam com tais assuntos viam a sua pátria como vitima inocente da agressividade alemã e sentiam-se plenamente justificados em tomar quaisquer medidas
que se fizessem necessárias para defender a sua posição.

(1) The Saturday Review, 11 de set. 1897; citado por John Bakeless em
The Economic  Causes of
Modem  Wars,  p.   145   (nota).

2)   Uma exposição  completa    da   rivalidade   econômica    anglo-germànica  
pode  ser encontrada em R.  J.   S.  Hoffmann,  Great Britain  and  the  German  Trade Rivalry.   O autor,  todavia, absolve  os   ingleses  de  qualquer  intenção 
de  fazer  guerra  à  Alemanha com o fim de destruir-lhe o
comércio.

Outros exemplos de antagonismo
econômico

Também os franceses
estavam alarmados com a expansão industrial alemã.   Em 1 870 a França
fora despojada dos extensas depósitos de ferro e carvão da Lorena, que
passaram a contribuir para o crescimento industrial da Alemanha. É verdade que
os franceses ainda tinham ferro em abundância nas ricas jazidas de
Bney, na fronteira oriental, mas receavam que a sua inimiga viesse um dia a arrebatar-lhes também
isso. Acresce que a França se via na necessidade de importar carvão, o que lhe
feria o orgulho quase tanto quanto a perda do ferro. Havia ainda várias outras
causas de atrito econômico que muito contribuíram para provocar a guerra.
A ambição russa de obter o controle de Constantinopla e de outras porções do
território turco entrava em conflito com os planos dos alemães e austríacos,
que queriam para si o Império Otomano como um paraíso de privilégios
comerciais. Rússia e Áustria também rivalizavam entre si na obtenção do
monopólio comercial dos reinos balcânicos da Sérvia, da Rumânia, da Bulgária e
da Grécia. A Áustria estava tão ansiosa de evitar que esses países caíssem na
órbita russa quanto desejosa estava a Rússia de estender o seu poder a todos os
eslavos da Europa Oriental. Havia, por fim, um agudo antagonismo econômico entre
a Alemanha e a França com respeito ao direito de explorar os recursos minerais
e as oportunidades comerciais do Marrocos.

 

 A estrada de ferro Berlim-Bagdá

Até ‘certo ponto, a
construção da estrada de ferro Berlim-Bagdá
foi uma causa econômica da
guerra, embora tivesse efeitos políticos não menos importantes.   A conclusão
dessa estrada envolvia, como é de ver. o assentamento de uma    linha do Bósforo a Bagdá pelo rio Tigre, uma vez    que já existia a
ligação ferroviária entre Berlim e Constantinopla.   De Bagdá talvez
pudesse ser estendida até o Golfo Pérsico, abrindo assim um caminho mais curto
para a índia.   Os planos da estrada de ferro tinham sido traçados por uma
companhia alemã desde 1 890. Considerando
os riscos demasiadamente grandes para ser empreendidos por eles sós, os
capitalistas alemães convidaram banqueiros ingleses e franceses para
cooperarem. O capital seria dividido igualmente entre os três países e a
Inglaterra e a França teriam a mesma representação que a Alemanha na diretoria.
O ciúme e a desconfiança, contudo, fizeram com que a proposta fosse rejeitada pelos governos
britânico e francês. Os ingleses parecem ter receado que as linhas vitais do
seu império corressem perigo, bem assim como os seus interesses econômicos na
Pérsia e na Mesopotâmia. Os políticos franceses, por seu lado, parecem ter cedido à pressão por parte da Rússia,
a qual temia que uma estrada de ferro a atravessar a Turquia ressuscitasse a
"enferma do Levante" e adiasse indefinidamente a partilha dos seus
bens. Em 1 913-14 foi concluída uma série de acordos entre ingleses, franceses
e alemães para a construção de ferrovias turcas sobre a base de uma divisão do
Império Otomano em esferas de influência. A essas alturas, porém, a amizade
internacional estava ferida de morte, sobretudo porque a Alemanha já havia
completado cerca de 600 quilômetros da linha de Bagdá.

O perigo de exagerar as causas
econômicas

É impossível aquilatar o verdadeiro
valor das causas econômicas subjacentes da guerra.   Tiveram certamente
influência, mas não tão importante, talvez, quanto em gera! se acredita.

 Para começar, a rivalidade entre a Inglaterra e a Alemanha
tem sido provavelmente exagerada. Em 1914  a Inglaterra não corria perigo de ser reduzida ao nível
de uma potência industrial de terceira categoria. É verdade que o seu comércio
exterior já não crescia tão rápidamente
como o da Alemanha, mas assim mesmo
crescia. Durante os quarenta anos subseqüentes à guerra franco-prussiana o
comércio alemão expandiu-se na proporção de 130%, enquanto para a sua rival o
crescimento não passou de 40%. Ainda em 1 913 os ingleses exportaram
mercadorias no valor de 525 milhões de libras e os alemães, de
495 milhões (3). Do mesmo modo, devemos abster-nos de de atribuir
demasiada gravidade à competição entre a Rússia e a Alemanha. A Rússia não era ainda uma grande nação capitalista,
com um excesso de produtos que tivesse necessidade de vender no exterior.  
Dependia muito  mais  da importação.   Em  1 912. por exemplo, seus embarques de produtos acabados
constituíram apenas 2% do total das exportações, ao passo que o volume das
mercadorias manufaturadas foi mais de dez vezes maior (4). E é
significativo que proviesse da Alemanha uma porção considerável  destas
últimas. Por outro lado, não devemos esquecer que sempre há indivíduos
poderosos que são prejudicados pela concorrência estrangeira.   Tais pessoas
invariavelmente exerceu; a maior pressão possível para forçarem os seus governos a uma ação agressiva.
Convém lembrar também qué
as rivalidades económicas
resultam amiúde em atrito político. Os ingleses temiam,
por exemplo, que o gigantesco desenvolvimento industria] da Alemanha ocidental
tornasse indispensável ao império do kaiser o controle de Antuérpia e Amsterdã. O
resultado total seria a anexação da Bélgica e da Holanda pela Alemanha, com
sério prejuízo para a posição estratégica da Inglaterra.

(3 )   B. E.. 
Schmitt, England and
Germany, p.  102.

(4)   Clive Day, Bconomic Developmcnt in Modem Europe, p. 387.

Nacionalismo e Movimento pela Grande Sérvia.

Entre as causas
politicas da Primeira. Guerra Mundial desempenhou papel
proeminente o nacionalismo.   Esse fator,
como explicamos anteriormente, tinha raízes que remontavam pelo
menos à Revolução Francesa.   Nos começos do século XX, porém, êle passou a assumir uma var de
formas particularmente perigosas.   As principais dentre elas eram o plano da
Grande Sérvia, o paneslavismo
na Rússia, o movimento de revanche na França e •  :v. mento pangermânico.   Os dois primeiros relacionavam-se intimamente
entre si.   Pelo menos desde o começo do século XX a pequena Sérvia sonhava
estender a sua jurisdição sobre todos os povos que passavam por ser da mesma
raça e cultura que os seus próprios cidadãos. Alguns desses povos habitavam as
então províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina.   Outros incluíam os
croatas e eslovenos das províi meridionais da Áustria-Hungria.  
Depois de 1 908, quando a Austria repentinamente
anexou a Bósnia e a Herzegovina, o plano da Grande Sérvia dirigiu-se exclusivamente
contra o império dos Habsburgos. Assumiu a forma de uma agitação para provocar
o descontentamento entre os súditos eslavos da Austria, na esperança de afastá-los desta e unir à
Sérvia os territórios que eles habitavam.   Daí adveio uma série de perigosas
conspirações contra a paz e a integridade da Monarquia Dual, e o clímax
fatídico dessas conspirações foi o assassínio do herdeiro do trono austríaco
em 28 de junho de 1 914.

 O pan-eslavismo

Em muitas de suas atividades os
nacionalistas sérvios foram auxiliados e instigados pelos pan-eslavistas da
Rússia.   O pan-eslavismo baseava-se na teoria de que todos os eslavos da     Europa
Oriental constituíam uma grande família. Argumentava-se 
por  conseguinte  que  a  Rússia, 
como o mais poderoso dos estados eslavos, deveria ser guia e protetora das
suas pequenas irmãs dos Balcãs.   Era preciso encorajar estas últimas a voltar
os olhos para a Rússia sempre que os seus interesses corressem perigo.   Os
sérvios, búlgaros e montenegrinos, nas suas lutas contra a Áustria ou a
Turquia, deviam saber que sempre teriam um amigo poderoso e simpatizante no
outro lado dos Cárpatos.  
O pan-eslavismo não era
apenas o ideal interessado de alguns nacionalistas ardentes, mas fazia
verdadeiramente parte da política oficial do governo russo.   Muito contribui
para explicar a atitude agressiva da
Rússia em todas
as disputas que surgiram entre a Sérvia e a Áustria.

O movimento
de desforra da França

 Outra das formas malignas de nacionalismo que contribuíram
para a guerra de 1 914 foi o movimento francés pela revanche. Desde 1 870
os patriotas exaltados
da França vinham almejando um ensejo de vingar a derrota sofrida na guerra
franco-prussiana. É quase impossível, para quem nao é europeo, formar uma concepção justa do ascendente que tinha essa
ideia sôbre o espírito de milhões de franceses. Era cuidadosamente cultivada pela imprensa amarela e servida aos
escolares como iguaria cotidiana da sua nutrição intelectual. O conhecido político Raymond Poincaré devia não ver para que a sua geração continuasse a viver, a não ser a de reaver as provincias perdidas da Alsácia e da Lorena. Deve-se compreen
der, no entanto, que
essa idéia nunca passou, provavelmente, de opi nião de uma minoria do povo
francês. Por volta de 1 914, era for temente combatida pelos socialistas e por
muitos líderes liberais.

O movimento pangermanisia

É difícil avaliar a influência do
pangermanismo como uma modalidade de nacionalismo antes de 1 914.   O nome do
movimen; em geral, por derivar da Liga Pangermânica, fundada por volta de 1
895.   Essa liga advogava particularmente a expansão da Alemanha, que deveria
incorporar todos os povos teutónicos
da Europa Central.   Os limites do
império seriam estendidos até abranger a Dinamarca, a Holanda, o Luxemburgo, a
Suíça, a Áustria e a Polônia até Varsóvia.  
Alguns líderes não se contentavam sequer
com isso, exigindo também um grande império colonial e uma ampla expansão para
leste, até os Balcãs e a Ásia Ocidental.   Faziam questão de que povos como os
búlgaros e turcos se tornassem pelo menos satélites do Reich.   Embora
a Liga Pangermânica fizesse muito ruído, dificilmente poderia alimentar a
pretensão de representar a nação alemã.   Ainda em 1912 não contava mais de 17
000 membros e as suas violentas críticas ao governo eram mal recebidas por
muita gente.   Não obstante, certas doutrinas suas tinham vivido em estado
latente por mais de um século no pensamento alemão.   O filósofo Fichte ensinara
que os alemães, em virtude da sua superioridade espiritual, tinham a missão de
impor a paz ao resto da Europa.   Conceitos de arianismo e de supremacia nórdica também
contribuíram para a idéia de que os alemães eram divinamente predestinados a
persuadir ou obrigar as "raças inferiores" a aceitarem a sua
cultura.   Por fim, os esforços de filósofos como Heinrich von
Treitschke para divinizar o estado e glorificar
o poder como instrumento de política
nacional ajudaram a incutir no espírito de muitos alemães das classes média e
superior a intolerância para com as outras nações e a crença no direito da Alemanha
a dominar os seus vizinhos mais fracos.

Os efeitos do sistema de Alianças
Múltiplas

O nacionalismo dos tipos que acabamos
de descrever teria sido quase suficiente de per si para mergulhar um número
considerável de nações européias na voragem da guerra.   Mas o  conflito dificilmente teria assumido as proporções  que assumiu se não fosse o sistema de alianças multiplas.   Foi esse sistema que transformou a contenda local entre a Áustria e a Sérvia numa guerra geral. Quando a
Rússia interveio em favor da Sérvia, a Alemanha sentiu-se obrigada a acudir em
defesa da Áustria. A França estava ligada à Rússia por laços estreitos e a
Inglaterra foi arrastada ao conflito devido, pelo menos em parte, aos seus
compromissos com a França.

O
sistema de alianças, além disso, era uma
fonte de suspeita e de medo. Impossível esperar que a Europa continuasse
indefinidamente dividida em campos opostos de força mais ou menos igual. As condições
não podiam deixar de mudar com a passagem do tempo. Os motivos que
originalmente tinham levado determinadas nações a associar-se a outras perdiam
a sua importância, desaparecendo assim a base da aliança. Veremos, por
exemplo, a Itália abandonar praticamente a aliança com a Alemanha e a Áustria,
às quais parecera, de começo, tão ansiosa por juntar-se. O resultado foi unir
mais fortemente as suas antigas aliadas e aumentar-lhes a obsessão de estarem
cercadas por um anel de potências hostis.

A evolução do sistema de alianças

A evolução do sistema de alianças
múltiplas remonta à década de 1 870 e seu arquiteto inicial foi Bismarck.   Em essência, os objetivos do Chanceler de Ferro eram
pacíficos.   A  Prússia e os seus aliados alemães tinham saído vitoriosos da
guerra com a França e o recém-criado império germânico era o estado mais
poderoso do Continente. Almejava Bismarck,
acima de tudo, preservar os frutos dessa
vitória: nada indica que êle estivesse a planejar novas conquistas. Não
obstante, perturbava-o o receio de que a França pu-desse iniciar uma guerra de
desforra.   Era pouco provável que tentasse sozinha uma tal coisa, mas podia
fazê-lo auxiliada por uma outra potência. Conseqüentemente, Bismarck resolveu
isolar a França ligando todos os seus possíveis amigos à Alemanha. Em 1 873
conseguiu formar unia aliança simultânea com a Áustria e a Rússia — a chamada Liga
dos Três Imperadores. Essa combinação era entretanto de caráter precário.
Desfez-se depois do Congresso de Berlim, em 1 878, quando a Rússia acusou a
Alemanha e a Áustria de escamotear-lhe os frutos da guerra que acabava de ter
com a Turquia. Extinta a Liga dos Três Imperadores, Bismarck cimentou
uma nova aliança, agora muito mais forte, com a Áustria. Em I 882 essa parceria
expandiu-se na célebre Tripla Aliança, com a adesão da Itália. Os italianos não
aderiram por amor aos alemães ou aos austríacos, mas sim levados pela cólera e
pelo medo.   Despeitava-os o fato de ter a França anexado a Tunísia (188I), um território que consideravam
como legitimamente seu. Além
disso, os políticos italianos ‘ ainda andavam às testilhas com a igreja e receavam que os clericais da França subissem ao poder e enviassem um exército
francês para defender o papa. Nesse meio tempo foi ressuscitada a Liga dos Três Imperadores. Conquanto durasse apenas seis anos (1881-87), a Alemanha conseguiua
amizade com a Rússia até 1890.

A Revolução diplomática em 1899 –
1907

Destarte, ao cabo de pouco mais de uma década de manobras políticas Bismarck kigrara realizar as suas
ambições.   Por volta
de 1 882 a França
estava praticamente impossibilitada de obter o auxílio de amigos poderosos.   A
Áustria    e a Itália achavam-se unidas à Alemanha pela Trí-plice Aliança e a Rússia, após três anos de ausência, havia
retornado ao arraial bismarckiano.  
O único auxilio possível era o da
Inglaterra; mas, com respeito aos assuntos continc: ingleses tinham voltado à
sua política tradicional de "esplêndido isolamento".   Por
conseguinte, no que dizia respeito ao perigo de uma guerra de vingança a
Alemanha pouco tinha a temer.   Mas, se Bismarck ou
qualquer outra pessoa imaginava que tal segurança era permanente, estava-lhe reservada uma triste decepção.   Entre
1 890 e 1 907 a Europa passou por uma revolução diplomática que aniquilou
praticamente a obra de Bismarck.  
É verdade que a Alemanha ainda tinha a Áustria ao seu lado, mas perdera a
amizade tanto da Rússia como da Itália, ao mesmo tempo que a Inglaterra saíra
do seu isolamento para entrar em ajustes com a Rússia e a França.   Esse deslocamento
do equilíbrio de poderes teve resultados fatídicos.   Convenceu os alemães de que
estavam rodeados por um anel de inimigos e, portanto, tinham de fazer o que
estivesse ao seu alcance para conservar a lealdade da Áustria, ainda mesmo que
fosse preciso prestar apoio às temerárias aventuras desta no estrangeiro.  
Seria difícil encontrar melhor ilustração da futilidade de se confiar num
sistema de alianças para preservar a paz.

Não é necessário procurar muito longe as causas dessa revolução
diplomática. Em primeiro lugar, desavenças entre Bismarck e o novo kaiser, Guilherme II, determinaram o afastamento do chanceler em 1 890. Seu sucessor, o Conde
Caprivi. estava interessado principalmente numa tentativa de cultivar a
amizade da Inglaterra e por
isso deixou caducar o tratado com a Rússia. Em segundo lugar, o desenvolvimento
do pan-eslavismo na Rússia colocou o império do czar em conflito com a Áustria.
Na contingência de escolher entre a Áustria e a Rússia, a Alemanha muito naturalmente preferiu a primeira.
Em terceiro lugar, o estabelecimento de laços financeiros entre a França e a
Rússia abriu caminho inevitavelmente para uma aliança politica. Em 1 888-89 tinham sido lançados, na Bolsa de Paris, empréstimos russos
no valor-aproximado de 500 milhões de dólares.   As obrigações, oferecidas a
preço convidativo, foram prontamente compradas pelos capitalistas franceses. A
partir de então, grande número de cidadãos influentes da França passaram a ter
um interesse direto nos destinos políticos da Rússia. Uma quarta causa foi o
abandono do isolacionismo pela Inglaterra, mudança essa devida a várias razões:
uma delas foi a preocupação causada pelo crescente poder econômico da Alemanha;
outra, o fato de terem os ingleses e os franceses descoberto, por volta de 1
900, uma base de cooperação para a partilha da Africa do Norte. Uma última causa
da revolução diplomática foi a mudança de atitude da Itália em relação à
Tríplice Aliança. Pelas alturas de 1 900 estavam os republicanos franceses
consolidados no poder, não tendo pois a Itália mais que temer uma intervenção monárquico-clerical em favor do papa. Além disso, a maioria dos italianos
tinha-se conformado com a perda da Tunísia e tratava apenas de reaver os
territórios em poder da Áustria e de ganhar o apoio da França para a conquista de Trípoli. Por essas razões a Itália perdeu o interesse em manter a
lealdade à Tríplice Aliança.

Resultados da revolução diplomática:
Formação da Tríplice Entente

O primeiro resultado importante da
revolução diplomática foi a Triple
Entente.   Chegou-se a ela por uma série
de estágios.   Em um ação política que aos poucos amadureceu numa aliança.
O convênio militar secreto assinado pelos  dois países
estabelecia que uma das partes iria
em auxílio da outra em caso de ataque pela Alemanha, ou pela Áustria ou Itália apoiada pela Alemanha; e
que, em caso de mobilização por parte de qualquer dos componentes da Tríplice
Aliança, tanto a Rússia como a França mobilizariam imediatamente todas as suas
forças e as colocariam tão próximo das fronteiras quanto possível. Essa Aliança
Dual entre a Rússia e a França foi seguida pela Entente Cordiale entre
a França e a Inglaterra. Durante as duas últimas décadas do século XIX,
ingleses e franceses haviam tido amiudadas
e sérias altercações a respeito de
colônias e comércio. As duas nações quase chegaram às vias de fato em 1 898, em
Fachoda, no Sudão Egípcio. Subitamente, porém, a França abandonou
todas as suas pretensões a essa parte da África e iniciou negociações para um
entendimento amplo em relação a outras contendas. O resultado foi a conclusão,
em 1 904. da Entente Cordiale. Não era uma aliança formal, mas um acordo amigável sobre
muitos assuntos. O que continha de mais importante eram certos artigos secretos
referentes à partilha do Norte da África. A França concordava em dar carta
branca à Inglaterra no Egito, e em troca a Inglaterra consentia na aquisição de
quase todo o Marrocos pelos franceses. O passo final na formação da Triple Entente foi a conclusão de
um entendimento mútuo entre a Inglaterra e a Rússia.   Também aqui não houve
aliança formal.   As duas potências chegaram simplesmente, em 1 907, a um acordo relativo às
suas ambições na Ásia. O núcleo desse acordo consistia na divisão da Pérsia em
esferas de influência- A Rússia ficaria com a parte do norte e a Inglaterra, com a do sul. Uma porção mediana seria conservada, pelo menos temporariamente, como zona neutra sob o
governo do seu soberano legitimo, o  xá.

Destarte, em 1907 as grandes potências
da Europa achavam-se alinhadas em dois campos hostis —  Tríplice Aliança e
a Triple
Entente.   Enquanto, porém, esta última ia em vias de desenvolvimento, a
primeira foi muitíssimo enfraquecida pela defecção da Itália.   Já vimos que
por volta de 1 900 os motivos
que levaram a Itália a juntar-se à Tríplice Aliança haviam perdido a sua importância.   Xão
somente se observava uma decidida frieza as relações italo-austríacas mas
também os nacionalistas italianos clama vam incessantemente por um império na
África.   Por isso, em 1 900 o governo firmou um acordo secreto com a França, estipulando que em troca da plena
liberdade de ação em Trípoli a Itália se absteria
de qualquer interferência nas ambições
francesas sobre o Marrocos.  Em 1 902 os dois países concluíram outro pacto secreto, pelo qual
cada um se comprometia a manter a neutralidade em caso de ataque por uma
terceira potência. A obrigação subsistia mesmo que alguma das partes, por
motivo de uma ameaça à sua honra ou à sua segurança, se visse obrigada a
"tomar a iniciativa da declaração de guerra". Sendo os termos
”honra" e "segurança" suscetíveis de ampla interpretação, é
evidente que a Itália estava, na realidade, comprometendo-se a permanecer
neutra em quase qualquer guerra que viesse a estalar entre a França e a
Alemanha. Sua obrigação anterior, decorrente da Tríplice Aliança, de ajudar a
Alemanha no caso de um ataque francês ficava assim praticamente anulada. O auge
da deslealdade foi alcançado pela Itália no "Acordo de Racconigi" de
1 909. com a Rússia. Por esse acordo o governo de Roma prometia "encarar
com benevolência" as pretensões russas ao controle dos Estreitos e de Constantinopla, em troca do apoio diplomático à conquista de Tripoli.

A instabilidade da Triple Entente

A fortuna da Triple Entente esteve também
sujeita a flutuações. Foi ela um tanto fortalecida entre 1 905 e 1912 por uma
série de "conversações" militares e de acordos não-oficiais entre a
Inglaterra e a França.   Consistiam estes    mormente em planos pormenorizados
dos estados-    maiores britânico e francês para uma ação conjunta dos dois
exércitos, na eventualidade de ser a França atacada pela Alemanha.   Mais tarde
foram assumidos certos compromissos de cooperação naval entre a Inglaterra e a
França, de um lado, e a Inglaterra e a Rússia do outro.   Alas a coalizão foi
seriamente enfraquecida em 1 909. em conseqüência da recusa da Inglaterra e da
França a apoiar a Rússia na sua disputa com a Áustria em torno da anexação da
Bósnia-Herzegovina por esta última. Outra ameaça à integridade da Triple Entente
surgiu em 1 913, quando a Inglaterra colaborou
com a Alemanha e a Áustria no desígnio de forçar a Sérvia a abandonar suas
pretensões à Albânia. Embora as Potências Centrais pretendessem ver na Triple Entente
uma poderosa coligação contra elas, na realidade
era tão instável quanto a Tríplice Aliança. As ambições russas sobre Constantinopla entravam em conflito com os interesses britânicos na mesma
localidade. Os próprios ingleses pareciam por vezes afagar a idéia de lançar as
potências continentais umas contra as outras. Daí a sua tendência a vacilar
entre o apaziguamento da Alemanha e o encorajamento à França. Até quase os
fins de julho de 1 914, nem os inimigos da Inglaterra nem os seus aliados
podiam ter absoluta certeza sobre a decisão que ela tomaria.

A Série de Crises Internacionais

A última das causas subjacentes da
Primeira Guerra Mundial a ser considerada foi uma série de crises
internacionais que puseram em perigo a paz européia entre  1 905 e  1 913.  Houve, ao todo, cinco crises de grave importância:  três   suscitadas pela questão marroquina e duas relacionadas com disputas na Europa Oriental. Conquanto a
maioria delas tivesse sido afastada por meio de compromissos, todas deixaram
um legado de suspeita e ressentimento. Em alguns casos, a guerra só foi evitada
por estar na ocasião demasiadamente fraca uma das partes para oferecer
resistência. Daí o sentimento de humilhação, o rancor reprimido que em ocasião
futura teria de explodir. Outro efeito dessas crises foi lançar alguma luz
sobre as verdadeiras simpatias das grandes potências. Destarte se evidenciou,
durante a terceira crise marroquina, que a Inglaterra reconhecia uma comunhão
de interesses com a França. Do mesmo modo, a atitude assumida pela Itália
mostrou que esse país estava longe de ser um membro seguro da Tríplice Aliança.

O Conflito de Interesses de Marrocos

A crise marroquina nasceu de um entrechoque de interesses económicos
franceses e alemães.   No começo do
século XX era o Marrocos um país independente, governado por um sul-     tão. Seu território, porém, era
relativamente rico   em minerais
e produtos agrícolas, que as nações  européias cobiçavam. O que despertava
principalmente a cupidez dos franceses e alemães eram as jazidas de ferro e
manganês e as excelentes oportunidades de comércio. Em 1880 as principais
potências do mundo
haviam assinado a Convenção de Madrid,
estabelecendo que os representantes de
todas as nações teriam privilégios econômicos iguais no Marrocos. Mas os
franceses não se satisfizeram por muito tempo com tal combinação. Em 1 903 o
seu comércio marroquino ultrapassava o de qualquer outro país e a França almejava
nada menos que um monopólio. Além disso, cobiçavam o Marrocos como uma reserva
de tropas e como um baluarte na defesa da Argélia. Por conseguinte, em 1 904 a
França entrou em acordo com a Inglaterra para estabelecer
uma nova ordem no território do d sultão. Os artigos do acordo que foram
dados à publicidade enunciavam a louvável resolução das potências signatárias
de manter a independência de Marrocos. Os artigos secretos previam justamente o contrário. Em época oportuna, o Marrocos seria desmembrado. Uma pequena porção
fronteira a Gibraltar serio, dada à Espanha e o resto caberia à França. A Grã-Bretanha, como vimos, tinha
como recompensa a liberdade de ação no Egito.

Foi esse acordo de 1 904 que precipitou
a a encarniçada disputa entre a França e a Alemanha. Em 1 905,
alguns funcionários do governo alemão farejaram a
trapaça. Resolveram obrigar a França a desistir de suas pretensões sobre Marrocos, ou então
oferecer compensações. Em 1 905 o chanceler von Bülow induziu o kaiser a
desembarcar no porto marroquino de Tânger e pronunciar ali un: discurso
declarando que a Alemanha estava pronta a defender a independência de sultão. O
resultado foi uma crise que levou a Europa a dois passos da guerra. A fim de
resolver a disputa reuniu-se em 1 906, na localidade espanhola de Algeciras, um congresso internacional. Embora confirmasse a soberania
do sultão, a conferência reconhecia ao mesmo tempo os interesses especiais da
França nos dominios daquele. Esse resultado convinha admiravelmente aos
franceses, que podiam agora penetrar na terra dos mouros sob o manto da
legalidade. Em 1 908 deu-se uma segunda crise e em 1 911 uma terceira, ambas
resultantes de tentativas dos alemães para proteger o que consideravam seus
legítimos direitos no Marrocos. A terceira crise revestiu-se de particular
importância por causa da atitude positiva assumida pelos ingleses. Em julho de
1911 David Lloyd George, no seu célebre discurso da Mansion House (Prefeitura de Londres), virtualmente ameaçou de guerra a Alemanha se esta tentasse
estabelecer uma base
na costa marroquina. A controvérsia em torno de Marrocos
foi resolvida nos fins de 1911, quando a França
concordou em ceder uma porção do Congo Francês à Alemanha. O governo do kaiser
abandonou então todas as pretensões sobre Marrocos e informou os franceses de
que podiam fazer o que entendessem com esse país. Pouco depois todo o
território, com exceção da estreita nesga concedida à Espanha, foi
adicionado ao império colonial da França. Nenhuma das partes, todavia, esqueceu
os ressentimentos nascidos da contenda. Os franceses afirmavam ter sido
vítimas de uma chantagem pela qual lhe fora arrebatado um território valioso.
Os alemães alegavam que a porção do Congo cedida pela França não era
compensação suficiente para a perda de privilégios econômicos em
Marrocos. sultão.   Os
artigos do acordos que criavam a louvável resolução das independência do Marrocos.

As crises balcânicas: 1) a
anexação da Bósnia-Herzegovina

Mais sérias ainda que o
caso marroquino foram as duas crises balcânicas.   A primeira foi a crise da
Bósnia, em 1908.   Pelo Congresso de Berlim, em 1 878, as duas
províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina tinham sido colocadas sob o
controle administrativo da Austria, se
bem que o Império Otomano conservasse ainda a posse legítima.   A Sérvia também
cobiçava esses territórios, que duplicariam a extensão do seu reino e lhe colocariam
as fronteiras nas imediações do Adriático.   Subitamente, era 5 de outubro de 1 908, a Áustria
anexa as duas províncias, numa franca violação ao Tratado de Berlim.   Os
sérvios ficaram furiosos e apelaram para a Rússia.   O governo do czar ameaçou
com a guerra até que a Alemanha enviou uma áspera nota a S. Petersburgo, anunciando
a sua firme intenção de apoiar a Austria.   Como
a Rússia ainda não se houvesse refeito inteiramente da guerra com o Japão e não
estivesse em condições de guerrear com a Alemanha e a Áustria unidas, acabou
por informar os sérvios de que eles teriam de
esperar um momento mais favorável.   A opinião dominante na Europa Ocidental
era de crítica veemente à Áustria.   Censuravam-na
por ter violado o direito
internacional e por perturbar temerariamente o equilíbrio de poderes.   Não se sabia então que a responsabilidade
da crise também recaía, em boa parte, sobre os ombros do ministro russo do
Exterior, Alexandre Izvolski.   Em setembro de 1908 Izvolski
firmara um acordo secreto com o Conde Aerenthal, seu colega austríaco, no
castelo deste em Buchlau, prometendo a não-interferência da Rússia na anexação
das duas províncias se a Áustria desse seu apoio à ambição russa de abrir os
Estreitos.   Izvolski foi. porém, impedido de levar a efeito a sua parte do
pacto pela oposição da Inglaterra e da França.   Quando Aerenthal consumou a
anexação, Izvolski voltou-se contra êle numa atitude de inocência
ofendida.   A crise da Bósnia foi, indubitavelmente, uma das causas mais
importantes da Primeira Guerra Mundial.   Seria quase impossível mencionar um
outro fator isolado que tivesse provocado tanta malquerença
entre as nações.   Insuflou a ira dos sérvios contra a Austria e encorajou-os
a solicitar o apoio da Rússia.  
Convenceu os imperialistas de S. Petersburgo de que teriam de lutar
eventualmente não só contra a Áustria, mas também contra a Alemanha.   Efeito
não menos importante foi o de levar a França a uma aproximação mais estreita
com a Rússia.   Depois de ver frustrados os seus planos em 1 908, Isvolski
renunciou ao cargo de ministro e aceitou a sua nomeação como embaixador em
Paris.   Ali, de 1 910 a 1 914, trabalhou com magistral habilidade para fazer
da França uma aliada leal da Rússia.   Parece ter exercido considerável influéncia
junto a Poincaré.

A Guerra dos Balcãs

A inimizade austro-sérvia
foi ainda mais intensificada pelas guerras dos Balcãs.   A primeira dessas guerras foi. em
parte, um fruto do programa de otomanização posto em prática
pelos Jovens Turcos. Relatos de atrocidades cometidas pelo governo do sultão
contra os eslavos da Macedónia despertaram as simpatias dos povos

balcânicos da mesma raca
e serviram de pretexto para um ataque ao teritório turco. Em  1 912, a Sérvia,
a Bulgária, o Montenegro e a Grécia, com o encorajamento da Rússia,
formaram a Liga Balcânica para a conquista da Macedónia. A guerra iniciou-se em outubro de 1 912 e em menos de dois meses a resistência turca foi completamente desmantelada. Surgiu
então o problema da divisão dos despojos. Por estados secretos, negociados
antes do início das hostilidades, fora prometida ã Sérvia a Albânia, além de
uma generosa fatia da Macedónia
ocidental. Mas então a
Áustria, receosa como sempre de qualquer aumento do poder sérvio, interveio na
conferência de paz e obteve o apoio da Inglaterra e da
França para o reconhecimento da Albânia como estado
independente. Para os sérvios isso foi a última gota. Dir-se-ia que o governo
dos Habsburgos estava disposto a bloquear-lhes
sistematicamente todas as
tentativas de expansão, pelo menos na direção de oeste. Desde então tornou-se ainda
mais rancorosa a agitação anti-austríaca na Sérvia e na província vizinha da
Bósnia. Conquanto os sérvios tivessem conseguido forçar os búlgaros a ceder uma
porção das suas conquistas na Macedónia, isso não era compensação suficiente
para a perda da Albânia, que teria oferecido uma saída para o mar (5).

(5)   A guerra que a Sérvia moveu à Bulgária é conhecida como a
Segunda Guerra  Balcânica 
(junho-julho de 1913).   A
Sérvia tinha como aliados a Grécia, o Montenegro, a  Rumânia  e  a 
Turquia. O  principal  resultado  dessa  guerra  foi  levar  a  Bulgária  à Primeira
Guerra Mundial ao lado das Potências Centrais, na esperança de
se desforrar da Sérvia.

2. O  CAMINHO DE HARMAGEDON

O Assassinato de Francisco Fernando

Como todos sabem, a
causa imediata da Primeira Guerra Mundial foi o assassínio do Arquiduque
Francisco Fernando, em 28 de junho de 1 914.   Foi a
faísca lançada ao barril de pólvora das suspeitas e ódios acumulados.   Sem
embarro.   não foi um fato tão trivial como muita gente pensa. Na realidade
teve um significado muito mais profundo do que geralmente se imaginava fora da
Europa Central. Francisco Fernando não era simplesmente uma figura inútil da nobreza
austríaca; era um homem que em breve se tornaria
imperador. O monarca reinante, Francisco José, atingira os oitenta e cinco anos
e a sua morte era esperada a cada momento. Por isso. o assassínio do herdeiro
do trono foi considerado muito justamente como um ataque ao estado.   A reação dos
austríacos foi, de certo modo, semelhante ao que teria sido a dos americanos
se, por exemplo, o vice-presidente dos Estados Unidos fosse assassinado,
durante uma visita ao Texas, por um bando de nacionalistas mexicanos.

Motivos do Assassinato de Francisco Fernando

O assassino de Francisco
Fernando foi um estudante bosníaco chamado  Princip.   Isto, porém,
não  é nem metade da história.

Princip não passava de
um instrumento dos nacionalistas sérvios.   O assassínio, embora tenha
ocorrido em Sarajevo, capital da Bósnia, resultou de uma conspiração
urdida em Belgrado. Os conspiradores eram membros de uma sociedade secreta
oficialmente conhecida como "União ou Morte", mas comumente chamada "Mão Negra". Documentos importantes
vieram à luz ultimamente, mostrando que o governo sérvio tinha conhecimento da
conspiração (6). Nem o primeiro ministro nem qualquer dos seus
colegas, porém, tomou medidas eficazes para impedir-lhe a
execução ou, pelo menos, alertar o governo austríaco. Isto leva,
naturalmente, a indagar dos motivos que levaram a agir os assassinos. O
principal deles parece ter sido o plano de reorganização do império dos
Habsburgos, que se sabia estar sendo arquitetado
por Francisco Fernando. Esse
plano, denominado trialismo,
incluía uma proposta no
sentido de transformar a Monarquia Dual numa monarquia tríplice. Além da
Áustria alemã e da Hungria magiar, já então praticamente autônoma, haveria
uma terceira unidade semi-independente composta pelos eslavos. Tal coisa era exatamente o que
os nacionalistas sérvios não desejavam. Temiam que, se tal acontecesse, os seus
consanguíneos croatas e eslovenos se conformassem com o domínio dos Habsburgos.
Decidiram, portanto, eliminar Francisco Fernando antes que se tornasse
imperador da Áustria-Hungria.

(6)   Ver S. B. Fay, 
The Origins of the  World  War, vol. II, pp.  61
e seguintes.

Ainda depois de terminada
a guerra, pensava-se na Europa e nos Estados Unidos que o assassínio
do arquiduque tivesse sido obra de bosníacos descontentes.   Mas nas semanas
que se seguiram imediatamente à tragédia as autoridades austríacas procederam a
um inquérito que confirmou as suas suspeitas quanto à origem sérvia da
conspiração.   Por conseguinte, no dia 23
de julho enviaram ao governo
sérvio um severo ultimato que continha onze exigências.   Entre outras coisa:-,
a Sérvia devia fechar os jornais anti-austriacos, liquidar as sociedades
patrióticas secretas, excluir do governo e do exército todas as pessoas
culpadas de propaganda anti-austriaca e aceitar a colaboração das autoridades
austríacas na eliminação do movimento subversivo contra o império dos
Habsburgos.   A 25 de julho, dentro do prazo-limite de quarenta e
oito horas, o governo sérvio transmitiu a sua resposta.   Era um documento
ainda hoje sujeito a variada? interpretações.   Do total de onze exigências,
somente uma era  categoricamente repelida e cinco eram aceitas sem reservas. O
chanceler alemão considerou-o como uma capitulação quase completa e o kaiser
afirmou que todos os motivos para a guerra tinham desaparecido. A Áustria,
no entanto, declarou insatisfatória a resposta sérvia, rompeu as
relações diplomáticas e mobilizou parte
de seu exército. Os
próprios sérvios não parecem ter nutrido ilusões de agradar à Áustria, visto que três
horas antes de transmitir a resposta haviam dado ordem de mobilizar as tropas.

Neste ponto, a atituie
de outras nações assume extrema importância.   Com efeito, algum tempo antes disso,
diversos governantes de grandes potências haviam assumido atitudes bem definidas.  

Já em 18 de julho Sazonov, ministro russo do exterior,
avisara a Áustria de que a Rússia não toleraria qualquer tentativa de humilhar
a Sérvia.   Ao tomar conhecimento do ultimato à Sérvia      belicosa o governo russo ordenou uma série de preparativos para pôr o país em pé
de guerra.   Foram canceladas as licenças I -oficiais,
recolhidas as tropas aos quartéis, acumularam-se
estoques de provisões e declarou-se o
estado de guerra nos setores limítrofes Alemanha e à Áustria.   Em 24 de julho
Sazonov disse ao embaixador alemão:   ”Eu não odeio a Áustria, desprezo-a.   A
Áustria está procurando um pretexto para engolir a Sérvia, mas nesse caso a
Rússia fará guerra à Áustria" (7).   O governo de Moscou
contava com o apoio da França ao assumir essa atitude beligerante.   Mais ou
menos a 20 de julho Raymond Poincaré, que se tornara
presidente da República Francesa, fêz uma visita a S. Petersburgo.   Insistiu com Sazonov para que "fosse firme" e
evitasse qualquer compromisso capaz de resultar em perda de prestigio para a Triple Entente. Preveniu o embaixador austríaco de que "a
Sérvia contava com amigos .sinceros entre o povo russo e a Rússia tinha uma
aliada, a França" (8).

A atitude da Alemanha
nesses dias críticos foi aparentemente mais moderada.   Se bem que o kaiser
ficasse chocado e enfurecido com o assassínio do arquiduque, o seu governo não
formulou qualquer ameaça nem tomou deliberações  especiais para a guerra senão
depois de dar motivo para alarma a atitude da Rússia.   Infelizmente, porém,
tanto o kaiser como o chanceler von Bethmann-Holhveg adotaram a premissa
de que uma punição severa deveria ser aplicada sem mais delongas à Sérvia.  
Esperavam com isso colocar as potências diante de um fato consumado e evitar
assim uma guerra geral.   Em 30 de junho o kaiser declarou:   "Agora
ou nunca!   Devemos pôr tudo em "pratos limpos com os sérvios, c isso já." A 6 de julho Bethmann-Hollweg prestou ao ministro das relações exteriores da Austria um compromisso que foi interpretado por ê.ste último como um
cheque em branco. O governo austríaco era informado de que o kaiser "estaria ao lado da Austria, de acordo
com as obrigações assumidas em tratado e com a sua antiga amizade". Ao dar
essa garantia, Bethmann e o seu imperial chefe estavam jogando com a esperança de que
a Rússia não interviesse em auxílio da Sérvia, ficando assim a disputa limitada ao
âmbito local. Mais tarde, quando descobriram ser vã tal esperança, procuraram
conter a Áustria. Tentaram persuadi-la a que limitasse sua ação a uma ocupação
temporária de Belgrado, como garantia de que os termos do ultimato seriam observados.
Como isso falhasse, Bethmann chegou até a ameaçar a Áustria com o rompimento da
aliança caso Berchtold persistisse em não aceitar os seus conselhos. Todos esses
esforços, porém, chegaram muito tarde, pois a guerra entre a Áustria e a
Sérvia já havia começado.

(7) S.  B.  Fay, obra citada,  vol.  II,  p.  300.

(8)
Ibid., vol. II, p. 281.

A mobilização  russa

A Áustria declarou guerra à Sérvia em 28 de julho de 1914. Por um
efêmero e ansioso momento, houve a tênue possibilidade de circunscrever-se o conflito. Foi êle, todavia, rapidamente transformado numa guerra de maiores proporções pela ação da
Rússia. A 29 de julho, Sazonov e a clique militar persuadiram o czar a emitir uma ordem de
mobilização geral, não só contra a Austria mas também contra
a Alemanha. Antes, porém, que fosse a ordem executada, Nicolau mudou
de idéia ao receber um apelo urgente do kaiser para que o ajudasse a
preservar a paz. A 30 de julho, Sazonov e o general Tatichtchev trataram de
fazer com que o czar mudasse mais uma vez de idéia. Durante mais de uma hora
procuraram convencer o relutante autócrata de que todo o
sistema militar deveria ser posto em movimento. Por fim, o general Tatichtchev
comentou: "Sim, é difícil tomar uma decisão", ao que Nicolau retrucou,
com mostras de irritação: "Eu decidirei", e assinou a ordem de
mobilização imediata. Sazonov correu ao telefone para comunicar a notícia ao
chefe do estado-maior. Dessa vez tinham
sido tomadas todas as precauções para evitar um arrependimento de última hora por parte do czar. Providenciara-se para que a ordem fosse imediatamente telegrafada
a todo o pais e
para que o chefe
do estado-maior quebrasse o seu telefone e se
sumisse durante todo
o dia. Na manhã seguinte, numa remota
aldeia siberiana, um viajante inglês foi despertado por uma comoção diante de sua
janela, seguida  pela alvoroçada pergunta de um campônes: "Sabe
da noticia? Estamos em guerra" (9).

(9)   Ibid.,  vol.  II, 
pp.  472-;

Os ultimatos alemães à Rússia e à
França.

Já não havia possibilidade de recuar diante do abismo.   Os
alemães estavam alarmados com os preparativos de guerra dos russos. A última
medida tomada pelo governo do czar tor-   nava a situação muito mais crítica, uma vez que nos     círculos militares
alemães, assim como  nos franceses     e russos, mobilização geral significava guerra.   A     menos
que o czar pudesse de algum modo suspender o processo de-

pois de iniciado, tanto a Alemanha
como a
Áustria seriam obrigadas a pegar em armas contra a Rússia. E
se a Alemanha
entrasse no conflito,
a França indubitavelmente faria o mesmo. Ao saber que o decreto do czar tinha
sido posto em execução o governo do kaiser expediu um ultimato a S. Petersburgo, exigindo que a mobilização cessasse dentro de doze horas. Na
tarde de 1° de Agosto o embaixa dor alemão solicitou
uma entrevista com o ministro russo das relações
exteriores. Rogou a Sazonov que desse uma resposta favorável ultimato
alemão. Sazonov respondeu que a mobilização não podia ser detida,
mas que a Rússia estava disposta a entrar em negociações. O embaixador reiterou o seu pedido uma segunda e uma terceira
vez. acentuando as terríveis conseqüências de uma resposta negativa. Sazonov terminou dizendo: "Não tenho outra resposta para
lhe dar." O embaixador entregou então uma declaração de guerra ao ministro
e, sem poder conter as lágrimas, retirou-se da sala.

 (10). Nesse meio tempo, os ministros do kaiser tinham também enviado um
ultimato à França, exigindo que ela desse a conhecer as suas intenções. O
primeiro ministro Viviani respondeu, em 1.° de agosto, que a França agiria "de acordo
com os seus interesses" e ordenou imediatamente a mobilização. Em 3 de
agosto a Alemanha declarou guerra à França.

A atitude da Inglaterra

Todos os
olhares voltaram-se então para a Inglaterra. Que
faria ela agora, ao ver que os dois outros membros da Triple
Entente se haviam atirado à guerra?   Durante algum tempo, depois de
ter-se tornado crítica a situação no Conto nente, a Inglaterra
vacilou. Tanto o gabinete como a nação estavam divididos. Sir Edward Grey e Winston Churchill advogavam uma atitude resoluta em favor da França, com o
recurso às armas se os interesses britânicos fossem ameaçados. Alguns de seus
colegas, porém, encaravam com pouco entusiasmo uma intervenção da Inglaterra
nas disputas continentais. Por todo o país havia também uma oposição
considerável contra a participação em conflitos que não fossem de interesse
vital para a Inglaterra. Conquanto Grey tivesse em várias ocasiões
animado os russos e franceses a contar com o auxílio inglês, só depois de ter recebido
promessas de apoio dos líderes do partido conservador é que tomou compromissos
formais. Em 2 de agosto informou os franceses de que "se a esquadra alemã
entrasse na Mancha ou cruzasse o Mar do Norte para realizar operações hostis
contra a costa ou o.s navios franceses, a esquadra britânica dispensaria toda a
proteção que estivesse a seu alcance" (11):

(10)   G. P. Gooch, Before the War: Studies in Diplomacy, vol.  II,
p. 368.

A Inglaterra entra na Guerra

Diante dessa promessa feita à França, era difícil
acreditar qu" a Inglaterra pudesse permanecer muito tempo fora da guerra,
mesmo que a neutralidade da Bélgica não tivesse sido vio-     lada. Com efeito, ainda 29 de
julho Sir Edward  Grey advertira
o embaixador alemão em Londres,  de maneira "amistosa e privada", de
que se a França fosse arrastada ao conflito a Inglaterra lhe seguiria os passos
(12). Não obstante, foi a invasão do território belga que forneceu o
motivo imediato para que a Inglaterra desembainhasse a espada. Em l
839, juntamente com as outras grandes potências, assinara ela um tratado
garantindo a neutralidade da Bélgica. Além disso, havia um século que a
Grã-Bretanha seguia a política de impedir o domínio dos Países-Baixos, que lhe
ficavam fronteiros no outro lado do estreito, por qualquer nação poderosa do
Continente. Mas o famoso Plano Schlieffen
dos alemães dispunha que a França fosse
atacada pela Bélgica. Por conseguinte, pediram ao governo belga permissão para
enviar tropas através do seu território, prometendo respeitar a independência
da nação e indenizar os belgas de todas as depredações causadas às suas
propriedades. Como a Bélgica recusasse, as tropas alemãs começaram a atravessar
a fronteira. O ministro britânico do Exterior compareceu imediatamente ao
Parlamento e declarou que o seu país devia acorrer em defesa do direito
internacional, protegendo as pequenas nações. Argumentou que a paz em tais circunstâncias
seria um crime moral e que a Inglaterra perderia o respeito dos países
civilizados se deixasse de cumprir os seus compromissos de honra nessa
ocasião. Os aplausos com que foi recebido o seu discurso na Câmara dos Comuns
não lhe deixaram dúvidas quanto à atitude desse órgão. No dia seguinte. 4 de
agosto, o gabinete resolveu mandar um ultimato a Berlim, exigindo que a Alemanha
respeitasse a neutralidade belga e desse até a meia-noite uma resposta
satisfatória. Os ministros do kaiser
não tiveram outra resposta a dar senão
que se tratava de uma necessidade militar e que era questão de vida ou de morte
para a Alemanha poderem os seus soldados alcançar a França pelo caminho mais
fácil e mais rápido. Quando o relógio bateu meia-noite, estavam em guerra a
Inglaterra e a Alemanha.

(11) S. B. Fay, obra citada, vol. II pág. 540.
(12)
B. E. Schmitt,
"July, 1914: Thirty
Years Afterv,
em Journal of Modern
History, vol. XVI  (1944), p.  193.

Alastra-se a conflagração

Outras nações foram
rapidamente lançadas no terrível sorvedouro. Em 7 de agosto os
montenegrínos juntaram-se aos seus consanguíneos sérvios na luta contra a
Áustria.   Duas semanas depois o Japão declarou guerra â Alemanha, em   parte
devido a sua aliança com a a Inglaterra, mas sobretudo com o objetivo de conquistar as
possessões alemãs do Extremo-Oriente.  
Em 19 de Agosto a Turquia
negocia uma aliança com a
Alemanha e em outubro iniciou o bombardeio dos pactos russos do Mar Negro. Destarte, a maioria das nações primeiramente ligadas por
alianças ingressaram no conflito em sua fase inicial quer de um lado, quer do outro.   A Itália, no entanto, embora aimda  fosse  oficialmente um membro da Tríplice Aliança,
proclamou a sua neu tralidade. Insistiam os italianos em que a
Alemanha não estava fazendo uma guerra defensiva e, por conseguinte, não
tinham a obrigação de auxiliá-la. Nada diziam, está claro, sobre o seu acordo
secreta com a França, firmado em 1902. A Itália manteve-se
neutra até maio de 1 915, quando,
seduzida por promessas secretas da cessão de territórios austríacos e turcos, lançou-se à
guerra ao lado da Triple Entente.

A Questão da Responsabilidade pela Guerra

O tumulto e a excitação
que acompanharam o início da grande hecatombe de 1 914 há muito
que se extinguiram, mas continua de pé a importante questão de saber-se quem
foi o responsável pela horrível conflag ração. Os histo- riadores que
examinaram os fatos declaram com unanimidade quase absoluta que não se pode con- siderar como culpada nenhuma nação em
particular. A culpa deve ser dividida entre a Sérvia, a Austria, a Rússia, a Alemanha, a França e, talvez, a
Inglaterra e a Itália também. É impossível determinar, todavia, qual a parte
que cabe a cada um desses países. Parece justo afirmar que nenhuma das grandes
potências desejava realmente uma guerra geral, mas a política adotada por
algumas delas tornavam tal guerra inevitável. A Alemanha, por exemplo,
considerou essencial aos seus interesses apoiar a Austria na temerária decisão desta de punir a Sérvia,
embora estivesse lançando com isso um desafio à Rússia. Os alemães aparentemente
esperavam que a Rússia negasse ouvidos ao desafio, mas não tinham certeza e estavam disposto a jogar no escuro, com risco
de provocar uma guerra geral. Os próprios russos talvez não tivessem nenhuma intenção
de guerrear a Alemanha ou mesmo a Austria, mas
não vacilaram em ameaçar o status quo conspirando
para obter o controle dos Estreitos, nem em favorecer o nacionalismo sérvio ao
ponto de fazer perigar a segurança da Austria-Hungría. Do mesmo modo a França, no tocante à sua política marroquina, visava objetivos que
sem dúvida lhe pareciam razoáveis, mas que não poderiam ser alcançados senão à
custa dos interesses alemães.   E assim por diante.   A ambicão econômica e a preocupação com a segurança ou com a
grandeza nacional levaram muitos estados europeus a adotar linhas de ação que
colocaram o continente à beira da guerra. A guerra em si mesma não era o
objetivo, mas foi o resultado inevitável quando se tornou impossível conciliar
as ambições nacionais antagônicas.

A culpa dos indivíduos

Considerar a Grande Loucura de 1 914 como obra de um único
indivíduo é ainda mais absurdo do que encará-la como a conspiração diabólica de uma só nação. Atualmente está
mais  provado que o kaiser,
tantas vezes representado como o Anjo das
trevas, ioi menos culpado do que geralmente se crê. É verdade que gostava de
fazer discursos jactanciosos,
gabando-se, por exemplo, de ter
permanecido ao lado da Áustria, na sua "armadura resplandecente", por
ocasião da crise da Bosnia e referindo-se a si mesmo como o "Altíssimo". Mas o seu controle sobre o governo
alemão diminuía de mês para mês. Raramente consagrava mais de duas horas por
dia aos negócios públicos e em geral fazia apenas uma vaga idéia do que estava
ocorrendo. Os verdadeiros negócios de estado eram dirigidos pelos seus ministros.
Nenhum destes, porém,
pode ser acusado de planejar deliberadamente
a guerra. O chanceler von
Bethmann-Holhveg foi tomado de profunda prostração nervosa nos trágicos dias
finais. Tinha sido um dos tiltimos estadistas europeus a abandonar as
esperanças de paz. Quando por fim compreendeu que a horrível catástrofe já não
podia ser evitada, por pouco não enlouqueceu. Outros estadistas, talvez,
mostraram mais sangue-frio, mas a maioria deles simulou, pelo menos, tentar impedir o conflito.

Na realidade, a Primeira Guerra Mundial
foi um movimento de proporções demasiado vastas para ter sido causado em seu
todo por planos individuais. Conquanto a maior parte dos políticos então no
poder tenham sido de certo modo responsáveis, a culpa que lhes coube consistia
antes da estupidez do que nas intenções criminosas. Provavelmente, poucos deles desejaram de fato a
guerra, mas deixaram-se arrastar a situações difíceis e tiveram de recorrer a
expedientes perigosos para evitar uma perda de prestígio. A maioria acreditava,
como acreditam ainda hoje os estadistas, na fanfarronada e na ameaça como métodos de
forçar um governo rival a ceder. Por vezes tais táticas surtiam efeito, como em
1909, quando o
chanceler von Bülow fez a Rússia recuar da posição assumida na crise da Bósnia. Mesmo
nas circunstâncias mais favoráveis, porém, o blefe entre nações está repleto de
tremendos riscos. Em grande parte, também, os indivíduos que ocupavam os
postos de mando em l 914 não passaram de instrumentos de forças muito mais poderosas
que eles. Sazonov e Izvolski não criaram o
pan-eslavismo na Rússia, do mesmo modo que o movimento de revanche na França não foi invenção de
Poincaré. A Primeira Guerra Mundial foi um produto do chauvinismo, de ambições de prestígio nacional, da competição
capitalista pelos mercados e por novos campos de investimento, dos ódios
seculares entre as nações e dos temores suscitados pelas crises e pelas corridas armamentistas. Quando tais fatores se
combinam para governar a constelação dos acontecimentos, primeiros-ministros e ministros do Exterior pouco mais são do que
meros joguetes do destino.

Num sentido ainda mais
amplo, a conflagração de 1914 foi a conseqüência virtualmente
inevitável do sistema de política de poder que havia cerca de trezentos anos vinha fazendo a infelicidade do continente europeu. Esse sistema baseava-se na doutrina de que cada
estado é absolutamente
soberano e, por
conseguinte, tem o direito de seguir a politica exterior que parecer mais
adequada aos seus interesses. Se um estado, a fim de obter matérias-primas ou
melhorar as suas defesas, achava conveniente lançar as suas garras sobre o território
de um vizinho fraco, fazia-o sem trepidar e não havia ninguém para lhe negar
tal direito. A maioria das grandes nações da Europa procurava conseguir a
segurança para si estabelecendo uma espécie de equilíbrio de forças.
Infelizmente, porém, cada uma tentava inclinar a balança em seu favor, em geral
formando alianças para depois fortalecê-las ao máximo. Isso conduzia, entre as
nações não incluídas nessas alianças, ao receio de serem cercadas, à formação
de contra-alianças e aos esforços para anular qualquer coisa que se
assemelhasse a uma liga de inimigos. Pelas alturas de 1 914 as nações
do mundo se encontravam quase num estado de natureza, sem nenhuma autoridade
eficaz para refreá-las ou para julgar-lhes
as contendas. Era, virtualmente,
uma condição de anarquia internacional.

3. A PROVA DE SANGUE

A guerra Santa das potências da Entente

No evangelho profético
conhecido como o Apocalipse
conta-se que as forças do bem e do mal se concentrarão no ”grande dia de Deus"  
para  travarem  batalha  em  Harmagedon.

Dir-se-ia que o autor desconhecido
estava pensando  no titânico conflito em que se engolfaram as
nações europeias em 1 914.   Isso porque poucos admitiam que aquela guerra
fosse uma luta entre potências imperialistas rivais ou um produto dos ciúmes
nacionalistas; era, ao invés, representada pelos porta-vozes de
ambos os campos como uma cruzada contra as forças do mal. Mal havia começado o
conflito, os líderes políticos da Inglaterra e da França caracterizaram-no como um denodado esforço para salvaguardar os direitos dos fracos e preservar
a supremacia do direito e da moral internacionais. Em 6 de agosto de 1914, o primeiro
ministro Asquith declarou que a Inglaterra entrara na luta para defender
"o princípio de que as nacionalidades menores não devem ser esmagadas pela vontade arbi traria de
uma potência forte e dominadora*’.
Do outro lado do Canal da Mancha, o presidente Poincaré asseverava pomposamente aos seus
compatriotas que a França não tinha outro objetivo senão o de defender
"’perante o universo a Liberdade, a Justiça e a Razão". Mais tarde,
em conseqüência da pregação
de escritores e oradores eloqüentes como H. G. Wells, Gilbert Murray e Woodrow Wilson, a cruzada da Entente
converteu-se numa guerra "para
acabar com todas as guerras", ”assegurar a democracia no mundo" e
redimir a humanidade da maldição do militarismo. No campo adversário, os
subordinados do kaiser faziam tudo que podiam para justificar os esforços militares
da Alemanha. A luta contra os Aliados era representada ao povo alemão como uma
cruzada em prol de uma Kidtur superior e como uma batalha para proteger a pátria contra a
perversa política de cerco
das potências da Entente (13).

Características Singulares da Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial foi singular
sob vários aspectos. Não só inaugurou dezenas de armas novas mas também
introduziu métodos de luta que diferiam radicalmente dos usa-      dos na maioria dos
conflitos anteriores.   Salvo bre- ves ataques de infantaria, a guerra aberta desapareceu quase desde o início.   Depois das primeiras  semanas os exércitos antagonistas se instalaram
numa vasta rede de trincheiras, das quais partiam assaltos, comumente ao
lusco-fusco da madrugada, a fim de desalojar o inimigo. De um modo geral a luta
foi um prélio de resistência em que a vitória dependeu principalmente dos recursos naturais e da
possibilidade, para os Aliados, de obterem do outro lado do Atlântico provisões
quase ilimitadas de dinheiro, alimentos e munições. Xão erraremos talvez se
dissermos que a Primeira Guerra Mundial se distinguiu por uma selvajaria maior do que qualquer outra luta armada anterior
dos tempos modernos. O uso dos gases venenosos, da metralhadora, do lança-chamas e das balas explosivas
cobrou um tributo de mortes e de medonhos ferimentos absolutamente inédito, sem
precedentes mesmo nas longas campanhas de Napoleão. Muito característico
dessa selvajeria foi o fato
de ter excedido o número de civis mortos nos bombardeios aéreos, nos massacres,
peia fome e pelas epidemias, o número de soldados que pereceram em
combate. Por fim  a Primeira Guerra Mundial levou a palma a tóelas as demais pelo enorme tamanho dos seus exércitos.   Ao todo,
cerca de 65 000 000 de homens lutaram, durante
períodos mais ou menos longos, sob as bandeiras das diversas nações
beligerantes. Foi o clímax da tendência progressiva para a guerra em massa, tendência
que datara dos tempos da Revolução Francesa.

(13) As
citações deste parágrafo foram tiradas de J. S. Ewart. The Roots
and Causes of the Wars, vol. I, pp. 16 e
104. Ver também T. C. Willis, England’s Holy-
War.

Por que os Estados Unidos se juntaram aos Aliados:
razões  culturais

à medida que o conflito se prolongava por quatro
pavorosos anos, um número cada vez maior de nações se empenhava na luta, de um
lado ou do outro. Vimos que a Itália retardou a sua entrada até a primavera de 1 915. A
Bulgária juntou-se às Potências Centrais em setembro de 1 915 e a Rumania aliou-se ao
campo oposto cerca de um ano depois. Mas o acontecimento que por fim fêz pender
a balança em favor da vitória da Entente foi a
declaração de guerra dos Estados Unidos à Alemanha, em 6 de abril de 1 917. Os
Estados Unidos entraram na guerra por diversas razões. A maioria dos seus
cidadãos eminentes eram de origem britânica. Isso sucedia em geral com os
reitores de univer sidades, os principais ministros protestantes,
os magnatas da imprensa e os altos funcionários públicos. As
tradições culturais do país, a) sua teoria jurídica e política e as bases da
sua literatura vinham sobretudo da Inglaterra. As agências britânicas de
propaganda tiraram o máximo proveito desses laços étnicos
e culturais e fomentaram habilmente entre os americanos a crença de que as
nações da Entente estavam lutando em defesa da civilização. A
propaganda alemã, pelo contrário, era tosca e inepta; e quando ela falhou, os
agentes alemães e austríacos tentaram provocar greves e sabotagem nas fábricas
de munições norte-americanas. A Alemanha vinha sendo alvo do temor e da
desconfiança dos americanos desde a guerra de 1 898 com a
Espanha, quando um almirante alemão passou por ter criado obstáculo à tomada de
Manilha pelo comodoro Dewey. O seu sistema de fazer guerra em 1914, e em
particular a violação da neutralidade da Bélgica, faziam recrudescer esse temor e essa desconfiança. Poucas semanas depois de se iniciarem as
hostilidades alguns americanos entraram a chamar os alemães de "hunos".

Causas Econômicas

Poderosas forças econômicas também
muito contribuíram para despertar a simpatia do povo americano para com a causa
da Entente. Em 1915 os Estados Unidos tinham-se tornado
o

principal fornecedor de
munições e de outros materiais bélicos a Inglaterra, a Rússia e a branca. Esse
tráfico alcançou tais proporções que transformou uma depressão, iniciada em 1 913, em
resplandecente prosperidade.   A maioria dos artigos não era comprada a
dinheiro mas a crédito, ou paga por meio de empréstimos lançados nos Estados
Unidos.   Em abril de 1 917, pelo menos um bilhão e meio de dólares em
obrigações dos governos
aliados tinham sido vendidos ali.   Conquanto não haja provas de que os
compradores dessas obrigações tenham exercido pressão direta sobre o
presidente Wilson para levar a nação à guerra, não deixa de ser verdade que um
número considerável de cidadãos influentes  estavam  financeiramente 
interessados numa vitória  da Entente.

Wilson deseja uma Nova Ordem Mundial

Outra causa fundamental que induziu os
Estados Unidos a se tornarem uma nação beligerante  foi a decisão  final do 
presidente Wilson, cie que o seu país devia desempenhar um papel dominante na
reestruturação do mundo quando terminasse a guerra.   Sonhava estabelecer uma
nova  ordem mundial baseada numa Liga de Nações que preservasse no
futuro a justiça e punisse os agressores. Durante a maior parte da guerra
recusara-se a acreditar que um campo ou o outro tivesse a razão exclusivamente
do seu laco. Ainda em dezembro de 1 916 havia declarado que os objetivos
de guerra de ambos os grupos de beligerantes lhe pareciam ser essencialmente
os mesmos. Ainda estava convencido de que a "paz sem vitória" e sem
humilhações nem penalidades drásticas seria o fundamento necessário do novo
regime de concórdia duradoura entre as nações. No fundo, porém, acreditava que
a "autocracia" e o "militarismo" germânicos constituíam
grandes obstáculos à realização do seu ideal. Como o governo alemão repelisse os
seus esforços em prol da paz e mostrasse uma decisão crescente de ganhar a guerra pela
implacabilidade e pelo desprezo ao direito internacional, essa convicção
fortaleceu-se enormemente. Não tinha ainda nenhum motivo de disputa com o povo alemão,
mas acreditava que as tendências recentes do governo daquele país não lhe
deixavam outra alternativa senão esmagá-lo pela força.

A preocupação com o equílibrio de
poderes

Uma causa subjacente final foi a
preocupação do governo americano com a manutenção do equilíbrio de poderes na
Europa.   Durante anos, fora doutrina dominante no Departa  mento de
Estado e entre os oficiais do exército e da marinha que a segurança dos Estados
Unidos dependia  de  um  equilíbrio  de   forças  no Velho Mundo.   Não era
admissível que uma potência estabelecesse a sua supremacia sobre toda a Europa.   Enquanto a Grã-Bretanha fosse bastante forte para
impedir essa supremacia, a Amé rica não corria perigo.   Crêem alguns
entendidos que as autoridades americanas estavam
acostumadas a encarar a marinha britânica com o  o  escudo da segurança deste continente e não podiam conceber
uma mudança de tal situação.   A Alemanha, por outro lado, não só desejava a
supremacia naval britânica mas ameaçava levar o povo inglês  à  rendição  pela fome e tornar-se senhora de toda a Europa.

A Guerra Submarina dos Alemães

A
causa direta da participação americana na
Primeira Guerra Mundíal
foi a guerra submarina dos alemães. Foi.
porém, muito mais
do que uma causa imediata
ordinária. Consideram-na alguns historiadores como
o mais importante de todos os
fatores, alegando que sem ela os americanos nunca teriam entrado na guerra.
Quando esta começou a Alemanha possuía apenas uma pequena frota de
submarinos, mas aumentou-lhes rapidamente o número.   Em 4 de fevereiro de 1
915 o governo do kaiser anunciou que os navios neutros que se dirigissem para os
portos britânicos seriam torpedeados sem aviso prévio.   O presidente Wilson
replicou a esse desafio
declarando que os Estados Unidos considerariam a Alemanha "estritamente
responsável sável" por qualquer dano causado  a
vida ou aos bens de norte-americanos. A advertência não produziu efeito. Os
alemães estavam convencidos de que o submarino era una das suas armas mais
valiosas e consideravam-se justificados em usá-lo como represália ao bloqueio
britânico. Violaram os compromissos de respeitar os direitos dos americanos e continuaram a afundar de
quando em quando navios de passageiros, causando por vezes a morte de cidadãos
americanos. Como os ministros do kaiser
anunciassem que a 1.° de fevereiro de 1
917 dariam início a uma guerra submarina irrestrita, Wilson rompeu as relações
diplomáticas com o o governo de Berlim. A 2 de abril compareceu perante uma
sessão conjunta das duas casas do Congresso e solicitou uma declaração de guerra. A declaração foi aprovada
quatro dias depois, contra apenas seis votos negativos no Senado e cinqüenta na
Câmara de Representantes.

A Guerra na Frente Ocidental

Num livro como este não é possível nem
desejável fazer um relato completo da história militar da Primeira Guerra
Mundial. Como todos sabem, o teatro principal da guerra foi a frente ocidental,
que incluía a Bélgica e o leste da França, desde os Vosgos até
o Mar do Norte. Aí, por um breve período, os alemães varreram tudo que
encontravam pela frente, avançando até 22 quilômetros de Paris em apenas um mês
de guerra. Não conseguiram, porém, tomar a cidade. Os franceses descobriram um
ponto fraco nas linhas alemãs e rechaçaram as hostes do kaiser para
o vale do rio Marne, onde, nos começos
de setembro de 1 914, se deu uma série de
combates conhecida como a primeira batalha do Marne. Embora nenhum dos campos
pudesse anunciar uma vitória decisiva, era evidente que o avanço alemão tinha
sido sustado. Essa batalha também é importante por ter assinalado o fim da
guerra aberta. Ambos os exércitos construíram um complicado sistema de
trincheiras e alojaram-se atrás de redes de arame farpado. Dessa data até a
primavera de 1 918 a guerra na frente ocidental ficou, por assim dizer,
empatada. Conquanto os ingleses e franceses conseguissem vantagens consideráveis,
não puderam alcançar uma vitória esmagadora que obrigasse a Alemanha a pedir a
paz. Mas em março de 1 918 os alemães lançaram um poderoso ataque que ameaçou,
por certo tempo, levar de vencida a resistência dos exércitos aliados.
Seguiu-se uma contra-ofensiva dos franceses, ingleses e americanos que
continuou por todo o verão, entrou pelo outono a dentro e finalmente pôs termo
à guerra.

A guerra nas frentes oriental e meridional

Nas frentes oriental e meridional as
Potências Centrais mantiveram-se vitoriosas durante muito mais tempo.   No fim
de agosto de 1 914 o avanço russo foi repentinamente detido em Tannenberg, na Prússia Oriental, e pouco depois os generais do czar
iniciaram uma retirada ao longo de toda a frente. Em 1 915 os alemães e
austríacos tomaram quase toda a Polônia russa e a Lituânia, transformando todos
os contra-ataques russos em derrotas desastrosas. Depois que o czar foi
destronado pela revolução de março de 1917, a Rússia retirou-se praticamente da
guerra. O governo provisório envidou tentativas para renovar a luta, mas o
povo estava tão descoroçoado que nada se conseguiu. Em março de 1 918 o governo
bolchevique concluiu um tratado de paz. Nesse meio tempo a România tinha
sido conquistada pelos alemães e a Sérvia fora reduzida à impotência pelos
austríacos e búlgaros. Na frente meridional, os italianos conseguiram manter os
austríacos encurralados por mais de dois anos e até conquistar pequenas porções
do escabroso território do litoral nordeste do Adriático. Mas, pelos meados de
1 917, começaram a se cansar da estrénua
luta. O derrotismo grassava tanto no
governo como entre as tropas. Em outubro os austríacos romperam as defesas da
fronteira e desbarataram o desmoralizado exército italiano em Caporetto. Foram feitos 200 000 prisioneiros, sem falar de imensa
quantidade de armas e munições. Foi um golpe que abalou profundamente os
italianos, e do qual mal conseguiram re fazer-se antes do fim da guerra.

Propostas de Paz

Enquanto ia ainda acesa a luta nas
várias frentes, fizeram-se várias tentativas para iniciar as negociações de paz.  
Na primavera de 1 917, socialistas holandeses e escandinavos re- solveram convocar
uma conferência socialista internacional a reunir-se em Estocolmo, tencionando traçar planos para terminar a luta, os quais pudessem ser
aceitos por todos os beligerantes. O soviete de Petrogrado abraçou a idéia e, a
15 de maio, emitiu um apelo aos socialistas de todas as nações para que
mandassem delegados à conferência e persuadissem os seus governos a aceitar uma
paz "sem anexações nem indenizações, sobre a I ase da
autodeterminação dos povos". Os partidos socialistas de todos os países
principais, tanto de um campo como do outro, acolheram entusiasticamente essa fórmula e estavam ansiosos por enviar delegados ã
conferência, mas o projeto foi abandonado quando os governos inglês e francês
negaram permissão a qualquer de seus súditos para participar dela. A prova de
que os governantes dos estados da Enterite
não temiam essas propostas unicamente por
terem emanado de socialistas está no fato de haverem rejeitado com a mesma
veemência uma fórmula semelhante sugerida pelo papa. Em 1.° de agosto desse
mesmo ano o papa Bento XV fêz um apelo aos vários governos para que renunciassem a quaisquer indenizações, para
que as disputas internacionais fossem resolvidas no futuro por arbitragem, os
armamentos fossem reduzidos, restituídas as zonas ocupadas aos seus donos, e se
convocassem plebiscitos para decidir sobre o destino de territórios como a
Alsácia-Lorena. a Polônia e o Trentino. Ninguém se mostrou disposto a
tomar a sério essas propostas. Woodrow Wilson, como porta-voz dos
Aliados, declarou que seriam impossíveis as negociações de paz em quaisquer condições enquanto a Alemanha permanecesse sob o governo
do kaiser. As Potências Centrais diziam encarar com bons olhos as sugestões do Sumo Pontífice, mas recusavam comprometer-se
no tocante a indenizações e
restituições, especialmente a restauração da Bélgica.

Os  14  pontos de Wilson

A mais famosa de todas as
propostas de paz foi o programa de Wilson,
constante de quatorze itens, que o presidente norte-americano incorporou na sua mensagem ao Congresso em 8 de janeiro de 1 918. Em
resumo, os 14 Pontos eram os seguintes: 1) ”acordos
públicos, negociados publicamente", ou seja a abolição da diplomacia
secreta: 2) liberdade dos mares; 3) eliminação das barreiras econômicas entre
as nações; 4) limitação dos armamentos nacionais "ao
nível mínimo compatível com a segurança"; 5) ajuste
imparcial das pretensões coloniais, tendo em vista os interesses dos povos
atingidos por elas: 6) evacuação da Rússia; 7) restauração
da independência da Bélgica; 8) restituição da Alsácia e da Lorena à França; 9) reajustamento
das fronteiras italianas, "seguindo linhas divisórias de nacionalidade
claramente reconhecíveis"; 10) desenvolvimento autônomo dos
povos da
Austria-Hungría; 11) restauração da Rumania, da Sérvia e do Montenegro, com acesso ao mar
para a Sérvia; 12) desenvolvimento autônomo dos
povos da Turquia, sendo os estreitos que ligam o Mar Negro ao Mediterrâneo
"abertos permanentemente"; 13) uma Polônia
independente, "habitada por
populações indiscutivelmente polonesas" e com acesso para o mar; e 14) uma Liga de
Nações. Em diversas outras ocasiões, no decorrer de todo o ano de 1 918, Wilson
reafirmou em discursos públicos que esse programa formava a base da paz pela
qual trabalharia. Milhares de cópias dos 14
Pontos foram espalhadas pelos
aviões aliados sobre as trincheiras alemãs e atrás das linhas, num esforço de convencer
tanto os soldados quanto o povo de que as nações aliadas se estavam esforçando
por estabelecer uma paz justa e duradoura.

Ao terminar o verão de 1 918 a longa e
horrível carnificina aproximava-se do fim. A grande ofensiva lançada em julho
pelos ingleses, franceses e americanos desferiu sucessivos golpes esmagadores
contra os batalhões alemães, obrigando-os a recuar quase até a fronteira
belga.   No fim de setembro, a causa das Potências Centrais estava perdida.   A Bulgária retirou-se da guerra a 30 desse mês.

Aproxima-se o fim da luta

Nos primeiros dias de outubro o novo
chanceler alemão, o Príncipe Max de Baden, um liberal, apelou para o presidente  Wilson propondo negociações de paz na base dos 14 pontos.  
Mas a luta continuou, porque Wilson tinha voltado à sua primitiva exigência de
que os alemães apeassem o kaiser do trono. Pouco depois, os aliados restantes da Alemanha
viram-se à beira do colapso. A Turquia rendeu-se no fim de outubro. O império
dos Habsburgos estava sendo desintegrado pelas revoltas dos eslavos. Além
disso, uma ofensiva austríaca não só fora infrutífera mas incitara os
italianos a uma contra-ofensiva que resultou na tomada de Trieste e
na captura de 300 000 prisioneiros. A 3 de novembro o imperador Carlos, que
sucedera em 1 916 a Francisco José, assinou um armistício que pôs a Áustria
fora da guerra.

A Assinatura do Armistício

A Alemanha ficou então com a
impraticável tarefa de continuar  sozinha a luta.   O moral das tropas decaía
rapidamente.   O bloqueio
causava tamanha escassez de alimentos que o povo corria o perigo de ser dizimado pela
fome.   Os abalos revolucionários que se vinham fazendo sentir
desde havia algum tempo transformaram-se em violento terremoto. Em 8 de novembro
foi proclamada uma república na Baviera.
No dia seguinte, quase toda a Alemanha estava convulsionada pela revolução. Publicou-se em Berlim um decreto anunciando
a abdicação do kaiser e bem cedo na manhã do dia 10 o neurótico imperador embarcou
para o exílio na Holanda. Entrementes,
o governo da nação havia passado para as
mãos de um conselho provisório chefiado por Friedrich Ebert, líder dos
socialistas no Reichstag. Ebert e os seus colegas tomaram medidas imediatas para concluir as
negociações de um armistício. As condições impostas pelos Aliados estabeleciam
a aceitação dos 14 Pontos, com três modificações. Primeiro, o ponto referente à liberdade dos mares fora riscado, de acordo com o pedido da
Inglaterra. Segundo, a restauração das zonas invadidas devia ser interrompida
de modo a incluir reparações.   Terceiro, não se exigia  mais autonomia para os povos
vassalos da Áustria-Hungria. mas independência. Além disso, tropas das nações aliadas ocupariam certas cidades do vale do Reno; o bloqueio continuava em vigor; e a Alemanha
devia entregar 5 000 locomotivas, 150
000 vagões ferroviários e 5 000 caminhões, tudo em bom estado. Duras como eram
essas condições, o governo
alemão não teve outro remédio senão aceitar. Às cinco horas da manhã de 11 de novembro dois delegados da nação derrotada
encontraram-se na escura floresta de Compiègne com o Marechal Foch e
assinaram os papéis que punham termo oficialmente à guerra. Seis horas mais
tarde foi dada ás tropas a ordem de cessar fogo.   Nessa noite, milhares de
pessoas dançaram nas ruas de
Londres, Paris e Roma, presas do mesmo delírio com que haviam saudado as
declarações de guerra.

 O preço
da vitória

A vitória fora
finalmente conquistada, mas que trágica vitória! De um total de mais de 42 milhões de
homens mobilizados pelos Aliados, pelo menos 7 milhões tinham
perdido a vida; 5 milhões
morreram em ação ou em conseqüência de   
ferimentos; os restantes tinham sido dados como "desaparecidos" depois das batalhas.   Mais de 3 milhões de outros ficaram totalmente incapacitados, muitos
deles com mutilações tão horríveis que melhor seria tivessem
perecido.   Vê-se. destarte, que quase um quarto dos soldados alistados nos
exércitos foram

vitimados pela guerra.  
Isso teria sido um preço terrivel mesmo que
se concretizassem todos os
ganhos que, por hioótese. deteriam decorrer de uma vitória da Entente.   Mas poucos foram, na realidade os
ganhos permanentes.   A guerra que seria "o fim de todas as guerras"  
ão Eêz mais do que lançar as sementes de um novo e pavoroso conflito no
futuro.   A autocracia do kaiser foi certamente destruída, mas estava preparado
o terreno para novos despotismo -que fariam o império de Guilherme II parecer um
paraíso de liberdade.   Além disso, a Primeira Guerra Mundial nada fêz para
reprimir quer o militarismo, quer ó nacionalismo.   Vinte anos depois de finda
a
luta havia quase duas vezes
mais homens em armas do que em 1 913 e as rivalidades nacionais e ódios raciais
estavam mais profundamente arraigados do que nunca.   Esses fracassos não se
deveram ao fato de terem os Aliados ganhado a guerra, mas sim, como veremos, ao
de terem perdido a paz.

4. A PAZ DOS
VENCEDORES

Caráter da Paz com a Alemanha e seus Aliados

A chamada paz, que se
firmou nas várias conferências realizadas em 1 919 e 1920, quase não
tem precedentes nos anais das nações modernas.   Foi  antes  uma  paz  imposta
do que negociada.   Ao invés de
ser um acordo entre vencedores e vencidos, concluído em redor de uma mesa de
debates, pretendia assumir o caráter de “uma sentença imposta por um tribunal".
Nenhum alemão ou austríaco foi admitido às conferências, até que os documentos
ficaram completos e prontos para receber as assinaturas dos culpados. Os
motivos desse procedimento quase inédito devem ser procurados na torrente de
paixões desencadeadas durante a guerra. As massas tinham sido levadas a
acreditar que toda a razão e a justiça estavam de um lado e, portanto, que
cumpria tratar os inimigos como criminosos. Esse sentimento não se restringia
aos países da Entente.   Se as Potências Centrais tivessem conquistado a
vitória,  dificilmente teriam concedido
maiores oportunidades para a negociação de um acordo.

A Conferência de Paris

A conferência convocada em Paris (
4) para estabelecer as condições de paz com a Alemanha esteve teoricamente
reunida de janeiro a junho de 1 919. Só se realizaram, porém, seis sessões
plenárias.   A maioria dos delegados poderia muito bem ter ficado em casa.
Todos os assuntos importantes da conferência foram tratados por pequenas
comissões. A princípio havia um Conselho dos Dez, formado pelo presidente e
pelo secretário de estado dos Estados Unidos e pelos primeiros-ministros e
ministros do Exterior da Grã-Bretanha, da França, da Itália e do Japão. Pelos
meados de março, como esse órgão parecesse de manejo excessivamente difícil,
foi reduzido a um Conselho dos Quatro, do qual faziam parte o presidente dos
Estados Unidos e os primeiros-ministros da Inglaterra, da Itália e da França.
Um mês depois o Conselho dos Quatros transformou-se num Conselho dos Três.
quando o primeiro-ministro Orlando se retirou abespinhado da Conferência porque
Wilson recusara conceder à Itália tudo que ela exigia.

Os “Três Grandes”

O caráter definitivo do Tratado de
Versalhes foi fixado quase que inteiramente pelos chamados "Três
Grandes’" — Wilson, Lloyd George e Clemenceau.   Seria quase impossível encontrar
três estadistas com personalidades mais diferentes entre si.   Wilson era um
idealista inflexível, acostumado a dar ordens e convencido de que as forças da
eqüidade estavam do seu lado.   Quando se defrontava com realidades desagradáveis,
como eram os tratados secretos entre os governos da Entente para a divisão dos
despojos, tinha o hábito de pô-las de parte como coisas destituídas de
importância e acabava esquecendo-as como se nunca tivesse ouvido falar nelas.  
Embora conhecesse pouco – tortuosas maquinações da diplomacia européia, o seu
temperamento inflexível não lhe permitia aconselhar-se com os seus colegas nem
ajustar os seus pontos de vista aos destes.   David Lloyd George era um astuto
advogadozinho de Gales que sucedera a Asquith como primeiro ministro da
Inglaterra em 1 916.   Sua habilidade e seu humor céltico valeram-lhe o
sucesso em muitas ocasiões em que Wilson fracasson; mas era acima de tudo um
político — matreiro, ignorando as condições européias e indiferente mesmo aos
seus mais graves enganos.   Clemenceau dizia dele :    "Imagino que esse
homem saiba ler, mas duvido que jamais leia alguma coisa."

O terceiro componente do grande
triunvirato era o velho e céptico primeiro-ministro francês. Georges
Clemenceau.   Nascido ainda na década
de 1 830, Clemenceau fora jornalista nos Estados Unidos logo depois da Guerra
Civil. Mais tarde angariara a alcunha de "Tigre" como inimigo
implacável dos clericais e
monarquistas. Pugnara pela república nos tempestuosos dias do episódio
boulangista, do caso Dreyfus e da luta pela separação entre
a igreja e o estado. Por duas vezes tinha visto a França invadida e a sua existência correr grave perigo. Agora a situação se reverteria e os franceses, no pensar de Clemenceau, deviam tirar todas as vantagens da oportunidade. Somente
conservando debaixo de rígido controle a Alemanha prostrada é que a França poderia garantir a sua segurança.

(14) Essa conferência realizou
a maior parte de seus
trabalhos em Paris. O tratado de paz com a Alemanha, no entanto, recebeu o
nome de Tratado de
Versalhes itor ter sido assinado  nesse subúrbio parisense.

A castração dos 14 pontos

Desde o começo, os
principais arquitetos do Tratado de Versalhes tiveram pela frente dois problemas bastante embaraçosos. Um neles era o que fazer com os 14 Pontos. Não podia haver dúvida de que eles
tinham sido a base da rendição da Alemanha em 11 de novembro.
Era igualmente indiscutível que Wilson os apresentara como o programa da Entente para uma paz permanente. Os povos do mundo
tinham, por conseguinte, todo o direito de esperar que os 14 Pontos
constituíssem : modelo do Tratado de Versalhes, sujeitos
tão-somente às três emendas introduzidas antes da assinatura do armistício. Mas
qual foi o resultado? Entre os mais altos dignitários da conferência, nem um só
homem, com exceção do próprio Wilson, levara a sério os 14 Pontos. Conta-se que
Clemenceau dissera em ar de mofa: "Al Deus se contentou com dez
mandamentos, mas Wilson precisa de quatorze".
No final das contas o presidente
dos Estados Unidos só pôde salvar, e assim mesmo sob uma forma modificada, três
artigos do seu famoso programa: o sétimo, que prescrevia a restauração da
Bélgica; o oitavo, que exigia a restituição da Alsácia-Lorena à França; e o
último, que instituía a Liga das Nações. Os outros foram desdenhados ou
modificados a tal ponto que perderam a sua significação original. Citemos dois
exemplos: o ponto 4, que exigia a redução dos armamentos, foi
aplicado somente às nações derrotadas; e o ponto 11, pelo qual
eram restauradas a
Rumania, a Sérvia e o
Montenegro, foi alterado de modo a permitir que a Rumania dobrasse o seu território e que a Sérvia
engolisse o Montenegro!

Os tratados secretos

A segunda questão
embaraçosa era a da atitude a tomar com respeito aos tratados secretos.  
Enquanto a guerra seguia o seu curso, diversas transações clandestinas tinham
sido negociadas pelos governos da Entente,
relativas à divisão    dos
despojos.   Em março de 1 915 ficara assentado que a França recuperaria a
Alsácia-Lorena e controlaria a margem esquerda do Reno e que a Grã-Bretanha e a
França dividiriam entre si as colônias alemãs da África, enquanto a Rússia se
apoderaria de Constantinopla e da Polônia
alemã e austríaca.   Em abril
desse mesmo ano a Itália foi induzida a entrar na guerra ao lado dos Aliados
pela promessa de lhe serem concedidos
territórios austríacos e turcos, inclusive Trieste, o sul do Tirol e uma
porção da Dalmácia. Depois desses, ainda houve acordos para dar a Armênia à
Rússia e quase todo o resto do Império Otomano à Inglaterra e à França,
sem falar na entrega, ao Japão, das concessões alemãs na China e das ilhas
oceânicas alemãs situadas ao norte do equador. É impossível dizer por quanto
tempo esses tratados teriam permanecido secretos se não fosse a revolução na
Rússia. Ao galgarem o poder em novembro de 1 917 os bolcheviques resolveram desacreditar a guerra por todos os meios
possíveis. Devassaram, portanto, os arquivos do czar, trazendo a público certos
documentos interessantíssimos. Pouca depois os tratados secretos eram
estampados pelo Manchester Guardian e pelo Neiv York
Evening Post. Os estadistas da Entente reunidos na
Conferência de Versalhes viram-se, pois, na impossibilidade de negar a
existência de tais tratados. Durante algum tempo Wilson esforçou-se para que
eles fossem repudiados e chegou a negar permissão para que a Itália tomasse o
porto de Fiúme, no Adriático; mas no tocante à maioria dos outros acordos
acabou por ceder. O resultado foi que a distribuição dos territórios tomados às
nações vencidas seguiu com notável precisão as linhas traçadas pelos acordos
secretos. Wilson permitiu até que o Japão se apoderasse das concessões alemãs
na China, a despeito de terem os chineses feito a guerra do lado dos Aliados.

A Alemanha recebe suas sentença.

Nos fins de abril de 1 919 estavam
prontos para ser submetidos ao inimigo os termos do Tratado de Versalhes e a
Alemanha recebeu ordem de enviar seus delegados para ouvi-los.   A         29 desse mês uma delegação chefiada pelo Conde von  Brockdorff-Rantzau, ministro do Exterior do governo republicano provisório, chegou a
Versalhes e foi encarcerada sem tardança
num hotel, sendo virtualmente tratada como prisioneira.
Uma semana depois os membros da delegação tiveram ordem de comparecer perante
os representantes dos Aliados, a fim de conhecerem a sentença imposta à sua
nação. Como von Brockdorff-Rantzau protestasse dizendo que os termos eram duros
demais, ir. formou-o Clemenceau de que a Alemanha teria exatamente três semanas para resolver
se assinaria ou não. Entretanto, foi preciso prolongar o prazo, pois os chefes
do governo alemão preferiram demitir-se a aceitar o tratado. Sua atitude foi
resumida pelo chanceler Philip Scheidemann
numa frase incisiva: "Qual a mão que
não secaria depois de tentar prender a si mesma e a nós nestes grilhões?"
Os Três Grandes fizeram então alguns arranjos subsidiários, principalmente a
instâncias de Lloyd George, e a Alemanha foi notificada de que às sete horas da tarde de
23 de junho proceder-se-ia à invasão do país se este não tivesse aceito o
tratado. Pouco depois das cinco horas, um novo governo provisório anunciou que
se rendia ante a ”força esmagadora" e acedia aos termos dos vencedores.
Em 28 de junho, quinto aniversário do assassínio do Arquiduque Francisco Fernando, representantes do governo alemão e dos
Aliados reuniram-se no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes e apuseram
suas assinaturas ao Tratado.

Disposições Principais do Tratado de Versailles.

As disposições do Tratado de Versalhes
podem ser esboçadas em linhas gerais.   A Alemanha devia entregar a Alsácia-Lorena à França, Eupen e Mahnédy à
Bélgica, o Schleswig setentrional à Dinamarca e a maior parte da Posnânia
e da Prússia Ocidental à Polônia.  
As minas de carvão da bacia do Sarre seriam
cedidas à França, que teria o direito de explorá-las durante quinze anos. Ao
terminar esse prazo o governo alemão poderia tornar a comprá-las. Quanto ao
próprio território do Sarre, seria adminis trado pela Liga das
Nações até 1935, data em que se realizaria um plebiscito para decidir se êle
continuaria submetido à Liga, se voltaria para a Alemanha ou se seria concedido
à França. Em conseqüência dessas disposições territoriais a Alemanha era
despojada de um sexto das suas terras aráveis, dois quintos do seu
carvão, dois terços do seu ferro e sete décimos do seu zinco. A Prússia
Oriental ficava separada do resto do território alemão e o porto de Danzig, quase
inteiramente teutónico, era submetido ao controle político da Liga das Nações e ao
domíni^ econômico da Polônia. Além disso, a Alemanha era forçada a entregar à
Inglaterra, à França e à Bélgica praticamente todos os seus navios mercantes de
algum valor, um oitavo do seu gado e enormes quantidades de carvão, materiais
de construção e máquinas. Foi, naturalmente, desarmada. Entregou todos os
submarinos e toda a marinha de superfície, com exceção de seis couraçados
pequenos, seis cruzadores ligeiros, seis destróieres e doze torpedeiros. Foi-lhe proibido ter qualquer aviação militar ou naval e
limitou-se o seu exército a 100 000 homens, entre oficiais e soldados, os quais
seriam recrutados por alistamento voluntário. A fim de prevenir qualquer novo
ataque futuro à França ou à Bélgica, não se lhe permitiu manter soldados nem
construir fortificações no vale do Reno. Por último, a Alemanha e seus aliados foram
responsabilizados por todas as perdas e danos sofridos pelos governos da Entente e seus cidadãos
"em conseqüência da guerra que lhes fora imposta pela Alemanha e pelos
seus aliados". Era essa a chamada cláusula da culpa da guerra do tratado
(artigo 231), mas foi também a base para as reparações alemãs.

O problema de saber quanto teria de
pagar a Alemanha em reparações foi tratado com ardilosa astúcia. O total das perdas e danos sofridos pelos governos da Entente e seus cidadãos em
resultado direto da guerra não ultrapassava provavelmente dez bilhões de
dólares.   Tal soma, porém, nunca teria contentado os Aliados.

A conta de "perdas e
danos"

Os franceses, em particular, faziam
questão de arruinar a Alemanha ce modo tão completo que esta nunca mais pudesse
recuperar o seu poderio económico e militar. Por conseguinte, re- solveu-se incluir nas "perdas e danos" despesas
tais  como as pensões pagas às famílias dos soldados, os  empréstimos
belgas de guerra e o custo da manutenção dos exércitos aliados que ocuparam o
vale do Reno. Deixou-se a uma Comissão de Reparações nomeada pelos governos
aliados o problema de fixar o total que a Alemanha deveria pagar. Em 1 921 a
comissão apresentou o seu relatório, fixando o montante na soma colossal de 33
bilhões de dólares, o triplo da quantia sugerida pelos peritos economistas da
Conferência de Versalhes. É claro que em toda a Alemanha não havia tanto
dinheiro, mas os vencedores esperavam que no espaço de alguns anos fosse
possível cobrar a maior parte dele.

O Tratado de St Germain.

De um modo geral, o Tratado de
Versalhes aplicava-se unicamente à Alemanha.   Pactos separados foram
redigidos para ajustar  contas com os seus aliados — a Áustria, a Hungria,    a Bulgária e a Turquia.  
A forma definitiva desses tratados menores foi dada principalmente por um
Conselho dos Cinco, composto de Clemenceau
como presidente e de um delegado dos
Estadas Unidos, um da Inglaterra, um da França e um da Itália.   O ajuste com a
Áustria, firmado em setembro de 1 919, é conhecido como o Tratado de St. Germain. Impunha
à Áustria o reconhecimento da independência da Hungria, da Tchecos-lováquia, da Iugoslávia e da Polônia e a cessão de grandes porções do
seu território a esses novos países.   Era, ademais, obrigada a entregar à Itália Trieste, o
Tirol meridional e a península da Istria.

Ao todo. a porção austríaca da
Monarquia Dual foi despojada de três quartos da sua área e de três quartos
da sua população. Alguns dos territórios cedidos eram habitados em grande parte
por alemães — como. por exemplo, o Tirol e a região das montanhas dos sudetos,
concedida à Tchecoslováquia. A nação austríaca ficou reduzida a um estado pequeno, sem
acesso para o mar, com quase um terço da sua população concentrado na cidade de
Viena. A única esperança de prosperidade para o país residia numa união com a
Alemanha, mas isso era estritamente proibido pelo tratado. As disposições do
Tratado de St. Germain poderiam resumir-se numa única sentença: "A Áustria
renuncia a viver."

O Tratado de Neuilly e o de Trianon

O segundo do.- tratados menores foi o
de Neuilly, com a Bulgária, assinado em novembro de 1 919. Na suposição,
sem dúvida, de que ela não tomara parte ativa na provocação da guerra, a Bulgária
foi tratada com mais brandura do que as outras Potências Centrais.   Não obstante, teve de
entregar quase todos os territórios que adquirira desde a primeira guerra balcânica.   A Dobrudja voltou para a Rumania, a Macedónia ocidental para o novo reino da Iugoslávia e a
Trácia ocidental para a Grécia.   Todas essas regiões eram habitadas por
numerosas minorias búlgaras.   Como a Hungria fosse agora um estado independente tomava-se necessário
impor-lhe um tratado separado; foi ele o Tratado do Trianon, assinado em junho
de 1920.  
Exigia que a Eslováquia fosse
cedida à república da Tchecoslováquia, a Transilvánia à Rumania e a
Croácia-Eslavônia à Iugoslávia.   Há poucos exemplos de tão flagrante violação do
princípio de autodeterminação dos povos.   Numerosas partes da Transilvánia
tinham uma população composta de mais de 50% de húngaros.  
A Eslováquia incluía não somente os eslovacos mas quase um milhão de magiares e
aproximadamente 500 000 rutenos.   Daí o ter irrompido na Hungria, depois da
guerra, um fanático movimento irredentista orientado
para a recuperação dessas províncias perdidas. É oportuno acrescentar que o
Tratado do Trianon reduziu o território da Hungria de 325 000 para 90000 quilômetros quadrados e a sua população de 22
para 8 milhões.

Os tratados de Serves
e de Lausrane com a Turquia.

O ajuste final de contas
com a Turquia resultou de circunstâncias excepcionais. Os tratados secretos
haviam cogitado da transferência de Constantinopla e da Armênia
para a Rússia e da divisão, entre a
Inglaterra e a França, da maior  parte do que restava da Turquia.   Mas a
retirada da Rússia do campo da guerra apos a revolução bolchevique, juntamente
com as exigências da Itália e da Grécia no sentido de obterem o cumprimento das
promessas que lhes tinham sido feitas, impunham uma revisão considerável do
plano primitivo. Por fim, em agosto de 1 920 assinou-se em
Sèvres, perto de Paris, um tratado que foi submetido ao governo do sultão.
Estabelecia êle que a Armênia fosse organizada como uma república cristã, que
a maior parte da Turquia européia fosse entregue à Grécia, que a Palestina e a
Mesopotâmia se convertessem em mandatos britânicos, que a Síria se tornasse um
mandato da França e que a Anatólia meridional fosse reservada como esfera de
influência da Itália. Do velho Império Otomano não restariam mais que a cidade
de Constantinopla e as partes setentrional e central da Ásia Menor. Intimidado
pelas forças aliadas, o decrépito governo do sultão concordou em assinar esse
tratado. Mas um governo revolucionário, constituído de nacionalistas turcos e
organizado em Angora sob a chefia de Mustafá Kemal, resolveu impedir que fosse posto em
execução o Tratado de Sèvres. As forças de Kemal riscaram do mapa a república
da Armênia, enxotaram os italianos da Anatólia e reconquistaram a maior parte
do território turco europeu que fora dado à Grécia. Por fim. em novembro de 1922, ocuparam
Constantinopla, depuseram o sultão e
proclamaram a república. Consentiram então os Aliados numa revisão da paz. Em 1
923 um novo tratado foi concluído em Lausanne, na Suíça, permitindo
aos turcos conservar praticamente todo o território que haviam conquistado.
Embora bastante reduzida no tamanho em comparação com o antigo Império Otomano, a
república turca tinha ainda uma área de cerca de 780 000 quilômetros quadrados
e uma população de 13 milhões.

A Liga das Nações

Em cada um dos cinco tratados que
puseram termo à guerra com as Potências Centrais figurava o Convênio da Liga
das Nações.   A criação de uma liga em que todos os estados, tanto         grandes como
pequenos, cooperassem para a preservação da paz, era o velho sonho dourado do
presidente Wilson. Fora essa, na verdade, uma das principais razões que o
levaram a entrar na guerra. Acreditava que a derrota da Alemanha seria um golpe
mortal vibrado no militarismo e que seria possível estabelecer então o controle das relações
internacionais por uma comunidade de poderes, ao invés do complicado e ineficiente equilíbrio de pores.
Mas. para conseguir que a Liga fosse aceita, viu-se obrigado a transigir em
numerosos pontos. Permitiu que a sua idéia primitiva de uma redução dos
armamentos ”ao nível mínimo condizente com a segurança interna" fosse
formulada de maneira que lhe dava um sentido completamente diverso, dizendo
"segurança nacional" em lugar de "segurança
interna". Para induzir os japoneses a aceitar a Liga. concordou em
deixar-lhes as antigas concessões alemãs «a China. A fim de agradar aos
franceses, sancionou a exclusão tanto da Alemanha quanto da Rússia, a despeito
de sua velha insistência de que ela deveria incluir todas as nações. Esses
inconvenientes eram bastantes sérios, mas a Liga recebeu um golpe mais grave
ainda quando foi repudiada pela própria nação cujo presidente a havia criado.

Instalada sob auspícios tão
desfavoráveis, a Liga jamais conseguira êxitos brilhantes na consecução dos objetivos do seu
fundador.

Somente em poucos casos logrou
afastar o espectro da guerra, e em todos eles as partes litigantes eram
nações   pequenas.     Concertou,   em   1 920,   uma disputa entre a Suécia e a Finlândia a
respeito das ilhas Aland.   Em 1 925 impediu um ataque grego à Bulgária,
graças ã ameaça de
boicote econômico.   Em 1 932 evitou que o Peru e a Colômbia entrassem em guerra por causa da
província de Letícia. Mas em todas as disputas em que se envolviam uma ou mais grandes potências
a Liga não obteve sucesso.   Nada fêz no caso da usurpação de Vilna pela Polônia, em 1 920, porque a Lituânia, a nação esbulhada, não tinha
amigos, enquanto a Polônia contava com o poderoso auxílio da França.   Quando,
em 1 923, houve
uma ameaça de guerra entre a Itália e a Grécia, os italianos recusaram
submeter-se à intervenção da Liga e o litigio teve de ser arbitrado por unia mediação direta da
Inglaterra
e da França. Além disso, em todas as grandes crises dos
últimos anos a Liga foi desafiada oa desdenhada.   O Japão zombou da
sua autoridade ao tomar a Manchúria em 1931 e o mesmo fez a Itália, ao
conquistar, em 1935, a Etiópia. Em setembro de 1938, quando surgiu a crise da Tchecoslováquia, o
prestígio da Liga era tanto que quase ninguém
pensou em recorrer a ela. Por outro lado, é preciso salientar que o a sua existência de outras maneiras
menos espetaculares. Reprimiu otráfico internacional de ópio e  ajudou
países pobres e atrasados na profilaxia das molésticas contagiosas. Suas agências
coligiram valiosas estatísticas sobre as condições do trabalho e da economia
mundial. Realizou plebiscitos  em zonas disputadas, superintendeu a
administração de cidades internacionalizadas, ajudou a acomodar refugiados
políticos e raciais e iniciou, com grande eficiciência, a codificação do
direito internacional. Realizações como essas devem certamente ser consideradas
como formando uma base sólida para uma futura cooperação entre nações.


Fonte: Ed. Globo. de Porto Alegre. Tradução de Lourival Machado, Lourdes Machado e Leonnel Vallandro.

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