MAX WEBER, AS REJEIÇÕES RELIGIOSAS DO MUNDO E SUAS DIREÇÕES

“REJEIÇÕES RELIGIOSAS DO MUNDO E SUAS DIREÇÕES” – Uma compreensão da Sociologia da Religião e do Racionalismo sob o ponto de vista Weberiano
Paula Ignacio
Resumo: O texto propõe uma análise do pensamento Weberiano de uma Sociologia do Racionalismo, calcado na gênese da razão a partir da subjetividade humana, capazes de gerar éticas religiosas, e consequentemente pensamentos que desencadeiam em reações práticas pela necessidade de coerência da própria razão humana, gerando modos de vida a partir destas. A utilização da religiosidade indiana como exemplo da gênese do processo que leva à racionalização da fé que nega o mundo através do ascetismo foi uma das escolhas de Max Weber na demonstração de que não é possível analisar a História sem antes reaver os modos de pensar que geram fatos históricos. Modos de pensamento e de vida das principais religiões do mundo foram analisados e podem ser observados pelas consequências econômicas destes. Tomando como base a religiosidade indiana, e passando ao monasticismo cristão é possível avaliar o início da racionalização da fé e do pensamento religioso e como se dão suas consequências éticas, históricas e econômicas para vários povos.
REJEIÇÕES RELIGIOSAS DO MUNDO E SUAS DIREÇÕES
No texto “Rejeições Religiosas do Mundo e suas Direções”, provavelmente escrito entre o final do século XIX e início do século XX, e publicado pela primeira vez em 1920, Max Weber, considerado um dos fundadores da Sociologia, utiliza como exemplo uma análise da religiosidade indiana, afim de compreender melhor a gênese das éticas religiosas, principalmente daquelas que “negam o mundo”. A negação do mundo a qual ele se refere diz respeito a uma vida voltada principalmente para a religiosidade, uma vida dedicada a crença religiosa e que segue uma ética tão somente voltada para o eu espiritual, e não mais para o mundo externo.
Segundo Weber, há “técnicas” correspondentes a essa negação, tais como a vida monástica, com suas manipulações ascéticas e contemplativas, e elas podem ser compreendidas como a racionalização da religiosidade e racionalização da negação do mundo. A Índia é um bom exemplo do desenvolvimento dessas “técnicas de ascetismo”, onde é muito provável que tenham iniciado e então se difundido pelo mundo.
Diante dessa análise, podemos desenvolver e estudar melhor tanto o pensamento ético de um povo cuja cultura é quase totalmente voltada para a religiosidade, quanto observar e compreender as consequências dessa racionalização de negação do mundo através da análise histórica de diversos povos, como por exemplo, dos “literati”[1] na China e do monasticismo cristão. Weber propõe o pensamento do contraste entre os literati e sua ética religiosa contemplativa com a religiosidade indiana, que através do ascetismo cria a racionalização da sua fé, uma vez que o asceta têm suas ações voltadas para o sacrifício, afim de conseguir poderes mágicos capazes de evitar o sofrimento.
Grande parte dos religiosos do mundo podem ser caracterizados principalmente pela crença de que através da religião e ao seguir a ética proposta por ela, será capaz de eliminar da sua vida o sofrimento.
Além do aspecto religioso, convém lembrar que Weber, em seu pensamento de grande influência marxista e materialista originado pela revolução industrial e como consequência de crises econômicas da modernidade, tende para a finalidade de compreender, através de aspectos da subjetividade humana e seu processo de racionalização, as consequências econômicas destes, desde as implicações de sentidos interiores que impulsionam os indivíduos e que são capazes de estabelecer conexões com o social, até a formação de grupos sociais como reflexos dessa subjetividade, que geram valores a serem seguidos, e posteriormente caracterizam a economia.
A Índia hoje é pouco analisada e palco de misérias e grande desigualdade social. Esse cenário não surgiu de repente, ele é fruto do pensamento de um povo que, por aspectos subjetivos, optou por seguir uma ética que negava o mundo externo, negava o mundo material, voltando-se quase exclusivamente e vivendo religiosamente a ética de um mundo espiritual. Ética essa que negou radicalmente o espírito do capitalismo moderno.
Porém, podemos nos perguntar primeiramente: Como se deu essa escolha subjetiva? Por quê o povo indiano optou pelo ascetismo, pela negação do mundo? Como se deu a racionalização da escolha subjetiva pela religiosidade, e como ela atua na esfera da realidade?
Existem diferentes tipos de “ordens de vida”. São as chamadas esferas de valor, e por isso, necessariamente conflitam com valores que lhe sejam contrários. No caso dos indianos ascetas,
esses conflitos se dão internamente e subjetivamente, e em muitos casos, são até mesmo necessários e frutos de uma possível adaptação a realidade. Daí a necessidade de construir logicamente meios para essa adaptação.
É possível avaliar e tentar perceber como as teorias criadas racionalmente se apresentam na realidade, ou como os fenômenos sociais podem corresponder a nossas construções subjetivas. Os fenômenos históricos podem ser comparados com as teorias que surgiram antes deles, e essas teorias são frutos do pensamento que está por trás de todo e qualquer fato histórico.
Para os indianos, o ascetismo atua como a intermediação entre conflitos internos e necessidade de contrastá-los com a realidade. Essa intermediação surge da necessidade da coerência entre o que se pensa e faz, e isso sempre fez parte do pensamento racional e de toda ética religiosa.
Por essas razões, o estudo Weberiano se valeu primeiramente dos meios de vida e reações práticas a essa ética religiosa, e à coerência das ações destes, que procuram se aproximar ao máximo das teorias e experiências internas, tão subjetivas. É dessa racionalização da fé indiana que ele tira a base para uma sociologia do racionalismo, a partir da pesquisa detalhada e do pensamento da sua sociologia da religião, que oferece uma base Histórica importante para essa compreensão. Segundo Weber, a História é um mecanismo da razão, pois por trás de todo e qualquer fato histórico está implícito um modo de pensar coletivo que fora gerado a princípio individualmente.
Modos de pensar individuais, que depois de racionalizados se ligam a ações coletivas e sociais, gerando fatos históricos. Portanto, a subjetividade humana contém um processo de racionalização importante e que explica a gênese da História (em especial da História Econômica) e da construção teórica a partir desta. “É um ensaio que parte das formas mais racionais que a realidade pode assumir.”[2]
Assim, caracterizada por uma espécie de “proteção íntima contra o sofrimento”, alguns aspectos da religiosidade exacerbada contrastam e ao mesmo tempo têm uma relação direta com interesses materiais de grupos sociais. Weber, de maneira geral, procura esclarecer de que maneira implicações de orientações religiosas podem e de fato afetam a conduta econômica dos homens.
A religião, além da fé e seu aspecto individual, também comporta características de fenômenos sociais, como a adesão daquele que tem fé a determinados grupos. No texto são tratadas diferenças e muitas aproximações e até mesmo as consequências do pensamento religioso de negação do mundo, que resultaram em características específicas das esferas econômicas, políticas, estéticas, intelectuais e até mesmo eróticas, partindo do estudo sociológico das religiões.
Torna-se possível, assim, compreender como as diferenças de comportamento estimuladas principalmente pelo ascetismo e pelo misticismo contém conjuntos de valores e se transformam em sentidos da ação social.
No caso da Índia, a religiosidade inibiu o crescimento da economia capitalista, enquanto nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, a religiosidade e o crescimento da ética protestante estimularam o crescimento dessa economia. Esses são exemplos de fatos históricos e de como é possível pensar esferas econômicas a partir do pensamento religioso. Além disso, podemos refletir sobre as consequências da racionalização partida da religiosidade na estrutura de algumas sociedades, bem como de alguns fatos históricos. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os nazistas se valeram do “carisma” como forma de manter o poder, tal como acontece no hinduísmo, se analisarmos os Brâmanes. Estes, considerados os mais “evoluídos” e participantes de uma casta superior, através do sacrifício e do ascetismo podem “tomar posse” de uma espécie de “carisma mágico”, e a partir dele divulgar formas de sistematização da vida para outras pessoas, que só aceitam suas ideias por desejarem o fim do sofrimento individual.
Além disso, durante a Segunda Guerra, houve a tentativa de preservação da “raça ariana”, considerada descendente dos indo-europeus, invasores da Índia e instituidores do sistema de castas, que subjugava as populações locais. Esse pensamento foi usado como discurso para que os alemães sentissem que poderiam resgatar uma parte da própria história e que eram capazes de se manterem no poder.
Assim, a leitura de Weber nos oferece a oportunidade de avaliar os processos de racionalização a partir da ética religiosa, bem como dos conjuntos sociais que se formam através dela. Esse estudo é fundamental para compreender de que maneira, para ele, podemos pensar a história econômica, através da construção do pensamento racional, ponto de partida para a sua Sociologia da Religião e Sociologia do Racionalismo.
[1] Literati é um termo utilizado para designar os homens de confiança dos imperadores chineses, que durante os séculos IV a VI fugiram das cortes imperiais, afim de manterem distância dos assuntos mundanos, pois a época foi uma das mais corruptas do Império Chinês. Assim, esses homens faziam longos retiros nas montanhas e optavam por uma vida contemplativa. Socialmente, o círculo era restrito a poucos eruditos, tais como poetas, artistas, calígrafos.
[2] WEBER, Max. Rejeições Religiosas do Mundo e Suas Direções. In: Ensaios de Sociologia, 5a.ed, Ed. Guanabara, Rio de Janeiro, 1982. pg. 372.
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