A LITERATURA DA GRÉCIA E DE ROMA

A LITERATURA DA GRÉCIA E DE ROMA

A LITERATURA DA GRÉCIA E DE ROMA

Henry Thomas

Por que eram cegos os poetas gregos?

QUASE todos os mais antigos dos poetas gregos eram cegos. o primeiro déles, Tamiris, segundo dizem, vangloriou-se de ser melhor cantor que as Musas, filhas de Zeus. As Musas zangaram-se com esse alarde, "e na sua cólera, tornaram-no cego".

O poeta seguinte, Demódoco, também foi cegado, como nos narra Homero, "pelas Musas. Tiraram-lhe a luz dos olhos, mas concederam-lhe o dom do doce cantar."

Da mesma maneira, Dafnis, Teiresias, Estesícoro, e até o próprio Homero, ficaram cegos antes que lhes fosse permitido cantar.

Isto é mais do que uma coincidência. Havia um motivo definido, embora cruel, para privar da vista aqueles poetas. Não eram as Musas que os cegavam, mas os reis gregos. Esses reis tinham ciúmes de seus poetas, ou antes, de seus reais rivais de outros países. Faziam questão fechada de conservar os poetas para si, justamente como os magnatas do cinema de hoje, que tudo empreendem para conservar só para si suas "estrelas" da tela. Os atuais magnatas do cinema realizam seu intento, prendendo suas "estrelas" por meio de contratos. Este método tão simples não ocorreu aos antigos reis da Grécia. Prendiam seus poetas, arrancando-lhes os olhos.

O rapto de Helena de Tróia

HELENA tem sido considerada "a mais fascinante mulher de toda a literatura". Dela eram os olhos que lançavam ao mar milhares de navios. Sua fuga deu causa à guerra que os antigos achavam ter sido a mais terrível do mundo. Homero, fazendo do nome dela um trocadilho — êle era doido por trocadilhos — a ela se refere como "a funesta Helena, Inferno de homens, Inferno de cidades, Inferno de navios." (*)

Ela era tão encantadora quanto perversa. Quando Paris, o soberano de Tróia, foi hospedado pelo rei Mene-lau, marido de Helena, sentiu-se cativo de sua beleza. Deixou o palácio cedo, de madrugada, quando o sol "estendia suas vestes açafroadas sobre a terra," Helena seguiu com êle.

Esse rapto de Helena foi o começo duma série de sofrimentos para gregos e troianos. Causou uma guerra de dez anos; causou a morte de milhares de homens e a dissolução de dezenas de milhares de lares. Causou, finalmente, a destruição de Tróia e a morte de Agamenão, por ocasião do regresso a seu palácio. E contudo, tão poderoso era seu encanto, que nem um grego sequer, ou um troiano, jamais censurou sua maneira de agir. Era uma dessas raras mulheres a quem tudo se perdoa. Mesmo os anciãos de Tróia, que já não estavam em idade de se deixar impressionar e perturbar à vista de uma bela mulher, não lhe conservavam ressentimento pelos transtornos que lhes acarretara. Na verdade, só sentiam admiração por ela. Um dia, ao verem-na atravessando sua sitiada e devastada cidade, cofiaram as vetustas barbas e observaram um para o outro: "Por Zeus, ela é digna desse preço!"

E nós, também, podemos dizer, com aqueles velhos sábios de Tróia, que ela era certamente digna do preço. Porque sua beleza e sua fuga de Argos deram origem a dois dos mais perfeitos de todos os poemas épicos, a Ilíada e a Odisséia, de Homero.

Conta-se interessante e estranha história a respeito do colar de pérolas de Helena, que lhe fora dado pela deusa Venus, fisse rolar se perdeu na ilha de Delfos. Muitos anos mais tarde foi achado c dado a unia formosa moça grega. Ao botar no pescoço o colar, apaixonou-se por um rapaz e fugiu com êle. E até hoje, assegura-nos a lenda grega, existe esse colar, em alguma parte. E quem quer que o use tem a sorte de abandonar seu marido e fugir com outro homem.

Por isso, jovens senhoras minhas, acautelai-vos com O colar de Helena !

Que aconteceu a Helena depois do sítio de Tróia? A lenda grega nos conta que voltou tranquilamente para Argos com seu marido, c que os druses, perdoando suas imprudências, da mesma forma que os mortais haviam feito, pouparam a ambos, marido e mulher, a aflição da morte. Transportaram o famoso casal, ainda vivos, para os abençoados Campos Elíseos, onde "os dois vivem juntamente felizes até hoje".

As extraordinárias aventuras de Ulisses

AS viagens de Ulisses, cujo nome grego é Odisseu, es tão descritas na Odisséia, de Homero. Ulisses era um dos combatentes gregos no sítio de Tróia. A princípio, nao estava Ulisses querendo unir-se à expedição contra

Tróia. Fingiu-se atacado do juízo e, portanto, incapaz dc-usar armas. Mas os oficiais recrutadores do exército grego imaginaram um hábil expediente para verificar a loucura dele. Estando Ulisses a arar seu campo, puseram-lhe o filho Telêmaco, dentro dum dos sulcos. O pai provou seu perfeito juízo recusando-se a ferir seu filho com o arado. Teve de juntar-se ao exército.

Uma vez chegado a Tróia, porém, provou ser o mais astuto, como o mais bravo, dos soldados gregos.

Quando Tróia foi tomada, Ulisses prontamente tratou de voltar para casa. Era uma viagem de três dias, de Tróia à sua nativa ilha de ítaca. Ulisses levou sete anos longos a alcançá-la. Porque seu navio estava sujeito a um encanto maligno. Netuno, o deus do mar, se zangara com êle e fizera voto de perseguí-lo até os confins da terra. E assim, logo que Ulisses velejou, furiosa tempestade se levantou do norte e levou seu navio para a estranha terra dos Comedores de Loto. Quem provasse desse mágico fruto se esquecia de tudo quanto dissesse respeito a seu lar, sua esposa, seus filhos, seus deveres e seus amigos.

Mas Ulisses era mais sábio que os mais sábios dos homens. Por isso, absteve-se de comer o loto mágico e aconselhou seus companheiros a seguir-lhe o exemplo. Muito a contragosto seus companheiros obedeceram-lhe as ordens, e o navio afastou-se da terra dos encantados Comedores de Loto.

Mas suas viagens tinham apenas começado. Logo que o "navio alado" deslizou sobre as ondas do mar, ergueu-se outra tempestade. Desta vez Ulisses escapou do perigoso mar para uma terra ainda mais perigosa, a dos Ciclopes. Porque os Ciclopes eram uma selvagem raça de gigantes. Tinham apenas um olho no meio da fronte e um apetite voraz de carne humana. Quando Ulisses e seus homens avistaram esses gigantes, correram a abrigar-se numa escura caverna. Imediatamente Polífemo, rei dos Ciclopes, empurrou uma pesada pedra contra a entrada da caverna e começou em seguida a matar e devorar os amigos de Ulisses, um por um.

Em breve chegaria a vez do próprio Ulisses. Mas justamente, no momento oportuno, descobriu êle um feliz modo de escapar. O gigante Polífemo, empanturrado de comida e pesado de bebida, caíra em profundo sono. Sorrateiramente, para não despertá-lo, Ulisses ordenou a seus homens que apanhassem o tronco duma tenra árvore que Polífemo estivera usando como bengala. E depois moven-do-se cautelosamente nas pontas do pés, Ulisses e seus amigos aguçaram a árvore em ponta, endureceram-na no fogo e enterraram-na profundamente no olho de Polífemo.

E assim escaparam das garras do ciclope cego. Mas não haviam escapado ainda da cólera de Netuno. Dessa outra vez o deus do mar conduziu-lhe o navio à misteriosa ilha de Circe. Ora, Circe era uma feiticeira. Quando alguém chegava à sua ilha, entretinha-o com os mais apetitosos alimentos e os mais fragrantes vinhos. Mas o vinho era mágico. Porque quem o bebia perdia sua forma humana e se transformava imediatamente num porco.

Quando os amigos de Ulisses desembarcaram na ilha de Circe, ela os convidou para um banquete. Sentaram-se eles em vinte tronos de ouro, com a boca cheia d’água e de olhos cintilantes à vista do vinho, da carne e dos bolos postos diante de si. Sentiam-se verdadeiros reis, mas portavam-se como porcos. Quanto mais comiam e bebiam, mais gulosos e mais patetas se tornavam. Finalmente caíram de seus tronos e começaram a rastejar de quatro pés, a rojar-se e grunhir como porcos num chiqueiro.

A princípio Ulisses não se ‘encontrava entre eles. Recusara o convite de Circe, mas permaneceu a bordo, pensando tristemente em sua mulher Penélope e em seu filho Telêmaco.

Mas logo que soube dos apuros de seus companheiros, no palácio de Circe, correu para lá, de espada em punho. A perversa feiticeira tentou transformá-lo também em porco. Mas êle não cedeu a seu mágico encanto. Ameaçando matá-la com sua espada, obrigou-a a transformar novamente seus companheiros em seres humanos. E mais uma vez navegaram eles à procura da terra natal.

 

Durante muitos dias navegaram sem nenhum contratempo, até que de súbito o vento desapareceu e eles se viram em plena calmaria. De longe, suave estranha, canção flutuava sobre as ondas. Ulisses sabia o significado daquela canção e um grande temor se assenhoreou dele. Porque era a Canção das Sereias, aquelas virgens que, com suas mágicas vozes, eram capazes de atrair os homens para longe de tudo quanto lhes fosse querido. E se um mortal, seduzido pelo seu canto, tentava aproximar-se da terra das sereias, seu navio era lançado contra os rochedos e seu corpo ia servir de pasto aos peixes do mar.

Tudo isso Ulisses sabia. Daí o grande temor que dele se apoderara. Mas novamente sua prudência lhe veio em auxílio e concebeu um plano por meio do qual poderia proteger-se e aos seus companheiros, contra o Canto das Sereias. Entupiu de cera os ouvidos de seus amigos, de modo que som algum os alcançasse e ordenou-lhes que o amarrassem fortemente ao mastro do navio. Deixou, porém, os próprios ouvidos livres, pois estava ansioso por ouvir o canto daquelas mágicas Donzelas do Mar.

Imediatamente a canção o envolveu em todo o seu encantamento. Nunca ouvira êle coisa semelhante até então. Os sons que vinham flutuando sobre o mar eram como fortes e invisíveis dedos que o agarravam e arrancavam de Penélope, de Telêmaco e de sua querida terra natal de ítaca.

Estorcia-se desesperadamente entre as cordas e pedia a seus marinheiros que o soltassem. Mas estes não lhe prestavam atenção. Lentamente o navio velejou através do encantado mar, até que pouco a pouco o Canto das Sereias se misturou com a música do vento e o estrondo da ressaca. E então eles o desataram do mastro e Ulisses viu-se mais uma vez livre para viajar em demanda de sua casa natal

Seu lar, porém, achava-se, como sempre, ainda muito distante. Porque a cólera de Netuno contra êle estava aquecida ao rubro. E assim, ajuntando-se a todos os outros infortúnios seus, sobreveio então um naufrágio. A custo conseguiu êle salvar-se numa jangada, mas apenas por um instante. Tremenda onda descarregou-se sobre a jangada e Ulisses foi lançado ao mar.

Durante dois dias e duas noites, lutou contra o oceano. Afinal, no terceiro dia, ferido, ensanguentado e quase morto de fadiga, alcançou a Feácia. Arrastando-se pesadamente até um matagal, caiu, exhausto, no sono.

E aqui começa uma das mais famosas cenas da literatura grega. Nausica, a encantadora filha do rei da Feácia, ajunta seus vestidos, coloca-os num carro e desce a lavá-los, à beira-mar. Acompanha-a um grupo de amigas, as mais lindas donzelas da terra.

Lavada a roupa, banham-se elas, untam-se e começam a jogar bola, rindo e cantando enquanto jogam. Estão prestes a terminar o jogo, quando a princesa lança demasiado alta a bola, que vai cair nas moitas onde se encontra Ulisses.

O barulho desperta Ulisses. Arranjando uma coberta de folhas para a cintura, caminha na direção das donzelas. Aquela selvagem aparição enche-as de terror e elas debandam aos gritos em todas as direções. Nausica,, porém, não. Compadece-se dele e diz-lhe que a acompanhe até o palácio de seu pai.

Chegam lá à tardinha. Depois de banhado, descansado e confortado de comida, Ulisses retribue a hospitalidade do rei narrando-lhe a história de suas estranhas aventuras.

Terminada a sua história, o rei ordena que aprestem um navio para Ulisses. Tripula o navio com os melhores marinheiros feácios, enche-o de presentes e despacha seu hóspede para sua Ítaca natal.

Mas antes que êle pudesse chegar a casa, outro infortúnio o espera. Netuno transforma-lhe o navio em pedra e mais uma vez Ulisses dificilmente escapa com vida. Chga a ítaca sozinho, sem amigos. Vestido como um mendigo, pede pousada na cabana de seu velho guardador de porcos, Eumeu.

Ninguém reconhece Ulisses. Isto é, nenhum ser humano o reconhece. Mas seu cão Argos reconhece o dono. Velho, semicego e mal podendo arrastar as pernas, esse cão fiel lança um alegre latido de reconhecimento, lambe as mãos de seu amado dono, e cai morto a seus pés.

E é como um mendigo, de bordão em punho e de sacola às costas, que Ulisses volta a seu palácio.

Quando chega ao palácio, está sendo realizado um grande banquete. Os príncipes de todas as regiões vizinhas, acreditando-o morto, estavam tentando obter a mão e a fortuna de sua mulher Penélope. Ela os havia recusado a todos. Mas eles, nada intimidados se haviam estabelecido no palácio, comendo e bebendo à vontade, para grande desgosto e tristeza dela.

À vista daqueles barulhentos príncipes, que se embriagavam como animais, em seu próprio palácio, Ulisses inflamou-se de cólera. Contudo, conteve sua raiva e propôs que todos demonstrassem sua habilidade com o arco e a flecha.

Rindo, concordaram com o estranho pedido do mendigo. E suas risadas se tornaram mais estrepitosas e mais prolongadas quando o mendigo, por sua vez, pegou a flecha, retesou o arco e aprontou-se para atirar.

Mas quando sua seta voou mais rápida e mais certeira ao alvo que a de qualquer dos outros, as risadas se transformaram em aplausos. E quando êle gritou em altos brados que era Ulisses, seus aplausos se transformaram num grito de espanto e de desespero.

Depois, com o auxílio da deusa Minerva, que viera ficar a seu lado, empunhou uma espada e uma lança de ponta dupla e matou um por um os pretendentes.

E então naquele instante, a fiel Penélope verifica que o mendigo não é outro senão o seu amado rei e marido. Porque nenhum outro homem a não ser Ulisses possuía a força de braço e a segurança de olhar para derrubar, como esse estrénuo guerreiro fizera, aqueles maus príncipes que haviam infestado o palácio dela durante tantos anos.

E assim, já que a família está afinal reunida, partamos tranquilamente daquela mágica terra de ouro e púrpura, a que a história de Ulisses contada por Homero nos levou, durante alguns preciosos instantes de empolgante beleza.

Imagens e Ilustrações de Literatura

O burlesco na antiga Grécia

OS gregos gostavam imensamente de teatro. E principalmente de ver tragédias, mas vê-las um tanto açucaradas, temperando o pranto com um pouquinho de riso. De acordo com isso, os escritores teatrais da Grécia compunham certa espécie de drama, que começava como tragédia e acabava como comédia. Suas peças eram em quatro atos. Os três primeiros, trágicos e o último, grotesco. Frequentemente, o último ato muito pouco tinha que ver com os anteriores. Podia-se ficar para vê-lo ou deixar o teatro, à vontade. Mas os escritores achavam que deviam satisfazer a seus auditórios. Tinham de deixar-lhes na boca um gosto açucarado.

E a propósito, há uma história. As tragédias gregas eram produzidas em concursos, e os autores dessas tragédias sabiam que até mesmo os auditórios mais inteligentes se fatigavam diante do espetáculo de excessivos sofrimentos. E por isso, afim de ganhar o aplauso dos espectadores e garantir o prêmio, os dramaturgos finalizavam suas produções sérias com uma farça. E não poucas vezes aconteceu que o premiado do concurso de tragédia obteve a láurea, não pela melhor tragédia, mas pela farça mais divertida.

Os antigos gregos, como vedes, estavam muito bem familiarizados com os processos teatrais de Broadway e Hollywood 1

Visita a um teatro grego

VAMOS a um teatro grego. Mas para isso, devemos ir de manhã bem ceclmiio, porque as representações gregas começavam, não logo depois do pôr-do-sol, mas imediatamente ein seguida à madrugada.

Muito tempo gastaremos para chegar ao teatro, porque há nada menos de 20.000 pessoas que se dirigem para o mesmo lugar — um público quase tao numeroso como a multidão de "fans" de unia moderna partida de bassebalh Para os gregos era o teatro um dos favoritos esportes do ar livre.

O teatro grego era um edifício sem cobertura. Construíam-no na encosta duma colma, com o céu azul por telhado.

Estamos agora no teatro ateniense, na Acrópole. Em torno de nós, se acha a imensa e barulhenta multidão de gregos folgazões e acima, no topo da colina, erguem-se as tranquilas estátuas dos deuses, que parecem ter descido dos céus para formar íntima parte da assistência.

Entrámos pela passagem entre o auditório e o palco. Escolhemos um lugar no alto, porque dessa posição podemos ver tão bem os espectadores quanto os atores.

Os espectadores formam uma multidão irrequieta, turbulenta, bem humorada. As representações vão durar de manhã à noite, e assim todos trataram de trazer consigo sua comida. O ar está saturado de acre odor de ervilhas cozidas, salsichas, azeitonas em conserva, queijo e alho. É sem dúvida um tanto incômodo para nosso olfato moderno, mas não podemos negar que era assaz picante e apetitoso.

Os lugares mais altos foram-se enchendo pouco a pouco. Os mais baixos, porém, estão ainda vazios. Reservam-se para a nobreza e os nobres, como sabeis, gostam de dormir até mais tarde.

Mas agora, afina!, os aristocratas estão começando a chegar. À proporção que cada um entra, a multidão se ergue, assobiando, vociferando e batendo com as mãos. Mas também, quando acontece chegar algum personagem impopular, ficamos surpresos em ouvir um barulho que se assemelha estranhamente à nossa "torcida".

Os antigos gregos pareciam exigir de seus aristocratas não só uma origem nobre, mas também um caráter nobre.

O preço de entrada de um teatro grego era de cerca de Cr$ 1,20. Por esse preço, compravam-se dois bilhetes que davam, direito, a assistir às representações durante dois dias inteiros. Mas supondo que não se tivesse dinheiro. Ficar-se-ia privado de ir ao teatro? De certo que não. O governo grego promulgara uma lei um tanto curiosa, que favorecia os cidadãos amantes do teatro, mas sem meios de comprar entradas. Antes de cada representação, todos os cidadãos de Atenas recebiam do Estado a quantia de Cr$ 1,20.

Essa espécie de liberalidade, por parte dum governo moderno, provavelmente esgotaria o tesouro, no período de uma única temporada teatral. A temporada teatral em Atenas era, porém, felizmente muito curta. Durava apenas dois dias no inverno e dois dias na primavera.

Eurípedes – O primeiro feminista da História

HISTORICAMENTE, o primeiro homem que se in teressou pela questão feminista foi o teatrólogo grego Eurípedes. Como raça, considerava as mulheres seres humanos; individualmente, porém, odiava a todas sem distinção.

Era um completo individualista. Alguns dos críticos modernos o chamaram de "Ibsen antigo". Ou, então, chamavam Ibsen de "Moderno Eurípedes".

A morte de Eurípedes está envolta em mistério. De acordo com uma lenda, foi êle morto por uma matilha de cães; outra, porém, diz que foi uma chusma de mulheres. "Êle tentou auxiliá-las, e elas lhe pagaram com maldições. Ofereceu-lhes alimento, e elas morderam a mão que as alimentou."

Eurípedes escreveu noventa e duas peças. Dezoito delas chegaram até nossos dias. Contam-se entre as mais preciosas do tesouro dos maiores dramas do mundo. Nessas peças há toda uma galeria de mulheres heróicas e trágicas: Alceste, que sacrificou a vida pelo marido; Hécuba, tainha de Tróia, que pranteou a destruição de sua cidade e a degradação de seus filhos; Maçaria, que morreu voluntariamente para que sua terra pudesse ser salva; ainda Hécuba, cujo filho foi morto pelo rei Polimestor e que, para vingar-se, atraiu o rei à sua tenda e arrancou-lhe os olhos (cena que nos lembra a história de Jael e Sisara, da Bíblia); e as tristes velhas de Tebas, mães dos sete chefes que tinham sido mortos em combate.

Talvez o mais trágico de todos os tipos por êle criados seja Medéia. Essa infeliz princesa é a irmã de Circe, aquela encantadora feiticeira que podia transformar seres humanos em porcos. Medéia é mais desventurada que sua irmã. Em vez de atraiçoar os outros, é ela mesma atraiçoada. Jasão, o descobridor do Velocino de Ouro, enganou-a com suas promessas e depois abandonou-a. Está prestes a casar-se com outra princesa. Mas Medéia não ficará ociosa a contemplar o espetáculo da felicidade deles. Seu coração despedaçado há de tirar vingança. E selvagem vingança será. Envia à sua rival, como presente de núpcias, um vestido de noiva, embebido de veneno. E depois, para completar sua vingança, mata seus próprios filhos, porque Jasão é o pai dessas crianças e sua morte é o último e mais amargo golpe em todas as esperanças dele.

Medeia, é a mais popular das peças de Eurípedes, e Eurípedes o mais popular dos trágicos gregos. Consideram-no o mais humano de todos. Conta-se que os sicilianos libertaram um prisioneiro ateniense, por ser capaz de recitar um trecho de Eurípedes. Mas coube ao poeta Filemon prestar a maior das homenagens ao gênio de Eurípedes. "Se tivéssemos certeza de que os mortos conservam ainda a sua conciencia, dizia êle, eu me enforcaria para ver Eurípedes".

As maravilhosas histórias de Heródoto

HERÓDOTO foi chamado o "Pai da História". Era um grande viajante e em suas frequentes excursões aos mais afastados lugares da terra, recolheu delicioso cabedal de histórias curiosas e maravilhosas. Para contá-las todas, seria preciso um outro volume. Podereis encontrá-las todas reunidas nas deliciosas narrativas de sua História. Provam o velho adágio que a verdade — se, de fato, Heródoto está contando a verdade — é mais estranha que a ficção. Citemos, por exemplo, alguns dos "curiosos fatos, costumes e acontecimentos verdadeiros" relatados por Heródoto.

"Um dos reis persas, conta-nos êle, ostentava uma guarda-pessoal de sessenta de seus próprios filhos".

"Os budini (tribu da Ásia) se asseavam e matavam a fome ao mesmo tempo, comendo seus piolhos".

"Nos banquetes egípcios, os escravos traziam esculpida em madeira a imagem dum cadáver. Fazia-se isso para lembrar aos hóspedes que naquele dia deviam comer, beber e ficar alegres, pois no dia seguinte poderiam estar mortos".

"Os citas bebiam o sangue dos inimigos mortos e usavam-lhes as cabeleiras como guardanapos".

"Os transi (tribu da Trácia) tinham costumes de nascimento e de morte que descreverei agora. Quando nascia uma criança, todos os seus parentes sentavam-se, circularmente, em torno dela e choravam pelos pesares que ela teria de suportar agora que viera ao mundo… Quando, por outro lado, morria um homem, enterravam-no com risadas e regozijos, dizendo que agora êle estava livre de um ror de sofrimentos, gozando da mais completa felicidade".

"Quando Dario estava pronto a levar a guerra contra os gregos, um de seus agentes, Oiobazus, apresentou-se diante dele com o seguinte pedido: "Tenho três filhos, ó Rei. Não os tomeis a todos, eu te peço, mas consente que eu conserve um deles aqui em casa". "Pois não, respondeu Dario, gentilmente. E mais do que isso. Consentirei que conserves em casa todos três." E fiel à sua promessa, mandou matar os três filhos daquele homem".

Heródoto descreve numerosas e espantosas façanhas de valor, não como maravilhas, mas como fatos comuns. E, com a generosidade do historiador sem preconceitos, é tão imparcial para com o inimigo como para com seus próprios partidários. Efetivamente, conta-nos êle que "o mais heróico ato digno de menção" foi o de um soldado persa que lutava contra os atenienses. Esse soldado fora capturado e acorrentado por um pé ao chão de sua prisão. Só havia um meio possível de fuga e o soldado o executou. Cortou o próprio pé.

Uma das mais interessantes histórias de Heródoto é a de Creso, o homem mais rico do mundo. Creso considerava-se o mais feliz dos mortais. Mas Sólon, sábio filósofo, disse-lhe que não tinha êle razão para se ensoberbecer tanto. "Não deve o homem, lembrava-lhe êle com brandura, considerar-se feliz antes de morrer." E antes de morrer, teve Creso a infeliz oportunidade de verificar a sabedoria das palavras de Sólon. "Porque Creso tinha dois filhos — um, vítima dum defeito natural, sendo surdo e mudo, e o outro, que se distinguia dentre todos seus companheiros, em todas as ocupações e estudos. Chamava-se este último Atis. A seu respeito, teve Creso um sonho: que êle morreria de um golpe de lança de ferro".

Quando Creso despertou do sonho, sentiu-se grandemente alarmado. Mandou retirar do palácio todas as armas de ferro e deu estritas ordens a seu filho para que jamais se metesse em caçadas ou em guerras.

Veio então a acontecer que um príncipe vizinho fez uma visita ao palácio de Creso. Chamava-se Ádrasto esse príncipe. Atis e Ádrasto tornaram-se amigos íntimos.

Um dia chegou ao conhecimento de Creso que seu reino estava sendo infestado por um javali. Um grupo de rapazes foi despachado a matar o javali. Atis pediu a seu pai licença para acompanhá-los. "Não tenhais medo, meu pai — disse êle. —-Vosso sonho vos advertiu de que eu seria morto por uma lança de ferro e não pelo colmilho de um javali".

Creso consentiu com relutância. Pediu a Ádrasto, porém, para acompanhar seu filho e servir-lhe de protetor especial.

O bando de moços selecionados partiu para a caçada. Não demoraram a encontrar o javali. Os caçadores o cercaram e arremessaram as armas contra êle. Ádrasto também atirou sua lança contra o javali. Não atingiu o alvo e involuntariamente matou Atis, o filho de seu hospedeiro e seu mais querido amigo.

E dessa forma realizou-se o sonho de Creso e, justificou-se a sabedoria de Sólon. "Porque os planos dos deuses e a sabedoria do sábio são maravilhas além de nosso alcance; e aqueles de, nós que se olham como os mais ricos provam na verdade que são os mais pobres dos mortais."

A vida do próprio Creso, conta-nos Heródoto, foi certa vez alva de maneira miraculosa. Aprisionado em combate por Ciro, rei da Pérsia, foi posto sobre a pira funerária, juntamente com muitos outros prisioneiros de guerra. Acenderam a fogueira e as chamas saltaram no espaço. Creso, que havia sido um homem piedoso, começou a rezar em voz alta, e eis que "um aguaceiro caiu do céu e extinguiu as chamas."

Uma das mais encantadoras entre as maravilhosas histórias de Heródoto intitula-se O ladrão que casou com uma princesa. Foi a primeira história de detetive do mundo. Trata duma série de roubos tão hábeis que iludiam o rei do Egito e seus mais sábios conselheiros. Esse rei, achando-se de posse de vasto tesouro em ouro e pedras preciosas, ordenou a seu arquiteto que lhe edificasse, um quarto de pedra sem janelas, com uma pesada porta de ferro. Dentro desse quarto ocultou o rei seu tesouro e depois ordenou que a porta fosse fechada com duas voltas e aferrolhada. Conservava a chave dessa porta em seu poder.

Parecia que nenhuma criatura humana seria jamais capaz de penetrar naquele quarto, sem permissão do rei. E contudo, uma manhã descobriu o rei que o quarto fora visitado e parte do tesouro subtraída. O rei dobrou as fechaduras e ferrolhos da porta e colocou uma sentinela de confiança diante dela. Mas sem proveito, porque, no dia seguinte, descobriu que o quarto impenetrável fora novamente violado e quantidade maior de seu tesouro roubada. 0(rei e.seusvsábios conselheiros estavam espantados. Quem penetrava naquele quarto de.tesouro tão cuidadosamente guardado e quem era capaz de praticar semelhante proeza?

Afim de resolver o mistério, deixemos os detetives do rei e vamos ao encontro do próprio ladrão. Há na realidade, dois: Ladronius e seu irmão. São filhos do arquiteto que construiu o quarto-tesouro. Esse arquiteto, pensando no futuro de, seus filhos, pusera no edifício uma pedra falsa, colocada de modo a poder deslizar e deixar um buraco bastante largo para dar passagem a um homem que andasse de rastros, e contudo tão habilmente arranjada que nenhuma diferença apresentava das outras. No seu leito de morte, o arquiteto revelou o segredo a seus filhos, como herança. E fora assim que Ladronius e seu irmão tinham podido penetrar no quarto do tesouro, noite após noite, sem serem apanhados.

Mas o rei e seus detetives estavam dispostos a apanhar o ladrão. Para isso colocaram uma armadilha no quarto do tesouro. Uma noite, como o irmão de Ladronius penetrasse no quarto, seu pé foi colhido pela armadilha, Afim de ocultar sua identidade ao rei, implorou a Ladronius que lhe cortasse a cabeça. Muito a contragosto Ladronius consentiu em satisfazer-lhe o pedido.

Na manhã seguinte, foi descoberto o corpo degolado do ladrão. O rei examinou a porta de ferro e as fechaduras e ferrolhos, e ficou mais intrigado do que nunca. Mas decidiu pôr em execução um plano que, como esperava, faria cair em suas mãos o cúmplice daquele ladrão decapitado. Ordenou que o corpo fosse suspenso duma árvore, perto da casa do tesouro, e. disse aos guardas que levassem à sua presença quem quer que demonstrasse tristeza ao ver aquele morto.

Ladronius suspeitou da traça. Por isso, trouxe uma carroça cheia de odres de vinho para os guardas, mergu-lhando-os num estupor de embriaguez e libertou o corpo de seu irmão, enquanto os guardas estavam adormecidos.

O rei, agindo a conselho de seus detetives, resolve jogar a última cartada. Manda publicar uma proclamação, anunciando que oferecerá a mão de sua filha ao rapaz que provar sei o mais hábil maroto do Egito. A princesa, sentada num trono, recebe os candidatos e faz papel de único juiz. Secretamente, o rei ordena à sua filha que se alguém lhe falar a respeito do roubo do tesouro, ela o agarre pela mão e o mantenha preso até que os guardas cheguem.

Ladronius está disposto a obter a mão da bela princesa. Em consequência, chega ao palácio, usando ricas sandálias, resplandescentes calções e um manto de veludo. A princesa fica completamente seduzida pelo seu aspecto. Porém tem um solene dever a cumprir.

"Dize-me, rapaz, qual foi a coisa mais perversa e mais habilidosa que já fizeste?"

Ousadamente deu Ladronius sua resposta: "ó a mais bela das princesas, a coisa mais perversa que jamais pratiquei foi cortar a cabeça de meu irmão, quando roubámos o tesouro de vosso pai. E a coisa mais habilidosa que já fiz foi roubar o oorpo de meu irmão, nas barbas de todos os guardas reais".

Ouvindo essas palavras, a princesa desceu de seu trono e agorrou-lhe a mão. Mas, com grande estupefação sua, um milagre, se realizou à sua vista. O belo e jovem maroto pulou para trás, deixando-lhe na mão o manto e o braço. Fazendo uma profunda inclinação, correu para a porta e se afastou do palácio antes que ela pudesse refa-zer-se da surpresa.

Como aconteceu isso? Muito simplesmente. O patife, suspeitando do plano, ocultara debaixo do manto o braço dum cadáver.

Quando o rei soube da proeza, rindo, perdoou a La-dronius. Seu reino, achava êle, necessitava bastante de homens tão hábeis. Por isso, ofereceu a mão de sua filha a Ladronius e o nomeou chefe da real secretaria de polícia.

O orador que perdeu a cabeça

ESTE título não é apenas figurado, mas literalmente verdadeiro. Cícero foi, na opinião de muitos, o maior orador de todos os tempos. Tinha, como o afirma um de seus admiradores, "a mais fluente língua da história humana". E foi isso justamente que o perdeu. Sua língua, infelizmente, era mais hábil que seu pensamento. Embora fosse importante filósofo, tinha muito pouco de filósofo e demasiado de orador. Sua grande desgraça foi ter tentado ser filósofo e político ao mesmo tempo. Como filósofo, via em geral os dois lados de uma questão. Como político, era forçado a tomar só um lado. Em consequência, não sabia que lado tomar, e isso o conservou constantemente em apuros.

Primeiramente, o problema foi saber se tomaria o partido de Pompeu ou de César, na guerra civil entre os dois. Incapaz de tomar uma decisão, proferiu brilhantes discursos ora em favor de um, ora em favor do outro. Resultado : dois inimigos, em vez dum inimigo e dum amigo.

Quando César matou Pompeu e se tornou senhor de Roma, Cícero pronunciou um grande discurso em honra de César. Mais tarde, quando César foi assassinado, Cícero fez igualmente um grande discurso contra êle. Esse último discurso foi a conta. Encheu de raiva o amigo e pratidário de César, Marco Antônio. Por causa disso, Cícero perdeu a cabeça (ainda figuradamente falando). Pensava que Antônio estaria em breve privado do poder, e, em conformidade, encetou uma série de, belas mais infelizes invectivas contra Antônio. Em linguagem nobre, convidou Antônio a mandá-lo matar:

"Conduze-te para comigo como quiseres, Marco Antônio, mas compadece-te de tua terra. Quanto a mim, falarei claramente Defendi a pátria, na minha mocidade; não a renegarei na minha velhice. Desprezei as espadas de Catilina; jamais me abaterei diante das tuas.

"Há quase vinte anos neste mesmo templo disse que estava pronto, se fosse preciso, a ir ao encontro da morte. Hoje, meus senhores, a morte é ainda mais desejável, depois das honras que obtive, e dos deveres que cumpri."

Patéticas e talvez loucas, mas ousadas palavras! Marco Antônio prestou ouvidos ao desafio do velho orador — Cícero tinha sessenta anos então —; prendeu-o e mandou decapitá-lo. A cabeça e as mãos do incomparável Cícero foram pregadas por cima da porta do Senado.

As curiosas aventuras do jumento de ouro

A HISTÓRIA DO JUMENTO DE OURO é obra de Apuleio, homem cuja vida é quase tão estranha como seu livro. Nascido na África, seguiu ainda rapaz para Roma. Ficara, por herança do pai, milionário, mas dentro de poucos anos tornou-se pobre. Gastou todo seu dinheiro com seus estudos e, seus amigos. Depois encontrou uma viúva riquíssima e casou-se com ela. Mas os parentes o mandaram prender, sob a acusação de que êle havia utilizado meios mágicos para captar-lhe o afeto. Não sabemos se êle foi ou não absolvido dessa acusação. Mas daquele tempo em diante, sua fama de mágico cresceu. Mesmo os sábios de seu tempo, e depois posteriores gerações, acreditavam que êle tinha estranhos e mágicos poderes. Êle próprio nunca negou esses poderes. Efetivamente, afirmava que a espantosa história do jumento de ouro era a história de suas próprias aventuras — "cada linha dela era tão verdadeira quanto a própria verdade".

Era a história realmente verdadeira ou apenas uma hábil invenção imaginosa? Pois bem, ei-la: julgai-a vós mesmos. Verdadeira ou não, é uma história inegavelmente interessante. Para citar o próprio breve prefácio dele ao Jumento de Ouro, "presta atenção, leitor; vais di-¥ertir-te".

Somos apresentados ao herói desta história, Lúcio, na casa duma famosa feiticeira, onde êle se encontrava hospedado. A criada da feiticeira, linda jovem, porém não muito virtuosa, apaixona-se, por Lúcio. Descreve-lhe um sortilégio secreto, em consequência do qual sua patroa é capaz de transformar-se, à vontade, em um pássaro. Lúcio mostra-se muito interessado por esse sortilégio. Também êle está ansioso por transformar-se em pássaro. Induz a criada a obter o necessário unguento mágico, unta-se êle mesmo da cabeça aos pés, pronuncia as palavras do encantamento e aguarda que as asas e as penas cresçam-lhe no corpo.

Mas para espanto seu, não sente penas crescendo no seu corpo, mas duas longas orelhas crescendo-lhe na cabeça. Em vez de em um pássaro, vê-se transformado em um jumento. Devido a um pequeno engano, a descuidada criada havia apanhado o unguento errado para êle.

Está desapontado, mas não perde o ânimo. Porque há um simples antídoto, em resultado do qual pode êle mudar-se, mais uma vez em ser humano. Tudo que terá a fazer é comer rosas.

Mas aqui é que está a dificuldade. Tudo no mundo conspira para afastá-lo das rosas. Todos, julgando-o um jumento, espancam-no, batem-lhe e deixam-no sem comer até que seu pobre coração humano está prestes a partir-se dentro de suas costelas asininas. Sua sorte é a mais cruel de todas porque êle ainda pensa como homem, enquanto que é tratado como animal.

Logo depois de, sua transformação em jumento, a criada coloca-o na estribaria e promete trazer-lhe algumas rosas pela manhã. Mas, durante a noite, é êle furtado por um bando de ladrões. Tenta zurrar seus protestos, mas eles não lhe compreendem a linguagem.

Os ladrões levam-no para seu covil nas montanhas. Ali comem eles, bebem e contam alegres histórias — algumas não muito divertidas — de suas proezas e aventuras. Eis uma delas:

Os ladrões estavam planejando roubar a casa de um homem rico, chamado Demócares. Este resolvera exibir uns ursos para divertir seus amigos. Mas os ursos morreram e Demócares lançou suas carcaças na rua. Isto deu uma idéia aos ladrões. Apanharam um dos ursos mortos, tiraram-lhe a pele e, vestiram com ela um de seus companheiros, Trasilo. Depois apresentaram o "urso" numa jaula a Demócares. Estava combinado que, noite morta, Trasilo abriria a porta de dentro, de modo que os outros ladrões pudessem entrar e roubar a casa.

Tudo teria corrido muito bem, se um dos criados não houvesse visto o "urso" fora da jaula, durante a noite. Deu o alarme. Os criados se reuniram com lanças, clavas e archotes. Os cães de caça foram soltos. Com fogo, dentes, clavas e ferro foi o urso atacado. Até o final lutou e rosnou como um autêntico urso. Porque não queria trair seus companheiros.

Somente no dia seguinte vieram a saber os criados que haviam matado, não um urso, mas um homem.

Tal era a coragem dos ladrões, no Jumento de Ouro.

No dia seguinte à narração dessas histórias, os ladrões trouxeram para seu esconderijo uma noiva que haviam raptado. Uma velha bruxa, que tomava conta do antro, divertiu a jovem noiva com uma encantadora história do casamento e desventuras de Cupido e Psique. Terminada a história, a bruxa coloca a noiva no lombo do jumento roubado (Lúcio) e ambas tentam escapar.

A moça e o jumento são recapturados pelos ladrões. Os captores estavam prestes a matar os dois, quando chega outro ladrão. E’ um belo e galhardo vagabundo, que cativa os outros ladrões com a história de suas proezas, sendo por cies aceito como seu novo chefe. Propõe uma rodada de bebida. E quando, um por um, mergulham eles em sopor, revela-se como o disfarçado marido da noiva roubada. Mata os ladrões e leva sua mulher para casa. nas costas do jumento.

Lúcio, o jumento, está quase a ponto de ser recompensado com a liberdade. Mas seu mau fado ainda o persegue. Desta vez, cai nas mãos dum grupo de vaqueiros, pastores e condutores de juntas. Numa vila próxima, ouve o fim da história da noiva raptada. Um rapaz, tendo-se apaixonado por ela, matou-lhe o marido e lhe fez depois propostas. A infeliz viúva, protestando retribuir a afeição do assassino de seu marido, convida-o a ir à sua alcova, dá-lhe uma droga que o mergulha em profundo sono, e arranca-lhe os olhos. Depois dirige-se ao túmulo de seu marido e apunhala-se sobre o seu corpo.

Terminada esta trágica história, encontramos Lúcio, o jumento, ainda suspirando pelo alimento de rosas que lhe dará de novo a forma humana. Mas de novo intervém o fado. Êle cai em poder de um grupo de bandidos sírios. Como seus antigos donos, eles lhe batem e sobrecarregam-lhe o lombo com pesadas cargas. Mas de novo, como dantes, sua vida se torna suportável pelas histórias maravilhosas que ouve dos ladrões: histórias de feiticeiras que arrancam corações humanos e põem em seu lugar esponjas; de cadáveres que se assentam em seus ataúdes e falam; de demônios que arrancam os narizes dos homens adormecidos, pondo-lhes no lugar narizes de cera; da mulher que escondeu seu amante debaixo duma tina; de um pastor que foi torturado por ura enxame de formigas; e do mágico que ergueu um homem do túmulo, quando seu testemunho foi necessário para um julgamento criminal. Quando ouvia todas aquelas maravilhosas histórias, conta-nos Lúcio, ficava contente por ter orelhas de asno, Porque aquelas orelhas eram tão compridas que êle, não perdia uma só palavra.

 

Finalmente, a despeito da vigilância de seus donos, Lúcio, o jumento escapou. Foi dormir à beiramar, e ali teve estranho sonho. A deusa Isis ergue-se das ondas e oferece-lhe comida de rosas. Êle desperta, e oh! o sonho se torna realidade.

Come as rosas, retoma sua forma humana, e é admitido entre os sacerdotes de Isis. Os dias de suas aventuras já passaram. Começa o período da meditação. Como resultado de suas passadas experiências, está pronto a advertir aqueles cujas experiências ainda estão por vir. E podemos ouvir sua solene, embora sorridente voz através de dezoito séculos:

"Da concupiscência dos sentidos e das armadilhas das mulheres, ó jovens, conservai-vos afastados. Porque as carícias duma mulher pecadora podem transformar, até mesmo o mais sábio dos homens, num perfeito asno."


Fonte: Globo 1949. Trad. e Adap. Oscar Mendes

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