AS OBRAS-PRIMAS DA ESCULTURA

AS OBRAS-PRIMAS DA ESCULTURA

AS OBRAS-PRIMAS DA ESCULTURA

Henry Thomas

O misterio da esfinge

"Ela é êle". Isso se diz frequentemente a alguém para confundi-lo a respeito de quem seja a esfinge e mesmo de onde seja. Gerações e gerações depois dos Faraós, os gregos usaram uma esfinge, com figura feminina, mas isso não é motivo para que o mundo não soubesse que, no Egito, a Suprema Esfinge é um homem. Não, não um homem, mas o homem, homem maravilhoso, homem todo-poderoso, Faraó, senhor do Alto e do Baixo Egito, filho do sol em cuja imagem foi infundido o espírito da antiga divindade, Harmakis.

Deveis aproximar-vos, portanto, da Esfinge, não com levianos gracejos, mas em silêncio. O camelo que vos conduz trota vagarosa e silentemente pelas areias de Gizeh. Sombria, ao longe, ergue-se a cidade do Cairo. O camelo levou-vos até a orla do plateau, do qual contemplais a face do mais maravilhoso mistério do mundo. Enquanto assim estais, olhando de frente a grande Esfinge, as pirâmides de Cheops e Chefren avistam-se do plateau. Que espetáculo de majestade e de mistério! Há 5.000 anos a imensa imagem da Esfinge foi esculpida na rocha. A princípio foi uma estátua completa, erguendo-se no espaço a uma altura de mais de 22 metros. Mas, pouco a pouco, o corpo da Esfinge se foi submergindo era Oceanos de areia, que tão completa e persistentemente têm os ventos de Gizeh lançado sobre o deserto, durante cinco mil anos. Somente algumas tentativas foram feitas para deter a areia. Em 1.400, antes de Cristo, quando o príncipe Tutmés foi caçar nas areias de Gizeh, adormeceu à sombra da Esfinge. A grande cabeça falou: "Tutmés, afasta as areias que quase me cobrem e fica sabendo que serás Faraó". E Tutmés obedeceu à ordem. Afastou as areias da Esfinge. Foi recompensado. Tornou-se Faraó. Em 1818, de nossa era, houve outra tentativa para retirar a areia dos "membros ocultos" da Esfinge. Mas, de novo, os anos que passaram carrearam montes e montes de sepultante areia, até que, afinal, em 1926, uma limpeza completa se fez. 

Contemplai agora a Esfinge em toda a sua glória, não toda, rigorosamente falando, porque perdeu um metro e oitenta e três centímetros de barba. Quebrou-se e está agora no Museu Britânico. O nariz, também foi mutilado. A despeito disso, a grande ansiosidade do rosto é aparente. O Faraó deve ter sido um homem de pensamentos tristes. Observando cuidadosamente os olhos, fundamente cavados, tereis a sugestão da côr da íris, no branco de cada olho. Há vestígios fragmentários de côr sãs bochechas. As grandes garras dianteiras quase atingem o templo do Faraó, onde foram encontrados muitos de seus retratos esculpidos. Um retrato esculpido de Faraó tinha de ser fiel, de modo que os poderes do alto pudessem reconhecê-lo e ao mesmo tempo aformoseado, de modo que seus súbditos terrestres o reverenciassem. Havia definidas leis de proporção a que os antigos egípcios se submetiam. Na maior parte das esculturas do antigo império existe grande equilíbrio de realismo, dignidade e interpretação ideal. As estátuas egípcias são uma estranha combinação do real e do fantástico. A Esfinge tem a cabeça de um homem e o corpo de um leão, símbolo do poder divino. Se olhardes cuidadosamente, percebe-reia a cauda do leão, enrolada de um lado.

Qual a côr da grande imagem? Parece mudar, de acordo com a côr das areias. À tarde, tem uma delicada côr rósea, cheia de eloquência silenciosa: o grande deus e rei fala para aqueles que bem escutam, fala de seu poderoso domínio sobre os homens, de sua lealdade, de seus deuses. Ao cair da noite, as feições da Esfinge sofrem grande transformação. O rosto e a cabeça tornam-se escuros e misteriosos, de encontro a um céu, de quieto azul acinzentado, iluminado profusamente pelas estrelas cintilantes. E’ então que somos mais profundamente empolgados pelo grande Enigma da Esfinge.

Estátua do rei arthur

Rainha Nefertiti – A mais bela mulher do mundo

QUEM era ela? Em 1913, uma expedição alemã no Egito, fazendo escavações em Tel-El-Amarna, não muito distante de Tebas, encontrou uma cabeça de nobre beleza. O pescoço é esbelto, a cabeça altamente mimosa e erguida com a altivez duma rainha. Os olhos, embora excessivamente acentuados a carvão, são expressivos e inteligentes. O formato da cabeça é admirável. A fronte é reta e vigorosa, encimada pelo alto toucado, firmemente ajustado, que sugere o ankh, em forma de cruz, símbolo da vida eterna. Seus lábios são cheios porém não demasiado grossos, e dum vermelho bem escuro. Sua pele é mais corada que a das mulheres das primitivas esculturas egípcias. Seu olho é maravilhoso e não pode ser igualado. O branco é de quartzo e o preto, de uma pedra semipreciosa. Um olho, direis? Sim, porque infelizmente o outro está danificado e não pode ser substituído. Mas, não obstante esse defeito, a cabeça é a mais régia que existe. O toucado alto, firme, dum verde atenuado, é contrabalançado por um colar de custosas jóias. Em tudo e por tudo, uma brilhante figura de altiva beleza egípcia.

O mundo inteiro reconheceu o mimoso exotismo e a aristocrática beleza de Nefertiti. Nos últimos anos, muitas reproduções excelentes de suas feições foram feitas no moseu de Berlim, onde a estátua está localizada. Sua cabeça tem inspirado a velhos e moços, a conservadores e extremistas, a positivos e imaginosos, a serenos e a inquietos! Toda a gente se sente fascinada pelas feições de Nefertiti.

Mas quem era Nefertiti? Trata-se, segundo tudo quanto foi possível recolher, de uma rainha que tinha uma tarefa extremamente difícil a executar, isto é, compreender e amar um marido, que era demasiado grande para ser amado e compreendido por seu povo. Esse homem, o rei Aquenaten, ou Aquenaton, tentou ensinar a seus súbditos o novo e nobre ideal de Um Só Deus. Mas os egípcios preferiam adorar seus velhos deuses-animais, deuses-aves, deuses-estrêlas. Não estavam ainda maduros para uma nova religião. Por isso rejeitaram os ensinamentos de seu bondoso rei-poeta. Obrigaram-no a abandonar seu palácio real de Tebas e ir morar em Tel-El-Amarna. A única pessoa que o compreendeu e seguiu foi sua formosa rainha, Nefertiti. Foi-lhe fiel a seu culto de Um Só Deus. Essa fidelidade está estampada em seu rosto. O escultor real, Tutmosis, que deu grande delicadeza à figura do rei, sobrepujou-se quando modelou a cabeça de Nefertiti, a mais bela mulher do mundo.

De Deusa Serpente a Deusa do Amor

MUITO antes do tempo de Sócrates, o litoral da Grécia e suas encantadoras ilhas eram povoados de hábeis artífices, talentosos inventores e verdadeiros amantes da beleza. Divindades naturais eram cultuadas. Entre essas divindades naturais contava-se a fascinante Deusa Serpente, conservada atualmente no Museu de Belas Artes de Boston. Não existe mais delicada ou mais primorosa mulherzinha em todo o reino da arte, nem mais admirável, do que a pequena Deusa Serpente, em ouro e marfim. Tem apenas uns quinze centímetros de altura. Faixas de ouro embelezam-lhe a leve e bem feita saia. Sua cintura é esbelta e seu rosto pequeno e atrevido. Em seu brilhante diadema vêem-se covinhas, que mostram os traços dos fios de ouro que outrora o costuraram para formar um belo objeto. Essa mulherzinha deve ter sido adorada em 1500, antes de Cristo. Foi, tanto literária como artisticamente, uma Idade de Ouro.

E depois, durante muitas centenas de anos, houve declínio. O sentido da beleza parecia ter desaparecido da Grécia. Mas não para sempre. No sétimo e no sexto séculos, os artistas gregos começaram a aprender tudo de novo. A escultura daquele período mostra uma rigidez empolgante. Sugere a expressão física do constrangimento espiritual que algumas almas sofrem. Os braços das estátuas não se afastam do corpo, como se receassem ser dele destacados. Os sorrisos nos rostos são forçados. Contudo, há em tudo isso uma solidez de concepção e um sentido de proporção, começo de grande escultura.

Em princípios do século quinto, percebe-se novo tom nas figuras do templo de Egina. Vê-se agora ação nos músculos das estátuas. Mas é uma ação tosca, como de boneca. As figuras não parecem estar vivas. Os escultores gregos estão ainda tacteando no escuro.

E subitamente, esplende sobre o mundo o brilho da escultura de Miron. Que figura poderia ser mais rítmica, mais verdadeiramente viva, mais ativa, mais "fisicamente adequada", do que O Discóbulo, de Miron?

Leva-nos então a obra de Miron ao ponto culminante da escultura grega? Não. Há ainda algo de mais elevado. Para lá do desejo da perfeição física, os artistas filósofos estão buscando exprimir a perfeição do espírito. Mas como pode o espiritual ser expresso em termos do físico? Poderia isso parecer de-fato uma tarefa impossível, se não tivéssemos provas do contrário. Essas provas estão nas incomparáveis figuras do Partenão. Cabe a Fídias a responsabilidade dessas figuras. Contemplai a longa procissão da frisa do Partenão, especialmente na parte oriental, com os magistrados, as divindades, o próprio Zeus, Hefaístos, Poseidon e Atenas, com uma admirável túnica flutuante. Nessa procissão, não há manifestação de presença física, mas uma completa expressão espiritual através de elementos físicos. Notai a beleza da composição, o ritmo, a interrelação dos planos e o gracioso, embora contido, movimento das figuras, que parecem quase respirar como criaturas vivas. Embora haja delicadeza, há também vigor naquelas figuras. E’ Fídias, e Fídias é o gênio do 5.° século antes de Cristo.

Ao passo que a escultura do século 5.° era espiritual, a do século 4." foi realista. No século 5.°, os artistas só esculpiam para os deuses. No 4.° século, começaram a modelar para os mortais. Decidiram fixar, não as glórias do céu, mas as alegrias da terra. A escultura se tornou mais apaixonada, como na obra de Scopas e ao mesmo tempo mais delicada, como nos trabalhos de Praxíteles c seus continuadores. Todas as figuras de Praxíteles encostam-se a uma árvore ou a outro qualquer suporte, como se a beleza de sua pessoa fosse tão pesada que só a pudessem aguentar com auxílio. Somente um original da obra de Praxíteles existe ainda hoje. E’ o esplêndido, delicado e sonhador Hermes, de feições perfeitas e atitude lânguida. Carrega um menino, que se supõe seja Diôniso, nome grego de Baco. A estátua foi descoberta em Olímpia, jacente com o rosto inclinado para baixo. Em Olímpia ainda o encontrareis hoje. Embora não exista outro original da mão do mestre, há delicadas cabeças e figuras de seus discípulos. O quarto século está bem representado nos museus de arte do mundo, modelar para os mortais. Decidiram fixar, não as glórias.

No terceiro e no segundo séculos, as escolas arte se desenvolveram com mais extravagância de expressão. Na bela ilha de Rodes, os escultores retrataram as paixões de deuses e de homens. Notável entre as obras dos artistas de Rodes é o vasto e impressionante altar erigido aos deuses. Na balaustrada do altar vemos os deuses em ação, e que ação, que violência, que força, que falta de contenção! De Rodes, também, emergem grupos de figuras humanas, com demasiada emoção. O espectador maravilha-se diante da possibilidade física de suportar aquilo tudo.

A nota dominante do terceiro e do segundo séculos não foi mais a tranquila majestade da era fidiana, mas a do movimento, da ação, da violência. Essa nota ressalta até mesmo na esplêndida Vitória Alada, de Samotrácia. Foi ereta depois da batalha contra os egípcios, em 306. Essa estátua é um estudo de ação violenta, mas é uma ação esplêndida. Todo visitador de galerias, por mais fatigado que esteja, ao alcançar a metade das escadarias do Louvre, em Paris, sente nova energia, nova vitalidade, novo entusiasmo, logo que avista a Vitória de Samotrácia. A cabeça perdida parece realmente não fazer falta. Ela voa, exulta, remonta alto no contagioso "êstase de viver".

Essa impetuosa exaltação encontra-se em quase todas as esculturas daquele período. Contudo há uma exceção, que evoca a serena paz da era fidiana. Sua calma e quase perfeita beleza tem sido admirada no mundo inteiro. Dificilmente se encontra uma criança de escola que não conheça a Vénus de Milo. Supõe-se que tenha sido esculpida no segundo século. Foi encontrada numa caverna da ilha de Milo em 1820. Serena dignidade, não só física como moral, emana da figura dessa Deusa do Amor. Se alugardes um guia no Louvre, êle vos levará antes de tudo à presença da Vénus de Milo, porque é a mais famosa estátua do mundo.

Michelângelo – O Shakespeare da escultura

NASCEU numa época de tremendo despertar, uma era de expressão individualista, de afirmativas pessoais, de crença nas artes, na vida do prazer e na importância do momento. A grande família de banqueiros, os Medici, havia posto aos ombros as alegrias e as responsabilidades do governo de Florença. A corte de Florença era perdulária e alegre. O interesse dos cidadãos se dividia entre uma vida de cultura e uma vida de frivolidade. Usavam-se trajes de custosas sedas, veludos e brocados. Os ourives da cidade viviam ocupados com encomendas de colares, tiaras, braceletes, e anéis para as belezas femininas.

Foi uma era de grande esplendor. Contudo foi também um tempo de grandes paixões. A riqueza dos Medici despertou a inveja de seus menos afortunados concidadãos. Um dia, Lourenço, o Magnífico, Medici senhor de Florença, foi mortalmente ferido, e seu irmão Juliano, figura proeminente da sociedade, amante da bela música e amado pelas belas mulheres, apunhalado mortalmente.

Nesse período de ousadas aventuras e moral fácil, (1475), nasceu Miguel Ângelo Buonarotti, em Caprera, perto de Florença, onde seu pai ocupava uma posição política. Se estudardes o rosto de Miguel Ângelo descobrireis energia, sinceridade e tristeza nele escritos. A energia de, propósitos foi evidente desde o começo. Seu pai, orgulhoso do nobre nome de Buonarotti, desejava que seu filho fosse tudo menos artista. Todavia Miguel Ângelo era um rapaz persistente. E por isso seu pai decidiu que, se o rapaz tinha de ser artista, pelo menos lhe daria os melhores professores. Mas abanou a cabeça tristemente. Uma vida dedicada à arte, advertiu êle a seu filho, era uma vida de pobreza. Seu pai não tinha, porém, razão. Foi Miguel Ângelo, e não seu irmão menos artista, quem pôde sustentar, na velhice, o velho Buonarotti.

Aos catorze anos, Miguel Ângelo se tornou aprendiz do melhor desenhista de Florença, Ghirlandaio. Esse famoso artista era um realista da nova escola. Estava constantemente a fazer retratos de senhoras da sociedade, embora continuassie ainda a tradição conservadora de não chamá-los retratos, mas pinturas bíblicas. E’ estranho pensar que pintor tão mundano tivesse como aluno um jovem com interesses e ideais nada consentâneos com a mundanidade.

Desde o começo, s’eu mestre Ghirlandaio reconheceu o gênio do jovem Miguel Ângelo. Lourenço, o Magnífico, havia convidado Ghirlandaio a enviar alguns discípulos mais bem dotados, ao Palácio dos Medici, afim de fazerem algumas esculturas para êle. Miguel Ângelo foi escolhido entre outros.

Certa vez, quando Miguel Ângelo estava esculpindo a cabeça de um velho fauno, nos jardins dos Medici, aconteceu que Lourenço, o Magnífico, por ali passou. Olhando para o fauno, observou a Miguel Ângelo, com cordial jovialidade: "Vejo que deixou seu velho fauno com todos os dentes. Será que êle não perdeu nenhum?" Vereis depois o rapaz, com sincera atividade, talhando a cabeça de mármore, afim de brocar os buracos para os dentes. Lourenço, o Magnifico, ficou encantado. Pediu a Buonarotti que deixasse o rapaz ir para o seu palácio, trabalhar lá, comer à sua mesa, e conhecer os dignatarios literários, artistas e musicais da corte.

Miguel Ângelo permaneceu na corte dos Mediei de 1489 a 1492. Foram os anos mais felizes de sua vida. Depois ocorreu a morte de Lourenço, em 1492, e se seguiu um período de árduo labor para o jovem escultor. Em 1500, executou êle sua primeira escultura notável, em mármore de Carrara, de que gostava tanto: a Piedade. Podereis vê-la hoje, na primeira capela, à direita, ao entrardes na igreja de S. Pedro. E’ uma delicada obra, feita por um sisudo rapaz de vinte e cinco anos, um jovem dotado de visão. Um dia, um crítico assinalou faltas na Piedade, na sua presença. "A Madona parece demasiado jovem", disse êle. Imediatamente Miguel Ângelo observou: "As mulhere bondosas não envelhecem".

Miguel Ângelo tinha o instinto de verdadeiro artista. E artista mais verdadeiro jamais existiu. Transformava os fracassos dos outros em seus próprios êxitos. Um bloco de mármore de 4,11 m. fora abandonado como inútil e disforme, nos terrenos da catedral de Florença. Um escultor o havia estragado. Não poderia Miguel Ângelo fazer alguma cousa com êle? Podia. Esse pedaço de mármore inútil foi a base do famoso Davi: Forte e potente, permaneceu durante anos em frente ao palácio. Agora está na Academia e uma cópia se vê, de guarda ao palácio.

Miguiel Ângelo não foi somente um artista supremo, mas um homem piedoso. A poesia e a piedade intensificaram a vida solitária do nosso Pensador em Pedra. Suas grandes esculturas têm sido, de fato, chamadas "poemas religiosos em pedra". Um desses sublimes poemas religiosos está esculpido no túmulo dos Medici. A Noite e o Dia vêem-se ali representados, como sentinelas de Juliano Medici. O Dia, com a máscula figura neclinada, não está acabado. A grande figura feminina da Noite inclina a cabeça. Seus membros são grandes. Seu vigor não é feminino, é assexuado. Reclina-se, como um espírito imortal, mergulhado em profundo pesar. Tão empolgante é essa figura que um dos amigos de Miguel Ângelo escreveu: "Desperta, Noite, um Anjo é que te fez". Imediatamente a Noite responde: "Enquanto a vergonha e a miséria estiverem na terra, fala baixo, por favor, ie deixa-me dormir".

Aos setenta e dois anos, Miguel Ângelo foi convidado para completar a obra da nova catedral de S. Pedro. Alegremente aceitou, mas recusou-se a receber uma simples moeda pelo seu trabalho amorosamente feito. O estupendo zimbório, com seu arcaboiço interno e externo, é uma das maiores criações de Miguel Ângelo.

Em seguida, justamente antes de sua morte, criou sua última Piedade. Aqui não se encontram as suaves curvas de sua primeira Piedade, o exultante trabalho dum jovem artista esperançoso, mas os rigidos ângulos que exprimiem a tragédia, desiludido trabalho de um triste velho. As Marias sentam-se, em completa consternação, aos pés do Senhor morto. Seu corpo é suportado por José de Arimatéia. Mas reparai bem. Não é José de Arimatéia, mas o próprio Miguel x\ngelo, quem está oferecendo apoio ao Cristo.

Foi este o derradeiro trabalho do supremo escultor do mundo, Miguel Ângelo Buonarotti. Quando terminou a Piedade, estava com noventa anos.

Impressionismo e modernismo na escultura

AUGUSTO RODIN, nascido em 1840, foi talvez o primeiro dos modernos que tentou ser universal, mais do que realista. Seu gênio era estranho. Sua escultura emerge dum rude bloco. Ergue-se dentre um oceano de ondas de mármore. Suas figuras parecem ser esmagadas em sua luta para se levantar à superfície e libertarem-se das massas de pedra que as aprisionam. Há agonia naquelas figuras, e há também apaixonado anseio de vivfer e de amar.

Esta é, porém, uma fase apenas de seu gênio. Aos que objetam contra o sentimento de O Beijo ou do Ídolo Eterno, podemos muito bem dizer: "Já viste A Mão, aquela grande Mão de Deus no Seu divino ato de criar o homem e a mulher? Do nada criou os Êle, de uma imensa e informe massa de argila fez Êle Suas amadas criaturas humanas, perfeito assunto para o gênio imaginativo e místico de Rodin".

A mais conhecida, e talvez a mais perfeita, das esculturas místicas de Rodin, é a grande estátua de bronzie, O Pensador. Embora seja chamada O Pensador, sugere não apenas pensamento, mas a própria vida: desejo, ambição, poder, virilidade, dúvida e, até certo ponto, esperança. O poder da vida embaraçada pela dúvida, e a própria dúvida cedendo a uma rude aspiração — tudo isso produz um estado de anseio, mistério e perplexidade.

Na forma e no tratamento, essa obra-prima de Rodin lembra um tanto o trabalho do ainda vivo e ativo Jacó Epstein. Nenhum homem nas artes é talvez mais vasta-mente incompreendido do que esse escultor individualista, americano nato, que estabeleceu seu lar na Inglaterra. Os críticos de arte dizem que a arte não deve ser explicada. Mão deveria, mesmo, necessitar explicação. Quando o público se tornar mais liberal e compreensivo, não haverá necessidade de explicação para a obra de Epstein. Atualmente, porém, o livro de conversações entre Haskell e Epstein é esclarecedor. Esse trabalho é totalmente sincero. "Toda boa obra de arte, explica Epstein, deve produzir no espectador um choque emocional". Acha que deve deixar o bronze retratar a aspereza das massas rudimentares de argila, sem atenuar os traços. Suas figuras religiosas aterrorizaram a muita gente, mas o terror pode ser incitante.

Essa idéia de forçar a atenção pelo terror, ou pelos contornos propositadamente exagerados, é levada a maior extensão, na obra de Gastão Lachaise. Suas interpretações da figura feminina são tão ásperas e tão maciças, que despertam nosso espanto e nossa derrisão. Encontramos eido escultor francês, Pompon. Seu Urso Polar em tamanho natural é "manso", quer no sentido habitual quer no da gíria. Alguns desses modernos escultores retornam aos a mesma espécie de exagero nas figuras animais do fale-egípcios primitivos, com suas cruas idéias de imensidão e de mistério para sua inspiração.

Em alguns dos modernistas, pareae que descemos do sublime ao ridículo. São as "Gertrudes Steins" da arte mundial. Notável entre todas é a obra de Brancuse, coleção de sólidos geométricos ou simples aparelhos de metal. Não tomeis demasiado a sério essa espécie de trabalho. Ride, porque o próprio escultor ri convosco.

O Aleijadinho

(O. M.)

A ESCULTURA no Brasil, ao tempo em que era colônia portuguesa, se limitou ao trabalho dos santeiros, dos entalhadores e dos fazedores de altares e de púlpitos. Avulta entre todos, porém, uma figura estranha e genial, a do mestiço Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, cujas obras realizadas em cidades diversas de Minas Gerais, especialmente em Ouro Preto, Mariana, S. João dei Rei e Congonhas do Campo, são ainda hoje motivo de admiração e de prazer artístico.

Como a realçar a grandeza desse talento instintivo e liberto de restrições acadêmicas de escolas e sistemas, avulta a tragédia de sua vida. De boa saúde até os 47 anos, Antônio Francisco Lisboa passa a sofrer uma doença de caráter lepróide, que lhe vai corroendo o corpo, mutilan-do-lhe as mãos e os pés. E tempo chegou em que somente restavam os polegares ao artista. Arrastava-se pelo chão, pois os pés eram uma chaga. Fiel ie dedicado escravo seu atava-lhe aos punhos o macete ou o cinzel, e o Aleijadinho ia desbastando a pedra, criando as suas figuras de santos e de profetas, pondo em relevo nas portadas das igrejas, nos retábulos dos altares, nas frentes e sobrecéus dos púlpitos flores, volutas, caras de anjos, ondas revoltas, símbolos litúrgicos, etc, etc,

Durou o suplício do grande artista trinta e sete anos. Mas a-pesar-da doença, sua atividade criadora não esmoreceu. O escravo Maurício transportava ao lugar de trabalho aquiela massa de carne sofredora. E o artista deformado, o monstro mutilado ia tirando da pedra as figuras de santos e de anjos, ia criando beleza imorredoura, fazendo perdurar o seu espírito criador nas obras de arte realizadas, enquanto o corpo se lhe desfazia em sânie. Poucos artistas terão na história um destino tão trágico e tão cruel. Sua escultura não terá a perfeição da obra dos grandes mestnes, mas são duma força, duma vida, dum realismo, que maravilham a quantos a contemplam. Não teve mestres conspícuos, não cursou academias de arte, não conheceu de teorias estéticas e de questões de estilo, mas lia a Bíblia, contemplava a natureza, observava os homens e fazia brotar da madeira ou da pedra as figuras impressionantes dos seus santos, dos seus profetas, dos seus mártires, das suas madonas.

Trabalhou enquanto lhe restou um pouco de força. E morreu aos 84 anos, na miséria, êle que enriquecera com as maravilhas de seu talento os templos de sua terra.

Alguns escultores brasileiros

(O. M.)

NA missão artística que D. João VI mandara vir de " França para o Brasil se incorporara o escultor Augusto Taunay. Dos seus ensinamentos, na Escola de Belas Artes, iria surgir todo o grupo de artistas do mármore que enche a história de nossas artes plásticas. Infelizmente, por falta de estímulo do meio ambiente, poucos são os escultores que figuram com relevo nos anais de nossas artes.

Destaca-se, de pronto, a figura dum grande artista. Rodolfo Bernardelli. Beneditino da arte, a ela se dedicou totalmente, não tendo querido mesmo que os encargos de um lar pudessem desviar-lhe a atenção do seu trabalho e da realização da obra que idealizara. Sua obra-prima talvez seja o grupo iem mármore denominado Cristo e a adúltera em que o artista fixou um dos mais emocionantes e dos mais belos momentos da vida pública do Cristo, ao verberar a hipocrisia dos fariseus que desejavam apedrejar uma adúltera, quando suas almas eram mais negras e mais pecaminosas do que a mísera pecadora.

A cidade do Rio de Janeiro conta nas suas principais praças admiráveis estátuas, que sagram a memória dos grandes homens da história do Brasil, devidas ao talento de Rodolfo Bernardelli: Osório, Caxias, Alencar, Pedro Alvares Cabral, Mauá, Teixeira de Freitas, Francisco de Castro e Cristiano Ottoni.

Outro grande nome da escultura é o de Correia Lima, autor do monumento ao Almirante Barroso, ereto no Flamengo, no Rio de Janeiro. Pela sua imponência, pelo número copioso de figuras que nele se encontram, avulta, na Praça Paris, o monumento ao marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da República Brasileira. Foi seu autor Modestino Kanto.

Entre os chamados modernistas destaca-se, pela estranheza e pelo revolucionarismo de sua arte, a figura discutida e interessante de Brecheret.

 


Fonte: Maravilhas do Conhecimento Humano, 1949. Trad. e Adap.de Oscar Mendes.


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