jun 072010
 

Marechal deodoro da fonseca

Henry Thomas – Maravilhas do Conhecimento Humano

 

O ROMANCE DO BRASIL – Resumo completo de História do Brasil até o Império

Adendo ao livro por Oscar Mendes

Descobre-se uma nova terra

 

ERA um domingo festivo. Na praia do Restelo, em Portugal, apinhava-se uma multidão variegada e entusiasta, que contemplava com orgulho os mastros de uma numerosa esquadra, prestes a partir para as índias, afim de levar o Evangelho aos povos do Oriente, combater os mouros c negociar especiarias.

Celebrava-se uma missa solene, na ermida da praia. Lá estavam, na tribuna de honra, o próprio rei, D. Manuel, o Venturoso, o almirante da esquadra a partir, Pedro Álvares Cabral e o bispo de Ceuta, D. Diogo de Ortiz. O bispo benze um estandarte, que o rei entrega ao almirante.

Forma-se depois um cortejo solene, em que se vêem padres e frades, cantando, carregando cruzes e relíquias, oficiais da armada e o povo contente, barulhento, aplaudindo os atrevidos marinheiros, que partiam a alargar os domínios de Portugal. Levam o almirante e os seus homens até a praia, onde embarcam.

Mas só no dia seguinte, 9 de março de 1500, parte aquela esquadra de dez caravelas e três navios de transporte. Vai às índias, seguindo o caminho que Vasco da Gama já devassara. Aventuram-se as naus pelo "mar de largo", isto é, oceano afora. Desviam-se, porém, de seu roteiro. Para fugir às calmarias, prejudiciais à navegação? Ou obedecendo a instruções secretas e propósitos determinados? Discute-se ainda hoje o caso.

Mas o que interessa é que, afinal, no dia 22 de abril, quando os ardores do sol cediam à fresca da tarde, no horizonte se delineia o vulto de um monte. Terra à vista! A marinhada grita, de entusiasmo. Era uma quarta-feira de Páscoa. E o monte avistado passa logo a ser o "Monte Pascoal" e a terra, que se entregava ao descobridor, "Vera Cruz".

Descobria-se um mundo novo. Mais uma glória para o pequeno reino português. Na praia, para onde se aproximam as naus, reúne-se estranha gente. São homens nus, armados de arcos e flechas, mais espantados que ameaçadores, diante das naus imponentes e das criaturas de rostos brancos que as povoam. A esquadra procura depois lugar mais abrigado. Velejam as naus mais para o norte e encontram acolhedora enseada. Era um "porto seguro".

Os homens saltam e se acamaradam com os índios. No domingo seguinte, um frade celebra missa, como que santificando aquela terra desconhecida. O almirante Cabral no dia 1.* de maio, toma posse da nova terra. É mais um feudo de Portugal. Celebra-se outra missa. Os índios contemplam com respeito e curiosidade, aquelas cenas estranhas daqueles estranhos homens. Dois destes ficarão com eles. Os outros partirão, desta vez rumo certo às índias.

O almirante despacha alguém a levar a alviçareira notícia ao rei de Portugal. E assim Portugal incluía na história da humanidade mais um povo e mais uma terra. Que terra? Vera Cruz? Santa Cruz? Terra dos Papagaios? Terra do pau côr de brasa, do brasino. Terra do Brasil. Brasil, tão só, para designar todo um vasto território, dos mais ricos e dos mais férteis do continente sul-americano.

Um escrivão amável

 

A BORDO de uma das naus que o almirante portugués Pedro Álvares Cabral conduzia às índias, seguia o escrivão Pero Vaz de Caminha, que ia ficar na feitoria de Calecut. O escrivão punha por escrito tudo quanto ia vendo na aventurosa viagem. Quando a terra do Brasil foi tornada posse de Portugal, em carta cheia de deliciosas minúcias, dá êle parte ao rei das coisas maravilhosas sucedidas e das novidades mais curiosas das terras novas descobertas.

Descreve os índios: "A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos; andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma coisa, cobrir, nem mostrar suas vergonhas, e estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto".

"Traziam ambos o beiço de baixo furado, e metido por êle senhos ossos de osso brancos, de compridão de uma mão travessa, e de grossura de um fuso de algodão, e agudo na ponta como um furador; metem-nos pela parte de dentro do beiço, e o que lhe fica entre o beiço e os cientes é feito como roque de xadrez e em tal maneira trazem ali encaixado que lhes não dá paixão, nem lhes estorva a fala, nem comer, nem beber. Os cabelos seus são corredios, e andavam tosquiados de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura, e rapados até por cima das orelhas."

Chamam-lhe a atenção a limpeza dos corpos selvagens e as suas formas esbeltas: "Os outros dois que o capitão teve nas naus, a que deu o que já dito é, nunca aqui mais pareceram; de que tiro ser gente bestial e de pouco saber e por isso são assim esquivos; porém contudo andam muito bem curados e muito limpos, e naquilo me parece ainda mais, que são como aves ou alimárias monteses, que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabelo que as mansas; porque os corpos seus são tão limpos, e tão gordos e tão formosos, que não podem mais ser. E isto me faz presumir que não tem casa, nem moradas em que se colham, e o ar a que se criam os faz tais. Nem nós ainda até agora não vimos nenhumas casas nem maneira delas."

Estabelece comparação entre o sistema alimentar europeu "e o indígena em louvor deste: "Eles não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens; nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam; e com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto com quanto trigo e legumes comemos".

E acaba a sua pitoresca e minudente carta descrevendo a nova terra, prevendo quanto dela esperar-se possa: "Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais está contra o sul vimos até outra ponta, que contra o norte vem, de que deste porto houvemos vista, será tamanha, que haverá nela vinte ou vinte e cinco léguas por costas".

"Traz ao longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas e delas brancas, e a terra por cima toda chã, e muito cheia de grandes arvoredos de ponta em ponta: é toda prata parma, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu do mar muito grande, porque a estender olhos não podíamos ver senão terra e arvoredos, que nos pareceu mui longa terra".

"Nela até agora não podemos saber se haja ouro nem prata, nem nenhuma coisa de metal, nem de ferro, nem lho vimos; porém a terra em si é de mui bons ares assim frios e temperados, como os dentre Douro e Minho, porque neste tempo de agora assim os achávamos como os de lá: as águas são muitas, infindas; em tal maneira é graciosa, que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem.   Porém o melhor fruto, que ne la se pode fazer, me parece, que será salvar esta gente, e esta deve ser a principal semente, que Vossa Alteza em ela deve lançar; e que aí não houvesse mais que aqui esta pousada, para esta navegação de Calecut, bastaria, quanto mais disposição para nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber: acrescentamento de nossa santa fé."

 

Os pioneiros da civilização

 

NUM casebre de palha, de barro e de chão batido, em  toscos bancos, indiozinhos escutam, entre admirados e curiosos, as coisas maravilhosas que lhes contam aqueles homens de roupa preta, de ar bondoso e de palavras extraordinárias. São os jesuítas no seu trabalho de catequese. São os pioneiros da civilização, que ensinam os donos da terra recém-descoberta a ler, a compreender as palavras do Evangelho e a usar dos costumes que da Europa lhes traziam.

A tarefa que os espera é das mais tremendas. Os sofrimentos que os aguardam, dos mais terríficos. Não desanimarão, porém. Não hesitarão. Embrenham-se pelas selvas inhóspitas, entre feras e homens ameaçadores. Vadeiam rios. Transpõem montanhas. Vão à procura de almas, riquezas para eles mais valiosas que as minas de ouro ou as pedras preciosas. Querem batizar a indiada bronca, esquiva e belicosa. Querem trazê-la ao grêmio da civilização. Por isso não se poupam sacrifícios. A tudo se sujeitam. A tudo se dedicam. São carpinteiros, ferreiros, músicos, sapateiros, arquitetos, engenheiros, médicos.

A aspereza das estradas ínvias lacera-lhes os pés. Os espinhos rasgam-lhes as sotainas.  As feras rasgamlhes os corpos com as garras e os dentes. As febres os salteiam. As tempestades e as intempéries fustigam-lhes a pele. Os insetos a empolam. E a bugrada feroz tortura-os, martiriza-os, trucida-os sem piedade.

Eles, porém, continuam a sua tarefa. Constróem colégios e igrejas. Arregimentam índios. Acolhem-nos em aldeamentos. Servem-lhes de conselheiros. Apaziguam-lhes as contendas.

Manuel da Nóbrega, seu primeiro chefe, no Brasil, vai com seu jovem discípulo José de Anchieta, pôr-se como fiador da paz, entre as tribus alvoroçadas e desejosas de guerra. Sofrem torturas, ameaças, tentações do pavor e da carne. Mas resistem. Nas horas de acalmia, o jovem Anchieta desce à praia e escreve na areia branca os versos de seu poema à Virgem, versos que a onda apaga, mas que se gravam para sempre na sua milagrosa memória.

Amansam os chefes, convertem as crianças, aprendem-lhes a língua, pregam, batizam, curam, aconselham, lavram a terra, defendem os índios contra os abusos e injustiças dos colonos. A história desses homens é o mais belo poema, que nenhum poeta ainda se arrojou a compor.

Nas "Cartas" que nos deixaram, estão relatados, em linguagem simples e modesta, todos os atos de sacrifício, heroísmo e caridade, que praticaram. O que lhes era a vida nos primeiros tempos da catequese, descreve-no-lo José de Anchieta, nesta informação a seus superiores:

"Aqui se fez uma casinha de palha, com uma esteira de canas por porta, em que moraram algum tempo bem apertados os irmãos; mas este aperto era ajuda contra o frio, que naquela terra é grande com muitas geadas. As camas eram redes, que os índios costumam; os cobertores o fogo, para o qual os irmãos comumente, acabada a lição da tarde, iam por lenha ao mato, e a traziam às costas para passar a noite, o vestido era muito pouco, e pobre, sem calças, nem sapatos, de pano de algodão. Para a mesa usaram algum tempo de folhas largas de árvores em lugar de guardanapos: mas bem se escusavam toalhas, onde faltava o comer, o qual não tinham donde lhes viesse, senão dos índios, que lhes davam alguma esmola de farinha e às vezes (mas raras) alguns peixinhos do rio, e caça do mato. Muito tempo passaram grande fome, e frio: e contudo prosseguiam seu estudo com fervor lendo às vezes a lição fora ao frio, com o qual se haviam melhor que com 0 fumo dentro de casa."

Eram assim esses homens: heróis de todos os ins tantes, santos, dedicados, ardentes de caridade e de compaixão. Castro Alves, o gênio condoreiro, narra-lhes a epopéia nestas estrofes:

 

"O martírio, o deserto, o cardo, o espinho, A pedra, a serpe do sertão maninho, A fome, o frio, a dôr,

Os insetos, os rios, as lianas, Chuvas, miasmas, setas e savanas, Horror e mais horror. . .

 

Nada turbava aquelas frontes calmas, Nada curvava aquelas grandes almas. Voltadas pra amplidão. . .

No entanto eles só tinham na jornada Por couraça a sotaina esfarrapada. . .

E uma cruz por bordão."

 

(Os Jesuítas),

 

 

E Humberto de Campos termina um soneto que lhes dedicou, dizendo:

"                  A cruz quando fechar os braços

Há de dizer a séculos melhores

Que a civilização seguiu seus passos!"

 

(Os Jesuítas).

Os homens que habitaram o Brasil

 

DE centenas de milhares ou talvez mesmo de milhões era a população indígena, que habitava as terras que o almirante Cabral descobriu. Tribus diversas, de raças diversas, falando variados dialetos. É ainda hoje trabalho árduo para historiadores e etnólogos destrinçar toda a teia de tribus e de raças das terras brasileiras. A origem desses índios e a época em que emigraram e se espalharam pelas regiões do continente sul-americano, constituem problema ainda debatido. Mas que espécie de gente eram afinal? Tinham uma civilização já adiantada, como os Incas e como os Maias? Eram selvagens, de vida bem primitiva, com seus costumes e modos de vida ainda bem rudimentares. A caça, a pesca e a guerra eram suas diversões favoritas. Raças inferiores, degeneradas, que deveriam ser esmagadas e destruídas pelos invasores brancos? A história de suas relações com os homens que lhes conquistaram as terras mostra que eram homens capazes, como todos nós, de bons e de maus sentimentos, de heroísmos e de traições. Precisavam, isso sim, de ser civilizados, de ser adaptados a uma vida melhor.

Foi o que empreenderam os jesuítas. E se a cobiça e a maldade dos colonos não houvessem impedido a realização desse objetivo, milhares de criaturas prestantes teriam sido incorporados à vida civilizada do Brasil.

‘Nas crônicas e relações dos acontecimentos dos primeiros anos da colonização brasileira, encontram-se episódios e feitos bem interessantes da vida dos selvagens. Vejamos alguns.

Em Pernambuco, dominava a grande nação dos índios Tabajaras. Seu chefe, Tabira, é um guerreiro famoso. Duarte Coelho, o donatário da capitania de Pernambuco, consegue aliar-se ao grande chefe tabajara. Mas as demais tribus não concordam com essa aliança. Revoltam-se. As lutas que se travam são ferozes. Tabira redo^ bra de valor e de heroísmo. O inimigo foge ao simples som de sua voz. É o terror das tribus. Estas resolvem coligar-se para destruir o grande índio.

Um exército numerosíssimo, dez ou doze vezes maior do que o da tribu de Tabira, avança contra as aldeias tabajaras. Tabira não se amedronta. Trava luta desigual e ferocíssima. Combate o dia inteiro. O herói tabajara se multiplica. Luta sem descanso, dizimando os assaltantes. Em dado momento, uma flecha vem cravar-se no olho do indómito selvagem. Sem esmorecer, Tabira arranca do ferimento a flecha e o olho e grita:

— Para vencer os inimigos, basta um olho a Tabira! E a vitória foi sua.

*  *  *

 

Tibiriçá é a figura extraordinária da colonização no sul. Alia-se também com os portugueses. É um exemplo de fidelidade. Quando os índios tamóios atacam a aldeia de Piratininga, desejosos de trucidar principalmente os jesuítas, Tibiriçá corre, lealmente, em defesa de seus aliados.

O chefe das tribus invasoras é o seu próprio sobrinho Jagoanharo. Mas Tibiriçá não hesita. Combate ferozmente e mata o sobrinho, quando este tentava apoderar-se da igrejinha da aldeia.

Outro chefe guerreiro, cujas façanhas enchem a história dos primeiros tempos da colonização, é Ararigbóia, chefe dos índios Temininós. Aliou-se com o governador Mem de Sá, para expulsar os franceses da baía de Guanabara. É o herói das primeiras linhas e dos assaltos fulminantes. Ao seu valor, devem os colonos portugueses, em grande parte, não terem perdido as terras do Rio de Janeiro.

Frei Vicente do Salvador, historiador dos feitos daqueles tempos, narra interessante anedota, a respeito de Ararigbóia.

Quando no ano de 1575, chega ao Rio de Janeiro, o governador D. Antônio Salema, Ararigbóia vai com sua tribu cumprimentá-lo e prestar-lhe obediência. Ararigbóia já está bem velho e coberto de glórias. O rei, não só lhe concedeu a comendadoria da Ordem de Cristo, mas ainda lhe mandou, de presente, uma roupa de seu próprio uso.

Para honrar o velho herói, convida-o o governador a sentar-se a seu lado. Em dado momento, porém, Ararigbóia, cansado da posição cerimoniosa, encarapita-se na cadeira. Diante daquela quebra do cerimonial, o governador, que é homem rigoroso em questões de etiqueta, manda, por um intérprete, dizer ao chefe índio que aquilo não são modos de sentar-se diante do representante do rei.

Conta Frei Vicente do Salvador que Ararigbóia assim respondeu:

— "Se tu souberas quão cansadas eu tenho as pernas das guerras em que servi a el-rei, não estranharás dar-lhe agora este pequeno descanso; mas, já que me achas pouco cortesão, eu me vou para minha aldeia, onde nós não curamos desses pontos e não tornarei mais à tua corte."

Episódios da guerra contra os holandeses

 

A HOLANDA era, naqueles começos do século XVII, uma grande potência marítima c militar. Suas naus de comércio corriam o mundo e seus exércitos se haviam tornado famosos nas lutas que sustentava contra sua inimiga, a Espanha. Nos mares e nos campos da Europa, as duas rivais se defrontavam. E a Holanda resolve arruinar economicamente a poderosa adversária, cujos domínios se achavam então de muito acrescidos, com a submissão de Portugal e todas as suas colônias à coroa espanhola. Fundam os holandeses companhias de comércio, de finalidades econômicas c militares. Uma dessas, a Companhia das índias Ocidentais, irá tentar conquistar as colônias portuguesas, então sob o domínio da Espanha.

O Brasil era a mais cobiçada dessas colônias. Será contra o Brasil o primeiro ataque dos navios da Companhia das índias Ocidentais. As tropas holandesas, vindas em poderosa esquadra, atacam a cidade da Baía, sede do governo da colônia, e dela se apoderam. Prendem o governador. Tomam conta de tudo e permanecem na cidade durante um ano.

Na falta do governador, cabe ao bispo, D. Marcos Teixeira, assumir a direção da parte da capitania não sujeita aos holandeses. O bispo cria companhias de assalto, que mantêm os holandeses em contínuas lutas, como que sitiados na cidade que haviam tomado. Após longos meses de luta e com o auxílio mandado da Espanha, são afinal expulsos os holandeses.

Apesar-do mau êxito dessa investida, não desanimam os holandeses. Poucos anos mais tarde, empreendem nova expedição. Desta vez será a rica capitania de Pernambuco o objetivo em vista.   O governo da Espanha

tem ciência da expedição que se apresta. Despacha Matias de Albuquerque, fidalgo português, a tratar da defesa de Pernambuco. Mas o povo da capitania, especialmente as famílias abastadas, amolentadas pelo luxo, não parece temer muito a ameaça remota. Fazia ouvidos moucos às advertências dos mais avisados e prudentes. Em vão, clamava um pregador, do seu púlpito: "De Olinda a Olanda não há aí mais que a mudança de um i em a, e esta vila de Olinda se há de mudar em Olanda e há de ser abrasada pelos holandeses antes de muitos dias; porque, pois, falta a justiça da terra, há de acudir a do céu."

Foram proféticas as palavras do pregador. Chegaram os holandeses. Tomam a cidade de Olinda. Destroçam as poucas tropas portuguesas. Assenhoreiam-se da capitania. Mais tarde, diante dos ataques de Matias de Albuquerque, incendeiam Olinda e fazem do Recife a capital de sua conquista. Calabar, um mestiço, auxilia os conquistadores. Os portugueses vão perdendo suas posições. As tropas são forçadas a retirar-se para Alagoas No caminho, Matias de Albuquerque toma a vila de Porto Calvo, onde prende Calabar, que é enforcado.

Consuma-se a conquista holandesa, que se alastra pela Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Maranhão. Vitoriosa a Companhia das índias Ocidentais, manda a governar as novas conquistas um príncipe de sangue, Maurício de Nassau. Homem de valor militar e intelectual, Maurício de Nassau procura fazer aumentar as conquistas e prosperar a colônia. Constrói palácios no Recife. Manda buscar artistas e sábios na Holanda. Cerca-se duma verdadeira corte. Movimenta o comércio. Procura governar com tolerância, justiça e habilidade, embora nem sempre o conseguisse. Graças, porém, às suas qualidades, promoveu o progresso da colônia. Isso não desarmou as gentes das terras conquistadas. O anseio de liberdade era grande, especialmente depois que a intolerância dos calvinistas holandeses levou-os a perseguir os moradores católicos.

 

 

Mas o príncipe de Nassau não estava agradando muito aos homens da Companhia das índias Ocidentais. Regressa à Holanda. Sua partida marca o início do declínio do domínio holandês. Brasileiros e portugueses de todas as classes sociais começam a conspirar contra os invasores. Coordenam-se os esforços isolados dos que mantinham o sistema de guerrilhas. Da conspiração fa-:;em parte o rico negociante português João Fernandes Vieira, o brasileiro André Vidal de Negreiros e outros. Contam-se entre os elementos destinados às lutas de guerrilhas o chefe índio Potí, batizado com o nome de Antônio Filipe Camarão, e o preto Henrique Dias.

Arvorando uma bandeira como signo da revolta, com o lema "Deus e liberdade", os habitantes de Pernambuco e das capitanias vizinhas, sob o jugo holandês, se sublevam. Travam-se combates heróicos e desesperados. Monte das Tabocas, Casa Forte, Guararapes, são os grandes marcos das vitórias dos insurretos pernambucanos. Embalde o rei de Portugal, já livre da Espanha, aconselha os revoltosos, para atender a protestos do governo holandês, a que deponham as armas. A resposta deles é a seguinte : "Depois que expulsarmos os intrusos, iremos receber no reino o castigo de nossa desobediência". E desobedecem ao rei que, na realidade, ficou satisfeito com a desobediência, pois, às ocultas, mandava estimular e aco-roçoar os insurgentes.

Depois das duas grandes batalhas nos mesmos montes Guararapes, os holandeses se vêem forçados a abandonar o país. Na campina do Taborda, perto da cidade do Recife, assinam a capitulação. O Brasil voltava a ser só dos portugueses e dos brasileiros. Terminava assim o domínio holandês em Pernambuco. Havia durado 24 anos. Vejamos agora alguns episódios impressionantes dessa luta de homens que defendiam a sua liberdade e a sua religião.

Fala-se muito na retirada dos dez mil, que Xeno-fonte fixou para a história. Na guerra contra os holandeses, no Brasil, houve também uma retirada não menos trágica e não menos dolorosa. Quando Matias de Albuquerque não pôde sustentar mais a defesa das terras pernambucanas, resolveu retirar-se com suas tropas para a vizinha capitania de Alagoas. Ao terem notícia dessa retirada, numerosos foram os pernambucanos e portugueses que não quiseram permanecer sob o jugo holandês. Oito mil pessoas se juntaram às tropas de Matias de Albuquerque, para acompanhá-lo na retirada. Era um cortejo imenso de mulheres, inválidos e crianças, que se arrastavam pelas matas e pelas montanhas, num êxodo doloroso e heróico. Morriam pelos caminhos, de inanição, de fadiga, de fome, de moléstias. Mas preferiam tudo isso a ter de prestar obediência aos invasores.

*  *  *

 

Calabar, mestiço que se pusera às ordens dos invasores holandeses, combina com estes um ataque ao fortim de Rio Formoso. Dez navios e quinze lanchas são enviados para o assédio por mar e Calabar segue, com trezentos homens, para completar o cerco de terra. Mandam intimar o comandante do forte a render-se, pois a superioridade dos sitiantes é enorme. Mas o comandante pernambucano Pedro de Albuquerque se recusa terminantemente a entregar-se, a-pesar-do reduzido número de defensores que possuía o forte.

Os atacantes iniciam o combate. Despejam simultaneamente suas baterias de mar e de terra contra o fortim. Os defensores respondem ao ataque e, após três combates, conseguem fazer oitenta baixas entre os atacantes. Todos os soldados do fortim estão, porém, feridos. Diante de situação tão precária, Pedro de Albuquerque resolve solicitar socorro de Matias de Albuquerque. Mas quem se atreverá a ir até o Arraial de Bom Jesus, onde se encontra Matias, entre Recife e Olinda?

O jovem Jerônimo de Albuquerque, parente do comandante, apesar-de ferido, se oferece a fazer a perigosa travessia. Parte. Seus companheiros aguardarão o auxílio. Mas os holandeses resolvem tentar a quarta investida. Os defensores ainda resistem tenazmente. Depois o forte silencia. Os holandeses, cautelosamente, penetram ali. O espetáculo que lhes salta à vista é dos mais impressionantes. O reduto, que só contava com vinte defensores, tem-nos dezenove mortos e gravemente ferido, numa poça de sangue, o próprio comandante Pedro de Albuquerque. O inimigo se curva comovido e entusiasmado diante de tanto heroísmo.

*    *  *

 

O episódio seguinte ocorreu ao tempo em que os holandeses, após serem derrotados no monte das Tabocas, procuraram fortalecer-se dentro dos muros da cidade do Recife. Nas proximidades da cidade, num velho engenho de D. Ana Pais, as tropas holandesas se fortificam. Fernandes Vieira resolve desalojá-las daquela posição. À frente dos insurgentes, sitia os holandeses na Casa Forte. A peleja é renhida, de parte a parte. Na iminência da derrota, uma idéia covarde salteia a mente do holandês. Manda colocar nas janelas da casa grande do engenho algumas pernambucanas, por êle aprisionadas na sua marcha de retirada.

Os atacantes suspendem a fuzilaria. Não ousam atirar contra as suas conterrâneas. Mas as denodadas mulheres, no desejo de inutilizar o vil estratagema, gritam aos soldados insurgentes que atirem, que não devem importar-se com aquilo. Os chefes insurgentes, porém, num arrojo extraordinário, preferem tomar, à arma branca, o engenho, sem necessidade de sacrificar as heróicas pernambucanas.

Outro episódio, em que se revela o valor e o denodo das brasileiras daqueles tempos, é o das chamadas "heroínas de Tejucopapo".

Tejucopapo era uma aldeola pernambucana, situada entre Itamaracá e Goiana. Os habitantes, receosos dum ataque holandês, haviam-se fortificado, armando po-derosa trincheira de pau a pique. À aproximação do inimigo os homens válidos se colocaram fora da trincheira para atacá-lo, e dentro da trincheira ficam apenas os velhos, as mulheres e as crianças.

Seiscentos soldados holandeses atacam o reduto. Mas são repelidos. No início do assalto, já seu chefe pagara com a vida .1 atrevida empresa. O segundo comandante estimula os homens a novos assaltos, envergonhado que está por ver que tantos soldados aguerridos não conseguiam apoderar-se daquele reduto, defendido por velhos, mulheres e crianças. O perigo é iminente. O ataque é tremendo. Os atacantes já conseguiram romper a paliçada c estão prestes a abrir brecha na trincheira. Os defen-sores sentem-se enfraquecidos de tanto lutar. Terão de ceder ou morrer.

É neste instante que se opera maravilhosa reviravolta Uma mulher, tendo numa mão uma cruz ena outra uma e.pada, incita os homens a combater em defesa da cruz, símbolo de sua religião. Ela mesma brande sua espada, e  outras mulheres seguem-lhe o exemplo. Redobra então o entusiasmo dos defensores. A peleja recrudesce. As heroínas combatem tão valentemente como os ho-mens, enchendo de admiração e de temor os atacantes, que vão recuando, pouco a pouco, para fugirem depois, numa vergonhosa derrota.

Entre as mulheres que se bateram então com tanta coragem, contava-se D. Clara, esposa daquele outro herói dessa guerra, o índio Antônio Filipe Camarão.

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Caçadores de homens e de riquezas

 

NA praça da igreja da cidade colonial celebra-se uma missa. É o dia importante da partida de uma bandeira. Descendentes de velhas famílias paulistas, aventureiros portugueses e espanhóis, gente do povo, escravos, mamelucos, índios mansos, soldados, frades, todos formando a mais heterogênea das multidões, se aprestam para varar as florestas ínvias, descer as bocainas profundas, galgar as serras íngremes, transpor os rios caudalosos, atravessar os sertões adustos, durante meses, durante anos, sujeitos às febres, às feras, aos insetos, aos ataques traiçoeiros dos índios bravos.

Vão em busca de riquezas fantásticas, que aventureiros outros disseram existir no recesso das matas, no coração das montanhas misteriosas. Vão descobrir o pouso certo da montanha fabulosa, que a lenda dizia mudava de lugar, para enganar os que buscavam roubar a riqueza avaramente escondida no seu seio. Vão à cata do ouro e da prata. Vão no afã de recolher as pedras preciosas espalhadas ou ocultas, nas areias das praias fluviais, no cascalho das serras, no fundo das grotas, no coração mesmo da montanha. Vão ávidos de conquista e de cobiça, prear índios para escravizá-los. Querem ouro, querem prata, querem diamantes, querem esmeraldas, querem rubis, topázios, toda a gama das gemas valiosas e matizadas.

São centenas, são milhares de homens de todas as idades e de todas as procedências. Há nobres e plebeus. Há ricos e pobres. Escravos e livres. Criminosos e homens de bem. Soldados e religiosos. Armas e bagagens amontoam-se em quantidade espantosa. Cavalos de montaria, burros de carga, bruacas repletas de mantimentos, caixotes, odres de bebidas, fardos de roupas e cobertores, pólvora, armas de vários feitios, desde o arco e a flecha do índio até as pistolas e trabucos dos civilizados, compõem o acervo da bandeira.

Muitos daqueles homens não mais voltarão aos lares. Morrerão de febres pelas margens dos rios. Serão devorados pelas feras, ou cairão feridos de morte pela seta certeira do índio, na tocaia. Levados pelo ódio e pela cobiça se entredestruirão. Poucos serão os que alcancem os seus objetivos. Poucos os que voltarão com a riqueza ambicionada. Mas nenhum desses receios e temores os deterá. São homens duma fibra rija, corajosos, desassombrados, cobiçosos e violentos. Tornarão viáveis os caminhos a dentro da terra desconhecida. Fundarão povoados, plantarão roças, lançarão as bases das futuras cidades, que marcarão no mapa futuro da pátria o caminho que a civilização seguiu, empós daqueles homens truculentos, desapiedados, magnânimos, destemidos. Alargaram os limites das terras que seus pais lhes herdaram. Tornaram mais amplo e mais rico o domínio português, preparando ao mesmo tempo a futura e grande pátria brasileira. Foram os pioneiros que prepararam o caminho para os pósteros. Foram os plantadores de cidades. Cometeram crimes. Foram cruéis para com os índios. Eram rudes e violentos. Mas a obra que realizaram, na descoberta dos sertões e de suas riquezas ocultas, foi uma epopéia magnífica.

Após a missa e as despedidas, toda a multidão dos varejadores do sertão se movimenta e parte. É uma serpente rumorejante e longa, colubrejando pelas picadas, pelas matas, pelos desfiladeiros. À frente, o estandarte guiador.  A bandeira segue a caçar homens e riquezas.

* * *

 

Entre os bandeirantes mais famosos, conta-se pela sua astúcia Bartolomeu Bueno da Silva, que os índios chamavam de Anhangoéra, o espectro, o fantasma, o diaboconsumado. Donde viera esse temor dos selvagens pelo sertanista aventureiro? É que Bartolomeu Bueno se valia, entre aqueles homens broncos e supersticiosos, de um estratagema hábil para arrancar-lhes o segredo dos esconderijos do ouro e das pedras preciosas.

Nos sertões de Goiaz certa vez fingiu que retirava água do rio Vermelho, colocando-a numa escudela. Mas era aguardente. Diante da indiada receosa, quis mostrar o seu poder tremendo de grande feiticeiro, capaz das coisas mais extraordinárias. Se eles não lhe mostrassem o lugar onde havia ouro, poderia fazer secar todos os rios e os índios não teriam assim mais onde beber água. Como prova do seu poder acende o líquido contido na escudela. A chama reponta. E os índios vêem, horrorizados, que a água pegara fogo mesmo. Que formidável e perigoso feiticeiro era aquele homem! Pois se podia até incendiar a água! E não tiveram outro jeito senão mostrar onde se encontrava o precioso metal amarelo.

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A mais importante das bandeiras foi talvez a de Fernão Dias Pais Leme, aí pela segunda metade do século XVII. Era numerosíssima. Esse poderoso senhor paulista cobiçava encontrar ricas esmeraldas, que se, dizia deviam existir perto duma lagoa encantada, Vufabus-sú, nos sertões de Minas Gerais. Sua procura das valiosas pedras é uma epopéia maravilhosa.

Durante anos percorre as matas sertanejas, indiferente aos perigos e às desilusões. Nada o demove de seu intento. Nem as intempéries e perigos das jornadas, nem a má vontade e revolta dos homens. É teimoso e severo. Muitos dos amigos que o acompanharam, na arremetida pelo sertão a dentro, o abandonam e regressam a S. Paulo. Êle continua. Um filho seu, bastardo, conspira e tenta sublevar os homens da bandeira contra o seu chefe. Êle não hesita. Condena o filho à morte. E José Dias é enforcado.

continua as suas jornadas e suas buscas. Descobre afinal umas pedras verdes. Devem ser as esmeraldas cobiçadas! Realizara a sua ambição. Tem nas mãos uma fortuna. Mas a febre, que a lagoa encantada tem como defesa, ataca o bandeirante audaz. E êle morre, ali mesmo, crendo haver descoberto o reino das esmeraldas.

Mais tarde, os que levaram as pedras encontradas, verificam que não são autênticas esmeraldas. O sonho de Fernão Dias fora mesmo um sonho. As esmeraldas não eram verdadeiras. Mas o sertão havia sido desvendado. Por onde passara a sua bandeira, surgiram povoações e mais tarde cidades. Olavo Bilac imortalizou o episódio máximo da vida de Fernão Dias, num poema O Caçador de Esmeraldas, considerado uma das obras primas da literatura brasileira. Vamos citar a sua parte final, em que descreve o delírio e a morte de Fernão Dias:

 

Adoça-se-lhe o olhar, num fulgor indeciso; Leve, na boca aflante, esvoaça-lhe um sorriso… E adelgaça-se o véu das sombras.   O luar Abre no horror da noite uma verde clareira. . . Como para abraçar a natureza inteira, Fernão Dias Pais Leme estira os braços no ar. . .

 

Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamai Verdes, na verde mata, embalançam-se as ramas: E flores verdes no ar brandamente se movem; Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio; Em esmeraldas flue a água verde do rio, E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem. . ..

 

E é uma ressurreição!   O corpo se levanta:

Nos olhos, já sem luz, a vida exsurge e canta!

E esse destroço humano, esse pouco de pó.

Contra a destruição se aferra à vida, e luta,

E treme, e jresce, e brilha, e afia o ouvido, e escuta

A voz, que, na solidão, só êle escuta, sói

‘Morre! morrem-te às mãos as pedras desejadas. Desfeitas como um sonho, e em lodo desmanchadas. . . Que importa?   Dorme em paz, que o teu labor é findo! Nos campos, no pendor das montanhas fragosas, Como um grande colar de esmeraldas gloriosas, As tuas povoações se estenderão fulgindo. . .

 

‘Quando, do acampamento, o bando peregrino Saía, antemanhã, ao sabor do destino, Em busca, ao norte e ao sul, de jazida melhor, No cômoro de terra, em que teu pé pisara, Os colmados de palha aprumavam-se, c, clara, A luz de uma lareira espancava o arredor.

 

‘Nesse louco vagar, nessa marcha perdida, Tu foste, como o sol, uma fonte de vida: Cada passada tua — era um caminho aberto! Cada pouso mudado — uma nova conquistai E, enquanto ias, sonhando o teu sonho egoísta, Teu pé, como o de um deus, fecundava o deserto?. . .

 

"Morre! tu viverás nas estradas que abriste! Teu nome rolará no largo choro triste Da água do Guaicuí. . .    Morre, Conquistador! Viverás quando — feito cm seiva o sangue, — aos ares Subires, e nutrindo uma árvore, cantares Numa ramada verde, entre um ninho e uma flor!

 

"Morre! germinarão as sagradas sementes Das gotas df> suor, das lágrimas ardentes!. . . Hão de frutificar as fomes e as vigílias! E um dia, povoada a terra em que te deitas, Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas, Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,

 

"Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas, No esto da multidão, no tumultuar das ruas, No clamor do trabalho e nos hinos da paz! E, subjugando o olvido, através das idades. Violador de sertões, plantador de cidades. Dentro do coração da pátria viverás!"

 

Cala-se a estranha voz.   Dorme de novo tudo.
Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,
Como um choro de prata algente o luar escorre.

E sereno, feliz, no maternal regaço
Da terra, sob a paz estrelada do espaço,
Fernão Dias Pais Leme os olhos cerra.   E morre.

Uma república de negros

essa que formaram os negros fugidos dos engenhos, desde a Paraíba até Porto Seguro, principalmente durante a época da guerra holandesa, não passava de uma monarquia, com um rei eletivo e vitalício, chamado Zumbi. Por esse nome eram também apelidados os capitães, que chefiavam os soldados da república negra. Reinava ordem entre os habitantes, governados por severa disciplina. O roubo, o adultério, a deserção e o homicídio eram punidos com a pena de morte. Os escravos fugidos voluntariamente eram considerados livres na república. Interessante, porém, é que esses ex-escravos capturavam, nos engenhos, os escravos que não haviam querido fugir, e os tornavam escravos seus, dentro do território onde se achavam localizadas suas aldeias, chamadas quilombos.

Alguns desses quilombos chegaram a possuir mais de 1.500 casas, com uma população de 8 a 10 mil almas. Viviam os quilombolas de agricultura, de caça, de pesca e dos assaltos frequentes que faziam às fazendas, engenhos e vilas. Tornaram-se, por isso, perigosíssimos. Numerosas expedições foram enviadas contra eles, não só pelos portugueses, mas também pelos holandeses. Mas o núcleo principal dos quilombos, na serra da Barriga, resistia a todas as expedições. Somente em 1695, foi a "Tróia Negra" destruída por uma expedição militar comandada pelo paulista Domingos Jorge Velho. O cerco dos Palmares durou três anos.

A luta pela conquista do reduto final foi terrível. Os negros se defendiam, com um heroísmo de espantar. Já desfalcados de munições, utilizaram nos combates tições de fogo e água fervente.   Conta a lenda que o rei e seus principais capitães lançaram-se de um despenhadeiro abaixo, para não cair vivos nas mãos dos expedicionários. Mas os historiadores afirmam que o zumbi morreu em combate, vítima da traição de um mulato de seu bando.

Terminava assim, tragicamente, a história desses escravos que se haviam declarado livres e formado uma república própria.

Uma conspiração de poetas

FOI em Vila Rica, hoje cidade de Ouro Preto, que se tramou essa interessantíssima conspiração de poetas, estudantes e padres. Os brasileiros estavam descontentes com os excessos de tributação e com certas medidas tirânicas das autoridades portuguesas. Estudantes que regressavam da Europa, de lá traziam as últimas novidades políticas e as doutrinas libertárias, que os filósofos preconizavam. Vendo os sofrimentos do povo, escorcha-do pelo fisco real, sonharam com a libertação da pátria.

Entre os "sonhadores" dessa pátria liberta se contavam vários sacerdotes e, os poetas Inácio José de Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa e Tomaz Antônio Gonzaga, este último desembargador e lírico apaixonado da jovem Maria Dorotéia Joaquim de Seixas, que imortalizou nos seus versos de amor, chamando-a Marília, enquanto que a si próprio se dava o nome de Dirceu.

Dos mais exaltados e dos mais esforçados dos conspiradores era o alferes do regimento de dragões de Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier. A sua grande habilidade no tratar dentes mereceu-lhe a alcunha de Tiradentes,

Os conjurados se reuniam em pontos diversos e tratavam de conseguir adeptos para o levante, não só em outros lugares de Minas Gerais, mas até no Rio de Janeiro. Procuravam também obter o apoio dos Estados-Unidos. O papel dos poetas não foi de grande relevo, mas a eles se devem certas idéias abraçadas pelos conspiradores, tais como a da criação de uma universidade em Vila Rica, a abolição da escravidão e bem assim a escolha do lema da bandeira da república, que seria proclamada, se vitoriosa a conjura. Foi um verso de Virgílio o escolhido para figurar na bandeira: Libertas quae sera tamen.

Mas, como em toda conspiração, houve também nessa traidores. Três portugueses, o coronel Joaquim Silvério dos Reis, o coronel Basílio de Brito Malheiro e o mestre de campo Inácio Corrêa Pamplona correram a denunciar a conjura ao Visconde de Barbacena, governador da capitania. Sendo a cobrança do imposto sobre, o ouro o pretêsto de que se valeriam os conjurados para concitar o povo à revolta, susteve o governador a cobrança e tratou de prender os conspiradores. Não foi difícil, ciente como estava de toda a trama, deitar a mão aos implicados.

Tiradentes, que se achava no Rio, em ativa e franca propaganda da rebelião, foi também detido. Seguiu-se o processo, longo e cheio de dolorosos incidentes. O poeta Cláudio Manuel da Costa suicidara-se na prisão. Os outros negavam a sua participação na conjura, faziam protestos de fidelidade à coroa portuguesa, acusavam-se uns aos outros. Raros os que se mostravam intrépidos na adversidade. O cónego Luiz Vieira e Tiradentes revelaram-se, porém, corajosos e dedicados.

O processo teve como resultado a condenação de 10 dos acusados à morte. A rainha de Portugal comutou-lhes, porém, a pena em degredo perpétuo para a África. Somente Tiradentes não mereceu a misericórdia real. Subiu ao patíbulo, no dia 21 de abril de 1792, sendo enforcado. Cortaram-lhe em seguida a cabeça, que foi exposta em Vila Rica, e seus membros esquartejados, espalhados pelos lugares onde mais ativa se fizera sentir a sua propaganda da rebelião. O escrivão do ato lavrou a certidão do enforcamento e do esquartejamento com o próprio sangue do condenado.

E com esse epílogo de sangue se esvaiu o sonho daqueles que queriam uma pátria livre. Anos mais tarde esse sonho se realizaria, com o auxílio mesmo dum descendente dessa rainha, que mandou enforcar Tiradentes. E a memória desse mártir da independência da terra brasileira ficou como um símbolo dos anseios de liberdade e de altivez de todo um povo.

Nem sempre tal pai, tal filho

O VELHO brocardo, "tal pai, tal filho" tem, na figura dos dois imperadores do Brasil, D. Pedro I e D. Pedro II, formal desmentido. Poucas vezes pai e filho divergem tanto. Vinho e água. Vinagre e azeite. O filho de Carlota Joaquina não parece o pai do filho de Leopoldina de Habsburgo. Suas vidas são diversíssimas. Um, aventuroso, incoerente, instintivo, mulherengo. O outro, prudente, conservador, pouco amante de aventuras, quer políticas, quer amorosas. Pedro I tem audácias loucas de jogador que tudo aventura numa cartada. Pedro II joga também, mas com a cautela e o sossego de quem faz um joguinho em família.

Filho de D. João VI, sôrna e glutão, porém mais inteligente do que fazem crer os historiadores, e de Carlota Joaquina, a espanhola desbragada e estabanada, o príncipe D. Pedro e seu irmão D. Miguel foram criados à solta, satisfazendo seus caprichos, vivendo com criados e arrieiros, cuja linguagem aprendem com perfeição. Quando imperador, dirá D. Pedro I, a propósito dos próprios filhos c confessando a péssima educação que ele e o irmão tiveram: "Estes (seus filhos) serão bem educados; eu e o mano Miguel seremos os últimos malcriados da família".

Quando Napoleão I põe em fuga a família real portuguesa, vem D. Pedro parar com seus pais no Brasil. Sua vida na nova sede da monarquia não se modifica. Seus companheiros não primam pela qualidade. É um farrista, amante de esbórnias, brigas, ceatas, serenatas e de aventuras extraconjugais. Voltando para Portugal, seu pai que o deixa tomar conta do Brasil, pressentindo, talvez, que a sua colônia não demorará em emancipar-se, aconselha o filho a apoderar-se de tão magnífico quinhão antes que êle venha a cair em outras mãos, não braganti-nas. No momento azado, D. Pedro não esquece o conselho paterno. Coloca-se ao lado dos brasileiros, quando estes clamam por seus direitos contra as exigências descabidas do governo português. Insurgindo-se contra as ordens reais, proclama a independência do Brasil, desistindo com esse gesto, pelo menos temporariamente, de sua sucessão à coroa portuguesa. E com a mesma impetuosidade, anos mais tarde, abdica o trono brasileiro para se fazer defensor dos direitos de sua filha ao trono português, que a cobiça do mano Miguel ameaçava tomar.

Poucas figuras na história oferecem aspectos tão discordantes, como a desse príncipe e imperador impetuoso, inculto, mesquinho e magnífico, brutal e cavalheiresco, mau marido e bom pai, ora autócrata, ora constitucionalista, capaz de grandes gestos quixotescos e de grosseiros assomos de cólera epiléptica. A crônica escandalosa do Primeiro Império brasileiro está cheia da história de seus amores, de suas aventuras e estroinices. Faz de sua amante predileta, D. Domitila de Castro, marquesa de Santos, dando também títulos de nobreza às filhas dessa união ilícita. Nas suas correrias noturnas chega a ser vítima de surras de pau, dadas por maridos pouco acomodaticios. É uma figura de romance, de vida cheia de peripécias extraordinárias.   Quando morre aos 36 anos, na idade em que muitos começam a fazer alguma coisa na vida, já havia fundado um grande império e reconquistado um reino.

Tendo vivido na época do romantismo, foi na realidade um romântico autêntico, sem a morbidez dos Byrons e dos Renés. Viveu o romantismo nos amores, nas atitudes, nas loucuras, na política. Foi um D. Juan grosseiro, mas teve gestos líricos de personagem lamartiniano. Seus ímpetos de ferrabraz e epilético eram compensados pelas lágrimas de seu arrependimento e pelas ternuras doces de sen coração amoroso. Foi sempre um voluntarioso indomável. E desconcerta pelos contrastes. Abandona um vasto império a um filho criança e vai correr a aventura de disputar um pequeno reino para uma filha menina. No Brasil, faz da constituição uma convenção desprezível a seus olhos de senhor absoluto. Em Portugal, faz da Carta um ideal sagrado, batendo-se por ela como um cavalheiro medieval pela sua dama.

Neste último período de sua vida, o homem Pedro I não é mais o inconsequente e aloucado de outrora. Dedica-se. Tortura-se. Sofre. É uma vontade sobrepu-jando-se a todos os reveses e desânimos. Anima-o um ideal. A êle se entrega, por êle se bate, numa obstinação maravilhosa e ardente. Não é mais o homem das cartas fesceninas a Domitila. Dá conselhos de Marco Aurélio, como diz o escritor Pedro Calmon, ao filho que deixara como imperador do Brasil.

Mas o romântico nele não morre. Pelo contrário, avulta e se extrema. O imperador que criou a Ordem da Rosa, em delicada recordação do traje enfeitado de rosas com que se lhe apresentou sua segunda esposa, a imperatriz Amélia de Leuchtenberg, é o mesmo duque de Bragança que viaja, à noite, 19 léguas por mar, para cumprir a palavra de assistir a uma festa de aniversário. No cerco da cidade do Porto, quando a causa de sua filha perigava e faltava madeira para reparo dum morteiro, recusa-se a mandar derrubar uma das velhas árvores ás quinta de Wanzeller, porque "dera a sua palavra de que não cortaria uma só das árvores do Porto e preferia capitular ao inimigo antes de quebrar o juramento", êle que, anos antes, ordenara a destruição feroz das amoreiras do intendente Paulo Viana, que morreu de desgosto. Vitoriosa a sua causa, não teve o ocaso melancólico dos heróis que se burocratizam. Desapareceu ainda no calor das apoteoses, vítima da doença que infestou as páginas da literatura romântica: a tuberculose.

O atrabiliário, o vingativo, o desrespeitador de outrora, morre aconselhando à jovem rainha, sua filha, "a clemência, a magnanimidade, a justiça". Morre abraçado a um crucifixo e, num imprevisto símbolo, na sala de D. Quixote do Palácio de Queluz, aquele que foi o cavalheiro andante do liberalismo.

D. Pedro II foi precisamente o contrário. Nada de romantismos e de aventuras bironianas. O menino que aos cinco anos de idade era deixado pelo pai entre estranhos, para ser o imperador de um imenso império, teve uma infância triste de estudos e protocolos. E durante toda a sua vida será um lestudioso. Não mais as correrias noturnas, as funçanatas, as amantes, que constituíram o trem de vida do impetuoso Pedro I. O novo imperador amadureceu bem cedo, no trato com os mestres e com os livros. Sua vida toda terá o método e o cinzento rigor de um meticuloso e severo chefe de repartição. É um burocrata, dirigindo um vasto império, nem sempre pacífico e ordeiro.

Lê filósofos e historiadores. Traduz poetas clássicos. Estuda ciências e línguas mortas. Corresponde-se com escritores. Tem mais prazer em visitar Vitor Hugo, que o cognomina de "neto de Marco Aurélio", do que iem avistar-se com seus parentes coroados da Europa. Anda burguesmente vestido, com sua cartola alta e seu guarda-chuva deselegante. Gosta de assistir a exames, de presiair sessões acadêmicas, de discretear com diplomatas que sejam também literatos.   Protege artistas.

Prova a comida que se destina aos alunos internos do Colégio que tem o seu nome. Faz sonetos, com menos felicidade do que equilibra a balança do regime parlamentar.

Terá seus assomos de teimosia, suas tacanhices die velho e de soberano, seus erros de visão e de tacto. Maa será magnânimo, caridoso, marido fiel, pai dedicado e amoroso, amigo da justiça, tolerante, democrata. Já se disse que foi mais republicano que os próprios membros do partido republicano. E se assim não se declarava abertamente, era porque afinal não ficava bem a um imperador tal declaração.

Quando se proclamou a República Brasileira, não quis lutar pelo trono. Magoado embora, não relutou em ausentar-se do país. Morreu no exílio, saudoso de sua pátria, que sempre amara entranhadamente, contente por ter um pouco de terra do Brasil no travesseiro sobre que repousaria para sempre a sua cabeça encanecida. E cheio de esperança de que a história lhe faria justiça. E fez. Seu nome é hoje venerado pelos próprios republicanos e seu corpo repousa para a eternidade na cidade brasileira que tem o seu nome: Petrópolis.

 

Batinas revoltosas

 

OS anos 1817 e de 1824 marcaram na história do Brasil períodos de grande agitação. Duas revoltas sérias irromperam, naqueles anos, em Pernambuco, com ramificações nas outras províncias. E, coisa interessante, revoltas iem que tomaram parte numerosos sacerdotes, patriotas é certo, mas de vida canónica pouco regular, como salientou o historiador Oliveira Lima.

Uma das causas da revolução de 1817 foi a rivalidade existente entre portugueses e brasileiros, em Pernambuco. E o descontentamento contra o governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro, de quem diziam os adversários políticos que era Caetano, no nome; Pinto, na coragem; Monte nas alturas e Negro, nas ações, com evidente exagero, próprio das paixões políticas.

Conspirava-se nos cenáculos da maçonaria. Havia banquetes em que os conspiradores estabeleciam os planos da revolta. Mas banquetes de caráter estritamente nacionalista. Nada de pão de trigo, porque o trigo vinha de Portugal. Comia-se pirão de farinha de mandioca. Nada de vinho, que também era importado do Reino, mas a legítima e nacional aguardente de cana.

Soube o governador da conspirata e deu logo ordem de prisão para os oficiais brasileiros envolvidos na conjura. Foi isso na véspera da data marcada pelos revoltosos para o começo da revolta. Barros Lima, um deles, apelidado de "Leão Coroado", vê, na hora da prisão, que não é possível esperar mais. O brigadeiro português encarregado da prisão dos oficiais suspeitos chama de infames e traidores aos brasileiros. O insulto é por demais pesado. E Barros Lima tira da espada e atravessa com ela o corpo do brigadeiro. Depois, estendendo a espada ensanguentada, em saudação romana, grita para os seus colegas: "Juremos vencer ou morrer pela pátria!" E todos respondem: "Viva o Brasil!" Estava iniciada a revolução.

Elege-se um governo provisório. O povo já ciente do que ocorria, confraterniza com os revoltosos e sai pelas ruas, gritando: "Viva a pátria! Mata marinheiro!" Com este nome tratavam depreciativamente os portugueses. O governador foge do palácio e se refugia numa fortaleza. Estava vitoriosa a revolta. O governo se organiza, toma providências, trata de propagar o movimento republicano pelas províncias vizinhas.   Mas o governo português toma também suas providências. Prende-se o padre Roma, na Baía, e o padre José Martiniano de Alencar, no Ceará. Enviam-se tropas. Bloqueia-se o Recife. Escasseiam os víveres. As primeiras derrotas começam a fazer pender a vitória para o lado dos governis-tas. O padre Roma é fuzilado, na Baía. Dentro em pouco são debandados os revoltosos e o castigo real pesa sobre a cabeça dos republicanos de Pernambuco. O padre João Ribeiro, membro do governo revolucionário, suicida-se. Pagam também com a vida o seu gesto de rebeldia os padres Miguelinho, Pedro Tenório, Antônio Pereira, além de numerosos outros revolucionários. Foram tantas as execuções capitais que o próprio rei mandou sustar os poderes da comissão militar, encarregada de processar os revoltosos. A propósito dos excessos havidos naquela ocasião, escreveu Frei Antônio da Conceição a seguinte sátira, alusiva aos prêmios com que eram galardoados os perseguidores dos brasileiros:

 

"Quando os séculos das trevas dominavam,
Das cruzes os ladrões se penduravam;
Hoje domina o século das luzes:
Pendentes dos ladrões andam as cruzes!"

 

Esses excessos acirraram o espírito popular. Por isso, fácil foi, mais tarde, em 1824, repetir outra revolução republicana, de maior vulto ainda e mais difícil de jugular. Chefiada por Pais de Andrade, contou com a adesão das províncias de Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. E denominou-se "Confederação do Equador". As forças imperiais mandadas contra os revoltosos conseguem vencer as províncias revoltadas. E seguem-se as execuções dos que. participaram da nova república. Novos padres se lencontram entre os revoltosos. O padre Mororó é executado no Ceará, e no Recife, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca é fuzilado na praça pública.   Sua morte comove pela serenidade e pela elevação. Na véspera da execução, escreve ainda uns versos:

 

Quem passa a vida que eu passo,
Não deve a morte temer;
Com a morte não se assusta
Quem está sempre a morrer.

A medonha catadura
Da morte feia e cruel,
Do rosto só muda a côr
Da pátria ao filho infiel.

Tem fim a vida daquele
Que a pátria não soube amar;
A vida do patriota
Não pode o tempo acabar.

O servil acaba inglório
Da existência a curta idade;
Mas não morre o liberal,
Vive toda a eternidade.

 

O povo todo da cidade freme de dôr e compaixão. Por onde passa o cortejo, as mulheres rezam nas portas e janelas das casas. O preto Agostinho Vieira, réu de pena de morte e cuja sentença será comutada após servir de carrasco de Frei Caneca, recusa-se a executar o patriota. Os soldados, indignados com a recusa do preto, abatem-no a coronhadas. O ajudante do carrasco, também condenado à morte, recusa-se por sua vez à nefanda missão. Retarda-se a execução. Frei Caneca espera serenamente a hora da morte. Manda-se buscar qualquer outro condenado para servir de carrasco. Mas ninguém aceita. Em vez, então, de ser garroteado, o frade s^rá arcabuzado. Um soldado do pelotão desmaia. Frei Caneca quer falar, depois de amarrado ao poste de execução. Mas seu confessor lhe pede que guarde silêncio. E apenas dirá aos soldados, no momento em que é dada a ordem de "sentido!": — Amigos, peço que não me deixem padecer por mais tempo…"

Uma guerra de esfarrapados

 

DESCONTENTES com a má administração da província do Rio Grande do Sul, acirrados pelos uruguaios que desejam formar uma confederação dos territórios da zona oriental e sentindo desperto o ardor nati-vista contra os portugueses, desejosos de repor D. Pedro I no trono do Brasil, revoltaram-se os gaúchos. Os partidários do governo imperial alcunharam logo os revoltosos de "farrapos", por causa dos uniformes não muito elegantes e perfeitos das forças que se colocaram às ordens de Bento Gonçalves da Silva.

Os rebeldes aceitam com orgulho a alcunha depreciativa. Serão farrapos, sim, serão farroupilhas, mas irão dar que fazer ao governo imperial. Efetivamente, a luta dura dez anos. Luta em que, de parte a parte, se cometem atos de heroísmo e de crueldade, como costuma acontecer nas guerras civis. As brigas de família são sempre mais terríveis e mais cruéis.

As primeiras vitórias cabem aos farrapos. Mas na ilha do Fanfa, Bento Gonçalves é derrotado por Bento Manuel Ribeiro, comandante das tropas imperiais, e remetido para o Rio de Janeiro. A perda do chefe não faz cessar a luta. Na sua ausência os revoltosos proclamam a República de Piratiní, separando-se assim do império brasileiro. Bento Gonçalves consegue, romanescamente, fugir da fortaleza do Mar, na Baía, e volta a comandar as forças farroupilhas.

No ano seguinte, Bento Manuel passa-se para o lado dos revoltosos. E a luta prossegue, ora favorável aos legalistas, ora aos federalistas. Mas não dura muito a união dos dois adversários de outrora. Bento Manuel se retira.  E Bento Gonçalves prossegue na defesa dos seus ideais. Resolve invadir a província de Santa Catarina. Tem, então, a ajudá-lo o caudilho italiano José Garibaldi.   Mas é repelido e duramente derrotado.

Com a maioridade de D. Pedro II, promete-se anistia aos revolucionários. Bento Gonçalves não aceita. O governo imperial resolve enviar então ao Rio Grande um experimentado comandante, Luiz Alves de Lima e Silva, que será depois, pelas vitórias alcançadas na campanha contra os farroupilhas, feito conde de Caxias e mais tarde marquês e duque do mesmo título. Lima e Silva é, antes de tudo, um verdadeiro amante de sua terra e sofre por ter de cumprir dever tão duro como esse de combater seus compatrícios. Combate os adversários, mas nunca deixa de convidá-los à união fraterna. Nas suas proclamações lê-se: "Abracemo-nos e unamo-nos para marcharmos, não peito a peito, mas ombro a ombro, em defesa da pátria, que é nossa mãe comum."

Bento Manuel volta à atividade, pondo-se ao lado de Lima e Silva. Frequentes derrotas dos farroupilhas marcam os últimos episódios de lutas tão sangrentas. Ambos os adversários estão esgotados. Para que prosseguir luta tão inglória? Faz-se a paz. E o Rio Grande continua cada vez mais integrado na comunhão dos Estados Unidos do Brasil.

*  *  *

 

O caráter separatista que aparentava ter essa guerra dos Farrapos é, por vezes, desmentido por certos atos e palavras dos próprios chefes farroupilhas. O que havia era muito mal-entendido, de parte a partie. Quando o ditador de Buenos Aires, Rosas, procurou aliciar o auxílio dos revolucionários brasileiros em favor de suas ambições políticas, mandou propor um acordo a Davi Canabarro, um dos principais chefes farroupilhas, prontificam do-se a enviar-lhe tropas para combater os imperiais.

A situação dos farroupilhas era crítica, no momento.   Mas Canabarro respondeu, da seguinte forma, a Rosas: "Senhor: O primeiro de vossos soldados que transpuser a fronteira fornecerá o sangue com que assinaremos a paz de Piratiní com os imperiais, pois acima de nosso amor à República está o nosso brio de brasileiros. Quisemos ontem a separação de nossa pátria, hoje almejamos a sua integridade. Vossos homens, se ousassem invadir nosso país, encontrariam, ombro a ombro, os republicanos de Piratiní e os monarquistas do Sr. D. Pedro II."

*  *  *

 

Há nessa terrível guerra civil dos Farrapos um episódio romântico-heróico, digno de inspirar poemas. E’ a história dos amores e aventuras de José Garibaldi e de sua amante, e depois esposa, Ana de Jesús Ribeiro, mais conhecida pelo nome de Anita Garibaldi.

Quando os Farrapos resolveram tomar a província de Santa Catarina os navios de Garibaldi ancoraram em Laguna. E ali o guerrilheiro italiano conhece a formosa e jovem Anita. O namoro começa com uma chicara de café e acaba num rapto romântico da jovem brasileira pelo atrevido italiano. Em plena lua de mel dos jovens apaixonados, dá-se o ataque das forças imperiais aos navios rebeldes. Anita Garibaldi tem ocasião de mostrar, pela primeira vez, o seu valor combativo. Comanda, com seu amado, a pequena esquadrilha de três navios apenas. Uma bala a prostra, ela porém se ergue e continua a peleja.

Conta-se dela que, certa vez, não hesitou em atravessar uma zona perigosa para ir buscar um grupo de combatentes acovardados. Perdido o combate naval, Garibaldi se refugia com os seus homens na serra de Curi-tibanos. Cercadas suas forças, luta um dia inteiro, tendo a seu lado a indómita Anita. Garibaldi foge. Anita cai prisioneira, mas obtém permissão para procurar, entre os que tombaram no combate, o cadáver de Garibaldi, que se acreditava ter morrido. Certificada de que Garibaldi não morrera e tendo obtido um cavalo de empréstimo, Anita, a-pesar-de achar-se grávida, foge, através de terrível tempestade, e consegue romper os postos de sentinelas, como uma aparição fantástica que apavora os soldados rudes e supersticiosos.

Terminada a guerra dos Farrapos, Anita acompanha Garibaldi a Montevidéu, casa-se ali com êle e irá mais tarde combater a seu lado, com o mesmo denôdo e a mesma desassombrada coragem, na Itália, quando seu marido se bate pela unificação italiana contra as forças austríacas. Morre aos 28 anos, numa floresta de pinheiros, numa casinha onde se refugiara com o marido, após uma fuga aventurosa e plena de perigos, através de pântanos e lagunas. A brasileirinha de Laguna, pelo seu amor e pelo seu heroísmo, tornou-se uma figura quase lendária em sua pátria.

 

 

 

 

 

Um ditador como há muitos

guai, tinha, como certos ditadores modernos, a mania de reviver figuras históricas de grandes guerreiros e conquistadores, um Alexandre, um César, um Napoleão. Conseguiu criar e manter, no seu pequeno país, um exército, para aqueles tempos, respeitabilíssimo, de 80.000 homens. O Brasil, o Uruguai e a Argentina achavam-se militarmente desprevenidos. O exército brasileiro tinha apenas 17.000 soldados. E López sonhava em alargar os limites de seu país, conquistando terras limítrofes, para formar um império também, de que seria êle senhor autônomo e primeiro imperador. Quando um ditador quer conquistar "espaço vital", não lhe faltam pretestos.

E a guerra começou.  Primeiro houve o aprisionamento do vapor brasileiro "Marquês de Olinda", que levava a seu bordo o presidente da província de Mato Grosso, Frederico Carneiro de Campos. Depois, Lopez manda invadir aquela província. A resistência do Forte Coimbra foi heróica. As 70 mulheres que nele se encontravam auxiliaram corajosamente seus esposos e pais na luta contra o invasor. Rechassados os assaltantes, os defensores do forte o abandonam, pela impossibilidade de continuar a defesa.

O Brasil forma uma aliança com a Argentina e o Uruguai. E a luta se multiplica em várias frentes, com alternativas de vitórias e derrotas, pois o adversário comum é corajoso, adestrado e bem provido. Feitos de raro heroísmo são praticados de parte e outra. As batalhas navais e as batalhas terrestres estão repletas de episódios admiráveis de coragem e de grandeza heróica. Riachuelo, Uruguaiana onde estivera o próprio Imperador D. Pedro II, Passo da Pátria, Tuiutí, Curuzú, Humai-tá, Itororó, Avaí, Lomas Valentinas, Peribebuí, Campo Grande, são nomes que assinalam as grandes batalhas e as grandes vitórias do lado brasileiro. Greenhalgh, Maia, Marcilio Dias, Barroso, Tamandaré, Porto Alegre, Andrade Neves, Osório, Inhaúma, Mariz e Barros, Argolo, Caxias, e muitos outros, são os heróis dessa luta de tantos anos.

Apesar-do forte potencial guerreiro e da bravura de seus soldados, Lopez vai sendo pouco a pouco derrotado. Os exércitos aliados tomam a capital do país, Assunção. Lopez não se entrega. Foge para o interior, com os restos de seu exército, e continua a luta. Morre, porém, afinal, de espada em punho, combatendo até o último momento e deixando atrás de si os destroços e ruínas duma pátria que poderia ter feito grande e próspera, pelo trabalho e pela paz, em vez de lançá-la aos azares de uma guerra de conquista. Um ditador como há muitos, embora nem todos mostrem tal coragem.

Vejamos alguns episódios interessantes dessa guerra.

Greenhalgh era um jovem guarda-marinha de apenas 17 anos, cuja beleza e mocidade lhe davam grande prestígio nas festas e bailes da corte. Parte para a guerra do Paraguai. Um amigo o adverte, profeticamente. "Adeus, Greenhalgh! Tu partes para o campo da morte". Ao que ele respondeu: — "Não!… Eu parto para o campo da glória!…"

Trava-se a batalha de Riachuelo. Para estimula; seus comandados, o almirante Barroso, chefe da esquadra brasileira, faz suas as palavras de Nelson, em Trafal-gar: "O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever!" O embate das duas esquadras é terrível. Barroso, de pé, em meio do cruzar das balas, dá o exemplo da coragem aos seus subordinados. A fragata Paranaíba é cercada por quatro navios paraguaios. O combale corpo a corpo se engaja. Um oficial paraguaio, no mais aceso da luta, tenta arriar a bandeira brasileira. Greenhalgh derruba o oficial inimigo e toma-lhe o símbolo sagrado da pátria. E cai, por sua vez, aos golpes de fuzis e machadinhas, abraçado à sua bandeira. Maia, oficial do exército, tem a mão direita decepada, mas vale-se da esquerda para prosseguir na luta, e Marcílio Dias, simples marinheiro, com um arrojo indescritível, tendo apenas um sabre, terça-o contra quatro paraguaios, prostra dois deles, mas sucumbe à superioridade numérica.

*  *  *

 

Manuel Marques de Souza, conde de Porto Alegre, comandava as forças brasileiras que, após a vitória de Curuzú, atacaram o forte de Curupaití. A demora de Mitre, general argentino que comandava os exércitos aliados, deu tempo a que Lopez se fortificasse bastante. A-pesar-do mau estado do terreno, Porto Alegre, à frente de seus homens, conduz o ataque em meio duma apavorante saraivada de balas, e consegue transpor as linhas de defesa do adversário, começando a escalar os muros do forte.

As forças argentinas haviam sido, porém, detidas num paul e se achavam em situação crítica. Mitre dá ordem de retirada. Porto Alegre, cujos soldados estão a ponto de vencer a resistência do inimigo, fica indignado com a ordem extemporânea, que anulava todos os seus esforços. E responde: "Não recuo nem um passo!" Nova ordem lhe é enviada e, fora de si, grita êle para o emissário: "Diga ao general Mitre que vá para o diabo que o carregue!"

Mas os clarins soaram a ordem de retirada e Porto Alegre, como comandado, teve de obedecer, a contragosto e de coração amargurado. Conta-se que, à noite, quando em sua barraca de campanha escrevia êle o relato dos acontecimentos do dia, um de seus ajudantes de ordens, tomando nas mãos a farda com que estivera durante a batalha o seu general, farda suja, ensanguentada, de abas esfuracadas pelas balas, lhe disse: "General, a melhor resposta que o senhor poderia dar ao general Mitre era mandar-lhe esta casaca para êle comparar com a dele…"

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No combate do Itapirú, Mariz e Barros comanda o couraçado Tamandaré. No mais forte da peleja, uma bala atinge grande número de marinheiros e comandante. Mariz e Barros tomba entre seus marinheiros, com uma perna partida e presa ao joelho apenas pelos tendões. Com a maior calma, no dia seguinte, no momento em que vai ser operado, pergunta com bom humor, indagando do nome do médico que vai operá-lo: "Quem é o homem do leme?" Quando lhe oferecem clorofórmio, diz: — "Dispenso isso. Prefiro um bom charuto". E ficou fumando, enquanto durava a operação, cujo resultado lhe foi fatal. Antes de morrer, ainda murmurou: "Digam ao meu pai… que honrei sempre o seu nome…"

Mariz e Barros era filho do velho almirante, e também herói da guerra paraguaia, Joaquim José Inácio, vi-conde de Inhaúma. Quando sabe da morte de seu filho, o velho guerreiro começa a chorar. Um amigo lhe diz: — "Resigne-se, almirante". E êle responde: — "Não repare, não repare. E’ um velho navio a fazer água… Mas a bomba da resignação acabará de estancá-lo".

*    *  *

 

O general Argolo Ferrão, visconde de Itaparica, um dos heróis da guerra paraguaia, era baixinho e precisava por vezes, quando na trincheira, de se pôr nas pontas dos pés para observar as manobras do inimigo. Certa vez achava-se em posição perigosa, tendo a seu lado um general de grande estatura, que se abaixava todas as vezes que uma bala sibilava por cima da trincheira. Argolo, de quem os colegas costumavam zombar, aproveitou a oportunidade para uma maliciosa vingança, e diz ao seu companheiro: — "Colega, muita gente zomba de mim, porque sou de pequena estatura e chega mesmo a dizer que a natureza não foi pródiga para comigo. Felizmente, colega, felizmente, porque, sendo deste tamanho, não tenho necessidade de agachar-me, como você, quando as balas passam…"

*    *  *

 

O batalhão de voluntários cearenses, 26, comandado por Figueira de Melo, é quase todo dizimado num combate. Osório interroga o comandante que escapara ao desastre, com poucos soldados. Indaga os motivos da derrota. As respostas são satisfatórias e mostram que o comandante agira mesmo com coragem e dedicação. Mas de repente, Osório pergunta onde se encontra a bandeira do batalhão. Figueira de Melo abaixa a cabeça e chora. Dum grupo de soldados, avança um deles, faz continência e diz ao comandante: — "A bandeira do nosso 26, Sr. Comandante, está aqui!" E desabotoando a blusa, tira, toda rota e ensanguentada, a bandeira do batalhão, que guardava carinhosamente de encontro ao coração.

*  *  *

 

Foi nos combates dos pantanais do Estero-Bellaco. O 42 de voluntários paulistas toma parte ativa no avanço. Seis corneteiros tocam o sinal de avançar e de fogo. Quatro deles tombam, ceifados pela metralha. As cornetas emudecem. O embate é tremendo. O batalhão de voluntários começa a fraquejar. O comandante, que, desmontado, luta de pé em meio de seus soldados, dá ordem ao preto corneteiro João José para que toque o sinal de avançar. Ao toque eletrizante reagem os paulistas e repelem a cavalaria inimiga.

Mas a corneta silencia. E’ que João José fora ferido no braço. Pede então a seu companheiro, um gaúcho, que lhe apanhe a corneta caída. O combate recrudesce. Do batalhão restam poucos soldados. Coberto de sangue, João José empunha a corneta com a mão esquerda, e toca o sinal de avanço. Nova bala atinge-lhe a perna. Pede então ao companheiro: "Camarada, desta vez é a perna que os malditos me quebraram. .. Encoste-me àquele montão de mortos, pelo amor de Deus". E êle continua a tocar. Osório vem em socorro dos heróicos paulistas. Uma bala atinge o peito do corneteiro. E encostado ao montão de cadáveres, vendo que a vitória por fim cabe aos voluntários do 42, João José de Jesus ainda tem forças para tocar a marcha da vitória, antes de morrer.

* * *

 

Caxias é, no Brasil, o tipo do soldado perfeito. Sua dedicação pelos seus soldados é proverbial. O visconde de Taunay narra o seguinte episódio: "O duque de Caxias, quando em campanha, fazia questão de sofrer as mesmas agruras e correr os mesmos riscos que os seus soldados. Uma tarde, em Lomas Valentinas, estava êle completamente molhado, sob uma laranjeira, esperando o momento do ataque, quando uma ordenança se aproximou, trazendo com cuidado uma fumegante chícara de café. "Aqui está — disse — que o sr. dr. Bonifácio de Abreu mandou para V. Excia., e ordenou-me que não deixasse cair um só pingo no chão". O marechal fitou-o, pausadamente. — "Eu não quero" — respondeu afinal. E para o soldado, abrandando a voz: — "Beba-o você, camarada".

* *  *

 

Em Tuiutí, um recruta recolhe três granadas inimigas que não haviam detonado, e forma com elas uma trem-pe, sobre a qual coloca sua panela para cozinhar um pouco de feijão. Mas as granadas, cuja pólvora humedecida não tarda a secar ao calor do fogo, explodem. Todos correm para o lugar da explosão, certos de encontrarem morto o simplório do recruta. Do meio da fumaça surge então, todo chamuscado, o recruta, que pergunta, com a maior calma: — "Vocês viram se derramou o meu feijão?"

Como se libertaram os escravos

 

A LIBERTAÇÃO dos escravos provocou, na América do Norte, uma terrível e odienta guerra entre o Norte e o Sul do país, ameaçando a própria integridade territorial dos Estados-Unidos. No Brasil, se bem que tivesse sido mais demorada, a abolição da escravidão se processou sem guerra. Tanto que, quando foi votada no Senado do Império a lei do Ventre Livre, a 28 de setembro de 1878, que declarava libertos os filhos de escravos nascidos daí por diante, pôde o ministro dos Estados-Unidos dizer, apanhando algumas das flores com que o povo cobrira o Visconde do Rio Branco: — "Vou mandar estas flores ao meu país, para mostrar como aqui se fez deste modo, uma lei que lá custou tanto sangue."

A abolição da escravidão no Brasil foi um movimento verdadeiramente nacional, de que compartilharam todas as classes sociais, inclusive a própria família imperial, tendo à frente o Imperador. Verdade é que este queria que se fizesse a abolição pouco a pouco, afim de preparar com prudência a mudança do regime econômico brasileiro, baseado no trabalho escravo. E’ conhecida a sua frase, quando estava no ministério Souza Dantas, desejoso de resolver quanto antes o problema da abolição: "Quando o sr. quiser correr, eu o puxo pela aba da casaca."

O sentimentalismo nacional encontrava na vida trabalhosa e sofredora do escravo terreno propício para os arrebatamentos de seus impulsos generosos. O choro das crianças escravas, as cantilenas tristes do desterrado e sofredor, as frases candentes dos jornalistas, os versos arrebatadores dos poetas, a eloquência fogosa dos oradores, as críticas dos povos civilizados, os sermões dos sacerdotes, tudo concorria para a fogueira purificadora, que sanearia um dos focos mais repelentes de mal-estar social da nacionalidade.

O movimento abrangeu, pois, todas as regiões do país e todas as classes sociais, a partir dos próprios escravos, os mais interessados no caso. E’ comovedor, por exemplo, aquele episódio ocorrido entre os escravos que, para libertar o seu rei, se cotizaram e conseguiram comprar-lhe a alforria. E cada escravo alforriado ia depois juntando a soma necessária, para alforriar, por sua vez, os seus irmãos de tribus, de maneira que veio afinal Chi-co-Rei a ter todo o seu povo libertado.

Em várias províncias se formaram sociedades anties-cra vagis tas, com o fim de angariar dinheiro para alforriar escravos. Essa cumplicidade do povo e das sociedades antiescravagistas é bastante explicável. Já de há muito vinha sendo o elemento servil o melhor tratado. Os senhores desalmados eram menos numerosos e tamanho contacto se estabelecera entre escravos e livres que, em muitos casos, a escravidão era apenas uma questão de direito e não de fato. O escravo era parte integrante da família, com ela convivia, com ela partilhava de alegrias e tristezas. Ocorria isso até mesmo nas regiões rurais, onde a escravidão sempre foi mais rigorosa.

O branco mamava o leite da escrava preta, dela aprendia as primeiras palavras e as primeiras superstições, as primeiras cantigas e os primeiros pecados. O filho do senhor brincava nos terreiros das casas-grandes ou das fazendas com os molequinhos, escravos muitos deles, tantas vezes seus próprios irmãos de sangue, pois uma das chagas da escravidão era criar, nas fazendas e engenhos, esses serralhos em que os senhores davam pasto à sua concupiscência, diminuindo-se e desmoralizan-do-se. No interior das casas a escrava convivia dia e noite com as demais pessoas da família. As narrativas dos viajantes e as gravuras da época mostram eloquente e interessantemente esses aspectos da vida familiar.

Os escravos viviam, pois, em contacto contínuo com todas as classes sociais, sendo barbeiros, cabeleireiros, pedreiros, aguadeiros, carregadores, cocheiros, marceneiros, alfaiates, cozinheiros, padeiros e até mesmo alcoviteiros, isto é, os intermediários nos amores do sinhô-mo-ço e da sinhazinha, chegando muitos a tal perfeição na arte de tecer enredos e mexericos, que eram considerados verdadeiros mefistófeles nas suas maquinações e intrigas. José de Alencar, na sua comédia O demônio familiar, deixou uma amostra bem viva do moleque recadista e forjador de complicações familiares.

O escravo encontrou, portanto, no próprio povo um cúmplice para suas fugas. O próprio exército se negou à missão de prender escravos fugidos, alegando não serem "capitães de mato", para desempenhar tão triste mister. Estudantes e literatos, poetas e romancistas punham seu ardor moço, sua arte, sua eloquência, ao serviço da causa da libertação dos escravos. Por isso, na propaganda abolicionista vemos inteligências de todas as idades e de todos os feitios, homens das mais diversas classes sociais, ao serviço da grande causa.

Castro Alves, a genial voz lírica da nação, arrebatava as multidões ao calor de suas estrofes de fogo. Luiz Gama, ex-escravo, atacava com ironia e eloquência as podridões sociais. José do Patrocínio, o gigante negro da oratória, era a própria voz de sua raça clamando justiça e liberdade. André Rebouças, sereno mas enérgico, reclamava os direitos de seus irmãos de côr. Joaquim Nabuco era a própria aristocracia rural que se curvava sobre o sofrimento da raça, que lhe facultava, com seu trabalho, o granjeio da fartura econômica, afim de, no quebrar-lhe as cadeias, redimir-se do grande pecado que cometera. Rui Barbosa era a conciência jurídica do país insurgin-do-se contra uma legislação insueta e inhumana.

Todo esse ardor e toda essa agitação precipitaram os acontecimentos. A princesa Isabel, que presidia o governo na ausência do Imperador, estava ansiosa pela solução do grande problema brasileiro. Debalde seus conselheiros lhe aconselhavam prudência e mostravam a necessidade da abolição gradativa. Quando subiu ao governo o ministério abolicionista de João Alfredo, que iria apresentar o projeto de abolição, ela diz a Cotegipe, partidário do adiamento da lei emancipadora: "Então, ganhei ou não?…" Ao que respondeu o grande político baiano. "Vossa Alteza ganhou a partida, mas perdeu o trono."

A parte final da campanha foi rápida. Havia tal excitação da parte do povo, que seria imprudente retardar a votação e assinatura da lei, a qual constava de dois únicos artigos:

"Artigo 1.° — E’ declarada extinta a escravidão no Brasil. — Artigo 2.° — Revogam-se as disposições em contrário".   A princesa regente, depois que o projeto de lei correu todos os tramites, apressou-se em assinar, com pena de ouro, a lei que se chamaria, na historia do Brasil de leí áurea. Uma testemunha ocular do ato, João Marques, assim descreve a cena da assinatura: "Eu vi D. Isabel, radiante de felicidade, curvar-se sobre a mesa e assinar o decreto de sua imortalidade e de sua deposição. Entre mim e ela não mediava a distância de dois metros. Eu vi Patrocínio pronunciar as palavras que nunca mais I se extinguirão de meus ouvidos: "Minha alma sobe de joelhos nestes Paços…" E nós, os abolicionistas, nos abraçávamos, nos beijávamos, com os olhos luzindo de lágrimas e com a voz enrouquecida pelos gritos de admiração e de alegria."

Assim chegava a seu termo, naquele gesto de desprendimento da princesa e naquele gesto de gratidão do tribuno negro, o grande movimento que empolgara a alma inteira da nação . Comentando esse acontecimento, escreveu o professor Percy Alvim Martin, da Universidade de Stanford, nos Estados-Unidos: "Graças, pois, às circunstâncias peculiares sob as quais se desenrolou a abolição, o desaparecimento da escravidão não deixou às demais gerações uma herança de ódio eterno ou problemas não resolvidos. O problema doméstico mais difícil que o Brasil teve de afrontar foi resolvido de um modo que reflete o mais alto crédito para o bom senso, o domínio pessoal e a humanidade do povo brasileiro".

Brasil, esperança do mundo

 

TERRA fecunda e maternal, que abriga e dá pão a gen-tes de todas as latitudes e de todos os climas, sem preconceitos de côr e sem ódios de raça, é o Brasil o cadinho em que se aprimora, para os séculos vindouros, uma civilização de caráter cristão e de espírito aberto ao bafejo das idéias nobres e humanas. Não foi em vão que encharcaram o seu solo o sangue do jesuíta, as lágrimas do branco saudoso, o suor do negro escravo e lágrimas, suor e sangue dos seus índios e donos da terra conquistada.

Nas lições de sua história, nos ensinamentos de sua religião, no exemplo de seus filhos, encontra êle os roteiros de suas novas "bandeiras", para a conquista dos séculos por vir. Nos seus mares, nas suas montanhas, nos seus rios, nas suas florestas, nos seus campos, jazem riquezas sem conta, com que alimentar e enriquecer a todos quantos trabalhem e ousem. Na sua música, "flor amorosa de três raças tristes", cantam as saudades dos que por êle morreram c trabalharam, e ressoam as vozes alegres dos que plasmam no momento a sua grandeza futura.

De braços abertos, como o Cristo enorme que, no alto da montanha, deixa a descoberto o coração acolhedor, êle também convida os que são perseguidos, os que têm fome de justiça, os que querem ganhar honestamente o seu pão, a fazer parte de sua grande família, que une o negro de carapinha ao ariano de cabelo louro, o homem das montanhas ao homem das planícies, o gaúcho ao amazonense, o homem do litoral ao homem das florestas impervias.

E’ uma terra moça que sente abalar-lhe os flancos a dôr forte de produzir e criar. Os seus filhos se erguem "do berço esplêndido", que Deus lhes deu, para as tarefas laboriosas da construção de uma grande pátria, de uma pátria em que a liberdade seja religiosamente respeitada, em que não se humilhe nem escravize ninguém com os mitos da força, da raça e da classe. A essa tarefa de civilização e de grandeza convoca o Brasil todos os homens de boa vontade. A sua bandeira acena a todos quantos queiram trabalhar e criar. A terra é dadivosa e boa, como dela já dizia o escrivão Caminha.   E os seus homens podem não ser arianos puros, mas são humanos e são cristãos.

O Brasil, pela sua extensão e pela sua riqueza, pela sua inteligência e pela sua humanidade, é ainda a esperança do mundo, que as "idéias loucas" devastam. Bem viu o seu poeta genial, Castro Alves, o grande símbolo de sua bandeira, quando cantou:

 

"Auriverde pendão de minha terra
Que a brisa do Brasil beija e balança.
Estandarte que a luz do sol encerra
E
as promessas divinas da esperança.. .**

 


Fonte: Maravilhas do Conhecimento Humano, 1949. Complemento ao livro de Oscar Mendes.

Comentários

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Henry Thomas

  3 Responses to “Resumo completo de História do Brasil até o fim da escravidão”

  1. ruim naum gostei

  2. sobre a escravidao essa ferida nunca se cicatrizara…

  3. Bem, eu achei tudo ótimo, mais muito resumido é um pouco ruim.

    CONTINUEM ASSIM.

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