Agesilau – Vidas Paralelas de Plutarco (século III)

Agesilau – Vidas Paralelas de Plutarco (século III)

Índice

VIDAS PARALELAS DE PLUTARCO

AGESILAU

Nascimento e educação de Agesilau.

Arquidano, filho de Zeuxidamo, tendo reinado gloriosamente na Lacedemônia, deixou dois filhos, um dos quais foi Ágis, filho de uma notável dama chamada Lampido e o outro foi Agesilau, muito mais moço, de quem era mãe a filha de Melissípidas, que tinha por nome Eupolia. Como a sucessão ao reinado pertencesse ao filho mais velho, Agesilau devia permanecer como cidadão comum e foi criado e educado, assim, na disciplina lacônica, a qual era muito dura e penosa, mas com a vantagem de ensinar aos meninos uma rígida obediência. Considera-se que seja esta a causa pela qual o poeta Simônides chama Esparta damasim-brotos, isto é, domadora dos homens, porque ela torna, pelo longo hábito, seus cidadãos maleáveis e obedientes às suas leis, tanto ou mais do que qualquer outra cidade que tenha existido no mundo, domando-os desde a sua infância, como se faz com os potros. A lei isentava e dispensava desta sujeição os meninos que deviam suceder na realeza; mas Agesilau recebeu-a mais naturalmente do que os outros em idênticas circunstâncias, pois chegando a comandar, tendo aprendido desde a infância a obedecer, foi esta causa de saber melhor que qualquer outro rei acomodar-se e comportar-se com seus súditos, amoldando, juntamente com a grandeza real e as maneiras de príncipe, a cortesia e o hábito de contentar-se com o pouco, que havia adquirido pela educação.

Seu retrato físico e moral.

II. No tempo em que ele se achava fazendo parte daqueles grupos de crianças que são educadas juntas, Lisandro, afeiçoou-se a ele, principalmente devido à sua gentileza, pois sendo mais corajoso e mais firme em suas opiniões do que qualquer outro, como aquele que deseja, em todas as coisas, ser o primeiro, com uma veemência e uma impetuosidade tão grandes em tudo quanto queria, que era impossível vencê-lo ou forçá-lo, era, por outro lado, tão dócil e tão flexível, que fazia tudo quanto lhe ordenavam com delicadeza, nada fazendo, entretanto, por medo, pois sentia mais ser censurado do que ser sobrecarregado de trabalho. E quanto à imperfeição da sua perna, que era mais curta do que a outra, a beleza de sua pessoa que estava então desabrochando, aliada à sua gentileza, tornavam-no tão paciente e tão alegre que ele mesmo era o primeiro a caçoar e a se regozijar, o que cobria grandemente o seu defeito e fazia com vantagem aparecer a grandeza de sua coragem, pois por ser manco, não recusava por isso trabalho algum, Quanto ao seu rosto, não poderemos retratá-lo nunca, porque ele não queria e proibiu expressamente em seu testamento, que fizessem pintura ou modelassem a imagem de seu corpo, o que se presume, por ser de pequena estatura e por esperar muito pouco de si mesmo para ver. Mas como estava sempre alegre e disposto e nunca triste ou irritado, nem por palavras, nem pela fisionomia, isto o tornava mais agradável e mais amável, mesmo em sua velhice; todavia os éforos (1), conforme Teofrasto escreve, condenaram a pagar a multa seu rei Arquidamo, porque este havia desposado uma mulher de pequena estatura, e que assim engendraria reizinhos e não reis.

(1) Designação dada, em Esparta, aos cinco magistrados eleitos para fiscalizar e contrabalançar a autoridade dos reis.

Relações de Alcibíades com Timéia, mulher do rei Agis, que não reconheceu seu filho Leotíquides, senão na hora da morte.

III. Mas, na época em que Ágis, filho mais velho de Arquidamo, reinou, Alcibíades, expulso de Atenas, fugiu da Sicília para a Lacedemônia, e não fazia muito tempo que estava em Esparta quando foi suspeito de entreter relações com a mulher do rei Ágis, que se chamava Timéia, de forma que, por esta razão, Ágis jamais considerou seu filho a criança que ela teve, dizendo que a havia concebido de Alcibíades. Timéia nunca se preocupou absolutamente com isto, pois, conforme Duris escreve, algumas vezes, estando ela em sua alcova, entre as mulheres que a serviam, chamava a criança, baixinho, Alcibíades e não Leotíquides; também, segundo consta, Alcibíades mesmo dizia que não era para fazer mal nem desgostar a pessoa alguma que se havia aproximado da rainha Timéia, mas somente porque desejava que houvesse reis da Lacedemônia engendrados de sua semente. Todavia, foi constrangido, nessa ocasião, a sair fora da Lacedemônia, devido a desconfiança que tinha do rei Agis, o qual sempre teve a criança por suspeita, não a considerando nunca por legítima, até que, caindo doente, no leito da morte, Leotíquides foi se jogar de joelhos, as lágrimas nos olhos, à sua frente e soube tão bem agir, que Ágis, na presença de testemunhas, declarou que o reconhecia por seu filho.

Agesilau lhe toma a coroa, com a influência de Lisandro

IV. No entanto, depois da morte de Ágis, Lisandro, que havia derrotado os atenienses por mar e tinha mais influência e autoridade na cidade de Esparta do que qualquer outro, empreendeu fazer cair a realeza sobre Agesilau, dizendo que ela não pertencia a Leotíquides, levando em conta que era bastardo; o mesmo diziam também vários outros dos cidadãos que estimavam a virtude de Agesilau e o favoreciam muito afetuosamente, porque havia sido criado e educado com eles. Mas também, ao contrário, havia em Esparta um adivinho chamado Diópites, que sabia de cor uma infinidade de profecias antigas e era tido como grande sábio e homem de autoridade em tudo o que se referia às coisas divinas, o qual afirmava que não era permitido a um manco ser rei de Esparta e, para provar, alegou em juízo este antigo oráculo:

Olhai bem, ó nação espartana,
Se bem que sejas em coragem altiva,
Que realeza manca não germine
Em ti, que tens o porte reto e firme;
Pois de outra forma desgraças te virão
Não esperadas, que muito tempo te manterão
Enolvida em tormentas de guerra,
Que de homens torna despovoada a terra.

Lisandro, refutando, replicou que se os espar-tanos temiam este oráculo, era antes de Leotíquides que se deviam guardar, porque não interessava em nada aos deuses que alguém, tendo um pé esfolado, Viesse a ser rei, mas sim que fosse legítimo e verda-deiramente oriundo da raça de Hércules; pois seria então, dessa forma, dizia ele, que a realeza viria a coxear. Agesilau alegava ainda mais que o mesmo o deus Netuno havia testemunhado que Leotíquides era bastardo: pois havia constrangido Agis, por um tremor de terra, a sair do quarto de sua mulher e que assim, mais de dez meses depois, havia nascido Leotíquides. Foi assim que Agesilau, por essas razoes e por esses meios, não somente foi declarado rei de Esparta, como também lhe foi adjudicada a sucessão de bens de seu irmão Ágis e negada uma demanda a Leotíquides; todavia, vendo que os parentes do lado de sua mãe eram extremamente pobres, mas pessoas de bem, deixou-lhes a metade de seus haveres, com o que conquistou honra e benevolência de todo o mundo, em vez de inveja e malevolência que, ao contrário, teria levantado por causa desta sucessão.

Adquire grande autoridade.

V. E, com relação ao que Xenofonte escreve, de que, obedecendo ao seu país, adquiriu tão grande poder, que fazia completamente tudo quanto queria, eis o que havia: os éforos e os senadores possuíam então soberana autoridade no governo do Estado, mas aqueles não ficavam em seus cargos senão um ano e os senadores conservavam esta honra durante toda a vida, sendo ordenados e estabelecidos para refrear a autoridade dos reis, a fim de que não tivessem todo o poder, pois como escrevemos mais amplamente na vida de Licurgo, na ocasião em que os reis vinham a suceder-se no reinado, tinham sempre uma desavença e uma inimizade hereditária, por assim dizer, entre eles. Mas Agesilau seguiu um caminho inteiramente contrário ao de seus predecessores, pois em vez de altercar com eles expressou-lhes toda a honra e toda a reverência, não empreendendo nada sem que não lhes comunicasse primei-ramente e, quando era chamado por eles, cami-nhava mais depressa do que o próprio passo. Todas as vezes que eslava em seu trono a dar audiência e os éforos apareciam, levantava-se à frente deles, e quando um novo senador vinha a ser eleito, enviava-lhe um traje e um boi como prêmio. Por estes meios êle aumentava e honrava a dignidade de seus cargos, e sorrateiramente ia ampliando seu próprio poder e anexando à realeza a grandeza procedente da benevolência que lhe testemunhavam.

Eqüidade de Agesilau em face de seus inimigos; sua fraqueza para com os amigos.

VI. Quanto ao seu mau comportamento para com alguns cidadãos, era menos repreensível inimigo do que amigo, pois como não prejudicava jamais injustamente aos seus desafetos, mas ajudava, muitas vozes, erradamente e em coisas injustas, aos seus amigos, com vergonha de não recompensar e honrar suficientemente seus inimigos quando estes haviam procedido bem, não podia também condenar nem censurar seus amigos ainda que tivessem agido mal, considerando que nada podia ser reprovável do que faziam. Ao contrário, se acontecia que algum de seus adversários ficava aflito, era o primeiro a mostrar compaixão e o socorria voluntariamente, se o outro reclamava: por estes meios ganhou a boa graça e a amizade de todo o mundo. Os éforos, vendo tal e temendo seu poder sempre crescendo, condenaram-no ao pagamento de uma multa, ajuntando, que isto era porque êle possuía sozinho os corações dos cidadãos, os quais deviam ser comuns. Na verdade, assim como há filósofos naturais que mantêm a opinião de que quem fizesse desaparecer do mundo a discórdia e a disputa, o curso dos corpos celestes pararia e a geração e todo o movimento cessariam, porque dizem ser a razão a mantenedora da harmonia deste mundo, também parece que quem estabeleceu as leis dos lacedemônios misturou no governo, a ambição e a inveja entre os cidadãos, como um aguilhão da virtude, querendo que as pessoas de bem tivessem sempre alguma coisa a debater com os outros, estimando que aquela covarde e preguiçosa graça pela qual os homens se concedem e se perdoam a si mesmos, sem se controlar, era com falsas insígnias, denominada concórdia. Pensam alguns que certamente Homero (2) teve esta mesma opinião porque, do contrário, não faria Agamenon se alegrar ao ver Ulisses e Aquiles altercar com pesadas palavras, se não considerasse que o debate e a inveja entre homens influentes (o que os faz terem olho aberto um sobre o outro) se tornaria um grande bem em favor da coisa pública; todavia, sem dúvida isto não é assim nem se deve ocasionalmente concordar, porque as discussões e as divergências excessivas entre os cidadãos são muito perigosas e prejudiciais ao bem público.

É nomeado para guerrear o rei da Pérsia.

VII. Pouco depois de Agesilau ter alcançado o trono da Lacedemônia, chegaram alguns viajantes da Ásia trazendo notícias de que o rei da Pérsia estava preparando uma poderosa armada com o objetivo de destituir os lacedemônios da prioridade nos mares. Além disso, Lisandro, desejando ser outra vez enviado à Ásia para socorrer seus amigos, os quais havia deixado como senhores e donos das cidades e fortes do país, de onde estavam sendo expulsos por seus cidadãos, outros castigados de morte porque abusavam violenta e tiránicamente de sua autoridade, sugestionou Agesilau a que empreendesse viagem e passasse à Ásia, para ir guerrear esse rei bárbaro longe da Grécia, antes que sua armada e seu equipamento ficassem prontos. Para conseguir isto mais facilmente, escreveu aos seus amigos da Ásia pedindo enviassem a Esparta solicitação para que seu capitão fosse Agesilau, o que eles fizeram; e Agesilau, em plena assembléia do conselho da cidade, aceitou o cargo, com a condição de lhe entregarem trinta capitães espartanos para o assistir e aconselhá-lo em seus empreendimentos, dois mil escravos libertos e seis mil dos aliados da Lacede-mônia. Isto lhe foi fácilmente concedido mediante a interferência de Lisandro e enviaram-no logo com os trinta capitães, dos quais Lisandro foi o primeiro, não somente pela autoridade e reputação que havia adquirido, como também pela amizade que tinha por Agesilau, o qual se sentia mais preso a êle por lhe haver conseguido aquela posição do que por tê-lo feito chegar à realeza.

(2) Odisséia, L. VIII, v. 77.

Sacrifício de uma corça a Diana.

VIII. Enquanto o exército se reunia no porto de Geresto, Agesilau, com alguns de seus amigos, foi à cidade de Áulida, onde lhe aconteceu que à noite, dormindo, alguém lhe disse: — "Ó rei dos lacedemônios, sabes que nunca houve capitão-general eleito em toda a Grécia, a não ser antigamente Agamenon e tu agora, depois dele, e para que comandes os mesmos povos que ele, quando vais guerrear os mesmos inimigos, partindo do mesmo local, é razoável que faças um mesmo sacrifício à deusa, como ele fez, à sua partida". Agesilau, tão logo teve esta visão, lembrou-se de que Agamenon, persuadido pelos adivinhos, sacrificava naquele mesmo lugar sua própria filha; todavia ele não se assustou, e de manhã deu conta a seus amigos do acontecido e disse-lhes que sacrificaria à deusa, achando ser verossímil que ela se agradasse, mas não queria imitar a cruel devoção do antigo capitão Agamenon. E, dizendo isto, mandou trazer uma corça coroada com flores, ordenou a seu adivinho que a imolasse, não concordando que tivesse a honra desse feito, como era costume no lugar, aquele que fora escolhido pelos da Beócia; ouvindo isto, os magistrados e governadores da Beócia ficaram descontentes e enviaram seus beleguins a Agesilau, intimando-o a que desistisse de sacrifícios ali naquele local, contra as leis, privilégios e costumes do país. Os que foram enviados fizeram-lhe saber sua missão, mas vendo que o animal já havia sido imolado e seus quartos jaziam sobre o altar, eles se apoderaram daqueles restos e os atiraram fora. Isto irritou Agesilau, que estava na hora de seu embarque e dali saiu furioso contra os tebanos, com desagradável impressão de sua viagem por causa desse sinistro presságio, o qual lhe parecia prognosticar que tal saída não dana o resultado que desejava.

Inveja de Lisandro.

IX. Chegando à cidade de Éfeso, ficou logo descontente com as honras prestadas a Lisandro, vendo o seu grande séquito, pois todos iam continuamente à sua casa para homenageá-lo e, quando saía seguiam-no e acompanhavam-no por toda a parte, como se Agesilau não tivesse senão o nome e a aparência de capitão-general pelas leis da Lacede-mônia, e como se Lisandro fosse aquele que, em verdade, tivesse o poder e a autoridade sobre tudo, pois nunca havia sido enviado capitão grego nessas condições, isto é, que tivesse adquirido tanta reputação, nem se tivesse feito tão temível quanto êle, nem jamais houve homem que fizesse mais benefícios aos seus amigos, nem maiores danos a seus inimigos; estas coisas, estando ainda vivas na lembrança de todos, os do país ainda se lembravam e viam em Agesilau um homem simples, popular, que pouco se mostrava em sua maneira de agir; ao contrário, reparavam em Lisandro a mesma veemência, a mesma aspereza e sobriedade no falar que haviam outrora conhecido; por isso, todo o mundo se dobrava completamente diante dele, acontecendo que só êle comandava. Isto foi a causa pela qual os outros espartanos de início se zangaram, porque parecia terem vindo para servir a Lisandro e não para aconselhar o rei. Mas, depois, Agesilau mesmo se aborreceu e ficou descontente também, se bem que por natureza não fosse invejoso nem se ressentisse quando honravam outros que não ele; sendo, porém, por natureza, muito ambicioso de glória e homem corajoso, tinha receio de que se praticasse algum belo feito nessa guerra, o atribuíram a Lisandro, pela grande reputação que desfrutava; assim, começou a portar-se desta maneira para com ele: primeiramente, contradizia todos os seus conselhos e todas as empreitadas que lhe punha à frente; mesmo aquelas a que ele se mostrava mais aficionado, não executava nenhuma, mas tomava outras em seu lugar. Ainda mais se alguém tivesse contas a acertar com ele ou reclamasse alguma coisa, se se apoiavam sobre o favor de Lisandro, enviava-os de volta sem nada fazer.

Trata Lisandro de tal maneira que o obriga a separar-se.

X. Semelhantemente, também os julgamentos, se havia alguns que Lisandro considerava mal, podiam estes interessados estar seguros de ganhar seus processos; ao contrário, se Lisandro se afeiçoava a algum e o desejava recompensar, era difícil salvar-se da condenação a multa. Todas estas demonstrações se faziam ordinariamente, não por acaso, uma ou duas vezes, mas igualmente, como de propósito deliberado. Lisandro, desconfiando da coisa, não a escondeu aos seus amigos, mas lhes disse francamente que era por sua causa que lhe faziam isto. Portanto, aconselhou-os a que fossem fazer a corte ao rei e aos que tinham mais força do que ele.

Agesilau considerou que ele dizia e fazia tudo isto para suscitar o ódio do mundo contra êle; por isto, desejando causar-lhe ainda maior despeito, estabeleceu-o como comissário dos víveres e distribuidor das carnes. E, depois de haver assim feito, segundo escrevem, êle disse em voz alta na presença de diversos que o puderam ouvir: — "Que vão agora fazer a corte ao meu distribuidor de carne". Lisan-dro, lamentando-se, disse-lhe: — "Francamente, rei Agesilau, sabes muito bem como deves engolir teus amigos". "Faz-se isto, respondeu Agesilau, aos que desejam passar sobre minha autoridade e ser maiores do que eu". "Vê, replicou Lisandro, não o fiz como estás dizendo; todavia, se tens tal opinião, dá-me algum cargo e algum lugar no qual, sem te zangar, eu possa ser útil".

Ressentimento de Lisandro.

XI. Depois desses propósitos, Agesilau en-viou-o para o Helesponto, onde Lisandro subornou um persa chamado Espitrídates, da província de Farnabazo, e o enviou a Agesilau com forte soma de ouro e de prata, e aproximadamente duzentos homens a cavalo; nem por isso a má vontade que havia concebido contra o rei diminuiu, mas ao contrário, guardou sempre o rancor em seu coração; de tal forma, procurava sempre os meios de fazer retirar das duas casas reais o privilégio que usufruíam da realeza, para a por em comum com todas as famílias dos espartanos; assim agindo, levantaria grande tumulto na cidade de Esparta, se não fosse morto tão cedo, como aconteceu numa viagem que empreendeu ao país da Beócia. Eis como as grandes naturezas ambiciosas, não podendo manter o meio termo e excedendo-se na direção da coisa pública, são muitas vezes causa de maior mal do que bem; ainda que Lisandro houvesse ficado ofendido e importuno, como estava verdadeiramente mostrando assim sua ambição fora do tempo e da estação, Agesilau não ignorava que havia muitos outros meios menos repre-ensíveis de castigar um personagem grande e ilustre, que pecava pela ambiciosa cobiça de mostrar somente a sua pessoa. É do meu aviso que todos os dois, cegos por uma mesma paixão, faliram; um, por não reconhecer o poder de seu superior, e o outro por não poder suportar a ignorância e a imperfeição de seu amigo.

Agesilau entra na Frigia, onde se apodera de diversas cidades.

XII. Ora, de início, Tissafernes, temendo Agesilau, teve alguma trégua com ele, entendendo que o rei se contentaria em deixar as cidades gregas da Ásia em plena liberdade; mas, desde que julgou haver reunido forças suficientes para o combater, declarou-lhe a guerra, a qual Agesilau aceitou, mesmo porque tinha grandes esperanças na Grécia, do que fana alguma coisa grandiosa nessa viagem e, pessoalmente, considerava uma grande vergonha, que os dez mil gregos, voltando do fundo da Ásia até o mar maior (3), sob o comando de Xenofonte, tivessem vencido e derrotado o exército do rei, tantas vezes quantas quiseram, e ele que era capitão-general dos lacedemônios, os quais ditavam a lei no mar e na terra, não praticara nenhum ato digno de memória entre os gregos. Assim, para vingar sem demora a deslealdade perjura de Tissafernes, fingiu primeiramente querer entrar no país da Caria; por esse meio, o bárbaro aí amontoou toda a sua força, mas de súbito voltou a rédea, rápido, e se atirou dentro da Frigia, onde se apoderou de diversas cidades, ganhando muitos bens, fazendo ver à sua gente que violar o acordo de paz ou trégua que juraram, significava menosprezar os deuses; mas decepcionar e abusar de seus inimigos não é somente justo, mas também honroso e traz proveito, unido ao prazer.

(3) «Maior» não está no grego.

Forma-se um esquadrão de cavalaria.

XIII. Desse modo, porque era o mais fraco da cavalaria e as entranhas dos animais sacrificados aos deuses se achavam defeituosas, Agesilau voltou para a cidade de Éfeso, onde reuniu cavalarianos, dando a entender aos homens ricos que não desejavam pessoalmente guerrear, que os dispensava, sob a condição de fornecerem um homem e um cavalo de serviço em seu lugar, e muitos assim fizeram, de maneira que, em poucos dias, Agesilau encontrou bom número de valorosos guerreiros, ao invés de infantes que não valiam nada; esses que não iam com vontade à guerra assalariavam os que iriam de boa vontade em seu lugar e igualmente também os que não desejavam servir a cavalo, no que seguiu sabiamente o exemplo do rei Agamenon (4), o qual dispensou um rico pusilânime de ir pessoalmente guerrear, tomando-lhe um bom jumento.

(4) Ver a Ilíada, L. XXIII, v. 295.

Agesilau faz vender os prisioneiros nus para mostrar a fraqueza dos persas.

XIV. Ora, havia ele ordenado aos comissários que vendiam publicamente em leilão, a quem mais oferecesse, os prisioneiros de guerra, que os despojassem, deixando-os nus, o que fizeram; e havia muita gente que comprava de bom grado seus despojos e suas vestes; mas, quanto aos corpos, ironizavam vendo-os assim brancos, delicados e tenros, por terem sido criados nas delícias da sombra, cobertos, de tal modo que se encontrava poucas pessoas animadas a fazerem oferta, porque os consideravam pessoas inúteis, nada valendo. Então Agesilau, encontrando-se presente ao leilão, expressamente para esse fim, disse a sua gente: — "Vede, meus amigos, ali estão as pessoas a quem tereis de combater e aqui os despojos pelos quais combatereis".

Derrota Tissafernes e toma seu acampamento.

XV. Depois, tendo chegado a ocasião de se organizar em campanha e entrar no país dos inimigos, Agesilau disse publicamente que entraria dentro da Lídia, não mais com a intenção de enganar Tissa-fernes; mas este mesmo se enganou, pois por ter sido decepcionado a primeira vez, não depositou mais fé nessa segunda proclamação, mas persuadiu-se de que seria por esse golpe que Agesilau entraria na Caria, levando em conta que era um país de solo desigual e desagradável para a cavalaria, no que se sentía mais fraco; não obstante, Agesilau entrou, como havia predito, dentro da região plana, na qual está situada a cidade real da Lídia, Sárdis. Tissafernes foi constrangido a acorrer em socorro, apressadamente, e chegando com extrema diligência, com sua cavalaría, surpreendeu pelos campos, vários dos inimigos afastados em desordem, daqui e dali, pilhando a planície e passando a maioria à espada. Ouvindo isto, Agesilau, falando consigo mesmo que os soldados de infantaria de seu inimigo não podiam ter ainda chegado e que êle, ao contrário, tinha o seu exército completo, por esse meio pensou ser melhor acudir prontamente à batalha do que a prolongar por mais tempo; misturou por entre a cavalaria seus soldados de infantaria superficialmente armados, ordenando-lhes que fossem rapidamente atacar o inimigo, enquanto êle faria seguir na retaguarda os outros, pesadamente armados, o que fizeram. Mas os bárbaros se puseram logo a caminho e os gregos, perseguindo-os Vivamente, e de perto, tomaram-lhes o acampamento e mataram um grande número de fugitivos.

Os lacedemônios lhe dão o comando geral em terra e mar, o que era sem precedentes.

XVI. Depois desta batalha tiveram meios, não somente de percorrer e pilhar o país do rei à vontade, como também de verificar o castigo de Tis-safernes, que era homem mau e rude inimigo da nação grega: pois o rei da Pérsia enviou imediatamente em seu lugar um outro tenente seu chamado Titrausto, que lhe mandou cortar a cabeça, e enviou uma proposta a Agesilau, solicitando-lhe atender ao despacho e oferecendo-lhe uma certa quantidade de ouro e prata para voltar a seu país. Agesilau respondeu que, quanto à paz, não competia a ele firmá-la e sim aos lacedemônios e que se achava mais à vontade para enriquecer seus soldados do que a si próprio; mas, além disso, os gregos não consideravam honroso aceitar presentes do inimigo, e sim os despojos; todavia, querendo gratificar Titrausto, porque havia vingado um inimigo comum de todos os gregos, conduziu seu exército para fora da Lídia, na Frigia, mediante a soma de trinta talentos (5) que lhe entregou pelos seus gastos. Assim, quando estava pelo caminho, recebeu (6) um bilhetinho dos oficiais e magistrados de Esparta, que lhe diziam ter-lhe entregue o comando da armada è o exército de terra, o que jamais outro capitão lacedemônio, antes dele, havia tido. Aliás era ele, sem contradição, o maior e o mais digno personagem vivo de seu tempo, conforme Teopompo escreve, como aquele que se fazia estimar mais pela sua virtude e não pela grandeza de sua autoridade; todavia, parece que neste lugar ele cometeu uma falta, ao fazer seu tenente, na armada, um tal Pisandro, irmão de sua mulher, quando devia haver outros capitães mais sábios e experimentados, tomando assim mais cuidado em gratificar sua mulher e honrar um aliado seu, do que fazer o que era mais útil para o país.

(5) Dezoito mil escudos. Amyot.
(6) Uma scytale — bastão cilíndrico, sobre o qual os espartanos enrolavam em espiral as margens do pergaminho servido para escrever os despachos do Estado. O próprio despacho.

Vai atacar o sátrapa Farnabazo, na Frigia.

XVII. Isto feito, conduziu seu exército pelas províncias de Farnabazo, onde encontrou, não somente abundância de víveres, mas também grande soma de dinheiro; dali passou ao reino da Pafla-gônia, onde fez aliança com o rei Cotis, que procurou afetuosamente sua amizade, pela virtude e constante fé que se achavam nele; como fez também Espitrídates, o qual abondonou Farnabazo para entregar-se a Agesilau, e depois que se entregou, nunca mais se separou dele, mas o seguiu e acompanhou sempre por toda a parte. Tinha ele um filho que era um menino muito bonito, chamado Mega-bates, do qual Agesilau estava enamorado e uma filha muito formosa prestes a casar, que Agesilau fez desposar o rei Cotis: tomando dele mil homens da cavalaria, com dois mil homens da infantaria superficialmente armados, voltou à Frigia onde destruiu as províncias sob o governo de Farnabazo, o qual não ousava enfrentá-lo no campo, nem mesmo fiar-se em suas fortalezas, e ia sempre fugindo à sua frente, levando consigo a maioria de tudo o que mais apreciava e que lhe era mais caro, retirando-se sempre para trás, de um sítio para o outro, até que Espitrídates acompanhado por um espartano chamado Erípidas, apertou-o um dia de tal forma, que lhe tomou o acampamento, apoderando-se de todo o mobiliário precioso que levava consigo. Mas ali Erípidas mostrou-se um tanto brusco em rebuscar o que havia sido subtraído do saque, obrigando os bárbaros a se entregarem, chegando ao ponto mesmo de querer visitar e remexer tudo. Isto irritou tão fortemente Espitrídates, que se retirou imediatamente com os paflagonianos para a cidade de Sár-dis, pelo que Agesilau irritou-se também com o que lhe estava acontecendo em toda essa viagem, desolado por haver perdido um homem de bem como Espitrídates e a tropa de guerreiros que levava consigo, e que não era nada pequena; tinha ainda receio que percebessem essa mesquinharia da qual havia sempre procurado manter-se puro e limpo, não somente a si, mas também a todos os de seu país.

Amor de Agesilau por Megabates.

XVIII. Mas, além dessas causas aparentes, ainda o apunhalava fortemente o amor do menino, que estava profundamente impresso em seu coração, tanto que, quando o tinha junto a si, seguindo sua natural tendência de não querer jamais ser vencido, esforçava-se por combater seu desejo, de maneira que um dia Megabates aproximando-se dele para acariciá-lo e beijá-lo, êle virou a cabeça, e o menino, envergonhado absteve-se, daí em diante, não ousando mais saudá-lo, senão de longe. Isto desagradou por outro lado a Agesilau, arrependido de haver desviado o beijo de Megabates e fingia admirar-se, porque êle não o saudava mais com um beijo como o havia acostumado, ao que alguns de seus familia-res lhe responderam então: — "Tu mesmo és a causa, majestade, que não ousaste esperar, mas tiveste medo do beijo de um tão belo menino; pois voltará ele tão logo se lhe diga, contanto que te ihslenhas de fugir outra vez, como já fizeste". Ouvidas estas palavras, Agesilau ficou um espaço de tempo muito pensativo, sem dizer nada e por fim respondeu-lhes: — "Não há necessidade que vós lhe faleis disso, pois eu vos asseguro que ficaria mais a vontade em poder ainda resistir a tal beijo, do que se tudo o que vejo diante de mim se transformasse em ouro’ . Assim se comportou Agesilau para com Megabates enquanto estava a seu lado, mas ao contrário, quando foi afastado, ele se encontrou tão ardentemente apaixonado, que seria difícil afirmar, se o menino voltasse outra vez e fosse apresentado à sua frente, se ele se defenderia ou se deixaria beijar.

Entrevista de Agesilau e Farnabazo.

XIX. Depois Farnabazo, procurando falar com ele, reuniu-os juntos um ciziceniano chamado Apolofânio, que era amigo comum de ambos; chegou primeiro Agesilau com seus amigos ao lugar marcado para a entrevista e, esperando Farnabazo, atirou-se sob uma árvore na sombra sobre a relva que estava alta e abundante, até que Farnabazo aí chegou também, ao qual estenderam peles macias de longo pêlo e tapetes lavorados em diversas cores, para se sentar em cima; entretanto, tendo vergonha de ver Agesilau assim deitado por terra sobre a relva nua, deitou-se também junto dele, se bem que trajasse uma veste de tecido maravilhosamente fino e de cores muito ricas. Depois de se terem saudado, Farnabazo começou a falar, não faltando as boas admoestações e justas lamentações, como aquele que havia causado tanto prazer aos lacedemônios na guerra contra os atenienses e como recompensa encontrava-se então pilhado e saqueado por eles. Agesilau, vendo os outros espartanos que assistiam a esta entrevista abaixarem os olhos de vergonha, não sabendo o que responder, porque não ignoravam que causavam dano a Farnabazo, tomou a palavra e respondeu desta maneira: — "Quando viemos para aqui, Farnabazo, sendo amigos do rei, agimos como amigos e agora que nos tornamos inimigos, agimos também como inimigos; vendo que queres ser um dos seus escravos, não é nada extraordinário se procuramos prejudicá-lo, fazendo-te mal: mas do momento que tu prefiras mais ser amigo e aliado dos gregos do que escravo do rei da Pérsia, considera que estes guerreiros, estas armas e estes navios, nós todos aqui estamos para guardar e defender teus bens e tua liberdade contra ele, sem a qual não há nada de belo, de bom nem de desejável neste mundo". A isto lhe respondeu Farnabazo abertamente, dando-lhe a entender qual era sua intenção: — "Pois se o rei, disse ele, enviar aqui um outro capitão para ser seu comandante, assegurai-vos que eu me tornarei imediatamente um dos vossos; mas lambem, se ele me dá o cargo e superintendência nesta guerra, não esquecerei, com diligência e afeição de fazer inteiramente tudo o que puder pelo seu serviço contra vós". Esta resposta agradou a Agesilau, o qual lhe tomando a mão ao se levantar com ele lhe disse: — "Oxalá, Farnabazo, que tendo um coração, como tens, fosses nosso amigo, e não nosso inimigo".

Estreita amizade de Agesilau com o filho de Farnabazo.

XX. Mas, assim que Farnabazo voltava com seus soldados, seu filho, que lhe havia ficado atrás, correu para Agesilau e, rindo, lhe disse: — "Majestade, quero entreter amizade e hospitalidade contigo", e dizendo isto lhe apresentou um dardo que mantinha em sua mão. Agesilau aceitou, ficando bem à vontade para ver que o menino era belo e quão gentil era o agrado que lhe fazia; olhou ao seu redor para verificar se havia alguém em sua companhia que tivesse alguma coisa de belo que pudesse ser próprio para lhe render igual prova, e percebendo o cavalo de um secretário seu, chamado Adeus, que estava arreado com um belo e rico arreio, mandou imediatamente retirá-lo e deu-o ao belo e gentil rapazinho, o qual depois, jamais esqueceu; mas algum tempo mais tarde, sendo expulso da casa de seu pai e privado de seus bens por seus irmãos, constrangido a fugir para o Peloponeso, teve-o sempre em singular recomendação, chegando mesmo a ajudá-lo em seus amores (7), pois o moço queria muito afetuosamente a um rapazinho ateniense, que se desenvolvia nos exercícios físicos para um dia competir nos jogos; mas, quando se tornou grande e rijo e se apresentou para ser arrolado no número daqueles que deviam tomar parte nos jogos Olímpicos, correu o perigo de ser rejeitado, pelo que o persa, que o amava, recorreu a Agesilau, solicitando-lhe auxiliar ao jovem campeão, de sorte que não sofresse mais a vergonha de ser recusado. Agesilau, desejando ajudá-lo até o fim, dedicou-se e obteve o que pedia, não sem grande trabalho e dificuldade.

(7) Ver as Observações.
(8) A Hidria.

Agesilau ama seus amigos além das leis da eqüidade.

XXI. Assim Agesilau, em todas as outras coisas era bem rígido e observava pontualmente tudo o que as leis ordenavam, mas nos negócios de seus amigos, ele dizia que guardar estreitamente a rigidez da justiça era uma cobertura com a qual se cobriam os que não queriam fazer nada pelos seus amigos. Nesse sentido, existe ainda uma cartinha que escreveu (8) a Idriano, príncipe da Caria, pedindo a libertação de um amigo seu: — "Se Nícias não errou, liberte-o; e se errou, liberte-o por amor de mim; mas seja como for, liberte-o". Tal era Agesilau ao tratar dos interesses de seus amigos; todavia, em muitas ocasiões, olhava primeiro a utilidade pública, como demonstrou certa vez, em que foi constrangido, um pouco perturbado e às pressas, a abandonar um que estimava, e que achava doente; e como o outro o chamava pelo nome quando partia, suplicando para não o abandonar, Agesilau voltou-se e disse: — "Ó como é desagradável (9) amar e ser sábio ao mesmo tempo! assim escreveu o filósofo Jerônimo".

(9) Outros lêem: «ter piedade e ser sábio ao mesmo tampo». Amyot.

Simplicidade, moderação e outras virtudes de Agesilau

XXII. Ora, já fazia dois anos completos que estava em guerra e não se falava mais, nas altas províncias da Ásia, senão em Agesilau, correndo por toda parte o glorioso renome de sua honestidade, sua abstinência, cortesia e simplicidade, pois, quando ia sozinho com sua comitiva pelos campos, alojava-se sempre dentro dos templos mais santos, querendo que os deuses mesmos fossem testemunhas do que fazia em sua vida particular, onde muitas vezes não dese-íamos que os homens vejam o que praticamos. Mais ainda, entre tantos milhares de soldados que estavam em seu acampamento, não se encontraria uma enxerga pior do que aquela sobre a qual dormia, e quanto ao frio e ao calor, suportava um e outro tão à vontade, que parecia ter nascido para suportar somente as variações do ar e das estações. Era bem agradável aos gregos moradores na Ásia, presenciar os sátrapas, tenentes do rei da Pérsia, governadores das provín-cias e outros potentados que anteriormente eram tão soberbos e intolerantes e viviam fartos na riqueza, na volúpia e nos prazeres, fazendo agora a corte, tomados de receio, a um homem que se apresentava simplesmente vestido com uma pobre e maltrapilha capa, e como eles se constrangiam e mudavam de opinião com uma simples palavra curta que lhes dizia ele, à moda lacomana, de maneira que vinha então à lembrança de muitos, estes versos do poeta Timóteo:

Marte é um tirano, mas a Grécia
Não se intimida com o ouro, a prata ou qualquer
riqueza.

É chamado a Esparta.

XXIII. Assim, toda a Ásia se achava em reboliço e, em diversos lugares, tomavam seu partido, voluntariamente. Depois de haver reformado as cidades e os fortes e de lhes haver entregue a administração pública com toda a liberdade e franqueza, sem efusão de sangue e sem banimento de um só homem, deliberou ele passar além e levar a guerra para além das costas do mar grego, indo combater pessoalmente o rei da Pérsia e fazendo-o arriscar suas riquezas e a vida de prazeres em que se comprazia, muito a seu gosto, lá nos distantes países de Ecbátana e de Susa, como se não tivesse tempo de mover a guerra entre os gregos, pois dispunha, à sua vontade, sem se mexer de sua cadeira, pela força do dinheiro, daqueles que governavam, em cada uma das cidades. Mas, entrementes, quando estava com este pensamento, chegou-lhe Epicídidas Espartano que lhe trouxe notícias de que a cidade de Esparta estava sendo acossada pela guerra feita pelos outros povos gregos; por essa razão, os éforos o chamavam e lhe ordenavam que voltasse para defender seu país.

Ó (10) gregos, que maiores males procurais,
Que jamais fizeram os bárbaros conjurados!

Como se poderia chamar por outro nome aquela cobiça ou aquela conjuração, que atirou os gregos uns contra os outros e os fez estacionar com suas próprias mãos a fortuna que os conduzia à felicidade, voltando contra suas próprias entranhas as armas que já estavam encaminhadas contra os bárbaros, chamando ao seu país a guerra que havia sido banida? Pois não sou da opinião de Demarato de Corinto, quando diz quç os gregos estavam privados de um singular prazer, por não terem visto Alexandre, o Grande, sentado no trono real de Dario; mas pelo contrário, creio que, antes, eles deveriam chorar, ao se lembrarem de que haviam deixado esta glória para Alexandre e para os macedônios, ao perderem loucamente famosos capitães da Grécia nas batalhas de Leutres, de Coronéia, de Corinto e da Arcádia.

(10) Eurípides, «As Troianas».

Deixa tudo para obedecer à voz da pátria.

XXIV. Todavia, Agesilau não praticou jamais ato mais meritório nem maior do que aquela retirada para o seu país, nem deu jamais um mais belo exemplo de obediência e de justiça devida à sua pátria, do que aquele. Aníbal, entretanto, quando começou a sentir sua decadência, quando estava sendo quase arrojado fora da Itália, não obedeceu senão com dificuldade aos seus concidadãos, que o chamavam para ir defendê-los da guerra que sustentavam dentro de seu próprio país. Alexandre, o Grande, sendo chamado pela mesma razão ao seu reino da Macedónia, logo que ali voltou, exclamou com ironia ao saber da grande batalha que seu tenente havia travado contra o rei Ágis: — "Parece-me, quando ouço contar essas notícias, que enquanto derrotávamos por aqui o rei Dano, êle sustentou lá na Arcádia uma batalha de ratos". Se é assim, se esses dois grandes capitães haviam tido em tão pouca conta seu país, não se deve portanto considerar a cidade de Esparta feliz, por haver tido um rei que lhe trouxe tanta honra e veneração e tanta obediência às suas leis, e que tão logo recebeu a ordem para voltar, abandonou e deixou os bens e o poder que tinha pacificamente conseguido com suas mãos, com uma esperança muito bem fundada e muito bem encaminhada, com muito mais vantagem, não embarcou para voltar subitamente, deixando, além disto, uma grande mágoa em todos os aliados e confederados de seu país, pelo fato de não terminar tão bela obra que havia tão bem começado? Certamente que sim. Dessa forma se refutou um dito de Demóstrato Feaciano, o qual dizia que os lacedemônios eram mais pessoas de bem, quando em público e os atenienses, em particular; pois Agesilau mostrou-se bom rei e excelente capitão publicamente e ainda se fazia sentir amigo mais dedicado em particular e mais agradável no trato familiar. Como o dinheiro persa tinha de um lado impressa a figura de um arqueiro, ele disse, afastando-se, que dez mil arquei-ros o expulsavam da Ásia; pois era esta quantia que haviam levado a Tebas e a Atenas e distribuído entre os oradores e líderes do povo, que suscitaram com seus discursos essas duas cidades poderosas e as fizeram pegar em armas contra os espartanos.

Passa pela Trácia, Macedónia, Tessália e Farsália.

XXV. Tendo, portanto, em sua volta, passado pelo estreito do Helesponto, seguiu caminho através da Trácia, onde jamais implorou nem ao povo, nem a qualquer príncipe bárbaro, caminho, para sua passagem, mas enviava-lhes somente uma mensagem: se queriam que passasse por suas terras como amigo ou como inimigo! Todos os outros o receberam amigavelmente e o honraram cada um segundo suas forças, mas os que se chamam (11) trocábanos, aos quais o próprio rei Xerxes distribuiu presentes para poder ter passagem amigável por suas terras, mandaram-lhe pedir, para o deixar passar, cem talentos (12) em prata e cem mulheres, ao que Agesilau, criticando-os, respondeu aos mensageiros: — "E por que não vieram eles em vosso lugar para os receber?" E dizendo isto, fez logo marchar seus soldados contra os bárbaros, que esperavam em formação de batalha para que ele supusesse que guardavam a passagem, e tendo-os rompido, dizimou um grande número na hora. O mesmo mandou dizer ao rei da Macedónia, se passaria por seu país como amigo ou como inimigo. Esse rei mandou responder que ia pensar. "Pois bem, replicou Agesilau, que pense portanto, mas enquanto isso, não deixaremos de caminhar sempre para a frente". O rei macedónio admirou-se de seu grande arrojo e, temendo lhe causasse algum desgosto ao passar, mandou pedir que passasse como amigo. Ora, estavam então os tessalianos em aliança com os inimigos dos lacede-mônios, pelo que passando pelo seu país, ele o saqueou e pilhou como terras de inimigos, e enviou à cidade de Larissa, Xenocles e Cita para convencer os seus habitantes, induzindo-os a tomar o partido dos lacedemônios. Esses dois embaixadores foram detidos prisioneiros, pelo que todos os outros espartanos ficaram indignados, e foram de aviso que Agesilau devia ir fazer cerco à cidade; ele, porém, lhes respondeu que não queria ganhar a Tessália inteira, arriscando-se a perder um desses dois homens, e por esta razão, tanto fez que os livrou, entrando em entendimento com a cidade. Isto não é para se admirar muito na pessoa de Agesilau, visto que de outra feita, ouvindo dizer que havia sido travada uma grande batalha perto da cidade de Corinto, ficando sobre o campo vários grandes e valorosos personagens do lado dos inimigos e bem poucos espartanos, ele não ficou satisfeito nem ninguém o viu alegrar-se; pelo contrário, suspirou fortemente e, do íntimo do coração, exclamou: — "Ó pobre Grécia, como és desgraçada matando com tuas próprias mãos tantos bons homens teus, que teriam sido suficientes para derrotar em um dia de batalha todos os bárbaros juntos! Mas como os farsalianos, quando passavam em seu caminho, o perseguissem e prejudicassem a retaguarda de seu exército, Agesilau tomou quinhentos cavalos com os quais foi carregar sobre eles, tão vivamente, que os rompeu à força, e desta vitória mandou levantar um troféu na base do monte que se denomina Nartácio; sendo-lhe esta vitória tanto ou mais agradável do que nenhuma outra, porque com tão pequena tropa de cavalananos, que ele mesmo havia amestrado, derrotou numa só batalha aqueles que, em todos os tempos, se vangloriavam de sua cavalaria.

(11) É preciso ler: — «Os tralianos, ou os habitantes da Trália». Ver a nota de Dacier.
(12) Sessenta mil escudos. Amyot.

Entra na Beócia.

XXVI. Ali foi encontrá-los Dífndas, um dos éforos, enviado expressamente de Esparta para lhe ordenar que entrasse imediatamente armado na Beócia, e embora ele tivesse deliberado ali entrar outra vez com muito mais forças, todavia, não querendo em coisa alguma desobedecer aos senhores do conselho de seu país, disse logo aos seus soldados que o dia pelo qual eles haviam voltado da Ásia, se aproximava e mandou requisitar duas companhias dos batalhões que estavam no acampamento perto de Corinto. Em recompensa disso, os espartanos, desejando honrá-lo porque havia prontamente obedecido ao seu comando, mandaram apregoar na cidade que os jovens que quisessem ir socorrer o rei pessoalmente, viessem dar seus nomes, e, então não houve um que não fosse se apresentar muito afetuosamente para ser arrolado; mas os governadores escolheram cinqüenta somente dos mais vigorosos e de melhor disposição, os quais lhe enviaram. Enquanto isso, Agesilau atravessou o passo das Termópilas, e, cruzando a Fócida, cujo povo era amigo da Lacedemônia, penetrou na Beócia, indo assentar seu acampamento junto da cidade de Queronéia, onde de repente, assim que ali chegou, viu o sol eclipsar-se, perdendo a luz e tomando a forma da lua quando está no crescente: ao mesmo tempo ouviu a notícia da morte de Lisan-dro, o qual havia sido morto em uma batalha naval, que havia perdido contra Farnabazo e Conon, junto da ilha de Gnidos. Esta notícia lhe foi muito desagradável, como se pode aquilatar, tanto pelo sentimento da perda de um personagem que era seu aliado, como também pelo prejuízo do povo; todavia, com receio de que isso desencorajasse seus soldados e pusesse algum pavor em seus corações, justamente na hora em que estavam prontos para travar batalha, ordenou aos que tinham vindo da praia, que espalhassem uma notícia bem ao contrário do que lhe haviam dito, e ele mesmo, para secundar suas palavras, saiu a público tendo sobre a cabeça um chapéu de flores e sacrificou aos deuses como para lhes agradecer por uma boa notícia, enviando a cada um de seus amigos uma porção de carne dos animais imolados, como se habituara a fazer quando em regozijo público; depois, marchando no país, assim que percebeu de longe os inimigos e que eles também o divisaram, colocou seus soldados em ordem de batalha, dando a ponta esquerda aos orcomenianos e conduzindo ele mesmo à direita.

Batalha onde Agesilau é gravemente ferido.

XXVII. Os tebanos, por seu lado, colocaram-se à direita da sua, dando a esquerda aos argia-nos. Xenofonte, que se encontrava nesta batalha ao lado de Agesilau, com o qual voltara da Ásia, escreve que não houve jamais uma luta igual. É bem verdade que o primeiro encontro não foi muito obstinadamente debatido nem durou muito tempo, porque os tebanos derrotaram logo os orcomenianos e Agesilau os argianos; mas, quando uns e outros compreenderam que as pontas esquerdas de suas batalhas travavam grandes combates e recuavam para trás, eles voltaram rapidamente e ali Agesilau poderia ter a vitória completa sem nenhum perigo, se quisesse somente deixar passar o batalhão dos tebanos, descarregando depois sobre a retaguarda uma vez que houvessem passado; por uma questão de teimosia, para mostrar suas proezas e por força de coragem, preferiu mais dar na cabeça, e foi chocá-los de frente, não querendo vencer senão à viva força. Os tebanos, do outro lado, o receberam não menos corajosamente e houve um combate obstinado e rude em todos os lugares da batalha, mas principalmente onde Agesilau estava entre os cinqüenta rapazes que lhe haviam sido enviados para guardar sua pessoa, o valor dos quais lhe veio então muito a propósito e lhe foi muito salutar; pois ainda que cumprissem todo o dever como lhes era possível, combatendo bem e se pusessem à frente para o guardar, eles não puderam, no entanto, salvá-lo de ser gravemente fendo, mas o carregaram, magoado por diversos golpes de dardo e de espada que recebeu através de sua armadura, a qual foi torcida e dobrada em muitos lugares, e colocando-se em tropa cerrada à sua frente para o cobrir, mataram grande número de inimigos e vários deles também ficaram mortos no lugar, até que finalmente, vendo que era muito difícil forçar os tebanos de frente, foram obrigados a fazer o que não queriam de início; abriram-se para os deixar passar e quando passaram, tomando cuidado para que marchassem em desordem, como se estivessem fora de todo perigo, eles os seguiram, e correndo nos seus passos, descarregaram de novo pelos flancos; isto, entretanto, não permitiu que eles fugissem em debandada, mas retiraram-se os tebanos em passo vagaroso para a montanha Helicon, sentindo-se em extremo orgulhosos com o êxito desta batalha, na qual se haviam, segundo julgavam, se mantido invencíveis.

Agesilau vai celebrar os jogos Píticos em Delfos.

XXVIII. Mas Agesilau, ainda que se sentisse muito mal devido aos vários ferimentos que recebera, jamais quis se retirar para lugar seguro a fim de ser pensado, sem primeiro estar no local da batalha e ver carregar os cadáveres de seus soldados dentro de suas armaduras. Quanto aos inimigos, ordenou que deixassem ir para onde quisessem aqueles que se haviam escondido no templo de Minerva Itoniana, que não estava muito longe dali, diante do qual há um troféu que os tebanos antigamente ali levantaram, depois de haverem derrotado em batalha, sob o comando de Espartão, o exército dos atenienses e terem morto sobre o campo 0 capitão Tolmides. No dia seguinte, ao amanhecer, Agesilau, querendo experimentar se os tebanos teriam coragem de descer. outra vez para a batalha, ordenou aos seus soldados que colocassem chapéus de flores sobre as cabeças e aos menestréis que tocassem suas flautas, enquanto ele mandava levantar e enfeitar um troféu como vitorioso; tendo os inimigos pedido licença para retirar seus mortos, ele lhes concedeu trégua para isto, com o que confirmou sua vitória, fazendo-se carregar depois para a cidade de Delfos, onde se divertiam com os jogos Píticos; aí organizou uma procissão e celebrou o sacrifício ordinário a Apolo, oferecendo-lhe o dízimo de toda a presa trazida da Ásia, que atingiu bem a soma de cem talentos.

Conserva a antiga simplicidade de seus costumes.

XXIX. Isto feito, voltou para sua casa, onde seus concidadãos o amaram e estimaram mais do que nunca pela simplicidade de sua vida e de sua conversação, pois não se mostrava em suas maneiras mais do que fora anteriormente, nem mudou o seu natural pelos costumes estrangeiros, como fazem ordinariamente os outros capitães quando voltam de uma expedição longa e distante, desprezando os costumes de seu país ou desdenhando obedecer as ordens daquele; assim, em tudo, sem mais nem menos, como aqueles que não haviam nunca passado o rio Eurotas, continuou sempre a observar, entreter e guardar os costumes sem nenhuma inovação em seu beber ou comer, lavar e secar, na "toilette" de sua mulher, nos ornamentos de suas armas, nem nos móveis de sua casa, pois deixou as mesmas portas onde estavam em todos os tempos, tão velhas e tão antigas que estimavam que fossem aquelas mesmas que Aristodemo aí havia colocado; e diz Xenofonte que o canastro de sua filha não era nada mais magnífico do que o das outras moças. Denominavam canastro, na Lacedemônia, as imagens de grifos, de veados ou de bodes, que as moças conduziam nas procissões solenes da cidade. Xenofonte não escre-veu como se chamava esta filha de Agesilau e Dicearco se lamenta e se enfurece por não saberem o nome dela, como também o da mãe de Epaminondas; todavia, encontramos nos registros da Lace-demônia que a mulher de Agesilau chamava-se Cleora, uma das filhas Apólia e a outra Prolita; vêem-se ainda até hoje, na cidade de Esparta, sua lança que não é em nada diferente das outras.

Alista sua irmã Cinisca com um carro para disputar o prêmio de corrida dos jogos olímpicos.

XXX. Mas, observando que alguns dos cidadãos de Esparta se vangloriavam e julgavam ser alguma coisa mais do que os outros, porque possuíam cavalos no estábulo, ele persuadiu a sua irmã, que se chamava Cinisca, a enviar seu carro com os cavalos aos jogos Olímpicos, para experimentar ganhar o prêmio da corrida, a fim de dar a conhecer e fazer ver aos gregos que isto não era ato de virtude alguma, mas de riquezas e de despesa somente. Tendo a seu lado o sábio Xenofonte, que estimava e do qual fazia grande caso, este convenceu-o a mandar buscar seus filhos para os criar na Lacedemônia, onde aprenderiam a mais bela ciência que os homens poderiam aprender, isto é, a saber obedecer e mandar.

Como ganha seus inimigos.

XXXI. Depois da morte de Lisandro, formou-se em Esparta uma liga de cidadãos conjurados contra êle, que Lisandro havia suscitado após sua volta da Ásia, e a fim de que conhecessem que espécie de cidadão havia sido Lisandro quando vivo, mandou entrar dois para mostrar e recitar em público um discurso encontrado entre seus papéis, que o orador Cleon Halicarnassiano havia escrito e que Lisandro devia pronunciar em assembléia pública diante de todo o povo, pela qual desejava levar avante muitas inovações e mudar quase toda a administração da Lacedemônia; mas, houve um dos conselheiros, homem sábio, que tendo lido o discurso e temendo a vivacidade das razões apresentadas, disse-lhe que o aconselhava a não desenterrar Lisan dro, mas antes enterrar o discurso junto com ele. Agesilau concordou e não fez mais nada, e quanto aos que haviam sido ou eram seus adversários, não os quis prejudicar abertamente, mas arranjava sempre um meio de os nomear capitão da armada ou então de lhes arranjar outro cargo; e, depois, fazendo conhecer evidentemente que esses não haviam se portado como pessoas de bem nos cargos que lhes haviam sido dados, mas haviam sido avarentos e maus, no entanto, se eles vinham a ser chamados perante a justiça, ainda os socorria e os ajudava, tornando-os por esse meio amigos em lugar de ini-migos e os ganhava de novo assim procedendo; de sorte que, afinal, não houve nenhum que fosse seu adversário.

Como se apega a Agesípolis.

XXXII. Pois o outro rei Agesípolis, seu concorrente (13), sendo filho de um pai (14) que haviam banido, além de muito moço e possuir uma natureza branda e indulgente, não se intrometia em absoluto no governo; todavia, ainda se portou de tal maneira com ele, que o tornou seu; pois os dois reis quando estavam na cidade, comiam juntos na mesma sala. E Agesilau, compreendendo que por sua natureza era inclinado para o amor, como também era ele mesmo, colocava-o sempre em forma de poder conversar com os belos meninos da cidade e incitava esse rapaz a amar algum que ele mesmo amava, secundando-o nisso; porque nos amores lacônicos não há nada de desonesto e sim toda continência e toda honestidade, todo zelo e cuidado de tornar o menino que amavam o mais virtuoso, como mais amplamente deduzimos na Vida de Licurgo.

(13) Concorrente não é a palavra, pois que sempre houve dois reis. Era seu companheiro, ou, se permitem o termo, co-rei.
(14) Pausânias, filho de Plistoanax. Ver a Vida de Lisan-dro, no cap. 52 até o cap. 56.

Expulsa os argianos de Corinto,

XXXIII. Por esses meios, portanto, Agesilau, chegando a enfeixar um grande poder, como nenhum outro em sua cidade, colocou na marinha seu irmão por parte de mãe, que se chamava Telêu-cias e ele foi com seu exército por terra até a cidade de Corinto, onde se apoderou das grandes muralhas e Telêucias o ajudou a fazer isso pelo lado do mar. Os argianos a retinham ainda e celebravam a festa dos jogos ístmicos, mas como Agesilau ah chegasse, expulsou-os no momento em que acabavam de sacrificar ao deus Netuno e foram obrigados a abandonar todos os seus aprestos. Então os banidos de Corinto que estavam com ele, pediram-lhe para pessoalmente presidir à festa e ordenar os jogos; mas Agesilau não o quis, para que eles mesmos o fizessem e presidissem; somente ah permaneceu enquanto duraram os jogos para lhes garantir segurança. Depois, quando partiu, os argianos voltaram e celebraram outra vez os jogos ístmicos, estando presentes alguns dos que haviam ganho o premio a primeira vez e levantaram ainda a segunda, e outros que tendo vencido nos primeiros, foram vencidos nos segundos. Eis porque Agesilau dizia que os argia-nos haviam se declarado homens de pouca ousadia, pois estimavam coisa tão grande e tão honrosa como o presidir esses jogos e não tinham ousado vir combater contra ele pelo direito que pretendiam.

Como Agesilau faz pouco caso de certos talentos.

XXXIV. Quanto a ele, estimava que devia guardar um meio termo em tais coisas, sem ser muito curioso; pois honrava com sua presença tais assembléias solenes de danças e de festas públicas, que faziam em Esparta antigamente e não deixava nunca de se encontrar com grande prazer e grande afeição em tais divertimentos, que deliciavam os jovens e as moças de Esparta, mas, pensando bem, em matéria de jogo, ele nem ao menos aparentava conhecer aquilo que os outros tinham em singular admiração. A este propósito conta Calípides, excelente em representar tragédias e que era grandemente famoso, honrado e estimado entre os gregos pela excelência de sua arte, que, encontrando-o um dia e saudando-o primeiro, atirou-se presunçosamente ao encontro dos que passeavam com êle e apresentando-se à sua frente, estimando que êle devia ser o primeiro a lhe dar atenção, disse: — "Como, rei Agesilau, não me conheces?" Agesilau, olhan-do-o no rosto, respondeu-lhe: — "Não és tu Calípides, o Farçante?" e não fêz mais caso. De outra vez, como o convidassem para ouvir um que imitava ingenuamente o cântico do rouxinol, ele não quis ouvir, dizendo: — "Muitas vezes ouvi o rouxinol mesmo". E como o médico Menecrates, por ter sido feliz na cura de algumas doenças desesperadoras houvesse sido cognominado Júpiter e usurpasse um tanto arrogantemente esse apelido, teve o atrevimento de colocar no sobrescrito de uma missiva que lhe escrevera: "Menecrates, o Júpiter, ao rei Agesilau, saudação"; Agesilau lhe respondeu: — "Agesilau a Menecrates (15), saúde".

Recepção que faz aos deputados de Tebas.

XXXV. Mas, enquanto estava dentro do território de Corinto, onde havia tomado o templo de Juno, ao aguardar seus soldados, que pilhavam e saqueavam toda a região plana, vieram à sua presença embaixadores de Tebas, para lhe falar de paz e amizade com os tebanos; ele, porém, que de todos os tempos odiava os tebanos e que além disso estimava que era de bom expediente para o bem de seus negócios, aparenta não fazer caso, resolveu conter-se como se não quisesse ver nem ouvir os que falavam com ele. Mas, na mesma hora surgiu um caso, como por expressa vingança divina, que lhe deu boa lição; pois antes que os embaixadores se separassem dele, teve notícias de que uma de suas tropas, que chamavam Meres, havia sido rechaçada e feita em pedaços por Ifícrates, sendo a maior perda que tinha sofrido desde muito tempo, pois perderam grande número de bons e valentes homens, todos lacedemônios, que foram mortos por aventu-reiros mercenários, ligeiramente armados. Esse fato Fez Agesilau se por imediatamente em campo, pensando poder socorrer ou vingar os seus, mas no raminho foi informado com segurança que não havia mais remédio, razão pela qual voltou de onde havia partido, ao templo de Juno, e então mandou chamar os embaixadores beócios para lhes dar audiência e eles, querendo devolver igual por igual a peça do desprezo que lhes pregara anteriormente, não fizeram nenhuma menção de paz mas requereram somente que os deixasse entrar em Corinto. Agesilau, despeitado, respondeu-lhes: — "Se é para verdes vossos amigos se vangloriarem de sua prosperidade, vós o podereis fazer certamente amanhã". E, no dia seguinte, levando-os consigo, foi destruir o país dos coríntios até junto às muralhas de sua cidade e assim depois de haver feito ver aos embaixadores beócios como os coríntios não ousavam sair a campo para defender seu país, despediu-os, e recolhendo alguns que haviam escapado da tropa desfeita, trouxe-os à Lacedemônia, partindo sempre de casa antes de amanhecer e não chegando senão quando era noite escura, de medo que os arcadianos, que os odiavam e os invejavam, se alegrassem com sua perda.

(15) Como querendo dizer, «que tinha o cérebro ferido por ser tão presunçoso». Amyot.

Destrói a Acarnânia.

XXXVI. Depois dessa viagem, para recompensar os acaianos, foi ele ao país da Acarnânia, de onde trouxe grande quantidade de presa, depois de haver derrotado os acarnânios em batalha; mas como os acaianos o solicitassem para aí ficar todo o inverno e fazer retirar aos seus inimigos todos os meios de semear em suas terras, ele lhes respondeu que não faria nada: — "Porque, disse-lhes, eles temerão mais a guerra na próxima estação, quando terão suas terras semeadas", o que aconteceu; pois aí tendo o exército voltado pela segunda vez, eles se reconciliaram com os acaianos.

Tratado dos lacedemônios com o rei da Pérsia.

XXXVII. Aproximadamente, nessa época, Farnabazo e Conon, com o exército do rei da Pérsia, sendo, sem contradição, senhores absolutos de toda a armada, pilhavam a costa da Lacônia, e ainda mais, as muralhas da cidade de Atenas se reconstruíam com o dinheiro que Farnabazo lhes fornecia, razão por que os senhores da Lacedemônia foram de aviso que valia mais fazer a paz com o rei da Pérsia, e para esse fim enviaram Antãlcidas à presença de Tinbazo, abandonando covarde e maldosamente ao rei bárbaro os gregos habitantes da Ásia, pela liberdade dos quais Agesilau havia guerreado. Assim nãc teve Agesilau parte nessa vergonha e nessa infâmia, porque Antãlcidas que era seu inimigo, procurou todos os meios para fazer a paz, vendo que a guerra aumentava sempre o poder, a honra e a reputação de Agesilau, o qual, todavia, respondeu então a um que o censurava, que os lace-demônios "se medizavam", isto é, favoreciam aos medas, mas sena melhor que os medas "se laconi-zassem". E, no entanto, ameaçando e declarando a guerra aos gregos que não queriam aceitar as condições de paz, Antãlcidas os obrigou a consentir no que o rei da Pérsia quisesse, o que fez principalmente pelo ódio aos tebanos a fim de que, sentin-do-se constrangidos pelas capitulações de paz e colocando todo o país da Beócia em liberdade, eles ficassem mais fracos.

Agesilau sustenta a empreitada injusta de Fébidas sobre a cidadela de Tebas

XXXVIII. Êle o declarou manifestamente, pelo que se seguiu logo após: pois como Fébidas houvesse praticado um ato mau e infeliz, por ter surpreendido em pleno período de paz e ocupado o castelo da cidade de Tebas, que chamavam Cadméia, pelo qual todos os demais povos gregos se achavam indignados e mesmo os espartanos não estavam contentes, especialmente aqueles que eram contrários a Agesilau, na ocasião em que se deu o fato, dirigiram-se furiosos a Fébidas a saber por ordem e consentimento de quem havia feito o assalto. Para fazer derivar toda a suspeita do feito sobre êle, Agesilau não disfarçou em dizer em voz alta e clara, para o desencargo de Fébidas, que era preciso olhar e considerar o fato em si, se era útil para ;i coletividade e que nesse caso era bem trabalhoso fazer com iniciativa própria sem esperar outra ordem, o que se sabia ser útil para o bem público.

Palavras de Agesilau sobre a justiça, diferentes de suas ações.

XXXIX. E, todavia, estava sempre habituado a dizer em suas palestras familiares que o senso de justiça era a primeira de todas as virtudes; para tanto, dizia ele, o feito não vale tanto se não é praticado com justiça e se todos os homens fossem justos, então não haveria nada que fazer com relação aos atos heróicos. E a esses que diziam, "o grande rei o quer assim", dizia ele: em que é maior do que eu, se não é justo?" Mantinha assim a boa e reta opinião de pensar que era preciso notar a diferença entre o grande e o pequeno rei, tomando a justiça como a medida real. E, acontecendo, depois da paz feita, que o rei da Pérsia lhe enviasse particularmente uma carta, na qual lhe escrevia que desejava desfrutar de sua amizade e hospitalidade, não as quis aceitar, dizendo lhe ser bastante a amizade pública e enquanto aquela durasse, outra não seria necessária. Mas, pouco depois chegaram os fatos positivos, e ele não se lembrou mais desta bela opinião, mas deixou-se muitas vezes levar pela ambição e pela obstinação, da mesma forma de encontro aos tebanos, como fez quando não somente salvou Fébidas, mas ainda fez que Esparta tomasse a responsabilidade, concordando com a violação que havia cometido, ao reter a fortaleza de Cadméia e colocando o governo da cidade de Tebas nas mãos de Arquidas (16) e de Leôntidas, com a orientação dos quais Fébidas se havia apoderado de Cadméia; portanto, devido a isso, formaram logo a opinião de que era Fébidas, de fato, que havia executado mas que Agesilau lhe havia dado o conselho; e, o que se seguiu depois, provou que esta suspeita tinha sua razão de ser.

(16) Leia-se Arquias, como os historiadores e Plutarco mesmo escreveram em diversos lugares.

Excita a guerra contra os tebanos.

XL. Depois que os tebanos expulsaram da Cadméia a guarnição lacedemônia e restituíram à cidade sua liberdade, acusando-os de que eles perversamente tinham assassinado Arquidas e Leôntidas, os quais de nome eram governadores, mas de fato verdadeiros tiranos, ele começou a fazer-lhes a guerra; e Cleômbroto, que já reinava após a morte de Agesípohs, foi enviado à Beócia com um exército, porque Agesilau tendo passado quarenta anos após a idade da adolescência e por esta razão estando dispensado pelas leis de ir à guerra, não quis tomar a responsabilidade dessa expedição, envergonhado de que o vissem combater na briga de dois tiranos, onde um deles, pouco antes, havia pegado em armas a favor dos banidos contra os fliasianos.

Empreitada de Esfódrias no Pireu.

XLl. Ora, havia então um lacônio chamado Esfódrias, da facção contrária à de Agesilau e que na ocasião era governador da cidade de Téspia, homem corajoso e valente, mas sempre animado de novas esperanças, em vez de bom senso e bom julgamento dos fatos, o qual, desejando adquirir fama, e considerando que Fébidas ganhara em honra e reputação pela corajosa empreitada que havia executado em Tebas, persuadiu-se a si mesmo que lhe seria coisa ainda mais honrosa se surpreendesse o porto de Pireu, retirando por esse meio aos atenienses o recurso da marinha. Julga-se que isto foi um trama urdido por Pelópidas e por Gelon (17), governadores da Beócia, os quais nomearam alguns homens que fingiram ser muito afeiçoados ao partido dos lacedemônios e altissonantemente elogiavam Esfódrias e lhe deram a entender que não havia senão ele digno de executar tão gloriosa obra, de maneira que por sua persuasão, eles o induziram a empreender o assalto, que não era para menos dano, nem menos perverso, do que o de Cadméia, em Tebas; mas foi menos ousado e menos diligentemente atentado, pois o dia, surpreendendo-o quando estava ainda na planície de Tnásio, começou a despontar no lugar onde julgava chegar de noite ainda nas muralhas do Pireu; dizem que as pessoas que ele levava, tendo percebido alguns fogos nos templos da cidade de Eleusina, tiveram medo, e mais ainda, ele mesmo, vendo que não podia mais esconder-se, perdeu a coragem, de maneira que voltou vergonhosa e ignominiosamente à cidade de Téspia, sem fazer outra coisa do que levar um pequeno saque.

(17) Ver as Observações.

Conduta de Agesilau com relação ao processo de Esfódrias. Faz com que seja absolvido.

XLII. Para resolver sobre esse caso, foram logo enviados acusadores, de Atenas para Esparta, os quais acharam não ser necessário acusá-lo porque os governadores e magistrados já o haviam citado para comparecer pessoalmente a fim de iniciarem seu processo criminal, mas êle não ousou apresentar-se, temendo o furor de seus concidadãos e desconfiando que queriam mostrar que a falta havia sido cometida contra eles mesmos. Ora, tinha este Esfódrias um filho chamado Cleônimo, do qual, sendo ainda menino de bela aparência, Arquidamo, filho de Agesilau, estava enamorado, pelo que se encontrava então muito pesaroso, como se pode imaginar, vendo aquele que amava no desespero pelo perigo de perder seu pai e não ousava ajudá-lo abertamente, porque Esfódrias era dos adversários de Agesilau; todavia, Cleônimo, tendo se dirigido a ele, solicitando e implorando com lágrimas nos olhos que ganhasse o apoio do seu pai, porque entre todos era de quem tinham grande medo, Arquidamo ficou durante três ou quatro dias junto de Agesilau, seguindo-o por toda a parte passo a passo, sem ousar abordar o assunto, ma: por fim, estando próximo o dia do julgamento, encorajou-se e lhe declarou como Cleônimo lhe havia pedido para interceder junto a êle a favor de seu pai. Agesilau, sabendo bem que seu filho amava Cleônimo, não o quis desviar dessa efeição, porque o menino desde os primeiros anos de sua infância havia sempre dado esperança de que seria um dia também um homem de bem, como nenhum outro, mas na hora não demonstrou, de maneira nenhuma a seu filho, que tencionava fazer alguma coisa para atender seu pedido e não lhe respondeu outra coisa senão que faria o que fosse honesto e conveniente no caso; pelo que, Arquidamo, envergonhado deixou de visitar Cleônimo, como anteriormente fazia, indo várias vezes, durante o dia, para vê-lo. Isto fêz com que os amigos de Esfódrias se desesperassem com o seu feito, mais do que nunca, até que um dos familiares de Agesilau, chamado Etímocles, conversando com eles, contou-lhes o que pensava Agesilau, e que era o seguinte: quanto ao fato em si, o julgava mau e o lamentava ao máximo, mas, pensando bem, considerava Esfódrias um homem valoroso e reconhecia que a coisa pública precisava de homens como êle; Agesilau, de fato, tinha comumente essa opinião, quando lhe vinham falar do processo de Esfódrias, e assim agradar seu filho, de tal forma que Cleônimo percebeu logo que Arquidamo havia feito tudo o que pôde por êle e os amigos de Esfódrias tiveram então mais coragem para socorrê-lo e falar a seu favor, conscientemente. Agesilau tinha essa qualidade entre outras: amava muito ternamente seus filhos; conta-se que êle brincava com eles em casa, quando eram pequenos, montando sôbré um bastão ou sobre uma bengala como sobre um cavalo, em cuja posição um dos seus amigos um dia o encontrou em seu gabinete pessoal e êle lhe pediu nada dizer até que êle mesmo tivesse filhos pequenos. Finalmente, Esfódrias, por sentença de seus juízes, foi absolvido puro e completo; tomando conhecimento disso, os atenienses resolveram declarar guerra aos lacedemônios, com o que Agesilau foi muito censurado sob a alegação de que, para gratificar um louco e leviano apetite de seu filho, havia impedido um justo julgamento e tornado a cidade culpada em face dos gregos por essas tão graves violações.

Agesilau guerreia na Beócia.

XLIII. Afinal, vendo que o outro rei seu companheiro Cleômbroto (18) não ia mais voluntariamente guerrear contra os tebanos, foi ele mesmo, transgredindo a proibição referente ao cargo de comandar o exército, que anteriormente havia observado, entrando à mão armada dentro do país da Beócia, causando danos e recebendo também, a tal ponto que Antãlcidas, um dia, vendo-o aflito, disse-lhe: — "Certamente recebes dos tebanos o salário que mereces, por lhes haver ensinado a combater, o que não sabiam, nem queriam fazer". Pois, em verdade, dizem que os tebanos se tornaram então mais belicosos do que jamais haviam sido outrora, sendo adestrados e exercitados às armas pelas contínuas invasões dos lacedemônios. Também era esta a razão pela qual o antigo Licurgo, em suas leis, que chamavam Retras, proibia guerrear sempre contra um mesmo povo, com receio de que o inimigo assim aprendesse também a guerrear.

(18) Ver as Observações.

Mostra a seus aliados que os lacedemônios fornecem mais soldados do que eles, se bem que dessem menos homens.

XLIV. Agesilau estava sendo odiado mesmo pelos aliados da Lacedemônia, os quais diziam que não era por nenhuma ofensa ao público, mas por um particular rancor e teimosia, que procurava perder e arruinar os tebanos e para satisfazer seu apetite, era necessário que eles se consumissem, indo todos os anos carregar as armas, ora aqui, ora ah, sem que fosse necessário, seguindo uma pequena tropa de lacedemônios, para o lugar onde eles se encontravam em maior número. Foi então que Agesilau, querendo fazê-los ver a quanto subia o número de guerreiros, usou de um artifício: ordenou um dia que os aliados, misturados, se assentassem uns entre os outros de um lado, à parte, e os lacedemônios à parte também de outro lado; depois mandou gritar por um dos arautos que todos os que soubessem fazer potes de terra se levantassem. Quando ficaram em pé mandou gritar que os fundidores se levantassem também e depois os carpinteiros, em seguida os pedreiros, e conseqüentemente, assim, todos os outros ofícios, de maneira que quase todos os aliados, obedecendo a essas proclamações se encontraram pouco a pouco em pé, e não se levantou nenhum dos lacedemônios, porque lhes era proibido aprender ou exercer alguma arte ou ofício mecânico e então Agesilau, a rir, lhes disse: — "Vedes agora, meus amigos, que quantidade de guerreiros nós colocamos nos campos, o que vós não fazeis".

Enfermidade de Agesilau.

XLV. A sua volta dessa viagem de Tebas, passando pela cidade de Mégara, enquanto subia ao palácio do governo, que se achava dentro da fortaleza, deu-lhe subitamente uma grande convulsão de nervos, com uma dor veemente na perna sã, que inchou e ficou grossa, com uma grave inflamação, pelo que pensaram estivesse cheia de sangue; por isso um médico de Siracusa, na Sicília, abriu-lhe uma veia sob o tornozelo, o que diminuiu muito as dores; mas, saiu sangue em tão grande quantidade, que não o podiam estancar, de sorte que sofreu grandes desmaios, ficando repentinamente em grande perigo de morte; todavia, encontraram, afinal, jeito de estancar o sangue e o levaram para a Lacede-mônia, onde ficou doente durante muito tempo, impedido de guerrear, em cujo período sobrevieram perdas e derrotas aos lacedemônios, tanto por mar como por terra, entre as quais a de Leutres (19) foi a principal, onde foram a primeira vez vencidos e desfeitos em batalha alinhada pelos tebanos.

(19) Ver as Observações.

Assembléia dos deputados da Grécia na Lacedemônia.

XLVI. Foram de aviso então, todos os gregos, que era preciso assinar uma paz universal e reuniram embaixadores e deputados de todas as cidades da Grécia na Lacedemônia para esse fim. Um desses deputados foi Epaminondas, homem de grande fama pelas suas notáveis epístolas e por seu saber em filosofia, mas que não havia ainda dado prova de ser grande capitão. E este, vendo como todos os outros embaixadores e deputados se ajoelhavam e se dobravam diante de Agesilau, teve a coragem de falar francamente e fez um discurso não somente por causa dos tebanos, mas por toda a Grécia junta, com o qual demonstrou à comunidade como a guerra ia aumentando só as cidades de Esparta e, ao contrário, diminuindo as outras cidades e fortalezas da Grécia. Por esta razão aconselhava todos a que procurassem compreender e tratar de compor uma boa paz com eqüidade e igualdade a fim de que durasse mais longamente, tendo todos os contratantes direitos iguais. Agesilau, vendo então que todos os demais gregos, membros dessa assembléia, prestavam atenção muito atentamente a Epaminondas, demonstrando prazeu imenso em ouvi-lo discorrer assim francamente sobre a paz, perguntou-lhe bem alto se achava ser justo e razoável que toda a Beócia fosse reposta em sua plena liberdade. Epaminondas, do outro lado, perguntou-lhe pronta e corajosamente, se ele também não estimava que fosse justo e razoável repor toda a Lacônia em completa liberdade. Então Agesilau, em fúria, levantando-se sobre os pés, ordenou-lhe responder abertamente se eles não devolveriam a toda a província da Beócia a sua liberdade, e Epaminondas replicou-lhe do mesmo jeito, se eles não devolveriam também à Lacônia a sua liberdade. Isto irritou de tal forma Agesilau, que ficou amarrado com a atitude que assumiu, devido ao antigo rancor que tinha aos de Tebas, que na hora apagou o nome dos tebanos da lista daqueles que deviam estar compreendidos na paz, declarando-lhes guerra imediatamente e despedindo-se igualmente dos deputados dos outros povos gregos, com tal decisão, que eles resolveram amigavelmente as diferenças que tinham em comum; desde que não podiam ceder por via pacífica aos outros que não queriam lavrar em despacho por via de composição amigável, decidiriam pelas armas, porque era bem difícil limpar, resolver e esvaziar todas as dissensões que tinham em comum.

Batalha de Leutres.

XLVII. Ora, estando então por acaso o rei Cleômbroto com um exército no país da Fócida, escreveram-lhe os éforos que devia marchar sem demora contra os tebanos e de quando em quando enviavam forças por toda a parte para reunir o socorro de seus aliados, que não eram nada afeiçoados e não iam voluntariamente à guerra, embora não ousassem abertamente recusar, nem desobedecer aos lacedemônios. E, se bem que houvesse vários sinais de mau presságio, conforme escrevemos na Vida de Epaminondas, e que Protous Laconiano tivesse resistido, com todo o seu poder, à empreitada desta guerra, Agesilau por isso não deixou de ir além, esperando ter encontrado a ocasião de se vingar dos tebanos, desde que todo o resto da Grécia estava em paz e em liberdade e só eles excluídos do tratado. Mas, quando não houvesse outra coisa senão a brevidade do tempo, ela sozinha mostra bem que esta guerra foi conduzida pelo ímpeto da cólera antes que pelo norteio da razão; porque o tratado de paz universal entre os outros gregos foi concluído em Esparta no décimo-quarto dia de maio (20) e os lace-demônios foram vencidos na batalha de Leutres (21) no quinto de junho, de maneira que não houve senão vinte dias de um para o outro. Aí morreram mil lacedemônios, com seu rei Cleômbroto e os mais valentes espartanos à sua volta, entre os quais estava Cleônimo, filho de Esfódrias, esse belo rapaz, do qual já falamos anteriormente, que tendo sido abatido por três vezes aos pés mesmo do rei, por três vezes se levantou e finalmente foi morto combatendo virtuosamente contra os tebanos.

(20) Ver as Observações.
(21) Leutres da Beócia, descendo de Tebas para o meio-dia, sobre o caminho de Platéia a Téspia.

Sentimento dos lacedemônios com a notícia da derrota de seu exército.

XLVIII. Esta derrota, tendo ocorrido aos lacedemônios contra a opinião de todo o mundo, e esta prosperidade aos tebanos, foi tão grande e tão gloriosa, que jamais gregos combatentes contra outros gregos ganharam uma igual; a cidade, no entanto, que foi vencida, não foi por isso menos elogiada e considerada por sua virtude como aquela que a venceu. Como Xenofonte diz, as palestras, os jogos e os passatempos das pessoas de bem mesmo à mesa sempre foram alguma coisa digna de ser conservada na memória e nisso diz a verdade; também menos e com vantagem, nota e considera o que as pessoas de honra diziam e a continência que mostravam tanto em sua adversidade como em sua prosperidade. realizando-se por acaso uma festa pública em Esparta, estando a cidade cheia de estrangeiros vindos para ver as danças e jogos que se praticam com os corpos nus dentro do teatro, chegaram aqueles que traziam as notícias da derrota de Leutres, mas os éforos, enquanto corria rapidamente por toda a cidade o rumor de que tudo estava arruinado para eles e que haviam perdido todo o seu principado na Grécia, não quiseram no entanto, por isto, que as danças saíssem para fora do teatro, nem que a cidade mudasse a forma da festa, mas enviaram pelas casas, aos parentes, os nomes dos que tinham sido mortos na batalha e eles continuaram no teatro mandando prosseguir e terminar os jogos e divertimentos das danças, a ver quem se esforçaria à porfia e quem ganharia o prêmio. No dia seguinte cedo, quando todo o mundo soube com certeza dos que estavam mortos e dos que haviam escapado, os pais, parentes, amigos e aliados daqueles que morreram, encontravam-se sobre a praça com boa fisionomia e atitude de homens alegres, tendo coragem, abraçando-se uns aos outros; ao contrário, os parentes dos que se haviam salvo, ficaram em suas casas com suas mulheres, como pessoas que estão de luto; e se por acaso algum deles era obrigado a sair para fora para algum negócio necessário, viam nele uma atitude tão triste e tão aflita, que não ousava falar firme, levantar a cabeça, nem levantar os olhos; viam ainda mais esta diferença entre as mulheres; pois elas, que esperavam seus filhos voltando desta batalha, estavam mornas e tristes, sem dizer palavra, e ao contrário, as mães daqueles que diziam estar mortos, iam aos templos render graças aos deuses, visitando-se umas às outras alegre e afetuosamente; todavia, quando a comuna viu que seus aliados começavam a deixá-los e separar-se deles, e que esperavam de um dia para o outro que Epaminondas, encorajado por sua vitória, se atirasse dentro do Peloponeso, então a maioria teve um remorso, de consciência no tocante aos oráculos dos deuses, que castigavam por eleger um rei manco como era Agesilau e deles se apoderou uma grande falta de coragem e um pavor enorme, pois acreditavam que sua cidade havia caído na desgraça, porque haviam negado à realeza um homem de físico perfeito, para colocar um defeituoso, o que os deuses lhes haviam avisado que se precavessem em todas as coisas.

Agesilau ordena que as leis dormirão por um dia.

XLIX. Todavia, sua autoridade era tão grande devido a sua virtude, e sua reputação tão boa, que não somente se serviam dele na guerra, como seu rei e soberano capitão, mas também seguiam seu conselho e seu aviso quando era necessário encontrar expediente em algumas dificuldades civis; assim fizeram quando ficaram em dúvida, se deviam impor a esses que haviam fugido da batalha, que chamam em Esparta, tresantas, isto é, "que tiveram medo", as marcas da infamia, às quais as leis condenam, porque eram em grande número e todos das mais nobres e mais poderosas casas da cidade, de medo que não lhes suscitassem alguma novidade; pois além de serem declarados incompetentes e jamais poderem exercer qualquer cargo público, é desonra dar-lhes mulher em casamento ou tomar deles, e quem os encontra em seu caminho pode espancá-los se desejar e é preciso que suportem abaixando a cabeça sem dizer palavra, obrigados a irem vestidos suja e pobremente com roupas remendadas de pano de cor, devendo fazer a barba só numa parte e na outra não; parecia-lhes perigoso serem vistos na cidade muitos deles marcados com esta infâmia, mesmo na ocasião em que tinham necessidade de grande número de guerreiros; razão por que expuseram tudo a Agesilau para resolver. E ele, sem retirar nem ajuntar ou mudar nada às leis, em assembléia pública com todo o povo lacedemônio, disse que naquele dia era preciso fazer dormir as leis, contanto que doravante elas retomassem sua autoridade.

Epaminondas entra na Lacônia.

L. Por esse meio manteve as leis sem nada corrigir e salvou a honra desses pobres soldados; mas para inspirar coragem à juventude e lhe retirar o espanto que dela se havia apoderado, entrou em armas dentro da Arcádia, onde se guardou de dar batalha e somente tomou uma cidadezinha (22) sobre as Mantinianas, percorrendo a parte plana; isto alegrou um pouco a cidade de Esparta e lhe devolveu alguma esperança, tirando-lhe ocasião de se desesperar em todos os pontos; mas logo depois chegou Epaminondas ao país da Lacônia, com quarenta mil soldados de infantaria, armados, com aquela outra multidão infinita de povo nu ou armado ligeiramente, que seguia seu acampamento somente para roubar, de maneira que aí havia atingido o número de setenta mil combatentes, que entraram dentro da Lacônia, em armas com ele. Havia aproximadamente seiscentos anos que os donos tinham entrado nessa província da Lacônia e aí já estavam acostumados e, em todo este tempo jamais tinham visto os inimigos dentro do país até esse dia; pois outrora nenhum inimigo havia ousado entrar em armas; mas, dessa vez saquearam e queimaram completamente, até o rio Eurotas e até contra a cidade de Esparta, sem que pessoa alguma saísse para impedi-los, porque Agesilau, como escreve Teopompo, não queria permitir que os lacedemônios se apresentassem contra uma tão impetuosa força e tão violenta tormenta de guerra; mas, tendo guarnecido o centro da cidade e suas principais avenidas com soldados de defesa, suportava pacientemente as arrogantes bravatas e ameaças dos tebanos, que o chamavam pelo nome ao combate e lhe diziam que saísse fora em campo, para defender seu país, ele, que era o único causador de todos esses males, que havia acendido e inflamado esta guerra. Se isto varava o coração de Agesilau, não menos pesar lhe causavam os tumultos que se davam dentro da cidade, os gritos, idas e vindas das pessoas idosas, que per-diam a paciência vendo o que se apresentava aos seus olhos, mulheres que não podiam ficar no mesmo lugar, mas cornam daqui e dali como pessoas fora de si e furiosas por ouvir o barulho que faziam os inimigos e ver o fogo que punham por toda a parte no campo; pois isso lhe trazia uma grande angústia de dor quando pensava consigo mesmo, que tendo alcançado a realeza quando sua cidade era mais poderosa e mais florescente, como jamais havia sido, viu em seu reino sua dignidade engolida e sua glória partida, viu que ele mesmo muitas vezes se vangloriava que jamais mulher laconiana havia visto fumaça do acampamento de nenhum inimigo. Como dizem também que Antãlcidas respondeu um dia a um ateniense que contestava com ele sobre o valor de um e de outro povo, alegando, por suas razões, que os atenienses haviam muitas vezes expulso os lacede-mônios do rio Cefiso: "É verdade, disse o laconiano, mas nós não vos expulsamos nunca do Eurotas". Igualmente também respondeu um outro espartano, dos menos famosos, a um argiano que o censurava: — "Há vários de vossos soldados enterrados dentro do país da Argólida; e, não há dos vossos enterrados na Lacônia". Dizem que Antãlcidas, sendo na ocasião éforo, enviou secretamente seus filhos para a ilha de Citera, desconfiando que a cidade de Esparta fosse tomada.

(22) Chamada Eutéia, segundo Xenofonte Heleno, L. VI. p. 353.

33 obrigado a retirar-se de Esparta.

LI. Mas Agesilau, vendo que os inimigos se esforçavam por passar o rio e penetrar dentro da cidade, resolveu defender somente o centro, que era o mais alto, diante do qual mantinha seus soldados em batalha. Ora, estava então, casualmente, o rio Eurotas muito cheio, como não era costume ficar, porque havia caído muita neve e causava maior mal aos tebanos pela sua friagem, do que pelo seu volume. Houve então alguns que mostraram a Agesilau, Epaminondas marchando à frente, diante de toda a sua tropa; olhou-o muito tempo, seguindo-o sempre com os olhos sem dizer outra coisa senão essa palavra somente: — "Oh! o homem da grande empreitada, ei-lo!" Epaminondas, entretanto, tendo feito tudo o que lhe era possível fazer para dar batalha aos lace-demônios dentro da própria cidade de Esparta e aí levantar um troféu, não pôde nunca atrair Agesilau nem fazê-lo sair de seu forte, pelo que afinal foi obrigado a partir sem terminar a pilhagem e estragar toda a região plana.

Sedição na cidade, apaziguada pela sabedoria de Agesilau. L

LII. Mas, dentro da cidade, houve aproximadamente duzentos motins promovidos por homens que de há muito tempo tinham má vontade, os quais se apoderaram de um bairro da cidade, onde estava o templo de Diana, lugar de base forte e difícil de ser forçado, que se chamava Issorium (23). Os lace-demônios quiseram correr furiosos contra eles, mas Agesilau, achando que isso não era causa para qualquer novidade maior, ordenou aos outros que não se mexessem e ele sozinho, com um traje simples, sem armas, a eles se dirigiu, gritando para os que o seguravam: — "Tendes ouvido diferente do que eu ordenei, pois não foi aqui que mandei que vos reunísseis, nem todos em um lugar; mas eu havia ordenado que uns fossem dali e outros de cá", mostrando-lhes diversos quarteirões da cidade. Os sediciosos, ouvindo estas palavras, ficaram descansados, porque julgaram que sua má intenção não tivesse sido descoberta, e saindo dali, partiram para os lugares que ele lhes havia mostrado; então Agesilau, fazendo vir outros, apoderou-se do forte de Issorium, mandou prender aproximadamente quinze desses sediciosos conjurados, os quais mandou matar na noite seguinte.

(23) Ver as Observações.

Conjuração abafada e castigada por Agesilau sem forma de processo.

LIII. Entretanto, foi descoberta uma outra conjuração, muito maior, de espartanos mesmo, que se haviam reunido secretamente em uma casa para suscitar algum novo movimento, contra os quais era embaraçoso formular o processo, em um tão grande tumulto e bem perigoso negligenciar, levando em conta a conspiração. Agesilau, tendo se comunicado em conselho com os éforos, mandou matar todos também, sem outra- forma de processo, ali, onde jamais anteriormente espartano algum havia sido executado, sem que primeiro houvesse sido condenado judicialmente. E como todos os dias, diversos de seus vizinhos e mesmo os hilotas, que havia arrolado em suas tropas como guerreiros, fugissem e fossem se tornar seus inimigos, o que desanimou bastante os moradores, Agesilau avisou seus servidores, que todos os dias, cedo, fossem examinar as enxergas, nas quais haviam dormido e que se apoderassem das armas dos que tinham fugido e as escondessem, a fim de que não se conhecesse o número daqueles que se haviam ocultado.

Os tebanos se retiram da Lacônia.

LIV. E, quanto à partida dos tebanos, uns dizem que partiram da Lacônia por causa do inverno que chegou, razão pela qual os arcadianos começavam a debandar e separar-se em desordem; outros dizem que eles ali ficaram três meses inteiros, durante os quais destruíram a maior parte do país; mas Teopompo escreve que tendo os capitães dos tebanos, resolvido retirar-se, chegou à sua presença um espartano chamado Frixus enviado da parte de Agesilau, que lhes trouxe dez talentos para que se fossem; de tal modo que, para fazer o que de há muito tempo haviam estabelecido fazer eles mesmos, ainda tiveram o dinheiro dos inimigos para fazer suas despesas pelo caminho. Mas eu não posso compreender como é possível que todos os outros historiadores não soubessem nada disto e que só Teopompo tivesse tido o conhecimento de tal fato.

Fraqueza de Esparta.

LV. É verdade e declarado por todos, que só Agesilau foi a causa de se salvar a cidade de Esparta, porque deixando de lado sua ambição e sua teimosia, que eram paixões natas nele, entendeu somente de prover aos negócios seguramente; todavia, jamais pôde se levantar dessa pesada queda, nem reafirmar sua reputação, nem poder, como tivera outrora. Pois em tudo é assim como um corpo são, que em todos os tempos, tendo observado dieta e regime de viver especial, no qual a menor falta ou menor desordem, estraga tudo, também estando a administração pública bem estabelecida e bem composta em virtude, pode fazer viver seus cidadãos em paz e em concórdia uns com os outros, e aptos, quando quisessem, a se defender das dominações de senhores violentos, dos quais Licurgo considerava que uma cidade para viver feliz e virtuosamente, não tem necessidade, e por isso eles foram descendo para a decadência.

Vitória sem lágrimas levantada por Arquidamo sobre os arcadianos.

LVl. Ora, estava Agesilau tão velho, que por causa de sua velhice não ia mais à guerra, mas seu filho Arquidamo, tendo o socorro que Dionísio, o tirano de Siracusa, lhes enviou, ganhou uma batalha contra os arcadianos, que chamam a batalha sem lágrimas; pois não morreu nem um só de seus soldados e foi morto grande número de inimigos. Esta vitória mostrou bem claramente a fraqueza da cidade, pois outrora lhe era coisa comum e costumeira vencer os inimigos, sacrificando aos deuses, em seguida, dentro da cidade, para lhes render graças pela vitória, apenas um galo; e, aqueles que haviam combatido, não se vangloriavam, nem aqueles que ouviam as notícias se alegravam demasiadamente; pois quando ganharam a grande batalha de Manti-néia que Tucídides (24) descreveu, os éforos enviaram àquele que havia trazido a notícia, como presente, um pedaço de carne (25) de seu salgado e mais nada. Quando, porém, trouxeram as novas desta vitória o compreenderam que Arquidamo voltava vitorioso, não houve ninguém que pudesse se conter na cidade e mesmo seu pai foi o primeiro ao seu encontro, chorando de alegria, depois dele os outros oficiais e toda uma multidão de velhos e de mulheres que desceram até a margem do rio, levantando as mãos aos céus e agradecendo aos deuses, como se sua cidade houvesse então vingado sua vergonha e recuperado sua honra e que recomeçasse a ver bruscamente o dia claro e sereno como antes. Pois até ali, segundo se diz, os maridos não ousavam nem olhar francamente o rosto de suas mulheres, tanto sentiam vergonha das perdas que haviam recebido.

(24) Esta batalha contra os atenienses, os argianos e os mantinianos, foi travada no terceiro ano da nonagésima Olimpíada, o ano de Roma 336, sob o comando de Agis.
(25) Não está escrito no texto que esta carne foi salgada, mas muito simplesmente que eles lhe enviaram um pedaço de carne de seu banquete.

Epaminondas surpreende a cidade de Esparta na ausência de Agesilau.

LVII. Mas, estando a cidade de Messena repovoada e sendo construída por Epaminondas, que para lá estava chamando os antigos moradores de todos os lados, não ousaram apresentar-se para combatê-lo, se bem que em seus corações estivessem mutíssimo indignados e desejassem grande mal a Agesilau, porque em seu reinado haviam perdido aquêle território, que não era de menor extensão que toda a Lacônia e competia com os melhores lugares de tôda a Grécia e do qual haviam gozado pacifica-mente por tantos anos. Eis a razão por que Agesilau não quis aceitar a paz que os tebanos lhe mandaram oferecer, não querendo violar sua palavra, quando os inimigos a mantinham de fato; mas, teimando em querer ainda combater e discutir, não somente não recuperou mais seu prestígio, como pouco faltou para que não perdesse com vantagem a própria cidade de Esparta num ardil de guerra, com o qual Foi surpreendido; porque estando de novo os man-tinianos separados da aliança dos tebanos e tendo mandado buscar os lacedemônios, Epaminondas, avisado de que Agesilau havia partido com toda a sua força para ir em socorro dos mantinianos, saiu uma noite de Tegéia, sem que os de Mantméia soubessem, foi direto a Esparta, de sorte que pouco faltou para que, indo por outro caminho que não aquêle que Agesilau trilhava, não surpreendesse des-prevenida a cidade de Esparta, completamente vazia de soldados para a defesa; mas um téspio, chamado Eulino, assim diz Calístenes, ou como escreve Xeno-fonte, um candioto, levou a notícia a Agesilau, que rapidamente mandou à frente um homem a cavalo para avisar os habitantes da cidade, pondo-se ele mesmo a caminho para voltar, nao demorando muito a chegar, e logo após, chegaram também os tebanos que passando o no Eurotas, empreenderam o assalto à cidade.

Agesilau volta e rechaça o inimigo.

LVlll. Agesilau, vendo que não era mais tempo de se manter em guarda e não querendo se aventurar, defendeu a cidade vigorosamente, mais do que sua idade permitia, concluindo que havia chegado a hora em que precisava expor-se, de cabeça baixa, a todo e qualquer perigo, e combater desesperadamente. Assim, impelido pelo desespero e pela coragem, em que outrora jamais havia confiado e jamais se havia utilizado, rechaçou para trás o perigo, salvando Esparta das mãos de Epaminondas, levantando um glorioso troféu por haver assim derrotado o inimigo, fazendo sentir às mulheres e às crianças que os homens lacedemônios pagavam ao seu país um belo e honroso salário pelo seu nascimento e criação; da mesma forma agiu Arquidamo, que praticou feitos admiráveis no combate, tanto pela sua coragem como pela sua disposição pessoal, correndo daqui e dali pelas ruas e ruelas da cidade, com alguns companheiros apenas, nos lugares onde havia mais combates, de onde expulsava os inimigos.

Extraordinária coragem de um jovem chamado Isadas.

LIX. Consta que houve um Isadas, filho de Fébidas, que praticou proezas admiráveis dignas de serem presenciadas não somente pelos seus concidadãos, como também pelos inimigos; pois era de bela fisionomia e bem conformado, encontrando-se então, justamente, na mais agradável e na mais bela estação de seus anos, quando o homem passa da infância para a juventude; estando despido não somente de armas defensivas mas também de todas as vestes, todo o corpo untado de óleo, como para lutar e tendo em uma de suas mãos uma parthisane e na outra uma espada, saiu fora de sua casa nesse estado, indo se atirar afoitamente com os que combatiam, abatendo todos os inimigos que se encontravam à sua frente, não ficando fendo, seja porque os deuses o quisessem preservar por causa da excelência de sua virtude ou porque os inimigos mesmo fossem de opinião que havia nesse fato alguma coisa mais do que de homem. Os éforos, depois, deram-lhe uma coroa para honrar sua façanha, mas ao mesmo tempo o condenaram a uma multa (26) de mil dracmas de prata, porque havia sido tão temerário em se aventurar no perigo da batalha sem armas defensivas.

(26) Cem escudos. Amyot.

LX. Batalha de Mantinéia.

LX. Poucos dias depois tiveram outra batalha em frente à cidade de Mantinéia, onde Epaminondas, tendo já partido as primeiras filas dos lacedemônios e apertando vivamente os outros, infundindo coragem aos seus, houve um laconiano chamado Antícrates, que o esperou parado e lhe vibrou um golpe de dardo, como descreve Dioscórides; todavia, os lacedemônios, até hoje, chamam os descendentes desse Antícrates, machecionas, que é o mesmo que dizer, espadachins, como se houvesse ferido com um golpe de espada; pois os lacedemônios o amaram e consideraram tanto, por causa desse golpe, pelo grande temor que tiveram de Epaminondas vivo, que ordenaram grandes honras e grandes presentes àquele que o havia morto e, aos seus descendentes, franquia a todos os cargos e atribuições públicas, cujos privilégios goza ainda em nosso tempo um Calícrates que é descendente desse Antícrates.

Agesilau perde a estima dos gregos e dos lacedemônios

LXI. Depois desta batalha e da morte de Epaminondas, tendo os gregos conseguido a paz universal entre eles, Agesilau quis ainda negar e excluir os messenianos do tratado, dizendo que não tinham direito a jurar por um tal chefe, levando em conta que não tinham cidade; mas, como todos os demais gregos, não obstante isso, o receberam no número dos contratantes e tomaram seu juramento, os lacedemônios se retiraram e desfizeram o tratado de paz geral, ficando somente eles a guerrear, na esperança de recuperar o país e território de Messena, tudo por instigação de Agesilau, que foi então considerado pelos gregos como homem violento, cruel e insaciável de guerras, por ir assim minando por baixo, procurando fazer cair, de todo o jeito, o tratado de paz universal. E, por outro lado, foi constrangido a desagradar seus concidadãos, dentro de sua cidade, devido à falta de dinheiro público, emprestando deles e obrigando-os a contribuir, e, assim, colocou-se em tão má situação diante de todo o mundo ali, que se julgava ser melhor pôr um fim a todas essas desgraças, pois levava todo o tempo, depois de haver perdido tão grande império, de tantas fortalezas e cidades e ter desistido do principado de toda a Grécia, tanto em mar como em terra, a atormentar-se para recuperar a renda das possessões do território messeniano.

Viagem ao Egito.

LXII. Ainda perdeu mais de sua reputação, quando se entregou a um capitão egípcio, chamado Tachos, o que foi considerado coisa indigna dele, que um tal personagem, reputado o maior de toda a Grécia e que havia enchido toda a terra com a fama de seu nome, fosse alugar sua pessoa e a glória de seu nome por dinheiro, a um bárbaro traidor e rebelde, para exercer a seu serviço o ofício de capitão mercenário, pois já era idoso, com mais de oitenta anos, com o corpo todo retalhado de ferimentos, quando aceitou o belo e honroso cargo para conduzir a recuperação da liberdade dos gregos, quando sua ambição ainda era irrepreensível, porque as coisas que são por si belas, têm seu tempo e sua estação própria, ou para melhor dizer, as boas e belas não diferem das feias e más, senão na dosagem com que elas se formam, pela moderação e pela mediocridade. Todavia, Agesilau não se preocupou muito com tudo isto e não julgou que houvesse alguma indignidade no serviço que se faz para o bem da coisa pública, mas antes se persuadiu que era coisa indigna dele, viver ocioso, sem nada fazer em uma cidade, esperando que a morte o viesse buscar. Portanto, reuniu na Grécia os guerreiros assalariados que Tachos lhe enviou, com os quais embarcou, tendo como seus conselheiros e seus colaboradores trinta espartanos, como havia acontecido em sua primeira viagem.

. Má opinião que os egípcios formam a seu respeito

LXIII. Uma vez chegado ao Egito, imediatamente os principais governadores e capitães do rei Tachos desceram à praia para o receber e lhe prestar honra, e não somente esses, mas também diversos outros egípcios de outros estados que o esperavam com grande devoção pela grande fama do seu nome, acorreram de todos os lados para verem que espécie de homem era êle, mas quando não viram nenhuma magnificência de séquito e de equipagem, mas somente um velho deitado sobre a relva, ao longo da praia, de estatura pequena, simples em sua atitude e sem nenhuma aparência, grosseiramente vestido com um velho traje usado, tiveram vontade de rir e caçoar, dizendo entre eles que aquilo verdadeiramente confirmava o que existia na fábula, — que uma montanha gemeu com as dores do parto, dando à luz um ratinho. Ainda o acharam mais estranho quando lhes trouxeram presentes de boas vindas, pois recebeu bem as farinhas, os vitelos e os filhotes de ganso, mas os doces, massas, odores e perfumes, recusou-os, e como aqueles que lhe haviam oferecido insistissem para que aceitasse, disse-lhes que os levasse aos hilotas, seus escravos. Teofrasto escreve que êle tomou gosto pela grama de papel, achando belos os terços (27) ali feitos, salientando-se pela sua beleza e acabamento, tendo levado deles quando partiu.

(27) As coroas.

Abandona Tachos para passar no partido de Nectanebo

LXIV. Mas, tendo falado com Tachos, que estava pondo em ordem seu exército e preparando sua viagem, não foi feito capitão-general, como esperava, mas somente coronel dos estrangeiros; Chabrias, era o comandante da armada e comandante em chefe, acima do qual estava Tachos em pessoa; isso desagradou muito a Agesilau, pois estava constrangido, quisesse ou não, a suportar a glória vã e a louca arrogância deste egípcio, o que o afligia muito porque era preciso ir com ele por mar contra os fenícios, dobrando-se sob seu jugo e obrigado a agir, de encontro à sua dignidade e contra sua natureza, até que chegou a ocasião de se ressentir. Um sobrinho de Tachos, chamado Nectanebo, tendo a seu cargo uma parte do exército, rebelou-se contra o tio e sendo eleito rei pelos egípcios, enviou um pedido a Agesilau solicitando que o viesse socorrer; também mandou pedir a Chabrias para tomar seu partido, prometendo a um e ao outro grandes presentes. Tachos, porém, tendo percebido, pôs-se a suplicar aos dois que não o abandonassem, o que fez Chabrias, que reconfortando Agesilau e lhe fazendo diversas admoestações, procurou conservá-lo na amizade de Tachos. Ao que Agesilau lhe respondeu:

— "Quanto a ti, Chabrias, que aqui vieste por teu próprio impulso, podes bem fazer o que bom te parece, mas quanto a mim é outra coisa; pois meu país enviou-me aqui como capitão ao serviço dos egípcios; portanto, não seria nada honesto que eu guerreasse contra esses a quem me enviaram para servir e socorrer, a menos que esses mesmos para os quais fui enviado, me mandassem agora o contrário". Dad a esta resposta, despachou alguns de seus soldados a Esparta para aí acusar Tachos e louvar Necta-nebo; eles também, cada um por seu lado, mandaram pedir o conselho da Lacedemônia, um como sendo seu amigo e aliado de todos os tempos e o outro prometendo ser no futuro mais leal e amigo mais dedicado. Os lacedemônios, tendo ouvido essas súplicas, responderam publicamente que Agesilau teria cuidado em resolver a respeito, e em segredo lhe escreveram que fizesse aquilo julgado mais útil para Esparta. Assim Agesilau, tomando consigo os aventureiros que trouxera da Grécia, retirou-se para junto de Nectanebo, cobrindo-se com a capa de que "era para o bem de seu país", para disfarçar seu maldoso intento; pois se lhe retirassem essa máscara de utilidade pública, achariam que o nome mais justo que lhe poderiam dar, seria traição, mas os lacedemônios, colocando como primeiro ponto de honra o que era útil para seu país, não conheciam outra justiça senão aquela que contribuísse para crescimento e progresso de Esparta.

Faz sair este de uma fortaleza onde estava sitiado

LXV. Assim Tachos, vendo-se abandonado por esses estrangeiros mercenários, fugiu; mas por outro lado levantou-se também na cidade de Mendes um outro rei contrário a Nectanebo, o qual tendo reunido cem mil combatentes, vinha procurá-lo e combatê-lo. E Nectanebo, julgando encorajar Agesilau, ia lhe dizendo que os inimigos estavam em grande número, mas que eram homens recolhidos de todos os cantos, pessoas do trabalho a maioria, dos quais não precisava fazer caso, porque eles não sabiam o que era a guerra; Agesilau respondeu-lhe: — "Ao contrário, eu não temo o seu número, mas sua ignorância e falta de experiência, o que é mais difícil de iludir; pois os ardis de guerra valem e servem contra aqueles que, ao se defenderem, mantendo-se em guarda, duvidam e desconfiam, e por este meio, esperam uma coisa em vez de outra; mas com aquele que não duvida de nada e que não espera uma coisa mais cedo do que outra, que não dá nenhuma oportunidade àquele que procura provocá-lo, mais do que o que não.se mexe na luta, não demonstra nenhuma inclinação nem meio de enfraquecer o adversário que luta contra êle". Depois o mendisiano mesmo mandou mensageiros à presença de Agesilau, procurando trabalhá-lo, pelo que Nectanebo teve receio e desconfiança; razão por que Agesilau aconselhou-o a descer para a batalha o mais cedo que pudesse e não demorar esta guerra contra soldados que não sabiam o que era combater, mas que devido ao seu elevado contingente, poderiam muito bem envolver e fechá-los em trincheiras, e prevenindo-o sobre diversas coisas, Nectanebo ficou então com suspeitas maiores e maior desconfiança dele, de tal forma que afinal retirou-se para uma grande cidade bem fechada por boas muralhas e que era um grande recinto; isto fez Agesilau ficar descontente, desagradando-o bastante o fato de ver como desconfiavam assim; no entanto, tendo vergonha de se virar bruscamente para o outro lado ou de voltar sem nada fazer, seguiu-o e entrou com ele dentro daquela fortaleza onde os seus inimigos o perseguiram; uma vez chegados diante do lugar, começaram a entrincheirar-se à volta para o fechar; motivo por que o egípcio Nectanebo temendo por outro lado ser durante muito tempo sitiado, quis iniciar batalha, com os aventureiros gregos às suas ordens, os quais não pediam outra coisa, mesmo porque havia muito pouco trigo no lugar, e ao contrário Agesilau impedindo-o e não desejando ceder, ficou ainda em pior situação do que antes com relação aos egípcios, a ponto de lhe dizer que era um traidor ao seu rei; mas ele começou a suportar mais pacientemente as injuriosas calúnias com que o acusavam, esperando o tempo favorável para executar um ardil que tinha em seu pensamento, o qual era: os inimigos construíam uma trincheira grande e profunda à volta da cidade para, por todos os pontos, fechá-la; quando as duas pontas da trincheira ficassem bem perto uma da outra e faltasse bem pouco para se encontrarem, esperando que a noite desse dia chegasse, ordenou aos gregos que se armassem e se mantivessem prontos, depois dirigindo-se ao egípcio disse-lhe: — "Eis o ponto culminante da ocasião própria para te salvares, cuja ocasião não te quis dizer, até que houvesse chegado, com medo de perdê-la. Pelo que, agora que mesmo os inimigos com suas próprias mãos nos arranjaram o meio de nos retirar a salvo, fazendo esta trincheira, da qual o que já está feito os impede de poderem se servir de sua multidão de soldados e o que está para ser feito, nos dá comodidade de os poder combater com número igual e medida semelhante, delibera mostrar-te por este golpe, homem de coragem e nós seguiremos teus passos; salva-te rapidamente, tu e tua gente, pois esses inimigos que encontramos de frente, não nos susterão nunca e os outros por causa da trincheira que nos cobrirá pelos lados, não nos poderão prejudicar". Ouvidas estas palavras, Necta-nebo maravilhou-se de seu bom senso, e colocando-se no meio dos gregos, deu contra os inimigos, os quais em poucas horas, foram facilmente derrotados, pelo menos aqueles que esperaram e que lhe ousaram fazer frente.

Ganha uma grande vitória que assegura o trono a Nectanebo.

LXVI. Depois que Agesilau ganhou nesse ponto e que Nectanebo nele acreditou, surpreendeu os inimigos ainda com o mesmo ardil, com o qual já os havia surpreendido, nem mais, nem menos do que de uma reviravolta na luta, da qual eles não souberam se defender; pois era simulando fugir e atraindo-os para perto dele, ora rodopiando daqui e dali, tanto fez que afinal atraiu toda esta grande multidão para um aterro estreito, apertado dos dois lados por grandes fossas, largas e profundas, cheias de água corrente; depois, quando ficaram no meio, barrou-lhes subitamente o passo com a frente da batalha, que igualou à largura do aterro, e assim fazendo, igualou também o número de seus combatentes com a multidão dos inimigos, porque não puderam mais rodeá-lo, nem pelos lados, nem por trás; por esse meio, depois de pequena resistência, foram todos postos em fuga e ficando grande número de mortos sobre o sítio e os outros, depois de haverem sido uma vez rompidos, debandaram e se afastaram fugindo daqui e dali, de tal forma que depois os negócios do rei egípcio se realizaram bem e encontrou-se seguro em seu estado. Daí em diante, estimou singularmente a Agesilau, fazendo-lhe, a toda a hora, todo o agrado que lhe era possível, pedindo-lhe que ficasse e passasse o inverno com êle; mas Agesilau teve pressa de voltar ao seu país porque a guerra lá estava, sabendo que sua cidade tinha falta de dinheiro e atendendo que ela estava obrigada a manter a seu soldo soldados estrangeiros.

Morte de Agesilau.

LXVII. Após isto, Nectanebo despediu-se dele muito honradamente e com bastante magnificência presenteando-o, além de todas as outras honras e dádivas, com duzentos e trinta talentos (28) em prata sonante, para suprir as despesas de guerra que seu país sustentava; mas, estando o mar em tormenta, por ser a estação do inverno, Agesilau morreu pelo caminho, tendo todavia ganho a terra com seus navios num lugar deserto nas costas da Líbia, que se denomina o Porto Menelau (29), depois de haver vivido oitenta e quatro anos, dos quais durante quarenta e um foi rei de Esparta e desses, durante mais de trinta, havia sempre continuamente sido estimado como o maior e o mais poderoso homem e quase como capitão-general de toda a Grécia até a jornada de Leutres. Sendo costume dos lacedemônios exumar os corpos de seus cidadãos que faleciam fora do país, no lugar mesmo onde morriam e lá deixá-los, exceto os reis, que transportavam ao país, os espartanos que então estavam à volta de Agesilau, por falta de mel, derreteram cera sobre seu corpo e o transportaram desse modo para Esparta. Seu filho Arquidamo sucedeu-o no trono, o qual ficou por sucessão contínua aos seus descendentes, até Ágis, que Leônidas mandou matar, porque procurava fazer voltar a antiga disciplina e modo de viver da Lace-demônia, sendo o quinto rei de pai para filho depois de Agesilau.

(28) Cento e trinta e oito mil escudos. Amyot.
(29) Sobre o Mediterrâneo, acima do promontório de Ar-dane, na parte da Africa denominada Marmarica, entre o Egito ao oriente e a Cirenaica ao ocidente.


 

Tradução de Carlos ChavesFonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Sexto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

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