Ilíada de Homero – Canto VI

Ilíada de Homero – Canto VI

Ílíada de Homero
Resumo e apresentação da Ilíada
Prefácio a Ilíada de Homero
Canto I
Canto II
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
Canto VII
Canto VIII
Canto IX
Canto X
Canto XI
Canto XII
Canto III
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XXIV

Tradução de Odorico Mendes
Fonte: Clássicos Jackson

 

ARGUMENTO
DO LIVRO 6 da ILÍADA

 

Retiram-se
os deuses do campo da batalha, e os Gregos se avantajam.

Suas proezas. — Heitor e Eneias detêm a fuga dos Troianos. —

Heleuo
aconselha a Heitor para ir a Tróia pedir a Hécuba para ofere-

cer
um sacrifício a Minerva. — Encontro do filho de Tideu com Glauco.

Heitor põe em prática o conselho de Heleno; depois vai ter com

Paris
e o encontra junto a Helena. — Admoestaçoes que ele lhe

dirige.
— Entrevista de Heitor e de Andrómaca. — Paris, tomando

suas
armas, junta-se a Heitor, e os dois correm para o combate.

 

 

 

Sós
na lide os mortais, de parte a parte
Ígneo
furor aqui e ali se ateia;

Nos
dois campos graniza, arremessada

Entre
o Símois e o Xanto, énea procela.

Ajax,
da Grécia muro, escala a Tróica
Falange,
e livra os seus do Eussório Acamas,
Dos
Taces o maior, mais formidável:
Dardo
pelo cocar de espessa crina
O
osso varou da testa, e em feral treva
Os
lumes lhe apagou. — Diomedes rende
O
Teutrânida Axilo, que opulento
Na
grandiosa Arisba, humano em casa,
Da
estrada à beira agasalhava a todos:
Mas
nenhum lhe acorreu no transe amaro,
Nem
ao pajem Calésio, então cocheiro;
Que
ao reino de Sumano ambos desceram.
Prostra
Euríalo a Dreso e Oféltio; assalta
Pédaso
com Esepo, que houve gêmeos
Bucoion
da náiada Abarbárea:

Vero
Bucoiion de Laomedonte

Primogênito
filho, inda que espúrio,

Ovelhas
pastorava, e em doce amplexo

Concebeu-os
a ninfa: os pulcros membros

Lhes
dissolve e os despoja o Mecisteide.

A
Astíalo o aguerrido Polipetes,
A
Pidites Percósio enfia Ulisses;
Teucro
ao divo Etaon, a Ablero Antíloco;
O
rei dos reis a Elato, que da altiva
Pédaso
o puro Satnióis gozava.
A
Fílaco fuginte o heróico Leuto
Veloz
suplanta; Eurípilo a Melàntio.

Partindo-se
o temão desembestados
A
Adresto os brutos, pávidos num ramo
De
tamargueira se enlearam, quando
Para
a cidade em fuga os mais seguia:
Testa
no pó, revira junto à roda;
Menelau
toma-o vivo e a lança aponta;
Adresto
ajoelha e implora: "Sê piedoso,
Por
mim resgate esplêndido recebe:
Cobre,
ouro, ferro variamente obrado,
Entesourou
meu pai; com mão profusa
Dará,
se a bordo me souber cativo."

Já,
de compadecido, ia entregá-lo
A
um servo que o levasse à Grega frota;
Minaz
bramindo acorre-lhe Agamémnon:
"Débil
a Teucros, Menelau, perdoas?
De
certo agradeceram-te a hospedagem.
Nem
mesmo o infante no materno ventre
Escape
à nossa fúria; em cinzas Tróia,
Inglórios
todos insepultos jazam."

Com
tais razões mudado, o irmão lhe empurra
O
nobre Adresto; a quem na ilharga fere,
Supino
estende, e a retrair o freixo,
O
pé finca-lhe aos peitos Agamémnon.

Nestor
a gritos: "Eia, amigos Dânaos;
Nenhum,
de Marte ó fâmulos, se atrase
Pura
às naus se tornar com pingue espólio:
Matai,
matai; que os mortos pelo campo
Devagar
ao depois saquearemos."

Isto
os atiça e alenta. E em Ílio os Teucros
Talvez
de acobardados se acoutassem

se não fosse Heleno Priamides,
Augur
sem par: "Em vós, Heitor e Eneias,
Que
sois no pulso e aviso os mais prestantes,
Lícios
e Troas a esperança libram:
De
ala em ala, ide já deter os nossos,
Que
em destroço nos braços das consortes
Não
se salvem, com riso dos contrários.
Mas,
assim que exortardes as falanges,
Nós,
do cansaço opressos, neste aperto
Combateremos
firmes, para aos muros
I
res, Heitor. A nossa mãe requeiras
Que
as matronas congregue, e de Minerva
Subindo
o sumo alcáçar, os batentes
Ao
sacrário descerre; oferte às plantas
Da
olhicerúlea crinipulcra deia
De
quantos peplos guarda o que mais preza
Por
grande e por donoso, e doze intactas
Anejas
indomadas lhe prometa
Sacrificar,
se houver dos nossos filhos
E
das esposas dó, longe da santa
Ílio
apartando o campeão Tidides,
Formidoloso
artífice da fuga.
Dos
Gregos valentíssimo o reputo;
Nem
de Aquiles, que prole crêem divina,
Nos
temíamos tanto: agora aquele
Mais
sanhudo se mostra e inelutável!"

Concorde
o irmão, do carro em armas salta
Hastas
pontudas brande, e por onde ia
Inflama
os seus, que revertendo arrostam.
Vão-se
escoando os Gregos da matança,
E
o rumor se espalhou que em pró dos Frígios
Do
estelífero pólo um deus baixara.
Clama
a todos Heitor: "Ânimo, Teucros,
Vós
longínquos amigos e aliados,
Sede
homens, vosso ardor não se arrefeça,
Enquanto
vou-me a idosos conselheiros
E
às consortes propor que o Céu demovam
Com
preces e hecatombes." Nisto ombreia
O
galeato herói de copa o escudo,
E
ao marchar o debrum de couro negro
A
cerviz lhe batia e os calcanhares.

Na
ânsia de pelejar, da liça em meio
Glauco
de Hipóloco e o Tidides perto

se afrontavam; mas falou Diomedes:
"Quem
és, homem bravíssimo, a quem nunca
Vi
no conflito, que os varões afama?
Tu
na afouteza a todos longe excedes,
Expondo-te
ao rigor da lança minha;

filhos malfadados se me atrevem.
Do
céu vens? com celestes não contendo:
Viveu
pouco o Driàncio atroz Licurgo
Que
a tal se abalançou. De Baco as armas
Pelo
sacro Nisseio perseguidas,
Picou-as
de aguilhada, e elas no afogo
Deixam
cair os tirsos; Baco mesmo,
De
susto de um mortal, se atira às ondas,
E
trêmulo em seu seio o abriga Tétis.
Os
de perene vida enraiveceram,
E
o Satúrnio o cegou: de curto alento
Sepultou-se
aborrido pelos deuses.
Com
bem-aventurados não me avenho.
Mas,
se a terra te nutre com seus frutos,
Chega-te,
e as raias tocarás da morte."

Então
Glauco: "Magnânimo Tidides,
Quem
sou perguntas? Como as folhas somos;
Que
umas o vento as leva emurchecidas,
Outras
brotam vernais e as cria a selva:

Tal
nasce e tal acaba a gente humana.
Pois
o queres, conhece-me a linhagem;
É
bem sabida. — Num recesso de Argos,
A
corcéis pacigosa, avulta Efira,
Onde
Sísifo Eólides, o astuto
Mais
cadimo, reinou; seu filho Glauco
Teve
a Belerofonte, a quem prendaram
Os
Céus de esforço e garbo e gênio afável.
Mas
de Preto a mulher, a diva Anteia,
Louca
de amores, desejou furtiva
Misturar-se
com ele, e despeitosa
De
não ter seduzido o casto peito
Pérfida
ao rei mentiu: — Belerofonte
Intentou-me
forçar; ou morre ou mata-o —.
Em
sanha Preto, a cujo prepotente
Ceptro
os Aquivos sujeitara Jove,
O
exilou da cidade; e, religioso
Temendo
assassiná-lo, urdiu na mente
Feia
vingança: de funestas cifras
Ao
sogro o envia com fechado rolo,
()nde
a sentença lhe traçou de morte.
Por
numes escoltado, ao Xanto e à Lícia
Plaga
admitido, em novenal hospício
Lhe
imolou touros nove o rei benigno;
Mas
na décima aurora dedirrósea
O
interrogou, pedindo-lhe a tabela
Que
lhe fiara Preto. Os caracteres
Fatais
lendo, a Quimera inexpugnável
Mandou-lhe
exterminar: tinha esse monstro,
De
raça divinal que não terrestre,
A
cara de leão, de serpe a cauda,
Caprino
ventre, ignívoma a garganta;
E
ele extinguiu-a por celeste influxo.
Logo
os Solimos debelou, façanha
Que
julgava a maior; e enfim deu cabo
Das
Amazonas varonis. De volta,
Os
mais guapos da Lícia e destemidos,

Juntos
numa cilada, o herói desfê-los,
Nenhum
restando que levasse a nova.
Nele
então vendo o rei divino garfo,
O
aquinhoou no império e aceitou genro;
Em
patrimônio os povos lhe escolheram
Amplo
vinhedo e lavras. Da princesa.
Houve
Hipóloco e Isandro e I.aodâmia.
Esta
no toro do prudente Jove
O
deiforme gerou pugnaz Sarpédon.
Belerofonte,
já dos Céus malquisto,
Na
alma comendo-se e evitando os homens,
Sozinho
errava pelo campo Aleio.
A
Isandro, que  os  Solimos opugnava,
Trucidou
Marte; a Laodâmia Febo,
Que
áureas bridas meneia em carro argênteo.
Hipóloco
é meu pai, que, no expedir-me
De
Ílio em socorro, superior coragem
Me
encomendou; que nunca desmentisse
De
meus nobres avós, não só de Efira,
Da
Lícia em peso altíssimos guerreiros.
Deste
preclaro sangue eu me glorio."

Ledo
no chão Diomedes prega a lança,
E
diz blandíloquo ao pastor de povos:

"Certo
hóspede paterno me és antigo;
Por
Eneu dias vinte agasalhado
Belerofonte,
mútuos se brindaram:
Coube-lhe
um bálteo fúlgido e puníceo;
Coube
a Eneu duplicôncava áurea taça,
Prenda
que tenho em casa. Não me lembro
De
Tideu, que deixou-me em tenra infância,
Indo
à facção Tebana, infausta aos Gregos.
Sou
teu hóspede em Argos; sê na Lícia
O
meu também. Reciprocar os tiros
Mesmo
evitemos na refega: Teucros
Nem
outros faltam que eu persiga ou renda,
E
Aqueus te sobram, se os depare a sorte.
Patenteemos,
permutando as armas,
Que
dos avós o hospício respeitamos."

Nisto,
apeiam-se os dois, as dextras cerram,
Penhor
de fé. Na troca dos arneses
Ofusca
Jove a Glauco: pois demente
Com
Diomedes cambeia ouro por cobre,
A
valia de  cem  por nove touros.

Vizinho
à faia Heitor e às portas Ceias,
Cercam-no
e indagam donas e donzelas
Por
amigos e irmãos, filhos e esposos.
"Em
regra aos numes obsecrai, responde;
Ide,
urge a muitas iminente luto."

Os
pórticos reais pulidos passa:
Dentro,
em lapídeas câmaras contíguas,
Noras
cinqüenta e os Priameus dormiam;
E
,  no alto, além do pátio, numas doze,
Também
contíguas e também lapídeas,
Os
genros e as castíssimas consortes.
A
carinhosa mãe, que no aposento
Visitava
a pulquérrima Laódice,
O
encontra e a mão lhe prende: "O duro prélío
Deixaste,
filho? ah! próximo lutando,
O
odioso inimigo assédio estreita;
E
desejas te as palmas vir  do  alcáçar
Para
Jove estender. Fica-te um pouco,
Vinho
te quero ministrar melífluo,
Com
que libes ao Padre e às mais deidades:
Restaurarás
bebendo as lassas forças;
Que
o vinho as corrobora, e as esgotaste
Por
defender os cidadãos lidando."

"Não,
venerável mãe, torna o guerreiro,
Ho
suave licor não me ofereças,
Que
me enerve e do brio me deslembre:
E
ao das nuvens Senhor com mãos impuras
Temo
libar, e infando é suplicá-lo
De
sangueira poluto. Mas ao templo
Da
predadora Palas com perfumes
Vai-te
asinha, c as matronas congregando,
Oferta
aos pés da crinipulcra deia
De
quantos peplos guardas  o  que prezas
Por
grande e por donoso; e doze intactas
Anejas
indomadas lhe prometas
Sacrificar,
se houver dos nossos filhos
E
das esposas dó, longe da santa
Ílio
apartando o campeão Tidides,
Incutidor
feroz de espanto e medo.
Ao
templo sobe; eu vou, se me ouvir Paris,

Do  ócio espertá-lo. Aberta, o sorva a terra !
O
Olímpio o fez medrar, funesto à pátria,
Funesto
ao rei. No inferno se afundisse,

Cuido

que olvidaria os meus pezares."

Disse;
a mãe volve ao quarto, e pelas sei
De
ílio convoca as donas. Desce mesma
À
fragrante recâmara, onde os peplos
Vários
tinha e gentis, lavor das moças
Que
trouxe da Sidónia o divo Paris,
Da
vez que o largo pélago sulcava
Com
sua Helena excelsa. Hécuba escolhe
Um
que último encontrou, mais recamado
Grande
e loução, fulgente como um astro.
Põe-se
a caminho; as damas a acompanham.

Ei-las
no sumo templo, que a Cisseide
Fresca
Teano, de Antenor esposa,
Dali
sacerdotisa instituída,
Lhes
escancara. As palmas  logo  todas
Com
pranto e grita para o altar ergueram;
E,
aceito o peplo, o colocou Teano
Aos
pés de Palas, deprecando à filha
Pulcrícoma
de Jove: "Honra das deusas,
De
Ílio apoio, a Diomedes quebra a lança:
O
pó morda, ó Minerva, às portas Ceias;
Doze
intactas indómitas anejas
Te
imolaremos já, se houveres mágoa
Destes
muros, de nós, de nossos filhos." 

 

Renui
Tritónia a rogos tais; e enquanto
As
mães votavam, ganha Heitor o alvergue,
Primor
que engenhou Paris e os mais destros
Operários
de Tróia executaram,
De
átrios, salões e camarins stiberbos,
Junto
a Príamo e Heitor na cidadela.
Entra
o herói caro a Jove, sustentando
De
onze cúbitos haste, onde encavada
Fulge
énea choupa, que aro de ouro aperta.
Na
câmara acha o irmão lustrando a malha,
Curvos
arcos, loriga e fino escudo;
E,
entre as criadas suas, a Lacena
Às
servas repartindo insignes obras.
"Paris,
disse agro Heitor, ó desastrado,
ódio
vão cevas, e por ti pugnando
Perecem
tantos! Ruge em torno a guerra,
Arde
o clamor; e a ti mormente os frouxos
Competia
aguçar. Vem, vem, desperta,
Antes
que lavre o incêndio em nossos lares."

E
o deiforme Alexandre: "Eu não to nego
Justo
me argúis. Atende-me contudo:
Não
por despeito aos nossos, mas por folga
À
dor pungente, em ócio me encerrava.
E
brando agora mesmo Helena ao prélio
Mc
compelia; abraço-lhe o conselho,
Porque
alterna a vitória os seus favores.
Que
eu vista as armas deixa, ou me antecede;

sem demora, irmão, serei contigo."

Calou-se
Heitor, e meiga Helena fala:
"Oxalá,
bom cunhado, eu fenecera
Nas
entranhas maternas, ou que a brenhas
Um
tufão me arrojara, ou me afundira
No
fluctíssono mar, de horríveis danos
Pnra
não ser a abominanda causa,
Nem
perpetrar sem pejo infâmias tantas!
Mas,
já que o fado o quis, eu fosse ao menos
Mulher
de um bravo, a quem doesse o opróbrio
E
o motejar dos homens: sem firmeza,
Nunca
a terá por certo, e o fruto espere.
Agora
neste escano, irmão, descansa
Do
afã que te salteia o peito e a mente,
Por
imprudência minha e culpa dele.
Ah!
cruel condição! de Jove opressos,
Fábula
às gentes no porvir seremos."

E
o cristado varão: "Cortês e afável,
Não
me contes reter: esta alma ferve
Por
ajudar os que por mim suspiram.
Activa
a Paris, que dos muros dentro
Se
me reúna: a despedir-me corro
Da
família, da esposa e meu filhinho;
Ignoro
se me outorgue o céu revê-los,
Ou
se domar-me ordene às mãos dos Gregos."

Nem
mais; segue, e acha fora de seu paço
Andrómaca
gentil, que albinitente,
Com
o infante e uma serva bem velada,
A
gemer e a chorar na torre estava.
Desencontrando
o cônjuge incorrupto,

da soleira, às fâmulas virou-se:
"Que
é da senhora? declarai sinceras:
A
uma de longo peplo ou minha ou sua
Cunhada
iria, ou agregar-se às damas
Que
a Palas crinipulcra infensa aplacam?"
Respondeu-lhe
a zelosa despenseira:
"Pois
o queres a flórida princesa
Com
nenhuma cunhada ou tua ou dela
De
longo peplo está, nem entre as donas
Que
a Palas crinipulcra infensa aplacam;
Sim
na grã torre de Ílio: ouviu que os nossos
Eram
da força Graia assuberbados;
E,
levando o menino em braços da ama,
Como
douda partiu para as trincheiras."

Ei-lo
as praças desanda e extensas ruas;
E
às portas Ceias, no sair ao campo,
Ocorre
a esposa, de Eetion nascida.
Que
os Cilícios, de Hipóplaco selvosa,
Rei
dominava na Hipoplácia Tebas;
De
Eetion, que a dotou grandiosamente
Para
dá-la ao Priâmeo eriarnesado.
O
tenro único Hectóreo, astro em beleza,
A
ama o afagava: o nome de Escamândrio
Seu
pai lhe impôs, de Astíanax o povo,
Por
herdeiro do herói de Tróia apoio.

Tácito
ele sorriu no filho absorto;
A
lagrimar Andrómaca nas suas
A
mão lhe aperta e clama: "Temerário!
Perde-te
esse valor, nem te amiseras
Desta
criança, nem de mim coitada
Cedo
viúva; que da Grega fúria
O
alvo serás. A terra me sepulte,
Se
me faltares tu: só pesadumes
Hão-de
cercar-me, sem nenhum conforto.
Pai
nem mãe tenho: rasa a de altas portas
Cilícia
Tebas, o tremendo Aquiles
A
Eetion matou; com seu dcdáleo
Arnês,
sem despojá-lo, o queimou pio,
E
térreo ergueu-lhe um túmulo, que de olmos
Em
redor as Oréadas plantaram,
Do
Egífero almas filhas. De irmãos sete,
Num
dia o Celeríssimo no inferno
Todos
mos despenhou, quando pasciam
Bois
flexípedes, cândidas ovelhas.
A
augusta mãe de Hipóplaco rainha,
Trouxe-a
com basta presa; ao depois solta
Por
um preço infinito, em seu palácio
Vítima
foi de Artémide frecheira.
Tu
me és, Heitor, mãe, pai, irmão, florcnte
Consorte
c amigo: tem de mim piedade;

te fiques na torre; órfão não deixes
O infante e a mulher tua. A gente postes
Cerca
da baforeira, onde acessíveis
Prestam-se
os muros nossos à escalada,
Vezes
três os melhores a empreenderam,
Os
dois Ajax, Idomeneu, Diomedes,
E
os Atridas; ou fosse de agoureiros,
Ou
de seus próprios ânimos impulso."

E
Heitor: "São meus, esposa, os teus cuidad
Mas
dos Frígios me temo e das matronas
De
roçagantes opas, se em muralhas
Qual
fraco a luta evado; e hei-de mim pejo,
Que
tenho à frente combatido sempre,
Vindicando
a paterna e a glória minha.
Prevejo
n’alma o fim da sacra Tróia,
Do
corajoso Príamo e seu povo;
Ah!
da pátria o porvir me aflige menos,
Da
mãe,  do  rei, de tanto irmão valente
Estendido
no pó, que de um soldado
Brutal
cativa e em pranto imaginar-te,
E
em Argos a tecer, e da estrangeira
Por
duro império, atroz necessidade!
A
fonte ir de Hipereia ou de Messeide.
E
dir-te-ao,  âo  choro teu movidos:

Pobre mulher de Heitor, o herói que de ílío
Com
mais denodo propugnava em torno ! —
De
teu marido gemerás saudosa
Para
te libertar. Cubra-me a terra,
Antes
que os ais te escute e a rastos veja."

Eis
lança ao filho as mãos, que averso e em
No
seio da ama de elegante cinto,
Espantado
se encolhe ao pátrio aspecto-,
A
armadura o apavora, a juba eqüina
Que
da cimeira aénea hórrido nuta:
Sorriu-se
Heitor, a augusta mãe sorriu-se.
Despe
o guerreiro o fulgurante casco,
Pousa-o
no pavimento; a seu querido
Em
braços leve embala e o beija e ameiga:

Júpiter, perora, ó deuses todos,
Como
eu dai que este seja aos Teucros honra;
Potente
o ceptro empunhe; ao vir do prélio,

Inda é que o pai mais forte —, alguém lhe
Morto
o inimigo, no cruento espólio
Volte,
e a mãe leda folgue." À doce esposa
O
entrega então, que entre chorando e rindo
No
fragrante regaço o filho acolhe.

Terno
olhando o consorte, a acaricia:
"Por
mim tanto, anjo meu, não te consternes:
Contra
o fado abismar-me ninguém pode,
Nem
há nascido quem se furte ao fado,
Por
estrénuo ou medroso. A casa busca;
No
tear, no lavor, na roca entende,
E
as servas atarefa: aos homens de llio,
E
a mim principalmente, a guerra incumbe."

Do
chão leva o emplumado capacete,
E
retirou-se Andrómaca, a míúde
Atrás
volvendo os olhos gotejantes.
Na
cômoda mansão de Heitor sangrento
Em
luto encontra as servas, que o pranteiam
Vivo,
por crerem que do urgente risco
Nem
dos feros Aqueus se escaparia.

Não
langue Paris na orgulhosa estância;
De
brônzeo arnês vistoso revestido,
Com
pé ligeiro atravessava as ruas.
De
centeio cevado à mangedoura,
Do
amor pungido, a claro banho afeito,
Roto
o cabresto, unguíssono cavalo
Pulsa
o campo; a cabeça engala e emproa,
A
crina a flutuar pelas espáduas;
Da
bizarría ufano, ágil galopa
Ao
rio ameno e aonde as éguas pastam:
Assim
de Pérgamo o Priâmeo em armas
Desce,
luz como o Sol, exulta e marcha;
De
pronto e lesto alcança a Heitor, que vinha
Da
prática de Andrómaca, e lhe fala
Pressuroso:
"Eu talvez, remisso às ordens,
Te
hei, venerando irmão, contido o fogo."
E
alegre Heitor: "Quem saiba avaliar-te
Far-te-á
justiça, ó caro; és denodado,
Mas
tíbio e inerte e mole; é-me penoso
Exprobrarem-te
os sócios, que padecem
Pelo
erro teu. Avante; comporemos
Estas
questões, quando aprouver a Jove
Que,
expulsos os Grajúgenas grevados,
Em
nosso lar brindemos e erijamos
Livre
cratera aos sempiternos deuses."
 

 

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