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A CIVILIZAÇÃO HELÊNICA


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A guerra do Peloponeso. Alcibíades

Em 421 a. C. celebraram-se tréguas por 50 anos sobre a base da restituição das conquistas realizadas, mas nunca chegaram a ser rigorosamente respeitadas, continuando em luta os aliados das duas principais inimigas e estas mesmas volvendo a combater pela decisão tomada por Atenas de conquistar a Sicília, cujas colônias eram sobretudo dóricas. Levou-a a essa decisão um sobrinho de Péricles, Alcibíades, afoito e insinuante estróina que Atenas adorava pelas suas qualidades e pelos seus defeitos, sendo que estes eram mais numerosos, e entre eles se contavam uma paixão de exibição que não recuava diante de prodigalidade alguma e uma ausência absoluta de escrúpulos.

Suas traições. A expedição da Sicilia.

Graças sobretudo aos pérfidos conselhos de Alcibíades, que pela primeira vez nessa ocasião atraiçoou sua pátria, no que depois se tornou vezeiro, e que se achava refugiado em Esparta, tendo fugido a uma convocação em Atenas para responder por um delito de impiedade, resultou num desastre a expedição contra a qual se pronunciara o famoso misantropo Timón. A esquadra ateniense foi desbaratada diante de Siracusa por uma esquadra lacedemônica e as forças de desembarque foram perseguidas e aniquiladas, consuman-do-se cruéis represálias nas pessoas dos sobreviventes, pois que foram decapitados os estrategos e vendidos em cativeiro os prisioneiros (415 a 413 a. C).

Prosseguimento das hostilidades.

Ainda a conselho de Alcibíades, caráter infame, os espartanos ocuparam Deceleia, a umas cinco léguas de Atenas, fortificando-se nesse ponto, desmoralizando a defesa da cidade e devastando a região em redor. Atenas não se deu todavia por batida e Esparta, pecuniariamente ajudada pelo rei da Pérsia, teve que redobrar de esforços, enquanto a anarquia, sob a forma até de pronunciamentos militares, entrava a prevalecer na cidade rival, onde Alcibíades era um dia aclamado como salvador da pátria e no outro exilado como traidor à mesma pátria.

Vitória e hegemonia espartanas.

À frente das forças atenienses, ganhou Alcibíades algumas vitórias nessa nova fase da guerra (413-411 a. C.), mas já era tarde para uma mudança duradoura da fortuna. A vitória naval dos lacedemô-nios em Egos-Potamos, no Helesponto (405 a. C), foi uma espécie de Trafalgar para a esquadra inimiga, abrindo a Esparta as portas marítimas de Atenas, também cercada por terra, e transferindo-lhe, pelo incêndio das galeras e o desmoronar das muralhas da orgulhosa cidade da Ática, o predomínio político na península. Festejaram os espartanos essa destruição com cânticos e danças. Xenofonte escreve que para os do Peloponeso raiou nesse dia como que a aurora da liberdade dos helenos. A aurora raiou porém bem rubra, com o sangue derramado das populações sacrificadas e o fogo ateado em cidades inteiras.

A decadência de Atenas. Sua anterior florescência comercial

O período que se seguiu foi para Atenas de prepotência estranha e de confusão doméstica. Escassa sua população em resultado das lutas; deserto o seu porto, como também o Mar Egeu, onde os navios fiscais atenienses cobravam tributo de 200 cidades gregas. Atenas era na verdade a capital de um império colonial e o Mar Egeu sua feira ambulante. A Trácia era o seu celeiro; a Jônia e a Caria, na Ásia Menor, o mercado certo das suas indústrias, entre as quais figuravam os metais cinzelados e as terracotas de desenhos negros sobre o barro polido; de Samos e outras ilhas vinham os vinhos que alegravam os simpósios ou banquetes entremeados de música e bailado; de Mileto os tapetes, da Fenícia as tâmaras, do Egito os papiros para registro das jóias da sua inteligencia. Era uma real organização mercantil, sendo até o comércio ateniense protegido nos portos estrangeiros pelos próxenes, que exerciam funções precursoras das dos cônsules da atualidade.

A Oligarquia militar

Tudo mudou consideravelmente com a guerra, cuja devastação conseqüente foi para a Ática o que para a Alemanha foi a guerra dos Trinta Anos. A própria constituição democrática de que tanto se vangloriava Atenas, foi substituída, sob a pressão do invasor, pelo governo violento dos 30 tiranos, que desmanchou a harmonia e a suavidade daquela vida, em que o corpo era adestrado nos ginásios pela carreira e pelo pugilato e depois nos acampamentos por quanto dizia respeito à arte militar, a começar pelo arremessar da seta e do disco, e o espírito educado nos espetáculos, nas dicussões políticas, nas recitações das grandes obras poéticas ao som da lira e da flauta, na freqüência dos cursos dos oradores e filósofos.

Esparta e a Pérsia. Tréguas e novo rompimento.

Um instante Atenas recobrou, com Trasíbulo, seu antigo viver independente e alheio à oligarquia militar, mas o encanto estava quebrado e não havia mais remédio para a liberdade combalida e a breve trecho moribunda. A Pérsia vingava-se das passadas humilhações: sua aliança contudo infelicitava Esparta. O auxílio prestado pelos lacedemônios a Ciro, o moço, em luta com o irmão, e que era o pagamento do auxílio recebido em Egos-Potamos, é sobretudo memorável pela retirada dos Dez Mil, sobreviventes do corpo de 13 000 gregos.

A retirada dos Dez Mil. Tratado persa-espartano

Tinham estes chegado à Mesopotâmia e participado brilhantemente na batalha em que caiu Ciro, o moço. Traiçoeiramente mortos os generais gregos numa entrevista a que foram atraídos, os soldados viram-se na contingência de operar uma marcha para trás, de 1 200 léguas, através das ardentes planícies do Tigre e dos desfiladeiros gelados da Armênia, até Trebizonda, a colônia grega onde os retirantes puderam exclamar jubilosos o seu Talassa (o mar!) ao avistarem o Ponto Euxino. Esta heróica marcha, 401 a 400 a. C, que Xenofonte imortalizou na sua narrativa, revelou o estado de decadência do império persa, de que os soldados gregos trouxoram o testemunho ocular. Esparta quis tirar partido da situação, indo atacar os persas nos seus domínios asiáticos, mas a guerra civil, reacen-dendo-se na península, embaraçou os sucessos militares do rei , já vitorioso em Sardes e a caminho da Alta Ásia, e obrigou-o a aceitar o tratado firmado por Antalcidas (387 a. C), pelo qual a suserania persa passou a ser estabelecida sobre as cidades gregas da Ásia Menor e algumas das ilhas do Mar Egeu.

Liga contra Esparta

Esta ignomínia determinou a perda da primazia para Esparta, cuja ditadura era suportada com rancor pelas outras cidades e já provocara um ensaio de liga que Agesilau conseguira desfazer pelas armas após uma primeira vitória. Foi um ato desleal de Esparta, apoderando-se da cidadela de Tebas e dando-lhe uma guarnição lacedemônica, que levou Tebas a chamar a si a direção do movimento libertador, assumida por Epaminondas e Pelópidas, tebanos ambos refugiados em Atenas.

A hegemonia tebana. O particularismo grego

A primeira vitória por eles ganha foi a de Leuctra (371 a. C), sobre o exército espartano transportado para a Beócia. Quando aqueles dois cabos de guerra sucumbiram ambos em combates, com eles acabando a hegemonia tebana (371-362 a. C), contra a qual se tinham reunido Esparta e Atenas, não só Esparta estava rechaçada como o Peloponeso fora por quatro vezes invadido e saqueado. O prestígio lacedemônico viu-se de vez abatido no campo de batalha de Mantineia, na Arcádia (362 a. C); mas também estava morta a aspiração de uma união nacional. O laço federal que por vezes ligara a Hélade em propósitos bélicos, provara ser frouxo em demasia para constituir um organismo político. A fraqueza do império ateniense residia no vigor do sentimento particularista dos gregos. Pagar tributo à sua própria cidade, ser julgado nos seus próprios tribunais locais, eram venturas para os filhos das pequenas pátrias helénicas. À luz das suas liberdades não havia maior virtude do que a fidelidade ao Estado berço do cidadão. A Roma estava reservado o papel de mergulhar povos e raças num só Estado.

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