dez 232011
 

A Metafísica e suas fases históricas

Ricardo Ernesto Rose,

Jornalista, Graduado em filosofia e pós-graduando em sociologia

A questão do ente, “o que é?”, foi uma das principais idéias que deram origem à metafísica. Historicamente,  a  metafísica  remonta  a  Aristóteles,  que  a  chamava  de “filosofia primeira”, pois a partir dela é que construiu todo o seu sistema filosófico. No livro IV da Metafísica, Aristóteles escreve: “Há uma ciência que investiga o ser como ser e as propriedades que lhe são inerentes devido a sua própria natureza” (Aristóteles, 2006). Na própria obra Metafísica, Aristóteles faz um relato histórico, mostrando como a partir dos pré-socráticos a filosofia sempre procurou uma base imutável para seus raciocínios, ou seja, um princípio único material (água, ar) ou imaterial (o número, As Formas) a partir do qual toda a physis fosse constituída.

Um grande passo dado na filosofia foi quando o enfoque passou da cosmologia (que estudava o mundo em sua diversidade, mudança e multiplicidade) para a ontologia (que pensa a unidade, a identidade e a imutabilidade). Esta mudança foi introduzida no pensamento ocidental através da filosofia de Parmênides. Com este filósofo, pela primeira vez se empregou na filosofia o termo “ser” na acepção que depois foi usada na metafísica aristoteliana.

A história da questão sobre o ser (“por que os entes existem se simplesmente nada poderia existir?”) é, de certo modo, a história da própria metafísica. O termo “metafísica” queria dizer originalmente “além dos livros de física”, no sentido de “depois de passarem os livros de física” (aqueles que em uma determinada ordem de arrumação se encontravam depois dos livros tratando da física, segundo o exegeta Andrônico de Rodes, séc. I a.C.). Apesar da interpretação diferente, a disciplina passou a ser chamada por esse nome, já que se propunha a estudar a essência das coisas, daquilo que elas são além das aparências, “além da física” (o que é o sentido original da disciplina). No século XVII o filósofo alemão Thomasius criou a palavra “ontologia” (no sentido de “estudo do ser”) para substituir a expressão “metafísica”, mas não teve grande sucesso. A expressão ficou restrita principalmente aos países que foram influenciados pela filosofia alemã.

A metafísica divide-se historicamente em três períodos principais (conforme Chauí e outros autores):

a) O período que vai de Platão e Aristóteles (séc. IV e III a.C.) até o pensador inglês David Hume (séc. XVIII). Este primeiro período caracteriza-se pela investigação do que é, da realidade em si. Todavia, seus raciocínios baseiam-se mais em conceitos do que na realidade; o conhecimento é sistemático, interligado, enfatizando a distinção entre a aparência e a realidade. Este período termina quando Hume esclarece que os conceitos metafísicos não correspondem a uma realidade existente em si mesma, sendo apenas idéias e conceitos.

b) O período que vai de Kant (séc. XVIII) até Husserl (séc. XX). Este segundo período inicia-se com Kant, que demonstra ser impossível manter uma metafísica tradicional. A partir desse período a metafísica, mesmo usando os mesmos termos, não se referirá mais a algo que exista em si, mas a algo que existe apenas no nosso conhecimento.


c) A metafísica contemporânea, a partir dos anos 20 do século XX. A metafísica contemporânea investiga aspectos como os modos de existência do ente, a significação/sentido destes entes, as maneiras diversas como estes entes se apresentam a nossa consciência. A metafísica atual é descritiva porque não apresenta mais uma explicação causal da realidade. A disciplina se ocupa atualmente do estudo de temas como a liberdade e o livre-arbítrio, o tempo, Deus, a questão da individualidade, e ética, entre outros.

Sob o aspecto ontológico (investigação filosófica dos entes) a pergunta pelo ser das coisas ainda é válida. A ontologia estuda “os entes ou seres antes que sejam investigados pelas ciências e depois que se tornaram enigmáticos para nossa vida cotidiana” (Chauí, 2006). A ontologia, portanto, ainda continua estudando o ser, a essência ou o sentido das coisas; o sentido do ente físico ou natural, do ente psíquico, do lógico, matemático, estético, moral, etc. Neste sentido os entes podem ser reais (“as coisas”); ideais (as idéias, as instituições, tudo que é produto do raciocínio humano); valorizados (os valores, a axiologia); e podem mudar de acordo com as alterações na cultura das sociedades, não sendo mais eternos e imutáveis, como no passado.

Quanto à questão “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, colocada primeiramente por Leibniz e depois ampliada em importância por Heidegger, continua sendo uma das mais importantes questões da filosofia (dependendo, evidentemente, da escola filosófica). Alguns pensadores respondem que a única resposta para esta questão é Deus, fato que não poderá nunca ser provado. Outros afirmam que a resposta não tem sentido. Já outros argumentam que a questão se baseia em uma hipótese falsa – “a hipótese segundo a qual poderia não existir literalmente nada, um mundo absolutamente vazio” (Garrett, 2008).

Bibliografia:

ARISTÓTELES. Metafísica. Edipro. São Paulo: 2006, 363 p.

- CHAUÍ, MARILENA. Convite à filosofia. Editora Ática. São Paulo: 2006, 424 p.

- CRESPO, LUIS F.; COLOMBINI, ELAINE, A.M. Filosofia Geral – Problemas metafísicos

I. CEUCLAR. Batatais: 2008, 68 p.

- GARRET, BRIAN. Metafísica. Artmed. Porto Alegre: 2008, 190 p.

- TAYLOR, RICHARD. Metafísica. Zahar Editores. Rio de Janeiro: 1969, 141 p.

mar 092011
 
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 A EVOLUÇÃO DA METAFÍSICA E A CRÍTICA KANTIANA

Ricardo Ernesto Rose
Jornalista e Licenciado em Filosofia

“Pensar a ciência como busca da verdade é renovar uma fé mística, a fé de Platão e Agostinho, de que a verdade governa o mundo, de que a verdade é divina.” (Gray, 2006)

Introdução

Origens e evolução da metafísica:

A metafísica como disciplina filosófica tem sua origem em Aristóteles, que caracterizava sua “filosofia primeira” como “o estudo do ser enquanto ser”. No livro IV da Metafísica, Aristóteles faz a seguinte afirmação: “Há uma ciência que investiga o ser como ser e as propriedades que lhe são inerentes devido à sua própria natureza” (Aristóteles, 2006).

As origens da metafísica, no entanto, remontam ao período anterior ao estagirita. Já Parmênides de Eléia estabelece o início da ontologia, afirmando que “o Ser é, o Não-Ser não é”; “o Ser é único e imutável”. Este Ser único e imutável foi posteriormente transformado por Platão no mundo das essências, em contraposição ao mundo sensível, o mundo das aparências. O mito da caverna, famosa metáfora elaborada por Platão e descrita no livro VII da República é uma referência ao mundo das essências, onde se encontram todas as idéias; uma clara referência ao Ser de Parmênides. Escreve Platão: “Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz e o soberano da luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e pública.” (Platão, 2004).

O posicionamento de Aristóteles em relação à filosofia já é diferente de seus antecessores. Não faz distinção entre um mundo sensível e outro inteligível, a exemplo de Platão. A essência das coisas, segundo Aristóteles, está nas próprias coisas e é tarefa da filosofia, mais especificamente da metafísica, conhecê-las. As coisas estão em constante transformação, diz Aristóteles, e através de um constante aperfeiçoamento estas esperam encontrar sua essência divina, equiparando-se assim ao ser divino, o Primeiro Motor Imóvel. A essência ou ousía é a realidade ultima de um ser e é esta – chamada substância – que é o objeto de estudo da metafísica. Explica Aristóteles no livro VII da Metafísica: “Respondemos que se não há uma substância além das que são naturalmente compostas, a física será a ciência primeira; mas se há uma substância que não está sujeita ao movimento, a ciência que estuda essa substância será anterior à física e será a filosofia primeira, e neste sentido, universal, porque é primeira. E caberá a essa ciência investigar o ser enquanto ser – tanto o que é quanto os atributos que lhe pertencem enquanto ser.” (Aristóteles, 2006).

A metafísica aristotélica e o platonismo serão posteriormente incorporados à filosofia cristã, dando origem à metafísica cristã. Pelo lado da filosofia grega foram importantes três escolas de pensamento distintas: o neoplatonismo, o estoicismo e o gnosticismo. O neoplatonismo era uma filosofia baseada em Platão, mas com fortes tendências místicas. Criou uma dicotomia bastante forte entre matéria e espírito – mundo sensível e mundo inteligível – que foi de grande influência na doutrina e filosofia cristã posterior. Do estoicismo a filosofia cristã absorveu o conceito da Razão Universal, que governa toda a realidade de acordo com um plano e à qual os estóicos davam o nome de Providência. O gnosticismo, por sua vez, era um dualismo metafísico, afirmando a existência de dois princípios – Bem e Mal – que governavam o universo e estavam constantemente em luta. Para o gnosticismo era possível alcançar a Verdade e o Bem intelectualmente. “Para eles, o contato com a divindade é um assunto pessoal e direto e intransferível; isto é, não se precisa nem nunca se precisou da intermediação de uma casta sacerdotal. E se para eles a origem de todos os males está na matéria, o mal maior não é o pecado herdado do casal original, Adão e Eva, e sim a profunda ignorância em que estamos mergulhados, e que corrompe nossa existência.” (Fiorillo, 2008).

O cristianismo fez um amálgama com estas escolas filosófico-religiosas – afora outras que indiretamente também contribuíram para o cristianismo primitivo, como a filosofia cínica e cética, o maniqueísmo, o mitraísmo – e formou o que posteriormente veio a ser conhecido como a filosofia cristã e metafísica cristã. Evidentemente que se trata de assunto para especialistas, mas valeria a pena um estudo da influência de todas estas filosofias e doutrinas religiosas na formação da metafísica cristã, incorporando os conceitos de um Deus criador, pessoal, trinitário; da alma imortal; da criação do mundo ex nihilo; da não-contradição entre a liberdade humana – o livre arbítrio – e a onipotência e onisciência de Deus. Assim serão estas as idéias que balizarão toda a metafísica ocidental, desde o pensamento patrístico de Agostinho, passando pela escolástica com Tomás de Aquino, até o início da era moderna, quando então diversos conceitos metafísicos passam a perder a credibilidade.

A partir de Descartes a filosofia passa por uma reestruturação, principalmente a metafísica. Diferentemente da tradição até então vigente, que dizia haver tantas substâncias quanto havia gêneros e espécies, os modernos filósofos falavam em três substâncias: a pensante (o homem); a extensa (os corpos) e a infinita (Deus). Com estes conceitos, os empiristas e racionalistas elaboraram diferentes visões da metafísica, que basicamente se apoiavam nos conceitos de substância pensante, extensa e infinita.

Desenvolvimento

A crítica da metafísica:

A metafísica, de uma maneira ou de outra, já vinha sofrendo críticas desde o início da Era Moderna. Estes detratores, vivendo em um ambiente cultural ainda dominado pela igreja católica – sempre apoiada na ação da Inquisição –, eram perseguidos e atacados, muitas vezes classificados como ímpios e ateus. Em relação a este período relata o historiador Georges Minois: “Quando Voltaire acusa Descartes de influenciar o ateísmo, claro, não estava inteiramente errado. Na origem das idéias mais evidentes, na origem do cogito, está a dúvida metódica, de que não se sai tão facilmente como o filósofo julga.” (Minois, 2004).

A metafísica clássica ou moderna desde Descartes vinha se apoiando na idéia de que o pensamento humano possui a capacidade de conhecer a realidade como ela é em si mesma (conhecer “o ser do ser”). Isto significa, em outras palavras, que as idéias correspondem à realidade e esta correspondência era garantida por um Ser infinito (Deus). Esta relação era sustentada por três princípios básicos da filosofia, desde Aristóteles: a) o princípio de identidade; b) o princípio da não-contradição; c) o princípio de causalidade.

Na Inglaterra do século XVIII surge o filósofo empirista David Hume, que coloca em questão todos estes princípios da metafísica ao afirmar que tais pressupostos não existiam – e consequentemente não eram idéias que tínhamos “impressas” em nossas mentes – tratando­se apenas de hábitos mentais, resultado de repetições constantes, que observamos na natureza. Assim também os conceitos metafísicos de substância, alma, matéria, causa-efeito, forma, etc., seriam apenas conceitos que povoam nossas mentes, fruto da associação de idéias (resultantes de percepções) e sem nenhum fundamento real. Sobre a posição indefensável da metafísica, Hume escreve: “Esta é, na verdade, a objeção mais justa e mais aceitável contra uma parte considerável da metafísica que não forma propriamente uma ciência, mas brota tanto pelos esforços estéreis da vaidade humana que queira penetrar em recintos totalmente inacessíveis à inteligência humana, como pelos artifícios das superstições populares que, incapazes de se defenderem lealmente, arquitetam essas sarças emaranhadas, para cobrir e proteger suas fraquezas” (Hume 2007). Depois de Hume a metafísica não poderia mais ser a mesma, como vinha sendo praticada desde os gregos.

A posição de Kant:

O primeiro filósofo a levar a sério a crítica de Hume ao pensamento metafísico foi Immanuel Kant. Segundo ele mesmo declara, Hume o havia acordado de seu “sono dogmático”, forçando-o a repensar toda a validade do conhecimento e refazendo, assim, a filosofia ocidental. Kant assume a tarefa de colocar a filosofia sobre bases mais sólidas, interrogando-se sobre as próprias possibilidades da razão. Segundo Georges Pascal, Kant levanta duas grandes questões: 1) Como é possível explicar a existência de conhecimentos certos e racionais na matemática e na física?; e 2) É possível que exista tal conhecimento na metafísica? A resposta à primeira pergunta proporcionaria a solução da segunda, “pois é pela reflexão sobre como a matemática e a física chegaram a certezas a priori que descobriremos as possibilidades da razão”. (Pascal, 2007).

A grande “revolução copernicana” de Kant, a reestruturação que dá à filosofia, é na realidade a substituição, em teoria do conhecimento, de uma hipótese idealista por outra realista. O realismo admite que a realidade nos é dada através das impressões, fazendo com que o espírito tenha uma atitude passiva. Esta é a posição epistemológica criticada por Hume. O idealismo parte do pressuposto de que o espírito intervém na elaboração do conhecimento e que a realidade é resultado desta construção. Os objetos assim como os conhecemos são em parte elaboração nossa e é por isso que podemos ter um conhecimento a priori. Assim, Kant conclui que nosso saber sobre a realidade “longe de coincidir com a verdade absoluta das coisas, é todo ele travejado por elementos inscritos na nossa faculdade de conhecer, cuja estrutura antecede a experiência e determina os parâmetros no interior dos quais ela se torna possível” (Figueiredo, 2005).

No entanto, apesar de partir da crítica humeana, Kant, todavia, não adere totalmente as suas teses, por serem demasiadamente céticas. Para Kant trata-se de reformar a filosofia, estabelecer os limites da metafísica, mas manter o primado da razão. Hume com sua filosofia colocava em risco mesmo o conhecimento da natureza, que, segundo ele, baseava-se na indução e não na razão. Cabia, então, achar um novo caminho para estruturar a possibilidade do conhecimento. Essa iniciativa de Kant parte de uma posição idealista: a razão não depende das coisas e nem é regulada por elas; mas são as coisas que dependem da razão e por ela são condicionadas. Assim, o filósofo faz a distinção entre as duas formas de conhecimento: o que depende do objeto e constitui a matéria do conhecimento; e o que depende do sujeito e constitui a forma de conhecimento. Com relação a este ponto escreve Kant na “Crítica da Razão Pura”: “Sensação é o efeito que um objeto causa na capacidade de representação, quando o mesmo objeto nos afeta. A intuição é chamada de empírica quando, mediante sensação, refere-se ao objeto. Fenômeno é o objeto indeterminado de uma intuição empírica. Matéria é o que no fenômeno corresponde à sensação. Forma é o que o múltiplo do fenômeno, em determinadas relações, deve ser ordenado.” (Kant, 2007).

Segundo Kant, apesar de possuirmos conhecimento a priori, como das proposições matemáticas, nem todo conhecimento a priori tem o mesmo valor. Para explanar bem a diferença entre certo tipo de conhecimento, Kant faz a distinção entre juízos analíticos e juízos sintéticos. O primeiro extrai conhecimento do próprio sujeito, por simples análise. Como exemplo, Kant cita o fato de que todos os corpos são extensos. O conceito, neste caso, está no próprio sujeito – todo corpo tem extensão. O juízo sintético é aquele cujo predicado acrescenta alguma coisa ao sujeito, por exemplo: todos os corpos são pesados. É através dos juízos que as coisas passam a existir para nós, por se tornarem objeto de nosso conhecimento. Uma coisa passa então a existir quando pode tornar-se objeto de conhecimento de uma estrutura a priori universal da razão humana, aquilo que Kant denominou como Sujeito Transcendental.

Para Kant existem dois tipos de realidade. A primeira, aquela que recebemos através da sensibilidade e das categorias e que se transforma em fenômeno. A segunda, que não se oferece à experiência e não recebe formas e categorias, permanece sendo o noumeno,a coisa-em-sí, inapreensível e misteriosa ao conhecimento humano. A metafísica – pela definição filosófica – era aquele conhecimento que se ocupava de entes que eram dados ao pensamento sem qualquer relação com a experiência. No entanto, de acordo com Kant só podemos conhecer aquilo que apreendemos no tempo e no espaço, segundo as formas do conhecimento. O que extrapolava disso, o que estava fora desta classificação, era o noumeno, o objeto da metafísica, impossível ao nosso conhecimento. Desta forma, todos os conceitos anteriores da metafísica, como: ser imaterial, Deus, alma, infinito, etc., não tinham mais nenhum fundamento racional, já que não eram objeto da percepção e, desta forma não eram mais objeto de estudo da filosofia.

Conclusão e comentário:

Eliminando assim a possibilidade de conhecer os entes metafísicos, Kant acaba com a fatuidade de uma metafísica. Na dialética transcendental o filósofo mostra que as provas da existência de Deus – a cosmológica, a ontológica e a teológica – tão valorizadas pela metafísica tradicional, não tem fundamento racional. “A grande originalidade de Kant consiste provavelmente em ter tido a audácia de colocar uma pergunta que aflorava constantemente nos discursos filosóficos referentes à verdade desde Platão, mas que jamais, creio, nenhum pensador havia radicalizado verdadeiramente. Kant, em suma, tem a audácia excepcional de colocar a pergunta: Como é possível a verdade? Desde sempre os filósofos, em particular os grandes metafísicos clássicos – Descartes, Spinoza, Malebranche, Leibniz – tinham como evidente que a verdade existia.” (Châtelet, 1993). No entanto, apesar de provar a impossibilidade da metafísica e de seus pressupostos, Kant foi sempre um entusiasta da disciplina e tentou mais tarde – na Crítica da Razão Prática – retomar as provas metafísicas baseado nos argumentos morais, com fundamento na liberdade. Assim, a ética tornou-se o grande tema da metafísica, como estudo da Razão Prática.

A metafísica depois de Kant nunca mais foi a mesma de antes. Com seu sistema filosófico Kant acabou transformando a teoria do conhecimento em metafísica, afirmando que esta investiga possibilidade de um conhecimento universal e necessário. Outro aspecto importante é que o filósofo mostrou que o sujeito do conhecimento é uma estrutura universal, compartilhada por todos os seres humanos; a razão ou Sujeito Transcendental. A realidade é assim estruturada pelas idéias, produzidas pelo sujeito. Com isso a metafísica torna-se uma exteriorização das idéias do sujeito, isto é, torna-se idealista. “Kant mostrou que pensamos “legitimamente” os objetos metafísicos, sem cair em contradição conosco. Mas Kant mostrou que do ponto de vista teórico esta correspondência (entre nossas idéias e a existência de entes metafísicos) necessariamente não é verdadeira. Mas, por outro lado, a filosofia de Kant também demonstrou que se por um lado não é possível provar os conceitos metafísicos, por outro lado também não é possível provar sua inexistência.” (Bento Prado Jr., s/d).

Bibliografia

  • ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Verbete “metafísica”. São Paulo. Martins Fontes: 2007, 1.210 pgs.
  • ARISTÓTELES. A metafísica. São Paulo. Edições Profissionais: 2006: 363 pgs. CHÂTELET, François. Uma historia de la razon – Conversaciones com Emile Noel. Buenos Aires. Ediciones Nueva Visión: 1993, 191 pgs.
  • CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo. Editora Ática: 2006, 424 pgs.
  • FIGUEIREDO, Vinicius de. Kant & A crítica da razão pura. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor: 2005, 74 pgs. FIORILLO, Marilia. O Deus exilado – breve história de uma heresia. Rio de Janeiro. Editora
  • Civilização Brasileira: 2008, 303 pgs. GRAY, John. Cachorros de palha. Rio de Janeiro. Record Editora: 2006, 255 pgs. HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano. São Paulo. Editora Escala: 2007,
  • 173 pgs.
  • JR. BENTO, Prado. Curso sobre Heidegger: Kant e o problema da metafísica. <Disponível em http://www.conciencia.org/heideggerkantcursabento1.shtml.> acesso em 16/05/09 KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo. Ícone Editora: 2007, 541 pgs. MINOIS, Georges. História do Ateísmo. Lisboa. Editorial Teorema: 2004, 739 pgs. PASCAL, Georges. Compreender Kant. Rio de Janeiro. Vozes Editora: 2007, 206 pgs. PLATÃO. A República. São Paulo. Editora Nova Cultural: 2004, 352 pgs. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario, História da Filosofia – Vol II. São Paulo. Paulus Editora:
  • 1990, 956 pgs. SEVERINO, Joaquim Antonio. Metodologia do Trabalho Científico. São Paulo. Cortez Editora: 2006, 335 pgs.
dez 052010
 
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Noções de História da Filosofia (1918)

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Manual do Padre Leonel Franca.

CAPÍTULO I I

SEGUNDO PERÍODO — (450-300 α. C.)

22. CARÁTER GERAL Ε DIVISÃO — Neste período atinge a filosofia grega o apogeu do desenvolvimento. Surgem os seus maiores pensadores, que, vindicando os direitos da razão contra o ceticismo geral, constróem sobre bases mais sólidas uma síntese grandiosa do saber e elaboram, nos vários domínios da filosofia, um nácleo considerável de teses, que ficarão definitivamente incorporadas no patrimônio intelectual do gênero humano. Apesar de serem as questões morais as que inauguram o período, a sua feição característica é metafísica.

Como em todos os tempos de grande esplendor filosófico as escolas desaparecem na penumbra e avultam grandes individualidades.

Sócrates, Platão e Aristóteles cifram a glória deste período, escrevendo seus nomes entre os dos mais profundos pensadores da humanidade.

§ 1.° — Sócrates

23.BIOGRAFIA DE SÓCRATES — Filho de Sofrônico, escultor, e de Fenarete, parteira, nasceu Sócrates em Atenas, no ano 469 a. C. Na sua moci-dade. seguiu a profissão do pai, entregando-se mais tarde exclusivamente ao estudo da sabedoria. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. Combateu em Potidéia, onde salvou a vida de Alcibíades e em Delium, onde carregou aos ombros a Xenofonte, gravemente ferido. Pro’ clamado o mais sábio dos homens pelo oráculo de Delfos e dizendo–se inspirado do céu (O gênio ou demônio de Sócrates, variamente interpretado pelos críticos) empreendeu a reforma dos costumes na cidade corruta de Péricles. A liberdade de seus discursos e a feição austera de seu caráter, a par de admiradores entusiastas, atraíram-lhe também caluniadores e inimigos sem consciência. Acusado em idade avançada de corromper a juventude e de introduzir divindades novas recusou defender-se e foi condenado a bc-ber cicuta. A narração de seus derradeiros instantes e do último entretenimento com seus discípulos sobre a imortalidade da alma (Phaedo, de Platão) conta-se merecidamente entre as páginas mais belas e dramáticas de toda a literatura. Morreu em 399 a. C.

Sócrates nada deixou escrito. Suas doutrinas expunha-as em ensino oral nas praças e nos mercados, nos pórticos e nas oficinas, aos mais variados auditórios. O que dele sabemos foi-nos transmitido pelos seus discípulos Xenofonte e Platão. Xenofonte, de estilo simples e harmonioso, mas sem brilho nem profundidade, nas suas "Memorabilia", legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. Platão, sublime e cintilante," desenvolve nos seus numerosos diálogos, o sistema de Sócrates em toda a sua amplidão. Nem sempre, porém, é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas pelo genial discípulo (23).

Nas doutrinas de Sócrates podemos distinguir a parte polêmica, em que combate os sofistas, e a parte dogmática, em que expõe suas idéias sobre as diferentes partes da filosofia.

24. MÉTODO DE SÓCRATESA. É a parte polêmica. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam, concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade, determinando o verdadeiro objeto da ciência.

O objeto da ciência não é o sensível, o particular, o indivíduo que passa, é o inteligível, o conceito que se exprime pela definição. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por êle chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie, eliminar-lhes as diferenças individuais, as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum, estável, permanente, a natureza, a essência da coisa. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico, que vai do fenômeno à lei, mas é um meio de generalização, que remonta do indivíduo à noção universal.

B. Praticamente, na exposição polêmica e didática destas" idéias, Sócrates adotava sempre o diálogo, que revestia uma dúplice forma, conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. No primeiro caso, assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. É a ironia socrática. No segundo caso, tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido) multiplicava ainda as perguntas, diri-gindo-as agora ao fim de obter por indução dos casos particulares e concretos, um conceito, uma definição geral do objeto em questão. A este processo pedagógico, em memória da profissão materna, denominava êle maieutica ou engenhosa obstetrícia do espírito, que facilitava a parturição das idéias.

(23) Referindo-se a Platão costumava Sócrates dizer: "Que coisas me féz dizer esse. jovem nas quais eu nunca pensara!"

25. DOUTRINAS FILOSÓFICAS — "Conhece-te a ti mesmo" é o lema em que Sócrates cifra tôda a sua vida de sábio. O .perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral, o centro para o qual convergem todas as partes da sua- filosofia. A psicologia serve-lhe de preâmbulo, a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética.

A. Em psicologia, Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma, distingue as duas ordens de conhecimento, sensitivo e intelectual, mas não define o livre arbítrio, identificando a vontade com a inteligência.

B. Em teodicéia, estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico, formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência (Memorab., I, 4: IV, 8); b) com o argumento, apenas esboçado, da causa eficiente: se o homem é inteligente, também inteligente deve ser a causa que o produziu; c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem, um legislador, que a promulgou e sancionou. Deus não só existe, mas é também Providência, governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. Apesar destas doutrinas elevadas, Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar.

C. Moral. É a parte culminante da sua filosofia. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus, fim supremo do homem, é a prática da virtude. A virtude adquire-se com a sabedoria ou, antes, com ela se identifica. Esta doutrina, uma das mais características da moral socrática, é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa, virtude e ciência, ignorância e vício são sinônimos. "Se músico é o que sabe música, pedreiro o que sabe edificar, justo será o que sabe a justiça".

Sócrates reconhece também, acima das leis mutáveis e escritas, a existência de uma lei natural — αγραφοι νόμοι — independente do arbítrio humano, universal, fonte primordial de todo direito positivo, expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência.

Sublime nos lineamentos gerais de sua ética, Sócrates, em prática, sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema (24).

(24) "A doutrina puramente utilitária ensinada por Sócrates neste lugar (Memorab, TV, 5, 8, 9) bastaria, por sl só, a caracterizar a ética socrática e distanciá-la infinitamente da moral cristã. Não se pode compreender como escritores cristãos… possam no seu entusiasmo inconsciente pelo grande moralista ateniense asseverar que à ética de Sócrates só falta para ser cristã a mais alta luz do conhecimento de Deus e de si próprio". Latino Coelho, Introdução à oração da coroa. p. 236, em nota.

26. IMPORTÂNCIA Ε INFLUÊNCIA DE SÓCRATES — A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico; a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. Não é, pois, de admirar que um homem, já au-reolado pela austera grandeza moral de sua vida, tenha, pela novidade de suas idéias, exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. Entre os seus numerosos discípulos, além de simples amadores, como Alcibíades e Eurípedes, além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri), como Xenofonte, havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. Dentre estes, alguns, saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre; desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. São os fundadores das escolas socrâticas menores, das quais as mais conhecidas são:

A. A escola de Megara, fundada por Euclides (449-369), que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão.

Β. A escola cínica, fundada por Antístenes (n. c. 445) que, exagerando a doutrina socrática do desapego ‘das coisas exteriores, degenerou, por último, em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. São bem conhecidas as excentricidades de Diogenes.

C. A escola cirenaica ou hedonista, fundada por Aristipo (n. c. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer.

Estas escolas, que, durante o segundo período,- dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles, verdadeiros continuado-res da tradição socrática, vegetaram na penumbra, mais tarde re-cresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas. Dos megáricos brotaram os céticos e pirrônicos, dos cínicos saíram os estóicos, dos hedonistas originaram-se os epicureus.

Dentre o discípulos de Sócrates, porém, o herdeiro genuíno de suas idéias, o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão.

BIBLIOGRAFIA

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Índice alfabético da bibliografia socrática por P. K. Bizukides,Leipzig, 1921.
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— Η. de Stein, De filosofia cirenaica, Göttingen. 1885.
J. Gefecken Kynika und Verwandtes, Heidelberg, 1909.
D. R. Dudley, A history of cynicism from Diogenes to the 6th. Century, London, 1937.
D. Henne, École de Mégare, Paris, 1843; — C. Maillet, Histoire de l’école de Mégare et des écoles d’Elis et d’Éretrie, Paris, 1845.

§ 2.° — Platão

27. VIDA Ε OBRAS — Nasceu Platão em Atenas, no ano 427 a. C. Filho de família aristocrática e abastada, entregou-se na juventude ao estudo das ciências, sob o magistério de Cratilo, discípulo de Heráclito, passando mais tarde para a escola de Sócrates a quem ouviu por quase dez anos. Por morte do mestre, retirou–sé para Megara, donde empreendeu uma série de viagens ao Egito, à Itália e à Sicília. De volta à Grécia, estabeleceu-se definitivamente em Atenas, abrindo sua escola, que do ginásio de Academus, onde se congregava, recebeu o nome de Academia. De então até a morte, ocorrida em 347, ocupou-se exclusivamente em ensinar e escrever.

Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Dos 35 diálogos, porém, que correm sob o seu nome muitos são apócrifos, outros de autenticidade duvidosa (25).

A forma dos escritos platônicos é o diálogo, transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. No fundador da Academia, o mito e a poesia confundem-se muita vez com os elementos puramente racionais do sistema (26). Faltam-lhe ainda o rigor, a precisão, o método, a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita.

28. VISTA GERAL DA FILOSOFIA DE PLATÃO — TEORIA DAS IDÉIAS — Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia.

A ciência é objetiva; ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. Ora, de um lado, os nossos conceitos são universais, necessários, imutáveis e eternos (Sócrates), do outro, tudo no mundo é individual, contingente e transitório (Heráclito). Deve, logo, existir, além do fenomenal, um outro mundo de realidades, objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. Estas realidades chamam-se Idéias. As idéias não são, pois, no sentido platônico, representações intelectuais, formas abstratas do pensamento, são realidades objetivas, modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes (27). Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos "humanos são imitações transitórias e defeituosas.

(25) Aplicando os critérios de ordem interna e externa, a crítica moderna considera hoje como certamente autênticos os seguintes diálogos: Phaedro, Protagoras, Convívio, Gorgias, República, Timeu, Theateto, Pheáo, Leis. Certamente apócrifos são: Alcibiades (2.°), Theages, Minos, Clitofonte, Epinomides, Hiparco e as Epístolas (a 7.a provavelmente autêntica). Os outros são de autenticidade duvidosa. Como mais provavelmente autênticos podem considerar-se: Criton, Eutifron, Hipias menor, Charmides; Laches, Lisis Eutidemo, Menos, Cratilo, Filebo, Critlas e a Apologia de Sócrates. Alcibiades 1.°, Ion, Menexeno, Hipias maior, são mais provavelmente apócrifos.

A cronologia dos diálogos platônicos é outra vexata quaestio entre os críticos. Costuma-se, geralmente, distinguir 3 fases na vida intelectual de Platão. A primeira é a socrática, a que pertencem quase todos os diálogos morais; a influência do mestre sobre Platão Jovem é ainda eensível. Na segunda fase, mais pessoal, Platão, atingindo a plenitude de sua individualidade e pujança intelectual, delineia os traços da sua construção sistemática. A esta fase se referem os diálogos em que se agitam questões metafísicas. A terceira fase pitagórlca é de Platão velho; traz evidentes vestígios de pitagorismo.

 

(26) "Plato, diz S. Tomaz, habult malum modum docendi. Omnia enim figurate dielt et per symbola docet, intendens aliud per verba quam sonant ipsa verba, sicut quum dixit, animam esse circulum". In I de Anima, lect. VIII.

(27) Alguns neoplatônicos cristãos, β sobretudo S. Agostinho interpretaram mais benignamente a teoria das idéias, considerando-as não como realidades Isoladas, mas como causas exemplares, lmagens-arquétipos das poisas existentes na mente divina. Seguem a S. Agostinho, entre oe modernos,

dez 032010
 
Escola de Atenas de Rafael Sanzio

Noções de História da Filosofia (1918)

Manual do Padre Leonel Franca.

12. A FILOSOFIA NA GRÉCIA — "O pequeno território da Hélade foi como o berço de quase todas as idéias que na filosofia, nas ciências, nas artes e em grande parte nas instituições vieram incorporar-se à civilização moderna" (13). Providencialmente situado entre o Oriente asiático e a Europa ocidental, liberalmente aquinhoado pela natureza de eminentes dotes espirituais — fantasia criadora e raro poder de generalização — dotado de instituições sociais e políticas que estimulavam a iniciativa individual, o povo grego recolheu os materiais das grandes civilizações, que al-voreceram nos impérios da Ásia, trabalhou-os com o seu espírito sintético e artístico e, com eles, elevou este grandioso e soberbo monumento de cultura, objeto de imitação e admiração dos séculos posteriores.

A filosofia, sobretudo, medrou na Grécia como em terra nativa. Seus grandes gênios dominaram as gerações pelo vigor incontestável do pensamento. Pode mesmo afoitamente afirmar-se que não há, no campo da especulação, teoria moderna que não encontre o seu germe nas idéias de algum pensador grego.

Este grande movimento filosófico, que abrange um período de mais de dez séculos, segue a princípio uma direção centrípeta. Parte das numerosas colônias gregas da Itália e da Ásia Menor e converge para Atenas. Neste foco de cultura atinge, no século de Péricles, o fastígio de sua perfeição, para daí dispersar-se mais tarde e irradiar pelo mundo helenizado, fundindo-se e modificando-se em contato com as idéias cristãs e com outras correntes intelectuais do pensamento.

Escola de Atenas de Rafael Sanzio
Escola de Atenas, por Rafael Sanzio

13. DIVISÃO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA GREGA — Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos:

  • I — Período pré-socrático (séc. VII-V a. C.) — Problemas cosmológicos.
  • II — Período socrático (séc. IV a. C.) — Problemas metafísicos.
  • Ill Período pós-socrático (séc. IV a. C. — VI p. C.) — Problemas morais.

O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

(13) Latino Coelho, Oração da Coroa, Introdução, p. XXXV.

BIBLIOGRAFIA .

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— Bauch B. Das Substanzproblem in der griechischen Philosophie, Heidelberg, 1910: — Herbertz R., Das Wahrheitsproblem in der griechischen Philosophie, Berlin. 1913: — Renouvier Ch., Manuel de Philosophie ancienne2, 2 vols., Paris, 1845; — Laforet U. J., Histoire de la Philosophie, philosophie ancienne, 2 vols, in 8.°, Bruxelles. Devaux 1866-67;

— Chaignet, Histoire de la psychologie des Grecs, 5 vols, in 8.°; Paris, Hachette, 1887-92; — Benard Ch., La philosophie ancienne. Hist, peñérale de ses systèmes, 1 vol., in 8°, Paris, 1885; — Ch. Werner. La philosophie grecque, Paris, 1938; — L. Robin, La pensée grecoue2, Paris, 1928; — Btjttler W. A., Lectures on the history of ancient philosophy, Nov. ediç. por W. H. Thomson, 2 vols, in 12, London, 1874; — Benn, A. W., The greek Philosophers, 2 vols, in 8.°, London. 1882; — J. Burnet, The History of Greek Philosophy, in 8.°, London, Macmillan, 1914; — Bobba, Saggio delia filosofia greco-romana, Torino, 1881; — G. Ruggiero, La filosofia greca, Bari, 1917; — J. de Castro Nery, Evolução do pensamento antigo, Porto Alegre, 1936.

 

CAPÍTULO I

PRIMEIRO PERÍODO — (600-450 α. C.)

14. CARÁTER GERAL Ε DIVISÃO — Os filósofos deste, período preocupam-se quase exclusivamente com os problemas cos-mológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: 1.*, escola jônica; 2.*, escola itálica; 3.a, escola eleática; 4.a, escola atomística. Sem constituir escola propriamente dita, no fim do período aparecem os sofistas.

BIBLIOGRAFIA

Dos filósofos deste primeiro período não nos chegou nenhuma obra completa. Os fragmentos existentes foram conservados por Aristóteles, Platão e pelos doxógrafos gregos e latinos. Teofrasto, Pseudo-Plutarco, Hi-pólito, Stobeu, Diógenes Laércio, Cícero, Sêneca, Plutarco, Galeno, Sexto-Empírico e entre os autores cristãos, S. Justino. S. Irineu, Clemente Alexandrino, Orígenes, Tertuliano, Teodoreto, Eusébio de Cesarea e S. Agostinho. Colecionou-os modernamente A. Mullach, Fragmenta philosopho-rum graecorum, 3 vols., Paris. 1860-1881; mais recente, mais completa e mais crítica é a edição de H. Dtels, Fragmente der Vorsokratíker, 3 vols., in 8°, Berlin, Weidemann, 1922.

A. W. Eenn, Early Greek Philosophy, London, 1908; — K. Goebel, Die Vorsokratische Philosophie, Bonn, 1910; — G. Kafka, Die Vorsokratiuer, München, 1921; — S. A. Byck. Die Vorsokratische Philosophie der Griechen, in ihrer organischen Gliederung, 2 vols, in 8.°, Leipzig, Schäfer, 1876-77; — P. Tannery Pour l’histoire de la science hellène: De Thaïes a Empédocle, Paris, 1887: — A. Leceère, La philosophie grecque avant Socrate2, Paris. 1908: — J. Burnet, Early Greek Philosophy, London, 1908; — U. C. Β. Montagni. L’evoluzione pressocratíca, Cittá di Castello, 1912; — H. Schaaf, Institutiones historiae philosophiae graecae, Roma, 1912.

Aristóteles filósofo grego

§ 1.° — Escola jônica

A ESCOLA JÔNICA, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores.

15. Os jônios antigos consideram o Universo no ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são:

  • I.º) Tales (c. 624-548 a. C), de Mileto, fenicio de origem, fundador da escola. É o mais antigo filósofo grego. Levado, talvez, por alguns fatos ingenuamente observados e por lendas tradicionais, afirmou ser a água o princípio gerador de todas as coisas. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua.
  • 2.º Anaximandro (c. 611-547 a. C), de Mileto, discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza, põe como. princípio universal uma substância indefinida, ãweipov, isto é, quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Deste Επαρον primitivo, dotado de vida e imortalidade, por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens.
  • 3.º) Anaxímenes (c. 538-524 a. C), também de Mileto, colega de Anaximandro, levado talvez pela importância da respiração na economia vital, estabelece como elemento primitivo o ar, do qual por um processo de rarefação se origina o fogo, e por condensação a água, a terra, as pedras e os demais seres.

Tanto Anaximandro como Anaxímenes ensinam uma espécie de palingenèsia ou formação e destruição periódica de todas as coisas.

Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista.

16. OS JÔNIOS POSTERIORES distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos.

Heráclito (535-475 a. C.) de Éfeso é o elo de união entre os jônios antigos e os posteriores. Sua doutrina é uma reação contra as especulações dos eleatas. Parmênides, como veremos, afirmara a imutabilidade do ser. Heráclito opõe-lhe a mutabilidade de todas as coisas, -πάντα pel xal ovõh μένει tudo se acha em perpétuo fluxo, a realidade está sujeita a um vir-a-ser contínuo (14). Ε como de todos os elementos, o móvel por excelência é o fogo, do fogo fêz Heráclito o princípio fundamental de todas as coisas. È ainda a preocupação dos antigos jônios de determinar um elemento único, como origem comum de todos os seres. O fogo é dotado de um princípio interno de atividade, em virtude do qual se move continuamente, constituindo cada um dos estádios do seu perpétuo fluxo um fenômeno natural. O mundo teve origem deste fogo primitivo que se identifica com a divindade. Por um processo de "extinção" transformou-se em água e depois em terra. Por um novo processo de "ascensão" a terra volta a ser água e a água torna a fogo. Assim a "luta" separa os elementos, e a "concórdia" tende a reconduzi-los ao fogo donde provieram. Nestas vicissitudes em que a luta vai demolindo o trabalho da concórdia, o triunfo final caberá à concórdia. Mas então intervirá a divindade, construindo um novo mundo em que as duas forças antagonistas entrarão de novo em ação. Como se vê, a cosmologia de Heráclito é ainda em hilo zoísmo panteísta.

Além destas doutrinas físicas, Heráclito ensinou ainda a distinção entre a razão, a que devemos prestar fé, e os sentidos, testemunhas suspeitas da verdade quando não retamente interpretados pela razão.

(14) Por esta doutrina do vir-a-ser perpétuo quiseram alguns discípulos de Hegel ver em Heráclito um precursor do idealista alemão, inculcando-o como o primeiro pensador antigo que reconheceu a identidade do ser e do não ser, e negou o principio de contradição. O próprio Hegel referindo-se a Heráclito escreveu: "Foi este ousado pensador quem primeiro pronunciou a sentença profunda: tudo é e nada é. Aqui ô que devemos exclamar: Terra. Não há uma só posição de Heráclito que eu não admita na minha lógica".

Aristóteles, (Met. IV, 3.) porém, e com êle vários modernos (Zeller; Turner etc.) duvidam que o filósofo efesino tivesse chegado a tal extremo. Semelhança incontestável com Hegel, apresenta-a sim, Heráclito na obscuridade em que envolvia os sei conceitos. Os contemporâneos apelidaram-no "o tenebroso", o-xoreivás "clarus ob obscuram linguam" disse Lucrécio

 

2.°) Empédocles (c. 495-435 a. C.) de Agrigento, autor do poema "a natureza", no intuito de conciliar a unidade e imutabilidade do ser, ensinada pela escola eleata, com a pluralidade e o movimento local, evidentemente atestados pelo senso comum, propõe a teoria dos quatro elementos, que, abraçada por Aristóteles, reinou na ciência por quase 2.000 anos. Segundo o seu sistema todos os corpos são compostos de ar, água, terra e fogo. Estas "raízes" (15) primitivas, ingênitas, imutáveis e irredutíveis (propriedades do ente de Parmênides) entram em diferentes proporções na composição de todos os corpos. As mudanças reduzem-se a combinações ou separações destes elementos e são determinadas pelo "amor", e "ódio", forças místicas que, concebidas antropomòrficamente, regulam as alterações do mundo corpóreo.

A alma humana é também composta destes quatro elementos. Assim se explica a possibilidade do conhecimento, visto como simile simili cognoscitur.

Empédocles ensina a metempsicose e parece admitir a existência de uma Inteligência ordenadora. Mas esta idéia, mal definida em seus poemas, não lhe foi orgânicamente incorporada no sistema filosófico da natureza.

3.°) Anaxágoras (c. 500-428 a. C.). — A. Natural de Clazo-mena, escreveu uma obra "da natureza", de que nos restam preciosos fragmentos. Amigo de Péricles foi, como êle, perseguido pelo povo; acusado de ateísmo por não prestar culto aos deuses nacionais, fugiu para Lampsaco, onde faleceu. Tucídides, Temístocles, Euripides, Heráclito e Sófocles foram seus contemporâneos ou amigos.

(15) Των πάντων ς,ιξώματα O termo "elemento" στσικα é posterior, de origem platônica.

Β. Sua substância primitiva é um agregado de partículas mínimas de todas as substâncias existentes. Aristóteles chamou-as homeomerias. As propriedades específicas dum corpo dependem do predomínio das homeomerias de propriedades correspondentes. A existência das homeomerias de outras espécies, em todos os corpos, explica a possibilidade das transformações.

C. No que, porém, o sistema de Anaxágoras representa um notável progresso na evolução do pensamento grego é em ter feito apelo para uma Inteligência ordenadora a fim de explicar racionalmente a harmonia do Universo. Esta Inteligência — Noüs — é simples, imaterial, independente, toda poderosa, única e infinita, causa eficiente do movimento e da ordem cósmica. Por esta razão, do filósofo de Clazomena, disse Aristóteles que, "comparado com os que o precederam aparece como um sóbrio falando entre ébrios que devaneiam".

D. Em psicologia, Anaxágoras opõe aos sentidos, instrumentos fracos, mas não enganadores do conhecimento, a inteligência simples e imaterial que tudo percebe.

E. Com Anaxágoras dá entrada na filosofia o conceito do su-pra-sensível, afirma-se a irredutibilidade entre o material e o imaterial, delineia-se a idéia teleológica e à questão da causa material soprepõe-se a da causa eficiente do Universo. Lançando ainda os primeiros alicerces da psicologia e da teodicéia pela demonstração racional de suas teses fundamentais, Anaxágoras prepara o caminho a Sócrates e Aristóteles e conquista, na história da filosofia, títulos à imortal gratidão da posteridade.

Nota — Pelo que fica exposto, vê-se que os três filósofos acima, se bem orientados pela idéia geral dos jônios antigos, deles se separam em muitos pontos, sob o influxo de outras escolas. Melhor do que jônios poder-se-iam dizer ecléticos independentes. Isto explica a divergência de alguns autores que qs classificam entre os atomistas.

BIBLIOGRAFIA

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§ 2.° — Escola itálica — Pitágoras

17. Enquanto, em plena florescência, se desenvolvia, na Ásia Menor, a escola jônica, em Crotona, na Magna Grécia, surgia outra escola — a primeira do Ocidente — de orientação bem diversa.

A. Pitágoras (sec. VI), natural de Samos e fundador da escola, é uma das mais notáveis personalidades da antigüidade. Nada deixou escrito (16) e sobre sua vida a tradição teceu inúmeras lendas. À crítica moderna chegou até a lançar dúvidas sobre a his toricidade de algumas das suas viagens ao Egito, à Pérsia, à Índia e às Gálias. Sabemos apenas que foi ilustre matemático, organizou a sua escola à maneira de congregação político-religiosa e lhe legou um corpo de doutrinas cosmológicas e morais. É-nos difícil, senão impossível distinguir entre elas os ensinamentos primitivos do mestre da contribuição posterior dos discípulos.

B. Segundo a escola itálica, o número é o fundamento de tudo, é o princípio essencial de que são compostas todas as coisas. Deus é a grande Unidade, a grande Monada, o número perfeito do qual emanam todos os outros seres do mundo, grandiosa harmonia matemática. Não sabemos ao certo que significação atribuíam os pi-tagóricos à palavra "número". Impressionados pela ordem do Universo, talvez quisessem simbolizar apenas, com este termo, a regularidade e constância dos fenômenos naturais. Se assim fosse — mas não temos provas para afirmá-lo contra Aristóteles que interpreta o termo no sentido óbvio — houvera sido esta uma intuição da possibilidade, hoje em grande parte realizada, de exprimir por fórmulas numéricas as leis físicas que presidem aos fenômenos do Cosmo.

Os corpos formados por números constam como estes de par e ímpar ou de finito ou infinito. Os números pares, por se poderem sempre dividir, são de certo modo infinitos; os ímpares, que se opõem a esta divisão, finitos.

O universo é constituído por um corpo ígneo, situado no centro e móvel em torno do próprio eixo e ao redor do qual se dispõem a terra, o sol, os planetas e a anti-terrâ, corpo que eles acrescentavam aos sete planetas então conhecidos para perfazer o número de 10. Engastados em esferas concêntricas, produzem estes astros no seu movimento uma admirável harmonia, "a harmonia das esferas", que o hábito nos impede de sentir.

C. Além destes ensinamentos de ordem cosmológica, professavam os discípulos de Pitágoras várias doutrinas religiosas e morais, características da escola. Fim último da vida e felicidade suprema do sábio é a semelhança com a Divindade. Meio necessário de atingi-la, a prática da virtude, harmonia resultante da subordinação da parte inferior à superior da nossa natureza. No intuito de alcançar este equilíbrio harmônico davam-se aos rigores das práticas ascéticas. Viviam vida comum, no celibate, praticavam o silêncio, a abstinência de certos alimentos e o exame de consciência. Guardavam entre os iniciados rigoroso segredo de doutrinas. Acreditavam na metempsicose ou transmigração das almas não de todo purificadas e tributavam ao mestre grande culto de veneração, abdicando em sua autoridade a própria razão, a ponto de considerarem a sentença dele em qualquer questão como aresto inapelável e expressão indiscutível da verdade. O ipse dixit era a última palavra de todas as discussões.

(16) Os fragmentos que se lhe atribuem são certamente espúrios. Os "versos áureos", coleção de máximas morais, parecem ser do pltagórico Lysis.

 

D. Por motivos políticos e pelas suas tendências acentuada-mente aristocráticas, depois da morte do mestre, foi a comunidade pitagórica assaltada e dispersa, numa sublevação popular. Seus membros disseminados pela Itália e pela Grécia ioram infiltrar em outros sistemas as próprias doutrinas. Como escola, o pitagorismo cessou de existir no see. IV a. C.

E. Entre os discípulos de Pitágoras os mais conhecidos são: Filolau (n. c. 480) que primeiro publicou as doutrinas da escola e de quem nos restam ainda fragmentos autênticos; Lysis, discípulo de Filolau, Hipasus, Cimias, Cebes, contemporâneos de Sócrates, que figuram como interlocutores nos diálogos de Platão; Ricetas, que ensinou o movimento da terra em torno do próprio eixo e inspirou a Copérnico a teoria heliocêntrica; Alcmeon, médico, que reconheceu no cérebro o órgão central da sensibilidade; Arquitas de Tarento, que fundou na Sicília uma escola filosófica.

F. A Pitágoras cabe a iniciativa de ter orientado a filosofia para os problemas ético-religiosos, encarando-a não só como explicação da natureza, senão ainda como regra de vida, como meio de atingir a perfeição e a felicidade. Sua moral, porém, apresenta-se a nós mais como uma tradição religiosa do que como resultado de uma investigação racional coerente com o resto do sistema filosófico. Seu, outrossim, é o merecimento de ter compreendido que o universo é realmente cosmos, isto é, ordem e harmonia. Caiu, porém, ao que parece, no erro de confundir a manifestação externa desta ordem com o seu constitutivo interno, fazendo do número não só à expressão da ordem real mas o princípio da própria realidade.

A Pitágoras, como refere Cícero (17) remonta a origem do termo "filósofo", que éle por evitar o de sábio — σ6φο$ — modestamente se atribuía, chamando-se "amigo da sabedoria".

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§ 3.° — Escola eleática

18. Em face do problema cosmológico, a escola de Eléia, na Magna Grécia, assume uma posição francamente apriorista. Nega audazmente a multiplicidade e sucessão dos seres como ilusões dos sentidos, e, por meio. de processos dialéticos, afirma, em nome da razão, a unicidade, eternidade e imutabilidade do ser. "Firmam o universo", no dizer de Platão: " ót τον ΰλου στασιώται ‘. É o panteísmo idealista oposto ao panteísmo naturalista das escolas precedentes. Não podendo, porém, furtar-se à necessidade de explicar o mundo das aparências, inspiram-se os eleatas nas doutrinas físicas dos jônios.

(17) Cie, Tusc, V 3.

Às conclusões da escola chegaram seus diferentes adeptos por vias diversas.

1.°) Xenófanes (576-480 a. C), de Colofônio, na Ásia Menor, e fundador da escola em Eléia, é teólogo. Seu ponto de partida é a unidade de Deus que êle demonstra com bons argumentos e defende contra o politeísmo vulgar, exprobrando com veemência a Homero e Hesíodo por haverem favorecido com suas teogonias a concepção antropomórfica da Divindade. Deus é, pois, uno, eterno imóvel, imutável, perfeito, tudo abraçando e governando com o pensamento: Unus est Deus deorum, hominumque summus, sine negotio, mentis vi cuncta permovet immotus. Confundindo, porém, Deus e o Universo, dos atributos do primeiro inferiu erroneamente os atributos do segundo, concluindo pela unicidade e imutabilidade do ser.

Em física, Xenófanes explica a origem do mundo de uma ou mais substâncias primitivas — talvez a terra e a água — sem se preocupar da coerência destas doutrinas com as anteriores sobre a imutabilidade do Universo.

Em ética, censura acremente os desmandos morais de seus conterrâneos e aconselha de preferência à cultura demasiada das forças físicas, a sobriedade e o amor da sabedoria.

Do seu poema A natureza só nos restam fragmentos.

2.º) Parmênides (530-444 a. C), discípulo de Xenófanes, é metafísico, talvez o mais profundo dos filósofos pré-socráticos. Distingue duas ordens opostas de conhecimento: a sensitiva que nos leva à "opinião", τα προς δάξαν , enganadora e ilusória, e a intele-tual, fundada na evidência dialética, que nos conduz "à verdade" τα Trpòs άλήϋααρ. Os sentidos percebem o mutável, o múltiplo, o contingente; a razão vê no fundo de todas as coisas uma realidade única — o ente. Ora, o ente, não podendo vir do não ente "ex nihilo nihil", é uno, eterno, ingênito, imóvel, indivisível, imutável, homogêneo, contínuo e esférico (esfera, figura perfeita). O mundo fenomenal não passa de uma ilusão.

Na sua cosmologia do aparente, ensina Parmênides que todas as coisas são compostas de dois princípios — luz e trevas, calor e frio, isto é, de fogo e terra.

Além do defeito comum a todos os aprioristas de rejeitar a evidência experimental, confunde Parmênides a ordem lógica com a ontológica, transportando os atributos provenientes do estado de abstração de uma idéia à realidade por ela representada. Altean-do-se, porém, na esfera do inteligível até à idéia de ser, eleva-se muito acima de seus predecessores e aplaina o caminho a uma metafísica mais segura.

3.º) Zenão, de Eléia (490 a. C), é dialético. Chega às mesmas conclusões de Parmênides por via indireta, mostrando as contradições dos que prestam fé ao testemunho dos sentidos. Alguns de seus sofismas contra a pluralidade dos seres, e sobretudo contra a possibilidade do movimento (18), são célebres na história do pensamento. Zenão era um polemista erudito, sutil, mas amante de cavilações e paradoxos. Preludia os sofistas.

4.º) Melisso (meado do see. V a. C.), de Samos, não é um ta-lente original. Nada fêz senão sintetizar as teorias da escola, procurando conciliá-las com o naturalismo dos jônios. Neste trabalho de harmonização nem sempre conseguiu evitar contradições, introduzindo idéias contrárias às doutrinas capitais da escola eleata.

(18) Um dos mais conhecidos — o argumento da dicotomia, é o seguinte: Um móvel para ir de A a Β deve percorrer metade do espaço intermédio, mas antes de chegar ao ponto médio terá de vencer a metade da distancia que o separa do ponto Inicial e assim por diante. Ao argumento responde Aristóteles declarando a verdadeira natureza da extensão e do tempo. Cfr. Nys, Cosmologtc", p. 243.

 

Epicuro

Epicuro

BIBLIOGRAFIA

S. Ferrari, Gli Eleati, Roma, 1892, (Mem. delia Accad. dei Lincei) ; — J. Dörfler, Die Eleaten u. d. Orphiker, Freistadt, 1911; — G. Calogero, Studi sull’Eleatismo, Roma, 1832; — K. Riezler, Parmenídes, Frankfurt a, m. 1934.

§ 4.° — Escola atomística

19. Como Empédocles e Anaxágoras, tentam também os ato-mistas conciliar o rígido monismo dos eleatas com as exigências, do senso comum. Neste intuito, admitem como os dois filósofos precedentes que os elementos primitivos são imutáveis e dotados de movimento local, mas deles se separam afirmando a sua homogeneidade e indivisibilidade.

A. O verdadeiro fundador da nova escola é Leucipo, de quem quase nada sabemos. Demócrito (520-440 a. C), natural de Abdera, na Trácia, discípulo de Leucipo, é o seu principal organizador e representante. Foi homem muito versado na física e nas matemáticas e de maravilhosa erudição, não inferior à do próprio Aristóteles. Das suas muitas obras só restam fragmentos.

Β. O sistema mecanicista da natureza por êle proposto reduz-se aos seguintes princípios fundamentais. As grandes massas são compostas de corpúsculos insecáveis, ingênitos, eternos, chamados átomos. Substancialmente homogêneos, diferem uns dos outros pela figura, pela ordem e pela posição; pela figura como A de Ν (para o esclarecermos com o exemplo de Aristóteles, Metaphys. I, 4), pela ordem como AN de NA, pela posição como Ν de Ζ (o Ν é um Ζ deitado). A diferença de figura acarreta, outrossim, a de grandeza e de peso. Ao lado dos átomos, admite Demócrito o vácuo (contra Parmênides) para explicar a possibilidade do movimento. Daí a fórmula: os corpos são compostos de pleno e de vácuo, πληρεζ xaí χενον.

A geração, a corrução e às transformações das grandes massas explicam-se por agregações e desagregações atômicas. Das propriedades corpóreas, as de ordem quantitativa, como extensão, figura, grandeza, peso, movimento ou repouso (chamadas por Aristóteles sensíveis comuns e, pelos modernos, qualidades primárias) existem na realidade como as percebemos; as de ordem qualitativa (sensíveis próprios de Aristóteles ou qualidades secundárias dos modernos) tais a côr e o som, só existem como movimento local. Na sua formalidade qualitativa são impressões dos sentidos, na frase de Teofrasto, πάϋη ríjs άισαήσω* (De sens, et sensib., § 63).

C. A origem do mundo explica-se por um processo puramente mecânico, sem recorrer, como Anaxágoras, à intervenção de uma inteligência ordenadora. Por necessidade de natureza, os átomos movem-se no vácuo infinito com movimento retilíneo de cima para baixo e com desigual velocidade (19). Daí entrechoques atômicos e formação de imensos vórtices ou turbilhões de que se originam os mundos.

D. Na psicologia do abderita repercute a sua física mecani-cista. A alma é composta de átomos semelhantes aos do fogo, porém mais sutis, que, entrelaçados em rede descontínua, se difundem por todo o corpo. A respiração, ingerindo novos átomos ígneos, compensa a perda dos que continuamente se expelem. Quando já não é possível esta compensação sobrevem a morte.

A sensação é provocada por imagens materiais είδωλα (20) — que se destacam dos corpos e, pelo ar, vêm impressionar o órgão sensitivo. O conhecimento assim obtido é muito imperfeito, obscuro, variável e enganoso. Semelhante à sensibilidade no seu aspecto subjetivo, a inteligência de muito se lhe avantaja como faculdade de conhecimento: é mais ampla e mais segura, conhece a existência dos átomos e corrige os erros dos sentidos (aparência das qualidades secundárias). — Não há liberdade nem imortalidade.

E. Os deuses vulgares e a mitologia nasceram da fantasia popular. São entes superiores ao homem, mas compostos também de átomos e vácuos e sujeitos à lei da morte. "Deus verdadeiro e natureza imortal não existe".

F. Como físico, Demócrito é talvez o mais profundo entre os gregos. A-teoria atômica, nas suas linhas fundamentais abraçada pela’ ciência moderna, saiu-lhe quase perfeita das mãos. A inexistência fprmal das qualidades secundárias é hoje admitida pela quase unanimidade dos naturalistas. Quanto ao método, sem des-curar a observação, é um pouco apriorista. As propriedades dos seus átomos são determinadas pela necessidade de conciliar Par-mênides com a observação sensível.

(19) Criticando essa teoria, Já notava Aristóteles que no espaço infinito para cima e para baixo não têm significação alguma (Phys., IV, 8) e no vácuo todos os corpos, ainda de grandeza desigual, caem com a mesma velocidade (De coelo, IV, 2).

(20) Delas dirá mais tarde Lucrécio:

Quae quasi membranae summo de corpore rerum
Dereptae volltant, ultro citroquo per auras.

Como filósofo é somenos. Opondo-se ao dualismo irredutível, estabelecido por Anaxágoras, entre a matéria e o espírito, e negando a existência de uma inteligência ordenadora, o filósofo de Abdera aparece na história do pensamento como o primeiro re-presentante formal do materialismo e do ateísmo. "O defeito de todo o materialismo, observa Lange, é concluir as suas explicações no ponto em que começam os grandes problemas filosóficos". (21).

BIBLIOGRAFIA

V. Fazio-Almayer, Studi sull’atomismo gr eco, Palermo, 1911; — A. Dyroff, Demokritstudien, München, 1899; — L. Löwenheim, Die Wissenschaft Demokrits und ihr Einfluss auf die moderne Naturwissenschaft, Berlin. 1914; — L. Mabilleau, Histoire de la philosophie atomistique, Paris, 1895.

§ 5.° — Sofistas

20. A atitude intelectual de alguns dos pensadores precedentes havia aplainado o caminho ao ceticismo. Heráclito negara a realidade permanente. Parmênides e a escola de Eléia, opondo-se à mais evidente experiência e desvalorizando o conhecimento sensível, fiaram apenas da razão no apriorismo dos seus processos dialéticos. Concluir daí que tudo é ilusão e que a ciência é impossível era um passo fácil. As condições sociais de Atenas, que atingira o apogeu de sua glória, ofereciam ainda na abundância das riquezas, na corrução dos costumes, no abalo das tradições morais e religiosas discutidas pela critica racionalista, um ambiente favorável ao aparecimento dos sofistas.

A. Chamam-se sofistas os mestres populares de filosofia, homens venais e sem convicções, ávidos de riqueza e de glória que, nesta época de crise para o pensamento grego exploram em benefício da própria vaidade e cupidez o estado dos espíritos criado pelas especulações filosóficas e condições sociais do tempo (22). Mais retóricos que filósofos, argutos, artificiosos e eruditos, ensinavam à juventude ateniense, atraída pelos encantos da eloqüência, com a arte de defender o pró e o contra de todas as questões, o segredo de Sócrates combateu lôda a sua vida contra estes pseudo-filósofos; Platão impugna-os ainda nos seus primeiros diálogos; Aristóteles fala dos sofistas como de adversários históricos, como de um perigoso esconjurado tirar partido de qualquer situação, galgando as mais elevadas posições numa democracia volúvel e irrequieta. Serviam-se das anuas da razão para destruir a própria razão, e, sobre as ruínas da verdade, erigir o interesse em norma suprema de ação.

(21) Lange, Geschichte des Materialismus, t. I, p. 21.

(22) Nos tempos mais remotos denominaram-se sofistas todos os que se entregavam ao estudo das ciências e das artes. Assim chama Aristóteles os sete sábios da Grécia. No século V restringiu-se a significação do termo aos pedagogos e professores ambulantes de retórica que ensinavam mediante remuneração pecuniária. Pouco a pouco, pela tendência rabulista destes mestres de eloqüência o termo foi tomando o significado pejorativo que conservou até hoje. Xenofonte, Memox-ab, I, 6: "Chamam-se sofistas os que vendem a sabedoria por dinheiro". Platão, Sof. 268 D: "Sofista é o que constrange o seu interlocutor a dizer coisas contraditórias… com o prestígio das palavras enreda os seus ouvintes". Aristóteles, De elench, sophist, c. 1: "Sofista é quem aufere lucros de uma sabedoria que parece e não é". S. Tomaz, comentando Aristóteles: "ad aliud ordinat vitam suam et actiones philosophus et sophista. Philo-sophus quidem ad sciendum veritatem; sophista vero ad hoc quod videatur scire quod nésciat". In metaphys. I. 4, lect. 4.

 

B. Dentre a numerosa turba dos sofistas extremam-se como mais célebres, os dois vultos de Protagoras e Górgias.

1.º) Protágoras (c. 480-411 a. C), de Abdera, ensinou 40 anos por toda a Grécia. Acusado de ateísmo, em Atenas, fugiu para a Sicília, perecendo num naufrágio. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação, conforme as disposições subjetivas dos órgãos, inferiu Protagoras a relatividade do conhecimento. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula; o homem é medida de todas as coisas, πάντων χρημάτων μετρον άνϋρωπο%. Para ο seu autor, esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas, não na sua realidade física, mas na sua forma conhecida. Subjetivismo, relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial.

2.º) Górgias (480-375 a. C), de Leôncio, na Sicília, menos profundo, porém, mais eloqüente que Protagoras partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. É autor duma obra intitulada "Do não ser", na qual desenvolve as três teses: Nada existe; se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer; se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. A prova de cada uma destas proposições é um enredo de sofismas, sutis uns, outros pueris.

Prodicus, de Céus, autor do apólogo Hercules in bivio. Hipias, Crítias e outros figuram também como sofistas entre os interlocutores de Sócrates nos diálogos de Platão.

Protagoras e Górgias, ainda que incoerentemente, limitaram-se ao ceticismo especulativo. Os sofistas menores transpuseram as barreiras da ordem moral. Para Hipias, a "lei é o tirano dos homens", a causa de suas discórdias. Polus, Trasímaco e Cálicles preconizaram a mais desenfreada licença: "Justo, diziam, é o que é útil ao mais forte". Platão, Repl. 320 C. Ante estes superficiais demoli-dores nada ficou de pé no campo moral e religioso.

Benemerência indireta dos sojistas. Embora sendo um sintoma dd-degenerescência e anarquia intelectual, o aparecimento dos sofistas foi de incontestável utilidade para o progresso da filosofia. Analisando e criticando os sistemas precedentes, mostraram-lhe a inanidade das generalizações ambiciosas e precipitadas. Abusando da dialética, revelaram-lhe o valor e a importância de se lhe estudarem as regras e leis fundamentais. Impugnando a certeza e a veracidade das faculdades cognoscitivas, fizeram sentir a necessidade de aprofundar, ao lado das questões cosmológicas, a análise psicológica dos nossos instrumentos de conhecimento, estabelecendo-lhes o alcance e as condições de legitimidade. Desbravaram o terreno intelectual e rasgaram à filosofia novos horizontes, orientando-a para o estudo do espírito e de sua atividade, para a investigação dos métodos científicos do conhecimento e o exame dos processos dialéticos. Sem os sofistas não se compreende Sócrates. A reação dos primeiros preparou a reação do segundo com todas as suas salutares conseqüências.

BIBLIOGRAFIA

H. Stebeck, Das Problem des Wissens bei Sokrates und der Sophistik, Halle, 1870; — H. Gomperz, Sophistik und Rhetorik, Leipzig und Berlin, 1912; — CP. Gunning, De sophistis Graeciae praeceptoribus, Amsterdam, 1915; — Fünck-Brentano, Les sophistes grecs et les sophistes contemporains, Paris, 1879; — V. Brochard, Les sceptiques grecs2, Paris, 1923.

21. VISTA RETROSPECTIVA — Seguindo a ordem da evolução individual do conhecimento, a filosofia grega inaugura suas especulações com o estudo do problema cosmológico. Ora, em face da natureza, a inteligência levanta para logo dois problemas: 1.", como explicar as contínuas variações dos seres? 2.9, qual o elemento estável que permanece através de todas as transformações? O segundo destes problemas preocupa os filósofos das primeiras escolas. Depois de Heráclito, que imprimiu outra orientação aos estudos cos-mológicos, é no estudo das mudanças que se concentram as atenções. Nas respostas a estas questões inspiram-se alguns no dinamismo, admitindo um ou mais princípios primitivos (quando mais de um, qualitativamente diversos), dotados de atividade interna, outros declaram-se pelo mecanicismo, reduzindo todo o universo a matéria inerte e a movimento comunicado. A diversidade dos corpos é explicada com elementos puramente quantitativos.

Incidentemente, tocam-se as questões lógicas e psicológicas da natureza da alma e das suas relações com o corpo, q\o alcance e do valor do conhecimento, da sua distinção em conhecimento sensível e intelectual.

Com relação ao método, procedem uns (jônios e atomistas), a posteriori, buscando na experiência um apoio às suas teorias. São empiristas; Aristóteles chama-os jisiólogos ou naturalistas. Outros (pitagóricos e eleatas), mais abstratos, partem de princípios a priori e menosprezam a experiência. São mais ou menos idealistas. "Matemáticos", apelida-os o Estagirita.

Em teodicéia, com exceção de Demócrito, admitem todos um Ser Supremo e Eterno, mas identificam-no panteisticamente com a natureza. Só Anaxágoras professa explicitamente a imaterialidade e transcendência divinas.

No fim do período, o trabalho demolidor da crítica cética dos sofistas exercido sobre os muitos erros e as poucas verdades das escolas precedentes, mostra a necessidade de reerguer sobre alicerces mais firmes o edifício vacilante da filosofia.


Fonte: Livraria Agir Editora. 20ª edição.

ago 222010
 
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 Os filósofos pré-socráticos e a origem da educação laica

Ricardo Ernesto Rose Jornalista e Licenciado em Filosofia

"Onde se formam indivíduos que criam e não indivíduos que aprendem?" (…) Onde está a instituição que se propõe por objetivo liberar o homem e não se limitar a cultivá-lo?" Max Stirner -O falso princípio da nossa educação

Nos textos dos pensadores pré-socráticos não encontramos nenhuma referência clara à educação, pelo menos nos termos como a conhecemos hoje. Todavia, dos escritos se depreende que os filósofos (físicos, como eram chamados) formaram escolas de pensamento, nas quais as idéias de um filósofo principal eram transmitidas a discípulos. Estes, tanto podiam ser alunos que aprendiam com o mestre ou outros pensadores, que convencidos pelas idéias do pensador mais criativo e perspicaz, incorporavam suas noções básicas ao seu próprio sistema de pensamento. Exemplo mais provável deste processo é a tríade Tales de Mileto (625 a.C. – 558 a.C.), Anaximandro (610-547) e Anaxímenes (588-524). Qualquer um dos três pôde ter tido outros seguidores ou alunos, que no entanto não foram mencionados pela história e assim não puderam exercer influência na história da filosofia.

Xenófanes (570-460) foi, segundo a tradição, provavelmente mestre de Parmênides de Eléia (530-460). Neste caso o discípulo tornou-se mais famoso do que o próprio mestre. Parmênides, por sua vez, foi professor de Zenão de Eléia (495-430). O que se percebe é que as idéias dos mestres são transmutadas, dando origem a novas correntes de pensamento, que muitas vezes se cruzam. Dois pensadores únicos, que segundo atradição não tiveram seguidores, foram Heráclito de Éfeso (540-470) e Empédocles de Agrigento (490-430). Ambos tinham personalidades sombrias, marcadas pela visão trágica do processo de criação e destruição do universo e, talvez por isso, apesar de terem tido discípulos, não fizeram sucessores. Heráclito afastou-se do convívio humano e foi viver nas montanhas da Jônia (região onde se localiza a atual Turquia), de onde só voltou para morrer. Empédocles, convencido de que era um deus, atirou-se na cratera do Etna e desapareceu para sempre.

Evidentemente, em todas estas seqüências de gerações de pensadores, houve contato do mestre com os discípulos, o que permite falar em um sistema organizado de transmissão de conhecimento filosófico. Se os textos ou as idéias chegaram a nós – pelo menos em parte através de doxógrafos – deve ter existido uma estrutura organizada alunos, que anotavam ou copiavam as palavras ou as obras dos seus mestres e para a posteridade. Daí depreende-se de que existiam locais e pessoas específicas, incumbidas de anotar e assim transmitir o conhecimento filosófico. A preservação e transmissão do pensamento dos mestres: os primórdios de um sistema educacional.

O pitagorismo talvez tenha sido a linha filosófica que mais se caracterizou como uma escola. Pitágoras de Samos (570-496) era um verdadeiro mestre, líder de muitos discípulos, formando uma organização quase comparável a uma seita religiosa. Tanto que muitos ensinamentos do filósofo eram transmitidos somente aos discípulos que pertenciam ao grupo mais próximo do mestre; conhecimentos sobre os quais deveriam manter segredo. No caso dos pitagóricos se observam ainda resquícios da fase místico­religiosa do ensino. Na religião o ensinamento sagrado era transmitido pelos sacerdotes aos discípulos, que deviam manter segredo sobre o ensinamento e não passá-lo aos leigos. São famosos os casos dos ensinamentos esotéricos (internos à seita e exclusivos dos discípulos diletos do mestre) e os conhecimentos exotéricos (externos e de livre acesso para os leigos) mencionados ainda com relação às escolas de Platão (Academia) e de Aristóteles (o Liceu), por exemplo. Talvez, para se eximir de tal tipo de acusação – de ser um fundador ou mestre de uma seita religiosa secreta – Sócrates dizia em seu julgamento que seus ensinamentos eram públicos e que os transmitia na presença de todos, conversando com o povo nas ruas de Atenas. Outro filósofo, além de Pitágoras, que é mencionado nos textos dos pré-socráticos como tendo aberto uma escola de filosofia foi o pensador jônico Anaxágoras de Clazômenas (500–428), que se estabeleceu em Atenas, a convite de Péricles.

Ponto importante no desenvolvimento da educação foi, no caso dos pré-socráticos, a desvinculação do pensamento mítico. Pela primeira vez na história surgia uma classe de pessoas que pensava o universo, a phyisis, a partir de dados empíricos e do raciocínio, sem recorrer aos mitos religiosos. Esta atitude dá origem, pela primeira vez, a um conhecimento leigo, transmitido por leigos, sem ligação – e às vezes até em conflito – com as religiões. A oposição à crença às vezes era tanta, que alguns filósofos como Anaxágoras, foram perseguidos por supostamente terem negado a existência dos deuses. Trata-se, enfim, da vitória do pensamento racional, transmitido através das escolas filosóficas, ou pelos ensinamentos de mestres itinerantes, como Xenófanes de Colofão (570-460).

Os filósofos pré-socráticos foram provavelmente os primeiros professores leigos da história do pensamento ocidental. A partir destes mestres, a transmissão do conhecimento deixou de ser exclusividade de sacerdotes e de se limitar à interpretação mítico-religiosa do mundo. Ao mesmo tempo em que os pensadores gregos estabeleciam as bases do que viria a ser a filosofia e depois as ciências da nossacivilização, a Índia também passava por um processo semelhante. No século V a.C. os filósofos da escola Çarvaka, leigos e críticos da religião, também ensinavam uma nova visão do mundo, baseada na experiência e no raciocínio, combatendo dogmas profundamente arraigados na civilização indiana.

Cerca de duzentos depois, por ocasião das campanhas de Alexandre Magno (356-323), filósofos das duas civilizações se encontrariam. Esta aproximação de culturas, apesarde curto e esporádico, trouxe alguns frutos. Na Índia, a tradição budista – notadamente a estatuária – seria fortemente influenciada pela escultura grega. Na Grécia, Pirro de Elis, que acompanhou a campanha de Alexandre e na Índia conheceu os sábios gymnosofistas, os “filósofos nus”, seria o iniciador do pirronismo, a primeira forma de ceticismo. Mas isto é uma outra estória, que fica para uma próxima vez.

ago 132010
 
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 O MITO E A FILOSOFIA

Ricardo Ernesto Rose

Jornalista e Licenciado em Filosofia

O conceito de mito

O mito tem várias definições, que variam segundo o autor. Um dos maiores mitólogos do século XX, o romeno Mircea Eliade define assim o mito: “A definição que a mim, pessoalmente me parece a menos perfeita, por ser a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros temos, o mito narra como, graças à façanha dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição.” (Eliade, 1972). Para o antropólogo Claude Levy-Strauss o mito é a história de um povo, é a identidade primeira e mais profunda de uma coletividade que se quer explicar. O mitólogo e antropólogo americano Joseph Campbell escreve que “o material do mito é material da nossa vida, do nosso corpo, do nosso ambiente; e uma mitologia viva, vital, lida com tudo isso nos termos que se mostram mais adequados à natureza do conhecimento da época.” (Campbell, 1993).

Nesta frase de Campbell já temos alguma indicação sobre como devemos encarar os mitos: uma mitologia, ou seja, o estudo dos mitos lida com os mitos nos termos que se mostram mais adequados ao conhecimento de uma época – de sua própria época. Exemplo dessa maneira diferente de encarar o mito ao longo da história é que há 250 anos, em um período fortemente influenciado pelo movimento iluminista, os mitos eram pouco valorizados e estudados. Todavia, cerca de cento e poucos anos mais tarde, com o nascimento da sociologia, antropologia e etnografia, vemos que o interesse pelo assunto aumentou, dando-se uma verdadeira corrida às regiões mais afastadas à época, ainda habitadas por culturas originais – como a costa leste da América do Norte, a Oceania, aÁfrica e a América do Sul – para que pudessem ser pesquisados e registrados os mitos destas culturas ditas selvagens. James Frazer, Franz Boas, Bronislaw Malinowsky, Claude Levy-Strauss e Margareth Mead, entre outros, foram os grandes pesquisadores deste período. Seus textos estão disponíveis e serão de grande ajuda para todo estudioso que deseja obter uma compreensão do conceito do mito.

Do que expusemos até o momento concluímos que devemos fugir das explicações simplistas do mito, como: “ficções construídas para aplacar o medo dos homens primitivos perante os fenômenos naturais”, “narrativas pré-científicas para explicar o mundo”, “lendas desenvolvidas pelos sacerdotes para dominar o povo”. Estas definições, apesar de tendenciosas, não deixam de ter um fundo de verdade, mas não mostram uma profundidade de análise.

Origens da filosofia e sua relação com o mito

 

Mircea Eliade, em sua obra “História das Crenças e das Idéias Religiosas” nos dá uma boa indicação do porque do desenvolvimento da filosofia na Antiga Grécia. Segundo Eliade, a religião grega sempre foi um politeísmo, no qual os deuses tinham comportamento parecido aos dos homens; os mesmos desejos, impulsos e emoções, com a diferença de que eram imortais. A religião grega, pelas suas características, nunca chegou a ser uma religião estritamente normativa e ligada a um povo específico (os gregos também dividiam muitos deuses com outros povos), como o foram a religião egípcia e a judaica.

Os gregos nunca tiveram um Livro dos Mortos ou um Decálogo. Todavia, os relatos dos bardos – entre eles os mais famosos Homero e Hesíodo – influenciaram a cultura grega da mesma forma. Não através da criação de leis, impedimentos e sanções, mas através de exemplos da vida dos deuses e dos heróis, a Paidéia, que foram incorporados à cultura grega – da poesia às tragédias, da escultura à filosofia. O historiador Werner Jaeger escreve: “O testemunho mais remoto da antiga cultura aristocrática helênica é Homero, se com esse nome designamos as duas epopéias: a Ilíada e a Odisséia. Para nós, é ao mesmo tempo a fonte histórica da vida daqueles dias e a expressão poética imutável de seus ideais” (Jaeger, 2003). Referindo-se a Hesíodo, Jaeger escreve: “O poema de Hesíodo permite-nos conhecer com clareza o tesouro espiritual que os camponeses beócios possuíam, independentemente de Homero. Na grande massa das sagas da Teogonia encontramos muitos temas antiqüíssimos, já conhecidos de Homero, mas também muitos outros que nele não apareceram.” (Jaeger, 2003). Este o arcabouço cultural da Antiga Grécia. As narrações dos dois poetas eram transmitidas de uma geração à outra, terminando por serem fixadas por escrito em torno do século VIII a.C.

Por volta do século VIII a.C. a população na península grega começa a crescer, forma-se as cidades-Estado e aumenta o comércio ultramarino. Estabelecem-se as primeiras colônias de mercadores gregos na Jônia – região hoje ocupada pela Turquia – e na Magna Grécia, a Eléia – região onde hoje se o sul da Itália.

O comércio a agricultura, a navegação, a construção de canais e de pontes, o contato com outros povos, fizeram com que se formasse nestas colônias gregas uma elite intelectual e econômica, que dominava os mais importantes conhecimentos da época: matemática, astronomia, geometria, línguas estrangeiras, escrita e religiões de outros povos.

No plano intelectual, toda esta vasta gama de conhecimentos fez com que jônios e eleatas passassem a encarar o universo de uma maneira diferente. No plano religioso, ainda conheciam as narrativas míticas de Homero e Hesíodo, as registravam e passavam para as gerações posteriores. Mas aos poucos, estas narrativas foram perdendo seu caráter mítico-religioso e mantiveram apenas sua função política de manutenção das tradições cívicas e das instituições das cidades-Estado.

Dentre esta elite altamente intelectualizada da Jônia e da Eléia, com acesso a todas as novas idéias que circulavam na região do Mediterrâneo à época (já que viviam em cidades cosmopolitas ligadas ao comércio) surge um novo grupo de homens: os filósofos. Estes foram os primeiros a não se utilizarem mais do mito para explicar o mundo e seu surgimento, representando provavelmente o primeiro movimento de laicização da cosmogonia, de tentativa de explicação da origem do universo através de meios racionais – evidentemente limitados pelos conhecimentos práticos (científicos?) da época. Estes pensadores, mais tarde conhecidos como pré-socráticos, apresentaram diversas hipóteses para apontar o elemento do qual todo o universo é constituído. As hipóteses variavam da água (Thales de Mileto na Jônia, considerado o primeiro filósofo), para o infinito (Anaximandro de Mileto, introdutor da filosofia na Grécia continental), até os números (Pitágoras de Samos, filósofo da escola eleata).

Todos os pensadores pré-socráticos tentam explicar o fundamento último do universo e, em termos atuais, poderiam também ser chamados de primeiros cientistas. Fato mais importante neste estudo é ressaltar a importância do surgimento da filosofia, como primeira tentativa de explicar o mundo à parte do posicionamento definitivo e por vezes impositivo das religiões. Aí, neste momento, tem origem a filosofia e todas as ciências que surgiram posteriormente.

Os pensadores pré-socráticos – e mesmo pensadores posteriores – não estão definitivamente livres do mito. Em sua linguagem e na construção de suas idéias ainda são utilizados termos oriundos do pensamento mítico. Em muitos relatos ainda há aparição de deuses (a deusa que aparece a Parmênides) ou referência a eles.

Diferença entre mito e filosofia

O mito é um relato que oferece uma explicação definitiva; o mito não precisa de justificativa. Ao contrário, é o mito que justifica uma sociedade, uma cultura, um costume, como vimos acima.

Da maneira como é elaborado, o mito não é para ser criticado ou discutido. Da mesma forma, ele não precisa ser apresentado através de argumentações – ele simplesmente é comunicado à comunidade por aqueles que se consideram os arautos das Musas ou dos Deuses. Vale aqui lembrar que quando uma religião se apropria do mito; este fica sujeito à crítica e precisa apresentar justificativas.

Como exemplo perfeito disto tome-se o mito da Criação e de Adão e Eva. O relato é mais antigo do que o judaísmo. Daí foi incorporado na religião e desde então precisa justificar­se, já que faz parte de um "plano" efetivo de Deus para com a humanidade, segundo o discurso religioso.

A filosofia é uma narrativa que não oferece uma explicação definitiva, já que a discussão é própria da filosofia. Existem sistemas filosóficos que se pretendiam definitivos; que pretendiam oferecer uma explicação definitiva da realidade. Talvez seja por isso que quase se transformaram em seitas.

Outro aspecto é que a filosofia sempre precisa se justificar. O próprio ato de filosofar já implica a apresentação de uma justificativa daquilo que vai ser dito. Por ser um processo baseado na experiência e/ou no raciocínio lógico, a filosofia sempre está sujeita a criticas.

Bibliografia

  • Campbell, Joseph, As Transformações do Mito Através do Tempo, Editora Cultrix Ltda.: São Paulo, 1993, 246 pgs.
  • Eliade, Mircea, Mito e Realidade, Editora Perspectiva: São Paulo, 1972, 183 pgs.
  • Eliade, Mircea, História das Crenças e da Idéias Religiosas, Zahar Editores: Rio de Janeiro, 1978, 284 pgs.
  • Jaeger, Werner, Paidéia – A Formação do Homem Grego, Martins Fontes Editora: São Paulo, 2003, 1413 pgs.
  • Souza, José Cavalcante de, Os Pré-Socráticos – Fragmentos, Doxografia e Comentários, Editora Nova Cultural: São Paulo, 1996, 320 pgs.
  • Strauss, Claude Levy-, Mito e Significado, Edições 70: Lisboa, 1989, 91 pgs.
dez 212008
 
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Capítulo Primeiro

Tradução de Alexandre Correia. Fonte: Editora Herder, 1965.

A FILOSOFIA DOS PRÉ-SOCRÁTICOS

O pensamento filosófico hodierno se interessa particularmente pelos pré-socráticos, antes de tudo, em virtude dos originais problemas que suscitam e da sua posição ontológica em geral. Antigamente, eram tidos apenas como os filósofos da natureza, entendendo-se, então, por natureza o mundo dos corpos. Hoje, sabe-se que aqueles "físicos" viram muito mais longe. Quando falavam de natureza, pensavam também no espírito, e no ser em geral. Eram, pois, mais metafísicos do que físicos. A abertura para essa nova compreensão resultou dos trabalhos de K. Reinhardt, W. Jaeger e M. Heidegger.

Fontes:

H. Diels, Fragmente der Vorsokratiker (81956). Fragmentos dos Pré-socráticos); W. Kranz, Vorsokratische Denker. Pensadores Pré-socráticos. Seleção de textos, em grego e alemão (21949).

W. Nestle, Die Vorsokratiker in Auswahl — ‘Seleção dos Pré-socráticos. Com tradução (41956). K. Freeman, The Pre- Socratic Philosophers.   A Companion to Diels (Oxford 1953).

Bibliografia

J. Burnet, Early Greek Philosophy (1892, 41930, reimpressão 1957). K. Reinhardt, Parmenides und die Geschichte der grieehischen Philosophie — Parmenides e a História da Filosofia Grega (1916). W. NESTRE,  Vom Mythos zum Logos Die Selbstentfaltung des griechischen und Sokcrates — Do Mito ao Logos. Desdobramento do Pensamento Grego de Homero até a Sofistica e Sócrates (1940). O. Gicon, Der Ursprung der Grieehischen Philosophie. Von Hesiod bis  Parmenides — Origem da Filosofia Grega. De Hesíodo a Parmenides (1945). M. Heidegger, Der Spruch des Anaximander. A Sentença de Anaximandro. Em Holzwege (1949).   E. Wolf, Griechisches Rechtdenken I — Pensamento Jurídico Grego (1950). W. Jaeger, Die Theologie der frühen griechischen Denkcer — Teologia dos Pensadores Gregos Antigos (1953). M. Heidegger, Vorträge und Aufsãtze (1954) 207-282. E. Schrödinger, Die Natur und die Griechen. Kosmos und Physik — A Natureza e os Gregos. Mundo e Física (1956). Kirk-Raven, Presocratic Philosophers. A Critical History. (London 1957). E. Voegelin, Order and History II (Louisiana State University Press 1957). A. Ehrhabdt, Politische Metaphysik von Solon bis Augustin I (1959).

1 — INTRODUÇÃO: FILOSOFIA   E   MITO

a)    Conceito   do   mito

No limiar da Filosofia grega há algo em si de não-filosófico, o mito. É a fé da comunidade nas grandes questões do mundo e da vida, dos deuses e homens, que dá ao povo a matéria do seu pensamento e do seu agir. Recebem-na da tradição popular, irrefletida, crente e cegamente. Consoante o nota Aristóteles, o amigo do mito é, apesar disso e a certa luz, também filósofo; por isso que, no mito, preocupa-se êle com problemas que vão ser, por sua vez, objeto da Filosofia. Donde vem o mencionar Aristóteles, de bom grado, quando refere os pressupostos de uma questão filosófica e a busca da sua solução, também as opiniões dos "primitivos", que foram os primeiros a "teologizar"  (οι πρωτοι νεολογηαντεζ).

b)    Mitologia de Homero e de Hesíodo

Vêm aqui logo à tona Homero e Hesíodo, com os seus ensinamentos sobre a origem dos deuses (teogonias) e a produção do mundo (cosmogonias). Assim, conforme a mitologia de Homero, devemos procurar a causa primeira de todo devir nas divindades do mar, Oceano e Tetis, e também na água, pela qual os deuses costumam jurar, e que o poeta denomina Estígío. Em Hesíodo aparecem o Caos, o Éter e o Eros como os princípios primeiros de tudo. Mas, ainda outros problemas são abordados: a transitoriedade da vida, a origem do mal, a questão da responsabilidade e da culpa, do destino e da’ necessidade, da vida e da morte, e semelhantes.   Sempre se manifesta aí um pensamento total e completamente imaginoso, visionado pelos claros olhos do poeta, em caso particular e concreto, intuitivamente, para depois universalizar a intuição, e transportá-la para a vida e o mundo em geral, explicando assim a totalidade do ser e do devir.

c)    Orfismo

No VI século desceu para a Grécia, das montanhas de Trácia, uma nova mitologia. O seu ponto central é ocupado pelo Deus Dionisos; o seu sacerdote é Orfeu, o cantor e tauma-turgo trácio. Nietzsche fêz mais tarde de Dionisos o símbolo da vida e da fé na vida, em todas as suas alturas e profundezas. O deus do vinho Dionisos era também, na realidade, um deus da vida, sobretudo da fecundidade da natureza, e era, nas bacanais, honrado com entusiásticos transportes mui vulgares.

α) Fuga do mundo — A dogmática dos órficos era contudo coisa totalmente diferente de uma afirmação vital. Devemos, antes, considerá-la como uma vaga miscelânea de ascese e mística, culto das almas e esperanças no além, coisas todas muito estranhas ao povo homérico. Agora, já a alma não é sangue, mas espírito; oriunda de um outro mundo; exilada nesta terra, como castigo por uma culpa original; encadeada ao corpo, deve passar por uma larga peregrinação até libertar-se dos sentidos. Via para a colimada purificação do sensível era uma série de proibições de alimentos, como a carne e as favas. Laminazinhas de ouro, enterradas com os mortos, testemunhavam que a sua alma provinha "pura de puros" e "libertou-se do penoso ciclo das reencarnações". A doutrina dos órficos sobre o destino das almas, depois da morte, espelha-se nos grandes mitos escatológicos, nos diálogos platônicos Górgias, Fédon e República. A dogmática órfica já possuía, também, uma bem elaborada teologia e cosmogonia.

β) Cosmogonia — Ensinava que no princípio existiu o Caos e a Noite. O "Chãos" devemos compreendê-lo literalmente como o vácuo abissal ou o precipício. A Noite gerou um ôvo, o ôvo cósmico, donde nasceu o amor (Eros) alado. "E este, consorciado com o abismo hiante, alado e noturno, no vasto Tártaro, deu origem ao nosso gênero e o trouxe fora, para a luz. Não havia o gênero dos mortais, antes de ser reduzido à unidade pelo amor; quando, porém, êle uniu uma parte com outra, surgiu o Céu, e o Oceano, e a Terra, e o gênero imortal de todos os deuses". Segundo uma fonte mais recente, a origem primitiva do Cosmos foi um dragão com cabeça de touro e de leão: no meio, porém, tinha o rosto de um deus, e nos ombros, asas. 3Ê conhecido como o deus do Tempo eternamente jovem. O dragão produziu uma tríplice seminação: o Éter úmido, o Abismo ilimitado e hiante e a nebulosa Escuridão; e além disso, de novo, um ôvo cósmico.

Tudo isto é intuição de todo fantasiosa e poética. Tem-se visto na mitologia órfica uma "palmar" tradição oriental. Em particular o dualismo de corpo e alma, do aquém e do além, e, em geral, uma forma de vida em fuga do terreno, "uma gota de sangue estrangeiro" na Grécia. A terra original destas corrupções pode, na realidade, ter sido a índia, onde tais idéias apareceram cerca de 800 a.C, nos Upanishads, escritos teológicos exegé ticos dos Vedas. Também se encontram na religião de Zoroastro, no planalto do Irã, como resulta dos antigos Gâthas do Zendavesta. Estas idéias teriam sido, então, sempre um patrimônio espiritual ariano.

d)    O   mito   e   o   logos

Muito mais importante, porém, que a questão da origem é a sobrevivência dessas concepções. Aristóteles disse, com razão, (Met. B. 4), a propósito do mito, que êle não constituía ciência, porquê esses "teólogos" arcaicos apenas reproduziam as doutrinas tradicionais sem apresentarem nenhumas provas. Opõe-lhes aqueles "que falam aduzindo provas (οι διαποδειξεΩζ λεγοντεζ), dos quais, por isso, podemos esperar uma verdadeira "convicção". Com isso quer referir-se aos filósofos. Por estes metódicos momentos da dúvida, da prova e da fundamentação, distingue êle o mito, da Filosofia, embora há pouco tivesse concedido que o amigo do mito, a certa luz, também era filósofo. A Filosofia é, ao lado do mito, realmente algo de novo. Já não se vive numa crença cega, do patrimônio espiritual do vulgo, mas o indivíduo volta-se todo para si mesmo e deve agora, livre e sem tutela, elaborar por si, examinando e provando, o que pensa e quer considerar verdadeiro. Ê uma posição espiritual diferente da do mito. Contudo, não devemos perder de vista que as questões formuladas pelo mito, como suas intuições conceptuais, elaboradas nos obscuros e não-críticos tempos anteriores, ainda sobreviveram na linguagem conceptual filosófica. À crítica do conhecimento filosófico impõe-se aqui a tarefa de examinar se os presumidos instrumentos racionais’ ‘de pensamento filosófico também estão, na realidade, todos racionalmente fundados. Talvez não o sejam. E isto não somente por uma recusa, mas porque o espírito ultrapassa o "saber" e abrange o mito, num sentido positivo, como um caminho apropriado para a sabedoria. De maneira que somente o crente na ciência iluminada é que pretende libertar-se do mito, ao passo que Aristóteles diz, com razão, que também o mito, a seu modo, filosofa.

e)    Bibliografia.

O. Gruppe, Griiechische Myttologie und Religionsgeschichte, 1906 (Mitologia Grega e História da Religião) ; M. P. Nilsson, Geschichte der Griechischen Religion, 1941 (História da Religião Grega) ; U. v. Wilamowitz-Moellendorff, Der Glaube der Hellenen, 1931, 21955 (A Crença dos Gregos) ; K. Prümm, Die Orphilk im Spiegel der neueren Forschung (O Órfico à luz das Novas Pesquisas), Zeitschrift für Katholische Theologie 78 (Innssbrck 1956) ; F. Buffière, Les mythes d’Homère et la pensée grecque   (Paris 1957).

 

dez 182008
 
arte-grecia-antiga-5

Os egípcios dizem que os deuses tem nariz chato e são negros, os trácios, que eles tem olhos verdes e cabelos ruivos. — Xenófanes, Fragmentos Pré-Socráticos

Tivessem os bois, os cavalos e os leões mãos, e pudessem, com elas pintar e produzir obras como os homens, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, e os bois semelhantes a bois, cada(espécie animal) reproduzindo a sua própria forma. — Xenófanes, Fragmentos Pré-Socráticos

Homero e Hesíodo atribuíam aos deuses tudo o que para os homens é opróbrio e vergonha: roubo, adultério e fraude. — Xenófanes, Fragmentos Pré-Socráticos

Mas os mortais imaginam que os deuses são engendrados, têm vestimentas, voz e forma semelhantes a eles. — Xenófanes, Fragmentos Pré-Socráticos

Observação: Esta lista aumentará ocasionalmente com a inserção de novas citações na database. Mande suas citações para
fev 102008
 

Fragmentos pré-socráticos Extraídos do volume Pré-Socráticos da Coleção Os Pensadores – Nova Cultural

Tradução de José Cavalcante de Souza A) Anaximandro de Mileto –

1. SIMPLICÍO, Física, 24, 13.

(Em discurso direto:)… Princípio dos seres… ele disse (que era) o ilimitado… Pois donde a geração é para os seres, é para onde também a corrupção se gera segundo o necessário; pois concedem eles mesmos justiça e deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a ordenação do tempo.

2.HIPÓLITO, Refutação, I, 6, 1.

Esta (a natureza do ilimitado, ele diz que) é sem idade e sem velhice.

3. ARISTÓTELES, FÍSICA, III, 4.203 b.

Imortal… e imperecível (o ilimitado enquanto o divino).

B) Anaxímenes de Mileto

1. PLUTARCO; De Prim. Frig. 7,947 F.

O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo (é assim que ele se expressa) é quente.

2. AÉCIO, I, 3. 4.

Como nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e o ar o mantém.

2a IDEM, II, 22.

O sol largo como uma folha.

C) Xenófanes De Colofão

ELEGIAS (DK 21 B 1-9)

1. ATENEU, X, 462 C.

Agora o chão da casa está limpo, as mãos de todos e as taças; um cinge as cabeças com guirlandas de flores, outro oferece odorante mirra numa salva; plena de alegria, ergue-se uma cratera, à mão está outro vinho, que promete jamais falar, vinho doce, nas jarras cheirando a flor; pelo meio perpassa suave aroma de incenso, fresca é a água, agradável e pura; ao lado estão pães tostados e suntuosa mesa carregada de queijo e espesso mel; no centro está um altar todo recoberto de flores, canto e graça envolvem a casa. É preciso que alegres os homens primeiro cantem os deuses com mitos piedosos e palavras puras. Depois de verter libações e pedir forças para realizar o que é justo – isto é que vem em primeiro lugar – não é excesso beber quanto te permita chegar à casa sem guia, se não fores muito idoso. É de louvar-se o homem que, bebendo, revela atos nobres como a memória que tem e o desejo de virtude, sem nada falar de titãs, nem de gigantes, nem de centauros, ficções criadas pelos antigos, ou de lutas civis violentas, nas quais nada há de útil. Ter sempre veneração pelos deuses, isto é bom.

2. ATENEU, X, 413 F.

Mas se alguém obtivesse a vitória, ou pela rapidez dos pés, ou no pentatlo, lá onde está o recinto de Zeus perto das correntes do Pisa em Olímpia, ou na luta, ou mesmo no penoso embate do pugilato, ou na rude disputa a que chamam pancrácio, os cidadãos o veriam mais ilustre, obteria nos jogos lugar de honra visível a todos, receberia alimentos vindos de reservas públicas dado pela cidade e também dons que seriam seu tesouro. Ainda que fosse com cavalos, tudo isso lhe caberia, embora não fosse digno como eu, pois mais que a força física de homens vale a minha sabedoria. Ora, muito sem razão é esse costume, nem justo é preferir a força física à boa sabedoria. Pois nem havendo entre o povo um bom pugilista, nem havendo um bom no pentatlo, nem na luta ou pela rapidez dos pés, que mais a força física merece honra entre as ações dos homens nos jogos, não é por isso que a cidade viveria em maior ordem. Pequeno motivo de gozo teria a cidade, se alguém, competindo, vencesse às margens do Pisa, pois isso não enche os celeiros da cidade.

3. ATENEU, XII, 526 A.

As delicadezas inúteis aprenderam dos lídios, e enquanto estavam longe de odienta tirania, iam à ágora vestindo túnicas purpúreas, em geral, em número não inferior a mil, soberbos, orgulhosos de seus cabelos bem tratados, respingando perfume de ungüentos artificiais.

4. PÓLUX, IX, 83.

Os lídios foram os primeiros a cunhar moedas

5. ATENEU, IX, 18. 782 A.

Ninguém temperaria o vinho vertendo-o primeiro na taça, mas a água e por cima o vinho puro.

6. IDEM, IX, 368 E.

Tendo mandado uma coxa de cabrito, recebeste gordo pernil de boi cevado, quinhão que honra um homem cuja glória atingirá toda a Hélade e não passará enquanto viver a raça dos aedos helenos.

7. DIÓGENOS, VII, 36.

Agora passarei de novo a outro assunto e indicarei o caminho ……………………………………………………………….. E uma vez, passando por um cãozinho que espancavam, apiedou-se, dizem, e falou o seguinte: Pára! Não batas mais! pois é a alma de um amigo, reconheci-a ao ouvir sua voz.

8. IDEM, IX, 18.19.

Já sessenta e sete anos se passaram fazendo vagar meu pensamento pela terra da Hélade; do meu nascimento até então vinte e cinco a mais, se é que eu sei falar com verdade sobre isso.

9. Etimológico Genuíno Magno

Do que um homem envelhecido muito mais fraco.

SÁTIRAS (DK 21 B 10-2 a)

10. HERODIANO GRAMÁTICO, Sobre as Longas, p.296, 6

Desde o início todos aprenderam seguindo Homero…

11. SEXTO EMPÍRICO, Contra os Matemáticos, IX, 193.

Tudo aos deuses atribuíram Homero e Hesíodo, tudo quanto entre os homens merecem repulsa e censura, roubo, adultério e fraude mútua.

12. IDEM, COntra os Matemáticos, I, 189.

Muitíssimas vezes mencionaram atos ímpios dos deuses, roubo, adultério e fraude mútua.

13. AULO GÉLIO, Noites Áticas, III, 11. Homero é anterior a Hesíodo

14.CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Tapeçarias, V, 109.

Mas os mortais acreditam que os deuses são gerados, que como eles se vestem e têm voz e corpo.

15. IDEM, Tapeçarias, V,110

Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm.

16. IDEM, Tapeçarias, VII, 22.

Os egípcios dizem que os deuses têm nariz chato e são negros, os trácios, que eles tem olhos verdes e cabelos ruivos.

17. Escólios in ARISTÓFANES, Cavaleiros, 408.

Ramos de pinho circundam a casa firme.

18. ESTOBEU, Éclogas, I,8,2.

Não, de início os deuses não desvendaram tudo aos mortais; mas, com o tempo, procurando, estes descobriram o melhor.

19. DIÓGENES LAÉRCIO, I, 23.

Xenófanes admirava Tales por ter predito eclipses solares.

20. IDEM, I, 11

Xenófanes diz que ouviu dizer que Epimênides alcançou a idade de 154 anos.

21 in ARISTÓFANES, Paz, 697.

Xenófanes chama Simônides de avarento.

21A. Escólios in HOMERO, Oxyrrh. 1087, 40.

Erykos ·

PARÓDIAS (DK 21 B 22)

22. ATENEU, II, p.54 E.

É ao pé do fogo que tais palavras deves dizer, no inverno, deitado em cama macia e saciado, bebendo doce vinho, lambiscando grão-de-bico: quem és, afinal, entre os homens? Quantos anos tens, meu caro? Que idade tinhas quando o Medo chegou?

SOBRE A NATUREZA (DK 21 B 23-41)

23. CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Tapeçarias, V, 109.

Um único Deus, entre deuses e homens o maior, em nada no corpo semelhante aos mortais, nem no pensamento.

24. SEXTO EMPÍRICO, Contra os matemáticos, IX, 144.

Todo inteiro vê, todo inteiro pensa, todo inteiro ouve.

25. SIMPLÍCIO, Física, 23, 19.

Mas sem esforços ele tudo agita com a força do pensamento.

26. IDEM, ibidem, 23, 10.

Sempre permanecer no mesmo lugar sem nada mover, e não lhe convém ir ora para cá, ora para lá.

27. AÉCIO, IV, 5.

Pois tudo vem da terra e na terra tudo termina.

28. AQUILES, Introdução, 4 p. 34, 11.

Este limite superior da terra é visto aos nossos pés em contato com o ar, o inferior dirige-se ao infinito.

29. SIMPLÍCIO, Física, 188, 32.

Terra e água é tudo quanto vem a ser e cresce.

30. AÉCIO, III, 4, 4.

O mar é fonte da água, é fonte do vento; pois, nas nuvens, não haveria a força do vento que sopra para fora sem o grande mar, nem as correntes dos rios, nem a água chuvosa do éter. É o grande mar que engendra as nuvens, ventos e rios.

31. HERÁCLITO, Alegoria de Homero, c. 44.

O sol lançando-se por sobre a terra e aquecendo-a.

32. Escólios BLT de EUSTÁTIO a HOMERO, Ilíada, XI, 27.

A quem chamam Íris, por sua natureza também é nuvem, purpúrea, rubra e esverdeada aos nossos olhos.

33. SEXTO EMPÍRICO, Contra os matemáticos, X, 314.

Pois todos nascemos da terra e da água.

34. IDEM; Ibidem, VII, 49, 110.

E o que é claro, portanto, nenhum homem viu, nem haverá alguém que conheça sobre os deuses e acerca de tudo o que digo; pois ainda que no máximo acontecesse dizer o que é perfeito, ele próprio não saberia; a respeito de tudo existe uma opinião.

35. PLUTARCO, Questões de Convivas, IX, 7. p. 746 B.

Julga que estas coisas são análogas às verdadeiras…

36. HERODIANO GRAMÁTICO, Sobre as Longas, 296, 9.

Tudo quanto aos mortais parece ser visto…

37. IDEM, Sobre Particularidades da Linguagem, 41, 5.

E em certas grutas a água goteja.

38. IDEM, Sobre as particularidades da linguagem, 41, 5.

Se Deus não tivesse feito o dourado mel, muito mais doce, diriam, são os figos.

39. PÓLUX, VI, 46.

Cerejeira.

40. Etimológico Genuíno Magno

Rã (forma dialetal).

41. TZETZES, A Dionísio Periegeta V, 940, p 1010.

Armadilha.

 

Extraídos do volume Pré-Socráticos da Coleção Os Pensadores – Nova Cultural Tradução de José Cavalcante de Souza

D) HERÁCLITO DE ÉFESO

 

SOBRE A NATUREZA (DK 22 b 1-126)

 

1. SEXTO EMPÍRICO, Contra os Matemáticos, VII, 132. Deste logos sendo sempre os homens se tornam descompassados quer antes de ouvir quer logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas (as coisas) segundo esse logos, a inexperientes se assemelham embora experimentando-se em palavras e ações tais quais eu discorro segundo a natureza distinguindo cada (coisa) e explicando como se comporta. Aos outros homens escapa quanto fazem despertos, tal como esquecem como fazem dormindo.

2. IDEM, ibidem, VII, 133. Por isso é preciso seguir o-que-é-com, (isto é, o comum; pois o comum é o-que-é-com). Mas, o logos sendo o-que-é-com, vivem os homens como se tivessem uma inteligência particular.

3. AÉCIO, II, 21, 4. (Sobre a grandeza do sol) sua largura é a de um pé humano.

4. ALBERTO MAGNO, De Vegetatione, VI, 401. Heráclito disse que se felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilhas para comer.

5, ARISTÓCRITO, Teosofia, 68; ORÍGENES, Contra Celso, VII, 62. Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando na lama se lavasse. E louco pareceria, se algum homem o notasse agindo assim. E também a estas estátuas eles dirigem suas preces, como alguém que falasse a casas, de nada sabendo o que são deuses e heróis.

6. ARISTÓTELES, Meteorologia, II, 2. 355 a 13. O sol não apenas, como Heráclito diz, é novo a cada dia, mas sempre novo, continuamente.

7. IDEM, Da Sensação, 5. 443 a 23. Se todos os seres em fumaça se tornassem, o nariz distinguiria.

8. IDEM, Ética a Nicômaco, VII, 2. 1115 b-4. Heráclito (dizendo que) o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia.

9. IDEM; ibidem, X, 5. 396 b 7. Diverso é o prazer do cavalo, do cão, do homem, tal como Heráclito diz que asnos prefeririam palha a ouro.

10. IDEM, Do Mundo, 5. 396 b 7. Conjunções o todo e o não todo, o convergente e o divergente, o consoante e o dissonante, e de todas as coisas um e de um todas as coisas.

11. IDEM, ibidem, 6. 401 a 8. Pois tudo que rasteja é preservado a golpe, como diz Heráclito.

12. ARIO DÍDIMO em EUSÉBIO, Preparação evangélica, XV, 20. Aos que entram nos mesmos rios outras águas afluem, almas exalam do úmido.

13. CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Tapeçarias, I, 2. Porcos em lama se comprazem, mais do que em água limpa.

14. IDEM, Exortação, 22. A quem profetiza Heráclito de Éfeso? Aos noctívagos, aos magos, aos bacantes, às mênades, aos iniciados; a estes ameaça com o depois da morte, a estes profetiza o fogo; pois os considerado mistérios entre os homens impiamente se celebram.

15. IDEM, ibidem, 34. Se não fosse a Dioniso que fizessem a procissão e cantassem o hino, (então) às partes vergonhosas desavergonhadamente se cumpriu um rito; mas é o mesmo Hades e Dioniso, a quem deliram e festejam nas Lenéias.

16. IDEM, Pedagogo, II, 99. Do que jamais mergulha como alguém escaparia?

17. IDEM, Tapeçarias, II, 8. Muitos não percebem tais coisas, todos os que as encontram, nem quando ensinados conhecem, mas a si próprios lhes parece (que as conhecem e percebem).

18. IDEM, ibidem, II, 17. Se não esperar o inesperado não se descobrirá, sendo indescobrível e inacessível.

19. IDEM, ibidem, II, 24. Homens que não sabem ouvir nem falar.

20. IDEM, ibidem, III, 14. Nascidos querem viver e deter suas partes, ou antes repousar, e atrás de si deixam filhos a se tornarem partes.

21. IDEM, ibidem, II, 21. Morte é tudo que vemos despertos, e tudo que vemos dormindo é sono.

22. IDEM, ibidem, IV, 4. Pois ouro os que procuram cavam muita terra e o encontram pouco.

23. IDEM, ibidem, IV, 10. Nome de Justiça não teriam sabido, se não fossem estas (coisas).

24. IDEM, ibidem, IV, 16. Os que Ares mata honram-nos deuses e homens.

25. IDEM, ibidem, IV, 50. Mortes maiores maiores sortes recebem.

26. IDEM, ibidem, IV, 143. O homem de noite uma luz acende para si, morto, extinta a vista, mas vivo ele acende do morto quando dorme, extinta a vista, e quando desperto se acende do que dorme.

27. IDEM, ibidem, IV, 146. O que para os homens permanece quando morrem (são coisas) que não esperam nem lhes parece (que permaneçam).

28. IDEM, ibidem, V, 9. Pois é o que se estima que o mais estimado conhece e guarda; e contudo certamente a Justiça captará os artesãos e testemunhas de falsidades.

29. IDEM, ibidem, V, 60. Pois uma só coisa escolhem os melhores contra todas as outras, um rumor de glória eterna contra as coisas mortais; mas a maioria está empanturrada como animais.

30. IDEM, ibidem, V, 105. Este mundo, o mesmo de todos os (seres), nenhum deus; nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas.

31. IDEM, ibidem, V, 105. Direções do fogo: primeiro o mar, e do mar metade terra, metade incandescência… Terra dilui-se em mar e se mede no mesmo logos, tal qual era antes de se tornar terra.

32. IDEM, ibidem, V, 116. Uma só (coisa) o sábio não quer e quer ser recolhido no nome de Zeus.

33. IDEM, ibidem, V, 116. Lei (é) também persuadir-se à vontade um só.

34. IDEM, ibidem, 116. Ouvindo descompassados assemelham-se a surdos; o ditado lhes concerne: presentes estão ausentes.

35. IDEM, ibidem, V, 141. Pois é preciso que de muitas coisas sejam inquiridores os homens amantes da sabedoria.

36. IDEM, ibidem, VI, 16. Para almas é morte tornar-se água, é para água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e de água alma.

37. COLUMELA, VII, 4. Porcos banham-se em lama e aves domésticas em poeira ou em cinza.

38. DIÓGENES LAÉRCIO, I, 23. (Tales) parece segundo alguns ter sido o primeiro a estudar os astros. A seu respeito atestam Heráclito e Demócrito.

39. IDEM, I, 88. Em Priene nasceu Bias, filho de Teutames, cujo logos é maior que o dos outros.

40. IDEM, IX, 1. Muita instrução não ensina a ter inteligência; pois teria ensinado Hesíodo e Pitágoras, Xenófanes e Hecateu.

41. IDEM, IX. 1. Pois uma só é a (coisa) sábia, possuir o conhecimento que tudo dirige através de tudo.

42. IDEM, IX, 1. Homero merecia ser expulso dos certames e açoitado, e Arquíloco igualmente.

43. IDEM, IX, 2. A insolência é preciso extinguir, mais que o incêndio.

44. IDEM, IX, 2. É preciso que lute o povo pela lei, tal como pelas muralhas.

45. IDEM, IX, 7. Limites de alma não os encontraria, todo o caminho percorrendo; tão profundo logos ela tem.

46. IDEM, IX, 7. A presunção ele dizia que é a doença sagrada e que a visão engana.

47, IDEM, IX, 73. Não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas.

48. Etymologicum Genuinum, s.v. bíos. No arco o nome é vida e a obra é morte.

49. GALENO, De Dignoscendis Pulsibus, VIII, 733. Um para mim vale mil, se for o melhor.

49a. HERÁCLITO, Alegorias, 24. Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.

50. HIPÓLITO, Refutação, IX, 9. Não de mim, mas do logos tendo ouvido é sábio homologar tudo é um.

51. IDEM, ibidem, IX, 9. Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como de arco e lira.

52. IDEM, ibidem, IX, 9. Tempo é criança brincando, jogando; de criança o reinado.

53. IDEM, ibidem, IX, 9. O combate é de todas as coisas pai, de todas rei, e uns ele revelou deuses, outros, homens; de uns fez escravos, de outros livres.

54. IDEM, ibidem, IX, 9. Harmonia invisível à visível superior.

55. IDEM, ibidem, IX, 9. As (coisas) de que (há) visão, audição, aprendizagem, só estas prefiro.

56. IDEM, ibidem, IX, 9. Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visíveis, mais ou menos como Homero, que foi mais sábio que todos os helenos. Pois enganaram-no meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco.

57. IDEM, ibidem, IX, 10. Mestre da maioria das coisas é Hesíodo; pois este reconhecem que sabem mais coisas, ele que não conhecia dia e noite; pois é uma só (coisa).

58. IDEM, ibidem, IX, 10. Os médicos, quando cortam, queimam e de todo torturam os pacientes, ainda reclamam um salário que mão merecem, por efetuarem o mesmo que as doenças.

59. IDEM, ibidem, IX, 10. A rota do parafuso do pisão, reta e curva, é uma e a mesma.

60. IDEM, ibidem, IX, 10. A rota para cima e para baixo é uma e a mesma.

61. IDEM, ibidem, IX, 10. Mar, água mais pura e mais impura, para os peixes potável e saudável, para os homens impotável e mortal.

62. IDEM, ibidem, IX, 10. Imortais mortais, mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a vida daqueles.

63. IDEM, ibidem, IX, 10. Diante do ali-presente erguem-se e tornam-se guardiões em vigília de vivos e mortos.

64. IDEM, ibidem, IX, 10. De todas (as coisas) o raio fulgurante dirige o curso.

65. IDEM, ibidem, IX, 10. E o chama (ao fogo) de fartura e indigência

66. IDEM, ibidem, IX, 10. Pois todas (as coisas) o fogo sobrevindo discernirá e empolgará.

67. IDEM, ibidem, IX, 10. O Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome; mas se alterna como fogo, quando se mistura a incensos, e se denomina segundo o gosto de cada.

68. IÂMBLICO, Dos mistérios, I, 11. E por isso Heráclito os chamou (a alguns ritos) de remédios, como se fossem para curar os males e afastar as almas das desgraças da geração.

69. IDEM; ibidem, V, 15. De sacrifícios há duas espécies; uns oferecidos por homens inteiramente purificados, qual poderia ocorrer raramente em um indivíduo, como diz Heráclito, ou em alguns poucos, fáceis de contar; e outros são materiais.

70. IDEM, Das almas, [ESTOBEU, Éclogas, II, 1, 16.] Jogos de criança Heráclito considerou as opiniões humanas.

71. MARCO AURÉLIO, IV, 46. É preciso lembrar-se também do que esquece por onde passa o caminho.

72. IDEM, IV, 46. Do logos com que mais constantemente convivem, deste divergem; e (as coisas) que encontram cada dia, estas lhe parecem estranhas.

73. IDEM, IV, 46. Não se deve agir nem falar como os que dormem.

75. IDEM, IV, 46. Os que dormem, creio que chama Heráclito de obreiros e colaboradores (das coisas) que no mundo vem a ser.

76. MÁXIMO DE TIRO. Philosophoúmena, XII, 4. Vive fogo a morte de terra, ar vive a morte do fogo, água vive a morte de ar, terra a de água. – PLUTARCO, De E apud Delphos, 18. Morte do fogo gênese para ar, morte de ar gênese para água. – Marco Aurélio, IV, 46. Lembrar-se sempre do dito de Heráclito, que morte de terra é tornar-se água, morte de água é tornar-se ar, de ar fogo, e vice-versa.

77. NUMÊNIO, fragmento 35. Donde também Heráclito dizer que para almas é prazer ou morte tornarem-se úmidas. Prazer seria para elas a queda na geração. Em outra passagem ele diz que vivemos nós a morte delas e vivem elas a nossa morte.

78. ORÍGENES, Contra Celso, VI, 12. O modo humano não comporta sentenças, mas o divino comporta.

79. IDEM, ibidem. O homem como uma criança ouve o divino, tal como a criança o homem.

80. IDEM, ibidem, VI, 42. É preciso saber que o combate é o-que-é-com, é justiça (é) discórdia, e que todas as (coisas) vêm a ser segundo a discórdia e necessidade.

81. FILODEMO, Retórica, I, c. 57. Ancestral dos charlatões (Heráclito).

82. PLATÃO, Hípias Maior, 289 a. O mais belo símio é feio, a se confrontar com o gênero humano.

83. IDEM, ibidem, 289 b. O mais sábio dos homens em face de Deus se manifestará como um símio, em sabedoria, beleza e tudo o mais.

84a. PLOTINO, Enéadas, IV, 8,1. Transmudando repousa (o fogo etéreo no corpo humano).

84b, IDEM, ibidem. Fadiga é pelos mesmos (princípios) penar e ser governado.

85. PLUTARCO, Coriolano, 22. Lutar contra o coração é difícil; pois o que ele quer compra-se a preço de alma.

86. IDEM, ibidem, 38. A maior parte das (coisas) divinas, segundo Heráclito, por desconfiança esquiva-se de modo a não se conhecerem.

87. IDEM, Do que se deve ouvir, 7 p. 41 A. Um homem tolo gosta de se empolgar a cada palavra.

88. IDEM, Consolação a Apolônio, 10 p. 106 E. O mesmo é em (nós) vivo e morto, desperto e dormindo e dormindo, novo e velho; pois estes, tombados além, são aqueles e aqueles de novo, tombados no além, são estes.

89. IDEM, Da superstição, 3 p. 166 C. Heráclito diz que para os despertos um mundo único e comum é, mas os que estão no leito cada um se revira para o seu próprio.

90. IDEM, De E apud Delphos, 8 p. 388 E. Por fogo se trocam todas as (coisas) e fogo por todas, tal como por ouro mercadorias e por mercadorias ouro.

91. IDEM, ibidem, 18 p. 392 B. Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se.

92. IDEM, Dos Oráculos da Pitonisa, 6 p. 397 A. E a Sibila com delirante boca sem risos, sem belezas, sem perfumes ressoando mil anos ultrapassa com a voz, pelo deus nela.

93. IDEM, ibidem 21 p. 404 D. O senhor, de quem é o Oráculo de Delphos, nem diz nem oculta, mas dá sinais.

94. IDEM, Do exílio, 11 p. 604 A. Pois Hélios não transpassará as medidas; senão as Erínias, servas da Justiça, descobrirão.

95. IDEM, Banquete, III, pr. 1.p 644 F. Pois ignorância é melhor ocultar. Mas é trabalhoso no desaperto e com vinho.

96. IDEM, ibidem, IV 4, 3 p. 669 A. Pois cadáveres, mais do que estercos, são para se jogar fora.

97. IDEM, As Seni Res Publica gerenda sit, 7 p. 787 C. Pois cães ladram contra os que eles não conhecem.

98. IDEM, Da face da Lua, 28 p. 943 E. As almas farejam (no invisível) Hades.

99. IDEM, Aquane an Ignis sit utilior, 7 p 957 A. Não fosse o sol, com os outros astros seria noite.

100. IDEM, Questões Platônicas, 8, 4 p 1 007 D. Destes (os períodos anuais) o sol sendo preposto e vigia, define, dirige revela e expõe à luz das transmutações e horas, as quais traz em todas (as coisas), segundo Heráclito.

101. IDEM, Contra Colotes, 20. 1 118 C. Procurei-me a mim mesmo.

102. PORFÍRIO, Questões Homéricas, Ilíada, IV, 4. Para o deus são belas todas as coisas e boas e justas, mas homens umas tomam como (injustas), outras (como) justas.

103. IDEM, ibidem, XIV, 200. Pois comum (é) princípio e fim em periferia de círculo.

104. PROCLO, Comentários ao Alcibíades I, p. 525, 21. Pois que inteligência ou compreensão é a deles? Em cantores de rua acreditam e por mestre tem a massa, não sabendo que "a maioria é ruim e poucos são bons".

105. Escólios Homéricos, AT XVIII, 251. Dessa passagem Heráclito afirma que astrólogo foi Homero, assim como daquela em que o poeta diz "do destino, eu afirmo, jamais homem algum escapou".

106. SÊNECA, Epístolas, XII, 7. Com razão Heráclito censurou Hesíodo por fazer uns dias bons e outros maus, dizendo que ignorava como a natureza de cada dia é uma e a mesma.

107. SEXTO EMPÍRICO, Contra os Matemáticos, VII, 7. Más testemunhas para os homens são olhos e ouvidos, se almas bárbaras eles têm.

108. ESTOBEU, Florilégio, I, 174. De quantos ouvi as lições nenhum chega a esse ponto de conhecer que a (coisa) sábia é separada de todas.

109=95.

110. IDEM, ibidem, I, 176. Para homens suceder tudo que querem não (é) melhor.

111. IDEM, ibidem, I, 177. Doença faz da saúde (algo) agradável e bom, fome de saciedade, fadiga de repouso.

112. IDEM, ibidem, I, 178. Pensar sensatamente (é) virtude máxima e sabedoria é dizer (coisas) verídicas e fazer segundo (a) natureza, escutando.

113. IDEM, ibidem, I, 179. Comum é a todos o pensar.

114. IDEM, ibidem, I, 179. (Os) que falam com inteligência é necessário que se fortaleçam como o comum de todos, tal como a lei e a cidade, e muito mais fortemente: pois alimentam-se todas as coisas humanas de uma só, a divina: pois, domina tão longe quanto quer, e é suficiente para todas as (coisas) e ainda sobra.

115. IDEM, ibidem, 180 a. De alma é (um) logos que a si próprio se aumenta.

116. IDEM, ibidem, V, 6. A todos os homens é compartilhado o conhecer-se a si mesmo e pensar sensatamente.

117. IDEM, ibidem, V, 7. Um homem quando se embriaga é levado por criança impúbere, cambaleante, não sabendo para onde vai, porque úmida tem a alma.

118. IDEM, ibidem, V, 8. Brilho seco (é a) alma mais sábia e melhor. Ou antes, segundo a leitura de Stephanus: Alma seca (é) a mais sábia e melhor.

119. IDEM, ibidem, IV, 40, 23. Heráclito dizia que o ético no homem é o demônio e o demônio é o ético.

120. ESTRABÃO, I, 6, p. 3. Limite de aurora e crepúsculo (são) a Ursa e em face da Ursa a baliza fulgurante de Zeus.

121. IDEM, XIV, 25, p. 642; DIÓGENES LAÉRCIO, IX, 2. Merecia que os efésios adultos se enforcassem e aos não adultos abandonassem a cidade, eles que a Hermodoro, o melhor homem deles e o de mais valor, expulsaram dizendo: que entre nós ninguém seja o mais valoroso, senão que vá alhures e com os outros.

122. SUDA, s.v. "ankhibátein" e "amphisbátein". Aproximação, segundo Heráclito.

123. TEMÍSTIO, Orastio,V, p. 69. Natureza ama esconder-se.

124. TEOFRASTO, Metafísica, 15, p. 7 a 10. (Como?) coisas varridas e ao acaso confundidas (é?) o mais belo mundo.

125. IDEM, De Vertigine, 9. Também o "cyceon" se decompõe, se não for agitado.

125a. TZETZES, Comentários ao Plutão de Aristófanes, 88. Que não vos abandone a riqueza, efésios, a fim de que seja provada a vossa ruindade.

126. IDEM, Escólios para a Exegese da Ilíada. As (coisas) frias esquentam, quente esfria, úmido seca, seco umedece.

Extraídos do Volume Pré-Socráticos da Coleção Os Pensadores – Nova Cultural Tradução de José Cavalcante de Souza. copista: Miguel Duclós

 

E) PARMÊNIDES de ELÉIA

SOBRE A NATUREZA (DK 28 B 1-9)

1. SEXTO EMPÍRICO, VII, 111 e ss. (versos 1-30) e SIMPLÍCIO, Do Céu, 557, 20, (vv 28-32). As éguas que me levam até onde o coração pedisse conduziam-me, pois à via multifalente me impeliram da deusa, que por todas as cidades leva o homem que sabe; por esta eu era levado, por este, muito sagazes, me levaram as éguas o carro puxando, e as moças a viagem dirigiam.

O eixo nos meões emitia som de sirena incadescendo (era movido por duplas, turbilhonantes rodas de ambos os lados), quando se apressavam a enviar-me as filhas do Sol, deixando as moradas da Noite, para a luz, das cabeças retirando com as mãos os véus.

É lá que estão as portas aos caminhos de Noite e Dia. e as sustenta à parte uma verga e uma soleira de pedra, e elas etéreas enchem-se de grandes batentes; destes Justiça de muitas penas tem chaves alternantes.

A esta, falando-lhe as jovens com brandas palavras, persuadiram habilmente a que tranca aferrolhada depressa removesse das portas; e estas, dos batentes, um vão escancarado fizeram abrindo-se, os brônzeos umbrais nos gonzos alternadamente fazendo girar, em cavilhas e chavetas ajustados; por lá, pelas portas logo as moças pela estrada tinham carro e éguas.

E a deusa me acolheu, benévola, e na sua a minha mão direita tomou, e assim dizia e me interpelava:

Ó jovem, companheiro de aurigas imortais, tu que assim conduzido chegas à nossa morada, salve! Pois não foi mau destino que te mandou perlustrar esta via (pois ela está fora da senda dos homens), mas lei divina e justiça, é preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável da verdade bem redonda, e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira. No entanto também isto aprenderás, como as aparências deviam validamente ser, tudo por tudo atravessando.

2. PROCLO, Comentário ao Timeu , I, 345, 18.

Pois bem, eu te direi, e tu recebe a palavra que ouviste, os únicos caminhos de inquérito são a pensar: o primeiro, que é e portanto que não é não ser, de Persuasão é o caminho (pois à verdade acompanha); o outro, que não é e portanto que é preciso não ser, este então, eu te digo, é atalho de todo incrível; pois nem conhecerias o que não é (pois não é exeqüivel), nem o dirias…

3. CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Tapeçarias, VI, 23. …………. pois o mesmo é a pensar e portanto ser.

4. IDEM, Ibidem, V, 15. Mas olha embora ausentes à mente presentes firmemente; pois não deceparás o que é de aderir ao que é, nem dispersado em tudo totalmente pelo cosmo, nem concentrado…

5. PROCLO, COmentários a Parmênides, I, p. 708, 16. …………..para mim é comum donde eu comece; pois aí de novo chegarei de volta.

6. SIMPLICÍO, Física, 117, 2. Necessário é o dizer e pensar que (o) ente é; pois é ser, e nada não é; isto eu te mando considerar. Pois primeiro desta via de inquérito eu te afasto, mas depois daquela outra, em que mortais que nada sabem erram, duplas cabeças, pois o imediato em seus peitos dirige errante pensamento; e são levados como surdos e cegos; perplexas, indecisas massas, para os quais ser e não ser é reputado o mesmo e não o mesmo, e de tudo é reversível o caminho.

7-8. PLATÃO, Sofista, 237 A (versos 7, 1-2); SEXTO EMPÍRICO, VII, 114 (vv 7-36), SIMPLÍCIO, Física, 114, 29, (vv. 8, 1-52); IDEM, Ibidem, 38, 28 (VV 8, 50-61). (7.) Não, impossível que isso prevaleça, ser (o) não ente. Tu porém desta via de inquérito afasta o pensamento; nem o hábito multiexperiente por esta via te force; exercer sem visão um olho, e ressoante um ouvido, e a língua, mas discerne em discurso controversa tese por mim exposta.

(8.) Só ainda (o) mito de (uma) via resta, que é; e sobre esta índicios existem, bem muitos, de que ingênito sendo é também imperecível, pois é todo inteiro, inabalável e sem fim; nem jamais era nem será, pois é agora todo junto, uno, contínuo; pois que geração procurarias dele? Por onde, donde crescido? Nem de não ente permitirei que digas e pense; pois não dizível nem pensável é que não é; que necessidade o teria impelido a depois ou antes, se do nada iniciado, nascer?

Assim ou totalmente necessário ser ou não. Nem jamais do que em certo modo é permitia força de fé nascer algo além dele; por isso nem nascer nem perecer deixou justiça, afrouxando amarras, mas mantém; e a decisão sobre isto está no seguinte: é ou não é; está portanto decidido, como é necessário, uma via abandonar, impensável, inominável, pois verdadeira via não é, e sim a outra, de modo a se encontrar e ser real. E como depois pereceria o que é? Como poderia nascer? Pois se nasceu, não é, nem também se um dia é para ser. Assim geração é extinta e fora de inquérito perecimento.

Nem divisível é, pois é todo idêntico; nem algo em uma parte mais, que o impedisse de conter-se, nem também algo menos, mas é todo cheio do que é, por isso é todo contínuo; pois ente a ente adere.

Por outro lado, imóvel em limites de grandes liames é sem princípio e sem pausa, pois geração e perecimento bem longe afastaram-se, rechaçou-os fé verdadeira. O mesmo e no mesmo persistindo em si mesmo pousa. e assim firmado aí persiste; pois firme a Necessidade em liames (o) mantém, de limite que em volta o encerra, para ser lei que não sem termo seja o ente; pois é não carente; não sendo, de tudo careceria.

O mesmo é pensar e em vista do que é pensamento. Pois não é sem o que é, no qual é revelado em palavra, acharás o que pensar; pois nem era ou é ou será outro fora do que é, pois Moira o encadeou a ser inteiro e imóvel; por isso tudo será nome quanto os mortais estatuíram, convictos de ser verdade, engendrar-se e perecer, ser e também não, e lugar cambiar e cor brilhante alterar. Então, pois limite é extremo, bem terminado é, de todo lado, semelhante a volume de esfera bem redonda, do centro equilibrado em tudo; pois ele nem mesmo algo maior nem algo menor é necessário ser aqui ou ali; pois nem não-ente é, que o impeça de chegar ao igual, nem é que fosse a partir do ente aqui mais e ali menos, pois é todo inviolado; pois a si de todo igual, igualmente em limites se encontra.

Neste ponto encerro fidedigna palavra e pensmento sobre a verdade; e opiniões mortais a partir daqui aprende, a ordem enganadora de minhas apalvras ouvindo.

Pois duas formas estatuíram que suas sentenças nomeassem, das quais uma não se deve – no que estão errantes -; em contrários separaram o compacto e sinaus puseram à parte um do outro, de um lado, étereo fogo de chama, suave e muito leve, em tudo o mesmo que ele próprio mas não o mesmo que o outro; e aquilo em si mesmo (puseram) em contrário, noite sem brilho, compacto denso e pesado. A ordem do mundo, verossímel em todos os pontos, eu te revelo, para que nunca sentença de mortais te ultrapasse.

9. SIMPLÍCIO, Física, 180, 8.

Mas desde que todas (as coisas) luz e noite estão denominadas, e os (nomes aplicados) a estas e aquelas segundo seus poderes, tudo está cheio em con junto de luz e de noite sem luz, das duas igualmente, pois de nenhuma (só) participa nada.

10. CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Tapeçarias, V, 138.

Saberás e expansão luminosa do éter e o que, no éter, é tudo signo, do sol resplandecente, límpido luizeiro, efeitos invisíveis, e donde provieram; efeitos circularfes saberás da lua de face redonda, e sua natureza; e saberás também o céu que circunda, donde nasceu e como, dirigindo, forçou-o Ananke a manter limites de astros.

11. SIMPLÍCIO, Do Céu, 559-20. …………….. Como terra, sol e lua, éter comum, celeste via láctea, Olimpo extremo e de astros cálida força se lançaram.

12. IDEM, Física,39, 12.

Pois os mais estreitos encheram-se de fogo sem mistura, e os seguintes, de noite, e entre (os dois) projeta-se parte da chama; mas no meio destes a Divindade que tudo governa; pois em tudo ela rege odioso parto e união mandando ao macho unir-se á fêmea e pelo contrário o macho à fêmea.

13. PLATÃO, Banquete, 178 B.

Primeiro de todos os deuses Amor ela concebeu.

14. PLUTARCO, Contra Colotes, 15, p. 1116 A.

Brilhante à noite, errrante em torno à terra, alheia luz.

15. IDEM, Da Face da Lua, 16, 6 p. 929 A.

Sempre olhando inquieta para os raios do sol.

16. ARISTÓTELES, Metafísica, III, 5. 1009 b 21.

Pois como cada um tem uma mistura de membors errantes, assim a mente nos homens se apresenta; pois o mesmo é o que pensa nos homens, eclosão de membros, em todos e em cada um; pois o mais é pensamento.

17. GALENO, in Epid, VI, 48.

À direita os rapazesm à esquerda as moças.

18. CÉLIO AURELIANO, Morb. Cron., IV, 9, p. 116.

Mulher e homem quando juntos misturam sementes de Vênus, nas veias informando de sangue diverso a força, guardando harmonia corpos bem forjados modela. Pois se as forças, misturando o sêmen, lutarem e não se unirem no corpo misturado, terríveis afligirão o sexo nascente de um duplo sêmen.

19. SIMPLÍCIO, Do Céu, 558, 8.

Assim, segundo a opinião, nasceram estas (coisas) e agora são e em seguida a isso se consumarão, uma vez crescidas; um nome lhes atribuíram os homens, distintivo de cada.

 

jan 202008
 
maravilhas das antigas civizações

O problema dos universais em Pedro Abelardo

Miguel Duclós

Trabalho Originalmente Apresentado para a FFLCH/USP

"Reflitamos primeiramente a respeito da causa comum. Cada um dos homens, distintos uns dos outros, embora difiram tanto pelas próprias essências quanto pelas formas – como lembramos acima ao investigarmos a física da coisa – se reúnem naquilo que são homens" (ABELARDO, Lógica Para Principiantes, pg.61)

1 – Escopo do trabalho

O problema que se coloca nesse trecho resume a temática da querela dos Universais, discussão central na filosofia medieval, da qual se ocuparam diversos autores além de Abelardo num grande período de tempo. Trataremos aqui, de forma compacta, de alguns aspectos dos universais e da visão de Abelardo sobre o tema. A questão dos universais é primeiramente enunciada a partir da Isagoge de Porfírio. Isagoge é o termo grego para "introdução". Trata-se de uma introdução às categorias de Aristóteles, que como o filósofo mais importante e de maior alcance, era objeto constante de comentários, debates e glosas. Averróis, por exemplo, era conhecido como O comentador e escreveu dezenas de obras sobre o filósofo. Porém ele é de uma geração posterior a Abelardo, viveu entre 1126 e 1198, enquanto Abelardo viveu entre 1079 e 1142. Nesse período de tempo a obra de Aristóteles se difundiu consideravelmente. A geração de Abelardo conhecia Aristóteles principalmente através das traduções de Boécio para o latim de duas únicas obras, referentes ao corpo da lógica no sistema: Categorias e De Interpretatione. Estas, juntamente com outros cinco textos (além de Isagoge, De syllogismo categórico, De syllogismo hypothetico, De diffèrentiis topicis and De divisione do próprio Boécio) são as fontes primárias da lógica de Abelardo. Abelardo sabia muito pouco grego, e, não obstante fazer breves referências a outros trabalhos como os Argumentos Sofísticos e os Primeiros Analíticos, nada indica que tenha conhecido as grandes obras sobre a moral, a física e a metafísica.

2 – Platão e Aristóteles

O conceito de universal e o problema que ele implica é bastante antigo, e remonta da universalia medieval até o tà kàtolon de Aristóteles e o eidos e ideai de Platão. Platão pode ser tomado como o originador desse tópico filosófico perene, e daí nós lembramos da recorrente frase de A. Whitehead de que toda a história da filosofia não passa de um amontoado de notas de pé página a Platão. Ele acreditava que a existência dos universais era necessária não apenas ontologicamente – para explicar a natureza do mundo, mas também epistemologicamente – para explicar a natureza da nossa experiência nesse mundo. Seu conhecido argumento apontava os universais como formas que existem em si mesmo num domínio espiritual, transcendente. Uma pessoa bela participaria da forma de beleza. Essa forma só pode ser conhecida pelo intelecto, e não pelos sentidos, e por isso é assinalada a importância da dialética – o jogo de perguntas e respostas entre mestre e aluno – como a única maneira de fazer a alma ascender, por degraus, da lama em que se encontra presa pelos sentidos até a contemplação da forma. O particular é apenas uma manifestação da forma, e segundo a epistemologia platónica, para conhecer, é necessário ter acesso aos universais eternos e imutáveis. O próprio Platão argumenta contra a teoria das formas no Parmênides. Aristóteles, como é sabido, critica o mestre. As suas duas principais objeções apontam que Platão, fazendo da Forma uma substância separada e perfeita introduziu um dualismo exagerado e desnecessário, e que Platão confunde a categoria da substância com a de qualidade. Colocar o conhecimento em um outro nível, numa matriz perfeita, não resolveria o problema, apenas o adiaria. As questões feitas sobre os particulares se repetiriam nas formas. O segundo ponto seria um erro lógico, já que a forma seria ao mesmo tempo uma substância individual — requerida pela tese da separação – e uma qualidade, necessária para ser um universal. A lembrança será útil para contrapor mais adiante a posição de Abelardo sobre o problema. O estagirita defende a existência apenas dos individuais, como Sócrates ou esta cadeira em que estou sentado. Os universais existem apenas como elementos comuns nos particulares. O universal X é tudo o que é comum ou dividido aos particulares Y. É predicado dos particulares. Os individuais são classificados por géneros na medida em que tem as mesmas propriedades. Quanto mais diferenças nas qualidades determinadas, mais refinada se tornam as classificações.

3 – Conceito

O universal pode talvez ser definido como um objeto abstraio ou termo que abrange coisas particulares. Aquilo sobre o qual se podem predicar várias coisas. A definição é difícil, o universal é mais próprio de ser pensado[i]. Um adjetivo abstrato como beleza, justiça, coragem e bondade etc. Dizer de dois objetos que cada um uma tábua, um quadrado, ou é amarelo é dizer que há algo comum nestes objetos, que pode ser dividido com muitos outros e em virtude do qual os objetos podem ser classificados como géneros. Essa classificação não é somente possível para o uso científico, como também inevitável, já que toda experiência passa por coisas classificadas em géneros, por mais que estes possam ser vagos ou desarticulados. A palavra Sócrates é um nome "próprio". Supõe-se que mediante este nome estejamos nos referindo a uma pessoa determinada, a uma entidade concreta e singular cujo nome é "Sócrates". Da entidade concreta e singular, ou da pessoa, cujo nome é "Sócrates", podemos dizer que é um homem, estatura baixa, com barba. Estes termos são usados para qualificar "Sócrates", são nomes comuns usados para determinar uma qualidade singular de modo universal, por isso são chamados "universais". Lembramos aí da questão de Agostinho sobre a relação entre as ideias de Deus relativas às coisas sensíveis. O problema capital dos universais, portanto, diz respeito ao seu status ontológico, pois se trata de determinar que espécies de entidades são. Não obstante isso, há importantes implicações e ramificações em outras disciplinas: a lógica, a teoria do conhecimento e até mesmo a teologia. São três as questões levantadas a partir dos universais: a do conceito, a da verdade e a da linguagem. A predominância dos universais na Idade Média se deve, em parte, por derivarem dos únicos textos clássicos disponíveis no período e em parte porque envolvia o dogma da natureza ao mesmo tempo e única e tríplice de Deus.

4 – Os medievais e os universais

A enunciação do problema propriamente dita foi dada na tradução de Boécio de Isagoge, conforme se segue:

"Como é necessário, Crisaoro, para compreender a doutrina das categorias de Aristóteles, saber o que é o género, a diferença, a espécie, o próprio e o acidente, e como este conhecimento é útil para a definição e, em geral, para tudo o que se refere à divisão e à demonstração cuja ,doutrina é muito proveitosa, tentarei em um compêndio e a título de instrução resumir o que nossos antecessores disseram a respeito, abstendo-me de questões demasiado profundas e mesmo detendo-me pouco nas mais simples. Não tentarei enunciar se os géneros e as espécies existem por si mesmos ou na inteligência nua, nem, no caso de subsistir, se são corporais ou incorporais, nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos, formando parte dos mesmos. Este problema é excessivo e requeriria indagações mais amplas. Me limitarei a indicar o mais plausível que os antigos e, sobretudo, os peripatéticos disseram razoavelmente sobre este ponto e os anteriores" (Isagoge, I, 16)". As três questões postas são as seguintes: "Se os universais existem na realidade ou apenas no pensamento: utrum verum esse habeant na taníum in opinione consistant; em seguida, caso de fato existissem, se são corpóreos ou incorpóreos; em terceiro lugar, se são separados das coisas sensíveis ou se as entregam. A estas três questões acrescenta por conta própria uma quarta, destinada a se tornar clássica, como já o eram as três primeiras: "os géneros e as espécies ainda teriam uma significação para o pensamento se os indivíduos correspondentes cessassem de existir?" (GILSON, pg 344)2[ii]. Muitos autores medievais se referiram a esse problema e geraram assim as posições clássicas sobre o assunto: a dos realistas — chamados de antiqui doctores – e a dos nominalistas.

O extremo realismo platônico era representado por Guilherme de Champeaux: uma natureza real e comum está presente em cada ser das espécies, que diferem uns dos outros por seus acidentes, não pela substância.

Os universais são coisas (res). Abelardo irá sugerir que duas pessoas então podem ser uma e a mesma substância. Champeaux expica-se argumentando que são o mesmo não essencialmente, mas indeterminadamente. José e João são o mesmo em serem homens, pois pertence ao homem ser mortal e animal racional, mas a humanidade em cada um não é a mesma, mas similar, porque são dois homens. A própria física dos corpos, para Abelardo, destitui essa doutrina de sua veracidade, já que a experiência atesta as coisas como realmente distintas umas das outras. Se o universal animal existe inteiramente na espécie homem e na espécie cavalo, é ao mesmo tempo racional e uma e não racional em outra, o que é contraditório, e portanto, impossível. As objeções do aluno Abelardo ao seu mestre Guilherme Champeaux fizeram com que esse resignasse de sua posição filosófica.

Os nominalistas supunham que os universais não são reais, mas se encontram depois das coisas (universalia post rem). Tratam-se, portanto, de abstrações da inteligência, reduzidos à materialidade das palavras. Apenas os nomes são universais, as coisas nomeadas são sempre singulares. Abelardo sofreu forte influência desta doutrina, embora não seja um nominalista e tenha criticado o extremismo de Roscelino. Este, conforme a definição de Boécio, afirmava: "Nihil enim aliud est prolatio (vocis) quam aeris plectro linguae percussio ". É controversa a classificação da teoria de Abelardo. Embora ele seja chamado às vezes de nominalista, é mais acertado chamá-lo de conceítualista ou realista moderado, sendo, no entanto ambas as opções simplificações. Gilson aponta que a posição de Abelardo não se encontraria numa "linha ideal que ligaria Aristóteles a Santo Tomás de Aquino", mas antes a "gramática especulativa a Guilherme de Ockham"[iii]

5- Abelardo

Abelardo mantinha que os universais existem como pensamentos baseados no particular das coisas, enquanto os nominalistas supunham existência apenas nas coisas, e negavam. Para Abelardo, o universal não é um som (vox, emissão de voz, flatus voeis), como era para Roscelino[iv], mas uma palavra (sermo), ou seja, um som com significado, o sentido dos nomes (nominum significatio). Adquire seu sentido pelo seu uso referencial, sendo a referência mediada por uma ideia geral que é uma imagem composta. O conhecimento depende desse processo de abstração, uma vez que a separação entre forma e matéria -juntas na natureza – é empreendida pelo intelecto. Este "não se engana pensado à parte seja a forma, seja a matéria; ele se enganaria se pensasse que a matéria ou a forma existem a parte, mas tratar-se-ia de uma falsa concepção dos abstratos, não da sua abstração" (GILSON, pg 350). A existência dos universais está relacionada a um evento psicológico, a uma intencionalidade do pensamento. Essa teoria pode ser chamada de psicológica e serviu para responder as quatro questões.

Sobre a primeira questão, Abelardo responde que

"na verdade, significam pela denominação coisas verdadeiramente existentes, isto é, as mesmas que os nomes singulares e que, de modo algum, estão colocados numa opinião vazia; contudo, de certa maneira, consistem, como ficou estabelecido, numa inteleçção isolada, nua e pura." (pg 74)

7

Sobre a segunda questão, convém a seguinte citação:

"(…) de um certo modo, os corporais, isto é, separados na sua essência e os incorporais quanto a designação ao nome universal, porque nao os denominam separada e determidamente, mas confusamente, como o ensinamos acima suficientemente. Daí também, os próprios universais serem chamados corpóreos quanto à natureza das coisas, e incorpóreos quanto ao modo de significação, porque embora denominem o que é separado, não o denominam, separada e determinadamente", (pg 75)

Para a terceira questão, Abelardo concede que os universais estejam nas coisas sensíveis, mas dirá que "concedemos que todos os géneros ou espécies encontram-se nas coisas sensíveis. Mas porque sua intelecção era sempre chamada de isolada da sensação, eles não pareciam de modo algum estar nas coisas sensíveis. Por isso perguntava-se com razão se poderiam alguma vez estar nos sensíveis; e responde-se que, quanto a certos deles, que estão, mas de tal maneira que, como foi dito, permanecem naturalmente a parte da sensibilidade".

Sobre a quarta questão que formulou, Abelardo responderá na p. 76: "de modo algum admitimos que haja nomes universais quando, tendo sido destruídas as suas coisas, eles já não são predicáveis de vários, porquanto não são comuns a quaisquer coisas, como o nome da rosa, quando não há mais rosas, o qual, entretanto, ainda é então significativo em virtude da intelecção, embora careça de denominação, pois de outra sorte não haveria a proposição: nenhuma rosa existe".[v]

BIBLIOGRAFIA

8

  •         Porfírio, o Fenício: Isagoge: introdução às categorias de Aristóteles. São Paulo : Matese, 1965.
  •         The Encyclopedia of philosophy. Paul Edwards, editor in chief. New York, Macmillan 1967
  •         Abelardo, Pedro. Lógica para principantes. Trad. Carlos do Nascimento. Vozes, 1994.
  •         Ferrater-Mora, José. Diccionário de Filosofía. Ariel, Barcelona, 1994.
  •        Gilson, Etienne. A Filosofia na Idade Media, Trad. E. Brandão. Martins Fontes, 1995.


[i] Aristóteles o define como "aquilo que é naturalmente apto para ser predicado de muitos", oposto ao singular – "aquilo que predica de um só".

[ii] 2 Filosofia na Idade Media, A; E. Gilson; Trad. E. Brandão. Martins Fontes, 1995.

[iii] 3 Op Cit, pg 350

[iv] 4 "Fuit autem, nemini magistri nostri Roscellini tam nsana sententia ut nullam rem partibus constare vellet,
sea
sicut solis vocibus species, ita et partes ascridebat" (Abelard, "Liber divisionum")

[v] 5 Também citado por Carlos Ribeiro Nascimento, tradutor da obra, em sua excelente tradução, que foi muito útil para esclarecer e acompanhar a linha evolutiva do rico argumento de Abelardo.

jul 271997
 
Pitágoras de Samos

FILÓSOFOS PRÉ-SOCRÁTICOS  

     Os pré-socráticos são filósofos que viveram na Grécia Antiga e nas suas colônias. Assim são chamados pois são os que vieram antes de Sócrates, considerado um divisor de águas na filosofia. Muito pouco de suas obras está disponível, restando apenas fragmentos. O primeiro filósofo em que temos uma obra sistemática e com livros completos é Platão, depois Aristóteles. São chamados de filósofos da natureza, pois investigaram questões pertinentes a esta, como de que é feito o mundo. Romperam com a visão mítica e religiosa da natureza que prevalecia na
     época, adotando uma forma científica de pensar. Alguns se propuseram a explicar as transformações da natureza. Tinham preocupação cosmológica. A maior parte do que sabemos desses filósofos é encontrada na doxografia de Aristóteles, Platão, Simplício e na obra de Diógenes Laércio (século III d. C), Vida e obra dos filósofos ilustres. A partir do século VII a.C., há uma revolução monetária da Grécia, e advêm a ela inovações científicas. Isso colaborou com uma nova forma de pensar, mais racional. Os pré-socráticos inspiraram a interpretação de filósofos contemporâneos como Nietzsche, que nos iluminou com a sua obra A filosofia na época trágica dos Gregos e Hegel, que aplicou seu sistema na história da filosofia.
Leia aqui alguns Fragmentos pré-socráticos.

     Tales de Mileto-
     Anaximandro-
     Anaxímenes-
     Pitágoras-
     Xenófanes-
     Heráclito-
     Parmênides-
     Zenão de Eléia-
     Empédocles-
     Anaxágoras-
     Leucipo de Mileto-
     Demócrito-
 
 

 Tales de Mileto

Tales de Mileto – (+ ou- 640-548 a. C) Tales é considerado o pai da filosofia     grega, o primeiro homem sábio. Foi um homem que viajou muito. Os   pensadores de Mileto iniciaram uma física e uma cosmologia. O universo era   considerado um campo com pares opostos das qualidades sensíveis. É de Tales   a frase de que á água é a origem de todas as coisas. Tudo seria alteração da  água, em diversos graus. O alimento de toda a coisa é úmido. Aristóteles afirmou que ele foi o primeiro a atribuir uma causa material para a origem do  universo. Também era matemático, geômetra e físico. Aparece nas listas dos Sete Sábios da Grécia. Outra frase que pode ser dele é a de que tudo está  cheio de deuses, ou seja, a matéria é viva. Dizem que previu um eclipse solar e  calculou a altura de uma pirâmide. Em Aristóteles há um trecho dizendo que era sabido ser uma afirmação de Tales que a alma é algo que se move. Teve como  discípulo Anaximandro.
 

 Anaximandro

Anaximandro – (+ ou – 610-547 a. C) é um filósofo da escola jônica, natural de    Mileto e discípulo de Tales. Foi geógrafo, matemático, astrônomo e político.   Escreveu um livro, Sobre a natureza, que se perdeu. É considerado autor de   um mapa do mundo habitado e iniciador da astronomia. Afirmou que a origem de todas as coisas seria o apeíron, o infinito. O mundo se dissolveria nele    também. É apenas um mundo dentre muitos. Ao contrário de Tales não deu à  gênese um caráter material. O apeíron é eterno e indivisível, infinita e indestrutível. O princípio é o fundamento da geração de todas as coisas, a ordem do mundo evoluiu do caos em virtude deste princípio. Teve como  discípulo Anaxímenes.

 Anaxímenes

Anaxímenes – (+ ou – 588-524 a.C.) foi um filósofo da escola jônica, que tem  como característica básica explicar a origem do universo ou arché a partir de  uma substância única fundamental. Refutando a teoria da água de Tales, e do ápeiron de Anaximandro, Anaxímenes ensinava que essa substância era o ar     infinito, pneuma ápeiron. O universo resultaria das transformações do ar, da sua rarefação, o fogo, ou condensação, o vento, a nuvem, a água e a terra e por último pedra. Esse era o processo por qual passava uma substância primordial, e resultava na multiplicidade, os quatro elementos. O ar tinha o eterno  elemento. Escreveu uma obra, como Anaximandro: Sobre a natureza.     Dedicou-se à  meteorologia, foi o primeiro a considerar que a lua recebe a luz do  sol. Era companheiro de Anaximandro. Hegel diz que Anaxímenes ensina que nossa alma é ar, e ele nos mantém  unidos, assim um espírito e o ar mantém unido o mundo inteiro. Espírito e ar são a mesma coisa.
         A substância da origem volta a ser uma coisa determinada como em Tales.  Anaxímenes identificou o ar talvez porque tenha visto seu movimento  incessante, e que a vida e o ar andam juntos, na maioria dos casos. A respiração é um processo vivificante, dependemos dela durante toda a nossa vida. Ele via     que no céu existem nuvens, e que a matéria possui diferentes graus de solidez.
         Outra frase que consta nos fragmentos é "O sol largo como uma folha".
 

Pitágoras de Samos

 Pitágoras

Pitágoras – (século VI a.C.) Conhece-se muito pouco sobre a vida desse filósofo, pois foi uma figura legendária, e é difícil distinguir o que é verdade e o que é mentira. Nasceu em Samos, em uma época em que na Grécia estava instituído o culto ao deus Dioniso. Os órficos (de Orfeu) acreditavam na imortalidade da alma e em reencarnação (metempsicose), e para se livrar desse ciclo, necessitavam da ajuda de Dioniso, deus libertador. Pitágoras postulou como via de salvação em vez desse deus, a matemática. Acreditava na divindade do número. O um é o ponto, o dois determina a linha, o três gera a superfície e o quatro produz o volume. Os pitagóricos concebem todo o universo como um campo em que se contrapõe o mesmo e o outro. É de Pitágoras o teorema do triângulo retângulo. Fundou uma seita, em que a salvação dependia de um esforço humano subjetivo, e que tinha iniciação secreta. Os números constituem a essência de todas as coisas segundo sua doutrina, e são a verdade eterna. O número perfeito é o dez, por causa do triângulo místico. Os astros são harmônicos. Foi Pitágoras que inventou a palavra filosofia – (amizade ao saber).
        A escola de Pitágoras gerou os pitagóricos, que procuraram aperfeiçoar o sistema filosófico original. Eles floresceram em uma colônia grega na Itália. Pregavam o ideal da salvação do homem, tinham um caráter místico e espiritualista, e davam à matemática um caráter matemático.
Muitos filósofos foram também matemáticos, que atribuem ao universo a lógica dos números e em muitos pontos de sua doutrina buscam a matemática para fundamentar a sua lógica. É uma visão mecanicista, que identifica no mundo o raciocínio matemático. Platão exaltava a geometria, por essa ter um caráter
abstrato. Outros filósofos matemáticos importantes foram Descartes, Leibniz e Bertrand Russel. Spinoza escreveu um livro chamado A ética demonstrada pelo método geométrico, que é o método euclidiano de expor.
 

Xenófanes de Colofão

 Xenófanes de Colofão -(século IV a. C) atribui-se a ele a fundação da escola de Eléia. Levou vida errante, passou parte dela em Sicília, tendo fugido de sua terra natal por causa da invasão dos medas. Alguns duvidam de sua ligação com Eléia. Em seus fragmentos defendeu um deus único, supremo, que não tinha a forma de homem. Realçou isso afirmando que os homens atribuem aos deuses características semelhantes a eles mesmos, que mudam de acordo com o povo. Se os animais tivessem mãos para realizarem obras, colocariam nos deuses suas características. Restaram de suas obras alguns fragmentos, sendo que uns satíricos. Foi contra a grande influência de Hesíodo e Homero (historiador e escritor gregos). Zombou dos atletas, preferindo a sua sabedoria aos feitos atléticos, que não enchiam celeiros. O deus segundo Xenófanes está implantado em todas as coisas, o todo é um, e é supra-sensível, imutável, sem começo, meio ou fim. Teve como discípulo  Parmênides.
     Segundo Hegel os gregos tinham apenas o mundo sensível diante de si, e não encontravam satisfação nisso. Assim jogavam tudo fora como sendo não verdadeiro, e chegavam ao pensamento puro. O infinito, Deus, é um só, pois se fosse dois haveria a finitude. Hegel identifica a dialética* em Xenófanes, uma consciência da essência, pura, e outra de opinião, uma sobrepondo a outra, indo     contra a mitologia grega.
 

       *Dialética – Em Platão a dialética é o processo pelo qual a alma se eleva, em degraus, da realidade sensível ao mundo das idéias. É um instrumento de busca da verdade.
     Em Hegel, é o movimento racional que nos permite superar uma contradição. Assim, na história  vemos uma tendência, e a ela volta-se uma oposição, criando uma tensão, que é superada por uma nova tese que traz a solução. É o movimento tese, antítese e síntese. Não se restringe apenas a história, mas deve ser encarada como parte do real, uma forma de pensar evolutiva

Heráclito de Éfeso

 
        Heráclito – (+ ou – 540-470 a. C) nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, descendente do fundador da  cidade. É considerado o mais importante dos pré-socráticos. É dele a frase de que tudo flui. Não entramos no mesmo rio duas vezes e o sol é novo a cada dia. É o filósofo do devir, a lei do universo, tudo nasce se transforma e se dissolve, e todo o juízo seria falso, ultrapassado. Desprezava a plebe, não participou da política e desprezou a religião, os antigos poetas e os filósofos de seu tempo. É o primeiro pré-socrático com um número razoável de pensamentos, que são um tanto confusos, e por isso tem o nome de Heráclito, o obscuro. São aforismos. Foi muito crítico.  Chama a atenção, além da pluralidade, para os opostos. Tanto o bem como o mal são necessários  ao todo. Deus se manifesta na natureza, abrange o todo e é crivado de opostos. O logos é o  princípio cósmico, elemento primordial, e a razão do real, a inteligência. A verdade se encontra no devir, não no ser. Com sentidos poderosos, poderíamos vê-lo. O pensamento humano participa e é parte do pensamento universal. O fogo é eterno, um dia tudo se tornará fogo. O sol seria da largura de um pé humano. A felicidade não está nos prazeres do corpo. A morte é tudo que vemos despertos, e tudo o que vemos dormindo é sono. Existe a harmonia visível e a invisível. A alma não tem limites, pois seu logos é profundo e aumenta gradativamente. O pensar é comum a todos. A terra cria tudo, e tudo volta para ela.
     Hegel identifica em Heráclito a dialética: Heráclito concebe o absoluto como processo, com a dialética, exterior, um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa da coisa dissolvendo-se a si  mesma, a dialética imanente do objeto, situando-se na contemplação do sujeito, objetividade de Heráclito, compreendendo a dialética como princípio. O ser não é mais que o não ser. O fogo condensa-se, e apagado vira água. Encontramos em Heráclito algo comum entre os sábios: o desprezo pelo populacho, (como era comum Nietzsche dizer) e instituições dominantes. Teria sua experiência lhe dado base para isso?
     Ele pode ter contemplado com os seus próprios olhos o devir, movimento inteligente do universo e maravilhoso. Encontrou fogo na alma humana, comparou-a com uma chama que se apaga na morte.  Identificou o infinito na natureza, não apenas o matemático, mas o que constitui a essência das coisas. Pois todas as coisas têm uma essência, e o fluxo da alma é tão fundo que não tem fim.
 
 

Parmênides

 Parmênides – (+ ou – 544-450 a. C) filósofo da escola eleática, da região de Eléia, hoje Vília, Itália. Foi discípulo de Amínisas. Conheceu a filosofia de sua época. Escreveu um poema, cujo preâmbulo tem duas partes, a primeira trata da verdade, a segunda da opinião. Suas conclusões são contrárias às de Heráclito, seu contemporâneo. Na primeira parte do poema proclama a razão absoluta, que é o     discurso de uma deusa. Para se chegar à verdade não podemos confiar nos dados empíricos, temos de recorrer à razão. Desta forma nada pode mudar, só existe o ser, imutável, eterno e único, em oposição ao não ser. Teve como discípulo Zenão, também de Eléia.
     Segundo Nietzsche, foi em um estado de espírito que Parmênides encontrou a teoria do ser,   considerando o vir a ser. Pensou: algo que não é pode vir a ser? Não. – Temos de ignorar os sentidos e examinar as coisas com a força do pensamento. O que está fora do ser não é o ser, é nada, o ser é   um.
     Ao colocar como “imperativo categórico” o ser, e com ele a verdade que se chega na razão, Parmênides inaugura uma manifestação humana de conseqüências funestas. A refutação dos dados  empíricos, em favor do que pode ser comprovado com a razão age sobre o resultado final dos  mesmos. Assim, com o possível de ser explicado em primeiro plano, deixamos de lado um aspecto da percepção: a mudança, pois mudar é deixar de ser. O devir, nesses parâmetros é uma ilusão,   o fluxo da natureza também e o que é confiável é aquilo que é assimilado e compreendido. Põe se barreiras na percepção pura, que provêm da mente aberta, para usar um termo de Aldous Huxley.
 

Zenão, de Eléia  

         Zenão, de Eléia (século V a. C)- cerca de quarenta anos mais jovem que o seu mestre e conterrâneo Parmênides. Nasceu na Eléia, e interviu na política, dando leis à sua pátria. Zenão teria deixado cerca  de quarenta argumentos, sendo que nove foram conservados pelo doxógrafos. São dispostos em problemas de grandeza, do espaço, do movimento e da percepção sensível. Ele parte da divisibilidade infinita do espaço, pois um corpo percorrendo um espaço infinito em um tempo finito   estaria imóvel. Seus argumentos constituem-se verdadeiras aporias (caminhos sem saída), indo até ao absurdo. Foi considerado por Aristóteles o inventor da dialética, no sentido de diálogo que parte das premissas do adversário e o põe em contradição, numa posição insustentável. Defendeu as teorias do ser de seu mestre, Parmênides, contra os seus adversários, notoriamente os pitagóricos, que pregavam o ser múltiplo e divisível. O infinito não pode ser percorrido num tempo finito, só em um tempo infinito. Seus argumentos ficaram conhecidos como paradoxos de Zenão.
         Paradoxo de Aquiles: o mais lento na corrida jamais será alcançado pelo mais rápido, pois o que persegue deve sempre começar a atingir o ponto de onde partiu o que foge. Outro argumento pretende afirmar que uma flecha está em repouso ao ser projetada. É a conseqüência da suposição de que o tempo seja composto de instantes.
         Ele demonstra que quando há o múltiplo, há o grande e o pequeno. Quando grande, o múltiplo é  infinito, segundo a grandeza.
         Para Hegel, a dialética de Zenão possui mais objetividade que a atual. Ele ainda se conteve com os  limites da metafísica.
         Segundo muitas lendas, tornou-se célebre em sua morte, quando salvou um Estado de seu tirano, sacrificando sua vida, pois foi torturado e não delatou seus companheiros de conjura. Por isso foi  assassinado.

Empédocles  

 Empédocles (+ ou – 490- 435 a. C) natural de Agrigento na Sicília. A democracia estava em fase de implantação e ele a defendeu. Virou figura lendária, um misto de cientista, de místico, de pitagórico e órfico. Escreveu dois poemas. No primeiro apresenta uma única visão do processo cosmogônico, e o segundo é religioso. Refutou as teses que atribuem a origem do universo a um único elemento.
         Identificou quatro substâncias básicas, que ele chamou de raízes: a água, a terra, o fogo e o ar. Tudo se consiste desses quatro elementos, e as transformações que advêm a eles seriam visíveis a olho nu.
     Essas substâncias são eternas, imutáveis. Jostein Gaardner afirma que talvez Empedócles tenha visto uma madeira queimar, alguma coisa aí se desintegra. Alguma coisa na madeira estala, ferve, é a  água, a fumaça é o ar, o responsável é o fogo, e as cinzas são a terra. As verdades não seriam mais absolutas, como nos eleatas, mas proporcionais à medida humana. As coisas são imóveis, mas o que    percebemos com os sentidos não é falso. Duas forças atuariam nas substâncias, o amor e o ódio. O amor agiria como força de atração e união, o ódio como força de dissolução. Em quatro fases, existe a alternância do amor e do ódio. Estabelece um ciclo, com a tensão da convivência dessas forças motrizes.
     Empédocles dizia que alguns animais vêem melhor de dia do que de noite, e vice versa. O   pensamento se produz com a sensação.
     Admitiu a multiplicidade de itens de uma criação, como um pintor que mistura diferentes pigmentos em sua obra. Fala muito da deusa do amor Afrodite, portadora da vida e da beleza. Em sua filosofia todos os animais têm pensamentos. A inteligência cresce de acordo com os dados sensoriais do tempo presente.
     Hegel afirma que para Empédocles, outros elementos que não os quatro básicos, não são em si e para si. Não poderíamos visualizar o mundo sem os quatro elementos básicos. Nietzsche traça um perfil de Empédocles: cabelos longos, sandálias de couro nos pés e uma coroa na  cabeça. Com vestido cor de púrpura. É um filósofo trágico, pessimista, ativo. Queria provar que era um deus, atribuía-se qualidades místicas. Todos os movimentos, segundo ele nasceram de uma    natureza não mecânica, mas levam a um resultado mecânico.
     Conta a lenda que se atirou no vulcão Etna para provar que era um deus.

Anaxágoras  

     Anaxágoras (+ ou – 499-428 a. C)- filósofo da escola jônica nascido na Ásia menor, foi o primeiro filósofo a se transferir para Atenas, de onde foi banido por considerar o sol uma pedra incandescente e a lua uma Terra, negando a divindade desses corpos celestes. Interessava-se muito por astronomia. Houve um processo que acabou por condena-lo, apesar de ser amigo de Péricles, seu mestre e protegido. Péricles foi um grande líder político. Sócrates que nasceu cerca de trinta anos depois de Anaxágoras também foi condenado. Atenas considerava a novidade, a filosofia, uma impiedade e ateísmo. Anaxágoras se recusava a prestar culto aos grandes deuses gregos. Era filho de Hegesibuldo. Disse que as coisas corpóreas eram infinitas, e elas pareciam engendrar-se e destruir-se pela combinação e dissolução. No início, todas as coisas seriam infinitas em quantidade e pequenez, pois o pequeno também era infinito. Toda a matéria estava condensada. O ar e o éter são o maior conjunto de coisas. Muitas coisas de todas as espécies são contidas em todos os compostos e sementes. Em tudo há um pouco de tudo. Em cada minúscula partícula, ou semente, há uma parte de todas as coisas, pois todas as coisas são formadas por essas sementes. Essas coisas se resolviam e separavam pela força e rapidez, a força é a rapidez que produz. E o espírito começou a se mover, e em todo movimento havia uma separação, e as partículas se desdobravam, o espírito sempre é, sempre afirma. O compacto, o fluído, o frio e o sombrio se colocaram onde se formou a terra, e o ralo o quente e o seco forma para longe do éter. As visões das coisas invisíveis são aparentes, a lua reflete os raios de sol, em sua filosofia. E as coisas, que estavam juntas foram separadas por esse espírito inteligente e puro (nous), que ordenava a matéria e se movia, separando os opostos e criando os seres diferenciados. Os graus de inteligência dos seres animados (animais e plantas) dependem da estrutura do corpo em que o nous está ligado sem se misturar. Para Hegel, Anaxágoras foi um sóbrio entre os ébrios. Fundamenta sua crítica dizendo que ele foi o primeiro a dizer que o pensamento é universal, em si e para si, o puro pensamento é verdadeiro. Universal pela noção de causalidade. Essa noção, se não é universal, se não considera a coisa em si, costuma dizer coisas como: a causa da existência do capim é servir de alimento para os herbívoros, e a destes é servir de alimento para os carnívoros, os troncos fluem para determinado lugar, pois estão precisando deles lá e assim por diante. O nous de Anaxágoras é universal, move-se para diante. Cada idéia é um círculo de si mesma, e o bem universal de sua espécie. O nous é a alma que a tudo move, que liga e separa, uma atividade que põe uma primeira determinação como subjetiva, mas essa é feita objetiva, e assim se torna outra, e de novo esta oposição é sobreposta, assim até o infinito. Isso é dialética. Topo
 

Leucipo

     Leucipo (século V a. C) Filósofo grego, criador da teoria atomista, que foi desenvolvida por Demócrito. É considerado discípulo de Zenão, mas também especula-se sobre ser na verdade discípulo de Parmênides e Melisso*. Atribuem a Leucipo uma obra: A Grande ordem do Mundo. Neste livro diz que nenhuma coisa
se engendra ao acaso, mas a partir da razão e da necessidade. Seria natural de Mileto ou Eléia.
        Segundo Hegel, Leucipo concebeu a determinabilidade não de modo superficial, mas de maneira especulativa. Haveria no mundo a matéria e o vazio. A matéria é constituída de átomos, que se movem em torvelinho. O absoluto é o átomo, o verdadeiro. O um e o princípio são abstratos. Princípio do um é ideal, o pensamento é a essência das coisas. Sua filosofia, para Hegel, não é empírica. Os átomos movem-se por necessidade, se chocam e se rechaçam. São distintos entre si pela ordem e pela posição.
        Leucipo queria aproximar o pensamento do fenômeno e da percepção sensível, para Aristóteles. A alma também se constituiria de átomos.
Leucipo explicou o fenômeno do peso de acordo com o tamanho dos átomos e suas combinações. Os átomos seriam partículas minúsculas e indivisíveis por sua pequenez. O mundo teria a parte cheia e a parte vazia. Foi o primeiro a conceber uma parte vazia no universo. A parte cheia seria constituída de átomos. Rejeitou a descoberta dos pitagóricos de que a Terra é esférica.

Melisso  

Melisso – floresceu em cerca de 444/41 a.C. Nasceu em Samos, ilha do mar Egeu, e era filósofo e político, tendo derrotado os atenienses com uma esquadra que comandou. Defensor de Parmênides, atacou Empédocles. Escreveu um poema, Sobre o ser. Disse que o todo é imóvel, pois se movesse haveria vazio e o vazio é um não ser. Para ele tudo sempre existiu, e sempre existirá. O mundo é infinito.

Demócrito

     Demócrito (+ ou – 460-370 a. C) – nasceu em Abdera (Trácia). Foi discípulo e sucessor de Leucipo, desenvolveu sus teoria atomista e participou da escola iniciada por seu mestre em sua terra natal. De sua vida sabem-se poucas coisas seguras, mas fala-se que viajou muito, recebeu homenagens de seus concidadãos. É famosa a tradição que lhe atribui um riso constante, presente para qualquer coisa. É um dos primeiros materialistas. Teria deixado cerca de noventa obras. Para resolver o impasse surgido nas teorias de Heráclito e Parmênides, desenvolve a teoria de que tudo seria composto por partículas minúsculas indivisíveis e invisíveis a olho nu, inclusive a alma. Os átomos da alma se desintegrariam no momento da morte. Portanto, não acredita na imortalidade da alma, embora gostasse de Pitágoras. Trabalhou muito, dizia que os trabalhos feitos de bom grado fazem mais leves as cargas dos impostos a contragosto. Na sua filosofia, o trabalho continuado torna-se     mais leve por causa do átomo. Um trabalho bem feito e terminado dá mais satisfação que o descanso, e um trabalho em que não há retorno causa muito desprazer. O homem sensato dosa a avareza com o gasto, e suporta com brandura a pobreza. Quanto à forma, a emanação é igual às coisas. Os átomos são indivisíveis, pois se fossem divisíveis em partículas ainda menores. A natureza acabaria por se diluir. E como nada pode surgir do nada, são eternos. O movimento existe, pois o pensamento é movimento, e também os átomos se movem. Quando os átomos estão em equilíbrio, são tão numerosos que não podem mais se mover, os mais leves são    repelidos para o vazio exterior (portanto, o vazio existe) e os outros permanecem juntos, formando um conglomerado. Cada um desses conglomerados que se separam das massas dos corpos é um mundo, e existem infinitos mundos. Esta é uma visão nietzscheana da teoria de Demócrito. A essência da alma está na sua natureza animadora, de movimento. A alma é feita de átomos sutis, que se movem, lisos e arredondados. O fogo faz parte da essência do homem. Se a respiração cessa, o fogo interior escapa, e ocorre a morte. O homem é infeliz porque não conhece a natureza. Temos de nos contentar com o mundo tal como ele é. Os átomos constituem a explicação última da natureza. Foi o mais lógico dos pré-socráticos. Nietzsche o considera um poeta, Aristóteles admira sua     universalidade. Sua doutrina seguiu adiante, e temos outros atomistas, como Epicuro. Topo


Fragmentos Pré-Socráticos

 

Filosofos Pre-socraticos – Barnes, Jonathan – Criando o primeiro vocabulário realmente científico e oferecendo argumentos racionais para suas opiniões, os pré-socráticos faziam algo novo e profundamente importante; também formularam questões que permanecem até hoje no centro da filosofia. Jonathan Barnes mostra que às vezes é necessário um hábil trabalho de detetive para reconstituir as idéias desses pensadores a partir dos fragmentos que restaram de seu trabalho.

Introducao a Historia da Filosofia 1 dos Pre Socraticos a Aristoteles - Marilena Chaui Este livro é a nova edição revista e ampliada do primeiro volume da “Introdução à História da Filosofia”, série em que Marilena Chaui acompanha o trajeto da cultura filosófica desde os pré-socráticos aos pensadores modernos. O objetivo é oferecer informações básicas sobre a história do pensamento filosófico, dirigidas aos leigos e aos que se iniciam nos estudos de filosofia. Por seu caráter pedagógico, esperamos que estimule os estudantes no exercício do pensamento, auxilie os professores a preencher lacunas bibliográficas na preparação de suas aulas e convide os não-especialistas à descoberta do conhecimento filosófico.