ago 202010
 
filosofia da mente
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O pensamento na era da liberdade e da criatividade

Edir Martins

Prólogo

            Em grande parte dos balanços que se fazem do pensamento pós-moderno, ressalta-se, compensando a ruína das "grandes narrativas", dos "mega-relatos" filosóficos, teológicos, sociológicos e outros, percebe-se o surgimento de um "canteiro de obras" entregue à liberdade e à criatividade das pessoas. Se por um lado amarga-se a falta de segurança e dos pontos de referência,  por outro, aumentam os espaços limpos para novas construções.

            Sendo assim, o filósofo é solicitado a deixar os jargões fáceis, os sistemas decorados, para ir construindo seu próprio pensamento com abundância de elementos acessíveis. Se o risco de errar cresce, o fascínio da aventura entusiasma.

            A proposta desta reflexão é analisar a abertura de horizonte proporcionada pelo pensamento nietzscheano tomando como base para reflexão uma frase dente seus fragmentos póstumos: "Só na criação há liberdade" (verão de 1883). Seu pensamento se dá de forma livre possibilitando um distanciamento dos fundamentos seguros, das leis pré-estabelecidas, ambos aprisionados ao calculismo da ratio. Ele considera a ratio (Metafísica / Religião) como dispositivos lógicos já circunscritos num sistema arque-teleológico. Porém, perceber-se-á que não é mais possível uma postulação segura de tais conceitos (arqué e telos), que conduzem a uma reflexão metafísica.

Nietzsche critica esse fechamento da ratio e mostra que, com a “Morte de Deus”, e  conseqüentemente, a morte dos valores e da própria metafísica, não é possível mais adotar a posição aceita pela tradição, mas, parece que a alternativa é assumir o niilismo, levando em conta o devir, o acaso, a tragicidade da vida humana.

Por isso, o pensamento de Nietzsche torna-se instigante, ele problematiza a postura ética do homem após a dissolução de uma metafísica que impunha um fundamento absoluto para regrar o agir humano. Nietzsche se apresenta, por vezes polêmico, por sugerir uma radicalidade do sujeito em relação à sua liberdade. Segundo ele, cada um é responsável por sua própria vida e encarregado de criar valores que a promova e não a aniquile. Nesse sentido, não há um caminho pré-estabelecido para seguir, mas cada um faz seu próprio caminho.

1. O anúncio da “Morte de Deus”: pressuposto para a liberdade plena

Anunciar a “Morte de Deus” é o pressuposto que motiva as reflexões afirmativas e críticas do pensamento nietzscheano[1]. Não se trata de afirmar que Nietzsche “matou Deus”, mas um impiedoso diagnóstico de sua época, apresentando uma ausência explícita de Deus no pensamento e nas práticas do homem. Na obra A gaia ciência, Nietzsche apresenta o “louco” numa praça pública com uma lanterna acesa em pleno dia e gritando sem parar: “Procuro Deus! Procuro Deus!”[2] E isso ocasionou diversas reações, visto que muitos que ali estavam não acreditavam em Deus. “‘Estava perdido?’ –  dizia um. ‘Será que extraviou como uma criança?’ – perguntava o outro. ‘Será que se escondeu?’ ‘Tem medo de nós?’ ‘Embarcou? Emigrou?’ – assim gritavam e riam todos ao mesmo tempo”[3]. No entanto, o “louco” pôs-se no meio deles e dizia enfaticamente:

‘Para onde foi Deus?’ – exclamou – ‘É o que vou dizer. Nós o matamos – vocês e eu! Nós todos, nós somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos esta terra da corrente que a ligava ao sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? Longe de todos os sóis? Não estamos incessantemente caindo? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima e um abaixo? (…) Deus morreu! Deus continua morto! E fomos nós que o matamos! Como havemos de nos consolar, nós, os assassinos entre os assassinos! O que o mundo possuiu de mais sagrado e de mais poderoso até hoje, sangrou sob nosso punhal – quem nos lavará desse sangue? Que água nos poderá purificar? Que expiações, que jogos sagrados seremos forçados a inventar?[4]

Anunciar a “Morte de Deus” significa dizer que o homem matou Deus, conseqüentemente desvalorizando a Metafísica, a Teologia e assumindo o ponto de vista antropológico, centralizado no sujeito. Com a “Morte de Deus” morreram todos os demais valores concernentes ao conceito de Deus. Convencendo-se, então, de que Deus morreu, o homem pode abrir-se livremente às novas possibilidades. A partir desta constatação, tudo deve ser reavaliado. A “Morte de Deus” é a grande oportunidade para se valorizar a vida na sua tragicidade, espontaneidade, criatividade e liberdade.

Morrendo Deus e todos os valores tradicionais, surge um novo perfil de homem: forte, determinado, que respeita a própria vontade, aberto à vida. Ele é um sujeito que não se deixa conduzir pelo “tu deves”, mas se conduz pelo “eu quero”[5]. O valor maior agora é a vida livre, libertada das amarras da razão e da religião, criadora e orientadora de si mesma.

De fato, essas primeiras conseqüências, contrariamente ao que se poderia talvez esperar, não nos aparecem de forma alguma tristes e sombrias, mas, pelo contrário, como uma espécie de luz nova, difícil de descrever, como uma espécie de felicidade, de alegria, de serenidade, de encorajamento, de aurora… De fato, nós, filósofos e ‘espíritos livres’, sabendo que ‘o Deus antigo está morto’, nos sentimos iluminados de uma nova aurora[6].

Ao decretar a “Morte de Deus”, decreta-se também a morte dos valores absolutos, supremos. Morrendo Deus, os valores da moral igualitária são transmutados, esta é a primeira condição para o surgimento do “Outro-Homem”, o transvalorador por excelência.

1.1. O niilismo

Proclamar a “Morte de Deus” é decretar o fim da moral tradicional e automaticamente promover o advento do niilismo. Na obra Vontade de potência, esta transformação é apresentada através da depreciação dos valores supremos[7]. Trata-se agora de viver sem Deus e sem os referenciais oferecidos pela Metafísica e pela Moral tradicional. Para Nietzsche, tanto a moral intelectualista socrática quanto a metafísica platônica popularizada pelo cristianismo, são movimentos niilistas, pois são tendências da vida que visam o nada, ainda que durante muito tempo, tenham mascarado este nada com a aparência de ser supremo. Deus era apenas a máscara do nada[8]. Então, uma Moral anteriormente pensada com remédio contra o niilismo, mostra-se como origem do próprio niilismo[9].

O homem é constantemente instigado a dar um sentido a tudo o que acontece, porém, muitas vezes, não encontra o sentido almejado e acaba por desencorajar-se e por desistir desta busca. Aqui reside uma das principais causas do niilismo: a decepção por não alcançar um fim previsto, um sentido para muitos acontecimentos devido ao “eterno vir-a-ser” da vida. Por conseguinte, assumir uma postura niilista significa reconhecer o desperdício dessa força, a tortura dessa busca “em vão”[10]; significa transvalorar os valores extirpando a violência da imposição, respeitando as diferenças e o curso natural dos acontecimentos, nem sempre explicados pela razão.

Outros filósofos contemporâneos, como o italiano Vattimo, inspiram-se na filosofia de Nietzsche para conceber o niilismo numa perspectiva positiva. Segundo Vattimo, o niilismo é a saída para o pensamento contemporâneo, pois, tomando o niilismo como um “deixar-ser”, ele impulsiona o sujeito a viver livremente no sentido pleno de liberdade, isto é, assumindo os valores próprios da vida. Parece que o caminho é assumir a instabilidade, característica própria do pensamento contemporâneo, derivada do niilismo, que não possibilita um fundamento que aprisione a reflexão, mas trata-se de um pensar crítico em relação aos “sistemas” tradicionais.

Então, nota-se que, na verdade, o que interessa a Nietzsche é ultrapassar o niilismo, visto que, diante deste “caos da destruição de todos os valores tradicionais, só resta ao homem estabelecer novas metas a partir do eu que valora, que quer e que cria”[11]. “Aí está a barca; voga ali talvez para o grande nada. Quem está disposto, porém, a embarcar para esse talvez?[12]

2. A Vontade de Potência: impulso criativo

A expressão “Vontade de Potência” é, para Nietzsche, puramente simbólica, é o mais forte de todos os instintos. Trata-se de uma concepção de luta entre dois impulsos: o impulso de “mais” relacionado à vida, à potência; e o impulso de “menos”, direcionado à morte, à passividade[13]. Na verdade, a Vontade de Potência é o nome dado a uma vivência dinâmica e espontânea no constante devir da vida. O discípulo de Dionísio[14] reivindica a necessidade da mudança, do vir-a-ser, reclama o processo permanente de aniquilamento e criação[15].

Nietzsche quer lembrar que não existe outra vida, como prega o cristianismo, por isso deve-se abandonar o além e voltar-se a este mundo, é urgente entender que eterna é esta vida tal como a vivemos, o que existe é um “eu” mergulhado nas ambigüidades próprias da existência, ambigüidades estas que devem ser assumidas no dinamismo da vida.

A idéia de que a vida enquanto Vontade de Potência é luta permanente, sem trégua ou fins possíveis, constitui uma suprema exaltação da existência. No fluxo desta existência, o ser humano deve respeitar e ser fiel à sua vontade, ao seu querer. “Viver? Significa ser cruel e implacável contra tudo o que em nós se torna fraco e velho”[16]. O querer é criador, dinâmico e espontâneo. Ele humaniza o homem aprisionado por regras que brotam da razão ou da fé:

Vontade: assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria. (…) ‘A não ser que a vontade acabe por se libertar a si mesma, e que o querer se mude em não querer’. Mas, irmãos, vós conheceis estas canções da loucura! Eu vos afastei delas quando vos disse: ‘o querer é criador’. Tudo o que ‘foi’ é fragmento e enigma e espantoso acaso, até que o querer criador declare: ‘mas eu o quis assim. Mas é assim que eu quero, e hei de querer assim’[17].

Vontade de Potência significa converter obstáculos em estímulo; é afirmar, com alegria, o acaso e a necessidade ao mesmo tempo; é dizer sim à vida, sem nenhuma meta a alcançar; a Vontade de Potência é desprovida de qualquer caráter teleológico, mas está presente constantemente no homem.

Certamente, assentir sem restrições a todo acontecer, a cada instante tal como ele se apresenta, é aceitar amorosamente o que advém, é dizer sim a este mundo vivido. Esta é uma nova maneira de pensar a vivência, como uma conduta criadora. A criação é uma atividade a partir da qual se produz constantemente a vida que, por sua vez, está em devir. Por isso, uma vez produzida, a vida deve ser reinventada:

De uma maneira ou de outra, não cessa de ser interpretada em função de novas intenções por um poder que lhe é superior, de se ver reconfigurada e reordenada para novo uso; que tudo o que acontece no mundo orgânico está intimamente ligado às ideais de subjugar, de dominar, e toda a dominação equivale a uma interpretação sucessiva, a um acomodamento da coisa, no qual o ‘sentido’ e a ‘finalidade’ que prevaleciam até o presente deveriam necessariamente serem suplantados ou totalmente extintos[18].

Então, viver é sempre criar novas possibilidades. Mas o que é criar? Para Nietzsche é colocar a realidade como devir. Para o criador, não há mundo já realizado. Criar não é buscar um lugar ao sol, mas inventar o próprio sol, como o pensador inatural afirma: “quero mais, não sou daqueles que procuram. Quero criar para mim meu próprio sol”[19].

O devir, afirmado pelo ato de querer, redimido pelo querer que quer com toda a sua vontade, transfigurado pelo poder da afirmação, é possibilidade de criação contínua. Para Nietzsche, os criadores valorizam o presente, a espontaneidade, o inesperado, o acaso[20].

Nietzsche considera a vontade como algo complexo, por isso ele afirma que é preciso reconhecer os diversos tipos de sentimentos como ingredientes da vontade, inclusive o pensamento, pois em cada ato de vontade há um pensamento que manda. Acima de tudo, não se pode entender a vontade como simples pensar e mandar, mas algo que envolve sentimento, inclinação e afeto[21].

Segundo Marton, “a Vontade de Potência é o impulso de toda força a efetivar-se”[22], ela cria novas possibilidades, mas não se impõe como lei e nem se realiza num telos; na verdade, nela aparecem, ainda, subssumidos dois conceitos trabalhados pelo pensador desde o início de seus escritos, o apolíneo e o dionisíaco. Estes são aspectos que a expressão Vontade de Potência recobre, pois, enquanto o apolíneo é o que delineia, harmoniza, dá forma; o dionisíaco é o princípio que quebra as barreiras, rompe limites, dissolve o que se apresenta com violência.

Todo o ser sensível sofre em mim por sentir-se prisioneiro, mas meu querer chega sempre como libertador e mensageiro de alegria. ‘querer libertar’: essa é a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade[23].

É por isso que vive-se instintivamente uma vida elevada à mais alta potência, uma vida de perigos[24]. Nietzsche quer que a humanidade se supere cada vez mais: “que a vossa vontade e a vossa decisão de ir além de vós mesmos constituam a vossa honra!”[25]. E todo homem possa livremente afirmar: “Eu quis assim (…) assim eu quero, e hei de querer”[26].

2.1. O Outro-Homem

A partir do discurso sobre a Vontade de Potência, surge como conseqüência inevitável o Outro-Homem.

Eis, eu vos ensino o Outro-Homem. O Outro-Homem é o sentido da terra. Assim fale a vossa vontade: possa o Outro-Homem tornar-se o sentido da terra! Exorto-vos, ó meus irmãos, a permanecerdes fiéis à terra, e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supra-terrestres. (…) Na verdade, é o homem um rio turvo. É preciso ser o mar para receber um rio turvo, sem tornar imundas as suas águas[27].

Sendo assim, o Outro-Homem pode ser interpretado como uma nova cosmovisão, um novo modo de sentir, de pensar e de avaliar. No entanto, não se trata de uma mudança de valores, uma permutação abstrata, mas uma inversão no elemento do qual deriva o valor dos valores, é uma “transvaloração” e não uma “relativização”[28].

É imprescindível ressaltar que o Outro-Homem não se relaciona à figura de um homem superpotente ou dominador. Não se trata do homem selecionado pela “lei da seleção natural” de Darwin, ou, menos ainda, do tipo de raça superior que justificou o nazismo[29]. Na verdade, trata-se do sujeito que transvalora, isto é, o criador de valores que promove a vida e não a aprisiona; é aquele que “transcende” os homens fracos, considerados como “conceitos ambulantes”[30]. Por isso, o profeta Zaratustra denuncia: “Vede: eu sou o anunciador do raio, sou uma pesada gota caída da nuvem; mas esse raio chama-se Outro-Homem”[31].

No pensamento nietzscheano, o Outro-Homem é a caracterização de um modo de viver sem as correntes aprisionantes da moral racional. O Outro-Homem, constantemente, coloca-se além das determinações e cria situações e comportamentos que nascem da sua própria “de-cisão”[32].

Eis o meu gosto: não é um gosto bom nem mau, mas é o meu gosto; e não tenho que o ocultar nem dele me envergonhar. ‘Este é agora o meu caminho: onde está o vosso?’ Era o que eu respondia aos que me perguntavam ‘o caminho’. Que ‘o caminho, na verdade… o caminho não existe![33]

Por conseguinte, o que se pretende anunciar é o Outro-Homem, sempre com uma renovada decisão mediante o devir. Sendo assim, não constitui um novo telos, mas a dissolução deste no eterno retorno e na transvaloração dos valores[34]. O Outro-Homem não é um conceito abstrato ou metafísico, nem tampouco uma realidade utópica, na verdade, é o próprio homem no seu momento mais extraordinário[35]. Daí emerge a proposta nietzscheana de que o Outro-Homem deve ser metamorfoseado em criança[36].

A criança, no pensamento nietzscheano, é símbolo de espontaneidade, representa o recomeçar instantâneo, uma roda que gira sobre si mesma. Assim como a criança cai para se levantar novamente, segundo Nietzsche, é necessário cair para erguer o novo. Para o homem alcançar a “outra-humanidade” é preciso perecer nele o que é infra-humano, a queda aqui é um bem e deve ser estimulada[37]. “Vamos! Coragem, homens superiores! Só agora vai dar à luz a montanha do futuro humano. Deus morreu: agora queremos que viva o Outro-Homem”[38].

Dessa forma, Nietzsche instiga o homem a fazer uso pleno da sua liberdade sem se deixar aprisionar pelas violentas regras. Beleza e tragédia, prazer e desprazer fazem parte do dinamismo da vida e todos são vivenciados simultaneamente: “Ao longe, ao longe, olhos meus! Quantos mares em torno de mim, quanto futuro humano na aurora!”[39]

Desfecho

A Filosofia não possui a verdade, mas procura fazer a experiência dela.  A verdade possuída já é a sua própria interdição. Por isso, a Filosofia só se realiza quando abandona qualquer pretensão de posse e respeita um “pacto”, por vezes, silencioso entre pensamento e mundo vivencial.

Ao se tratar de pensamento nietzscheano, percebe uma abertura de horizontes. Nietzsche se apresenta instigante e polêmico, pois se propõe a denunciar todas as formas de fechamento de pensamento que se propunham totalizantes. Ele se apresenta como um anunciador de “boas novas”, porque percebeu que toda a tradição estava amarrada a violentas convenções[40].

A grandeza de Nietzsche está em sua originalidade. O pensador alemão desenvolve um método dramático de reflexão, pois leva em conta a tragicidade própria da vida. Segundo ele, apolíneo e dionisíaco, necessidade e desejo, são constantes e não é possível negar nenhum deles. Eles se incitam mutuamente e tornam a vida dinâmica. A dinamicidade da vida exalta a idéia de abertura: a cada passo dado, abrem-se diante dos olhos inúmeras novas perspectivas. Por isso não é possível haver um discurso fechado, dogmático.

Ao constatar e anunciar que Deus morreu, Nietzsche chama a atenção para a centralidade do sujeito. Deus morreu, e com ele morreram os valores tradicionais. Conseqüentemente, também morreu o homem da tradição. Instaura-se o niilismo e, a partir dele, nasce também o Outro-Homem, que, pela Vontade de Potência, é capaz de amar a vida com todos os seus paradoxos. Livre das amarras das regras, este “novo-homem” tem diante de si a sua vida e, simplesmente, a aurora.

Pensar a partir de Nietzsche significa dissolver o que se impõe com violência. O que é o Bem? O que orienta a vida? O critério é o eterno retorno. Nietzsche propõe que se resgate a vivência concreta, sem lhe estabelecer um novo telos. No processo constante de construção e desconstrução, o mundo não é mais que um jogo, “brincadeira de criança”. A vontade potencializada, sob as características da embriaguez, da euforia, é o motor de todo o esforço de criação. Trata-se, realmente, de se afirmar com um querer autônomo.

 “O caminho não existe”[41]. Por conseguinte, faz-se necessário construí-lo, e isso é responsabilidade de cada um. O pensamento contemporâneo está imerso numa crise de fundamento, a humanidade mergulhada no desespero da ausência de sentido. Parece, então, que o exercício do filosofar é a alternativa para o homem contemporâneo, isto é, o filosofar entendido como capacidade de pensar criticamente a realidade que o circunda. O homem livre deve agir como a criança: com espontaneidade. Portanto, nesse jogo a que a vida está envolvida, o vencedor não é o que se prende às regras, mas o mais criativo em relação a elas.

Referências bibliográficas

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  • MARTON, Scarlett. Por uma filosofia dionisíaca. In: Kriterion, revista de Filosofia. Belo Horizonte, Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, vol. XXXV, n. 89, janeiro a julho de 1994.
  • ZILLES, Urbano. Filosofia da religião. São Paulo: Paulinas, 1991. (Filosofia)

 

Notas

 

Edir Martins Moreira, bacharel em Filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana – Dom Luciano Mendes de Almeida (2008); estudante do 4º período de Teologia no Instituto Teológico São José – Mariana, MG.

 



[1]              Cf.: Roberto MACHADO. Deus, homem, super-homem. In: Kriterion, 1994, v. XXXV, n. 89, p. 22.

[2]              GC, § 125, p. 129.

[3]              GC, § 125, p. 129.

[4]              GC, § 125, p. 129.

[5]              ZA, “Das três metamorfoses”, p. 41.

[6]              GC, § 343, p. 206.

[7]              Cf.: VP, § 2, p. 86.

[8]              Cf.: Urbano ZILLES, Filosofia da religião,  p. 174.

[9]              Cf.: Urbano ZILLES, Filosofia da religião,  p. 175. Percebe-se a coerência e objetividade do pensamento nietzscheano, pois desde a sua primeira obra O nascimento da tragédia, Nietzsche critica a forma de moral da tradição, e também, já na sua “última” obra Vontade de Potência, ele mostra que estes sistemas nada mais eram que formas de niilismo negativo.

[10]             VP, § 5, p. 88.

[11]             Urbano ZILLES, Filosofia da religião, p. 177.

[12]             ZA, “Das antigas e das novas tábuas”, § 17, p. 270.

[13]             Cf.: VP, “Prólogo” (Vontade de Potência), p. 63.

[14]             Cf.: EH, “Prólogo”, § 2, p. 15. “Parece-se que justamente é para mim questão de honra. Sou um discípulo do filósofo Dioniso, preferiria ser um sátiro antes que um santo”.

[15]             Cf.: Scarlett MARTON. Por uma filosofia dionisíaca. In: Kriterion, 1994, p. 13.

[16]             GC, § 26, p. 62.

[17]             ZA, “Da redenção”, p. 191-192-193.

[18]             GM, “2° tratado”, § 12, p. 73.

[19]             GC, § 320, p. 186.

[20]             Cf.: A, § 109, p. 84.

[21]             Cf.: BM, § 19, p. 34.

[22]             Scarlett MARTON, Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos, p. 70.

[23]             ZA, “Nas ilhas bem-aventuradas”, p. 120.

[24]             “Viver perigosamente é arriscar algo do que se tem. É preciso que o homem esteja em risco de perder alguma coisa, para dar valor a esse ‘algo’. Este é o verdadeiro sentido de Nietzsche e não aquele que certos intérpretes quiseram atribuir-lhe: o de se viver à margem da lei, da vida, da ordem, no risco contínuo da própria existência”. Cf.: VP, § 346 (nota 4), p. 267.

[25]             ZA, “Das antigas e das novas tábuas”, § 12, p. 267.

[26]             ZA, “Da redenção”, p. 193.

[27]             ZA, “Prólogo”, § 3, p. 19.

[28]             Gilles DELEUZE, Nietzsche e a filosofia, p. 136-137.

[29]             Cf.: Ibraim Vítor de OLIVEIRA, Arché e telos: niilismo filosófico e crise da linguagem em Fr. Nietzsche e M. Heidegger, p. 94. Sabe-se que algumas das discrepâncias com relação ao pensamento de Nietzsche aconteceram devido à publicação póstuma de alguns dos seus escritos. A autora desse ato foi a sua própria irmã Elizabeth Föster Nietzsche, que fez algumas intervenções arbitrárias e tendenciosas na escolha de seus aforismos.

[30]             Ibraim Vítor de OLIVEIRA, Arché e telos: niilismo filosófico e crise da linguagem em Fr. Nietzsche e M. Heidegger, p. 94.

[31]             ZA, “Prólogo”, § 4, p. 23.

[32]             Ibraim Vítor de OLIVEIRA, Arché e telos: niilismo filosófico e crise da linguagem em Fr. Nietzsche e M. Heidegger, p. 94. A palavra “de-cisão” faz reportar ao beib zu de Assim falava Zaratustra, correspondendo à livre decisão do jovem pastor em morder a serpente, separando-lhe a cabeça. Interpretada como se lê no latim – de coedere – “de-cidir” é separar cortando, isto é, separar-se de todos os valores preestabelecidos, cortando a cadeia histórica que lhes servia de ligação. Cf.: Gianni VATTIMO, Il soggetto e la maschera: Nietzsche e il problema della liberazione, 2.ed. Milano: Bompiani, 1996, p. 195-210.

[33]             ZA, “Do espírito de pesadume”, p. 258.

[34]             Cf.: Ibraim Vítor de OLIVEIRA, Arché e telos: niilismo filosófico e crise da linguagem em Fr. Nietzsche e M. Heidegger, p. 97.

[35]             Cf.: PENZO apud OLIVEIRA, Arché e telos: niilismo filosófico e crise da linguagem em Fr. Nietzsche e M. Heidegger, p. 98.

[36]             ZA, “A hora silenciosa”, p. 201.

[37]             ZA, “das antigas e das novas tábuas” § 20, p. 273.

[38]             ZA, “Do homem superior”, § 2, p. 359.

[39]             ZA, “A oferenda de mel”, p. 306.

[40]             EH, “Por que sou um destino”, § 1, p. 115-116.

[41]             ZA, “Do espírito de pesadume”, p. 258.

dez 212008
 
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Capítulo Primeiro

Tradução de Alexandre Correia. Fonte: Editora Herder, 1965.

A FILOSOFIA DOS PRÉ-SOCRÁTICOS

O pensamento filosófico hodierno se interessa particularmente pelos pré-socráticos, antes de tudo, em virtude dos originais problemas que suscitam e da sua posição ontológica em geral. Antigamente, eram tidos apenas como os filósofos da natureza, entendendo-se, então, por natureza o mundo dos corpos. Hoje, sabe-se que aqueles "físicos" viram muito mais longe. Quando falavam de natureza, pensavam também no espírito, e no ser em geral. Eram, pois, mais metafísicos do que físicos. A abertura para essa nova compreensão resultou dos trabalhos de K. Reinhardt, W. Jaeger e M. Heidegger.

Fontes:

H. Diels, Fragmente der Vorsokratiker (81956). Fragmentos dos Pré-socráticos); W. Kranz, Vorsokratische Denker. Pensadores Pré-socráticos. Seleção de textos, em grego e alemão (21949).

W. Nestle, Die Vorsokratiker in Auswahl — ‘Seleção dos Pré-socráticos. Com tradução (41956). K. Freeman, The Pre- Socratic Philosophers.   A Companion to Diels (Oxford 1953).

Bibliografia

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1 — INTRODUÇÃO: FILOSOFIA   E   MITO

a)    Conceito   do   mito

No limiar da Filosofia grega há algo em si de não-filosófico, o mito. É a fé da comunidade nas grandes questões do mundo e da vida, dos deuses e homens, que dá ao povo a matéria do seu pensamento e do seu agir. Recebem-na da tradição popular, irrefletida, crente e cegamente. Consoante o nota Aristóteles, o amigo do mito é, apesar disso e a certa luz, também filósofo; por isso que, no mito, preocupa-se êle com problemas que vão ser, por sua vez, objeto da Filosofia. Donde vem o mencionar Aristóteles, de bom grado, quando refere os pressupostos de uma questão filosófica e a busca da sua solução, também as opiniões dos "primitivos", que foram os primeiros a "teologizar"  (οι πρωτοι νεολογηαντεζ).

b)    Mitologia de Homero e de Hesíodo

Vêm aqui logo à tona Homero e Hesíodo, com os seus ensinamentos sobre a origem dos deuses (teogonias) e a produção do mundo (cosmogonias). Assim, conforme a mitologia de Homero, devemos procurar a causa primeira de todo devir nas divindades do mar, Oceano e Tetis, e também na água, pela qual os deuses costumam jurar, e que o poeta denomina Estígío. Em Hesíodo aparecem o Caos, o Éter e o Eros como os princípios primeiros de tudo. Mas, ainda outros problemas são abordados: a transitoriedade da vida, a origem do mal, a questão da responsabilidade e da culpa, do destino e da’ necessidade, da vida e da morte, e semelhantes.   Sempre se manifesta aí um pensamento total e completamente imaginoso, visionado pelos claros olhos do poeta, em caso particular e concreto, intuitivamente, para depois universalizar a intuição, e transportá-la para a vida e o mundo em geral, explicando assim a totalidade do ser e do devir.

c)    Orfismo

No VI século desceu para a Grécia, das montanhas de Trácia, uma nova mitologia. O seu ponto central é ocupado pelo Deus Dionisos; o seu sacerdote é Orfeu, o cantor e tauma-turgo trácio. Nietzsche fêz mais tarde de Dionisos o símbolo da vida e da fé na vida, em todas as suas alturas e profundezas. O deus do vinho Dionisos era também, na realidade, um deus da vida, sobretudo da fecundidade da natureza, e era, nas bacanais, honrado com entusiásticos transportes mui vulgares.

α) Fuga do mundo — A dogmática dos órficos era contudo coisa totalmente diferente de uma afirmação vital. Devemos, antes, considerá-la como uma vaga miscelânea de ascese e mística, culto das almas e esperanças no além, coisas todas muito estranhas ao povo homérico. Agora, já a alma não é sangue, mas espírito; oriunda de um outro mundo; exilada nesta terra, como castigo por uma culpa original; encadeada ao corpo, deve passar por uma larga peregrinação até libertar-se dos sentidos. Via para a colimada purificação do sensível era uma série de proibições de alimentos, como a carne e as favas. Laminazinhas de ouro, enterradas com os mortos, testemunhavam que a sua alma provinha "pura de puros" e "libertou-se do penoso ciclo das reencarnações". A doutrina dos órficos sobre o destino das almas, depois da morte, espelha-se nos grandes mitos escatológicos, nos diálogos platônicos Górgias, Fédon e República. A dogmática órfica já possuía, também, uma bem elaborada teologia e cosmogonia.

β) Cosmogonia — Ensinava que no princípio existiu o Caos e a Noite. O "Chãos" devemos compreendê-lo literalmente como o vácuo abissal ou o precipício. A Noite gerou um ôvo, o ôvo cósmico, donde nasceu o amor (Eros) alado. "E este, consorciado com o abismo hiante, alado e noturno, no vasto Tártaro, deu origem ao nosso gênero e o trouxe fora, para a luz. Não havia o gênero dos mortais, antes de ser reduzido à unidade pelo amor; quando, porém, êle uniu uma parte com outra, surgiu o Céu, e o Oceano, e a Terra, e o gênero imortal de todos os deuses". Segundo uma fonte mais recente, a origem primitiva do Cosmos foi um dragão com cabeça de touro e de leão: no meio, porém, tinha o rosto de um deus, e nos ombros, asas. 3Ê conhecido como o deus do Tempo eternamente jovem. O dragão produziu uma tríplice seminação: o Éter úmido, o Abismo ilimitado e hiante e a nebulosa Escuridão; e além disso, de novo, um ôvo cósmico.

Tudo isto é intuição de todo fantasiosa e poética. Tem-se visto na mitologia órfica uma "palmar" tradição oriental. Em particular o dualismo de corpo e alma, do aquém e do além, e, em geral, uma forma de vida em fuga do terreno, "uma gota de sangue estrangeiro" na Grécia. A terra original destas corrupções pode, na realidade, ter sido a índia, onde tais idéias apareceram cerca de 800 a.C, nos Upanishads, escritos teológicos exegé ticos dos Vedas. Também se encontram na religião de Zoroastro, no planalto do Irã, como resulta dos antigos Gâthas do Zendavesta. Estas idéias teriam sido, então, sempre um patrimônio espiritual ariano.

d)    O   mito   e   o   logos

Muito mais importante, porém, que a questão da origem é a sobrevivência dessas concepções. Aristóteles disse, com razão, (Met. B. 4), a propósito do mito, que êle não constituía ciência, porquê esses "teólogos" arcaicos apenas reproduziam as doutrinas tradicionais sem apresentarem nenhumas provas. Opõe-lhes aqueles "que falam aduzindo provas (οι διαποδειξεΩζ λεγοντεζ), dos quais, por isso, podemos esperar uma verdadeira "convicção". Com isso quer referir-se aos filósofos. Por estes metódicos momentos da dúvida, da prova e da fundamentação, distingue êle o mito, da Filosofia, embora há pouco tivesse concedido que o amigo do mito, a certa luz, também era filósofo. A Filosofia é, ao lado do mito, realmente algo de novo. Já não se vive numa crença cega, do patrimônio espiritual do vulgo, mas o indivíduo volta-se todo para si mesmo e deve agora, livre e sem tutela, elaborar por si, examinando e provando, o que pensa e quer considerar verdadeiro. Ê uma posição espiritual diferente da do mito. Contudo, não devemos perder de vista que as questões formuladas pelo mito, como suas intuições conceptuais, elaboradas nos obscuros e não-críticos tempos anteriores, ainda sobreviveram na linguagem conceptual filosófica. À crítica do conhecimento filosófico impõe-se aqui a tarefa de examinar se os presumidos instrumentos racionais’ ‘de pensamento filosófico também estão, na realidade, todos racionalmente fundados. Talvez não o sejam. E isto não somente por uma recusa, mas porque o espírito ultrapassa o "saber" e abrange o mito, num sentido positivo, como um caminho apropriado para a sabedoria. De maneira que somente o crente na ciência iluminada é que pretende libertar-se do mito, ao passo que Aristóteles diz, com razão, que também o mito, a seu modo, filosofa.

e)    Bibliografia.

O. Gruppe, Griiechische Myttologie und Religionsgeschichte, 1906 (Mitologia Grega e História da Religião) ; M. P. Nilsson, Geschichte der Griechischen Religion, 1941 (História da Religião Grega) ; U. v. Wilamowitz-Moellendorff, Der Glaube der Hellenen, 1931, 21955 (A Crença dos Gregos) ; K. Prümm, Die Orphilk im Spiegel der neueren Forschung (O Órfico à luz das Novas Pesquisas), Zeitschrift für Katholische Theologie 78 (Innssbrck 1956) ; F. Buffière, Les mythes d’Homère et la pensée grecque   (Paris 1957).

 

jul 271997
 
Pitágoras de Samos

FILÓSOFOS PRÉ-SOCRÁTICOS  

     Os pré-socráticos são filósofos que viveram na Grécia Antiga e nas suas colônias. Assim são chamados pois são os que vieram antes de Sócrates, considerado um divisor de águas na filosofia. Muito pouco de suas obras está disponível, restando apenas fragmentos. O primeiro filósofo em que temos uma obra sistemática e com livros completos é Platão, depois Aristóteles. São chamados de filósofos da natureza, pois investigaram questões pertinentes a esta, como de que é feito o mundo. Romperam com a visão mítica e religiosa da natureza que prevalecia na
     época, adotando uma forma científica de pensar. Alguns se propuseram a explicar as transformações da natureza. Tinham preocupação cosmológica. A maior parte do que sabemos desses filósofos é encontrada na doxografia de Aristóteles, Platão, Simplício e na obra de Diógenes Laércio (século III d. C), Vida e obra dos filósofos ilustres. A partir do século VII a.C., há uma revolução monetária da Grécia, e advêm a ela inovações científicas. Isso colaborou com uma nova forma de pensar, mais racional. Os pré-socráticos inspiraram a interpretação de filósofos contemporâneos como Nietzsche, que nos iluminou com a sua obra A filosofia na época trágica dos Gregos e Hegel, que aplicou seu sistema na história da filosofia.
Leia aqui alguns Fragmentos pré-socráticos.

     Tales de Mileto-
     Anaximandro-
     Anaxímenes-
     Pitágoras-
     Xenófanes-
     Heráclito-
     Parmênides-
     Zenão de Eléia-
     Empédocles-
     Anaxágoras-
     Leucipo de Mileto-
     Demócrito-
 
 

 Tales de Mileto

Tales de Mileto – (+ ou- 640-548 a. C) Tales é considerado o pai da filosofia     grega, o primeiro homem sábio. Foi um homem que viajou muito. Os   pensadores de Mileto iniciaram uma física e uma cosmologia. O universo era   considerado um campo com pares opostos das qualidades sensíveis. É de Tales   a frase de que á água é a origem de todas as coisas. Tudo seria alteração da  água, em diversos graus. O alimento de toda a coisa é úmido. Aristóteles afirmou que ele foi o primeiro a atribuir uma causa material para a origem do  universo. Também era matemático, geômetra e físico. Aparece nas listas dos Sete Sábios da Grécia. Outra frase que pode ser dele é a de que tudo está  cheio de deuses, ou seja, a matéria é viva. Dizem que previu um eclipse solar e  calculou a altura de uma pirâmide. Em Aristóteles há um trecho dizendo que era sabido ser uma afirmação de Tales que a alma é algo que se move. Teve como  discípulo Anaximandro.
 

 Anaximandro

Anaximandro – (+ ou – 610-547 a. C) é um filósofo da escola jônica, natural de    Mileto e discípulo de Tales. Foi geógrafo, matemático, astrônomo e político.   Escreveu um livro, Sobre a natureza, que se perdeu. É considerado autor de   um mapa do mundo habitado e iniciador da astronomia. Afirmou que a origem de todas as coisas seria o apeíron, o infinito. O mundo se dissolveria nele    também. É apenas um mundo dentre muitos. Ao contrário de Tales não deu à  gênese um caráter material. O apeíron é eterno e indivisível, infinita e indestrutível. O princípio é o fundamento da geração de todas as coisas, a ordem do mundo evoluiu do caos em virtude deste princípio. Teve como  discípulo Anaxímenes.

 Anaxímenes

Anaxímenes – (+ ou – 588-524 a.C.) foi um filósofo da escola jônica, que tem  como característica básica explicar a origem do universo ou arché a partir de  uma substância única fundamental. Refutando a teoria da água de Tales, e do ápeiron de Anaximandro, Anaxímenes ensinava que essa substância era o ar     infinito, pneuma ápeiron. O universo resultaria das transformações do ar, da sua rarefação, o fogo, ou condensação, o vento, a nuvem, a água e a terra e por último pedra. Esse era o processo por qual passava uma substância primordial, e resultava na multiplicidade, os quatro elementos. O ar tinha o eterno  elemento. Escreveu uma obra, como Anaximandro: Sobre a natureza.     Dedicou-se à  meteorologia, foi o primeiro a considerar que a lua recebe a luz do  sol. Era companheiro de Anaximandro. Hegel diz que Anaxímenes ensina que nossa alma é ar, e ele nos mantém  unidos, assim um espírito e o ar mantém unido o mundo inteiro. Espírito e ar são a mesma coisa.
         A substância da origem volta a ser uma coisa determinada como em Tales.  Anaxímenes identificou o ar talvez porque tenha visto seu movimento  incessante, e que a vida e o ar andam juntos, na maioria dos casos. A respiração é um processo vivificante, dependemos dela durante toda a nossa vida. Ele via     que no céu existem nuvens, e que a matéria possui diferentes graus de solidez.
         Outra frase que consta nos fragmentos é "O sol largo como uma folha".
 

Pitágoras de Samos

 Pitágoras

Pitágoras – (século VI a.C.) Conhece-se muito pouco sobre a vida desse filósofo, pois foi uma figura legendária, e é difícil distinguir o que é verdade e o que é mentira. Nasceu em Samos, em uma época em que na Grécia estava instituído o culto ao deus Dioniso. Os órficos (de Orfeu) acreditavam na imortalidade da alma e em reencarnação (metempsicose), e para se livrar desse ciclo, necessitavam da ajuda de Dioniso, deus libertador. Pitágoras postulou como via de salvação em vez desse deus, a matemática. Acreditava na divindade do número. O um é o ponto, o dois determina a linha, o três gera a superfície e o quatro produz o volume. Os pitagóricos concebem todo o universo como um campo em que se contrapõe o mesmo e o outro. É de Pitágoras o teorema do triângulo retângulo. Fundou uma seita, em que a salvação dependia de um esforço humano subjetivo, e que tinha iniciação secreta. Os números constituem a essência de todas as coisas segundo sua doutrina, e são a verdade eterna. O número perfeito é o dez, por causa do triângulo místico. Os astros são harmônicos. Foi Pitágoras que inventou a palavra filosofia – (amizade ao saber).
        A escola de Pitágoras gerou os pitagóricos, que procuraram aperfeiçoar o sistema filosófico original. Eles floresceram em uma colônia grega na Itália. Pregavam o ideal da salvação do homem, tinham um caráter místico e espiritualista, e davam à matemática um caráter matemático.
Muitos filósofos foram também matemáticos, que atribuem ao universo a lógica dos números e em muitos pontos de sua doutrina buscam a matemática para fundamentar a sua lógica. É uma visão mecanicista, que identifica no mundo o raciocínio matemático. Platão exaltava a geometria, por essa ter um caráter
abstrato. Outros filósofos matemáticos importantes foram Descartes, Leibniz e Bertrand Russel. Spinoza escreveu um livro chamado A ética demonstrada pelo método geométrico, que é o método euclidiano de expor.
 

Xenófanes de Colofão

 Xenófanes de Colofão -(século IV a. C) atribui-se a ele a fundação da escola de Eléia. Levou vida errante, passou parte dela em Sicília, tendo fugido de sua terra natal por causa da invasão dos medas. Alguns duvidam de sua ligação com Eléia. Em seus fragmentos defendeu um deus único, supremo, que não tinha a forma de homem. Realçou isso afirmando que os homens atribuem aos deuses características semelhantes a eles mesmos, que mudam de acordo com o povo. Se os animais tivessem mãos para realizarem obras, colocariam nos deuses suas características. Restaram de suas obras alguns fragmentos, sendo que uns satíricos. Foi contra a grande influência de Hesíodo e Homero (historiador e escritor gregos). Zombou dos atletas, preferindo a sua sabedoria aos feitos atléticos, que não enchiam celeiros. O deus segundo Xenófanes está implantado em todas as coisas, o todo é um, e é supra-sensível, imutável, sem começo, meio ou fim. Teve como discípulo  Parmênides.
     Segundo Hegel os gregos tinham apenas o mundo sensível diante de si, e não encontravam satisfação nisso. Assim jogavam tudo fora como sendo não verdadeiro, e chegavam ao pensamento puro. O infinito, Deus, é um só, pois se fosse dois haveria a finitude. Hegel identifica a dialética* em Xenófanes, uma consciência da essência, pura, e outra de opinião, uma sobrepondo a outra, indo     contra a mitologia grega.
 

       *Dialética – Em Platão a dialética é o processo pelo qual a alma se eleva, em degraus, da realidade sensível ao mundo das idéias. É um instrumento de busca da verdade.
     Em Hegel, é o movimento racional que nos permite superar uma contradição. Assim, na história  vemos uma tendência, e a ela volta-se uma oposição, criando uma tensão, que é superada por uma nova tese que traz a solução. É o movimento tese, antítese e síntese. Não se restringe apenas a história, mas deve ser encarada como parte do real, uma forma de pensar evolutiva

Heráclito de Éfeso

 
        Heráclito – (+ ou – 540-470 a. C) nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, descendente do fundador da  cidade. É considerado o mais importante dos pré-socráticos. É dele a frase de que tudo flui. Não entramos no mesmo rio duas vezes e o sol é novo a cada dia. É o filósofo do devir, a lei do universo, tudo nasce se transforma e se dissolve, e todo o juízo seria falso, ultrapassado. Desprezava a plebe, não participou da política e desprezou a religião, os antigos poetas e os filósofos de seu tempo. É o primeiro pré-socrático com um número razoável de pensamentos, que são um tanto confusos, e por isso tem o nome de Heráclito, o obscuro. São aforismos. Foi muito crítico.  Chama a atenção, além da pluralidade, para os opostos. Tanto o bem como o mal são necessários  ao todo. Deus se manifesta na natureza, abrange o todo e é crivado de opostos. O logos é o  princípio cósmico, elemento primordial, e a razão do real, a inteligência. A verdade se encontra no devir, não no ser. Com sentidos poderosos, poderíamos vê-lo. O pensamento humano participa e é parte do pensamento universal. O fogo é eterno, um dia tudo se tornará fogo. O sol seria da largura de um pé humano. A felicidade não está nos prazeres do corpo. A morte é tudo que vemos despertos, e tudo o que vemos dormindo é sono. Existe a harmonia visível e a invisível. A alma não tem limites, pois seu logos é profundo e aumenta gradativamente. O pensar é comum a todos. A terra cria tudo, e tudo volta para ela.
     Hegel identifica em Heráclito a dialética: Heráclito concebe o absoluto como processo, com a dialética, exterior, um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa da coisa dissolvendo-se a si  mesma, a dialética imanente do objeto, situando-se na contemplação do sujeito, objetividade de Heráclito, compreendendo a dialética como princípio. O ser não é mais que o não ser. O fogo condensa-se, e apagado vira água. Encontramos em Heráclito algo comum entre os sábios: o desprezo pelo populacho, (como era comum Nietzsche dizer) e instituições dominantes. Teria sua experiência lhe dado base para isso?
     Ele pode ter contemplado com os seus próprios olhos o devir, movimento inteligente do universo e maravilhoso. Encontrou fogo na alma humana, comparou-a com uma chama que se apaga na morte.  Identificou o infinito na natureza, não apenas o matemático, mas o que constitui a essência das coisas. Pois todas as coisas têm uma essência, e o fluxo da alma é tão fundo que não tem fim.
 
 

Parmênides

 Parmênides – (+ ou – 544-450 a. C) filósofo da escola eleática, da região de Eléia, hoje Vília, Itália. Foi discípulo de Amínisas. Conheceu a filosofia de sua época. Escreveu um poema, cujo preâmbulo tem duas partes, a primeira trata da verdade, a segunda da opinião. Suas conclusões são contrárias às de Heráclito, seu contemporâneo. Na primeira parte do poema proclama a razão absoluta, que é o     discurso de uma deusa. Para se chegar à verdade não podemos confiar nos dados empíricos, temos de recorrer à razão. Desta forma nada pode mudar, só existe o ser, imutável, eterno e único, em oposição ao não ser. Teve como discípulo Zenão, também de Eléia.
     Segundo Nietzsche, foi em um estado de espírito que Parmênides encontrou a teoria do ser,   considerando o vir a ser. Pensou: algo que não é pode vir a ser? Não. – Temos de ignorar os sentidos e examinar as coisas com a força do pensamento. O que está fora do ser não é o ser, é nada, o ser é   um.
     Ao colocar como “imperativo categórico” o ser, e com ele a verdade que se chega na razão, Parmênides inaugura uma manifestação humana de conseqüências funestas. A refutação dos dados  empíricos, em favor do que pode ser comprovado com a razão age sobre o resultado final dos  mesmos. Assim, com o possível de ser explicado em primeiro plano, deixamos de lado um aspecto da percepção: a mudança, pois mudar é deixar de ser. O devir, nesses parâmetros é uma ilusão,   o fluxo da natureza também e o que é confiável é aquilo que é assimilado e compreendido. Põe se barreiras na percepção pura, que provêm da mente aberta, para usar um termo de Aldous Huxley.
 

Zenão, de Eléia  

         Zenão, de Eléia (século V a. C)- cerca de quarenta anos mais jovem que o seu mestre e conterrâneo Parmênides. Nasceu na Eléia, e interviu na política, dando leis à sua pátria. Zenão teria deixado cerca  de quarenta argumentos, sendo que nove foram conservados pelo doxógrafos. São dispostos em problemas de grandeza, do espaço, do movimento e da percepção sensível. Ele parte da divisibilidade infinita do espaço, pois um corpo percorrendo um espaço infinito em um tempo finito   estaria imóvel. Seus argumentos constituem-se verdadeiras aporias (caminhos sem saída), indo até ao absurdo. Foi considerado por Aristóteles o inventor da dialética, no sentido de diálogo que parte das premissas do adversário e o põe em contradição, numa posição insustentável. Defendeu as teorias do ser de seu mestre, Parmênides, contra os seus adversários, notoriamente os pitagóricos, que pregavam o ser múltiplo e divisível. O infinito não pode ser percorrido num tempo finito, só em um tempo infinito. Seus argumentos ficaram conhecidos como paradoxos de Zenão.
         Paradoxo de Aquiles: o mais lento na corrida jamais será alcançado pelo mais rápido, pois o que persegue deve sempre começar a atingir o ponto de onde partiu o que foge. Outro argumento pretende afirmar que uma flecha está em repouso ao ser projetada. É a conseqüência da suposição de que o tempo seja composto de instantes.
         Ele demonstra que quando há o múltiplo, há o grande e o pequeno. Quando grande, o múltiplo é  infinito, segundo a grandeza.
         Para Hegel, a dialética de Zenão possui mais objetividade que a atual. Ele ainda se conteve com os  limites da metafísica.
         Segundo muitas lendas, tornou-se célebre em sua morte, quando salvou um Estado de seu tirano, sacrificando sua vida, pois foi torturado e não delatou seus companheiros de conjura. Por isso foi  assassinado.

Empédocles  

 Empédocles (+ ou – 490- 435 a. C) natural de Agrigento na Sicília. A democracia estava em fase de implantação e ele a defendeu. Virou figura lendária, um misto de cientista, de místico, de pitagórico e órfico. Escreveu dois poemas. No primeiro apresenta uma única visão do processo cosmogônico, e o segundo é religioso. Refutou as teses que atribuem a origem do universo a um único elemento.
         Identificou quatro substâncias básicas, que ele chamou de raízes: a água, a terra, o fogo e o ar. Tudo se consiste desses quatro elementos, e as transformações que advêm a eles seriam visíveis a olho nu.
     Essas substâncias são eternas, imutáveis. Jostein Gaardner afirma que talvez Empedócles tenha visto uma madeira queimar, alguma coisa aí se desintegra. Alguma coisa na madeira estala, ferve, é a  água, a fumaça é o ar, o responsável é o fogo, e as cinzas são a terra. As verdades não seriam mais absolutas, como nos eleatas, mas proporcionais à medida humana. As coisas são imóveis, mas o que    percebemos com os sentidos não é falso. Duas forças atuariam nas substâncias, o amor e o ódio. O amor agiria como força de atração e união, o ódio como força de dissolução. Em quatro fases, existe a alternância do amor e do ódio. Estabelece um ciclo, com a tensão da convivência dessas forças motrizes.
     Empédocles dizia que alguns animais vêem melhor de dia do que de noite, e vice versa. O   pensamento se produz com a sensação.
     Admitiu a multiplicidade de itens de uma criação, como um pintor que mistura diferentes pigmentos em sua obra. Fala muito da deusa do amor Afrodite, portadora da vida e da beleza. Em sua filosofia todos os animais têm pensamentos. A inteligência cresce de acordo com os dados sensoriais do tempo presente.
     Hegel afirma que para Empédocles, outros elementos que não os quatro básicos, não são em si e para si. Não poderíamos visualizar o mundo sem os quatro elementos básicos. Nietzsche traça um perfil de Empédocles: cabelos longos, sandálias de couro nos pés e uma coroa na  cabeça. Com vestido cor de púrpura. É um filósofo trágico, pessimista, ativo. Queria provar que era um deus, atribuía-se qualidades místicas. Todos os movimentos, segundo ele nasceram de uma    natureza não mecânica, mas levam a um resultado mecânico.
     Conta a lenda que se atirou no vulcão Etna para provar que era um deus.

Anaxágoras  

     Anaxágoras (+ ou – 499-428 a. C)- filósofo da escola jônica nascido na Ásia menor, foi o primeiro filósofo a se transferir para Atenas, de onde foi banido por considerar o sol uma pedra incandescente e a lua uma Terra, negando a divindade desses corpos celestes. Interessava-se muito por astronomia. Houve um processo que acabou por condena-lo, apesar de ser amigo de Péricles, seu mestre e protegido. Péricles foi um grande líder político. Sócrates que nasceu cerca de trinta anos depois de Anaxágoras também foi condenado. Atenas considerava a novidade, a filosofia, uma impiedade e ateísmo. Anaxágoras se recusava a prestar culto aos grandes deuses gregos. Era filho de Hegesibuldo. Disse que as coisas corpóreas eram infinitas, e elas pareciam engendrar-se e destruir-se pela combinação e dissolução. No início, todas as coisas seriam infinitas em quantidade e pequenez, pois o pequeno também era infinito. Toda a matéria estava condensada. O ar e o éter são o maior conjunto de coisas. Muitas coisas de todas as espécies são contidas em todos os compostos e sementes. Em tudo há um pouco de tudo. Em cada minúscula partícula, ou semente, há uma parte de todas as coisas, pois todas as coisas são formadas por essas sementes. Essas coisas se resolviam e separavam pela força e rapidez, a força é a rapidez que produz. E o espírito começou a se mover, e em todo movimento havia uma separação, e as partículas se desdobravam, o espírito sempre é, sempre afirma. O compacto, o fluído, o frio e o sombrio se colocaram onde se formou a terra, e o ralo o quente e o seco forma para longe do éter. As visões das coisas invisíveis são aparentes, a lua reflete os raios de sol, em sua filosofia. E as coisas, que estavam juntas foram separadas por esse espírito inteligente e puro (nous), que ordenava a matéria e se movia, separando os opostos e criando os seres diferenciados. Os graus de inteligência dos seres animados (animais e plantas) dependem da estrutura do corpo em que o nous está ligado sem se misturar. Para Hegel, Anaxágoras foi um sóbrio entre os ébrios. Fundamenta sua crítica dizendo que ele foi o primeiro a dizer que o pensamento é universal, em si e para si, o puro pensamento é verdadeiro. Universal pela noção de causalidade. Essa noção, se não é universal, se não considera a coisa em si, costuma dizer coisas como: a causa da existência do capim é servir de alimento para os herbívoros, e a destes é servir de alimento para os carnívoros, os troncos fluem para determinado lugar, pois estão precisando deles lá e assim por diante. O nous de Anaxágoras é universal, move-se para diante. Cada idéia é um círculo de si mesma, e o bem universal de sua espécie. O nous é a alma que a tudo move, que liga e separa, uma atividade que põe uma primeira determinação como subjetiva, mas essa é feita objetiva, e assim se torna outra, e de novo esta oposição é sobreposta, assim até o infinito. Isso é dialética. Topo
 

Leucipo

     Leucipo (século V a. C) Filósofo grego, criador da teoria atomista, que foi desenvolvida por Demócrito. É considerado discípulo de Zenão, mas também especula-se sobre ser na verdade discípulo de Parmênides e Melisso*. Atribuem a Leucipo uma obra: A Grande ordem do Mundo. Neste livro diz que nenhuma coisa
se engendra ao acaso, mas a partir da razão e da necessidade. Seria natural de Mileto ou Eléia.
        Segundo Hegel, Leucipo concebeu a determinabilidade não de modo superficial, mas de maneira especulativa. Haveria no mundo a matéria e o vazio. A matéria é constituída de átomos, que se movem em torvelinho. O absoluto é o átomo, o verdadeiro. O um e o princípio são abstratos. Princípio do um é ideal, o pensamento é a essência das coisas. Sua filosofia, para Hegel, não é empírica. Os átomos movem-se por necessidade, se chocam e se rechaçam. São distintos entre si pela ordem e pela posição.
        Leucipo queria aproximar o pensamento do fenômeno e da percepção sensível, para Aristóteles. A alma também se constituiria de átomos.
Leucipo explicou o fenômeno do peso de acordo com o tamanho dos átomos e suas combinações. Os átomos seriam partículas minúsculas e indivisíveis por sua pequenez. O mundo teria a parte cheia e a parte vazia. Foi o primeiro a conceber uma parte vazia no universo. A parte cheia seria constituída de átomos. Rejeitou a descoberta dos pitagóricos de que a Terra é esférica.

Melisso  

Melisso – floresceu em cerca de 444/41 a.C. Nasceu em Samos, ilha do mar Egeu, e era filósofo e político, tendo derrotado os atenienses com uma esquadra que comandou. Defensor de Parmênides, atacou Empédocles. Escreveu um poema, Sobre o ser. Disse que o todo é imóvel, pois se movesse haveria vazio e o vazio é um não ser. Para ele tudo sempre existiu, e sempre existirá. O mundo é infinito.

Demócrito

     Demócrito (+ ou – 460-370 a. C) – nasceu em Abdera (Trácia). Foi discípulo e sucessor de Leucipo, desenvolveu sus teoria atomista e participou da escola iniciada por seu mestre em sua terra natal. De sua vida sabem-se poucas coisas seguras, mas fala-se que viajou muito, recebeu homenagens de seus concidadãos. É famosa a tradição que lhe atribui um riso constante, presente para qualquer coisa. É um dos primeiros materialistas. Teria deixado cerca de noventa obras. Para resolver o impasse surgido nas teorias de Heráclito e Parmênides, desenvolve a teoria de que tudo seria composto por partículas minúsculas indivisíveis e invisíveis a olho nu, inclusive a alma. Os átomos da alma se desintegrariam no momento da morte. Portanto, não acredita na imortalidade da alma, embora gostasse de Pitágoras. Trabalhou muito, dizia que os trabalhos feitos de bom grado fazem mais leves as cargas dos impostos a contragosto. Na sua filosofia, o trabalho continuado torna-se     mais leve por causa do átomo. Um trabalho bem feito e terminado dá mais satisfação que o descanso, e um trabalho em que não há retorno causa muito desprazer. O homem sensato dosa a avareza com o gasto, e suporta com brandura a pobreza. Quanto à forma, a emanação é igual às coisas. Os átomos são indivisíveis, pois se fossem divisíveis em partículas ainda menores. A natureza acabaria por se diluir. E como nada pode surgir do nada, são eternos. O movimento existe, pois o pensamento é movimento, e também os átomos se movem. Quando os átomos estão em equilíbrio, são tão numerosos que não podem mais se mover, os mais leves são    repelidos para o vazio exterior (portanto, o vazio existe) e os outros permanecem juntos, formando um conglomerado. Cada um desses conglomerados que se separam das massas dos corpos é um mundo, e existem infinitos mundos. Esta é uma visão nietzscheana da teoria de Demócrito. A essência da alma está na sua natureza animadora, de movimento. A alma é feita de átomos sutis, que se movem, lisos e arredondados. O fogo faz parte da essência do homem. Se a respiração cessa, o fogo interior escapa, e ocorre a morte. O homem é infeliz porque não conhece a natureza. Temos de nos contentar com o mundo tal como ele é. Os átomos constituem a explicação última da natureza. Foi o mais lógico dos pré-socráticos. Nietzsche o considera um poeta, Aristóteles admira sua     universalidade. Sua doutrina seguiu adiante, e temos outros atomistas, como Epicuro. Topo


Fragmentos Pré-Socráticos

 

Filosofos Pre-socraticos – Barnes, Jonathan – Criando o primeiro vocabulário realmente científico e oferecendo argumentos racionais para suas opiniões, os pré-socráticos faziam algo novo e profundamente importante; também formularam questões que permanecem até hoje no centro da filosofia. Jonathan Barnes mostra que às vezes é necessário um hábil trabalho de detetive para reconstituir as idéias desses pensadores a partir dos fragmentos que restaram de seu trabalho.

Introducao a Historia da Filosofia 1 dos Pre Socraticos a Aristoteles - Marilena Chaui Este livro é a nova edição revista e ampliada do primeiro volume da “Introdução à História da Filosofia”, série em que Marilena Chaui acompanha o trajeto da cultura filosófica desde os pré-socráticos aos pensadores modernos. O objetivo é oferecer informações básicas sobre a história do pensamento filosófico, dirigidas aos leigos e aos que se iniciam nos estudos de filosofia. Por seu caráter pedagógico, esperamos que estimule os estudantes no exercício do pensamento, auxilie os professores a preencher lacunas bibliográficas na preparação de suas aulas e convide os não-especialistas à descoberta do conhecimento filosófico.