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A FILOSOFIA DOS PRÉ-SOCRÁTICOS – História da Filosofia na Antiguidade – Hirschberger


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12/21/08

Capítulo Primeiro

Tradução de Alexandre Correia. Fonte: Editora Herder, 1965.

A FILOSOFIA DOS PRÉ-SOCRÁTICOS

O pensamento filosófico hodierno se interessa particularmente pelos pré-socráticos, antes de tudo, em virtude dos originais problemas que suscitam e da sua posição ontológica em geral. Antigamente, eram tidos apenas como os filósofos da natureza, entendendo-se, então, por natureza o mundo dos corpos. Hoje, sabe-se que aqueles "físicos" viram muito mais longe. Quando falavam de natureza, pensavam também no espírito, e no ser em geral. Eram, pois, mais metafísicos do que físicos. A abertura para essa nova compreensão resultou dos trabalhos de K. Reinhardt, W. Jaeger e M. Heidegger.

Fontes:

H. Diels, Fragmente der Vorsokratiker (81956). Fragmentos dos Pré-socráticos); W. Kranz, Vorsokratische Denker. Pensadores Pré-socráticos. Seleção de textos, em grego e alemão (21949).

W. Nestle, Die Vorsokratiker in Auswahl — ‘Seleção dos Pré-socráticos. Com tradução (41956). K. Freeman, The Pre- Socratic Philosophers.   A Companion to Diels (Oxford 1953).

Bibliografia

J. Burnet, Early Greek Philosophy (1892, 41930, reimpressão 1957). K. Reinhardt, Parmenides und die Geschichte der grieehischen Philosophie — Parmenides e a História da Filosofia Grega (1916). W. NESTRE,  Vom Mythos zum Logos Die Selbstentfaltung des griechischen und Sokcrates — Do Mito ao Logos. Desdobramento do Pensamento Grego de Homero até a Sofistica e Sócrates (1940). O. Gicon, Der Ursprung der Grieehischen Philosophie. Von Hesiod bis  Parmenides — Origem da Filosofia Grega. De Hesíodo a Parmenides (1945). M. Heidegger, Der Spruch des Anaximander. A Sentença de Anaximandro. Em Holzwege (1949).   E. Wolf, Griechisches Rechtdenken I — Pensamento Jurídico Grego (1950). W. Jaeger, Die Theologie der frühen griechischen Denkcer — Teologia dos Pensadores Gregos Antigos (1953). M. Heidegger, Vorträge und Aufsãtze (1954) 207-282. E. Schrödinger, Die Natur und die Griechen. Kosmos und Physik — A Natureza e os Gregos. Mundo e Física (1956). Kirk-Raven, Presocratic Philosophers. A Critical History. (London 1957). E. Voegelin, Order and History II (Louisiana State University Press 1957). A. Ehrhabdt, Politische Metaphysik von Solon bis Augustin I (1959).

1 — INTRODUÇÃO: FILOSOFIA   E   MITO

a)    Conceito   do   mito

No limiar da Filosofia grega há algo em si de não-filosófico, o mito. É a fé da comunidade nas grandes questões do mundo e da vida, dos deuses e homens, que dá ao povo a matéria do seu pensamento e do seu agir. Recebem-na da tradição popular, irrefletida, crente e cegamente. Consoante o nota Aristóteles, o amigo do mito é, apesar disso e a certa luz, também filósofo; por isso que, no mito, preocupa-se êle com problemas que vão ser, por sua vez, objeto da Filosofia. Donde vem o mencionar Aristóteles, de bom grado, quando refere os pressupostos de uma questão filosófica e a busca da sua solução, também as opiniões dos "primitivos", que foram os primeiros a "teologizar"  (οι πρωτοι νεολογηαντεζ).

b)    Mitologia de Homero e de Hesíodo

Vêm aqui logo à tona Homero e Hesíodo, com os seus ensinamentos sobre a origem dos deuses (teogonias) e a produção do mundo (cosmogonias). Assim, conforme a mitologia de Homero, devemos procurar a causa primeira de todo devir nas divindades do mar, Oceano e Tetis, e também na água, pela qual os deuses costumam jurar, e que o poeta denomina Estígío. Em Hesíodo aparecem o Caos, o Éter e o Eros como os princípios primeiros de tudo. Mas, ainda outros problemas são abordados: a transitoriedade da vida, a origem do mal, a questão da responsabilidade e da culpa, do destino e da’ necessidade, da vida e da morte, e semelhantes.   Sempre se manifesta aí um pensamento total e completamente imaginoso, visionado pelos claros olhos do poeta, em caso particular e concreto, intuitivamente, para depois universalizar a intuição, e transportá-la para a vida e o mundo em geral, explicando assim a totalidade do ser e do devir.

c)    Orfismo

No VI século desceu para a Grécia, das montanhas de Trácia, uma nova mitologia. O seu ponto central é ocupado pelo Deus Dionisos; o seu sacerdote é Orfeu, o cantor e tauma-turgo trácio. Nietzsche fêz mais tarde de Dionisos o símbolo da vida e da fé na vida, em todas as suas alturas e profundezas. O deus do vinho Dionisos era também, na realidade, um deus da vida, sobretudo da fecundidade da natureza, e era, nas bacanais, honrado com entusiásticos transportes mui vulgares.

α) Fuga do mundo — A dogmática dos órficos era contudo coisa totalmente diferente de uma afirmação vital. Devemos, antes, considerá-la como uma vaga miscelânea de ascese e mística, culto das almas e esperanças no além, coisas todas muito estranhas ao povo homérico. Agora, já a alma não é sangue, mas espírito; oriunda de um outro mundo; exilada nesta terra, como castigo por uma culpa original; encadeada ao corpo, deve passar por uma larga peregrinação até libertar-se dos sentidos. Via para a colimada purificação do sensível era uma série de proibições de alimentos, como a carne e as favas. Laminazinhas de ouro, enterradas com os mortos, testemunhavam que a sua alma provinha "pura de puros" e "libertou-se do penoso ciclo das reencarnações". A doutrina dos órficos sobre o destino das almas, depois da morte, espelha-se nos grandes mitos escatológicos, nos diálogos platônicos Górgias, Fédon e República. A dogmática órfica já possuía, também, uma bem elaborada teologia e cosmogonia.

β) Cosmogonia — Ensinava que no princípio existiu o Caos e a Noite. O "Chãos" devemos compreendê-lo literalmente como o vácuo abissal ou o precipício. A Noite gerou um ôvo, o ôvo cósmico, donde nasceu o amor (Eros) alado. "E este, consorciado com o abismo hiante, alado e noturno, no vasto Tártaro, deu origem ao nosso gênero e o trouxe fora, para a luz. Não havia o gênero dos mortais, antes de ser reduzido à unidade pelo amor; quando, porém, êle uniu uma parte com outra, surgiu o Céu, e o Oceano, e a Terra, e o gênero imortal de todos os deuses". Segundo uma fonte mais recente, a origem primitiva do Cosmos foi um dragão com cabeça de touro e de leão: no meio, porém, tinha o rosto de um deus, e nos ombros, asas. 3Ê conhecido como o deus do Tempo eternamente jovem. O dragão produziu uma tríplice seminação: o Éter úmido, o Abismo ilimitado e hiante e a nebulosa Escuridão; e além disso, de novo, um ôvo cósmico.

Tudo isto é intuição de todo fantasiosa e poética. Tem-se visto na mitologia órfica uma "palmar" tradição oriental. Em particular o dualismo de corpo e alma, do aquém e do além, e, em geral, uma forma de vida em fuga do terreno, "uma gota de sangue estrangeiro" na Grécia. A terra original destas corrupções pode, na realidade, ter sido a índia, onde tais idéias apareceram cerca de 800 a.C, nos Upanishads, escritos teológicos exegé ticos dos Vedas. Também se encontram na religião de Zoroastro, no planalto do Irã, como resulta dos antigos Gâthas do Zendavesta. Estas idéias teriam sido, então, sempre um patrimônio espiritual ariano.

d)    O   mito   e   o   logos

Muito mais importante, porém, que a questão da origem é a sobrevivência dessas concepções. Aristóteles disse, com razão, (Met. B. 4), a propósito do mito, que êle não constituía ciência, porquê esses "teólogos" arcaicos apenas reproduziam as doutrinas tradicionais sem apresentarem nenhumas provas. Opõe-lhes aqueles "que falam aduzindo provas (οι διαποδειξεΩζ λεγοντεζ), dos quais, por isso, podemos esperar uma verdadeira "convicção". Com isso quer referir-se aos filósofos. Por estes metódicos momentos da dúvida, da prova e da fundamentação, distingue êle o mito, da Filosofia, embora há pouco tivesse concedido que o amigo do mito, a certa luz, também era filósofo. A Filosofia é, ao lado do mito, realmente algo de novo. Já não se vive numa crença cega, do patrimônio espiritual do vulgo, mas o indivíduo volta-se todo para si mesmo e deve agora, livre e sem tutela, elaborar por si, examinando e provando, o que pensa e quer considerar verdadeiro. Ê uma posição espiritual diferente da do mito. Contudo, não devemos perder de vista que as questões formuladas pelo mito, como suas intuições conceptuais, elaboradas nos obscuros e não-críticos tempos anteriores, ainda sobreviveram na linguagem conceptual filosófica. À crítica do conhecimento filosófico impõe-se aqui a tarefa de examinar se os presumidos instrumentos racionais’ ‘de pensamento filosófico também estão, na realidade, todos racionalmente fundados. Talvez não o sejam. E isto não somente por uma recusa, mas porque o espírito ultrapassa o "saber" e abrange o mito, num sentido positivo, como um caminho apropriado para a sabedoria. De maneira que somente o crente na ciência iluminada é que pretende libertar-se do mito, ao passo que Aristóteles diz, com razão, que também o mito, a seu modo, filosofa.

e)    Bibliografia.

O. Gruppe, Griiechische Myttologie und Religionsgeschichte, 1906 (Mitologia Grega e História da Religião) ; M. P. Nilsson, Geschichte der Griechischen Religion, 1941 (História da Religião Grega) ; U. v. Wilamowitz-Moellendorff, Der Glaube der Hellenen, 1931, 21955 (A Crença dos Gregos) ; K. Prümm, Die Orphilk im Spiegel der neueren Forschung (O Órfico à luz das Novas Pesquisas), Zeitschrift für Katholische Theologie 78 (Innssbrck 1956) ; F. Buffière, Les mythes d’Homère et la pensée grecque   (Paris 1957).

 

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4 Comentários para “A FILOSOFIA DOS PRÉ-SOCRÁTICOS – História da Filosofia na Antiguidade – Hirschberger”

  1. 4
    sabrina rosa:

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    kamila:

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