A FILOSOFIA DOS PRÉ-SOCRÁTICOS – História da Filosofia na Antiguidade – Hirschberger
- Bibliografia
- 1 — INTRODUÇÃO: FILOSOFIA E MITO
- a) Conceito do mito
- c) Orfismo
- e) Bibliografia.
- 2 — MILÉSIOS E PITAGÓRICOS: MATÉRIA E FORMA
- A. Os Milésios
- b) Gênero de vida pitagórica
- c) Metafísica dos pitagóricos
- d) Bibliografia
- 3 — HERÁCLITO E OS ELEATAS O DEVIR E O SER
- A. Heráclito de éfeso (ca. 544-484) .
- b) Aristóteles a respeito do relativismo dos heraclitenses
- c) Bibliografia
- B. Os Eleatas
- a) Xenófanes (ca. 570-475)
- d) Bibliografia
- A. Os Mecanicistas
- a) Empédocles (ca. 492-432)
- c) Bibliografia
- B. Anaxágoras (ca. 500-428)
- a) Homeomerias
- b) Nous
- c) Cosmogonia
- Bibliografia
- Os sofistas. —
- c) Bibliografia
- Comentários (17)
2 — MILÉSIOS E PITAGÓRICOS: MATÉRIA E FORMA
O berço da Filosofia grega foi a Jônia, nas costas da Ásia-Menor. É Mileto, Éfeso, Clazomenas, Colofônia, Samos onde se encontram a maior parte dos pré-socráticos, sendo por isso a Filosofia pré-socrática chamada também jônica. Seu interesse capital está, como foi muitas vezes assinalado, na questão da natureza; e costuma-se por isso designar essa Filosofia como Filosofia da natureza. A consideração da natureza ocupa aqui, de fato, o lugar primordial. Mais justo seria, po-rém, falar de metafísica em lugar de Filosofia natural; pois o tema do fundamento primeiro e dos elementos significa, em geral, o dos princípios do ser. O de que se trata é de explicar a essência do ser como tal e não da simples verificação da matéria última constitutiva dos corpos naturais.
A. Os Milésios
Mileto abre a série deles. Pertencem-lhe os três primeiros pré-socráticos: Tales, Anaximandro e Anaxímenes.
a) Tales de Mileto (ca. 624-546).
A antigüidade o tem na conta de um dos sete sábios; Aristóteles lhe chama (Met. A, 3; 983 b 20) o pai da Filosofia; e Platão narra, a seu propósito, Teet. 174a) a história da rapariga trácia, que dele se rira por que, abismado na consideração das coisas supraterrenas, caiu num poço, tendo feito assim a má figura de, querendo ministrar aos homens uma doutrina elevada, não ter sequer visto o que lhe estava debaixo dos pés. Mau agouro para toda a raça dos filósofos? Mas êle não era na verdade tão pouco prático. Dirigia em Mileto uma escola de náutica, construiu um canal para desviar as águas do Halis e deu bons e aproveitáveis conselhos políticos.
α) A água como "arché" — E a sua Filosofia? Aristóteles refere: A maior parte dos que começaram a filosofar buscavam o princípio primeiro (αρχαι principia) no domínio da matéria. Estes princípios primeiros devem constituir a essência (ουσια) própria das coisas; deles elas nascem e para eles retornam. Eram-lhes, portanto, os "elementos" (στοιχεια). Todo ser individual seria, portanto, apenas uma manifestação (παθοζ) deste ser propriamente primitivo. Quanto ao que fosse a "arché", eram várias as explicações de cada pensador. Tales atribuía o princípio de tudo à água (Met. A, 3). Por que precisamente a água, já Aristóteles mesmo não o sabia com segurança. Mas também isto não é muito importante.
β) "Sapiência". — O que constitui a obra meritória do milésio é, antes, o conceito do fundamento primeiro de todo o ser, que êle foi o primeiro a estabelecer. Aristóteles disse que o objeto da metafísica (Met. A, 2) está em se ocupar ela, não mais, como as ciências, com partes do ser, mas com o ser como tal na sua generalidade; em buscar-lhe os fundamentos primeiros; e ela assim se confina num terreno obscuro e difícil e expõe uma ciência que não é buscada por meridional, onde deve ter principalmente desenvolvido a sua atividade. Transferiu-se finalmente para Metaponto, onde morreu em 496. Heráclito o reconhece como "o mais sábio de todos os homens", chamando-lhe, porém, "o pai das patranhas". Este duro apelativo talvez tenha-se originado da oposição entre as respectivas cosmologias. O pai do princípio do "fluxo de tudo" não dá lugar para um mundo de verdades eternas, como é o reino dos números. Assim também, modernamente, Nietzsche apodou todo idealismo de "sublimada pa-tranha". Platão, ao contrário, testemunha: "Pitágoras mesmo foi grandemente honrado, por causa de seu gênero de vida. B também os seus sequazes, que ainda hoje falam do gênero de vida pitagórico, aparecem como singulares entre os outros homens". (Rep. 600 b). Mais particularidades, porém, ignoramos a respeito de Pitágoras. Sua personalidade está envolta pela lenda. Parece nada haver escrito. Mas reuniu em der-redor de si um grupo de homens, numa espécie de liga secreta ou ordem, que se conservavam apegados às opiniões do mestre e as disseminavam oralmente. A liga se apresentava como filosófico-científica e ético-religiosa, com uma tonalidade fortemente ascética. Da conservação espiritual deste círculo podemos, retrocedendo, concluir que Pitágoras se movia na direção do dualismo órfico, aceitava a metempsicose órfica, desenvolvia um interesse’ científico universal e deve ter tido uma pronunciada natureza de chefe moral e político.
β) A liga antiga. — à liga fundada e dirigida ainda pelo próprio Pitágoras, em Orotona, nós lhe chamamos "a liga pitagórica antiga". Fazia parte dela o célebre médico Alcmeão de Crotona, que já tinha reconhecido o cérebro como o órgão psíquico central, bem como o astrônomo Filolau, que já antes do começo dos tempos modernos sabia que a terra não está no centro do mundo. Na segunda metade do século V, esta liga, que manifestava uma assinalada estrutura espiritual aristocrática e gozava de grande autoridade, foi destruída pelo partido democrático, mas logo a seguir restaurada.
γ) A liga posterior, — Esta liga pitagórica "tinha sua sede em Tarento onde subsistiu até ao fim do IV século. Aos membros dessa liga mais recente e só a eles se refere Aristóteles, quando fala dos "chamados pitagóricos" da Itália. Mas nela, de novo, se distinguiram duas direções; de um lado, os "acusmáticos" ou "pitagoristas" ( πυθαγορισται), que, conservadores, só atendiam as tradicionais regras de vida, seguiam–nas de modo estritamente ascético, abstendo-se de carne, peixe, vinho e favas, não tomando banhos, nada concedendo à cultura e às ciências e vivendo uma vida errante e mendicante. E de outro lado, os "matemáticos", que cultivavam a antiga aristocracia espiritual da primitiva liga e prezavam altamente a Filosofia e as ciências, em particular a música, a matemática, a geometria, a astronomia e a medicina. Entre eles se contam Arquitas de Tarento, amigo de Platão, Hicbtas de Siracusa, bem’ como os pitagóricos Ecfanto e Heraclides Pôntico da Antiga Academia; desses, os três últimos já ensinavam que a terra gira em torno do próprio eixo. Por Heraclides Pôntico foi mais tarde influenciado, através de Estratão de Lâmpsaeo, o peripatético Aristarco de Samos, que ensinava não somente o movimento de rotação da terra, mas ainda o de translação na eclíptica, teoria que Seleuco de Selêucia (c. 150 a. C.), o "Copérnico da antigüidade", fortaleceu então cientificamente.
b) Gênero de vida pitagórica
A fisionomia espiritual interna dos pitagóricos constitui um gênero de vida formalmente próprio (βιοζ πυθαγορειοζ). O fundo deste estilo de vida é constituído pela doutrina de origem órfica, cia transmigração das almas: a alma se origina de um outro mundo e, tendo pecado, deve agora, jungida ao corpo, levar uma vida de expiação e errante, até chegar, libertada do corpo e do sensível, ser de novo totalmente espírito. O corpo é o sepulcro da alma (σωμα— σεμα). Importa então trilhar o caminho da purificação. Este compreende: a ascese (preceitos do jejum, do silêncio, exame de consciência à noite sobre os seus atos diurnos bons e maus), o trabalho intelectual, sobretudo Filosofia e matemática, pelo qual o homem deve purificar-se dos sentidos e espiritualizar-se; a cultura da música, menos pela sua capacidade de alegrar do que pela formação harmônica que dá ao homem, pela sua harmonia e regularidade; e a ginástica, que proporciona a ocasião de submeter o corpo â disciplina do espírito. Característico do estilo. de vida pitagórico é, além disso, o ideal da amizade e da irmandade entre todos os homens. Também resultado da cultura dos valores da alma e do espírito; Tudo isso fala de uma forte e ideal concepção de vida.
c) Metafísica dos pitagóricos
α) Número; peras e apeiron; harmonia e cosmos. — Na metafísica, ficaram famosos os pitagóricos pela sua doutrina, de que o número é a arché de todas as coisas. Assim, o princípio do ser já não é, como até aqui, a matéria, mas a forma. É o número que dá a forma, e determina o indeterminado. Isto pelo menos é o que se pode concluir com segurança da notícia de Aristóteles sobre os pitagóricos (Met. A, 5), embora não seja de todo claro; pois, as suas teses sobre os últimos elementos do número, o determinante (περαζ) e o indeterminado (απειτον), indicam esse sentido. Temos agora dois princípios — peras e apeiron. Mas o mais importante é o peras, que faz o número ser tal, sendo então o princípio donde os pitagóricos tiram a sua metafísica: "grande, perfeição e causa de tudo, celeste como o fundamento último e o guia da vida humana, participante de tudo, tal é a força do número… sem este, tudo é ilimitado, obscuro e invisível" (44 B 11). Muito simples deve ter sido a observação que conduziu a esse pensamento. Na música podia ver-se como os vários tons conservam cada um uma determinada relação com o comprimento das cordas; e sobretudo as harmonias dos tons se caracterizam por meio de relações fixas e numéricas. Os números de vibrações da oitava se relacionam com o tom fundamental como 2:1; os da quinta como 3:2; os da quarta como 4:3. Ousada e genial foi a aplicação desta teoria ao ser em geral. "Segundo os pitagóricos", informa Aristóteles (Met. A, 5; 986 a 3), "toda a abóbada celeste é harmonia e número". Esta teoria foi o primeiro impulso, na história do espírito, para a questão sempre renovada da harmonia das esferas.
β) O grande ano cósmico. — Grande importância tem o pensamento da harmonia, para a doutrina pitagórica do grande ano cósmico. Consoante a ela, o processo cósmico não se realiza em linha reta, mas se cumpre em grandes ciclos. Os astros e o sistema do mundo sempre e de novo voltam ao seu lugar, e o relógio do mundo recomeça o seu curso, de eternidade a eternidade. Esta eterna repetição de todas as coisas se reproduz até nos mínimos detalhes. "Estarei de novo em pé, na vossa presença, com um bastão a vos ensinar", refere-se tê-lo dito Pitágoras. A doutrina da eterna repetição cíclica de todas as coisas levou a uma expressão culminante a idéia do cosmos. Mas ela se estende também a outras esferas — à psicologia, à ética, à Filosofia do direito e do Estado: "Os sábios ensinam que o céu e a terra, os deuses e a comunidade dos homens se ajustam entre si, e a amizade e a ordem, e a medida e a justiça; donde o darmos a tudo isto o nome de cosmos" (Platão, Gorg., 508 a). A base porém da concepção do mundo é, para os pitagóricos, o número.
γ) O especificamente novo — Quão fecundo foi o princípio do número na história do espírito mostra-o o desenvolvimento da moderna ciência da natureza, que cada vez mais vive do número. "A descoberta pitagórica pertence aos mais fortes impulsos da ciência humana… se, à estrutura matemática, como âmago do universo, se atribui uma harmonia musical, então deve também a ordem inteligente da natureza que nos circunda encontrar o seu fundamento em o núcleo matemático das leis da natureza" (Hetsenberg). Mas que as coisas sejam somente número, isso não o ensinavam os pitagóricos. Notícias que atribuem à doutrina pitagórica serem as coisas número são de uma expressão sucinta e não devem ser exageradas. Pois os pitagóricos punham, ao lado do limitado, o ilimitado, na suposição de que, onde sempre há número e forma, também deve haver numerado e matéria, se devem o número e a forma ter um sentido.
Os pitagóricos significam um necessário complemento em face dos Milêsios. Estes se referem sempre e somente ao que constitui o fundamento comum de todas as coisas, sem compreenderem que também o modo de ser peculiar de cada coisa deve receber a sua explicação. Não devemos somente perguntar donde procederam as coisas, mas ainda o que foi feito da matéria primitiva e como essa realidade se explica. A última questão levaram-na em conta os pitagóricos, sem desprezar a primeira. Eles, pela primeira vez, colocavam no seu lugar exato a forma, que estrutura a matéria.
d) Bibliografia
E. FRANK, Plato und‘ die sogennanten Pythagoreer (Platão e os assim chamados pitagóricos (1923). K. Kerényí, Pythagoras und Orpheus (Amsterdam 1939), K. v. FRIitZ, Pythagorean Politics in Southern Italy (N. Y. 1940). E. Schrödinger, Die Natur und die Grie chen. Kosmos und Physik (A Natureza e os Gregos. Cosmos e Física) (1956). M. Timpanaro-Cardini, I Pitagorici. Testimonianze e fra-menti (Firenze, 1958).
Mais textos
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