Os filósofos pré-socráticos e a origem da educação laica

Os filósofos pré-socráticos e a origem da educação laica

 

 Os filósofos pré-socráticos e a origem da educação
laica

Ricardo Ernesto Rose Jornalista e
Licenciado em Filosofia

"Onde se formam indivíduos
que criam e não indivíduos que aprendem?" (…) Onde está a instituição
que se propõe por objetivo liberar o homem e não se limitar a cultivá-lo?"
Max Stirner -O falso princípio da nossa educação

Nos textos dos
pensadores pré-socráticos não encontramos nenhuma referência clara à educação,
pelo menos nos termos como a conhecemos hoje. Todavia, dos escritos se
depreende que os filósofos (físicos, como eram chamados) formaram escolas de
pensamento, nas quais as idéias de um filósofo principal eram transmitidas a
discípulos. Estes, tanto podiam ser alunos que aprendiam com o mestre ou outros
pensadores, que convencidos pelas idéias do pensador mais criativo e perspicaz,
incorporavam suas noções básicas ao seu próprio sistema de pensamento. Exemplo
mais provável deste processo é a tríade Tales de Mileto (625 a.C. – 558 a.C.),
Anaximandro (610-547) e Anaxímenes (588-524). Qualquer um dos três pôde ter
tido outros seguidores ou alunos, que no entanto não foram mencionados pela
história e assim não puderam exercer influência na história da filosofia.

Xenófanes
(570-460) foi, segundo a tradição, provavelmente mestre de Parmênides de Eléia
(530-460). Neste caso o discípulo tornou-se mais famoso do que o próprio
mestre. Parmênides, por sua vez, foi professor de Zenão de Eléia (495-430). O que
se percebe é que as idéias dos mestres são transmutadas, dando origem a novas
correntes de pensamento, que muitas vezes se cruzam. Dois pensadores únicos,
que segundo atradição não tiveram seguidores, foram Heráclito de Éfeso
(540-470) e Empédocles de Agrigento (490-430). Ambos tinham personalidades
sombrias, marcadas pela visão trágica do processo de criação e destruição do
universo e, talvez por isso, apesar de terem tido discípulos, não fizeram
sucessores. Heráclito afastou-se do convívio humano e foi viver nas montanhas
da Jônia (região onde se localiza a atual Turquia), de onde só voltou para
morrer. Empédocles, convencido de que era um deus, atirou-se na cratera do Etna
e desapareceu para sempre.

Evidentemente,
em todas estas seqüências de gerações de pensadores, houve contato do mestre
com os discípulos, o que permite falar em um sistema organizado de transmissão
de conhecimento filosófico. Se os textos ou as idéias chegaram a nós – pelo
menos em parte através de doxógrafos – deve ter existido uma estrutura
organizada alunos, que anotavam ou copiavam as palavras ou as obras dos seus
mestres e para a posteridade. Daí depreende-se de que existiam locais e pessoas
específicas, incumbidas de anotar e assim transmitir o conhecimento filosófico.
A preservação e transmissão do pensamento dos mestres: os primórdios de um
sistema educacional.

O pitagorismo talvez tenha sido a linha filosófica que mais se
caracterizou como uma escola. Pitágoras de Samos (570-496) era um verdadeiro
mestre, líder de muitos discípulos, formando uma organização quase comparável a
uma seita religiosa. Tanto que muitos ensinamentos do filósofo eram
transmitidos somente aos discípulos que pertenciam ao grupo mais próximo do
mestre; conhecimentos sobre os quais deveriam manter segredo. No caso dos
pitagóricos se observam ainda resquícios da fase místico­religiosa do ensino.
Na religião o ensinamento sagrado era transmitido pelos sacerdotes aos
discípulos, que deviam manter segredo sobre o ensinamento e não passá-lo aos
leigos. São famosos os casos dos ensinamentos esotéricos (internos à seita e
exclusivos dos discípulos diletos do mestre) e os conhecimentos exotéricos
(externos e de livre acesso para os leigos) mencionados ainda com relação às
escolas de Platão (Academia) e de Aristóteles (o Liceu), por exemplo. Talvez,
para se eximir de tal tipo de acusação – de ser um fundador ou mestre de uma
seita religiosa secreta – Sócrates dizia em seu julgamento que seus
ensinamentos eram públicos e que os transmitia na presença de todos, conversando
com o povo nas ruas de Atenas. Outro filósofo, além de Pitágoras, que é
mencionado nos textos dos pré-socráticos como tendo aberto uma escola de
filosofia foi o pensador jônico Anaxágoras de Clazômenas (500–428), que se
estabeleceu em Atenas, a convite de Péricles.

Ponto importante
no desenvolvimento da educação foi, no caso dos pré-socráticos, a desvinculação
do pensamento mítico. Pela primeira vez na história surgia uma classe de
pessoas que pensava o universo, a phyisis, a partir de dados empíricos e
do raciocínio, sem recorrer aos mitos religiosos. Esta atitude dá origem, pela
primeira vez, a um conhecimento leigo, transmitido por leigos, sem ligação – e
às vezes até em conflito – com as religiões. A oposição à crença às vezes era
tanta, que alguns filósofos como Anaxágoras, foram perseguidos por supostamente
terem negado a existência dos deuses. Trata-se, enfim, da vitória do pensamento
racional, transmitido através das escolas filosóficas, ou pelos ensinamentos de
mestres itinerantes, como Xenófanes de Colofão (570-460).

Os filósofos
pré-socráticos foram provavelmente os primeiros professores leigos da história
do pensamento ocidental. A partir destes mestres, a transmissão do conhecimento
deixou de ser exclusividade de sacerdotes e de se limitar à interpretação
mítico-religiosa do mundo. Ao mesmo tempo em que os pensadores gregos
estabeleciam as bases do que viria a ser a filosofia e depois as ciências da
nossacivilização, a Índia também passava por um processo semelhante. No século
V a.C. os filósofos da escola Çarvaka, leigos e críticos da religião, também
ensinavam uma nova visão do mundo, baseada na experiência e no raciocínio,
combatendo dogmas profundamente arraigados na civilização indiana.

Cerca de duzentos depois, por ocasião das
campanhas de Alexandre Magno (356-323), filósofos das duas civilizações se
encontrariam. Esta aproximação de culturas, apesarde curto e esporádico, trouxe
alguns frutos. Na Índia, a tradição budista – notadamente a estatuária – seria
fortemente influenciada pela escultura grega. Na Grécia, Pirro de Elis, que
acompanhou a campanha de Alexandre e na Índia conheceu os sábios gymnosofistas,
os “filósofos nus”, seria o iniciador do pirronismo, a primeira forma de
ceticismo. Mas isto é uma outra estória, que fica para uma próxima vez.

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