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COMPARAÇÃO DE FÓCION COM CATÃO DE ÚTICA – Vidas Paralelas de Plutarco


COMPARAÇÃO DE FÓCION COM CATÃO DE ÚTICA
por Du Haillan

Adendo moderno às vidas Paralelas de Plutarco na edição de Amyot.

Se alguém se desse ao trabalho de comparar Fócion e Catão com todos os ilustres gregos e , eu me capacitaria de que esses dois personagens levantariam sempre o prêmio, medindo as coisas com o compasso da virtude; e esta empreitada não seria das mais difíceis de executar. Mas compará-los um com o outro, para salientar as particularidades e nelas observar qual dos dois leva vantagem, fazem isto com exatidão é, não somente difícil, mas impossível, a meu ver; e o comentário que acrescento agora, não é senão para ampliar, fazendo-o com mais minúcias o que nosso autor diz lacônicamente no princípio da vida de Fócion. Se ele quisesse alongar esse comentário e fornecer a comparação completa, sem dúvida seria uma de suas obras-primas. Êle não quis aí entrar ou duvidando de si próprio, ou duvidando de todos os mais hábeis, e (a exemplo de Apeles), deixando um quadro imperfeito que ninguém jamais poderia terminar. Com isso, solicito que não considerem de modo algum que me atribua esse julgamento sutil e desprendido que Plutarco requer naquele que queira procurar e saiba discernir as diferenças das vidas desses dois ornamentos do mundo.

II. Ora, inclino-me ao seu parecer de que não somente foram parecidos por semelhança geral e universal, como também a dizer que foram ambos homens de bem, muito entendidos em matéria de política e de governo; mas também que suas virtudes demonstram em tudo um mesmo traço, um mesmo molde, uma mesma tonalidade e a mesma cor, impressos em seus costumes, até nas mínimas e últimas particularidades, tendo ambos a austeridade quase em medida igual juntamente com a brandura, a coragem com a prudência, a vigilância cautelosa pelos outros com a segurança resoluta por si mesmos, evasão das coisas vergonhosas e zelo pela justiça. Todavia, pois, como deixou essa palavra quase como uma entrada na comparação, vejamos se em algum ponto um tem mais vantagem sobre o outro, deixando ao leitor sábio o julgamento, que lhe será como um instrumento entre as mãos para abrir, cortar, abrandar e polir este trabalho cada vez mais. Pois há Vidas neste livro que eu desejava fossem mais vezes lidas por todas as pessoas, especialmente por aqueles que administram os negócios do Estado, não que julgue conter mais instruções do que estas duas; e, como uma fisionomia excelente em perfeição mostra-se belo em todos os sentidos, também encontrarão nestes dois quadros bem lavo-rados pela virtude que parecem ter consumido sobre estes seus traços, suas cores e sua última demão. Falo de uma virtude civil e de tudo o que o homem pode aprender, que encontrarão raramente em Fócion e em Catão, a cada um dos quais se podem propriamente aplicar estes versos ditos de um outro personagem muito digno:

Não quer parecer justo, mas o ser,
Amando a virtude com pensamento profundo
Do qual vemos comumente nascer
Sábios conselhos onde toda a honra existe.

III. Mas consideremos o ateniense um pouco à parte e pleiteemos em seu favor contra o romano. Primeiramente acho a escola de Fócion mais regrada que a de Catão; pois ainda que todos os dois tenham sido excelentemente modelados em todas as perfeições de bons costumes, todavia, a vida de Fócion foi menos austera, mas civil, mais aproveitável à sua pátria e sua morte menos cruel e mais nobre do que a de Catão. Digo o mesmo de suas famílias. Fócion e sua mulher viveram irrepreensivelmente; porém, o que Catão fez com sua esposa Márcia, dando-a e pouco depois retomando-a para si, é um caso vergonhoso e sem desculpa. Jamais ateniense viu rir nem chorar Fócion; porém, sabiam ler suas respostas sem rir? Observam- sob o véu desse corpo um espírito alegre, gentil e contente. Vede um homem a todas as horas e se o encontro é agradável, é impossível evitar nem largar a presa. Ainda que bata de rijo e de ponta não querem e nem podem aparar o golpe, tanto assenta bem e com graça, sem poupar ninguém; Catão parece haver tido uma austeridade mais triste, razão por que sobre a resolução que tomou, de ir visitar a Ásia, Curião lhe disse: — "Farás muito bem. pois voltarás mais alegre e mais domesticado do que és". Não obstante isso, o vêem depois misturar muito azedume em seus propósitos e ações. Sua atitude, a cor e o jeito de seus trajes e sua conversa em público, tanto na cidade como nos campos, sem respeito pelos cargos que lhe eram comissionados, demonstram que estava resolvido a tomar um caminho todo contrário aos outros, em todas as coisas. Porém, é na morte mesmo que se conhece a austeridade de Fócion a mais temperada possível para com seus amigos e inimigos. Catão, ao contrário, em poucas palavras, fez o processo de César e o seu próprio, não conseguiu falar senão rudemente a seu filho e a seus familiares, e chegou mesmo a esmurrar um de seus escravos, sendo sua austeridade como uma espada temperada e batida a frio pelos paradoxos dos estóicos, quando a de Fócion era composta pela grave brandura dos platônicos. ,

IV.Acho também que Fócion sem dispensar a verdade, soube melhor acomodar-se ao senso de humor de seu tempo. Se tivesse prevalecido o procedimento de Catão, a república de Atenas não teria obtido de Filipe, nem de Alexandre, nem de Antipas o que lhe reclamava, quando Catão, contrariando o Senado e o povo, sem querer abandonar o rigor do dever, não mais como se tivesse o que fazer com Numa Pompílio e com os romanos de então, não adiantou grande coisa, nem para si, nem para os outros. A eloqüência de Fócion tem uma testemunha em assaz suficiente para fazer frente a tudo o que dez outros bem falantes tentavam levar avante para provar que Catão foi grande orador. Todos os dois apreciaram uma concisão sentenciosa em seus discursos; porém, Fócion saiu-se melhor e mais vezes do que Catão, o qual, deixando seguir seu natural, fazia longos e cansativos discursos algumas vezes. Os exemplos de sua brandura são mui belos. Fócion, porém, parece ter o primeiro lugar, vivendo e morrendo. Catão foi às vezes muito severo, quando podia se conter, pois sua impulsividade suplantava, como, quando em pleno Senado, quis ver a carta que entregaram a César e tendo recebido o prêmio de sua curiosidade, devolveu-a sem poder se conter de chamá-lo ébrio. Ajuntemos a isso a súbita recusa que fêz a , que lhe pedira em casamento uma de suas sobrinhas; pois ainda que tivesse razão em seu linguajar, não devia mostrar-se tão pronto, nem tão veemente em um caso que pela honra daquele que procurava sua aliança e por consideração à situação na qual se achavam então os negócios, merecia alguma delonga para digerir a resposta e opinar de mais perto o que fosse conveniente para o bem público.

V. Quanto aos feitos de armas, se bem que Catão haja dado diversas provas de seu valor, Fócion precede-o, tanto por ter sido, devido a sua reputação, eleito quarenta e cinco vezes capitão de Atenas, como por seus belos feitos militares, uma parte dos quais não é comparável a tudo o que fez Catão. E, o que é digno de nota, tendo tantas vezes sido nomeado chefe, o foi sempre em sua ausência e por aqueles que o contradiziam incessantemente; porém, eles compreendiam que sua virtude era sua salvaguarda, como as vitórias que ganhou sobre Filipe, a investida de Megara e a derrota dos lacedemônios fazem fé; ao passo que Catão teve trabalho para obter um regimento de mil soldados de infantaria e, quanto à sua viagem a , para lá foi à força e não combateu, tendo a sorte desejado para êle que Ptolomeu se desfizesse a si próprio.

VI. Por atenção à prudência guerreira, atribuo vantagens a Fócion, como o confirmam os conselhos que deu, os expedientes que seguiu nas guerras contra Filipe e seus avisos aos atenienses, pelo feito de suas armas; quanto a Catão, pretendendo expulsar Asínio Pólio para fora da Sicília, enfraqueceu muito Pompeu, pois em vez de se encontrar à frente do exército, a fim de manter conscientemente em mãos os combates que requeriam sua presença e impedir a desordem que sobreveio pela indiscreção dos outros senadores, deixou-se levar pela ambição de Pompeu, o qual o fechou dentro de Dirráquio, a fim de cortar e correr a seu gosto, parecendo que Catão já pensava no que executou depois dentro de Útica e começava a perder toda esperança; como também abandonando a Sicília não pôde se conter de dizer que "via no governo dos deuses uma grande incerteza e variação", atendendo que Pompeu sempre havia sido feliz antes, quando não fazia nada de bom, nem segundo o direito e a eqüidade; e quando queria preservar seu país e combater pela liberdade, viu-se destituído de sua felicidade. A prudência militar pede outras considerações e não deve nunca desesperar assim dos combates, sobretudo quando se tem as armas precisas, ainda que as mãos que as carreguem tenham suas imperfeições; pois a própria filosofia de Catão mesmo diz muito bem:

O homem justo e constante fica firme no lugar,
Rindo-se do perigo próximo que o ameaça;
Persegue até o fim suas resoluções bem concebidas, a examinar quando o universo lhe cairá em cima.

Ora, abandonar o fardo assim no meio do caminho não tem propósito; menos ainda do que fêz na África, confiando a direção do exército a Cipião, o qual sabia não possuir as qualidades requeridas para

uma tal comissão. O amor pelo bem público e a vida de tantos romanos que ficavam em falso, deviam ser preferidas a certas leis positivas, que ordenavam que o vice-pretor cedesse a um vice-; também não tardou muito para logo após se arrepender, falta que um sábio chefe de guerra não deve jamais cometer, nem dizer ou pensar. E em verdade esta inadvertência de Catão apressou a ruína do exército da África e tomou-lhe a vida a êle mesmo, imediatamente depois.

VII. Há muito mais ainda a debater na prudência política; todavia, vejamos o que se pode dizer por Fócion. Chegou à administração dos negócios quando sua república não tinha mais vigor, e todavia, salvou-a das mãos de Filipe, de Alexandre e de Antipas por uma excelente sabedoria, manejou todos os grandes de seu tempo muito dextramente, tornando-se em tudo inexpugnável ao e à prata, ainda que possuísse poucos bens; preferiu, porém, sobrepôr-se aos que o possuíam e prosseguiu neste passo virtuoso do desprezo às riquezas caducas até o fim. Impressionando por sua constância aos que não eram experientes, tratou com aspereza os discursadores e jovens conselheiros, fechando-lhes a boca com suas réplicas vivas; conteve o povo de Atenas, inconstante ao máximo, num cumprimento de dever maravilhoso, pelo espaço de vinte anos; não se encontra ter dito em conselho alguma coisa de que se arrependesse pouco depois, mas achou-se sempre bem em suas resoluções, tanto que os atenienses não se encontraram nunca em apuros pelo fato de o terem acreditado e nunca prosperaram em nenhum ato que lhes desaconselhasse empreender. Era de resto o pior adulador do mundo a si mesmo e quando lhes gritava: — "Vós me podeis entregar comissões que não deveriam ser executadas, mas o fazer-me dizer coisas que não se deve dizer, vós não saberíeis obrigar-me"; com efeito, dizia-lhes ainda muito mais. Não receava, nem amigos, nem inimigos, tanto estava apoiado sobre a virtude, a qual lhe havia gravado este pensamento no fundo do coração: que procurando o bem da pátria não se deve recear a morte; mas sim quando se aconselham ou se cometem coisas indignas e perversas. Então, quando os oradores e o povo mostravam-se de começo arrogantes, fazia frente aos seus vãos discursos sem nada rebater de sua veemência; mas temperava sua aspereza com alguma palavra espirituosa, para lhes mostrar que os conhecia muito bem e que não se preocupava com eles. Se alguma calamidade os tornava levianos, depois de os haver graciosamente repreendido e avisado, descobria de um golpe de vista o remédio, e sem preferência por ninguém, aconselhava o que era mais necessário para a salvação de todos, no que perseverou até o último suspiro.

VIII.Catão, entretanto, tendo muito cedo cansado e desesperado de poder servir mais a Roma, pela liberdade da qual havia feito maravilhas, sombreou o lustro de sua prudência. E quando poderia em sua vida ter feito dez vezes mais do que Fócion, não se pode desculpá-lo por se ter esquecido quando preciso. Além disso, se é preciso julgar os conselhos pelos acontecimentos, parece ter incorrido em grande erro por haver rejeitado a aliança que Pompeu procurava em sua família, pois isto foi a causa pela qual Pompeu tomou o partido de César, o qual lhe deu sua filha, do que se seguiu uma união que procurou arruinar em cheio todo o império romano. Ainda mais, perseverou em sua austeridade habitual, quando era preciso cortar pela raiz todas as tramas desses facciosos, por meio do consulado; em vez de o perseguir ao extremo, procedeu de forma tão desagradável que foi desviado de seu objetivo, razão pela qual Cícero repreendeu-o, e com razão, quando, tendo necessidade de um magistrado como ele, não se dera ao trabalho, nem se preocupara em ganhar o favor da comuna pela cortezia, agradando-a e falan-do-lhe com brandura, e não quis experimentar de novo, mas separou-se totalmente, o que significa largar a corda em vez de retê-la.

IX.Não posso desculpar a falta que cometeu Fócion depois da morte de Antípater, não se preocupando com as tramas de Polipercon e de Nicanor; pois isto fêz esquecer seus serviços passados, e de tal modo, colocou-o fora de graça, que não podendo obter audiência, ficou abatido. Isto é requerido nesses que seguiram bem seu caminho em avisar cuidadosamente que não naufraguem no porto, se é possível; mas,

Os casos divinos existem de muitas formas.

Como diz o poeta Eurípedes, o caminho do homem não está em sua vontade. É a obra de um poder mais elevado fazer com que esta ou aquela atitude aplaine todas as dificuldades. Em suma, quanto à vigilância cautelosa pelos outros, aprecio mais aquela de Fócion, mais contida; no entanto, Catão cai logo numa espécie de êxtase do espírito e não pensa senão em perder a vida, quando vê os negócios um pouco fora dos limites da virtude exata. Pelo cuidado de zelo pela justiça, Fócion levanta entre os gregos o título de probidade e não procura em toda sua vida senão coisas honestas e convenientes, para manutenção das leis e da liberdade pública. Catão parece mais áspero neste ponto, mas, com menos duração. Com referência à evasão das coisas vergonhosas, acho que têm juntos uma grande conformidade, ainda que por diversos caminhos tenham corrido para o mesmo fim. Fócion com um espírito mais assentado, como um rio correndo suavemente, e Catão com um ardor de coragem, como uma torrente impetuosa que suplanta todos os obstáculos.

X. O último ponto que nos fica é a resoluta segurança desses dois personagens e é o que sobressai neles. Ora, direi numa palavra que, se Catão tivesse esperado os acontecimentos e não se tivesse desesperado, certamente avançaria de muitos passos o outro; mas Fócion, tendo-se mostrado corajoso em toda a sua vida, selou magnificamente suas ações com sua morte, a qual merece uma infinidade de elogios por ter sido acompanhada de uma constância, paciência, amizade, indulgência, justiça e sinceridade tais, que sua vida não tem nada de extraordinário a comparar com aquela. Marchar então como capitão, confortar seus amigos, perdoar seus inimigos, é ação de Fócion, isto é, de um segundo Sócrates, de um sábio generoso e virtuoso entre todos os outros. Em qualquer sentido que se o tome então, é preciso reconhecer nele uma magnanimidade mais que humana; quando em Catão, não vedes senão testemunhos da miséria do homem abandonado à suas opiniões, se bem que os estóicos digam o contrário. Ainda que nesse combate haja como que amarrado as mãos da morte e lutado contra ela por duas vezes, assim sendo não lhe dou o prêmio da vitória como a Fócion, o qual, não procurando, nem fugindo da sua hora, esperou que o capitão soberano o chamasse e saiu valorosamente desta guarnição terrestre pela porta que lhe estava aberta, sem rompê-la por si mesmo para sair de um perigo a fim de entrar em outro maior. Foi êle quem soprou a morte, que lhe saltou ao pescoço e enguliu-a pagando e bebendo a cicuta. Pensando bem, a morte de Fócion foi bem vingada, pois seus acusadores pereceram desgraçadamente e os atenienses sentiram em sua confusão a perda que haviam causado.

XI.Mas, ainda é tempo que repliquemos em favor do romano, o qual, além do testemunho que tem de todos os homens de bom julgamento, tanto antigos como de nossa época, mantém-se bastante por si mesmo, e em vários lugares parece ter proeminência acima de Fócion. O que diz nosso autor me servirá de prefácio ao que ajuntarei: — pois quem poderia pintar Catão completamente senão a própria virtude? — "É minha opinião, diz êle, que esse personagem se assemelha propriamente aos frutos que chegam fora da estação; pois assim como são vistos com gosto e são elogiados, mas não usados, também a antiga inocência estando há muito tempo fora de uso, vinha então, após um tão longo intervalo, mostrar-se entre as vidas corrompidas e os costumes danificados daquele tempo, e conquistou-lhe uma grande glória e fama; mas, pensando bem, não se achou viável para ser posta em prática, nem própria para ser empregada nos negócios, porque a gravidade e perfeição de sua virtude eram muito desproporcionais à corrupção daquele século. Não chegou a se intrometer nos negócios do governo, estando já a república arruinada como fêz Fócion na sua, mas aí chegou quando já estava muito abalada e agitada por grandes tormentas, e se nunca teve o timão nem a autoridade de piloto em mãos, e cuidando apenas de manejar as velas e a cordagem, assistindo e secundando os que tinham mais crédito e poder do que ele, no entanto, deu ainda muito que fazer à sorte, a qual tendo empreendido arruinar e abolir a república, o conseguiu afinal por meio de outros mas foi com grandes sacrifícios e com um longo espaço de tempo, estando ainda arriscada a ficar por baixo, dev»do Catão e sua virtude".

XII. É preciso, portanto, acusar o tempo, a Catão nunca; mas, desde que estamos nas comparações, terminemos este traço. Primeiramente é extraordinário em Catão, que desde sua infância tenha entrado no caminho da virtude, com tanta sorte que continuou de bem para melhor; e enquanto Fócion despendia os dias na escola de Platão e de Xenocrates, o outro dava-se a conhecer filósofo com efeito. O seu mau comportamento com Pompédio Sila, a autoridade que possuía sobre os outros meninos e a espada que pediu ao seu mestre para castigar as tiranias de Sila, são atos generosos o quanto possível, ainda que tivesse poucos anos de idade. Nessa veemência, portanto, para não abandonar nada ao vício, mostrou-se conservador da verdade e protetor vigilante da virtude a qual, não sendo diminuída mas sempre acrescida nele, ultrapassou nisto a Fócion que não foi tão inflexível. Mas há ainda mais: Catão, estando em uma república bem diferente daquela de Atenas, onde tinha a combater inimigos muito mais perigosos e poderosos, dentre eles César, mais temível que todos os de Fócion, no entanto, derramou uma infinidade de conselhos e esforços. Se seu natural e seu prestígio o tivessem atirado à primeira fila, teria podido confundir todos os inimigos do Estado, aos quais nunca abandonou nada, senão uma vez devido à importunação de Cícero, tendo porém tão logo sua desforra, fazendo-lhes processos extraordinários, e pode-se dizer que o império romano nada viu de invencível como a coragem de Catão.

XIII. Ora, isto não são contos para alegrar, nem elogios de algum adulador de corte; pois se eu quisesse dizer de Catão todo o bem do mundo, não saberia especificar com vantagem o que os gregos, romanos e franceses deixaram por escrito. Mas só sua vida e suas ações demonstram, em elevado grau, que parece ter a natureza escolhido esse mestre para mostrar até onde a constância e firmeza humanas podem atingir. Não paremos, entretanto, como este golpe de vista, nos belos traços dos poetas, que os eleva acima dos romanos, acima de César, acima de seus céus e seus deuses; mas, confinemo-nos dentro do que Plutarco nos diz. É uma grande honra para Catão haver amado tanto seu irmão, elogiando-o tão altamente: eisto apaga uma parte do opróbrio do feito de sua mulher e contrapeso à honra de Fócion que não se acha em nada recomendável no filho, nem no genro. Ao contrário, Pórcia e Bruto fizeram honra à virtude de Catão.

XIV.Em suma, o exercício de toda a virtude com tão grande afeição que parece ser atraído por alguma inspiração divina, o amor à severidade da justiça, que não se verga por graça, nem por favor algum, o abraço à verdade e sinceridade, o ódio à avareza e o desprezo dos afagos mundanos, são virtudes comuns entre ele e Fócion, mas em cuja prática Catão mostrou-se muito mais ardente. Seu linguajar inflexível, cheio de bom senso e de veemência, acompanhado de um gracioso e de um natural grave e venerável, levanta alguma coisa acima da severidade das sobrancelhas de Fócion, o qual, no entanto, deixava-se cair num extremo contrário, provocando o riso do povo por meio de muitos traços, um pouco espirituosos demais, como o que temos de seus discursos e cujo efeito também o provam bastante. Por exemplo, estes dois bastarão: quando, em plena assembléia da cidade pegou na barba de Arquibíades, gracejando dele e, uma outra vez, chamando bem alto a Aristógiton "covarde e mau, porque imitava o manco". Ao passo que Catão, chamando César ébrio, e fez num ímpeto de ódio, atirado à propósito, o qual, se o Senado tivesse querido se informar, a vergonha cairia sobre a impudicícia de César e não sobre Catão, pois este, no cargo que desempenhava, podia de forma legítima inquirir sobre os papéis que traziam a César enquanto estava em conselho.

XV. As enfermidades das nações são tais, que muitas vezes não solicitam médicos carrancudos ou que façam rir seus doentes, os quais têm necessidade de cautério e de fogo. Roma estava então em situação muito perigosa; e como Fócion dizia conhecer muito bem os atenienses, pode-se dizer que Catão lia no coração dos senadores romanos, o que é claro pelos fragmentos de seus discursos, quando descobre as tramas de Catilina, de Pompeu e de César como se pertencessem ao seu partido. Não era questão de atirar piadas em pleno Senado, nem quando tudo ia rolando em decadentes frivolidades aqui ou acolá. É suficiente que o homem virtuoso aproveite bem sua felicidade e ria da vaidade dos outros, sem se servir do ridículo, por suas palavras ou atitudes; se bem que Catão de resto não tenha sido tão severo que não amasse as boas companhias e não pudesse ficar tanto tempo como fazia, a ver, por vezes, toda a noite, se os sábios propósitos não tinham sido temperados por alguma palavra espirituosa; e Feônio, seu familiar, era homem nascido para dar passatempo aos outros. Sua brandura é singular para com seus amigos, aos quais emprestava seu dinheiro, suas próprias terras e escravos, sem tirar nenhum proveito, mas para acomodá-los apenas; e fazia isto muito mais do que Fócion, o qual nunca tomou refletidamente nada de ninguém, também não tinha os meios de socorrer seu próximo e teve muito trabalho em se desprender das garras do usurário Calicles. Com que afeição consola e aconselha a esses que estão dentro de Útica após a derrota de Cipião e de Juba? Por todas as honras que o público lhe faça, não muda de modo algum sua maneira simples de viver e conversar entre grandes e pequenos; e por qualquer dos cargos que tenha tido, mesmo na guerra, não quis grande comitiva, nem aparelhagem mais suntuosa.

XVI. A coragem parece ter sido maior em Fócion, mas não é somente pelas viagens, nem pelos golpes que se deve julgar a destreza dos homens. Há alguma coisa mais. Catão exercita de tal modo os soldados das legiões a ele entregue, que não se sabia dizer se as havia tornado mais pacíficas ou mais aguerridas, mais valorosas ou mais justas, e isto é uma honra própria só dele. Ver um homem virtuoso ou ser virtuoso não é coisa impossível; mas é passar a mestre na virtude, o saber muito bem alinhar os outros, sobretudo os soldados, o que Fócion não conseguiu atingir; ao contrário, observe-se como se queixa do filho de Cábrias, e como se vê bastante insolência nas guerras de seu tempo. Quanto aos golpes de mão, esse testemunho concedido a Catão como em natureza amável, grandeza de coragem, veemência e eficácia da palavra, suplanta a todos os que se faziam chamar coronéis e capitães; pois sendo o primeiro que punha a mão em fazer o que ordenava, demonstra que se seus concidadãos houvessem confiado na aptidão suficiente de suas armas, e se não teve outro alvo de servir sua pátria senão na guerra, poderia fazer outros serviços aos romanos, o que Fócion não fez aos atenienses: e não sei se tudo o que Fócion fez em vinte anos contra os inimigos, se deve comparar ao bem que Catão proporcionou ao exército romano pela disciplina que estabeleceu. Direi muito bem que o que o trouxe de Chipre a Roma sem haver dado um único golpe de espada, conquistou-lhe mais honra e aos romanos mais comodidade do que fizeram todas as proezas de Fócion a si próprio e àqueles de Atenas. Quando, em meio das armas não esquece seu estudo de filosofia, nem o amor fraterno; quando, por outro lado, deixa para trás seus amigos para pensar primeiramente no público, como o vêem na administração dos dinheiros de Chipre, o que lhe é uma grande vantagem sobre Fócion, o qual era bem firme quanto a si mesmo, mas não sabe ou não quer impedir que muitas corrupções escorreguem entre os que não estavam muito longe dele, como testemunha seu genro Caneles.

XVII. Chego agora à prudência; e com referência à militar, ajuntarei esta palavra ao que foi dito que, por vezes, os negócios reclamam um espírito frio, de preferência que pouco se perca, para salvar muito. Difere abertamente ao expulsar Pólio para fora da Sicília, porque não queria arruinar o país e considerando que César, sendo conduzido à razão, como aparentava então que nisso se poderia fazer, não era preciso remover o mundo em tantos lugares. Se amou o bem dos povos, se preferiu o repouso de infinitas pessoas inocentes a uma guerra civil, quem poderia taxá-lo de covardia ou de imprudência? E quando larga muito a rédea a Pompeu, não podia fazer de outro modo, pois que a direção dos combates estava nas mãos daquele, e não é coisa fácil, nem certa, nem de direito, querer controlar de muito perto um comandante de guerra. Se se queixa do governo dos deuses, é levantando os olhos sobre a situação exterior dos combates, e tanto é preciso que um tal pensamento o desencorage, quando ao contrário, reúne e conduz as tropas depois da jornada de Farsá-lia, reúne Juba, Cipião e Varo, dá tais conselhos que se os tivessem seguido, talvez César não tivesse procurado recomeçar. Em suma, Cipião, a quem abandonou o comando segundo o teor das leis, era homem apto para desempenhar alguma coisa boa; o exército respeitava-o e se não cumpriu seu dever, Catão, estando quites com o seu e cuidando bem de uma cidade de grande importância, não é passível de reprovação; pois infringir a disciplina militar, sobretudo em tais guerras, é abrir a porta a um milhão de desordens. Mas quem poderia desconfiar de uma coisa que não aparenta? Catão devia presumir que Cipião perderia tudo? Catão devia aceitar superficialmente um tão grande encargo ainda que lhe fosse oferecido? Não procurava a honra; era ao que se dava menos trabalho. Seu afeto consistia em servir sua pátria, mas observando as leis, e sem se expor com alegria de coração à inveja daqueles que estavam em mais alto grau do que ele. Não é simplesmente pelos fatos que se deve condenar os homens. Mas há mais: é que antes da derrota de Cipião, perceberam que Catão tinha sangue nas unhas, quando se ofereceu para conduzir suas tropas à Itália, para ali atrair César; o que não foi aprovado, mas desprezaram seu conselho salutar, do que se seguiu uma desolação extrema. Mas o erro que cometeu Fócion, não querendo apoderar-se de Nicanor, o que evitaria tantos males, é muito maior quando não o julgam a primeira vista, como também Plutarco o descreve exatamente.

XVIII. Ora, deixemos este ponto para considerar a prudência política de Catão, a qual acho excelente de encantar; pois sem falar de seu início, de que modo administrou êle as finanças de Roma? E que necessidade tinha a economia pública da prudência desse personagem, que não se aborrecia, nem se cansava de trabalho algum, mas em pouco tempo repunha as coisas no seu valor e dignidade iniciais? Como faz êle proceder direito a esses que tanto desejavam se recusar? Com que destreza levanta esses que se haviam desviado? Poderiam notar em Fócion um tão forte traço político como em Catão, o qual faz vomitar os assassinos e parricidas assalariados dos cofres públicos no tempo de Sila? E o que é haver conseguido com que a justiça fosse feita, senão tendo pelo bem público não faz escudo senão de sua vida, acusa Pompeu, César, Roma e mesmo o destino; breve, suplanta todo poder adversário, fica como um cubo, sempre firme em seu plano, não se desmente no que quer que seja, e em todo o sentido que se queira pegá-lo, no Senado, na assembléia do povo, na tribuna dos discursos, em seu escritório de questor, em sua cadeira de pretor ou de tribuno, com seus amigos, na presença de seus inimigos, seja quand querem levá-lo à prisão, ou trazê-lo à sua casa, tem sempre o mesmo modo; todo cargo, todo o porte, toda maneira lhe cai bem, e não faz coisa alguma em sua desvantagem, mas sempre por toda parte, acima de todos e em todas as coisas, paira no alto.

XXI.O que lhe objetam, de ter sido muito austero para com Pompeu na disputa do consulado, deve ser visto em um outro sentido. Via a situação de Roma toda embaralhada, e Pompeu, encontrando-se na embrulhada, e procurando atraí-lo por meio de uma aliança, era, a expensas de sua sobrinha, aventurar o repouso de seu espírito e sua reputação. Não fora preciso até ali se ligar, e se Pompeu ficou despeitado ou mal avisado de se unir a César contra sua pátria, sua falta não deve ser descarregada sobre Catão, que não podia forçar seu natural nobre e não se tendo habituado a entrar nas situações senão pela porta da honra e da virtude, não fez nada de indigno de seu valor mantendo-se em sua posição; em vez disso, se fosse arriscar (como dizem) todo seu bem contra um nada, se se pusesse a disputar à maneira dos outros, por alguma razão o povo o teria repelido. Em tudo, assim como antes, havia sem respeito de ninguém aconselhado e procurado o bem público, continuou sempre e se foi da opinião de eleger Pompeu cônsul sozinho, não foi isto sinal de inconstância, mas um ato de conselheiro fiel do Estado, que se acomoda prudentemente nos negócios, como um piloto experiente sabe baixar as velas a propósito, singrar sob ventos contrários e por diversos caminhos chegar ao mesmo porto. Quando Pompeu quis agradecê-lo, vêem qual a resposta que lhe deu, e como logo após ban-deou-se de novo para manter a autoridade das leis contra todos os adversários. Mas o que levou César a queixar-se dele por cartas bem ásperas? Como foram pouco avisados seus amigos ao reproduzi-las em pleno Senado? Fêz êle então ver a olho nu e apontar com o dedo a quem quisesse, todos os conselhos de César, como se fosse seu cúmplice? Precisou êle esperar as provas? As armas que César levantou contra sua pátria divulgaram diante dos senadores e cidadãos romanos que Catão era o mais sábio dentre todos os outros homens.

XXII.Quanto à sua vigilância cautelosa pelos outros, a resoluta segurança por si mesmo, a evasão das coisas vergonhosas e zelo pela justiça; já foi dito e em toda a sua vida demonstram essas virtudes serem nele sempre tão puras e brilhantes, que não é possível requerer tanto quanto as coisas humanas podem ter de perfeição. Ajunto que se acham essas virtudes e todas as outras acorrentadas juntas em Catão mais do que em nenhum outro grego ou romano; de tal modo que, quem considerar sua prudência, achá-la-á justa, valorosa, moderada, paciente, vigilante, assegurada e inexpugnável, sem que se possa facilmente discernir qual das virtudes avança sobre as outras; pois elas se mantêm em círculo, envolvendo-o com uma maravilhosamente justa.

XXIII. E, em verdade, se sua morte tivesse sido outra (pois os estóicos não me pagam com razão, aconselhando seus sábios a virar-se contra si mesmo, quando as correntes desta vida lhe pesam muito), pesaria mais sozinho do que tudo quanto existe de gregos e romanos ilustres dentro da história, ainda com esse defeito não deixe de suplantar a quase todos na balança. Aceito Fócion, sobretudo em sua morte; pois, na minha opinião, teve extraordinária vantagem sobre Catão, deste lado. Não quero entrar na refutação do paradoxo dos estóicos sobre esse ponto. Aprendemos (graças à bondade divina) em melhor escola do que a deles, que nossa morte ou saída desta vida, depende de uma outra vontade que não a nossa, e que se em nenhum tempo de nossa vida nossas paixões podem ser retidas, é então que a paciência nos aconselha a esperar alguma coisa contra nossas próprias pessoas. Se vivêssemos para nós mesmos somente, ser-nos-ia fácil tomar a chave dos tempos, e de uma infinidade de saídas que se apresentam, escolher alguma; em suma, poderíamos morrer onde, quando e como bem nos parecesse. E ainda que por vezes a providência divina pareça nos deixar em uma situação de vida pior do que a morte, no entanto se temos bons olhos, olhamos nossa vida aflita com outros olhos o que não fazem os estóicos e estimamos bastante quando chega ao seu fim, ainda que seja através de grandes calamidades. Mas o Soberano Legislador, proibindo o homicídio, compreende nesta proibição aquele que se mata a si mesmo; e a natureza, bem aconselhada e reconhecida, refuta e abomina esta absurda opinião. Também alguns outros que não parecem ser tão grandes filósofos e que todavia pensam melhor neste ponto, ensinam-nos a ficar em nossa vocação no mundo e esperar que Aquele que aí nos colocou como guarda venha nos levar para nos dar repouso. Não é constância, nem paciência dizer — Não posso ficar em tal lugar. E sabedoria partir sem se despedir? Nessa conta, não precisávamos de superior. Ainda a sabedoria dos estóicos acha-se um degrau abaixo de Júpiter. Que o homem espere, portanto, que seu senhor desamarre a corrente. Há mais magnanimidade em tra-zê-la suavemente do que em parti-la. A indiscrição, a impaciência e o desespero apressam o passo dos homens que procuram assim a morte.

XXIV.Mas não entremos mais na consideração desse estranho paradoxo; antes, deploremos a do homem simples, vendo personagens tais como Catão, Bruto e outros, tropeçarem tão pesadamente no fim de sua vida. Não se deve nunca abandonar, dizia , um obsecado desta idéia, enquanto resta um dedo de esperança. Quanto a vida de um homem generoso tem de constância e de toda espécie de brilho, em um minuto, às vezes, antes do fim? Catão podia prestar muitos serviços à sua pátria, demonstrar a César seu dever, desdobrar nesse trabalho tudo o que restava em seu espírito, depois esperar os acontecimentos, como havia feito em tantas outras vezes, tendo visto sua vida sobre o fio da navalha, como se diz. Imaginava, dirá alguém, que tudo estava perdido e não tinha mais desejo de viver. Não devemos nunca deixar por completo afundar nosso coração, nem arruinar o que nos foi dado como para o dispor à nossa fantasia. Mas o mau comportamento de Catão na cidade de Útica para abrandar uns e dar evasão a outros, tornou essa tragédia ainda mais lastimável; e de resto isto foi uma terrível luta o agarrar por duas vezes a morte pelo colarinho, e uma coragem extraordinariamente atroz arrancar assim as entranhas. São arrebatamentos de um pensamento que estudou e dirigiu a morte de longa data; e o que lia no discurso de Platão referente à não era porque precisava de nova esperança.

Havia muito mais do que Platão reproduziu em seus escritos; sua ciência e resolução estavam por esse cuidado, acima da filosofia. Não teve esta preocupação pela proximidade da morte, pois não interrompeu mesmo seu sono pela importância de uma tal deliberação. Era seu costume misturar seus estudos com outros atos; mas então achou um livro conforme seu desejo. Ora, se bem que por esse fato tenha culpa, como foi dito, todavia aí se observa ainda esta magnanimidade que reluz em toda sua vida, preferindo mais perdê-la do que tê-la daquele que julgava ser assassino das leis e da liberdade dos romanos. Se a morte de Fócion foi vingada e se os atenienses se arrependeram de lhe ter causado um tal erro, os de Útica, após César, lastimaram Catão. E quanto a César, Antônio e outros que oprimiram a pátria pelo julgamento justo Daquele que tem infinitos meios de castigar pequenos e grandes, tiveram sua vez, e pereceram desgraçadamente. Eis uma entrada para a comparação desses dois ornamentos raros do mundo. Acima, pelo discurso de Alexandre e de César, retive-me ao dar minha última opinião: tenho mais razoes de parar, quando falo destes dois; partindo, deixo a sentença e o prosseguimento ao leitor.

XXIV. Mas nao entremos mais na consideração desse estranho paradoxo; antes, deploremos a cegueira do homem simples, vendo personagens tais como Catão, Bruto e outros, tropeçarem tão pesadamente no fim de sua vida. Não se deve nunca abandonar, dizia Cleômenes, um obsecado desta idéia, enquanto resta um dedo de esperança. Quanto a vida de um homem generoso tem de constância e de toda espécie de brilho, em um minuto, às vezes, antes do fim? Catão podia prestar muitos serviços à sua pátria, demonstrar a César seu dever, desdobrar nesse trabalho tudo o que restava em seu espírito, depois esperar os acontecimentos, como havia feito em tantas outras vezes, tendo visto sua vida sobre o fio da navalha, como se diz. Imaginava, dirá alguém, que tudo estava perdido e não tinha mais desejo de viver. Não devemos nunca deixar por completo afundar nosso coração, nem arruinar o que nos foi dado como para o dispor à nossa fantasia. Mas o mau comportamento de Catão na cidade de Útica para abrandar uns e dar evasão a outros, tornou essa tragédia ainda mais lastimável; e de resto isto foi uma terrível luta o agarrar por duas vezes a morte pelo colarinho, e uma coragem extraordinariamente atroz arrancar assim as entranhas. São arrebatamentos de um pensamento que estudou e dirigiu a morte de longa data; e o que ha no discurso de Platão referente à imortalidade da alma não era porque precisava de nova esperança.

Havia muito mais do que Platão reproduziu em seus escritos; sua ciência e resolução estavam por esse cuidado, acima da filosofia. Não teve esta preocupação pela proximidade da morte, pois não interrompeu mesmo seu sono pela importância de uma tal deliberação. Era seu costume misturar seus estudos com outros atos; mas então achou um livro conforme seu desejo. Ora, se bem que por esse fato tenha culpa, como foi dito, todavia aí se observa ainda esta magnanimidade que reluz em toda sua vida, preferindo mais perdê-la do que tê-la daquele que julgava ser assassino das leis e da liberdade dos romanos. Se a morte de Fócion foi vingada e se os atenienses se arrependeram de lhe ter causado um tal erro, os de Útica, após César, lastimaram Catão. E quanto a César, Antônio e outros que oprimiram a pátria pelo julgamento justo Daquele que tem infinitos meios de castigar pequenos e grandes, tiveram sua vez, e pereceram desgraçadamente. Eis uma entrada para a comparação desses dois ornamentos raros do mundo. Acima, pelo discurso de Alexandre e de César, retive-me ao dar minha última opinião: tenho mais razões de parar, quando falo destes dois; partindo, deixo a sentença e o prosseguimento ao leitor.


 

Tradução de Carlos ChavesFonte: As Vidas dos Homens Ilustres de Plutarco.

Traduzidas do Grego por Amyot – Grande-Esmoler da Frabça. Com notas e observações de Brotier, Vauvilliers e Claviers.

Volume Sexto.

Conforme a edição francesa de 1818. (Paris, Janet e Cotelle) e ao texto de 1554.

Ed. das Américas.1962.

 

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