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A luta de carneiro com touro


A luta de carneiro com touro

Entramos lo campo. Havia muito gado. Árvores surgiam de longe em longe e à sombra delas grupos de animais acarrados. Pouco adiante, a um lado, no alto de uma coxilha, surgiu o vulto imponente de um touro, que vinha numa atitude agressiva; mas chegado a certa distância parou, a olhar para nós e a escarvar o chão com a pata. Depois, com a cauda estendida, desandou cor­rer para um grupo de reses, que haviam à sombra de um ombu, e de lá continuou a olhar para nós como desafiando, que fôssemos perturbar a paz da sua manada.

Nesse momento começamos a ouvir um ruído espaçado, como o de malho sôbre granito. O velho apurando, o ouvido, disse: Temos


briga de carneiro com touro… E efetivamente, transposta a coxiiha que nos ficava fronteira, surgiu aos nossos olhos o quadro da luta.

Numa depressão do terreno existente abaixo da coxilha, esta­va um touro em fincapé nas patas dianteiras, a cabeça baixa, ofe­recendo ao adversário, quase horizontais, os cornos agudos, curtos e direitos. Da bôca lhe escorria uma baba espêssa que brilhava aos raios do sol. Na sua frente, a umas dez braças de distância, tendo ao lado ovelhas espantadas, um carneiro enorme de chifes retorcidos, certamente o guieiro daquela ponta de ovelhas, prepa­rava o assalto, soltando uns berros curtos, incisivos de animal en­raivecido. Os seus olhos torvos tinham cintilações de lâminas de facas.

Deixou escapar ainda ums série de berres mastigados e tre­midos, como se estivesse falando às suas ovelhas e atirou-se cor­rendo sôbre o touro. Naquela corrida desabalada parecia que as suas pernas delgadas penetravam na terra. A cabeça do carneiro foi bater certa, como uma aríete, no meio da testa do touro, justa entre os dois cornos. Ouviu-se o mesmo ruído de malho batendo sôbre um bloco *) de granito. Recuou de novo, investiu outra vez e em cada uma dessas investidas, parecia que as panes das batiam mais forte e mais certas.

O touro permanecia na mesma posição, babando, a oferecer os cornos para que o carneiro, errando o golpe, se enterrasse neles.

Os golpes de aríete foram se amiudando. A ira do carneiro crescia sempre. Recebendo por fim um daoueles últimos golpes decisivos, o touro abaixou mais a cabeça, soltou um longo mugido doloroso, agitou a cauda em movimentos desordenados, e todo o seu corpo começou a tremer.

Mais duas pancadas certeiras, formidáveis. Mais um mugido agoniado, longo, doloroso, que foi levado pelo vento através do campo sem fim. E o enorme corpo do touro começou a pender para a frente. As ventas atingirsm o chão empastado de baba, as pernas dianteiras vergaram, o touro foi caindo lentamente por terra, com o osso frontal espedaçado.

E o velho Magalhães disse-me:

“Viste bem isto, piá? [1]) Aprende neste exemplo a respeitar os que parecem fracos. Vê como um carneiro, o símbolo da man­sidão, que até figura como complemento da ingênua e meiga bon­dade de um santo, pode mais que um touro altivo, arrogante e agressivo…”

Canto e Melo.


3) Cujos são? = de quem são? No português arcaico médio empre­gava-se cujo como pronome interrogativo, conservado ainda no provérbio

— O gato sabe cujas barbas lambe. Em Bernardes (Nova Flor. I. 328) le­mos: D. João de Castro… viu um jubão riquíssimo… e perguntou cujo era. — Não achando outro lugar, me estendi no mesmo jazigo, sem saber cujo era o corpo (Ibid. V. 7). Esta construção caiu em desiiso.

1) Apeles — célebre pintor grego.

3) Demóstenes — o maior orador ateniense. •

1) Temos aqui uma exemplo de atração gramatical, que se dá quando na sintaxe uma palavra se regula por uma outra, pela qual se não havia de regular. (Edif. Sintaxe histór.) Aqui o demonstrativo a figura em lu­gar do demonstrativo invariável o, concordando com o subst. fortuna. Em Bernardes (Nova Flor. Vol. II, pág. 118) lemos: A que nós chamamos no firmamento Estrada de Santiago e os Latinos Via Láctea é a^ioela zona ou faixa. Em Alexandre Herculano, História de Portug. I. 242, encontramos: Todos os barões se mostrava7n uniformes… com o sistema da que pode­mos ‘chamar política externa do país.

1) cornucopia — corno da abundância.

1) São Basílio — cognominado Magno — célebre Padre e doutor da Igreja Grega. (329-379).

1) bloco — neologismo do francês bloe — em português temos canto que o dispensa perfeitamente = grossos cantos de mármore (Eurico, 125).



[1] piá — têrmo tupi = criança, rapaz.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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