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Adágios populares e a A luta da Mussurana com a Jararaca


Adágios populares

Presunção e água benta cada qual toma a que quer.

Nem tudo o que luz é ouro.

As obras mostram quem cada um é.

Nunca se perde o bem fazer.

Quem muito abarca pouco abraça.

Quem abrolhos semeia espinhos colhe.

Antes só do que mal acompanhado.

Bens mal adquiridos não se logram, vão-se como vieram.

Afeição cega a razão.

Mais fere a má palavra que espada afiada.

Água mole em pedra dura tanto dá até que fura.

Mais de-pressa se pega um mentiroso do que um coxo.

A perseverança tôda cousa alcança.

Faze da noite noite, do dia dia, e viverás em alegria.

Quem o alheio veste, na praça o despe.

Quem [I]) o feio ama, formoso lhe parece.

A luta da Mussurana com a Jararaca

A mussurana está estendida no chão à espera da prêsa: o belo corpo plúmbeo, de escamas brilhantes e uniformes, mal se con­torce. Dir-se-ia” uma serpente nobre, orgulhosa da sua dignidade, da sua obra, do seu valor. Uma jararaca lhe aparece ao lado. Os dois corpos se agitam e iniciam o movimento flexuoso, lento, em largas espirais, coleante, delicado, como se houvesse necessidade de evitar qualquer choque violento, qualquer emoção inútil. Nunca houve uma tragédia com desenvolvimento tão elegante e harmônico.

A cobra venenosa pressentiu o inimigo: sentiu roçar-lhe o corpo, sentiu vibrar a pequenina língua bipartida e prepara o as­salto. Também a mussurana percebeu o inimigo, mas os seus olhos, habituados a ver nas trevas, não funcionam à luz solar e o réptil deve orientar-se com a língua que vibra rapidamente, tentan­do as investidas. ( )

A cobra, porém, prepara a defesa; ei-la^qjie escancara com


ferocidade a bôca, atira-se sôbre o corpo do inimigo, crava-lhe os dentes venenosos. .. e espera. A experiência secular fixou-lhe no cérebro a história de tantas vitórias obtidas com o pequeno esfor­ço de uma picada. As suas células cerebrais recordam as lutas contra o jaguar e o tamanduá e as rápidas mortes de animais consideràvelmente volumosos, fulminados com poucas gotas do tóxico.

Mas a mussurana não se dá por achada: em duas voltas em espiral aperta o corpo da cobra, estreita-o em nó de ferro, enquan­to lentamente procura a cabeça da adversária para dar-lhe o gol­pe de misericórdia. Não tem impaciência: é a luta do forte, que poupa energia. Para que agitar-se, quando é fatal que a vitória/ há-de sorrir-lhe. /

A jararaca está apavorada! Então serão falsas as promessas dos pais, que durante as longas horas de sesta lhe haviam narra­do a história das vitórias, que lhe haviam contado o mistério do seu veneno, que lhe haviam dito da fatalidade do veneno sôbre a terra?! Por que não cede o adversário e mais constringentes e incômodas se tornam as fortes espirais?

Já a sólida cabeça da mussurana percorre mais vêzes as linhas do corpo da adversária, titilando com a língua em busca do pesco­ço, e, após várias tentativas inúteis, ei-la com a boca enorme pron­ta para o assalto. A resistência se torna baldada: as espirais do mussurana estreitam, de perto, todo o corpo da cobra, cuja cabeça tenta em vão fugir ao beijo da morte: poucos milímetros ainda e o contato será inevitável.

A mussurana percebe a situação; abre desmessuradamente a boca e, rápida, enérgica, segura, embora na treva, envolve final­mente a cabeça da adversária, desmandibula-a, esmaga-a, tritura-a. E depois lentamente começa a refeição e engole pouco a pouco todo o adversário, até que inerte fica estirada no solo, gozando o gargantuélico repasto.



[I] E’ freqüente em português, sobretudo nos adágios populares, cons- truir-se a frase de maneira que uma ou mais palavras do principio não se liguem às que vêm depois, segundo as regras de sintaxe. A êste fenôme­no chamam os gramáticos — Anacolutia. Ex.: Vós que ateates a guerra, o sangue cairá sôbre vossas cabeças. Quem mal fizer, mal The venha. Quem lhe dói o dente vá ao barbeiro. A construção regular: é: sôbre vós que ateastes a guerra, sôbre vossas cabeças cairá o sangue. A quem mal fizer, mal venha.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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