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Marx e as idéias dominantes em cada época


e as idéias dominantes em cada época

Ricardo Ernesto Rose

Jornalista, Graduado em Filosofia e Pós-Graduando em

Estudando a filosofia de , Marx passou gradativamente a criticá-la, utilizando como instrumento, entre outros, os autores materialistas da Antiguidade – Demócrito e Epicuro – os quais examinou em sua tese de doutorado. Ainda neste período de formação de sua filosofia, Marx foi também influenciado pela chamada “esquerda hegeliana”; grupo de filósofos que se utilizando da dialética hegeliana, combatia a visão idealista de , tendo como pressuposto uma abordagem materialista. A maior parte das críticas de filósofos como Bruno Bauer (1809-1882), David Strauss (1808-1874), Max Stirner (1806-

1856) e Ludwig (1804-1872), principais expoentes da esquerda hegeliana, eram dirigidas à religião.

Estas críticas, no entanto, segundo Marx, ainda não atingiam diretamente o ponto. Os membros da esquerda hegeliana criticavam as idéias religiosas como produto da consciência; atacavam-nas como idéias incorretas sobre a realidade. Marx dizia que esta crítica ainda era metafísica, idealista, pois não ia às causas das idéias religiosas. Não cabia provar que conceitos metafísicos como “alma”, “Deus”, “eternidade” eram ilusões; era necessário identificar as origens de tais conceitos. Em relação a este ponto, escreve Marx na segunda nota das Teses sobre Feuerbach:

“A questão de saber se é preciso conceder ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão de teoria, porém uma questão de prática. É na prática que o homem deve comprovar a verdade, isto é, a realidade efetiva e a força, o caráter terrestre de seu pensamento. A disputa referente à realidade ou à não-realidade efetiva do pensamento – que está isolada da prática – é uma questão puramente escolástica.” (Marx apud Labica,

1990, p.31)

Marx aprofunda então sua crítica, dizendo que os integrantes da esquerda hegeliana são conservadores, já que combatem, segundo Reale e Antiseri, “contra frases e não contra o mundo real de que tais frases são o reflexo”. Ainda é Marx que escreve: “Não veio à mente de nenhum desses filósofos procurar o nexo existente entre a filosofia alemã e a realidade alemã, o nexo entre a sua crítica e o seu próprio ambiente material” (Marx apud Reale e Antiseri, 1991, p. 187)

É a partir da crítica à religião que Marx mais adiante passará à crítica de toda a ideologia e terá condições de explicar a origem da superestrutura – as idéias e instituições que mantêm a sociedade. Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, escreve Marx:


“Este é o alicerce da crítica irreligiosa: o homem faz a religião; a religião não faz o homem. Mas o homem não é um ser abstrato, acovardado fora do mundo. E a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a perder-se. O homem é o mundo do homem, o Estado a coletividade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido.(Marx, 2005, p. 45 – negrito nosso).

Nestes escritos Marx já identifica a religião como sendo algo criado pelo homem; pelos mesmos  que  dominam  o  Estado  e  a  sociedade.  Daí  para  explicar  o  restante  das produções do foi apenas um passo. Marx identificou dois aspectos nas sociedades, que para nós podem ser evidentes depois de tanto terem sido repetidas por vários pensadores, mas que foram revolucionários à sua época:

a)  Que a religião, junto com todo o resto da cultura é uma produção humana, espelho das condições socioeconômicas; e

b)  Que a produção espiritual do homem (a cultura e as instituições) reflete o modo de produção e serve aos interesses dos detentores dos meios de produção.

Em outras palavras, Marx identificou a relação existente entra as idéias e as instituições de uma sociedade e a maneira como funcionava sua . Em relação a esta idéia, escreve Marx em A Miséria da Filosofia:

“As estão intimamente ligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens mudam seu modo de produção e, mudando o modo de produção, a maneira de ganhar a vida, mudam todas as suas . O moinho manual nos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial. Os mesmos homens que estabelecem as relações sociais em conformidade com sua produtividade material produzem também princípios, as idéias, as categorias, em conformidade com suas relações sociais. Assim, essas idéias, essas categorias são tão pouco eternas quanto às relações que exprimem. São produtos históricos e transitórios. (Marx, 2007, p. 100-101 – negrito nosso).

Um  exemplo  clássico  desta  análise  é  o  da  sociedade  feudal;  estática,  dividida basicamente em três classes: a nobreza, os religiosos e os servos. Esta divisão de classes reflete a maneira como a sociedade feudal era economicamente estruturada; o seu modo de produção (pelo menos em grande parte da alta Idade Média). Os senhores feudais; a nobreza, eram, junto com a Igreja, detentores das terras agricultáveis – a agricultura era a principal atividade econômica. Os servos de gleba eram responsáveis pela produção, pela manutenção material da sociedade.

Sob  ponto  de  vista  econômico  eram  os  servos,  que  praticando  a  agricultura  e  o artesanato, proviam a sociedade. A principal atividade dos nobres eram os torneios e as batalhas, além de gerirem a política; aos religiosos cabia cuidar dos aspectos espirituais da sociedade: a religião e a cultura. Nobres e religiosos viviam, pois, a custa dos servos. Para manter e justificar esta social, este “modo de produção feudal”, como dizia Marx, havia necessidade do uso da força e de idéias.


A força era largamente aplicada, principalmente durante as perseguições aos hereges (que questionando a religião, colocavam em dúvida a estrutura social) e na repressão de levantes de agricultores e artesãos, notadamente no final da baixa Idade Média. Além disso, havia a violência diária, praticada pelo nobre e pelo bispo através de seus agentes.

As idéias foram sendo elaboradas aos poucos, sempre adaptadas às necessidades espirituais de cada período (não podemos esquecer de que a Idade Média é um nome para um longo período de mil anos na história da sociedade ocidental). Alguns exemplos refletem bem a relação entre a superestrutura e a infraestrutura; e a justificação desta pela outra:

– Assim como a sociedade era formada por servos e nobres – estes divididos em marqueses; condes; barões; príncipes; e reis, etc. – a hierarquia celestial também era formada por anjos; arcanjos; querubins; etc., até chegar a Deus. Havia também uma hierarquia infernal, formada por figuras como Astarot, Asmodeu, Belzebu, etc., cada um com uma atribuição, até chegar a Lúcifer ou o Demônio;

– O próprio inferno, segundo escreve na Divina Comédia (e nisso se baseava em uma tradição cultural que já estava formada à sua época), era dividido em nove círculos e diversas seções – havia até uma hierarquia entre os pecadores e seus pecados;

– As próprias guildas, as associações de artesãos da baixa Idade Média, tinham uma rígida hierarquia, refletindo graus de experiência e conhecimento; os mestres e os deferentes graus de aprendizes.

Outro aspecto da sociedade feudal é sua visão estática do mundo. Nada mais havia a explicar – e, consequentemente a pesquisar – já que tudo havia sido estabelecido por alguns sábios da Antiguidade, como Ptolomeu (astronomia), Aristóteles (ciências naturais) Hipócrates e Galeno (medicina), entre outros. Os escritos destes sábios, por outro lado, haviam sido aprovados pela Igreja, a representante de Deus na terra, e deste modo eram lei. Dentro desta estrutura social e culturalmente estática – exatamente para justificar e manter as – as inovações eram lentas e controladas.

A análise de Marx permitiu que enxergássemos a sociedade e seu desenvolvimento sob outra ótica, ultrapassando as visões metafísicas e “místicas”. Finalizamos este texto com a oitava nota das  Teses sobre Feuerbach: “Toda vida social é essencialmente prática. Todos  os  mistérios  que  orientam  a  teoria  para  o  misticismo  encontram  sua  solução racional na prática humana e na compreensão desta prática” (Marx apud Labica, 1990, p.34).

Bibliografia:

LABICA, GEORGES. As “Teses sobre Feuerbach de Karl Marx”. Rio de Janeiro. Jorge

Zahar Editor: 1990, 194 p.

MARX, KARL. A miséria da filosofia. São Paulo. Editora Escala: 2007, 156 p.

MARX,  KARL.  Manuscritos  Econômicos-Filosóficos.  São  Paulo.  Editora  Marin  Claret:

2005, 198 p.

REALE, GIOVANNI. ANTISERI DARIO. História da Filosofia Vol. III. São Paulo. Paulus

Editora: 1991, 1113 p.

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