O MONROÍSMO

Oliveira Lima

O MONROÍSMO

O Sr. Dr. Assis Chateaubriand, referindo-se a um artigo meu publicado nesta folha sobre a Doutrina de Monroe como doutrina de solidariedade e cooperação, trata-o de boutade c até lhe descobre uma intenção maligna. Entretanto, o distinto publicista bem sabe que minha pobre ironia é apenas feita de franqueza: não comporta fantasias, nem encerra sutilezas. Como êle próprio diz, minha inteligência é realista.

A Doutrina de Monroe afigura-se-lhe ainda associada ao big stick; mas o fato é que esta interpretação desapareceu com Roosevelt para ser substituída pela da entente, que é a solução pela qual eu sempre pugnei e pela qual pugnou meu chefe Salvador de Mendonça, quando exerceu com tamanho êxito para o Brasil suas funções de Ministro em Washington.

Dessa interpretação fêz esse homem, verdadeiramente ilustre, o seu testamento político quando se despediu oficialmente do Presidente MacKinley e pronunciou um discurso que teve nos Estados Unidos a maior repercussão a que pode aspirar um documento dessa natureza.

Creia o meu amigo Sr. Dr. Assis Chateaubriand que, como brasileiro e como americano do Sul, eu me acho plenamente satisfeito com a maior intimidade de relações entre o Brasil e os Estados Unidos, desde o momento sobretudo em que a Europa enveredou na paz pelo caminho do ódio, da prepotência e da conquista que está cavando sua ruína e que nos faltam ali, no desequilíbrio do momento, a amizade e o apoio com os quais fazer o jogo dos países mais fracos entre os mais fortes.

De resto não é lícito, como muitos fazem, atribuir à política exterior dos Estados Unidos meros desígnios interesseiros e cúpidos de ordem material. A influência da riqueza e a preocupação dos seus proventos são com efeito grandes, mas não se pode dizer de um homem como o Presidente Wilson que se deixe apenas levar pelos impulsos positivos de natureza econômica e financeira. Êle já provou suficientemente que era também um idealista e que a parte dos princípios ocupa um lugar importante nas suas cogitações e deliberações. Não logrou aplicar o seu evangelho de justiça internacional, mas pregou-o e muito pior seria para a justiça se êle não estivesse presente no Congresso de Versalhes. A sua voz foi a única desinteressada contra as cobiças das demais.

Numas correspondências notáveis, telegraficamente mandadas para a Prensa de Buenos Aires há poucas semanas, relata-se com pormenores a ação do Presidente Wilson em oposição a "reivindicações de preeminentes políticos franceses que, a serem aceitas, teriam anulado todos os princípios que os aliados aceitaram ao firmarem o armistício". O correspondente diz que geralmente o público não se dá conta de que a maior parte das dificuldades que surgiram e todas as crises realmente sérias foram devidas, não a diferenças sobre as condições a serem impostas à Alemanha, mas a diferenças arraigadas e por vezes acérrimas entre os aliados sobre o que pretendiam abocanhar. De uma feita, atacado pelos jornais franceses, o Presidente Wilson protestou contra as informações tendenciosas que lhes eram ministradas e ameaçou de dar à publicidade as atas completas das sessões secretas; doutra, chegou a mandar acender os fogos no navio que o devia transportar.

Teria sido fácil ao Presidente Wilson, na opinião do correspondente da Prensa, obter que todas as potencias adotassem os seus princípios depois que o Tratado de Paz houvesse assegurado a cada uma os seus desejos. O difícil era conseguir que semelhantes princípios servissem de base para a paz. A própria Liga das Nações era considerada uma garantia para as espoliações que o tratado conteria, uma vez que fossem dadas largas aos apetites.

O Presidente Wilson infligiria um desmentido formal à sua atitude e aos seus mandamentos se fizesse do monroísmo doutrina de protetorado. A verdade é, e a Argentina e o Chile não duvidam reconhecê-lo, que o seu proceder com a América do Sul tem sido invariavelmente respeitoso e cordato. O Sr. Dr. Assis Chateaubriand é o primeiro a admitir que os Estados Unidos podiam ter tentado a persuasão, mas não ensaiaram a ameaça para fazer aquelas duas nações abandonarem sua neutralidade.

Com a própria Colômbia quis o Presidente Wilson compor a disputa pendente por motivo da separação do Panamá, e o tratado negociado e já aprovado em Bogotá afirma o pezar dos Estados Unidos pelo proceder então seguido. O Senado americano, muito cioso, como sabemos todos, da efetividade do seu papel constitucional nas questões internacionais, é que ainda não quis aprovar essa retratação embora platônica. Roma não poderia ter errado: assim julgariam os senadores romanos.

Com o México e a América Central a atitude do Governo de Washington difere realmente da que há seguido com a América do Sul, especialmente no tocante à América Central, que considera um campo de perigosa agitação, portanto de indispensável control americano e onde, segundo aconteceu recentemente em Costa Rica, que para perturbação do seu sossego, já tradicional, teve a desdita de ser revelada a existência de petróleo no seu subsolo, os interesses capitalistas têm inquestionavelmente operado. Seria contudo fazer injustiça ao Presidente Wilson acusá-lo de procurar intervir no México.

A mola real do pan-americanismo é por certo a política econômica dos Estados Unidos, mesmo pela simples razão de que toda política hoje em dia é econômica; mas a dos Estados Unidos não o é exclusivamente nas mãos de homens tais como vários presidentes americanos, entre eles Wilson. O que há a opor praticamente à fórmula pan-americana? Nem sequer a fórmula hispano-americana, porque seus elementos não conseguiram até agora evidenciar mais do que uma solidariedade sentimental, porém não positiva. É uma bela fórmula essa, que tem jus a uma consagração definitiva: a fórmula pan-americana, se despida de caráter agressivo e também de caráter ganancioso, o que acontecerá sendo comuns suas responsabilidades, possui contudo muito maior amplidão, superiores vibração e eficiência. Na Liga das Nações americanas cabem de resto acordos especiais de garantia da paz dentro da harmonia geral, porque não se trata de uma liga oligárquica e prepotente.

A substituição da influência econômica européia pela dos Estados Unidos é parte obrigada do andamento da política do Novo Mundo e os acontecimentos a vão favorecendo singularmente, tornando Nova York o centro financeiro por excelência, mas essa própria luta, como o faz ressaltar o editorial de La Prensa, de 27 de outubro último, é uma luta que se desenvolve francamente, à sombra da liberdade do comércio, e que redunda em benefício do país onde cia se trava.

Parnamirim, dezembro de 1919

Fonte: Oliveira Lima – Obra Seleta – Conselho Federal de Cultura, 1971.

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