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Velha Bandeira


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Saudação à Bandeira que acompanhou o 179 Batalhão dos Voluntários na retirada da Laguna.

Que vos direi, Senhores, da extraordinária e singular Bandeira, que é neste dia o eentro, para onde convergem, na atração miste­riosa das coisas santas, os nossos corações e os nossos espíritos?

Vêde-a: não é uma bandeira vulgar, não é uma dessas ban­deiras, que palpitam à flor das ondas populares, desfraldando aos beijos do zéfiro as sêdas gárrulas e ridentes.

Não é uma bandeira nova, não é uma bandeira moça, é uma bandeira que envelheceu e murchou na haste, como uma flor hie­rática de estranho culto, flor sacra e simbólica do passado.

E’ uma bandeira que se espiritualizou, como a flor se espiri­tualiza no perfume.

Dir-se-ia que não é mais uma bandeira viva, é uma relíquia de bandeira. A sua alma não está mais nela, está tôda ao redor dela. A sua alma é o seu passado. A sua alma é a sua história. E’ uma história de apenas cinco anos, mas cinco anos que valem séculos. A sua vida foi só de um lustro, mas um lustro de pere­grinações contínua de heroísmos a heroísmos.

Velha Bandeira de Mariana! Ei-la,: ela aqui está, numa co­mo aparição fantástica do passado, empunhada ainda, como há meio século atrás, pelo mesmo alferes, que a reconduziu dos cam­pos da luta, síntese viva de tôda uma legião de bravos, cujos co­rações sentidos fremem, sob os seus cabelos brancos, beijados tri­unfalmente por êsse sol do meio dia.

E’ a invicta Bandeira do 179 Batalhão dos Voluntários de Minas, mais um troféu de glórias para o feliz e nobre povo, que tem na elevação das suas montanhas o fac-símile de sua consciên­cia católica, e na estrutura rica do seu subsolo a imagem do seu caráter, tão bem definido pelo sábio: coração de ouro em tórax de ferro!

E’ uma bandeira que nos fala da fé ardente dos nossos ante­passados. Bandeira que saiu do templo e para o templo voltou: saiu benta pelas mãos venerandas de D. Viçoso, e impregnada das ©rações de um povo inteiro; saiu para a sua cruzada heróica, a indicar, de contínuo, aos nossos soldados com, a lança ereta, as alturas olímpicas do ideal, do dever e da honra.

Foi e voltou: voltou desfigurada, mas coberta de glória; vol­tou para ficar sob as arcadas veneráveis da Catedral de Minas, envolvida, durante mais de 50 anos, nas espirais litúrgicas do in­censo e das preces populares; voltou para receber em suas dobras as lágrimas de D, Viçoso, que ao ver dizimado o batalhão dos seus filhos, não pôde contê-las, e as derramou mais preciosas que o laurel de ouro e as pedras finas, com que fôra então e ainda hoje se vê a bandeira condecorada.

É uma bandeira que nos prega o patriotismo, não esse patrio­tismo elegante e paroleiro que por aí vai, patriotismo de etiqueta, flor que se enfia à lapela em dias de parada; patriotismo que se julga absurdamente compatível com uma vida desregrada, a ma­cular o caráter, desorganizar a família e desonrar a Pátria. Mas, sim, o patriotismo verdadeiro e sincero, que se embebe na cons­ciência cristã; patriotismo que é uma flor do decálogo, nos leva a fugir do mal e a praticar os deveres mais árduos; patriotismo, enfim, que sabe imolar-se e morrer pela pátria.

Tal é o patriotismo, de que nos fala esta Bandeira, cortada e cosida, como foi, entre lágrimas, por mãos generosas de mães e es­posas, de noivas e irmãs, que votando assim os seus queridos aos perigos da guerra, ofereciam em holocausto à Pátria, num esmagamento inefável de corações femininos, a

oblata1) luminosa dos

amores mais profundos e puros.

E foi êste patriotismo são e abnegado, que assim a coroou de tamanha gló­ria. Farfalhou ela pela primeira vez, aos ventos montezinos de Ouro Pre­to, no dia 10 de maio de 1865, e acompanhando até o Paraguai os voluntários do tributo de sangue, foi para êles em tôda a parte, a imagem da Pátria, aos animar em tran­ses dos mais horríveis, que os fastos militares jamais registraram.

E’ a Bandeira da Retirada da Laguna, êsses trinta e cinco dias de marchas formidáveis, que são outros tantos poemas homéricos de resistência, de bravura e de heroísmo. E’ a bandeira que assistiu as cenas dântescas de um exército atravessando, flagelado pela peste, pela fome e pela guerra, em luta titânica com a própria na­tureza, campinas inteiras transformadas pelo inimigo em oceanos tétricos de fogo. E’ a Bandeira que inspirou a musa patriótica do Xenofonte brasileiro, o jovem e louro oficial [1]),que imortalizou a retirada em páginas de fazer estremecer e chorar, através da candura ática do estilo. E’ a Bandeira que presenciou, em momentos sombrios para a expedição, as mortes estóicas dos seus chefes, os tbravos coronéis Camissão e Juvêncio.


1) oblata = ofertar


E7 a Bandeira, enfim, que evoca a nossos olhos, em. quadro de incomparável beleza, dos mais comoventes, por certo, de tôda a história, a morte dêsse outro filho imortal da terra mineira, o legendário guia Lopes.

Eu te saúdo, pois, ó sagrada Bandeira! tu, que foste cerzida piedosamente por dedos trêmulos de mães e de donzelas! tu, aben­çoada pelas mãos aristocráticas e santas do Conde da Conceição! 1) tu, consagrada pelas preces comovidas de um povo inteiro, e pela oração heróica dos bravos, nas horas trágicas da Pátria! Eu te bei­jo, ó velha e querida Bandeira! tu, que desde o Apá até Cuiabá, te embalsamaste nos aromas selvagens da minha terra natal! tu, que te pousaste à sombra dos laranjais dourados, por onde lá correm, cantando, as históricas águas do Miranda! tu, que atravessaste em marchas guerreiras, os lindos campos de Loiad, tão cantados pela alma poética de Taunay, lá onde verdejam os piquizeiros bravios, e a mangaba se escacha ao sol, na uberdade rica das terras!

Eu te venero, ó gloriosa Bandeira! venero em ti o sangue dos heróis e a lágrima dos santos, os soluços das mães e os suspiros das noivas, os beijos das crianças e o estertores dos coléricos! Eu te venero, ó Bandeira, salpicada de lôdo nos pântanos paludosos, esfrangalhada nas refregas da batalha, tisnada ao fumo dos tiro­teios, chamuscada no incêndio das macegas! Bandeira, que infla­maste o coração aos voluntários do sacrifício, e protegeste mater­nalmente as agonias épicas do soldado brasileiro!

Tu não podias permanecer mais, na penumbra escura do vale. Mister fôra mesmo pudesse subir tanto que todo o Brasil te contem­plasse! E eis que a mão bendita dum Arcebispo, restaurador das gloriosas tradições mineiras, na frase de Augusto de Lima, amarra hoje solenemente a tua driça no alto da montanha. Lá, onde uma esbelta e venerável igreja encalhou, qual nova arca, a sua nave sim­bólica, lá será doravante o teu excelso santuário. Lá ficarás tu pa­ra. sempre, como um dos mais augustos emblemas da nacionalidade, e lá subirão em romarias cívicas as novas gerações, para retempera­rem o caráter na irradiação mágica da tua epopéia silenciosa. Mas, se algum dia, o que Deus não permita, o dilúvio das paixões huma­nas galgar os píncaros sagrados, onde ancoraram as arcas santas das tradições nacionais; se a onda invasora ameaçar submergir as instituições e os princípios, que fazem grandes os povos, despren- de-te, ó Bandeira! desprende-te do teu Ararat solitário, enfuna co­mo uma vela o teu farrapo auriverde, e vai! recomeça pelo Brasil em fora, a tua odisséia de fé, de patriotismo e de glória, apontando- nos com o teu mastro imortal, acima de todos os náufragos e de tô- das as borrascas, o céu azul dos teus ideais infinitos.

Salve. Bandeira! D. Aquino Correia.


1) D. Amónio F. Viçoso, bispo de Mariana.


[1] Mais tarde Visconde de Taunay.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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