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Carta de um professor de belas letras, na qual dá conselhos a um seu ex-discípulo


CARTAS

Carta de um professor de belas letras, na qual dá conselhos a um seu ex-discípulo

Meu caro discípulo e prezado amigo do coração.

Quando V. Sª. honrava o meu curso com sua presença, posto que entre seus condiscípulos muito se distinguisse, não pude eu endereçar a V. Sª. instruções e advertências particulares, porque era obrigado a acomodar-me à medíocre inteligência dos menos atilados; agora, porém, que V. Sª.. se acha desembaraçado dos estu­dos clássicos, e se dedica à tradução de obras francesas, cujas pri­mícias já chegaram ao meu conhecimento, fiado na que entre nós existe, tomo a liberdade de dar a V. Sª. alguns conselhos acêrca dêste gênero de literatura, que a muitos parece fácil, mas que é por extremo difícil.

Se V. Sª. conhecesse bem a fundo as duas línguas, francesa e portuguêsa, e os usos e costumes dos dois povos que a falam, ne­nhum conselho teria que dar-lhe a êste respeito; porém, como um tal estudo demanda muitos anos, grande aplicação e longo trato com as pessoas que sabem manejar os dois idiomas, e, como V. Sª. está ainda na flor dos anos, anuindo gostosamente ao desejo que me manifestou mais de uma vez, aqui The digo o que me parece útil para o fim que V. Sª. e propõe.

Lembre-se V. Sª. que há duas espécies de traduções: uma gra­matical, outra lógica; a primeira representa o valor literal das palavras, a segunda deve reproduzir o sentido do autor, segundo o gênio da em que se traduz. Raras vêzes se pode fazer uma tradução gramatical que seja ao mesmo tempo lógica; por isso aconselho a V. Sª.. que tenha sempre em vista a segunda.

Não esqueça V. Sª. que cada língua tem a sua índole, o seu giro particular na construção, e que o que numa é engraçado e elegante, não o é sempre na outra.

Pelo que pertence à nossa, que V. Sª. bem conhece e ama, aconselho-lhe que trate como a uma espôsa delicada, a quem ofende justamente o ver que seu consorte põe noutra mulher sua primeira e especial atenção; e que esteja sempre precavido contra os atrati­vos das beldades estrangeiras, do mesmo modo que se arma o ho­mem virtuoso contra as tentações, fugindo quanto pode favorecê- las, e tomando um rumo inteiramente oposto ao que sua inclinação lhe dita. Pelo que, sempre que V. Sª. tenha diante de si um livro,

que haja de traduzir mental ou formalmente em português, devt contrair o hábito, não só de evitar os idiotismos mais óbvios e gros­seiros, senão até aquelas frases que lhes é permitido verter palavra por palavra, preferindo variar a locução por meio de outra que mais se coadune com o estilo nacional, e que facilmente lhe minis­trarão os ricos tesouros do pátrio idioma, que V. Sa. terá sempre cuidado de folhear com mão diurna e noturna [1]).

V. S*. fará bem, quando estiver traduzindo alguma obra fran­cesa, de trazer ao mesmo tempo entre mãos um clássico português que escrevesse sobre assunto do mesmo gênero que o do autor fran­cês. Assim que de grande auxílio lhe serão Gil Vicente [2]) e Diniz [3]), se quiser traduzir Molière [4]); o mesmo direi de Ferreira5, de Camões [5]), Vieira [6]) etc., se se propusesse traduzir Racine 8), a Henriqueida [7]), Bourdaloue 10) e Massillon 11). Deve V. S:\ entre­mear a leitura do autor português com a tradução, tomar nota de certas expressões, certos têrmos e locuções que lhe caíram da pena. V. Sa. nisso pense. Também lhe aconselho que, se houver de tra­duzir alguma obra didática ou científica, tenha cuidado de infor- mar-se se existe em português alguma sobre a mesma matéria; e, se ela existir, ainda que antiga seja, leia-a e consulte-a, para se fa­miliarizar com os têrmos técnicos e saber empregá-los como con­venha. Quando haja de dar algum nome novo a objeto novo, con­sulte os homens de profissão, mormente os que souberem bem a língua, e assim acertará melhor nesta espécie de batismo nacional por que devem passar os inventos estrangeiros: assim fêz Brote- ro [8]) na obra da história natural de Cuvier 13). Quanto aos pa­péis periódicos, não é mister tanto escrúpulo, nem há tempo para tantá precaução; mas, por isso que nestas traduções há mais liber­dade, use V. Sa dela de maneira que se descubra sempre em seu estilo que a linguagem francesa é aprendida, e a portuguêsa bebi­da com o leite.

Desejaria muito que V. Sa. não se metesse a tradutor de perió­dicos e gazetas, sem ter primeiro traduzido bons trechos dos auto­res clássicos, mormente os familiaristas. Não preciso lembrar a V. Sa. que no uso das comparações é que um bom tradutor pode fa­zer brilhar seus conhecimentos na língua do original e na própria,

porque V. S*. aprendeu pela única gramática que isto ensina., e não se descuide de consultar a cada instante a sintaxe comparada e o vocabulário dos idiotismos, em que esta doutrina se acha lar­gamente expendida.

Meu caro discípulo e prezado amigo, lembre-se que a decadên­cia em que se acha a nossa língua, ê devida em grande parte aos jnaus tradutores; aos bons cumpre, pois, desafrontá-la, livrando-a do servilismo estrangeiro, e restituindo-a à sua antiga formosura e nobre independência.

Enfaixado em sua infância o idioma lusitano nas mantilhas da língua latina, robustecido em sua mocidade pela varonil desen­voltura da língua castelhana, e nobremente adornado, na idade ma­dura, com as galas da língua italiana, desdenhava êle com razão as fantasias e arrebiques da língua francesa, que apenas conhecia por parenta muito afastada; decaído, porém, de sua antiga majes­tade, esquecido de sua ilustre prosápia, e guiado por imperitos ca­pitães, acha-se o nosso famoso idioma vencido de quem dantes des­prezava, e reduzido ao triste estado dum guerreiro que, para agra­dar a uma dama leviana e desdenhosa, despiu os trajos marciais, para enfeitar-se com os atavios ridículos do arlequim ou farçante burlesco ?

Desculpe V. S*. êste desafogo dum sincero amigo da língua de Camões e Vieira, e não lhe doam as mãos, quando se trata de castigar os temerários que descantam tão venerável divindade.

Sou de V. S

5) Ferreira — 6) Camões — poetas portugueses do século 16.

culo 17 e 18.

12) Brotero — naturalista português.

1) Abrupto — que tem grande declive; íngreme; cortado a pique.



[1] Com nnão diurna e noturna — locução adverbial — constantemente.

[2] Gil Vicente — 3) Diniz — poetas portugueses, aquêle do século 15

e êste do século 18.

[4] Molière — o maior poeta cômico francês (1622-1673).

7) Vieira — o maior orador sacro de Portugal (1608-1697).

8) Racine — poeta trágico francês (1639-1699).

10) Bourdaloue — 11) Massillon — oradores sacros franceses do sé­

13) Cuvieo’ — naturalista francês (1779-1832).

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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